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A Cabala – Parte 3

Adão

O homem contém tudo o que está em cima, nos céus, e em baixo sobre a
terra, tanto as criaturas terrestres, como as celestes; por esta razão, o
Ancião entre os Anciões escolheu o Homem como Sua Divina manifestação.
Nenhum Mundo poderia existir antes de Adão ter recebido vida, pois a
figura humana contém todas as coisas e tudo o que é existe em virtude
dele.
(Zohar, Espanha, século XIII).

Ao longo dos séculos, o Mundo Divino de Azilut recebeu numerosos títulos e


foi descrito de diferentes maneiras.
Alguns rabinos viram-no como a Túnica de Luz com que Deus envolve a
Divina Presença; alguns o simbolizaram como o Shem ha Meforash, "o
muito especial Nome de Deus", representado pelas quatro letras YHVH.

O Shem-ha-Meforash, o Nome especial de Deus que foi dito a Moisés, pode ser observado numa
disposição vertical, como a imagem aproximada de Adam Kadmon, o Primeiro Homem.
As letras hebraicas Yod, He, Vav, He são consideradas a representação não só da divina Vontade, do
Intelecto, da Emoção e da Ação, mas também dos quatro níveis da Emanação, da Criação, da Formação
e do Fazer, situados nos três Pilares da Vontade, da Misericórdia e da Severidade.
A esta figura do Kavod ou Glória Divina, composta de fogo branco e preto, se alude em Ezequiel COMO a
"aparência de um homem".
(O Nome Divino, representado como Adam Kadmon).
Foi chamado a Glória de Deus e em certo momento da história da cabala,
foi projetado na imagem de uma grande figura humana radiante chamada o
Kabod.
Este Homem Divino aparece na visão do profeta Ezequiel, que viu os Quatro
Mundos como a imagem de um homem (Azilut) sentado num trono celestial
(Beriah) colocado sobre um carro (Yezirah) o qual, por sua vez, avançava
sobre a terra (Asiyyah).

No período do Segundo Templo da história judaica (século VI a.C.- século I d.C.) o que hoje se conhece
como a cabala se chamava então o Trabalho do Carro. O nome provém da visão profética de Ezequiel,
cujos escritos foram a base de numerosas experiências místicas e pensamentos judaicos.
O capítulo primeiro de Ezequiel expressa, na linguagem metafísica da época, a hierarquia dos Mundos: o
Mundo da Ação, ou a terra; o Mundo do Carro, ou a Formação; o Mundo do Trono, ou a Criação; e o
Mundo Divino da Emanação, representado por Adão, a imagem da Glória de Deus. Estas visões dos
Mundos superiores deviam ser procuradas através do Trabalho do Carro, apesar dos perigos que
implicava para os impuros, os desequilibrados e os não preparados.
(Visão de Ezequiel, segundo a Bíblia Bear, Inglaterra, século XVII).
O primeiro Homem Azilútico, inspirado (como cada um de nós) na
configuração das dez Sefirot, foi, pois, um Adão antes de que o Adão do
Gênesis fosse criado e formado; seu nome é Adam Kadmon.
É o primeiro dos quatro reflexos de Deus que se toma manifesto ao
estender a existência a partir da Divindade até a Materialidade, antes de
voltar a unir-se de novo no fim dos Tempos.

Adam Kadmon contém tudo aquilo que é necessário para completar a tarefa
da semelhança Divina.
É ao mesmo tempo espelho e observador, e dentro de seu ser possui
vontade, intelecto, emoção e capacidade de ação.
Mas, acima de tudo, Adam Kadmon está consciente do Divino, embora no
momento de sua inspiração, apenas tenha conhecimento inocente disto,
assim com um peixe está inconsciente do mar onde vive.
Apenas depois de uma descida através de todos os Mundos chegará a
conhecer por experiência todos os aspectos da Divindade, percebendo em si
mesmo e no universo a Face de Deus; seu reflexo, contudo, como o de
qualquer espelho, é apenas uma imagem, nunca a realidade.
O contato direto apenas se dá por meio da Graça, ou através da Conclusão
do ciclo completo, em ambos os casos, através da Manifestação e voltando
à sua origem através de Teshuvah, ou redenção.
A composição de Adão Kadmon se baseia nas Sefirot.
Enquanto a Árvore da Vida cresce para baixo a partir da Coroa, Adam
Kadmon permanece de pé (Ver figura da página seguinte).

