Você está na página 1de 4

PROVA DE ESTILÍSTICA DA LÍNGUA PORTUGUESA

Nomes: Vinicius Dias, Diego Storto Nota:10

Questão 1:

Alguns autores tentam derivar o estilo a partir das noções de norma e desvio. Sendo
assim, o estilo seria uma espécie de desvio consciente das normas, gerando um efeito
expressivo no leitor.
Contudo, tal empreendimento não está isento de controvérsia. Não teria também a
norma um efeito expressivo e, por conseguinte, um estilo? Um argumento forte a favor
dessa tese é que mesmo usando a norma culta de modo a causar um determinado impacto
no interlocutor.
Surge ainda outra questão: se o estilo é individual ou coletivo. Esse questionamento
pode ser relacionado à questão desvio/norma. Um desvio de certa maneira pressupõe uma
ação individual de transgressão à regra coletiva. Portanto, o estilo procederia tão somente
do indivíduo. Mas se considerarmos que a norma possui uma expressividade, então não há
obstáculo para se derivar o estilo da coletividade.
Consideramos, portanto, que o estilo deriva não só do desvio, mas também da
norma. Também pensamos que o estilo pode ser pensado a partir de várias esferas.
Partindo do individual, passando por pequenas comunidades, até chegar no social
propriamente dito.
Questão 2:
O poema segue as combinações rítmicas ABABCCDDEE. O som das consoantes
"t", "r", "f", "m", "n" e "v" têm função expressiva, reforçando as sensações auditivas e
cinéticas do sentido das palavras tremer, fremir (tremor), tranco (ruído seco e violento) e
vento (sopro). O som das consoantes "l", "z" e "m" também têm função expressiva,
reforçando as sensações cinéticas e tácteis do sentido das palavras lesma, gosma, lasma
(que parece ser um neologismo de "lesma" com "lama"), mesma, musgo e escuma (s = /z/)
(sugerem deslizamento, leveza, suavidade, mole, ou seja, a viscosidade do corpo da lesma
e de seu fluido). O som da consoante "b" sugere pesadume (abas), as vogais nasais "on" e
"un" sugerem melancolia, distanciamento (fundo, concha).

Questão 3:
a) Segundo Bechara (2009, p. 219), o artigo definido se antepõe aos substantivos para
indicar que se trata de um ser já conhecido do leitor ou ouvinte, seja por ter sido mencionado
antes, seja por ser objeto de um conhecimento de experiência, assim, podemos supor que
o autor da fala se trata de um médico que está relatando o estado de saúde de um dos seus
pacientes, logo já conhecido, daí o artigo do artigo "o". O artigo definido também tem a
função de indicar o gênero e o número dos substantivos (CUNHA & CINTRA, p. 225). Com
isso, podemos concluir que o significado de "doente" é atualizado pelo artigo definido,
tratando-se, portanto, de uma pessoa doente e de uma pessoa doente do gênero masculino
("doente", por si só, não nos diz qual é o gênero em questão, sendo indispensável o uso do
artigo definido masculino). Além disso, segundo Cunha & Cintra (2013, p. 228), o artigo
definido pode ter uma clara distinção significativa, chamando a atenção para o objeto
possuído, que se evidencia como distinto de outras da mesma espécie, assim, em "o seu
ataque matinal", podemos supor que o emprego do artigo "o" sugere a ideia de que esse
ataque matinal específico possa ter sido mais forte do que outros ataques matinais
anteriores. Os autores também afirmam que o pronome possessivo pode ser usado para
designar um hábito (CUNHA & CINTRA, p. 337), logo "seu ataque matinal" nos diz que o
doente tem o hábito de ter ataques pela manhã. A conjugação adversativa "mas" aliada ao
advérbio "agora" têm a função de tranquilizar o ouvinte em reação ao estado do paciente.
Outras possibilidades de expressividade do pronome possessivo "seu", que poderiam ser
mais esclarecidas por um fornecimento maior de contexto, poderiam incluir a atribuição de
sentimentos negativos que o falante sente em relação ao doente, como de ironia, malícia,
sarcasmo (CUNHA & CINTRA, p. 339) (e essa teoria poderia ser reforçada pelo possível
expressividade léxica negativa ao falar a palavra "doente").

b) O artigo definido "a", em "na", tem a função de remeter a um fato já conhecido, no caso,
tal fato é a má educação do filho, e também de indicar o gênero e o número (CUNHA &
CINTRA, p. 225). O artigo definido "o", em "do", assim como o pronome possessivo "teu",
têm a função de reforçar o argumento de que o filho em questão é da mulher, e não dele
(pai), eximindo-se o marido, assim, da responsabilidade pela má educação de seu filho e
atribuindo-a toda à mulher (mãe), ou seja, é uma tática usada para a proteção de faces. O
artigo indefinido é empregado quando se trata de um simples representante de uma dada
espécie ao qual não se fez menção anterior e também para imprecisar esse ser (CUNHA &
CINTRA, p. 251), assim como o gênero e o número, daí o uso de "um marido irado" (um
marido qualquer). A depender do tom usado, "a sua" mulher poderia expressar um
sentimento maior de posse do marido pela mulher (o que é reforçado pela proteção de faces
usada pelo marido por meio do pronome possessivo "teu").
BACHARA, E. Moderna gramática portuguesa. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2009.
CUNHA, C; CINTRA, L. Nova gramática do português contemporâneo. Rio de Janeiro:
Lexikon, 2013.

Questão 4:
A escolha das palavras pode deixar transparecer juízos morais sobre uma descrição
aparentemente neutra. Pensemos no poema “Tragédia brasileira de Manuel Bandeira”.
O poema conta a história de Misael, senhor de 63 anos que tira Maria Elvira da
pobreza. O poeta escolhe palavras favoráveis a Misael e desfavoráveis a Elvira. Por
exemplo. Misael é “funcionário da Fazenda”, ou seja, um alto escalão do Estado (note-se
que Fazenda está em maiúsculo). Maria é descrita desta forma: “prostituída, com sífilis,
dermite nos dedos, uma aliança empenhada e os dentes em petição de miséria”. Além do
mais, é sugerido que Misael seja um bom marido “Dava tudo quanto ela queria”. É o rico
fazendo caridade a uma pobre, segundo o léxico escolhido por Bandeira.
Em seguida, a mulher que recebeu a caridade, começa a trair o marido, logo que se
tornou bela “Quando Maria Elvira se apanhou de boca bonita, arranjou logo um namorado”.
Manuel Bandeira usa um recurso estilístico engraçado. Não diz o número de
namorados, mas diz “toda vez que Maria Elvira arranjava namorado, Misael mudava de
casa”. Em seguida, o poema enumera nada menos que dezoito localidades, ainda por cima
colocou reticências para insinuar que poderia ser mais de dezoito. Isso tudo em três anos!
No final das contas, Misael mata sua amante. Contudo, poder-se-ia esperar um final
dando razão ao funcionário público, mas Manuel Bandeira não compactua com o idoso
“privado de sentidos e de inteligência, matou-a com seis tiros”.
Por fim, podemos concluir que se trata de uma grande ironia. Nenhum personagem
é louvável. Contudo, não temos a catarse trágica da compaixão pelos personagens. A
tragédia brasileira não é capaz de purificar nossos sentidos nos elevando a um estado
moral superior...
Quanto ao segundo texto, trata-se de uma briga real entre um casal. “Mais uma
mulher foi assassinada pelo companheiro”. A notícia começa dizendo que o assassinato da
mulher pelo esposo é corriqueiro. Colocando ao lado do poema de bandeira, podemos
pensar que já não causa mais comoção.
Depois de uma longa descrição detalhada da briga - diferindo-se de bandeira, que
preferiu destacar longamente a motivação do assassinato - , conta-se que Vilmar “estava
sob o efeito do álcool” e que não lembrava de nada. Semelhante a Misael que estava
privado de sentido e de inteligência. Mas há uma diferença. Na escola de Bandeira, parece
que Misael cometeu uma grande besteira, enquanto na notícia do casal parece haver uma
atenuação “ela sempre me batia”, “o que foi que eu fiz?”, além de ser afirmado que chorava.
Parece haver uma progressão inversa entre as duas narrativas. Misael começa como
herói caridoso que aguentou pacientemente a traição da mulher ajudada para terminar
como vilão. Vilmar começa como assassino cruel que mata a mulher a facadas na frente
dos filhos para depois termos o efeito de certa compaixão e atenuação do crime.