Você está na página 1de 10

AS TRÊS FACES DO MODERNISMO EM MÁRIO DE ANDRADE O ESCREVER BRASILEIRO”, A NARRAÇÃO E A CULTURA ALEMÃ EM AMAR, VERBO INTRANSITIVO 1

CONSIDERAÇÕES INICIAIS

João Alfredo Ramos Bezerra 2 Lilian Kelly Ferreira Teixeira 3 Samara Silva Monteiro 4

Em 1927, Mário de Andrade publica a narrativa Amar, verbo intransitivo, obra escrita entre 1923-24 e terminada em 1926. A história trata de uma “lição de amar”: a imigrante alemã Elza é contratada como instrutora para a iniciação amorosa do jovem Carlos, único filho homem da família Sousa Costa. No decorrer da obra, diversos aspectos da sociedade paulista do início do século XX são apresentados: não apenas suas reações diante dos avanços notados tanto no âmbito tecnológico quanto no comportamental, mas também as influências recebidas de diversas partes do mundo a cada instante. Em Amar, verbo intransitivo, Mário de Andrade explora por trás de um título aparentemente isento de qualquer polêmica a vida da burguesia paulistana dos anos 1920 e o faz adotando os seguintes preceitos modernistas: escrever conforme a língua que o povo brasileiro fala; considerar o caráter fragmentário da época, refletindo-o no modo de narrar; e “apropriar-se” antropofagicamente do elemento estrangeiro. Tais aspectos serão os pontos sobre os quais se debruçará o presente ensaio.

1. O “Escrever Brasileiro”

"estralos", "compridas", "malacabada", "sabenças", "nunca jamais", "dezasseis", "assustadiças", "arre!", "desinfeliz", "assuntou".

Há quem diga que as palavras acima estão erradas, que pleonasmos não são aceitáveis,

1 Trabalho apresentado na disciplina Literatura Brasileira III, ministrada pela Profª Ms. Sayuri G. Matsuoka, como aproveitamento de créditos.

2 Graduando em Letras Português/ Inglês pela Universidade Federal do Ceará.

3 Graduanda em Letras Português/ Literatura pela Universidade Federal do Ceará.

que aglutinações são vícios e que algumas acima (“arre!”) não fazem sentido. São palavras extraídas de uma obra modernista e, de acordo com a visão do autor, não está errado. Isso se levarmos em consideração que a grande maioria dos brasileiros fala assim. É o linguajar de um povo distante da realidade burguesa, letrada, rica. E, de acordo com a realidade adversa e severa, que é a da maioria dos falantes do português do Brasil, está corretíssimo. Perfeitamente compreensível. É a gramática diária deles. Mais para uns que para outros, variando de acordo com a região. E esta foi a maneira que Mário de Andrade encontrou, injetando boas doses de regionalismos, vulgarismos, idiotismos, gíria e sintaxe pouco ortodoxa, para construir a linguagem do livro Amar, verbo intransitivo (1927) e fazer dele um experimento, um ensaio verbal para o que viria em seguida, que é a sua obra prima, pela qual é lembrado por todos: Macunaíma (1928).

O herói apanhava. Recebera já um murro de fazer sangue no nariz e um lapo fundo de txara no rabo. A icamiaba não tinha nem um arranhãozinho e cada gesto que fazia era mais sangue no corpo do herói soltando berros formidandos que diminuíam de medo os corpos dos passarinhos. Afinal se vendo nas amarelas porque não podia mesmo com a icamiaba, o herói deitou fugindo chamando pelos manos:

- Me acudam que sinão eu mato! me acudam que sinão eu mato!” (ANDRADE, s/d.,

p.13)

Há um certo despojamento, um espírito jovial. A leitura é fluida, íntima de um verbo que os populares usam e ele é rápido, porque econômico na fala. Prioriza a mensagem, formula a gramática de acordo com a necessidade da comunicação. Este é o estilo que Mário de Andrade utilizou para escrever oral, porque dessa maneira se aproximava ainda mais da identidade do brasileiro do cotidiano, e fluido porque evita palavras desconhecidas, aprimorando o estilo mais nacional por falar menos com as palavras da minoria e mais com o espírito do povo. Em carta a Manuel Bandeira, em outubro de 1924, provavelmente quando do término da primeira redação de Amar, verbo intransitivo, Mário de Andrade apresenta uma síntese de seu projeto e ressalta sua escolha:

