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Anais do VIII Fórum de Pesquisa Científica em Arte.

Curitiba: ArtEmbap, 2011. ISSN 1809-2616

MUSEU E SOCIEDADE: UMA RELAÇÃO INTERDISCIPLINAR


Danielly Dias Sandy1
daniellyds@yahoo.com.br

Resumo: O presente trabalho trata de propostas interdisciplinares existentes nas


instituições museológicas para intensificar suas relações com a sociedade. A
comunicação entre ambas prevalece nesta interatividade, diminuindo a distância que
ainda existe entre público e museu. Essa interação possibilita e facilita o processo de
fruição da arte.

Palavras-chave: Museu; Sociedade; Interdisciplinaridade.

Abstract: This paper deals with the interdisciplinary proposals found in museological
institutions to intensify their relations with society. The communication between them
prevails within this interactivity, lessening the distance that still exists between
audience and museum. This interaction enables and facilitates the process of art
fruition.

Keywords: Museum; Society; Interdisciplinary.

MUSEU E SOCIEDADE: UMA RELAÇÃO INTERDISCIPLINAR

Na cultura de cada região é percebida determinada preocupação com a tradição da


passagem da memória para os seus descendentes. Esta preocupação cristaliza-se e manifesta-
se na sociedade de acordo com os preceitos de cada povo, dando origem a diversas formas de
transmissão de conhecimento e arte. Porém, em alguns lugares, a continuidade da tradição a
partir da transmissão por via oral, por exemplo, encontra-se debilitada por diversos fatores
que atingem a sociedade contemporânea, o que torna necessária a existência e a presença
ativa de lugares de fomento, como é o caso dos museus, dentre outras instituições formais ou
não-formais de preservação da memória e do patrimônio.

1
Responsável pela documentação dos Departamentos de Produção e Montagem e Planejamento Cultural do
Museu Oscar Niemeyer, Curitiba.
Anais do VIII Fórum de Pesquisa Científica em Arte.
Curitiba: ArtEmbap, 2011. ISSN 1809-2616

Embora a palavra museion tenha origem na Grécia antiga, os museus surgiram com a
prática do colecionismo na Idade Média e somente alguns séculos depois essas coleções
passaram a ser visitadas, mas apenas por um público seleto. É após a Revolução Francesa que
a maioria dessas instituições tornou-se bem do Estado, visando a formação de cidadãos
cônscios de sua história. Tais instituições sofreram mudanças ao longo de sua existência,
buscando seu aprimoramento, na maioria das vezes, de acordo com as necessidades sociais.
Uma das bases de estudo dos museus é a memória social. No Estatuto do Conselho
Internacional de Museus (ICOM) de 1987 encontramos uma definição para essas instituições:

um museu é uma instituição permanente, sem finalidade lucrativa, a serviço da


sociedade e de seu desenvolvimento, aberta ao público, voltada à pesquisa dos
testemunhos materiais do homem e de seu entorno, que os adquire, conserva,
comunica e, notadamente, expõe, visando a estudos, educação e lazer (GUIA de
Museus Brasileiros, 2000).

O século XX foi bastante profícuo do que se refere às mudanças no direcionamento


dos objetivos dos museus, ousando confrontar as bases tradicionais da museologia a partir de
questionamentos que levaram a novas concepções dessas instituições. Em 1972, houve um
encontro bastante significativo promovido pelo ICOM, conhecido como Mesa-redonda de
Santiago do Chile, "que introduziu o conceito de museu integral, abrindo novas trilhas para as
práticas museais" (BRUNO, 2010, v. 2, p. 18). Um dos caminhos apontados como consequência
da mesa-redonda de Santiago do Chile, foi o respeito à diferença e à pluralidade, o que
incentivou "a construção de uma Museologia aberta às múltiplas realidades e preconizou o
crescimento do técnico que procura interagir com a comunidade, assumindo seu compromisso
social" (BRUNO, 2010, v. 2, p. 103).
Mas, anterior a este evento, em 1958 no Rio de Janeiro, houve um Seminário da
UNESCO, no qual foi questionada a função educativa dos museus. Do mesmo modo,
posteriormente, aconteceram outros encontros de grande importância. No texto de Toral
encontramos um parecer sobre este precioso evento:

O museu deveria desenclausurar-se através não somente de programas didáticos


dirigidos à educação formal, mas também da utilização de outros meios a seu
alcance como o rádio, o cinema e a televisão, para atingir assim camadas mais
amplas da população e poder melhor difundir a sua mensagem. [...] Era necessário,
portanto, vencer o tradicionalismo do Museu conservatório de objetos, onde se
mostravam as curiosidades produzidas pelo homem ou pela natureza, para
transformá-la em meio de comunicação atrativo que pudesse incidir nos problemas
reais da comunidade (BRUNO, 2010, v. 2, p. 25)
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Com base nessa e em outras reuniões promovidas com o intuito de ampliar os


objetivos dos museus, estes passaram a ser vistos como meios de comunicação social de
grande valor e responsabilidade, principalmente na área educacional. A relevância da criação e
preservação de instituições museológicas passa a ser clara, partindo do princípio de que o
desenvolvimento de uma nação depende também do conhecimento de sua história e da
preservação de sua memória, o que interfere diretamente na evolução e no desenvolvimento
não apenas cultural, mas também educativo, entre outros. Para legitimar a importância de um
museu em meio a tantas outras instituições de caráter divergente, este precisa estar em
sincronia com as necessidades sociais, abarcando como meta critérios intrínsecos às
necessidades de cada cultura, ou melhor, um museu precisa dedicar-se à preservação,
pesquisa e comunicação e ainda, interagir com os diferentes grupos sociais a partir de projetos
de inclusão. Isso o torna objeto preeminente em qualquer comunidade e facilitador do meio
cultural. Sobre a comunicação museológica, segundo Cury (2006, p. 34), podemos observar:

A comunicação museológica é a denominação genérica que é dada às diversas


formas de extroversão do conhecimento em museus, uma vez que há um trabalho
de introversão. As formas são variadas, como artigos científicos de estudos de
coleções, catálogos, material didático em geral, vídeos e filmes, palestras, oficinas e
material de divulgação e/ou difusão diversos. Todas essas manifestações são, no
museu, comunicação no latu sensu. No stricto sensu, a principal forma de
comunicação em museus é a exposição ou, ainda, a mais específica, pois é na
exposição que o público tem a oportunidade de acesso à poesia das coisas. É na
exposição que se potencializa a relação profunda entre o Homem e o Objeto no
cenário institucionalizado (a instituição) e no cenário expositivo (a exposição
propriamente).

As diversas relações entre as instituições museológicas e a sociedade variam de acordo


