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DOCÊNCIA MAÇÔNICA

APRENDIZ MAÇOM
MÓDULO 1

Os Metais
Os simples enganam-se menos, em sua ignorância cândida, que os
soberbos em seu saber pretensioso. Descartes, em seu método, prescreve
ao filósofo começar esquecendo-se de tudo aquilo que ele sabe, a fim de
reduzir seu intelecto à tabula rasa. É uma ignorância querida que se torna o
começo do verdadeiro conhecimento; o despojamento dos metais faz alusão
a esse empobrecimento intencional, graças ao qual o espírito,
desembaraçado de todos os falsos bens, prepara-se para a aquisição de
incontestáveis riquezas.
Para tornar-se Franco-Maçom, é preciso começar por despojar-se de
seus metais. Aplicada em todas as Lojas, esta regra parece remontar a
uma prodigiosa antiguidade, pois que, num poema babilônico que já
passava por muito antigo há cinco mil anos, a deusa Ishtar nos é mostrada
constrangida a depositar, sucessivamente, seus adornos, a fim de poder
franquear as sete muralhas do mundo infernal e comparecer nua perante
sua irmã, a temível rainha da morada dos mortos.

Que significa a renúncia aos metais? Vê-se aí o símbolo de um


empobrecimento voluntário, porque se diz que os ricos não entram no
Reino de Deus, o que, filosoficamente, se aplica aos afortunados da
inteligência, satisfeitos daquilo que possuem e muito apegados aos seus
bens para deles se desfazerem e trabalharem na aquisição de riquezas de
valor mais efetivo. O metal brilha, ele deslumbra e presta-se às trocas, de
onde o seu poder de compra que se estende até as consciências. É assim
que o ouro e a prata fazem ofício de agentes de corrupção, enquanto o
bronze e o ferro tornaram mais mortais as lutas entre os seres humanos. É
surpreendente, nessas condições, que os antigos moralistas hajam
lamentado a idade anterior ao uso dos metais? Eles atribuíram aos metais
todas as perversões, de forma que o retorno ao estado de candura, de
inocência e de pureza fosse figurado em sua linguagem alegórica por uma
renúncia aos metais.
O metal lembra, além disso, aquilo que é artificial e que não pertence
à natureza original do homem; ele é o símbolo da civilização que faz pagar
caro aos humanos as vantagens que ela proporciona. O civilizado ignora
aquilo que perdeu; é preciso, todavia, que ele saiba disso, para
reconquistar as virtudes primitivas. Ele nem sempre é tornado melhor pela
instrução, e numerosos vícios, ignorados pelo selvagem, são nele
desenvolvidos. Uma associação visando à melhora dos indivíduos e,
através deles, à melhora da sociedade humana, deve esforçar-se para
remediar as perversões consecutivas aos progressos das artes e das
ciências.

Não se trata, todavia, de uma reintegração tal como entendem certas


escolas. A conquista de um paraíso, análogo àquele do qual foi expulsa a
humanidade primitiva, não é uma perspectiva do amanhã; não pode se
tratar senão que do despertar de faculdades naturais, das quais a vida
civilizada não exige mais o emprego. A perda dessas faculdades nos
coloca em inferioridade, quando somos chamados a compreender outra
coisa além de frases. Ora, como a sabedoria fundamental do gênero
humano é independente dos modos de expressão de nossa época, é
preciso, para iniciar-se nos mistérios dessa sabedoria, começar por uma
renúncia aos processos modernos, que nos levam a brincar com as
palavras de cujo valor nós abusamos.

Os homens pensaram antes de possuir uma linguagem filosófica,


antes de adotarem termos pesquisados, adaptando-se às concepções
abstratas. Desde que sua inteligência despertou espontaneamente, eles
foram levados a refletir sobre o mistério das coisas. Aquilo que lhes vem
ao espírito, fora de toda sugestão anterior, merece ser procurado por nós,
que aspiramos nos afastar dos erros acumulados, em meio aos quais nos
debatemos. O primitivo não era um estúpido e, se nós remontarmos à
fonte de sua inspiração, não poderemos senão admirar sua instintiva
lucidez. É preciso que nos tornemos lúcidos por nossa vez, colocando-nos
em condições nas quais, afastados de toda experiência convencional,
nosso espírito reencontre sua original impressionabilidade receptiva.

Os simples enganam-se menos, em sua ignorância cândida, que os


soberbos em seu saber pretensioso. Descartes, em seu método, prescreve
ao filósofo começar esquecendo-se de tudo aquilo que ele sabe, a fim de
reduzir seu intelecto à tabula rasa. É uma ignorância querida que se torna
o começo do verdadeiro conhecimento; o despojamento dos metais faz
alusão a esse empobrecimento intencional, graças ao qual o espírito,
desembaraçado de todos os falsos bens, prepara-se para a aquisição de
incontestáveis riquezas.

Um símbolo não vale senão por aquilo que ele significa; não é, pois,
de tomar-se como trágica uma prescrição tradicional. O gesto ritualístico é
apenas a imagem de uma operação mental que unicamente importa na
realidade. Infelizmente, a materialidade do rito é suficiente para a maioria
dos Franco-Maçons que, não havendo jamais sonhado em despojar-se de
seus metais em espírito e verdade, excluem-se a si mesmos da efetiva
Iniciação maçônica.

Não há lugar, no começo da Iniciação, para ver os metais sob os


múltiplos aspectos de seu simbolismo. O programa iniciático é gradual. O
estudo dos números prossegue normalmente, partindo da Unidade para
chegar ao Setenário após uma preparação. Ora, os Metais-Planetas
figuram as causas segundas, coordenadoras do caos. O Companheiro
penetra-se das leis de sua ação para elevar-se ao Mestrado; quanto ao
recipiendário, ele não irá além daquilo que sugere a deposição dos metais,
vistos como fazendo obstáculo ao exercício das faculdades intelectuais
que o homem possuiu em estado de natureza. Estas faculdades se
manifestam por uma acuidade de percepção que fazia o primitivo adivinhar
aquilo que o civilizado não chega a conceber. Tudo é símbolo para o
espírito ingênuo posto em presença de fenômenos naturais: a criança
possui o sentido de uma poesia que o adulto erra em desdenhar, porque a
prosa está longe de reinar sozinha no universo. A revelação mais antiga e
mais sagrada liga-se a idéias que nascem delas mesmas em intelecto
virginal. Retornemos ao frescor original de nossas impressões, se
aspiramos a nos iniciar. Initium significa começo; saibamos, pois,
recomeçar para entrar na boa via.
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APRENDIZ MAÇOM
MÓDULO 2

A Descida aos Infernos


Para distinguir-se da multidão que permanece supérflua em sua
maneira de pensar, convém aprender a meditar profundamente. Para esse
efeito, o isolamento silencioso impõe-se, porque nós não podemos seguir o
curso de nossos pensamentos, senão evitando aquilo que nos distrai;
retirar-se para a solidão foi, pois, outrora, o primeiro ato do aspirante à
sabedoria. Fugir do tumulto dos vivos para refugiar-se perto dos mortos, a
fim de inspirar-se naquilo que eles sabem melhor do que nós, tal nos
parece haver sido o instinto dos mais antigos adeptos da Arte de pensar.

A deusa da Vida, a grande Ishtar, instruía os sábios por seu


exemplo, quando, voltando seu rosto na direção do país sem retorno, ela
renuncia aos esplendores do mundo exterior para penetrar nas trevas de
Aralou. É preciso descer a si para iniciar-se. Os heróis mitológicos, cujas
explorações subterrâneas nos são poeticamente contadas, foram Iniciados
vitoriosos do ciclo das provas inelutáveis.

Na realidade, o Inferno dos filósofos não é outro senão o mundo


interior que trazemos em nós. É o interior da terra, ao qual se reporta o
preceito alquímico: Visita Interioria Terrae, Rectificando Invenies Occultum
Lapidem, frase cujas palavras têm por inicial as sete letras de Vitriol. Esta
substância devia levar o Hermetista a visitar seu próprio interior, a fim de aí
descobrir, em retificando, a Pedra escondida dos Sábios. Trata-se de uma
pedra cúbica que se forma no centro do ser pensante, quando ele toma
consciência da certeza fundamental em torno da qual se realizará a
cristalização construtiva do Templo de suas convicções.
Ao despojamento maçônico dos metais corresponde, em Alquimia, a
limpeza do indivíduo, ao qual nada deve aderir que seja estranho à sua
substância. Tomada tal precaução, o indivíduo é introduzido no Ovo
filosófico, onde ele será incubado até sua eclosão.

Em Maçonaria, o Ovo hermeticamente fechado, onde o indivíduo é


chamado a morrer e a decompor-se, toma o aspecto de uma cripta
funerária dita Câmara de Reflexões. É de ordinário um espaço reduzido,
organizado num porão, cujas paredes negras trazem, em branco,
inscrições do gênero das seguintes:

Se é a curiosidade que aqui te conduz, vai-te.


Se temes ser esclarecido sobre teus defeitos, estarás mal entre nós.
E és capaz de dissimulação, treme, serás descoberto.
Se te aténs às distinções humanas, sai; aqui não se reconhece
nenhuma delas.
Se tua alma sente pavor, não vá mais longe.
Se perseverares, serás purificado pelos elementos, sairás do abismo
das trevas, verás a luz.

Encerrado nesse lugar, o recipiendário despojado de seus metais


senta-se diante de uma pequena mesa, em em face de uma caveira
cercada por duas taças, uma delas contendo sal e outra, enxofre. Um pão,
um cântaro com água e material necessário à escrita completam as
ferramentas do in pace, onde o prisioneiro deve preparar-se para morrer
voluntariamente.

As frases que pode ler e os objetos que surpreendem sua visão à luz
de uma lâmpada funerária levam ao recolhimento. Se o recipiendário entra
no espírito da mise em scène ritualística, ele esquecerá o mundo exterior
para voltar-se sobre si mesmo. Tudo aquilo que é ilusório e vão apaga-se
diante da realidade viva que o indivíduo traz dentro de si. No fundo de nós
reside a consciência; escutemo-la. Que responde ela às três questões que
se colocam ao futuro iniciado? Quais são os deveres do homem em
relação a Deus, a ele mesmo e a seus semelhantes?

Deus é uma palavra que não poderia ser retirada da linguagem dos
sábios, porque a inteligência humana se consome em esforços constantes
para conceber o divino. Representações grosseiras tem tido lugar, no
decorrer de inumeráveis séculos, chegaram idéias mais sutis, mas o
enigma do Ser permanece sem solução. Nenhum pensador adivinhou a
palavra daquele que é, e, quando hierogramas nos são propostos como
solução, esses não são senão símbolos de um indecifrável Desconhecido.
Deus permanece o “x” de uma irredutível equação.

O aspirante à luz aí verá a tradução da homenagem rendida pelo


homem àquilo que sente acima dele. Seria razoável atribuirmo-nos o mais
alto lugar na escala dos seres, a nós, miseráveis parasitas de um globo
ínfimo perdido da imensidão cósmica? Somos menos que o grão de areia
arrastado pelo vento que sopra numa praia. Se existimos, é em razão
daquilo que repercute em nós: forças que estão tão pouco sob nosso
controle que nem mesmo as conhecemos. Perguntemo-nos, pois, com
toda humildade, o que devemos àquilo que está acima de nós?

O simbolismo maçônico sugere que tudo se constrói e que a tarefa


dos seres é construtiva. Um imenso trabalho realiza-se no universo e o
gênero humano dele participa à sua maneira. O dever do homem é, pois,
trabalhar humanamente, cumprindo a tarefa que lhe é assinada. Isso
equivale dizer, em linguagem mística: meu dever em relação a Deus é o de
conformar-me à sua vontade, em vista de associar-me à sua obra de
criação que é eterna. Eu desejo ser o agente dócil, enérgico e inteligente
do Arquiteto que dirige a evolução e assegura o progresso. Tenho, em
relação a mim mesmo, o dever de desenvolver-me pela instrução e
aplicação ao trabalho; enfim, eu devo a meus semelhantes ajudá-los a
instruir-se e a bem trabalhar.

Quando o recipiendário está assim orientado, ele liquida seu


passado profano, redigindo seu testamento. Despojado de seus metais, ele
não possui mais nada que possa legar. De que pode dispor então, a não
ser dele mesmo e de sua energia ativa? Ele testa, renunciando aos erros
passados, tomando irrevogáveis resoluções para o amanhã.

O sal e o enxofre da câmara de reflexões têm por que intrigar ao


recipiendário entranho à Alquimia. Essas substâncias fazem parte de um
ternário que se completa pelo mercúrio. Tudo, segundo o Hermetismo,
compõe-se de enxofre, mercúrio e sal, mas estes três princípios fazem
alusão:

1º. À energia expansiva inerente a toda individualidade;


2º. À esta mesma energia proveniente de influências ambientais que
se concentram sobre a individualidade;
3º. À esfera de equilíbrio resultante da neutralização da ação
sulforosa centrípeta penetrante e compressiva.

O isolamento, a subtração às influências exteriores condenam à


morte o indivíduo privado do enxofre mercurial que mantém a vida.
Quando o enxofre queima num invólucro de sal tornado impenetrável ao ar
que mantém o fogo vital, tende a extinguir-se, reduzido a incubar-se sob as
cinzas salinas. Tal é precisamente o estado do recipiendário que sofre a
prova da Terra; ele é enterrado no solo, como o grão chamado a germinar.
É preciso que seu núcleo espiritual desdobre-se interiormente, tomando
posse de sua caverna sulforosa. Comecemos por reinar sobre nosso
Inferno, se quisermos sair para conquistar o céu e a terra.
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APRENDIZ MAÇOM
MÓDULO 3

Atenção! O presente texto tem a peculiaridade de referir-se à marcha


que se inicia com o p.'. d.'., e não com o e.'., como praticado em nossa
Potência. Todavia, em respeito ao autor e ao seu pensamento, conservamos
a mensagem em seu caráter original. Assim, aconselhamos os dirigentes da
Oficina a formularem tal advertência, lembrando a todos a obediência devida
ao nosso Ritual.

Os Segredos do Aprendiz

A primeira coisa que aprende um Maçom após haver sido “vestido” é a


atitude maçônica pela qual ele se afirma Aprendiz. De pé, ele se mantém
direito, a cabeça erguida, o olhar firme dirigido bem à frente. O braço
esquerdo pende ao longo do corpo, enquanto o direito dobrado leva à
garganta a mão que afirma: prefiro morrer a trair meu juramento. O peito
retrai-se ligeiramente, porque o pé direito está à frente, formando o
esquadro com o esquerdo que o apóia.

Essa atitude simbólica resume todo o programa do grau de Aprendiz.


Manter-se orgulhosamente de pé é afirmar-se como homem adulto,
havendo ultrapassado a infância ainda prosternada em direção a terra à
maneira dos quadrúpedes. O Iniciado renega as tendências animais,
porque ele entende tornar-se homem heroicamente. Está prestes a
caminhar com o pé direito, que é aquele do discernimento racional, porque
se dirige de acordo com aquilo que ele mesmo concebe, e não de acordo
com seus pressentimentos, indicações que subordina às constatações
positivas (pé esquerdo apoiando o pé direito que avança sempre primeiro
para a execução do passo ritualístico).

O braço esquerdo resta passivo, porque o Aprendiz não usa sua


sensitividade, fonte de faculdades de assimilação intuitiva. Ele não se
beneficiará de dons lunares senão após haver desenvolvido plenamente
suas aptidões solares; esses dons residem nele e traduzem-se em talentos
que importa cultivar com método. A Arte não faz apelo, primeiramente, à
genialidade baseada sobre uma longa experiência, e o iniciante deve
dobrar-se à disciplina de uma técnica árida. Longe de pretender seguir sua
inspiração, ele tende a submeter-se a regras rigorosas que fazem suas
provas. Mantendo sua imaginação em reserva enquanto aprendiz-
pensador, é-lhe preciso aprender a raciocinar severamente antes de
abandonar-se ao sonho.

É isso que exprime a mão direita dominando o tórax para domar sua
ebulição. Nada daquilo que ruge no domínio da sensibilidade deve obter
acesso ao cérebro do Iniciado, onde a calma é indispensável às
deliberações frutuosas. Um agitado não saberia pensar justamente;
conseqüentemente, a aquisição da serenidade cerebral impõe-se desde o
começo da iniciação.

Observemos aqui o erro dos processos que exploram uma forma qualquer
de exaltação. Os excitantes que provocam um funcionamento artificial do
cérebro estão proscritos a quem quer pensar de maneira sã. Nós não
pensamos com justeza senão em perfeita calma, calma que os Maçons
procuram realizar em Loja, quando se colocam “a coberto”. O cérebro do
Aprendiz é, ele também, uma oficina a ser preservada da agitação exterior:
ele não funcionará bem se as paixões para aí aportarem qualquer
perturbação.

Por sua atitude imóvel, o Aprendiz faz-se reconhecer, de qualquer sorte,


passivamente. Limita-se a prestar atenção ao seu juramento de calar-se.
Se um gesto idêntico ao seu encorajar-lhe, ele executará o sinal de
Aprendiz que desenha um esquadro. Ele afirmará desse modo que seus
atos visam à concórdia entre os homens e que eles têm a correção exigida
dos adeptos da Grande Obra. Uma resposta dada da mesma maneira
incita os Irmãos a que se reconheçam, estendendo a mão. Eles confirmam
então seu sinal pelo toque.

Para muitos Maçons, o grande segredo da confraria reside na maneira de


apertar a mão entre os iniciados. Os membros das antigas
confraternidades jamais traíram esse segredo, visto como mais
particularmente sagrado. Os Maçons especulativos foram menos
escrupulosos. Tanto é assim que, decepcionados pela Maçonaria
especulativa, não quiseram ver aí senão uma mistificação que eles se
acreditaram no direito de denunciar publicamente; assim foram divulgados
os segredos de forma, de importância, no fundo, muito secundária. Um
iniciável pode muito bem se fazer Maçom ele mesmo, em espírito e
verdade, sem preocupar-se minimamente com os pequenos mistérios
revelados em Loja.

Quando se diz que um Maçom se reconhece por seus sinais, palavras e


toques, é preciso entender o que isso significa do ponto de vista esotérico.
Os verdadeiros sinais não são outros senão os atos da vida real. O Maçom
agirá sempre equilibradamente, como homem que tende a comportar-se
em relação a outrem como ele deseja que os outros se comportem em
relação a ele próprio. O Iniciado na Arte de viver distingue-se dos profanos
por sua maneira de viver: se ele não viver melhor que a massa frívola ou
vulgar, sua pretensa iniciação revela-se fictícia, a despeito das belas
atitudes que finge.

As palavras são, ritualisticamente, palavras de passe e palavras sagradas


que se assopram no ouvido com precauções minuciosas. Aqui ainda a
materialidade do segredo não tem senão um valor mesquinho. A palavra
sagrada do Aprendiz relaciona-se ao nome dado pela Bíblia a uma das
duas colunas de bronze que flanqueavam a entrada principal do Templo de
Salomão. Trata-se da coluna da direita, vista como masculina e ígnea, em
oposição àquela da esquerda, tornada feminina e aérea, porque essas
duas colunas têm sido comparadas àquelas da travessia do Mar Vermelho,
das quais uma era de fogo e via-se à noite, enquanto a outra, monte de
nuvens, guiava os israelitas durante o dia.

O que é significativo é a maneira de soletrar, letra por letra, o nome da


primeira coluna. O instrutor coloca o neófito no caminho, pronunciando a
inicial; depois, espera que a segunda letra seja adivinhada antes de revelar
a terceira que deve sugerir a quarta.

Se a palavra sagrada não se pronuncia, é porque faz alusão àquilo que


não é exprimível e não se presta a nenhuma exposição doutrinal. É por si
mesmo que o Aprendiz deve esforçar-se por pensar; nada poderia, pois,
ser-lhe ditado ou inculcado, ainda menos, demonstrado. Se uma noção é
expressa diante dele, não o é para que ele aí se detenha, mas, ao
contrário, para que ele daí parta na perseguição de suas próprias idéias.
Desde que prove que soube refletir e descobrir por ele mesmo aquilo que
outros já encontraram, será encorajado a seguir pelo bom caminho através
da revelação de uma nova percepção orientadora. Os Iniciados não são
depositários de nenhum dogma; eles procuram eternamente a verdade
sem preconceitos e não se ligam a nenhuma revelação, a não ser àquela
do espírito humano funcionando normalmente nas condições mais
favoráveis à percepção não influenciada do verdadeiro. Se, chamado a
meditar por mim mesmo, imparcialmente, as idéias que me vêm
concordarem com aquelas de outros pensadores independentes, esta
concordância é a melhor garantia que posso ambicionar. O que pensam
mais universalmente os homens calmos, refletidos e aplicados na procura
da verdade reúne o máximo de garantia do verossímil, sobretudo se se
tratarem de pensamentos profundos, percebidos diretamente pelo
pensador. É o pensamento espontâneo, mais precioso em sua
originalidade nativa, anterior à expressão que o deforma. Este pensamento
aparece vivo em sua mobilidade difícil de apreender, enquanto o
pensamento tornado comunicável deveu ser parado, imobilizado,
petrificado, logo, morto.