O livro é uma mistura incrível. Tem tudo lá dentro. Crítica, teoria, psicologia e até romance: sou eu. E eu pesquisador. Pronomes oblíquos começando a frase, 'mandei ela' e coisas assim, não na boca de personagens, mas na minha direta pena. Fugi do sistema português. Que me importa que o livro seja falho. Meu destino não é ficar. Meu destino é lembrar que existem mais coisas que as vistas e ouvidas por todos. Se conseguir que se escreva brasileiro sem por isso ser caipira mas sistematizando erros diários de conversação, idiotismos brasileiros e sobretudo psicologia brasileira, já cumpri o meu destino. Que me importa ser louvado em 1985? O que eu quero é

viver a minha vida e ser louvado por mim nas noites antes de dormir. Daí: Fräulein. Confesso-te que sou feliz.” (ANDRADE, 1924 apud LOPEZ, 1981.)

Como se vê, para o ficcionista que busca a psique brasileira, a base é a língua falada, o que não coloca apenas a ideia de arte ligada à vida, mas também a ideia de som, de texto atento para a sonoridade. Estilo de escrever como se fala, registrando formas sonoras que foram colhidas de estudos e pesquisas que o autor fez com as camadas desfavorecidas, longe dos grandes centros urbanos, bem onde está a raiz da linguagem brasileira, pura, inculta e que funciona destarte a gramática e as imposições: "Está errado. Se fala assim e não assado", pontuando à medida que se pensa, tal como na fala. Narrador fiel ao fluxo do pensamento. Fiel à oralidade. Meio seco, às vezes, com a gramática tradicional, mas muito próximo ao povo e à sua realidade.

"Se impacientou. Quis pensar prático, e o almoço? Porque o criado não chegava? A senhora Sousa Costa avisara que o almoço era já. Devia de ser já. No entanto esperava fazia bem uns quinze minutos, que irregularidade. Olhou o relógio- pulseira. Marcava aluado como sempre, ponhamos seis horas. Ou dezoito, à escolha. Havia de acertá-lo outra vez quando chegasse em baixo no hol. Dez vezes, cem vezes. Inútil mandá-lo mais ao relojoeiro, mal sem cura. Em todo o caso sempre era relógio. Porém não teriam hora certa de almoçar naquela casa? Olhou pro céu. Ficou assim." (ANDRADE, 1944, p. 51)

Permeia a obra um olhar cinematográfico, um objetivismo de quem não tem outro interesse senão comunicar uma cena sem muitos floreios. Descreve a imagem, as ações de modo finito evitando a prolixidade. Em alguns momentos o personagem fez. Aconteceu. Ponto.

Lhe davam o lugar na Universidade

Ela arranja de novo a toalha sobre a mesa

(ANDRADE, 1944, p. 64)

A janta acabava

Ele atirava-se ao estudo

Temos concerto da Filarmônica amanhã”

A gramática portuguesa não comanda o escritor; sua linguagem está determinada por seu projeto literário que engloba naturalmente o projeto estético e o ideológico do modernista:

a construção de uma arte nacional, capaz de se alçar ainda que um dia ao universal, traduzindo, tocando verdades humanas.

"É coisa que se ensine o amor? Creio que não. Pode ser que sim. Fräulein tinha um método bem dela. O deus paciente o construíra, talqual os prisioneiros fazem essas

catitas cestinhas cheias de flores e de frutas coloridas. Tudo de miolo de pão, tão mimoso!" (ANDRADE, 1944, p. 63)

2. O Narrador e o Autor

Amar, verbo intransitivo pode ser considerada uma obra de pesquisa estética bastante significativa de Mário de Andrade. Em outras palavras, o autor não apenas produz um texto literário, mas também teoriza acerca do processo de escrita no decorrer do próprio livro. Isso ocorre nas passagens dedicadas às digressões do narrador: a partir de certos acontecimentos da narrativa, o narrador passa a “teorizar” sobre determinados aspectos que revelam seu ponto de vista em relação ao tempo em que vive e à sociedade na qual está inserido; em meio a tais aspectos, encontram-se reflexões sobre o processo de criação literária e a recepção da obra pelo leitor, questões essas que serão focalizadas neste tópico. A princípio, pode-se “tentar” classificar o narrador de Amar, verbo intransitivo como onisciente em 3ª pessoa e de caráter predominantemente descritivista dedicado à descrição dos acontecimentos. Porém certos traços revelados no decorrer da narrativa tornam essa classificação, de certa forma, redutora e questionável. Um desses traços diz respeito ao peso que é dado aos personagens. Eles são construídos no texto, mas crescem de tal maneira que a narração parece estar a serviço deles:

são os personagens que determinam o desenrolar dos fatos, e não a voz do narrador. Eis o efeito de sentido provocado por passagens como esta:

