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O USO DE FILMES NO ENSINO DE HISTÓRIA∗

SANTOS, Maria Lucia Lopes∗

RESUMO

O artigo problematiza o uso do filme em sala de aula como uma fonte/documento


para a produção do conhecimento histórico. Analisa como o material vem sendo
empregado nas aulas de História pelos professores das escolas públicas estaduais
do município de Capitão Leônidas Marques, seus objetivos, dificuldades e
possibilidades de uso desse recurso. Assim como analisa a relação dos alunos
desse município com as imagens filmíticas. Apresentou-se neste texto, o filme como
uma possibilidade de fonte de estudo e pesquisa na intervenção pedagógica com os
alunos 1º Ano do Ensino Médio na analise dos filmes “Oliver Twister” e “Daens – um
grito de justiça”, já que os filmes são dotados de linguagem própria e precisamos
compreendê-las.

Palavras-Chave: Filmes. Ensino de História. Educação.

ABSTRACT

The main purpuse of this article is to analyze the use of movies in class as an
efficient teaching method. To demonstrate how teachers, from public schools in
Capitão Leônidas Marques city take advantage when using this tool as
source/document to teach historical facts. We present the results, obstacles and for
this matter the interaction between the junior high students and historical movies they
had been watching as an educational method. The teachers shoed in class movies
such as “Oliver Twister” and “Daens – a shout for justice” to start a research among
the kids.

Keywords: Movies. History Teaching. Education.

INTRODUÇÃO

Este artigo é resultado de um projeto de trabalho sistematizado e


desenvolvido ao longo do processo de formação continuada do PDE – Programa de
Desenvolvimento Educacional do Governo do Estado do Paraná aos professores da


Artigo produzido como requisito parcial para conclusão do Programa de Desenvolvimento Educacional
– PDE, Secretaria de Estado da Educação, Governo do Estado do Paraná, sob a orientação do Prof.
Vagner José Moreira, docente e orientador do PDE e do Curso de Graduação em História da
Universidade Estadual do Oeste do Paraná – UNIOESTE.
∗
Professora da Rede Estadual de Educação Básica do Estado do Paraná, licenciado em História,
especializada em Didática e Metodologia de Ensino, docente do Colégio Antonio de Castro Alves.
2

rede, entre os anos de 2008-2009. Definiu-se como problema da pesquisa: o uso de


filmes1 nas aulas de História.
Esse tema gerou reflexões, estudos e pesquisas. O interesse por essa
pesquisa surgiu nos encontros de professores da área, nos grupos de estudo,
desenvolvidos no município de Capitão Leônidas Marques, Estado do Paraná. Neles
continuamente se levantava as dificuldades no ensino de História, frente aos alunos
que acham a disciplina enfadonha. Vislumbrar metodologias que dessem novos
significados e motivassem os alunos a se apropriar do conhecimento histórico
passou a ser o assunto de todos os encontros. Relatos seguidos de sugestões de
filmes era assunto corriqueiro, no sentido de buscar alternativas para o problema do
“desinteresse”, motivando o aluno para o conteúdo abordado na aula de História.
Neste sentido, o filme passou a ser usado na sala de aula com frequência como uma
possibilidade de recurso2 didático, com o objetivo de construir propostas de ensino
identificadas com as expectativas e a cultura do aluno. Porém, sem compreender o
significado e a natureza da nova linguagem que estava sendo incorporada a prática
pedagógica. Mas, como sabemos, não adianta diversificar as metodologias
aplicadas ao ensino de História se o professor não tiver o entendimento e
compreensão dos fundamentos teórico-metodológicos que orientam o seu trabalho.
As críticas que ecoam pelos corredores escolares com relação ao uso desses
recursos, como “passatempo”, “enrolação”, “momento de lazer”, entre outros, foi
outro motivo para a presente pesquisa. Contanto, fundamentar teoricamente essa
prática como recurso didático e as possibilidades de análises filmíticas usadas e
sugeridas no ambiente a sala de aula, assim como entender a condução dessas
práticas e a formação dos professores, com base na presença da cultura industrial e
tecnológica na escola, foi fundamental para a elaboração desse artigo.
A investigação teve como base a observação da ação promovida pelos
professores e a organização didática em relação aos alunos que vivenciam tais
experiências na escola. Dentro desta perspectiva, a investigação se limitou às cinco
escolas públicas estaduais do município de Capitão Leônidas Marques. Esse
processo ocorreu em três momentos: aplicação de questionário a alunos e
professores; entrevista com professores; e a prática educativa em que se foi
problematizado as propriedades específicas da linguagem cinematográfica, que se
revelam e se escondem nas narrativas de cada filme, direcionados aos alunos do 1º

1
Aqui trataremos como filme, as produções cinematográficas.
2
Segundo Schimidt (2005 p. 59), “Recursos são os materiais de que se dispõe para a ação didática”.
3

ano do Ensino Médio do Colégio Estadual Antonio de Castro Alves. Para


desenvolver a atividade pedagógica selecionou-se dois filmes: “Oliver Twist”3 e
“Daens – um grito de justiça”4, que abordam a temática/problemática Trabalho
Infantil. A escolha desse tema justifica-se por fazer parte do rol de conteúdos desta
série e também a relevância dessa realidade tão latente no Brasil. Tema esse
também já desenvolvido no material didático, Objeto de Aprendizagem Colaborativa
(OAC).5

Cinema e o ensino de História

As transformações da sociedade contemporânea, bem como as novas


perspectivas historiográficas, como as relações entre história e memória, têm
estimulado o debate sobre a necessidade de novos métodos de ensino de História.
Um dos problemas a serem superados, discutidos na revisão desse ensino é a
possibilidade de incluir nas aulas de História, o próprio aluno. Esse desafio é
interessante na construção de uma prática de ensino reflexivo e dinâmico, podendo-
se afirmar que ensinar História é levar o aluno compreender e explicar,
historicamente, a realidade em que vive. É importante destacar que, do ponto de
vista didático-pedagógico, só é relevante a aprendizagem que seja significativa para
o próprio aluno, que se identifique como sujeito da história e da produção do
conhecimento histórico. Conforme Schmidt (2005, p. 57) “Ensinar História passa a
ser, então, dar condições para que o aluno possa participar do processo de fazer, do
construir a História”. Portando, o espaço escolar não é onde apenas se transmitem
informações, mas o espaço onde se estabelecem relações entre interlocutores que
constroem significados e sentidos.
Diante dessas considerações, configuram-se as necessidades da utilização
de diversas metodologias, fontes e linguagens para a construção de um ensino de
História que ganhe vida em nossas escolas e em nossos alunos, dando-lhes a
oportunidade de construir conhecimento histórico e apropriar-se de problemáticas de
forma significativa. O filme constitui uma linguagem, entre outras que podem ser
aplicadas no estudo da História. Esta proposta de trabalho vem ao encontro também
com o proposto no texto das Diretrizes Curriculares de História para a Educação
3
Oliver Twist. Roman Polanski (dir), EUA: Sony Pictures, 2005.1 filme (130 min).
4
Daens, um grito de justice. Stijn Coninx (dir), Favourite Films, Films Dérives, 1992, 1 filme (138 min).
5
As produções didáticas pedagógicas (Objeto de Aprendizagem Colaborativa e Folhas) dos
professores do Estado do Paraná podem ser acessadas no Portal Dia a Dia Educação -
<www.diaadiaeducacao.pr.gov.br/diaadia/educadores>.
4