Os profanos não trocam senão pensamentos mortos; aqueles dos


Iniciados devem possuir a vida. Expressos, eles correspondem à primeira
letra da palavra sagrada, advertência que evoca a segunda letra que o
neófito deve saber descobrir por si mesmo. Um iniciado nada inculca; ele
dá a refletir, ajudando a adivinhar e a discernir. Em iniciação, o instrutor
não afirma nada: ele coloca as questões à maneira de Sócrates, a fim de
fazer o intelecto do interrogado parir aquilo que traz em gestação. É em
nós, na profundidade obscura do poço de nossa consciência, que se
esconde a verdade tradicional; ela não surge jamais à luz do dia e recusa
expor-se à curiosidade das multidões profanadoras. Convém não falar dela
senão por alusões discretas, de onde as precauções observadas para
comunicar a palavra sagrada.

O toque é triplo. Ele equivale à confidência: Eu conheço os mistérios do


número três. Esse número é o primeiro da série sagrada; é por ele que se
inaugura o estudo da filosofia numeral, porque o Ternário é mais acessível
que a Unidade que, logicamente, deveria ser aprofundada primeiro. Três é,
aliás, o primeiro número construtivo, porque uma só pedra não constitui,
ela sozinha, uma construção; quando uma segunda pedra é justaposta à
primeira também não há começo de construção; mas, desde que uma
terceira pedra se superponha às duas primeiras, uma parede começa a
nascer.

Convém também chamar a atenção do Aprendiz Maçom sobre os três


pontos que caracterizam sua assinatura. Se ele quiser legitimar esse
ternário, não deverá jamais se deixar ir até a parcialidade, porque os dois
pontos inferiores representam as opiniões opostas dos adversários em
contestação. O Iniciado deve lembrar-se dos gladiadores de sua segunda
viagem: se ele tomasse partido numa discussão, faltaria ao seu papel de
juiz. Em presença de opiniões contraditórias emitidas diante dele com
sinceridade, a sabedoria dá-lhe a supor que existe algo de verdadeiro e de
falso em cada uma das teses sustentadas; sua tarefa, desde então, é a de
discernir o forte e o fraco de ambos os contraditores e chegar a caminhos
conciliadores figurados pelo terceiro ponto mediano e superior.

Se, sob esse último ponto de vista elementar, a lei do Ternário for
compreendida e aplicada como debutante, ele estará em excelente
caminho de aprofundamento progressivo no mistério dos Números.
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MÓDULO 4
O Cálice da Amargura

A vida não é cruel para quem a começa entre os vivos. Mimada por
sua mãe, a criança não manifesta senão a alegria de viver; do instinto, ela
reivindica seu direito à vida, que parece não lhe ser dada senão para
permitir que goze dela sem reservas. A juventude ensina, todavia, que nem
tudo é encanto na vida que está longe de nos ser outorgada gratuitamente.
A necessidade, para cada um, de ganhar sua vida não tarda a se impor. A
despreocupação infantil não dura senão um tempo, porque, rapidamente, a
vida nos instrui de suas rudezas e, desde que nos tornemos fortes, ela
exige que aprendamos a suportar as durezas da existência: mostrar-se
covarde diante da dor é confessar-se indigno de viver.
A Iniciação, — ensinando a Arte de Viver, — concebeu torturas
infligidas a título de provas no curso das iniciações primitivas. A resistência
à dor física não se impõe mais no mesmo grau na vida civilizada, pois o
místico moderno não está mais exposto ao menor tratamento cruel;
todavia, ele deve esvaziar certo cálice que lhe é apresentado.
Ele não contém nem veneno nem droga que provoque perturbações
psicofisiológicas, mas água fresca e pura, reconfortante para o neófito que
acaba de sofrer a prova do fogo. É a beberagem da vida, doce como o leite
materno para quem experimenta seus primeiros goles. Mas de que
maneira tal líquido se torna subitamente amargo, para voltar depois à sua
primitiva doçura, quando o bebedor se decide a esvaziar até o fim o cálice
fatal? Beber malgrado a amargura é aceitar estoicamente os rigores da
vida. O hábito nos alivia as penas e as dores que aprendemos a suportar.
Quando o sofrimento nos torna fortes, a amargura se nos faz doce, pois
que ela nos confere vigor e saúde, temperando nosso caráter.
Os ritualistas superficiais imaginaram uma sorte de julgamento de
Deus relacionado ao juramento do Iniciado, a amargura a fazer alusão ao
remorso que dilaceraria seu coração, se ele se tornasse perjuro. Outros se
contentam em dizer: “Essa bebida, por sua amargura, é o emblema das
aflições inseparáveis da vida humana; a resignação aos decretos da
Providência unicamente pode abrandá-las”.
A lição é menos elementar. O místico purificado leva aos seus lábios
o cálice do Saber Iniciático, no qual sua inteligência abebera-se de uma
nova vida, isenta das brutalidades profanas. Concebendo uma existência
de doçura em meio a irmãos que sonham apenas em ajudá-lo em todas as
coisas, o neófito sente-se feliz e satisfaz-se com uma água deliciosa; a
reflexão, porém, revela-lhe as responsabilidades que ele assume em razão
de seu avanço espiritual. O ignorante, que não compreende o sentido da
vida, pode abandonar-se ao egoísmo; vivendo apenas para si, ele não se
coloca a serviço da Grande Obra, e nada há a se lhe reprovar, se,
respeitando os outros, ele leva uma honesta existência profana. De outro
modo exigente mostra-se a vida iniciática: ele impõe o devotamento, o
esquecimento de si, a constante preocupação com o bem geral. A
preocupação com o outro angustia a alma generosa que sofre as misérias
humanas; querendo aliviá-las, o filantropo expõe-se a não ser
compreendido. Seus conselhos são mal interpretados; a multidão imputa-
lhe todas as calamidades. Ele é então maldito, perseguido, no mínimo,
cruelmente desprezado: é a amargura que ele bebeu a grandes goles.
A ingratidão incompreensiva não saberia, porém, desencorajar o
Iniciado; ele a prevê e nem por isso prossegue menos com sua obra de
abnegação. A calúnia não o alcança; ele se fixa com perseverança na
realização do bem. Que lhe importam as gritarias maldosas e as críticas
injustas? Sem cessar preocupado em fazer o melhor, ele aperfeiçoa seus
métodos, tudo isso tirando partido da ingratidão de sua tarefa. Seu
heroísmo encontra sua recompensa: vivendo para o bem, o sábio vive no
bem. A cólera dos maldosos não o atinge mais, porque ele se eleva acima
do mal cometido por outrem.
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MÓDULO 5

O FOGO SAGRADO

"Por mais que a água do rio o tenha purificado externamente,


limpando-o, como se diz, de tudo quanto turva o juízo da maioria
dos mortais, o aspirante ficaria condenado a vagar sem proveito no
domínio da esterilidade, se retrocedesse diante da prova suprema, a
do Fogo. O ardor do Sol faz-se cada vez maior e anuncia que a prova
é iminente. Diante dessa ameaça, o aspirante pode ainda retroceder,
permanecendo às margens do rio, estabelecendo ali sua morada, à
maneira dos moralistas que perdem seu tempo com lamentações
sobre as misérias humanas e belas prédicas que se perdem no
deserto".

Fugindo da planície dos conflitos, onde se entrechocam


simultaneamente os antagonismos, o aspirante atravessa o rio da
vida coletiva. Longe de deixar-se levar pela corrente, sabe resistir
às suas mais poderosas investidas e afirma desse modo sua
individualidade. Por fim, triunfou do elemento líquido e, subindo
pelo terreno abrupto da orla, pode, do alto, contemplar as águas
cujos torvelinhos o separam do imenso campo de batalha onde os
vivos combatem entre si sem trégua alguma. Essa terra que, de
hoje em diante pisa, é a da paz no isolamento como também a da
morte e a da aridez. Quando volta as costas ao rio, se lhe oferece
o espetáculo do deserto no qual penetrou Jesus ao sair das águas
batismais do Jordão.

O Aspirante interna-se pelas areias em meio às rochas calcinadas.


Não há a menor vegetação nem rastro de ser vivente: aqui, o dono
absoluto é o sol que tudo seca e mata. Essa luz que não projeta a
menor sombra corresponde à luz da razão humana que pretende
fazer omissão de tudo o que não seja ela mesma. Esta razão
analisa e decompõe, mas sua própria secura incapacita-a para
vivificar o que quer que seja. Bem está que nos esforcemos para
raciocinar com absoluto rigor, mas não criemos certas ilusões
sobre o poder da razão, cujo trabalho não passaria de demolição,
caso fosse chamada a ser a dona absoluta de nossa mente.
Tenhamos bem presente que o Iniciado não deve ser escravo de
nada, nem sequer de uma lógica levada ao extremo.

Se a verdadeira sabedoria nos aparta da vida, de suas alucinações


e de suas quimeras, é simplesmente para ensinar-nos a dominá-la,
não ao modo dos anacoretas que a desdenham, senão como
conquistadores do princípio vital que anima todas as coisas no
universo. A potência que rege o mundo tem por símbolo o fogo, tal
como o conceberam os alquimistas: muito longe de consumir e de
destruir, seu ardor anima e constrói. Propaga-se a tudo quanto
vive. Mas o Fogo dos sábios comporta uma infinidade de graus em
direta correspondência com as diferentes vidas que produz sua
atividade. É preciso que um indivíduo saiba inflamar-se de um
ardor divino, se pretende ser algo mais que um autômato incapaz
de realizar a Magna Obra. Por mais que a água do rio o tenha
purificado externamente, limpando-o, como se diz, de tudo quanto
turva o juízo da maioria dos mortais, o aspirante ficaria condenado
a vagar sem proveito no domínio da esterilidade, se retrocedesse
diante da prova suprema, a do Fogo. O ardor do Sol faz-se cada
vez maior e anuncia que a prova é iminente. Diante dessa
ameaça, o aspirante pode ainda retroceder, permanecendo às
margens do rio, estabelecendo ali sua morada, à maneira dos
moralistas que perdem seu tempo com lamentações sobre as
misérias humanas e belas prédicas que se perdem no deserto.

Mas o Iniciado não desperdiça seu tempo com discursos: é um


homem de ação, um agente eficaz da Magna Obra, por cujo meio
é criado e transformado o mundo; se o aspirante sente a vocação
do heroísmo, não vacilará em expor à chama seu pé desnudo.
Não retrocederá, ainda que as chamas surjam sob suas plantas,
mas ver-se-á obrigado a deter-se, quando chegarem a formar uma
muralha intransponível. Se quiser voltar atrás, que não perca um
instante; ainda é tempo, e tem livre o caminho para bater em
retirada. Mas, se domina a sua angústia e afronta estoicamente a
barreira do fogo, esta cresce e forma duas alas. De pronto, forma
um semicírculo cujas extremidades se unem por fim, deixando o
temerário envolto por completo numa fogueira circular, cujo fogo
lhe abrasa. As chamas aproximam-se cada vez mais do aspirante
que permanece impávido, disposto a ser consumido pelo fogo.

Com efeito, a purificação suprema é obra do fogo que destrói, no


coração do iniciado, até o último germe do egoísmo ou de
mesquinha paixão. Este ardor purificante de que falamos aqui não
é outra coisa senão o amor que nos sinala São Paulo na I Epístola
aos Coríntios, nos seguintes termos:

Ainda que eu falasse as línguas dos homens e dos


anjos, e não tivesse amor, seria como o metal que soa
ou como o címbalo que retine.

E ainda que tivesse o dom de profecia, e conhecesse


todos os mistérios e toda a ciência, e ainda que
tivesse toda fé, de maneira tal que transportasse os
montes, e não tivesse amor, nada seria.

E ainda que distribuísse todos os meus bens para


sustento dos pobres, e ainda que entregasse o meu
corpo para ser queimado, e não tivesse amor, nada
disso me aproveitaria.

Conhecedor das noções iniciáticas difundidas pela corrente do


pensamento helênico, o apóstolo acertou em seu modo de sentir:
todos os dons da inteligência, todos poderes de ação serão vãos
se não forem aplicados ao serviço da grande causa do bem geral.
É preciso amar, chegar até o sacrifício absoluto de si mesmo, para
ser admitido na cadeia de união dos iniciados. É pelo coração, e
tão só pelo coração, que alguém chega a ser maçom, obreiro fiel e
colaborador verdadeiro do Grande Arquiteto do Universo.

O cerimonial de recepção é simbólico e representa objetivamente


o que deve realizar o candidato em seu foro interno. Se tudo
ficasse limitado às formalidades externas, a iniciação seria
meramente simbólica, marcando tão-só a admissão numa
confraria de iniciados superficiais que souberam conservar um
conjunto de exterioridades tradicionais e nada mais. Não se veria
mais que a casca do fruto. Sem embargo, no interior está a
semente, núcleo central, de tal maneira que o iniciador que
trabalha em conformidade com a letra do ritual, põe à disposição
do verdadeiro candidato um esoterismo velado que se conserva
intacto, ao abrigo de toda profanação.

Quando a maçonaria, ou qualquer outra confraternidade iniciática,


faz referência à inviolabilidade de seus segredos, trata-se não do
continente dos segredos, sempre comunicável, senão de seu
conteúdo inteligível. Pode-se divulgar a letra morta, mas não o
espírito que os privilegiados da compreensão saberão penetrar.

De outra parte, é indispensável sentir, para poder compreender. A


ponta de uma espada fere o candidato perto do coração no
momento de sua admissão no Templo para buscar a luz. Antes de
poder discernir, devemo-nos abrir às verdades cujo germe existe
em nós.
Não se deve desprezar o intelectualismo; sem embargo, seu
domínio absoluto nos condena a uma estéril e desesperadora
atividade especulativa. Caindo no excesso contrário, a iniciação
cavalheiresca desdenhava o saber, para enaltecer unicamente o
amor, inspirador das mais sublimes ações. Melhor equilibrados, o
hermetismo medieval, o rosacrucianismo e a maçonaria moderna
têm preconizado o desenvolvimento simultâneo do intelecto e do
sentimento. É indispensável que nos capacitemos a reconhecer a
verdade, a fim de conquistar a luz que deve iluminar nossas ações.
De outra parte, se não tivermos o acicate de um ideal, como
poderemos nos sentir impelidos à Iniciação? O que atrai e fascina
é precisamente uma pressentida beleza. Um amor secreto nos
empurra até o santuário e nos infunde coragem para enfrentar os
obstáculos das múltiplas provas que ainda nos esperam antes de
alcançar o móvel desejado.
Ainda que não pudéssemos compreender mais que
medianamente, o essencial seria levar sempre em nosso coração
a chama do fogo sagrado, para sermos capazes de nos elevar
quando assim o requerer a ação. Os melhores maçons não são os
mais eruditos nem os mais ilustrados, senão os mais ardentes e
constantes trabalhadores, porque são os mais sinceros e os mais
convictos. Quem ama com fervor está acima daquele que se
contenta com o saber: a verdadeira superioridade afirma-se pelo
coração, a câmara secreta de nossa espiritualidade.
Os que não souberam amar, perderam-se no deserto sem passar
pela prova de fogo. Cépticos, arrastam sua vida num eterno
desencanto. São verdadeiros fantasmas ambulantes, em vez de
homens que honram a vida com energia. Será necessário o
sofrimento para ensinar-lhes o amor. Em resumo, o sofrimento
não é em si um mal, posto que, sem a dor purificadora, ninguém
chega a ser grande.

Oswald Wirth
DOCÊNCIA MAÇÔNICA
APRENDIZ MAÇOM
MÓDULO 6

A MAGNA OBRA

"O sábio busca a Pedra em seu foro interno, como recorda muito
bem a engenhosa fórmula tirada da palavra VITRIOL, à maneira do
acróstico: VISITA INTERIORA TERRAE, RECTIFICANDO INVIENIES
OCULTUM LAPIDEM, ou, em outros termos: desce a ti mesmo,
submete-te às provas purificadoras e encontrarás a pedra
escondida".

Se existimos, é para trabalhar. A inteligência e a sensibilidade


servem unicamente para guiar nossa atividade. Portanto, não
busquemos nossa razão de ser em nós mesmos, recordando que
não se pode cair em maior equívoco do que atribuir tudo a si
mesmo. Tudo está unido neste mundo e o indivíduo tem seu valor
como parte integrante da coletividade. Isoladamente, não somos
nada e, nesse sentido, o Iniciado deve poder dizer a si mesmo e
com absoluta sinceridade: Sei que não sou nada. Se do eu faço
um ídolo, o centro do mundo, o objetivo de minhas preocupações,
então, não contenho mais que o vazio, a impotência e a vaidade.
Querer viver tão-só para si mesmo é isolar-se da vida universal
para condenar-se à morte.
Não posso resistir à tentação de citar, no tocante a esse assunto, o
capítulo V de um opúsculo muito raro, editado em 1775 sob o título
de A Magna Obra sem Véus para os Filhos da Luz.

Segundo uma opinião corrente neste mundo, a


vida é curta e, de minha parte, a encontro, ao
contrário, extremamente longa para muitíssimas
pessoas. Quantos encontraremos que não se
queixem da brevidade da vida e que não tenham
feito, sem embargo, outra coisa senão entediar-se
ao longo de toda existência? Sim, é demasiado
curta a vida para quem pensa e demasiado longa
para quem não pensa. O tempo voa quando
trabalhamos e transcorre lentamente quando não
fazemos nada. Sem ação, a vida em nada se
diferencia da morte, e viver na ociosidade não é
viver, mas apenas vegetar. Viver somente para si
mesmo é viver pela metade. Interessar-se pela
felicidade universal dos homens e trabalhar para
isso é viver de verdade e ter a sensação de viver.
Quão poucos são os que vivem neste mundo e
quantos são os que vegetam em vez de viver! Os
ricos, orgulhosos de sua opulência e embriagados
pelo incenso que lhes prodigalizam seus
aduladores, não podem compreender o que é a
vida. Os pobres, oprimidos pelo peso da miséria,
humilhados pelo desprezo dos demais, tampouco
a podem entender. Aqueles que se encontram em
meio a grandes e pequenos, ricos e pobres,
preocupando-se, a maior parte do tempo, apenas
com aquilo que lhes incumbe, não a sentem
tampouco. Quem vive, pois, em lugar de vegetar?
Os filósofos. Sim, os filósofos unicamente
compreendem o que é a vida, conhecem as
oportunidades que apresenta e sabem aproveitá-
las. Não vivem apenas para eles mesmos, senão
que vivem, ademais, para os outros e, seguindo o
exemplo do excelso Hermes, de quem têm por
glória serem e chamarem-se discípulos, tão
apenas vivem para fazer bem à sociedade humana.
Pouco lhes importa que os adulem ou que os
ameacem os poderosos da terra, que seus
parentes os queiram ou os persigam, que seus
amigos os sustentem ou os abandonem; nem por
isso deixam de ser filósofos, ou seja, amantes da
sabedoria. A vida tem, para eles, tanto mais
atrativos quanto mais tempo lhes deixa para fazer
o bem a quem o mereça; sua benevolência dirige-
se àqueles que vivem para trabalhar, nunca
àqueles que trabalham para viver.

Essas linhas nos revelam o Grande Arcano da Filosofia Hermética.


A Pedra dos Sábios é um símbolo, como também o ouro filosófico
e tudo referente a ele. Na realidade, o segredo de toda verdadeira
Iniciação faz referência àquilo que, antes de tudo, interessa ao
homem, quer dizer, sua própria vida e o emprego judicioso das
energias que a mesma põe à sua disposição.

O sábio busca a Pedra em seu foro interno, como recorda muito


bem a engenhosa fórmula tirada da palavra VITRIOL, à maneira
do acróstico: VISITA INTERIORA TERRAE, RECTIFICANDO
INVIENIES OCULTUM LAPIDEM, ou, em outros termos: desce a ti
mesmo, submete-te às provas purificadoras e encontrarás a pedra
escondida. Esse tesouro supremo, último objetivo da Iniciação
hermética, instrui os ignorantes, cura as enfermidades do espírito,
da alma e do corpo, enriquece os pobres e, de modo geral,
transmuta o mal em bem. Não é uma substância. É um estado de
ânimo que confere poderes de ação e influência.

Não se trata aqui, sem embargo, de nenhuma taumaturgia vulgar.


Os milagres de detalhe têm um interesse muito secundário ao lado
de todo o milagre universal que abarca a totalidade do gênero
humano. A Obra Magna é um trabalho que não tem princípio nem
fim e seu resultado é tudo quanto existe.

Somos seus colaboradores, sem que seja condição indispensável


ter consciência disso. Se, ao cumprir a tarefa que nos incumbe, o
fazemos com mau humor, sem inteligência nem compreensão,
como animal atrelado ao carro, somos meros escravos da
necessidade que nos açoita e nos atormenta com seu implacável
aguilhão. É essa a sorte do profano que se lamenta e cuja única
preocupação é livrar-se do jugo de um labor obrigatório como de
uma pesada carga.