Aquilo de Fräulein falar que 'hoje a filosofia invadiu o terreno do amor' e mais duas ou três largadas que escaparam na fala dela, só vai servir pra dizerem que o meu personagem está mal construído e não concorda consigo mesmo. Me defendo já. Primeiro: Que mentira, meu Deus! dizerem Fräulein, personagem inventado por mim e por mim construído!não construí coisa nenhuma. Um dia Elza me apareceu, era uma quarta-feira, sem que eu a procurasse. Nem a invocasse, pois sou incréu de mesas volantes e de médiuns dicazes. ( ) Um dia, era uma quarta-feira, Fräulein apareceu diante de mim e se contou. O que disse aqui está com poucas vírgulas, vernaculização acomodatícia e ortografia. Os personagens, é possível que uma disposição particular e momentânea do meu espírito tenha aceitado as somas por eles apresentadas, essa toda a minha falta. Porém asseguro serem criaturas já feitas e que se moveram sem mim. São os personagens que escolhem os seus autores e não estes que constroem as suas heroínas. Virgulam-nas apenas, pra que os homens possam ter delas conhecimento suficiente. Segunda e mais forte razão: Afirmarem que Fräulein não concorda

Mas eu só queria saber neste mundo quem concorda consigo

consigo mesma

mesmo! Somos misturas incompletas, assustadoras incoerências, metades, três- quartos e quando muito nove-décimos. Até afirmo não existir uma só pessoa perfeita, de São Paulo a São Paulo, a gente fazendo toda a volta deste globo, com expressiva justeza adjetivadora, chamado de terráqueo.” (ANDRADE, 1944, p. 79)

Na citação acima, os personagens são descritos como seres dotados de autonomia que exercem influência direta sobre a narrativa. Além de personagens, são também construtores do texto. Tais reflexões feitas pelo narrador no decorrer da obra conferem a Amar, verbo intransitivo um matiz de simultaneidade, graças à característica da escrita automática, a qual, segundo Alfredo Bosi, está presente em Mário de Andrade e diz respeito a uma teoria “( ) que os surrealistas pregavam como forma de liberar as zonas noturnas do psiquismo, únicas fontes autênticas de poesia.” (BOSI, 1994, p. 347-348). Esse efeito de simultaneidade da construção textual acaba por descentralizar o processo de criação literária, expandindo a “autoria” também para o leitor. Em outras palavras, Mário de Andrade estrutura de tal maneira seu livro que articula as semelhanças entre as figuras do Narrador e do Autor de modo a construir uma ambiguidade entre elas e a conferir à leitura um papel de destaque para a compreensão da obra. Isso pode ser exemplificado na passagem que segue:

Não vejo razão pra me chamarem vaidoso se imagino que o meu livro tem neste momento cinqüenta leitores. Comigo 51. Ninguém duvide: esse um que lê com mais compreensão e entusiasmo um escrito é autor dele. ( ) Volto a afirmar que o meu livro tem 50 leitores. Comigo 51. Não é muito não. Cinqüenta exemplares distribuí com dedicatórias gentilíssimas. Ora dentre cinqüenta presenteados, não tem exagero algum supor que ao menos 5 hão de ler o livro. Cinco leitores. Tenho, salvo omissão, 45 inimigos. Esses lerão meu livro, juro. E a lotação do bonde se completa. Pois toquemos para a avenida Higienópolis!” (ANDRADE, 1944, p. 57)

No fragmento acima, o Narrador relaciona a si mesmo atividades que diriam respeito ao Autor biográfico Mário de Andrade, como o tratamento do texto enquanto “o meu livro”, a distribuição dos exemplares, as dedicatórias e a presença de leitores. Esta última atividade citada tem um papel crucial para a obra Amar, verbo intransitivo, o qual pode ser exemplificado no trecho a seguir:

Se este livro conta 51 leitores sucede que neste lugar da leitura já existem 51 Elzas. É bem desagradável, mas logo depois da primeira cena cada um tinha a Fräulein dele na imaginação. Contra isso não posso nada e teria sido indiscreto se antes de qualquer familiaridade com a moça a minuciasse em todos os seus pormenores físicos, não faço isso. Outro mal apareceu: cada um criou Fräulein segundo a própria fantasia, e temos atualmente 51 heroínas pra um só idílio. 51, com a minha, que também vale. Vale, porém não tenho a mínima intenção de exigir dos leitores o abandono de suas Elzas e impor a minha como única de existência real. O leitor continuará com a dele. Apenas por curiosidade, vamos cotejá-las agora. Pra isso mostro a minha nos 35 janeiros dela.” (ANDRADE, 1944, p. 57)

Nessa passagem é importante ressaltar que o narrador estabelece uma equiparação entre a Fräulein que será descrita por ele e as Fräuleins que surgirão na imaginação dos

leitores – “51, com a minha, que também vale.” –, ou seja, ele não quer impor de imediato uma descrição sem reconhecer antes o papel desempenhado por aqueles que lerão o texto os quais, por fim, serão também seus autores e a liberdade da personagem dentro da obra,

característica já citada anteriormente – “ (

familiaridade com a moça a minuciasse em todos os seus pormenores físicos, não faço isso.”. Tal liberdade é tão marcada no texto que, em determinados trechos o narrador hesita se deve ou não proceder à narração devido ao acontecimento que será narrado. O fragmento a seguir, por exemplo, trata de uma cena íntima entre Fräulein e Carlos. O narrador assim procede:

teria sido indiscreto se antes de qualquer

)

Aqui devem-se trocar naturalmente umas primeiras frases de explicação se ele

der espaço para tanto entre os dois! porém obedeço a várias razões que obrigam- me a não contar a cena do quarto. Mas como nos será impossível dormir, ao leitor e

a mim, ambos naquela torcida pelo triunfo de Carlos, vamos gastar este resto de noite resolvendo uma questão pançuda: Quais eram de fato as relações entre Fräulein e o criado japonês? Inimigos? Quem me falou que eles se entendem? ” (ANDRADE, 1944, p. 97)

O tratamento dado por Mário de Andrade à narração de Amar, verbo intransitivo no que tange ao efeito de simultaneidade da escrita e ao constante diálogo com o leitor faz lembrar o procedimento estilístico de Machado de Assis em Memórias Póstumas de Brás Cubas, como se pode verificar no excerto a seguir, retirado do capítulo “O Senão do Livro”:

Começo a arrepender-me deste livro. Não que ele me canse; eu não tenho que fazer; e, realmente, expedir alguns magros capítulos para esse mundo sempre é tarefa que distrai um pouco da eternidade. Mas o livro é enfadonho, cheira a sepulcro, traz certa contração cadavérica; vício grave e, aliás, ínfimo, porque o maior defeito deste livro és tu, leitor. Tu tens pressa de envelhecer e o livro anda

devagar; tu amas a narração direita e nutrida, o estilo regular e fluente e este livro e

o meu estilo são como os ébrios, guinam à direita e à esquerda, andam e param, resmungam, urram, gargalham, ameaçam o céu, escorregam e caem.” (MACHADO DE ASSIS, 2004, p. 118-119.)

É notável o destaque que ambos os livros dão à figura do leitor e à proximidade entre narrador e autor. Porém faz-se necessário apontar uma diferença crucial entre os dois: a identidade do narrador. Ainda que tanto no texto machadiano quanto no de Mário de Andrade seja perceptível uma relação de proximidade entre narrador e autor, na primeira narrativa encontramos um narrador identificado que foi criado por Machado de Assis: Brás Cubas. Este conta suas memórias, mas é sabido que não é seu autor efetivo, pois a autoria do texto é do escritor carioca, o qual teve existência real, ao contrário de seu narrador. No caso de Amar, verbo intransitivo, a situação é distinta, pois o fato de não haver identificação alguma do

narrador contribui não apenas para o crescimento da ambiguidade entre ele e o autor biográfico, mas também para uma maior proximidade entre leitor e obra, tendo em vista que o

texto passa ao leitor a sensação de que se está conversando diretamente com o autor da obra.

A síntese de todas essas características da narrativa de Mário de Andrade resulta numa

obra que, ao ver de Flávio Loureiro Chaves (1970), representa bem o caráter fragmentário e polifônico dos “tempos modernos”:

Desaparece o narrador onisciente, recusa-se a unidade narrativa enquanto caminho exclusivo para a construção do personagem, nega-se ao leitor a posição de mero observador. Passa-se a explorar, isto sim, aquele rico 'potencial das zonas

indeterminadas' (

).”

