Você está na página 1de 254

HISTÓRIA REGIONAL

E LOCAL II
O PLURAL E O SINGULAR EM DEBATE
Universidade do Estado da Bahia - UNEB

Lourisvaldo Valentim da Silva


Reitor

Maria Nadja Nunes Bittencourt


Diretora da Editora

Conselho Editorial

Atson Carlos de Souza Fernandes


Jose Bites de Carvalho
José Cláudio Rocha
Liege Maria Sitja Fornari
Ligia Pellon de Lima Bulhões
Luiz Carlos dos Santos
Narcimária do Patrocínio Luz
Sandra Regina Soares
Wilson Roberto de Mattos

Suplentes

Diego Gervásio Frías Suarez


Gilmar Ferreira Alves
Juracy Marques dos Santos
Leliana de Souza
Mariângela Vieira Lopes
Miguel Cerqueira dos Santos
Valdélio Santos Silva
Sara Oliveira Farias
Maria das Graças de Andrade Leal
(Organizadoras)

HISTÓRIA REGIONAL
E LOCAL II
O PLURAL E O SINGULAR EM DEBATE

EDUNEB
Salvador
2012
© 2012 EDUNEB
Proibida a reprodução total ou parcial por qualquer meio de impressão, em forma idêntica,
resumida ou modificada, em Língua Portuguesa ou qualquer outro idioma.
Depósito Legal na Biblioteca Nacional
Impresso no Brasil 2012.

Ficha Técnica
Coordenação Editorial
Ricardo Baroud

Coordenação de Design e Capa


Sidney Silva

Editoração Eletrônica
GeorgeLuís

Ilustração Capa
Paulo Torinno

Ficha Catalográfica - Sistema de Bibliotecas da UNEB

História regional e local II: plural e singular em debate / Organizado por Sara
Oliveira Farias; Maria das Graças de Andrade Leal . – Salvador: EDUNEB, 2012.
248p.

ISBN: 978-85-7887-137-6.

Contém referências.

1. Historiografia. 2. Regionalismo - Salvador (BA) - Séc. XVIII - XX. 3.


História local - Salvador (BA) - Séc. XVIII - XX. 4. Escravidão - Brasil. 5. Brasil
- História - Abolição da escravidão, 1888. I. Farias, Sara Oliveira. II. Leal,
Maria das Graças de Andrade.

CDD: 907.2

Editora da Universidade do Estado da Bahia - EDUNEB


Rua Silveira Martins, 2555 - Cabula
41150-000 - Salvador - Bahia - Brasil
Fone: +55 71 3117-5342
eduneb.editora@gmail.com
editora@listas.uneb.br
www.eduneb.uneb.br
HISTÓRIA REGIONAL
E LOCAL II
O PLURAL E O SINGULAR EM DEBATE
SUMÁRIO

Apresentação 9
Sara Oliveira Farias e Maria das Graças de Andrade
Leal

PARTE 1
Sobre História, o regional e o local na historiografia
contemporânea

História local e regional – singularidades de uma


história plural 23
Maria da Conceição Meireles Pereira
História, narrativa e tempo: entrelaçamentos 53
Antonio Paulo de Morais Rezende
Bahia em pedaços: desafios para o historiador 69
Antônio Fernando Guerreiro Moreira de Freitas

PARTE 2
A América portuguesa na perspectiva da
historiografia regional e local

O cotidiano dos cárceres inquisitoriais 89


Marco Antônio Nunes da Silva
A história regional da Bahia Colonial nos documen-
tos manuscritos do Projeto Resgate: possibilidades
da pesquisa histórica a partir da experiência de ela-
boração do Catálogo de Documentos Manuscritos
referentes à Capitania de Porto Seguro existentes
no Arquivo Histórico Ultramarino 117
Francisco Eduardo Torres Cancela
Poder, política e crises de subsistência (Salvador,
século XVIII) 135
Avanete Pereira Sousa

PARTE 3
História, escravidão, abolição e pós-abolição no
Brasil

Candeal: genealogia de uma família africana em um


bairro de Salvador – Bahia (séculos XVIII-XX) 159
Maria das Graças de Andrade Leal
O Partido Abolicionista 191
Ricardo Salles
Da diáspora africana à construção das comunidades
quilombolas: memória e identidade 217
Carmélia Aparecida Silva Miranda

Sobre os Autores 247


APRESENTAÇÃO

O mestrado em História Regional e Local da


Universidade do Estado da Bahia (UNEB), através de
seus docentes e demais pesquisadores e professores das
Universidades do Porto-Portugal, Federal da Bahia (UFBA),
Federal de Pernambuco (UFPE), Federal do Estado do
Rio de Janeiro (UNIRIO), Federal do Recôncavo da Bahia
(UFRB) e Estadual do Sudoeste da Bahia (UESB), reuniu,
neste II° Volume da coletânea História Regional e Local:
o plural e o singular em debate, resultados apresentados
em Mesas Redondas e Conferências durante o II Simpósio
de História Regional e Local, realizado entre os dias 17
e 20 de outubro de 2011 no Departamento de Ciências
Humanas no Campus V, em Santo Antônio de Jesus-
Bahia, e outras colaborações de pesquisadores com textos

9
que refletem o propósito desta publicação. Reflexões
teóricas e metodológicas relacionadas ao complexo
campo de investigações relacionado à nomeada História
Regional e Local até estudos temáticos vinculados aos
territórios da nova História Social da Escravidão, do pós-
abolição e da América portuguesa, compõem o conjunto
desta publicação. São textos que revelam o rico debate
que vem aprofundando e dissolvendo perspectivas,
simultaneamente, ao enriquecerem e fortalecerem
as diversas produções que potencializam a escrita
historiográfica brasileira e internacional.
Iniciando com a problematização teórico-metodoló-
gica sobre História, o Regional e o Local, o texto de Ma-
ria da Conceição Meireles Pereira (Universidade do Porto
- Portugal), ‘História Local e Regional – singularidades
de uma história plural’, reconhece o domínio da História
Local e Regional como vasto e complexo e discute como
este domínio se caracterizou ao longo dos tempos na his-
toriografia europeia, centralizando sua análise em Por-
tugal e revelando opiniões contrárias e favoráveis a este
campo de estudo. Dessa forma, historiciza o marco dos
interesses por este tipo de análise historiográfica, seu ápi-
ce no início do século XX, sobretudo a partir dos anos de
1930, e situa a presença dos estudos históricos de âmbito
local nas universidades portuguesas e como influencia-
ram na organização de congressos e criação de cursos de
pós-graduações. Como contraponto ao desenvolvimento
dos estudos locais, analisa a historiografia portuguesa
recente na discussão sobre a nomeada História Regional
e Local. Nesse sentido, a autora considera mais eficaz e
necessário discutir fontes e metodologias utilizadas na

10
escrita da história do que a própria definição de um con-
ceito pronto e acabado, provocando no leitor muito mais
questionamentos e dúvidas do que certezas.
Em seguida, Antônio Fernando Guerreiro Moreira
de Freitas (UFBA), em ‘Bahia em Pedaços: desafios para
o historiador’ produz um ensaio que tem como objetivo
provocar reflexões “aos jovens historiadores” sobre o
objeto Bahia. Uma configuração social, política, cultural
e espacial heterogênea onde os historiadores só podem
compreendê-la através de muita criatividade, atrevimento
e com aptidão para enfrentar desafios e dificuldades,
como por exemplo ausência de bibliotecas e arquivos,
inexistência de idosos como guardiões da memória do
lugar. No texto, o autor discute as múltiplas faces da
Bahia e convida o leitor a “viajar” por algumas regiões
e “recantos” baianos para verificar como cada um dos
“pedaços” foram se formando. Nesse sentido, organiza
sua narrativa priorizando os aspectos da economia e da
política para tentar explicar cada lugar como a região
do São Francisco, o extremo sul, o sertão e Chapada
Diamantina, mostrando, sobretudo, como em muitos
casos as regiões não se desenvolveram. Mapeando a
Bahia, Antônio Guerreiro afirma que não existe uma
única identidade e, sim, a ocorrência de práticas comuns
nesses lugares como a pecuária e a produção de derivados.
Após comentar sobre algumas dessas regiões, concentra
sua análise em Salvador e revela outra Bahia, diferente
daquelas até então apresentadas. A capital do estado e
as demais regiões são marcadas por histórias plurais e o
desafio do historiador, sobretudo os jovens historiadores,

11
é de estarem sempre atentos para compreender a Bahia
plural.
Ampliando a reflexão em torno da ‘História, nar-
rativa e tempo: entrelaçamentos’, Antonio Paulo de Mo-
rais Rezende (UFPE) discute a natureza da história na
contemporaneidade, proporcionando uma reflexão sobre
Narrativa e História. No paradigma pós-moderno, o ofí-
cio do historiador deixa de se preocupar com verdades
absolutas, com a completude da vida, com o passado sem
conexão com o presente para tentar entender o encontro
da história com a narrativa. É assim que o autor associa
o viver com a história, vida e história estão entrelaçadas,
estabelecem constantes diálogos e são tecidas no tempo
presente, mostrando sobretudo que o historiador está na
vida, seu tempo é o tempo presente. Se relaciona com o
cotidiano da vida, dando sentido à História. Novas for-
mas, novos olhares instituem outros pensamentos sobre
a prática da história, destacando dois elementos signifi-
cativos para a construção de narrativas. Antonio Paulo
mostra que a forma de como se vive é como se conta a
história, ao produzir outros pensamentos, outras ideias e
paradigmas sobre o historiador e seu fazer histórico.
Do bloco temático aqui reunido, estão os textos
dedicados à “América portuguesa na perspectiva da
história regional e local”, como ‘O cotidiano dos cárceres
inquisitoriais’ de Marco Antônio Nunes da Silva (UFRB);
‘A história regional da Bahia colonial nos documentos
manuscritos do Projeto Resgate: possibilidades da
pesquisa histórica a partir da experiência de elaboração
do Catálogo de Documentos Manuscritos referentes

12
à Capitania de Porto Seguro existentes no Arquivo
Histórico Ultramarino’ de Francisco Eduardo Torres
Cancela (UNEB); e ‘Poder, política e crises de subsistência
(Salvador, século XVIII)’ de Avanete Pereira Sousa (UESB).
No texto intitulado ‘O Cotidiano dos cárceres
inquisitoriais’, Marco Antônio Nunes da Silva centraliza
a importância dos estudos sobre o cotidiano dos cárceres
inquisitoriais através de um tipo de documentação,
segundo ele pouco explorada: os cadernos do promotor
que trazem denúncias referentes à Inquisição de
Lisboa, no século XVII. Através do uso de bilhetes, da
comunicação realizada por meio de códigos, como por
exemplo, o ABC, o autor traça um complexo mosaico
das relações sociais tecidas no dia a dia das prisões
inquisitoriais. Os setenta cadernos do promotor colocam
questões significativas para os estudos sobre a Inquisição
em Lisboa. Apesar de proibida, como demonstra o texto, a
comunicação era realizada entre os próprios presos, entre
estes e seus familiares e contava-se com uma verdadeira
rede de pessoas que facilitava o contato, como os guardas
da vigilância, cozinheiras, uma vez que a comida se
transformou em um dos veículos de comunicação bastante
utilizado, constatando-se, portanto, que nos cárceres não
havia “segredo algum.” Nesse sentido, o estudo revela
uma questão fundamental: com base na documentação
pesquisada, pode-se pensar até que ponto a Inquisição
teve tanto poder como é frequentemente anunciado em
grande parte dos trabalhos que abordam a temática.
Francisco Cancela, por sua vez, apresenta, no texto
‘A história regional da Bahia colonial nos documentos

13
manuscritos do Projeto Resgate: possibilidades da
pesquisa histórica a partir da experiência de elaboração
do Catálogo de Documentos Manuscritos referentes
à Capitania de Porto Seguro existentes no Arquivo
Histórico Ultramarino’, o desafio estimulador para
os cursos de história da Universidade do Estado da
Bahia na perspectiva da formação e/ou consolidação
de uma historiografia baiana para além de Salvador e
seu recôncavo. A partir do aporte teórico-metodológico
da nova história, particularmente no que se refere à
potencialidade e abrangência temática presentes na
documentação do Arquivo Histórico Ultramarino de
Lisboa (AHU), disponibilizado para os pesquisadores
brasileiros através do Projeto Resgate de Documentação
Histórica “Barão de Rio Branco”, torna-se viável investir-
se em pesquisas sobre a América Portuguesa em seu
recorte regional e local, sobretudo para a Bahia e Porto
Seguro, simultaneamente. Pesquisadores e demais
curiosos da história colonial baiana são convidados a
mergulhar no rico e diversificado acervo do AHU por este
proporcionar um novo olhar sobre a história da Bahia e
em especial sobre a antiga capitania de Porto Seguro nos
séculos XVII ao XIX. Desta forma, Cancela caracteriza
em manancial inesgotável para a formulação de uma
historiografia regional, que permitirá redefinir o lugar
da própria Capitania de Porto Seguro na história colonial
baiana e brasileira ao evidenciar as suas especificidades
geográficas, administrativas, sociais e econômicas,
bem como as questões indígenas e indigenistas que
influenciaram na configuração de uma realidade colonial
diferenciada, mas, em nenhum aspecto, inerte, decadente

14
ou desprezível – como a historiografia tradicionalmente
a classificou.
Em ‘Poder, política e crises de subsistência (Salvador,
século XVIII)’, Avanete Sousa (UESB) analisa as tensões e
os conflitos relacionados ao controle sobre os sistemas de
produção, circulação e consumo de gêneros de primeira
necessidade, sobretudo da farinha, popularmente
conhecida como “o pão da terra”, na Salvador do século
XVIII, marcadamente a partir da década de 1780. Do
ponto de vista das ações locais sobre a vida cotidiana
na cidade, através do tema do abastecimento, estão
discutidos os processos vinculados às mudanças
desagregadoras das bases sob as quais se pautavam
o colonialismo mercantilista e o Antigo Regime em si
e que atingiam “o velho e o novo mundo”, causando o
rompimento total das relações coloniais, e que exigiam
políticas reformistas capazes de conter possíveis revoltas
e insurreições. A intensidade da crise iniciada em 1780,
e que perdurou pelo século XIX, passou a exigir das
autoridades coloniais medidas mais enérgicas, chegando-
se à instalação do Celeiro Público da Bahia, em 1785, cujo
objetivo era regular a falta de mantimentos de primeira
necessidade, cuja situação se caracterizava em alto risco
social. Para Avanete Sousa, este não cumpriu o seu
objetivo e consistiu muito mais em controlar os sistemas
de produção, circulação e consumo de gêneros pelo
Estado e, consequentemente, fortalecer o poder central.
Por fim, para o bloco temático “História, escravidão,
abolição e pós-abolição no Brasil”, Ricardo Salles
(UNIRIO), em ‘O Partido Abolicionista’, desenvolve,

15
a partir da nova História Social da Escravidão, uma
importante análise acerca do movimento abolicionista no
Brasil, ao discutir o processo político-social que culminou
no Treze de Maio, trazendo à cena o protagonismo do
escravo nas lutas pelo fim da escravidão. Apoiando-se no
conceito gramsciano de partido e na experiência escrava
de 300 anos, Salles privilegia aspectos que revelam,
no abolicionismo, a complexidade de um movimento
que catalisou lutas e vivências de escravos, libertos
e de trabalhadores livres, em torno da bandeira da
abolição imediata e sem indenizações, e promoveu ações
políticas, no parlamento, no espaço público, nas ruas,
nos campos e nas senzalas, de forma mais ou menos
articulada nacionalmente. Ao tomar como referência a
obra de Joaquim Nabuco, “O Abolicionismo”, onde estão
refletidas as discussões travadas no parlamento e entre
diversos grupos, organizações e personalidades que,
progressivamente, aderiam à causa abolicionista, Salles
situa o abolicionismo na cena política, onde senhores
e governo passaram a adotar uma postura defensiva,
ao responderem aos acontecimentos no lugar de
anteciparem-se ao que poderia suceder. Por fim, a vitória
abolicionista minou as bases sociais da ordem imperial
e o Treze de Maio representou o ocaso do abolicionismo
no pós-abolição. Nenhuma outra forma alternativa de
vontade coletiva, nos moldes do partido gramsciano, se
estruturou a fim de imprimir uma nova direção moral e
intelectual para a nação republicana, com base em uma
construção política e cidadã efetivamente multirracial.
Dentre as heranças da obra da escravidão, o racismo
foi a forma, mesmo que difusa e insidiosa, de retirar o

16
“mandato da raça negra”, como queria Nabuco, em 1883,
da cena republicana, cuja questão se mantém aberta.
Por sua vez, Maria das Graças de Andrade Leal
(UNEB) apresenta os percursos da família africana
Mendes e Sant’Anna na constituição do bairro Candeal,
localizado no distrito de Brotas, em Salvador, nacional
e internacionamente conhecido através do músico
Carlinhos Brown, destacando aspectos de relevância
histórica referentes às origens de uma comunidade
urbana construída sobre as bases africanas. ‘Candeal:
genealogia de uma família africana em um bairro de
Salvador – Bahia (séculos XVIII-XXI)’ é um texto que
revela o potencial temático a ser desbravado no âmbito
da nova história social da escravidão, não somente por
ser um exemplo de espaço comunitário urbano de matriz
africana, associado às transformações fundiárias e
urbanas processadas na Bahia, desde o século XVIII, mas
especialmente, por se constituir, a partir da documentação
cartorial e de testemunhos orais, em importante estudo
sobre a trajetória de uma família de africanos libertos na
formação da comunidade, observando seus processos de
sobrevivência na Bahia escravista, as suas experiências
sociais e culturais ancoradas na religiosidade, na
própria escravidão, nas conquistas de bens materiais
e simbólicos que geraram lendas e memórias que
permanecem guardadas e disseminadas pela oralidade e
pelo imaginário de descendentes diretos e moradores. As
terras do Candeal, adquiridas por compra ou aforamento
entre finais do século XVIII e meados do XIX pelos
africanos Antônio Mendes da Silva e Josepha Maria de
Santa’Anna, foram sucessivamente divididas e vendidas

17
a terceiros pelas cinco gerações que se sucederam e pela
ocupação desordenada que, a partir de meados do século
XX, provocou a alteração da sua antiga fisionomia rural
para outra confundida com a de uma favela.
Do tráfico de escravos pelo Atlântico Negro ao qui-
lombo de Tijuaçu, localizada ao norte da Bahia, Carmélia
Aparecida Silva Miranda (UNEB), em ‘Da diáspora afri-
cana à construção das comunidades quilombolas: me-
mória e identidade’, conclui este conjunto temático, bem
como a presente coletânea, ao traçar, conceitual e empi-
ricamente, a trajetória diaspórica africana e dos descen-
dentes espalhados pelo mundo, pelo Brasil e pela Bahia
em particular. No ambiente de violências físicas, psicoló-
gicas, culturais, a população africana e os seus descen-
dentes criaram diversas estratégias de resistência como
os quilombos que, na contemporaneidade, o tema foi res-
significado na perspectiva de reconhecer e desenvolver
políticas de valorização de comunidades quilombolas
que resistiram cultural, moral, econômica e afetivamen-
te nos diversos cantos do Brasil e na Bahia em especial.
Como resultado da diáspora africana, a autora discute os
modos como homens e mulheres vêm construindo sua
identidade cultural na comunidade quilombola de Tijua-
çu, cujo processo de reconhecimento, iniciado na década
de 1990, é discutido e analisado como importante mobili-
zação e tomada de consciência, por parte da comunidade,
sobre seus direitos, o que garantiu, a 28 de fevereiro de
2000, o reconhecimene legal de Tijuaçu como território
remanescente de quilombo. Carmélia Miranda apresen-
ta, por fim, os caminhos percorridos pela população de
Tijuaçu para a construção de uma autoestima elevada e

18
centrada na identidade étnica de grupo afrodescendente
e quilombola, ao afirmar, resgatar e conservar símbolos e
significados identitários.
Finalizando, as organizadoras agradecem a
todos aqueles que direta e indiretamente contribuíram
para o sucesso do ‘II° Simpósio de História Regional e
Local’ e para a publicação deste II° Volume, através
das colaborações dos autores presentes e do empenho
institucional representado pela Pró-Reitoria de Pesquisa
e Ensino de Pós-Graduação (PPG) da UNEB, pela Direção
do Departamento de Ciências Humanas do Campus
V, da UNEB, e pela Coordenação do Programa de Pós-
Graduação em História da UNEB. Acreditamos que esta
Coletânea aqui apresentada possa refletir mais uma
vitória das constantes batalhas intelectuais no exercício da
investigação histórica que busca articular conhecimentos
científicos aos propósitos sociais e políticos de inclusão
cidadã de todos os sujeitos históricos com os quais
compartilhamos e desfrutamos os diversos saberes.

As Organizadoras,
Sara Oliveira Farias
Universidade do Estado da Bahia
Maria das Graças de Andrade Leal
Universidade do Estado da Bahia

19
PARTE 1

Sobre História, o regional


e o local na historiografia
contemporânea
HISTÓRIA LOCAL E REGIONAL –
SINGULARIDADES DE UMA
HISTÓRIA PLURAL

Maria da Conceição Meireles Pereira

As reflexões nesta Conferência de abertura


do II Simpósio de História Regional e Local não
pretendem senão partilhar algumas ideias sobre a
prática de fazer história com colegas docentes e com os
discentes, inscrevendo-se esta reflexão num domínio –
a História Local e Regional – que todos reconhecemos
simultaneamente vasto e complexo, quer pelo extenso
território temático que explora, quer pela diversidade
documental que convoca e decorrentes multiplicidade e
plasticidade metodológicas que exige. Afinal, vicissitudes
e constrangimentos que já Pierre Goubert, no seu estudo
fundacional sobre História Local, não deixava de apontar,
mas também oportunidades de todo o labor histórico
que num processo de diálogo contínuo entre o objecto
de estudo e o corpus documental não pode negligenciar
a problematização, a conceptualização que conferem
significabilidade aos modelos obtidos.
Como é consabido, o rótulo de “História Local
e Regional” tem suscitado ondas diversas ora de
menosprezo ora de valorização, ora ainda de legitimação
de acontecimentos políticos e de ideologias de cariz
diverso. Lembremo-nos que a história é sempre história

23
do presente porque presentifica situações vividas e esse
passado é convocado em função de tópicos actuais.
Relacionarei exemplos da historiografia europeia,
com destaque para casos portugueses, que obviamente
conheço melhor, polemizando o discurso sobre a evolução
da História Local e Regional nas últimas décadas, e as
opiniões, ora de natureza positiva, ora de teor negativo,
que ela tem suscitado.
Em Portugal, a fundação da Academia Real da His-
tória, em 1720, constitui um marco de referência no in-
teresse por este tipo de estudos, nomeadamente através
dum inquérito elaborado pelo Padre Manuel Caetano de
Sousa, no âmbito da história eclesiástica, dirigido aos ar-
cebispados, bispados, câmaras e provedorias de comar-
cas, com o propósito de se recolherem informações de
cartórios e arquivos. Este acadêmico e o Conde da Ericei-
ra, no seu Systema de Historia, valorizaram os documen-
tos da vida local (NUNES, 1996, p. 71-81) dizendo que a
história era comparável a um edifício fabricado por mui-
tos artífices. Por sua vez, o Padre Luís Cardoso organi-
zou, com base noutro inquérito feito aos párocos após o
terremoto de 1755 as célebres Memórias Paroquiais, fonte
publicada três anos depois e que se tornou imprescindí-
vel à elaboração de numerosos trabalhos de índole local.
Será no século seguinte, e sob a acção impulsiona-
dora de Alexandre Herculano, defensor estrénuo do mu-
nicipalismo, que estes estudos se desenvolvem um pouco
mais. Seguindo o exemplo germânico, este escritor e his-
toriador começa a publicar a compilação de documentos
Portugaliae Monumenta Historica (1856-1873) e inspirou

24
a portaria de 8 de Novembro de 1847 que recomendava
às Câmaras Municipais a organização da sua história
através da recolha e publicação nos Anais do Município
de documentos e notícias relevantes. Apesar da elevação
do projecto, ele ficou bem aquém das expectativas já que
apenas quatro concelhos – Lisboa, Porto, Coimbra e Gui-
marães – cumpriram o solicitado.
Na verdade, estes estudos – realizados num tempo
em que prevalecia a dimensão descritiva – tornar-se-ão
mais significativos entre finais do século XIX e primeira
metade do XX, portanto bem antes da institucionalização
acadêmica da História Local, e constituíram um impor-
tante manancial de informação de natureza corográfica,
dando à estampa trabalhos ora de menor ora de maior fô-
lego (neste último caso avultam os dicionários em vários
volumes), sobre matéria histórica, arqueológica, etnográ-
fica, biográfica, bibliográfica, etimológica, heráldica, ge-
nealógica, artística, patrimonial, numismática, hidrográ-
fica, orográfica, topográfica etc., juntando disciplinas que
se encaminhavam para a autonomização, mas na altura
se fundiam como que prenunciando o posterior desafio
da transdisciplinaridade indispensável à História em ge-
ral, e à História Local e Regional, em particular.
Para o caso português, o historiador Rui Ramos
(RAMOS, 1994, p. 565) balizou entre 1880 e 1930 o período
de formação dos símbolos e instituições que identificam
o país, por isso o designou por “Invenção de Portugal” e
“construção da nação”, ressalvando que tal atitude não foi
exclusiva desta época, mas ganhou então outra dimensão
e significado. No élan de afirmação nacional, que por

25
aquela altura percorria o mundo ocidental, integra aquele
historiador as grandes sistematizações constituídas
pelos interesses e conhecimentos arrumados em obras
de referência – velhas corografias, genealogias, crônicas
de instituições, monografias de lugares –, enfim, uma
verdadeira “base de dados” para usar a sua expressão, e
que representam fontes históricas de inestimável valor,
não obstante conterem algumas incorrecções.1
Na emergência da cultura a que o século XIX assistiu,
empurrada pela nova crença colectiva – o “nacionalismo”
– que LordActon entendeu ser o substituto do velho
cristianismo então em declínio político, importava identificar
Povo com Nação, estudar os caracteres específicos do povo
e dos seus lugares, seguindo a máxima enunciada pelo
romântico Almeida Garrett havia décadas: “nenhuma coisa
pode ser nacional se não é popular”.2
Com efeito, o século XIX explicou que cada Povo é
uma Nação com território, cultura e história.
Como lembra o ensaísta português Eduardo Lou-
renço, no século XIX assiste-se ao fenômeno do nacio-
nalismo cultural que “só podia surgir quando a cultura
ascendeu a componente, e componente essencial da in-
tensidade nacional. O que só acontecia precisamente com
a revolução romântica, a primeira e mesmo a única me-
tamorfose da civilização ocidental que merece o nome de
revolução cultural” (LOURENÇO, 1991, p. 100).
Portanto, o século XIX foi “o século da História”,
reconhecendo-se então a utilidade social e político-
ideológica da convocação de leituras do passado como
argumentos legitimadores de interesses do presente e de

26
perscrutação do futuro; grupos ascendentes incitavam a
opinião pública a colher lenitivos nas lições do passado,
concluindo Catroga (2001, p. 58-59) que “esta intenção
aconselhava a refundar, historiograficamente a memória
da nação”.
Mas, volvidos esses tempos épicos dos estudos
locais, feitos pelos eruditos, eclesiásticos, intelectuais das
terras que pretendiam melhor conhecer, certas opiniões
tenderam a ver a História Local e Regional como área
de menor interesse por várias ordens de razões. Desde
logo, associando a grande maioria de monografia
locais a trabalhos de qualidade questionável, feita por
curiosos sem formação específica, ou com ela, mas sem
experiência3, muitas vezes encomendadas pelos poderes
locais com objectivos diversos, desde a propaganda
política à promoção turística, sob a capa do nobre
desígnio da valorização histórico-patrimonial.
Com efeito, vários, senão muitos trabalhos fizeram-
-se nestes moldes. Todavia, a História como área de saber
foi ganhando prestígio e o seu enquadramento acadêmi-
co, através de importantes investigações, encontros cien-
tíficos, publicações criteriosas e, mais tarde, cursos de
pós-graduação, conferiu à História Local e Regional exi-
gências de rigor que agora são comumente reclamadas.
Esse enquadramento acadêmico surgiu pelos anos
1960 nos países europeus com escolas historiográficas
mais fortes, como a França e a Inglaterra (sobretudo
as escolas de Leicester e Leeds) e logo contagiou os
restantes contextos nacionais, obtendo forte radicação
na Alemanha e em Espanha, por exemplo, e suscitando

27
debates que têm vindo a configurar uma evolução nesta
área de estudos históricos, desde então até ao presente.
Debrucemo-nos sobre o caso português. Apesar
de alguma visibilidade e renovação que as periferias
ganharam a partir da revolução democrática de 1974, a
tradição do país radicava na macrocefalia da capital e
no multissecular centralismo. A História Local ganhou,
então, alguma força também para dar “voz” a regiões
de um país em que o poder regional intermédio era
tradicionalmente inexistente e a regionalização apenas
viria a considerar os arquipélagos dos Açores e da
Madeira (regiões autônomas).
A sociedade civil mobilizou-se e começaram a
surgir, a maioria fora dos grandes centros, associações
com o propósito de defesa do patrimônio, já comuns
noutros países. Numa publicação despretensiosa, o
professor Jorge Alarcão chamava, em 1987, a atenção para
a relevância de tal fato:

O público a que nos dirigimos é constituído


essencialmente pelas associações de defesa do
património. Nascem elas por toda a parte, em
cidades e em vilas, umas com âmbito local,
outras concelhias ou regionais. As razões des-
te fenómeno sócio-cultural mereciam uma in-
dagação que não cabe, porém, no âmbito deste
curto prefácio. O importante é reconhecer que
as associações têm, ou podem vir a ter, uma ac-
ção extremamente válida na salvaguarda e re-
abilitação do património arqueológico, arqui-
tectónico, artístico, paisagístico e documental,
bem como na investigação da história local
(ALARCÃO, 1987, p. 5).4

28
Durante largo tempo, os estudos locais, sobre-
tudo nos meios acadêmicos, incidiram no poder lo-
cal, fruto da estrutura municipal que a Idade Média
portuguesa promoveu e, paulatinamente, a monar-
quia absoluta centralizadora abafou, mas os estudos
sobre o poder local desenvolver-se-iam também re-
lativamente às épocas moderna e contemporânea.5
Outra componente importante das monografias regio-
nais consubstanciou-se nos estudos demográficos e po-
pulacionais, bem como em investigações de pendor eco-
nômico-social de regiões ou províncias, estudos eclesiás-
ticos (mosteiros e seus domínios) etc.
Gradualmente, o diálogo interdisciplinar envolveu
a história, a antropologia6, a etnografia, a arqueologia,
entre outras disciplinas, o que provocou a renovação
dos trabalhos historiográficos. A diversificação temática
ganhava terreno, e, sobretudo avançou-se cronologica-
mente, sendo a história do século XX objeto de atenção
praticamente só a partir dos anos 1970-1980. Este traço,
como tantos outros, é comum tanto à história local como
à história geral portuguesa: só após a queda do regime
ditatorial se começaram a desenvolver estudos mais pro-
fundos sobre o liberalismo oitocentista, a implantação da
República (1910) e, naturalmente, sobre o próprio Estado
Novo e a ditadura militar que o antecedeu (1926-1974).
Num cômputo geral, pode dizer-se que entre os
anos 1970 e 1990 os estudos históricos de âmbito local
estiveram bem presentes nas universidades portuguesas,
realizando muitos dos seus mestres as respectivas teses
doutorais nesse domínio.7

29
A par da realização de numerosos congressos sobre
História Local promovidos pelos municípios, com o apoio
científico das academias, as escolas criaram discípulos e
os cursos de pós-graduação lato sensu e mestrado foram
surgindo e evoluindo.
A Faculdade de Letras de Lisboa8 manteve o
mestrado em História Local e Regional, mais ou menos
regularmente, entre 1994 e 2010, sendo que em 1998 esta
faculdade criou, com o apoio da Câmara Municipal
de Cascais, um mestrado em Cultura e Formação
Autárquica (com funcionamento em Cascais). Em 2010
os dois mestrados fundiram-se sob a designação de
Mestrado em Estudos Regionais e Autárquicos, com duas
variantes: História e Gestão do Património e História e
Identidades Regionais, dirigido não só a investigadores
na área de História, mas também, a agentes que laboram
nas áreas, sobretudo culturais, do serviço municipal.9
Já na Universidade do Porto, na sua Faculdade
de Letras, funcionou entre 2001-2007 o mestrado em
Estudos Locais e Regionais com três especializações:
Construção de Memórias Históricas, Estudos Portuários
e História Local e Regional. No ano letivo seguinte, em
2008, portanto, este mestrado cedeu lugar ao de História
e Património que permanece em atividade, oferecendo
três ramos: Estudos Locais e Regionais – Construção de
Memórias, Arquivos Históricos e Mediação Patrimonial.
A Universidade de Évora privilegiou a área de
Património e Museologia, enquanto a do Minho ofe-
rece um mestrado em Património e Turismo Cultu-
ral. O público-alvo constituído por funcionários mu-

30
nicipais depressa se tornou fundamental em vários
dos cursos citados. Foi também o público preferen-
cial do Centro de Estudos de Formação Autárquica
criado na Universidade de Coimbra nos anos 199010
ou, mais recentemente, do curso de Práticas Culturais
para Municípios realizado pela Faculdade de Ciências
Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa.
Como facilmente se compreende, este percurso su-
cintamente traçado suscitou a proliferação de protocolos
e parcerias de trabalho entre as universidades e as autar-
quias, nomeadamente através dos seus museus, arquivos
e bibliotecas, privilegiando-se cada vez mais a vertente
profissionalizante, sendo o projecto e/ou o estágio a pro-
va a superar para obtenção do grau de mestre, subsistin-
do, todavia, a dissertação para tal efeito.
Qualquer ilação pode ser apressada relativamente
a este fenômeno da perda de vigor da História Local e
Regional nos planos curriculares dos cursos de 2º ciclo
no meio acadêmico português, nos tempos mais recentes.
Todavia, são legítimas algumas reflexões.
Por um lado, há a considerar a consabida pequena
dimensão do país e a fixação multissecular das suas
fonteiras; em contextos nacionais mais vastos e com
formação territorial ao longo de um largo período, esse
domínio da história parece tornar-se mais pertinente.
Tal é o caso do Brasil, cuja dimensão continental se foi
construindo desde a idade moderna à contemporaneidade
(as mudanças da sua capital política, fenômeno invulgar
na maioria dos países, refletem este crescimento
progressivo).

31
Por outro lado, a manutenção dessa designação
parece ter sido subalternizada ou considerada desneces-
sária em Portugal já que nos numerosos cursos de mes-
trado e doutoramento em funcionamento (2º e 3º ciclos),
apresentados sob as mais diversas denominações, muitos
dos discentes desenvolvem as respectivas investigações
sobre temas de incidência local ou regional. Dir-se-ia
que, em termos de nomenclatura, a questão do espaço
parece perder prioridade face ao tema-problema.
Ao longo deste processo, creio que se foram
dissipando as opiniões que subalternizavam as produções
da História Local e Regional em relação às da história
dita geral ou nacional, até porque aquela contribuiu
para abrir novos caminhos e explorar temas inovadores
a que se associava à “História Cultural do Social”, para
usar uma expressão cara a Poirrier (2004); tem-se ainda
revelado como um laboratório privilegiado de ensaio de
novas metodologias em profícuo intercâmbio com outras
ciências como a Geografia, a Antropologia, a Sociologia, a
Economia, entre outras. Se ela tem maior dificuldade em
encontrar editoras que receiam mercados mais estreitos
e portanto menos lucrativos, esse problema pôr-se-á em
termos de escala, mais grave num país de 10 milhões de
habitantes como Portugal, quiçá menos problemático no
Brasil com uma população quase vinte vezes maior.
Pela sua natureza, a História Regional pode acrisolar,
evidentemente sem bairrismos exagerados e deslocados,
o amor aqui entendido como conhecimento da terra de
origem ou de adoção, servindo inclusivamente, entre
as camadas mais jovens, como propedêutica ao estudo

32
geral da História e preparação para a cidadania: é mais
apelativo apreender a evolução das suas comunidades,
conhecer o passado de realidades e espaços próximos
e familiares, do que apreender problemáticas nacionais
com as quais as afinidades dos adolescentes são remotas.
O pensamento concreto precede o abstrato pelo que a
história local tem uma inequívoca função pedagógica,
embora seja difícil aferir da sua dimensão. Daí que em
Portugal, cada vez mais escassas concessões de licenças
sabáticas para realização de tese de doutoramento por
parte dos professores do ensino básico e secundário, se
mantenha como um dos critérios o impacto dos benefícios
dessa investigação doutoral no processo de ensino/
aprendizagem e na ligação e interacção do estudante com
o meio em que se insere.
Quanto à questão regional versus nacional, ela
afigura-se cada vez mais complexa. Há que introduzir
nesta dinâmica, como veremos, um terceiro elemento: o
internacional.
Desde logo, como apurar verdadeiramente os
fenômenos a nível nacional se não houver índices a nível
regional? Esta dimensão mais local permite a análise
comparativa, sempre recomendável no conhecimento
histórico, e a síntese, se visa realmente a conceptualização
e a construção de modelos tem sobretudo que estar
atenta ao desvio desses modelos, eles próprios criadores
de novas conceptualizações. A história nacional carece
de monografias locais de qualidade e com divulgação
adequada. Como afirmava Ribeiro da Silva num artigo
de 1999, “a fiabilidade da História Geral pode depender

33
em parte da História local – partindo do princípio que
esta, por sua vez, é igualmente fiável” (SILVA, 1999,
p. 389).
Em certos países, com identidades nacionais em
disputa, como o caso de Espanha, o problema coloca-
se com particular acuidade. Anguera (1999, p. 14), que
metodicamente divide a evolução da historiografia catalã
em cinco etapas, desde os antecedentes renascentistas e
iluministas até aos anos 1970, diz claramente:

De la misma manera que no es posible elaborar


monografias locales sin los referentes generales,
tampoco se puede hacer honestamente historia ge-
neral com un absoluto olvido de las aportaciones
monográficas. Si se prescinde de estas monografías
lo más que se puede conseguir es una nueva mono-
grafía centrada en la capital.

Com efeito, os impactos de acontecimentos


internacionais no todo nacional são mais perceptíveis a
partir do conhecimento fornecido pelos estudos locais,
quando eles existem. Dando um exemplo da história
portuguesa, pode dizer-se que as causas política e
econômica da participação de Portugal na 1ª Grande
Guerra são já razoavelmente conhecidas, mas à excepção
de Lisboa e do Porto, o impacto desse fenômeno
nas vivências locais do resto do país – questão das
subsistências, falsificação do pão, racionamento, mercado
negro etc. – é ainda praticamente desconhecido.
Todavia, dir-se-á que, de uma maneira geral, se
verifica um certo déficit de sínteses. Esse fato não se
deve tanto à inexistência de autores capazes de levar

34
essa tarefa a bom porto, mas à difícil disseminação dos
estudos locais, tantas vezes arredados da publicação
tradicional. Não obstante os obstáculos e preconceitos,
esta desejada integração está em marcha graças ao
alargamento das redes de bibliotecas, da publicação on-
line, do reconhecimento da qualidade de muitos trabalhos
de índole regional. Se as referências a estes estudos eram
quase sempre inexistentes nas obras gerais ou de síntese,
verifica-se que começam a surgir, se bem que, por vezes,
de forma incompleta ou contendo incorreções várias.
Ainda sobre a divulgação dos estudos locais, Julián
Casanova referia em 1999 que havia no seu país um
significativo número de trabalhos nesse domínio, mas
faltava a distribuição do produto, o que constituía um
dos paradoxos da produção historiográfica espanhola.
Não será este problema comum à esmagadora maioria
das escolas historiográficas não hegemônicas? Vale à
pena refletir sobre o desabafo de Casanova (1999, p. 27)
que introduz outros matizes nesse paradoxo que nos
parece bem familiar:

La mayoría de esos buenos estudios locales y regio-


nales no han salido nunca de nuestras fronteras.
Mientras que cada vez son más los historiadores
españoles que conocen la historia local y regional
elaborada en otras latitudes, los historiadores ex-
tranjeros – si se exceptúa a los hispanistas – poseen
vaguísimos o nulos conocimientos de la historia re-
gional aquí producida. Es un problema de idioma,
de traducciones y de comunicación, pero también
– en lo que a teorías, conceptos y métodos se refiere
– de escasa presencia en los debates internacionales
y en las revistas científicas más conocidas.

35
Como disse atrás, a triangulação regional/
nacional/internacional não é uma equação simples em
História. O mapa político do mundo tem conhecido
numerosos traçados e os seus desenhos sucessivos não
obliteram a dinâmica de certas regiões que suscitam
novos entendimentos à medida que o seu conhecimento
se aprofunda.
Há regiões partilhadas por dois ou mais países que
ostentam uma história comum, mais ou menos ancestral,
e decorrente cortejo de similitudes de tipologia variada.
Veja-se, nesta costa atlântica da América do Sul, o caso da
região platina, objeto de reiterados estudos sob os mais
diferentes ângulos de análise. E saltando o oceano para
o rosto da Europa, como lhe chamou Fernando Pessoa,
reflitam-se nas afinidades geográficas, culturais, econô-
micas entre o Norte de Portugal e a Galiza (para não falar
de outras regiões lusas com as suas vizinhas espanholas);
a comparação e articulação das realidades histórico-geo-
gráficas são, em muitos domínios históricos, exercícios
incontornáveis.
O advento das organizações supranacionais no
século XX, como a União Europeia, carreou maior com-
plexidade a esta temática. Depois da CEE (Comunidade
Económica Europeia), a UE (União Europeia) visava uma
concertação econômica e política e erigiu-se sob o lema
da “unidade na diversidade,” pois os seus mentores bem
sabiam quão fortemente as identidades nacionais e regio-
nais prevaleceriam perante a complexa união da Europa.
Desde os anos 1970 e até à primeira década do século XXI,
no contexto europeu, formularam-se as chamadas “euro-

36
-regiões”, uma estruturação política de cooperação cujas
potencialidades estão ainda longe de ser conhecidas ou
materializadas. São de dois tipos, euro-regiões dentro do
próprio país e euro-regiões transfronteiriças, entre dois
ou mais países.
Ao nível do conhecimento, é de registar a fundação
da European Science Foundation (ESF) e no âmbito deste
mega-organismo interessa-nos chamar à colação o
EUROCORES (European Collaborative Research), uma
moldura que visa promover programas de pesquisa em
colaboração e cooperação multinacional, o trabalho em
rede e a divulgação num quadro alargado de tópicos
complexos em todos os domínios científicos. Para
exemplificar, refiro o projeto “CuiusRegio” (aprovado em
2010) no âmbito da investigação histórica aliada a outras
áreas epistemológicas que reúnem investigadores de oito
países e visa sintetizar a análise histórica de outras tantas
regiões que representam uma variedade morfológica,
tipológica e histórica de entidades territoriais, permitindo
a comparação da dinâmica de coesão e de ruptura
ao longo dos últimos nove séculos (são essas regiões:
Guelders-Baixo Reno; Portugal como região ibérica;
Livónia; Transilvânia; Silésia-Lusatia superior, Boémia-
Luxemburgo; Hainaut e o território fronteiriço germano-
dinamarquês).
Dir-se-ia, citando novamente Silva, que “na Europa
das regiões faz cada vez mais sentido a história local e
regional” (SILVA, 1999, p. 385). Por outro lado, sentimos
quão afastados estamos já das categorias espaciais
formuladas por Pierre Goubert.

37
Com efeito, apesar de estar consciente de que
estas minhas referências ao caso europeu foram algo
fastidiosas, fi-lo com um propósito. O conceito de
“região”, além de fluido, é polissêmico, a sua estrutura
semântica tem variado ao longo dos tempos. Todavia,
permanece vivo e de boa saúde como conceito operativo
em diferentes domínios epistemológicos, do clima às
ciências da terra, da política à economia, da população
à administração, introduziu-se nas indústrias modernas
como o turismo, e permanecerá, certamente, nos
estudos históricos. Lembremo-nos do volume oitavo da
Enciclopédia Einaudi exclusivamente dedicado ao tema
“Região”. Mas, em qualquer caso, sempre precisará de
uma definição prévia, circunscrita ao objeto em análise.
Surge recorrentemente, em binômios antagônicos:
regional versus nacional, ou versus multinacional, ou até
versus global.
O conceito que confere espessura à distinção
pressuposta nestas oposições é já, desde há algumas
décadas, objeto de estudo e permanece na moda. Trata-
se do conceito “identidade”, também ele polissêmico,
algo difuso, tantas vezes manipulado que, solitário
ou adjetivado de múltiplas formas, se acomodou no
nosso vocabulário corrente e tem povoado, com mais
ou menos pertinência, numerosos trabalhos históricos,
algumas vezes até para legitimar resultados que, em boa
verdade, se elencam logo à partida, como premissa da
problemática.
Sem dúvida que o debate sobre a Nação e o
Nacionalismo potenciou esta situação.

38
Nos finais do século XX, duas correntes encabeça-
vam as teorias interpretativas desta problemática (RIBEI-
RO, 2004, p. 85-96).
A corrente modernista-instrumentalista entende
a nação e o nacionalismo como um artefato da
modernidade, laboriosamente concebido e executado,
inventado e construído, para melhor acomodar as
transformações revolucionárias – cidadania, capitalismo,
soberania popular, racionalismo – portanto ocorridas
a partir do século XVIII. Integraram esta escola, entre
outros, Eric Hobsbawm, Benedict Anderson e Ernest
Gellner, tendo este último afirmado peremptoriamente:
“O nacionalismo não é o despertar da auto-consciência
das nações. O nacionalismo inventa nações onde elas não
existem”.11
Por sua vez, a correnteetnicista-primordialista per-
cepciona a nação como uma comunidade de origem ét-
nica que partilha uma história de longa duração, uma
religião, uma língua, mitos, símbolos e práticas culturais
profundas. Desta forma, as nações são vistas como um
produto da continuidade histórica, uma realidade pré-
-moderna, os grupos nacionais constituem unidades
culturais com realidade histórica, e essa identidade não
é “inventada”. Entre outros, defenderam esta teoria An-
thony D. Smith, Adrian Hastings e, mais recentemente,
Josep Llobera.12
Apesar de aparentemente antagônicas, as teorias
modernista e etnicista comportam alguma complemen-
taridade. Assim, os modernistas não negam um proto-
-nacionalismo pré-moderno; apesar de considerarem

39
a nação uma invenção da ideologia nacionalista, não
acham que a nação moderna surge abruptamente na
história. Por sua vez, os etnicistas reconhecem que a re-
alidade da nação é substancialmente diferente antes e
depois do século XIX, fruto do trabalho de revitalização
feito pelas elites intelectuais sem o qual, o sentimento e a
consciência de pertença a uma comunidade nacional, po-
deriam ter-se diluído por altura das revoluções políticas
e econômicas de Oitocentos.
Temos bem presente que o século XIX assistiu ao
movimento das nacionalidades, à emergência de novas
nações em nome da libertação de uma tutela vista como
contra-natura, mudando substancialmente o mapa
político do mundo ocidental. A ideologia federalista
enquadrou algumas destas emancipações tomando como
farol os casos dos EUA e da Confederação Helvética que
haviam reconhecido a importância das regiões como
espaços históricos com afinidades que lhes conferiam
um certo grau de autonomia no quadro nacional em
construção. Remetendo para o contexto europeu, reflita-
se na evolução das fórmulas adotadas em tempos tão
diversos, a Suíça dos cantões desenhada no século XVI,
a Espanha das comunidades autonômas completada na
segunda metade do século XX.
Decididamente, as identidades não são fixas nem
exclusivas, antes resultam duma construção e negociação
constantes, são sempre contextuais no interior de uma
trama concêntrica. Alguns teóricos referem-se a círculos
concêntricos de identidade, outros ao sistema de pertenças
múltiplas.