O Iniciado sabe que o trabalho é a razão de sua existência. Longe


de querer esquivar-se, sua ambição é adiantar seu trabalho do
melhor modo que conhece, empregando nisso todas as suas
forças. Seu próprio zelo entusiasta alivia a fadiga que não sente e
transforma-a em prazer. É amante do trabalho e se entrega a ele
com paixão, atraindo, de tal sorte, uma misteriosa ajuda, graças a
qual pode fazer verdadeiras maravilhas. A Iluminação é sua
recompensa, e já vive sabendo o que é a vida e participando da
grande Vida da eterna ação.
DOCÊNCIA MAÇÔNICA
APRENDIZ MAÇOM
MÓDULO 7

OS CARGOS EM LOJA
VENERÁVEL MESTRE

O Venerável Mestre é o primeiro oficial e o Presidente de uma Loja


Simbólica. Para que possa ser eleito a este elevado cargo, o
candidato precisa ter desempenhado os cargos e dignidades
inferiores e, necessariamente, ter exercido o cargo de Vigilante.
Estará, desta forma, habilitado a desempenhar as funções de
instrutor da Loja.

Suas atribuições são definidas pela Constituição da Obediência a


que pertence a Loja, e pelo Rito por ela praticado.

O Venerável Mestre tem assento no Oriente, e sua poltrona é


também chamada, às vezes, trono. Acha-se colocada diante de
uma mesa e por baixo de um dossel. Para chegar-se ao Trono da
Sabedoria, é preciso galgar três degraus, cuja denominação, em
Maçonaria, é: Pureza, Luz, Verdade. Desde outros tempos, já o
padre sobre por três degraus. No antigo Egito, representavam os
conceitos de corpo, alma, espírito. Simbolizam, esotericamente,
as três etapas da vida: juventude, madureza, velhice.

Como chefe tradicional da Loja, o Venerável é eleito pelos


Mestres, seus pares. Sua obrigação é procurar harmonizar as
forças e qualidades de seus Irmãos e, ao mesmo tempo, dar uma
orientação aos trabalhos. Deve, contudo, permanecer um chefe
democrático, muito estritamente ligado a seus outros Irmãos.

O Venerável Mestre é o responsável pelo sucesso dos trabalhos


de sua Loja, e sua atenção deve estar sempre voltada a motivar as
sessões, para que não se tornem fastidiosas e sem interesse.
Procurará, portanto, provocar pesquisas destinadas a elevar a
espiritualidade dos membros da Loja, tendo como principal objetivo
o aperfeiçoamento iniciático dos Obreiros de todos os graus. Todo
seu cuidado estará voltado para que seja estabelecida a mais
sincera cordialidade entre os Irmãos da Oficina, o que permitirá o
nascimento da fraternidade. Deverá representar, entre os Irmãos
da Loja, a Sabedoria. Seu papel é o de jamais perder de vista a
meta traçada, e evitar extravios na procura da realização de seus
objetivos. Deve dirigir a Loja, segundo os ditames da sua
consciência, procurando atrair os Obreiros aos trabalhos, para
ministrar-lhes os mais amplos conhecimentos e ensinamentos
maçônicos.

Será o mais assíduo Obreiro da Loja, porque nada desmoraliza


mais uma Oficina do que suas freqüentes ausências.

Tornou-se costume, nas questões ordinárias, o Venerável não


votar, mas utilizará sua prerrogativa de voto de Minerva sempre
que houver empate na votação. Não poderá fazê-lo, porém, nas
votações secretas, para não quebrar o devido sigilo, ou seja, tem
direito de votar secretamente nos sufrágios que assim o exigirem,
somente não operando como desempatador.

A jóia do Venerável Mestre é o Esquadro, e este traça o seu dever:


benevolência para com todos e rigorosa imparcialidade. Recebe
assim, da Geometria, uma lição de escrupulosa eqüidade.
Sentado no eixo da Loja, ele é neutro, mas não indiferente.

Dentro de uma Loja, ninguém tem o direito de censurar o


Venerável, por isso deverá estar à altura de fazer jus a este grande
privilégio. Todavia, vale ressaltar que o Orador, dentro de suas
atribuições, poderá intervir no andamento dos trabalhos, mas
somente em caso de ferimento à ordem ritualística.

O 1º VIGILANTE
O 1º Vigilante tem acento no Ocidente. Sua jóia é o Nível, para
significar que a igualdade lhe é sagrada.

Em caso de vaga ou renúncia, a ele cabe concluir o mandato do


Venerável Mestre, desde que devidamente instalado. Cabe-lhe,
também, ministrar instruções aos Aprendizes e solicitar a palavra
ao Venerável Mestre para os Obreiros de sua Coluna. Como
ministrante de instruções aos Aprendizes, cabe-lhe opinar sobre as
Elevações.
Seu trono, junto à Col B , eleva-se sobre dois degraus: Justiça
e Fortaleza.

QUEM SÃO OS VIGILANTES?

São assim denominados os dois primeiros Oficiais de uma Loja


Maçônica que seguem, por ordem hierárquica, ao Venerável
Mestre, ao qual sucedem na presidência durante seus
impedimentos. Estes três Oficiais são também denominados as
três pequenas Luzes. As três Grandes Luzes, vale lembrar, são o
Esquadro, o Compasso e o Livro da Lei. Exercem, na Loja, em
escala reduzida, atribuições semelhantes às do Venerável Mestre:
o 1º Vigilante, em todo Ocidente; o 2º, ao Sul do Ocidente.

Somente o Venerável Mestre pode chamar a atenção dos


Vigilantes, os quais acentuam suas intervenções com um golpe de
malhete, seja para chamar a atenção de algum Obreiro, seja para
pedir a palavra ao Venerável Mestre.

Pelo malhete, que é a insígnia de sua autoridade, os Vigilantes


têm o privilégio de fazer uso da palavra, permanecendo sentados,
ao mesmo tempo em que têm a prioridade da palavra antes de
qualquer Irmão, salvo o Venerável.

Concorrem com o Venerável Mestre para a instrução dos


Aprendizes e dos Companheiros. Não lhes cabe, porém, o direito
de criticar uma peça de arquitetura ou um trabalho para aumento
de salário. Ora, se algum Obreiro não obteve condições de
apresentar um trabalho de bom quilate, trata-se de falha de toda a
Loja, em especial, de seus dirigentes que, por certo, não
dedicaram suficiente atenção ao Irmão, de sorte que descabe a
crítica.

De uma maneira genérica, suas atribuições são as seguintes:

· Assessorar o Venerável Mestre no


desempenho da sua função de administrador
da Loja.
· Nas suas colunas respectivas, são os
responsáveis diretos pelo desempenho dos
Aprendizes e Companheiros.
· São os porta-vozes das respectivas Colunas
em suas reivindicações e postulações.
· Responsabilizam-se pela disciplina maçônica
em suas Colunas.
· Concedem, sempre através de golpes de
malhete, a palavra aos Obreiros de suas
respectivas Colunas.
· São responsáveis pela cobertura do Templo.
· Em circulação pelo Oriente do Templo,
verificam se os Obreiros das Colunas
possuem o grau equivalente à Sessão que irá
se processar.

É importante lembrar que a boa escolha dos Vigilantes ensejará a


boa escolha de Veneráveis Mestres. A Vigilância é um estágio
prático e probatório para o Veneralato.

Em suas ausências, os Vigilantes são substituídos pelos Expertos


e, na falta destes, por qualquer Mestre Maçom do Quadro.

Lembremos, todavia, que os Expertos não são substitutos do


Venerável Mestre.

O 2º VIGILANTE
O 2º Vigilante tem acento ao Sul do Ocidente, no meio da Loja,
achando-se seu Trono elevado sobre um degrau que simboliza a
virtude da Prudência. Segundo o ritual, observa o Sol no
meridiano e chama os Obreiros do trabalho à recreação e da
recreação ao trabalho. Sua jóia é o Prumo, para significar que não
se deve parar no aspecto exterior das coisas, mas, sim, penetrar o
sentido oculto das alegorias e dos símbolos.
É o terceiro na linha sucessória da Loja, cabendo-lhe concluir
o mandato do Venerável Mestre em caso de vaga ou
renúncia deste e mais do 1º Vigilante.

Dirige a Coluna do Sul, ministrando instruções aos Companheiros


e opinando sobre as exaltações.

Na ausência do Venerável Mestre, do 1º Vigilante e de Mestres


Instalados, dirige a Loja a descoberto.

ARQUITETO DECORADOR

O Arquiteto é o responsável pelo patrimônio da Loja. Cabe-lhe


decorar e ornamentar o Templo antes do início de cada Sessão,
recolhendo os utensílios após o encerramento. Tem ainda a
faculdade de requisitar quaisquer objetos necessários ao preparo
da Loja.

Pelo Regulamento, deve ser o responsável pela escrita de um


Livro de tombamento dos bens patrimoniais e demais pertences da
própria Oficina, ou de sua responsabilidade.

Sua jóia é constituída de um maço e um cinzel cruzados.

O CHANCELER OU GUARDA-SELOS
O Chanceler é o oitavo Oficial da Loja. Sua mesa encontra-se do
lado de fora da grade do Oriente, ao lado da do Secretário, e
fronteira a do Tesoureiro. É também chamado o Guarda dos
Selos, por ser o depositário dos mesmos, assim como dos sinetes
e do timbre da Loja.

Ficam também a seu cargo o Livro Negro, o Livro de Presenças e


outros determinados por Lei ou pela Oficina.

É o Chanceler que informa sobre a assiduidade dos Irmãos.


Nesse sentido, também se pode dizer que opina sobre as
Elevações e Exaltações, eis que acompanha de perto a freqüência
dos Obreiros. Do mesmo modo, quanto às eleições, pelo controle
da assiduidade dos votantes.

Sua jóia é um timbre.


O COBRIDOR

Compete-lhe:

Permanecer no átrio durante as Sessões,


pronto a atender qualquer chamado vindo
do interior do Templo.
Juntamente com o Guarda do Templo,
zelar pela manutenção do silêncio externo
enquanto a Loja estiver funcionando,
representando, ao Venerável Mestre,
sobre qualquer infração havida.
Auxiliar o Arquiteto no preparo dos locais
de Sessões, bem como na conservação
dos pertences da Loja.
Proceder à inspeção inicial da
documentação apresentada por qualquer
Obreiro que deseje participar dos
trabalhos, solicitando-lhe a Palavra
Semestral após o telhamento.

Trata-se de cargo da maior importância, razão por que deve ser


confiado a um Maçom de responsabilidade, preferencialmente
Mestre Instalado, para que possa telhar os visitantes em todos os
graus.

Sua jóia é um alfanje.

DIRETOR DE HARMONIA

Ao Diretor de Harmonia ou Mestre de Harmonia compete instruir-


se devidamente dos Rituais, preparando músicas apropriadas às
Sessões, especialmente quando se tratar de Magnas.

Sua jóia é uma lira.


OS EXPERTOS
O cargo de Experto é originário do Rito Moderno ou Francês.
Denominava-se então o “Irmão Terrível”. A partir de 1805,
recebeu a denominação de Experto. Além das disposições
ritualísticas, compete-lhes substituir os Diáconos nas faltas ou
impedimentos destes.

Sua jóia é um punhal.

GUARDA DO TEMPLO

Além das disposições constantes do Ritual, compete ao Guarda do


Templo zelar assiduamente pala segurança do mesmo, e ainda:

Proceder ao exame dos Maçons,


quando de sua entrada no Templo, só
permitindo o ingresso daqueles que
estiverem devidamente trajados e ainda
revestidos das respectivas insígnias.
Juntamente com o Cobridor, auxiliar
na manutenção da ordem e disciplina,
fazendo conservar rigoroso silêncio no
átrio.
Anunciar sempre e regularmente a
presença de alguém que bata à porta do
Templo.
Impedir a entrada ou saída de quem
quer que seja sem a prévia autorização
do Venerável Mestre.

Sua jóia constitui-se em duas espadas cruzadas.

O HOSPITALEIRO OU ESMOLER

Desde tempos imemoriais, estabeleceu-se o costume de as Lojas


manterem uma caixa de socorro. Esse legado da maçonaria
operativa passou à maçonaria especulativa, e os maçons não se
separam sem ter depositado um óbolo no Tronco de Beneficência,
o qual circula, obrigatoriamente, antes do encerramento ritualístico
dos trabalhos.
Antigamente, quando a Loja compunha-se de apenas sete irmãos,
o Experto recolhia as oferendas de que se encarregava o 2º
Vigilante. Posteriormente, no entanto, a caixa de socorro foi
confiada ao Irmão Hospitaleiro, encarregado de fazer circular em
Loja o Tronco de Solidariedade.

A obrigação do Hospitaleiro era de visitar, cuidar e socorrer os


enfermos membros da Loja e, ainda, os profanos que lhe fossem
designados, dando conhecimento de suas atividades à Oficina. O
fundo era inteiramente secreto e conservado separado de todas as
outras receitas e despesas.
Com a mudança dos tempos, o Hospitaleiro limita-se, atualmente,
apenas a recolher o Tronco de Solidariedade.

Depois de seu giro ritualístico pela Loja, obedecendo à ordem do


Venerável Mestre, entrega-o ao Tesoureiro e, com ele, confere o
produto, voltando ao seu lugar.

Sua jóia é um saco ou bolsa.

MESTRE DE BANQUETES
Cabe-lhe organizar e preparar os banquetes realizados pela Loja,
inclusive solicitando ao Tesoureiro os metais necessários para
tanto, com a devida autorização do Venerável Mestre e com
posterior prestação de contas.

Sua jóia é constituída de dois bastões cruzados.

O MESTRE DE CERIMÔNIAS

Além dos cargos principais, para que uma Loja se torne justa e
perfeita, outros existem que se tornaram essenciais para o
funcionamento de uma Oficina com número regular de Obreiros.
Um deles é o de Mestre de Cerimônias, cargo no qual se
desdobrou o de Experto. Atualmente, é um dos mais importantes
da Loja, cabendo a ele introduzir os Irmãos visitantes, depois de
severamente trolhados. Encabeça os cortejos que passam sob a
abóbada de aço, cerimonial este tirado da corte da França.

O Mestre de Cerimônias é responsável pelo bom andamento dos


trabalhos e pela ordem material da Loja. Antes da abertura dos
trabalhos, deve cuidar para que o material ritualístico esteja no seu
devido lugar. É o encarregado do cerimonial e da liturgia de uma
Oficina. Suas atribuições são bastante claras nos Regulamentos e
Rituais.

É uma das tarefas mais importantes, que requer muito gosto


pessoal e desenvoltura na chefia do cerimonial. O Mestre
designado para esta função deve conhecer perfeitamente as
normas de liturgia e ritualística de sua Potência Maçônica e o
Rito em que sua Loja trabalha.

Além dessas obrigações, são basicamente suas funções fixas:

Circular com o Saco de Propostas e Informações.


Organizar as comissões para introdução de Maçons visitantes ao
Templo.
Organizar a procissão de entrada, acompanhar o Venerável
Mestre ao Altar, compor, por delegação do Venerável Mestre, a
Loja, verificar se a mesma está composta, incensar os
recipiendários e contar os votos nas votações simbólicas.

O Rito Brasileiro admite a hipótese de ter um segundo Mestre de


Cerimônias. Os Ritos de York e Schröeder não têm este cargo.

Sua jóia é uma régua.

O ORADOR
De acordo com a tradição, três dirigem a Loja e cinco completam o
seu esclarecimento. As duas Luzes complementares são o Orador
e o Secretário, tendo ambos assento no Oriente à direita e à
esquerda do Venerável.

O Orador é o guardião nato da Constituição e dos Regulamentos


Gerais, assim como do Regimento Interno de uma Loja. Daí dizer-
se que representa a consciência da Loja. Deve ter deles o melhor
conhecimento, como também da tradição e do espírito maçônico,
para poder interpretá-los com a maior isenção, requerendo sua
observância.
Auxiliado por um bom Orador que uma, à madureza de um juízo
reto, uma sólida erudição, será muito difícil um Venerável Mestre
cair em equívocos ou exceder-se no exercício de suas funções.

A igualdade, a liberdade, a razão, o direito e a justiça devem


encontrar no Orador a mais sólida garantia.

O Orador deve presenciar o escrutínio das votações e assinar as


atas dos trabalhos de cada sessão. Cabe-lhe apresentar peças de
arquitetura nas festas da Loja e nas cerimônias fúnebres, onde
exaltará as qualidades distintivas do Irmão.

O cargo de Orador obriga ao exercício do papel de acusador em


matéria disciplinar, gozando de certa independência com relação
ao Venerável.

A jóia do Orador consiste em um livro aberto.

O Orador ou Guarda da Lei é, no escalonamento hierárquico da


Ordem, a quarta posição dentre os membros da administração da
Loja.

Suas atribuições dizem respeito ao cumprimento da Legislação


Maçônica, quer de origem escrita, como Constituição e
Regulamento Geral da Potência, Códigos, Leis, Decretos e Atos
dos Poderes Constituídos, de Regimentos Internos da Loja, quer
da tradição, usos e costumes relativos à Potência à qual pertence
a Oficina.

É, concomitantemente, o Promotor de Justiça dentro da Oficina, e


a ele cabe o enquadramento legal de todos os atos praticados
pelos Obreiros ou pela Loja.

Ao Orador cabe a leitura de todos os Atos Oficiais, sendo

que os Decretos e as Conclamações oriundas do Grão-

Mestrado são lidos com a Loja de pé e à ordem.

São ainda atribuições básicas do Orador:


· Fazer parte da composição da Mesa
Eleitoral.

· Assistir a verificação dos escrutínios


secretos e a coleta do Saco de Propostas e
Informações.

· Assinar, com o Venerável Mestre, os


balaústres das Sessões.

· Celebrar, com peças de arquitetura


apropriadas, todas as efemérides especiais da
Loja e da Ordem.

· Saudar, em nome do Venerável Mestre e por


delegação dele, os visitantes e autoridades
maçônicas e profanas.

No Rito de York, tem o nome de Capelão, e, no Rito Schröeder,


não existe a figura do Orador.

OS DIÁCONOS
Dois Oficiais exercem este cargo nas Lojas dos Ritos de York e
Escocês Antigo e Aceito. Sua função é transmitir as ordens das
Luzes aos Irmãos e cumprir determinadas cerimônias.

O 1º Diácono senta-se próximo e à direita do Venerável Mestre,


que põe em comunicação com a 1ª Vigilância. O 2º coloca-se ao
lado e à direita do 1º Vigilante, para transmitir suas ordens ao 2º
Vigilante e aos demais membros da Loja.

O 1º Diácono recebe do Venerável Mestre a Palavra Sagrada e


transmite-a ao 1º Vigilante, colocando-se, a seguir, no vértice
Norte do Altar dos Juramentos.

O 2º Diácono recebe-a do 1º Vigilante, levando-a ao 2º Vigilante,


colocando-se, em seguida, no vértice Sul do Altar. Quando da
abertura e do fechamento do Livro da Lei, ambos cruzam seus
bastões por sobre o mesmo.

Suas jóias são: um malho, para o 1º Diácono; uma trolha, para o


2º.
PORTA-ESTANDARTE E PORTA-ESPADA
Compete-lhes acompanhar o Venerável Mestre nas Sessões de
Consagração de Grau, portando o Estandarte e a Espada
Flamígera, respectivamente.

Suas jóias são: um estandarte, para o Porta-Estandarte; uma


espada, para o Porta-Espada.

O SECRETÁRIO

Como o Orador, o Secretário tem acento no Oriente e seu trono


lhe é fronteiro. Representa a memória da Loja, porque uma razão
judiciosa não é a única a nos esclarecer, eis que nossos atos
seriam falhos de coordenação entre si, não fora a memória.
O Secretário redige os balaústres. Consigna, por escrito, o que
merece ser conservado. Fornece os quadros destinados à Grande
Secretaria. Na prática, o Secretário esclarece a Loja, ao
relembrar-lhe as decisões tomadas. Encarrega-se também da
correspondência e do expediente, lançando, nos documentos, o
destino dado pelo Venerável Mestre.

No decorrer dos trabalhos da Loja, o Secretário traça um esboço


do que se passou, consignando-o, a seguir, no Livro de Atas.
Deve ser prudente na redação. Sem ser prolixo, deve consignar
tudo o que se passou durante a Sessão. Contudo, evitará que
sejam consignadas expressões demasiadamente cruas, ainda que
relate com exatidão a forma pela qual a Sessão decorreu.

O Secretário não deve esquecer que suas palavras passarão à


posteridade, servindo de histórico da Loja.

Pede diretamente a palavra ao Venerável Mestre.

O cargo de Secretário que se segue, no escalonamento


hierárquico da Loja, ao do Orador, é um cargo eminentemente
administrativo, e a escolha de um Irmão para este cargo deve levar
em consideração esse aspecto.
Por menor que seja a Loja, a Secretaria é sempre bastante
trabalhosa e, de seu desempenho, depende, em grande parte, o
relacionamento e a memória da Loja.

