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UNIVERSIDADE FEDERAL DE SÃO CARLOS – UFSCAR

ADRIANE LUCIA DE ALCÂNTARA (621234)


LEONARDO CARLOS DA SILVA (621765)
LOHAYNE OLIVEIRA CARVALHO (588580)
MARÍLIA BROCKELMANN DE FARIA (621846)
JONAS TOMAZ DE AQUINO JUNIOR (621668)

Trabalho de Estatística Aplicada às Ciências Humanas


Marcadores Sociais e Violência

São Carlos
2019
Introdução

Tendo como referência a parte I ​(​“O Planejamento da Coleta de Dados”) do livro


“Estatística Aplicada às Ciências Sociais” (BARBETTA, 2003) – bibliografia básica da
disciplina “Estatística Aplicada às Ciências Humanas” ofertada pelo professor Sandro Gallo no
1° semestre de 2019, a qual este trabalho está endereçado –, buscaremos brevemente apresentar o
exercício de pesquisa por nós empreendido.
Ao longo desta seção do livro, Barbetta se dedica à questão do planejamento de pesquisa,
apresentando uma síntese de informações acerca do desenvolvimento de problemas de pesquisa,
formulação de seus objetivos, tipos de pesquisa, definição de população e amostra, planejamento
de coleta de dados, definição de variáveis a serem estudadas, elaboração e formas de aplicação
de um questionário, formas de mensuração das variáveis, codificação dos dados e técnicas de
amostragem.
Para o desenvolvimento deste trabalho, nos apoiamos em nossa coleta de dados em duas
pesquisas já existentes, o “Atlas da Violência 2019” (publicação de 2019, realizada em parceria
entre Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada – IPEA e Fórum Brasileiro de Segurança
Pública) e “Políticas Sociais: acompanhamento e análise” (publicação de 2018 do Instituto de
Pesquisa Econômica Aplicada – IPEA).
O “Atlas da Violência 2019” é uma extensa pesquisa acerca da conjuntura de violência
letal no Brasil, que abarca especificidades no que diz respeito à violência direcionada à mulheres,
negras/os e pessoas LGBTI+, bem como trava discussões em torno dos custos econômicos da
violência e da relação entre difusão de armas e aumento da insegurança pública.
A pesquisa “Políticas Sociais: acompanhamento e análise”, por sua vez, apresenta as
trajetórias de desenvolvimento e implementação de um conjunto de políticas públicas voltadas
para previdência social, assistência social, saúde, educação, cultura, trabalho e renda,
desenvolvimento rural, igualdade racial e igualdade de gênero; nos fornecendo, assim, dados
referentes tanto a aspectos orçamentários da implementação destas políticas quanto ao acesso da
população às mesmas.

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Nossa escolha de desenvolvermos esse exercício a partir de dados de pesquisa
previamente coletados se deu pelo nosso interesse compartilhado em entendermos melhor a
questão dos marcadores sociais da violência e pela nossa disposição em trabalharmos com um
conjunto amostral mais amplo do que seríamos capazes de coletar através da aplicação de
questionários com o tempo hábil que tivemos.
Buscaremos estudar as associações possíveis entre a) homicídio de jovens de 18 a 29
anos (taxa de homicídios por 100 mil habitantes) e nível de escolaridade (em anos); b) homicídio
de mulheres no Brasil e raça das mulheres assassinadas (segmentadas em negras e não-negras); e
c) homicídio de pessoas negras e região do país. Ao longo dos próximos capítulos,
apresentaremos nossas variáveis, recortes amostrais e análises decorrentes.

Análise de duas variáveis quantitativas

A tabela a seguir, extraída do “Atlas da Violência 2019”, apresenta a taxa de homicídios


de 100 mil jovens na faixa etária de 18 a 29 anos por unidade federativa do Brasil entre os anos
de 2007 e 2017. ​Nossa variável X será relativa aos dados da primeira linha (Brasil)
informados nesta tabela, e utilizaremos os dados de 2007 até 2009 e de 2011 até 2015; ​isto se faz
necessário para termos uma melhor relação com a variável Y, já que esta não possui dados em
2010 e se encerra em 2015. Segue a tabela de taxa de homicídios:

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Por seu turno, a tabela seguinte, extraída da pesquisa “Políticas Sociais: acompanhamento
e análise” e realizada pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada - IPEA, apresenta dados
referentes à escolaridade média (em anos de estudo) da população de 18 a 29 anos do Brasil
entre os anos de 2005 e 2015: ​esta será nossa variável Y​. ​Usaremos os dados a partir de 2007
para obtermos uma melhor resposta com relação a correlação das duas variáveis.