40
Parece que o tão propalado processo de globalização,
não obstante produzir efeitos inquestionáveis, também
gera o contrapeso do localismo; “a semelhança aguça
a diferença”, segundo Dieckhoff (2001, p. 22). Dir-se-ia
que há todo um esforço de revitalização, até mesmo de
“invenção” dessas diferenças locais, regionais e nacionais.
Posto em termos simples, coloca-se a pergunta: o
global ameaça o local? Dificilmente. Face à uniformização
persistirá a tendência para a diferenciação. Em suma,
apesar do mundo dito globalizado, ou por causa dele,
mantém-se a pertinência do local e, consequentemente,
do seu estudo.
Se bem que o labor historiográfico apresente uma
fisionomia comum – até há algum tempo atrás sob o forte
influxo do paradigma francês, mais recentemente muito
influenciado pelo padrão anglo-saxônico –, não é menos
verdade que cada historiografia nacional evidencia traços
peculiares. São fatores de diferenciação, entre vários
outros, a própria história do país, o seu regime político-
administrativo, a sua dimensão. O mesmo ocorre com
a prática da História Local e Regional. Talvez mais do
que em qualquer outro domínio de pesquisa histórica,
este suscita diversos níveis de complexidade. Desde logo
no que toca à definição do objeto e respectivas balizas
cronológicas, na pluralidade de fontes, na multiplicidade
de metodologias, enfim, na construção da problemática
e sua justificação. Conduzir com eficácia todos estes
volantes não é tarefa fácil, mas a obtenção de um resultado
satisfatório não pode prescindir da maioria deles.

41
Creio ser consensual que História Local não é sinô-
nimo de micro-história (esta debruça-se sobre um tema
de reduzidas dimensões, o seu objeto de estudo carac-
teriza-se pela singularidade e a metodologia de análise
é intensiva). Um dos problemas da História Local tem
sido definir a sua própria periodização já que ela depen-
de, muitas vezes, da cronologia ditada por conjunturas
políticas ou econômicas gerais (CASA NOVA, p. 1999, p.
18-19). As fontes, por sua vez, nem sempre são “locais”,
não pressupõem uniformização e concentração, antes he-
terogeneidade e dispersão, até dificuldade de acesso, pois
muitas pertencem a espólios privados. Nesta matéria, a
intervenção desejada será de resgate de muita documen-
tação que, em acervos públicos ou particulares, corre ris-
co de deterioração ou simples perda, tornando-se urgen-
te a sua preservação pelos meios possíveis, mesmo que
não sejam os ideais. Quanto à transdisciplinaridade que
a caracteriza, dela pode advir a sua grandeza, mas tam-
bém alguma “perdição” no manuseamento de testemu-
nhos tão díspares, desorientação nas diferentes técnicas
a aplicar.
Num organograma incluído num artigo publicado
numa revista portuguesa intitulado ‘A história regional e
local – contributo para o estudo das identidades’ (NUNES,
1996, p. 77) esta área interliga-se por um conjunto pouco
perceptível de linhas e setas com áreas numerosas: da
geografia à biologia, da arqueologia industrial e agrária
à psicologia social, do patrimônio à museologia, da
etnografia à antropologia, da paleografia e epigrafia à
história oral, da história do municipalismo à demografia,
da literatura local à etnologia, e estão ainda referenciadas

42
a história política e institucional, a econômica e social, a
cultural e das mentalidades. O mais curioso, é que ainda
poderíamos citar muitas outras, como a genealogia, a
numismática, os movimentos populacionais, a história da
arte, o urbanismo, enfim, a lista seria quase interminável.
Mundo maravilhoso este da História Local e Regional,
aparentemente “maior” do que a própria história geral,
por isso mesmo perigoso também.
O arquivo nacional português – denominado Tor-
re do Tombo – localiza-se em Lisboa, como seria de es-
perar, e em muitos casos, não se pode fazer história lo-
cal sem recurso a alguns dos seus acervos. Pese embora
os arquivos municipais e distritais tenham conhecido,
nos últimos tempos, assinaláveis melhorias a nível de
instalações, conservação e acesso aos seus espólios, es-
tes têm frequentemente de ser complementados pela
documentação do Arquivo Nacional Torre do Tombo. No
seu site, um excerto que não resisto a citar, reitera esta
imagem de fontes que transbordam o humanamente im-
possível de abarcar:

Fazer a história de uma localidade ou região


implica recuperar memórias disseminadas
por um conjunto de vestígios onde o espaço e
as sociedades se inscrevem. Face à diversidade
dos temas possíveis a abordar, em consonân-
cia com a trajectória da vida das comunida-
des, a investigação é complexa, exigindo que
se percorram arquivos, bibliotecas, museus,
etc., ou seja todos os locais onde a memória
da presença humana se encontra preservada.13

Já agora, especifico ainda as hemerotecas, haja


vista a importância extraordinária da imprensa para os

43
estudos dos séculos XIX e XX e a história oral, valiosa,
quando corretamente utilizada, nos trabalhos com
cronologias mais recentes.
Convoquei todos estes testemunhos com um
objetivo primacialmente didático: se é verdade que
qualquer investigação histórica deve ser conduzida com
o rigor de um projeto que defina o objeto de estudo com
delimitação de espaço e tempo; enuncie a problemática
identificando as questões de investigação; evidencie
o estado da arte; justifique o universo documental
selecionado e explicite as metodologias a seguir, em
História Local e Regional esse modus operandi impõe-
se em toda a sua acepção. A crítica das fontes também
não pode ser negligenciada, pois o que se pretende é o
resgate da história local e não o seu embuste. Por outro
lado, o trabalho em rede (seja ela regional, nacional,
internacional) pode tornar-se extremamente proveitoso,
esclarecedor dos resultados obtidos, na busca das
semelhanças e diferenças, na percepção da mudança.
Complementarmente, o roteiro teórico-temático não
pode descurar elementos fundamentais como: território
e povos, poderes, gênero, cultura, representações sociais,
quotidiano, patrimônio, identidade, memória.
Então, e citando o ilustre historiador português
Mattoso, “o estudo do passado local ou regional pode ser
extremamente gratificante para quem procure conhecer-
se a si próprio e ao mundo a que pertence” (MATTOSO,
2002, p. 190).
Assinalei, ao longo desta intervenção, vários tes-
temunhos que ressaltam as virtualidades, mas tam-

44
bém as fragilidades da História Local e Regional. Se
é já difícil partilhar do modelo globalizante da his-
tória e do pressuposto braudeliano da história to-
tal, a reflexão que provoca a desconstrução dos pa-
radigmas do saber histórico – l’histoire em miettes14
(DOSSE, 1987) – deve ser interiorizada, adaptada e inter-
pretada com precaução.
Assim, gostaria de terminar com uma provocação.
Sublinho provocação, pois as certezas devem ser precedi-
das pela dúvida metódica e o conhecimento avança mais
pela inquietação sofrida do que pela satisfação sentida.
Tomo de empréstimo as palavras de Manuel Martí,
um historiador valenciano convidado para proferir uma
das palestras de abertura num congresso sobre história
local, em Saragoça (Espanha), no final dos anos 1990.
A meio do discurso, declarou que na sua opinião a
História Local era o reino da complexidade, não havia
história local válida que não fosse história-problema
e os problemas da História Local eram essencialmente
complexos, requerendo tratamento cruzado de fontes
heterogêneas, as quais, frequentemente, exigem uma
análise cronológica ampla.
As palavras são de Martí, a tradução é minha, a
provocação é certamente de ambos:

Por muito agradecido que esteja – e estou – aos


organizadores de esta reunião, devo adverti-
-los que jamais deviam ter convidado para
esta sessão de abertura uma pessoa que não
acredita na história local. Acredito em muitos
tipos diferentes de história, mas nenhum de-
les é a história local. Há história bem feita e

45
história mal feita, história interessante e his-
tória aborrecidíssima, história repetitiva ou
história renovadora, história complacente e
história crítica, mas, depois de quase quinze
anos de exercício profissional, continuo sem
saber muito bem o que é a história local so-
bre a qual, supostamente, trata este encontro.”
(MARTÍ, 1999, p. 51).

Sobre a História Local e Regional, cuja dupla faceta


de singularidade e pluralidade fiz questão de sublinhar
no título desta intervenção, não poderíamos esperar
senão visões “plurais”.

Notas
1 Entre outras obras portuguesas desta natureza, podem referir-se: Bibliografia
(1962-1975); Costa (1929-1949); Costa (1868); Leal (1873-1890); Lima (1931); Rodrigues
e Pereira (1904-1915); Vasconcelos (1933-1975).
2 Afirmação feita no prefácio da 2ª edição do volume primeiro da obra Romanceiro
e Cancioneiro Geral (1843).
3 Deve aqui lembrar-se que a produção de história local por “curiosos”, posterior-
mente criticada pelos sectores académicos, foi em tempos estimulada como revela
a passagem seguinte: “The housewifeonher shopping trips, theschoolboyonone-
ofhisprowlsandthedoctoronhis rounds are allbusypeople. But they are in many
ways the best people to promote local studies:they are actively concerned and in-
terested in what goes on around them; they are not recluses or dreamers, but they
are the people bestsuited for studying with understanding the place they live in”
(CELORIA, 1958, p. v.).
4 Ressalte-se a vertente eminentemente pedagógica desta pequena publicação que,
à semelhança de outras saídas por esta altura, explicitava as fontes (cartográficas,
iconográficas e documentais), bibliografia (das corografias à imprensa local) e um
breve programa para o desenvolvimento de uma monografia local.
5 Numerosos foram os estudos sobre o poder local, sobretudo na época do Antigo
Regime, surgindo posteriormente uma obra de síntese: Oliveira (1996). Mais recen-
temente, são de referir obras resultantes da publicação de actas, tais como Vieira
(2001) e o volume resultante de um congresso internacional, realizado em Coimbra,
no ano de 2002, em homenagem ao professor António de Oliveira, participado por
historiadores, sociólogos e politólogos: Fonseca (2005).

46
6 Nesta área (aliás, como nas restantes) várias obras suscitaram a curiosidade his-
toriadores; a título de exemplo refira-se Geertz (1993).
7 A título de exemplo, citamos apenas alguns trabalhos: Almeida (1978); Oliveira
(1979); Silva (1985); Magalhães, (1984); Fonseca (1993).
8 Instituição em que se criou o Instituto de História do Municipalismo Alexandre
Herculano.
9 Com organização da Associação de Estudantes da Faculdade de Letras de Lisboa,
ressalte-se o evento que resultou na publicação Matos e Rasga (1993). Ainda com
autoria de uma docente desta escola, refira-se Mendonça (1995-1997).
10 A Universidade de Coimbra foi uma das entidades promotoras, em 2010, do Cen-
tro de Estudos de História Local e Regional Salvador Dias Arnaut, situado na terra
natal daquele antigo mestre, a vila de Penela.
11 Entre outras obras, vejam-se: Gellner (1983), Anderson (1983), Hobsbawm (1998
[1990]).
12 Destacam-se as obras de Smith (1997, 1999, 2006 [2001]) e ainda Hastings (1997)
e Llobera (2000).
13 Disponível em: <http://antt.dgarq.gov.pt/pesquisar-na-torre-do-tombo/genea-
logia-ou-historia-local/historia-local/>. Acesso em: 7 out. 2011.
14 Evitei referir bibliografia brasileira tão bem conhecida por esta audiência; relem-
bro aqui, todavia, a excelente colectânea que é já um clássico da historiografia em
língua portuguesa cujo título parafraseou a citada obra de Dosse e que colocou tão
pertinentemente várias questões atinentes à história local e regional (SILVA, 1990).

Referências

ALARCÃO, Jorge de. Introdução ao estudo da história


e do património locais. Reimpr. Coimbra: [s.n.], 1987.
(Cadernos de Arqueologia e Arte, 2).

ALMEIDA, Carlos Alberto Ferreira de. Arquitectura


românica de Entre-Douro-e-Minho. Tese (Doutorado
em História de Arte) – Faculdade de Letras,
Universidade do Porto, 1978. 2 v.

47
ANDERSON, Benedict. Imagined communities.
reflections on the origin and spread of nationalism.
Londres; Nova Iorque: Verso, 1983.

ANGUERA, Pere. Introducción a la historia local


Catalana. In: RÚJULA, Pedro; PEIRÓ, Ignacio (Coord.)
La historia local en la España Contemporánea.
Barcelona: L’Avenç, 1999.

BIBLIOGRAFIA corográfica de Portugal. Lisboa:


Biblioteca Popular de Lisboa, 1962-1975.

CASANOVA, Julián. Historia local, historia social y


microhistoria. In: RÚJULA, Pedro; PEIRÓ, Ignacio
(Coord.) La historia local en la España Contemporánea.
Barcelona: L’Avenç, 1999.

CATROGA, Fernando. Memória, história e


historiografia. Coimbra: Quarteto, 2001.

CELORIA, Francis. Local history. London: The English


Universities, 1958.

COSTA, Américo. Dicionário corográfico de Portugal


Continental e Insular: hidrográfico, histórico,
orográfico, biográfico, arqueológico, heráldico,
etimológico. Porto: Livraria Civilização, 1929-1949. 12 v.

COSTA, Padre António Carvalho da. Corografia


portuguesa e descripçam topográfica. Braga:
Typographia de Domingos Gonçalves Gouvea, 1868.

48
DIECKHOFF, Alain. A nação em todos os seus estados:
as identidades nacionais em movimento. Lisboa:
Instituto Piaget, 2001.

DOSSE, François. L’Histoire en miettes: des Annales à


la nouvelle histoire. Paris: La Découverte, 1987.

FONSECA, Fernando Taveira da (Coord.). O poder local


em tempo de globalização: uma história e um futuro.
Viseu: Palimage, 2005.

FONSECA, Hélder Adegar da. Economia e atitudes


económicas no Alentejo oitocentista. Tese (Doutorado)
– Universidade de Évora, Évora, 1993.

GEERTZ, Clifford. Local knowledge. London: Fontana


Press, 1993. 1. ed. de 1983.

GELLNER, Ernst. Nation and nationalism. Oxford:


Basil-Blackwell, 1983.

HASTINGS, Adrian. The construction of nationhood:


ethnicity, religion and nationalism. Cambridge:
Cambridge University Press, 1997.

HOBSBAWM, Eric. A questão do nacionalismo: nações


e nacionalismo desde 1780: programa, mito, realidade.
Lisboa: Terramar, 1998 [1990].

LEAL, Augusto Soares d’Azevedo Barbosa de Pinho.


Portugal antigo e moderno. Lisboa: Livraria Ed. Matos
Moreira, 1873-1890. 12 v.

49
LIMA, João Baptista de. Terras portuguesas. Póvoa do
Varzim, 1931. 8 v.

LLOBERA, Josep. O deus da modernidade: o


desenvolvimento do nacionalismo na Europa Ocidental.
Oeiras: Celta, 2000.

LOURENÇO, Eduardo. Nacionalistas e estrangeirados.


In: GASPAR, Jorge et al. (Org.). Portugal e a Europa:
identidade e diversidade. Porto: ASA, 1991.

MAGALHÃES, Joaquim Romero de. O Algarve


económico, 1600-1773. Tese (Doutorado) – Faculdade de
Economia, Universidade de Coimbra, Coimbra, 1984.

MARTÍ, Manuel. Historias locales e historias nacionales.


In: RÚJULA, Pedro; PEIRÓ, Ignacio (Coord.). La historia
local en la España Contemporánea. Barcelona: L’Avenç,
1999.

MATOS, Álvaro; RASGA,Raúl (Coord.). Primeiras


jornadas de história local e regional. Lisboa: Colibri,
1993.

MATTOSO, José. A escrita da História. Lisboa: Círculo


de Leitores, 2002. (Colecção Obras Completas de José
Mattoso, v. 10).

MENDONÇA, Manuela. Estudos de História regional


portuguesa. Lisboa: Colibri, 1995-1997. 2 v.

NUNES, Graça Maria Soares. A história regional e local


– contributo para o estudo das identidades. Cadernos
de Sociomuseologia, Lisboa, n. 8, p. 71-81, 1996.

50
Disponível em: <http://revistas.ulusofona.pt/index.php/
cadernosociomuseologia/article/view/282/191>. Acesso
em: 7 out. 2011.

OLIVEIRA, César (Dir.). História dos municípios e


do poder local (dos finais da Idade Média à União
Europeia). Lisboa: Círculo de Leitores, 1996.

OLIVEIRA, Aurélio. A Abadia de Tibães: 1630/80-1813:


propriedade, exploração e produção agrícolas no Vale
do Cávado durante o Antigo Regime. Tese (Doutorado
em História Moderna e Contemporânea) – Faculdade de
Letras, Universidade do Porto, Porto, 1979. 2 v.

POIRRIER, Philippe. Les enjeux de l’histoire culturelle.


Paris: Éditions du Seuil, 2004. (Col. Points Histoire).

RAMOS, Rui. História de Portugal: a segunda fundação


(1890-1926). In: MATTOSO, José (Dir.). História de
Portugal. Lisboa: Círculo de Leitores, 1994. v. 6.

RIBEIRO, Rita. A nação na Europa: breve discussão


sobre identidade nacional, nacionalismo e
sunranacionalismo. Cadernos do Noroeste, v. 22, n. 1-2,
2004. (Série Sociologia).

RODRIGUES, Guilherme; PEREIRA, João Manuel


Esteves. Portugal: dicionário histórico, chorográfico,
biographico, bibliographico, heraldico, numismatico e
artístico, Lisboa: João Romano Torres e Cª, 1904-1915. 7 v.

SILVA, Francisco Ribeiro da. O Porto e o seu termo


1580-1640: os homens, as instituições e o poder. Tese

51
(Doutorado em História Moderna e Contemporânea) –
Faculdade de Letras, Universidade do Porto, Porto, 1985.
2 v.

______. História local: objectivos, métodos e fontes.


Porto: Faculdade de Letras da Universidade do Porto,
1999. v.II.

SILVA, Marcos A. da (Org.). República em migalhas:


história regional e local. São Paulo: Marco Zero, 1990.

SMITH, Anthony D. A identidade nacional. Lisboa:


Gradiva, 1997.

______. Nações e nacionalismo numa era global.


Oeiras: Celta, 1999.

______. Nacionalismo. Lisboa: Teorema, 2006 [2001].

VASCONCELOS, José Leite de. Etnografia portuguesa:


tentame de sistematização. Lisboa: Imprensa Nacional,
1933-1975. 6 v.

VIEIRA, Alberto (Coord.). História dos municípios;


administração, eleições e finanças. In: SEMINÁRIO
INTERNACIONAL HISTÓRIA DO MUNICÍPIO NO
MUNDO PORTUGUÊS, 2., Coimbra, 2001. Coimbra:
CEHA, 2001.

52
HISTÓRIA, NARRATIVA E TEMPO:
entrelaçamentos1

Antonio Paulo de Morais Rezende

No fluir das incertezas

Quem pensa que a história é um mergulho no


passado restringe seus significados. A história não está
conectada com um único tempo. Ela é uma invenção
social e não um conceito fixo e definitivo. Estamos
longe daquela época de exaltação cega do progresso,
do predomínio da linearidade, da ideia de que o futuro
é sempre melhor que o presente. As frustrações  são
muitas. Vivemos violências, configuramos interesses,
ouvimos os ecos de bombas atômicas e o despertar
de  fundamentalismos. Não dá para acreditar que
caminhamos, sem problema, em busca de um mundo
de liberdade e igualdade. É uma ilusão passageira que
engana os inocentes, entusiasmados com os signos dos
anúncios sedutores de paraísos, sem as espertezas das
serpentes, mas garantias de sossego ecológico contínuo.
Temos que desconfiar, atiçar as dúvidas, não
testemunhar o fim das incertezas. Lembre-se que
Descartes articulou um pensamento que destacava a
análise, portanto não fica bem adormecer no travesseiro
dos dogmas e gritar, como fãs de ídolos vazios, que há

53
verdades inquestionáveis. Descartes se entristeceria e
abandonaria seu lugar na filosofia. A História é cercada
de especulações e cabe no tubo de ensaio de Duchamp,
pois não despreza a ironia e o humor. Ela se move,
dialoga com a vida, não se aquieta em berços esplêndidos,
costuma fertilizar a aridez de desertos. Sua geometria
é labiríntica, distrai e confunde. Não premia a quem
encontrar as saídas, ri dos que se programam assistir ao
juízo final. Não desiste de lembrar que a descontinuidade
é, apenas, um dos temas das divagações de Foucault.
A história, recordando as lições de Nietzsche, é
a convivência com a incompletude, a construção de
possibilidades, o desejo de sobreviver ao efêmero e de
se desfazer das tábuas dos mandamentos sagrados. Não
se afasta das esfinges, porque não suporta respostas
compridas, mesmo que se deleite com perguntas extensas.
O grande equívoco é fazer da história uma disciplina
acadêmica, íntima de pretensões oniscientes, atravessada
por metodologias fechadas ou por arrogâncias armadas.
A história possui os significados da vida e não das
transcendências espirituais. Embala-se nos perfumes
dos corpos, nas imagens dos espelhos sem molduras,
sem assepsias hospitalares.
Vivemos e contamos as nossas aventuras
independentes de as academias  firmarem especializações
curriculares. As concepções de Heródoto e Tucídides já
apontavam horizontes diferentes. Sensibilidade e razão,
sempre estão próximas, mesmo que desenhem paradoxos.
O culto ao passado provoca paralisias e mesmices. Os
paradoxos compõem a história, pois o humano não tem

54
pacto com o absoluto, apenas delira com a invenção
das divindades. Uma leitura d’As Cidades Invisíveis de
Ítalo Calvino acena a multiplicidade de significados que
Marco Polo consegue registrar nas suas conversas com
Kublai Kan. Elas bordam a cultura, são traços preciosos
para compreender que o abismo das palavras também
salva.
Portanto, não fiquemos submersos. Respiremos
expandindo a autonomia, esticando as fantasias e
controlando as vaidades que nos surpreendem. Os relatos
históricos caem, muitas vezes, num realismo apático,
colecionando documentos e arquitetando hierarquias.
Ninguém está livre dos preconceitos e das pretensões.
O debate histórico é fecundo quando se afasta do tempo
simultâneo. O presente está entrelaçado com o passado
e com o futuro. Aristóteles toma cafezinho no bar da
esquina e Batman gosta de comprar sorvete na padaria
da praça.
Memória e desejo se conjugam, desfiando a
imaginação. A arte se insere na fábrica da pesquisa
dos textos, porque não há tempos mortos e sepultados.
O historiador (res)significa, se envolve com o eterno
retorno. “Não deve esquecer-se que os grandes mestres
da prosa foram também quase sempre poetas, quer
publicamente, quer apenas em segredo, na intimidade;
não é efetivamente senão em vista da poesia que se
escreve boa prosa!” (NIETZSCHE, [s.d.], p. 251). A história
não é a consagração do instituído, da verdade confirmada
pelos arautos do poder. Ela busca o instituinte, acolhe as
rebeldias,  provoca conversas da ordem com a ruptura.

55
Há hegemonias estabelecidas, mas nunca perenes e
indiscutíveis.
É importante recordar que os totalitarismos se
desfizeram. O medo de suas violências incomensuráveis
não os fez permanentes, mesmo que tenham procurado
pactos com as religiões e  eternidade. Franco e Salazar
possuíam relações estreitas com a Igreja Católica. Elas
ajudaram a  contrariar os esforços de democratizar a
sociedade. Não é novidade. A história continua sendo
espaço de perseguições. Basta visualizar o que acontece
nas disputas recentes no Oriente Médio, os choques
constantes entre muçulmanos e cristãos.
O vaivém da história registra que a cultura não vive
sem interpretações. Ela institui hermenêutica e estrutura
de gramáticas. As linguagens se reinventam para que a
cultura não se esconda e consiga deslindar o obscuro.
A verdade é curva, assim escutava Zaratustra, embora
não escapemos dos sentidos imaginários e dos pesadelos
construídos em plena luz do dia. Narramos as histórias na
busca de criar sentidos. Elas não são pré-determinadas.
A narrativa traz sentimento, olhares subjetivos,
malabarismos do inconsciente, esquizofrenias perdidas
nas infâncias tardias. “O tempo é negação e confirmação
do ser: negação, já que o suprime;  confirmação já que o
supõe. É por isso que há movimento, mudança, história”
(COMTE-SPONVILLE, 2000, p. 21).
A narrativa exercita possibilidades, espreguiça-se
pelos territórios, aparentemente, insondáveis da vida.
Não dispensa a força do que vem de dentro, não assimila
apenas o visível. Nesta perspectiva, a História é o encontro

56
com a narrativa. Pamuk não descreve Istambul para se
distrair e enganar  amarguras. Istambul mora no traço
mais secreto da sua trama, nos segredos que transcendem
sua memória voluntária. Nem sempre, compreender é
mensurar datas e aprisionar sucessões. Muitas vezes, é na
volta para o que parecia desmantelado que tocamos no fio
de Ariadne. É preciso, contudo, paciência e contemplação.
Os desenhos dos labirintos que configuram a cartografia
das histórias são móveis. Nunca saberemos a extensão
das suas trilhas.
O texto que escrevemos existe porque ele pede ponto
final, mesmo que silencioso e  inútil. Somos nômades e
efêmeros, porém procuramos os portos das eternidades e
as embarcações que enganam as turbulências das águas.
Temos as memórias de Prometeu e Narciso, guardadas
no cofre da solidão. A narrativa é o nosso leito, desde que
o sonho seja lento e aconchegante. Nossas madrugadas
possuem luzes e sombras. Sobram histórias, narrativas,
culturas. Falta o olhar cuidadoso para o outro, porque
a teoria se descola da vida e, muitas vezes, alimenta
a arrogância. Na quebra da sociabilidade, somos
testemunhas dos absurdos do inferno.

A memória: perfumes e vestimentas

Não visto, sempre, as vestes do mundo. Procuro


as transcendências dos tapetes mágicos e as conversas
sem fim de Sherazade. Há outros reinos e soberanias.
O mundo não é o espelho de quem vence e rasga o
passado, com definições que se perpetuam. Há sempre

57
lugares para rebeldias e desafogos. Repetir não é o trajeto
único da cultura, mas também nem sempre é possível
reinventar e fugir da mesmice. O desenho da história
tem forma de labirinto: poucas saídas e sinuosidades
extensas. Não é fantasia. Basta ler os ensaios de Octavio
Paz ou mergulhar nas águas de Macondo. Não pense que
Cem anos de solidão é uma obra exclusiva de Gabriel
G. Márquez. Todos atravessaram solidões que somadas
superariam séculos, desafiaram as idades dos deuses, os
números das dúvidas dos loucos contemporâneos. Quem
sabe Baudrillard ressurgisse no céu da pós-modernidade
ou Pelé assumisse um lugar no ataque da seleção
brasileira!
Não vestir as vestes do mundo significa desafiar.
Os tempos históricos não devem ser vistos como
hierarquias ou sínteses de discursos do método.
A memória tem perfume e possui sedução. Talvez seja
um equívoco falar-se de memória, no sentido singular.
Será que existe alguma coisa que dialogue com as origens
ou não possa ser imitada? A cultura é multiplicidade e
engano, amargura e fascínio, abismo e vulcão, geometria
e gramática, sombra e luz, Prometeu e Sísifo, Jorge Luís
Borges e Astor Piazzolla, Chico Buarque de Holanda e
Cartola, Cavaleiros do Forró e Zeca Pagodinho, Picasso e
Michelângelo... É impossível cercá-la de sujeitos e palavras
que esgotem suas aventuras e suas ambiguidades.
A placa de sinalização das origens está perdida. Va-
mos aos primórdios, conseguimos fotografar Adão e Eva,
porém conhecer o primeiro ato é largar-se na especula-
ção. Por isso, as religiões gostam do pecado original e de

58
espalhar a culpa. Adão e Eva comeram a maçã, porque se
amavam e se conectaram com o que afirmava a serpente.
A cultura precisa de símbolos para continuar fabricando
relações. Aliás, é importante observar que há culturas e
identidades soltas, se tocando em alguns pontos e confli-
tando em outros. Criamos conceitos para explicar, porém
eles são frágeis, incompletos e servem para adivinhar os
caminhos e a flutuação das regras dos jogos.
Ligue-se no que disse Nietzsche: “Pensamento e
palavra: nem sequer os nossos pensamentos podem ser
traduzidos inteiramente por meio de palavras” (SILVA,
2011, p. 59). A ficção e o real não se estranham. Sem eles
não construímos, nem a embriaguez. O presente não so-
brevive sozinho. Abre seus braços para o futuro e bus-
ca o passado. É movimento incessante que se confunde
com contemplações mais demoradas. A verdade é curva
e não adianta rascunhar a linha do progresso como fei-
tiço indiscutível. A América foi colonizada pelos euro-
peus que, hoje, choram dívidas e expulsam imigrantes.
Os Estados Unidos perderam uma guerra para o Viet-
nã do Norte, quando se julgavam os donos do mundo.
No momento, lamentam os desmantelos do capitalismo
e lutam por moralismos e preconceitos, porém começam
a haver dissonâncias importantes que demonstram in-
satisfações contra as desigualdades do capitalismo. A
pobreza, ainda, pertence ao mundo mesmo que ele pro-
clame as excelências do consumo. O luxo possui intimi-
dades com o lixo, a corrupção, com o pudor desmesurado
e o vazio das sociabilidades que escondem práticas indi-
vidualistas.

59
As memórias se constroem no trapézio que se
balança no circo sem lona. Esquecer e lembrar se
conjugam com tempos diferentes, no entanto assinalam
que perseguimos a felicidade mesmo que ela se apresente
como um sonho. Freud definiu o mal-estar na cultura.
Não é privilégio da modernidade, pois os desequilíbrios
não se ausentam da história. As idas e as vindas são
viagens em mares cheios de calmarias ou turbulências
contínuas. O passado ensina, porém as violências se
sofisticam anulando pedagogias antigas ou teorias
pós-modernas. As violências mudam de lugar numa
rapidez que entontece. Ora aparecem numa rua de Paris,
ora se concretizam em genocídios nazistas. Estão nos
conflitos do Oriente Médio ou na miséria das favelas das
metrópoles, na esquina de uma avenida movimentada,
na favela que fica nos fundos de um shopping center.
Com toda força das imagens, a palavra não cede
seu lugar. O poeta Baudelaire tinha suas razões, quando
exaltava as dimensões mágicas do dizer e do escrever.
As cores mudam, as formas se reconfiguram, os textos
redesenham suas linguagens. As culturas necessitam de
metamorfoses como os personagens. Não importa que
exijam decifrações, que provoquem paradoxos. “Vivemos
num tempo em que a civilização periga morrer por meio
da civilização” (SILVA, 2011, p. 22). Reflexão feita no
século XIX, com proximidades incríveis com o século
XXI. Sempre a hesitação ou as memórias de um juízo
final. Flutuamos entre a Idade do Ouro e o desmantelo
que traz a guerra das astúcias científicas. Portanto, a
questão das origens se reapresenta acompanhada dos
medos do apocalipse. O presente espremido, quase sem

60
respiração, anda na corda bamba das nostalgias ou das
negociações mesquinhas. O que se agiganta é a incerteza,
é o comércio de drogas que, ruidosamente, toma conta do
rural e do urbano e da lan-house que fica escondida nos
becos dos subúrbios. Seu perfume e suas vestimentas
circulam em vitrines e em viadutos transtornados, pelas
máquinas que orientam a velocidade humana.
A secularização da cultura não legitimou o profano
ou a objetividade do pensamento, com muitos previam.
A confusão continua. Temos práticas sociais que
relembram os tempos áureos dos gregos ou as violências
imperialistas dos romanos. O presente é também um
museu de tudo, pois as relações de poder dominantes
escolhem suas metas e ressuscitam o sepultado. O básico
é não perder o controle. Descartes tinha suas razões.
A crítica ajuda a não cair na obscuridade e analisar,
com mais cuidado, as diferenças. Suspeitar, sempre, das
hierarquias existentes merece atenção. A gratuidade
não possui lugar definido, numa sociedade que exalta
o valor de troca e coisifica os atos humanos. O fetiche
da mercadoria não é um devaneio teórico. Chama pelo
telefone nas impertinências do telemarketing.
Daí, os múltilpos vazios que dariam para fabricar
vitrines coloridas e dramas para as novelas televisivas.
A infantilização se espalha. Freud, também, tinha suas
razões. A conquista da autonomia requer responsabili-
dade. Se as perguntas surgem, onde estão as respostas?
Elas são possíveis ou as perguntas representam os dese-
nhos da interioridade mais profunda? O jogo do esqueci-
mento e da lembrança não fixa regras duradouras. A me-

61
mória se balança em trapézios dos circos pós-modernos,
com espetáculos gravados em DVDs, com programações
artificiais e milionárias. Não se trata de argumentações
brincantes. Leia Neuromancer, de Gibson, e perceba um
projeto de futuro. É ficção, mas não tenha medo das mis-
turas. Elas estão no armário do teu banheiro, no ônibus
cheio que percorre bairros e queima parada.
As notícias de crise rondam os meios de co-
municação. É quase uma obrigação enredá-las.
A cultura é movimento, sobretudo na contemporanei-
dade, depois das invenções científicas e das ameaças de
desfazer o santuário das divindades. Os laboratórios de
pesquisa ativam suposições, com acessos restritos, sobre
o futuro. Não é delírio afirmar que as paisagens passa-
ram por metamorfoses radicais. Sobrarão nostalgias ou
existirá uma pílula especial para evitar epidemias de
saudades? O que inquieta é o deslocamento da afetivida-
de. Quais serão seus códigos, como a sexualidade se ex-
pressará ou tudo isso é, apenas, uma agonia do presente?
A especulação trança fantasias e pesadelos. O mundo de
onde falo, agora, talvez não sobreviva amanhã. O tempo
é como o manto de Ulisses. A astúcia maior é não anular
o humor. A sua escassez significa que as sereias enfei-
tiçam com seus cantos. É preciso que a composição da
música se entrelace com a sensibilidade. A sede de expli-
car tudo é uma patologia. Sossegue. Nas tuas mãos estão
todas as linhas do universo. Acredite, sem complicações.
Deixe o tempo vacilar e siga adiante. Imite os surrealistas
e escreva o imperecível na areia. Namore o acaso e não se

62
descole do absurdo. Só não use armaduras, nem bombas
nucleares.
Espere. Não abandone as essências do perfume do
teu corpo. Elas são as fatalidades mais presentes na tua
vida. Tuas veias abertas lembram não, apenas, a América,
criam uma conexão com o mundo. A crise é radical,
porque os dominantes buscam diluir o passado, deixar
a crítica na geladeira, massificar as escutas e as falas,
organizar discussões agitadas, rascunhar metafísicas
nas vitrines. A aldeia é global, mas o coração e as
sensibilidades possuem inquietudes e afetos. Compre um
tapete mágico, apaixone-se por Sherazade e não acredite
nas vaidades dos intelectuais. Há epidemias soltas.
Muitos acumulam conhecimentos como o City Bank e
Santander espalham sua fome virtual de engordar cofres
eletrônicos. Aposte na sorte e desconfie de qualquer
apocalipse. Arquitete sua própria atmosfera, agora, sem
esforço, como se montasse um lego infantil. Desconjunte-
se, seja íntimo do efêmero, mas suspeite das soluções. Boa
sorte. O cenário das conversas tem aromas de Woodstock
e das estéticas do cosmos.

A porta entreaberta da narrativa

Imaginar a história, numa representação arquite-


tônica, nos traz a configuração do labirinto, com suas
sinuosidades e surpresas, suas portas entreabertas, sem
chaves ou segredos, mas com paredes de cores diferen-
tes e espelhos com formas inusitadas. Não é à toa que

63
inventamos a geometria e matemática, os significados e
as linguagens. O inesperado é o soberano na cartografia
do labirinto. Ela abraça todas as cidades invisíveis de Ita-
lo Calvino e lembra a solidão fantasiosa de Macondo, do
livro Cem anos de solidão de Gabriel García Márquez.
A história é lugar privilegiado dos primeiros poetas.
Foram eles que deixaram na memória os sinais dos pri-
meiros paraísos e fertilizaram as utopias buliçosas de
Prometeu. Por isso, a história é o grande encontro com a
incompletude.
Contar/narrar as histórias é ofício de todos.
Ninguém foge das aventuras cotidianas, nem que elas
sejam povoadas de decepções e amarguras. Quem sabe se
no outro dia, o sonho submeta o pesadelo, e a luz consiga
dialogar com as sombras? Sabemos que navegamos
num oceano cheio de limites, de águas turbulentas, com
azuis desbotados, mas nunca estamos distantes das
transgressões e o pecado original só se sustenta na fala
do papa. Tudo é uma questão de escolha, de negociação,
de um olhar mais contemplativo ou mais agoniado.
Narrando a história narramos o que vivemos. Ela é
o presente em permanente diálogo com o passado e com
o futuro. O tempo existe para ser dito e remontado como
jogo de lego, nas mãos de um malabarista de um circo
sem platéia. Estamos cercados de desejo, fantasias e com
Beatriz achamos que para sempre é sempre por um triz.
Não temos raízes, porém as buscamos. Como viver a vida
sem referências, mesmo que haja tantos deslocamentos e
o efêmero sintetize a modernidade de Baudelaire, junto
com as conjugações do eterno. Os humanos respiram as

64
vaidades dos deuses que inventaram para construir uma
pausa nos desencantos da incompletude.
Portanto, nada mais complexo, nem mais solto do
que contar uma história. As lacunas não se ausentam
das narrativas. As certezas do método passam, são
artimanhas das conspirações entre saber e poder,
premiadas nos concursos das revistas pontuadas no
Curriculum Lattes. Não estamos livres das dúvidas. Elas
acendem a renovação, traçam as pontes precárias do
mal estar na cultura, fazem Freud fumar seus charutos,
apesar dos incômodos da sua doença fatal. Ele percebeu
que o desamor não cessava e a tecnologia servia para
acelerar a morte e a sofisticar o suplício. Terminou
desiludido, atormentado pelas lembranças pessimistas
de Schopenhauer. Não conseguiu entender porque os
labirintos possuem tantas encruzilhadas, a cultura
tantas curvas e escorregões. Ainda não podia conhecer
as especulações de Castoriadis sobre o imaginário.
Observe, sem pausas, que a verdade é curva e que
o historiador já foi, muitas vezes, chamado de mentiroso.
Basta ler os escritos de Nietzsche que, hoje, iluminam as
reflexões ditas pós-modernas, inclusive as foucaultianas.
A academia é lugar de hierarquias e de regras, onde as
especializações se aprofundam e o debate sobre a verdade
ganha vastos territórios. Ela existe dentro do quadro das
instituições que conversa e garante privilégios, mas não
está adormecida em berço esplêndido. Nela circulam
inquietudes e travessias ameaçadoras, bordados e
remendos. Não se engane com as projeções da mídia, nem
com a sagacidade da sociedade do espetáculo. Batman

65
perseguiu o Coringa, para esquecer sua problemática
amizade com Robin e o Superman pouco liga para as
instabilidades de Obama.
A vida corre. Institui gramática, ao mesmo tempo
em que se perde na massificação da aldeia global. Hannah
Arend já alertava para os obstáculos que a história poderia
criar. Os temas mudaram, porque as preocupações
mudaram. Estamos numa época onde 120 milhões
pessoas sofrem de depressão. Leia o livro de Maria Rita
Kell, O Tempo e o Cão, e reveja seus conceitos de tempo.
Ela dialoga com Walter Benjamim, com as experiências e
viaja pelas subjetividades. As fontes ajudam a desvendar
as lutas e a justificar interpretações. Elas são importantes
para firmar as narrativas e compreender a incompletude.
O saber não deve ser jogado na lata do lixo, só porque é
incompreendido não recusa a mesmice.
A história está aberta a muitas narrativas, é
território de controvérsias, de legitimidades, arrogâncias,
levezas. Uns angustiam-se com a falta de provas, outros
consomem todas as sugestões dos acervos. Uns unem-
se com a literatura, outros as abominam, pois detestam
as ficções. Só as cultiva na costuras das suas neuroses,
consagrando as metamorfoses kafkianas ou as ousadias
de Ulisses, para o deleite das suas viagens pessoais.
Terminamos mantendo Sherazade viva, mesmo que
preciso mais de mil e uma noites.
Estamos no século XXI. A mistura é grande.
Certeau, Deleuze, Beatriz Sarlo, Adorno, Ricoeur, Duby,
Marx. Não faltam inspirações e bons convidados. A
história não é uma samba de uma nota só. Talvez pareça

66
mais com A Sagração da Primavera do que com Roda-
viva de Chico Buarque. Não sei. Não dá para fechá-la em
gavetas. O melhor é que estamos aqui, mesmo que lá
fora os Correios e os Bancos estejam em greve. Os anjos
tortos de Drummond nos acompanham, sussurrando
no ouvido que o coração pode ser maior que o mundo.
A história se constrói com ruídos e silêncios. Casam e
são felizes para sempre. Entre vaidades e solidariedades,
vamos observando que as máscaras nem sempre cabem
nos rostos que elas protegem. Ainda bem. O ar se
respira, a história se sonha, a conversa garante a cultura,
a narrativa assegura que o coletivo persiste apontando
futuros.

Nota
1 O texto, aqui, apresentado representa as discussões que foram firmadas no en-
contro da UNEB quando participei de uma mesa-redonda. Mantém-se o título, mas
há acréscimo e pequenas mudanças em alguns argumentos, com as reflexões de
outra mesa-redonda. Resta salientar que uma parte dele foi publicada no meu blog
– <www.astuciadeulisses.com.br>–, na perspectiva de ampliar a divulgação das
ideias em movimento. Daí, o destaque ao entrelaçamento que articulam as idas e as
vindas das narrativas de que faz e vive as histórias.

Referências

COMTE-SPONVILLE, André. O ser-tempo. São Paulo:


Martins Fontes, 2000.

NIETZSCHE, Friederic. Civilização e decadência. Porto:


Editorial Inova, [s.d].