Por cima de sua cabeça está Keter, a Coroa, enquanto as duas Sefirot
laterais da Sabedoria e do Entendimento, Hokhmah e Binah, estão
relacionadas com seus dois hemisférios e sua garganta, pois é aí onde ele
vê, ouve, cheira e fala.
As Sefirot do coração, Gevurah e Hesed, a justiça e a misericórdia, estão
colocadas à esquerda e à direita de seu peito; enquanto a Sefirah central,
Tiferet ou o eu, se situa sobre seu plexo solar.
As duas Sefirot interiores, exteriores e funcionais, Hod e Nezah, estão
associadas às pernas e o Yesod, o Fundamento generativo, aos órgãos
genitais; Malkhut, o Reino, encontra-se a seus pés.
Geralmente, embora nem sempre, é representado de costas, tal como
Moisés viu a imagem Divina (Êxodo, 33:20:
"Pois nenhum homem que tenha visto (Meu Rosto) viverá"), de modo que
os lados ativo e passivo encontram sua posição natural à direita e à
esquerda do Pilar central da espinha dorsal.
Encontram-se referências a esta enorme figura Divina em numerosos
trabalhos cabalísticos antigos, e algumas pessoas que a levam ao pé da
letra ficam receosas do detalhe do rosto, barbas e membros sugerindo a
gigantesca estatura de Deus.
Na realidade, o símbolo de Adão Kadmon, como muitos outros, não é mais
do que uma analogia, forma metafórica, das leis expressas pela disposição
dos Divinos Atributos.
Muitas outras tradições consideraram o Homem, enquanto imagem de
Deus, como modelo perfeito para o estudo do Divino.
Os cabalistas não são exceção e continuam a máxima exotérica: "O que
está em cima está em baixo" em seu estudo do macrocosmo e do
microcosmo.
A figura de um homem primordial, Azihático, a imagem de Deus, é a encarnação das Sefirot. Esta, a
imagem mais perfeita da Divindade, é vista não como Deus, mas como Seu reflexo e, portanto, uma
representação de EL que não contradiz o Segundo Mandamento.
Azilut, o Mundo Divino da Emanação, não é Deus, mas Sua túnica de Luz.
(Adam Kadmon, Homem Primordial, mostrando as Sefirot).