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Fizemos o ​diagrama de dispersão ​para observar a relação entre os dois dados​:

Há pontos importantes a serem observados no Diagrama de Dispersão:

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● Não existem dados dos anos de estudo (Y) em 2011. Portanto, o diagrama
automaticamente excluiu o dado de 2011 (54,6) da pesquisa, feita sobre taxas de
homicídio (X), para não incluí-la em nossa análise.

● Com o passar dos anos (de 2007 a 2009 e de 2011 a 2015), as taxas claramente sobem,
dispondo, desse modo, uma relação crescente e positiva no geral, com exceção da taxa de
homicídio, que em 2009 se apresentava em 54 por 100 mil habitantes e dois anos após,
em 2011, tinha caído para 53,5 em relação ao mesmo número de habitantes; o mesmo
ocorre no ano de 2015, onde a taxa de homicídio caiu de 62,9 (2014) para 60,9. Ou seja,
de acordo com os dados, a taxa de homicídio de jovens caiu apenas em 2011 e 2015,
voltando, a partir daí, a crescer novamente, juntamente com a escolaridade dos jovens,
que sempre apresentou crescimento.

Utilizando o coeficiente de correlação linear, descobriremos a maneira com que estas


duas variáveis se relacionam, se de forma contrária (-1), de forma dependente (1) ou se quase
não possuem relação (0).

cov (x,y)=∑((Xi-x ̅ ).(Yi-y ̅))/(DP(x).DP(y))

Primeiro passo a se fazer é descobrir as médias de cada variável e após isso começamos calcular
o coeficiente:

x ̅=56,7
y ̅=9,575

(Xi-x ̅ ) (Yi-y ̅) (Xi-x ̅ ).(Yi-y ̅)


50,8-56,7 = ​-5,9 9-9,575= ​-0575 -5,9 . -0,575= ​3,3925
53,3-56,7= ​3,4 9,2-9,575= ​-0375 3,4 . -0375= ​1,275
54-56,7= ​-2,7 9,4-9,575= -​0,175 -2,7 . -0,175= ​0,4725
53,5-56,7= ​-3,2 9,5-9,575= -​0,075 -3,2 . -0,075= ​0,24
58,9-56,7= ​2,2 9,7-9,575= ​0,125 2,2 . 0,125= ​0,275
59,3-56,7= ​2,6 9,8-9,575= ​0,225 2,6 . 0,225= ​0,585
62,9-56,7= ​6,2 9,9-9,575= ​0,325 6,2 . 0,325= ​2,015
60,9-56,7= ​4,2 10,1-9,575= ​0,525 4,2 . 0,525= ​2,205
∑(Xi-x ̅ ).(Yi-y ̅)= 10,46

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X² Y²
-5,9²= ​34,81 -0,575²= ​0,33
3,4²= ​11,56 -0375²= ​0,14
-2,7= ​7,29 -0,175²= ​0,03
-3,2²= ​10,24 -0,075²= ​5,62
2,2²= ​4,84 0,125²= ​0,015
2,6²= ​6,76 0,225²= ​0,05
6,2²= ​38,44 0,325²= ​0,105
4,2²= ​17,64 0,525²= ​0,275
Total X²= 131,58 Total Y²= 6,7

131,58 ×6,7=​881,586
DP=√881,586=​29,6

∑(Xi-x ̅ ).(Yi-y ̅) / (DP(x).DP(y)) = 10,46 / 29,6 = 0,35

Resultado da nossa Análise Quantitativa:


O resultado que descobrimos é de ​0,35, o que significa que a escolaridade e a taxa de
homicídio entre jovens possuem baixa relação. Não é uma relação negativa; assim, podemos
afirmar que as duas variáveis são positivas e sobem em conjunto com o passar dos anos,
chegando próximo do valor 0 e resultando em baixa variação entre uma e outra. Sendo assim,
como visto também no diagrama, é uma relação positiva e crescente.

Análise das duas variáveis Qualitativas

Nosso objetivo aqui é analisar a Associação de ​homicídios de mulheres no Brasil​, entre


2007 e 2017, e ​os grupos negras e não negras​ - Qual é o grupo mais vulnerável?.
Nossas variáveis serão grupo de negras e não negras e uma pesquisa feita sobre o número
de homicídios entre elas; para isso cruzamos os dados das seguintes tabelas:

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A) Tabela observada do número de homicídios de mulheres negras no Brasil.

