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A PRÁTICA (NÃO OBSOLETA) DA OBSOLESCÊNCIA PROGRAMADA

À LUZ DO DIREITO CONSUMERISTA

Laís Machado de Miranda Curvello Bloise1


Luiz Gustavo Couto Costa Evelyn Soares2

RESUMO

O presente artigo tem por objetivo o estudo da prática da “obsolescência programada à luz do Direito
Consumerista”, analisando a origem histórica deste fenômeno, assim como, entendendo suas
consequências na atual sociedade sob a ótica do Direito do Consumidor (lei nº: 8.078/1990). Através
da pesquisa bibliográfica, doutrinária, documental e jurisprudencial, valendo-se do método dedutivo e
da abordagem qualitativa, problematizou-se a efetividade das normas jurídicas e jurisprudenciais
existentes como mecanismos de enfrentamento a essa estratégia comercial que visa o encurtamento
da vida útil dos produtos tornando-os obsoletos de maneira programada, e assim, estimulando a compra
de novos produtos.

Palavras-chaves: Obsolescência. Direito do Consumidor. Normas jurídicas. Eficácia.

ABSTRACT

The purpose of this article is to study the practice of programmed obolescence in the light of the
Consumer Right, analyzing the historical origin phenomenon as its consequences in today’s society (Law
nº 8.078/1990). Through the bibliographical, doctrinal, documentary and jurisprudential research, using
the deductive method and the qualitative approach, the effectiveness of the legal and jurisprudential
norms was challenged as mechanisms to confrot such a commercial strategy that aims at the shortening
of the useful life of the products, making them obsolete in a programmed way, na thus, stimulating the
purchase of new products.

Keywords: Obsolescence. Consumer Law. Legal norms. Efficiency

1 Acadêmico de Direito pela Faculdade de Ciências Aplicadas e Sociais de Petrolina (FACAPE). E-mail:
laisbloise@hotmail.com.
2 Professor na Faculdade de Ciências Aplicadas e Sociais de Petrolina (FACAPE). E-mail:
gustavoevelyn@yahoo.com.br.
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1 INTRODUÇÃO

A obsolescência programada é, em sua definição mais simplista, a condição


de um produto ou serviço em tornar-se obsoleto ou não funcional pelo proposital
encurtamento da vida útil destes, ou seja, há uma ação deliberada do fabricante em
desenvolver, produzir e vender produtos que se tornem rapidamente descartáveis.
Esta estratégia comercial garante o estímulo constante da atividade de
consumo, visto que há uma inversão da lógica tradicional em que a demanda
impulsionava a produção. Assim esta sociedade de produtores, na busca incessante
de sua capacidade produtiva, direcionou a sociedade de consumidores. Tal educação
tendo como pilares a efemeridade e desperdício é mantido por diversas razões, uma
delas, a prática da obsolescência programada.
Ademais, este modelo de desenvolvimento praticado em maior escala desde a
segunda metade do século XX, produz efeitos colaterais sociais e ambientais cada
vez mais notórios e danosos, compondo uma sequencia irresponsável em nome da
economia crescimentista.
À luz deste contexto, este artigo apresenta como tema a prática da
obsolescência programada considerando o advento da Lei 8.078/90, isto é, o Código
de Defesa do Consumidor, em virtude de alguns de seus princípios que são
frontalmente afetados pelo tema em tela, assim como, este mesmo diploma disciplina
mecanismos usados para o enfrentamento da estratégia comercial.
Cabe destacar que a obsolescência programada é classificada em diferentes
tipos e, portanto, adotou-se como recorte metodológico a escolha do estudo
específico da obsolescência programada de qualidade, pois se entende que os
demais tipos de obsolescência – funcional e de desejabilidade – sofrem variáveis
complexas e subjetivas (aspecto psicológico da obsolescência de desejabilidade, por
exemplo) que exigem um estudo mais aprofundado.
Diante da problemática, levantou-se como questão a efetividade das normas
já existentes no ordenamento jurídico brasileiro como armas de enfrentamento à
prática da obsolescência programada de qualidade desenvolvida na sociedade
líquida- moderna de consumo.
Em relação à metodologia, utilizar-se-á da abordagem qualitativa, apontando
entendimentos doutrinários e jurisprudenciais, de artigos científicos, além da própria
legislação sobre o tema. O método procedimental utilizado foi o hipotético-dedutivo,
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por se mostrar o mais adequado ao tipo de abordagem que se deseja, realizando uma
análise do problema para então apontar o entendimento ora defendido.
Destarte, começaremos a análise doas seções para em seguida chegar-se ao
objetivo final do presente artigo, sendo este, apontar a efetividade das normas
consumeristas para combater a prática da obsolescência programada.
´
2 FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA

2.1 CONCEITO DA OBSOLESCÊNCIA PROGRAMADA

A Obsolescência programada, também chamada de obsolescência planejada,


é uma estratégia comercial que tem o intuito de encurtar a vida útil dos produtos
fabricados e, desta forma, acelerar o processo de consumo destas mercadorias, ou
seja, há uma ação deliberada do fabricante em desenvolver, produzir e vender
produtos que se tornem rapidamente descartáveis.
Obsolescência é o processo de tornar algo (serviço ou produto) ultrapassado.
Programação está atrelada a ideia de planejamento, de algo que foi pensado a se
fazer, logo, a obsolescência programada pode ser conceituada como: “a ação
humana de planejar e determinar o que se tornará obsoleto e ultrapassado, sem que
a coisa tenha, em essência, deixado de ser – ou existir”. (PACKARD, 1965, p. 22).

2.2 CONTEXTO HISTÓRICO

Registros históricos apontam que a estratégia da obsolescência programada


de qualidade surgiu, na década de 1920, quando fabricantes de lâmpadas da Europa
e dos EUA formaram o cartel Phoebus e decidiram reduzir a durabilidade das
lâmpadas fabricadas de 3.000 horas para 1.000 horas. Os fabricantes incentivavam
as vendas pelo slogan que, em tradução livre, seria “Use e descarte”.
Segundo Giles Slade (2007, p. 58), a expressão obsolescência programada foi
utilizada pela primeira vez por Justus George Frederick, na publicação de um artigo
na revista Adversiting and Selling, em 1928. A obsolescência programada foi definida
como uma estratégia por meio da qual os consumidores são induzidos a adquirir
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novos bens, de forma contínua, sem que os produtos já adquiridos tenham sido
usados na sua total potencialidade.
Logo após, em 1932, na publicação de um artigo chamado Ending the
Depression Through Planned Obsolescence – O fim da Depressão através da
Obsolescência planejada –, escrito por Bernanrd London, foi debatida a possibilidade
de a obsolescência programada tornar-se um instrumento reconhecido pelo Estado,
como forma de incentivo ao desenvolvimento com crescimento econômico, propondo
assim que fosse definida a data da obsolescência no momento da produção dos bens
e, tendo sido cumprido o prazo estabelecido pela obsolescência, o consumidor
poderia devolver o produto ao Governo, que forneceria uma espécie de “vale” a ser
utilizado na compra de um novo produto. Bernard London publicou ainda o livro The
new prosperity, em que defendia publicamente que a saída da crise econômica era
tornar a obsolescência programada obrigatória. A obrigatoriedade, entretanto, não foi
implantada oficialmente.
Após a Segunda Guerra Mundial, houve um grande uso da prática da
obsolescência programada, visto que havia uma crise econômica instalada e a
estratégia comercial possibilitava o crescimento da economia baseado na teoria
desenvolvimentista.
Essa ideia de consumismo acelerado foi amplamente usada pelas empresas,
silenciosamente permitida pelo Estado e “comprada” pela sociedade americana, sendo
conhecida como era do hiperconsumo. A indústria cultural contribuiu difundindo esta
ideia, sendo a vinda da globalização o ingrediente para estabelecer o padrão de
consumo americano como o padrão ideal a ser alcançado pelos países menos
desenvolvidos.
Nesse sentido ZygmuntBauman (2008, p.31) reflete que:

Afinal de contas, nos mercados de consumidores-mercadorias, a necessidade


de substituir objetos de consumo defasados está inscrita no design dos
produtos e nas campanhas publicitárias calculadas para o crescimento
constante das vendas. A curta expectativa de vida de um produto na prática e
na utilidade proclamada está incluída na estratégia de marketing e no cálculo
de lucros: tende a ser preconcebida, prescrita e instilada nas práticas dos
consumidores mediante a apoteose das novas ofertas (de hoje) e a difamação
das antigas (de ontem).