com o grau de desenvolvimento e participação entre elas, o que depende bastante de cada
museu, assim como sua preocupação em relação à comunicação e a consciência de sua
responsabilidade social. Quando membros de uma instituição como um museu assumem o seu
papel e reconhecem a importância de sua tarefa diante da comunidade, com a criação de
projetos culturais, educativos, entre outros, surge naturalmente a relação interdisciplinar, por
meio destes meios de diálogos, abertos ao público em geral, o que promove não apenas a
instituição em si, mas também o seu acervo, sua pesquisa e, principalmente, a cultura como
meio de transformação social.
Proporcionar uma mediação ativa e efetiva que facilite a leitura das obras, encurtando
o espaço entre público-obra-artista e formando pessoas conscientes daquele espaço que
continuarão a frequentá-lo, torna-se preocupação primordial de um museu diante,
principalmente, do público escolar. Segundo estatística realizada por alguns museus, entre
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eles o MON (Museu Oscar Niemeyer), a maior porcentagem dos visitantes de museus são
oriundos de escolas. Geralmente é um público bastante interessado que, na maioria das vezes
motivado por professores, requer atenção especial com processos de mediação e arte
educação. Sempre após as visitas, parte dos professores continua trabalhando o conteúdo
visto nas exposições, em salas de aula, favorecendo o processo de fixação e assimilação dos
grupos. Por isso as escolas desempenham um papel necessário na área da difusão cultural,
despertando nos alunos a relevância daqueles lugares como guardiões de nossa memória e
identidade. As escolas devem incluir em seu programa anual dias de visitação aos museus, em
que os alunos poderão ser acompanhados não apenas por professores de artes, mas também
de história, literatura, entre outros, de acordo com a exposição em cartaz. Para isso, reclama-
se a flexibilidade e a criatividade de cada professor, como procedimentos escolares que
auxiliam no processo interdisciplinar. Essa experiência enriquece o universo poético de cada
criança ou adolescente, contribuindo com ferramentas necessárias básicas para fruir a arte de
seu entorno. Para facilitar a interação e aumentar a qualidade da fruição, a escola pode,
inicialmente, preparar seus alunos antes das visitas, com informações básicas. Essa preparação
excede os limites do padrão de obediência e deve gerar um clima de expectativa que aguça a
curiosidade de maneira espontânea e inteligente.
Dentre os diversos museus existentes em solo brasileiro, podemos observar as
diferentes formas de se comunicar com a sociedade. Cada uma delas torna-se instrumento de
inclusão e interação que fará com que o museu não fique à mercê do vazio, da falta de público,
ou mesmo da falta de recursos devido à baixa popularidade. Atualmente espalhados pelo
Brasil, existem fóruns e seminários que discutem exatamente este assunto. Esses encontros
buscam obter soluções efetivas no campo do diálogo que uma instituição museológica possa
estabelecer com a sociedade. Resultado dessas investidas, cada museu, preservando o seu
perfil, atinge e cativa o público de alguma forma, recorrendo aos trabalhos de mediação. Essa
mediação pode ocorrer a partir da ação educativa e ou cultural, de informações nos sites, do
acesso aos centros de pesquisa, às palestras e ao acervo em suas exposições. Um recurso
estimulante é criar dias de entrada gratuita e visitas virtuais. Todas estas são formas que os
museus têm de manter um diálogo aberto com a sociedade e trabalhar de maneira eficiente os
recursos governamentais ou privados, atraindo cada vez mais investidores.
Em países de primeiro mundo, é notória a vivência que as pessoas têm desde a
infância dentro de museus. Isso faz com que a comunidade aproveite e absorva com maior
intensidade o momento de fruição, que aprendam e multipliquem o conhecimento. Em
lugares menos privilegiados, onde as pessoas não têm o hábito de frequentar museus desde a
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infância e não possuem as ferramentas necessárias para o diálogo entre observador e objeto
museal, fica comprometido o momento da fruição. Estas pessoas, em alguns casos, tornam-se
turistas de museus, visitantes. A impossibilidade de contemplação, questionamento, reflexão,
empatia, nega-lhes a experiência estética.
Para o grande público de diversas regiões do Brasil, incluindo capitais e cidades do
interior, o trabalho da mediação torna-se parte integralmente importante da inclusão cultural.
O público, seja escolar ou não, pode receber as instruções de um educador, e permitir que a
partir de suas experiências e vivências, a obra faça sentido. Para estas pessoas, visitar um
museu, principalmente de arte contemporânea, sem ter acesso a informações importantes
para determinadas linguagens, torna-se uma experiência difícil e frustrante. A mediação leva
em consideração um público carente, enquanto “membros das classes mais cultas sentem
repugnância pelas formas mais escolares de ajuda” (BOURDIEU, 2007). O’Doherty (2002, p. 81)
discorre um pouco do distanciamento entre público e arte:

A hostilidade com o público é uma das principais diretrizes do modernismo, e os


artistas podem ser classificados conforme seu engenho, estilo e profundidade. [...]
Essa hostilidade está longe de ser insignificante e comodista – embora tenha sido
ambas as coisas. Pois por meio dela trava-se um conflito ideológico de valores – da
arte, dos modos de vida que a rodeiam, da matriz social em que ambos se inserem.

Todo mediador se expõe junto às obras, ao mesmo tempo que busca quebrar as
barreiras e limitações existentes, que separam o observador do objeto observado. Por
exemplo, quem nunca viu em alguma exposição, visitantes que entram, olham, e saem muitas
vezes da mesma forma que entraram, por mais que estas apresentem textos explicativos?!
Esse sentimento é perceptível em suas expressões que revelam um distanciamento da
exposição, seja por que não possuíam ferramentas necessárias para interpretar a obra, seja
por falta de afinidade cultural ou mesmo interesse. Isso mostra o quão necessário é o trabalho
de mediação. Através da prática e experiência, “o educador conhece bem as melhores
estratégias e conhece bem as reações do visitante diante de determinadas situações
expográficas. Ainda por trabalhar muitas vezes com o público organizado, o educador tem uma
relação com o espaço expositivo e sabe como o espaço pode interferir na interação do grupo e
deste com a exposição” (CURY, 2006). Isso não significa traduzir a obra para o espectador. O
que ocorre é simplesmente encurtar as relações do público com a obra, trazer confiança,
atenção e maior conhecimento de sua história. Quando se trata de um público marginalizado
em Wilder (2009, p. 29) encontramos a seguinte passagem:
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as normas a serem respeitadas na elaboração de programas destinados à construção