Básica, do Estado do Paraná, nas quais se afirma: “as imagens, livros, jornais,
histórias em quadrinhos, fotografias, pinturas, gravuras, museus, filmes, músicas são
documentos que podem ser transformados em materiais didáticos de grande valia
na constituição do conhecimento histórico” (PARANÁ, 2006, p.52).
É inegável a necessidade de integrar diferentes linguagens nas aulas de
História em todos os níveis de ensino. Neste contexto, os filmes são recursos que
mais facilmente são incorporados à rotina escolar e por esse motivo passou a ser
um grande aliado do docente, uma vez que se pode extrair deles informações e
reflexões.
Ver filmes compreende olhares diferenciados num processo integrado que
parte da perspectiva de que é tão importante sua apreciação quanto sua leitura. Tal
apreciação e leitura, entretanto requer um mínimo de informações acerca de
aspectos variados sobre os elementos constitutivos da linguagem cinematográfica:
enquadramento (planos, angulação, movimento de câmara), a fotografia (iluminação,
textura, cor, profundidade de campo), o som (a música, os ruídos e os diálogos), os
efeitos visuais (produção de imagens não reais), arte (figurino, cenografias,
maquiagem) e a montagem (organização e colagem de fragmentos filmíticos).
Realizar uma leitura filmítica denota desconstruí-lo para reorganizá-lo
posteriormente dando-lhe significados antes não percebidos. Portanto, educar para
essa leitura significa sensibilizar-se e saber sensibilizar, formar o sujeito por meio da
experimentação e envolvê-lo em todo processo de ensino-aprendizagem.
Marc Ferro, talvez a maior referência dentro da história quando se trata do
uso do cinema como fonte, em sua obra Cinema e História, não analisa o cinema
por uma perspectiva artística, mas como um objeto de estudo. Ele vê o cinema como
uma construção, como uma montagem. Ele entende que oculto na construção de um
filme existe “uma zona de realidade não-visível, que por trás do conteúdo aparente
existe um conteúdo latente, o qual pode revelar algo sobre uma dada realidade”
(FERRO, 1992, p. 88). Portanto, reconhece a película como um material histórico e
está ciente das intervenções, dos recortes e aponta para o que está explícito e
implícito, revelando aspectos da realidade que ultrapassam os objetivos do
realizador. Privilegiando, desta forma, o momento da produção dos filmes, torna-se
significativo reafirmar a análise dos mesmos não se restringe ao seu conteúdo,
àquilo que retratam nas telas, mas também que transmitem valores e expectativas
daqueles que os produzem (diretor, roteirista, produtor, atores, entre outros), além da
5

própria sociedade que os recebem (espectadores, críticos, acadêmicos, entre


outros).
Afirma Ferro (1992, p. 28) que “um filme, seja ele qual for, sempre vai além de
seu conteúdo”. Ferro considera que não há linguagem cinematográfica que seja
inocente. Há sempre uma intencionalidade – mesmo que inconsciente – que informa
as aspirações e as condições de produção da obra cinematográfica. Isso demonstra
que, para analisarmos um filme pelo viés historiográfico, as relações exteriores e
interiores a ele são imprescindíveis, pois há intenções inerentes à obra
cinematográfica que deve sempre ser levada em consideração. Conclui-se, assim,
que os filmes “falam” muito mais do presente em que foi produzido do que sobre o
passado narrado.
Desde que a produção cinematográfica passou a ser encarada como um
material histórico para a compreensão da realidade, como projetos políticos em
disputas na sociedade, dos costumes e de projetos políticos em disputa de cada
grupo, que a produziram, pode-se ver um filme tanto como documento historiográfico
quanto narrativas sobre a história. Neste sentido, na relação cinema e História há,
pelo menos, dois eixos fundamentais de questionamento: a leitura histórica do filme
(analisar a luz do período em que foi produzido) e a leitura cinematográfica da
história (a leitura lida pelo cinema). Sendo que esta última coloca o
professor/historiador uma questão: a sua própria leitura do passado. Dentro desta
perspectiva é que se deve encarar o filme como um documento valioso para o
professor/historiador identificar essa “realidade não visível” presente na maioria dos
filmes.
A indústria cultural produz cinema (e também televisão) com fim
mercadológico, mas interferindo nas relações sociais, transformando relações,
criando símbolos; influencia e sofre influência, fazendo uso de linguagens próprias.
É necessário considerar com Williams (1979, p. 15-59), “o que temos é, antes, uma
compreensão dessa realidade através da linguagem que, como consciência prática,
está saturada por toda atividade social e a satura, inclusive a atividade produtiva”.
Neste sentido a linguagem é a articulação dessa experiência ativa e em
transformação, uma presença social e dinâmica de mundo.
Ao considerar a linguagem um elemento do social, Willians (1979, p. 21-25)
também considera que a “cultura produz a realidade”. Ela na condição de força
produtiva constitui o mundo real quando, interagindo com ele se vale de meios
materiais tais como: a língua, as tecnologias específicas de escrita, formas de
6

escrever, sistemas de comunicação, entre outros. O produto cultural é, em


determinados momentos, um desdobramento das relações sociais que alteram a
consciência prática que a produz. Assim “(...) decorre a necessidade de saber lidar
com as ambiguidades das fontes, focalizando mais os processos históricos
constitutivos da linguagem por meio da qual determinada fonte se expressa (...)”
(CRUZ, PEIXOTO, KHOURY, 2006, p. 20).
Neste prisma, o uso do filme em aulas de História torna-se material histórico
fundamental para a problematização, contextualização e construção histórica de
temas propostos pelo professor, como também uma possibilidade prazerosa de
análise posterior dos alunos. Como conclui Napolitano (2008, p. 11-12): “trabalhar
com o cinema em sala de aula é ajudar a escola a reencontrar a cultura ao mesmo
tempo cotidiana e elevada, pois o cinema é o campo no qual a estética, o lazer, a
ideologia e os valores sociais mais amplos são sintetizados numa mesma obra de
arte”. Neste sentido, todos os filmes têm uma possibilidade de trabalho escolar.
Trabalhar com o cinema na sala de aula exige muito mais que escolher um
bom filme relacionado a um determinado tema. Exige uma nova postura do
professor em sala de aula com mudanças no seu comportamento didático, adotando
uma visão crítica, problematizando o filme, como se problematiza qualquer
documento, já que estes não são criações com finalidade didática. O professor deve
assumir o papel de orientador na condução dos alunos para a investigação e
análise. O uso do filme para provocar situações de ensino sobre a vida cotidiana e
da cultura comum:

O cinema não é uma matéria para a fruição e a inteligência das emoções; ele
é também matéria para a inteligência do conhecimento e para a educação,
não como recurso para a explicação, demonstração e afirmação de idéias, ou
negação destas, mas como produto da cultura que pode ser visto,
interpretado em seus múltiplos significados, criticado diferente de muitos
outros objetos culturais, igual a qualquer produto no mercado da cultura
massiva (ALMEIDA, 2004, p. 32).

O filme possui uma estrutura em sua produção que deve ser levada em
consideração enquanto material para a produção do conhecimento histórico. Os
meios de comunicação de massa não podem ser ignorados pela escola, pois
exercem influência significativa na vida das pessoas. Assim, a escola deve buscar
respostas para as novas necessidades que surgem e desvelar as linguagens no
cotidiano escolar, uma vez que as imagens em movimento chamam a atenção dos
7

alunos e podem contribuir significativamente para o processo de ensino-


aprendizagem.

A relação dos alunos com os filmes

No mundo contemporâneo estamos imersos em imagens (paradas ou em


movimento) que nos trazem não apenas informações visuais, mas significam a
realidade. Neste universo em que o imagético é hegemônico, é necessário que as
imagens venham fazer parte do contexto escolar, assim como é do cotidiano do
aluno, com o fito de problematizá-las e decodificá-las.
No cotidiano escolar, para qualificar a presente pesquisa, aplicou-se um
questionário com questões objetivas que teve como foco a relação dos alunos com
os filmes6 e vídeos7. O questionário foi aplicado aos alunos das cinco escolas
públicas estaduais do município de Capitão Leônidas Marques. Como o objetivo da
pesquisa era atingir todas as cinco escolas públicas estaduais do município e alunos
de diferentes idades e níveis de ensino, tínhamos deste modo um número
considerável de alunos para pesquisar. Optou-se então por fazer a pesquisa por
amostragem, escolhendo, aleatoriamente, três alunos por turma e séries, oriundos
do Ensino Fundamental e Médio. Totalizaram setenta turmas e duzentos e dez
alunos.
Pelo fato dos filmes serem lúdicos e interressantes, num primeiro momento
teve-se a intenção de levantar o quanto esses alunos se interessavam pelas
imagens em movimento fora do espaço escolar.

6
No cotidiano de nossos alunos e professores a noção “filme” está relacionado ao cinema.
7
Trataremos aqui como “vídeos” os filmes que podem ser utilizados na sala de aula como material
histórico para a produção do conhecimento.
8

Você assiste a filmes e vídeos constantemente em casa?

Às vezes
36%

Sim
Não 60%
4%

Sim Não Às vezes

Gráfico 01: Assiste a filmes e vídeos em casa.