O Secretário deve ter pela função gosto especial e sempre deve


escolher, entre os Mestres, secretários adjuntos, para com eles
dividir seu trabalho, bem como para treiná-los para que,
futuramente, também possam vir a desempenhar o cargo.

Basicamente, as atribuições do Secretário são as seguintes:

· Fazer o registro dos balaústres das Sessões.

· Cuidar das correspondências recebidas e


expedidas pela Loja.

· Cuidar do arquivo de correspondências da


Loja.

· Manter o relacionamento com a Grande


Secretaria.

· Manter os fichários e arquivos dos Obreiros


rigorosamente em dia, anotando todas as
ocorrências que surgirem.

· Assistir à coleta do Saco de Propostas e


Informações.

· Cuidar do Livro Negro.

· Manter em dia todos os registros que


impliquem na perpetuação da memória da
Loja.

· Passar certidões, redigir e fixar editais.

Sua jóia constitui-se em duas penas cruzadas.


O TESOUREIRO
O cargo de Tesoureiro é um desdobramento do de Secretário.
Todavia, deve ser eleito por seus pares com, pelo menos, metade
mais um dos votos, incluídos nulos e brancos. Esse Oficial deve
receber as quotizações, os direitos de recepção e de filiação, os
donativos, pagando todas as importâncias devidas pela Oficina,
principalmente aquelas inerentes à Obediência. Cabe-lhe também
fazer relatórios a respeito da situação financeira da Loja.

Um bom Tesoureiro deve manter em dia suas obrigações, efetuar


os Orçamentos, apresentar os balancetes à Loja e arrecadar em
dia as obrigações pecuniárias dos Obreiros.

Importante também é que o Tesoureiro procure sempre


fórmulas novas para consolidar o patrimônio financeiro da
Oficina.

Presta contas de maneira imediata ao Venerável Mestre e aos


membros da Comissão de Finanças e, de forma mediata, ao
plenário da Loja.

Sua jóia é uma chave.


DOCÊNCIA MAÇÔNICA
APRENDIZ MAÇOM
MÓDULO 8

Legislação

Normas e Procedimentos para o Rito Escocês Antigo e


Aceito,de acordo com os Pareceres nos. 03-90/91 e 04-90/91, da
Grande Comissão de Liturgia,Aprovados pela Muito Respeitável
Grande Loja Maçônica do Estado do Rio Grande do Sul

Introdução
Nossas “sessões práticas” realizam-se de acordo com a legislação e com o
Ritual. Na medida em que, desde 1992, existe um Decreto (no. 89) que define
normas e procedimentos aplicáveis ao R E A A , julgamos importante
que os AA MM disponham desse material, especialmente porque não se
tem muita facilidade na obtenção do mesmo. O presente “Módulo
Legislação”, esperamos, será de grande utilidade na elucidação de dúvidas
que eventualmente ainda restem com relação à parte prática. Guarde-o bem.
Estude-o. Compare-o. Finalmente, analise nossos trabalhos e não hesite em
opinar, caso julgue que – a qualquer momento – ocorra alguma
inobservância.

Nossa maior esperança de um futuro promissor para as Oficinas está em


nossos Aprendizes. Impende que, desde já, tomem contato com a parte
legislativa de Nossa Instituição, pois só assim poderão estar seguros em sua
jornada rumo ao Segundo Grau.

Sumário
Sinal de Ordem

Sinal de Saudação

Da Movimentação

Dos Malhetes

Indumentária

Transmissão da Palavra Sagrada

Abertura do Livro da Lei

Circulação do S de P eI e do T de S

Entrada Ritualística em Loja Aberta


Palavra a Bem da Ordem em Geral e do Quadro em Particular
Cadeia de União

Decifração do Balaústre

Saco de Propostas e Informações

Bateria na Porta Interna do Templo

Anúncio do Tronco de Solidariedade

Anúncio da Palavra a Bem da Ordem em Geral e do Quadro

Anúncio do Encerramento dos Trabalhos (ver Ritual)

*
* *

Sinal de Ordem

O sinal de ordem é obrigatório em L aberta, até o momento do


encerramento. Entretanto, toda circulação dentro do Templo deverá
ser feita sem o sinal, posto que este só se completa com a
colocação dos pés em esquadria. Ora, caminhando, não há como
se manter os pés “em esquadria”, logo, a circulação em L é
incompatível com o sinal.
O sinal de ordem não pode ser desfeito sem a permissão do
Venerável Mestre.
Exceto as Luzes, todos falarão de pé e à ordem.
Os Irmãos que portarem instrumentos – sejam ferramentas, seja o
Ritual, bastão, etc. – não farão o sinal de ordem
Sinal de Saudação
O sinal de saudação deverá ser feito sempre que um Irmão entrar ou
sair do Oriente. Ao término dos trabalhos, porém, aqueles Irmãos
que já se encontravam no Oriente, não farão sinal e/ou reverência
ao se retirarem.

Não se fará o sinal de saudação quando sentado. Também os


Irmãos que portarem instrumentos não o realizarão.

O sinal de saudação será feito às Luzes, após a entrada ritualística


em Loja aberta.

Da Movimentação

Em movimentação, nenhum Irmão fará sinal de ordem. O Mestre de


Cerimônias e/ou os Diáconos, quando no desempenho de seus
cargos, portarão os bastões na mão direita, e não os descansarão
no piso. O Mestre de Cerimônias somente portará o bastão em ato
ritualístico ou quando em representação do Venerável Mestre, isto é,
sempre que em cumprimento a uma ordem deste, por exemplo, para
conduzir um visitante ao Oriente, para conduzir Irmãos que devam
cobrir o Templo, etc.

No ato de transmissão da Palavra Sagrada, os Diáconos


descansarão o bastão no suporte apropriado.

Os Irmãos dispensados do sinal de ordem e de saudação entrarão


no Oriente pelo eixo do Templo e farão uma pequena parada,
ficando eretos e com os pés em esquadria, sem qualquer reverência.

Na formação da abóbada, os Diáconos seguram os bastões com


ambas as mãos.

Após a transmissão da Palavra Sagrada, os Diáconos colocam-se


nos vértices Norte e Sul do Altar dos Juramentos, voltados para o
Oriente, aguardando a chegada do oficiante, para o cruzamento dos
bastões.

A circulação em Loja aberta far-se-á sempre por dentro das Colunas


e no sentido horário, tanto no Ocidente como no Oriente.

Dos Malhetes
Os malhetes serão conduzidos pelas Luzes, ao entrarem ou saírem
do Templo. Se o Venerável Mestre se afastar do Trono, depois de
abertos os trabalhos, conduzirá o malhete consigo. Os Vigilantes
procederão da mesma forma.

Não se faz sinal com o malhete. Executa-se com ele, entretanto, a


bateria dos graus, ou a bateria de atenção, diretamente no altar.

Os tímpanos somente podem ser usados nas sessões brancas


festivas.

Indumentária

O traje maçônico, para as sessões magnas, é o terno de cor preta,


com luvas brancas, camisa branca, gravata preta, sapatos de cor
preta. É permitido o traje a rigor, também na cor preta. Para as
sessões econômicas, é recomendado o traje escuro,
preferivelmente, de cor preta; nestas sessões, admite-se ainda o
balandrau talar, com calça e meias escuras e sapatos de cor preta.

Em Loja de Aprendizes, somente o Venerável Mestre usará chapéu


de abas moles e de cor preta.

Transmissão da Palavra Sagrada

A Palavra Sagrada será transmitida oralmente, de forma sussurrada,


boca a ouvido, em cada sessão ritualística, uma vez na abertura e
outra no encerramento dos trabalhos. No momento adequado, o 1º
Diácono, que se encontra de pé e à ordem, desfazendo o sinal,
apanhará o bastão com mão direita e iniciará a caminhada, parando
ereto no eixo da Loja. Em seguida, irá em direção ao Trono pelo
lado esquerdo do Venerável Mestre, subirá os degraus, depositará o
bastão no suporte apropriado, e fará o sinal de saudação. Depois de
correspondido, dará o T de A . Estando correto, o Venerável
Mestre transmitirá a P S , a começar pelo ouvido e ,
pronunciando a primeira letra que deverá ser respondida com a
segunda pelo 1º Diácono, no mesmo ouvido e . Ambos,
alternadamente, e trocando de ouvido, completarão a P S , sendo
dada a terceira letra pelo Venerável Mestre, e a quarta letra pelo 1º
Diácono, retornando ao ouvido e . O Venerável Mestre dará a
primeira sílaba e o 1º Diácono a segunda.
Recebida a P S , o 1º Diácono, após saudar o Venerável Mestre,
retornará ao giro em direção ao Ocidente, mantendo o movimento no
sentido horário. No ocidente, circulará por dentro das Colunas, indo
até o altar do 1º Vigilante pelo lado esquerdo. Subirá os degraus,
depositará o bastão no suporte adequado, fará o sinal de saudação
ao 1.º Vigilante. Este último dará o toque, pedindo a palavra
sagrada, seguindo procedimento semelhante ao desenvolvido pelo
Venerável Mestre. Após a transmissão ao 1º Vigilante, o 1º Diácono
o saudará, prosseguirá a caminhada, fazendo o giro por dentro das
Colunas, e indo postar-se no vértice Norte do Altar dos Juramentos.

Imediatamente após, o 2º Diácono, que está de pé e à ordem,


desfazendo o sinal, apanhará o bastão com a mão direita, e irá ao
Altar do 1º Vigilante pelo lado esquerdo, subindo os degraus e
depositando o bastão no suporte apropriado. Pedirá então a P.'.S
através do t Recebida esta, após a saudação ao 1º Vigilante,
retomará o giro por dentro das Colunas, indo até o altar do 2º
Vigilante. Este lhe dará o toque, pedindo a P S com
procedimento semelhante ao desenvolvido com 1º Vigilante e o
Venerável Mestre. Cumprida a formalidade, o 2º Diácono saudará o
2º Vigilante, retomará o giro, e postar-se-á no vértice Sul do Altar
dos Juramentos. Os Diáconos permanecerão junto ao Altar dos
Juramentos, segurando os bastões com a mão direita, até o
momento de os cruzarem na cerimônia de abertura e cerramento do
L da L , quando o segurarão com ambas as mãos. Os bastões
serão descruzados logo após a proclamação da abertura e do
encerramento da Loja.

Abertura do Livro da Lei

Será oficiante o ex-Venerável Mestre presente, dando-se preferência


ao mais moderno. Na falta de um destes, o 1º Experto. O Mestre de
Cerimônias dirigir-se-á ao oficiante e fará o convite com uma batida
do bastão no piso. O oficiante fará o sinal de saudação, e
empreenderá a caminhada rumo ao Ocidente, circulando no sentido
horário. Na face ocidental do Altar dos Juramentos, ficará entre os
Diáconos e fará a saudação. Neste momento, os Diáconos cruzarão
os bastões. O L da L será aberto na página que contém o
versículo a ser decifrado – Salmo 133 (1,2,3). O oficiante colocará
o C aberto em 60 graus sobre o L da L com a abertura voltada
para o Ocidente e sobre este o E , de modo a sobrepor as hastes
do compasso. Fará o sinal de saudação e colocar-se-á à ordem. Os
Diáconos descruzarão os bastões logo após a proclamação da
abertura. Após a saudação pelo sinal e pela aclamação, o oficiante
retorna ao seu lugar, seguido pelo Mestre de Cerimônias. A seguir,
os Diáconos também voltarão aos seus lugares e, de passagem, o
1º Diácono abrirá o painel da Loja. (As velas já foram acesas antes
de os Irmãos adentrarem ao Templo).

Circulação do Saco de Propostas e Informações

e do Tronco de Solidariedade

Após o anúncio, o Venerável Mestre determinará que o Mestre de


Cerimônias ou o Hospitaleiro cumpra com seu dever. Assim, o
Irmão por-se-á à ordem, desfará o sinal, apanhará o S P I ou o
T S com a mão direita e postar-se-á entre Colunas. Com o
corpo ereto, pés em esquadria, segurará o saco coletor com ambas
as mãos sobre o quadril esquerdo e iniciará sua marcha.

Subirá ao Oriente pelo lado esquerdo do eixo da Loja e aproximar-


se-á do Trono pelo lado esquerdo do Venerável Mestre.

Primeiramente, faz as Luzes – Venerável e Vigilantes.

Depois, o lado esquerdo do eixo, no Oriente: todos, e, o lado direito


do eixo: todos.

Ocidente: na Coluna do Sul, todos os Mestres Maçons, incluindo-se


o Cobridor e o Guarda do Templo; na Coluna do Norte, todos os
Mestres Maçons.

Companheiros Maçons. Por fim, os Aprendizes Maçons.

Feita a coleta, postar-se-á entre Colunas, fechará o saco coletor,


segurando-o com a mão direita e aguardará ordens.

Após o anúncio de praxe, entregará o S P I ao Venerável


Mestre que convidará os Irmãos Orador e Secretário para assistirem
a conferência. Ambos saem dos seus lugares, aproximam-se do
Trono do Venerável Mestre, pondo-se à ordem. Feita a verificação,
o Venerável Mestre anunciará o número de Colunas Gravadas
recebidas, as quais serão decifradas na Ordem do Dia. Em seguida
os Irmãos retornam aos seus lugares. No caso do Tronco de
Solidariedade, o procedimento do Irmão Hospitaleiro é idêntico,
observando, porém, que, após receber as ordens, levará o tronco ao
Irmão Tesoureiro. Este, após a conferência, comunicará ao
Venerável Mestre que “foi arrecadada a medalha cunhada de ...” e
este anunciará à Loja o resultado.

Entrada Ritualística em Loja Aberta

Após as formalidades de reconhecimento, o Cobridor permitirá a


bateria do grau pelo visitante, na porta do Templo. O Guarda do
Templo responderá, dando uma pancada com o punho da espada,
para que aguarde, e fará a comunicação ao 1º Vigilante, no
momento adequado: “Irmão 1º Vigilante, batem regularmente à porta
do Templo.”

Concluídas as formalidades, e permitido o ingresso, o Irmão entrará


com o pé esquerdo, sem o sinal, e esperará junto à porta o seu
fechamento. Simultaneamente, o Mestre de Cerimônias dirigir-se-á,
com o bastão, para recebê-lo. O recém chegado por-se-á à ordem
sobre o eixo da Loja, e efetuará a marcha do A M - t passos
iniciados com o pé e e completados com o pé d , até formar a
E . Saudará o Venerável Mestre pelo sinal de saudação,
repetindo-o para o 1º Vigilante, girando a cabeça na sua direção. Da
mesma maneira, dirigir-se-á ao 2º Vigilante. Permanecerá à ordem,
devendo ser trolhado, se as circunstâncias assim o exigirem.
Ultrapassada esta etapa, solicitará um lugar em Loja, aguardando as
determinações do Venerável Mestre, o qual , dando boas-vindas ao
visitante, determinará a este que grave seu “ne varietur” na T da
L e que ocupe o lugar que o Mestre de Cerimônias lhe indicar.

Se o visitante for Aprendiz ou Companheiro, o Mestre de


Cerimônias, através de uma batida com o bastão no piso, o
convidará para acompanhá-lo, dirigindo-se até o altar do Chanceler,
para gravação do “ne varietur” na T da L , conduzindo-o, a
seguir, ao lugar estabelecido. Tratando-se de visitante Mestre
Maçom, o procedimento é o mesmo, porém, neste caso, fará o
acompanhamento o Mestre de Cerimônias, postando-se atrás do
visitante. Tratando-se de Mestre Instalado, após as formalidades,
será acompanhado, pelo Mestre de Cerimônias, direto ao Oriente,
gravando depois seu “ne varietur”.

Palavra a Bem da Ordem em Geral e do Quadro em Particular


Nesta fase do Ritual, franqueia-se a palavra a todos os Obreiros,
para usarem-na livremente e sem apartes. Qualquer Irmão dela
pode fazer uso e pronunciar-se sobre o assunto que lhe aprouver.
Há todavia limites, quais sejam os impostos pela ética e pela retórica
maçônica.

Nenhum Irmão falará por seu cargo, mas por si próprio. Não cabe,
pois, a palavra de ofício, mas de ordinário, uma vez que os assuntos
administrativos foram dados por esgotados na Ordem do Dia.

Anúncio

O Venerável Mestre anunciará que a palavra será concedida a bem


da Ordem em Geral e do Quadro em particular, a quem dela queira
fazer uso, iniciando-se pala Coluna do Sul. Os Irmãos Vigilantes
não repetirão o anúncio.

Palavra nas Colunas e no Oriente

Ordenadamente, a palavra é distribuída por toda a Loja. Os


Obreiros pedem a palavra, dirigindo-se ao Vigilante de sua Coluna,
que possui a competência de distribuí-la, dispensada a autorização
do Venerável Mestre. O último a falar na Coluna é o Vigilante,
mesmo que seja tão somente para anunciar que reina o silêncio.

Após o pronunciamento do 2º Vigilante, a palavra sai da Coluna do


Sul e vai para o 1º Vigilante. Na Coluna do Norte são observadas as
mesmas praxes. Uma vez anunciado que reina o silêncio em ambas
as Colunas, a palavra só poderá retornar a elas por graça do
Venerável Mestre e sempre através dos Vigilantes. No Or , a
palavra está sob o controle do Venerável Mestre.

Os procedimentos técnicos formais são os seguintes: o Obreiro


solicita a palavra pelo sinal do costume, batendo com a palma da
mão d sobre o dorso da mão e , erguendo, em seguida, a mão
d . O Vigilante autoriza ou não. Autorizado, o Irmão se põe à
ordem, dirige-se ao Venerável Mestre, aos Vigilantes, às autoridades
e aos demais Irmãos, para, só então, dizer sua mensagem. Se
presente o Grão-Mestre e/ou o Deputado, ou, ainda, o seu
representante designado, este(s) será(ão) sempre saudado(s) em
primeiro lugar.

Palavra do Orador
É dado ao Orador o direito de pronunciar-se pessoalmente,
independentemente de suas funções. Para tanto, ele faz uso da
palavra ordinariamente, quando esta circular pelo Or , sempre
antes da palavra final do Venerável Mestre.

Palavra do Orador para as Conclusões

A palavra do Orador, nesta fase, não é livre. Faz pronunciamento


por força do cargo. Compete-lhe, então, somente fazer as
saudações e proferir suas conclusões sobre o andamento da sessão
à Luz das Leis, Regulamentos, Usos e Costumes Maçônicos. Em
caso de presença de visitantes ou de fato digno de encômios, cabe
ao Orador fazer as saudações de praxe.

Como o Orador fala por toda a Loja, os demais Irmãos devem se


abster de tais pronunciamentos, para evitar a retórica redundante.
As conclusões do Orador são emitidas como uma análise minuciosa
sobre o curso dos trabalhos, atendo-se aos aspectos litúrgicos e
legais, sem colocação de opinião pessoal.

Palavra do Venerável Mestre

O último a usar a palavra é o Venerável Mestre, em resposta a todos


os pronunciamentos até então proferidos. Sua palavra é,
invariavelmente, curta e objetiva, embora considerando todas as que
lhe precederam, e é dirigida à Oficina em Geral.

Cadeia de União

A Cadeia de União deverá ser formada após o encerramento dos


trabalhos. Depois da bateria e da aclamação, todos retornam a seus
lugares e o Venerável Mestre convoca os Irmãos do quadro para
formação da Cadeia de União. Estes se reunirão no Ocidente. O
Venerável Mestre coloca-se também no Ocidente, próximo ao A
dos Jjur . O Secretário à sua esquerda e o Orador à sua direita. O
M de Ccer à frente do Venerável Mestre, tendo, ao lado
esquerdo, o 1º Vigilante, e ao direito o 2º Vigilante. Os demais
Irmãos dispostos lado a lado em círculo, unindo-se sem distribuição
específica. Os Aprendizes ficarão intercalados entre os Mestres.
Pés em esquadria, de maneira que suas pontas toquem às dos
Irmãos que estiverem a seu lado, até formarem um círculo. Braços
cruzados, o d sobre o e , mãos unidas às dos Irmãos. O
Venerável Mestre verificará se todos os elos da Cadeia de União
estão ligados. Iniciará a transmissão da palavra semestral,
sussurrando-a por inteiro ao ouvido do Sec ; este repetirá ao
ouvido do Irmão que lhe estiver ao lado, devendo chegar até ao
Orador, que a transmitirá ao Venerável Mestre. Se a palavra
semestral foi corretamente transmitida, o Venerável Mestre dirá: “A
palavra chegou certa.” E todos os Irmãos levantarão e abaixarão os
braços e as mãos, unidos, por três vezes, dizendo em coro, a cada
movimento: S F U . Em seguida, os Irmãos soltarão as mãos,
estenderão o braço d com a mão espalmada para baixo e dirão:
Segredo.

Decifração do Balaústre

Feita a decifração do balaústre pelo Irmão Secretário, o Venerável


Mestre dirá: "Meus Irmãos, se tendes alguma observação a fazer a
respeito do balaústre que acaba de ser decifrado, a palavra vos será
concedida, a partir da Col do S ", (dispensada a repetição pelos
Irmãos Vigilantes).

