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Aluno: Bruno Antonio Cerchi

SÁEZ, Oscar Calavia

Esse obscuro objeto da pesquisa: um manual de método, técnicas e teses em


antropologia.

Edição do Autor: Ilha de Santa Catarina, 2013

O que é antropologia?

Crise

(p. 15) "Basta olhar para aqueles palcos onde se expõe a grande teoria do momento
(aulas inaugurais, conferências nos congressos, textos destacados nos programas)
para perceber que o tema dominante continua sendo a identidade da disciplina:
identidade, nem precisa ser dito, em crise."

(p. 15) "Essa crise, podemos ouvir ou ler, tem varias faces: crise de autoridade,
objeto, representação."

(p. 15) "Até aqui, nada muito peculiar: as crises alimentam a teoria, em qualquer
ciência. Mas o que interessa aqui é de quê modo alimentam a antropologia."

(p. 15) "Muitas vozes sugerem que, precisamente por estar em crise permanente, a
antropologia tornou-se uma disciplina crítica, que faz e desfaz o mundo com os
mesmos movimentos com que se faz e desfaz a si mesma. A crise da antropologia é,
assim, um dado positivo que evitou sua transformação em ciência normal; ou, em
outros termos, que fez dela uma disciplina indisciplinada."

(p. 16) "Afinal, por quê a antropologia, uma ciência dedicada ao Outro, a decifrar o
Outro, seria necessária quando o Outro (em forma de minorias étnicas ou de outro
tipo) não está mais nem distante nem mudo, quando o Outro sabe já falar as línguas

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do Ocidente e da Academia, e de fato reivindica falá-las por si mesmo, sem a
colaboração de intermediários?"

(p. 16) "A crise da antropologia seria assim uma conseqüência inevitável de sua
fidelidade a um mundo que gosta de -como dize-lo?- sentir-se em crise."

Indisciplina construtiva

(p. 17) "Aparentemente, a indisciplina antropológica consegue unir a


heterogeneidade da ciência econômica à paz da ciência contábil."

(p. 17) "As disputas pela legitimidade e o poder não se exprimem em termos
teóricos, mas em termos diretamente institucionais, com a ajuda desse sucedâneo
da epistemologia que é a cultura da avaliação (um Popper suplantado por um Lattes,
ou por um Datacapes)."

A antropologia é uma ciência?

(p. 20) "Segundo esse saber folk, as antigas aspirações epistemológicas da


antropologia (ela queria ser uma Ciência) procediam de um insano pendor
positivista, em tempo debelado pela crise, ou pelas crises."

(p. 20) "Bem está que se use o termo ciência como uma espécie de taxon geral que
só vale pelas suas especificações: ciências da terra, ciências da comunicação,
ciências da saúde e por aí."

(p. 20) "Esse tratamento sumário da ciência é um atalho muito discutível […]."

(p. 20) "Primeiro, porque tende a identificar a ciência com algo que a estas alturas
não passa de uma caricatura da ciência, a saber, a idéia de ciência do primeiro
positivismo."

(p. 20) "Segundo, porque opera como se o divórcio entre ciências naturais e
humanas, caso seja necessário, não deva ser atualizado constantemente para ter
algum valor."

(p. 20) "As regras científicas nunca conseguiram desvincular a ciência do seu
contexto social, mas criaram uma articulação a mais, permitindo um jogo autônomo
dentro desse contexto."

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Primeira discussão

(p. 21) "[…] vale a pena lembrar que o conceito de ciência tem variado
consideravelmente desde a época heróica do positivismo, quando a ciência se
imaginava como um conjunto hierarquizado de fórmulas empiricamente verificáveis."

(p. 21) "[…] a ciência, seguindo as recomendações de Popper, passa a ser um


conjunto de proposições suscetíveis de ser refutadas; um conjunto, portanto, fadado
a uma constante transformação."