Por este questionamento ficou evidente que as imagens fazem parte do


cotidiano de nossos alunos, pois uma maioria significativa aprecia no todo ou em
parte, assistir a filmes em casa. Esse resultado nos faz levantar algumas situações
que podem contribuir para tal resultado. A cidade de Capitão Leônidas Marques não
oferece atrativos culturais aos jovens e possui poucos espaços de lazer. Também
fazemos parte de uma sociedade eminentemente visual e sendo esta uma cidade
interiorana, o acesso às produções cinematográficas e a outros tipos de produções
filmíticas são obtidas pelos canais de comunicação abertos, compra e locação de
DVDs. O cinema e as produções televisivas são atrativos que, muitas vezes, falam
de nossas vidas, amores e desamores, amizades e inimizades, aventuras e
desventuras, triunfos e fracassos, dores, alegrias e realizações. Por eles muitas
vezes nos assistimos, nos percebemos, nos idealizamos e assim acabam atraindo
legiões de espectadores e são estas, muitas vezes, as únicas opções de cultura e
lazer para nossos alunos.
Com a finalidade de observarmos o interesse e a relação dos alunos com os
recursos filmíticos, usados pelos professores nas aulas de história, realizamos três
aferições:
9

Nas aulas quando o professor utiliza filmes e vídeos

6%

7%

87%

Você gosta desse recurso Acho cansativo durante as aulas


Não gosto de assistr a filmes e vídeos

Gráfico 02: Quando o professor utiliza filmes e vídeos nas aulas.

Como você percebe a utilização dos filmes e vídeos em


sala de aula

10%

7%

83%

Um momento de lazer Como uma aula devo levar a sério Como passatempo

Gráfico 03: Como percebe a utilização dos filmes e vídeos em sala de aula.
10

Você conclui que os filmes e vídeo usados em sala de aula

64%
6%

27%

3%

Ajudam na aprendizagem dos conteúdos, pois tudo que vejo e ouço aprendo melhor
Não contribuem para aprendizagem dos conteúdos
Depende do gênero do filme ou vídeo apresentado
Não gosto de filmes e vídeos durante as aulas

Gráfico 04: Os filmes e vídeos usados em sala de aula.

Verificou-se que o filme representa um bom material pedagógico, haja vista a


considerável percentagem de alunos que manifestaram interesse por esse recurso
nas aulas de História. Ao analisar os resultados dos dois primeiros questionamentos
em relação ao terceiro, percebe-se que o interesse pelo recurso não se dá com a
mesma intensidade dos que vêem o filme como um instrumento de aprendizagem.
Queda considerável em torno de 20%, isso nos mostra que há falhas. E de certa
forma é preocupante e vale algumas reflexões: Como esses recursos estão sendo
utilizados pelo professor? O que o professor tem considerado sobre o filme que
apresenta aos alunos? Que contextualização e problematização se estão fazendo
em relação ao documento usado na aula?
Como se constatou, o aluno tem o interesse pelo recurso filmítico. Cabe então
ao professor não exibir o filme ou o vídeo na sala de aula como uma atividade
isolada. Como propõe Ferro (1989, p. 92) “Estes devem ser tratados não como
lúdicos”, mas como fonte do processo de ensino/aprendizagem em que o professor
deve partir das imagens e não buscar somente ilustração, confirmação ou o
11

desmentido de outro saber que é o da tradição escrita. Fomentar o interesse e uma


postura crítica nos alunos constitui premissas para o professor de História. Tanto faz
o gênero, da comédia ao drama, sempre haverá uma análise a ser feita. Um objetivo
a ser alcançado pelo professor deve ter “(...) sempre em mente um conjunto de
objetivos de análise histórica e filmítica” (NAPOLITANO, 2008, p. 79). Por esses
fundamentos notadamente a sala de aula constitui-se um espaço educativo e deve
ser concebido como espaço em construção de saberes vivos e dinâmicos que façam
sentido para quem ensina e para quem aprende.

Os filmes e a prática escolar

Com a intenção de visualizar como essa prática acontece na sala de aula,


pesquisamos professores de História do município de Capitão Leônidas Marques. A
pesquisa aconteceu em dois momentos: primeiro foi inquirido um questionário aos
15 professores da disciplina de História na ativa deste município. Posteriormente,
realizou-se uma entrevista, então restrita a cinco professores da área. Selecionou-se
um professor por escola. O critério da seleção para a entrevista foi aquele que mais
usasse o recurso do filme nas suas aulas.
Na transposição das informações coletadas optamos por mesclar as duas
fontes de pesquisa num mesmo espaço de reflexões. Ao transcrever as narrativas
das entrevistas conservou a oralidade da linguagem e optou-se por não expor nome
de professor e escola. Vamos então nos reportar ao professor da escola: A, B, C, D
ou E, como se definiu os entrevistados.
Ao inferir a pesquisa para levantar dados quantitativos na relação do
professor no uso do recurso filmítico na sala de aula, obtive-se a seguinte
informação:
12

Você utiliza filmes e vídeos nas suas aulas?

73%

27%

Constantemente Esporadicamente

Gráfico 05: Utiliza filmes e vídeos nas suas aulas?

É notório que os professores desse município têm habitualmente usado o


filme como ferramenta de trabalho. Pelos resultados constatou-se que todos fazem
usos desses recursos, com intensidades diferentes. A maioria considerável faz uso
constantemente e a minoria esporadicamente. Isso se deve ao fato de todas as
escolas públicas desse município terem sido equipadas com TVs, aparelhos de
videocassetes e DVDs e ainda com laboratório de informática conectados a internet.
O acesso de uso livre a todas as ferramentas presentes na escola, não tem só
motivado o professor a mesclar suas aulas expositivas com as imagens, como ele é
“cobrado” pelos alunos para usar as mídias. Essa cobrança é vista como natural já
que estamos diante de mudanças sociais contemporâneas, entre elas o aumento do
consumo de imagens em todas as esferas da vida social, principalmente na infância
e adolescência.
Por outro lado, percebeu-se que o professor sempre esteve preocupado com
o ensino/aprendizagem, e assim busca novos meios que possibilitem a elevação do
rendimento escolar. Não queremos aqui dizer que usar o filme ou outras linguagens
e ferramentas serviriam para sanar as deficiências do ensino de História. Pois não
adianta o uso do recurso se no método empregado não propor leitura reflexiva
desses meios em um determinado contexto, extrapolando o papel passivo da
recepção da imagem. Mas também é inegável a necessidade de integrar diferentes
13

linguagens nas aulas, isso tem contribuído para melhorar não somente o ensino de
História como das demais disciplinas.

Professores e os objetivos no uso do filme

A análise cuidadosa das entrevistas realizadas com os professores de História


das cinco escolas públicas estaduais do município de Capitão Leônidas Marques
evidenciou que os objetivos mais recorrentes para o uso dos filmes e vídeos em sala
de aula são basicamente dois: complementação das aulas (reforço, fixação) e
ilustração de temas históricos.
O primeiro objetivo direcionou-se para a discussão e complementação do que
foi desenvolvido em sala de aula; o filme a ser usado aparece como apoio, um
reforço da aula expositiva, conforme se pode analisar no quadro a seguir sobre as
narrativas dos professores das Escolas pesquisadas.

Narrativas dos Professores das Escolas Pesquisadas


Escola A O objetivo é sempre para ampliar o conhecimento do conteúdo pelos alunos.
Sempre que eu trabalho procuro mostrar, tentar ver e identificar nos filmes: os
personagens, roupas a cultura, a forma de vida que eles levavam relacionando com
o conteúdo. Isso relacionando com o livro e outros documentos históricos.

Escola C Com o objetivo de esclarecer melhor o conteúdo. [Como assim, esclarecer?] Como
eles estão representando um tema da história, ajudam os alunos ver como era
naquela época. Bom... assim, por exemplo, o filme “O gladiador” representa a
Roma Antiga..

Escola D Meu objetivo é mais para enriquecer a aula. Porque eu dou o conteúdo todo e uso
também como reforço. Até às vezes eu uso o vídeo como uma recuperação com
outros trabalhos feitos em casa.

A pretensão neste caso é que o filme venha fixar aquilo que o professor
explicou na sala de aula conforme constatamos nas três narrativas. Os professores
reconhecem no filme um aliado na compreensão do processo histórico. Aquilo que o
aluno não aprendeu durante a exposição do conteúdo na aula, irá compreender e
aprender durante a exibição do filme. Parece-nos neste caso, que na compreensão
destes professores, os filmes são compostos de verdades incontestáveis da história
real, sem ficção. Isso é preocupante, pois o papel do professor é de justamente
alertar os alunos que o filme não é um túnel do tempo, onde se mergulha e conhece
a história. Mas que o filme é um produto de valores, de tensões do momento em que
foi produzido e que constrói a realidade. O papel do professor é de justamente
14

alertar e problematizar os aspectos ambíguos e contraditórios da representação


cinematográfica. Nas palavras de Saliba (1993, p. 94),

[...] todo o esforço do professor de humanidades, ao utilizar-se do


filme no processo de ensino, deve ser, portanto no sentido de mostrar
ao máximo que, à maneira do conhecimento histórico, o filme também
é produzido, também ele erradia um processo de pluralização de
sentidos, ou de verdades e, da mesma forma como na História, é uma
construção imaginativa que necessita ser pensada e trabalhada
interminavelmente.