Irmão 2º Vigilante: “Podeis usar da palavra, Ir Fulano de Tal.” (Se


tiver cargo ou estiver ocupando cargo, enunciá-lo).

Irmão 2º Vigilante: “Reina silêncio na Col do S , Ir 1º Vig ”.

Ir 1º Vig : “A palavra está na Col do N ” Se alguém solicitar a


palavra: “Podeis usar da palavra, Ir Fulano de Tal.” (Se tiver cargo
ou estiver ocupando um cargo, enunciá-lo.) Depois: “Venerável
Mestre, reina silêncio em ambas as Colunas.”

Venerável Mestre (sem qualquer anúncio): “A palavra está no Or .”


Depois de usarem a palavra os que a solicitaram diretamente ao
Venerável Mestre, este anunciará: ”Os Irmãos que aprovam o
balaústre que acaba de ser decifrado (caso tenha havido
observações, acrescentará: com as observações do(s) Irmão(s)
Fulano de Tal) queiram fazer o sinal.”

Mestre de Cerimônias: “Aprovado por unanimidade (ou por maioria).

Sempre que houver voto contrário ou abstenção, deve constar do


balaústre.
Saco de Propostas e Informações

Será conduzido pelo Mestre de Cerimônias sem observância de


sinal.

O Venerável Mestre anunciará diretamente que o S P I


circulará, dispensada a repetição do anúncio pelos Vigilantes.

Venerável Mestre: “Ir M de Ccer , cumpri vosso dever.” - Ver


“giro do Saco de Propostas e Informações”.

Ir 2º Vig : “Ir 1º Vig , o Ir M de Ccer , após o giro


ritualístico com o S P I , encontra-se entre Ccol e aguarda
ordens”.

Ir 1º Vig : “Venerável Mestre, o Ir M de Ccer , após o giro


ritualístico com o S P I , encontra-se entre Ccol e aguarda
ordens”.

Venerável Mestre: “Ir M de Ccer , aproximai-vos do Trono.


Convido os Irmãos G da L e Sec para assistirem a
conferência".

Bateria na Porta Interna do Templo

Guarda do Templo: “Ir 1º Vig , batem regularmente à porta do


Templo".

Ir 1º Vig : “Venerável Mestre, como A M batem à porta do


Templo".

Venerável Mestre: “Ir 1º Vig , mandai verificar quem assim bate".

Ir 1º Vig : “Ir G do T , verificai quem assim bate".

O Guarda do Templo entreabre a porta, o suficiente para verificar


quem seja, e anuncia de quem se trata.

Ir 1º Vig repassa a informação ao Venerável Mestre.

Venerável Mestre: autoriza ou não a entrada.


A entrada, em regra, deve ser com formalidades, exceto em
situações especiais.

Anúncio do Tronco de Solidariedade

O Tronco de Solidariedade deve ser conduzido pelo Irmão


Hospitaleiro, sem observância de sinal.

Venerável Mestre, como no S P I , diz: “Ir Hospitaleiro, cumpri


vosso dever".(Ver giro do T S ).

Ir 2º Vig : “Ir 1º Vig , o Ir Hospitaleiro, após o giro ritualístico


com o T S , encontra-se entre Ccol e aguarda ordens".

Ir 1º Vig : “Venerável Mestre, o Ir Hospitaleiro encontra-se entre


Ccol e aguarda ordens".

Venerável Mestre: “Ir Hospitaleiro, conduzi o T S ao Ir Tes e


auxiliai-o na conferência".

Anúncio da Palavra a Bem da Ordem em Geral e do Quadro em


Particular

O Venerável Mestre anunciará diretamente.

Ir 2º Vig : “Podeis usar da palavra, Ir (se estiver ocupando


cargo, enunciá-lo)".

Depois: “Ir 1º Vig , reina silêncio na Col do S ".

Ir 1º Vig : “Podeis usar da palavra, Ir (se estiver ocupando


cargo, enunciá-lo)".

Depois: “Venerável Mestre, reina silêncio em ambas as Ccol.'.".

Venerável Mestre: “A palavra está no Or ”.

Anúncio do Encerramento dos Trabalhos.


DOCÊNCIA MAÇÔNICA
APRENDIZ MAÇOM
MÓDULO 9

ESTUDO SOBRE O RITUALISMO INICIÁTICO DAS


CONFRATERNIDADES DE CONSTRUTORES

As palavras pronunciadas são enigmáticas, porque elas se relacionam ao


mistério. O profano as ouve, mas ele não tem ouvidos para entendê-las, da
mesma forma que não tem olhos para ver. Não são as cerimônias que têm o
poder de iniciar. Elas exercem, ao contrário, sua ação sobre o iniciável que
sofre a atração do mistério. Aquilo que houver visto e ouvido fará trabalhar
seu espírito. Ajudado pelos Iniciados, ele adivinhará o sentido dos símbolos
e o alcance dos ritos, iniciando-se por si mesmo progressivamente.

Predecessores imediatos dos franco-maçons atuais, os maçons


livres ingleses do século XVII pretenderam-se detentores de segredos de
uma extraordinária importância. Ao seu entender, o sábio rei Salomão
havia instruído os construtores do Templo de Jerusalém nos mistérios que
os talhadores de pedra transmitiram fielmente depois, sob o selo de uma
inviolável discrição. Daí as iniciações profissionais que, – asseguram eles,
– não versavam exclusivamente sobre a técnica material da arquitetura.

Tratavam-se, na realidade, de três vias secretas de muito anteriores


à época da realeza judaica, eis que contemporâneas às origens da arte de
construir. Nada parecia então possível ao homem sem a colaboração
exterior de misteriosos poderes invisíveis. Como tais forças interviessem
secretamente, convinha calar a seu respeito. Um pacto de silêncio ligou-
se a elas. A menor indiscrição quebrava o encanto: os deuses
abandonavam aquele que não soubesse manter segredo.

Trata-se, pois, de um segredo religioso que os construtores se


transmitiram, segredo que deixou de ser ortodoxo quando o cristianismo
triunfante não tolerou mais outro dogma que não o seu. Tornou-se então
prudente abrigar-se atrás de Salomão, para tornar menos suspeitas as
tradições arquiteturais cristianizadas. Estas constituíram mais tarde a Arte
Real, em lembrança dos filhos de David, termo que, no século XVIII,
tornou-se sinônimo de franco-maçonaria, tanto mais que os franco-maçons
modernos pretendem-se limitar a construir espiritualmente. Fazendo apelo
à legendária sabedoria do rei bíblico, ambicionam erigir o Templo Imaterial
da humanidade futura, instruída intelectualmente e tornada sábia em seu
vasto conjunto.

Semelhante obra ultrapassa a técnica arquitetural ordinária. Ela


comporta mistérios de ordem religiosa que são aqueles da verdadeira Arte
Real. Formando Iniciados, esta Arte forma Reis, ou seja, homens
subtraídos a toda dominação, logo, livres, soberanos mestres deles
mesmos. Para elevar-se a essa realeza iniciática, é preciso aprender a
pensar com independência, sem sofrer a tirania dos preconceitos reinantes
ou se deixando impor as idéias de outrem.

É indispensável, de outra parte, haver sacudido o jugo das paixões e


não agir, em todas as coisas, senão realmente, com soberana consciência
de sua responsabilidade.

Toda Alta Iniciação aplica-se à educação dos reis. A Alquimia Real


ensinava a transmutar o chumbo da natureza humana vulgar em ouro
iniciático, realizando a perfeição compatível com o caráter de cada
indivíduo. Os construtores mostram tal perfeição sob a imagem de uma
pedra que é talhada por si mesma na forma retangular, a fim de poder ser
incorporada ao grande edifício da humanidade, Templo Ideal, objetivo
supremo da Arte Real. Que os símbolos sejam tirados da antiga
metalurgia ou da arte de construir, o esoterismo permanece idêntico: um
mesmo programa é desenvolvido, qual seja, aquele da pura Iniciação.

E por que tal programa é ele mesmo um mistério? Sem dúvida,


porque ele não interessa senão àqueles que são chamados a segui-lo: os
iniciáveis. As coisas santas não devem ser profanadas. Elas tiram sua
força da compreensão dos iniciados, de onde a disciplina do segredo que
tem sido sempre observada.

Mas, se os iniciados têm o dever de se calarem diante dos profanos


que os não compreendem, não podem furtar-se de instruir os espíritos
abertos nas noções iniciáticas, de onde os escritos enigmáticos, limitando-
se a fazer alusão aos assuntos reservados.

Essas discretas revelações dos mistérios jamais puderam colocá-los


a nu, porque nenhum mistério real pode ser desvendado, eis que,
relacionando-se ao fundo último do pensamento, ele penetra além de toda
forma expressiva. A verdade esconde-se no fundo de um poço.
Aprofundemo-nos, e poderemos percebê-la em sua casta nudez; ela não
será mais um mistério, porque supõe a deusa despojada de sua pele, de
suas carnes, nem mesmo subsistindo sob a forma de esqueleto: um ponto
matemático sem dimensões restará unicamente para a fixar o pensamento.
Nessas condições, o iniciável não saberia ser instruído diretamente.
Imagens lhes são mostradas, enquanto ele desempenha seu papel na
mise en scène das fases sucessivas da Iniciação. As palavras
pronunciadas são enigmáticas, porque elas se relacionam ao mistério. O
profano as ouve, mas ele não tem ouvidos para entendê-las, da mesma
forma que não tem olhos para ver. Não são as cerimônias que têm o
poder de iniciar. Elas exercem, ao contrário, sua ação sobre o iniciável
que sofre a atração do mistério. Aquilo que houver visto e ouvido fará
trabalhar seu espírito. Ajudado pelos Iniciados, ele adivinhará o sentido
dos símbolos e o alcance dos ritos, iniciando-se por si mesmo
progressivamente.

Convidamos aqui o leitor a trabalhar iniciaticamente. Os materiais


que nós lhe oferecemos provêm do canteiro de obras da iniciação
ocidental, onde figuram blocos esculpidos há mais de cinco mil anos às
margens do Eufrates; o gênio grego aí deixou imperecíveis modelos, e
nossa desconhecida Idade Média aí se revela em toda sua glória. Mas o
iniciado inicia-se a si mesmo: assim o quer a inelutável lei da Arte Real.
DOCÊNCIA MAÇÔNICA
APRENDIZ MAÇOM
MÓDULO 10

A Serpente do Gênese
"É certo que, antes de pensar de uma maneira consciente, a humanidade
longamente sonha, a imaginação entra em atividade na frente da razão que
só desperta tardiamente. Tal faz justiça à lenda, quando nos mostra a
serpente seduzindo Eva, personificando as faculdades imaginativas, antes
de seduzir Adão, no qual dorme o futuro racional".

Quando crianças recitam fábulas, não são mais ingênuas frente à


linguagem que o fabulista emprestou aos animais; da ficção, elas não
retêm como verdadeiro senão a moral que daí se destaca. Por que
seríamos nós mais ingênuos que elas em presença do mito da queda de
nossos primeiros pais?

Essa narrativa é fundamental para a doutrina cristã, pois a catástrofe


provocada pela serpente bíblica torna necessária a intervenção do
Salvador. Não há nada aí de muito verídico, para que se percebam as
alusões às quais se relacionam as imagens sagradas.

Interpretemos primeiramente os símbolos, inspirando-nos naquilo


que eles sugerem mais espontaneamente. Considerado desse ponto de
vista, o casal adâmico personifica a humanidade primitiva, ainda animal, no
sentido de que ignora o uso do fogo e não sonha nem com vestir-se nem
com construir abrigos para si. Nossos primeiros pais nutriam-se de frutos
que não se davam ao trabalho de cultivar e, ainda que não fossem
macacos, viviam, ao menos, à maneira destes. Sua inteligência não
estava ainda desenvolvida; eram impulsivos e obedeciam ao instinto que
os guiava infalivelmente em tudo aquilo que tocasse à realização de suas
funções fisiológicas. Sem noção daquilo que lhes falta, eles viviam
satisfeitos de sua sorte, felizes e relativamente oniscientes, pois que um
infalível instinto os tornava lúcidos quanto à satisfação de suas
necessidades.

Tal é o estado paradisíaco que beneficia a animalidade dócil


conforme à lei de sua espécie. Uma providência a protege, mas interdita-
lhe aspirar o discernimento, porque o discernir é praticar ato de
autodomínio intelectual, é querer fiar-se de outra luz que não a do instinto.
Renunciar a deixar-se guiar passivamente por este último equivale a uma
insubordinação culpável aos olhos do gênio protetor da espécie animal,
logo, a um pecado contra as divindades agrestes, tais como o Pan
helênico o Enkitou babilônico.

É importante insistir sobre esse ponto, porque, se a Bíblia


monoteísta está, às vezes, em contradição com ela mesma, é porque as
tradições que ela recolheu remontam freqüentemente a muito antigas
mitologias. O deus antropológico do paraíso que deita vistas à brisa da
noite é um antigo gênio tutelar confundido com o Ser Supremo. Não é
senão a esse título primitivo que sua atitude se explica, porque um criador
infinitamente sábio nos desconcertaria, se aquilo que se realizasse não
estivesse dentro de seus planos. planos. Como conceber que plantasse
uma árvore fatídica e se desse ao trabalho de dotar a serpente de sua sutil
sedução, sem contar com a queda? Apenas a mitologia comparada
esclarece o significado de certos textos que emolduram mal a teologia
judaica.

Que um deus pagão preposto ao governo da animalidade se ofenda


com a emancipação humana, nada de mais escusável; mas respeitemos o
bastante a inteligência suprema, para não lhe atribuir sentimentos
mesquinhos. Não é ela que forma os atores do drama da eterna evolução
cujo espetáculo ela dirige?
Entre esses atores figura a serpente que, longe de ser maldita por
nossos longínquos ancestrais, aparece-lhes, ao contrário, como digna de
veneração. Adornando as fontes que fazem jorrar a água vivificante do
seio da terra divinizada, os lígures estabeleceram uma analogia entre o
riacho serpeante através da pradaria e a serpente deslizando entre as
ervas, tanto fizeram eles do réptil animal sagrado diretamente relacionado
com a vida. Partindo de uma concepção idêntica, os gregos atribuíram
mais tarde à serpente, um poder curativo. Eles mantinham, nos templos
de Esculápio, ofídios cujo contado deveria curar os doentes. O Ouroboros,
a imensa serpente que morde a própria cauda, simbolizava, de outra parte,
a via geral, indestrutível, em seu eterno recomeço.

Mas a serpente bíblica faz alusão ainda a outro aspecto do símbolo.


Se ela persuadiu Eva a provar do fruto proibido, é porque era da família da
serpente python, inspiradora das pitonisas. Essas adivinhadoras liam
naquilo que os ocultistas, a exemplo de Paracelso, chamavam de a luz
astral. É permitido comparar esse agente da iluminação imaginativa à
obscura claridade que emana das estrelas, mas mais vale figura-la como
um brilho fosforescente envolvendo o globo terrestre. Essa atmosfera de
difusa luminosidade influencia as imaginações receptivas que se
comportam, em relação a ela, como um meio refringente condensador.
Assim se explica a iluminação dos videntes que favorece a
impressionabilidade passiva dos contemplativos abandonados ao sonho
desperto.

É certo que, antes de pensar de uma maneira consciente, a


humanidade longamente sonhou, a imaginação entrando em atividade
antes da razão que não despertou senão tardiamente. Tal fato justifica a
lenda, quando ela nos mostra a serpente se dirigindo a Eva, personificando
as faculdades imaginativas, de preferência a Adão, o futuro racional,
nascido pesado de espírito e espontaneamente pouco compreensivo.

Eva adivinha, ela concebe femininamente aquilo que lhe sugere uma
influência misteriosa, porque se desenvolve nela um dom de vidência que
se relaciona diretamente ao instinto. Deste à inteligência controlada, há
uma etapa que consiste na adivinhação. Eva aí é elevada, depois faz subir
Adão, porque a intelectualidade feminina não pode realizar um progresso
sem que a mentalidade masculina disso se beneficie em contrapartida.
Eva não pode provar o fruto da árvore do discernimento sem partilhar com
Adão o novo alimento que ela considera excelente.

Tomando ao pé da letra a narrativa Bíblia, a desobediência de


nossos primeiros pais teria instantaneamente produzido seu efeito: de
instintivos, eles teriam se tornado inteligentes por milagre. Dando-se conta
de sua nudez, eles teriam inventado as vestes, sob a influência de um
sentimento de pudor que lhes teria vindo subitamente. É crível que a
evolução fosse lenta. Eva pôde escutar a serpente durante séculos antes
de tocar o fruto proibido: os mitos se esquematizam com a supressão do
tempo.
Na realidade o que corresponde, no ser humano, à inteligência
feminina, logo, às faculdades sensitivas e divinatórias, desenvolveu-se
anteriormente ao poder de raciocinar, concebendo idéias nítidas,
susceptíveis de encadeamento lógico. A Eva simbólica foi, pois, a primeira
a se resgatar da animalidade pura e simples. Ela teve o pressentimento do
amanhã intelectual humano e, inspirada pela serpente, concebeu a
ambição de tornar-se semelhante aos deuses, conhecendo o bem e o mal.

Culpada de orgulho aos olhos do gênio tutelar da instintividade que


pôde maldizer a serpente, ela não foi certamente culpada de um ponto de
vista superior, porque a emancipação humana não poderia faltar em entrar
no plano da Suprema Sabedoria.

Que enfoque reclama a teoria da queda? Se existiu aí degradação


para a humanidade que se distancia do estado instintivo original, foi em
relação à perda da felicidade inconsciente. Nós estimamos feliz a criança
que brinca com inocência, preservada das preocupações da vida, mas
lamentamos o inocente no qual a fase da infância se prolonga
indevidamente ou o velho tornado inconsciente pelo enfraquecimento de
suas faculdades. Cada coisa tem seu tempo, tudo como cada estado
comporta suas vantagens e seus inconvenientes. O macaco é mais ágil
que o homem, sobre o qual suas quatro patas lhe conferem uma
esmagadora superioridade, quando se pendura nas árvores, apoderando-
se de seus frutos. O homem sentiu-se, primitivamente, inferior aos animais
e teve por eles uma admiração que se traduziu em culto. Mas a espécie
deserdada fisicamente desenvolve-se cerebralmente, na razão mesma da
inferioridade de sua organização natural. Foi necessário passar por uma
longa escola de privações e de sofrimentos, para que adquirir
artificialmente aquilo que uma sorte cruel parecia lhe recusar. O paraíso
perdido corresponde a uma realidade, não menos que a condenação ao
labor ingrato; mas é falso erigir em ideal humano a preguiça e a indolente
inatividade.

Onde está nossa nobreza? Nós que, orgulhosamente vestidos, não


somos mais chamados a curvar a cabeça à maneira dos quadrúpedes?
Criaturas cujo orgulho nada tem de ímpio, nós somos da raça dos Titãs,
nascidos para conquistar o céu. Mas, desejando o fim, é preciso que
aceitemos os meios. O trabalho se impõe a nós: é inelutável, porque ele
apenas conduz ao objetivo.

Então, terminemos por compreender e mostremo-nos inteligentes


até a penetração do sentido profundo da vida. Constataremos que viver e
trabalhar são sinônimos. Os seres não existem senão em vista da tarefa
que lhes incumbe. Emancipados da tutela indispensável da infância, não
nos revoltemos contra a necessidade de ganhar penosamente nossa vida.
Não será gemendo contra o pretendido pecado cometido aos olhos da
providência animal, que nos mostraremos homens, dignos filhos daquela
Eva que teve o mérito de desejar a inteligência. Bendigamo-la, sem
esquecer a serpente, besta feita maldita pela incompreensão.
Observemos. Antes de ser condenada a rastejar na lama, ela não
teria sido um desses lagartos tidos por amigos do homem? Símbolo da luz
astral, corresponde à divindade caldéia que se eleva até Samas, o deus
solar, para chorar diante dele as infelicidades dos vivos, subtraídos à
influência de Isthar depois que a deusa foi detida nos Infernos. Essa
claridade difusa que ajuda a adivinhar instintivamente traz consigo o risco
de errar facilmente, e está longe de oferecer as garantias da razão
consciente; também Python sucumbiu traspassada por Apolo. A
adivinhação incerta é suplantada por métodos de informação menos
equívocos: um saber positivo substitui, pouco a pouco, as quimeras de
uma visionariedade primitiva.

Goethe rende-lhe homenagem no conto dito da Serpente Verde. Ele


mostra a grande cobra luminosa que se sacrifica para salvar o mundo,
transformando-se em ponto de ligação entre as duas margens do rio da
vida.