(p. 21) "A falseabilidade é uma condição muito mais difícil de alcançar do que
parece: é um critério elegante, no sentido de que discrimina muito a partir de um
único requisito. Ela afeta ao modo em que são reunidos os dados, aos termos com
que são descritos, aos modos em que se formulam suas relações."

(p. 21) "Um objeto de ciência deve se situar nas fronteiras do que já foi
cientificamente elaborado, para que possa ficar ao alcance da refutação."

(p. 22) "[…] não há objetos científicos ou problemas científicos reais fora da língua
que os formula e dos jogos de que ela é capaz, e o fim da investigação está em
identificar e eventualmente dissolver esses jogos de linguagem."

(p. 22) "[…] não está sendo dito que os problemas científicos sejam apenas jogos de
linguagem, ou que a ciência seja apenas um conjunto de jogos de linguagem, mas
que ela é nada menos do que isso."

(p. 23) "[…] Thomas Kuhn, quem postulou que a ciência não se da como uma
espécie de linha continua de descoberta, mas em forma de paradigmas. Ou seja, as
verdades científicas só existem dentro de conjuntos de pressupostos conceituais e
metodológicos, de critérios de legitimidade e relevância concretos, limitados, não
universais nem eternos. Os paradigmas são em último termo irredutíveis uns aos
outros, e o que define a sua preponderância não é algum critério eterno, mas
verdadeiras revoluções que cancelam os pressupostos, os critérios os objetos e os
autores em vigor e os substituem por outros."

(p. 24) "O critério de cientificidade não equivale necessariamente a uma crença
ingênua no saber positivo: ele pode ser um princípio invocado na disputa intelectual
mesmo sabendo que ninguém o cumpre a contento."

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Segunda discussão

(p. 24) "Dito seja de passagem, a teologia, perdido o trono e o cetro, se refugiava
precisamente no hiato entre o objetivo e o subjetivo."

(p. 24) "[…] as primeiras devem ser capazes de formalizar, enunciar regras e
predizer. As segundas são saberes pouco formalizados, que se valem da linguagem
comum e não da expressão matemática, parecem estar mais interessadas pelas
descrições que pelas regras, e vão atrás dos fatos sem conseguir antecipa-los."

(p. 25) "Ao postular um divórcio mais claro entre ciências exatas e humanas,
descarta-se esse caráter transitório da ciências humanas, essa expectativa de
avanço em direção ao nível das ciências naturais."

(p. 25) "O que realmente diferencia drasticamente ciências naturais e humanas são
seus objetos, ou mais exatamente a distância que essas ciências mantém a respeito
desses objetos."

(p. 26) "[…] não importa quão longe chegue a exatidão das ciências exatas, elas
continuarão rodeadas de ciências inexatas. Não importa quão longe possam chegar
as ciências humanas na sua formalização, elas continuarão se referindo a um
universo que conhecemos, e nos interessa o suficiente como para querer saber dele
mesmo que seja por intuições ou rumores."

Terceira discussão

(p. 28) "A ciência, de fato, foi construída com a convicção de que o que ela dizia era
o retrato fiel de uma realidade “logo aí” tão explícita e estável como ela, a ciência,
pretendia ser."

(p. 28) "O ponto aqui é se cabe recuperar a ciência como uma mediadora do debate
ou é preferível considera-la, como o humanismo pós- modernista propõe, como mais
um discurso com pretensões hegemônicas."

(p. 29) “[…] a “ciência” continua a ser uma mediação importante para a maior parte
da cidadania, e por muito que os antropólogos a tratem com um certo descaso, a
relevância política que se lhe atribui depende precisamente do caso que outros lhe
fazem como tal mediação."

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(p. 29) "[…] se algo é ou não é ciência é uma questão epistemológica. Mas se a
antropologia deve ser ciência não é uma questão epistemológica. Talvez sim política.
Trata-se de escolher entre uma cisão conservadora e uma reforma, entre se afastar
de uma Ciência definida em termos extensivos (tubos de ensaio, fórmulas
matemáticas, batas brancas) ou permanecer dentro de uma ciência cujos requisitos
tenham sido reduzidos a um mínimo intenso."