De acordo com Vance Packard (1988, p. 66) em sua obra Estratégia do


desperdício, existem três formas pelas quais um produto pode se tornar obsoleto, pela
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obsolescência de: função – também chamada de técnica ou funcional - (produto novo


executa a função melhor que o já existente – é uma obsolescência esperada e ocorre
pelo avanço da ciência e tecnologia), qualidade (o produto é projetado para quebrar
ou ser gasto em menor tempo do que o normal) e desejabilidade – também chamada
de perceptiva ou percebida - (quando um produto que, funciona perfeitamente, pode
ser considerado ultrapassado pelo lançamento de outro).
Neste artigo adotou-se, como estratégia metodológica, a escolha do estudo
específico da obsolescência programada de qualidade, ante a impercibilidade de sua
prática pela sociedade em geral, mesmo gerando impactos perniciosos, e por se
entender que os demais tipos de obsolescência – funcional e de desejabilidade –
sofrem variáveis complexas e subjetivas (aspecto psicológico da obsolescência de
desejabilidade, por exemplo) que exigem um estudo mais aprofundado.
Compreendida as origens da prática da obsolescência programada será
analisada a repercussão desta prática para o movimento consumerista e
posteriormente no ordenamento jurídico.

2.3 SOCIEDADES DE CONSUMO

Na obra A felicidade paradoxal, Lipovestsky classificou o fenômeno do


consumo em três fases. A primeira fase ocorreu por volta de 1880, a infraestrutura
moderna foi o ponto de partida para o ciclo da era do consumo, ainda brando, que
terminou com Segunda Guerra Mundial.
Em 1950, manifestou-se a segunda fase, estabelecendo a produção e o
marketing em massa, o consumo se torna cada vez mais popularizado dando acesso
aos produtos e, sendo eles, desvinculados da urgência da necessidade estrita. Desse
modo, no período pós-guerra, a prosperidade das vendas era resultado do
fornecimento de produtos não muito necessários, mas muito desejados.
É nesse contexto que a terceira fase entra em vigor, no fim dos anos 70 (século
XX), advinda da globalização dos mercados e do crescimento de empresas com
marcas mundiais e novas tecnologias que atuam para atender à sociedade de
hiperconsumo.
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Segundo o autor, os consumidores da terceira fase procuram se autocompletar


através do consumo, portanto, são consumidores impulsivos, individualistas e
inconsequentes que consomem objetivando alcançar prazer e a satisfação do eu.
A lógica do mercado deixa de ser a produção de massa atuando agora com a
produção personalizada de massa que exige uma velocidade frenética para atender
a demanda consumerista. Decorrente deste movimento percebe-se que as escolhas,
mesmo quando individuais, funcionam em massa distanciando-se da simples
satisfação de necessidades vitais e culturais, passando a ser atrelada à ideia de
felicidade.
O fenômeno do consumo é entendido como o ato de “adquirir e utilizar bens e
serviços para atender as necessidades” (LEONARD, 2011 p. 158). Tem raízes tão
antigas quanto à história da humanidade (BAUMAN, 2018, p.37), contudo, na mesma
medida em que a relação homem-natureza se transformou ao longo dos tempos,
houve também uma evolução na forma como o consumo se dá, e segundo Bauman
(2008, p.37) qualquer modalidade de consumo típica de um período específico da
história pode ser apresentada como uma versão ligeiramente modificada de
modalidades anteriores.
Baudrillard (2008, p18-19) afirma que:

Chegamos ao ponto em que o “consumo” invade toda a vida, em que todas as


atividades se encadeiam do mesmo modo combinatório, em que o canal das
satisfações se encontra previamente traçado, hora a hora, em que o
“envolvimento” é total, inteiramente climatizado, organizado, culturalizado. Na
fenomenologia do consumo, a climatização geral da vida, dos bens, dos
objetos, dos serviços, das condutas e das relações sociais representa o
estádio completo e “consumado” na evolução que vai da abundância pura e
simples, através dos feixes articulados de objetos, até ao condicionamento
total dos actos e do tempo (...).

Bauman (2008, p.41) salienta que diferente do consumo, que é ocupação


natural dos seres humanos como indivíduos, o consumismo é um atributo da
sociedade. Portanto, para o autor, consumismo é:

um tipo de arranjo social resultante da reciclagem de vontades, desejos e


anseios humanos rotineiros, permanentes e, por assim dizer, “neutros quanto
ao regime”, transformando-os na principal força propulsora e operativa da
sociedade, uma força que coordena a reprodução sistêmica, a integração e a
estratificação sociais, além da formação de indivíduos humanos,
desempenhados ao mesmo tempo um papel importante nos processos de
auto-identificação individual e de grupo, assim como na seleção e execução
de políticas de vida individuais. O ‘consumismo’ chega quando o consumo
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assume o papel-chave que na sociedade de produtores era exercido pelo


trabalho (BAUMAN, 2008, p.41).

Com efeito, as sociedades contemporâneas seguem um modelo em que a


felicidade pode ser medida por meio de objetos, signos e imagem. Nas palavras de
Baudrillard (2008, p.97):

Toda a ideologia do consumo pretende levar-nos a crer que entrámos numa


era nova que uma “Revolução” Humana decisiva separa a Idade dolorosa e
heroica da Produção da Idade eufórica do Consumo, em cujo seio se faz
justiça ao Homem e aos seus desejos. Nada disso. Quando se fala de
Produção e Consumo – trata-se de um só e idêntico processo lógico de
reprodução amplificada das forças produtivas e do respectivo controle. “Tal
imperativo, que pertence ao sistema, passa para a mentalidade, para a ética
e ideologia quotidiana – eis a grande astúcia – na sua forma inversa: sob a
capa de libertação das necessidades do desabrochamento do indivíduo, de
prazer e abundância, etc.”.

O sistema produtivo depende do desperdício, e para tanto, é primordial que


ocorram adulterações tecnológicas (obsolescência programada de qualidade). Na
mesma esteira, Baudrillard (2008, p.46), pondera:

A sociedade de consumo precisa dos seus objetos para existir e sente


sobretudo necessidade de os destruir. O “uso” dos objetos conduz apenas ao
seu desgaste lento. O valor criado reveste-se de maior intensidade no
desperdício violento. Por tal motivo, a destruição permanece como a
alternativa fundamental da produção: o consumo não passa de termo
intermediário entre as duas. No consumo, existe a tendência profunda para se
ultrapassar, para se transfigurar na destruição [...] Só na destruição é que os
objetos existem por excesso, dando testemunho da riqueza no próprio acto de
desaparecimento. De qualquer maneira, é evidente que a destruição, quer sob
a forma violenta ou simbólica [...], quer sob a forma de destrutividade, é uma
das funções preponderantes da sociedade pós-industrial.