Na verdade, o professor deve refletir sobre como a imagem foi formada e qual
a relação que há com a sua significação.
A segunda tendência na análise dos objetivos é a ilustrativa, que se revela em
duas das narrativas.

Narrativas dos Professores das Escolas Pesquisadas


Escola B O objetivo é para melhorar as minhas aulas, dando um colorido especial... pois não
podemos desvincular as nossas práticas das imagens, que para a disciplina de
história é muito interessante. [Em que sentido é interessante?] Os alunos gostam
de ao mesmo tempo de ouvir ver imagens que representam a época histórica que o
fato aconteceu.
É... o objetivo é de mudar a forma de dar aula para não ficar aquela coisa padrão,
Escola E
para que o aluno tenha mais interesse pelo conteúdo, fazer uma forma diferente de
apresentação de aula, para não ficar só aquela coisa oral, só usando o quadro.
Usar recursos, que possa levar o aluno a ter uma aula mais dinâmica. Com
imagens, sons e ação. Os vídeos ajudam as aulas a não ficar só na oralidade.

Nessas narrativas ficou evidente que os filmes são usados como elementos
motivadores de “oxigenação” da aula de história, já que é uma linguagem que os
alunos apreciam e sentem-se confortáveis ao ver a história. Sem preocupação
sistemática, formativa e reflexiva, o universo imagético do aluno é apenas do
entretenimento.
Ambos os casos implicam na falta de formação do professor, falta de um
preparo no sentido de trabalhar com a linguagem filmítica e sobre as suas
possibilidades metodológicas no processo de construção de um saber escolar. Essa
constatação se formaliza quando questionamos:
15

Você já leu algum artigo, livro ou realizou algum curso sobre a


utilização desses recursos (filmes e vídeos) em sala de aula?

40%
60%

Sim Não

Gráfico 06: Já leu algum artigo, livro ou realizou curso sobre a utilização desses recursos em sala de
aula?

Verificou-se que apesar da totalidade dos professores informaram trabalhar


com filmes, a maioria não tem o conhecimento da fundamentação metodológica
sobre o uso desse recurso nas aulas de História. Essa fundamentação é o suporte
para o desenvolvimento do trabalho com mídias na sala de aula, desde que essa
fundamentação venha modificar os seus procedimentos didáticos frente ao uso
desses recursos.
É sabido que os professores, pelas pressões do mundo contemporâneo, têm
excessivas horas e sobrecarga de trabalho, lhe restando pouco tempo para
formação profissional. Cabe então, no momento em que as escolas estaduais, neste
caso do Estado do Paraná, se encontram aparelhadas, a formação dos professores
não somente no sentido de manusear os aparelhos como tem acontecido, mas
cursos que dêem o suporte metodológico na utilização das novas linguagens no
cotidiano escolar. Vale ressaltar também que os futuros profissionais da educação
devem receber a formação teórico-prática nas academias, já que na maioria das
instituições deixam a desejar nesta prerrogativa.

Critérios estabelecidos pelos professores para o uso de filmes e vídeos


Ao aplicar o filme em suas aulas o professor deve estar atento a várias
orientações básicas que servem de suporte para o bom aproveitamento da turma
16

para alcançar os resultados esperados. Muitos autores destacam a importância do


planejamento das aulas na utilização desses recursos. Ao analisarmos os critérios,
analisaremos alguns pontos comuns entre as narrativas e as orientações dos
autores por ora estudados.

a - Tempo de duração da película:


Narrativas dos Professores das Escolas Pesquisadas
Escola C As dificuldades são poucas aulas, e os filmes são longos levam de 3 a 4 aulas.
Essa parada para continuar outro dia é ruim, pois sempre tem que ficar
relembrando eles sobre o filme. O ideal seria iniciar e acabar no mesmo dia. Às
vezes a gente pede aulas de outros professores mas nem sempre dá certo.

Escola D (...) inclusive observo o tempo da duração, porque 120 min. 150 min, são longos.
Os filmes estão vindos todos assim, e a gente acaba perdendo tempo porque tem
poucas aulas e acaba ficando é... mais no filme.

Pela grade curricular, a disciplina de História contempla duas ou três aulas


semanais. Perante tal situação projetar um filme “longa metragem” em apenas um
dia, mesmo com aulas geminadas (juntas) é impossível. E como expõe a professora
da escola A, “acaba-se ficando mais no filme”, pela falta de tempo para desenvolver
mais atividades de reflexão articuladas com o conteúdo. Uma das situações que
conduz o professor “correr” com as atividades de sistematização pedagógica está
relacionada à cobrança do setor pedagógico da escola no cumprimento do currículo.
Esse problema abre a possibilidade de o professor buscar soluções,
organizando sua aula empregando o filme de forma interdisciplinar com outras
disciplinas, usar a aula “geminada” em pelo menos dois dias de aula e também tem
a possibilidade técnica de selecionar cenas através dos recortes. Técnica que a
maiorias dos professores não dominam e não têm o equipamento necessário para
fazê-lo. Neste caso vale refletir:

(...) quando se utiliza uma metodologia de modo impreciso – sem ter claros os
objetivos educacionais – acaba perdendo a credibilidade, caindo no
descrédito. (...) Que filmes utilizo? Que cenas? Essa pergunta é quase uma
“questão íntima”, pois, afinal, as cenas, filmes, diálogos que funcionam para o
aluno, são aqueles que funcionam antes para o professor. O que me atinge e
me faz pensar, o que evoca sentimentos e emoções, o que pede reflexão e ser
compartilhado, é o que posso levar, com sinceridade e transparência até os
meus alunos (BLASCO, 2006, p.64-5).

Neste caso conhecer os limites e as possibilidades técnicas antes de planejar


as atividades didático-pedagógicas com o cinema é relevante. Os problemas podem
17

ser solucionados com planejamento. O importante é ter coerência entre a forma de


exibição/assistência e os objetivos da atividade planejada.

b - Faixa etária:
Como o cinema é produzido com finalidade comercial, cenas indevidas e não
apropriadas podem aparecer a qualquer momento. Sobre esse critério o professor
da escola B relata:

Narrativas dos Professores das Escolas Pesquisadas


Escola B Observo se o filme ou o vídeo está de acordo com o tema trabalhado, se é para a
idade indicada, assisto sempre ele antes de passar para os alunos.

Assistir ao filme antes da exibição é pontual, evita-se constrangimento do


professor e alunos. Pois as cenas de nudez, violência e palavras de baixo calão,
podem ser as mais lembradas pelos alunos. A regra é selecionar o que será
trabalhado, preparar o público e adequar filmes a espectadores que tenham o
discernimento e maturidade adequada aos mesmos.

c - Articulação com o conteúdo


Três entrevistados levantam essa preocupação em articular a película com o
conteúdo trabalhado.

Narrativas dos Professores das Escolas Pesquisadas


Escola B Observo se o filme ou o vídeo está de acordo com o tema trabalhado (...)

Escola D Eu vejo se tem relação com aquele conteúdo que está sendo ensinado, porque
sempre a gente está buscando o reforço, mas não só o reforço naquilo que a gente
já ensinou. Busca também do conhecimento, porque pra esse não tem idade

Escola E Não pegar um filme sem antes preparar sem ver se aquele conteúdo vai estar
dentro do filme ou não

Pensar no emprego do filme dentro de um planejamento geral é relevante


para desenrolá-lo do processo pedagógico pretendido pelo professor. Como nos
propõe Napolitano (2008, p. 79) “Procure inserir o filme dentro do planejamento geral
do seu curso, articulando-o com os conteúdos e conceitos trabalhados, bem como
as habilidades e competências”. Novamente se reforça que o planejamento é o
suporte para o processo de ensino/aprendizagem.
18

d- Dublagem
A professora da Escola C descreveu:

Narrativas dos Professores das Escolas Pesquisadas


Escola C Observo a qualidade da imagem e se é dublado, pois se é legendado o aluno não
gosta. Ele não gosta de ler e então não acompanha, não entende sabe. Então
tenho que cada pouco parar e explicar para eles

Parece insignificante a abordagem, mas um material audiovisual que não


atenda as expectativas dos alunos pode acabar com as pretensões do professor
numa aula. Se não houver a compreensão pela falta de leitura das legendas, logo a
turma começa perder o interesse e se dispersa. O foco de interesse passa a ser
outro, como brincadeiras e conversas entre os alunos. Neste selecionar um filme
para uso na sala de aula devemos, primeiramente, levar em conta a cultura geral e
audiovisual da classe que pode, sumariamente, contribuir para atingir os objetivos
que o professor propôs em seu planejamento.