Número de Homicídios M.
Anos Negras

2007 2049

2008 2255

2009 2419

2010 2611

2011 2714

2012 2917

2013 2881

2014 2292

2015 2902

2016 3005

2017 3288

Total geral 29333

A partir da tabela observada, montamos um gráfico de dispersão para tentarmos


identificar correlação entre as variáveis “Homicídios de mulheres no Brasil” e “Mulheres
Negras”, sendo ambas as variáveis qualitativas.

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B) Tabela observada do número de homicídios de mulheres não negras no Brasil.

Anos Número de Homicidios M. Nao-Negras

2007 1518

2008 1579

2009 1636

2010 1626

2011 1557

2012 1585

2013 1641

2014 1640

2015 1539

8
2016 1488

2017 1544

Total geral 17353

Tabela Esperada de ambas as tabelas observadas

Tabela Esperada

Mulheres Negras Mulheres Não-Negras

2241,16 1325,84

2408,92 1425,08

2547,77 1507,23

9
2662,12 1574,88

2683,49 1587,51

2828,62 1673,38

2841,19 1680,81

2470,49 1461,51

2790,30 1650,70

2822,97 1670,03

3035,96 1796,04

Com as tabelas esperada e observada em mãos, podemos iniciar os cálculos para analisar
se há alguma relação entre os homicídios de mulheres negras e não negras no Brasil.

A tabela esperada foi montada seguindo o seguinte cálculo:


Total Relativo M.Negras*Número Total de Homicídios no Ano/Número Total de Homicídios
Ex: 29333*3567/46686 = 2241,16 , ou seja , primeira linha da tabela esperada para homicídios
de mulheres negras.
A tabela esperada para os homicídios de mulheres não-negras, por sua vez, foi feita
seguindo o mesmo parâmetro.
Para testar a hipótese de que há uma associação entre os homicídios de mulheres no
Brasil e os grupos étnicos, calculamos, então, o ​Qui-quadrado ,​ para verificar a associação:

Utilizando esta fórmula, obtemos que


X ² = Σ (2049 − 2241, 16) ²/Σ(2241, 16))
X ² = 227.15

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Obtido o valor de X² , é possível calcular o coeficiente de contingência, um indicador do grau de
associação entre duas variáveis analisadas pelo Qui-quadrado e que é dado pela expressão:
C = √X²/(X² + n)
C = √227, 15/(227, 15 + 11)
C = 0, 95
Logo, podemos afirmar que a variável homicídios de mulheres no Brasil e mulheres negras têm
uma correlação muito forte, visto que o coeficiente de contingência é um valor muito próximo a
1.

Agora utilizando dos mesmos parâmetros das últimas variáveis, vamos testar a correlação
entre os homicídios de mulheres no Brasil e mulheres-não negras:
X ² = Σ (1518 − 1325, 84) ²/Σ1325, 84
X ² = 312.37
C = √X²/(X² + n)
C = √312, 37/(312, 37 + 11)
C = 0, 96
Assim como na última variável, o coeficiente de contingência tende a estar mais próximo
a 1. Portanto, há uma forte correlação entre as variáveis ‘homicídios de mulheres no Brasil’ e
‘mulheres não-negras’.

Análise de variáveis Quantitativa e Qualitativa

Para uma análise com variáveis Quantitativa e Qualitativa, usaremos a associação entre
uma pesquisa feita pelo IBGE sobre as taxas de homicídio de negras/os por 100 mil habitantes e
as Regiões do Brasil (Norte, Nordeste, Sul, Centro-Oeste, Sudeste e DF) no ano de 2017.

A partir da tabela abaixo observa-se a taxa de homicídios por 100 mil habitantes negras/os:

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Para verificar a associação entre a ​variável quantitativa “​Taxa de Homicídio de negros
por 100 mil” e a variável qualitativa “​Região do País”​, optamos pelo método apresentado por
Bussab e Morettin, apontando as variâncias como insumos para construir a medida que
quantifique o grau de dependência entre as variáveis. Os números de Negros foram obtidos
somando pardos e pretos.

Desta forma, o primeiro processo se deu no cálculo da variância global, portanto,


nacional, dos dados, no ano de 2017, a partir de uma nova tabela:

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Em seguida, agrupamos os dados quantitativos nas diferentes categorias da variável
qualitativa nas regiões: Norte, Nordeste, Centro-Oeste, Sudeste e Sul

Calculando a variância dos dados associados a cada categoria, obtivemos os valores:

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Norte: ​148,0914; ​Nacional:​ 381,0538
Nordeste: ​448,8925;
Centro-Oeste: ​152,9033
Sudeste: ​350,5367;
​Sul:​ 86,49