67
SILVA, Pulo Neves da. Nietzsche: citações e
pensamentos. São Paulo: Leya, 2011.
BAHIA EM PEDAÇOS:
desafios para o historiador

Antônio Fernando Guerreiro Moreira de Freitas

Os historiadores não têm a ousadia como costume


ou hábito da sua escrita ou mesmo da sua fala, esta úl-
tima vista por profissionais de todas as especialidades
como mais livre e solta de controle e revisão. Esse com-
portamento, provavelmente, decorre do estreito convívio
com as indispensáveis fontes, sempre realçadas nas sa-
las de aula das diferentes disciplinas, logo que o jovem
chega a uma instituição de ensino superior. Aprendemos
desde cedo e repetimos sempre que sem as fontes não
somos ninguém e tudo que falamos ou escrevemos deve
estar calçado numa rigorosa consulta documental.
Atuando dessa maneira, temos muita dificuldade de
supor, ensaiar, formular hipóteses ou mesmo discutir os
tempos recentes, encarados por muitos como perigosos,
carregados de muitos riscos, um monte de subjetividades
em todos os lugares, sem a devida distância, que torna
os papéis amarelos e frágeis e as vozes mais roucas,
cansadas, às vezes inaudíveis. O futuro nos traz medo,
prever não é nosso ofício, imaginar situações vindouras
um grande pecado, afinal as fontes ainda não estão
disponíveis, mal começaram a ser organizadas.
Por um lado, não somos ousados, por outro nos
assustamos com qualquer tipo de imprecisão, dúvida ou

69
um registro do não saber. Ignorar – mesmo uma singela
data – é algo que nos deixa tensos. Bem diferente daqueles
profissionais, que conseguem esconder tudo isso e outras
coisas mais através de uma retórica rebuscada e, ao
mesmo tempo, vazia, ou de uma escrita compreensível
apenas para iniciados e bem treinados. Para não falar
daqueles que se acostumaram a nos vender diversos
paraísos, embutidos em planos econômicos, a maioria
esquecidos em pouco tempo e promotores de melhorias
apenas para os que deles não necessitavam.
Esse é o ponto: para tentarmos compreender e
explicar a Bahia, precisamos ser atrevidos e criativos,
aptos para enfrentar desafios e dificuldades, como
a ausência de bibliotecas e arquivos na maioria dos
municípios; inexistência de um rol de idosos, que
pudessem dar seus testemunhos sobre vivências nas
diferentes regiões baianas, em que pese ser esse o
estado brasileiro com a maior presença de centenários
no interior da sua população. Por outro lado, é inegável
o insuficiente investimento público para a qualificação
daquelas instituições, especialmente para as instalações
físicas, ampliação dos acervos, admissão de profissionais
especializados etc. Do setor privado, apenas apatia e
silêncio, o que permite a interpretação de desinteresse
e desejo de distância de um problema que deveria ser
considerado como prioritário para toda a sociedade, não
apenas de estudiosos e pesquisadores.
Não são apenas teses e dissertações que ficam com-
prometidas, ou seja, os atingidos não seriam uns poucos
abnegados acadêmicos, autores de obras de circulação
restrita, ignoradas pela sociedade. O desconhecimento

70
ou mesmo a ignorância e a não preservação da memó-
ria e dos vários saberes decorrentes de inúmeras práticas
culturais comprometem a vida de cada lugar e a constru-
ção das identidades. As novas gerações perdem contato
com o passado, tornam-se surdas para o saber de onde
vieram, de como pensavam e agiam seus antepassados,
de como tinha sido sua escola, família, rua, bairro e a
própria cidade que habitam.
Conhecer o passado desses núcleos urbanos, talvez
ajudasse a seus atuais gestores a torná-las menos feias e
desumanas. Chego a pensar – sem qualquer consulta a
alguma fonte – que a Bahia é o estado que detém o maior
número de cidades mal cuidadas, sem nenhum atrativo
para seus moradores. Embelezar as ditas, entre outras
coisas, poderia ajudar o retorno de uma expressão tão cara
às gerações passadas: “a minha terra”. E mais: retomar o
prazer da moradia na pequena e média cidade, da boa
e solidária vizinhança, dos jardins floridos e das ruas
sombreadas. Um bom e ilustrado livro didático poderia
ser um caminho. Um acervo sonoro, com registro de uma
diversificada memória.
Certamente não seria uma tarefa fácil de cumprir.
Primário engano pensar a Bahia como um território
homogêneo. A começar pelo processo de ocupação,
ocorrido em diferentes tempos históricos e inspirados
em múltiplos interesses, nem sempre complementares,
alguns até contraditórios. Das atividades exploratórias à
vida cultural percebemos, desde a colônia até a república,
espaços bem delimitados, representativos de épocas, da
sociedade e da própria vida. A matriz humana plural,
com predominância e determinações a depender do local,

71
do tempo e do poder de cada grupo ou representação. Em
determinados lugares, encontramos os povos originais,
os brancos e afrodescendentes mais misturados, em
outros nem tanto. Uns de exploração secular, outros nos
tempos recentes. Tudo a nos indicar as múltiplas faces
de um objeto – Bahia – a nos sugerir que a mesma não
existe em decorrência apenas de um grupo populacional,
que o dendê (estrangeiros e nacionais chegam a pensar
que o óleo extraído seja consumido em todas as refeições,
todos os dias) não é cultivado até às fronteiras dos sete
estados com os quais se limita, e que o axé não é o único
ritmo que nos embala e faz dançar nos dias ensolarados
e noites quentes do nosso predominante verão.
Façamos então uma grande viagem, com o
objetivo de visitar algumas regiões e recantos baianos.
Antigamente, até meados do século passado, poderíamos
contar com variados meios de transporte para ir a esses
lugares, como estradas de ferro e de rodagem, hidrovias
fluviais e marítima, e o aéreo que começava a explorar
suas primeiras rotas. Hoje, estamos reduzidos ao
rodoviário e ao aéreo para pouquíssimas cidades. Assim
são os tempos por nossas bandas, tudo que se tem como
moderno avassala e descarta o que se considera antigo,
inclusive os nossos idosos.
Vamos compor esse mosaico do interior para o
litoral, dos lugares mais distantes até chegar à capital.
Veremos como se foram formando cada um desses
pedaços, a integração ou afastamento em relação ao
centro, as características maiores de cada pedaço.
Comecemos pelas terras da margem esquerda do
rio São Francisco, o cerrado, as hoje reconhecidas como as

72
da soja e do algodão, que em razão da própria distância,
foram as últimas a serem ocupadas, o que ocorreu mais
intensamente nos últimos quarenta anos. Até o início
da exploração recente, era um espaço que se integrava
ao restante da Bahia através da navegação fluvial (São
Francisco e afluentes), que se conectava, em Juazeiro,
com a estrada de ferro Bahia-São Francisco. Esse circuito
ampliava a presença de Salvador como um centro, capaz
de influenciar áreas dos estados de Minas Gerais, Goiás,
Piauí e Pernambuco.
A pecuária – extensiva e pouco qualificada – era
predominante, mas chamava atenção a existência da
“economia do catado”, a reunião de muitas pequenas
produções: couros e peles, peixe salgado, borracha
de maniçoba e mangabeira, óleo de ouricuri, cera de
carnaúba, feijão, milho e um sem número de outras coisas.
Através das ‘gaiolas’, as velhas e belas embarcações do São
Francisco, todo esse “catado” e variedade de mercadorias
eram comercializadas e alcançavam distantes mercados
consumidores, até no exterior. As fazendas, por serem
enormes não eram cercadas, funcionando a marca da
ferra do gado como registro de limites. Diga-se ainda
que os gêneros alimentícios vendidos eram os mesmos
que eram consumidos localmente, acrescendo-se o peixe
fresco, obrigatório para o consumo de ricos e pobres.
Poderosos chefes locais – como João Duque e Abílio
Wolney – controlavam a sociedade e se responsabilizavam
pelas chamadas melhorias, a maioria delas para atender
suas conveniências e interesses. O segundo, visando à
consolidação das suas propriedades abriu estradas, que
aproximaram a Bahia de Goiás, caminho original que

73
serviu como rota prioritária para as novas gerações,
principalmente após a construção de Brasília. Salvador
foi ficando distante, pois a opção estrada de rodagem
obrigava o percurso de mais de 1.000 quilômetros, entre
a maioria das cidades e a capital do estado.
Os controles eram rígidos e a presença da igreja
católica marcante. As moças só estudavam em colégios
femininos, de preferência sob orientação de alguma
ordem religiosa. As que tinham alguma vocação para as
artes, como o canto, por exemplo, eram obrigadas a gastar
as cordas vocais na interpretação de hinos e cânticos
religiosos nas longas e obrigatórias missas dominicais.
Não vamos nos esquecer. Esse era o território da devoção
ao Bom Jesus da Lapa, que todo mês de agosto atrai
multidões de fiéis e peregrinos.
No final do século passado, começou a prosperar a
ideia de criação do Estado de São Francisco, desmembrado
da Bahia, cujo desenho, grosso modo, corresponderia ao
espaço que foi subtraído da Província de Pernambuco em
1824. Quais as razões do desejo? Certamente vontade de
conseguir autonomia, distância da capital e sentimento
de abandono, oportunismo de determinadas lideranças
políticas. De tudo um pouco, mas é inegável que esse é um
desejo construído por condições objetivas que atingem a
sociedade regional, que se sente apartada, como se fosse
participante de um segundo time de baianos.
Passemos ao extremo-sul, aquele cantinho apertado
do nosso mapa, que tem o Espírito Santo ao sul e Minas
Gerais a oeste. Guarda no seu território o local por onde
o Brasil começou e, possivelmente, por essa razão um

74
permanente conflito, a exemplo do que acontece mais
acima, na região cacaueira, entre os povos originais e
os novos exploradores do território. Fica tão distante –
mais de 1.000 quilômetros da capital – que é muito pouco
lembrado.
Na sua busca de identidade, tentou várias alter-
nativas, entre elas a cacauicultura, certamente imprópria
para as condições de seu clima e solo, mas sua integra-
ção verdadeira só foi acontecer quando foi atravessada de
norte a sul, a partir dos anos setenta do século passado,
pela rodovia BR 101. As atividades mais constantes no
seu interior têm sido, após o desmatamento, a pecuária,
a celulose e o turismo na sua faixa litorânea. Para com-
pensar a ausência de baianos de outros pedaços, recebe
semanalmente grupos (turísticos, em sua maioria) de
brasileiros de outros estados, especialmente mineiros e
paulistas.
A festa permanente em torno de Porto Seguro não
se vincula a nenhuma estação ou calendário civil ou
religioso. De igual modo, não se vincula às características
da festa que ajudam a construir o conceito de baianidade.
Porém, sustenta a renda regional e garante empregos
para baianos, brasileiros e estrangeiros.
Por ter uma ocupação relativamente recente, não
conheceu nem formou ainda lideranças políticas que se
projetaram no cenário estadual. A exemplo de outras
regiões, contenta-se com o bastidor, com as práticas dos
grotões, onde a regra seria: se me atendem no pouco que
peço, me esqueçam, pois não causo preocupação, nem
desejo qualquer disputa ou poder maior.

75
Diferente do que sempre aconteceu na área de
influência da velha Corte do Sertão, Juazeiro, e tão
bem contadas na obra de Wilson Lins. Naquele sertão,
predominava a força e a vontade dos chefes políticos,
sendo o maior deles o pai do escritor acima citado, o
Coronel Franklin Lins de Albuquerque. A política fazia
parte do dia a dia das pessoas– do âmbito local ao federal,
todos estavam sempre prontos para opinar e participar.
Foram chefes que aliavam o tirocínio econômico com
o político. Diziam: “terra para ter poder e o comércio
para enriquecer”, o que derruba a ideia de que só se
interessavam pela propriedade fundiária. As lutas entre
famílias eram comuns e a sebaça praticada sem qualquer
vergonha, mas alguns souberam preparar os herdeiros
para outros ofícios, para as disputas nos salões e palácios,
como foi o caso do próprio Franklin, que teve filhos
participando de funções públicas importantes, tanto no
estado, como na união.
A corte, assim denominada por Theodoro Sampaio
no século XIX, merecia esse título por ser um centro
de referência, decorrente da conexão da via fluvial
com a estrada de ferro. Lugar de negócios, de grandes
encontros políticos, como da reunião da Coligação
Sertaneja, em 1933, mas também de festas. Apesar de
pouco estudada, fala-se de uma cultura ribeirinha, a
qual remete a uma comunidade mais livre, libertina
quem sabe. É reconhecida a pujança festeira da corte, a
movimentação dos seus cabarés e a admiração causada
pelo seu carnaval. As moças mais ricas que habitavam o
vale chegavam a preparar enxoval para uso nos dias que
permaneciam em Juazeiro, à espera do vapor ou do trem.

76
No geral, salvo a beira-rio, que viria, anos mais
tarde, a ser área reservada para as culturas irrigadas
é uma região pobre, cuja maior parte do solo pode ser
considerado como típico do semi-árido. Talvez seja
esse um fator, aliado a outros de natureza política e
estratégica, que fez com que a corte fosse perdendo, ao
longo do século passado, seu brilho e esplendor. Sem a
navegação fluvial e as locomotivas viu, pouco a pouco,
a mudança da dinâmica econômica e social atravessar
o rio e abrigar-se na cidade de Petrolina, pertencente ao
estado de Pernambuco, o que deu razão e voz ao poeta
que compôs e cantou “As Margens do Ciúme”.
Um pouco acima dessa região, encontramos aquela
parte do sertão, que desde fins do século XIX passamos
a associar com a Guerra de Canudos. Possivelmente é o
pedaço mais podre, onde os indicadores sociais registram
recordes negativos. Além da guerra em si, é um território
que associamos à religiosidade popular e à chamada
na Bahia de pecuária de pobre: carneiros, cabras e
bodes. Se outra utilidade não tivesse, chamaria atenção
a importância dessas criações para a oportunidade
de uma diversidade alimentar, algo raro no mundo
contemporâneo.
A Chapada Diamantina é algo particular,
porque dentro dela encontramos diferentes recortes,
especialmente nas encostas norte e sul. Na primeira,
situa-se uma área de ocupação antiga, que se desenvolveu
sob a liderança de Jacobina. Ao sul, nos tempos coloniais,
foi inegável a presença de Rio de Contas, substituída
no decorrer do século XX pelo conjunto de cidades –
Brumado, Caetité, Caculé, Guanambi – que passaram a

77
constituir a Serra Geral, a qual sofre uma influência muito
grande do norte de Minas Gerais, desde o econômico até
o cultural. Alguns chegam a pensar que a capital dessa
região seria a cidade mineira de Montes Claros!
A chapada esteve sempre associada à mineração,
o que não impediu o cultivo de grãos em determinadas
faixas do seu território. A exuberante natureza – rios,
córregos, grutas, aves e plantas – transformaram-na em
uma reserva ecológica de reconhecido valor.
Conheceu um famoso e respeitado chefe político,
que amedrontava os adversários próximos e quase
provoca, juntamente com os seus coronéis aliados, uma
guerra civil na Bahia, quando da Revolta Sertaneja, em
1919/20. Trata-se de Horácio de Matos, cujos herdeiros
exerceram funções executivas e legislativas, tanto na vida
política municipal, quanto na estadual. Foi um grande
negociador, com acesso a governadores e presidentes,
sabendo retirar vantagens e benefícios para sua área
de influência. Quem conta bem da sociedade e da vida
na Chapada é Herberto Sales, no romance O Cascalho,
quando retrata o cotidiano de faiscadores, garimpeiros,
comerciantes e políticos.
Os interessados em estudar lutas familiares
violentas certamente encontrarão na região de Vitória
da Conquista uma variada e rica amostra. Área de terras
férteis, vocação pela pecuária assumida desde sempre,
passagem obrigatória de viajantes e tropeiros, consolidou
sua localização estratégica quando a prioridade dos
transportes e comunicações passou a ser as estradas de
rodagem.

78
Não conheceu um apogeu como a região cacaueira,
onde em cerca de trinta anos aconteceu um expressivo
incremento demográfico, tornando a cacauicultura como
atividade quase única. A riqueza gerada atraiu gente
de todos os lugares, a disputa pelas terras mais aptas
para o cultivo se deu com violência e formou uma elite
que soube gastar os lucros gerados pelo comércio de
amêndoas. A industrialização nunca foi um projeto, por
se acreditar que o consumo internacional se manteria
sempre crescente. Com o passar dos anos, a crise chegou.
Árvores mal cuidadas, falta de renovação das plantações,
moléstias, concorrência internacional, queda nos preços
foram elementos que anunciavam o que viria a acontecer
no final do século XX.
Porém, a chamada elite grapiúna tinha projeto
político. Desde os anos trinta do século passado
cogitou da criação do estado de Santa Cruz, também
desmembrado da Bahia, por ver na autonomia a chance
de se livrar do controle de Salvador sobre as aplicações
das receitas geradas pelo cacau, que foram até o Polo de
Camaçari ser construído, responsáveis, na maioria dos
anos, por metade de toda a arrecadação do fisco estadual.
Há muito ainda o que pesquisar, apesar do avanço da
historiografia regional: a transferência de recursos
para outras regiões brasileiras, o destino dos herdeiros,
diferentes aspectos da imprecisa cultura grapiúna.
Sem dúvida, entre todos os pedaços, é o que mais
desejou a independência, aquele que mais aprofundou o
sentimento anti-soteropolitano e que nunca fez questão
de ser identificado com o estado, visto sempre como

79
contrário aos verdadeiros interesses regionais, fossem
esses o porto de Ilhéus, a ponte Ilhéus – Pontal, a taxa
de retenção sobre os valores exportados, dentre muitos
mais.
Antes de chegar à capital, algumas palavras sobre
uma região espacialmente ampla e de definição complexa,
que poderíamos chamar das cidades comerciais,
beneficiadas todas elas pela construção de rodovias,
sendo as principais Feira de Santana e Santo Antonio de
Jesus, essa última ocupando o lugar antes ocupado por
Nazaré das Farinhas, dos tempos do rio e mar.
Não podemos falar da existência de uma identidade,
mas da ocorrência de práticas comuns, tendo a pecuária e
a produção de derivados como principal atividade rural,
enquanto a oferta de serviços variados se encarrega da
ocupação da maioria da população urbana. São núcleos
com tendência de crescimento rápido, o que implica uma
crescente perda de qualidade de vida da maioria da
população. Como lembramos anteriormente, as cidades
baianas primam pela ausência de qualquer atração,
mesmo quando nos referimos a duas das maiores.
Os vários temas relativos à história urbana – da moradia
à violência, do trabalho ao lazer – podem ser motivo
de bons estudos. Mas, é inegável que, dentre todos os
pedaços, é o que ainda guarda proximidade com a capital
e seu entorno.
Salvador e as cidades que lhe são próximas sofrem
de problema semelhante. A ocupação secular, a partir da
exploração da cana-de-açúcar, depois o petróleo, o Centro

80
Industrial de Aratu e os polos petroquímico e automotivo
só agravaram determinadas questões, verdadeiros
desafios não só para os gestores atuais, mas também
para os pesquisadores do passado. Transformações
aconteceram, mas quando e para quem?
A capital, os municípios e cidades próximas
cresceram, diversificaram sua economia, mas isso não
resultou em aproximação com os outros pedaços, que
foram ficando cada vez mais desgarrados, autônomos de
fato, mas sem poder algum. Mesmo cidades, como Santo
Amaro, Cachoeira ou São Felix que são próximas e são
crias do açúcar e do fumo, estão ficando isoladas, talvez
porque os vapores não naveguem mais no mar.
O conceito de baianidade perde força por não ser
um sentimento comum, da maioria. Percebe-se ser algo
forjado, forçado de cima para baixo, por uma minoria
com interesses às vezes inconfessáveis.
Por fim, entre tantos desafios e com o intuito de
trabalhar temas e questões comuns a todos os pedaços,
mas sem nenhuma intenção de buscar uma união entre
eles, longe disso, poderíamos apontar três exemplos
marcantes e diferentes que perpassam o passado e o
presente do nosso território.
A primeira delas, de natureza essencialmente
política, origina-se da seguinte pergunta: por que o
interior do estado (todos os pedaços) não consegue eleger
um governador do Estado? À exceção de Lomanto Junior,
em 1962, oportunidade em que o governador em exercício
– Juracy Magalhães – insatisfeito com a candidatura, teria
afirmado “que coisas piores já tinham lhe acontecido na

81
vida”, os demais interioranos eleitos governador, só o
foram em razão de algum acidente.
É a história que nos conta. Regis Pacheco, político
de Vitória da Conquista, só chegou ao posto, em 1950,
por conta da queda do avião, em Bom Jesus da Lapa,
que conduzia o candidato Lauro Farani, do PSD.
Em, 1982, foi a vez do helicóptero cair, em Itapetinga, e
nele se encontrava o candidato do PDS Cleriston Andrade.
Por esse motivo, Feira de Santana, desde muito tempo
a maior cidade do estado, viu um filho seu tornar-se
pela primeira (e única) vez governador. No caso, o então
deputado João Durval Carneiro. Em 1998, o desastre foi
pessoal, humano em sua plenitude. O então deputado
Luiz Eduardo Magalhães enfartou, cabendo ao político
de Jequié, Cesar Borges, ocupar o seu lugar.
Como sabemos, o Ceará e o Rio de Janeiro já
tiveram filhos eleitos governadores da Bahia, cabe então
perguntar se o mais alto posto do executivo estadual
estaria reservado apenas para baianos nascidos na capital
e nos seus arredores? Alguns poderiam argumentar que
os interioranos só se interessariam pelo poder local,
com o jogo político pequeno apreendido com as práticas
oligárquicas, que não teriam projeto para o estado.
É a história de novo que nos socorre. Os exemplos da
Revolta Sertaneja de 1919/20; da passagem da Coluna
Prestes pela Bahia, em 1926/27; ou mesmo as tratativas
políticas, após a chegada do jovem tenente cearense
Juracy Magalhães, em 1931, indicam a existência no
interior do estado de líderes pragmáticos, duros, porém
hábeis negociadores, capazes de retirar vantagem de

82
todas as conjunturas, inclusive diante do poder central
da república.
Não esquecer também o exemplo da região cacaueira,
maior produtora de riqueza no estado, na maioria dos
anos do século passado, cujo anseio separatista, conforme
apontado acima, deve ser entendido como uma reação
extrema ao fato de se sentir explorada, discriminada,
como uma simples arrecadadora de recursos para outros
escolherem destinos e prioridades para os mesmos.
O exame dos discursos da denominada “bancada
do cacau”, na Assembléia Legislativa do estado, traz
evidências suficientes da insatisfação, do protesto, do
desejo de vivenciarem uma outra realidade, de um
sentimento de superioridade. Sempre quiseram ter a
chance de governar a Bahia, como podem comprovar
as memórias das famílias de Antônio Pessoa, Gileno
Amado, Artur Leite da Silveira, Eduardo Catalão ou
Henrique Cardoso.
A temática esportiva também contribui para a
compreensão dos pedaços. Em que pese o pouco valor
dado a esses assuntos pela historiografia baiana, que
só agora se deu conta de que o futebol é uma realidade
secular e encontra em jovens historiadores, talentosos e
dedicados, os meios para nos revelar as tramas e artes
que envolveram essa prática no estado. Pesquisar sobre
o futebol, certamente nos revelará duas realidades bem
distintas. De um lado, as duas maiores torcidas do estado
– Bahia e Vitória – concentradas majoritariamente na
capital; de outro, a torcida do interior, onde uns poucos
se interessam pela equipe representativa da sua cidade –

83
menos de 10 em 417 – e, de outro, a massa fanática pelos
times de São Paulo e Rio de Janeiro, principalmente esse
último.
Os donos de bares e botecos, seja no Pontalzinho
em Itabuna, no Largo da Missão em Jacobina, seja na
beira mar de Ilhéus, Canavieiras, Belmonte e Porto
Seguro ou na beirada de rio de Juazeiro, Barreiras ou
Bom Jesus da Lapa sabem muito bem que qualquer
FlaFlu vale muito mais para os seus negócios do que um
BaVi decisivo. Chama atenção o fato de que os baianos do
interior homenageiam, talvez por se identificarem mais,
os times de outros lugares do que aqueles que possuem
uma identidade maior com o estado. Tomemos o exemplo
das três equipes do interior que em mais de oitenta
campeonatos disputados tornaram-se campeãs. Somente
em 2011, tivemos um campeão do interior com nome
que lembra o estado: o Bahia de Feira. Antes, tivemos o
Fluminense (sic) também dessa cidade e o Colo-Colo, de
Ilhéus, deferência ao seu homônimo chileno. Nada que
lembre qualquer sertão, chapada, grapiúna ou outros
designativos mais apropriados ao lugar.
O último exemplo se refere a um evento quase
sagrado para alguns baianos. Trata-se da maior data
cívica do estado, o Dois de Julho. Antes de se tentar
tornar a data feriado para todos os brasileiros, deveria se
perguntar por que ela só o é em um pequeno pedaço da
Bahia, mais precisamente Salvador e Recôncavo. Para os
baianos nascidos e criados nos outros pedaços trata-se de
um dia comum, sem qualquer motivo de comemoração.
Os que tiveram acesso à escola, tanto as antigas como

84
novas gerações, não encontram nos livros de história
qualquer registro especial.
Esses são apenas registros. Díspares, como
dissemos e desejamos evidenciar: um político, outro
esportivo e a festa cívica maior. Outros inúmeros temas
poderiam ser trazidos para discussão: as terras e sua
distribuição desigual; a industrialização desequilibrada;
a concentração da riqueza, a pobreza e carências da
maioria dos municípios; a dinâmica populacional; a
multiplicidade das representações culturais, nossos
falares e sabores, uma variedade quase inesgotável. Todos
eles teriam um peso ou uma cor, a depender do lugar.
Da mesma forma que pluralizamos os sertões, podemos,
dentro de pouco tempo, falar de Bahias. Essa é a questão
central a enfrentar, um desafio, especialmente por
aqueles responsáveis pela produção do saber. Enquanto
os que têm o poder real, podem tentar esconder, o nosso
poder é o da revelação, do aprender a contar sem medo.
Alguns poderão considerar uma provocação. Seria
melhor tomar como sugestões para aqueles que começam
a construir uma trajetória, não para os que se encontram
no terço final da estrada, em geral carregados de certezas
e preferências. Trata-se apenas de um simples ensaio,
reflexões e pensamentos de um historiador preocupado
com os colegas mais jovens e observador de um território
secular.

85
PARTE 2

A América portuguesa na
perspectiva da historiografia
regional e local
O COTIDIANO DOS CÁRCERES
INQUISITORIAIS1

Marco Antônio Nunes da Silva

Como defendem os historiadores da École des


Annales, o estudo do cotidiano e da vida privada são tam-
bém formas de se acessar a história econômica e social.
Eles nos ensinam que a abordagem da vida cotidiana não
está somente amarrada aos acontecimentos habituais –
em contraposição, por exemplo, a fatos pouco usuais –,
e muito menos que tal análise deva ser meramente o ato
de descrever uma determinada época. De acordo com
Del Priore (1997, p. 266), “para o grupo dos annalistes, a
história do cotidiano deve fazer-se através do estudo do
habitual, mas de um habitual imbricado na análise dos
equilíbrios econômicos e sociais que subjazem às deci-
sões e aos conflitos políticos”.
Mas haveria como traçar uma diferenciação
entre o estudo do cotidiano e uma abordagem da vida
privada? Para Vainfas, o cotidiano está relacionado ao
tempo, ligando-se, dessa forma, às estruturas e ao social
global. A vida privada conecta-se com o doméstico, com
a familiaridade, ou seja, está ligada mais ao âmbito dos
espaços restritos. Mesmo traçando diferenças entre os
dois conceitos, Vainfas (1996, p. 14) chama a atenção para
o fato de que não há necessidade de “pensá-los como

89
necessariamente excludentes, uma vez que a dimensão
da familiaridade ou da intimidade pode ou deve ser
perfeitamente percebida na cotidianidade”.
Acompanhando essa discussão, Souza e Novais
(1996, p. 64-65) mostram que “cotidiano e vida privada
assumem contornos específicos em situações históricas
específicas”, associando o cotidiano com o espaço público
e a vida privada ao espaço privado, reforçando a noção de
que a diferenciação entre o público e o privado ultrapassa
os limites da familiaridade, pois “o âmbito privado deve
ser associado ao indivíduo e simultaneamente oposto
ao âmbito público”, a partir do momento em que “no
mundo pré-capitalista, e na ausência de um estado
definido, os contornos entre cotidiano e vida privada se
esfumaçariam”.
Ao analisar a coleção ‘A Vida Cotidiana’, publicada
pela editora francesa Hachette a partir de 1939, Le Goff
aponta para a necessidade de que a história do cotidiano
deve estar conectada a uma análise das estruturas da
sociedade, pois, de acordo com o historiador francês,
embora aquela coleção tenha contado com importantes
obras, publicou igualmente “obras medíocres, que mais
não são do que uma poalha de anedotas, de dados
dispersos, de instantâneos, que nada têm a ver com o
verdadeiro quotidiano e, ainda menos, com a história”.
Justamente para se evitar esse problema, é que se deve
ter em mente que “o cotidiano só tem valor histórico e
científico no seio de uma análise dos sistemas históricos,
que contribuem para explicar o seu funcionamento” (LE
GOFF, 1994, p. 92-93)

90
Num texto inspirador sobre o método de Giovanni
Morelli, o historiador italiano Carlo Ginzburg auxilia o
pesquisador que trabalha com as fontes inquisitoriais,
chamando a atenção para os resíduos e os considerados
dados marginais, muitas vezes pouco estudados, mas
de uma riqueza ímpar. Pudemos perceber isso ao nos
debruçarmos sobre um tipo de documento pesquisado até
agora de forma esporádica, nunca sistemática. Falamos
dos ‘cadernos do Promotor’, uma fonte extremamente
rica, mas que tem aparecido aleatoriamente nas pesquisas
sobre a Inquisição portuguesa. Ginzburg (1989, p. 143-
179) abre seu texto com uma citação inspiradora de Aby
Warburg: “Deus está no particular”. E esse “Deus”, para
nós, está na particularidade das centenas de denúncias
que foram registradas nos setenta e três cadernos que
cobrem o século XVII, referentes apenas à Inquisição
de Lisboa. Talvez Azevedo (1921, p. 5) tenha sintetizado
a importância de se debruçar sobre os documentos
inquisitoriais, tanto para a história portuguesa quanto
para a brasileira, ao defender que “verdadeiramente se
não poderá escrever uma história, digna desse nome,
da época posterior ao estabelecimento da Inquisição,
sem miudamente compulsar tão copioso arquivo”.
Acrescentaríamos a essas sábias palavras apenas a
observação de que esse estudo não pode prescindir
das centenas de fólios que foram preenchidos pelas
mais extraordinárias denúncias, vindas de todos os
cantos do império português. Auxilia-nos, em grande
medida, a entender melhor a própria sociedade, tanto a
ibérica quanto a colonial, além de permitir compreender
inclusive o desenvolvimento do Santo Ofício, bem como

91
suas contradições. Proporciona-nos, acima de tudo,
desfazer alguns mitos.
A documentação produzida pela Inquisição
portuguesa durante os seus quase trezentos anos de
existência tem-se mostrado de interesse ímpar para
o estudo do cotidiano. Por meio dos processos e dos
‘cadernos do Promotor’, por exemplo, acessamos o dia-
a-dia das prisões inquisitoriais, e a partir desse contato
temos condições de vislumbrar “valores e modos de
estar na vida” (MEA, 1999, p. 132). Porém, mesmo dentro
dos cárceres, a privacidade de um preso era bastante
diminuta, muito por conta do sistema de vigia, cuja
função era devassar a intimidade dos réus, no intuito de
descobrir verdades que poderiam estar sendo negadas
em suas confissões. A historiadora portuguesa Elvira
Mea mostra que o sistema de vigia transgredia inclusive
os próprios Regimentos inquisitoriais, na medida em que
permitia que alguns funcionários da Inquisição tivessem
contato com os presos.2
Os estudos acerca da Inquisição portuguesa têm
avançado com rapidez nos últimos anos, embora muitos
ainda sejam pautados por uma visão maniqueísta da
história. Para alguns historiadores, a Inquisição ainda
é entendida como fábrica de judeus, engrenagem
implacável que teria desempenhado, ao menos em seus
primórdios, a árdua tarefa de manter uma ordem social
herdada do medievo. Outros enxergam os cristãos-
novos convertidos à força em 1497 como mártires, que
aceitaram passivamente a ação inquisitorial por quase
três séculos. Ainda há os que fazem de seus estudos um

92
campo de batalha, que servem em muitas ocasiões para
expor um posicionamento mais ideológico e político do
que propriamente acadêmico (MORENO, 2004).
Não raro, na historiografia, a noção de intolerância
está quase sempre associada à ideia de infalibilidade,
eficácia e invencibilidade, características que para muitos
marcaram indelevelmente a ação inquisitorial, e ditaram
a sua conduta. Uma análise acurada dos documentos
mostra sem sombra de dúvida que a Inquisição não
primou pela eficiência, muito menos conseguiu silenciar
as pessoas, já que temos os mais variados relatos de
críticas feitas em plena luz do dia. Se houve mordaça, não
foi tão apertada, pois conseguimos ouvir vozes saídas da
documentação (SILVA, 2011, p. 28).
Por mais que a Inquisição tentasse coibir o trânsito
de informações em seus cárceres e punir quem cometesse
esse crime, o certo é que lhe era impossível alcançar tal
objetivo. Isso por uma série de fatores: o número de prisões
crescia a cada dia; a estrutura contava com “instalações
precárias e insuficientes”; e o número de funcionários
era desproporcionalmente inferior à quantidade de
gente amontoada nos cárceres (MEA, 1999, p. 141). E a
ideia de uma Inquisição economicamente rica não faz
jus à realidade de sua existência, como demonstra Mea
(1997) em seu trabalho sobre a Inquisição de Coimbra.
Esse tribunal é marcado pela carência de fundos, e não
estaríamos distantes da realidade se estendêssemos essa
afirmação ao tribunal lisboeta (MEA, 1999, p. 133). Claro
que os apuros econômicos por que passava o Santo Ofício
estão na raiz “da escassez crônica de funcionários e de

93
deficiências graves nas próprias instalações, em termos
de segurança, higiene, e da própria incomunicabilidade,
uma das prerrogativas do tribunal que realmente nunca
existiu de fato” (MEA, 1999, p. 133).
Os Regimentos tratam dessa delicada questão,
como por exemplo o de 1640, no Livro II, título 4, item 9:

O que se deve fazer com os presos que de


novo vierem para o cárcere

Tanto que algum preso chegar ao Santo Ofí-


cio, mandarão os inquisidores que seja busca-
do na forma que se dispõe no título 14.º, § 7,
do livro I e que logo depois disso vá à Mesa
e nela lhe perguntarão como se chama, don-
de é natural e morador e se lhe farão as mais
perguntas que parecerem necessárias para
constar se é a mesma pessoa que se mandou
prender da Mesa.
Saberão dele se os ministros que o prenderam
e trouxeram ao Santo Ofício o trataram bem
na prisão e no caminho e se lhe fizeram al-
gum agravo, ou se lhe pediram ou tomaram
alguma cousa, e depois o consolarão muito,
declarando-lhe que lhe não faltará cousa al-
guma que lhe seja necessária, assim para bem
de sua alma e averiguar a verdade de suas cul-
pas, como para sustentação de sua pessoa.
Encarregar-lhe-ão que examine sua consciên-
cia e se disponha a confessar as culpas que ti-
ver cometido que pertencerem ao Santo Ofício
para que usem com ele da misericórdia que
a Santa Madre Igreja costuma conceder aos
bons e verdadeiros confitentes, advertindo-
-o que tanto será maior quanto mais cedo as
confessar. Mas sendo o réu preso pelo pecado
nefando ou relapso no crime de heresia, não
lhe prometerão misericórdia e só lhe dirão
que trate de desencarregar sua consciência

94
para despacho de seu processo e salvação de
sua alma.
Depois de lhe dizerem o que acima fica dito,
lhe mandarão que esteja no cárcere com muita
quietação, tratando só de cuidar em suas culpas
e de se encomendar a Deus para que o alumie
no que mais lhe convier. E que no cárcere não
fale de maneira que possa ser ouvido fora dele, nem
trate de saber o que se passa nos cárceres vizinhos,
advertindo-o que se exceder em alguma destas cou-
sas será castigado como o caso o merecer. E também
se lhe dirá que, tendo notícia que algum preso faz o
mesmo, o venha sem dilação dizer na Mesa e que,
todas as vezes que lhe for necessário vir a ela
para bem de sua consciência, causa ou pessoa,
diga ao alcaide que lhe peça audiência sem lhe
declarar o para que a pede e que logo será pro-
vido, conforme a ordem que para esse efeito
se tem dado (FRANCO; ASSUNÇÃO, 2004, p.
300, itálicos nossos).

Em um ambiente claustrofóbico como era o dos


cárceres inquisitoriais, a comunicação mantida, seja por
qual via fosse, era uma necessidade quase tão importante
quanto a de respirar. Por isso, ela não respeitava as nor-
mas existentes que tinham a função de proibi-la ou ao
menos de coibi-la (GÓMEZ, 2006, p. 96). Ao “pedir mesa”,
por exemplo, muitos tinham no fundo a intenção de fugir
desse isolamento, pois não era raro um preso ficar até
um ano sem ser ouvido. Ana da Trindade, por exemplo, é
presa em 22 de dezembro de 1735, e a primeira sessão irá
acontecer apenas um ano depois, em 20 de dezembro de
1736.3 Embora o conhecimento por parte dos presos sobre
o andamento de seus processos estimulasse as comuni-
cações e justificasse os altos riscos dessa transgressão, o
ato de se comunicar dentro dos cárceres inquisitoriais
servia também para fazer com que o preso não entrasse

95
em um estado depressivo, e que pudesse resistir a tudo
por que passava.

A monotonia do cotidiano dos presos estava


sujeita a uma pressão psicológica tremenda,
relacionada não só com a própria liberdade,
mas com a dos outros; a maioria das vezes
não se sabia da família chegada: se estavam
presos, em liberdade ou se teriam fugido. Daí
que a confissão fosse sempre um drama mais
ou menos profundo, dado que não só se corria
risco de vida, mas abalava-se as convicções
mais profundas, em termos do próprio concei-
to de salvação. E ainda tinha-se certa preocu-
pação com os outros, cujo envolvimento com
o denunciado podia não ser particularmente
significativo. Caso já se tivesse efetuado a de-
tenção e até a confissão, mais calamitoso seria
se provocasse a prisão, tanto pior se se tratava
de um membro da família, de que dependia o
sustento do resto do aglomerado. (MEA, 1999,
p. 135).

A existência dessas comunicações, em ambiente tão


repressivo, pode ser entendida como uma forma usada
pelos presos para o alívio da “amargura passada no
cárcere”. Mais comum, por serem menos perigosas, eram
aquelas mantidas com a utilização de “palavras, senhas,
ruídos e gestos previamente cifrados”. Isso não excluía,
obviamente, lançar-se mão de outros mecanismos, como
cartas e pequenos bilhetes (GÓMEZ, 2006, p. 97). Para o
cenário da Inquisição do México, por exemplo, Antonio
Castillo Gómez mostra que de um total de 382 cartas
relacionadas a processos de bigamia, tendo como baliza
temporal os séculos XVI e XVIII, cerca de 18,5% delas
(perto de 70 cartas) foram escritas no interior dos cárceres,
mostrando que onde se faziam as leis, praticavam-se
também as fraudes (GÓMEZ, 2006, p 108).

96
Como já demonstrado por Mea (1999, p. 137), “a
alimentação assumiu para muitos um duplo papel, uma
forma de companhia e um ótimo veículo para obter
e dar informações”. Visando solucionar o problema de
informações que poderiam chegar até os presos através
dos alimentos que seus familiares enviavam de fora,
o Santo Ofício resolveu proibir, a partir de 1570, esse
trânsito. Desde então as refeições aos presos passaram a
ser feitas “por reclusas nas cozinhas da Inquisição, sob as
ordens de um dispenseiro. As despesas ficavam a cargo
dos presos ou do próprio tribunal, no caso de pessoas
pobres” (MEA, 1999, p. 137).
Nem tanto por falta de leis, pois o Regimento de
1640, Livro I, título 14, item 17, tem o cuidado de chamar
a atenção para esse problema:

Advertência nos presos que não castigará


sem ordem da Mesa

Ordenará que haja sempre muita quietação no


cárcere e que os presos não tenham brigas ou
diferenças entre si, nem joguem jogo algum,
nem usem de nomes diferentes dos que tive-
rem, nem tenham livros, nem se comuniquem
de um cárcere para o outro, batendo, falando ou
escrevendo, e que falem manso naquele em que
estiverem. Terá grande cuidado que no comer da
cozinha não vá algum aviso com que os presos pos-
sam ter notícia uns dos outros. E se algum de-
les exceder em alguma destas cousas, o fará
saber na Mesa para que se lhe dê o remédio
e castigo que convém, mas ele os não poderá
castigar nem lançar-lhes ferros por autoridade
própria. (FRANCO; ASSUNÇÃO, 2004, p. 280,
itálicos nossos).

97
Mas o certo é que, mesmo com a proibição e a
vigilância acerca dessa questão alimentar, a comida que
circulava dentro dos cárceres continuou sendo um dos
veículos mais importantes para a comunicação entre os
presos: era um ótimo instrumento “para receber e dar
[recados], e por isso a cozinha tornava-se uma autêntica
agência noticiosa” (MEA, 1999, p. 139). Cozinha, local de
onde saíam os alimentos servidos aos “habitantes” dos
cárceres, era assim um espaço visado e disputado, pois
a quem aí trabalhava chegavam “pedidos, normalmente
incluindo o nome, a morada e o que se queria saber”, e era
função das cozinheiras, portanto, “o envio dos pedidos
para as celas susceptíveis de poder dar respostas” (MEA,
1999, p. 139).
Também aqui a Inquisição mostrou-se atenta, como
podemos ver já no primeiro Regimento, o de 1552, que
traz em seu capítulo 118 a seguinte determinação:

Ao tempo que houverem de vir os comeres


para os presos, um dos guardas estará à porta
da portaria e o outro guarda os tomará peran-
te o alcaide do cárcere para os levar aos presos
e perante ele se levarão a quem forem man-
dados. E se fará de maneira que tudo se dê
fielmente e as partes não recebam detrimento
no modo de sua prisão e do mais necessário.
(FRANCO; ASSUNÇÃO, 2004, p. 129).

Embora houvesse cuidado com os alimentos que


eram trazidos para dentro dos Estaus – sede do Santo
Ofício –, o certo é que havia meios de as informações
adentrarem e chegarem até os presos, mesmo com a
proibição. Antônio Álvares, testemunha no processo de
Francisco de Santo Antônio, relata o seguinte quadro:

98
Disse que depois do dito Francisco de Santo
Antônio sair destes cárceres, e estar no da pe-
nitência com ele testemunha, o que foi segun-
do sua lembrança na semana santa próxima
passada, disse a ele testemunha que estando
preso nestes cárceres, mandara muitos avisos
a muitas pessoas, não declarando que avisos
foram, nem de que pessoas eram, e que atava
escritos no pescoço de uma gata, a qual entrava
em algumas casas, e que por esta via se co-
municava com outros presos, e que ensinara
a falar pelas paredes para outras casas, a um
Pedro da Cunha, de Penamacor.4

Dentro dos escritos que circulavam no interior da


Inquisição, existiam aqueles que eram permitidos pelos
próprios regimentos inquisitoriais, como no caso do
cristão-novo Antônio Henriques, preso no Recife em 1662,
que recebeu papel para escrever, em castelhano, duas
orações judaicas, Shemá e Amidá, anexadas ao processo5.
Os escritos mais interessantes, no entanto, são aqueles
que nascem da resistência e da rebeldia dos presos
(GÓMEZ, 2006, p. 123).
A comunicação mantida nos cárceres era de
conhecimento dos inquisidores, uma prática que
deveria ser combatida, já que os presos, por meio
das conversas, poderiam “uns a outros induzir a que
calem a verdade, ou digam falso contra alguém”.6
Talvez essa prática acontecesse primeiro pela própria
impossibilidade de combatê-la, e segundo pela conivência
de muitos agentes da Inquisição, que retiravam lucros das
variadas maneiras que presos e presas desenvolveram
para “conversarem”, mesmo na prisão. Esse “dilema” fica
muito claro pelo que registram os próprios inquisidores,
numa investigação que consta num dos ‘cadernos do

99
Promotor’ da Inquisição de Lisboa, e que tem um curioso
título: “Contra os guardas dos cárceres”. Investigação que
tem por objetivo averiguar responsabilidades e punir os
fautores. Apontam então os inquisidores:

Nesta mesa há informação certa que os pre-


sos e presas dos cárceres se comunicam e es-
crevem muito de ordinário sem os guardas o
alcançarem nem darem disso conta, e por esta
causa foram advertidos e repreendidos por
vezes, sem haver emenda e entendemos que
a não haveria, nem de seus sujeitos se pode
esperar.7

Dando prosseguimento à investigação, a primeira


a ser ouvida será Guiomar Carrilha, que confirmou a
comunicação que era mantida no interior dos cárceres,
pois ela ouvia “que nos cárceres falam as pessoas presas
umas para as outras, e se perguntam pelos estados de
suas causas, dizendo umas às outras se lhe acrescem
testemunhas e perguntam donde são”.8 E tão interessante
quanto esse falatório, que era mantido, é outra forma de
contato delatada pela mesma Guiomar Carrilha, aliás, ela
própria sendo a beneficiada. Confessa aos inquisidores
que

[...] lhe mandaram da cozinha para cear em


uma tigela duas dúzias de ameixas pas-
sadas cozidas e uma descaída de galinha9
em cima delas porque anda doente, e que co-
mendo as ameixas achou em uma que já tinha
dentro na boca um dobrado como de linhas e
vendo o que era, achou dentro um papel es-
crito [...] e não sabe o que neles se diz, por não
saber ler, e no fundo da tigela pela banda de
fora, vinha um letreiro como logo se verá.10

100
Explica ainda que recebera da cozinha vários
bilhetes, trazidos pelos “guardas, ora um, ora outro”11,
o que mostra a falta de um maior controle por parte da
máquina inquisitorial.
Provavelmente por estratégia, Guiomar Carrilha
tenta tirar dos guardas a responsabilidade pelo trânsito
de informações que acontecia nos cárceres, fazendo ver
aos inquisidores que os guardas

[...] não deviam de dar fé nisso, e antes de ela


declarante agora pedir mesa, disse aos guar-
das que olhassem o que ia no cárcere porque
nos comeres se davam avisos e escritos, como
lhe tinham vindo a ela e o alcaide se agastou
de ouvir isto, dizendo-lhe que não podia ser,
e mais se agastou ainda o guarda José Ro-
drigues, a que no cárcere as presas chamam
guarda-damas, o qual lhe disse que aquilo
não podia ser e que ela não sabia o que dizia.12

Os próprios inquisidores, no desenrolar do


caso, viram ser pouco provável que os guardas nada
soubessem. O agastamento do referido José Rodrigues
deve ser creditado ao fato de que tais deslizes iriam
chegar às instâncias superiores e que trariam aos
envolvidos sérias consequências. Guiomar Carrilha
é enfática ao afirmar perante os inquisidores “que nos
cárceres não há segredo nenhum e que se falam todos mui
livremente como se estivessem em suas casas”, inclusive
trocando “palavras de amores”, preferencialmente na
madrugada, “pelas três horas depois da meia-noite”13,
quando a vigilância deveria ser mais branda.
A informação de que Guiomar Carrilha havia
denunciado o trânsito de bilhetes espalhara-se pelos

101
cárceres, alarmando as presas. A moça – a quem
Guiomar não soubera nomear, mas provavelmente
fosse a responsável pelo envio dos escritos em
meio à comida – que trabalhava na cozinha pedira
“que por amor de Deus lhe mandasse aqueles três
[escritos] que lhe tinham ido nas ameixas”, e que seria
inclusive agraciada com “uma peça muito boa”.14
Em vão o pedido, pois os papéis já estavam em posse dos
inquisidores, o que fez com que a “moça presa na cozinha”
lhe ameaçasse inclusive de morte, tal a gravidade do
assunto:

[...] disse a dita moça presa nela [na cozinha]


que queimada fosse ela declarante que ain-
da a havia de ver arder, e que cá na mesa lhe
haviam de dar um hábito de Cristo, por vir
trazer aquela boa nova, e que folgara de saber
qual era a louça em que ela declarante comia,
para que lhe houvera de botar na ração peço-
nha e outras coisas imundas.15

Com o andamento das diligências, a “moça presa na


cozinha” é identificada como sendo Francisca da Silva16,
de 17 anos, e que tinha uma irmã também presa, Maria
Henriques17, com quem procurava se comunicar através
de bilhetes e pancadas na parede. Na verdade, toda essa
comunicação visava saber como ambas estavam de saúde,
e também em que situação encontravam seus respectivos
processos.
Os guardas foram asperamente repreendi-
dos, pois não vigiavam os cárceres eficientemen-
te, permitindo que neles os presos falassem li-
vremente, e se comunicassem, e também porque

102
“não acudiam à sua obrigação como deviam”.18
Ao final da diligência quatro guardas foram citados:
José Pires, Diogo Fernandes, Antônio Gomes e José Rodri-
gues. Chegou-se à conclusão de que “não são suficientes
nem vigiam como convém, e que os presos se falam e escre-
vem sem eles o advertirem nem darem conta nesta mesa”.19
José Pires e José Rodrigues foram retirados dos cárceres: o
primeiro por ser “velho e pouco esperto”, e o segundo por-
que “também é menos diligente e tem defeito no ouvir”.20
A Diogo Fernandes e Antônio Gomes foi permitido con-
tinuarem desempenhando suas funções, “isto enquanto
se não acharem outros homens de mais satisfação”.21
Ora, todo esse contato era imprescindível para se
saber quem entrava e saía dos Estaus, principalmente
para se tentar descobrir possíveis delatores, ou então
aqueles que não poderiam ser citados nas confissões, para
com isso se evitar novas prisões. Além da descoberta de
possíveis delatores, toda essa comunicação poderia trazer
aos presos informações sobre o conteúdo das denúncias
que pesavam contra eles próprios. De posse desse
conhecimento, era mais fácil desabonar uma acusação, e
com isso minimizar os rigores das penas.22
Através do importante trabalho de Elvira Mea,
podemos saber que “panelas, tachos e testos eram os
meios mais utilizados para receberem os pedidos”.23
Mas a inventividade dos presos, aliada à necessidade
de burlar a vigilância inquisitorial feita por alcaides e
guardas, transformavam cascas de ovos ou nozes, rolos
de carne e talos de couve em instrumentos perfeitos para
o trânsito mais seguro das mensagens.24

103
Os processos inquisitoriais, igualmente, mostram
que no interior dos cárceres era possível aos presos
fazerem tinta, usada por certo para escrever os recados
que transitariam entre eles. Por meio do processo de
Félix Nunes de Miranda sabemos, inclusive, como era
preparada a tinta. De acordo com o testemunho do
familiar Maximiliano Gomes da Silva, que foi perante os
inquisidores em 9 de junho de 1729, quando o réu estava
“no estrado junto à grade com as costas para as vigias, e
se pôs a fazer tinta, conforme ele testemunha entendeu,
no fundo da púcara que pela manhã quebrara, e se pôs
a escrever e neste tempo que seriam dois quartos para
uma hora”.25
Mas o fabrico de tinta dentro dos cárceres vinha
de antes, e no século XVII temos também referências de
tinta sendo feita nas celas da Inquisição de Coimbra. Por
intermédio do processo movido contra Gaspar Mendes
ficamos sabendo do procedimento adotado, para se
produzir tinta nos cárceres:

[...] perguntou o mesmo a ele confitente em


que as escrevera porque tinha ouvido que nes-
ta Inquisição se não dava nem consentia que
os presos tivessem papel nos cárceres e então
lhe respondeu ele confitente que as escrevia
fazendo tinta de carvão em uns cacos de cân-
taro e outras vezes nas cascas da abóbora.26

A forma de contato entre os presos não se restringia


apenas aos bilhetes, mas poderia dar-se através do que
era chamado abc. Essa estratégia de comunicação é referi-
da por Elias Lipiner em sua obra ‘Terror e Linguagem’, no
verbete alfabeto dos cárceres (LIPINER, 1999, p. 26-28).