Neste ponto, é preciso destacar a importância do marketing e da publicidade


para a difusão do consumismo. Isso porque a grande mídia incentivou os cidadãos a
consumirem exaustivamente os produtos disponíveis no mercado. Nesse contexto: “o
bem de consumo, que antes fora criado para durar anos, dadas as dificuldades em se
obter um novo, agora dava lugar à instantaneidade do consumo e à sublimação do
prazer. O avanço tecnológico e a velocidade da informação propiciaram a essa nova
sociedade a possibilidade de adquirir produtos continuamente” (Gonçalves, Antonio
Baptista).
Pelo exposto neste item, é possível constatar a linha progressiva do ato de
consumir para o fenômeno do consumismo, isto porque é a partir do exame da
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sociedade de consumo e o novo modo de consumir, que se entenderá a prática da


obsolescência programada, uma vez que esta prática é fruto do modo como a
sociedade desenvolveu o seu consumo.

3 A OBSOLESCÊNCIA PROGRAMADA E O CÓDIGO DE DEFESA DO


CONSUMIDOR

As mudanças econômicas desenvolvidas ao longo do tempo tornaram cada


vez mais complexas as relações de consumo. Sob a ótica constitucionalista a Carta
Magna, aduz a respeito do Direito do Consumidor:

Art. 24. Compete à União, aos Estados e ao Distrito Federal legislar


concorrentemente sobre: [...] V - produção e consumo; [...] VIII -
responsabilidade por dano ao meio ambiente, ao consumidor, a bens e direitos
de valor artístico, estético, histórico, turístico e paisagístico; [...] (BRASIL,
CRF, 2018).

Promulgada em 11 de setembro de 1990, a Lei 8.078 entrou em vigor em 11


de março de 1991, inserindo no ordenamento jurídico brasileiro uma política nacional
para relações de consumo. Interessante observar que a própria Constituição abre um
capítulo especial sobre a correlação entre direito do consumidor e direito ambiental,
vejamos:
Art. 170. A ordem econômica, fundada na valorização do trabalho humano e
na livre iniciativa, tem por fim assegurar a todos existência digna, conforme os
ditames da justiça social, observados os seguintes princípios: [...] V - defesa
do consumidor; VI - defesa do meio ambiente, inclusive mediante tratamento
diferenciado conforme o impacto ambiental dos produtos e serviços e de seus
processos de elaboração e prestação; [...] (BRASIL, CRF, 2018).

Depreende-se da leitura do art. 170 da Constituição Federal o caráter


interdisciplinar da matéria, visto que o direito do consumidor e o direito ambiental
estão intimamente ligados. Dito isto, a obsolescência programada é interpretada a
partir dessas duas óticas, sendo os possíveis vícios diferenciados em cada disciplina.
O código de Defesa do Consumidor é a codificação que objetiva proteger a
vulnerabilidade do consumidor, assim como, harmonizar e disciplinar as relações e
as responsabilidades entre o fornecedor e consumidor final.
Leonardo Bessa conceitua:

O CDC protege situações de vulnerabilidade inerentes ao mercado de


consumo, o que significa, de regra, a proteção da pessoa natural que não atua
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profissionalmente e, eventualmente, a proteção da pessoa jurídica que, por


razões diversas, apresenta-se vulnerável em face de determinada atividade.

Inicialmente, é importante destacar que a conduta da obsolescência


programada não está inserida especificamente no Código de Defesa do Consumidor
(CDC). Dispõe o referido ordenamento jurídico brasileiro:

Art. 4º A Política Nacional das Relações de Consumo tem por objetivo o


atendimento das necessidades dos consumidores, o respeito à sua dignidade,
saúde e segurança, a proteção de seus interesses econômicos, a melhoria da
sua qualidade de vida, bem como a transparência e harmonia das relações de
consumo, atendidos os seguintes princípios:
I - reconhecimento da vulnerabilidade do consumidor no mercado de
consumo;
II - ação governamental no sentido de proteger efetivamente o
consumidor:
a) por iniciativa direta;
b) por incentivos à criação e desenvolvimento de associações
representativas;
c) pela presença do Estado no mercado de consumo;
d) pela garantia dos produtos e serviços com padrões adequados de
qualidade, segurança, durabilidade e desempenho.
III - harmonização dos interesses dos participantes das relações de
consumo e compatibilização da proteção do consumidor com a
necessidade de desenvolvimento econômico e tecnológico, de modo a
viabilizar os princípios nos quais se funda a ordem econômica (art. 170,
da Constituição Federal), sempre com base na boa fé e equilíbrio nas
relações entre consumidores e fornecedores;
IV - educação e informação de fornecedores e consumidores, quanto aos
seus direitos e deveres, com vistas à melhoria do mercado de consumo;
V - incentivo à criação pelos fornecedores de meios eficientes de controle de
qualidade e segurança de produtos e serviços, assim como de mecanismos
alternativos de solução de conflitos de consumo;
VI - coibição e repressão eficientes de todos os abusos praticados no
mercado de consumo, inclusive a concorrência desleal e utilização indevida
de inventos e criações industriais das marcas e nomes comerciais e signos
distintivos, que possam causar prejuízos aos consumidores;
VII - racionalização e melhoria dos serviços públicos; VIII - estudo constante
das modificações do mercado de consumo. (BRASIL, CDC, 2018, grifo
nosso).

Os princípios norteadores citados no artigo acima servem de diretrizes para


analisar, interpretar e aplicar as normas que incidem sobre as relações de consumo.
Analisados de forma conjunta com outros artigos previstos no Código de Defesa do
Consumidor serão vistos como mecanismos de enfrentamento à prática da
obsolescência programada.
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3.1 MECANISMOS PREVENTIVOS DE ENFRENTAMENTO À PRÁTICA DA


OBSOLESCÊNCIA PROGRAMADA À LUZ DO CDC
A vulnerabilidade do consumidor expressamente referida no inciso I do artigo
4º, Código de Defesa do Consumidor (CDC), é elemento indissociável das normas
consumeristas e, portanto, reflete em todo o ciclo do produto – pois só se produz
porque há quem consuma. Todo consumidor é vulnerável, porque está sujeito ao poder
de controle dos meios e dados da produção dos fornecedores (LIMA. 2003 p. 213).
Não se submete ao critério da razoabilidade para ser identificada no caso concreto,
pois o legislador fixou que o destinatário final de produtos e serviços é a parte que
necessita ser amparada de forma mais favorável pela legislação (LISBOA. 2001 p. 85-
86).
Jorge Alberto Quadros de Carvalho Silva (2003, p.67) esclarece:

(...) o Código de Defesa do Consumidor reconheceu as situações de


vulnerabilidade econômica, técnica e jurídica do consumidor, sabendo
tratar-se de pessoa que, na prática, para obter produto ou serviço, deve
aceitar com pouca margem para negociação, as condições impostas
pelo fornecedor.

Assim sendo, a prática da obsolescência programada fere frontalmente esse


importante princípio, tendo em vista que o consumidor ao adquirir o produto espera
padrões de qualidade/durabilidade/eficiência sobre estes e que, devido uma ação
deliberada dos fabricantes/fornecedores/empresas em substituir bens de consumo em
razão da estratégia de vendas, o consumidor sendo parte subordinada ao mercado,
portanto refém da prática da obsolescência programada torna-se agente desprotegido.
O inciso IV do artigo acima citado dispõe de um significante mecanismo de
prevenção para proteger o destinatário final nas relações de consumo. O direito de
informação previsto nesse inciso e artigos 6º, inciso III e 31, CDC, esclarece que o
consumidor tem o direito de exigir do fornecedor informações completas e precisas a
respeito do produto a ser adquirido. O artigo 31, CDC, especificamente explicita o
prazo de garantia a ser informado ao consumidor, entretanto, o código foi omisso, visto
que não há exigência do dever do fornecedor em informar a vida útil ou durabilidade
do produto. Nesse diapasão, os procedimentos adotados na fabricação dos produtos
são alheios ao conhecimento do consumidor, contribuindo para o desconhecimento da
prática da obsolescência programada.
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Sobre a importância das informações contidas nos produtos Miragem (2013,


p.241) pontua:

A redução do tempo de utilização do produto, de sua durabilidade, afeta,


evidentemente, o dever de adequação que integra o dever geral de qualidade
imposto ao fornecedor. Pelo dever de adequação, lembre-se, tutelam-se as
expectativas legítimas do consumidor sobre a utilidade do produto ou serviço.
[...] A legitimidade da expectativa despertada, de sua vez – a confiança do
consumidor – depende do seu nível de conhecimento sobre o produto ou
serviço e das informações de que dispõe.