(CHAVES, 1970, p. 29)

Tais “tempos modernos” são revelados por Mário de Andrade não apenas através de sua linguagem ou de seu procedimento estético, mas também de sua observação, enquanto ser histórico, das influências culturais pelas quais passava o Brasil do início do século XX, temática que será abordada no tópico seguinte.

3. A Cultura Alemã na Obra: Zwischen den Zeilen

O primeiro motivo pelo qual podemos destacar o porquê do interesse de Mário de

Andrade pelo idioma alemão é que o autor queria conhecer mais a arte e a literatura desse

povo, mais especificamente o Expressionismo. Além de se “desintoxicar do exagerado francesismo do ser” (ANDRADE, 1972, p. 314-315). Com o alemão, foi possível a leitura dos clássicos e a aproximação dos movimentos artísticos.

A língua alemã não é uma língua tão fácil de se entender ou de se traduzir. O fato de

alguns vocábulos surgirem a partir da junção de outros dois (ou mais) é bem característico. A união de das Feuer (o fogo) com das Zeug (a coisa), formando das Feuerzeug gera “o isqueiro”, ou seja, “a coisa de fogo”. Isso é um feito ótimo para a Literatura, podendo gerar não apenas interpretações variadas, mas também outros recursos, como neologismos e rimas, os quais nem todas as línguas podem acompanhar. Mário de Andrade desperta um interesse por essa língua e reflete a sua aprendizagem, principalmente em Amar, verbo intransitivo . Foi ainda com o auxílio do alemão que o autor chegou a Macunaíma, a partir de escritos do etnólogo Theodor Koch-Grünberg, como Vom Roroima zum Orinoco, a obra Indianern arehen aus Südamerika (de onde o título foi tirado do texto “Makunaíma und Pia”).

O alemão, em contraste com a cultura brasileira, é bem diferente das outras línguas. O

francês é essencial à educação, o inglês começa a se tornar importante com o crescimento da influência dos Estados Unidos no cenário mundial, o italiano é utilizado pelas massas de trabalhadores em São Paulo. Já o alemão, fragmentado na própria Alemanha, é um pouco isolado na região sul brasileira, não ganhando tanto destaque. No romance, o idioma refletirá tanto esse isolamento quanto será essencial na construção psicológica da personagem principal, a Fräulein. Como caracterização do alemão (nacionalidade), Mário considera duas faces: o homem-da-vida, “espécie prática do homem que Sócrates se dizia” (ANDRADE, 1944, p.59), e o homem-do-sonho, “o cujo que sonha, trapalhão, obscuro, nostalgicamente filosófico, religioso, idealista incorrigível, muito sério, agarrado com a pátria, com a família, sincero e 120 quilos” (ANDRADE, 1944, p.59-60). O primeiro é aquele que se adapta; o outro é imutável. A mistura dos dois gerava Fräulein. Há ainda os estudos de Freud e sua psicanálise, em alemão. Na obra temos a Fräulein, contratada como professora de alemão e piano e como “professora-de-amor” para Carlos. E todo o desenlace desse amor dá-se durante as aulas de alemão. Segundo a estudiosa Pincherle:

Mas há um uso ainda mais profundo da língua no seu aspecto “privado”: o recurso psicanalítico, freudiano, ao lapso como a um sinal revelador de desejos ou medos inconscientes dos protagonistas. Dado que as lições de alemão coincidem com as aulas de amor é natural que Fräulein aproveite o ato da correção como um instrumento de aproximação e cumplicidade, criando um contato sensual com seu aluno. E, sutilmente, o autor escolhe termos significativos para sublinhar o momento crucial. (PINCHERLE, 2008, p.128)

O fato da correção é usado nas passagens em que a língua é fundamental. Ao final de um poema de Heine, Carlos escreve errado e Fräulein usa sua mão por cima da mão do menino para fazê-lo corrigir. Em outra ocasião, Carlos questiona-se acerca da grafia de uma palavra e Fräulein, novamente, entra em contato físico com ele. No final da cena, ocorre o primeiro beijo entre os dois. Ainda segundo Pincherle:

Nos dois casos, a palavra correta põe fim a um momento de forte tensão. Mas além desta função narrativa, há sempre um valor simbólico dos termos alemães, encerrado em seu próprio significado. O aluno de alemão e de amor é ainda um principiante em ambos os domínios: sua hesitação sobre a grafia das palavras corresponde ao fato de que ele ignora seu sentido real, da mesma forma que não entende a natureza dos próprios sentimentos. Ignora o “sossego nas profundezas” do sentimento por Fräulein e que este sentimento é “desejo”. Seu guia, conduzindo-o fisicamente à grafia correta das palavras, leva-o, ao mesmo tempo, a tomar consciência de seu sentido verdadeiro. Significante e significado são iluminados ao mesmo tempo.