104
Também Dines (1992) faz referência a esse tipo de comuni-
cação que era mantida pelos presos, apesar da vigilância.27
Através do processo de Gaspar Mendes temos a oportu-
nidade de saber com mais detalhes como funcionava a
comunicação através do abc:

[...] e assim mais lhe dissera o dito Duarte Pe-


reira que pela regra do abc se entendiam com
os presos do cárcere continuando-a até a letra
por donde queria começar, o que queriam di-
zer, e parando tornavam a continuar o mesmo
abecedário até pararem na letra que se seguia,
e nesta forma iam continuando, tomando as
letras e entenderes até se entenderem uns com
outros no cárcere.28

Se todos esses problemas já não fossem suficientes


para impedir um combate eficaz às correspondências
– internas e externas –, os inquisidores tinham que
enfrentar um quadro ainda mais grave, que era a
colaboração de seus próprios agentes em toda essa
questão. Brites de Faria toma a iniciativa de denunciar,
em fevereiro de 1643, o caso que soubera através de um
conhecido, o mancebo Álvaro Dias, que depois embarca
para o Brasil. Esse jovem de cerca de vinte anos de idade
havia comentado com Brites que tivera notícias de seu
tio, Luís Lopes Franco, que na altura se encontrava preso
nos cárceres inquisitoriais. Essa informação lhe chegara
através de um escrito que “seu tio escrevera por um
guarda dos cárceres que chamavam os bigodes grandes”.29
Segundo a denunciante, a quantia envolvida teria girado
em torno de dois mil réis.
Os inquisidores então mostram-se bastante
interessados em identificar, precisamente, quem seria

105
o guarda que levava os tais escritos, a que atendia
pela alcunha de bigodes grandes. Para Brites de Faria
foram feitas perguntas no intuito de se descobrir
se o jovem que lhe havia dado conta desse caso – o
referido Álvaro Dias –, o tinha referido pelo nome, ou
então se havia dito “onde morava o dito guarda ou lhe
deu algum outro sinal por onde se possa conhecer”.30
Sobre essas questões, a delatora foi de pouca ajuda, já
que desconhecia outras informações que pudessem
identificar o guarda. Tampouco soube dizer “o que a
carta referia”.31
Era suspeito aos olhos da população que o
guarda dos cárceres secretos do Santo Ofício, Antônio
Rodrigues, buscasse empréstimo junto a Manoel Gracia,
principalmente por esse ter “um irmão preso nestes
cárceres deste Santo Ofício”32, o que sugeria a obtenção
de favores, mais especificamente informações acerca
de um irmão preso. E além de vantagens monetárias,
como essa que teria obtido Antônio Rodrigues, outros
tipos de incentivos poderiam mover os homens que
deveriam zelar pelo reto cumprimento dos Regimentos
inquisitoriais.
Infelizmente nem todas as denúncias primam
pela minúcia, e em muitos casos podemos apenas
vislumbrar o que supostamente teria acontecido,
como a história envolvendo um alcaide dos cárceres
da Inquisição de Évora, não nomeado, mas que teria
mantido “conversação ilícita” com uma presa, “por nome
Antônia [...] a qual havia sido noviça em um convento”.33
De acordo com o que é denunciado aos inquisidores, por

106
causa dessa “relação” entre os dois, o alcaide “avisava
e dava notícia à dita moça dos parentes que ela tinha
presos nos mesmos cárceres, e que de mais disto fazia
o dito alcaide muitos mimos e regalos à mesma moça
Antonia”.34
Porém há que se dizer que pedir o “favor” de
um agente da Inquisição era de fato tarefa das mais
arriscadas, pois não se tinha qualquer segurança que
a proposta não fosse parar nos Estaus, como aconteceu
com o cristão-novo Diogo Rodrigues Mesa. A fim de
obter informações de seus três filhos, presos nos cárceres
da Inquisição de Lisboa, tentou conseguir a ajuda junto
ao familiar Antônio Cosme, sangrador nos cárceres.
Em troca do auxílio, Diogo Rodrigues prometera dar ao
familiar “quatro peado (sic), do que podia interessar no
ofício de alcaide dos cárceres da penitência”.35 Para obter
essa “gratificação”, Antônio Cosme teria apenas que
dizer, a um dos três presos, as seguintes palavras: “Pai, e
todos os irmãos”.36
Tratava-se, muito provavelmente, de um código
que os rapazes entenderiam, mas que ao alcaide não
tinha qualquer significado. Ao se recusar a atender a
solicitação, Antônio Cosme deve ter deixado transparecer
a Diogo Rodrigues o risco que ele passara a correr, já
que as chances de esse fato chegar ao conhecimento
dos inquisidores eram bastante consideráveis. Como era
previsto, o temor virou realidade, apenas dez dias após
os fatos terem acontecido. Prevendo essa possibilidade,
Diogo Rodrigues rogou a Antônio Cosme “com grande
instância pelo amor de Deus, que não declarasse a

107
pessoa alguma o que ali lhe havia pedido, e que em
reconhecimento disso o teria sempre por seu escravo, e
lhe fez outros oferecimentos, em que se lhe oferecia para
tudo o que ele denunciante o ocupasse”.37
Também notícias acerca da comunicação mantida
dentro dos cárceres nos chegam de fora, como a que vem
exposta em uma carta enviada aos inquisidores de Lisboa
pelo padre Manoel Rodrigues Nascente, beneficiado na
igreja de Nossa Senhora Anunciada, na vila de Setúbal, e
que está anexada ao livro 225 dos ‘cadernos do Promotor’.
Segundo ele informa, os rumores lhe chegaram através
de Maria Fernandes, que por sua vez ouvira de Maria
de Matos, essa saída “penitenciada no auto passado”38,
e ambas moradoras na vila de Setúbal. Maria de Matos
falava com conhecimento de causa, já que estivera presa
nos cárceres inquisitoriais, e bem sabia “que os presos se
comunicavam, e se entendiam, batendo nas paredes uns
aos outros”.39 Mas não fora apenas acerca dessa questão
delicada que Maria de Matos falava, mesmo após ter
assinado um termo de segredo, comprometendo-se a
nada dizer sobre o que vira e ouvira nos cárceres.
Citando Saraiva (1994, p. 72),

[...] os réus que não eram condenados à morte


eram advertidos, antes de saírem do cárcere
do Santo Ofício, de que deviam ‘ter segredo
em tudo o que se passou no decurso de suas
causas’ e de que não podiam levar para o exte-
rior recados de outros presos.

Desrespeitando perigosamente o que havia se


comprometido a nunca revelar, Maria de Matos contara

108
a Maria Fernandes que os presos, em muitas ocasiões,
mentiam por conta dos tormentos que lhes eram aplicados.
De acordo com suas próprias palavras, “muitas vezes por
respeito dos tormentos diziam [os presos] muito mais do
que era, e diriam que Deus não era Deus, a respeito do
muito que lhe faziam nos tormentos que lhe davam”.40
Temos visto, ao fazer uma análise mais acurada
da documentação inquisitorial – principalmente dos
‘cadernos do Promotor’– que o conhecimento desse
quadro chega-nos não somente através das descrições
feitas pelos guardas e alcaides, muitos deles alheios
a tudo isso. Sabemos igualmente por que os próprios
prisioneiros tomavam a iniciativa de confessar aos
inquisidores o que se passava dentro dos cárceres,
provavelmente como forma de minorar possíveis rigores
e escaparem de sentenças como a fogueira. Preferiam
delatar os companheiros de infortúnio, se isso os fizesse
cair nas graças daqueles que os julgavam. Nessa tentativa,
pediam audiência e comunicavam aos inquisidores o
que se passava nos cárceres. Tal foi o caso de Bárbara
Dias, que em junho de 1644, por iniciativa própria,
denuncia algumas presas que mantinham conversação
nos cárceres, justamente naquelas “horas que os guardas
andam impedidos em recolher a louça e depois enquanto
andam dando as candeias”.41
Mas qual tipo de informação que os presos poderiam
trocar entre si justificaria tamanho risco? De acordo
com o testemunho dado por Bárbara Dias, ela ouvia
suas colegas de cárcere “dando novas das suas causas
e das presas, e das mais que podem saber do cárcere”.42

109
Porém, bem mais importante que essa questão, uma
presa em particular costumava incentivar as demais,
dando-lhes forças:

[...] está sempre dizendo que não confessem


e que tenham pela honra, como castelos, e a
uma mulher que mais por além da dita casa
está presa, a quem ela denunciante ouve mui-
tas vezes chorar, lhe diz a dita mulher que
tenha tato, que não confesse, e que se tiver
contraditas, que venha à mesa com elas, e que
dava muitas graças a Deus por ter uma com-
panheira que a aconselhou muito bem, a que
não confessasse e que a metera em arte para
ela se livrar.43

Porém, entre as conversas mantidas nos cárceres,


também havia espaço para apontar as injustiças e a
crueldade que ali eram praticadas, e aí nem os inquisidores
escapavam das críticas e das maledicências. Entre o que
ouvira Bárbara Dias, dizia-se “que mau fim houvesse
os senhores inquisidores e mau inferno tivessem pois
davam tratos aos presos e eram maus cristãos”.44
Uma das obras clássicas sobre o tribunal
inquisitorial português, ‘Inquisição e Cristãos-novos’,
é bastante criticada por suas imprecisões, mas ainda é
reverenciada por muitos pesquisadores. E como lemos
em Saraiva (1994, p. 71-72),

Tudo quanto passava de portas adentro do


Santo Ofício era rigorosamente secreto. [...] A
cada interrogatório o preso fazia juramento
de segredo acerca do que com ele se passava,
e o mesmo juramento era feito nas sessões
de tormento. Os advogados juravam segredo
assim como os notários, meirinhos, alcaides,
deputados, inquisidores. [...] Verdadeiramente

110
o réu só podia dar-se conta do resultado das
suas contraditas, recursos, requerimentos etc.,
quando no final do processo lhe era comuni-
cada a sentença. [...] Desta forma os réus da In-
quisição não só ignoravam as peças do proces-
so e as decisões dos juízes mas inclusivamente
a lei por que eram julgados.

Ora, se não podemos negar de todo o erudito por-


tuguês, os documentos por nós pesquisados flexibilizam
de forma considerável o rigor de suas palavras. Demons-
tram, acima de tudo, a impossibilidade de uma efetiva
aplicação dos Regimentos à risca, por vários motivos.
Portanto, as variadas formas encontradas de se
manter a comunicação dentro dos cárceres serviam para
atenuar o isolamento do preso, “cumprindo uma ampla
função comunicativa”, que em última instância atendia
aos anseios e “sentimentos mais íntimos”, bem mais
do que simplesmente transmitir informações: permitia
“canalizar estratégias de defesa ou montar redes de
sociabilidade” (GÓMEZ, 2006, p. 144). Todo esse risco que
se corria só era justificado porque escrever significava,
acima de tudo, “uma forma de não morrer”. Configurava-
se, assim, num ato de “resistência ante a anulação e
despersonalização causada pelo encarceramento”
(GÓMEZ, 2006, p. 146).
Deve-se este tema aqui exposto a uma ampla
pesquisa que venho desenvolvendo tendo por base os
‘cadernos do Promotor’ da Inquisição de Lisboa, cujo
objetivo é fazer o índice de todos os livros que cobrem
o século XVII. Dos cerca de setenta cadernos, dois terços
já estão inventariados, e parte desse trabalho consta
nestas páginas. Embora muita denúncia não tenha

111
se transformado em processo inquisitorial, ao menos
ficaram registradas nessa rica e tão pouco explorada
documentação. O caso das comunicações mantidas no
interior dos cárceres, por exemplo, fazem-nos questionar
até que ponto a Inquisição teve tanto poder como
supúnhamos. Isso pode ser claramente percebido pelas
denúncias que fez perante os inquisidores Guiomar
Carrilha: “que nos cárceres não há segredo nenhum e
que se falam todos mui livremente como se estivessem
em suas casas”.45

Nota
1 Uma versão mais expandida deste tema foi publicado em SILVA, Marco Antônio
Nunes da. “Nos cárceres não há segredo nenhum e que se falam mui livremen-
te como se estivessem em suas casas’: o cotidiano dos cárceres inquisitoriais”. In:
GANDRA, Edgar; POSSAMAI, Paulo. Estudos de história do cotidiano. Pelotas:
Ed. da Universidade Federal de Pelotas, 2011. p. 37-61.
2 “O caso apontado põe-nos de imediato a questão ética do sistema de vigia, efe-
tuado a qualquer hora do dia, possibilitando portanto a observação de aspectos
íntimos, que transgrediam claramente o estipulado pelo Regimento, relativamente
à proibição dos funcionários terem qualquer contato com os presos, não podendo
sequer ter mulheres ao seu serviço” (MEA, 1999, p. 135).
3 Arquivos Nacionais da Torre do Tombo (ANTT), Inquisição de Lisboa (IL), proc.
201.
4 ANTT, IL, proc. 4761 (grifos nossos).
5 ANTT, IL, proc. 7820, fls. 31-32v.
6 ANTT, IL, liv. 227, fl. 226.
7 Ibid.
8 Ibid., fl. 228v.
9 De acordo com o Dicionário de Raphael Bluteau, descaída é uma iguaria feita
com miúdos: intestinos, moela, fígado, cabeça e pontas de asa da galinha. BLUTE-
AU, Raphael. Vocabulario Portuguez & Latino. Coimbra, 1712-1728. Disponível em:
<http://www.ieb.usp.br/online/dicionarios/Bluteau/formBuscaDicionarioPlCha-
ve.asp>.

112
10 ANTT, IL, liv. 227, fl. 229.
11 Ibid., fl. 229v.
12 Ibid.,fls. 230-230v.
13 Ibid., fl. 231v.
14 Ibid., fl. 233.
15 Ibid.,fls. 233-233v.
16 ANTT, IL, proc. 3098.
17 ANTT, IL, proc. 11564.
18 ANTT, IL, liv. 227, fl. 246.
19 Ibid., fl. 247v.
20 Ibid.
21 Ibid., fl. 248v.
22 “A comunicação no cárcere era também valiosa, como já vimos, para se saber
qual o melhor procedimento a seguir perante uma situação que urgia conhecer
bem. Sabendo-se a posição processual de parentes, amigos ou simples conterrâne-
os, era possível orientar a confissão de cada um, para ‘dar certo’, isto é, denunciar
apenas os próprios denunciantes, a fim de poupar os ainda anônimos ao conheci-
mento inquisitorial” (MEA, 1999, p. 132).
23 Ibid., p. 140.
24 Ibid.
25 ANTT, IL, proc. 2293-1. Essa referência me foi passada, gentilmente, pela histo-
riadora Suzana Severs, a quem deixo aqui registrados os meus sinceros agradeci-
mentos.
26 Arquivos Nacionais da Torre do Tombo (ANTT), Inquisição de Coimbra (IC),
proc. 6676, fls. 120v-121. Gostaria de agradecer à pesquisadora portuguesa Maria
Fernanda Guimarães a gentileza de ter compartilhado comigo essa história, que faz
parte de suas próprias pesquisas.
27 Os presos trocavam mensagens com pancadas na parede: 1=A, 2=B etc. (DINES,
1992, p. 50, nota 41).
28 ANTT, IC, proc. 6676, fl. 98.
29 ANTT, IL, liv. 225, fl. 328.
30 Ibid., fl. 328v.

31 Ibid.
32 ANTT, IL, liv. 226, fl. 108v.

113
33 ANTT, IL, liv. 226, fl. 108v.
34 Ibid.,fls. 104v-105.
35 ANTT, IL, liv. 242, fl. 349v.
36 Ibid.
37 Ibid., fl. 350.
38 ANTT, IL, liv. 225, fl. 371.
39 Ibid.
40 ANTT, IL, liv. 225, fl. 371.
41 ANTT, IL, liv. 226, fls.233-233v.
42 Ibid., fl. 233v.
43 Ibid., fls. 233v-234.
44 Ibid., fl. 234.
45 ANTT, IL, liv. 227, fl. 231v.

Referências
AZEVEDO, João Lúcio de. Os processos da Inquisição
como documentos da história. In: [S.n.]. Separata do
boletim da classe de letras. Coimbra: Imprensa da
Universidade, v. XIII, 1921.
DINES, Alberto. Vínculos do fogo: Antonio José da
Silva, o Judeu, e outras histórias da Inquisição em
Portugal e no Brasil. São Paulo: Companhia das Letras,
1992.
FRANCO, José Eduardo; ASSUNÇÃO, Paulo de.As
metamorfoses de um polvo: religião e política nos
Regimentos da Inquisição Portuguesa (Séc. XVI-XIX).
Lisboa: Prefácio, 2004.

114
GÓMEZ, AntonioCastillo. Entre la pluma y la pared:
una historia social de la escritura en los siglos de oro.
Madri: Akal Ediciones, 2006.
GINZBURG, Carlo. Sinais: raízes de um paradigma
indiciário. In: ______. Mitos, emblemas e sinais. São
Paulo: Companhia das Letras, 1989.
LE GOFF, Jacques. A história do quotidiano. In: ARIÈS,
Philippe et al. História e nova história. 3. ed. Lisboa:
Teorema, 1994.
LIPINER, Elias. Terror e linguagem: um dicionário da
Santa Inquisição. Lisboa: Contexto, 1999.
MEA, Elvira Cunha de Azevedo. A Inquisição de
Coimbra no século XVI: a instituição, os homens e a
sociedade. Porto: Fundação Engenheiro António de
Almeida, 1997.
______. O cotidiano entre as grades do Santo Ofício.
In: FALBEL, Nachman et al. Em nome da fé: estudos
in memoriam de Elias Lipiner. São Paulo: Perspectiva,
1999.
MORENO, Doris. La invención de la Inquisición.
Madri: Fundación Carolina, Centro de Estudios
Hispánicos e Iberoamericanos, Marcial Pons, 2004.
PRIORE, Mary Del. História do cotidiano e da vida
privada. In: CARDOSO, Ciro Flamarion; VAINFAS,
Ronaldo. Domínios da história: ensaios de teoria e
metodologia. Rio de Janeiro: Elsevier. 1997.
SARAIVA, António José. Inquisição e cristãos-novos. 6.
ed. Lisboa: Editorial Estampa, 1994.

115
SILVA, Marco Antônio Nunes da. A intolerância foi
incorporada pela população? Revista de História da
Biblioteca Nacional, Rio de Janeiro, ano 7, n. 73, out.
2011.
SOUZA, Laura de Mello e; NOVAIS, Fernando Antônio.
Comentário VI. Anais do Museu Paulista, São Paulo, v.
4, jan./dez. 1996.
VAINFAS, Ronaldo. História da vida privada: dilemas,
paradigmas, escalas. Anais do Museu Paulista, São
Paulo, v. 4, p. 9-27, jan./dez. 1996.
A HISTÓRIA REGIONAL DA BAHIA
COLONIAL NOS DOCUMENTOS
MANUSCRITOS DO PROJETO RESGATE:
possibilidades da pesquisa histórica a partir
da experiência de elaboração do catálogo
de documentos manuscritos referentes à
capitania de porto seguro existentes no
arquivo histórico ultramarino

Francisco Cancela

Ao aceitar o convite para participar do II Simpósio


de História Regional e Local do Programa de Pós-
graduação em História da Universidade do Estado
da Bahia (UNEB), iniciei uma necessária e prudente
reflexão sobre o que abordar em uma mesa-redonda
incumbida de realizar a discussão referente a ‘América
Portuguesa na perspectiva da história regional e local’.
Pela proximidade temporal com os meus estudos de
doutoramento, havia a possibilidade de elaborar uma
exposição que apresentasse uma síntese dos principais
resultados obtidos em minha pesquisa sobre a história dos
índios na antiga Capitania de Porto Seguro, que discute a
relação entre políticas indigenistas e políticas indígenas
entre o fim dos setecentos e início dos oitocentos. Embora
representasse uma excelente oportunidade para difundir
aspectos teórico-metodológicos e históricos de um estudo
vinculado ao campo da nova história indígena, julguei

117
essa possibilidade como insuficiente para um desafio que
tenho argumentado ser imprescindível para os cursos de
história da Universidade do Estado da Bahia: a formação
e/ou consolidação de uma historiografia baiana para
além de Salvador e seu recôncavo. Nessa perspectiva,
optei por construir uma abordagem que desse conta
de estimular futuros estudos no campo da história
colonial, refletindo sobre as possibilidades da pesquisa
histórica a partir do acervo documental do Arquivo
Histórico Ultramarino (AHU), disponibilizado para os
pesquisadores brasileiros através do “Projeto Resgate de
Documentação Histórica ‘Barão de Rio Branco”’.
Mais que representar uma aposta desmedida
oriunda de um sentimento bairrista, a proposta aqui
apresentada reflete uma experiência de pesquisa que
tenho desenvolvido no Departamento de Ciências
Humanas e Tecnologias da UNEB, localizado no
Campus XVIII, na cidade de Eunápolis, no extremo sul
da Bahia. Tal iniciativa, iniciada ainda quando realizava
as primeiras atividades de identificação e transcrição
de fontes para a pesquisa de mestrado, compreende a
elaboração de um ‘Catálogo de Documentos Manuscritos
referentes à Capitania de Porto Seguro existentes no
Arquivo Histórico Ultramarino’. Ainda em fase inicial,
esse projeto tem possibilitado o contato com inúmeros
problemas relacionados ao trato com as fontes coloniais
e a “descoberta” de novos temas e questões passíveis
de serem trabalhadas em pesquisas vindouras.
Ao utilizar essa experiência como um estudo de caso,
procuro convidar os pesquisadores e demais curiosos da
história colonial baiana a também mergulhar no rico e

118
diversificado acervo do Arquivo Histórico Ultramarino,
explorando os 54.368 verbetes catalogados referentes
à antiga Capitania da Bahia de modo que essas novas
iniciativas revelem documentos já conhecidos, outros
pouco estudados ou mesmo alguns inéditos, que
apontem possibilidades para a escrita de novos capítulos
da historia da Bahia no período colonial.

Patrimônio documental, memória e história


regional

Inicio essa exposição com uma discussão um tanto


sumária sobre a relação entre fontes históricas, memó-
ria e história regional. Em recente trabalho destinado ao
público não especializado, Caio Boschi argumenta que o
historiador “terá sempre como elemento-chave e deter-
minante ao exercício de seu ofício as fontes pelas quais
opta e com as quais interage para levar a efeito seu tra-
balho” (BOSCHI, 2007, p. 23). Ao se admitir tal defini-
ção, aparentemente óbvia e essencialmente contraditória,
deve-se levar em consideração que as diferentes opções
de fontes e as diversas formas de interação com os do-
cumentos históricos construídas pelo historiador eviden-
ciam um universo epistemológico multifacetado no qual
está irremediavelmente mergulhado e sobre o qual ne-
cessariamente é chamado a intervir. Essa característica
da produção do conhecimento histórico resultou, ao lon-
go da própria história da historiografia, na construção
de um conjunto de paradigmas históricos que conceitu-
alizaram, em diferentes tempos e espaços, significados
distintos às fontes, aos métodos e às narrativas históricas.

119
No século XIX, período de profundas transforma-
ções no campo das ciências naturais e sociais, a corrente
historiográfica metódica depositou nos documentos es-
critos e oficiais toda a esperança de se fazer uma histó-
ria propriamente científica (REIS, 2006). Nessa época, os
diversos manuais de estudos históricos que circulavam
nas universidades europeias compartilhavam uma co-
mum definição sobre a produção do conhecimento his-
tórico baseada na ideia de que a ausência de documentos
escritos e oficiais impossibilitava a escrita da história.
Na leitura oitocentista dessa perspectiva, os documentos
foram concebidos como instrumentos de prova científica
do passado, assumindo, por isso, o papel de fundamento
do próprio fato histórico. Em decorrência dessa compre-
ensão, Fustel de Coulanges argumentará, em 1888, que a
“única habilidade [do historiador] consiste em tirar dos
documentos tudo o que eles contêm e em não lhes acres-
centar nada do que eles não contêm. O melhor historia-
dor é aquele que se mantém o mais próximo possível do
texto” (COULANGES, 1990 apud LE GOFF, 1990, p. 536).
Influenciados pela perspectiva metódica e
preocupados em reunir maior número de documentos
capazes de explicar o desenvolvimento histórico de suas
respectivas nações, inúmeros historiadores oitocentistas
iniciaram um processo de identificação, transcrição e
divulgação de documentos históricos nacionais com
vistas a disponibilizar e imortalizar provas da evolução
histórica de cada nação. Na Europa, destacam-se
iniciativas como a publicação, em 1835, da ‘Coleção de
documentos inéditos para a História da França e, em
1867’, do livro ‘Documentos da história italiana’. No caso

120
específico do Brasil, o exemplo do Instituto Histórico
Geográfico Brasileiro, criado em 1838, com a finalidade
de “colidir, metodizar e guardar” documentos históricos,
fatos relevantes e sujeitos destacados para a elaboração
da história oficial da nação recém-criada, assumiu a
responsabilidade de arquivar, copiar e publicar um
número elevado de documentos históricos nacionais,
identificados e transcritos pelos seus sócios nos acervos
de instituições brasileiras e portuguesas.
Com a crítica à escola positivista, iniciada a partir
do movimento dos Annales em 1929, um evidente declínio
da concepção do documento escrito e oficial, enquanto
recurso decisivo, comprobatório e definitivo da produção
do conhecimento histórico, tornou-se perceptível no
circuito historiográfico internacional, embora com
ritmos temporais diferenciados em cada país. A defesa
empreendida nesse momento de ampliação do conceito
de documento, resultou na formulação de definições
que destacaram o papel dos próprios historiadores na
“invenção” das fontes da história, demonstrando que
uma evidencia qualquer ou um documento escrito
conservado em arquivo só deixava de ser um simples
vestígio do passado para alcançar o título de “fonte
histórica” quando o próprio pesquisador optava por
tratá-lo como tal. Conforme defendeu Febvre (1985, p.
221), em 1949:

A história faz-se com documentos escritos,


sem dúvida. Quando eles existem. Mas pode
fazer-se sem documentos escritos, quando
eles não existem. Nesse caso, faz-se história
com tudo o que a humanidade do historia-
dor lhe permitir utilizar para fabricar o seu

121
mel, na falta das flores habituais. Logo, com
palavras. Signos. Paisagens e telhas. Com as
formas do campo e das ervas daninhas. Com
os eclipses da lua e a atrelagem dos cavalos
de tiro. Com os exames de pedras feitos pelos
geólogos e com as análises de metais feitas pe-
los químicos. Numa palavra, com tudo o que,
pertencendo ao homem, depende do homem,
serve o homem, exprime o homem, demons-
tra a presença, a atividade, os gostos e as ma-
neiras de ser do homem.

Esse alargamento do conceito de documento criou,


a partir da década de 1960, um fenômeno classificado por
Le Goff (1990, p. 539) de “revolução documental”. Para
os historiadores engajados nessa nova história, novos
tipos de fontes foram colocados à mesa da pesquisa
histórica, numa variedade que permitiu o contato
com fontes paroquiais, judiciais, policiais, passionais,
visuais, materiais, orais, entre outras. Tal experiência,
antes de impor uma hierarquização excludente dos
diferentes tipos documentais, implicou na difusão de
uma dimensão imprescindível das fontes históricas, qual
seja o seu caráter de patrimônio cultural uma vez que,
em suas diferentes linguagens e suportes, constituem
verdadeiros arquivos da memória coletiva.
A própria arquivologia contemporânea tem
classificado como documento toda experiência humana
ou manifestação da natureza que esteja registrada em um
suporte a partir do qual a informação possa ser conhecida
e transferida a qualquer momento. Em decorrência dessa
visão, a atuação em torno da conservação, valorização
e difusão do patrimônio documental representa uma
iniciativa de preservação da memória coletiva e de
execução do direito à informação, proclamada na

122
Resolução n. 4.212 da UNESCO, de 1974, e referendada
pelo Estado brasileiro na Constituição de 1988. Ademais,
longe da perspectiva tradicional que observava no
trabalho do historiador apenas a função de ser o
guardião dos grandes feitos dos reis, generais e papas, a
preservação e difusão do patrimônio documental em suas
diversas linguagens e suportes permite redimensionar
a própria relação entre memória e história, trazendo à
tona novos sujeitos históricos, novos problemas e objetos
de pesquisas, além de reconstruir a própria memória
histórica nacional, regional ou local.
No caso específico da memória histórica do Estado
da Bahia, a preservação e a difusão do patrimônio docu-
mental do Arquivo Histórico Ultramarino, digitalizado e
disponibilizado aos pesquisadores brasileiros por meio
do Projeto Resgate, representa um verdadeiro divisor
d’águas sem precedentes e com efetivo impacto cultu-
ral e historiográfico. Afinal de contas, os usos e abusos
dessa documentação possibilitarão um novo olhar para a
história da Bahia, descortinando novos temas e objetos,
tal como estrutura e dinâmica territorial, movimentação
e crises demográficas, exportação e economia de sub-
sistência, instituições e ideias coloniais, cultura, poder e
sociabilidades políticas, trabalho, escravidão e liberdade,
assim como reavendo para a memória histórica baiana o
lugar e o papel desenvolvido por grupos sociais, políticos
e étnicos pouco estudados ou nunca trabalhados na his-
toriografia estadual, como degredados, índios, jesuítas,
prostitutas, pobres, bígamos, negros, mulheres, hereges,
gays, mestiços, padres, entre muitos outros.

123
Fontes para a história da Bahia colonial no Arquivo
Histórico Ultramarino

Para melhor compreensão da natureza desse


patrimônio documental, cabe apresentar agora alguns
aspectos do Arquivo Histórico Ultramarino e sua relação
com as fontes para o estudo da Bahia colonial. Localizado
na cidade de Lisboa e instalado no quinhentista Palácio
de Ega, o Arquivo Histórico Ultramarino foi criado no
ano de 1931 a partir da reunião dos arquivos do Conselho
Ultramarino, da Secretaria de Estado da Marinha e
Ultramar e do Ministério das Colônias, guardando
um conjunto documental referente às antigas colônias
portuguesas, tal como Índia, Brasil, Guiné, São Tomé,
Cabo Verde e demais territórios ultramarinos. De acordo
com Abrantes (1997, p. 24),

[...] a criação do AHU obedeceu à necessidade


de reunir, num só local, em boas condições de
conservação e segurança, toda a documen-
tação relativa à administração ultramarina
portuguesa, que se encontrava dispersa por
vários organismos, de forma a que pudes-
se ser tratada tecnicamente, para ser posta à
disposição do publico em geral e divulgada a
informação nela contida.

Por essa natureza, a documentação do Arquivo


Histórico Ultramarino de Lisboa abriga o maior acervo
sobre a história colonial brasileira fora do território
nacional. Ao analisar o valor patrimonial desse arquivo,
Abrantes (1997, p. 24) ainda argumenta que “para o
estudo da história do Brasil colônia, existe no AHU um
acervo documental de valor inestimável, que podemos

124
mesmo classificar de único, como fonte de informação
e pesquisa”. Esses documentos referentes ao Brasil
fazem parte dos fundos do Conselho Ultramarino e da
Secretaria de Estado da Marinha e Ultramar, tendo um
alcance temporal que abarca os séculos XVI ao XIX.
Em linhas gerais, pode-se afirmar que o grosso da
documentação referente ao Brasil existente no Arquivo
Histórico Ultramarino é composto por manuscritos de
caráter administrativo, produzidos durante o exercício
da administração da justiça e da guerra na América por-
tuguesa. Ainda assim, suas evidências extrapolam as te-
máticas referentes a política e a administração colonial,
armazenando informações sobre a vida econômica, cul-
tural, política e social da colônia brasílica. Das leis, re-
gimentos, instruções, correspondências, relatórios, infor-
mações e consultas nele existentes, emanam uma varie-
dade de assuntos, tais como: a legislação administrativa;
os levantamentos geográficos e topográficos; a coloniza-
ção, povoamento e concessão de terrenos; a construção
de obras públicas, religiosas, civis e militares; a demarca-
ção e expansão das fronteiras; a defesa dos territórios; as
explorações de recursos minerais e naturais; a exploração
agrícola, pecuária e marítima; a relação de paz e guerra
com os povos nativos; a questão do transporte e da co-
municação; a escravidão e a resistência escrava; dentre
muitos outros.
Esse rico e diversificado acervo está organizado
em três grandes séries documentais. Uma parte dos
documentos, que compreende cerca de duas mil caixas,
está registrada como manuscritos avulsos, divididos

125
em séries correspondentes às 18 antigas unidades
administrativas da América portuguesa e a dois
grupos temáticos relacionados ao contrato do sal e aos
tratados de limites. Outra parte dos documentos está
depositada em mais de quatrocentos códices, agrupados
em séries relacionadas à natureza dos manuscritos,
como consultas, instruções, regimentos e compromissos
de irmandades. Por fim, tem ainda uma coleção de
cartografia e iconografia, que conta com mapas, plantas
e desenhos que retratam a vida colonial em seus mais
variados aspectos.
O acesso dos brasileiros a essa documentação foi,
durante muito tempo, uma barreira para o desenvolvi-
mento de pesquisas mais diversificadas sobre a história
colonial. A necessidade de atravessar o Atlântico impu-
nha uma dificuldade física, financeira e temporal que
não contribuía com a expansão dos estudos coloniais. To-
davia, a partir de 1995, uma parceria entre os governos
brasileiro e português iniciou uma mudança na política
de conservação e difusão do patrimônio documental co-
mum a esses países. Desses protocolos, acordos e convê-
nios, surgiu o ‘Projeto Resgate de Documentação Histó-
rica’, que nasceu com o desafiador objetivo de identificar,
catalogar e digitalizar todo acervo documental referente
ao Brasil existente nas instituições arquivistas portugue-
sas, sobretudo no Arquivo Histórico Ultramarino (BER-
TOLLETI, 2000, p. 102-109).
Com o envolvimento de mais de cem instituições
públicas e privadas e quase duzentos profissionais e
pesquisadores envolvidos, o Projeto Resgate se constituiu

126
como uma das mais inovadoras e modernas iniciativas
de preservação e valorização do patrimônio documental
que se tem notícia. Em menos de dez anos de trabalho, o
projeto conseguiu resgatar importante parte da memória
documental do Brasil através da identificação, catalogação
e digitalização de mais de 340 mil documentos, que foram
microfilmados em mais de dois mil rolos e gravados
em trezentos e doze CD-ROMs. Entre os anos de 1999
e 2003, o Ministério da Cultura iniciou a distribuição
desse material para os principais arquivos, centros de
estudos e pesquisas, universidades e bibliotecas do
país, cabendo aos estados a contrapartida de estimular e
financiar as ações de divulgação e facilitação do acesso à
documentação.
Após a distribuição desse material, inúmeras ins-
tituições de ensino e de pesquisa iniciaram subprojetos
com a finalidade de auxiliar no manuseio desse acervo.
Uma das iniciativas mais comuns nos estados federati-
vos foi a elaboração de instrumentos de pesquisas regio-
nais, que identificasse por meio dos verbetes-resumos
e da cota arquivística o conjunto documental referente
às suas respectivas unidades administrativas da época
colonial. Desta forma, Pernambuco, São Paulo, Sergipe,
Pará, Bahia e outros estados começaram a construção de
catálogos, guias e roteiros que cumprissem o papel de
orientar e facilitar o uso dessa documentação, sendo que
muitos deles já encontram hoje publicados e considera-
dos como importantes ferramentas de pesquisa para a
história colonial regional.

127
No que se refere aos documentos coloniais da an-
tiga Capitania da Bahia, o Projeto Resgate organizou o
acervo por meio de três séries documentais, que abrigam
ao todo quase 55 mil verbetes. Respeitando uma cota-
ção e catalogação já existente, as duas primeiras séries
receberam o título dos funcionários que empreenderam
a função de identificar e organizar a documentação refe-
rente à Bahia. O primeiro, que foi publicado nos ‘Anais
da Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro ’entre os anos
de 1913 e 1918, intitula-se ‘Eduardo Castro e Almeida’,
compreendendo um total de mais de 30 mil documentos
com datas extremas entre 1613 e 1807. O segundo foi or-
ganizado por ‘Luisa da Fonseca’, recebendo, por isso, esse
nome, e possui um acervo de cerca de 4 mil verbetes da-
tados de 1599 a 1700. Mais recentemente, foi organizado
pela equipe do Projeto Resgate a série dos “manuscritos
avulsos”, que comporta quase 20 mil verbetes, com lastro
temporal de 1604 a 1828, sendo publicado pela Fundação
Cultural da Bahia sob o título de ‘Catálogo dos Docu-
mentos Avulsos da Capitania da Bahia’, no ano de 2009
(BAHIA, 2009).
Após a entrega desse acervo às instituições baianas
de pesquisa, não tardou para que os documentos
resgatados pelo projeto se transformassem em fontes
essenciais para o desenvolvimento de novas pesquisas
sobre a história colonial da Bahia. Embora não seja
possível quantificar a presença dessa documentação
nas recentes pesquisas coloniais, torna-se evidente a
emergência de uma nova historiografia baiana baseada
nas fontes históricas do acervo do Arquivo Histórico
Ultramarino, que tem possibilitado o uso de recortes

128
espaciais que não se restringem à capital e seu recôncavo
e que tem revelado a atuação de novos sujeitos históricos.

Novas perspectivas para a história regional da


Bahia: algumas reflexões sobre o Catálogo de
documentos manuscritos referentes à antiga
Capitania de Porto Seguro existentes no AHU

Uma das possibilidades abertas pela documentação


do Arquivo Histórico Ultramarino disponibilizada
pelo Projeto Resgate diz respeito à superação do
silêncio historiográfico baiano referente à região do
atual extremo sul da Bahia, que formava a antiga
Capitania de Porto Seguro. Reconhecida nacional e
internacionalmente por seu valor histórico, essa região
sofre com uma simplificação da sua própria história,
que somente é retratada frente ao episódio imortalizado
pela historiografia tradicional como “Descobrimento”,
relegando ao silêncio as demais experiências históricas
vividas nesses mais de 510 anos de iniciado o processo de
conquista e colonização portuguesa.
A forte carência de produção historiográfica sobre
a região da antiga Capitania de Porto Seguro tem causas
variadas. Um primeiro aspecto a destacar é o fato desta
capitania não ter se integrado ao sistema colonial como
uma economia exportadora de matérias-primas ou de
minério, sofrendo, por isso, certo desinteresse por parte
dos historiadores coloniais ainda muito influenciados
por uma lógica interpretativa da colonização pautada
no “sentido” da produção econômica. Outro aspecto

129
relevante diz respeito a ausência de um centro de
ensino e pesquisa histórica na região, que somente
recebeu suas primeiras instituições de ensino superior
no início da década de 1990, cujos cursos de licenciatura
em história somente foram implantados depois do
ano 2005, sendo a Universidade do Estado da Bahia
a responsável pela oferta desses cursos nos campi de
Teixeira de Freitas e Eunápolis. O último aspecto pode
ser identificado como consequência de um problema
metodológico, fundamentado no difícil acesso às fontes
históricas referentes a antiga Capitania de Porto Seguro,
que se encontram espalhadas em várias instituições
arquivísticas, sobretudo depositadas no rico acervo do
Arquivo Histórico Ultramarino de Lisboa.
Quando o Colegiado de História do Campus XVIII de
Eunápolis adquiriu, através do contato com a Professora
Esther Caldas Bertoletti, a coleção completa do Projeto
Resgate, esses problemas estavam, em parte, resolvidos.
Todavia, era preciso identificar nos três catálogos
referentes à Capitania da Bahia os verbetes que tratavam
exclusivamente da antiga Capitania de Porto Seguro,
que desde o ano de 1758 havia sido incorporada ao
patrimônio da coroa portuguesa, transformando-se em
capitania subordinada à da Bahia. Assim surgiu o projeto
de pesquisa intitulado ‘Memória Histórica da Capitania
de Porto Seguro’, que tem como principal objetivo a
identificação, transcrição e catalogação dos documentos
avulsos existentes no Arquivo Histórico Ultramarino.
Diferente da proposta do Catálogo da Bahia, esse projeto
propõe a elaboração de um catálogo que não apresente
apenas os verbetes-resumos dos documentos referentes

130
a Porto Seguro, mas que também publique algumas
transcrições completas ou parciais dos manuscritos e um
guia para identificação de cada documento na Coleção
de CD-ROMs do Projeto Resgate.
O conjunto documental referente à antiga Capita-
nia de Porto Seguro possui valor excepcional, com ma-
nuscritos datados entre 1612 e 1807. Do ponto de vista do
seu conteúdo, os documentos expressam e materializam
as relações político-administrativas entre a metrópole, o
centro de poder colonial e a capitania, além de revelar
processos, dinâmicas e estruturas da sociedade e cultura
regionais, trazendo à tona a experiência de vida de inú-
meros sujeitos que ainda hoje ocupam lugar na realidade
regional. Do ponto de vista da sua natureza, constituem
documentos oficiais e não-oficiais, compostos por cartas
régias, decretos, alvarás, provisões, portarias, requeri-
mentos, cartas, ofícios, consultas, pareceres, além de re-
latórios, descrições topográficas e estatísticas demográ-
ficas.
Do conjunto dessa documentação já tem sido
possível identificar um vasto campo de possibilidades
para a pesquisa histórica. Salta aos olhos, sobretudo
para o século XVII, o grande número de documentos
que retratam a forte atividade econômica extrativista,
baseada na exploração do pau-brasil por meio de uma
feitoria régia instalada na antiga Capitania de Porto
Seguro desde fins do século anterior. Outra série
de manuscritos revela a intensa atividade comercial
mantida entre a capitania e a cidade do Salvador durante
o fim do século XVIII e início do XIX, baseada na
exportação de farinha de mandioca produzida nas vilas

131
de índios criadas no período pombalino e transportadas
por influentes comerciantes de Caravelas. Também
há um volume significativo de ofícios e ordens régias
referentes à implantação das reformas ilustradas do
reinado josefino na região, que resultou num grande
movimento urbanizador da capitania, na construção de
novas formas de administração política e na redefinição
do próprio papel da antiga donataria no sistema colonial.
Por fim, não poderia deixar de citar as incontáveis fontes
reveladoras da presença dos povos indígenas na região,
passíveis de serem interpretadas de modo a destacar
não só a predominância desse grupo étnico na formação
da sociedade e da cultura regionais, mas também para
demonstrar as diferentes estratégias construídas pelos
índios frente ao processo de conquista e colonização de
suas terras.
Ao dimensionar essas rápidas citações, pode-se
observar o quanto tal documentação permitirá redefinir
o lugar da própria Capitania de Porto Seguro na história
colonial baiana e brasileira. Como um manancial
inesgotável para a formulação de uma historiografia
regional, esse acervo possibilitará evidenciar as
especificidades geográficas, administrativas, sociais e
econômicas da Capitania de Porto Seguro, bem como as
questões indígenas e indigenistas que influenciaram na
configuração de uma realidade colonial diferenciada, mas,
em nenhum aspecto, inerte, decadente ou desprezível –
como a historiografia tradicionalmente a classificou.
Para finalizar, retomo a ideia do desafio
apresentado no início da exposição. Espero ter ficado

132
evidente que o rico acervo do Projeto Resgate aguarda
e demanda iniciativas de identificação e catalogação de
fontes históricas coloniais sobre as diferentes regiões da
Bahia e também sobre diferentes temáticas ou problemas
históricos variados. Em 1998, quando da entrega do
primeiro lote de rolos e CD-ROMs ao Arquivo Público
da Bahia, Fernando da Rocha Pinto publicou no jornal A
Tarde um pequeno texto intitulado “Lavra do Arquivo”,
no qual afirmava que “a Bahia passa[va] a ter o ouro do
arquivo, a lavra necessária para o avanço das pesquisas
históricas em nossas universidades”. Após realizar
esse pequeno relato de uma experiência ainda em
desenvolvimento, encerro com o convite aos estudiosos
e amantes da história colonial baiana a assumirem
também o desafio de garimpar esse inestimável acervo,
revelando por meio de outras tantas iniciativas passíveis
o ‘el dourado’ multifacetado das Bahias e suas gentes no
período colonial.

Referências

ABRANTES, Maria Luíza Meneses. Fontes para a História


do Brasil Colonial existentes no Arquivo Histórico
Ultramarino. Acervo: Revista do Arquivo Nacional, Rio
de Janeiro, v. 10, n. 01, jan./jun. 1997.
BAHIA. Governo do Estado da Bahia. Documentos
manuscritos “avulsos” da Capitania da Bahia: 1604-
1828. Salvador: Fundação Pedro Calmon, 2009.

133
BERTOLETTI, Esther Caldas. Brasil-Portugal: um mar-
oceano de documentos. Revista Convergência Lusíada,
Rio de Janeiro, v. 17, n. especial, p. 102-109, 2000.
______. Introdução para o Catálogo dos Documentos
Avulsos da Capitania da Bahia existentes no Arquivo
Histórico Ultramarino de Lisboa. História Digital:
Revista do Centro de Memória Digital, Brasília, ano 2,
n. 2, p. 19-26, 2009.
BOSCHI, Caio César. Por que estudar História? São
Paulo: Ática, 2007.
FEBVRE, Lucien. Combates pela história. 2. ed. Tradução
de Leonardo Martinho Simões eGisela Moniz. Lisboa:
Editorial Presença, 1985.
LE GOFF, Jacques. História e memória. Campinas: Ed.
Unicamp, 1990.
REIS, José Carlos. A história entre a filosofia e a ciência.
Belo Horizonte: Autêntica, 2006.

134
PODER, POLÍTICA E CRISES DE
SUBSISTÊNCIA
(SALVADOR, SÉCULO XVIII)

Avanete Pereira Sousa

As tensões e os conflitos relacionados ao


abastecimento de gêneros de primeira necessidade
marcaram a dinâmica político-administrativa da
cidade de Salvador e de seu termo ao longo dos séculos.
Entretanto, foi a partir da década de 1780 que as cisões
e rupturas, manifestadas, discretamente, até então,
revelaram todas as suas nuanças, intensificando a
preocupação e a atenção das autoridades coloniais, do
governo-geral da capitania às câmaras municipais.
Nas sessões da Câmara de Salvador, os debates, há muito,
giravam em torno da falta de alimentos que assolava a
cidade e causava, de todos os lados, certa animosidade.
Depois de quase uma década sem maiores dificuldades
no que diz respeito ao pleno exercício de um de seus
mais importantes papéis: o suprimento alimentar dos
indivíduos circunscritos à sua jurisdição, a Câmara de
Salvador viu-se, como inúmeras vezes no passado, diante
da necessidade de intensificar as ações destinadas a
garantir a justa distribuição de alimentos aos moradores,
sobretudo da farinha, popularmente conhecida como “o
pão da terra”.
De fato, não apenas o comércio de víveres,
mas a maior parte das atividades mercantis, desen-

135
volvidas no interior das cidades e vilas e seu ter-
mo, eram regulamentadas pelas municipalidades.1
A exigência de licenças anuais, de aquisição de balanças
e medidas devidamente afiladas, bem como a fixação de
preços de produtos e de lugares determinados para o es-
tabelecimento de vendas e tabernas ou para o comércio
ambulante, fazia parte dos atos rotineiros das câmaras
municipais e, geralmente, obedeciam à necessidade de
racionalização e controle do espaço urbano e aos fluxos
conjunturais que afetavam o comércio local.2 Se isto era
válido para as vilas menores, na capital, as posturas mu-
nicipais eram regularmente editadas e incisivas quanto a
inúmeros itens de controle.3
Adotar medidas regulamentadoras do mercado/
comércio de víveres nos centros urbanos, era prática
rotineira das câmaras portuguesas e estava prevista na
legislação régia. Tal costume, ao que parece, assinalava
as ações das monarquias europeias na época moderna e
fora também comum na Inglaterra e França dos séculos
XVI e XVII, onde os reis interferiam no comércio de
gêneros de primeira necessidade creditando a falta e
carestia de alimentos à ação de monopolistas e produtores
(THOMPSON, 1998, p. 176-193).
Na Inglaterra – de modo especial, posto ser a
precursora de um novo modelo de economia política,
o laissez-faire –, quando o mercado de víveres passou a
ser profundamente reorganizado a partir de diretrizes
liberais, o que se verificou foi uma série de revoltas
populares por todos os lados. A população, na ausência
de ações mais concretas por parte das autoridades locais,

136
tomou para si a responsabilidade em fixar preços e
garantir o seu cumprimento; bloqueavam estradas para
impedir que os gêneros de primeira necessidade fossem
levados para outras localidades; ocupavam padarias
e moinhos para garantir o abastecimento do pão etc.
(THOMPSON, 1998, p. 176-177).
Diante das inúmeras crises e revoltas ligadas à falta
de víveres, na França do século XVIII, Luís IV, que reinou
entre 1589-1610, era rememorado como o mais popular
dos reis franceses. Um dos motivos consistia justamente
em sua política protecionista e intervencionista, no
sentido de garantir a plena produção nos campos e o
abastecimento satisfatório das cidades (LADURIE, 1994,
p. 287-294).

Na Espanha, Los motines del pan […] a lo largo de


1766 fueron buena muestra de la cronicidad del de-
sabastecimiento provocado por las crisis periódicas
[…]. La empecinada sucesión de tales: 1753, 1765,
1780, 1789, 1794, 1798, 1804, 1808-1809, […] re-
presentan la evidencia de la habitual insuficiencia
del abastecimiento de productos tan elementales
para la subsistencia. […] La liberación del comercio
de trigo, decretada en 1765, sería el factor deter-
minante del descontento generalizado que se mani-
festaría en motines de violencia diversa en muchas
ciudades españolas en la primavera de 1766 [...].4

Em Portugal, durante o século XVIII, as ideias


liberais que afloravam Europa acima foram sempre
acatadas com certa cautela. Mesmo durante o período
pombalino [1750-1777], tido como a época do reformismo
ilustrado português, as reformas de Pombal não
trouxeram mudanças significativas no que se refere ao

137
abastecimento interno e o antigo modelo intervencionista
ainda encontrava amplo espaço.5
No caso de Salvador, uma das principais cidades
da América portuguesa e epicentro dos circuitos
produtivos e mercantis externos e internos à capitania,
medidas protecionistas afloravam como necessárias
especialmente em momentos de crise, que quase sempre
significavam falta de farinha e de carne verde. E não
foram poucas as crises desta natureza ao longo do século
XVIII. Entre 1700 e 1770, há registros de cerca de vinte e
quatro crises de subsistência, envolvendo a carência de
farinha, motivadas por circunstâncias diversas: secas,
chuvas em excesso, carestia, pragas, contrabando etc.
(SILVA, 1990, p. 184-187).
A essas conjunturas seguiram-se, por parte da
municipalidade, ações no sentido de combater a falta do
produto no mercado e, com isso, manter a “ordem das
coisas”, geralmente abalada nessas ocasiões: proteger
as “rocas de mandioca” situadas próximas à cidade6;
taxar produtos; intervir junto à coroa para que os
senhores de engenho e lavradores de cana fossem
obrigados a plantar mandioca; restringir a plantação de
cana a lavradores que possuíssem mais de seis escravos;
proibir a criação de gado, o plantio de cana e de tabaco
nas áreas destinadas à produção de alimentos; obrigar
os negociantes de escravos a prover, com roças próprias,
as suas embarcações7; impedir que os navios que
atracassem no porto para o desembarque de mercadorias,
ou por outro motivo, levassem mantimentos da terra,
especialmente a farinha8; combater o açambarcamento,

138
feito, principalmente por soldados que, por sua
condição, constrangiam os lancheiros a lhes entregar
suas mercadorias por menores preços para revendê-
las a valores exorbitantes9; exigir que os próprios
lavradores conduzissem seu produto ao porto, evitando
a intermediação e o contrabando para “fora da capitania”10;
instalação de postos de vendagem nas diversas freguesias11;
regulamentação de preços, pesos e medidas.
Essas atitudes, levadas gradativamente a cabo entre
meados do século XVII e todo o século XVIII, assumiram
caráter permanente e, no geral, caracterizaram as
ações camarárias no que se refere à regulamentação
do mercado interno de alimentos indistintamente, ou
seja, tanto em períodos de crise como de abundância,
o que mudava era o maior ou menor empenho em seu
cumprimento, geralmente mais efetivo em momentos de
crise, como a documentação, relativa às penalidades e
punições por descumprimento das posturas municipais,
deixa entrever.
Entretanto, o cenário que emergia em 1780, apontava
para a necessidade de total recrudescimento das ações
governamentais, quando não, a tentativa de se implantar
medidas inovadoras, quiçá, mais eficazes. As alterações
ligadas ao mercado de subsistência naquele momento
indicavam ter, como pano de fundo, muito mais que
motivações relacionadas às variações climatológicas, em
parte responsáveis pelas crises anteriores, e a destinação
das terras mais férteis e cultiváveis para o plantio da
cana-de-açúcar.

139
As transformações que, embora mais visíveis a
partir daquele decênio (década de 1780), podem ter-
se iniciado muito antes, indicavam nova configuração
do sistema colonial como um todo, e nele, a América
portuguesa. Tratava-se, em plano geral, de mudanças
desagregadoras das bases sob as quais se pautavam
o colonialismo mercantilista e o Antigo Regime em
si e que atingiam “o velho e o novo mundo”, causando
o rompimento total das relações coloniais - caso da
independência das colônias inglesas da América do
Norte, em 1776, e exigindo políticas reformistas capazes
de conter possíveis revoltas e insurreições.
Em linhas gerais, a conjuntura de crise, em seu as-
pecto econômico-político, que se inicia nas últimas dé-
cadas do século XVIII, nas áreas coloniais, fora marcada,
entre outros fatores, pelos impasses ocasionados pelo
pacto colonial e pelas resistências/críticas ao sistema de
monopólio, cuja solução era o regime de livre comércio.
Eram, pois, tensões mais amplas, mais profundas, que,
no plano interno, enraizavam-se em questões cotidianas:
aumento de impostos, falta e carestia de gêneros de pri-
meira necessidade etc. Esses elementos também estavam
no bojo dos movimentos precursores da independência
hispano-americana, ocorridos entre 1780 e 1810.
Na América portuguesa, no mesmo período, ao que
as fontes deixam transparecer, as crises de subsistência,
e os fatores a elas subjacentes, não eram específicas de
Salvador, mas afetavam boa parte dos núcleos urbanos
das diferentes capitanias. No Rio de Janeiro, as secas,
as pragas e a carestia causavam fome generalizada,

140
sobretudo entre os setores mais pobres, desde 1779
(SILVA, 1990, p. 187). Nas várias cartas escritas à Câmara
de Salvador, em 1783, a população se reportava “à grande
fome e flagelo por que passava a capitania de Pernambuco,
devido à falta de farinha, carnes e todos os outros víveres
necessários para sustentar a vida” e implorava-lhe que
não deixasse que isto ocorresse na Bahia, lembrando-
lhe que estava sob sua responsabilidade “a vigilância
sobre os mantimentos e a guarda dos frutos da terra”.12
As cartas denunciavam, ainda, a cobiça de certos
negociantes que “usando de suborno carregam os víveres
para fora da cidade e para suas carregações de escravos,
principalmente a farinha [...]”, fazendo subir os preços.
Situação semelhante passava as capitanias de Alagoas,
Ceará, Paraíba e Maranhão.13
Na capitania da Bahia, além da constatada crise em
Salvador, notícias de fome e falta de farinha, milho, feijão
e arroz chegavam das vilas de Ilhéus e Porto Seguro.
As câmaras destas localidades atribuíam tal crise ao
fato dos mantimentos produzidos nestas capitanias,
nas “vilas de baixo”, Cairu, Camamu e Boipeba, e nas
vilas de Barra do Rio das Contas, Barcelos e Maraú, na
capitania de Ilhéus, bem como em Alcobaça, Prado e
Caravelas, na capitania de Porto Seguro, destinarem-se
ao abastecimento da capital e suprirem as necessidades
dos navios que trafegavam para a África.14
Esse mercado local não era alheio às tendências de
fluxo e refluxo de setores tradicionalmente vinculados
a agroexportação. Entretanto, ampliava-se à medida
que se tornava o elo necessário entre o rural e o urbano,

141
produtores e consumidores, canal privilegiado de
circulação e distribuição de víveres e gêneros variados.
Expressava, nos níveis de troca, de compra e venda e
de comercialização de excedentes, a emergência de um
espaço “periférico” no interior do sistema; espaço este
que, em finais do século XVIII, havia transformado
Salvador, a capital da capitania, no epicentro mercantil de
produtos de subsistência, para além de sua importância
nas relações comerciais de larga escala com a metrópole
(BARICKMAN, 2003, p. 131).
Todavia, o dinamismo da produção interna nem
sempre era suficiente para suprir a demanda, cada
vez mais crescente e motivada por fatores diversos
(aumento demográfico, incremento do tráfico negreiro
etc.), tornando-se comuns alternados momentos de
abundância e de escassez de alimentos, alguns deveras
curtos e moderados, outros longos e intensos; ambos
com efeitos devastadores sobre a população urbana,
sobretudo a mais pobre (BARICKMAN, 2003, p. 133).
A produção para subsistência era ainda afetada
pelas intempéries e, naquele momento, de forma especial,
pela alta do preço do açúcar nos mercados internacionais,
o que direcionava as terras produtivas para o plantio
da cana, inclusive com a ocupação de áreas até então
destinadas ao cultivo de gêneros alimentícios: assim
ocorrera com terras do recôncavo e de outras regiões que
produziam para o mercado de Salvador (BARICKMAN,
2003, p. 141-142). E assim ocorrera em várias outras
capitanias. Vilhena (1969, p. 37), em finais do século
XVIII, confirmava a relação agricultura de subsistência

142
e economia de exportação: atribuía a carestia da farinha
ao auge a que havia chegado o preço do açúcar, de forma
que, dizia:

[...] não há quem não queira ser lavrador de


canas-de-açúcar e esta é a razão porque os la-
vradores, que sempre foram de farinhas, vão
deixando de o ser, só para lavrarem açúcar, de
que uma arroba lhes dá para comprarem qua-
tro alqueires de farinha.

De acordo com Schwartz (1988, p. 56), referindo-se


especificamente ao mercado baiano, à medida que o surto
exportador se intensificava o problema do abastecimento
de víveres na capitania agravava-se cada vez mais.
Os preços altos do açúcar e do fumo levavam produtores
de gêneros alimentícios a abandonarem a produção,
destinada ao mercado local, para usufruírem de alguma
forma da recuperação da economia exportadora.
Movimento que põe por terra a política metropolitana
de interiorização do plantio de alimentos (SILVA, 1990,
p. 67) (modelo explicativo das crises de abastecimento
do Brasil colonial e do século XIX, bastante conhecido).
Assim, nesse final de século, por quase toda a colônia,
a oferta de alimentos era comprovadamente menor que
a demanda, resultado e resultante das transformações
do mercado colonial em setores importantes como o de
subsistência e o exportador.
A crise que se iniciara em 1780, e que perdurara
pelo século XIX adentro, foi de intensidade tal que, desde
os primeiros momentos, passou a exigir das autoridades
coloniais medidas mais enérgicas. Em Caxias, na
capitania do Maranhão, vila que mais produzia gêneros

143
de primeira necessidade, mas que também passava por
sérias crises, parte devido à emergência do cultivo do
algodão, a municipalidade proibiu a saída de mantimentos
para outros lugares da capitania, inclusive para a capital,
São Luís, “posto já ser esta abastecida por Guimarães
e Icatu” (ASSUNÇÃO, 2000, p. 32-71). Na capitania do
Ceará, as câmaras das principais vilas passaram a
fazer anualmente uma espécie de censo dos lavradores
de mandioca, de forma que pudessem acompanhar e,
eventualmente punir, os que abdicassem do seu plantio.15
Na Bahia, as câmaras das vilas de Jaguaripe e Maragogipe
adotaram a mesma estratégia.16
Em Salvador, a intensificação da tradicional
política camarária mostrou-se insuficiente a ponto
de o governador-geral, D. Afonso José de Portugal,
marquês de Valença, contrariando um dos principais
fundamentos de tal política, a taxação de preços, decidir-
se por estabelecer através de bando, e pela primeira vez, a
total liberdade de preços dos víveres, embora ressaltasse
que apenas por tempo determinado ou como ele mesmo
disse, “pelo tempo suficiente para acalmar lavradores
e vendedores”. Solicitou, também, às demais câmaras
das vilas da capitania que fizessem o mesmo em suas
localidades.17
Nos anos subsequentes, as solicitações dessa
natureza, por parte de produtores e comerciantes,
passaram a ser veementemente negadas, pois, em nome
do “bem comum”, a orientação régia era a de que “se
tratasse de tudo, sem inovar coisa alguma”.18

144
Em 1785, a resposta do governador-geral, D. Ro-
drigo José de Menezes, às pretensões dos plantadores e
mercadores que, como diz Silva (1990, p. 304), “procura-
vam estabelecer o lucro, em lugar do bem comum, como
elemento organizador da vida social”, consistiu em ações
que, inclusivamente, contrariavam os interesses das câ-
maras das diversas vilas da capitania, sobretudo da Câ-
mara de Salvador: a centralização da venda dos chama-
dos “cereais da terra” (farinha, milho, arroz e feijão) na
capital, através da instalação do Celeiro Público.19
A justificativa para a criação deste órgão regulador
centrava-se na “falta de mantimentos de primeira
necessidade, ocasionada pela exportação irregular e
monopólio de certos comerciantes”, o que causava prejuízo
à população e exigia ações mais vigilantes, afirmava o
governador em correspondência à Câmara.20 Ao que
parece, aos olhos do governador, a Câmara não estava
conseguindo dar conta do controle e regulamentação da
produção, oferta e circulação dos gêneros de subsistência,
impondo a necessidade de transferência de parte da
prerrogativa camarária de ação sobre o mercado local,
para outras esferas de poder do Estado metropolitano
em terras americanas, especificamente vinculadas ao
governo-geral da capitania.21
De fato, as crises de subsistência eram tidas pelo
Estado como acontecimentos de alto risco. A falta de
alimentos, não raras vezes, redundava em motins e
revoltas – como os tumultos dos anos de 1703, 1704, 1712 e
1721 na Bahia – e, por isso mesmo, devia ser controlada e
sanada (SILVA, 1990, p. 183-184). Daí a intervenção pessoal

145
do governo-geral em esferas até então circunscritas às
câmaras.
A criação do Celeiro Público e sua administração
por indivíduos escolhidos e nomeados pelo governador,
em tese, privavam a Câmara do exercício de um de
seus mais importantes e seculares papéis: a garantia
do aprovisionamento da população circunscrita à sua
jurisdição, cuidando para que produtos indispensáveis à
reprodução humana, sobretudo a farinha de mandioca,
estivessem sempre disponíveis no mercado urbano local.22
Tal subtração de funções tornou-se fonte de constantes
atritos entre poder local e poder central, posto que a
cada dificuldade enfrentada pelos administradores do
Celeiro no recolhimento e fornecimento de víveres, a
Câmara reivindicava sua preeminência na regulação do
abastecimento da cidade e lançava, à revelia daqueles,
posturas que obrigavam os lavradores a trazerem o fruto
de suas colheitas ao Celeiro e proibiam a exportação de
farinha para outras capitanias.23
A conjuntura que marcou a instalação do Celeiro
Público da Bahia foi idêntica à que, ao longo da
história, sempre esteve por trás da criação de institutos
semelhantes, como o Terreiro do Trigo em Lisboa (séc.
XVI), os Celeiros Públicos de Luanda (Angola) e de
Moçambique (estes dois últimos no mesmo decênio que
o da Bahia) e os depósitos locais de cidades europeias e
da América espanhola no século XVIII (BARICKMAN,
2003, p. 134): as crises de subsistência e a necessidade de
dirimir seus resultados, quais sejam insatisfação, motins
e revoltas.

146
Um dos mais conhecidos exemplos, na antiguidade,
a Praefecturaannonae, ou Annona romana, criada
durante o reinado do primeiro imperador, Augusto,
representava, segundo alguns autores24, mais que
a tentativa de se resolver o problema da fome e das
crises de subsistência que periodicamente afetavam a
cidade. Teve significado maior, consistiu no controle dos
sistemas de produção, circulação e consumo de gêneros
pelo Estado e, consequentemente, no fortalecimento do
poder central, talvez decorrente de sua dupla função: de
um lado, abastecia a cidade de Roma, capital do Império,
e, de outro, através da annona militar, espécie de ramo da
Annona responsável pelo provimento do exército.25

A Praefectura Annonae em Roma consistia num


edifício administrativo e centralizado, dedicado, ex-
clusivamente, ao abastecimento da capital. Valia-se,
neste intento, da exploração dos recursos da hinter-
land romana e das províncias, mediante, sobretudo,
a aplicação de impostos, a ser pagos em gêneros, ou
pela compra direta, ou, ainda, confisco de produ-
tos de subsistência (nomeadamente nas províncias
militares) por oficiais annonarios em cada localida-
de.26 A estrutura administrativa da Annona tinha no
ápice o imperador que, por sua vez, delegava parte
de suas funções ao praefectus annonae, em Roma,
responsável pela administração dos recursos, e aos
procuratores augusti, nas províncias, encarregados
de dirigir a coleta dos produtos, efetivamente exe-
cutada por oficiais militares investidos no cargo de
governador.27

Se distantes no tempo, a Annona romana e o


Celeiro público de Salvador em muito se assemelhavam
nas práticas administrativas e enquanto instrumento
de controle do Estado sobre os mecanismos de
satisfação primária de corpos coletivos e individuais.

147
Única instituição do gênero no Brasil colonial28,
o Celeiro Público teve como justificativas para sua
criação a “falta de mantimento de primeira necessidade”
e a regulamentação da compra e venda da farinha
de mandioca, sobretudo da sua exportação irregular
e do monopólio de certos comerciantes, conforme
correspondência do governador D. Rodrigo José
de Menezes à Câmara, em 7 de setembro de 1785.29
A proposta de Regimento, inspirada no Regimento de 1779
do Terreiro do Trigo em Lisboa, quando este já não mais
estava sob jurisdição camarária, colocava tal instituto
sob ampla e total responsabilidade do governador,
encarregado de escolher e nomear o administrador geral
do Celeiro, bem como o escrivão e o tesoureiro. Os dois
feitores e o meirinho eram escolhidos pelo administrador
geral e aprovados pelo governador.30
De acordo com o regimento, a função de
administrador geral era de provimento anual, entretanto,
muitos administradores foram reconduzidos ao cargo
nele permanecendo por vários anos. Exercido por homens
de negócio de “grosso trato”, estabelecidos na cidade, o
ocupante do ofício ficava responsável por administrar
externa e internamente o Celeiro sem perceber ordenado
algum. O posto foi ocupado por importantes comerciantes
como Adriano de Araújo Braga, traficante de escravos,
e Francisco Dias Coelho, que importava mercadorias do
reino e as exportava para “dentro e fora da capitania”.31
O regimento determinava que todas as embarcações
que entrassem no porto de Salvador, com cargas de
farinha, milho, arroz e feijão, estavam obrigadas a declarar

148
a quantidade de alqueires trazidos e a pagar uma taxa
de 20 réis por alqueire depositado nas tulhas do Celeiro.
Ademais, proibia-se a condução direta de farinha da zona
de produção para qualquer vila do recôncavo sem antes
efetuar o registro da carga no Celeiro e pagar a devida
taxa. O mesmo valia para a exportação do produto para
fora da capitania, com o agravante de que, nesses casos
era necessária licença do administrador do Celeiro, ou
do governador. A renda seria aplicada na construção e
manutenção de um lazareto, na antiga Quinta do Tanque
dos Jesuítas.32
Após a instalação do Celeiro, os gêneros de
subsistência que chegavam à cidade através do porto
passaram a ser comercializados no interior do próprio
Celeiro e em pátio contíguo, bem como “no mar”, ou
seja, nas próprias embarcações ancoradas em Salvador.
Naqueles, o forte era o comércio a varejo, a consumidores
urbanos e em menor escala. No mar, predominavam as
vendas a grosso, ao atacado, de produtos, sobretudo de
farinha, provenientes de zonas de “barra fora”, isto é,
de fora do Recôncavo, para consumidores de grandes
proporções como: comissários de navios, traficantes
de escravos, exportadores e senhores de engenho
(BARICKMAN, 2003, p. 135).
Entretanto, tais práticas não amenizaram a falta de
gêneros e, em especial, a de farinha. Embora fosse vedado
ao Senado da Câmara “fazer correições” no Celeiro - o
que dificultava a fiscalização da forma como a farinha e
outros cereais chegavam às mãos do povo, atribuição que
permanecia a cargo da municipalidade (VILHENA, 1969,

149
p. 157-159) –, a falta de gêneros de primeira necessidade
chamava a atenção dos vereadores, pois mesmo fora da
administração do Celeiro os edis continuavam como
depositários dos reclamos populares. Nesse sentido, a
Câmara insistia na publicação de leis que regulavam a
distribuição dos comestíveis em Salvador, e, no particular
da farinha, o código de posturas de 1785, deliberava que

[...] nenhuma pessoa de qualquer qualidade


que seja possa vender farinha em sua casa por
se achar estabelecido pelo Ilmo. e Exmo. Se-
nhor General um Celeiro Público onde todo o
povo deve ir comprar enquanto não houver
ordem de sua majestade que o contrário de-
termine.33

Esses esforços culminaram, em 1853, na inclusão


de um vereador como agente do governo na compra da
farinha, na direção provisória do Celeiro, pela Câmara,
em 1856 e, finalmente, na sua assunção, em caráter,
permanente, pela municipalidade, em 1859.34
Ao longo do século XIX, o Celeiro tornou-se, por
um lado, muito mais que um simples mercado público.
Passou a ter o controle sobre todo o comércio de farinha e
outros gêneros feitos por cabotagem. Assim, em princípio,
a farinha não consumida em suas áreas de produção era
prontamente destinada ao Celeiro, que se encarregava
de sua distribuição posterior, a preços previamente
estabelecidos, de acordo com as demandas da população
citadina (BARICKMAN, 2003, p. 136).
Por outro lado, criado para resolver as questões
relativas à falta de alimentos na cidade, o Celeiro Público
pareceu em quase nada contribuir para essa finalidade,

150
pois, além dos roceiros e lavradores se recusarem a
recolher nele os seus mantimentos, devido à taxa de
20 réis que tinham de pagar por alqueire de “todos os
gêneros que ali entrassem”, os depósitos, segundo João
Rodrigues de Brito, eram tão pequenos e insuficientes
que “nas tulhas não cabiam nem o quanto a cidade
gastava em uma semana”.35
Em 1807, o desembargador João Rodri-
gues de Brito chamado a refletir sobre as cau-
sas da miséria da lavoura e do comércio, não se
furtou a tecer sua opinião sobre esta matéria.36
Abordou questões antigas que se deflagraram na úl-
tima década do século XVIII, mas cujo desfecho se ar-
rastaria pelos trinta primeiros anos do século XIX: afir-
mava o ônus da legislação econômica local e coloca-
va o Celeiro como obstáculo ao aumento da produção,
pois afugentava tanto o lavrador como o transportador
pelas taxações arbitrárias e penalizações indevidas.37
Ademais, a vigilância e as medidas coercitivas não foram
capazes de coibir os desvios de cargas e as vendas irregu-
lares ao longo da costa.
É certo que a criação do celeiro Público da Bahia
representou muito mais que a tentativa de se resolver
o problema da fome e das crises de subsistência que
periodicamente afetavam a cidade. Teve significado
maior, consistiu no controle dos sistemas de produção,
circulação e consumo de gêneros pelo Estado e,
consequentemente, no fortalecimento do poder central.
E, como tal, não deixou de ser objeto de crítica dos que
acreditavam na desregulamentação da sociedade e no

151
abandono do poder de “polícia”, tido como única forma
de manutenção do poder.

Notas
1 Conferir os estudos de Denise A. Soares de Moura para a cidade de São Paulo, no-
meadamente: “Região, relações de poder e circuitos mercantis em São Paulo (1765-
1822)”. Saeculum: Revista de História [14], João Pessoa, jan./jun. 2006. Para Minas
Gerais ver os trabalhos de Carrara (2007) e de Silva (2008).
2 APEB. Arquivo Colonial e Provincial. Câmaras do interior da Bahia (1766-1799).
Maço, 199.
3 AMS. Posturas, 1716-1742, 1785.
4 Sobre as crises de subsistência na Espanha ver: VICENTE, José Armillas. Crisis de
subsistência, hambre y violencia em Zaragoza alrededor de 1808. Zaragoza: Universidad de
Zaragoza, 2009. p. 35.
5 Sobre o período pombalino ver Falcon (1993).
6 Cf. Arquivo Municipal de Salvador (AMS). Atas da Câmara, 1641-1750.
7 Anais da Biblioteca Nacional. Rio de Janeiro: Ofícios Graphicos, 1913, v. 31, Doc.
n. 1352.
8 AMS, Portarias, 1710-25, fl.20v.
9 AMS, Ofícios ao Governo, 1768-1807, fl.67 ss.
10 AMS, Ofícios ao Governo, 1712-1737, fl. 23.
11 AMS, Atas da Câmara, 1731-1750, fl.106.
12 Correspondências Recebidas pelo Governo, 1783-1799. APEB, manuscrito, maço,
201-14, doc. n. 30.
13 Idem. Ibidem.
14 Biblioteca Nacional. Mss. 3, 14, 10
15 Arquivo Histórico Utramarino. Capitania do Ceará. Doc.10.
16 Arquivo Público do Estado da Bahia (APEB). Seção Colonial e Provincial. Cor-
respondências recebidas de autoridades diversas. Câmaras do interior da Bahia. M.
199, docs. 14 e 18.
17 APEB. Seção Colonial e Provincial. Correspondências recebidas de autoridades
diversas. Câmaras do interior da Bahia. M. 199, doc. 7.

152
18 APEB. Seção Colonial e Provincial. Correspondências recebidas de autoridades
diversas. Câmaras do interior da Bahia. M. 199, docs. 14
19 Denso estudo sobre o Celeiro Público foi feito por Simões Filho (2011).
20 “Offício do governador D. Rodrigo José de Menezes dirigido à Câmara desta
cidade, relativamente ao Celeiro Público”. Transcrito em: SILVA, Ignácio Accioli de
Cerqueira e. Memórias históricas e políticas da província da Bahia. Bahia: Imprensa
Official do Estado, 1931. p. 72.
21 BRITO, João Rodrigues de.Cartas econômico-políticas: sobre a agricultura e co-
mércio da Bahia.Lisboa: Imprensa Nacional, 1821; Bahia: Imprensa Oficial do Esta-
do, 1924.
22 Atribuição constante das próprias leis régias. Cf. Ordenações Filipinas. Fac-si-
mile da edição feita por Cândido Mendes de Almeida. Rio de Janeiro, 1870; Lisboa:
Fundação CalousteGulbenkian, 1985.
23 AMS.Posturas, 1650-1787. Postura n. 99.
24 Sobre a Annona romana ver os importantes estudos de: RODRIGUEZ, José Reme-
sal. “El sistema annonario como base de laevolución econômica Del Império Roma-
no”, In: HAKENS, T., MIRÓ, M (Eds.), 1990, p. 355-367; CARRERAS, César; FUNARI,
Pedro Paulo A. “El abastecimiento militar romano em Britannia: uma perspectiva
arqueológica”. Arqueo Web 5 (2) y 5(3) – septiembre/diciembre 2003 (<http://www.
ucm.es/info/arqueoweb/numero5_3/articulo5_3_funari.html>); CAMAÑO, Oscar
González. “Cum ventre tibi humano negotiumest: la Ancona en Roma, un intento
de resolver el problema del hambre”. (<http://usuarios.lycos.es/crastinus/annona.
pdf>); PUJOL, Lluís Pons. “La annonamilitarisem La Tingitana: observaciones so-
bre la organización y el abastecimiento del dispositivo militar romano”, In: L’Africa
romana XV, Tozeur, 2002, Roma, 2004, p.1663-1680. (<http://ceipac.gh.ub.es/biblio/
data/A/0400.pdf>).
25 PUJOL, Lluís Pons. “La annonamilitarisem La Tingitana: observaciones sobre
la organización y el abastecimiento del dispositivo militar romano”, In: L’Africa
romana XV, Tozeur, 2002, Roma, 2004, p.1663-1680. (<http://ceipac.gh.ub.es/biblio/
data/A/0400.pdf>). p. 1663.
26 CAMAÑO, Oscar González. “Cum ventre tibi humano negotiumest: la Ancona
en Roma, un intento de resolver el problema del hambre”. (<http://usuarios.lycos.
es/crastinus/annona.pdf>). p. 1-27.
27 PUJOL, Lluís Pons. “La annonamilitarisem La Tingitana: observaciones sobre la
organización y el abastecimiento del dispositivo militar romano”, In: L’Africa ro-
mana XV, Tozeur, 2002, Roma, 2004, p. 1663-1680. (<http://ceipac.gh.ub.es/biblio/
data/A/0400.pdf>). p. 1668.
28 Existem referências genéricas a um possível Celeiro Público no Rio de Janeiro,
mas sem comprovação documental. Há ainda referência de um Celeiro Público em
Moçambique, criado na década de 1780, e que exercia as mesmas funções que o da

153
Bahia. Ver referências em: GONÇALVES, Adelto. Gonzaga, um poeta do iluminis-
mo. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1999. cap. 3.
29 “Offício do governador D. Rodrigo José de Menezes dirigido à Câmara desta
cidade, relativamente ao Celeiro Público”. Transcrito em: SILVA, Ignácio Accioli de
Cerqueira e. Memórias históricas e políticas da província da Bahia. Bahia: Imprensa
Official do Estado, 1931. p. 72.
30 “Regimento para o Celeiro”. Transcrito em: SILVA, Ignácio Accioli de Cerqueira
e. Memórias históricas e políticas da província da Bahia. Bahia: Imprensa Official
do Estado, 1931. p. 73-77.
31 Boa parte dos que ocuparam o cargo de administrador do Celeiro era comercian-
te de escravos ou estava, de alguma forma, ligada ao tráfico. APEB. Testamentos e
Inventários. Auto-Cíveis, 1785-1818.
32 “Regimento para o Celeiro”. Transcrito em: SILVA, Ignácio Accioli de Cerqueira
e. Memórias históricas e políticas da província da Bahia. Bahia: Imprensa Official
do Estado, 1931. p. 73-77.
33 CAMPOS, S. op. cit., p.65.
34 OFÍCIOS AO PRESIDENTE DA PROVÍNCIA. Ofícios à Tesouraria Provincial,
1853-1859. APEB, manuscrito, Doc. n. 1611.
35 BRITO, João Rodrigues de. op. cit., p. 34-35.
36 As crises de abastecimento por que passava a cidade naquele momento motiva-
ram a Câmara a encomendar tal estudo. Cf. (VILHENA, 1969).
37 Cf. João Rodrigues de Brito et. al., Cartas econômico-políticas sobre a agricultura
e comércio da Bahia, Lisboa: Imprensa Nacional, 1821.

Referências

ASSUNÇÃO, Mathias Roling. Exportação, mercado


interno e crises de subsistência numa província
brasileira: o caso do Maranhão, 1800-1860. Estudos,
Sociedade e Agricultura, v. 14, p. 32-71, abr. 2000.
BARICKMAN, B. J. Um contraponto baiano: açúcar,
fumo, mandioca e escravidão no Recôncavo, 1780-1860.
Trad. Maria Luiza X. de A. Borges. Rio de Janeiro:
Civilização Brasileira, 2003.

154
CARRARA, Ângelo Alves. Minas e currais: produção
rural e mercado interno de Minas Gerais (1674-1807).
Juiz de Fora: UFJF, 2007.
FALCON, Francisco José Calazans. A época pombalina
(política econômica e monarquia ilustrada). São Paulo:
Ática, 1993.
LADURIE, Emanuel Le Roy. O Estado monárquico
(França, 1460-1610). São Paulo: Companhia das Letras,
1994.
SCHWARTZ, Stuart B. Segredos internos: engenhos e
escravos na sociedade colonial: 1550-1835. Trad: Laura
Teixeira Motta. São Paulo: Cia das Letras; CNPq, 1988.
SILVA, Francisco Carlos Teixeira da. A morfologia da
escassez: crises de subsistência e política econômica
no Brasil colônia (Salvador e Rio de Janeiro, 1680-1790).
1990. 411 f. Tese (Doutorado) – Universidade Federal
Fluminense, Niterói, 1990.
SILVA, Flávio Marcus da. Subsistência e poder:
a política do abastecimento alimentar nas minas
setecentistas. Belo Horizonte: UFMG, 2008.
SIMÕES FILHO, Afrânio Mário. Política de
abastecimento na economia mercantil: o Celeiro
Público da Bahia (1785-1866).2011. Tese (Doutorado) –
Universidade Federal da Bahia, Salvador, 2011.
THOMPSON, E. P. Costumes em comum: estudos sobre
a cultura popular tradicional. São Paulo: Companhia
das Letras, 1998.

155
VILHENA, Luís dos Santos. A Bahia no século XVIII.
Bahia: Ed. Itapuã, 1969. v. 1-3.

156
PARTE 3

História, escravidão, abolição e


pós-abolição no Brasil
CANDEAL:
genealogia de uma família africana em um
bairro de Salvador – Bahia (séculos XVIII-XX)

Maria das Graças de Andrade Leal

Este texto visa apresentar os percursos familiares a


partir da união de um homem e uma mulher africanos
que participaram da constituição do bairro Candeal,
observando aspectos de relevância histórica referentes
às origens de uma comunidade urbana construída
sobre as bases africanas. O Candeal é uma das várias
ramificações que compõem o atual Bairro de Brotas
em Salvador-Bahia e está localizado entre Brotas, o
Horto Florestal e a Avenida Juracy Magalhães Júnior.1
É assim chamado por ter havido naquela região uma mata
de candeias, cuja espécie vegetal é utilizada para moirão
de cerca, pela sua durabilidade, e produção de óleo de
onde se extrai o alfa-bisabolol de propriedade medicinal
e coméstica2. A sua madeira também é utilizada para a
produção de carvão, por gerar pouca fumaça. Ali nasceu
o músico baiano Carlinhos Brown e está instalada a
Pracatum, Organização Não-Governamental fundada
pelo artista com o objetivo de criar condições de apoio e
desenvolvimento à comunidade local.3
Ao longo das pesquisas, que respeitaram as fases
de exploração bibliográfica, com o intuito de conhecer
trabalhos realizados sobre o assunto, e de fontes
documentais primárias, e outra de análise dos dados

159
levantados, ficou constatada a inexistência de estudos
elaborados sobre o Candeal, na perspectiva histórica,
de conhecer-se sobre suas origens, baseadas em fontes
primárias. O que há de produção de cunho acadêmico
é o conjunto de estudos e análises relativos às ações
educacionais, culturais e de gestão implementadas no
Candeal Pequeno a partir de Carlinhos Brown. Referem-
se, sobretudo, aos campos da administração, educação,
mobilização social, comunicação, linguagem musical,
cultura, antropologia, das ciências sociais e políticas.4
Ao lado de tais estudos, diversos artigos e notícias na
imprensa são sucessivamente publicados, no sentido de
divulgar as ações sócio-comunitárias e empreendedoras
associadas a Carlinhos Brown no Candeal. Entre eles,
destaco o livro de Galilea (2004) “El Milagro de Candeal”,
vinculado ao filme El milagro de Candeal, do cineasta
espanhol Fernando Trueba. É um filme inspirado na
trajetória sociomusical do bairro e guiado pela música.
O octogenário músico cubano Bebo Valdés foi um dos
protagonistas presentes no dia 11 de setembro de 2004,
durante a primeira exibição realizada no Candeal, quando
se reuniram a comunidade, líderes comunitários, artistas,
intelectuais, jornalistas, entre outros participantes
nacionais e estrangeiros da Jornada de Cinema da Bahia
(GUERREIRO, 2005).
Ou seja, o Candeal se caracteriza em tema original
na sua dimensão histórica, por representar um exemplo de
espaço comunitário urbano de matriz africana, associado
às transformações fundiárias e urbanas processadas
na Bahia, desde o século XVIII. E, em especial, por se
constituir em temática a ser estudada na perspectiva

160
da historiografia recente sobre a escravidão, em que são
analisadas, entre outras dimensões, trajetórias de famílias
escravas e libertas no Brasil e na Bahia em particular.
No âmbito da historiogria brasileira que discute temas
dos campos da história social, cultural e do cotidiano,
a historiografia da escravidão vem redimensionando,
desde os anos de 1980, as abordagens que tomam como
prâmetro as experiências escravas vinculadas às práticas
cotidianas, resistências, aos modos de viver, pensar e agir
nos espaços de enfrentamento e acomodação face aos
projetos de liberdade e às estratégias de sobrevivência
construidos por homens e mulheres escravizados no
Brasil. Neste contexto, estudos sobre a família escrava bem
como as relações entre escravidão e liberdade, trajetórias
de libertos e ex-escravos no escravismo e no pós-abolição
vêm se multiplicando a partir de exaustivas pesquisas
documentais nos diversos arquivos brasileiros.5
À medida que a documentação foi identificada e lo-
calizada, em especial aquela relativa às fontes cartoriais
(inventários, testamentos, escrituras), cujo caminho foi
trilhado a partir dos relatos fornecidos por D. Didi, cita-
dos em Gadêlha (2004), foi possível avançar nesta parte
específica do Candeal e das suas origens formuladas a
partir da colonização portuguesa e da África. D. Didi,
Dona Hilda Sant’Anna Querino, é uma das mais antigas
moradoras do Candeal, descendente da quinta geração
dos Mendes e Sant’Anna, e guarda anotações da genea-
logia da família. Os aspectos gerais do processo de ocu-
pação das terras da antiga Freguesia de Brotas foram-se
revelando, conforme análises documentais, chegando-se
a um panorama que poderá nortear estudos sobre a his-

161
tória do Candeal em suas dimensões sociais, culturais,
urbanas, territoriais, étnicas, econômicas.
Um aspecto que deve ser considerado, baseado no
processo de identificação do acervo documental e pos-
terior análise, mesmo que horizontal, é o desafio de en-
veredar-se na pesquisa genealógica da Família africana
Mendes e Santa’Anna. Esta marcou o núcleo da forma-
ção da comunidade no Candeal, observando-se as suas
matrizes africanas, seus processos de sobrevivência na
Bahia escravista, as suas experiências sociais e culturais
ancoradas na religiosidade, na própria escravidão, nas
conquistas de bens materiais e simbólicos que geraram
lendas e memórias que permanecem guardadas por her-
deiros e disseminadas pela oralidade e pelo imaginário.
Assim, para explicar o processo de constituição
e construção do que hoje é conhecido como Candeal
Pequeno, estão apresentados os elementos que apontam
sobre as origens da antiga Freguesia de Brotas, atual
Bairro de Brotas, a fim de contextualizar a região do
Candeal na formação territorial do atual Bairro, e, por
fim, o Candeal é focalizado nas suas origens territoriais,
suas ocupações e, em especial, na trajetória da família dos
africanos Mendes e Santa’Anna, no esforço de construir
sua genealogia até meados do século XX.

Notas sobre a freguesia de Brotas e suas origens

Os antigos arrabaldes de Brotas foram constituídos


em Freguesia da cidade do Salvador no século XVIII (1718)
pelo então arcebispo de Salvador D. Sebastião Monteiro

162
da Vide, sob a invocação de Nossa Senhora das Grotas.
A freguesia era um espaço físico limitado, uma “divisão
administrativa e religiosa da cidade, onde estavam
localizados os habitantes, ligados à sua igreja matriz.
Tomavam parte em suas solenidades, ali realizavam
seus batizados, casamentos e eram sepultados”
(NASCIMENTO, 1986, p. 29). Inicialmente existiu como
povoado de São Paulo, tornando-se freguesia com sede
na antiga e pequena igreja sob a invocação de São Paulo.
Somente em 1772, a antiga Igreja foi substituída pela atual
matriz e, com o passar do tempo, Grotas foi alterada por
corruptela popular por Brotas (DÓREA, 1999). Era uma
das freguesias mais despovoadas, com pequenos núcleos
populacionais fora do local onde estava erguida a matriz,
como os da Pituba e das Armações do Gregório.
No século XVIII, as principais estradas que davam
acesso à cidade eram a das Boiadas, a das Brotas que
incorporava a do Cabula, e a do Rio Vermelho. A freguesia
de Brotas dividia-se com a freguesia de São Pedro Velho
e com a de Santa Ana pela parte sul no Dique; pela parte
Norte com a freguesia de Santo Antônio Além do Carmo;
pelo Leste com a de Santo Amaro de Ipitanga, correndo
pela costa, ocupando de Norte a Sul mais de quatro
léguas e duas e meia de Leste a Oeste. Tinha três filiais:
as capelas de Nossa Senhora da Luz, de Nossa Senhora
da Boa Vista e de Santo Antônio. Por ali passavam os rios
Camurugipe, que fazia barra com o Rio Vermelho, o rio
de Santo Antônio das Pedras que desaguava igualmente
no mar, bem como o rio Jaguaripe (VILHENA, 1969).

163
A freguesia de Brotas, no início do século XIX,
situava-se mais no interior, era caracterizada como zona
rural e “espalhava-se pelo lado do oceano em dimensões
grandiosas, limitando-se com a freguesia suburbana de
Itapuã” (NASCIMENTO, 1986, p. 33). Era um arrabalde
longínquo, urbano e suburbano (misto). Tinha limites
com:

[...] Santo Antônio Além do Carmo pela estra-


da Nova, começando pela roça do comenda-
dor Barros Reis, vindo até a Fonte Nova, no
Dique, onde fazia diferentes limites com San-
tana e São Pedro. Daí, pela estrada Dois de Ju-
lho, seguia até a ponta da Mariquita, de onde
se espraiava costeando a lagoa da Pituba, até
Armação e o Rio das Pedras, quando se divi-
dia com a fregeusia de Itapuã, suburbana da
cidade. Seguia a fregeusia de Brotas até o En-
genho da Bolandeira, onde novamente fazia
divisa com Itapuã e com a freguesia de Santo
Antônio Além do Carmo. Limitava-se com a
Vitória na Mariquita. (NASCIMENTO, 1986,
p. 37).

Em 1855 a referida freguesia possuía 68 terrenos,


cinco terras, 70 roças, sete fazendas e um engenho, 33 ca-
sas térreas, uma casa de andar e uma casa de dois anda-
res. Era a menor freguesia de então, perdendo para São
Pedro Velho, que era a maior, e para o Santíssimo Sacra-
mento da Rua do Passo, a menor. Parcialmente rural, a
freguesia era habitada por maioria composta de gente
simples e de cor. Existiam roças, lotes de terra, fazendas,
engenhos e até uma sesmaria. A principal profissão iden-
tificada na região era a de lavrador. A partir de 1869 ocor-
reu o aparecimento das primeiras linhas de transporte
como a estrada de ferro do Rio Vermelho, que começava

164
no Campo Grande e terminava no alto do papagaio, no
Rio Vermelho (NASCIMENTO, 1986, p. 37).
As ramificações que compõem o atual Bairro,
assim, originaram-se das divisões de imensas fazendas
sucessivamente arrendadas, aforadas, ocupadas e/ou
vendidas em lotes por seus proprietários às primeiras
famílias que se instalaram no local e também invadidas
por pessoas com ou sem posses. A extensão das terras de
Brotas nos séculos XVIII e XIX correspondia a uma parte
do Morgado da Casa de Niza, que integrava uma das
casas mais importantes da nobreza portuguesa desde
o século XVII, comparada às Casas da Ponte e da Torre
de Garcia d’Ávila. Na América Portuguesa, o morgado
se caracterizou em patrimônio fundiário de origem
sesmeira “que perdurou até 17 de junho de 1822, quando
o Príncipe regente D. Pedro suspendeu sua aplicação”
(NEVES, 2008, p. 65). Era uma instituição portuguesa, de
origem feudal, de transmissão de propriedade vinculada
ou conjunto de bens que não podia ser alienada ou
dividida e que, por morte do possuidor, passava para
o filho primogênito sucessivamente. Na ausência de
sucessores, permitia-se a livre nomeação do titular.

O morgadio – que parece ter sido usado ape-


nas uma dezena de vezes na Bahia durante o
período colonial – visava proteger as fortunas
de família, tendo sido adotado sobretudo por
portugueses de ascendência nobre. Podia in-
cluir bens situados no Brasil e em Portugal.
Essa instituição trazia consigo certas obriga-
ções, pois os administradores (ou seja, os her-
deiros) deveriam gastar com obras ‘piedosas’
mais ou menos a centésima parte das rendas
das propriedades. (MATTOSO, 1992, p. 137).

165
Em relação ao morgado da Casa de Niza, foi identi-
ficado, em documento de 1788, carta de confirmação por
sucessão de bens herdados do Marquês de Niza, Dom
Rodrigo Xavier Telles de Castro da Gama Atahide Noro-
nha da Silveira e Sousa, pela viúva e filha Marquesas de
Niza, Dona Maria Anna Josepha Xavier de Lima e Dona
Eugenia Maria Josepha Xavier Teles de Castro da Gama
Atahide Noronha da Silveira e Sousa, respectivamente,
entre títulos, privilégios e terras, terras do Rio Vermelho
na Comarca da Bahia, unidas e vinculadas com as Ilhas
de Itaparica e Tamarandiva, as quais vinham por suces-
são do Conde de Castanheira desde 1556.6 As terras do
Rio Vermelho foram sucessivamente aforadas, arrenda-
das e ocupadas por outros. Em 1791, o Capitão Domin-
gos André Torres arrendava uma porção de terras do Rio
Vermelho ao então Sargento Alexandre Teotônio de Sou-
sa. Em 1797, os Marqueses de Niza reafirmavam o afora-
mento perpétuo ao Tenente Coronel Alexandre Teotônio
de Sousa e sua mulher Dona Margarida Maria de Abreu
e Carvalho de porção dessas terras. Na respectiva Es-
critura de Ratificação de Aforamento, observa-se que as
referidas terras encontravam-se ocupadas pelo Coronel
Dom Carlos Balthasar da Silveira, por Francisco Gomes
de Sousa e pelos religiosos de São Bento. Estes últimos
“se achavam intrusos”, “sem consentimento nem título
dos excelentíssimos donatários [...]”.7
O Visconde do Rio Vermelho, Manuel Inácio da
Cunha Meneses, também foi um dos beneficiários de foro
perpétuo das Terras do Rio Vermelho, pertencentes aos
Marqueses de Niza. Eram a denominada Fazenda Pituba
e o Engenho Santo Antônio, onde estavam localizados

166
nos limites das ditas Terras, as quais integravam a antiga
Freguesia de Brotas.8 Pela documentação analisada,
tornou-se um dos grandes proprietários na Freguesia de
Brotas, entre outras roças no sítio do Candeal.9 Os limites
do Engenho Santo Antônio faziam três frentes: “pela
estrada geral que vai para as Armações e Itapuã perto
das ditas terras da fonte denominada Rio Camurogipe
e seguindo, por uma vala em direção a leste, a limites
da costa do mar, ao norte com a estrada real do
Cabula”.10 A Fazenda “denominada Pituba”, era aforada
perpetuamente pela Viscondessa do Rio Vermelho à
Casa da Marquesa de Niza, tendo o seu filho Barão do
Rio Vermelho como condômino por partilha fraterna.
Eram terras que se limitavam

[...] ao sul com a fazenda Ubanassa, que está


na costa do mar até a fonte velha de São Paulo
no rio Camorogipe de Ubanassa, ao norte com
terras do engenho Santo Antonio, ao nordeste
com terras de São Bento onde está a Armação
do Gregório e a leste com o mar. Bahia quinze
de julho de mil oitocentos e cinqüenta e nove.
Barão do Rio vermelho.11

Dentre as terras da Viscondessa e herdadas pelo


seu filho, o Barão do Rio Vermelho (José Felix Cunha
e Meneses), e descendentes, constavam ainda uma
roça fronteiriça à Igreja de Brotas, uma outra também
na mesma freguesia das Brotas, arrendada ao Senhor
Desembargador Netto, “tendo de frente para a estrada
das Brotas que vai ter ao Rio vermelho, e seguindo as
voltas da mesma estrada cento e onze braças, e de fundo
com todas as tortuosidades dos lados cento e oitenta
braças termo médio entre os dois lados”.12

167
Estas terras foram passadas por herança ao
descendente do Visconde e da Viscondessa do Rio
Vermelho, o seu filho o Barão do Rio Vermelho. Com
o falecimento do Barão, a Baronesa do Rio Vermelho
(Joaquina Julia Navarro e Andrade) realizou a partilha
dos bens deixados pelo marido entre os filhos e genros:
(1) Dr. José Felix da Cunha Meneses, (2) Dona Perpétua
Beatriz Navarro da Cunha Meneses, (3) Dona Francisca
Immaculada Navarro da Cunha Meneses, (4) Dona
Maria Joanna Navarro da Cunha Meneses (casada com
o comendador Manuel S. Oliveira Rodrigues) e (5) Dona
Joaquina Julia Navarro da Cunha Meneses Lacerda
(casada com o comendador Antônio de Lacerda). Dentre
os bens inventariados e partilhados, estavam incluídos a
Fazenda Pituba e a Armação do Saraiva, e “as quatrocentas
partes do velho engenho Santo Antônio, hoje arruinado
e caído [...]”, sitas em terrenos foreiros dos herdeiros do
casal do Marquez de Niza.13
Outro grande proprietário de terras do Rio Vermelho
foi o Capitão Thomas da Silva Paranhos. No Registro
Eclesiástico de Terras de 1858, declarava, o referido
Capitão, ser possuidor de terras na freguesia de Brotas
“por compra feita à Casa de Niza”, as quais possuíam
vasta extensão, que seguiam até Itapuã. Declarava que,
naquelas terras, segundo o registro, existiam alguns
foreiros aos quais teria vendido do domínio direto.14

168
As terras do Candeal no contexto de uma genealogia
africana

Observa-se que, desde os finais do século XVIII,


o referido Morgado da Casa de Niza encontrava-se
transmitido para foreiros e rendeiros. Com a extinção
dos morgados no Brasil, após a independência, pela lei de
6 de outubro de 1835, as respectivas terras, que estavam
nos limites da Freguesia de Brotas, passaram para
diversos outros proprietários, incluindo os africanos
Antônio Mendes da Silva e sua mulher Josepha Maria
de Santa’Anna, os quais marcam, historicamente, os
primeiros momentos de constituição da área do atual
Candeal.
O “Candeial” é citado como área que havia pertencido
ao Visconde e à Viscondessa do Rio Vermelho, em parte que
integrava a Fazenda Pituba e o Engenho Santo Antônio,
conforme documentos de escritura e inventário. Naquela
região havia roças e terras pertencentes a diversos outros
proprietários, seja através de aforamento, arrendamento
ou compra. Em 1851 “um terreno denominado Candial”
era vendido por Dona Maria da Glória da Cunha de
Meneses, provavelmente herdeira do Visconde do Rio
Vermelho, a Bernardo Xavier de Castro, no qual havia
uma pequena casa arruinada. Tornado proprietário,
a roça “Candeal grande” foi registrada com a seguinte
extensão: tinha de frente duzentas e dez braças de terras,
limitando-se pelo norte com terras do finado Visconde do
Rio vermelho, pelo oeste com terras da Misericórdia até o
rio Camorogipe, pelo sul com o mesmo rio Camorogipe,
pelo oeste com terras do já dito Visconde, compradas a

169
dona Maria da Gloria da Cunha e Meneses (...) Bernando
Xavier de Castro. Brotas da Bahia. 23 de setembro de 1857.15

No sítio Candeal havia terras de Luis José de


Almeida, as quais dividiam-se

[...] com as terras do Desembargador Netto e


as terras do senhor Joaquim Teixeira de Oli-
veira, pelo lado do leste, rio acima de Camu-
rogipe com as terras do senhor João da Cruz e
pelo lado do oeste com o dito rio e as terras do
senhor Bernardo Xavier de Castro. Bahia de-
zesseis de julho de mil oitocentos e cinqüenta
e oito. Luis José de Almeida. Brotas da Bahia.
17 de julho de 1858.16

Outra roça no “Candial” era de Antonio Mendes da


Silva, africano liberto, casado com Josepha Maria de Santa
Anna, também africana. Segundo testamento deixado
por Antônio Mendes, era possuidor de uma roça na
estrada do Rio Vermelho, cujo terreno era legítimo dono;
uma roça com benfeitorias e uma casa de telhas na rua
do Candial, onde morava; uma roça contendo plantações
de legumes e uma pequena casa de taipa coberta de
telhas na Fazenda do [Pombal], em terras pertencentes
à Viscondessa do Rio Vermelho; três escravos crioulos
(Luis Gaudêncio, Maria e Pedro), para os quais deixava
carta de liberdade após a sua morte e o da sua mulher.
Entre outros desejos manifestados por Antônio Mendes,
dois anos antes do seu falecimento em 1857, era o de ser
enterrado na Irmandade do Rosário da Freguesia de
Brotas, para a qual deixava vinte mil réis.17

170
Antônio Mendes era natural da Costa da África,
havia sido escravo de Francisco Mendes da Silva, do
qual comprara sua liberdade por duzentos mil réis. Era
católico e Irmão da Irmandade do Rosário na Freguesia
de Brotas, onde teria se casado com Josepha Maria de
Santa Anna, também africana. Do casamento tiveram
três filhos: Antonio Mendes da Silva Junior, Maria de
Santa Anna e Isabel de Santa Anna. Não sabia ler nem
escrever.18 Segundo tradição oral e pelas anotações de
D. Didi sobre a genealogia da família Sant’Anna, teria
sido “o primeiro casamento católico entre africanos na
Igreja de Brotas” e Antonio Mendes seria “muçulmano
livre, vindo de uma guerra”, com quem Josepha se
casara, no ano de 1781, quando chegara ao Brasil.19
Segundo D. Didi, naquela mata havia se instalado

[...] a avó de sua avó, Josepha de Sant’Anna,


uma africana livre que no ano de 1781 deixou
sua terra natal em busca de seus parentes que
sabia estarem escravizados no Brasil. Veio
com moedas de ouro e pratas para libertá-los.
Chegando a São Salvador da Bahia, encontrou
os parentes e encantada pela cidade, resolveu
ficar. Fundou uma fazenda onde plantou uma
roça com arvoredo de espinho, o dendê, cujo
azeite era vendido na cidade por seus escra-
vos. O Candeal não foi um quilombo, segundo
Dona Didi. Os escravos de Dona Josepha nun-
ca foram maltratados, pelo contrário. Depois
de vender o dendê na feira, tinham o dia livre
para fazer o que quisessem: dançar, cantar, to-
car atabaques (GADÊLHA, 2004, p. 24).

Segundo seu testamento, Antonio Mendes da


Silva adotara a religião católica, certamente no contexto
da sociedade escravista na América portuguesa, onde
os escravizados eram batizados no catolicismo ao

171
chegarem na colônia, ao tempo em que recebiam o nome
e/ou sobrenome de seu proprietário. Recém-chegados
da África, alguns eram treinados nos rudimentos da
língua portuguesa, a fim de compreenderem as ordens
de seus senhores, enquanto eram definidos os lugares
de mando e obediência de cada um. A religião católica
foi um importante elo cultural e educativo que apoiou a
escravidão, no sentido de inculcar os valores da religião,
bem como virtudes indispensáveis ao cativeiro como
paciência, obediência e humildade. Assim Antonio
Mendes registrou em seu testamento no ano de 1855:

Primeiramente encomendo o meu corpo a


Deus e a minha alma ao Santíssimo Sacra-
mento, pois como Christão Apostolico Ro-
mano em cuja Religião adoto, e nella espero
morrer, e peço à Maria Santíssima intercessão
por minha alma a Sêo Bento Filho, quando ela
tenha de sahir desta casca mortal.20

Dentre as lendas que rodeiam o Candeal, existe


a que envolve “Manoel” Mendes. Segundo D. Didi, o
muçulmano

[...] ao chegar da guerra trouxe por dentro de


sua camisa ensangüentada uma pedra. Esta
pedra o protegeu de doenças e da morte, na
guerra e na viagem ao Brasil. Ainda peque-
na esta pedra foi jogada por Dona Josepha,
que era do candomblé, perto do tamarineiro
e uma lenda diz que ela cresce todo ano. Há
ainda estórias, negadas por D. Didi, de assom-
brações de escravos enterrados no Candeal
(GADÊLHA, 2004, p. 26).

Em inventário de partilha, realizado após a morte


de Antonio Mendes, consta ter deixado, além da viúva, os

172
três filhos herdeiros de seus bens – Maria de Santa Anna
(45 anos), casada com Benedito Nobre, africano; Antonio
Mendes Junior (43 anos) e Izabel de Santa Anna (41 anos),
viúva de Manoel do Rosário. Entre os bens arrolados
constavam: uma roça no “Candial” onde havia diversos
arvoredos frutíferos; uma casa de taipa coberta de telha e
mais um terreno rendeiro a Luiz José de Almeida (citado
anteriormente), pelo qual pagava anualmente oitenta
reis. Também era possuidor de uma cozinha de taipa
coberta de telha para fazer farinha (casa de farinha),
situada em terreno arrendado da Viscondessa do Rio
Vermelho (citada anteriormente), pelo qual pagava cem
réis por ano. Dos bens inventariados e partilhados entre
os herdeiros havia ainda quatro escravos: três pretos
da nação nagô – Constantino, muito velho; Domingas,
velha e doente; Filippi, representando 40 anos com perna
direita torta; e uma preta de nome Delfina da nação
Angola, representando 45 anos.21
Possivelmente, esta roça, ou parte dela, da família
Mendes e Sant’Anna veio a se constituir no que atualmente
se conhece por Candeal Pequeno ou de Baixo, conforme
tradição passada de geração a geração pelos descendentes.
O casal sucessivamente teria comprado diversas terras
em Brotas, incluindo a atual área do Parque da Cidade
(GADÊLHA, 2004, p. 25).

Em 1865, antes de morrer aos 112 anos, Josepha


de Sant’Anna passou a escritura do Candeal
para seu filho Antônio Mendes. Ele casou-se
com Maria Tomásia, filha de uma das famílias
negras mais ricas de Salvador, que comercia-
lizava peixes na Gamboa, conta D. Didi. Eles
tiveram cinco filhas, dentre eles (sic) Francisca

173
Romana, a Chica. Ela teve um casamento ar-
ranjado aos 16 anos com um mulato chama-
do Ramiro de 45 anos. Depois de sua morte,
Dona Chica casou-se de novo, com o Nicolau,
acaboclado neto de índios. Uma de suas ne-
tas é Dona Didi, que possui as anotações da
genealogia da família Sant’Anna passadas de
geração a geração.(GADÊLHA, 2004, p. 25).22

Consta nos Registros Eclesiásticos de Terras do ano


de 1857, a existência de uma roça pertencente a Antonio
Mendes Junior e suas irmãs Maria de Santa Anna e Isabel de
Santa Anna, situada na Freguesia de Brotas, que se dividia
“pelo norte e sul por quem de direito pertencer, pelo fundo
com o rio Lucaia, pela frente com a estrada que vem de
Brotas e segue para o Rio Vermelho comprada a Mathias
Ferreira Borges e sua mulher Martha Maria de Jesus”.23
O que indica que tais terras teriam sido adquiridas por
compra pelo falecido Antonio Mendes, pai, e, com a sua
morte em 1857, passavam para os herdeiros, seus filhos.
Em Inventário de Antonio Mendes Junior, de 1872,
morto em 1870, consta a distribuição dos bens herdados
pela esposa, ThomasiaFlorencia de Jesus, e seus cinco fi-
lhos – André Corcino de Sousa Mendes (maior), Celestina
Maria Mendes (17 anos), Maria Irenia Mendes (14 anos),
Evaristo Regociano Mendes (12 anos) e Francisca de Jesus
Mendes (5 anos). Entre os quais estavam uma casa térrea,
número 49, situada ao Largo da Freguesia de Brotas; uma
casa térrea sita ao Candeal, Freguesia de Brotas, com ter-
reno pertencete à mãe do finado Antonio Mendes; uma
pequena roça à estrada do Rio Vermelho com “dezesseis
braças, cujo fundo vai até a margem do rio lucaia, divide
por um lado com terreno da roça de Isabel Tal Tal e do

174
outro com a roça de Maria do Espírito Santo, tendo vin-
te seis pés de laranjeiras dando, cinco de coqueiros, um
de jaqueira, dois de mangueira, um de limoeiro e outro
de dendezeiro [...]”; uma casa térrea sita a rua do Cabral,
Freguesia de Santa Anna; uma casa térrea sita à mesma
rua contígua acima e uma casa térrea com pequeno ter-
reno ao lado. Também é um indicador importante sobre
o grau de acumulação de bens e riqueza realizada por
africanos na Bahia oitocentista.24
Em 1896, a viúva Thomasia e seus filhos
venderam a roça situada à Estrada do Rio Vermelho,
na Freguesia de Brotas, havida por partilha amigável
dos bens deixados por falecimento de Antonio
Mendes da Silva. Era uma roça própria para lavoura
adquirida pelo médico Manoel Bonifácio da Costa.25
Possuía diversos arvoredos frutíferos e um telheiro, com
22 braças de frente a fundo até a estrada “Dous de Julho”,
dividindo-se por um lado com os herdeiros de Isabel de
S. Anna, irmã de Antonio Mendes Junior, pelo outro com
quem de direito tiver, pelo fundo com o Rio que vem do
Engenho Velho e pela frente com a referida Estrada do
Rio Vermelho. Observa-se que eram terras de grandes
extensões e que, entre outros bens deixados pelo falecido,
ocorreu um processo de venda a terceiros desde finais do
século XIX.
Segundo Dona Didi, Dona Chica teria arrendado
suas terras no Candeal, quando começaram a chegar novas
famílias, incluindo a de Seu Bertolino e Dona Damiana,
avós maternos de Carlinhos Brown, provavelmente entre
os anos de 1950 e 1960, considerando como referência o

175
ano de 1962, ano de nascimento de Brown (GADÊLHA,
2004, p. 25).
Pela documentação até aqui consultada, pode-se
chegar a alguns esclarecimentos pontuais que merecem
aprofundamentos cuidadosos. Trata de uma genealogia
bastante complexa e interessante, por se referir a uma
história familiar comprovadamente de matriz africana e
escrava. Envolve diversas ramificações familiares que se
desdobraram rapidamente ao longo do tempo.
Francisca de Jesus Mendes ou Francisca Romana
ou D. Chica, nascida em 1867 e falecida em 1955, aos 88
anos, era uma dos cinco filhos de Antônio Mendes da
Silva Júnior casado com Thomasia Florência de Jesus e
neta dos africanos Antonio Mendes e Josepha de Santa
Anna.26 Seus irmãos eram André Corcino de Sousa
Mendes27, Celestina Maria de Sousa Mendes28, Maria
Irenia Mendes29 e Evaristo Rogaciano Mendes.30
Da família original de Francisca, foi identificada,
em inventário de 1961, a partilha dos bens deixados
pelas irmãs falecidas à sucessão para a terceira geração
da família Mendes e Santa’Anna. Eram os herdeiros de
Francisca Romana Mendes, Maria Irenia da Anunciação
e Celestina Mendes que dividiam entre si “um terreno
situado à Ladeira do Candial Pequeno, subdistrito de
Brotas, próprio, medindo mais ou menos pela mencionada
ladeira 306 metros; pela lateral esquerda 192 metros; pela
direita 188 metros e de fundo 144 metros e 50 centímetros”.31
Perfazia um total de área de cinco mil e duzentos e
sessenta e sete metros quadrados, sem benfeitorias:
terreno com partes plana e acidentada, tendo a sua maior

176
parte ocupada com cerca de 70 casas de construções
diversas pertencentes a rendeiros.32
Em petição de Alcebíades José Damasceno,
inventariante, dizia comprovar a propriedade através de
recibos de pagamento do Imposto Territorial Rural dos
anos de 1943 e 1961, respectivamente, conforme caderneta
anexa. E assim justificava:

Infelizmente, naqueles longínquos tempos,


em que terras sobravam e delas, pouco caso se
faziam, o Poder Público, era, em consequen-
cia, quanto a elas, de pequenas exigências,
nem sempre conferindo aos seus detentores,
TÍTULOS DE PROPIEDADE, como se faz atu-
almente.33

Dizia Alcebíades serem as cadernetas o documento


que até certa época passada era “um título de propriedade,
uma prova real, para todos os fins, da posse e propriedade
das terras nela mencionadas”.34
Este terreno foi, sucessivamente, dividido e sub-
dividido entre dez filhos e demais parentes diretos e
indiretos de Maria Irenia (falecida em 24/2/1948), Ce-
lestina (falecida em 1/11/1942) e Francisca Romana
Mendes (falecida em 20/10/1955). Esta última casara-se
com Ramiro José de Santana, com o qual tivera uma
filha, Tolentina de Santana, nascida em 10/09/1888.35
Depois, ao casar-se com Nicolau Pereira do Nas-
cimento, teve outros três filhos – Manoel do Nas-
cimento (nascido possivelmente em 1897)36, Cori-
na do Nascimento (nascida em 08/02/1908)37 e Jo-
ana do Nascimento (nascida em 30/03/1904).38
Maria Irenia, por sua vez, morrera aos 90 anos viuva, dei-

177
xando seis filhos: Alcebiades José Damasceno39, Manoel
do Rosário Nascimento40, Tertuliano José Damasceno41,
Guilhermina Damasceno Costa, Thereza Damasceno
Santos e Joana Damasceno Souza.42
D. Didi, neta de Francisca Romana, representa a
quinta geração da família Mendes e Santa Anna, origina-
da do casamento entre os africanos Antonio Mendes da
Silva e Josepha Maria de Santa’Anna, possivelmente nos
finais do século XVIII. E as terras do Candeal, lugar onde
foi constituída a família original dos referidos africanos,
hoje é um local onde reside cerca de 1500 famílias em
pouco mais de 20 mil m². Das 70 casas que existiam em
1961, em um ambiente mais rural do que urbano, o Can-
deal se transformou nos últimos 40 anos em região que
se divide entre ricos e pobres, entre Candeal de Cima e
Candeal de Baixo ou Candeal Pequeno, respectivamente.
D. Didi, mais uma vez tomada como referência
de guardiã da memória do Candeal, ao avaliar sobre
as mudanças ocorridas e rememorar o ambiente de seu
tempo, manifestou o estranhamento de quem havia
experimentado uma outra forma de viver:

Nunca vi tanta casa, tanta gente que eu nem


conheço. Aqui era uma família… Aquela
amizade do pessoal feliz, pessoal tranquilo,
aqui nunca foi lugar de barulho. Polícia não
vinha aqui. Todo pessoal aqui se respeitava.
Todo pessoal aqui se unia. Agora a população
cresceu, tá tudo diferente. Aqui não era favela.
Favela é um lugar que tem muitas casas, com
tudo desorganizado. Justamente as casas da-
qui não eram casas todas bem alinhavadas…
porque se eram casas salteadas, tinha uma
casa aqui, daqui a vinte metros outra, daqui a
quarenta metros outra… ia fazer ruas? Se era

178
roça? Você chegava aqui nesse fundo, não via
casa, só via mangueira, de todas as qualidades
de manga havia aqui nesse Candeal, parreira,
jaboticaba, carambola, oiti, tamarineiro,… lá
embaixo, três hortas. Dava para todo mundo
aqui e ainda se vendia na Sete Portas [centro
comercial da cidade na época]. (GADÊLHA,
2004, p. 25).

É unânime entre os moradores de que o


Candeal não é mais o mesmo desde o fenômeno Carlinhos
Brown. A visão da pobreza estampada nas casas de
construções irregulares, foi alterada com o Projeto
“Tá Rebocado”, a partir do qual as casas foram rebocadas
e pintadas, ruas pavimentadas e eliminado o esgoto a céu
aberto. Ao falar sobre o bairro, o morador Júlio Ribeiro
da Silva, em 2001 com 76 anos, dizia que todo o Candeal

[...] era uma imensa horta, cercada de charcos


por todos os lados. As pessoas foram chegan-
do e ocupando a área. Como a pobreza era
muita, ninguém podia morar em outro local e
acabava aqui, onde a cidade nunca tinha che-
gado. Hoje, é isso aí que se vê. Estamos cerca-
dos de estradas e prédios por todos os lados.43

Pela documentação até aqui consultada, conclui-se


que a região do Candeal integrava as Terras do Morgado
da Casa de Niza, desde o período colonial, passou para
proprietários como o Visconde do Rio Vermelho, entre
outros, tornando-se área de roças cultivadas por foreiros,
arrendatários e proprietários durante o século XIX e
primeira metade do XX. Nas fazendas, engenho e roças
trabalharam escravos, como os citados entre os bens do
Barão e Baronesa do Rio Vermelho:

179
[...] os pardos Arthemeira, Sara e Arthur, a
africana Genebra e as crioulas Maria, Biru-
ta, Pastora, Virginia, Hortência e os crioulos
Enéas, Ulysses, Napoleão, Henephante e a
parda Petharca, os quais dois últimos já se
achavão em poder do herdeiro o doutor José
Felix [...]44

Além daqueles que trabalharam e foram propriedade


da família dos africanos Mendes e Santa’Anna que
integrou a dinâmica de formação de propriedades
fundiárias nas terras pertencentes ao antigo morgado.
A sucessão de ocupação pela via que originou os Mendes
e Santa’Anna, especialmente na região do Candeal, deu-
se pela partilha entre familiares, que se reproduziram
ao longo das cinco gerações citadas, conforme aponta o
Inventário das irmãs Francisca Romana, Maria Irenia e
Celestina, e pela ocupação desordenada a partir dos anos
de 1970, quando chegou luz elétrica para o Candeal.
A população cresceu, bem como a região, onde a
paisagem se confundia com a de uma favela, como era
referido o lugar. Até a realização de obras de infraestrutura,
a partir dos anos de 1990, em consequência da mobilização
comunitária liderada pelo artista Carlinhos Brown, os
moradores se serviam da água da bica do “seu” Júlio, cuja
fonte teria servido de inspiração para a música “Água
Mineral” de Brown. Aliás, a comunidade era típica de
lavadeiras. Os moradores mais antigos da região dizem
que quando houve a alforria dos escravos muitos já
possuíam casas e ganharam o direito de permanecer
no local. Segundo a moradora do bairro, Ivone, ela se
preocupa em resgatar a história do bairro e diz que o
local era uma senzala da Quinta do Candeal, uma

180
fazenda que mantinha escravos. Também diz que com
o crescimento urbano, várias árvores frutíferas antigas
tiveram que ser cortadas. No Candeal também não tem
igrejas cristãs, mas abriga o candomblé de Angelina.45
São as encruzilhadas da memória que apontam para
uma forma de contar a história de um lugar repleto de
paisagens guardadas e contadas através da imaginação e
do conhecimento dos mais velhos e assim passadas para
as gerações que se seguem. E a lendária “pedra de Ogum”
trazida da África pelo muçulmano Antonio Mendes, no
século XVIII, continua pulsando nos rituais protetores da
Casa de Ogum, onde está guardada a Pedra do Orixá.

Notas
1 Brotas é um bairro originado de fazendas, engenhos, roças, que o caracterizaram
como região rural até meados do século XX. Localizado na parte alta da cidade do
Salvador-Bahia, é constituído por um conjunto de morros ladeados pelas avenidas
de vale Vasco da Gama, Juracy Magalhães, ACM e Bonocô. Pela sua localização
central, é um dos 22 subdistritos de Salvador mais populosos e com infraestrutura
que garante certa autonomia para o consumo de seus moradores. É caracterizado
pela diversidade social de sua população, com as presenças de habitações humildes
e de luxo, respectivamente. Brotas possui subdivisões ou ramificações identificadas
como: Campinas de Brotas, Engenho Velho de Brotas, Acupe de Brotas, Boa Vista
de Brotas, Cruz da Redenção, Cosme de Farias, Pitangueiras de Brotas, Vila Lau-
ra, Luiz Anselmo, Candeal, Horto Florestal, Matatu de Brotas e Santo Agostinho.
Candeal, por sua vez, está dividido em duas partes: Candeal Pequeno, habitado por
famílias de baixa renda, e o Candeal Grande (ou Cidade Jardim), onde concentra
prédios de classes média e alta. Disponíveis em: <http://pt.wikipedia.org/wiki/
Brotas_(Salvador)>; <http://biblioteca.ibge.gov.br/visualizacao/dtbs/bahia/salva-
dor.pdf>. Acessos em: 07 fev. 2012.
2 Segundo estudos botânicos, existem várias espécies de candeia, porém a candeia
nativa é da espécie eremanthuserythropappus e se desenvolve em locais onde os
solos são pouco férteis, rasos e com altitudes entre 900 e 1.800 m. As áreas de maior
ocorrência na América do Sul estão nos Estados de Minas Gerais, Bahia, Espírito
Santo e Rio de Janeiro. São árvores bem resistentes a regimes moderados de incên-
dio. O seu porte varia entre 6 e 12 metros de altura e, devido à folhagem e liquens,
o candeal possui uma tonalidade verde-pálido. Na nomenclatura internacional, o

181
candeal pode ser classificado como Elfin Forest (literalmente floresta de duendes),
uma fisionomia típica do alto de montanhas tropicais ao redor do mundo. Ver: “Sis-
tema de Manejo para a Candeia – Eremanthus erythropappus (DC) Macleich – a opção
do sistema de corte seletivo” por Jorge Faisal Mosquera Pérez, José Roberto Soares
Scolforo, Antônio Donizette de Oliveira, José Márcio de Mello, Luís Fernando Ro-
cha Borges e José Fábio Camolesi. Disponível em: <www.dcf.ufla.br>. Acesso em: 24
jan. 2006. “Ecologia da vegetação do Parque Florestal Quedas do Rio Bonito” por
Ary T. Oliveira-Filho e Miguel Fluminhan-Filho. Disponível em: <http://www.dcf.
ufla.br/cerne/revistaV5n2.1999/5-artigo-pdf>. Acesso em: 26 jan. 2006.
3 Antônio Carlos Santos de Freitas, nascido no Candeal Pequeno a 23 de novembro
de 1962, é o famoso Carlinhos Brown, artista nacional e internacionalmente conhe-
cido pelas múltiplas atuações que desenvolve profissional (cantor, percussionista,
compositor, produtor, arranjador, pesquisador e incentivador musical) e socialmen-
te. Em fins dos anos de 1980 projetou-se ao fundar e liderar o grupo Timbalada,
passando, a partir de então, a investir na carreira solo. Divide-se entre a carreira
internacional e projetos sociais e culturais. Entre os projetos e programas sociais
consolidados no Candeal Pequeno, criados, promovidos e apoiados por Carlinhos
Brown, estão a Associação Pracatum Ação Social – APAS, que desenvolve, desde
1994, um trabalho fundamentado no tripé “educação e cultura, mobilização social
e urbanização”, tendo a música como principal vetor para a formação de crianças
e jovens da comunidade. Das ações desenvolvidas, estão a Escola Pracatum, Tá Re-
bocado, Pracatum Moda, Pracatum Inglês, Escola Infantil Virgen de laAlmudena,
Menino é Bom, Plano de Desenvolvimento Comunitário, além de grupos musicais
como Grupo Pracatum, Ebanóises, Hip Hop Roots. Dos empreendimentos culturais
que imapactaram a cidade do Salvador, idealizados e criados por Brown, estão, ain-
da, o Candyall Guetho Square (1996), projetado como casa de shows e eventos com
capacidade para 2.500 pessoas, e o Museu du Ritmo, inaugurado em 2007, no antigo
Mercado do Ouro, na Cidade Baixa. Brown e as ações sociais, culturais e educativas
desenvolvidas no Candeal têm inspirado, nos últimos anos, estudos acadêmicos
em nível de mestrado e doutorado vinculados às áreas da educação, administração,
cultura, música, o que demonstra a importante ressonância cultural, educacional e
de gestão deste complexo formulado e implantado pela liderança de Carlinhos Bro-
wn e de todos aqueles associados à batalha pela inclusão cidadã da comunidade do
Candeal Pequeno no processo experimentado no Brasil e no mundo de superação
das desigualdades sociais e etnico-raciais.Disponíveis em: <http://www.carlinhos-
brown.com.br>; <http://pt.wikipedia.org/wiki/Carlinhos_Brown>. Acesso em: 07
fev. 2012.
4 Entre alguns estudos identificados estão LACERDA, Ayêska Oassé Luis
Paulafreitas de. O Cacique do Candeal: estudo da trajetória artistica de Carlinhos
Brown e de suas relações com o mercado da música. São Paulo: Universidade
Estadual de Campinas. Instituto de Filosofia e Ciências Humanas. Tese de
doutorado, 2010; GADÊLHA, Marcelo Almeida. Organizações Brown: identidade
cultural e liderança em um complexo de organizações baianas.Salvador:
Universidade Federal da Bahia/Escola de Administração. Dissertação de Mestrado,
2004; OLIVEIRA JUNIOR, João Pereira. Processos educativos, força identitária e
mobilização comunitária na luta pela moradia no Candeal Pequeno. Programa Tá

182
Rebocado. Salvador: Universidade do Estado da Bahia/Programa de Pós-Graduação
de Educação e Contemporaneidade. Dissertação de Mestrado, 2004. CANDUSO,
Flavia. O Sistema de Ensino e Aprendizagem na Banda Lactomia.Universidade
Federal da Bahia - UFBA / Pós-graduação em Música. Dissertação de Mestrado em
Música, com ênfase em Educação Musical / jan. 2002; FERRAZ, Maria Aparecida
Viviani. Liderança e Mediação da Identidade: Os Casos do Ilê e da Pracatum.v. I e II.
Universidade Federal da Bahia – UFBA / Mestrado em Administração. Dissertação
de Mestrado. 2000 / 303 págs; LIMA, Ari. A Estética da Pobreza: Música, Política
e Estilo. Mestrado em Comunicação e Cultura/Universidade Federal do Rio de
Janeiro, UFRJ, 1995; SANTANA, Mercejane Wanderley.Pracatum, a Organização
dos Timbaus. Bahia Análise & Dados, Salvador, v. 5, p. 85-92, 1996.
5 Dentre alguns destacados trabalhos estão SAMARA, Eny de Mesquita. A familia
negra no Brasil. Revista de História. São Paulo, 120, p 27-44, jan./jul. 1989; MOT-
TA, José Flávio, Corpos escravos, vontades livres. Estrutura de posse de cativos e
família escrava em um núcleo cafeeiro (Bananal, 1801-1829). São Paulo: tese apre-
sentada ao Departamento de Economia da Universidade de São Paulo, 1990 (Tese
de doutorado); RIOS, Ana Lugão. Família e transição. Famílias negras em Paraíba
do Sul, 1872-1920. Niterói: Programa de Pós-Graduação da Universidade Federal
Fluminense, 1990 (Dissertação de Mestrado); FLORENTINO, Manolo e GÓES, José
Roberto. A Paz das Senzalas: famílias escravas e trafico atlântico, Rio de Janeiro,
c.1790 - c.1850. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira 1997; MATOS, Hebe Maria de.
Das Cores do Silêncio: os significados da liberdade no Sudeste escravista, Brasil
Século XIX. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1998; WISSENBACH, Maria Cristina
Cortez. Sonhos africanos, vivências ladinas: escravos e forros em São Paulo (1850-
1880). São Paulo: Hucitec: 1998; SLENES, Robert. Na Senzala Uma Flor: esperanças e
recordações na Formação da Família Escrava. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1999;
ROCHA, Cristiany Miranda. Histórias de famílias escravas: Campinas, século XIX.
Campinas, SP: Editora da Unicamp. 2004. Para a Bahia citamos MATTOSO, Kátia
M. de Queirós. Ser escravo no Brasil: trad. James Amado. São Paulo: Brasiliense,
1988; MATTOSO, Kátia M. de Queirós. Família e sociedade na Bahia do século XIX.
Bahia: Corrupio, 1988; MATTOSO, Katia M. de Queirós. O filho da Escrava (Em
torno da Lei do Ventre Livre). Revista Brasileira de História. São Paulo, 1988. p. 37-
55; OLIVEIRA, Maria Inês Côrtes de. O liberto: seu mundo e os outros- São Paulo:
Corrupio; Brasília, DF: CNPq, 1988; OLIVEIRA, Maria Inês Côrtes de. Viver e mor-
rer no meio dos seus: nações e comunidades de africanos do século XIX. Revista
da USP, n. 28, p. 174-193, dez./fev. 1995/1996; MATTOS, Wilson Roberto de. Negros
contra a Ordem: resistência e práticas negras de territorialização cultural no espaço
da exclusão social – Salvador-BA (1850-1888). Tese de doutorado. São Paulo:PUC- SP,
2000; PINHO, José Ricardo Moreno. Escravos, quilombolas ou meeiros? Escravidão
e cultura política no médio São Francisco (1830-1888). 2001. Dissertação (Mestrado
em História Social). Universidade Federal da Bahia, Salvador, 2001; PIRES, Maria
de Fátima Novaes. O crime na cor: escravos e forros no Alto Sertão da Bahia (1830-
1888). São Paulo: Annablume/FAPESP, 2003; PIRES, Maria de Fátima Novaes. Fios
da vida: trajetórias de escravos e libertos no alto sertão da Bahia, Rio de Contas e
Caetité, 1860-1920. Tese (Doutorado em História Social), Universidade de São Paulo,
São Paulo, 2005; FRAGA FILHO, Walter. Encruzilhadas da liberdade: histórias de

183
escravos libertos na Bahia (1870-1910) – Campinas, SP: Editora da UNICAMP, 2006;
REIS, Isabel Cristina Ferreira dos. A família negra no tempo da escravidão: Bahia,
1850-1888. Programa de Pós-Graduação em História da Universidade Estadual de
Campinas (UNICAMP), 2007 (Tese de Doutorado), 2007.
6 Carta de confirmação por alvará, de Doação da Ilha pequena, e terras do Rio
Vermelho, unidas e vinculadas com as Ilhas de Itaparica e Tamarandiva que S. Ma-
gestade faz Mercê a Exma. Marquesa de Niza e sua filha Marquesa do mesmo título
(…). Bahia, 28 de abril de 1788. Documento transcrito e arquivado no Centro de
Mem´roia e Arquivo Público da Bahia. Fundação Pedro Calmon.
7 Arquivo Público do Estado da Bahia - APEB. Seção Judiciária. Escrituras. Livros
130 (ano 1791) e 137 (ano 1797).
8 O Visconde do Rio Vermelho, título concedido pelo Decreto de 17 de outubro
de 1830, nasceu na cidade do Salvador em 13 de setembro de 1779. Era filho do 3º.
Conde de Lumiares, Governador e Capitão-General Manoel da Cunha e Meneses
(Governador da Capitania da Bahia de 1769-1774), e de Dona Perpétua Gertrudes
de Morais Sarmento. Na Bahia foi vereador do Senado da Câmara da Cidade do
Salvador em 1812, 1813 (período da colonial) e 1823 (Império), membro da junta de
Governo de 2 de fevereiro de 1822 a 9 de maio de 1823, membro do Conselho do
Governo da Província de 1824 a 1828, tendo nessa qualidade exercido interinamente
a Presidência da Província por três vezes, Provedor da Santa Casa de Misericórdia
e Comandante Superior da Guarda Nacional da Cidade do Salvador. Era Comenda-
dor da Ordem da Rosa, Cavalheiro da Ordem de Cristo e Veador de Sua Magestade
a Imperatriz. Em 13 de maio de 1831 casou-se com Dona Maria Joana da Conceição
Simões. Viscondessa do Rio Vermelho, O Visconde do Rio Vermelho faleceu na ci-
dade do Salvador em 16 de janeiro de 1850 e a Viscondessa em 6 de novembro de
1865. BULCÃO SOBRINHO, [s.d.]. Deixou como descendente José Felix da Cunha
Meneses – Barão do Rio Vermelho.
9 O Engenho Santo Antônio, sito na freguesia de Brotas, estava em terras foreiras
à Casa da Marquesa de Niza. Em 1859 a posse do terreiro vizinho passado por
escritura de foro perpétuo à Viscondessa do Rio Vermelho, estava nas mãos do Ca-
pitão Thomas da Silva Paranhos, um dos grandes proprietários da região. Outros
proprietários de roças aparecem na Freguesia de Brotas como D. Brás Baltasar da
Silveira (roça do Matatu Pequeno), o africano Pires (rocinha de fundo com a fazenda
Matatu Grande), Antônio da Silva Quaresma (roça ao largode Brotas), Bernardo
Xavier de Castro (Roça Candeal Grande), Luis José de Almeida (terras no sítio Can-
deal) e os africanos libertos Antônio Mendes casado com Josepha de Santa Anna
(roça no Candeal). Terras da Viscondessa do Rio Vermelho e herdeiros. 15 de julho
de 1859. APEB. Registros Eclesiásticos de Terras. Maço 4675.
10 Terrenos foreiros pertencentes à Viscondessa do Rio Vermelho e herdeiros. Doc.
De 15 de julho de 1859. APEB. Registros Eclesiásticos de Terras. Maço 4675.
11 Terras da Viscondessa do Rio Vermelho e herdeiros. 15 de julho de 1859. APEB.
Registros Eclesiásticos de Terras. Maço 4675.

184
12 Terreiros da Viscondessa do Rio Vermelho. Registros Eclesiásticos de Terras. 01
de junho de 1858. APEB, maço 4675.
13 Inventário e partilha amigável dos bens que ficarão por falecimento do Barão do
Rio Vermelho, feito por sua viúva a baronesa do Rio vermelho seus filhos e genros
de 09/07/1881. APEB, Seção Judiciária, maço 1/102/151/06; APEB: Seção Judiciária,
maço 994/89de 5/04/1897.
14 Terras do Capitão Thomas da Silva Paranhos. Registros Eclesiásticos de Terras. 9
de junho de 1858. APEB, Maço 4675.
15 APEB. Seção Judiciária. Escritura. Livro 296 de 13/01/1851. APEB, Registros Ecle-
siásticos de Terras, maço 4675.: Roça de Bernardo Xavier de Castro. 23 de setembro
de 1857.
16 Terras de Luis José de Almeida, 17 de julho de 1858. APEB. Registros Eclesiásticos
de Terras, maço 4675.
17 APEB, Seção Judiciárioa. Testamento. Maço 03/1218/1687/03 (1857).
18 APEB, Seção Judiciárioa. Testamento. Maço 03/1218/1687/03 (1857).
19 Segundo depoimento de D. Didi, Josepha casara-se com “Manoel Mendes, um
muçulmano livre, vindo de uma guerra.” Apud GADÊLHA, p. 25. Importante des-
tacar a possibilidade de falha da memória de D. Didi, ao se referir ao muçulmano
livre Manoel Mendes no lugar de Antonio Mendes. À época da entrevista, em 9 de
junho de 2003, D. Didi contava com 82 anos.
20 APEB, Judiciário, Testamento 03/1218/1687/03 (1857).
21 APEB. Seção judiciária. Inventários. Maço 05/1970/2442/08 de 19/09/1859.
22 Segundo Oliveira Junior (2004, p. 22), referindo-se a depoimento de Hilda San-
tana, Josepha teria chegado a Salvador aos 12 anos com uma família com quem
trabalhara cuidando de crianças. Não teria encontrado seus parentes e, tornando-se
adulta, juntara os recursos que trouxera da África com os ganhos do seu trabalho
em Salvador e comprara terras e alguns escravos, instalando-se na região de Brotas,
numa pequena mata de candeias. Importante destacar a diferença relativa ao nar-
rado pela mesma depoente em Gadêlha (2004). Se Josepha chegou a Salvador com 12
anos de idade, segundo Oliveira Junior, em 1781, segundo Gadêlha, como narra d.
Hilda, teria nascido em 1769. Se morreu aos 112 anos, teria sido no ano de 1881, após
a morte do seu filho Antonio Mendes da Silva Junior ocorrida em 1870. Importante
checar e refletir sobre os dados de memória, os quais podem alterar informações,
especialmente aquelas relativas a datas. É necessário considerar os elementos de
falhas da memória, especialmente em se tratando de datas que podem remeter a
dados de exatidão, o que pode ser alterado particularmente na tradição oral.
23 APEB. Arquivo Colonial. Registros Eclesiásticos de Terra, maço 4675. Doc. Data-
do de 07/09/1857.
24 APEB. Seção Judiciária. Inventários. Maço 8/3362/11 de 26/08/1872.

185
25 APEB. Seção Judiciária. Escritura. Livro 1986 (1896-1897).
26 Francisca de Jesus Mendes ou Francisca Romana Mendes, cor preta, dona de
casa, nascida em 1867 e falecida em 20/10/1955, era doméstica e casada com Ra-
miro José de Santana de quem teve uma filha, Tolentina de Santana. Ao enviuvar,
casou-se com Nicolau Pereira do Nascimento, com quem teve três filhos: Manoel do
Nascimento, Joana do Nascimento e Corina do Nascimento. Residente no Candeal
Pequeno.
27 Nascido mais ou menos entre 1853-1854.
28 Cor preta, doméstica, nascida em 1855 e falecida em 1/11/1942, viuva de Lauren-
tino do Espirito Santo. Não deixou filhos. Residente no Candeal Pequeno.
29 Maria Irenia Mendes ou Maria Irenia da Anunciação Mendes Damasceno, cor
preta, casada com Acylino José Damasceno, doméstica, nascida em 1858 e falecida
em 24/2/1948, aos 90 anos, viúva. Residente no Candeal Pequeno.
30 Nascido em 1860.
31 APEB. Seção Judiciária; Série Inventário. Maço 06/2546/3046/04 de 27/10/1961.
32 Idem.
33 Idem.
34 Idem.
35 Tolentina de Santana, cor preta, nascida em 10/09/1888 no Candeal de Brotas.
Dados do Inventário de Celestina Mendes, Maria Irenia da Anunciação Mendes Da-
masceno e Francisca Romana Mendes, aberto em 1961 e concluído em 1965. APEB,
Seção Judiciária, Série Inventários – 06/2546/3046/04 (1961-1982).
36 Manoel do Nascimento, operário, nascido em 24/01/1897, casado em 09/12/1961
com Catarina Bispo dos Santos, doméstica, nascida em 30/05/1910. Idem.
37 Corina do Nascimento, solteira, doméstica, nascida em 09/02/1908. Residente no
Candeal Pequeno. Idem.
38 Joana do Nascimento, parda, de prendas, nascida em 30/03/1904. Residente no
Candeal Pequeno. Idem.
39 Alcebiades José Damasceno, alfaiate, nascido em 27/02/1898, casado com Engrá-
cia Maria Querino. Residente à Rua Guedes de Brito, 2 – Sé. Faleceu por cerca de
1964. Deixou dois filhos: Adailton Querino Damasceno (menor) e Edcélia Querino
Damasceno (surda e muda).
40 Manoel Rosário Damasceno, preto, comerciário, nascido em 06/10/1902 em Ca-
maçari-Bahia. Residente em Camaçari. Era solteiro em 1956.
41 Tertuliano José Damasceno. Faleceu solteiro em cerca de 1964 sem filhos.
42 Casada com Sabino Antonio de Souza.

186
43 Jornal A Tarde, 20 jan. 2001.
44 APEB, Judiciária, Inventário de 1881, maço 1/102/151/06.
45 Jornal A Tarde, 03 dez. 2000, p. 14

Referências

BULCÃO SOBRINHO, Antônio de Araújo de Aragão.


Titulares baianos. Salvador, [s.d.]. Datilografado.
Documento do Arquivo Público do Estado da Bahia.
DÓREA, Luiz Eduardo. Os nomes das ruas contam
história. Salvador: Câmara Municipal de Salvador, 1999.
GADÊLHA, Marcelo Almeida. Organizações Brown:
identidade cultural e liderança em um complexo de
organizações baianas. 2004. Dissertação – (Mestrado
em Administração) – Escola de Administração,
Universidade Federal da Bahia, Salvador, 2004.
GALILEA, Carlos. El milagro de Candeal. Barcelona:
Grupo Editorial Random House Mondadori, 2004.
GUERREIRO, Goli. O drible do Candeal: o contexto
sociomusical de uma comunidade afro-brasileira. Afro-
Ásia, v. 33, p. 207-248, 2005.
MATTOSO, Kátia M. de Queirós. Bahia século XIX:
uma Província no Império. Rio de Janeiro: Nova
Fronteira, 1992.
NASCIMENTO, Anna Amélia Vieira. Dez freguesias
da cidade do Salvador: aspectos sociais e urbanos do
século XIX. Salvador: FCEBA; EGBA, 1986. p. 29.

187
NEVES, Erivaldo Fagundes. Uma comunidade
sertaneja: da sesmaria ao minifúndio: um estudo da
história regional e local. 2. ed. Salvador: EDUFBA; Feira
de Santana: UEFS, 2008.
OLIVEIRA JUNIOR, João Pereira. Processos educativos,
força identitária e mobilização comunitária na
luta pela moradia no Candeal Pequeno: Programa
Tá Rebocado. Dissertação (Mestrado em Educação e
Contemporaneidade) – Universidade do Estado da
Bahia, Salvador, 2004.
VILHENA, Luís dos Santos. A Bahia no século XVIII.
Bahia: Ed. Itapuã, 1969. v. 1-3.

188
Apêndice - Estudo da genealogia da Família Mendes e Santa’Anna

* Trata de um estudo preliminar da genealogia da família africana Mendes e Sant’Anna baseado nos testamentos, inventários e escritu-
ras dos anos de 1855, 1857, 1872, 1896, 1961, 1962.

189
190
O PARTIDO ABOLICIONISTA

Ricardo Salles

Um dos grandes méritos da nova história social da


escravidão no Brasil, que, grosso modo, remonta à década
de 1980, é o de ter trazido para o primeiro plano dos estudos
a figura do escravo como um dos sujeitos históricos
de seu mundo. Essa nova história destruiu a imagem
do escravo reduzido a mero objeto – o escravo coisa –
e à condição de quase uma besta humana pelos efeitos
praticamente absolutos da exploração escravista exercida
sobre ele. Em seu lugar emergiram homens e mulheres
que, mesmo que submetidos à violência da captura e do
tráfico transatlântico, às duras condições do cativeiro e
de exploração de seu trabalho, não deixaram de construir
laços de sociabilidade cotidiana, entre eles a constituição
de famílias; ter suas próprias práticas culturais; negociar
e obter concessões de seus donos e protagonizar atos de
resistência, direta e indireta, individual ou coletiva, ao
regime a que estavam submetidos.
No que diz respeito à questão da abolição da
escravatura, que não é dos mais frequentados pela nova
história social da escravidão, os poucos trabalhos que
enfrentaram o tema têm buscado ressaltar a participação
das lutas escravas como fator principal na abolição da
escravidão.1
Esse trabalho tem por objetivo ressaltar a primazia
das articulações políticas, leia-se, do movimento

191
abolicionista, na destruição da escravidão no Brasil. Deixo
claro, como buscarei demonstrar, que isso não significa
considerar o movimento abolicionista dissociado de
sua imbricação e respaldo social junto aos setores
populares, principalmente urbanos, e, num segundo
e decisivo momento, entre os escravos. Significa sim
considerar que o movimento abolicionista foi o elemento
catalisador das lutas e vivências de escravos, libertos e
de trabalhadores livres em torno da bandeira da abolição,
propiciando aquilo que Ellen Woods, interpretando as
colocações de Edward Thompson sobre o processo de
formação de classe, chamou de “experiência unificadora”
(WOOD, 2003). Tal experiência unificadora conferiu
novo significado às lutas, tanto dos setores pobres livres
quanto dos escravos, que até então aconteciam de forma
desagregada, no plano dos interesses corporativos e em
nível local, sem se manifestar como organização, ou como
busca de organização de uma nova vontade coletiva que
atuasse no campo propriamente político, ideológico e do
Estado.
Minha formulação neste ensaio é a de que o
movimento abolicionista foi o embrião dessa nova
vontade coletiva, e que, ao fazê-lo, se apresentou como
um partido, no sentido gramsciano do termo. Isto é, como
expressão de algum centro de aglutinação e difusão de
uma vontade hegemônica, capaz de, pelo consenso e pela
força, construir e manter uma direção moral e intelectual
sobre o conjunto da sociedade. Ainda de acordo com
Gramsci, esse centro não necessariamente teve na história
a forma de um partido no sentido literal, podendo ser um
jornal – o exemplo é do próprio Gramsci – ou algum outro

192
polo de aglutinação e difusão dessa vontade coletiva,
ligado organicamente, ainda que não necessariamente de
forma direta, a uma classe ou grupo social em luta contra
a ordem moral e intelectual e o poder político de uma
classe ou grupo social dominante. No caso da abolição,
tratou-se da classe senhorial escravista e da expressão de
seu domínio no Estado e na ordem imperial vigente ao
longo do Segundo Reinado.
Considerar o movimento abolicionista como o
embrião de um partido no sentido gramsciano não
significa, portanto, entendê-lo como partido no sentido
literal da palavra. Tanto no sentido que essa palavra
guardava na época, de uma corrente parlamentar
mais ou menos coerente, quanto, e muito menos, no
sentido que tem hoje, de uma organização formalizada
e burocratizada O movimento abolicionista foi uma
corrente de opinião, orgânica, ainda que indiretamente,
vinculada aos escravos e aos trabalhadores livres da
sociedade escravista. Uma corrente de opinião, contudo,
que se manifestou na prática através de bandeiras de
lutas – a principal delas, a Abolição Imediata e Sem
Indenizações – e de ações políticas, no parlamento, no
espaço público, nas ruas, nos campos e nas senzalas, de
forma mais ou menos articulada nacionalmente.2

O abolicionismo

A ideia de considerar o movimento abolicionista


como um partido ou um embrião de partido gramsciano
não se nutre apenas das formulações do revolucionário

193
italiano. Joaquim Nabuco, em ‘O Abolicionismo’,
livro escrito em Londres em 1882 e publicado no ano
seguinte, formulou essa proposição, e em sentido muito
semelhante ao que estou aqui empregando. O livro
foi escrito em um momento de um certo refluxo na
militância abolicionista de Nabuco. Sem ter conseguido
a reeleição para o parlamento, ele voltara a acalentar a
ideia de seguir a carreira diplomática. Por esta razão,
entre outras de ordem pessoal, dirigiu-se a Londres. Lá
se dedicou à obra, que, no entanto, refletia as discussões
que eram travadas no parlamento e entre diversos
grupos, organizações e personalidades que, mais e mais,
aderiam à causa abolicionista. Eram clubes e sociedades
que se espalhavam rapidamente pela Corte e também em
outras cidades do Império. Em 1880, o próprio Nabuco
e outros políticos e intelectuais fundaram a Sociedade
Brasileira contra a Escravidão. O movimento começava
também a ganhar as ruas, a exemplo do que acontecera
em Fortaleza, na província do Ceará, onde, em fins de
1880, fora fundada a Sociedade Libertadora Cearense.
a sociedade era um desdobramento do trabalho de
promoção de emancipações legais que era feito pela
Sociedade Perseverança e Porvir, fundada no ano
anterior, no dia 28 de setembro, data do oitavo aniversário
da aprovação da lei do Ventre Livre. Tais emancipações,
na esteira do impulso que se seguira ao fim da Guerra
do Paraguai e à aprovação da lei do Ventre Livre, eram
realizadas basicamente através da angariação de fundos
para compra de alforrias de cativos.
A Libertadora Cearense, apesar de ter sido
fundada no palácio do governo provincial, e da ideia

194
inicial de ampliar o trabalho da Perseverança e Porvir,
imediatamente tomou uma nova dimensão. Um grupo
mais radical, insatisfeito com a lentidão do processo
de emancipações tal como vinha sendo praticado
pela Perseverança e Porvir, tomou as rédeas da nova
organização. Quase uma década depois da lei de 28 de
setembro de 1871, era evidente que a escravidão não dava
mostras de estar cedendo. Especificamente no Ceará,
uma das províncias mais assoladas pela grande seca que
devastou o sertão nordestino nos anos de 1870, assistia-
se, em Fortaleza, a chegada dos escravos do interior
e seu embarque com destino às províncias do Sul.
Foi exatamente contra o embarque de cativos para o Sul
que a Libertadora Cearense promoveu o que poderíamos
chamar hoje de uma ação direta e fora dos marcos
estritamente legais contra a escravidão. Em princípios de
1881, representantes da Libertadora articularam-se com
os jangadeiros que realizavam o transporte de carga,
inclusive escravos, de terra para os navios que ficavam
ancorados ao largo do porto. Os jangadeiros, então,
liderados por Francisco José do Nascimento, o Chico
da Matilde, recusaram-se a transportar 14 cativos que
estavam para ser embarcados para o Sul. A polícia foi
chamada a intervir. A causa dos jangadeiros, no entanto,
ganhou apoio popular e na sociedade de Fortaleza de
uma maneira geral. Os jangadeiros prosseguiram em
seus propósitos e obtiveram êxito. Em breve, não se
embarcavam mais escravos em Fortaleza.3
O movimento do Ceará teve grande repercussão
por todo o Império, especialmente na Corte e junto a
seu movimento abolicionista. A campanha abolicionista

195
se intensificou. Em agosto de 1883, na sede da Gazeta
da Tarde, jornal abolicionista, foi lançado o Manifesto
da Cofederação Abolicionista.4 Entre os diversos
representantes de entidades que assinaram o manifesto,
estavam Leonel Nogueira Jaguaribe, João Paulo G.
de Mattos e Adolpho Eerbster Júnior, representantes
da Libertadora Cearense. Representantes de outras
entidades também assinaram o documento: do Clube
dos Libertos de Niterói, da própria Gazeta da Tarde,
da Sociedade Brasileira Contra a Escravidão, da
Libertadora da Escola Militar, da Libertadora da Escola
de Medicina, da Caixa Libertadora José do Patrocínio,
do Centro Abolicionista Ferreira de Menezes, do Clube
Abolicionista Gutenberg, do Clube Tiradentes, do
Clube Abolicionista dos Empregados do Comércio, da
Caixa Abolicionista Joaquim Nabuco, da Libertadora
Pernambucana, da Abolicionista Espírito Santense, da
Sociedade Libertadora Sul Rio-Grandense.
As entidades signatárias do documento indicam
o caráter nacional da Confederação e seu vínculo ao
movimento de clubes, sociedades e outras entidades
empenhadas na causa da abolição. Algumas dessas
associações eram ligadas a categorias profissionais
de trabalhadores, como o Clube Abolicionista dos
Empregados do Comércio e o Clube Abolicionista
Gutenberg, ligado aos trabalhadores gráficos. Esse fato
demonstra que o movimento abolicionista nesta altura
já ia bem além, em suas ramificações sociais, do que as
simples sociedades emancipadoras, características da
década anterior. Estas não deixaram de estar presentes

196
com a emergência do movimento abolicionista, mas sua
atuação ganhou novo significado.
Finalmente, a colocação de alguns nomes de líderes
abolicionistas – Joaquim Nabuco, José do Patrocínio
e Ferreira de Menezes, este último falecido em 1881
e antigo proprietário da Gazeta da Tarde – indicava
o prestígio que gozavam junto ao movimento. O fato
de Patrocínio e Menezes, dois descendentes diretos
de escravos, estarem lado a lado com Joaquim Nabuco
entre as lideranças do movimento também não pode ser
deixado de lado. Indica a ampla gama social envolvida no
movimento abolicionista. É verdade que a proeminência
social de indivíduos de origem afro-brasileira não era
uma novidade, ainda que não algo comum, no Império.
É verdade também que Patrocínio e Menezes pertenciam
à elite letrada do país, sendo ambos jornalistas e
proprietários de jornal (Patrocínio adquirira a Gazeta
da Tarde). O que era novo agora é que tais indivíduos
figurassem na liderança da luta pela abolição da
escravidão. Uma luta que, se ainda não era uma luta dos
escravos, era de seu interesse fundamental. E mais, uma
luta que nunca havia formulado seus objetivos políticos
com tal clareza.
Passemos, sucintamente, a mensagem do manifesto.
Ele iniciava dizendo que a propaganda abolicionista
agia de acordo com as três leis do progresso social:
concurso, mutualidade e solidariedade. “Filha legítima
da lei, a propaganda abolicionista tem o direito de
transpor os umbrais do parlamento, e, dentro dos
limites constitucionais, pedir que os delegados do povo

197
a ouçam”.5 A escravidão era condenada pela civilização e
contra a lei de Deus. Mas esta não era a única razão para
pregar a abolição. Há, em todo o manifesto, o intuito
de tentar convencer da conveniência, por razões de
ordem legal, política e econômica, de realizar a abolição.
A propriedade escrava era, a partir da interpretação
que o manifesto fazia das leis que haviam proibido o
tráfico internacional de escravos, em 1831 e 1850, ilegal.
A primeira dessas leis não fora suficiente, contudo, para
impedir que o contrabando de escravos continuasse.
“A verdade é que se fazia o tráfico escandalosamente
porque a lavoura brasileira o queria, e o governo entre
nós é exclusivamente a soma das vontades da lavoura”.
A segunda lei, diante da pressão insuportável da
Inglaterra, extinguira finalmente o comércio internacional
de escravos, mas, mesmo assim, a escravidão continuara.6
Outra razão importante para se acabar com a
escravidão é que ela atravancava o progresso da nação.
A lei de 28 de setembro de 1871, aprovada apesar da
grande oposição dos fazendeiros, suscitara toda sorte
de falsificações e burlas. Além de não acabar com a
escravidão, ela não criava as condições para que seu
fim gradual trouxesse bons resultados. A convivência
de uma crescente população livre com a escravidão e a
grande propriedade rural afastava essa última do acesso
à terra e, consequentemente, do trabalho rural. A falta de
braços para a lavoura que a abolição poderia acarretar
seria suprida pela população rural livre. Na verdade, a
escravidão e seu correlato, a grande propriedade, eram os
responsáveis pela falta de braços. “Enquanto subsistirem

198
a escravidão e a grande propriedade as populações do
interior não se afeiçoarão ao trabalho agrícola”.7
O manifesto, estabelecidas as premissas morais da
abolição, seguia, assim, uma linha de argumentação le-
gal e baseada na avaliação de que a escravidão termina-
va por ser contraproducente. Era um documento dirigido
fundamentalmente ao parlamento. Visava fazer pressão
sobre a maioria e o governo liberais. Desde maio, assu-
mira o governo Lafayette Rodrigues Pereira, diretamente
ligado à lavoura. Em fins de 1881, Nabuco fora derrotado
em sua tentativa de reeleger-se pelo partido liberal com
uma plataforma abolicionista. Talvez por tudo isso, ape-
sar do tom moderado e legalista, o manifesto não deixava
de alertar que algo pior – para os proprietários e para o
governo – poderia vir, caso insistissem em se manter in-
diferentes à propaganda abolicionista.

O escravo tem sido o resignado secular; mas


três séculos de dor são demais para formar
uma hora de desespero.
A lei de 28 de Setembro de 1871 enxertou a
liberdade na árvore negra. O ingênuo é uma
floração fanada ao nascer. Não obstante ela
sabe que há um prazo fatal para o seu desa-
brochamento.
Terá o ingênuo a resignação necessária para
esperar esse prazo?
O que deve ele ao senhor de seus pais ? No-
ções de moral ? Ele foi criado na senzala.
Noções de bondade? Negaram-lhe até o leite
materno. Noções de civilização? Ele é anal-
fabeto. Noções de sociologia? Ele encontra os
seus progenitores no eito, seviciados, famin-
tos, como recompensa de haverem formado o
patrimônio de um povo.
A própria dignidade do gênero humano o fará
ter a sagrada impaciência da posse de si mesmo.8

199
Esse tempo ainda não havia chegado. Mas poderia
vir e, de fato, ficou bem perto de chegar em 1887-1888,
como veremos.
O teor do Manifesto da Confederação Abolicionista
é em tudo semelhante ao livro que Nabuco lançara
naquele mesmo ano, ‘O abolicionismo’. A ideia de
escrever um livro de denúncia da escravidão não era
nova e vinha desde os tempos de faculdade. A derrota
nas eleições para o parlamento reacendeu o projeto.
O livro, publicado em Londres em 1883 e no Brasil no
ano seguinte, teve repercussão imediata no seio do
movimento e junto ao público em geral. Exemplares
foram enviados para inúmeras personalidades públicas
e abolicionistas, no Brasil e no exterior. Militantes e
organizações abolicionistas passaram a divulgar a obra.
Em 13 de outubro de 1884, Rebouças escrevia a Nabuco
entusiasmado que ‘O Abolicionismo’ seguia correndo
o mundo. O sucesso do livro contribuiu para criar um
clima extremamente favorável à sua volta ao país e à
sua nova candidatura, em 1884, já agora claramente
representando o movimento mais amplo pela abolição
e não apenas como mais um político do partido liberal,
ainda que continuasse concorrendo por essa legenda.9
Resumidamente, ‘O abolicionismo’, a partir de
longo arrazoado histórico, político, sociológico e moral,
defendia a abolição imediata e sem indenizações e a
destruição da obra da escravidão, sem o que a própria
extinção do cativeiro restaria incompleta. Por obra da
escravidão, Nabuco entendia a grande propriedade
rural e sua influência sobre o conjunto da sociedade, em

200
especial na conformação de um estado parasitário que
servia largamente como um empregador dos extratos
desocupados oriundos, direta ou indiretamente, da
classe dos latifundiários escravistas. A taxação da
grande propriedade e a distribuição de terra aos antigos
escravos e aos trabalhadores rurais era empresa quase
tão importante quanto a própria abolição. Por outro lado,
havia ainda a tarefa de promover os antigos escravos
e seus descendentes ao pleno gozo de seus direitos
de cidadãos. Na verdade, tratava-se de reconstruir a
nacionalidade sobre essas novas bases.
Como já discuti em outra ocasião,10 esse ponto é
particularmente importante, uma vez que não autoriza
a leitura que vê em ‘O abolicionismo’ uma obra imbuída
de um linguajar racista ou racialista que prefiguraria
uma ordem racialmente discriminatória. Ou ainda que
vê no movimento abolicionista, ou ao menos em sua
ala conservadora, e em Nabuco a intenção de forjar
mecanismos de controle sobre a população escrava e
liberta que pressionava pela abolição.11 Não são poucas
as passagens do livro em que Nabuco demonstra sua
concordância com as teorias vigentes na época que viam
no negro um ser inferior, histórica e racialmente, ao branco.
Essas passagens, no entanto, não têm valor operativo nas
propostas de ‘O abolicionismo’. Isto é, elas não informam
as propostas políticas do livro que são claramente no
sentido da promoção dos escravos e libertos à condição
de cidadãos plenos da nação. Não apenas do ponto de
vista da igualdade formal de direitos, mas no sentido de
que escravos, libertos e seus descendentes constituíam a
maioria do povo e eram, assim, a base da nação.12

201
O partido abolicionista

Por tudo isso, Nabuco via no movimento aboli-


cionista um potencial regenerador de alcance histórico.
“O nosso caráter, o nosso temperamento, a nossa orga-
nização toda, física, intelectual e moral, acha-se terrivel-
mente afetada pelas influências com que a escravidão
passou trezentos anos a permear a sociedade brasilei-
ra”.13 Por organização física, Nabuco certamente entendia
o fenômeno histórico da mestiçagem, dada pela nossa
colonização pelos africanos, que ele, em determinada
passagem, dizia que preferia que não tivesse acontecido
(aqui o racismo, não resta dúvida). Mas, uma vez que isto
havia ocorrido e na medida em que a mestiçagem estava
na raiz da formação do povo brasileiro, a abolição, e a
destruição de sua obra no Brasil, era uma questão nacio-
nal.14 Uma questão de ordem intelectual e moral.
É neste ponto que considero ser possível e profícuo
a utilização das categorias gramscianas de partido,
reforma e direção moral e intelectual, hegemonia
na análise do movimento abolicionista. Não apenas,
ainda que isso seja muito importante, porque Nabuco
usa uma linguagem muito próxima daquela que o
revolucionário italiano utilizou principalmente em suas
análises, particularmente sobre o século XIX europeu
e, em especial, italiano. Mas, principalmente porque as
condições históricas de surgimento e desenvolvimento
do movimento abolicionista permitem essa utilização.
Voltando a Nabuco, não é por acaso que o segundo
capítulo de sua obra intitule-se justamente “O partido

202
abolicionista”. Logo na primeira frase ele explica: “O
sentido em que é geralmente empregada a expressão
partido abolicionista não corresponde ao que, de ordinário,
se entende pela palavra partido”.15
Apesar de ver continuidades entre a abolição do
tráfico, em 1850, a lei da liberdade do ventre, de 1871, e
o movimento abolicionista, Nabuco salientava a ruptura
entre este último movimento e as reformas anteriores,
que, segundo sua perspectiva, apenas previam o fim
gradual e longínquo do cativeiro. O abolicionismo se
colocava contra os direitos e contra a própria existência
da escravidão. Nesse sentido, ele se colocava mesmo
contra a perspectiva de que a lei do ventre livre fora um
ponto final na questão da abolição.16

A política dos nossos homens de Estado foi


toda, até hoje, inspirada pelo desejo de fazer
a escravidão dissolver-se insensivelmente no
país.
O abolicionismo é um protesto contra essa
triste perspectiva, contra o expediente de en-
tregar à morte a solução de um problema que
não é só de justiça e consciência moral, mas
também de previdência política.17

Por isso mesmo, o movimento abolicionista tinha


um poder de dissolução sobre o quadro partidário do
Império e deixava em segundo plano as divisões que
separavam conservadores, liberais e republicanos. O
abolicionismo era “uma concepção nova em nossa história
política, e dele, muito provavelmente [...], há de resultar
a desagregação dos atuais partidos”. A escravidão não
era só a propriedade dos escravos, mas “o feudalismo,
estabelecido no interior”, a dependência em que “o

203
comércio, a religião, a pobreza, a indústria, o Parlamento,
a Coroa, o Estado” se achavam diante do “poder agregado
da minoria aristocrática”. O abolicionismo tendia não só
a desagregar os partidos existentes, irremediavelmente
comprometidos com a ordem escravista, mas deveria, ele
mesmo, se tornar partido. Partido que tinha pela frente
não apenas a abolição imediata e sem indenizações, mas
a destruição da obra da escravidão, luta que deveria
consumir o trabalho de mais de uma geração.18
***
A publicação de ‘O abolicionismo’ veio no mesmo
momento da subida do gabinete chefiado por Sousa
Dantas, em junho de 1884. Dantas era um liberal baiano
cercado de jovens do partido, entre eles Nabuco e Rui
Barbosa, por exemplo, e que parecia comprometido em
fazer avançar as reformas propostas pelos abolicionistas.
Tudo indicava que as esperanças de Nabuco de que a
reforma abolicionista fosse feita logo e no parlamento
iriam se realizar. Não foi o que aconteceu. Dantas propôs
a libertação dos sexagenários, no que foi apoiado pelo
movimento abolicionista, por humanitarismo, apesar do
caráter parcial da reforma. Mas, mesmo uma proposta
tão moderada enfrentou severa e fatal oposição no
parlamento, tanto por parte dos conservadores quanto de
muitos dos liberais. Na verdade, mais que a liberdade dos
escravos maiores de 60 anos, estava em jogo um princípio,
o da legitimidade da propriedade escravista. A reforma
de Dantas não previa qualquer tipo de indenização aos
proprietários pela perda de sua propriedade. Por isso caiu.

204
Com ela, Dantas. E com ele, as esperanças abolicionistas
de um caminho suave para a abolição.
Em maio de 1885, a presidência do Conselho de
Ministros foi assumida pelo igualmente liberal, mas
não tão radical quanto à questão da abolição, Saraiva.
Este tentou contemplar os conservadores e os liberais
escravistas ao prever que os escravos beneficiados com a lei
fossem obrigados a trabalhar para seus senhores, a guisa
de indenização, até a idade de 65 anos. Os abolicionistas,
então, passaram a denunciar a proposta e o clima azedou
definitivamente. Sem conseguir constituir uma maioria
na Câmara, Saraiva caiu em agosto, sendo substituído
pelo conservador Cotegipe, que tinha a missão explícita
de aprovar a proposta e encaminhar o que se chamava a
questão servil, daí para adiante, dentro da ordem.
Nesta altura, o movimento abolicionista já era uma
realidade nacional e em crescendo. Neste mesmo ano,
depois das intensas lutas que haviam sido deflagradas
com o movimento dos jangadeiros, o Ceará declarou
que abolira efetivamente a escravidão. Em toda a parte
formavam-se agremiações abolicionistas, o debate
público era intenso. O movimento definitivamente
ganhara as ruas. Algumas organizações abolicionistas
começaram a promover a fuga e a proteção de escravos
evadidos. Em São Paulo, onde o regime de trabalho era
dos mais intensos e grande parte da população cativa
havia sido recentemente trazida de outras províncias,
principalmente do Norte, a acomodação era difícil. Além
das fugas, os atos de resistência escrava, individuais e
coletivos se acumulavam e ganhavam novo significado.

205
Louis Couty, francês opositor da escravidão e ardente
defensor da imigração europeia, da extinção gradual
da escravidão e contrário à causa abolicionista, que
considerava precipitada, viajou pelas regiões cafeeiras
do Rio de Janeiro e São Paulo, em 1883, e avaliou que
uma revolução social era um perigo iminente. Na região
açucareira de Campos, no Rio de Janeiro, a situação ia se
tornando explosiva, com enfrentamentos violentos entre
escravocratas e abolicionistas e com as fugas de escravos
promovidas por estes últimos.
Em fins de 1886 e, principalmente, durante o
ano de 1887, o perigo de uma convulsão social não era
apenas uma especulação de um viajante estrangeiro,
mas uma realidade palpável. Nos primeiros meses de
1888, ninguém mais duvidada que a abolição viria, e
rapidamente. A batalha agora se travava em torno da
forma. Se imediata e sem indenizações, como queriam os
abolicionistas, ou com cláusulas de prestação de serviços
por determinado tempo e com indenizações, como
defendiam os escravocratas.
O gabinete Cotegipe, que vinha como podia,
postergando a questão, foi derrubado em março de 1888.
Em seu lugar assumiu o conservador João Alfredo com
a missão expressa de aprovar a abolição no parlamento.
O que fez, sem indenizações, em 13 de maio.19
***
Voltemos, para concluir, à questão, colocada no
início desse texto, sobre a relação entre o movimento
abolicionista e as lutas escravas, e sobre o entendimento
desse movimento, nos moldes da concepção gramsciana

206
de partido, como embrião e catalisador das lutas escravas
e populares no sentido da gestação de uma nova direção
intelectual e moral para a sociedade brasileira.
Muitos argumentam que as lutas escravas se
intensificaram na década de 1870, particularmente
em seu final, e, nesse sentido foram o elemento
deflagrador do abolicionismo. Este teria sido uma
resposta à intensificação dessas lutas, seja para contê-
las, canalizá-las para fins de manutenção da ordem.
Outros consideram que o abolicionismo apenas
incentivou um movimento que ocorria independente
dele.20 A rebeldia e a resistência cativa, mesmo que
tenham se intensificado, a partir de algum momento
entre 1865 e fins da década seguinte, o que não é fácil
provar de forma contundente, raramente, quando nunca,
adquiriram um sentido maior do que aquele implícito
nas relações escravistas, de reação a atos particulares
de violência senhorial, de resposta à violência geral
inerente ao regime escravocrata, de busca de ampliação
de espaços de direitos e mesmo de liberdade individual
ou de grupos, por parte dos escravos envolvidos.
O que não é pouco, mas não era novo. Por parte dos
senhores, das autoridades e do governo, entretanto,
essas ações escravas, principalmente, a partir da época
histórica das revoluções e, particularmente, da Revolução
Haitiana, quando a combinação entre sublevação escrava
e revolução passou a ser uma possibilidade de seu
horizonte de expectativas, sempre foram respondidas,
antecipadas e, muitas vezes, abortadas com muito maior
previdência e força. Para os escravos, em que pese sua
capacidade de opor resistência física, material, social,

207
cultural e moral à escravidão, a experiência do cativeiro
era de opressão, derrotas, humilhações, temor e medo.
Mesmo quando essa experiência era contrabalançada
pela resistência e até mesmo pela ruptura, isso acontecia
de forma fragmentada, localizada, circunscrita, em
condições adversas. Na maioria esmagadora dos casos em
que a ruptura ou o enfrentamento aberto aconteceram,
o resultado terminou sendo favorável aos senhores.
Os senhores, as autoridades e o governo, que, via de
regra, defendiam seus interesses, porque defendiam
a lei que sancionava a escravidão, enfrentavam a
resistência escrava muito melhor preparados, material,
militar e ideologicamente. Eram mais coesos, com maior
conhecimento dos acontecimentos gerais e com melhor e
mais coordenada comunicação entre si. Por isso, venceram
na maior parte das vezes; por isso, tiveram sucesso
em manter a escravidão. Suas concessões, no âmbito
privado das relações cotidianas, ou mesmo as concessões
políticas, a partir de dado momento, como na aprovação
da lei do ventre livre, de 1871, por exemplo, foram
recuos que visavam à preservação da ordem escravista,
tanto do ponto de vista particular e privado, quanto
do geral e político. No que diz respeito à infinidade de
enfrentamentos particulares entre senhores e escravos
que marcaram a história da escravidão, ainda que, aqui
e ali, esses embates tenham resultado em vitórias desse
ou daquele escravo, desse ou daquele grupo de cativos, o
resultado geral foi a reiteração da ordem escravista.
Desde meados da década de 1860, no entanto, a
extinção da escravidão pareceu para um núcleo cada
vez mais amplo de estadistas imperiais, a começar

208
pelo imperador, como algo inevitável. Isso aconteceu
por fatores de ordem interna, como as consequências
domésticas da guerra contra o Paraguai, e, principalmente,
de ordem externa, com a derrota da Confederação na
guerra da secessão norte-americana. Para esses homens,
caso o governo não se antecipasse, promovendo reformas
controladas que dirigissem o processo gradual de
emancipação, a abolição viria, provavelmente mais cedo
e de maneira violenta, por revolução ou por guerra civil.
Os senhores que não entenderam, como os estadistas
imperiais, que a lei do ventre livre era o melhor meio
para encaminhar o fim inevitável do regime escravista, e
por isso se opuseram à sua aprovação em 1871, deram-se
conta disso em 1880, diante do movimento abolicionista.
Aferraram-se à emancipação gradual e defenderam que
nada mais se fizesse. E, então, era tarde.
Se, do ponto de vista geral, a partir de 1871, a
correlação de forças mudou, pendendo mais para o lado
dos escravos, com a eclosão do movimento abolicionista,
em 1879, essa mudança geral tendeu a se tornar política.
A partir dos primeiros anos da década de 1880, tanto os
senhores quanto o governo passaram para uma situação
defensiva. Situação em que, cada vez, mais respondia
aos acontecimentos e não se antecipava ao que poderia
suceder.
A abolição, por sua vez, não foi, como durante muito
tempo quis uma interpretação mais estruturalista, apenas
um arranjo entre as classes dominantes, para extinguir
uma escravidão já moribunda e abrir as condições
para novas formas de exploração do trabalho livre.

209
Menos ainda, foi um ato de benevolência de setores
esclarecidos das elites, ainda que um pouco de tudo isso
tenha estado presente no processo histórico. A abolição,
da maneira como aconteceu, incondicional, imediata –
sem ao menos esperar se completar o tempo da colheita,
em julho – e sem indenizações, foi o resultado direto
das fugas em massa de escravos, dos enfrentamentos
crescentes desses escravos com autoridades e forças
policiais cada vez menos convictas do propósito de seu
trabalho e com fazendeiros enfurecidos, desesperançados
e isolados; foi o resultado, ainda, do clamor abolicionista
que tomou conta da sociedade, do enorme prestígio e do
destemor e audácia das ações abolicionistas.
Nessa equação, historicamente, não por alguma
razão estrutural, o movimento abolicionista, com suas
bandeiras e formas de agir, foi o fato novo que re-
significou tendências e movimentos que já estavam em
curso, entre eles as lutas e resistências escravas. Estas,
por sua vez, impactaram o movimento abolicionista
profundamente, ainda que alguns de seus líderes, como
Nabuco, preferissem que isso não tivesse acontecido.
Mas aconteceu e mesmo abolicionistas moderados como
ele não recuaram diante das ações dos escravos. Tais
ações foram mesmo decisivas para o desfecho da luta
abolicionistas. Sem elas, a abolição não teria vindo no
Treze de Maio e talvez não tivesse vindo da forma que
veio: sem indenizações e incondicional.
O alcance do Treze de Maio, assim como o do
movimento abolicionista, não pode ser subestimado.
Uma instituição secular, que ainda alimentava em larga

210
medida a economia exportadora do país, foi derrubada
de forma radical e imediata. Em 1887, os escravos
representavam um contingente significativo da mão
de obra das fazendas de café de São Paulo e eram a
maioria nas fazendas fluminenses. Nesta época, apesar
de apresentar menores taxas de crescimento e, nas
regiões mais antigas, já experimentar taxas negativas,
em contraste com o espetacular crescimento da lavoura
cafeeira paulista, a produção de café da província do
Rio de Janeiro ainda era a maior do país. Não se tratava,
portanto, de um gigante moribundo.
A vitória abolicionista minou as bases sociais da
ordem imperial. Sem o apoio dos antigos fazendeiros
escravistas, muitos deles bandeados para a República,
e outros desprovidos da principal fonte de seu poder
social, a monarquia caiu, como um castelo de cartas, um
ano e meio após a Abolição.
Entretanto, o Treze de Maio representou o ocaso
do abolicionismo. Não apenas porque sua principal
reivindicação tinha sido obtida. Mas porque foi incapaz
de seguir na luta e na mobilização contra a obra da
escravidão. Feita a abolição, o abolicionismo não conseguiu
manter suas propostas de reforma e acabou se dividindo
e definhando, atravessado por outras questões da pauta
política. Sua base social de sustentação se dispersou. Não
bastou o “mandato da raça negra”, como queria Nabuco,
em 1883, mas não mais em 1890. Sua concepção, assim
como de outras lideranças abolicionistas, era de que este
mandato era inconsciente, já que escravos e ingênuos
“não teriam meios de reivindicar os seus direitos, nem

211
consciência deles”.21 A participação ativa dos escravos e
de seus descendentes na luta em sua fase final mostrou
que este mandato não era tão inconsciente assim.
Os escravos foram a força social decisiva da
Abolição, ainda que não tenham tido primazia no
movimento abolicionista, notadamente em sua fase
inicial, até aproximadamente 1885. Em primeiro lugar
porque foram seu “tema”. Não um tema amorfo, objeto,
mas um tema sujeito, de presença ativa, com seu peso
social, com suas lutas, suas práticas culturais etc. Em
segundo lugar, porque suas ações, a partir de 1886/87
foram decisivas para o desfecho da Abolição como foi.
Em terceiro lugar, porque a “debilidade estrutural”,
historicamente produzida, de suas experiências de vida
e, principalmente, de suas lutas, fragmentadas, não
criou as condições sociais para um aprofundamento do
abolicionismo no pós-abolição. O partido abolicionista
nunca foi. Tampouco surgiu alguma outra forma
alternativa de vontade coletiva, nos moldes do partido
gramsciano, que fosse capaz, a partir da experiência
orgânica das lutas e culturas dos antigos escravos, da
população liberta e de seus descendentes, da população
afrodescendente e dos movimentos populares em geral,
se não de imprimir uma nova direção moral e intelectual
para a nação republicana, ao menos forçar que sua
imensa contribuição histórica e cultural na formação da
nação se tornasse em uma construção política e cidadã
efetivamente multirracial. É verdade que – podemos
especular – talvez sem a força do abolicionismo, tivesse
prevalecido uma ordem republicana institucionalmente
racializada. O que não ocorreu, apesar das propostas de

212
alguns intelectuais. O racismo, entretanto, não deixou de
existir, se é que não tenha se intensificado, mas de forma
difusa e insidiosa.
Se isso foi uma vitória, como acredito que tenha
sido, não deixou de ter um significado cruel. A superação
desse racismo insidioso talvez seja muito mais difícil.
A questão, mais do que nunca, ainda está em aberto.

Nota
1 Cito dois excelentes trabalhos que comungam esta perspectiva: Machado (1994) e
Fraga Filho (2006).
2 Sintetizo e desenvolvo aqui as colocações que expus em Abolição no Brasil: resis-
tência escrava, intelectuais e política (1870-1888) (SALLES, 2011), em Joaquim Nabu-
co: um pensador do Império (SALLES, 2002), esp. cap. 3, e em As águas do Niágara:
1871: crise da escravidão e o ocaso saquarema (SALLES, 2009).
3 Para o movimento abolicionista do Ceará, ver Girão (1969) e Morel (1988).
4 Manifesto da Confederação Abolicionista, disponível em: <http://www.brasilia-
na.usp.br/bbd/handle/1918/01280400#page/5/mode/1up>.
5 Manifesto da Confederação Abolicionista, op. cit.
6 Manifesto da Confederação Abolicionista, op. cit.
7 Idem.
8 Manifesto da Confederação Abolicionista, op. cit.
9 Cf. Salles (2000).
10 Idem.
11 Ver, por exemplo, Azevedo (1987).
12 Salles (2000).
13 O abolicionismo, ed. eletrônica. Disponível em: <http://www.culturabrasil.org/
zip/oabolicionismo.pdf>. Há diversas edições impressas.
14 O abolicionismo, op. cit.; Salles (2002).
15 O abolicionismo, op. cit, grifos no original.
16 Salles (2009).

213
17 O abolicionismo, op. cit.
18 Salles (2009); O abolicionismo, op. cit.
19 Sobre as impressões de Couty a respeito da situação explosiva que montava a
partir de 1884, e sobre o movimento abolicionista, crise da escravidão e revoltas
escravas, ver Costa (1966). A passagem sobre Couty está na p. 308. Ver também
Toplin (1975) e Conrad (1975). Para o movimento abolicionista em São Paulo e na
Bahia, com especial ênfase nas lutas escravas, ver os já citados Machado (1994) e
Fraga Filho (2006). Para o movimento abolicionista em Campos, no Rio de Janeiro,
ver Lima (1981). Para a Corte, ver Silva (2003). Para Pernambuco, ver Carrilho (2008).
20 Ver nesta direção Chalhoub (1990); Azevedo (1987); Machado (1994). Ver ainda
Dean (1977), quem primeiro levantou o ponto.
21 “O mandato da raça negra” é o título e o tema do terceiro capítulo de O aboli-
cionismo.

Referências

AZEVEDO, Célia Maria Marinho de. Onda negra,


medo branco: o negro no imaginário das elites: século
XIX. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1987.
CARRILHO, Celso Thomas. Abolitionismmatters:
thepoliticsofantislavery in Pernambuco, Brazil, 1869-
1888. Tese (Doutorado) – Universidade da Califórnia,
Berkeley, 2008.
CHALHOUB, Sidney. Visões da liberdade. São Paulo:
Companhia das Letras, 1990.
CONRAD, Robert. Os últimos anos da escravatura no
Brasil. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1975.
COSTA, EmiliaViotti da. Da senzala à colônia. São
Paulo: Difel, 1966.
DEAN, Warren. Rio Claro, um sistema brasileiro de
grande lavoura, 1820-1920. Rio de Janeiro: Paz e Terra,
1977.
FRAGA FILHO, Walter. Encruzilhadas da liberdade.
Campinas: Ed. Unicamp, 2006.
GIRÃO, Raimundo. A abolição no Ceará. 2. ed.
Fortaleza: Secretaria de Cultura, 1969.
LIMA, Lana Lage Gama. Rebeldia negra e
abolicionismo. Rio de Janeiro: Achimé, 1981.
MACHADO, Maria Helena. O plano e o pânico. São
Paulo: Edusp; Rio de Janeiro: Ed. UFRJ, 1994.
MOREL, Edgar. Vendaval da liberdade: a luta do povo
pela abolição. 3. ed. São Paulo: Graal, 1988.
SALLES, Ricardo. Joaquim Nabuco: um pensador do
Império. Rio de Janeiro: Topbooks, 2002.
______. As águas do Niágara, 1871: crise da escravidão
e o ocaso saquarema. In: GRINBERG, Keila; Ricardo
SALLES, Ricardo (Org.). O Brasil Imperial. Rio de
Janeiro: Civilização Brasileira, 2009. v. 3.
______. Abolição no Brasil: resistência escrava,
intelectuais e política (1870-1888). Revista de Indias,
España, v. 71, n. 251, p. 259-284, enero/abr. 2011.
Doi:10.3989/revindias.2011.i251. Disponível em:
<http://revistadeindias.revistas.csic.es/index.php/
revistadeindias/article/view/860/932>.
SILVA, Eduardo. As camélias do Leblon. São Paulo:
Companhia das Letras, 2003.
TOPLIN, Robert. The abolition of slavery in Brazil.
Nova York: Atheneum, 1975.

215
WOOD, Helen Meiksins. Democracia contra
capitalismo: a renovação do materialismo histórico. São
Paulo: Boitempo, 2003.

216
DA DIÁSPORA AFRICANA À
CONSTRUÇÃO DAS COMUNIDADES
QUILOMBOLAS: memória e identidade

Carmélia Aparecida Silva Miranda

Não podemos jamais ir para casa, voltar à


cena primária enquanto momento esquecido
de nossos começos e “autenticidade”, pois há
sempre algo no meio (between). Não podemos
retornar a uma unidade passada, pois só po-
demos conhecer o passado, a memória, o in-
consciente através de seus efeitos, isto é, quan-
do este é trazido para dentro da linguagem e
de lá embarcamos numa (interminável) via-
gem. (CHAMBERS, 1990, p. 104 apud HALL,
2003, p. 27).

Nas últimas décadas, vários estudiosos têm-se


debruçado sobre temáticas relacionadas ao tráfico de
escravos para as Américas, à diáspora africana, à questão
racial no Brasil, às famílias negras e discussões sobre
as experiências das comunidades quilombolas. Dentre
esses estudiosos, podemos destacar Reis e Gomes (1996,
p. 9), que afirmam que para as Américas chegaram
cerca de 15 milhões ou mais de homens e mulheres
que foram arrancados de suas terras e trazidos para o
novo continente. O tráfico de escravos pelo Atlântico
Negro1 movimentou a economia dos países envolvidos
e foi um dos grandes projetos comerciais e culturais que
marcaram a formação do novo mundo e a criação de
um sistema econômico mundial. As pessoas e empresas

217
envolvidas com o tráfico de escravos conseguiam lucros
exorbitantes. Estima-se que vieram para o Brasil perto de
40% dos africanos escravizados, ou seja, cerca de 6 milhões.
Foram esses homens e mulheres e seus descendentes, que
foram escravizados, que constituíram a força de trabalho
durante os mais de trezentos anos de escravidão no Brasil
e nos outros países da América. Em todos os setores de
produção durante o período escravista, esses africanos
escravizados estavam presentes, realizando trabalho
na lavoura, mineração, pecuária e trabalho doméstico.
Todo trabalho manual era realizado por essa população
escravizada.
Sobre a palavra “diáspora”, Hall (2003, p. 28) esclarece
que “foi modelada na história moderna do povo judeu
(de onde o termo ‘diáspora’ se derivou), cujo destino,
o Holocausto – um dos poucos episódios histórico-
mundiais comparáveis em barbárie com a escravidão
moderna – é bem conhecido”. A palavra diáspora passou
a ser utilizada, por religiosos e intelectuais ligados às
tradições africanas, como a diáspora africana. Assim,
também como os judeus, os descendentes de africanos
se espalharam pelo mundo. A diferença é que os
descendentes de africanos o fizeram como resultado da
escravidão. Segundo Munanga (2009a, p. 27),

[...] a dominação colonial na África resultou


da expansão de dois imperialismos: o do mer-
cado, que se apropriou da terra, dos recursos
e dos homens; o da história, que se apossou
de um espaço conceitual novo: o homem não
histórico, sem referências nos documentos
escritos. A expropriação das terras e dos re-
cursos, a exploração econômica, a mobilização
e o inventário da força de trabalho, tudo isso

218
deveria assumir, a fim de tirar os negros da
condição de selvagens, poupando-os do longo
caminho percorrido pelos ocidentais.

Nessa dinâmica do pensamento europeu do


século XV, os africanos seriam civilizados, assimilados
aos povos europeus, considerados superiores, ou seja,
tornar-se-iam iguais aos brancos (MUNANGA, 2009a, p.
27). Mas, analisando as vivências africanas no continente
americano, percebemos que o objetivo principal da
dominação colonial era a exploração de todas as formas,
ou seja, o aproveitamento da mão de obra em todos os
setores e não a chamada “civilização” dos povos africanos.
Nessa perspectiva, chegaram às Américas e ao Brasil
africanos de diferentes países do continente africano,
trazendo para o Novo Mundo uma riqueza cultural
imensurável. A aparente amenidade das relações que se
estabeleceram entre senhores e escravos, a semelhança
de uma adaptação da mão de obra obediente e humilde
é, na verdade, uma forma eficaz e sutil da resistência do
negro em face de uma sociedade que pretende despojá-
lo de toda uma herança moral e cultural (REIS; GOMES,
1996).
Durante o período escravista, os escravizados
resistiram de diferentes maneiras à escravidão. O escravo
africano, com exceção de inúmeros suicídios cometidos
por homens e mulheres, procurava alternativas de
sobrevivência, fugindo ou criando táticas de defesa para
dissimular a sua difícil condição. Segundo Reis e Silva
(1989, p. 63):

219
As fugas reivindicatórias não pretendem um
rompimento radical com o sistema, mas são
uma cartada – cujos riscos eram mais ou me-
nos previsíveis – dentro do complexo negocia-
ção\resistência. Correspondem, em termos de
hoje, a uma espécie de “greve” por melhores
condições de trabalho e vida, ou qualquer ou-
tra questão específica, sentimental inclusive,
já que o senhor não possui apenas o “trabalha-
dor”, mas o escravo inteiro.

Segundo ainda Reis e Silva (1989, p. 63), “a fuga,


como insurgência, não pode ser banalizada: é um ato
extremo e sua simples possibilidade marca os limites da
dominação. O que pode garantir espaço para negociação
ou conflito”.
Na contemporaneidade, as comunidades quilombo-
las representam uma resistência cultural, que está pauta-
da no seu modo de vida, na religiosidade, nos costumes,
nas relações de trabalho e familiares, enfim, nos diferen-
tes fazeres. Como, também, na luta que tem enfrentado
para garantir a posse e a legalização das terras ocupadas
secularmente.
O objetivo deste artigo é discutir de que forma esses
homens e mulheres, resultado da diáspora africana, vêm
construindo sua identidade cultural nas comunidades
quilombolas, especificamente na comunidade quilombola
de Tijuaçu, localizada ao norte da Bahia.

A comunidade quilombola de Tijuaçu e o processo


de reconhecimento

Apesar de todas as demandas, seja social, política,


econômica e cultural, percebemos que hoje, no Brasil,

220
há um número cada vez mais elevado de comunidades
negras rurais que conseguiram se impor através de
seus costumes, laços culturais, relações de trabalhos,
vivências cotidianas, entre outros. O que provocou a
Constituição Federal de 1988 a incorporar, entre seus
artigos, o reconhecimento das terras quilombolas.
Deste modo, a Constituição de 1988, em seu artigo
682, reconheceu a propriedadedefinitiva das terras ocu-
padas pelos remanescentes das comunidades quilombo-
las, devendo o Estado emitir-lhes os títulos respectivos.
Pormeio do Decreto n. 4.887, assinado em 20 de novem-
bro de 2003, as áreas pertencentes às comunidades qui-
lombolas passaram a ser tituladas pelo Instituto Nacio-
nal de Colonização e Reforma Agrária (Incra), órgão res-
ponsável pela reforma agrária e que tem a competência
para identificar, reconhecer, delimitar, demarcar e titular
as terras ocupadas pelos remanescentes de comunidades
dos quilombos.
De acordo com o art. 2º do mesmo decreto, os re-
manescentes das comunidades dos quilombos são os
grupos étnico-raciais, segundo critérios de autoatribui-
ção, com trajetória histórica própria, dotados de relações
territoriais específicas, com presunção de ancestralidade
negra relacionada com a resistência à opressão histórica
sofrida. A caracterização das comunidades quilombolas
será atestada mediante autodefinição da própria comuni-
dade. Para a medição e demarcação das terras, devem ser
levados em consideração critérios de territorialidade in-
dicados pela comunidade dos quilombos, sendo faculta-

221
do a estes quilombolas apresentar as peças técnicas para
a instrução procedimental. Segundo Arruti (2006, p. 28),

Uma mobilização cada vez mais ampla pela


“busca de direitos”, com base no “artigo 68”,
iniciou um largo processo de recuperação e
reenquadramento de memórias até então re-
calcadas, e a revelação de laços históricos en-
tre comunidades contemporâneas e grupos de
escravos que, de diferentes formas e em dife-
rentes momentos, teriam conseguido impor
sua liberdade à ordem escravista.

A comunidade negra rural de Tijuaçu inicia a luta


pelo seu reconhecimento na década de 1990, do século
passado, quando passou a receber visita de representantes
do Movimento Negro da Bahia, que tinham como objetivo
mobilizar os habitantes para a defesa dos seus direitos
instituídos pela Constituição Federal de 1988. No decorrer
dessa década, algumas pessoas da comunidade passam a
participar de alguns eventos que acontecem em Salvador,
como o I Encontro de Comunidades Quilombolas, que
aconteceu em 1998.
A população, informada dessa discussão, passou
a mobilizar-se através, principalmente, da visita de
representantes do Movimento Negro Unificado e de
técnicos da Fundação Cultural Palmares, que iniciaram
um trabalho de conscientização com os moradores.
A partir dessas visitas, começou uma trajetória de
reivindicações e conscientização dos seus direitos, quando
tem início, também, o processo do reconhecimento do
território como remanescente de quilombo, sintonizado
com o que instituía nossa Lei Maior.