Do Homem Divino Adam Kadmon, bem como do Azilut, surge o Adão


Beriático, criado ao sexto Dia, quando a ação se concentrou em Yesod ou
Fundamento da Árvore da Criação (Ver figura na página seguinte).
A lenda judaica estabelece que este Adão Beriático foi criado como a última
de todas as criaturas para que fosse humilde; o conceito cabalístico é que
todas as demais criaturas sem exceção - inclusive anjos e arcanjos - têm
seu fundamento no Adão de Azilut, mas foram deixados incompletos:
apenas o Adão Beriático foi uma imagem completa do Divino.
Este fato explica o mito dos ciúmes e da discórdia entre as legiões
angélicas; aqueles que não quiseram reconhecer a superioridade humana,
como Lúcifer, foram relegados à tarefa de conduzir as forças caóticas que
assolam o universo, em especial o homem.
A rebelião na Criação, ainda antes da queda de Adão, ocorreu porque os
habitantes da Criação, que foi o primeiro dos Mundos separados procedente
do Divino, permitiu-lhes inicialmente certo grau de livre arbítrio.
Este traço inerente de desvio do plano cósmico era corrigido, segundo diz a
lenda, pelo vínculo do Nome Divino EL ao nome funcional de cada criatura
angélica, de modo que nunca pudesse exercer mais poder do que o
desejado por Deus.
Assim, cada ser celestial foi limitado à sua tarefa, como o anjo Shalgiel, que
apenas se ocupava da neve.
Em Beriah, Adão, existindo agora como entidade separada a nível do
espírito, ainda não tinha sido posto à prova, pelo que a manifestação da
imagem de Deus foi projetada no interior do terceiro Mundo da Formação,
Yezirah, ou o Eden.
Ali, os dois aspectos, macho e fêmea, já separados, mas relacionados entre
si, assumiram o papel ativo e passivo (ou, conforme definem alguns
cabalistas, a relação interna entre Adão o espírito e a alma de Eva).
Com a intrusão da tentação em seu mundo idílico, deu-se o rompimento
deliberado da única regra que lhes fora imposta.
Com ela chegou o Conhecimento do Mundo da Criação e a possibilidade de
comer da Árvore da Vida, isto é, Azilut; assim foram precipitados no Mundo
inferior da materialidade e receberam túnicas de pele (Gênesis, 3:21), isto
é, corpos carnais.
Ali foram submetidos ao maior número de leis, para resguardarem-se
relativamente ao universo das consequências de seu livre arbítrio até
amadurecerem e adquirirem maior responsabilidade.
Sob forma mitológica, esta é uma explicação de como chegamos à terra.
Alguns cabalistas consideram que o acontecimento da Queda foi previsto
por Deus, como um pai que deixa a criança cometer uma falta para
aprender.
Desta forma, Adão experimenta todos os níveis da existência, tanto para
cima como para baixo, no seu intento por recuperar, primeiro o Éden,
depois o Céu da Criação e, finalmente, a União com o Divino.
A tradição cabalística, vendo a situação a partir de baixo, considera
numerosos detalhes com relação as nossas origens e encarnação enquanto
corpo Azilútico de Adam Kadmon, e, portanto, já tínhamos existência antes
do princípio da Criação; a Criação iria ser o assentamento de nosso destino
individual.
Quando os Quatro Mundos ficaram completos e operacionais, a parte Divina
de cada ente humano se diferenciou em células dentro do ser do Adão
Criado (Beriático).
Aí, no reino do espírito puro, permanecíamos na inocência até sermos
arremessados para o Paraíso, a casa do tesouro das almas, onde a parte
Beriática diferenciada de nossa natureza, que continha o resplendor divino
de Azilut, assumiu uma forma Yezirática, na espera de baixar e encarnar-se
no universo físico de Asiyyah.
Quando esse momento chegou, fomos chamados perante o Mais Alto, Que
nos disse qual a tarefa individual e os dons que havíamos recebido para
levá-la a cabo.
Este é nosso destino, embora aparentemente haja uma grande resistência a
descer ao que um cabalista chamou "vale de lágrimas".
A resposta é sempre: "Para isto foste chamado, criado, formado e feito."
Uma tradição diz-nos, também, que quando um casal está em união sexual,
a presença invisível de seu filho paira por cima deles, e que quando se dá a
concepção, o corpo Beriático ou espírito, e o corpo Yezirático ou alma se
unem ao corpo embriônico Asiyyático deste mundo.
Conforme o feto cresce, a pessoa que há de ser encarnada dedica-se a
adquirir uma túnica de pele.
Os relatos detalhados acrescentam que durante este tempo de gestação
física é mostrado à pessoa sua vida futura, as pessoas com quem se
encontrará e os lugares por onde irá.
Percebe também os resultados das vidas de outras pessoas depois da
morte, e os níveis a que individualmente poderiam subir ou descer segundo
sua atuação; de maneira que já não está num estado de inocência, pois
inicia o processo da experiência enquanto passa por meio da gestação à
encarnação.
Quando a criança nasce, o processo pré-natal se interrompe e a pessoa
começa a esquecer suas visões dos Mundos superiores ao ficar cada vez
mais envolvida na vida física que supõe ser a de um bebê.
De vez em quando, porém, recordará vagamente um momento pré-natal e
mais tarde até reconhecerá uma cena ou um indivíduo que lhe foram
mostrados antes de seu nascimento.
As pessoas que conhecerá estão também envolvidas no plano cósmico e
também têm que viver sua sina e seu destino; assim, quando se encontram
duas pessoas que tinham se conhecido antes da vida, dá-se uma estranha
familiaridade.
Uma vez nascida no reino natural, submetida a leis - tais como ser
composto de matéria mineral, ter de alimentar-se e propagar-se como um
vegetal e de mover-se e relacionar-se com outros como um animal - pode-
se dizer que a pessoa já atravessou pessoalmente de cima abaixo os quatro
Mundos completos.
Todavia, à medida que vai amadurecendo, passando pelas diferentes etapas
da sua vida, veremos também que começa sua ascensão para o retorno aos
Mundos superiores.
Este processo de subida segue o Raio Relampejante invertido,
desenvolvendo primeiro todo o seu corpo, o Malkhut, durante o período
fetal; depois o ego, o Yesod, durante a infância, o Hod, sua capacidade de
aprender, durante a adolescência, e por fim, a Nezah, correspondente às
preocupações ativas e instintivas da juventude.
Ao atingir a etapa do Tiferet, ou a consciência do eu - a primeira da vida -
pode optar por parar e não desenvolver-se mais, e passar simplesmente o
resto da vida repetindo ou cultivando as forças e as debilidades das Sefirot
inferiores, tendo por preocupação única o materialismo de Malkhut, o
egoísmo de Yesod, os jogos de inteligência de Hod ou os prazeres sensuais
de Nezah.
Caso a pessoa desenvolva certa vontade própria ou poder de Tiferet, pode
tornar-se indivíduo dominante ou mesmo importante (mas natural), um
"homem animal" dedicado a dirigir os demais com boa ou perversa vontade.
Tais indivíduos se encontram entre políticos e em qualquer profissão de
influência, desde a ciência à arte e à indústria.
Aqui mais uma vez o indivíduo pode permanecer durante toda sua vida, até
perder seu poder e ser substituído por outro rei ou rainha natural.
Apenas aqueles que vêm a vida como algo mais que o conforto, o poder e a
posição social podem seguir em frente para perceber as conexões internas e
mais elevadas com os Mundos superiores.
Esta etapa requer, porém, algo mais do que o desejo de elevar-se ou de
suposições sobre essa outra realidade.
É necessário começar pelo conhecimento de si mesmo, o que nos conduz à
visão cabalística da anatomia da psique.

Continua