● Para gerar o gráfico, calculamos a mediana, o primeiro e o segundo quartis e os limites


inferiores e superiores para o conjunto de dados referentes a cada região;
● Conforme Bussab e Morettin, “se a variância dentro de cada categoria for pequena e
menor que a global, significa que a variável qualitativa melhora a capacidade de previsão
da quantitativa e portanto existe relação entre as duas variáveis” (BUSSAB e
MORETTIN, 2010, p.87);

Assim, tem-se as seguintes variâncias:

Norte: ​148,0914; Nacional: ​381,0538


Nordeste: ​448,8925;

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Centro-Oeste: ​152,9033
Sudeste:​ 350,5367;
Sul: ​86,49
Observa-se que as variâncias das regiões Norte, Centro-Oeste, Sudeste e Sul estão abaixo
da Nacional: 381,0538. Tal fato denota que os dados vinculados a essas categorias estão em
associação, haja vista a discrepância (como apresentado no gráfico box plot abaixo) entre a
variância nacional e o dado relativo à região Nordeste. Os dados das referentes à Região
Nordeste (cor amarela) têm maior dispersão se comparado às demais regiões, o que mostra,
portanto, que os dados vinculados ao Nordeste não possuem o mesmo grau de previsibilidade
que os outros.

Conforme apresentado no Atlas:

O forte crescimento da letalidade nas regiões Norte e Nordeste,


nos últimos dois anos, tenha sido influenciado pela guerra de
facções criminosas deflagrada entre junho e julho de 2016

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(Manso e Dias, 2018) entre os dois maiores grupos de
narcotraficantes do país, o Primeiro Comando da Capital (PCC)
e o Comando Vermelho (CV); e seus aliados regionais –
principalmente as facções denominadas como Família do Norte,
Guardiões do Estado, Okaida, Estados Unidos e Sindicato do
Crime.

Conclusão

Para os fins de conclusão deste trabalho, devemos mencionar, tendo em vista a


centralidade do exercício da coleta e sistematização dos dados, que, no que tange ao
delineamento da pesquisa, tanto a coleta quanto a análise foram feitas de forma criteriosa e
objetiva, integrando os dados observados, que Barbetta define, quando em situação como a de
nossa pesquisa, como dados ​secundários​, pois foram obtidos a partir de uma publicação ou
arquivo previamente acessado e estudado.
A coleta e a sistematização dos dados no trabalho decaem sobre a amostragem da
pesquisa, determinada a partir de um ​todo (taxa de homicídios por 100 mil habitantes,
homicídios de mulheres no Brasil, homicídios de pessoas negras) e da extração, a partir do
referido todo, de suas respectivas amostras (anos de escolaridade, raças das mulheres
assassinadas, região do país). Assim, teve-se o propósito de inferir, em decorrência do cálculo
das associações em questão, uma compreensão acerca de determinados marcadores sociais
intrinsecamente ligados à violência.
Nesse sentido, os resultados obtidos demonstraram, a saber, que a taxa de homicídios
entre jovens, no intervalo estudado, caminha junto ao crescimento da escolaridade a eles
relegada, aspecto este que indica a conexão entre mortalidade e aumento ou não dos anos de
estudo; que há, igualmente, correspondência entre o homicídio de mulheres no Brasil e o fato de
serem ou não negras, correlação esta de resultado expressamente forte; que, por sua vez, ser ou
não negro incide também nas taxas de homicídio referentes às diferentes regiões do país,
expondo um grau de dependência bem quantificado entre as variáveis, que caminham em
contiguidade.

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Assim sendo, é conclusivo que as hipóteses iniciais consideradas para a realização
deste trabalho tiveram comprovação, sendo elas relativas à atuação de dados fenômenos sociais
como os homicídios sobre determinados aspectos concernentes à marginalização social de
brasileiras/os, demonstrando, desse modo, seu embasamento teórico-metodológico a partir de
uma comprovação sistemática.

Referências bibliográficas

BARBETTA, P. A. Estatística Aplicada às Ciências Sociais - 5° Ed. ​Florianópolis: Editora da


UFSC, 2003.

CERQUEIRA, D.; BUENO, S.; LIMA R. S. de; NEME, C.; FERREIRA, H.; ALVES, P. P.;
MARQUES, D.; REIS, M.; CYPRIANO, O.; SOBRAL, I.; PACHECO, D.; LINNS, G.;
ARMSTRONG, C. Atlas da Violência 2019. Brasília: Rio de Janeiro: São Paulo: Instituto de
Pesquisa Econômica Aplicada; Fórum Brasileiro de Segurança Pública. 2019.

IPEA. Políticas sociais: acompanhamento e análise, v. 1, jun/2000. Brasília: Ipea, 2000.

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