222
No decorrer dessa discussão e tendo como pres-
suposto a aceleração do processo de reconhecimento
de Tijuaçu, técnicos da Fundação Cultural Palmares
e representantes do Movimento Negro orientaram a
população para que fosse criada uma associação com
o escopo de mobilizar e discutir a cultura, a história
da comunidade e a defesa dos direitos coletivos. Em
28 de fevereiro de 2000, a Fundação Cultural Palma-
res reconhece Tijuaçu como comunidade quilombola.
E, em abril de 2000, foi criada a Associação Agropastoril
Quilombola de Tijuaçu e Adjacências. A comunidade já
possuía a Associação de Desenvolvimento Comunitário,
uma organização dos moradores que tem como objeti-
vo obter benefícios para a comunidade junto aos órgãos
competentes; entretanto, estava restrita somente ao dis-
trito, não abrangia os povoados e o restante do perímetro
quilombola. Segundo os moradores, era necessário criar
uma associação que tivesse representantes de todo perí-
metro quilombola, como forma de agregar todo o grupo:

Digo adjacências porque, na verdade, ela hoje


não somente atua na sede de Tijuaçu e são dez
comunidades juntas. Tijuaçu com mais nove
comunidades circunvizinhas, onde a asso-
ciação atua desde 2000, quando foi fundada,
então, assim que foi reconhecida. O reconhe-
cimento se deu no dia 28 de fevereiro do ano
2000. O reconhecimento saiu e foi publicado
no Diário Oficial e, alguns dias depois, no dia
2 do mês 4, no começo de abril de 2000, tam-
bém nós fundamos a associação aqui em Ti-
juaçu. Mas uma associação que abrange todo
esse perímetro quilombola, que abrange cerca
de 2.700 e mais alguns quilômetros aqui em
Tijuaçu. Eu fui eleito como o novo presidente
e, juntamente com as outras pessoas da dire-
toria, a Dona Ilca dos Santos, temos a tesou-

223
reira que é Cássia Maria dos Santos, temos a
vice que é Valdelice da Silva, temos também a
Natasha Fagundes que é a primeira secretária
e temos ainda a Vitoriana que é do povoado
de Conceição, que faz parte da associação, e
a nossa segunda secretária. Temos outras
pessoas que fazem parte do conselho fiscal.
Outra coisa que eu gostaria de frisar, que é de
grande importância, é que a associação é uma
associação bastante unida, e na verdade nós
temos cerca de 50 pessoas trabalhando junto
com a direção. Agora, de que forma essas pes-
soas trabalham? Por exemplo, essas pessoas,
elas são conhecidas como lideranças dos po-
voados, lideranças das ruas também, quer di-
zer, a associação hoje cresceu e já temos mais
de 400 sócios, então nós precisamos de um
trabalho assim, fortalecido e unido.3

A Associação Quilombola tem conquistado espaço,


enquanto órgão representativo, procurando atender às
reivindicações da comunidade e defendendo os direitos
desses remanescentes. Nessa perspectiva é realizado um
trabalho comunitário sintonizado com a população. Para
concretizar tais ações, são realizadas reuniões periódi-
cas com membros e representantes das diferentes comu-
nidades do perímetro quilombola, como: Fazenda Alto,
Olaria, Quebra Facão, Água Branca, Lajinha, Conceição,
Macaco, Barreira, Queimada Grande e Fazenda Capim.
Nessas reuniões, discutem-se os problemas que afligem
a população, os projetos que estão chegando a Tijuaçu,
como administrá-los, as informações oriundas da Funda-
ção Cultural Palmares, da Unegro e de outros órgãos que
têm relação com a cultura afrodescendente. Dessa forma,
a Associação desenvolve o seu trabalho, conscientizando
os participantes dos seus direitos e deveres como cida-
dãos.

224
Recentemente, a Associação Agropastoril recebeu
da Fundação Cultural Palmares máquinas de costura
industriais. A pretensão é criar em Tijuaçu um polo de
confecção, dando oportunidade de emprego a muitos
moradores. Atualmente, o Sebrae ministrou curso de
corte e costura na sede da Associação, habilitando
diversas pessoas para a arte de cortar e confeccionar
roupas. Foram entregues, também, alguns tratores
para facilitar o trabalho no campo. Essas medidas têm
como meta criar outras perspectivas de sobrevivência à
população.

A descoberta do termo quilombola pela população


de Tijuaçu e a construção da autoestima

Até a visita dos técnicos da Fundação Cultural


Palmares, os moradores desconheciam o significado
da palavra quilombo. Eles tinham ouvido o referido
vocábulo, mas não sabiam de fato o seu significado, como
também desconheciam o que era ser remanescente de
quilombo, como podemos perceber através da narrativa
abaixo:

Olha, ser reconhecido como quilombo foi mui-


to bom, a gente num sabia o que era quilom-
bo, hoje todo mundo tá sabendo o que é um
quilombo, né, que foi aonde os negros ficava
naquela comunidade, e ali foi chamado rema-
nescente de quilombo.4

225
Para os moradores de Tijuaçu, o quilombo estava
bem distante da sua realidade. Mesmo tendo a pele
escura, costumes e tradições afros, os habitantes de
Tijuaçu não se identificavam como afro-brasileiros;
viviam imitando a cultura do branco. Eles definiam-
se como: moreno, escurinho, moreninho ou outras
denominações, mas nunca como negros. Tinham uma
autoestima baixa, consideravam-se inferiores e fugiam de
tal situação isolando-se pelos diferentes povoados e roças
de Tijuaçu, como se observa na narrativa abaixo: “Porque
de primeiro, aqui os negros não eram considerados como
gente e hoje em dia está sendo, através do trabalho que
a Associação vem desenvolvendo”.5 Dentro dessa mesma
perspectiva, Ivomar narra:

Até algum tempo atrás, Tijuaçu era visto como


uma comunidade rural qualquer, não desper-
tava para essa questão de quilombo. Porque
a gente no estudo da história, na escola, os
professores falam sobre o negro, mas de uma
maneira muito distante daqui do sertão. En-
tão, por mais que a gente tenha negro aqui no
sertão, sempre você era levado a pensar que
os negros estavam apenas em Salvador, que
foram para a zona da mata e o litoral brasi-
leiro, Rio de Janeiro, São Paulo, e que eles
ficaram por aí e daí não passaram. Agora,
Tijuaçu por sua vez é visto como uma comu-
nidade rural. Quando começou a falar sobre
a questão quilombola e se colocar algumas
questões da cultura de Tijuaçu em evidência
aqui para a comunidade é que a gente tá ven-
do o despertar para questão quilombola. Mas
anterior, era uma comunidade rural, era um
lugar que, imaginem, ia até lá. Ninguém tinha
compromisso com Tijuaçu. De lá vem apenas
a melancia, o feijão. Hoje, as pessoas já visitam
Tijuaçu, porque foi um quilombo.6

226
Segundo Hall (2001, p. 88-89), o que aconteceu
com os africanos que vieram para o Brasil tem como
precedente a assimilação da cultura do branco, sem
perder, no entanto, suas raízes. É o que o autor denomina
de tradição e descreve como aquelas formações de
identidade que atravessam e interceptam as fronteiras
naturais, compostas por pessoas que foram dispersas
para sempre de sua terra natal. Essas pessoas retêm
fortes vínculos com seus lugares de origem e suas
tradições, mas sem a ilusão de um retorno ao passado.
Elas são obrigadas a negociar com as novas culturas
em que vivem, sem serem assimiladas por elas e sem
perderem completamente a identidade. Carregam os
troncos das culturas, das tradições, das linguagens e das
histórias particulares pelas quais foram marcadas. A
diferença é que elas não são e nunca serão unificadas no
velho sentido, porque são, irrevogavelmente, o preceito
de várias histórias e culturas interconectadas, que
pertencem a uma e, ao mesmo tempo, a várias “casas”
e não a uma “casa” particular. Hall (2001) afirma que
as pessoas pertencentes a essas culturas híbridas (no
caso, consideradas as culturas dessas comunidades
negras rurais) têm sido obrigadas a renunciar a sonhos
ou à condição de redescobrir qualquer tipo de pobreza
cultural “perdoada” ou de absolutismo étnico. Elas são
irrevogavelmente traduzidas. Elas são produto das novas
“diásporas”, criadas pelas migrações pós-coloniais e
devem aprender a habitar, no mínimo, duas identidades,
a falar duas linguagens culturais, a traduzir e a negociar
entre elas. As culturas híbridas constituem um dos

227
diversos tipos de identidade, distintamente produzidas
na era da modernidade.
Certamente essa situação híbrida de fronteiras,
de não reconhecimento de sua cultura, experimentou
por muito tempo a população de Tijuaçu. O trabalho
realizado pela Fundação Cultural Palmares e pela Unegro
despertou a conscientização e, consequentemente, a
valorização da cultura desses remanescentes. O termo
fronteira é aqui utilizado, não no sentido de território, de
espaço, mas no sentido cultural.
Nessa perspectiva, fazemos as seguintes inda-
gações: quais os caminhos traçados pela população de
Tijuaçu após o reconhecimento? Como aconteceram os
primeiros contatos? Em meados da década de 1990, a co-
munidade recebeu funcionários da Fundação Cultural
Palmares, como também advogados, antropólogos e ou-
tros profissionais, com o objetivo de mapear os diferen-
tes povoados, cuja população fosse predominantemente
negra, e traçar o Laudo Antropológico para que Tijuaçu –
juntamente com as outras 2.000 comunidades existentes
no Brasil – fosse reconhecida como remanescente de qui-
lombo e pudesse receber os benefícios que a lei instituía.
Os primeiros contatos dos membros da comunidade
de Tijuaçu com pessoas que estavam discutindo a
questão das comunidades “remanescentes de quilombo”
ocorreram com os técnicos do Instituto de Terras da
Bahia (Interba, órgão hoje extinto), da Fundação Cultural
Palmares - Ministério da Cultura. Na época, esses órgãos
firmaram alguns convênios que tinham como proposta o
reconhecimento e a titulação das terras das comunidades

228
negras rurais nos diferentes estados. Esses técnicos
fizeram várias reuniões com os membros da comunidade
para provocar uma primeira discussão sobre a questão
de suas terras, tendo como meta a aplicação do Ato das
Disposições Constitucionais Transitórias (ADCT).
A participação de moradores de Tijuaçu no I
Encontro Nacional das Comunidades Negras Rurais
Remanescentes de Quilombo, ocorrido em Salvador
em 1994, iniciou o percurso do reconhecimento. Esse
foi apenas o primeiro passo para muitos outros que
vieram. No referido evento, os participantes receberam
informações a respeito das experiências desenvolvidas
em outras comunidades, como os “remanescentes de
quilombo de Rio das Rãs (Bom Jesus da Lapa/BA)”.
Antes do trabalho de campo etnográfico do
antropólogo Osvaldo Martins Oliveira, estiveram em
Tijuaçu, em épocas diferentes – em 1998 e 1999 – dois
outros antropólogos e uma advogada da Fundação
Cultural Palmares, para realizar coleta de dados com
o objetivo de elaborar relatórios encomendados pelo
convênio dos órgãos referidos acima.
Segundo o Relatório, a população, motivada por
esse processo de mobilização que se iniciava no dia 10 de
agosto de 1998, e alguns representantes da comunidade
reuniram-se na Escola de Primeiro Grau de Tijuaçu e
traçaram algumas reivindicações. Entre estas estavam:
água encanada para a sede do distrito e para os povoados
vizinhos; uma ambulância para ficar à disposição da
comunidade; cursos de corte e costura e uma fábrica
de roupas, cuja instalação amenizaria o desemprego;

229
saneamento básico; criação de um projeto habitacional,
visando construir casas para os moradores; construção
de uma escola de nível médio; iluminação pública em
todas as ruas da vila e eletrificação para as comunidades
do Alto, Água Branca, Barreiras, Olaria, Macaco, Lajinha,
Conceição e Lagoa do Cocho; instalação de uma fábrica
de tijolos e outra de sandálias; restauração da cacimba,
que se encontrava desativada; recuperação da torre
telefônica existente no local e reinstalação do posto
telefônico, que constantemente se encontrava com defeito
e desativado, obrigando os moradores a se deslocarem
por cerca de 10 km para encontrar o posto telefônico
mais próximo; instalação de uma farmácia comunitária;
atendimento médico e dentário; creche para atender as
crianças; incentivo e recursos financeiros para a prática
da cultura negra local; implantação de uma cooperativa
comunitária; restauração e conservação dos cemitérios
da vila, de Barreira e do Quebra Facão; construção de
quadras de esporte, um campo de futebol para prática
esportiva e lazer dos jovens da comunidade.
Observado os itens citados acima, em 18 de fevereiro
de 2000, o antropólogo da Fundação Cultural Palmares,
Oliveira (2000) concluiu o Relatório de Identificação
da Comunidade Negra de Tijuaçu, sendo Tijuaçu
reconhecido como território remanescente de quilombo,
através de ato publicado no Diário Oficial da União de 28
de fevereiro do mesmo ano. Para elaboração do referido
relatório, o antropólogo Osvaldo Martins de Oliveira
permaneceu na comunidade, hospedado na casa de
uma moradora, cerca de 15 dias, percorrendo povoados
e fazendas, conversando e entrevistando os moradores

230
e levantando dados sobre a região. Desse documento,
consta o mapeamento do espaço e da população local;
histórias contadas pelos mais velhos sobre a ocupação
da terra e a genealogia da comunidade; descrição de
alguns conflitos de terras com os fazendeiros da região;
atividades produtivas, criatórias e artesanais; atividades
políticas e reivindicações; como a população se identifica
como afrodescendente e uma descrição das manifestações
culturais.
O povo recebeu o reconhecimento como uma
conquista. A partir de então, tem-se mobilizado com
o objetivo de entender traços de sua cultura e, nesse
percurso, trazer algumas manifestações culturais que
estavam adormecidas e que foram despertadas após o
reconhecimento.

Ah! Eu acho muito bom ser remanescente de


quilombo. Depois que a gente descobriu, que
o Valmir descobriu, eu acho que modificou
muito a vida da gente aqui. Mudou, Ave Ma-
ria, 100%. Porque a gente era muito excluída.
Eu mesmo já fui muito excluída.

Ah! Nós agora já sabe conversar. Que aqui an-


tigamente tinha gente que não conversava. Se
tiver uma reunião, a gente ia pra reunião só
ouvir, não podia dar opinião, porque se nós
assim, eu vou conversar a colega dizia não le-
vanta não que tu não sabe conversar. Aí agora
aqui, aqui a gente ficava como comandado, se
a gente se levantava alguém dizia assim. Oh! É
passado assim. Não, espera aí, é depois, deixa
fulano conversar primeiro. Eram outras pes-
soas, porque eles diziam que a gente não sabia
e aquilo ia passando, e hoje não, a gente hoje
vai pra uma reunião, a gente sai, a gente pode
conversar o que for na reunião, alguém quer
falar, a gente já se levanta. Qualquer pessoa

231
se levanta e pergunta. Muitas vezes a gente
aqui nunca andou, andava, a gente aqui, mas
se tivesse uma reunião era reunião de branco,
se era reunião aqui, mas era branco; preto, se
ficasse olhando, tinha que olhar de longe. Ai!
Acho que nós, que hoje nós somos mais ho-
menageado que, hoje a gente, até na radia, na
radia Caraíba. Hoje tem uma pessoa de Tijua-
çu conversando, logo uma que aqui não tinha
telefone e hoje já tem, mas hoje já tem telefone
e tantas outras coisas. [...].7

Os quilombolas de Tijuaçu se autoidentificaram


e passaram a reivindicar seus direitos, porque
anteriormente não se viam como cidadãos e sofriam
muito com o preconceito, como se pode perceber no
depoimento abaixo:

No tempo de escola, já sofri muito. O povo, as


professoras. A professora gostava muito de
chamar a gente de neguinha do cabelo duro,
quando a gente chegava, que as mães da gente
penteava o cabelo da gente, não penteava na
hora da gente ir pra escola, não era como ago-
ra. Minha mãe, sempre penteava o cabelo da
gente de tarde que era pra gente ir pra escola
no outro dia, aí a gente fazia aquelas tranci-
nhas, uma pegada na outra, quando a gente
chegava, tinha vez, assim que a mãe da gente
não dava tempo pentear, quando a gente fos-
se com aquele cabelo assanhado, ela chegava
e dizia: “é, tua mãe é porca, né, mais esses
negos, gosta de ser porco, não pentea nem os
cabelos dos filhos”, eu já sofri muito... muito.8

Diante dessas e outras situações, os moradores de


Tijuaçu sentiam-se acuados, excluídos, indignados pelo
tratamento recebido por aqueles que se achavam brancos
e utilizavam palavras ofensivas com o intuito de humilhá-
los. Não sabiam como proceder diante das provocações; e

232
tinham como alternativa se ausentar do mundo do outro
e isolar-se na comunidade.
Para Barth (1969 apud POUTIGNAT; STREIFF-
FENART, 1998), a identidade é construída e transformada
na interação de grupos sociais, através de processos
de exclusão e inclusão que estabelecem limites entre
diferentes grupos, definindo os que os integram ou
não. Essa identidade está sendo construída a partir das
situações vivenciadas por esses afro-brasileiros.

Hoje tão vendo a gente como gente, que an-


tigamente, não todos né, aquelas pessoas que
a gente conhece, não conhecia a gente como
gente não, né? Não tratava a gente como, pelo
nome, tratava com o apelido de nego. Nego
vem cá. Nego faz isso. Hoje, é, ta tratando a
gente como gente.9

Outras vozes também se levantaram e concordaram


com Nira e Ilca sobre o benefício que o reconhecimento
trouxe à população. Após o reconhecimento, alguns
depoentes pontuam que houve uma mudança de
comportamento também por parte dos habitantes de
Senhor do Bonfim em relação à população de Tijuaçu.
Houve uma diminuição do preconceito. O que significa
para a população ser afrodescendente?

Afrodescendente significa pra mim uma coisa


muito importante, porque a gente, eu mesmo
não sabia que era afro, e agora estamos saben-
do, e por isso que é uma coisa muito impor-
tante pra mim.
Com o reconhecimento, mudou muita coisa
em Tijuaçu. O pessoal não usava muita trança
aqui, que disse que trança era coisa de gente

233
tabaréu10, e hoje já usa, então mudou 100%, em
tudo por tudo.
Hoje, o povo de Bonfim nos recebe muito bem.
Como eu terminei de falar mesmo nesse ins-
tante né? A gente chega lá, por exemplo, a gen-
te chega na loja né, eles já vão receber a gente
cá na frente, atende super bem. Antigamente
não, antigamente, eu mesma fui uma das pes-
soas que teve uma vez mesmo que eu cheguei
na loja, procurei saber o tecido que eu ia com-
prar, quanto era, o moço fez de conta que eu
nem existia, de jeito nenhum. Hoje, eu chego,
já vou logo sendo atendida. No Justino mes-
mo, um exemplo, eu fui comprar um bolo uma
vez, lá no Justino, isso tem dois anos atrás,
quando cheguei lá, né, assim, atrás de mim
chegou uma senhora, uma senhora não, mais
nova do que eu, e o rapaz que trabalhava lá,
atendeu ela primeiro do que eu, e já tava com
mais de meia hora que eu tava lá, e ele não me
atendeu. Foi atender a mulher. Por quê? Por-
que a mulher era branca e eu era negra. Quan-
do ele veio procurar saber a mim o que era que
tava procurando saber, aí eu também desisti.
Disse, ó, só num vou falar pro seu patrão, que
é seu Justino, porque se eu falar, acho que ele
vai te botar pra fora, e eu não quero isso. Aí
saí. Não quis mais de jeito nenhum o bolo que
eu ia comprar.11

A postura de certos moradores de Senhor do Bon-


fim deixava alguns habitantes de Tijuaçu indignados.
Várias foram as situações que demonstravam atitudes
preconceituosas. Entretanto, a afirmação de sua identida-
de cultural possibilitou a conquista de um espaço, uma
vez que esta é uma construção de coisa comum que se
afirma perante algo, é um fenômeno em mudança, não
é um conceito estático. Essa percepção enquanto afro-
descendente estava adormecida e escondida atrás do
preconceito e do racismo sentido por esses moradores de

234
Tijuaçu. A identidade tornou-se uma “celebração móvel”:
formada e transformada continuamente em relação às
formas pelas quais somos representados ou interpelados
nos sistemas culturais que nos rodeiam.
Para Hall (2001), a identidade é definida
historicamente, e não biologicamente. O sujeito assume
identidades diferentes em diferentes momentos sem
unificá-las ao redor de um “eu” coerente. Dentro de cada
um há identidades contraditórias, empurrando para
diferentes direções, de tal modo que nossas identificações
estão sendo continuamente deslocadas. À medida que
os sistemas de significação e representação cultural se
multiplicam, haverá confrontos por uma multiplicidade
desconcertante e cambiante de identidades possíveis,
com as quais poderiam identificar-se – ao menos
temporariamente. Pois Barth (1969 apud POUTIGNAT;
STREIFF-FENART, 1998) escreve que os traços que se leva
em conta não eram a soma das diferenças objetivas, mas
unicamente aqueles que os próprios atores consideram
como significativos.12
A identidade desses afro-brasileiros residentes em
Tijuaçu foi construída a partir da diferença. Para Souza
(2002, p. 141-142), através das identificações históricas e
culturais, funda-se o conceito de etnia, que abarca os que
supõem ter uma ascendência comum, base da identidade
do grupo e de sua distinção com relação à sociedade
abrangente.
Ademais, a identidade étnica é construída não pelas
diferenças em si, mas pela tomada de consciência delas,
que ganham significados ao se inserirem em sistemas so-

235
ciais. Ao tomar conhecimento dessas diferenças, a popu-
lação une-se em prol da sua cultura e, evidentemente, de
sua identidade. A etnicidade serve, portanto, para pensar
um novo tipo de sociedade, na qual convivem grupos de
variadas origens que se pautam por diferenciadas insti-
tuições sociais. Segundo Cunha (1985, p. 208),

Nesse novo tipo de sociedade, a coerência é


dada pelo sistema multiétnico e não mais pela
‘cultura original’. Nesse contexto, os processos
de constituição étnica dão-se pela seleção de
certos traços escolhidos como símbolos privi-
legiados da identidade étnica e pelo esqueci-
mento de outros: A memória e o esquecimento
histórico são assim comandados pela relevân-
cia do novo sistema.

A população de Tijuaçu tem procurado cada


vez mais se afirmar como um grupo afrodescendente
e tem conservado símbolos e significados dessa
identidade étnica. Primeiro por uma fase de descoberta
e, posteriormente, conhecimento da cultura dos seus
antepassados. Em seguida, descobriram um estágio
de conscientização e valorização dessa cultura. No
último período, conheceram sua história e a de seus
antepassados e passaram a valorizar suas manifestações
culturais, suas relações de trabalho, sua religiosidade e
seus traços físicos.
Nessa perspectiva, a população passou a emitir um
outro olhar, se autoidentificando enquanto afrodescen-
dente. Dessa forma, tornaram-se mais visíveis ao olhar
do outro, pois não tinham mais receio de expressar seus
laços culturais. Projetos do Governo Federal passaram a
chegar a Tijuaçu e as informações eram divulgadas pe-

236
los meios de comunicação. Assim, Tijuaçu ficou visível
aos diversos olhares. Diante do exposto, vejamos o que
dizem os habitantes de Senhor do Bonfim sobre o reco-
nhecimento:

Até algum tempo atrás, Tijuaçu era visto como


uma comunidade rural qualquer; não se des-
pertava pra essa questão de quilombo. Por-
que a gente no estudo de história, na escola,
eles nos leva à figura do negro muito distante
daqui do sertão, então por mais que a gente
tenha negro aqui no sertão, no alto sertão,
sempre você é levado a pensar que os negros
existem apenas em Salvador, chegaram para
a zona da mata e o litoral brasileiro, Rio de
Janeiro, Recife, São Paulo. Eles ficaram por aí
né, ficaram por aí e daí não passaram. Agora,
Tijuaçu, por sua vez, é visto como uma comu-
nidade rural, quando começou a falar sobre a
questão quilombola, é, e se colocar algumas
questões da cultura de Tijuaçu em evidência
aqui pra comunidade é que a gente ta vendo
o despertar, pra questão do quilombo. En-
tão as pessoas agora já estão vendo Tijuaçu
como quilombo, em Bonfim nos termos um
quilombo, é Tijuaçu. É, mas anterior era uma
comunidade rural, é um lugar que ninguém
ia lá fazer nada, ninguém tinha compromisso
com Tijuaçu, era apenas uma comunidade ru-
ral, de lá apenas vem a melancia, de lá apenas
vem o feijão, e a gente não tinha a comunida-
de, o centro da cidade não tinha muita relação
com Tijuaçu. Hoje não, hoje as pessoas já tão
vendo como quilombo, e até já tão saindo da
sede para visitar Tijuaçu, pra conhecer um
quilombo propriamente dito, hoje já tem um
pensamento que está vindo a um quilombo, é,
é ao quilombo rural, vamos dizer assim.13

Perguntamos, então, se a referida mudança era


em decorrência do reconhecimento. Então, Ivomar
nos respondeu: “Ao reconhecimento, a divulgação da

237
atividade da comunidade, da cultura da comunidade,
a partir daí, do reconhecimento desta, do conjunto de
atividade é que as pessoas tão começando a despertar”.14
A identidade, então, surge não tanto da plenitude
dela mesma, que já está dentro de cada um como indivíduo,
mas de uma falta de inteireza, que é “preenchida” a partir
do exterior, pelas formas através das quais se imagina ser
visto por outros (HALL, 2001, p. 39).
A possibilidade de uma identificação do povo
de Tijuaçu vai aparecer a partir da construção dessa
identidade afro-brasileira assumida. A população
não mais se intimida em expressar seus costumes e
sua cultura. Essa identidade foi formada, ao longo do
tempo, aliada às diferentes influências que a população
comungou e que agora, com a autoestima elevada e sua
autoidentificação enquanto afrodescendente, aparece
com maior visibilidade e vigor.
Os costumes desses afrodescendentes são
escancarados; não há mais medo. Hoje, Tijuaçu
possui três associações. Os moradores fazem reuniões
periódicas, nas quais há uma participação significativa
da população. O povo saiu às ruas, foi para outros
municípios apresentar suas danças, levando para outros
lugares suas experiências de vida. Agora essas pessoas
não têm mais receio do preconceito.
Em decorrência desse processo de conscientização
pelo qual a comunidade vem passando ao longo desses
anos, a população tem criado mecanismos para que seus
laços culturais sejam preservados, a exemplo do Samba de
Lata (que é considerado o cartão postal da comunidade).

238
Os pais e avós já incluíram no referido samba os seus
filhos e netos para que a tradição tenha continuidade,
como se pode perceber na fala abaixo:

Inclusive a gente tá até ensinando já as crian-


ças, né. Nosso samba pra aquelas pessoas que
estão mais velhas, que tão cansada, já essas
pessoas vão saindo e vão deixando aqueles
meninos já de menor, aqueles mais novos.15

A preocupação de manter a tradição também é ex-


tensiva a outras manifestações que existiam na comuni-
dade. Nessa perspectiva, os moradores de Tijuaçu recria-
ram a Dança do Parentesco e a Roda do Arco-Íris. Cons-
truíram em forma de mutirão a sede da Associação. São
iniciativas que demonstram a mobilização da comunida-
de e a elevação da autoestima desses afrodescendentes.
Nesse sentido, a população mais jovem está empenhada
em manter esse legado dos seus antepassados, criando
perspectivas para manutenção das tradições e de sua cul-
tura:

Eu me sinto assim uma pessoa que pertence,


que meus pais pertenceram, meus avós per-
tenceram a uma raça muito linda, que tinha
muita, muita, muita cultura, que sofria, mais
que apesar de tudo, né?, cultivava sempre
aquilo. Imagine se não tivesse cultivado essa
cultura linda que, que Tijuaçu tem hoje em
dia? Como seria nós? Então eu acho que eles,
apesar de tanto sofrimento, que sofreram, eles,
eles permaneceram forte e cultivando sempre
a sua cultura, então eu me acho hoje em dia
não só como a minha comunidade, uma pes-
soa assim forte na fé que Tijuaçu é forte mes-
mo na fé, e uma pessoa realizada, e eu estou
vendo os projetos de Tijuaçu ir à frente.

239
Interessante e muito bonita. Imagine se nós
não tivéssemos essa história para contar né, e
para viver, que você um dia, estamos vivendo
essa história. Quando eu falo vivendo, não é
vivendo no só, no sofrimento, mas sim volta-
do para a, a alegria está tendo. Hoje o pessoal
abre a boca e diz, é, eu sou negro, sou negro e
me, e me reconheço como negro. Então é mui-
to bonito, que de primeiro as pessoas tinham
vergonha de abrir a boca para se reconhecer
como negro, e hoje em dia não, ele abre assim
a boca e fala com muita alegria, eu sou negro
sim, e tenho valor. Acho muito bonito.16
Uma história transparente, porque todo mun-
do tá vendo, tá sendo reconhecido no país
todo, em toda nação, aí ela é transparente, pra
mim ela tá transparente.17

Outras vozes também se levantaram em apoio ao legado his-


tórico de Tijuaçu:
Ah, eu vejo, bem eu vejo... Eu acho que é uma
história bonita, acho essa história muito boni-
ta, aí eu acho bom que a gente, o povo chega
e procura a gente, como é a história da gente,
sabe contar, a gente não conta com os detalhes
porque tem muita coisa assim que a gente não
sabe, que a gente, eu achava que aqui já podia
ter assim uma cartilha pra gente estudar por-
que como agora mesmo eles tão fazendo um
curso em Senhor do Bonfim pra fazer uma
cartilha, e é bom a gente ter uma cartilha, por-
que a gente, muitas coisas a gente não sabe,
quando o povo pergunta a gente procura o
seu Valmir: — Oh Valmir, como é isso assim?
Assim o Valmir vai e dá aquela explicação à
gente, porque a gente não tem, a gente assis-
te a reunião, a gente grava quando o Valmir,
na hora que a gente sai, ele conta a história à
gente. Ó minha gente, é passado assim, assim,
assim... Ele sempre fala com a gente, ele diz,
conta a história pra gente, pra quando a gente
chegar assim num lugar que o povo perguntar
a gente saber explica.18

240
Situação semelhante vem passando outras
comunidades negras rurais do Brasil. Encontramos em
Tijuaçu uma tradição oral articulada que se relaciona à
escravidão, em alguns momentos; havendo, em outros
momentos, uma negação. Há uma insistência reticente
em não serem eles descendentes de escravos.
Nos termos do conceito de quilombo contemporâneo,
como bem definiu, em outubro de 1994, a Associação
Brasileira de Antropologia, levou-se à reflexão de que
o que se encontra em Tijuaçu esteja coadunado com o
conceito abaixo:

O termo Quilombo tem assumido novos sig-


nificados na literatura especializada e tam-
bém para grupos, indivíduos e organizações.
Ainda que tenha um conteúdo histórico, o
mesmo vem sendo ressemantizado para de-
signar a situação presente dos segmentos
negros em diferentes regiões e contextos do
Brasil. Contemporaneamente, portanto, o ter-
mo quilombo não se refere a resíduos ou res-
quícios arqueológicos de ocupação temporal
ou de comprovação biológica. Também não se
trará de grupos isolados ou de uma popula-
ção estritamente homogênea. Da mesma for-
ma, nem sempre foram constituídos a partir
de movimentos insurrecionais ou rebelados,
mas, sobretudo, consistem em grupos que de-
senvolveram práticas cotidianas de resistên-
cia na manutenção e reprodução de seus mo-
dos de vida característicos e na consolidação
de um território próprio. A identidade desses
grupos também não se define pelo tamanho e
número de seus membros, mas pela experiên-
cia vivida e as versões compartilhadas de sua
trajetória comum e da continuidade enquanto
grupo. Neste sentido, constituem grupos étni-
cos conceitualmente definidos pela antropolo-
gia como um tipo organizacional que confere
pertencimento através de normas e meios em-

241
pregados para indicar afiliação ou exclusão
(O’DWYER, 1995, p. 1).

Foi nessa perspectiva que se concebeu Tijuaçu


como uma comunidade negra rural, cujos moradores ali
habitam há dois séculos, sobrevivendo da agricultura de
pequenos lotes de terra pertencentes às mesmas famílias;
e assim permanecendo há várias gerações sem proceder
à partilha. Possuem tradições culturais permanentes
que são valorizadas pela população. Portanto, considera-
se esse território como comunidade remanescente de
quilombo, a partir da continuidade e da permanência de
seus costumes, de suas experiências enquanto um grupo
que manteve as suas tradições.
O reconhecimento de Tijuaçu como remanescente
de quilombo pela Fundação Cultural Palmares
empreendeu uma valorização da cultura, como
também a autoidentificação desses moradores como
afrodescendentes. Nessa perspectiva, várias mudanças
foram implantadas em decorrência do reconhecimento,
como: a criação da Associação Quilombola, que passou
a representar o perímetro quilombola atingindo nove
comunidades; algumas manifestações culturais foram
resgatadas; a comunidade passou a se mobilizar em
prol dos seus direitos, passando a cobrar dos órgãos
competentes melhoria para o perímetro quilombola.
Os penteados e as roupas afros passaram a ser usados
frequentemente. Alguns costumes foram resgatados e
reinventados por conta dessa autoidentificação.

242
Nota
1 Termo utilizado por Gilroy (2001). A referida obra considerada um clássico contempo-
râneo da sociologia e dos estudos da cultura. Paul Gilroy busca definir a modernidade a
partir do conceito de diáspora negra e suas narrativas de perda, exílio e viagens. Histórias
e deslocamentos e identidades caracterizam essa formação que Gilroy chama de Atlântico
negro: um conjunto cultural irredutivelmente moderno, excêntrico, instável e assimétrico,
que escapa à lógica estreita das simplificações étnicas, e se manifesta tanto nos escritos de
W. E. B. Du Bois como nas letras dos roppers do século XXI.
2 O texto do artigo 68 do Ato das Disposições Constitucionais Transitórias (ADCT)
da Constituição Federal de 1988 é o seguinte: “aos remanescentes das comunidades
de quilombos que estejam ocupando suas terras, é reconhecida a propriedade defi-
nitiva, devendo o Estado emitir-lhes os títulos respectivos”.
3 Entrevista realizada pela autora com Antônio Marcos Rodrigues, atual presidente da As-
sociação Agropastoril Quilombola de Tijuaçu e Adjacências, em 2 de fevereiro de 2005,
em Tijuaçu.
4 Fala de Ilca Maria, entrevistada pela autora em 28 de outubro de 2003, em Tijuaçu.
5 Entrevista com Juliana Rodrigues, realizada pela autora em 2 de fevereiro de 2005, em
Tijuaçu.
6 Entrevista realizada pela autora com Ivomar Gitânio dos Santos, em 2 de fevereiro de
2005, em Senhor do Bonfim.
7 Entrevista realizada pela autora com Nira, em 5 de dezembro de 2004, em sua residência
em Tijuaçu.
8 Entrevista realizada pela autora com Nira, em 5 de dezembro de 2004, em sua residência
em Tijuaçu.
9 Fala de Ilca, entrevistada pela autora em 14 de agosto de 2002, em sua residência em
Tijuaçu.
10 O mesmo que matuto, caipira.
11 Entrevista realizada pela autora com Ilca, em 14 de agosto de 2002, em sua residência
em Tijuaçu.
12 Poutignat e Streiff-Fenart (1998, p. 11) afirmam que a etnicidade não é um con-
junto intemporal, imutável de “traços culturais” (crenças, valores, símbolos, ritos,
regras de conduta, língua, código de polidez, práticas de vestuário ou culinárias
etc.), transmitidos da mesma forma de geração para geração na história do grupo;
ela provoca ações e reações entre este grupo e os outros em uma organização social
que não cessa de evoluir.
13 Entrevista realizada pela autora com Ivomar Gitânio da Silva, em 2 de fevereiro de 2005,
em Senhor do Bonfim.
14 Entrevistado pela autora em 2 de fevereiro de 2005, em Senhor do Bonfim.

243
15 Entrevista realizada pela autora com Nira, em 5 de dezembro de 2004, em sua residência
em Tijuaçu.
16 Entrevista realizada pela autora com Juliana Rodrigues, em 2 de fevereiro de 2005, em
sua residência em Tijuaçu.
17 Entrevista realizada pela autora com Amauri da Silva Rodrigues, que tem 16 anos, em 2
de fevereiro de 2005, em sua residência em Tijuaçu.

18 Entrevista realizada pela autora, com Nira, em 5 de dezembro de 2005.

Referências

ARRUTI, José Maurício. Mocambo: antropologia e


história do processo de formação quilombola. Bauru, SP:
Edusc, 2006.

CUNHA, Manoela Carneiro de. Negros estrangeiros:


os escravos libertos e sua volta à África. São Paulo:
Brasiliense, 1985.

GILROY, Paul. O Atlântico negro: modernidade e dupla


consciência. Tradução de Cid Knipel Moreira. São Paulo:
Ed. 34; Rio de Janeiro: Universidade Cândido Mendes,
Centro de Estudos Afro-Asiáticos, 2001.

HALL, Stuart. A identidade cultural na pós-


modernidade. 6. ed. Tradução Tomaz Tadeu da Silva e
Guaracira Lopes Louro. Rio de Janeiro: DP&A, 2001.

______. Da diáspora: identidade e mediações culturais.


Tradução Adelaine La Guardiã Resende et al. Belo
Horizonte: Ed. UFMG, 2003.

MUNANGA, Kabengele. Negritude: usos e sentidos.


Belo Horizonte: Autêntica, 2009.

244
O’DWYER, E. C. (Org.). Terra de quilombos. Rio de
Janeiro: ABA, 1995.

OLIVEIRA, Osvaldo Martins de. Relatório parcial


de identificação da comunidade negra de Tijuaçu.
Brasília, DF: Fundação Cultural Palmares, 2000.
Mimeografado.

POUTIGNAT, Philippe; STREIFF-FENART, Jocelyne.


Teorias da etnicidade: seguido de grupos étnicos e suas
fronteiras de Fredrik Barth. Trad. Elcio Fernandes. São
Paulo: Edunesp, 1998.

REIS, João José; GOMES, Flávio. Liberdade por um fio:


história dos quilombos no Brasil. São Paulo: Companhia
das Letras, 1996.

______; SILVA, Eduardo. Negociação e conflito:


a resistência negra no Brasil escravista. São Paulo:
Companhia das Letras, 1989.

SOUZA, Marina de Mello e. Reis Negros no Brasil


escravista: história da festa de coroação de Rei Congo.
Belo Horizonte: UFMG, 2002.

245
Sobre os Autores

Antônio Fernando Guerreiro Moreira de Freitas


Professor associado da graduação e pós-graduação da
Universidade Federal da Bahia e doutor em História
pela Université de Paris IV (Paris-Sorbonne) (1992). Tem
experiência na área de História, com ênfase em História
Regional do Brasil, atuando principalmente com os
seguintes temas: Bahia, sertões, cacau, história e formação
histórico-cultural. Publicou, entre outros trabalhos,
Canô Velloso: Lembranças do Saber Viver (EDUFBA, 2009)
e Preservação da Memória Regional: Testemunhos para a
História: Sá Barreto (Editus, 2001).

Antônio Paulo de Morais Rezende


Professor adjunto da graduação e pós-graduação em
História da Universidade Federal de Pernambuco.
Doutor em História Social pela Universidade de São Paulo
(1992) e Pós-doutor também pela USP (1998). Atua no
grupo de pesquisa História, Política, Memória e Imagem
do CNPQ. Tem experiência na área de História, com
ênfase em História do Brasil, atuando principalmente
nos seguintes temas: história, cultura, imaginário,
modernidade e memória. O seu tema atual de pesquisa
é relacionado com história da solidão no Recife dos anos
1930. Publicou, entre outros trabalhos, Ruídos do efêmero:
histórias de dentro e de fora (Ed. UFPE, 2009).

247
Avanete Pereira Sousa
Professora titular da graduação em História e da pós-
graduação em Cultura, Educação e Linguagens da
Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia (UESB).
Doutora em História Econômica pela Universidade de
São Paulo (2003), tem experiência na área de História,
com ênfase em História do Brasil Colonial, atuando
principalmente nos seguintes temas: poder local,
câmara, administração, economia colonial, fiscalidade
local. Publicou, entre outros trabalhos, A Bahia no século
XVIII: poder político local e atividades econômicas (Alameda;
Edições UESB, 2011);e Poder Local e vida cotidiana (Salvador,
século XVIII) ( Edições UESB, 2011) e Salvador, Capital da
Colônia (Atual Ed., 2006).

Carmélia Aparecida Silva Miranda


Professora adjunto da graduação em História e professora
permanente do mestrado em História Regional e Local
da Universidade do Estado da Bahia (UNEB). Doutora
em História Social pela Pontifícia Universidade Católica
de São Paulo (PUC-SP). Ganhou o Prêmio Margarida
Alves (2007) do Ministério do Desenvolvimento Agrário
(MDA). É autora de vários artigos e capítulos em
livros, entre os quais Vestigios Recuperados: Experiências
da comunidade negra rural de Tijuaçu-BA (Annablume,
2009). Atua na linha de História Social com trabalhos
desenvolvidos nas seguintes temáticas: população afro-
brasileira, manifestações culturais, cultura, memória,
comunidades quilombolas.

248
Francisco Eduardo Torres Cancela
Professor auxiliar da graduação em História da
Universidade do Estado da Bahia e doutorando em
História no Programa de Pós-graduação em História da
Universidade Federal da Bahia (UFBA). Publicou, entre
outros trabalhos, Uma barreira contra os perigos do sertão
do Monte Pascoal: a criação da vila do Prado, os índios Pataxó
e a re-significação das relações de contato (1764-1820) (In:
CAETANO DA SILVA, J. L. et al. (Org.) Tradições étnicas
entre os Pataxó no Monte Pascoal: subsídios para uma
educação diferenciada e práticas sustentáveis. (Edições
UESB, 2008). Tem produzido trabalhos sobre a História
da Capitania de Porto Seguro, a História Indígena e a
Lei 11.645/08. Possui experiência de ensino nas áreas de
Metodologia Científica, História do Brasil e História da
Educação.

Marco Antônio Nunes da Silva


Professor adjunto de História Moderna na Universidade
Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB) e bolsista da
Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado da Bahia
(FAPESB). Doutor em História Social pela Universidade de
São Paulo (2003) e Pós-Doutor pela Universidade Federal
da Bahia (UFBA). Publicou, entre outros trabalhos, “Nos
cárceres não há segredo nenhum e que se falam mui livremente
como se estivessem em suas casas”: o cotidiano dos cárceres
inquisitoriais. (com GANDRA, Edgar ; POSSAMAI, P. C.
In: Edgar Gandra; Paulo César Possamai. (Org.). Estudos
de história do cotidiano. Pelotas: Ed. UFPel, 2011) e As
rotas de fuga: para onde vão os filhos da nação? (In: FEITLER,

249
B.; LIMA, L.; VAINFAS, R. (Org.). A Inquisição em xeque:
temas, controvérsias, estudos de caso. Rio de Janeiro:
EDUERJ, 2006). Tem experiência na área de História, com
ênfase em História Moderna, atuando principalmente
nos seguintes temas: inquisição, cristão-novo e época
moderna.

Maria da Conceição Meireles Pereira


Professora associada com agregação do Departamento de
História e Estudos Políticos e Internacionais da Faculdade
de Letras da Universidade do Porto, onde leciona
disciplinas e seminários nos 1º, 2º e 3º ciclos de estudos
(Licenciatura, Mestrado e Doutoramento). Doutora em
História pela Faculdade de Letras da Universidade do Porto
(1996), Investigadora da I&D (Unidade de Investigação)
Centro de Estudos da População, Economia e Sociedade
da Universidade do Porto – CEPESE e Diretora da Revista
População e Sociedade (Edição do CEPESE). Publicou,
entre outros trabalhos, “Ocidente” - Imagens e Fronteiras
da Europa e da Cultura Ocidental (1938-1948) (In: Ideias de
Europa: que fronteiras? Maria Manuela Tavares Ribeiro
(Coord.). Coimbra: Quarteto Ed., 2004. Col. Estudos sobre
a Europa, 2004) e Caridade versus Filantropia - Sentimento
e Ideologia a propósito dos Terramotos da Andaluzia (1885)
(In: Estudos em Homenagem a Luís António de Oliveira
Ramos, v. 3, Porto, Faculdade de Letras da Universidade
do Porto, 2004). Tem experiência de pesquisa e docência
nas área de História Contemporânea, nas vertentes de
História Cultural, Política e das Ideias, bem como relações
históricas de Portugal com a Espanha e com o Brasil.

250
Desenvolve projetos de investigação sobre Relações
Históricas Portugal - Espanha na Época Contemporânea;
Emigração do Norte de Portugal para o Brasil (séculos
XIX-XX); Utopias Literárias e Pensamento Utópico: a
cultura portuguesa e a tradição intelectual do Ocidente.

Maria das Graças de Andrade Leal


Professora titular da graduação em História e professora
permanente da pós-graduação em História Regional
e Local da Universidade do Estado da Bahia (UNEB).
Doutora em História Social pela Pontifícia Universidade
Católica de São Paulo (PUC-SP) e Pós-doutora em História
pela Universidade do Porto. Tem publicado artigos e
livros - entre os quais A arte de ter um ofício: Liceu de Artes
e Ofícios da Bahia (1872-1996) (Liceu de Artes e Ofícios e
Fundação Odebrecht, 1996); Manuel Querino entre letras
e lutas: Bahia – 1851-1923) (Annablume, 2009) e Capítulos
de História da Bahia: novos enfoques, novas abordagens
(com MOREIRA, R. N. P.; CASTELLUCCI JUNIOR, W.,
Annablume, 2009). Atualmente desenvolve pesquisas nos
campos da história social e cultural do trabalho, política,
da biografia, memória, literatura e do patrimônio.

Ricardo Henrique Salles


Professor adjunto da Universidade Federal do Estado do
Rio de Janeiro (UNIRIO) e Bolsista de Produtividade em
Pesquisa do CNPq - Nível 2. Doutor em História pela
Universidade Federal Fluminense (2001) e desenvolve
pesquisas nas áreas da História do Brasil Império,

251
História do Século XIX, Escravidão Moderna, Formação
do Estado e da Nação e Teoria da História. Publicou,
entre outros trabalhos, História do Brasil II, volume 1 (com
Escosteguy Filho, J. C. ; MUAZE, Mariana. Rio de Janeiro:
Fundação CECIERJ, 2011); O Brasil Imperial, v. 3 (com
GRINBERG, Keila, Civilização Brasileira, 2009) e E o Vale
era o escravo. Vassouras - século XIX. Senhores e escravos no
Coração do Império (Civlização Brasileira, 2008).

252
Formato: 150 x 210 mm
Fonte: Book Antiqua, 12
Miolo: papel chamois bulk, 80 g/m 2
Capa: papel supremo, 250 g/m 2
Tiragem: 300
Impresso: julho 2012