Dificuldades no uso do recurso

Com o propósito de analisar mais proficuamente as experiências dos


professores, levantamos com eles as dificuldades enfrentadas no cotidiano escolar
no uso dos filmes e vídeos. Como as dificuldades apresentadas pelos professores
se repetem nas narrativas, vamos apresentar duas que se difere em algumas
situações.
O professor da escola A, faz o seguinte relato:

Narrativas dos Professores das Escolas Pesquisadas


As dificuldades não são poucas não. Parece fácil trabalhar com filme e vídeos,
Escola A
porque não é uma aula para matar tempo, precisa preparar mais. Outro fator é a
falta de aulas, como por exemplo, no ensino médio é só duas aulas por semana,
falta de aula geminada (juntas), não dá para se fazer um trabalho direito, as aulas
são mínimas. Outro problema é não saber fazer recorte de filmes, e não sei quem
poderia fazer. Mas também tem custo não é? A falta de material. A escola tem
pouco. A videolocadora também não tem e não sabemos aonde procurar. Tem
citações na bibliografia, que você poderia usar, mas não tem. E também o aluno às
vezes acha que depois de assistir um filme, acha que não deve fazer nenhum
trabalho, não vê como aula. [Por que você acha que ele não vê como aula?]
Porque tem colegas que só passa o filme por passar, para ocupar a sua aula. Bom
matar tempo mesmo. O professor que quer explorar e trabalhar o filme se dana
então. Até a supervisão quando falta professor ponha um filme para ocupar o
tempo do aluno. Assim fica difícil pra gente.
19

O ponto mais relevante desta narrativa é quando o professor cita que colegas
usam o filme para “matar tempo”. Percebemos neste caso que a falta de objetividade
no uso do recurso compromete o trabalho dos demais. Isso não se aplica somente
aos professores de História, abrange professores de outras disciplinas e, como narra
a professora, até a equipe pedagógica usa, equivocadamente, o recurso.
Como propõe a literatura, quando trazemos a película para a sala de aula,
devemos estar cientes das responsabilidades que esta atividade implica. Planejar a
aula deve ser a primeira atitude do professor engajado na aprendizagem de seus
alunos e preocupado com a capacidade analítica dos mesmos. O docente que não
planeja, não tem objetivo definido para o filme, torna a aula com esses recursos
enfadonha, limitada e repetitiva, transformando-a num mero momento de lazer.
Novamente surge o problema da falta de aula e de aula geminadas para usar
filmes. No entanto o relato do professor propõe uma solução a tal situação: o
recorte. Porém, essa solução implica em outros fatores: saber fazer e ter os
equipamentos (aparelhos) necessários para este fim. Como bem sabemos as
escolas e professores não dispõem de recursos ou estes são escassos e usados
para situações mais emergencias. Por este motivo, essa proposta do “recorte” fica
um pouco distante de ter solução.
O professor da escola D levanta outra questão interessante a falta de vídeos
de produção didática nas escolas:
Narrativas dos Professores das Escolas Pesquisadas
A dificuldade é que praticamente filme relacionado a parte didática quase não tem,
Escola D
agora tem alguns curtas no youtube, as TVs pen drive8 e os pen drive que o
governo mandou, mas ainda não usei o meu, mas estou acessando a internet.
Estou preparando agora um material que sei que vou enriquecer meu trabalho
muito mais que os anos anteriores. A dificuldade de encontrar os vídeos e filmes
também é uma dificuldade. No NRE tem uma lista de filmes e vídeos, mas você vai
procurar e não tem. Então essa é a dificuldade. Agora com as televisões (pen
drive), uma em cada sala, já está mais fácil, mas também tem a dificuldade de
encontrar material [Então a sua maior dificuldade é de encontrar material e de
preparar esse material?] É...é isso, agora veio uns DVDs na biblioteca do professor,
mas tem alguns que são mais direcionados a nós professores... mais preparação
para nós professores. Diretamente para o aluno é difícil de conseguir.

Percebe-se que há interesse dos professores pelos vídeos didáticos, mas


existe a dificuldade em consegui-lo devido à falta de recursos financeiros,
desinteresse na produção desses materiais pelas indústrias culturais, dificuldade de
acesso para compra, má qualidade de produção, entre outros. Os filmes didáticos,
8
São as TVs Multimídia.-TVs de 29 polegadas que tem entrada para cartão de memória, pen drive,
DVD, VHS e saídas para caixa de som. Permite o congelamento das imagens sem distorções no caso
dos slides. São aparelhos produzidos sob encomenda pelo governo do Estado do Paraná, para todas
as salas de aula das escolas públicas estaduais.
20

pelo fato de serem produções dirigidas aos conteúdos curriculares, facilitam o


trabalho do professor, mas não queremos dizer com isso, que o professor não deve
estar atento ao que está sendo apresentado. Não deve tomar tudo como “verdade”,
pois didático ou não, também é um produto de consumo e do tempo presente. É
notório que recorrer aos filmes comerciais é a primeira opção. Neste caso, são
produções sem responsabilidade e preocupações com a história nele apresentada,
pois a produção desse produto é somente voltada para o consumo. Tanto o filme
didático quanto o comercial, merecem atenção do professor, pois passam pelo
processo de produção.
Pode-se dizer que o professor tem procurado alternativas para a falta de
material. Como a Secretaria de Estado da Educação, a partir do ano de 2007,
aparelhou as escolas estaduais com TVs Multimídia, laboratório de informática com
conexão a internet e os professores com pen drive, proporcionou aos professores
buscar e produzir seu próprio material para o uso escolar nessas mídias. Quando o
professor relata que está buscando no sítio do Youtube preparar um material para
usar em suas aulas, percebe que essa ação demanda tempo e conhecimento das
ferramentas para tal procedimento. É sabido que “tempo” o professor tem pouco,
para aprender usar as novas mídias para então produzir seu próprio material. Mas
constata-se o interesse e o esforço dos profissionais em aliar a tecnologia com a
escola.

O recurso e a prática pedagógica dos professores entrevistados

Fazendo as reflexões nas narrativas dos professores em relação a sua prática


pedagógica quando usa o filme ou o vídeo didático se constata a falta de um
referencial teórico como suporte para esse trabalho. As atividades acontecem na
maioria das vezes com pouca reflexão e falta de outros documentos como apoio.
Conforme percebemos nas narrativas a seguir.

Narrativas dos Professores das Escolas Pesquisadas


Escola A Muitas vezes no preparo da aula, no planejamento dessa aula. Eu às vezes
apresento o filme antes, depois eu faço a relação, quando, por exemplo, eu quero
que eles observem a cultura com a história eu vou relacionando, vejam... Em
determinadas situações eu passo o filme ou o vídeo depois para confirmar aquilo
que eu falei... para ele ver que realmente era daquele maneira. [A finalização dos
trabalhos como você os cobra?] A finalização é de diversas maneiras, às vezes com
debate,. Primeiro trabalho todo o conteúdo, depois passo o filme depois analiso e
em cima do filme com o conteúdo faço a relação entre os dois, faço: debate,
21

relatório. Faço eles fazerem analise critica do filme analisando com o conteúdo
apresentado no livro

Escola C Primeiro eu trabalho o conteúdo tal... Analiso o contexto todo do livro, quando eu
uso o filme eu vou passando e vou explicando, relacionando e lembrando do que
nós já tínhamos visto durante a aula expositiva do conteúdo. No final faço um
debate com todos e um resumo escrito e tenho por costume cobrar na avaliação
algumas questões relacionadas com o filme.