de sujeitos cônscios de seus valores, direitos e deveres são pautadas por uma ética
contemporânea: a escuta atenta dos anseios, saberes, crenças e valores, postura
especialmente importante quando os indivíduos já perderam a autoestima, situação
frequente em comunidades marginalizadas pelos mais diversos motivos. Nesses
casos, a teoria da ação cultural propõe um trabalho de assessoria e direcionamento
de atividades que devolvam aos indivíduos a capacidade de forjar sua própria
identidade cultural, para que o grupo tome consciência de seus valores, memórias,
saberes de sua cultura peculiar. O sentido de cidadania só terá condições de emergir
quando os sujeitos se perceberem partícipes de uma cultura que lhes fala à alma e
tratem de suas reais necessidades. [grifo meu]

No Brasil, muitos museus com perfil de instituição de educação não-formal elaboram


meios de envolver o público em práticas interdisciplinares que o aproxima da obra. É através
da relação com museus que parte do público tem o seu maior contato com a arte. Como
pensar em democratização da arte sem pensar em qualidade na formação de público para fruir
esta arte? Facilitar a existência e eficiência dos métodos de comunicação em museus é o
processo de democratização e acesso aos bens culturais que colaboram para uma sociedade
mais integrada à própria identidade e consciente de seu patrimônio. São reconhecíveis os
meios de comunicação museal por serem facilitadores da mediação, como uma exposição cujo
curador teve certa preocupação em relação ao público visitante e não somente com a estética
da mostra.
O pensamento curatorial seria basicamente o primeiro a mediar o conhecimento
acerca da exposição. Depois disso observamos o trabalho dos próprios mediadores, projetos
educativos e edutenimento2, material gráfico como folders, panfletos e também o site do
museu que conta como importante meio de informação museal. Todos estes elementos,
juntos, formam uma sistemática interdisciplinar capaz de envolver a comunidade com o
museu e consequentemente com a sua história e a sua arte. Não existe arte sem sociedade e a
sociedade limita-se por não conhecer a sua arte.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
BOURDIEU, P. O amor pela arte: os museus de arte na Europa e seu público. 2. ed. São Paulo:
Edusp, 2007.
BRUNO, M. C. O.; NEVES, K. R. F. (Coord.). Museus como agentes de mudança social e
desenvolvimento: propostas e reflexões museológicas. São Cristovão: Museu de Arqueologia de
Xingó, 2008.
BRUNO, M. C. O. (Coord.). O ICOM-Brasil e o pensamento museológico brasileiro: documentos
selecionados. São Paulo: Pinacoteca do Estado, 2010. v. 1 e 2.
CHAGAS, M. Museália. Rio de Janeiro: JC Editora, 1996.

2
Termo que designa educação com entretenimento.
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Curitiba: ArtEmbap, 2011. ISSN 1809-2616

GUIA de Museus Brasileiros: Comissão de Patrimônio Cultural. São Paulo: Uspiana Brasil 500
anos, 2000.
CURY, M. X. Exposição, concepção, montagem e avaliação. São Paulo: Annablume, 2006.
GIRAUDY, D.; BOUILHET, H. O museu e a vida. Belo Horizonte: Editora UFMG, 1977.
KOPTCKE, L. S. Bárbaros, escravos e civilizados: o público dos museus no Brasil. Revista do
Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN), n. 31, 2005.
O’DOHERTY, B. No interior do cubo branco: a ideologia do espaço da arte. São Paulo: Martins
Fontes, 2002.
VASCONCELLOS, C. M. Los retos de la actuación educativa en los museos. In: Museos,
universidad y mundialización: la gestión de las colecciones y los museos universitarios en
América Latina y el Caribe. Bogotá: Universidad Nacional de Colombia, 2010.
WILDER, G. S. Inclusão social e cultural: Arte contemporânea e educação em museus. São
Paulo: Editora UNESP, 2009.