A antropologia é literatura?

(p. 32) "[…] a antropologia escreve-se, logo é literatura."

(p. 32) "[…] a primeira questão a ser respondida é se alguma coisa mais relevante
sobre a relação entre antropologia e literatura deve ser dita para além do óbvio, ou
se é preciso se aprofundar nessa obviedade para tirar todas as suas
conseqüências."

(p. 32) "[…] é preciso, ainda, esclarecer se essa identificação entre literatura e
antropologia é feita pela mediação de um 'apenas'."

(p. 32) "A crítica pós-moderna em geral tem recorrido também a esse “apenas”,
quando tem criticado alguns clássicos da antropologia (Malinowski e Evans-Pritchard
foram alvos privilegiados) assinalando os tropos e as referências literárias que neles
podiam se detectar."

(p. 33) "A diferença entre a antropologia e a literatura não oferece nenhuma dúvida
se aceitarmos que a antropologia é uma ciência, e a literatura em geral não."

(p. 33) "O cientista é, por assim dizer, um intermediário entre sujeitos, que deve
manter a identidade desses sujeitos: no que ele escreve, deve identificar não só os
sujeitos da ação que ele descreve, mas também os sujeitos que inspiram sua própria
organização e interpretação dos dados."

(p. 33) "É fácil e bom diferenciar literatura e ciência, mas hipertrofiar essa diferença
de modo desnecessário tem conseqüências desagradáveis. Vamos nos ocupar de
três diferenças desnecessárias -ou até falsas, sem mais- entre antropologia e
literatura:"

(p. 33) "A primeira é a que separa a verdade e a realidade da ciência da ficção irreal
da literatura."

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(p. 33) "A segunda é a que pretende que na literatura faltam o método e a teoria que
caracterizam à ciência."

(p. 33) "Enfim, a terceira é a que entende que ciência e literatura se caracterizam
pelo uso de linguagens diferentes. Conceitos bem definidos de um lado, metáforas e
linguagem conotativa e vaga do outro."

(p. 33) "Quanto à primeira nada impede a literatura de tratar de assuntos tão reais
como os de qualquer ciência, de um modo tão real como o de qualquer ciência."

(p. 34) "A segunda suposta diferença não está garantida em nenhum dos lados.
Nada impede que um método idêntico ao da antropologia seja utilizado na literatura;
isso foi feito em numerosas ocasiões, até antes de que o método se formalizasse
como etnográfico: observação participante, cadernos e diários de campo, etc."

(p. 34) "Quando à terceira suposta diferença, ela é demasiado beletrista. Nem a
literatura precisa usar uma linguagem ornamental, nem os recursos retóricos ou
poéticos estão jamais ausentes no discurso da ciência."

(p. 35) "Para ser ciência a antropologia tem que ser literariamente competente."

(p. 35) "[…] se a ciência se encerra em quadros teóricos e metodológicos rígidos


cuja virtude principal é a de marcar uma identidade “científica”, ela perde a agilidade
necessária para ser ciência propriamente dita; se se afasta da simples literatura
criando um linguajar distintivo que a acabe afastando também da linguagem comum,
terá nesse ato mesmo anulado o seu caráter científico."

A antropologia e a história

(p. 37) "Num sentido demasiado óbvio, o contencioso entre antropologia e história é
entendido em torno da dimensão temporal."

(p. 37) "A história é, de todas as ciências, aquela em que o resultado legítimo da
pesquisa está mais perto do caos."

(p. 37) "A identidade de qualquer ciência oscila entre a informação que fornece e a
ordem a que a submete. Num extremo, uma exposição muito ordenada de uma
informação nula, cai na tautologia. No outro extremo, a abundância de informação
sem ordem forma apenas uma balbúrdia incompreensível."

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(p. 38) "A antropologia como história é, assim, muito mais que uma antropologia com
temporalidade."