E a serpente de bronze não foi uma imagem antecipada do


Salvador?
DOCÊNCIA MAÇÔNICA
APRENDIZ MAÇOM
MÓDULO 11

O TEMPLO DE SALOMÃO

Também chamado de Templo de Jerusalém, interessa a todos


nós, Maçons, pela intrínseca relação existente entre essa antiga
obra e o Templo Maçônico propriamente dito. Desde a Primeira
Instrução do Grau de Aprendiz, todo Maçom aprende que nosso
Templo é como é, para lembrar o Rei Salomão, Hiran, Rei de Tiro
e Hiran Abib ou Abif. Nossa tradição – de pedreiros – é como é,
para lembrar daqueles obreiros primevos que participaram da
construção do Templo. O Livro da Lei, – no nosso caso, a Bíblia, –
descreve, em detalhes, o mesmo Templo e, — nunca é demais
repetir, — os detalhes coincidem muito mais do que divergem.
Embora o Templo Maçônico não seja idêntico ao Templo de
Jerusalém, não há como repelir a íntima relação entre ambos, sem
falar nos cargos. Ora, o Ven Mest representa, afinal, o próprio
Rei Salomão.

Se admitirmos essas relações, — e somos forçados a isso, sob


pena de abandono da Tradição, — devemos concluir que é
imperioso saber algo sobre o que foi, afinal, o Templo de
Jerusalém. Para isso, antes mesmo de formarmos uma idéia
“maçônica” do assunto, cumpre suprir nossos conhecimentos
através de fontes profanas. Ora, quem nos diz o que foi, quando
foi e para que foi a construção do grande Templo não é Maçonaria,
mas a História. Só na posse de dados históricos mais ou menos
completos e confiáveis, poderemos, então, ajustar o conhecimento
maçônico propriamente dito, para assim, começarmos a saber, ao
menos, um pouco mais o sobre o assunto. Qualquer enciclopédia
pode fornecer os dados básicos. É recomendável pesquisar.
Também vale a pena ler a Bíblia, Livro dos Reis I, 7, 13 em diante:
O rei Salomão mandou que se contratasse Hiran de Tiro, filho de
uma viúva da tribo de Neftali...

O que acontecia à época do Templo histórico? Para saber, é


necessário recorrer às fontes mais confiáveis de que podemos
dispor: um historiador, Flávius Josefus, em “A Guerra dos Judeus”
e em “Antigüidades”, e a própria tradição judaica compilada nos
tratados do Talmud. Há um livro muito interessante, no qual
encontramos exatamente aquilo que vem bem a calhar para a
elaboração deste módulo. O livro? “Nossos Sábios Abriram o
Caminho”, Yocheved Segal, Vol I, Ed. Chabad, SP, 1980. À pág.
37, temos um capítulo inteiro dedicado ao assunto. Vejamos:

O ESPLENDOR DO TEMPLO SAGRADO

Quando em Jerusalém, a cidade santa, ainda existia o Templo,


não havia em todo universo edifício tão lindo! Era inteiramente
construída de belas e grandes pedras, uma parte do chão era
revestida de mármore verde azulada da cor do mar, e todas as
portas eram de ouro. O altar de incenso, também de ouro, era
precedido por dois imensos pátios, onde ficavam os fiéis que
vinham rezar. Todo o povo se dirigia três vezes por ano a
Jerusalém para ir ao Templo. As pessoas vinham de todas as
cidades, vilas e lugarejos longínquos e, mesmo assim, sempre
havia lugar para todas. Também existia um pátio reservado
unicamente às moças e às senhoras. O local mais sagrado
chamava-se o “Santos dos Santos”, e duas cortinas bordadas com
fios de ouro estavam em sua entrada; contudo, não era permitido
adentrar naquela sala, exceto o Sumo Sacerdote e apenas uma
única vez ao ano, no Dia do Perdão.
Milhares de lamparinas de ouro brilhavam e eram decoradas com
flores e botões de ouro. Havia utensílios em ouro e prata
incontáveis e uma fantástica videira com seus cachos em ouro
maciço. Quem quisesse oferecer um donativo ao Templo
comprava uma folha ou um grão de uva, ou mesmo um cacho todo
feito de ouro, e pendurava nessa parreira. Os sacerdotes
recolhiam esses donativos e os utilizavam para as despesas do
Templo.
Do pátio das mulheres ao segundo pátio havia quinze degraus, e
sobre cada um deles estavam os levitas, cantando os quinze
cânticos do livro de Salmos de David, acompanhados por harpas,
flautas, címbalos e outros instrumentos musicais que hoje não
existem mais. Os cantos e as expressões de seus rostos eram
radiantes. De todo o mundo vinha gente para admirar o esplendor
do Templo, porém os filhos de Israel não o amavam só por isso,
mas, sim, porque era ali que rezavam ao Todo Poderoso,
oferecendo-lhe seus sacrifícios, e onde Deus respondia às suas
orações, perdoava suas faltas e concedia Suas bênçãos sem
limites. Toda a pessoa que lá entrava saia feliz. Naturalmente, tudo
isso ocorria quando existia o Templo, entretanto, agora, ele não
existe mais, nem o Santo dos Santos, nem as lamparinas
douradas, nem o altar de ouro. E onde rezamos? Temos a
Sinagoga, que é um pequeno santuário substituindo o Grande
Templo. É aí que rezamos, pedindo ao Eterno que nos perdoe e
nos conceda um ano bom, que cure nossos doentes, nos dê a paz,
e reconstrua o Templo, a fim de apressar a vinda do Messias. Se
o merecermos, Ele o construirá tal qual era na origem, e o novo
edifício será ainda mais magnificente do que os dois anteriores
que foram destruídos.

Nota: O primeiro Templo, construído pelo Rei


Salomão, foi destruído pelos Babilônios no ano
3338 do calendário hebraico. O segundo
Templo, restaurado após a volta dos judeus do
exílio da Babilônia, conduzido por Ezra
Nechemias, foi destruído pelos Romanos no ano
3828.

Reproduzimos o texto para ressaltar o significado sagrado dado ao


Templo pelo povo de Israel, até hoje, por sinal. Assim como cada
sinagoga se pretende a representação do Templo de Jerusalém,
assim nossas Lojas também abrigam tal correlação, muito embora
não exclusivamente hebraica, já que a Oficina Maçônica também
agrega símbolos marcantes de outras culturas universalmente
significativas. Nesse sentido, cumpre ressaltar que também o
Templo de Jerusalém carreou elementos de outros povos com os
quais Israel mantinha relações. Eram, a seu ver, povos estranhos
à sua tradição de um Deus único e ético, ou “profanos”, como
diríamos nós maçons. Basta ver que quem presidiu à construção
foi o Rei de Tiro, que não era hebreu. Através da História da Arte,
encontramos interessantíssimos elementos para uma melhor
análise do tema.

Os hebreus eram nômades. Após a organização estatal,


sucederam-se os Reis. Ao chegarmos a Salomão, vimos
configurar-se – pela primeira vez – a necessidade de um Templo
fixo. Ora, o tabernáculo dos primeiros tempos ficava numa tenda,
é bom lembrar. Peculiar, ainda, o fato contundente em toda a
história da humanidade de ser o povo hebreu o primeiro a cultuar
um Deus Único. Não esqueçam disso. Nunca. Toda a noção de
monoteísmo, – e mais ainda, – toda a noção de um Deus
transcendente e ético nos vem através do povo hebreu. Antes
deles, nenhuma outra civilização concebeu senão ídolos, – os
“falsos deuses”, assim chamados pelos profetas israelitas que
empreendiam contínua luta, para que se mantivesse sua tradição.

E foi no meio desses povos, em sua vizinhança, que surgiu o


primeiro Templo, e este Templo reuniu, – evidentemente, –
elementos arquitetônicos tirados da tradição de outros povos. O
Templo de Salomão segue o modelo do Templo caldeu. E por
quê? Porque Israel não tinha tradição em construção, povo
formado de pastores por excelência, os quais não podiam subtrair-
se à influência de outros povos. Simplesmente por isso. Não há
nenhum “mistério” no fato de se encontrarem, no Templo se
Jerusalém, elementos babilônicos, por exemplo. Apesar disso,
alguns ainda teimam em persistir elaborando visões místicas a
partir desses elementos, pretendendo “transcender” a tradição
hebraica para daí chegarem à idolatria. Não venhamos nós a
cometer tal erro. Ainda que haja elementos alheios à religião
professada por Israel, – tais como as singulares imagens aladas
mencionadas na Bíblia, – nunca tais elementos foram vistos pelos
judeus como “ídolos”. O significado desses símbolos, no contexto
do Templo, sofre verdadeira transcendência, uma transmutação de
valores, uma readaptação, onde o significado anterior desaparece,
para dar lugar a uma nova mensagem, a um novo Deus, o Senhor
Deus. Uma visão da divindade absolutamente revolucionária para
a época. Um Deus que guia seu povo, que o liberta, que o
conduz. Um Deus que não exige sacrifícios humanos, coisa
inédita naqueles tempos. O Deus de Israel opunha-se aos deuses
circunvizinhos em termos de cosmovisão: os últimos representam
uma visão cíclica da natureza, uma visão física da realidade, ao
passo que Iahweh representa um projeto histórico.

O Templo de Jerusalém visava a abrigar esse Deus de Israel. Foi


construído para Ele e por Ele. Na medida em que o Templo
Maçônico associa-se a essa idéia central, na medida em que a
representação do cargo de Ven Mest configura o Rei Salomão,
na medida em que coincidem mais e mais elementos históricos,
míticos e religiosos entre ambas as concepções, não há espaço
para muita imaginação.

E as diferenças? Diferenças existem. O Templo Maçônico agrega


outros elementos também, e elementos até contraditórios à
tradição hebraica: as colunas zodiacais, por exemplo, já que, ao
Deus Bíblico, repugnava a astrologia, só mencionada na Bíblia
como anátema. Doze Colunas, lá, representam as doze tribos de
Israel; aqui, a tradição maçônica nos informa sobre o passo do Sol
no Zodíaco. Tudo isso, porém, não desfaz a idéia central. Apenas
a Maçonaria, por assim dizer, é mesmo UNIVERSAL, pois não
trata com desprezo nenhuma das muitas concepções
enriquecedoras das diversas culturas que se sucederam ao longo
da história da humanidade.

Universal por universal, porém, tal não autoriza determinadas


teses que surgem a todo o momento, visando atrelar a Maçonaria
a outras tradições alheias à idéia central do Templo Maçônico.
Assim é que Irmãos iniciados em outras sociedades secretas, e
mesmo em outras seitas bem pouco expressivas, tendem a
projetar as tradições próprias àquelas sociedades ma maçonaria.
Enfim, valem-se da instituição, para, através dela, fazerem
proselitismo de suas crenças pessoais. Não se deixem levar por
isso. Nem sempre um livro impresso, por ser um livro, contém a
“verdade”. Muitas vezes, não encontramos nessas obras senão o
reflexo de um espaço imaginário individual. Uma visão que serve
apenas àquele que a tem para si mesmo, e que não pode, de
modo algum, pretender impô-la a outros. Trata-se, aqui, daqueles
que não souberam despojar-se de seus metais.

O Templo maçônico se parece com outros Templos? Sim, sem


dúvida alguma. Contém elementos hebreus, fenícios, babilônicos
e até egípcios. Mas o que afirmam nossa Tradição e nossos
Rituais é que nosso Templo lembra o de Jerusalém. Outras
sociedades secretas também têm seus templos, e que não se
identificam com o de Jerusalém. Assim a Sociedade Rosa-Cruz,
cujo Templo seria egípcio, tendo por chefe o “faraó”. Isso não é
Maçonaria. É tradição rosa-cruz.

Lamentável que poucos atentem a esses detalhes, aceitando


passivamente as mais arbitrárias interpretações e as mais
esdrúxulas afirmativas que pululam na chamada “literatura
maçônica”. E, assim, continuaremos a encontrar passagens
interessantíssimas, como esta, perante a qual não se pode saber
se o caso é para rir ou chorar. Vejamos:

Quando, na vida atual, me iniciaram na Maçonaria,


me surpreendi viva e agradavelmente ao ver pela
primeira vez a Loja, pois me era familiar a sua
disposição e idêntica à que eu havia conhecido
seis mil anos antes nos mistérios egípcios. (C.W.
Leadbeater 33°, A Vida Oculta na Maçonaria, Ed.
Pensamento, SP, 1969.)

Exemplos não faltam e nem devem faltar. Afinal, todos têm o


sagrado direito de expressar seu próprios pensamentos e
sentimentos. Sua própria sabedoria ou estupidez, ou o que
entendam por isso. Enfim, sua “criatividade”. Mas, e nós? Como
ficamos nesse universo? A resposta é simples: somos livres.
Cada um que pense como quiser e que julgue cada obra e cada
escritor de acordo com seus próprios critérios de avaliação.
Todavia, pergunte a si mesmo, – antes, – qual a base desses
“critérios” de avaliação que usamos com tanta freqüência? Será
que a afirmativa acima é verdadeira? Pode ser. Qual a intenção
do escritor em apresentar-se perante nós como que dotado de tais
poderes? Qual a base de sua afirmativa? Sua “memória”? Mas,
se é assim, por que ele não produz ou indica qualquer evidência
de seu “passado”? E então, devemos ou não devemos aceitar sua
afirmativa com base apenas na experiência interna desse senhor?

Ora, cada um de nós é livre para optar. Quem quiser que acredite.
É uma opção respeitável, se lhe bastar tão-só a palavra e o
testemunho do escritor. Para outros, isso não será o bastante. O
que importa é a liberdade, a não imposição.
DOCÊNCIA MAÇÔNICA
APRENDIZ MAÇOM
MÓDULO 12
COMPLEMENTO

4º INSTRUÇÃO DO GRAU DE APRENDIZ MAÇOM

Trata-se agora de uma das etapas mais importantes de toda a


nossa vida maçônica. Do perfeito entendimento desta 4º Instrução
vão depender muitas etapas futuras de nosso desenvolvimento
como bons Maçons. É por isso que se faz necessário exigir um
pouco mais de você.

Leia atentamente toda a instrução, e responda por escrito as três


etapas que seguem. Não é necessário datilografar as respostas,
se você não quiser, e, qualquer dúvida, não hesite em pedir ajuda.
Devolver juntamente com o módulo da 4º Instrução.
Irmão! Esta é a quarta e penúltima instrução do Grau de Aprendiz
Maçom. Seus tópicos principais são:
1º Recordar aspectos atinentes à Loja;

2º Revelar quais são os maiores oponentes à


Obra Maçônica: Ignorância, Fanatismo e
Superstição; e

3º Revelar o que nos fortalece no combate que


devemos manter contra esses inimigos: a
Solidariedade

PRIMEIRO. O primeiro tópico, em seus aspectos mais relevantes,


já deve estar plenamente assimilado por todos, eis que
dominamos os conceitos lá explanados, não é?

1º Qual é a forma de nossa Loja?

2º Qual a sua altura?

3º Qual seu comprimento, sua largura e profundidade?

4º Tudo isso representa a universalidade da Maçonaria. Situa-se


a Loja, no sentido do comprimento, do..................................... para
o ocidente. Por quê?

5º Em que se apóia a Loja? Explique.

SEGUNDO. Superada a primeira etapa, vamos agora refletir sobre


o que nos revela o Ritual relativamente aos “inimigos” que
devemos combater. Atente aos tópicos:

“A ignorância é a mãe de todos os vícios, e seu princípio é nada


saber, saber mal o que sabe e saber coisas outras além do que
deve saber”.

“O fanatismo é a exaltação religiosa que perverte a razão e


conduz os insensatos a, em nome de Deus e para honrá-lo,
praticarem ações condenáveis.”
“A superstição é um culto falso, mal compreendido, repleto de
mentiras, contrário à razão e às sãs idéias que se deve fazer de
Deus”.

Agora, de maneira simples, escreva sobre estes três inimigos e


responda com sinceridade se você já viu, entre nós Maçons, algum
traço que. — para você, — pode ser considerado “fanatismo” ou
“superstição”. Por quê?

TERCEIRO. A terceira parte da quarta instrução nos revela de que


maneira devemos combater os oponentes descritos acima: através
do laço sagrado que nos une: a solidariedade. Também nesta
terceira parte nos é ensinado que o Laço de Solidariedade que
existe entre nós desmerece as críticas funestas que muitas vezes
lhe são feitas. Explique.

1º A Maçonaria proporciona aos seus vantagens


materiais?

2º O amparo que é devido mutuamente entre


seus membros é incondicional?

3º A obrigação de ajuda e de mutuo socorro é


sempre devida? Por que não?

4º Quando podemos e devemos favorecer a um


Irmão?

5º Nossa Instituição é livre de defeitos?

6º Enfim, em que consiste nossa Fraternidade?


DOCÊNCIA MAÇÔNICA
APRENDIZ MAÇOM
MÓDULO 12
A Magia dos Números

Ao nos depararmos com a Quinta Instrução do Grau de


Aprendiz Maçom, encontramos um tratamento muito especial
conferido ao significado dos números. Tal tratamento retrata uma
etapa da civilização e situa-nos num tempo e espaço colocados no
passado. Nossos ancestrais tinham uma visão muito peculiar da
matemática, uma visão que nos é, agora, trazida pela Quinta
Instrução. Mas não podemos nos esquecer de que não se pode
tirar grande proveito de determinados enunciados históricos, sem
nos preocuparmos, primeiro, com o contexto sociocultural em que
foram produzidos. Assim, por exemplo, afirmar que o número um é
igual à unidade não é correto, apesar de tal afirmativa aparecer na
quinta instrução. Ora, apenas quando somente o conjunto de
números naturais era conhecido, podia-se afirmar tal coisa. Afinal,
o número um pode ser dividido infinitamente, logo, não é igual à
unidade, pois esta última, assim como o infinito, é um conceito
metafísico. Foi pensando nisso que resolvi pesquisar alguma coisa
relacionada à história dos números, e encontrei em HOGBEN,
Lancelot, Maravilhas da matemática, uma visão muita bem
humorada, — e mesmo um tanto ácida em relação aos antigos, —
dessa ciência que, para alguns, é tão sisuda e misteriosa.
Encontrei também a diferença entre dois conceitos, a saber,o
Verdadeiro e o Real, que devem ser, de uma vez por todas,
conhecidos por nossos obreiros. A Quinta Instrução traz em si uma
beleza única, mas é preciso estar preparado para encontrá-la.
Comecemos pelos gregos, esses grandes matemáticos que
lançaram fundamentos que perduram até hoje. A exaltação da
matemática, por parte de Platão, a um augusto e misterioso ritual
originou-se das negras superstições e das puerilidades fantásticas
que empolgavam os homens que viviam na infância da civilização,
numa época em que, nem os mais inteligentes sabiam distinguir
claramente a diferença entre dizer que 13 é um número primo e
que 13 é número aziago. Sua influência na educação envolveu a
matemática num véu de mistério.

A maior façanha de Platão, diz Hogben, foi inventar uma


religião capaz de satisfazer as necessidades emocionais de
homens que viviam em conflito com seus ambientes sociais e
eram demasiado inteligentes ou individualistas, para procurar
santuário nas formas mais grosseiras do animismo. A curiosidade
dos primeiros que especularam o átomo, estudaram a propriedade
dos ímãs, observaram as conseqüências de se atritar o âmbar,
dissecaram os animais e catalogaram as plantas três séculos
antes de Aristóteles escrever o seu epitáfio sobre a ciência grega,
banir as personalidades do interior dos objetos naturais. Platão
colocou o animismo fora do alcance da devassa experimental,
inventando um mundo de “universais”. Este mundo de “universais”
é o mundo tal como Deus o conhece, é o “verdadeiro” mundo, do
qual o nosso não passa de sombra. Nesse “verdadeiro” mundo, os
símbolos fonéticos e numerais eram investidos da magia que se
evolava do corpo dos animais e do tronco das árvores, logo que
dissecados e descritos. O Timeus é uma encantadora coletânea
das estranhas perversões a que podia ser compelida esta mágica
do simbolismo. A verdadeira terra, em contraposição à terra
sólida, em que construímos nossas casas, é um triângulo
eqüilátero. A verdadeira água, em contraposição àquela que, uma
vez ou outra, consideramos uma bebida, é um triângulo retângulo.
O verdadeiro fogo, em contraposição ao fogo contra que nos
seguram as Companhias, é um triângulo isóscele. O verdadeiro ar,
em contraposição àquele com que enchemos pneus, é um
triângulo escaleno... Armemo-nos de paciência e vejamos como
Platão transformou a geometria da esfera numa explicação mágica
da origem do homem. Deus, – informa ele, – “imitando a forma
esférica do universo, encerrou os dois desígnios divinos num corpo
esférico, a que chamamos cabeça.”(!) Para que a cabeça “não
ficasse aos trambolhões pelos altos e baixos da Terra, para que
pudesse sair destes e galgar aqueles”, dotou-a de “um corpo
destinado a servir de veículo e de meio de locomoção, e por isso
tinha um certo comprimento e era dotado de quatro membros
compridos e articulados...”

Esta supremacia da cabeça muito desvanece os intelectuais


que não têm problemas práticos para preocupá-los. Assim sendo,
não é de admirar que a metafísica peculiar de Platão conservasse
sua influência sobre a educação, até muito depois que seu
temerário projeto de sociedade planificada deixou de ser reputado
teoria merecedora do estudo da juventude. Um sistema
educacional baseado nos ensinamentos de Platão pode muito bem
confiar o ensino da matemática a esses teóricos que põe a cabeça
antes do estômago, e que, por isso, ficariam aos trambolhões
pelos altos e baixos da terra, se tivessem de ensinar qualquer
disciplina. Naturalmente, esta perversão afugenta os indivíduos
equilibrados, para quem os símbolos não passam de instrumentos
da experiência social organizada, ao passo que atrai aqueles que
se valem dos símbolos para escapar deste mundo tenebroso em
que os homens lutam pelas pequeninas verdades que logram
conquistar, e fogem para o “verdadeiro” mundo em que as
verdades parecerão axiomáticas.