Os dois professores usam as paradas na apresentação do filme no intuito de


contextualizar e relacionar com o “conteúdo”. Essa prática do professor colabora
para uma análise se ele não apresentar o filme como uma verdade. Assim cabe ao
professor alertar os alunos sobre as ocultações da película. O importante é não ficar
somente na ilustração, mas também usar as narrativas e representações do filme
como elementos propulsores de posterior pesquisa.
A metodologia dos professores em promover um debate após assistir ao filme
é positiva, desde que bem articulada com os problemas e questões surgidas durante
o filme. O debate permite o aprimoramento do olhar do aluno e o desenvolvimento
de seu senso crítico. Porém, nota-se que o filme foi usado como suporte para as
aulas expositivas quando narra que usa a película para “confirmar”, “relacionar” e
“lembrar”. Isso é problemático, pois o professor considera o filme como “reflexo” da
realidade e não que o filme atribui sentidos, significados a realidade, constrói a
realidade.
O professor do colégio B fornece aos alunos um roteiro. O roteiro é de
fundamental importância, pois ele estabelece alguns parâmetros de análise com
base nos objetivos que propõe a atividade com a obra filmítica.

Narrativas dos Professores das Escolas Pesquisadas


(...) eu faço o encaminhamento, através de uma ficha de apontamentos, para que
Escola B
eles observem esses pontos para posterior discussão. Às vezes faço questionário e
dou a eles antes de assistir o filme, e às vezes ainda depois de assistir ao filme ao
vídeo faço com eles uma resenha ou uma síntese ou um texto explicativo onde o
aluno pode opinar e também faço histórias em quadrinhos.

Quando o professor fornece o roteiro, está traçando a direção do olhar dos


alunos em cenas e narrativas da película que o professor considera relevantes para
a observação e posterior análise e reflexões. Todavia percebe-se que a finalização
do trabalho desse professor com resenha, síntese ou história em quadrinho não usa
a reflexão e o filme ficou apenas na ilustração.
22

A professora do colégio D expõe como realiza seu encaminhamento


metodológico aos alunos das séries iniciais do Ensino Fundamental:

Narrativas dos Professores das Escolas Pesquisadas


Depois que o aluno assiste, eu começo pedindo para eles as cenas que acharam
Escola D
mais importantes, que chamaram atenção. Porque através daquela cena ele até
ilustra no caderno, e o que tem na comunidade na família que se encaixaria
naquilo... Naquela história, para o conhecimento do conteúdo o que ele entendeu
de acordo com o filme. O que seria então a interpretação, passar da ficção para o
real. Eu sempre quando vou assistir o filme, eu coloco o nome do filme e coloco
qual o objetivo do que eu vou querer ali. É muito importante o aluno saber qual é o
objetivo para não se perder.[ E o objetivo você coloca antes ou após assistir o
filme?] Eu coloco antes de assistir qual vai ser o objetivo...qual vai ser a finalidade
e depois que a gente assiste é que vai discutir numa mesa redonda9 e vai ver se foi
atingido aquele objetivo. [Você não cobra alguma produção do aluno?] Não, não
cobro nada por escrito. Quando eu faço avaliação eu coloco lá uma questão. Por
exemplo: De acordo com o filme que você assistiu explique... tal... Eu também faço
assembléia para discutir sobre o filme, onde os alunos vão debatendo, vão
colocando suas idéias, depois de um questionamento.

Analisando os procedimentos do professor, vê-se que ele procura definir aos


alunos seus objetivos com relação ao filme ou o vídeo didático já que estes são
fontes centrais do seu trabalho. Percebe-se que o professor, apesar de não citar,
propõe no seu trabalho um diálogo do presente com o passado, possibilitando aos
seus alunos a reflexão sobre o presente pelo estudo do passado. Essa proposta é
interessante para alunos nessa faixa etária, pois dessa forma passam a perceber as
mudanças e permanências no contexto histórico.
O professor perde-se nos encaminhamentos metodológicos: “mesa redonda”,
“debate” e “assembléia”10. Usa termos diferentes para a mesma ação que é o debate.
Apesar de que construir problematizações em que os alunos possam levantar idéias,
argumentar, refletir e analisar sobre determinado tema contribui significativamente
para a construção do conhecimento histórico, percebe-se que o trabalho desse
professor esvai-se no momento em que os alunos não registram as reflexões e
considerações da turma. Perde-se um bom momento para o aluno sistematizar suas
reflexões.

Filmes: uma prática

9
Mesa redonda na compreensão do professor é a forma de organizar os alunos em circulo para
debater o tema.
10
Assembléia: o professor se refere ao fato dos alunos se alternarem em frente à classe para
argumentar sobre o tema proposto.
23

Considerando o peso da influência da linguagem do cinema em nossos


alunos que são levados, salvo raras exceções, a uma apreciação acrítica, a prática
ora apresentada buscou tratar a linguagem cinematográfica como fonte documental
e instrumento didático/pedagógico privilegiado para o ensino de História.
Para realizar esse trabalho foram escolhidas as turmas “A” e “B” do 1º ano do
Ensino Médio do Colégio Estadual Antônio de Castro Alves do Município de Capitão
Leônidas Marques. A temática selecionada para desenvolver essa prática foi
“Trabalho Infantil”, por fazer parte do rol de conteúdos da série, também pelo fato de
ser uma problemática latente, contemporâneo e muito presente no cotidiano dos
nossos alunos. Com essa mesma temática foi produzido o OAC – Objeto de
Aprendizagem Colaborativa, essa produção didática faz parte das atividades
exigidas pelo programa do PDE.
Para essa ação pedagógica foram escolhidos dois filmes: “Oliver Twist” e
“Daens – um grito de justiça”, justifica-se a escolha por ambos abordarem o trabalho
infantil no século XIX, por diferentes enfoques.
Esse trabalho foi antecedido por uma série de aulas referentes ao conteúdo
estruturante “Relações de Trabalho” e entre as leituras realizadas pelos alunos dos
trechos do livro “O capital” de Karl Marx e o item “IV. Infância”, do capítulo “Padrões
e experiências”, do livro “A formação da classe operária: a maldição de Adão”, de
Edward Thompson. Essas leituras foram fundamentais para a análise dos filmes e
sistematização do tema proposto.
Foram levantadas as dificuldades em trabalhar com o cinema na sala de aula.
Estes demandam de maior tempo que vai para além de duas a três aulas. Como no
segundo ano do programa os professores participantes do PDE têm apenas 25% de
sua carga horária para desenvolver o projeto, no horário que lhe convier. Dessa
forma, nos possibilitou propor aos alunos assistir aos filmes sem interrupção, sem
usar aulas extras ou ainda de outros professores. Neste caso os alunos teriam que
vir no período da tarde, já que a escola é privilegiada em dispor de uma sala
exclusiva para multimídias, equipada com DVD, vídeo cassete, computador e
projetor. Essa prática no momento apresentada não faz parte do cotidiano escolar, já
que os professores não dispõem de tempo extra para além da sua carga horária
semanal de trabalho. Para cada filme, optou-se por técnicas diferentes, para não
tornar-se repetitivo e assim buscar novas reflexões e análises.

Oliver Twist
24

Este filme produzido e dirigido por Roman Polanski, baseado na obra literária
do inglês Charles Dickens. Retrata a história das aventuras de Oliver Twist (Barney
Clark) um órfão entre as centenas que sofrem com a fome e o trabalho escravo na
Inglaterra vitoriana. Vendido para um coveiro, ele sofre com a crueldade desta
família e acaba fugindo para Londres. Lá, ele é recolhido das ruas por Artful Dodger
(Harry Eden), um ladrão que o leva até Fagin (Ben Kingsley), um velho que
comanda um exército de pequenos marginais e adolescentes prostitutas.
Antes de assistir ao filme foi entregue uma ficha roteiro11 do filme para os
alunos com base no que trataria posteriormente a análise. As duas aulas que
seguiram após assistir ao filme foram usadas para a sistematização da análise do
filme.
Inicialmente, os alunos da classe foram divididos em cinco grupos. Para cada
grupo foram entregues as tarefas com as quais iriam trabalhar que consistia no
seguinte:
Ao primeiro grupo foi entregue um texto que traz informações sobre a
biografia do escritor britânico Charles Dickens. Este grupo analisou a relação
existente entre a vida de Dickens com a história de Oliver e as possibilidades que
tenha levado Dickens a escrever esta obra.
O segundo grupo recebeu alguns capítulos da obra literária de Charles
Dickens, “Oliver Twist”. Eles analisaram a obra relacionando com o filme,
observando a maneira que Roman Polanski retratou Oliver Twist em seu filme e se
foi fiel à obra original de Dickens.
O Terceiro grupo analisou o contexto do trabalho infantil na Inglaterra século
XIX (Era Vitoriana), confrontando as cenas do filme com o item “Infância” do livro de
Edward Thompson.
O quarto grupo recebeu duas reportagens atuais que abordam a exploração
de crianças em atividades criminosas no tráfico e a prostituição infantil, que já não
são exclusividade de grandes centros urbanos. Analisaram diferenças e
permanências sobre a vulnerabilidade das crianças frente aos problemas sociais,
que as tornam “presas” fáceis de exploradores.
O quinto grupo tratou da linguagem cinematográfica. Observando cenas
quanto à trilha sonora, o enquadramento e luminosidade e para qual público o filme