A antropologia como filosofia

(p. 39) "Relacionar antropologia e filosofia é repensar um antigo parentesco. Boa


parte do que atualmente entendemos como reflexão antropológica é obra de
filósofos, desde o velho Protágoras, formulador primeiro do princípio relativista."

(p. 39) "O divórcio entre ambas só se deu a partir do positivismo."

(p. 40) "[…] a abordagem holista da filosofia padece a limitação, muito grave, de
estar fundada apenas na experiência dos ocidentais.”

(p. 41) "O porém de uma antropologia entendida como filosofia é em ultimo termo
um porém demográfico. Na antropologia cabem muitos historiadores e cabem muitos
literatos, cabem de outro modo muitos cientistas: todos eles poderão contribuir em
maior ou menor medida a uma tarefa em que a multiplicação tem espaço. Mas
cabem poucos filósofos, porque a reflexão filosófica se situa por vocação num nível
de generalidade muito alto."

A antropologia como etnografia

(p. 42) "A antropologia tende atualmente a se definir como etnografia. Não em toda
parte, certo. Mas sim no Brasil, por exemplo. Essa definição é uma condição notável
da antropologia atual, que não deveríamos tomar como obvia."

(p. 42) "[…] a etnografia se ocupa exclusivamente da coleta e organização dos


dados; à etnologia cabe dar um sentido a eles, em termos comparativos, inserindo-
os em séries históricas e geográficas; a antropologia, finalmente, é o esforço teórico
que, com base nesses trabalhos anteriores, alcança a elaboração teórica, e com ela
o conhecimento propriamente científico."

Antropologia vs Etnologia

(p. 44) "Antropologia e etnologia acabam sendo dois termos estranhamente


superpostos, quase-sinônimos que se mantém lado a lado não sem um certo
desconforto."

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(p. 44) "A etnologia era uma investigação dos outros, uma ciência romântica herdeira
da reflexão humanista e da literatura de viagens, debruçada sobre as diferenças, um
tanto passadista (sempre saudosa de um tempo em que os selvagens eram mais
puros ou pitorescos) levada por uma curiosidade a respeito da diversidade humana
–excitada, é claro, pelas práticas e crenças bizarras que a expansão colonial trazia
constantemente à luz."

(p. 44) "A antropologia estava, pelo contrário, intimamente relacionada com os
processos de nation-building: era uma disciplina ambiciosa pensada para trabalhar
em casa, e seus objetivos eram a reforma do corpo nacional, a higienização, etc.,
preocupações claramente positivistas e práticas."

(p. 45) "O Brasil conta com um excelente exemplo dessa antropologia de construção
da nação, com a escola de Raimundo Nina Rodrigues."

(p. 45) "[…] foram as linhagens que dele partiram as que deram um lugar para a
antropologia dentro da universidade, antes de que, não muito tempo atrás, nos anos
70, outro tipo de antropologia (social) de estirpe britânica fizesse seu ingresso nessa
mesma universidade pela porta da Pós-Graduação."

(p. 45) "É a partir de uma certa evolução do colonialismo que os dois termos
começam a se sobrepor nas preocupações das elites, quando os territórios de além-
mar começam a ser integrados cada vez mais nos respectivos impérios."

(p. 45) "A absorção da etnologia pela antropologia é paralela à absorção dos
primitivos por estados que a empresa colonial acabou tornando multiculturais. Os
etnólogos- antropólogos seriam funcionários do estado nessa nova verão."

(p. 46) "A constante chamada ao engajamento faz que os antropólogos se


encontrem engajados nas atividades do Estado. Enquanto isso, num canto
relativamente modesto embora prestigioso, há uma etnologia que persiste no estudo
de assuntos feéricos como o parentesco, ou o xamanismo."

(p. 46) "[…] a Antropologia no Brasil, embora tenha mudado de teorias e de


ideologia, é fiel ao quadro institucional com que Nina Rodrigues a inaugurou."