A história do pensamento humano poderia ser encarada


como uma luta entre dois modos diversos de se lidar com o
mundo. Um é o do homem prático que utiliza o conhecimento para
alterar a realidade; o outro é a cultura de uma casta dotada de
lazer suficiente para contemplá-la. As superstições sacerdotais
associadas com o calendário exigiam que a posição dos templos
encerrasse uma saudação aos seus augustos patronos celestiais.
Assim, para fazer hotéis luxuosos e confortáveis, dignos da visita
dos deuses siderais, os escravos mourejavam sobre o areal
ardente do deserto. Isto produziu uma arte, repositória dos
segredos da construção de casas dignas do homem.

Entre os gregos jônicos, havia homens, como Demócrito, que


percebiam, como nós, que o conhecimento é algo que temos o
privilégio de compartilhar com os demais. Os primeiros
matemáticos desejavam distribuir profusamente os seus
conhecimentos. O próprio Pitágoras passou a vida a fazer
conferências sobre números e figuras, perante vastos auditórios.
Por sinal, casou-se com uma de suas alunas, chamada Teona.

Os conhecimentos numéricos da velha China permitem-nos


perceber os rudimentos mágicos de uma língua de grandezas em
que se baseia a estatística moderna. No Livro Chinês das
Permutações, escrito 500 anos antes do nascimento de Pitágoras,
representam-se os oito primeiros números por combinações de
traços horizontais, ora inteiros, ora interrompidos. A escrita
calendárica dos Maias, — a única linguagem numeral baseada no
mesmo princípio que a notação hindu, — também usa traços
horizontais superpostos. Outra maneira de representar os
números era o uso de pontos e círculos. Círculos brancos para
números machos, e pretos para números fêmeas. É esta a
representação usada no primeiro quadrado mágico de que temos
notícia.

O culto do quadrado mágico imperava em todo o mundo


antigo. Mais tarde, provavelmente confundiu-se com a forma de
magia conhecida pelo nome de “gematria”, estranha crença
entrelaçada ao uso das letras alfabéticas para propósitos
divinatórios. Quando cada letra passou a representar um número,
cada palavra passou, ipso-facto, a ter o seu número característico,
formado pela adição de todos os números representados por suas
letras. Quando duas palavras tinham o mesmo número,
comentava-se o fato como se fosse símbolo de algum mistério
tremendo. A superioridade de Aquiles sobre Heitor fundava-se no
fato de as letras do nome Aquiles perfazerem um total de 1.276, ao
passo que as de Heitor perfaziam apenas 1.225. Em hebraico,
Eliasar perfaz 318. A saga hebraica diz-nos que Abraão libertou
318 escravos quando salvou Eliasar. A gematria associou estrelas,
planetas e prodígios nos escritos astrológicos dos teosofistas e
astrólogos medievais.

Tudo isso nos testemunha a História. Para o homem normal,


porém, a perfeição desse “verdadeiro mundo”, incansavelmente
procurado pelos antigos, cheira a sonho. O mundo em que vive o
homem comum é o mundo de lutas e fracassos, privações e
desenganos. No mundo matemático, tudo é evidente para quem a
ele se acostuma, daí sua atração irresistível para aqueles que não
se habituaram à realidade, e procuram, através de métodos
abstrusos, um meio mágico de exorcizarem o sofrimento e a
dúvida, muito mais produto de suas próprias fraquezas e
desenganos. Nossos rituais nos dão testemunho de fórmulas
antigas. Com elas, nossos antepassados viam e enfrentavam o
mundo. Por isso tais fórmulas são tão importantes para nós.
Todavia, entre conhecê-las e empregá-las cotidianamente, vai uma
distância tremenda, só comparável àquela aposta entre o sonho e
a realidade.
O homem, ao longo de toda a sua história, jamais pôde
escapar à decepção de verem destruídos os fundamentos básicos
de suas crenças e desejos. A história da matemática ilustra bem
essa série de decepções. Uma delas provém de Platão, que
assegura que as proposições matemáticas reafirmam verdades
eternas. Foi esta a doutrina que forneceu a Kant uma maneira
segura de afrontar os materialistas de seu tempo, onde
revolucionários como Diderot ameaçavam o clero. Kant supunha
que os princípios da geometria eram eternos e independentes de
nossa percepção, suposição esta arrasada por Einstein, e não
mais residindo no céu onde a colocou Platão, pois sabemos, hoje,
que os postulados geométricos, quando aplicados ao mundo
material, não passam de verdades aproximadas. Mesmo assim, é
possível brincar com a matemática.

Conta-se que Diderot, o enciclopedista, na corte russa,


costumava deliciar a nobreza com sua irreverência materialista. A
czarina, ciosa da fé dos cortesãos, contratou Euler, o mais ilustre
matemático daquela época, para discutir publicamente com o
filósofo. Este último foi, então, informado de que um matemático
descobrira uma prova da existência de Deus. Convidado a
comparecer à corte, perante a nobreza reunida, Euler lançou a
seguinte proposição: “a + b.n / n = x, logo, Deus existe.
Responda!” Mas, para o filósofo Diderot, álgebra era o mesmo que
árabe e, por isso, não pôde precisar onde estava a mistificação.
Ora, se ele soubesse que a álgebra não passa de uma linguagem
na qual se designa o papel representado pelas coisas,
contrariamente às línguas ordinárias, usadas para designar as
espécies das coisas do universo, teria pedido a Euler que
traduzisse para o francês a primeira parte da sentença. Traduzida
livremente para o português, teríamos mais ou menos o seguinte:
“Pode obter-se o número x, primeiro juntando a um número a um
número b, multiplicado por si mesmo certo número de vezes e
depois dividindo tudo pelo número de vezes por que se multiplicou
b, portanto, Deus existe. Que me dizes a isto?” Mas Euler teria
ficado em apuros se fosse questionado sobre de que maneira a
segunda parte da sentença decorre da primeira. Diderot, como
muitos de nós, ficou inseguro ao ser defrontado por uma
linguagem de grandezas, e afastou-se do salão, voltando logo para
França.

Todavia, o tribunal da História acabou por socorrer Diderot, e


o supernaturalismo defendido por Euler limitou-se a bater em
retirada.
Enfim, os números não mentem, mas pode-se mentir através
deles.

A Matemática

Matemática é a ciência que estuda as propriedades de entes


abstratos, pelo emprego do raciocínio dedutivo. No passado,
voltou-se especialmente para o estudo das propriedades dos
números e figuras geométricas e das relações que se estabelecem
entre eles. Divide-se grosso modo em matemática pura, —
raciocínio abstrato baseado em axiomas, — e aplicada, que
envolve o uso da matemática em outros campos do conhecimento,
como a física, química, astronomia, engenharia, economia etc. As
principais divisões da matemática pura são a álgebra e a
geometria.
Os estudos sobre as sociedades primitivas mostram que as
primeiras noções matemáticas e símbolos numéricos surgiram
como abstrações da operação de contar e progrediram
principalmente em áreas de civilização urbana com condições
econômicas evoluídas. Tradicionalmente, divide-se a história da
matemática em cinco períodos: dos primórdios até a época dos
babilônios e egípcios, o período grego, a Idade Média e o
Renascimento, os séculos XVII e XVIII; e os séculos XIX e XX. As
maiores contribuições matemáticas da Antigüidade são atribuídas
às civilizações mesopotâmica e grega, enquanto as culturas
egípcia e romana se limitaram a aperfeiçoar as técnicas de medida
e a prática aritmética.
Em sua evolução histórica, a matemática experimentou uma
progressiva diferenciação em áreas. Entre as mais importantes
estão a aritmética, a geometria, a álgebra, a análise matemática,
que engloba o cálculo diferencial e integral, a trigonometria, a
teoria dos conjuntos, a probabilidade e a estatística.

Fonte: HOGBEN, Lancelot. Maravilhas da Matemática.


Influência e função da matemática nos conhecimentos
humanos. Ed. Globo, 1970.
DOCÊNCIA MAÇÔNICA
APRENDIZ MAÇOM
MÓDULO 14
Cabala,

Busca Filosófica da Compreensão de Deus

A Cabala, além de seu sentido genérico de tradição oral, é um conjunto de


preceitos e especulações místico-esotéricas da filosofia religiosa judaica, sob a
influência de outras doutrinas. Começou a cristalizar-se a partir do início da era
cristã, definindo-se no século XIII como sistema filosófico-religioso. O pensamento
judaico sempre foi interpretativo dos textos bíblicos, deles procurando extrair
significados ocultos. A cabala originou-se na kabalah (tradição), iluminada por um
misticismo exacerbado que acabou por assumir o primeiro plano para ganhar os
valores de um sistema conceitual.

Tais ensinamentos esotéricos surgiram a partir do século XIII, na Espanha e no sul


da França. Em sentido estrito, há duas escolas cabalísticas: a alemã e a
espanhola. Esta última seguiu o caminho da especulação e da teosofia esotérica,
organizando-se no século XIII, na península Ibérica e Provença, no livro Zefer Ha-
Zohar (Livro do Esplendor), conhecido como Zohar. Escrito entre os anos 1280 e
1286 pelo cabalista espanhol Moisés de León, sua autoria, na verdade, é atribuída
ao rabino do século II, Simón Bar Yohai. O Livro se concentra na natureza e na
interação de dez sefirot (números elementares), símbolos da vida e dos processos
da natureza divina. Segundo a teosofia do Zoar, além de qualquer contemplação
humana está Deus, pois ele é, em si próprio, incognoscível e imutável: En Sof
(infinito).
Este aspecto cósmico do Zohar se desenvolveu na cabala luriânica do século XVI
que foi fundada por Isaac ben Salomão Luria. Segundo Salomão Luria, o En Sof
ao criar o mundo, reservou um espaço para o mal. Posteriormente, a cabala levou
a práticas de magia e ocultismo.
Não nos podemos esquecer de que há também um movimento de cabala cristã a
partir do século XV, que se identifica com as escolas alemãs e italianas.
A Tradição
Doutrina e Fundamentos
Cabala Medieval
Cordovero e Luria
Conclusão

A Tradição

Data dos séculos I e II da era cristã a primeira manifestação da tradição


cabalística: é o maasseh merkavah (história do carro), mencionado no livro de
Enoque, uma das duas estruturas, junto com o maasseh bereshit (história da
gênese), nas quais repousa toda a cabala. Esta é uma especulação sobre o
mundo das coisas e sua criação; aquela, um sistema metafísico que aponta os
atributos divinos como causa de tudo.A merkavah, o carro celeste da visão do
profeta Ezequiel, que percorre os sete céus através de inúmeros perigos, é uma
alegoria da elevação da alma à procura de Deus. Essa gnose é oriunda do exílio
na Babilônia, e seus cultores, aqueles que se dispunham à grande aventura, são
chamados iordei merkavah.

Doutrina e Fundamentos

Do século III ao século VI a especulação cabalística já dominava o pensamento


judaico na Babilônia. Nessa época surgiu o Sefer ietzirah (Livro da criação),
escrito em hebraico por autor desconhecido, que trata da origem do universo e
das leis que o regem. Em um monólogo do patriarca Abraão revela-se a
compreensão da natureza e de suas manifestações como emanações de Deus.

Os vários planos da criação formam dez esferas (sefirot). O espírito tornado


Palavra (análogo ao Verbo) é a primeira esfera e, por meio do sopro, a segunda
esfera, que dele emana, cria as demais através de combinações de letras e
números: a água é a terceira, que produz a terra, o barro, as trevas, os elementos
rudes; o fogo é a quarta; as seis últimas são os quatro pontos cardeais e os dois
pólos.

O Sefer ietzirah já encerra a preocupação cabalística com a manipulação de letras


e números na interpretação de significados ocultos e na prática da magia. Os 32
caminhos místicos são constituídos pelas 22 letras do alfabeto hebraico e dez
algarismos, que podem ser combinados e interpretados de três maneiras:
notarikon, que cria significados ao tomar as palavras por acrósticos de expressões
ocultas; guematria, que atribui valores numéricos às letras, estabelecendo
analogia entre palavras de valores iguais; e temurah ou permuta, que manipula
palavras por anagramas.

Cabala Medieval

Na Idade Média o centro do judaísmo deslocou-se da Babilônia para a Europa. Na


Provença, Abraão ben David de Posquières escreveu um comentário ao Sefer
ietzirah. Seu filho Isaac, o Sagui Naor, foi considerado "pai da cabala", sendo-lhe
atribuída uma obra de fundamental importância, o Bahir (claro, brilhante).

A obra que viria a ser o cânone da cabala surgiu, porém, na Espanha do século
XIII; o Sefer ha-zohar (Livro do esplendor), ou, simplesmente, Zohar. Foi a partir
de sua divulgação que a cabala ganhou dimensão de movimento organizado a
doutrina sistematizada. Já atribuído ao rabi Simão bar Iochai, o Zohar parece ser
na verdade uma compilação de várias obras, feita por Moisés ben Shem Tov, de
León. Seu texto constituiu-se aos poucos, sendo completado entre 1275 e 1286, e
só foi impresso, na versão original em aramaico, em 1558 em Mântua. Como em
toda a cabala, vários conceitos se fundem no Zohar: um panteísmo de influência
neoplatônica, idéias nitidamente teístas, elementos de feitiçaria e demonologia
medievais, linhas de exegese inspiradas pelo racionalismo judaico.

O Ser infinito ou Ein Sof, segundo o Zohar, difere do Deus-Criador das escrituras:
é a substância, a causa imanente, o princípio ativo e passivo de tudo. O Ein Sof
desconhece a si mesmo até que suas emanações se constituam em atributos
através de dez sefirot, esferas que são projeções espirituais desses atributos, e
não formadas pelos planos da Criação, como as esferas do Sefer ietzirah. No
Zohar, as dez sefirot assumem uma imagem antropomórfica, formando a figura do
Adam Kadmon: é o demiurgo, o criador da natureza. Essa imagem do Adam
Kadmon corresponde à do homem perfeito que é o mensageiro de Deus, o
messias.

Cordovero e Luria

A expulsão dos judeus da península ibérica em 1492 e a migração dos judeus


espanhóis para a Palestina fizeram florescer na cidade de Safed, na Galiléia, um
círculo influente de cabalistas. Dois cabalistas de Safed se destacaram e
marcaram o movimento: Cordovero e Isaac Luria.

Moisés ben Jacob Cordovero, em sua obra principal, Pardes rimonin (Pomar de
romãs), interpretou e explicou o Zohar, estabelecendo a diferença entre o
panteísmo neoplatônico e o da cabala: "Deus é realidade, mas esta não é
Deus”.Explicou ainda a natureza da criação do universo e das sefirot. Sua atitude
filosófica é condizente com a dos cabalistas contemplativos e puramente
especulativos do período espanhol.

Ao contrário de Cordovero, Isaac Luria foi místico e visionário voltado para a


cabala prática e ativa. Filósofo e professor, só falava a seus discípulos, mas nada
escreveu. Luria voltou-se para a contemplação das forças naturais, onde via e
ouvia o murmúrio das almas e a linguagem do espírito. A par de seus arroubos
místicos, deixou teorias bem delineadas.

A existência de uma alma coletiva dá a cada homem uma relação indissolúvel de


causa-efeito com todos os homens. Seus pecados e seus méritos se refletirão no
destino de todos. Derivada dessa teoria, a do dibuk explica a posse de um corpo
vivo pela alma de um morto ou de um demônio.

Luria, conhecido como Haari Hakadosh (leão sagrado) ou simplesmente Haari,


tornou-se um marco de transição entre a cabala especulativa e os movimentos de
massa judaicos nela inspirados. Acentuando a importância do papel do homem no
misticismo da cabala, abriu caminho para uma atitude mística ativa, que visa à
busca e ao encontro da harmonia e da redenção.

Conclusão

Quem quer que aspire conhecer a Cabala deve familiarizar-se com as idéias de
Platão no “Demiurgo” e com as de Filon, no “Logos”, recomenda o Rabino Hirsh
Zelkovicz. Mas, incontestavelmente, a Cabala é hebraica, muito embora alguns
pretendam o contrário, aduzindo teorias e idéias que chegam ao cúmulo de
afirmar que a Cabala “foi roubada” aos arianos pelos judeus. Velha história que
conhecemos muito bem, e que não vale a pena comentar aqui. A obra apresenta-
se estruturada de acordo com a lógica costumeira da divisão de livros. Estes, ao
que parece, de diversas épocas, foram unificados organicamente através de uma
redação ulterior. A matéria, assim fragmentada, não obstante, tem uma
característica principal: todas as partes se constituem, invariavelmente, em
comentários a respeito de versículos da Torah, que a Cabala interpreta de modo
eminentemente místico, com profundidade e sabedoria. Muitos vêem a cabala,
erroneamente, apenas como sistema de manipulações mágicas. Em certas
épocas esse aspecto teve papel preponderante, mas a cabala nunca deixou de
ser função de uma busca filosófica da compreensão de Deus, dos mistérios do
universo e do destino do homem.
DOCÊNCIA MAÇÔNICA
APRENDIZ MAÇOM
MÓDULO 15
TROLHAMENTO OU TELHAMENTO

Em atenção ao assunto colocado por um de nossos Irmãos,


ocorreu-me pesquisar o termo e apresentar alguns subsídios
encontrados juntos a obra do escritor maçônico Ir CASTELLANI.

Em primeiro lugar, ambos os termos, telhamento ou


trolhamento, não aparecem como verbetes específicos no
dicionário maçônico do Ir CASTELLANI, que lá os não coloca,
por se tratarem de neologismos.

Assim, não constou a palavra telhamento, eis que o correto,


no idioma vernáculo, é telhadura. Da mesma forma também não
constou o verbo trolhar — neologismo. Encontramos, todavia, o
verbo transitivo telhar, que não é neologismo. No dicionário, são
abordados ainda os verbetes telhador e trolha. Senão vejamos:

TELHADOR _ ... em Maçonaria é também o título do Cobridor, ou


Guarda do Templo, a quem compete telhar, ou fazer o telhamento
(que é um neologismo maçônico, já que o termo correto seria
telhadura) dos que se apresentam à porta do Templo, para verificar a
sua qualidade maçônica e o seu grau.

TELHAR _ ... Ao cobridor, ou Telhador, compete telhar — ou seja,


examinar nos toques, sinais e palavras — os visitantes que se
apresentam à porta do Templo, para verificar se eles são realmente
maçons, e, posteriormente, para se certificar se eles possuem grau
suficiente para assistir à Sessão que está se realizando. O termo
tem sido confundido com trolhar — que significa passar a trolha —
altamente incorreto para designar o referido exame, já que este é
uma cobertura, e cobertura se faz com telhas e não com trolhas (ver
trolha).

TROLHA _ ...como uma de suas funções é alisar a argamassa,


aparando as rugosidades, ela, simbolicamente, significa o meio que
é usado para apaziguar Obreiros em litígio, aparando as arestas. E é
por isso que esse apaziguamento, esse entendimento, é conhecido
por um neologismo maçônico inexistente no idioma: trolhamento, já
que trolhar, outro neologismo, é passar a trolha. O termo,
lamentavelmente, em alguns meios maçônicos, tem sido usado em
lugar de telhamento, e com o mesmo sentido deste, o que é um erro
que não tem sido devidamente esclarecido.

A par disso, contudo, ainda que consideremos o acerto com


que o tema foi, sem dúvida alguma, desenvolvido pelo respeitável
Ir escritor, em nossos Rituais figura o termo TROLHAMENTO,
adotado, portanto, pela Muito Respeitável Grande Loja Maçônica
do Estado do Rio Grande do Sul, a qual estamos, como Lojas,
subordinados. É por essa razão que adotamos o termo, e o
usamos para designar o que na verdade seria o TELHAMENTO.

Mais uma vez, meus Irmãos, vamos nos adequar àquilo que
nossa Instituição nos indica, não nos furtando, todavia, de um
exame mais aprofundado, do qual jamais devemos fugir, ainda que
tal exame implique numa postura crítica. Não vai nisso nenhum
demérito. Configura apenas simples exercício de nossa liberdade,
apanágio maior de todo Maçom. Maçonaria, meus Irmãos, é isso.
Aprendizado com base em tomada de consciência revelada no
estudo de cada gesto, de cada palavra, de cada símbolo, com
extração do conteúdo intrínseco de cada um desses elementos.
Isso nos ensina e nos prova que não somos autômatos, robôs que
se repetem. Somos seres conscientes. Se fazemos gestos,
reprisamos condutas e repetimos palavras, façamo-los cônscios de
seu significado. Para chegarmos a isso, mister que perguntemos,
que questionemos e que pesquisemos sempre, ainda que, às
perguntas, correspondam várias respostas, e que sejam até
contraditórias estas respostas entre si. Lidemos com isso desde
cedo, lado a lado com o pragmatismo da tomada desta ou daquela
solução. Não percamos de vista, porém, a fragilidade da versão
unilateral das coisas. Só assim advirá o progresso individual a
cada um de nós, com a descoberta de que existem inúmeros
modos de pensar o mesmo problema, caminhos da criatividade,
dimensão superior do Homem que, — para buscar e encontrar
respostas, — deve, antes de tudo, aprender a fazer perguntas.
DOCÊNCIA MAÇÔNICA
APRENDIZ MAÇOM
MÓDULO 16
PROÊMIO AO ESTUDO DA ABÓBADA CELESTE

"O que é na verdade mais belo que o céu, que, certamente,

contém todos os atributos da beleza?