No que pese o dever do fornecedor em oferecer produtos que atendam padrões


de qualidade e segurança, o consumidor, por outro lado, dispõe do seu direito
informacional de maneira mitigada. O controle de qualidade apresentado por meio de
certificados de padronização ISO (International Organization for Standartization)
parece não ter a efetividade devida, já que a prática da obsolescência programada
existe de fato como estratégia comercial sedimentada na sociedade.
Sobre o controle de qualidade, o CDC disponibiliza instrumentos preventivos
que deveriam dificultar a utilização da obsolescência programada. Os artigos 23 e 24
expressam a garantia legal de adequação, vejamos:

Art. 23. A ignorância do fornecedor sobre os vícios de qualidade por


inadequação dos produtos e serviços não o exime de responsabilidade; Art. 24.
A garantia legal de adequação do produto ou serviço independe de termo
expresso, vedada a exoneração contratual do fornecedor.

O CDC prevê ainda como mecanismo de controle de qualidade, a atuação das


entidades públicas e privadas vinculadas ao Sistema Nacional de Metrologia,
Normatização e Qualidade Industrial (SINMETRO), Associação Brasileira de Normas
Técnicas (ABNT), Instituto Nacional de Metrologia Normatização e Qualidade Industrial
(INMETRO), assim como, disponibiliza as sanções administrativas previstas no artigo
56 (apreensão de produtos, cassação de registros e outros) e a atuação do judiciário
contra produtos nocivos ou perigosos à saúde pública e à incolumidade pessoal
prevista no artigo 102.
Apesar da previsão protetiva do CDC, na prática torna-se uma difícil e complexa
tarefa para o consumidor utilizar-se do dever informacional e de qualidade no intuito
de prevenir e coibir a obsolescência programada, pois o consumidor não tem
conhecimento/critérios devidos para avaliar as práticas de controle e qualidade
referentes ao produto ou serviço.
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No campo de política preventiva há ainda o que se falar sobre o princípio da


boa-fé objetiva, pressuposto inerente a toda e qualquer relação contratual. A
obsolescência programada, no entanto, burla a expectativa legítima do consumidor em
relação à vida útil do produto adquirido, ou seja, mesmo sendo princípio básico do
ordenamento jurídico brasileiro, esta estratégia comercial o viola, visto que é uma ação
intencional/programada do fornecedor.
Nesse sentido, o CDC disponibiliza um rol de práticas abusivas, sendo estas
definidas como “qualquer conduta em contradição com o próprio espírito da lei
consumetista” (TARTUCE; NEVES, 2017, p.234). Assim sendo, o artigo 51 deste
mesmo diploma jurídico disciplina as cláusulas contratuais também consideradas
abusivas e que, desta forma, provocam violação aos direitos do consumidor. Isto posto,
a prática da obsolescência programada em um contrato, seria considerada nula de
pleno direito.
Seguindo uma linha mais gravosa, o artigo 66 positiva como infração penal, a
ação de declarar afirmações falsas ou enganosas, omitir informações relevantes sobre
a natureza, características, qualidade, quantidade, segurança, desempenho,
durabilidade, preço ou garantia de produtos ou serviços. É possível notar que a
obsolescência programada – a depender do caso concreto – pode ser analisada como
ato ilícito já que omite informação relevante sobre a qualidade e durabilidade do
produto.
Sobre a obsolescência programada na seara do Direito do Consumidor, pode-
se dizer ainda que:
[...] Entende-se que a prática da obsolescência programada fere
explicitamente a Política Nacional das Relações de Consumo. Essa violação
é muito maior que o desrespeito ao consumidor, pois abrange a ordem
econômica do país e consequentemente a ordem social. (DOMINIQUINI;
SANTOS, 2013, p. 13)

Assim, extrai-se que a prática da obsolescência programada vai além da


questão da lesão individual do consumidor, como dano eventual, mas pautam-se
também nos interesses difusos, coletivos ou individuais homogêneos. O CDC trata a
matéria positivando:
Art. 81. A defesa dos interesses e direitos dos consumidores e das vítimas
poderá ser exercida em juízo individualmente, ou a título coletivo. Parágrafo
único. A defesa coletiva será exercida quando se tratar de: 41 I - interesses
ou direitos difusos, assim entendidos, para efeitos deste código, os
transindividuais, de natureza indivisível, de que sejam titulares pessoas
indeterminadas e ligadas por circunstâncias de fato; II - interesses ou direitos
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coletivos, assim entendidos, para efeitos deste código, os transindividuais, de


natureza indivisível de que seja titular grupo, categoria ou classe de pessoas
ligadas entre si ou com a parte contrária por uma relação jurídica base; III -
interesses ou direitos individuais homogêneos, assim entendidos os
decorrentes de origem comum. (BRASIL, CDC, 2018).

Os interesses ou direitos coletivos são aqueles em que os sujeitos de direito


são indeterminados, mas determináveis por um vínculo jurídico entre uma relação
contratual – usuários de um mesmo fornecedor de energia por exemplo. Por
derradeiro acerca do assunto, os interesses ou direitos individuais homogêneos
possuem o bem jurídico divisível, diferente das duas modalidades anteriores, e a
relação jurídica de um fato é que vincula os titulares do direito violado (ARAUJO
JUNIOR, GIOANCOLI, 2015, p. 224-225). Os interesses ou direitos difusos são
aqueles em que os titulares são indeterminados e indetermináveis – não há como
precisar quem é o sujeito lesionado referente a tal prática, somente há ligação entre
um fato decorrente de uma relação consumerista.
Por conseguinte, os tribunais não receberam ações coletivas ou difusas
fundamentadas no tema em tela, contudo, teoricamente a prática da obsolescência
programada pode ser objeto de ação em qualquer das formas. Todavia, ainda que
embrionário, convém destacar dois julgados que incluem a obsolescência
programada:

Apelações cíveis. Ação de indenização por danos material e moral. Relação


de consumo. Aparelho celular com defeito. Telefone novo levado a conserto
que volta a apresentar defeito. Assistência técnica que entrega à autora um
outro aparelho, este também defeituoso, que vem a ser substituído por um
terceiro que por igual não funciona regularmente. Autora que aguarda por
cerca de dois meses o reparo do celular adquirido para ao final obter a
informação da assistência técnica de que o defeito daquele era insanável.
Ônus da prova sobre a inexistência do defeito de produto ou serviço que é ope
legis conforme arts. 12 §3º II e 14 §3º I, aqui em interpretação conjunta com o
art. 6º VIII do mesmo codex. Defeitos não sanados no prazo de trinta dias
restando o produto inadequado ao fim a que se destina. Art. 18, caput, e §1º,
CDC. Descumprimento ao dever de colocar produto e/ou serviço no mercado
em padrão adequado de qualidade de molde a corresponder às legítimas
expectativas do consumidor. Inteligência dos arts. 4º II d) c.c 24 CDC.
Obsolescência planejada. Prática abusiva do fornecedor de produtos. Não
manutenção de peças originais no mercado por prazo razoável. Inteligência
do art. 32 CDC. Fabricante que programa uma curta vida útil para o produto
de modo que este, ao ser logo substituído, propicia o aquecimento do mercado
e aumenta os ganhos. Danos material e moral configurados. Verba fixada com
moderação diante das peculiaridades do caso eis que as reiteradas falhas na
prestação do serviço impuseram à autora transtornos, desgastes e perda de
tempo demasiados. Solidariedade dos fornecedores na forma do par. ún. do
art. 7º CDC. Sentença de procedência que no mérito se confirma. Recurso
adesivo da autora a que se dá provimento para determinar que os juros
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incidentes sobre a verba indenizatória fluam a partir da citação, eis que se


trata de relação contratual. Desprovimento dos recursos das rés. (RIO DE
JANEIRO, Tribunal de Justiça, 2011).

É possível observar que os julgados classificaram a estratégia da obsolescência


programada como prática abusiva do fornecedor do produto, pois o consumidor após
levar o produto ao conserto – e este retornar com o mesmo problema – foi substituído
por um novo que apresentou a mesma falha. A assistência técnica alegou não mais
haver peças de reposições. Apesar da alegação da parte ré, o órgão julgador deu
provimento ao pedido de dano material e moral do autor e reconheceu a prática da
obsolescência programada.
A despeito da matéria, em muitos casos, não ser discutida ou reconhecida, seja
pela dificuldade de se comprovar a prática, seja pela ausência de normas, há uma
sinalização recente no âmbito dos tribunais em demonstrar preocupação com o tema,
como mostrado no fragmento da decisão:

Não se desconhece a existência de interesse comercial na obsolescência


prematura dos bens, que faz girar de modo acelerado o comércio de peças e
bens novos (fenômeno que se vem discutindo sob a alcunha de '
obsolescência programada'), impactando negativamente nos direitos e
expectativas do consumidor. Ainda que tal não se aplicasse ao caso presente
e se tratasse, de fato, de mero vício eventual do produto, o descaso e demora
na solução do problema seriam suficientes para ensejar a reparação moral.
[sic] (SÃO PAULO, Tribunal de Justiça, 2016).

Noutro giro, praticantes da obsolescência programada recebem o amparo da


livre iniciativa positivada na Constituição Federal, assim expresso:

Art. 1º A República Federativa do Brasil, formada pela união indissolúvel dos Estados
e Municípios e do Distrito Federal, constitui-se em Estado Democrático de Direito e
tem como fundamentos: [...] IV - os valores sociais do trabalho e da livre iniciativa;
(BRASIL, CRF, 2018).

O artigo citado acima deve ser analisado em conjunto com a lição dada por Eros
Roberto Grau: “A interpretação do direito é interpretação do direito, no seu todo, não
de textos isolados, desprendidos do direito. (...) Não se interpreta o direito em tiras,
aos pedaços”. A livre iniciativa expressa no artigo 1º, inciso IV, como fundamento da
ordem econômica, confronta-se com uma política protecionista em prol do consumidor
e possivelmente também do meio ambiente. Sobre este confronto, Franco (2014, p.23)
esclarece:
15

[...] No condão da livre iniciativa, mesmo que seja um dos pilares da atividade
econômica empresarial, sendo uma de suas consequências naturais, o poder
econômico não se confunde com o abuso de poder, pois incidir em infração à
ordem econômica acarretaria na supressão de direitos fundamentais daqueles
que figuram na relação de consumo.

A obsolescência programada poderá acarretar abuso de poder econômico. O


autor Ebeling (2009, p.131) consolida essa teoria, afirmando acreditar que atualmente
o mercado controla o Estado, mas que se houvesse a inversão desta ordem – o Estado
controlando o mercado – seria possível a realização de um capitalismo sustentável.
Contudo, não é notório que a possibilidade de maior intromissão do Estado no mercado
apresenta-se como melhor alternativa para uma crise de valores.
Por todo o exposto neste item, é nítido que a prática da obsolescência
programada é incompatível aos mecanismos preventivos previstos no Código de
Defesa do Consumidor. O ordenamento jurídico demonstra no decorrer do CDC a
preocupação em proteger as relações de consumo desde a fabricação, perpassando
pelas estratégias de vendas até a chegada e uso do produto adquirido pelo destinatário
final, contudo, verifica-se distante para o consumidor valer-se previamente dos seus
direitos seja pela omissão de medidas específicas no diploma jurídico, seja pela
dificuldade de comprovar a prática da obsolescência programada, seja pelo
desconhecimento do consumidor sobre o ciclo do produto.

3.2 MECANISMOS REPARATÓRIOS DO CDC PARA O COMBATE DA


OBSOLESCÊNCIA PROGRAMADA

Nesse ponto, é importante frisar que a obsolescência programada constitui uma


espécie de vício no produto, ou seja, um vício que atinge a qualidade no que tange a
durabilidade do produto, estando ainda este vício ausente das informações ofertadas
a respeito do produto. Nas palavras de Miragem (2016, p.653) “o vício de qualidade do
produto ou do serviço decorre da ausência, no objeto da relação de consumo, de
propriedades ou características, que possibilitem a este atender aos fins legitimamente
esperados pelo consumidor”.
A obsolescência programada de qualidade torna o produto impróprio para a
utilização, sendo inadequado ao fim que se destina. O artigo 18 do CDC preceitua a
responsabilidade do fornecedor por vícios do produto. O fabricante e o comerciante
respondem solidariamente pelo vício do produto – “não se confundindo vício do produto
16

com deteriorizações normais decorrentes do uso da coisa” (TARTUCE; NEVES, 2017,


p.97).
A interpretação da estratégia da obsolescência programada perpassa pelo
entendimento de durabilidade. O Código de Defesa do Consumidor traz a divisão de
bens duráveis e não duráveis ao estabelecer os prazos decadenciais e prescricionais
para os vícios encontrados em cada instituto.
Encontra-se no artigo 26 do Código de Defesa do Consumidor:

Art. 26. O direito de reclamar pelos vícios aparentes ou de fácil constatação


caduca em:
I - trinta dias, tratando-se de fornecimento de serviço e de produtos não
duráveis;
II - noventa dias, tratando-se de fornecimento de serviço e de produtos
duráveis.
§ 1° Inicia-se a contagem do prazo decadencial a partir da entrega efetiva
do produto ou do término da execução dos serviços.
§ 2° Obstam a decadência:
I - a reclamação comprovadamente formulada pelo consumidor perante o
fornecedor de produtos e serviços até a resposta negativa correspondente, que
deve ser transmitida de forma inequívoca;
II - (Vetado).
III - a instauração de inquérito civil, até seu encerramento.
§ 3° Tratando-se de vício oculto, o prazo decadencial inicia-se no
momento em que ficar evidenciado o defeito.

Acerca do referido dispositivo, comenta Garcia (2017, p.241):

[...] o prazo do art. 26 é de decadência, pois se trata de decurso de prazo para


que o consumidor exerça um direito potestativo (direito de reclamar), impondo
uma sujeição ao fornecedor, para que este possa sanar os vícios do produto
ou serviço em razão da responsabilidade por vício de inadequação estampada
nos arts. 18 a 25 do CDC.

Considerando obsolescência programada como vício oculto, ou seja, “se trata


de uma inadequação do produto que não é provocada pelo consumidor em função de
mau uso, mas sim que tem origem na sua fabricação e somente é constatado com a
sua utilização.” (FACHINETTO; NICOLETTI; PERSSON, 2017), o artigo 26 preceitua
que a responsabilidade do fornecedor em reparar vícios no produto termina, no prazo
de 90 (noventa) dias para produtos duráveis, iniciando a contagem do prazo no
momento em que ficar evidenciado o defeito, independente do prazo estipulado para
a garantia contratual. Para os vícios ocultos, o prazo decadencial inicia-se no momento
que o vício mostrar-se evidenciado.
O prazo para a evidência do vício oculto ainda não é um consenso para a
doutrina e a jurisprudência, pois a norma consumerista foi omissa neste item. Assim,
17

o que vem sendo considerado é a vida útil do produto como referência temporal. Os
ensinamentos de Garcia (2017, p.248) demonstram:

Como o fornecedor responde pelos vícios ocultos durante o período de vida útil
do produto, será fundamental que o fornecedor informe expressamente qual o
período de vida útil de cada produto nos rótulos ou manuais. Esta informação,
que já pode ser exigida pelo art. 31 do CDC, é de extrema importância não
somente para bem informar o consumidor sobre o prazo que dispõe para
reclamar nos aparecimentos dos vícios ocultos, mas também serve para
melhor orientar o consumidor na hora da compra.

A seguinte jurisprudência mostra como os tribunais vêm levando em conta o


critério de durabilidade:
RESPONSABILIDADE CIVIL- DANOS MATERIAIS- VEÍCULO AUTOMOTOR-
PEÇA -RUPTURA POR FADIGA-CONDUÇÃO ADEQUADA- VÍCIO OCULTO
CONFIGURADO. Comprovada a ruptura da biela por fadiga do material,
inexistente prova da má condução do veículo por seu proprietário, presente a
responsabilidade do fabricante pelas indenizações devidas. Vício oculto
configurado. Vida útil do bem de consumo que não pode ficar restrita ao
prazo de garantia do fabricante (TJRS, Apel. Cível Nº 70014964498, Des.
Rei. Jorge Alberto Schreiner Pestana, DJ 09/04/2007). (grifo nosso)

Na obsolescência programada o fabricante atinge propositalmente o


encurtamento da durabilidade do produto – justamente o critério usado para fixar o
início do prazo decadencial em relação ao vício oculto. Assim, o fornecedor poderá
ficar obrigado ao conserto ou substituição do produto em espaço de tempo maior do
que o previsto para a garantia.
Desta forma, na obsolescência programada, visto a omissão legislativa em fixar
expressamente o prazo para evidência de vícios ocultos, vem ocorrendo a prática do
fabricante, intencionalmente, determinar o tempo pra o produto apresentar o vício ou
defeito, atrelando-o para depois do prazo de garantia legal ou contratual.
Por este motivo, doutrina e jurisprudência veem adotando entendimento de que
enquanto considerada como vício oculto, terá prazo decadencial estabelecido no artigo
26, inciso II, do CDC, a contar da descoberta do vício, independente do prazo da
garantia legal ou contratual, mas considerando a vida útil do produto como referência
temporal. Além disso, o consumidor tem o direito de usufruir o bem adquirido e, que
tenha a durabilidade adequada a um bem durável.
Segundo Rizzato Nunes (2012, p.141) produto durável é “aquele que, como o
próprio nome diz não se extingue com o uso. Ele dura, leva o tempo para se desgastar.
Pode – e deve – ser usado muitas vezes”. Assim sendo, produtos duráveis não são
18

sinônimos de produtos eternos. O uso do produto produz o seu desgaste natural, e


neste caso, não há o que se falar em proteção legal.
Apesar da semelhança, não se deve fazer confusão entre defeito e vício. O
primeiro é caracterizado por uma falha no produto que não acarreta em riscos para o
consumidor, já o segundo, corresponde também a uma falha, mas esta, atrelada a
questões de segurança, qualidade e quantidade. (ARAUJO JUNIOR; GIANCOLI, 2015,
p. 119- 120).
A responsabilidade do fornecedor por vício do produto ou serviço é trazida nos
artigos 18, in verbis:

Art. 18. Os fornecedores de produtos de consumo duráveis ou não duráveis


respondem solidariamente pelos vícios de qualidade ou quantidade que os
tornem impróprios ou inadequados ao consumo a que se destinam ou lhes
diminuam o valor, assim como por aqueles decorrentes da disparidade, com a
indicações constantes do recipiente, da embalagem, rotulagem ou mensagem
publicitária, respeitadas as variações decorrentes de sua natureza, podendo o
consumidor exigir a substituição das partes viciadas.

§ 1° Não sendo o vício sanado no prazo máximo de trinta dias, pode o


consumidor exigir, alternativamente e à sua escolha:
I - a substituição do produto por outro da mesma espécie, em perfeitas
condições de uso;
II - a restituição imediata da quantia paga, monetariamente atualizada,
sem prejuízo de eventuais perdas e danos;
III - o abatimento proporcional do preço.
§ 2° Poderão as partes convencionar a redução ou ampliação do prazo
previsto no parágrafo anterior, não podendo ser inferior a sete nem superior a
cento e oitenta dias. Nos contratos de adesão, a cláusula de prazo deverá ser
convencionada em separado, por meio de manifestação expressa do
consumidor.
§ 3° O consumidor poderá fazer uso imediato das alternativas do § 1°
deste artigo sempre que, em razão da extensão do vício, a substituição das
partes viciadas puder comprometer a qualidade ou características do produto,
diminuir-lhe o valor ou se tratar de produto essencial.
§ 4° Tendo o consumidor optado pela alternativa do inciso I do § 1° deste
artigo, e não sendo possível a substituição do bem, poderá haver substituição
por outro de espécie, marca ou modelo diversos, mediante complementação
ou restituição de eventual diferença de preço, sem prejuízo do disposto nos
incisos II e III do § 1° deste artigo.
§ 5° No caso de fornecimento de produtos in natura, será responsável
perante o consumidor o fornecedor imediato, exceto quando identificado
claramente seu produtor.
§ 6° São impróprios ao uso e consumo:
I - os produtos cujos prazos de validade estejam vencidos;
II - os produtos deteriorados, alterados, adulterados, avariados,
falsificados, corrompidos, fraudados, nocivos à vida ou à saúde, perigosos ou,
ainda, aqueles em desacordo com as normas regulamentares de fabricação,
distribuição ou apresentação;
III - os produtos que, por qualquer motivo, se revelem inadequados ao fim
a que se destinam.
19

Sendo comprovada a responsabilidade do fornecedor com a prática da


obsolescência programada, o consumidor pode exigir o ressarcimento, a substituição
e o abatimento do preço, e ainda, perdas e danos. O artigo 32, apesar de carregar
conceitos abertos em sua redação, prevê a proteção, frente ao consumidor, que obriga
o fornecedor a dispor de peças de reposição dos produtos por período razoável de
tempo, ainda que cessada sua fabricação ou importação.
No que se trata de mecanismos reparatórios do Código de Defesa do
Consumidor, tem-se que “quando houver danos ressarcíveis, materiais ou morais,
existirá o direito do consumidor-vítima destes danos à indenização correspondente”
(MIRAGEM, 2016, p.666). Nesse sentido a prática da obsolescência programada que
gerar prejuízos ao consumidor produz o dever de indenizar, cabendo ainda o
provimento de sanções administrativas e penais previstas pelo CDC e anteriormente
citadas no presente trabalho.
O Superior Tribunal de Justiça (2012) no julgamento do Recurso Especial nº
984.106 – SC (2007/0207915-3), a Quarta turma votou de forma unânime que:

Consumidor tem direito a reparação de falha oculta até o fim da vida útil do
produto e não só durante garantia. O prazo para o consumidor reclamar de
defeito ou vício oculto de fabricação, não decorrentes do uso regular do
produto, começa a contar a partir da descoberta do problema, desde que o
bem ainda esteja em sua vida útil, independentemente da garantia.

O acórdão referente à decisão acima, demonstra que o fornecedor alegava que


o defeito surgiu após a expiração da garantia do produto e que o problema discutido
tratava-se de desgaste natural. Contudo, ficou demonstrado no processo que a
durabilidade do produto, de acordo com as normas técnicas, era três vezes maior do
que a definida pelo fabricante. Neste julgado o Tribunal reconheceu se tratar de um
típico caso de obsolescência programada:

Ressalte-se, também, que desde a década de 20 - e hoje, mais do que nunca,


em razão de uma sociedade massificada e consumista -, tem-se falado em
obsolescência programada, consistente na redução artificial da durabilidade
de produtos ou do ciclo de vida de seus componentes, para que seja forçada
a recompra prematura.

O relator do Resp ora discutido, Luis Felipe Salomão, ensina:

A doutrina consumerista - sem desconsiderar a existência de entendimento


contrário, como antes citado - tem entendido que o Código de Defesa do
Consumidor, no § 3º do art. 26, no que concerne à disciplina do vício oculto,
20

adotou o critério da vida útil do bem, e não o critério da garantia, podendo o


fornecedor se responsabilizar pelo vício em um espaço largo de tempo,
mesmo depois de expirada a garantia contratual.

Este julgado tornou-se um marco ao reconhecer a prática da obsolescência


programada, abrindo caminho para outros julgados no sentido de reconhecer as
práticas abusivas de fornecedores que propositalmente se aproveitam da
vulnerabilidade do consumidor.
No que pese as semelhanças entre obsolescência programada e vício oculto,
e tendo sido o instituto do vício oculto usado como fundamento legal para o
enfrentamento da prática da obsolescência programada, é notório que no vício oculto
não há o que se falar em intenção do fabricante, pois, havendo falha na fabricação,
por exemplo, o consumidor, ao descobrir o problema terá o prazo decadencial para
reclamar a partir dessa descoberta. Já em relação à obsolescência programada,
instituto não positivado no ordenamento jurídico, sua prática – em tese – teria a
intenção de ferir a boa-fé, aproveitando-se da vulnerabilidade do consumidor, porque
não se trata de mera falha, e sim, de uma ação deliberada do fabricante em encurtar
a durabilidade do produto. (MORAES, 2015, p.51).
Destarte, se põe em questão: se na prática das relações de consumo, a
obsolescência programada, é considerada mais grave do que o instituto do vício
oculto, visto que esta é uma ação intencional que fere a boa-fé e não tão somente
uma falha, não deveria torna-la, então, um instituto do ordenamento jurídico? A
ausência legislativa, além de proporcionar insegurança jurídica, dificulta o
enquadramento ideal da prática no ordenamento jurídico, obstaculizando a sua
identificação, assim como, a sua coibição.

3.3 OS REFLEXOS DA OBSOLESCÊNCIA PROGRAMADA NA SOCIEDADE


ATUAL

O Resp acima citado é um precedente jurisprudencial ainda isolado, já que,


apenas nesse momento da história, casos como esses, estão sendo identificados
como “obsolescência programada”. Contudo, fazendo uma pesquisa jurisprudencial
aprofundada, é possível encontrar outros exemplos de decisões judiciais que, embora
não falem especificamente sobre o tema em tela, julgaram os casos com fulcro nos
dispositivos contidos no CDC, artigos 12 e 18.
21

Relacionam-se os seguintes julgados: (i) STJ, Recurso Especial nº 967.623 –


RJ, Relatora Ministra Nancy Andrighi, publicado no Diário de Justiça no dia
26/06/2009, (ii) TJRJ, Apelação cível nº 2009.001.639-26, Relator Desembargador
Carlos Eduardo Moreira da Silva, publicado no Diário de Justiça em 03/11/2009 e (iii)
TJRS, Recurso inominado nº 71003359841, Relator Desembargador Roberto
Behrensdorf Gomes da Silva, publicado no Diário de Justiça em 11/09/2012.
Devido ao aspecto em comum inerente a todos esses processos citados, seria
possível tê-los discutidos em uma ação coletiva sob o argumento de prática de
obsolescência programada, destacando uma decisão de primeira instância que foi
proferida pela 2ª Vara do Juizado Especial Cível da Comarca de Campinas/SP, no
processo nº 114.01.2010.069476-2, em 09/08/2012.
Trata-se de ação de reparação de danos, postulada por um consumidor, cliente
da Apple, que adquiriu um iPod Nano para utilizá-lo em treinos de corrida, entretanto,
dois meses após a compra, o aparelho eletrônico deixou de funcionar. Sendo
procurada a autorizada da empresa Apple, o consumidor foi informado que a “placa
interna” do equipamento tinha queimado por conta do contato do aparelho com o suor
do corpo e, por esta razão, não poderia ser efetuada a troca do objeto, já que o
consumidor teria usado-o de maneira inadequada (BRASIL, 2012c).
Nos autos da ação, no entanto, restou comprovado que a empresa Apple
divulga este produto em suas propagandas como um tocador de MP3 adequado para
o uso durante a prática de atividades físicas. Concluiu a sentença que, se a Apple
vende a imagem deste produto admitindo extensivo contato com o suor, não seria
coerente admitir o mau uso pelo consumidor, mas sim em vício de qualidade, vez que
não atinge a finalidade a qual se destina. A juíza de Direito, Erika Fernandes Fortes
julgou procedente a ação, condenado a Apple a efetuar a troca do equipamento com
base no parágrafo primeiro do art. 18 do CDC (BRASIL, 2012c).
Neste caso, o vício constatado no produto iPod Nano foi caracterizado pela
Magistrada como um vício, entendido como o resultante tanto de erro no projeto
tecnológico do bem de consumo quanto da escolha de material inadequado ou de
componente orgânico ou inorgânico nocivo à saúde (BRASIL, 2012c).
Diferente do julgado no STJ (Recurso Especial nº 984.106 – SC), discutido
anteriormente, neste caso, a decisão da Juíza de Direito não se atentou para a prática
da obsolescência programada, apesar de ter acertado ao dar provimento à ação,
22

cometeu erro ao condenar a empresa Apple à troca do equipamento, sendo esta


decisão condescendente com a empresa ré, pois o vício identificado se trata de uma
qualidade – na verdade, falta de qualidade – do produto, de maneira que a troca por
produto idêntico não resolve o problema do consumidor.
Poderia ainda, além da reparação dos danos materiais, ter condenado a
empresa produtora à reparação de danos morais, pela estratégia comercial abusiva
(art. 39), falta de boa-fé (art. 4º, III) e por propaganda enganosa (art. 37, parágrafo
1º), bem como uma obrigação de fazer informando a todos os consumidores as
limitações de qualidade do produto – todas essas condenações embasadas no
Código de Defesa do Consumidor. Sem adentrar, ainda, na também possibilidade de
condenação pela Lei da Política Nacional de Resíduos Sólidos.
A repercussão da prática da obsolescência programada para a sociedade
é um tema recente e, desta forma, grande parte dos julgadores que proferiram
decisões não se atentaram à origem programada dos vícios de qualidade nos produtos.
O tema é desconhecido, inclusive, para os próprios consumidores, vítimas desta
prática. Tem-se, então, uma jurisprudência que trata a obsolescência programada
como um vício de qualidade existente como caso isolado e que pode ser sanado pela
simples troca do produto.
Em que pese o desconhecimento e a imperceptibilidade da utilização desta
estratégia comercial, esta realidade vem mudando, como demonstrado com a recente
decisão proferida pelo STJ que certamente servirá de referência para novas demandas
judiciais contra esta prática.
Importante destacar que nos julgados que adentrem sobre os riscos que a
prática da obsolescência programada traz para a sociedade deverão considerar os
dispositivos da Política Nacional de Relações de Consumo, que tem como “espinha
dorsal” a proteção do consumidor pelo Poder Público para garantia de produtos e
serviços com padrões adequados de segurança, qualidade, durabilidade e
desempenho (artigo 4º, inciso I, “d”), pela harmonização das relações de consumo
pautadas na boa-fé e equilíbrio (inciso III); pela educação e informação dos
consumidores e fornecedores (inciso IV), e, coibição e repressão de todas as práticas
abusivas realizadas no mercado de consumo, inclusive, a utilização indevida de
inventos e criações industriais que possam causar prejuízos aos consumidores (inciso
VI) (BRASIL, 1990).
23

É razoável que o Poder Público (entidades com capacidade postulatória e


Tribunais) exija o cumprimento dos documentos e normas internacionais que vem
sendo firmados sobre padronizações de produção e consumo, bem como políticas
sobre a durabilidade dos produtos, para assim, melhor fundamentarem suas decisões
sobre os casos que envolvam a prática da obsolescência programada.
Devendo ser coibida a execução de práticas comerciais abusivas, como a
disponibilização de produtos em desacordo com as normas expedidas pelos órgãos
oficiais responsáveis ou pela ABNT (art 39, VIII) e, ainda, a infração penal prevista no
artigo 66, sobre “omitir informação relevante sobre natureza, característica, qualidade,
quantidade, segurança, desempenho, durabilidade, preço ou garantia de produtos ou
serviços.” (BRASIL, 1990).
Como visto, frente à dificuldade em reconhecer a obsolescência programada,
bem como coibi-la, em razão da inexistência de regulamentação acerca da vida útil
dos produtos e também pela falta de lei específica sobre a aludida estratégia comercial,
esta questão surge no ordenamento jurídico de maneira tímida.
Neste ponto, é interessante destacar duas propostas legislativas: os projetos de
lei (PL) 5.367/2013 e a 3.903/2015. O primeiro Projeto de Lei, autoria da deputada
Andréia Zito, refere-se à obsolescência programada propondo a obrigação do
fornecedor de produtos, a prestar informações ao consumidor sobre o tempo de vida
útil de bens de consumo duráveis de maneira clara, objetiva e ostensiva e em língua
portuguesa, prevendo sanções administrativas e penais em caso de descumprimento.
(BRASIL, 2013, online).
A segunda iniciativa, autoria do deputado Veneziano Vital, limita a questão na
oferta e apresentação de produtos eletrônicos e eletrodomésticos, obrigando os
produtores destes produtos a informar a vida útil estimada destes. Expressa ainda a
utilização do critério da vida útil no caso de obsolescência programada e prevê multa
de 30% (trinta por cento) sobre o valor do produto. (BRASIL, 2015, online).
A PL 5.367/2013, no entanto, encontra-se arquivada e a PL 3.903/2015 foi
retirada da votação pelo autor. A jurisprudência, portanto, tornou-se o único
mecanismo factível, atualmente, para meio de reconhecimento da obsolescência
programada na busca a defesa do consumidor.
Sem exaurir as repercussões que a prática da obsolescência programada de
qualidade traz para a sociedade e, exposto o posicionamento da doutrina e
24

jurisprudência, resta evidente que o tema em tela viola as normas consumeristas,


apresentando desconformidade com a legislação específica e os princípios regentes.
A prática da obsolescência programada pode ser considerada prática abusiva – ferindo
a vulnerabilidade do consumidor, a boa-fé objetiva e o direito de informação. Vindo a
jurisprudência a considerar esta prática como vício oculto, denota-se que a prática
atenta contra a qualidade do produto e a sua finalidade, destruindo a expectativa
legítima do consumidor.

4 CONSIDERAÇÕES FINAIS

Diante do exposto, resta evidenciado que a prática da obsolescência


programada de qualidade trata-se de uma estratégia comercial que reduz a vida útil do
produto/serviço, fomentando desta forma, o consumo contínuo destes bens, ou seja, o
sistema produtivo depende do desperdício, e para tanto, é primordial que ocorram
adulterações tecnológicas.
Ao longo do artigo foi possível estudar a linha progressiva do ato de consumir
para o fenômeno do consumismo, isto porque foi a partir do exame da sociedade de
consumo e o novo modo de consumir que se entendeu a prática da obsolescência
programada como fruto desta evolução. Desse modo, as mudanças econômicas
desenvolvidas ao longo do tempo tornaram cada vez mais complexas as relações de
consumo. O Código de Defesa do Consumidor, criado como legislação específica para
analisar situações de vulnerabilidade inerentes ao mercado de consumo, foi usado
como prisma jurídico no estudo da prática da obsolescência programada, portanto, o
presente trabalho objetivou avaliar a efetividade das normas jurídicas consumeristas
no enfrentamento da prática da obsolescência programada de qualidade na sociedade
atual.
A análise foi subdividida em duas categorias, sendo elas: mecanismos
preventivos e reparatórios. Quanto às ferramentas de prevenção foram abordadas as
possibilidades de combate através da proteção do CDC quanto à vulnerabilidade do
consumidor, que se torna refém da prática comercial sem formas de evitá-las; o direito
de informação que neste caso é exercido de maneira mitigada já que a legislação é
omissa na exigência específica do fornecedor informar a durabilidade/vida útil do
produto; o princípio da boa-fé objetiva, que é ceifado em razão da má-fé do fornecedor
25

em utilizar-se de tal prática de maneira deliberada; o rol de práticas e cláusulas


abusivas, que apesar da obsolescência programada não se encontrar categorizada de
forma expressa, poderá ser enquadrada como uma delas, visto que a estratégia
comercial vai contra o espírito das normas consumeristas; a infração penal pela
omissão de informação relevante sobre a qualidade e durabilidade, ademais, firmou-
se o entendimento de que a prática da obsolescência programada pode ser
considerada, não só como lesão individual, em um dano eventual, mas também nos
interesses difusos coletivos e individuais homogêneos.
Quanto aos mecanismos reparatórios foi visto que a prática ora estudada, tem
sido reconhecida pelos Tribunais como vício oculto na maioria dos casos concretos,
ensejando a responsabilidade do fornecedor em ressarcir, substituir o produto ou
abater o preço e, ainda, poderá o consumidor requerer perdas e danos, ou seja, a
prática da obsolescência programada que gere prejuízo ao consumidor produz o dever
de indenização pelo fornecedor. Nesse contexto questionou-se a adequação do vício
oculto como fundamento legal para enquadrar a estratégia da obsolescência
programada, concluindo-se que esta se mostrou mais gravosa do que o mero vício
oculto, e, portanto, carecendo de um mecanismo reparatório mais justo, diante da
omissão legislativa.
Concluiu-se que todas as normas jurídicas expressas no Código de Defesa do
Consumidor alcançam a prática comercial estudada neste artigo de forma indireta. Há
insegurança jurídica a respeito da obsolescência programada de qualidade, visto que
as esparsas jurisprudências são as únicas referências jurídicas que tratam a matéria
de forma direta e específica.
Noutro giro, a suposta timidez do tema estudado é o que o torna tão pertinente,
em que pese o desconhecimento da sociedade em geral acerca do tema para exigir
seus direitos através dos mecanismos preventivos e reparatórios disponíveis, cabe ao
Judiciário manter-se atento a essa prática no que se refere a demandas consumeristas
e manter-se acima de tudo sensível às demandas do polo mais frágil da relação.
26

BIBLIOGRAFIA:

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BAUMAN, Zygmunt. Vida para consumo: a transformação das pessoas em


mercadoria. Rio de Janeiro: Zahar, 2008.
BRASIL. Congresso. Câmara dos Deputados. Projeto de Lei nº 3.903 de 2015. Dispõe
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ou eletrodomésticos, em caso de obsolescência do produto antes do término de sua
vida útil. Deputado Veneziano Vital do Rêgo (PMDB/PB). Brasília, 9 de dez. 2015.
Disponível em: http://www.camara.gov.br/sileg/integras/1431057.pdf. Acesso em 11 de
maio. 2019.
27

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Promulgada em 5 de outubro de 1988. Disponível em: <
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