11
Ficha composta por duas partes: Primeira os dados técnicos do filme (nome, direção, nacionalidade,
ano que foi produzido, nome dos atores, duração, gênero etc). A segunda parte é a de interpretação.
25

foi produzido. Analisaram também as similitudes e representações do filme com a


obra com relação aos fatos históricos quanto ao enredo, cenário, figurino e
alimentação.
Os trabalhos no grupo foram monitorados pelo professor e por anotações de
todos, para posterior apresentação das considerações do grupo aos demais alunos
da classe. A finalização do trabalho foi seguida de um relatório escrito do grupo para
o professor.
Conclusões proferidas dos grupos:
Sobre Dickens os alunos concluíram que ele sofreu muito na infância, pelo
fato de ter ficado sem o pai muito cedo, devido à prisão. Isso o levou ao trabalho de
exploração nas fábricas inglesas e com as dificuldades por ele passadas na infância,
ganhou a sensibilidade para compor a história de sofrimento de Oliver. Outro ponto
que levantaram foi que a obra de Oliver Twist é uma espécie de crítica social, onde
descreve as condições subumanas da população inglesa, que sobrevivia nas ruas
sujas e lamacentas das cidades inglesas. Relataram que Roman Polanski não foi
totalmente fiel à obra de Dickens, pois não narra o nascimento de Oliver e os
primeiros anos de sua vida, fato que concluíram importante para desenrolá-lo da
história, assim como ele suprimiu alguns personagens. Compreenderam que o filme
não pode ser 100% fiel a obra, devido ao tempo de duração, mas que no filme
“Oliver Twist” como foi produzido, faltam algumas explicações. Mencionaram que as
produções cinematográficas nem sempre retratam a história como ela é, expressam
as intenções do diretor, roteirista e produtor. Quanto ao trabalho infantil no século
XIX inglês, concluíram que Polanski não exagerou quando, retratou crianças órfãs
trabalhando, sendo castigadas e entregues às pessoas, para ser trabalhadoras.
Perceberam que isso era uma atividade corriqueira e vista como natural conforme
confrontaram nos escritos de Thompson e Marx. No confronto das reportagens com
o filme, notaram que alguns problemas que acometiam as crianças no século XIX
permanecem na atualidade. As crianças e adolescentes são realmente “fáceis” de
serem aliciados, devido às situações de desamparo social em que vivem. Vêem
nessas atividades, trabalho, tráfico, prostituição e entre outros, o único meio de
sobrevivência. Portanto “Oliver Twist” de Polanski fala do presente, quando faz uma
alusão com a situação de muitas crianças na atualidade, que desde muito cedo se
inserem no mundo do crime, roubos, drogas, prostituição e outras, justamente pela
situação social que as circundam. Da linguagem cinematográfica, concluíram que a
escolha dos atores é fundamental para compor os personagens dos filmes. Citam
26

como exemplo o menino “Oliver” (Barney Clark), personagem que exigia um ator
com aparência frágil e olhar triste, para transparecer aos espectadores o sofrimento
do menino, assim como o personagem vilão “Fagim” (Ben Kingsley) que também
deveria ser composto de uma aparência nada agradável, já que explora crianças e
passa a elas temor. Polanski usa uma luminosidade sombria no filme, as cores
usadas nos figurinos dos personagens são opacas em tons desbotados Esses tons
de sombra e cor empregadas era intencional, para dar idéia de melancolia, dor e
sofrimento ao telespectador. Assim, sofrer com o menino “Oliver” compõe as
intenções do diretor. Concluíram que o filme foi produzido para um público
infantil/jovem, já que é carregado de aventuras e a trilha sonora contribui para dar
movimento, medo e sobressaltos nas cenas, assim proporcionando mais emoção a
quem assiste.

Daens – um grito de justiça

Para este filme foi usada outra técnica, porém como no filme de “Oliver Twist”
antes de assistir ao filme também foi entregue aos alunos a ficha roteiro.
Como este filme é baseado na história real do padre belga Adolf Daens (Jan
Decleir), que foi um “pioneiro” na luta pelos direitos dos trabalhadores na virada do
século XIX para o século XX. Impressionado pela miséria que presenciava, passa a
lutar por direitos para os trabalhadores. Nessa época, as tecelagens do norte da
Bélgica decidem substituir os operários homens por mulheres e crianças, a quem
pagam salários menores, conseguindo assim, manter preços que permitiam
enfrentar a concorrência da indústria inglesa.
A técnica aqui aplicada foi o debate livre para estabelecer as diferenças de
leitura e análise. Os alunos foram dispostos em círculo, de forma a facilitar o diálogo
entre alunos e professor. O início do debate se restringiu na análise do nome do
filme “Daens – um grito de justiça”. Pelo diálogo interativo, os alunos chegaram à
conclusão que o Padre Daens, lutou quase solitário pela justiça social na cidade
Aalst. Baseou-se nos princípios evangélicos e na doutrina social da Igreja Católica,
através da Encíclica “Rerun Novarun” do Papa Leão X, contrariando a ideologia
liberal dos capitalistas e membros da própria Igreja, que se opunham as pregações
de Daens, como sendo estas fossem um discurso socialista. Perspectiva política
combatida pela Igreja e sociedade capitalista. Os trabalhadores não participavam
27

dos movimentos trabalhistas, pois se sentiam acuados. Temiam perder a única fonte
de renda, apesar do ganho miserável.
Na segunda parte, para uma análise histórica, relembramos os trechos dos
livros de “O capital” de Karl Marx e o item “Infância” de Edward Thompson, já lidos
pelos alunos em outro momento, a fim de confrontar tais obras com o filme, quanto
às condições de vida e de trabalho dos operários, principalmente das crianças
trabalhadoras.
Nessa análise, os alunos pontuaram as situações comuns entre as obras
literárias e a filmítica, tais como: as excessivas horas de labor dos trabalhadores,
sejam eles homens, mulheres e crianças, as condições de trabalho, inexistência de
leis trabalhistas, salários miseráveis e as condições deploráveis de vida dos
trabalhadores.
No terceiro momento levantamos alguns questionamentos tais como: O voto é
importante para o trabalhador? Que garantias trabalhistas existem hoje no Brasil?
Que leis protegem as crianças? O trabalho infantil acabou?
Essas questões não tinham a intenção de obter resposta ajustadas, mas com
o objetivo de levá-los a pensar e refletir sobre situações do presente. Observamos
que os alunos aproveitaram bastante a oportunidade que tiveram de se manifestar,
apesar de que a intervenção do professor ser constante para a palavra não ser
monopolizada pelos alunos mais extrovertidos ou os mais “maduros”
intelectualmente. Contudo, o desenvolvimento do debate por questão de “tempo”
ficou limitado a uma aula de 50 minutos, o que dificultou avançar mais nas reflexões.
Por esse motivo deixamos de levantar questões interessantes para serem
problematizadas como: os movimentos sociais dos trabalhadores, a Teologia da
Libertação, as mediações da Igreja, ou de setores do clero, nas questões políticas e
sociais e nas lutas dos trabalhadores na contemporaneidade, entre outras
associadas ao presente, que podem ter interferido na produção do filme.
Sabemos que o filme carrega consigo uma carga de subjetividade, sendo este
produto de intencionalidades, conscientes ou não, do meio em que foi produzido,
assim como do contexto social, político, econômico e cultural do qual se originou. É
neste momento que, ao lidar com a imagem cinematográfica, que significam um
determinado período e acontecimento histórico, deve-se trazê-lo ao presente, ou
seja, pensá-lo enquanto objeto inserido em uma determinada temporalidade.
Finalizamos nosso trabalho com uma produção de texto, em que os alunos
compararam as duas obras filmíticas. O texto selecionado para referenciarmos neste
28

artigo foi escolhido por apresentar a compreensão do aluno sobre a linguagem do


cinema, como também nos apontam falhas no planejamento da prática do recurso
do filme.

Narrativas do aluno L.P.12


Os trabalhos que fizemos em sala fizeram a gente pensar sobre o cinema. A gente
Aluno
assiste sempre, mas não pensa sobre ele. Nunca tinha prestado atenção na
música que toca, nas roupas, na luz e outros detalhes. Tudo é feito com intenção.
No filme do Oliver Twister percebi que nossa turma gostou mais. Ele foi mais fácil
de entender. Agora eu vi que a gente não pode ver o filme como 100% verdadeiro
por que como se diz, ele é baseado em uma obra. Também que num filme não dá
para passar toda a história. Por isso o produtor põe no filme aquilo que ele acha
mais interessante e ainda não é exatamente a história como está no livro. Como
meus amigos falaram na apresentação do grupo. O produtor do Oliver não mostrou
tudo o que estava no livro e às vezes colocou de forma diferente. Então vi que
temos que buscar saber da verdade quando um filme conta sobre a História que
estudamos na escola. Nem sempre é verdade.
O filme Daens um grito de justiça, é bom, mas, não era dublado, então a gente se
perdia, no ver as cenas e ler. O filme pra falar a verdade era chato, não tinha ação,
demorou pra acabar e a gente cansou. Mas ele mostrou melhor sobre o que nós
tínhamos estudado. A história dos trabalhadores que foi mostrada no filme também
estava nos textos13 que lemos.
Comparando os dois filmes, os dois falavam das crianças exploradas, mas, de
maneira diferente. Como ainda acontece ainda hoje. No “Oliver Twister” os homens
adultos se aproveitam dos meninos fazendo eles roubarem e as meninas se
prostituir. No “Daens um grito de justiça”, as crianças tinham que trabalhar desde
cedo para ajudar os pais. Senão não tinham o que comer. Na atualidade, sempre
vejo pelo noticiário que ainda tem gente que usa as crianças, pra roubar, trabalhar
como escravo, se prostituir, cuidar dos pontos de droga, vender doce nas esquinas
etc.
Essa situação de se aproveitarem das crianças e usarem elas, vem de muito
tempo. Hoje tem leis que protegem as crianças, mas tem gente que ainda não
respeita e não cumpre as leis. Então acho que isso só vai acabar no dia em que
todos os pais tiverem trabalho e um salário que dê pra sustentar a família

No texto o aluno faz referência a alguns aspectos da linguagem


cinematográfica. Essa observação é interessante, já que é por meio dela que o
cinema se realiza como experiência estética e veículo de mensagem. Analisá-las
serve para aprimorar e refinar o olhar analítico sobre o filme. Porém, ficou evidente
mais uma vez que filmes longos sempre trazem percalços, principalmente os que
não são do “gênero” dos alunos.
O que nos chamou a atenção foi quando considerou o filme “Daens“ “chato”,
provavelmente por este fugir do seu padrão de consumo. Também fez referência à
dificuldade com a legenda. O adolescente entre as idades de 14 e 15 anos, ainda
prefere filmes dublados. Nesta faixa etária estão mais interessados nas cenas que
nas narrativas. Neste caso, se não tivéssemos aliado outros documentos (textos) ao

12
Na transcrição do texto do aluno, preservo-se a originalidade da linguagem por ele empregada.
13
O aluno se refere aos trechos das obras de Karl Marx e Eduard P. Thompson.
29

filme, não teríamos conseguido fazer as reflexões necessárias sobre o tema. Isso
nos aponta que o uso do cinema não pode ser uma atividade isolada em si mesma,
trabalhar com outros documentos não isola o filme.
A experiência evidenciou que os filmes podem tornar-se cansativos e não
prender a atenção dos alunos por todo o tempo de duração, assim, além da edição
do filme como possibilidade, exige-se do professor um trabalho de desconstrução da
indústria cultural do cinema, que homogeneíza e dissemina determinados padrões
culturais.
Compreendemos que o professor deve estar atento a linguagem do cinema já
que este não é apenas um “veículo de comunicação de massa”, mas constitui-se
numa prática social, tem potencial de influenciar e interferir sobre a realidade
presente e passada, disseminando valores e projetos de grupos hegemônicos.
Como nenhum filme é neutro, o professor ao propor o uso da linguagem
cinematográfica, tem como objetivo didático desenvolver nos seus alunos
competência de analisar, criticar e interpretar essas fontes como documento. A partir
do momento que reconhece o papel das diferentes linguagens e contextos
envolvidos na sua produção, proporciona maior autonomia dos alunos frente às
imagens.

CONCLUSÃO

O Programa de Desenvolvimento Educacional da Secretaria de Estado da


Educação do Paraná possibilitou aos professores do Ensino Fundamental e Médio
da rede de ensino levantar problemas que circundam sua prática docente e buscar
subsídios historiográficos produzido na academia. O diálogo que se estabelece entre
os professores do Ensino Superior com os da Educação Básica é primordial para a
elaboração e execução do projeto de pesquisa.
As dificuldades para a execução do projeto surgiram no momento da
implementação (primeiro semestre de 2009) já que tínhamos um cronograma de
atividades para seguir. O projeto exigia constantemente novas leituras, elaboração
de atividades, aplicação dos questionários, entrevista e o grupo de GTR (Grupo de
Trabalho em Rede), ao mesmo tempo. Essas séries de atividades demandavam
tempo para além do destinado ao projeto pela Secretaria de Estado (25% da carga
horária de trabalho). Constatou-se que o tempo se tornou insuficiente, já que como
docentes temos jornadas exaustivas, com atividades para além da escola e sala de
30

aula. Pensamos que os coordenadores do Programa, para melhor execução dos


próximos projetos de pesquisa, poderiam distribuir equilibradamente as atividades
do cronograma, para justamente ser mais bem realizado.
Esse estudo nos apontou para possibilidades de uso do filme na escola, bem
como analisou as práticas mais comuns de um grupo de professores de História.
Buscou-se entender as dificuldades e a prática didática que envolve os filmes
em sala de aula na disciplina de História. Percebeu-se que seu uso é uma prática
cotidiana nas escolas de nosso município. Possibilitada pela facilidade de acesso às
tecnologias, pelo fato de todas as salas de aula das escolas públicas estaduais do
Paraná se encontram aparelhadas com as TVs multimídias, e também pela tentativa
de aproximar os alunos dos temas estudados com os recursos filmíticos, já que
existe uma empatia dos educandos e dos docentes para com eles. Neste sentido, o
uso do filme é recorrente nas escolas.
Ficaram aparentes as dificuldades no uso desse recurso. Dificuldades que
parecem ampliadas considerando que as práticas deveriam orientar para a
emancipação, esclarecimento e formação plena dos alunos, o que não ocorre, pois
as atividades se reduzem à reprodução do filme, muitas vezes corroborando versões
tradicionais do processo histórico.
Alguns procuram usar estratégias mais críticas e formativas, entretanto na
maioria das vezes sem atingir a profundidade adequada para a formação ampla e o
estabelecimento de hábitos de observação mais apurada e técnica, na leitura da
produção cultural. É preciso compreender o filme como documento e todos os
desdobramentos do seu uso como linguagem.
Os professores se esforçam para superar as dificuldades que se apresentam
frente ao número insuficiente de aulas semanais na disciplina, falta de acervo de
filmes didáticos e não didáticos nas escolas e, principalmente, no como usar
adequadamente as imagens em movimento nas atividades didáticas.
Constatou-se a ausência de uma formação pedagógica sistemática para o
uso dos filmes, o que restringe a exploração e problematização da linguagem. Pois
os professores nem sempre estão preparados para enfrentar a complexidade das
relações que essa tecnologia exige. Portanto, como no letramento, uma
alfabetização também no audiovisual faz-se necessária.
É necessário propiciar uma capacitação sobre essa temática, mas que não
seja somente técnica no uso dos recursos filmíticos e que oriente os professores no
sentido de uma prática que venha possibilitar a emancipação e formação dos alunos
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na leitura dessa linguagem, já que as imagens em movimento fazem parte do


cotidiano escolar e presente nas diversas áreas do conhecimento.
Quanto às práticas desenvolvidas em sala de aula, com os filmes “Oliver
Twist” e “Daens – um grito de justiça” esperamos que possam contribuir com outras
propostas de trabalho, mas que não sirvam de “modelo”, pois são apenas alguns
apontamentos para a construção de discussões e encaminhamentos que podem
possibilitar ao professor e aluno o exercício da crítica histórica. Espera-se que as
considerações levantadas ao longo deste trabalho gerem referências para os
profissionais de educação, que buscam nos filmes novas possibilidades de
ensino/aprendizagem e procuram superar os desafios de sua prática docente.

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