Isto é proclamado por seus verdadeiros nomes,

caelum e mundus, este último significando clareza e


ornamento,

como a escultura antiga."

Copérnico - As Revoluções das órbitas Celestes, 1543

Citadinos, cercados por horizontes edificados, dificilmente


olhamos para o alto: esquecemos o firmamento! Ninguém mais
tem ócio para contemplar. Olvidamos os mitos celestes de
antanho, e o céu passou a texto e vivência da tecnologia. A
abóbada celeste, palco outrora dos deuses e dos heróis míticos,
nada mais tem a dizer ao homem urbano, pois esse cedeu seu
lugar aos especialistas. Vênus? Três Marias? Sirius? Poucos são
aqueles que aprenderam a identificá-los, e sequer pensam em
apontá-los aos filhos.
Hoje, conhecer os planetas e as constelações, seus mitos e
estórias, é tão útil, ou inútil, quanto saber o que significaram na
História. Assim pensa a maioria, seja ela citadina ou maçônica, e
poucos cultuam a celeste tradição de milênios...

Deploravelmente, isso levou a deformações na Abóbada


Celeste escocesa. Em alguns templos, as modificações foram
tantas que o "painel celeste" desapareceu! E, absurdamente, o
substituíram por um simulacro do céu astronômico -
pretensiosamente atualizado, enxameado de ene pontos
luminosos distribuídos a esmo. Assim, embora artisticamente
embelezado e provido de recursos técnicos, como se fora um
planetário, ele nada aponta e nada acrescenta à busca do Iniciado,
a não ser mostrar seu faiscante mutismo.

Por outro lado, naquelas Lojas que conservaram os cânones


celestes do Rito, a sóbria abóbada também está emudecendo -
calada por falta de intérpretes!...

Na verdade, aquém e além do Pórtico, a cobertura celeste


está dissociada de nossa vivência, seja ela maçônica ou profana.

Segundo Carl Sagan, em "Cosmos", os homens são "filhos


das estrelas". Infelizmente, não enxergamos isso no dossel
estrelado. Os Augustos Mistérios que lá estão, jazem no dizer
ritualístico, letra-morta, pois não tentamos decifrá-los nem
buscamos suas mensagens na Abóbada Celeste!

Exagero? Talvez! Mas cultuamos o respeito à Tradição. E


essa diz que o teto estrelado das lojas escocesas é uma
reminiscência do Antigo Egito que cultuou sobremodo tal
conhecimento, acolhido e normatizado no texto inicial do ritual. Daí
o nosso inconformismo com mudanças e amnésias ao texto-
padrão da cobertura estelar, uma tradição que nenhum maçom -
não importando seus títulos ou posição hierárquica - pode mudar,
alterar ou esquecer. Quando vemos isso acontecer, seja em
reformas ou na construção de templos, ficamos em dúvida sobre o
apodo cabível a tais iconoclastas: perjuros ou ignorantes! Pois, ou
eles têm conhecimento do texto que regula o assunto, e se
colocam acima disso, ou o desconhecem, e, no caso, não estão à
altura do cargo ou encargo que exercem nem dos conhecimentos
que aparentam ter.
- Querem outra abóbada, céu ou teto? É fácil: troquem de
rito!...

Feita a inserção de nossa inconformidade - e veemente


repúdio - com o descumprimento da norma que regula o teto do
Templo (páginas iniciais do Ritual de Aprendiz do R.’.E.’.A.’.A.’. -
praticado pelas GG.’.LL.’. Brasileiras), retornemos ao tema em
estudo para mostrá-lo a luz de outros enfoques, quiçá mais
amenos.

Estórias egípcias contam que Osíris, para presidir o tribunal


das almas, diariamente viajava do Oriente para Ocidente em sua
"barca solar", tripulada por fiéis vassalos - os glorificados
(simbolizados nas estrelas pintadas no teto da Câmara do
Sarcófago Real). Por analogia, identificamos os "reais
companheiros" de então com os exaltados de hoje, pois, seja há
milênios ou nos dias atuais, neles e em nós, por extensão e
herança, continua perene o espírito e o trabalho de guardiães da
Tradição...

Neste trabalho, com o arcaico "proêmio", forma em desuso


para introdução, buscamos realçar o nosso antagonismo às
mudanças na abóbada, embora conheçamos outros enfoques, não
tão tradicionais quanto o nosso, dentre eles os lavrados pelos
renomados irmãos:

Hiran L. Zoccoli, autor da obra "A Abóbada Celeste


na Maçonaria", na qual diz que após examinar
divergentes estampas do céu maçônico,
confrontando-as com a diversidade dos tetos
existentes, estudou os fundamentos da Astronomia,
concluindo pela incompatibilidade da presença
concomitante de tais aspectos na abóbada do
templo maçônico. Daí apresentar e postular,
calcadas em padrões da Astronomia, duas novas
abóbadas: uma para as lojas do Hemisfério Norte, e
outra para as do Sul. Nelas insere todas as
constelações zodiacais e todos os planetas
conhecidos do Sistema Solar, acrescentando na
boreal a Estrela Polar e na austral a constelação do
Cruzeiro do Sul.

Evidentemente, não concordamos com tal posicionamento.


Os nossos fundamentos celestes colidem. Enxergamos a
perenidade da Tradição nas "figuras" rejeitadas por Zocolli,
enquanto ele, com os olhos da Ciência, buscou a mutabilidade
temporal e espacial do firmamento. Donde, a nossa mútua
exclusão de tetos...

José Castellani, em diversas de suas obras, e nas


revistas "A Trolha" e "O Prumo", diz ser suficiente
para Simbologia Maçônica que somente o Sol, a
Lua e as nuanças de cor Dia/Noite estejam na
Abóbada Celeste, não sendo essencial a presença
dos planetas e estrelas, acrescentando que no
passado o teto das lojas ostentavam a
representação (pentáculos) das doze constelações
zodiacais (Rev. "A Acácia" n.º 29/1995).

Castellani, conceituado pesquisador, parece preferir um


modelo mais antigo da Abóbada Celeste (similar à descrição feita
por Prichard em 1730), mas que entendemos válido só em outros
Ritos ou, talvez, no Escocês de Obediências não cingidas ao ritual
de 1928 das GG.’.LL.’..

E mais, Castellani, quando mostra o céu maçônico - que diz


conter as constelações zodiacais - apresenta uma das "antigas
estampas". Mas comete aí um deslize! Aquela gravura, e outras
similares, contêm asterismos austrais, boreais, equatorial e
somente quatro zodiacais: Virgem, Touro, Leão e Escorpião!
Constelações essas que foram os primeiros "marcos" da estrada
solar dos deuses celestes, onde mais tarde se agregaram outros
quatro e, finalmente, no século VI a.C. o duodenário círculo ficou
completo. Portanto, é importante frisar, a Tradição não contempla
o céu maçônico escocês com todo o zodíaco, mas sim e somente
com a representação daquelas que a antiga Mesopotâmia
formatou.

Concluindo, é gratificante constatar que Castellani assevera


ser correta a decoração celeste que siga um padrão (e descreve o
nosso), dizendo-o sem estrelas a esmo e sem o Cruzeiro do Sul,
que aponta como presente em Templos irregulares (Cad. Est. Maç.
nº 2 - J.Castellani - pág. 65).

Todo prólogo busca cativar o leitor, predispondo-o em favor


da obra que apresenta. Propositadamente, fizemos o contrário:
ressaltamos a ignorância que paira sobre o tema em exame, a fim
de motivar à ação de conhecer e de restaurar a nossa tradicional
abóbada celeste. Nessa missão, nos lançamos à condição de
palestrante e de articulista. Agora, transcorrido um tempo razoável,
constatamos que a palavra ecoou, mas com pouca eficácia na
comunicação escrita; faltou um texto convincente para ativar a
imaginação escocesa, fazendo-a recordar os porquês de sua
ancestral cobertura. Tal insight é um dos propósitos deste proêmio,
quiçá - a bem do Rito -, tenhamos êxito.

Até aqui, de diferentes modos, expressamos a idéia de um


painel presente no teto do templo, realmente é isso que lá está, um
grande mural ou um enorme afresco. Como tal, não pode espelhar
um momento específico ou único do firmamento, mas sim, e
simultaneamente, diversos. No mínimo, tantos quantos são os
astros presentes na simbólica e alegórica abóbada arquitetada por
ignotos mestres e deixada à decifração da posteridade escocesa.

Ouvindo amortecidos ecos da linguagem perdida da Tradição


- traduzimos:

- meu sobrecéu - com os luzeiros do Dia e da Noite,


nuvens, planetas e poucas estrelas -, cobre do
Setentrião ao Vale dos Reis ao Meio-Dia, de Albion
ao Ocaso ao mundo de Zoroastro no Nascente. Sob
tal dossel vi nascer as duas primeiras lojas míticas:
a Operativa e a Escocesa! A primeira em
Jerusalém, no átrio do Templo em construção - a
segunda na Escócia, na Montanha de Heredon em
Kilwinning. Acompanhei a construção dos "Castelos
de Mil Anos" no Antigo Egito, o Partenon grego, o
Coliseu romano e os trabalhos de levantar
Catedrais na Europa. Presenciei a recepção dos
Aceitos, a Iniciação dos primeiros Especulativos e
os magnos eventos maçônicos de 1717. Dou voz à
Astréia, Osíris, Cronos, Orion e a muitos outros...
Meus asterismos, isoladamente ou no conjunto de
suas constelações, evocam o trabalho feito em prol
da Humanidade por todos os grandes avatares,
filósofos e líderes do Bem, e também simbolizam o
Direito, a Justiça, a Paz e a Fraternidade... Em
síntese, com meus astros e em suas recíprocas
relações físicas e esotéricas, apresento o
conhecimento das estruturas míticas, espirituais,
históricas e culturais do mundo maçônico.
Duas afirmações da "fala do teto" são basilares, portanto devem
ser imediatamente elucidadas (as demais ficam para trabalhos
subsidiários), são elas: a dos limites de cobertura e a do número
restrito de estrelas. Para a melhor compreensão, vamos vê-las
separadamente:

a primeira - quando declaramos que a loja tem a forma de


um quadrilongo, repetimos o conceito medieval de que o
mundo conhecido não ia muito além da bacia do
Mediterrâneo ("o meio da terra"). Conhecimento que,
embora bem mais amplo, ainda perdurava entre os
Operativos (séc. XI), pois eles, e a maioria dos europeus de
então, ainda entendiam a Terra como plana e centrada em
Jerusalém. Seus limites refletiam-se sideralmente: ao
Norte, a região da ignota e frígida Ursa Maior, ao Sul, as
ensoloradas paragens do Egito, com Fomalhaut
tangenciando o horizonte, e, longitudinalmente, o curso do
Sol, dos páramos dos Reis Magos aos abismos do ignoto
Atlântico.

a segunda - do quartado céu das estrelas reais do Mundo


Antigo (Mesopotâmia e adjacências), emergem as
zodiacais Fomalhaut, Aldebaran, Régulus e Antares,
quando, há mais de 4000 a.C., sinalizavam o início das
estações. Saber celeste, e mágico, essencial aos ritos
religiosos e às atividades agrícolas de então.
Conhecimento que Hesíodo, contemporâneo de Homero,
aponta como não casual em Os Trabalhos e Dias, mas
sábia combinação, pois, na fase primitiva da agricultura,
toda regra era uma observância religiosa e moral, cujas leis
tinham uma base prática para fazer crescer as colheitas.

Os Antigos, já vimos, tinham somente quatro estrelas reais,


no entanto, o texto escocês inclui, no noroeste do teto, mais uma
em tal conjunto, e a realça em vermelho - Arcturus, a mais
brilhante estrela boreal. A motivação de tal "realeza" explanamos
noutro trabalho, contudo, convém relembrar que tal asterismo por
seu posicionamento, brilho e cor, tanto pode simbolizar o
R.’.E.’.A.’.A.’. quanto a primeira Grande Loja-Mãe do Mundo...
Também postas à reflexão escocesa, temos ainda as quinze
estrelas "principais" agrupadas em três conjuntos (3 + 5 + 7),
acrescidas de mais sete da Ursa Maior, totalizando 22.
Curiosamente (?) tantos quantos são os cabalísticos "Caminhos da
Árvore da Vida"...

Completando a totalidade de nossas poucas estrelas,


sucintamente referenciadas, falta mencionar que, com a Spica,
estão todos os Mistérios gregos, com o Sol (estrela de 5ª
grandeza), todas as hierofonias, e - fechando o conjunto estelar -
com a estrela de cinco pontas, Sírio, está a magna estrela do
Egito.

Concluído o exame, e totalizando-o, alcançamos o restrito


número de trinta estrelas! Por que tão poucas? Não seria mais
lógico, condizente com o Rito, se fossem 33 asterismos? Qual o
significado dessa inconcludente série?

Existem algumas possíveis respostas, dentre elas, duas


talvez correspondam à idéia-mater dos longínquos mestres da
abóbada. Uma decorre das trinta dinastias egípcias, permitindo até
acomodar a exclusão dos faraós não autóctones; a outra,
apontando a presença de estrelas binárias em Sírius, Régulus e
Antares (ocultas à visão desarmada), conclui: 30+3=33...

Zoroastro, no Avesta, assim expressa a abóbada: "há as


estrelas, que são os bons pensamentos; as boas palavras são a
Lua; e o Sol é as boas ações..." Nós, sem tal expressividade
poética, vamos dar continuidade ao nosso périplo celeste, agora
enfocando o Sistema Solar presente em nosso teto. De chofre,
uma descoberta: não é o do nosso tempo! É o do século XVII, o
dos primeiros "aceitos"! Pois ainda não contempla Urano, Netuno e
Plutão, mas já conhece anéis e satélites, através da luneta de
Galileu, e os faz representar em Saturno e não em Júpiter, embora
tenham sido descobertos 45 anos antes nesse do que naquele
planeta. Paradoxo? Não! Somente mais uma prova de que a
Abóbada escocesa é solidária à Tradição e não à Astronomia, pois
em torno de Saturno - a jóia do céu - tais "adornos" têm
conotações esotéricas, o que não ocorre com os de Júpiter, daí a
presença de uns e a ausência de outros.
Além disso, tal conformidade se reafirma, e se faz
inequívoca, com a exclusão de Marte (Ares) e a presença do seu
antônimo, o anti-ares (Antares), pois, repelindo aquele astro e
acolhendo este, enfaticamente expressa sua repulsa ao
simbolismo do ferro e de irrestrita adesão ao fundamental princípio
de não-violência no Templo da Paz.

Diz um provérbio hebraico ensinar o antigo é mais difícil que


ensinar coisas novas. Repelimos tal assertiva. Ela espelha e
propaga a errônea idéia de que a Tradição seja algo estagnado,
ultrapassado e sem liames com o presente. Neste trabalho,
buscamos desmentir aquela máxima, reafirmar a perenidade da
Tradição e tornar fácil a recepção das informações atinentes ao
tema em pauta. Moveu-nos o propósito de mostrar que é possível
o "re-conhecimento" da Abóbada, da qual fizemos um inacabado
esboço, onde alguns astros sequer foram mencionados, uns já
publicados e outros em andamento, tais como:

- o neófito - em Aldebaran, no Olho Rutilante do Touro;


- a Torre de Babel, a Iniciação e a tríade egípcia - em Orion;
- o Caos, Zoroastro e o féretro de Osíris - na Ursa Maior;
- Cronos e a Idade do Ouro - em Saturno;
- a régua dos céus, Hiran de Tiro e Éracles - em Régulus;
- o tabu do ferro - em Antares;
- a estrela de cinco pontas - em Sirius;
- os Mistérios gregos - na constelação da Virgem;
- os utensílios do arquiteto, o labirinto e Dédalo - em Arcturus.

Esses títulos e outros abrem os trabalhos complementares


em torno da Abóbada Celeste. Portanto, ainda temos muito a
navegar nos caminhos de nossa jornada intelectual, que também
será de auto-reconhecimento, através dos arquétipos evocados...

Finalizando, há uma indagação que já deveríamos ter


elucidado quando buscamos conciliar a quantidade de estrelas
com os graus do Rito, ou com a seqüência dinástica egípcia, pois
ali estava o contexto pertinente para mostrar por que só duas
constelações são vistas na íntegra em nosso teto. Ou seja, todas
as constelações estão incompletas, com exceção da Ursa Maior e
Taurus. Por quê?

Evidentemente, a resposta não cabe no espaço restrito do


fecho deste prólogo. Porém devemos - tal como já fizemos em
antecedentes passagens -, deixá-la, no mínimo, expressa de uma
forma tal que permita o sumário entendimento do seu arrazoado, o
que implica na compreensão, segundo a ótica dos Sarcófagos, de
"elevação até o princípio" que entra, através do hieróglifo
"SBA"=estrela=porta, na composição de palavras como educar,
instruir, ensinamento...

A Astronomia, a Religião e a Antropologia concordam em


situar na pré-história a formatação das duas primeiras
constelações, a da Ursa Maior e a de Taurus. Também lhes
atribuem a mesma motivação ao nome que ganharam - o das
grandes feras que povoaram os terrores dos homens -, os quais
então, para exorcismá-las, as cultuaram. Coube à Grande Ursa o
primeiro destaque: o frio glacial, as grandes tempestades, a
deificação do Mal e do Caos...

Posteriormente, avançando para as primeiras manifestações


da história mesopotâmica, quando o pavor já fora amainado em
temor, surge em substituição a "astrolatria" o que alguns
especialistas do Sagrado (Cirlot, dentre eles) denominam de
"astrobiologia", ou seja, a penetração recíproca da lei astronômica
e da vida vegetal e animal. Tudo é, ao mesmo tempo, organismo e
ordem exata. A agricultura e a pecuária obrigam a reprodução
regular de espécies nitidamente determinadas e o conhecimento
de seu ritmo anual de crescimento que está em relação direta e
constante com o calendário, quer dizer, com a posição de alguns
astros. É o momento do grande Touro - o mítico reprodutor que
brama na voz do trovão -, anunciar a Primavera e o
"renascimento"...

Tais símbolos arquétipos, como diria C. G. Jung, ficaram


impressos no inconsciente coletivo. Portanto, para simbolizar os
primeiros passos no sentido da compreensão dos Augustos
Mistérios, o Rito Escocês acolheu com destaque no conjunto de
suas estrelas "principais" a representação integral da Ursa Maior e
de Taurus. Esotericamente é um realce encobrir cânones - assim,
o texto normativo ao expressar tais constelações de modo velado,
as salienta: a primeira não é dita com quantos asterismos se
compõe, e a segunda vem supressa de sua denominação estelar...

Concluindo, em nossa abóbada escondem-se os princípios


morais, as leis naturais, os grandes contrastes e transformações
que regem o transcurso da vida cósmica e humana. Há em seu
contexto um pensamento orientado. um eco da Tradição esotérica
que nos diz o Transcendente e o Imanente, enquanto nos passa o
sentido dos Mitos Sagrados dos alvores da humanidade. Mas
também nos reforça a convicção de que esse "vir e passar" vai
além: perpassa!... Alcança no centro do teto, na incompleta
representação de Orion, a atual e ainda parcial consecução da
religiosidade mosaico-judáico-cristã. Por fim, aponta o futuro, um
ponto: Fomalhaut, referência astronáutica, estrela alfa da
Constelação do Peixe Austral que, no mítico passado, pertencia ao
signo de Aquário... Enfim, Portais e Ciclos que um dia nos
conduzirão à Fraternidade Universal!

Uma oração do Avesta diz: Anuncie, Zoroastro, que aqueles


que amam as coisas do céu obterão uma excelente recompensa.
E nós complementamos: desde que os "inventivos" não
modifiquem o texto e o contexto da Abóbada Celeste!

bibliografia:

Atlas Celeste - Ronaldo R. de F. Mourão


Cosmos - Carl Sagan
Dic. das Religiões - o de J.R. Hinnells e o de Mircea Elíade -
Martins Fontes, SP Dic. de Símbolos - o de H. Bidermann e o de
J-E. Cirlot
Esoterismo - Pierre A. Riffard
Mundo Egípcio, Grego e Mesopotâmico - Ed. Del Prado

Adayr Paulo Modena, M.’.I.’.


Bem.’. Aug.’. e Resp.’. Simb.’. Cidade de Porto Alegre N.º 47