(PINCHERLE, 2008, p.129)

Outro momento em que a língua alemã é muito importante é quando Fräulein e Carlos sabem o significado, porém esqueceram a tradução da palavra Geheimnis (segredo). O uso da palavra causa um efeito, o qual somente o português não conseguiria. Os dois esqueceram como traduzir Geheimnis e ficaram inquietos por isso. Depois de um momento (de isolamento) não há o que temer, já que apenas significa “segredo”, não significando o segredo deles dois. A autora conclui em seu estudo:

Por um processo de aprofundamento progressivo no pensamento e na linguagem dos personagens, Mário chega a insinuar-se no fundo da alma deles e a mostrá-la a seu público através de termos estrangeiros. Estes, alheios ao narrador, são por isso ainda mais contundentes, adquirindo sentidos duplos ou múltiplos e ressoando, não só com suas conotações evidentes, mas também com seus valores escondidos. (PINCHERLE, 2008, p.130)

O uso que Mário faz do alemão vai além de um simples jogo de palavras. A língua alemã, como já foi dito antes, não é fácil de traduzir e dá abertura para diversas interpretações, deixando coisas subentendidas ou, como em bom alemão, Zwischen den Zeilen nas entrelinhas.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

A obra de Mário de Andrade apresenta uma riqueza e uma diversidade que não caberiam no espaço de um ensaio. O próprio livro por nós trabalhado, Amar, verbo intransitivo, possui ainda muitas peculiaridades que não foram contempladas devido às limitações deste trabalho, mas que poderão ser um ponto de partida para futuras pesquisas acerca das produções legadas por um dos escritores mais destacados da Semana de Arte Moderna. Gostaríamos de ressaltar, por fim, que Amar, verbo intransitivo vai muito além do idílio designado no subtítulo do livro. Trata-se de uma obra que aborda questões crucias presentes na sociedade brasileira do início do século XX. Sejam elas de ordem cultural devido ao contato com o estrangeiro e com os avanços da modernidade , estético-literária graças ao advento do Modernismo ou simplesmente humana com aspectos que, ultrapassando fronteiras, instigavam o homem universal, não apenas o brasileiro , deve-se

atentar para o fato de que, acima de tudo, foram reveladas a nós através de uma das maneiras

mais eficazes para se transmitir a essência de um tempo: a arte. E ela é quem as levará às

gerações posteriores.

REFERÊNCIAS

ANDRADE, Mário de. Amar, verbo intransitivo. 16ª ed. Belo Horizonte: Vila Rica, 1944. Macunaíma. Série Arca Literária. s/d. Livro eletrônico disponível em:

<http://acasadoebook.blogspot.com/2009/05/download-macunaima-mario-de-andrade.html>,

acesso em 05/06/10, às 19:45. Teutos mas músicos. (Artigo para O Estado de São Paulo de 1939). Agora em ANDRADE, Mário de. Música doce música. São Paulo: Martins, 1972.

BOSI, Alfredo. História Concisa da Literatura Brasileira. São Paulo: Cultrix, 1994. CHAVES, Flávio Loureiro. Contribuições de Oswald e Mário de Andrade no Romance Brasileiro. In: CHAVES, F. L. (et all.). Aspectos do Modernismo Brasileiro. Porto Alegre:

Editora da UFRS, 1970. LOPEZ, Telê Porto A. Uma difícil conjugação [introdução]. Mongaguá, dezembro de 1981. In: ANDRADE, Mário de. Amar, verbo intransitivo. 16ª Ed. Belo Horizonte: Vila Rica, 1944 (data da 1ª edição). MACHADO DE ASSIS. Memórias Póstumas de Brás Cubas. São Paulo: Gold Editora, 2004. PINCHERLE, Maria Caterina. "O linguajar multifário": os estrangeiros e suas línguas na

ficção de Mário de Andrade. Disponível

<http://www.revistasusp.sibi.usp.br/pdf/rieb/n47/a07n47.pdf >, acesso em 03/06/10, às 13:22.

online

em: