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INSTITUTO HISTÓRICO E GEOGRÁFICO BRASILEIRO

ANDRÉ DA SILVA RAMOS


THAMARA DE OLIVEIRA RODRIGUES

NARRATIVAS SOBRE A EXPERIÊNCIA


DA HISTÓRIA CONTEMPORÂNEA DO
IMPÉRIO LUSO-BRASILEIRO: HIPÓLITO
DA COSTA E FRANCISCO SOLANO
CONSTÂNCIO (1808-1810)

RAMOS, André Silva


RODRIGUES, Thamara de Oliveira
NARRATIVAS SOBRE A EXPERIÊNCIA DA HISTÓRIA
CONTEMPORÂNEA DO IMPÉRIO LUSO-BRASILEIRO:
HIPÓLITO DA COSTA E FRANCISCO
SOLANO CONSTÂNCIO (1808-1810)
R. IHGB, Rio de Janeiro, a. 175 (463):13-38, abr./jun. 2014

Rio de Janeiro
abr./jun​. 2014
13

I – ARTIGOS E ENSAIOS
ARTICLES AND ESSAYS

NARRATIVAS SOBRE A EXPERIÊNCIA DA HISTÓRIA


CONTEMPORÂNEA DO IMPÉRIO LUSO-BRASILEIRO:
HIPÓLITO DA COSTA E FRANCISCO SOLANO CONSTÂNCIO
(1808-1810)1
NARRATIVES ABOUT THE EXPERIENCE OF THE
CONTEMPORARY HISTORY OF THE LUSO-BRAZILIAN EMPIRE:
HIPÓLITO DA COSTA AND FRANCISCO SOLANO CONSTÂNCIO
(1808-1810)
André da Silva Ramos2
Thamara de Oliveira Rodrigues3

Resumo: Abstract:
Neste artigo, pretende-se analisar como Hipó- In this article we intend to analyze how Hipólito
lito da Costa e Francisco Solano Constâncio da Costa and Francisco Solano Constâncio
narraram a história contemporânea de Portugal narrated the contemporary history of Portugal
no contexto da transferência da Corte portugue- in the context of the transfer of the Portuguese
sa. Explora-se como estes letrados, residentes Court to Brazil. We explore how these scholars,
respectivamente em Londres e em Paris, pro- residing respectively in London and Paris, char-
curaram caracterizar a decadência em vigor no acterized the decadence of the reign of Maria I.
reinado de D. Maria I. Analisaremos o capítulo We analyze the chapter written by Hipólito da
escrito por Hipólito da Costa na reedição da Costa in the new edition of História de Portu-
obra História de Portugal composta em inglês gal composta em ingles por uma sociedade de
por uma sociedade de literatos (1809) e o artigo literatos (1809) and Constâncio’s article On the
de Constâncio, On the state of Portugal during state of Portugal during the last thirty years,
the last thirty years, escrito em 1808 para um written in 1808 for a French review, to dem-
periódico francês, a fim de demonstrar como, onstrate how these men of letters historicized
ao escreverem a história contemporânea des- the present time of Portugal. It is argued that
te reinado, os letrados historicizaram o tempo despite being involved in different politic proj-
presente de Portugal. Argumenta-se que apesar ects, both mobilized discursive strategies with
dos letrados estarem envolvidos em projetos po- the intention to archaize the experience of Por-
líticos distintos, ambos mobilizaram estratégias tugal history. Finally, we explore how Hipólito
discursivas com o intuito de arcaizar a experiên- da Costa criticized Constâncio’s perspectives in
1 – Agradecemos a leitura de Valdei Lopes de Araujo e ao financiamento da CAPES.
2 – Doutorando em História. Programa de Pós-Graduação de História da Universidade
Federal de Ouro Preto. E-mail: andramos7@yahoo.com.br
3 – Mestranda em História. Programa de Pós-Graduação de História da Universidade
Federal de Ouro Preto. E-mail: thamara_rodrigues@yahoo.com.br

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cia da história de Portugal. Ao fim, analisaremos the Correio Brasiliense in 1810, in order to map
uma crítica de Hipólito ao texto de Constâncio the opposing solutions designed for the Luso-
publicada no Correio Brasiliense em 1810, Brazilian Empire after 1808. We intend to dem-
buscando mapear as soluções distintas projeta- onstrate how these solutions emerged entangled
das para o futuro do Império Luso-Brasileiro a in the narrativization of the decadence of Portu-
partir dos acontecimentos de 1808. Pretende-se gal, which assumed different degrees of intensity
demonstrar como estas soluções emergiram en- in the texts of the authors discussed.
redadas à narrativização da decadência de Portu-
gal, que assumiu graus distintos de intensidade
nos textos dos autores abordados.
Palavras-chave: História da Historiografia. Keywords: History of Historiography. Historic-
Historicidade. Decadência ity. Decadence.

Introdução
É consenso em meio aos recentes estudos produzidos no âmbito da
história da historiografia brasileira a necessidade de se pensar a formação
da nação e a constituição de culturas históricas no Brasil no século XIX
a partir do estudo das permanências e continuidades discursivas que re-
montam ao passado de unidade do Império português. De fato, a forma-
ção da nação e a sedimentação de possibilidades de constituição de práti-
cas historiográficas modernas comprometidas com a tessitura de grandes
narrativas capazes de explicar a evolução e a singularidade nacional não
se processaram de forma teleológica. Dessa forma, pode-se verificar a
importância da tematização dos diversos universos nos quais emergiram
práticas de crítica histórica e possibilidades de narrativização dos eventos
no Império português, tanto na metrópoles, quanto na América portugue-
sa. Neste aspecto, destaca-se a contribuição dos estudos produzidos no
âmbito da história da historiografia brasileira que restituíram a complexi-
dade das práticas historiográficas em vigor no século XVIII, especialmen-
te na Academia Real de História Portuguesa e Academias Luso-Brasílicas
dos Esquecidos e Renascidos, demonstrando as interpenetrações ecléticas
entre crítica erudita, retórica e providencialismo (KANTOR, 2004; NI-
COLAZZI, 2010; SILVEIRA, 2012).

Contribuição análoga a estes estudos pode ser atribuída àqueles que


tematizaram tanto as possibilidades político-historiográficas de fragmen-
tação do Império Luso-Brasileiro quanto as estratégias discursivas de
mediação temporal mobilizadas posteriormente à Independência, con-

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Narrativas sobre a experiência da história contemporânea do Império
Luso-Brasileiro: Hipólito da Costa e Francisco Solano Constâncio (1808-1810)

cebidas como indispensáveis para a formação da nação no Império do


Brasil (GUIMARÃES, 2006; ARAÚJO, 2008; ARAÚJO & PIMENTA,
2008; SILVA, 2010; SANTOS, 2010; ROSA, 2011; RANGEL, 2011;
VARELLA, 2011; MEDEIROS, 2013; RAMOS, 2013). Estas perspec-
tivas, como afirmado acima, possibilitaram tanto a desnaturalização da
formação das nações, quanto a compreensão das continuidades e descon-
tinuidades discursivas que permitiram a sedimentação e coexistência de
práticas historiográficas e culturas históricas.

Verificam-se também na história da historiografia portuguesa con-


temporânea estudos que têm ressaltado a importância das práticas histo-
riográficas acadêmicas que remontam ao século XVIII (MOTA, 2004),
como perspectivas que visam à compreensão da modernização discursi-
va, conferindo centralidade às interpenetrações semânticas entre os sé-
culos XVIII e XIX (MATOS, 2009). Todavia, deve ser destacado que
estudos importantes que visaram dar um amplo panorama da história da
historiografia portuguesa priorizaram a historiografia romântica praticada
no século XIX, enfatizando seu caráter de ruptura e singularidade (CA-
TROGA et al., 1998; OLIVEIRA MARQUES, 1988; MACEDO, 1995;
MATOS, 1998).

Tendo em vista a ampliação das pesquisas que possibilitam com-


preensões aprofundadas das relações político-historiográficas entre Por-
tugal e Brasil em um contexto de crise transatlântica, este artigo se propõe
a tematizar narrativas históricas escritas por Francisco Solano Constân-
cio (1777-1846) e Hipólito da Costa (1774-1823), que ainda não foram
abordadas pela história da historiografia. É notável a relevância destes
autores para a cultura histórica luso-brasileira, tendo em vista que Solano
Constâncio, além de uma intensa atividade periódica destinada à crítica e
divulgação dos debates sobre economia política e literatura, publicou sua
História do Brasil, em 1839.4 Já Hipólito da Costa foi o editor do perió-
4 – Francisco Solano Constâncio nasceu em Lisboa em 24 de julho de 1777, mudou-se
aos 14 anos para Inglaterra e, posteriormente, para a Escócia, financiado pelo governo de
D. Maria I para estudar medicina. A hostilidade contra o governo inglês e seu sarcasmo
antiacadêmico, que pode ser confirmado nas páginas do período The Ghost, que editou
em 1796, foi responsável pela sua expulsão da Grã-Bretanha, indo, em seguida, viver na

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dico de emigração Correio Brasiliense, publicado na Inglaterra, respon-


sável por também divulgar debates no âmbito da economia política, dos
avanços científicos tecnológicos e literários entre 1808 e 1822, sendo seu
maior comprometimento o progresso social do Império Luso-Brasileiro
sediado no Brasil.5 Os escritos de Solano Constâncio e Hipólito da Costa,
que serão tematizados neste artigo foram produzidos, respectivamente,
nos anos de 1808 e 1809, e abordaram os debates contemporâneos que
enredaram a conjuntura da transferência e instalação da Corte portuguesa
no Brasil, contexto de grande relevância constantemente retomado pela
historiografia brasileira e portuguesa a partir de diferentes perspectivas
(MOTTA & MARTINS, 2010).

Pretende-se explorar o fato de que apesar de estarem envolvidos


em projetos políticos distintos, Solano Constâncio e Hipólito da Costa
mobilizaram estratégias discursivas para arcaizar o passado de Portugal.
Partindo de uma perspectiva revolucionária, que atribuía à presença fran-
cesa em Portugal um contexto favorável para a ruptura com instituições
e modelos políticos concebidos como arcaicos, Solano Constâncio inter-
pretou a transferência da Corte como negativa. Para o autor, a fuga da
França. Ao retornar ao seu país em 1799, colaborou com os franceses, deixando novamen-
te Portugal em 1807, momento da primeira invasão napoleônica, para fugir de possíveis
perseguições de seus conterrâneos. Nunca mais retornou ao Reino. Viveu a maior parte da
vida em Paris como médico, escritor, filólogo, pedagogo, tradutor, jornalista e diplomata,
se destacando como um dos principais divulgadores da economia política, tendo editado
importantes periódicos dedicados ao tema. Morreu em Paris, no ano de 1846 (SOUSA,
1979).
5 – Hipólito José da Costa Pereira Furtado de Mendonça nasceu em 25 de março de 1774
na Colônia do Sacramento. Seus primeiros estudos foram realizados em Porto Alegre. Em
1793 partiu para Portugal e iniciou os estudos em leis e filosofia em Coimbra. Nunca mais
retornou ao Brasil. Recebeu o encargo do ministro do Ultramar, D. Rodrigo de Souza
Coutinho, de estudar nos Estados Unidos e México. Nos Estados Unidos se tornou ma-
çom, sendo iniciado na Filadélfia. Em 1802, foi preso em Lisboa devido à sua associação
com a maçonaria. Fugiu dos cárceres da Inquisição para a Inglaterra em 1805. Desfrutou
da amizade e proteção do membro da família real inglesa e maçom duque de Sussex. Entre
1808 e 1822 editou em Londres o Correio Brasiliense. Apesar de ter sido proibida a cir-
culação do jornal no Império Luso-Brasileiro e do governo ter financiado O Investigador
português para confrontá-lo, sua influência foi impactante para as publicações impressas
no Brasil e em Portugal em um contexto no qual aconteceram a Revolução do Porto e a
Independência do Brasil. Hipólito morreu no dia 11 de setembro de 1823 (PAULA, 2001,
pp. 13-34).

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Narrativas sobre a experiência da história contemporânea do Império
Luso-Brasileiro: Hipólito da Costa e Francisco Solano Constâncio (1808-1810)

Corte impossibilitou a efetivação de uma revolução a ser instaurada por


Napoleão que seria capaz de erradicar as desigualdades sociais e a cor-
rupção do Reino. Além do mais, Constâncio compreendia que a presença
da Corte no Brasil intensificaria os vícios instaurados pelos próprios por-
tugueses, levando o Brasil também à degeneração. De modo alternativo,
Hipólito da Costa avaliou a transferência da Corte como positiva (LUS-
TOSA, 2006, p. 436), pois o Brasil, concebido pelo autor como prenhe de
progresso, passaria a ser o centro da regeneração do Império português,
sendo esta, por sua vez, não passível de ser realizada no Reino, tendo
em vista seu estado de decadência. Para o letrado luso-brasileiro o fim
da instituição monárquica não se tornava necessário, pois se apresentava
como possível, em sua perspectiva, a conciliação entre o poder do rei e
a existência de órgãos consultivos como as cortes (LUSTOSA, 2006, p.
440). O fundamental era que as políticas reformistas partissem do novo
centro do Império (LUSTOSA, 2006, p. 442). Apesar das soluções dis-
tintas projetadas para o futuro de Portugal a partir dos acontecimentos de
1808, ambos os autores foram unânimes ao narrarem o estado decadente
do Reino e predicarem a necessidade de rupturas com o passado.6

A experiência da história de Portugal a partir de perspectivas


cosmopolitas
Com o surgimento da Academia Real de Ciências de Lisboa em 1779
multiplicou-se em Portugal os projetos de se escrever uma história erudita
e filosófica sobre o processo de formação do Reino. Os membros da Aca-

6 – Tendo em vista nosso objetivo de compreender a historização do tempo presente


e a projeção de futuros possíveis para Portugal e o Império Luso-Brasileiro a partir de
perspectivas distintas abertas na conjuntura de 1808, conferiremos centralidade às per-
formances discursivas em vigor nas narrativas de Hipólito da Costa e Solano Constâncio.
Portanto, evitaremos reduzir as performances discursivas presentes nos textos dos autores
a categorias extratextuais normativas. Nesse sentido, os horizontes teórico-metodológicos
caros a este artigo estão fundados nas proposições de Reinhart Koselleck, que visam com-
preender a modernização do conceito de história em um tempo acelerado na passagem
dos séculos XVIII para o XIX e do contextualismo linguístico de Cambridge, que toma
unidades linguísticas compartilhadas por comunidades de sujeitos distintos como obje-
tos historiográficos. Para um aprofundamento confira: KOSELLECK, 2013, e POCOCK,
2003.

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demia se confrontaram com a necessidade de responder às enunciações


de viajantes estrangeiros e portugueses emigrados que diagnosticavam
causticamente a decadência do Reino, tornando-se necessária a produção
de uma história erudita e filosófica que desobscurecesse as causalidades
históricas determinantes do estado de desenvolvimento contemporâneo.

Mesmo se opondo às enunciações dos letrados estrangeiros que


denunciavam a decadência de Portugal, os membros da Academia não
deixaram de criticar o descompasso do Reino com as demais nações eu-
ropeias. Para os acadêmicos, era fundamental conhecer as causas históri-
cas que impediam o seu desenvolvimento socioeconômico de forma que
fosse possível a projeção de políticas reformistas (SILVA, 2006). No en-
tanto, estes letrados se comprometiam em afirmar as potencialidades de
D. Maria em promover o progresso português (SILVA, 2010). Apesar da
dedicação de muitos membros ao labor historiográfico, nenhum acadêmi-
co concretizou a escrita da História de Portugal. Em face desta ausência,
pode-se considerar que os membros da Academia procuraram supri-la por
meio da tradução de obras sobre Portugal produzidas no exterior (MA-
TOS, 2009, p.671).

Em 1788, a Academia viabilizou a impressão da História de Portu-


gal composta em Inglês por uma sociedade de Literatos, traduzida por
Antonio Moraes Silva. Esta obra se constitui na parte dedicada à História
de Portugal presente no projeto editorial britânico A Universal History
publicada em 65 volumes entre 1736 e 1768, composta por George Sale,
George Psalmanazar, Archibald Bower, George Shelvocke, John Camp-
bell e John Swinton (ABBATISTA, 1985). A parte que contém a História
de Portugal foi publicada no volume 23, em 1760, sendo a narrativa da
obra encerrada no ano de 1714, não abarcando, assim, os eventos con-
temporâneos. No entanto, Moraes Silva utilizou uma tradução ampliada
em língua francesa desta obra, iniciada em 1779, para compor a versão
em língua portuguesa. Incorporou o capítulo introdutório Description du
Royaume de Portugal: origine, splendeur e décadence de cette Monar-
chie e continuou o relato do reinado de D. José I até a morte do rei no ano
de 1777.

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Luso-Brasileiro: Hipólito da Costa e Francisco Solano Constâncio (1808-1810)

Outras edições desta obra foram publicadas em Portugal nos anos


de 1802, 1825 e 1828 (RODRIGUES, 1992, pp. 254, 358, 369). Estas
edições tiveram o último capítulo sobre o reinado de D. Maria acrescen-
tado, sendo este composto por José Agostinho de Macedo (1761-1831).
Na Inglaterra, Hipólito da Costa editou uma versão em 1809, igualmente
mantendo o corpo da obra compilado por Moraes Silva, sendo o capítu-
lo inserido por Agostinho de Macedo retirado por ser considerado equi-
vocado e trocado por um de sua autoria. Assim, esta obra demonstra-se
importante para a cultura histórica portuguesa, tendo em vista as várias
reedições e as polêmicas surgidas a propósito do Reinado de D. Maria I.

Dessa forma, tendo em vista que a experiência da história de Portu-


gal na virada do século XVIII para o século XIX se constituiu em face da
circulação de textos entre Portugal, França e Grã-Bretanha, pretende-se
abordar como o problema da decadência contemporânea de Portugal foi
respondido por letrados que não residiam no Reino e não eram membros
da Academia Real de Ciências de Lisboa. Analisaremos como Hipólito
da Costa e Francisco Solano Constâncio, residentes respectivamente em
Londres e Paris, escreveram a história contemporânea relativa ao reinado
de D. Maria I. Primeiro, aborda-se como Hipólito da Costa escreveu um
último capítulo para a História de Portugal composta em Inglês por uma
sociedade de Literatos, na reedição desta obra publicada em Londres, em
1809. Em um segundo momento, analisaremos o texto de Solano Cons-
tâncio, On the state of Portugal during the last 30 years publicado no
periódico editado na França The Monthly repertory of English Literature,
em que o autor apresenta uma narrativa sobre o declínio português a partir
do Reinado de D. Maria I. Em um terceiro momento, confrontaremos as
duas análises com o objetivo de evidenciar a complexidade das leituras
em torno do reinado de D. Maria e, consequentemente, as diferentes so-
luções propostas por estes autores concernentes ao futuro de Portugal.

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Hipólito da Costa e as disputas pelo presente de Portugal


As edições de Agostinho de Macedo e Hipólito da Costa da His-
tória de Portugal composta em inglês por uma sociedade de literatos,
publicadas respectivamente em 1802 e 1809, trazem capítulos distintos
sobre a história do reinado de D. Maria. A edição publicada por Hipólito
em Londres trouxe um capítulo em substituição ao apresentado na obra
editada por Agostinho de Macedo. Os autores divergem no tocante à his-
toricização do tempo presente em Portugal, sendo o relato memorialístico
de ambos problematizadores do percurso histórico do Reino a partir de
um viés diacrônico.

Diante de uma perspectiva histórica geral e sintética sobre o proces-


so formativo do Reino, ambos colocaram em causa as condições sociais
impulsionadoras das transformações e permanências ocorridas em Portu-
gal. Para os autores a narrativa sobre o reinado de D. Maria não poderia
se limitar à exposição dos acontecimentos políticos contemporâneos, pois
para a demonstração dos progressos ou não do presente com relação às
épocas passadas tornava-se necessário explorar em que medida a rainha
foi capaz de promover o bem-estar social do Reino. Portanto, ambos en-
tendiam que escrever a história do reinado de D. Maria não significava
compor um panegírico, uma memória sobre as virtudes militares do Rei-
no e de sua soberana, pois as virtudes que Portugal necessitava cultivar
no presente não eram as mesmas idealizadas pelos cronistas dos séculos
passados.

No capítulo História do Reinado da Fidelíssima Rainha D. Maria


I nossa Senhora, Agostinho de Macedo teve a intenção de demonstrar a
singularidade do governo desta soberana com relação aos reinados ante-
riores, expondo como este se tornou glorioso não pelo cultivo de virtudes
belicosas, mas pelo cultivo de “virtudes pacíficas”, que possibilitaram a
efetivação da prosperidade vigente. O passado de Portugal narrado nos
capítulos precedentes da História de Portugal... é reprovado por Agos-
tinho de Macedo, pois as virtudes militares, ou seja, “a glória de um
conquistador” é “quase sempre funesta a vencidos e vencedores”, não

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Luso-Brasileiro: Hipólito da Costa e Francisco Solano Constâncio (1808-1810)

podendo se retirar deste passado “utilidades, que possam ressarcir os ma-


les, que causaram”. As consequências destes males foram superadas no
presente pelas “virtudes pacíficas” da rainha, a promotora da “felicidade
da Nação” (MACEDO, 1802, pp. 75-76). Somente o passado próximo era
julgado como digno de exaltação, especificamente o reinado de D. José
I, já que o reinado de D. Maria era concebido como um aperfeiçoamento
deste (MACEDO, 1802, pp. 80, 83).

No entanto, em1809 este quadro positivo construído sobre o reinado


de D. Maria foi confrontado por Hipólito da Costa ao reeditar a História
de Portugal em Londres, pois o autor substituiu o capítulo de Agostinho
de Macedo por um de sua autoria, intitulado História do Reinado de D.
Maria I. Assim como Agostinho de Macedo, Hipólito manteve a estrutura
da obra organizada por Moraes Silva limitando-se a acrescentar o último
capítulo. Hipólito da Costa não concordava com a compreensão de Agos-
tinho de Macedo de que o reinado de D. Maria instaurou um progresso em
Portugal análogo ao de outras nações europeias polidas, rompendo com
todo um passado de belicosidade. Assim, sua intenção foi demonstrar as
fragilidades contemporâneas de Portugal, ou seja, os entraves que impos-
sibilitavam seu desenvolvimento.

Hipólito demonstrou os equívocos perpetrados no reinado de D. José


cometidos pelo Marquês de Pombal, fundamentais para a compreensão
da administração que se seguiu no reinado de D. Maria. Segundo Hipó-
lito, Pombal tinha trazido muitos benefícios para Portugal, porém, seus
castigos arbitrários faziam com que o povo lhe odiasse (COSTA, 1809, p.
216). O povo considerava Pombal um déspota e estando este no ministé-
rio ainda no início do reinado de D. Maria, “era tão maltratado no Paço,
que pediu a Rainha a sua demissão, aos 6 de março de 1777” (COSTA,
1809, p. 216). Hipólito escreveu ainda que a rainha concedeu a demissão
a Pombal “com algum pesar”, pois reconhecia “o merecimento do Mar-
quês” (COSTA, 1809, p. 216). Todavia, apesar da

[...] moderação da parte da Soberana, a alegria do Povo em ver o


Marquês abatido era maior do que se poderia esperar, [foi como] se a

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nação se visse livre do julgo de um conquistador inimigo, ou outra ca-


lamidade notável; e disto foi a causa, o despotismo de sua administra-
ção; ainda que muitas vezes ele desprezasse as formalidades da justiça
para o bem da nação; mas o povo supunha-se livre daquelas execuções
sanguinolentas, que tinham presenciado, e que se haviam praticado
sem os procedimentos de direito, e sem as evidências de provas, que
tão exemplares execuções, sem dúvida exigiam (COSTA, 1809, 217).

Apesar de expor os aspectos negativos do reinado de D. José, ressal-


tando a depreciação do Marquês de Pombal por todos os grupos sociais
constituintes da nação, “nobreza antiga”, “clero” e “povo comum”, Hipó-
lito da Costa não deixou de ponderar os benefícios trazidos para Portugal
no seu governo, dando ênfase, assim, à superioridade deste ministro com
relação aos seus sucessores eleitos por D. Maria.
Os sucessores porém do Marquês, que eram todos da facção oposta, e
a cuja frente se achava o rei D. Pedro, cuidaram mais em expor os ví-
cios do Marquês do que em imitar as suas virtudes, e continuar os pla-
nos que ele começara; porque quando o Marquês chegou ao governo,
achou a agricultura em decadência, as artes desestimadas, e a indústria
nacional quase extinta: e muitos ramos da administração pública diri-
gidos por estrangeiros aventureiros, que nunca tinham em vista senão
o seu bem pessoal, sem que se importassem com os interesses ou hon-
ra da nação. Assim de fora vinha para o Reino o trigo, panos e etc.; a
Coroa não tinha tesouro; e o erário estava exausto: a glória militar do
Reino estava extinta; e a sua segurança dependia do precário capricho,
ou negligencia dos seus vizinhos. Estes males havia, em grande parte,
remediado o Marquês; porém o despotismo do seu governo, como dito
fica, obscureceu de [tal] maneira estes benefícios, que, antes do dia da
coroação da Rainha se mandou cobrir de cal o busto do Marques, que
estava no pedestal da coluna da estatua equestre, erigida em honra do
Rei D. José [...] (COSTA, 1809, p. 218).

Segundo Hipólito da Costa, o Marquês de Pombal tinha combatido


a decadência do Reino promovendo a agricultura, as artes e a indústria,
possibilitando que Portugal se tornasse mais autônomo com relação aos
auxílios de outras nações, no entanto, mesmo com os seus esforços, es-
tes “males” não foram completamente “remediados”. Estes problemas

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Narrativas sobre a experiência da história contemporânea do Império
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se demonstravam em vigor no reinado de D. Maria e se contrapunham


à imagem idealizada construída por Agostinho de Macedo. Hipólito da
Costa ainda aponta um agravante: os ministros eleitos por D. Maria eram
da “facção oposta” e ao invés de superarem os equívocos do ministro an-
terior, “cuidaram mais em expor os vícios do Marquês do que em imitar
as suas virtudes e continuar os planos que ele começara”.

Para Hipólito da Costa, não era somente Portugal que necessitava


superar os entraves para o seu desenvolvimento, pois toda a Europa se
encontrava imersa na decadência que remontava à sua formação histórica
após a dissolução do Império Romano. Nesse sentido, os povos de toda a
Europa “gritavam” por “reformas”, que se faziam necessárias, no entanto,
muitas das que foram realizadas punham em evidência os “defeitos do
sistema em geral”. Ainda pior se faziam as revoluções, pois ao rompe-
rem com as “instituições antigas, que conservavam a ordem”, levaram a
França “a uma horrível anarquia”. Portanto, Hipólito da Costa suspende
de forma cética a possibilidade de progresso inequívoco na história das
nações europeias. Com efeito, ao perspectivar a história da Europa como
um todo, diacrônica e sincronicamente, o letrado luso-brasileiro não via
a possibilidade de as nações europeias se orientarem inequivocamente
rumo ao desenvolvimento histórico, levando em consideração tanto os
ideais reformistas quanto os revolucionários. A propósito do ceticismo
com relação às reformas empreendidas pelas nações europeias, o autor
escreveu:

O progresso das ciências e conhecimentos da Europa tinha feito des-


cobrir aos homens instruídos e até aos povos, em geral, os defeitos
inerentes à forma de Governo, e instituições feudais, introduzidas pe-
los Bárbaros do Norte, que fundaram as Monarquias modernas, sobre
as ruínas do Império Romano. De muito tempo a esta parte gritavam
os povos pela reforma, e ainda que, em quase todos os estados da
Europa, se emendassem alguns inconvenientes parciais a isto, só se
servia de mostrar mais os defeitos do sistema em geral, e ordem das
coisas (COSTA, 1809, p. 237 – grifo nosso).

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André da Silva Ramos e
Thamara de Oliveira Rodrigues

Para além do ceticismo com relação às reformas, Hipólito da Costa


rechaçava as revoluções, tendo em vista a desagradável experiência fran-
cesa:

Infelizmente quando o Governo da França se lembrou do expediente


de começar uma reforma gradual, para acalmar os espíritos do povo,
já estava a revolução nos ânimos tão adiantados, que esta medida só
serviu de fogo à mina, e fazer rebentar a explosão. O povo francês,
maníaco em reformar, derrubou uma vez por todas as suas institui-
ções antigas, que conservavam a ordem; e insensivelmente se achou
reduzido a uma horrível anarquia; e iludindo com toda a ideia de que
gozavam liberdade, quando nem se quer governo tinham, quiseram
os franceses introduzir as diferentes formas de governo, que sucessi-
vamente inventavam para si, em todos os outros Estados da Europa:
empregavam para isto, primeiro a persuasão, a força depois (COSTA,
1809, p. 237 – grifo nosso).

Para Hipólito da Costa, não havia modelos de desenvolvimento ine-


quívocos a serem seguidos por Portugal, pois a herança do passado impul-
sionava as nações europeias às reformas, as reformas faziam com que os
erros do passado fossem repetidos, e, por sua vez, as revoluções traziam a
completa desordem e a anarquia. Contudo, mesmo estando envolvido em
uma perspectiva cética sobre o progresso histórico, evidenciando no li-
mite a sua impossibilidade, Hipólito da Costa não deixou de hierarquizar
o que seria mais positivo e negativo para as nações, em especial, no que
diz respeito a Portugal. Sendo assim, mesmo que as reformas, em muitas
ocasiões, servissem somente para evidenciar “os defeitos do sistema em
geral”, estas eram superiores às revoluções, que destituíam as “institui-
ções antigas, que conservavam a ordem”, possibilitando a instauração de
“uma horrível anarquia”. Logo, para Hipólito era melhor a manutenção
da ordem e das instituições antigas e o empreendimento de reformas gra-
duais do que a invenção de “diferentes formas de governo”, que podiam
levar a uma completa anarquia.

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Narrativas sobre a experiência da história contemporânea do Império
Luso-Brasileiro: Hipólito da Costa e Francisco Solano Constâncio (1808-1810)

Francisco Solano Constâncio e o panorama do Estado português


Em 1808, no periódico francês, The monthly repertory of English
literature, Francisco Solano Constâncio publicou o texto “On the state of
Portugal during the last 30 years”. Este periódico foi editado na França,
tendo como público alvo a comunidade britânica residente em Paris. O
recorte de trinta anos analisado pelo autor se relaciona a uma aceleração
do tempo específica em Portugal, que coincide com o início do Reinado
de D. Maria até a transferência da corte para o Brasil. Assim, foi por meio
da conjuntura do Estado de Portugal entre 1778 a 1808 que Constâncio
explicou e tematizou a decadência portuguesa “que tem jogado a nação,
outrora tão florescente, em um estado de pior abjeção e pobreza” (CONS-
TÂNCIO, 1808, p. 213).

O texto tem como eixo narrativo uma interpretação do declínio por-


tuguês, tendo sua etapa de esplendor no período das navegações, momen-
to em que “Portugal com a população não menos considerável com a que
se tem no presente, produziu todo o necessário para os habitantes e forne-
ceu os meios de fazer poderosas conquistas” (CONSTÂNCIO, 1808, p.
214). A agricultura e a indústria internas eram as riquezas desse período
de auge civilizacional, que deveriam e poderiam ter sido preservadas.
No entanto, a superstição e a ausência das luzes dos sucessivos monar-
cas levaram-no ao declínio, caracterizado principalmente pela “absoluta
dependência” do Reino em relação aos outros países. Esse declínio fora
iniciado, para o autor, no reinado de D. João III devido ao estabeleci-
mento da inquisição e banimento dos judeus. Posteriormente, teria sido
acentuado com D. Sebastião, que sacrificou os interesses dos súditos na
África em um “fanático projeto”. O declínio teria se energizado com a
tirania de D. Felipe e, por fim, com a incapacidade dos reis de Bragança
(CONSTÂNCIO, 1808, p. 214).

No entanto, este processo de declínio que Portugal experimentava


desde o reinado de D. João III teve uma expressiva redução a partir das
medidas ministeriais do Marquês de Pombal. Para Constâncio, Pombal
teria recuperado princípios e medidas fundamentais ao desenvolvimento

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André da Silva Ramos e
Thamara de Oliveira Rodrigues

da civilização portuguesa ao reduzir o poder da Inquisição, se manter


contra o papa e os direitos da Igreja nacional, ao reformar a Universidade
de Coimbra e as escolas públicas, ao banir o formalismo escolástico,
ao incentivar as artes e as ciências e, principalmente, por forçar “uma
arrogante nobreza a fazer parte da comunidade, obedecer ao monarca e
às leis” (CONSTÂNCIO, 1808, p. 215). Além do mais, Pombal se opôs à
influência da corte britânica, conseguindo recuperar dos ingleses grande
parte do comércio realizado indiretamente com as colônias portuguesas.
Por tais razões, Pombal deixara um estado florescente em Portugal, quase
capaz de permitir a interrupção completa do declínio, sendo que “a morte
de D. José privou Portugal simultaneamente de um bom rei e de um ótimo
ministro” (CONSTÂNCIO, 1808, p. 215).

Apesar do reinado de D. José ter recebido críticas positivas e a ad-


ministração de Pombal ter sido compreendida como a responsável por
despertar o Reino “do estado de letargia e ignorância” que a superstição o
levou, Constâncio considerou o despotismo como um elemento negativo
para o desenvolvimento português:

É preciso, contudo, confessar que a administração de Pombal foi des-


pótica, e frequentemente opressiva; sua vontade era lei, e suas ordens,
sob nome de Avisos, assinadas apenas por si mesmo, combatiam e até
mesmo anulavam as decisões da suprema corte de justiça. Isso foi um
terrível precedente, dos quais seus sucessores fizeram um abuso mais
escandaloso (CONSTÂNCIO, 1808, p. 216 – grifo nosso).7

O abuso da justiça era um tema fundamental para Constâncio, que


enfatizou em seu texto os “últimos trinta anos” portugueses, buscando
analisar as consequências da permanência deste abuso no governo de D.
Maria e de seu filho. O afastamento de Pombal e a morte de D. José
rearticularam uma experiência do declínio e infelicidade, apesar do bom
coração de D. Maria, de sua mente cultivada e do seu amor aos súditos. A
7 – Tradução nossa. No original: “It must, however, be confessed, that the administration
of Pombal was despotic, and often oppressive; his will was law, and his orders, under the
name of Avisos, signed only by himself, counteracted and even annulled the decisions of
the supreme courts of justice. This was a terrible precedent, of which his successors made
the most scandalous abuse” (CONSTÂNCIO, 1808, p. 216).

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Narrativas sobre a experiência da história contemporânea do Império
Luso-Brasileiro: Hipólito da Costa e Francisco Solano Constâncio (1808-1810)

superstição, “consequência necessária da educação adotada naquela cor-


te, sempre comprometida com padres e frades” e a falta de firmeza, que
“parece ser hereditária na casa dos Bragança”, impediram a intensifica-
ção da ascensão portuguesa experimentada com Pombal. Na narrativa de
Constâncio, os membros que compunham o ministério e a nobreza eram
“incapazes de agir sob princípios rígidos; suas decisões eram meramente
pessoais e todos eles esperavam logo governar sem controle sob o nome
de uma Rainha frágil” (CONSTÂNCIO, 1808, p. 217). Esse caráter mo-
ral deformado fez com o que o reinado de D. Maria fosse marcado pela
admissão de novos religiosos, pela péssima administração das colônias,
pela impossibilidade da polícia em cuidar da limpeza e da segurança e
pelo abandono de portugueses que saíam de sua pátria rumo às colônias.
Além do mais, o governo de D. Maria restabeleceu o espaço privilegiado
da nobreza, situação que Pombal havia reduzido de forma expressiva.
Cada vez mais a nobreza tornava-se “desprezível e odiosa”, destacando-
-se por sua “insolência e o desprezo dos compromissos mais sagrados”
quando comparada “ao aumento da civilização das outras classes da so-
ciedade” (CONSTÂNCIO, 1808, p. 218).

Apesar do reinado de D. Maria e seu ministério terem lançado as


bases para ruína, “pode-se dizer ter sido feliz” – considerou Constâncio.
Portugal gozava de paz ainda que o governo fosse fraco, pois encontrara
recursos suficientes para retardar a “fatal época” que se tornaria debaixo
da regência de seu filho. A regência de D. João foi marcada pela “vena-
lidade” que surgiu “dentro de todos os ramos do serviço público” e pela
“patronagem”, sendo que estes e demais “vícios” e “tipos de corrupção”
geraram tamanho “descontentamento” que a nação “nomeou o reinado da
Rainha como a Idade do Ouro” (CONSTÂNCIO, 1808, p. 223).

A regência de D. João foi avaliada, pelo autor, pela venalidade dos


membros que compunham seu ministério, responsáveis por um Portugal
marcado por perseguições, abandono das práticas comerciais, indiferença
às leis. Todos os demais ramos da administração estavam na mesma si-
tuação, além do mais, os cargos públicos eram uma espécie de mercado,
onde “tudo era comprado e vendido”. Constâncio afirmava que o Prín-

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André da Silva Ramos e
Thamara de Oliveira Rodrigues

cipe, apesar de ciente da conjuntura, “não tinha o desejo nem a firmeza


necessária para reprovar tais abusos” (CONSTÂNCIO, 1808, p. 223).

Constâncio descreveu o Reino em um estado muito próximo ao da


França pré-revolucionária. Esse cenário de miséria e injustiça foi perce-
bido pelo povo português, segundo o autor, que reclamava e acusava a
venalidade do governo. No entanto, “não existia uma tendência geral para
uma revolução” em Portugal, e aqui destina uma das poucas críticas ao
povo português, que, diferentemente dos franceses, não transformou radi-
calmente a conjuntura que questionavam (CONSTÂNCIO, 1808, p. 306).

O que melhor pode confirmar a inexistência da possibilidade de uma


revolução, entendida aqui como mudança capaz de retirar Portugal de sua
decadência, foi a saída da Corte para o Brasil. Constâncio considerou este
evento uma fuga e o limite do que poderia ser suportado:

[...] não há maior prova que pode ser dada a essa afirmação [de que
não havia um espírito de revolução em Portugal], que a fuga recente
do Regente, que foi discretamente permitida para levar uma grande
parte da propriedade da nação e, sua marinha, sem a menor tentativa
de oposição à sua partida (CONSTÂNCIO, 1808, pp. 306-307).8

A necessidade desta reforma intensa em que as “antigas instituições


já não são adequadas” devia-se ao alto nível de corrupção em que se en-
contrava Portugal. Ao escrever sobre os últimos ministros do Príncipe, D.
Diogo de Noronha, Luís de Vasconcellos e Sousa e António de Araújo de
Azevedo, os usou como analogias do que havia de pior na administração
portuguesa, pois eram homens extremamente “supersticiosos”, de “in-
tensa religiosidade”, “egoístas”, “glutões”, “ambiciosos” e “perversos”;
distantes do espírito das luzes e que inviabilizavam a reconstrução das
virtudes, fomentando, assim, a doença do reino de Portugal. Após as des-
crições negativas sobre os ministros de D. João VI, Constâncio foi breve

8 Tradução nossa. No Original: “No greater proof can be given of this assertion, that
the recent flight of the Regent, who was quietly allowed to carry away a great part of the
property of the nation, and their navy, without the smallest attempt to oppose his depar-
ture” (CONSTÂNCIO, 1808, pp. 306-307).

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Narrativas sobre a experiência da história contemporânea do Império
Luso-Brasileiro: Hipólito da Costa e Francisco Solano Constâncio (1808-1810)

em sua avaliação sobre a emigração do Príncipe para o Brasil, tratando-a


como um evento recente e de causas conhecidas:

D. João levou consigo todos os preconceitos e a corrupção da mãe pá-


tria, e dificilmente um homem de mérito real o seguiu. A grande parte
das pessoas que o acompanhou pertence ao interesse Inglês, e sob a
administração de homens como Almeida, o Brasil não pode ser senão
uma colônia britânica; e no país mais rico e mais fértil do mundo, os
Portugueses podem ainda continuar a ser uma pobre e infeliz nação!
(CONSTÂNCIO, 1808, pp. 306-307 – grifo nosso).9

Desta forma, Solano Constâncio considerou o governo de D. Maria


como uma ruptura negativa em relação aos benefícios trazidos pelo rei-
nado de D. José a partir de Pombal, mas ainda assim fora menos nocivo
para Portugal do que a regência de D. João, que maximizara todos os
vícios presentes no Reino, o levando a uma “fatal ruína”. Neste sentido,
a transferência da Corte, para o autor, consistia em um episódio nocivo,
pois representava a extensão e a intensificação dos vícios portugueses
à sua promissora colônia americana. Do mesmo modo, a fuga da Corte
também inviabilizou a tomada da casa de Bragança por Napoleão. Cons-
tâncio, neste momento, um entusiasta da Revolução de 1789, cria que o
imperador francês estenderia ao mundo os ideais revolucionários. Apesar
da expectativa em Napoleão não durar muito tempo, os projetos defen-
didos pelo autor para erradicar “o rápido progresso do mal em Portugal”
ao longo de sua carreira passavam necessariamente por um discurso re-
volucionário em que a ruptura com o passado teria que se dar de forma
radical, para desenraizar todos os vícios que mantinham Portugal sempre
próximo de seu fim.

9 – Tradução nossa. No original: “John carried with him all the prejudices and corruption
of the mother country, and hardly a man of real merit followed him. Most of those who
accompanied him are in the English interest, and under the administration of men like Al-
meida, the Brazils can be nothing but a British colony; and in the richest and most fertile
country of the world, the Portuguese may still continue to be a poor and unhappy nation!”
(CONSTÂNCIO, 1808, p. 320).

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André da Silva Ramos e
Thamara de Oliveira Rodrigues

A crítica de Hipólito da Costa a Solano Constâncio


Não se tem um mapeamento denso da recepção do texto de Cons-
tâncio seja pela comunidade francesa, inglesa e/ou portuguesa. Sabe-se
que em 1810 esse texto foi reeditado em Londres por Edmund Lloyd e,
por esta razão, Hipólito da Costa no volume IV do Correio Braziliense
publicou, na sessão dedicada à literatura e as ciências, um parecer crítico
sobre o artigo On the state of Portugal during the last 30 years.

Hipólito não se opôs aos reconhecimentos feitos por Constâncio dos


erros e abusos da administração portuguesa, dos homens corruptos da
Corte e alegou sempre ser o primeiro a desejar e a sugerir reformas no
Governo. No entanto, compreendeu a “pintura” de Constâncio da situa-
ção portuguesa feita demasiadamente com “cores negras”, ratificando um
quadro intensamente “fúnebre” e “sombrio”, faltando “tons e cores cla-
ras” sobre o estado da nação, que poderiam ser introduzidos sem faltar à
verdade. Hipólito considerou a narrativa do médico português exagerada
e triste, evidenciando em excesso a decadência portuguesa. Tem-se, en-
tão, uma crítica de Hipólito à excessiva ênfase à decadência portuguesa
descrita por Constâncio. O autor do Correio não negou a experiência da
decadência, no entanto, não acreditava que a sua descrição incessante
fosse uma estratégia eficiente para combatê-la, pois falar excessivamente
sobre este estado ofuscava o brio português e seu desejo de transforma-
ção, ou seja, para Hipólito, mais importante do que a confirmação da dor
era a produção de seu alívio.

Essa crítica de Hipólito a Constâncio revela uma tensão no uso da


linguagem sentimental. A autoconsciência moderna precisou de instru-
mentos e estratégias capazes de construir sentidos e significados fortes
para a orientação dos homens no interior de um tempo instável. A lingua-
gem sentimental foi uma dessas estratégias que procurava intensificar a
consolidação desses significados, no entanto, os sentimentos evidencia-
dos em excesso eram um risco à concretização desses sentidos, uma vez
que poderiam “empolgar” ou “desesperar” em demasia os homens; ou
seja, se por um lado os sentimentos foram fundamentais na composição

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Narrativas sobre a experiência da história contemporânea do Império
Luso-Brasileiro: Hipólito da Costa e Francisco Solano Constâncio (1808-1810)

das narrativas modernas, por outro, eles também eram um risco se não
trabalhados adequadamente e com prudência (PHILIPS, 1997). É a partir
desta compreensão que Hipólito criticou Constâncio, tendo em vista que
o segundo, baseado em uma linguagem sentimental bastante negativa,
não apresentava de forma satisfatória solução ou esperança clara para o
destino do Império Português, pois ao
[...] pintar o estado deplorável da nação com toda a negridão das cores,
que talvez lhe pudessem convir, mas que se acham ali sem aqueles
claros, que podendo introduzir-se sem faltar a verdade serviriam de
aliviar a dor, que naturalmente deve causar a um Português a leitura de
tão sombria e lúgubre descrição (COSTA, 1810, p. 71).

No entanto, a crítica mais contundente feita pelo escritor do Correio


Braziliense diz respeito à expectativa de Constâncio na recuperação de
Portugal a partir da intervenção francesa. Hipólito considerou uma “co-
vardia criminosa” um “patriota” como Constâncio “esperar de uma nação
estrangeira e de um povo da mais corrompida moral a emenda de costu-
mes, e o exemplo de devoção à causa pública” (COSTA, 1810, p.71).

Como vimos na seção dedicada a Hipólito, a Revolução Francesa


representava para o autor a desordem e anarquia que colocava em ques-
tão a possibilidade do progresso das nações europeias, compreensão que
o levou a defender a manutenção da ordem e das instituições antigas e o
empreendimento de reformas graduais. Por esta razão, Hipólito fora um
dos protagonistas da edificação de um discurso antinapoleônico durante
a Invasão Francesa e, por consequência, um defensor da emigração do
Príncipe (NEVES, 2008):
Para o cúmulo de desgraça foram os Soberanos da Espanha obrigados
a renunciar os seus direitos, a abdicar o seu trono e a solicitar o seu
mesmo povo a que faltasse a fé, e juramento de fidelidade, que haviam
prestado à Real Família Reinante; a pedir por fim que obedecesse seus
inimigos.
Depois disso, quem se atreverá a duvidar da sábia polícia do Príncipe
Regente de Portugal, em mudar a sua corte para o Brasil? Até agora
podia imputar-se a ignorância, ou estupidez, os esforços que algumas
pessoas tem feito, (entre outros a populaça de Madrid), de acusar de

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André da Silva Ramos e
Thamara de Oliveira Rodrigues

indiscreta a viagem do Príncipe; mas se agora alguém persiste em sus-


tentar tal opinião deve ser somente por obstinação ou perversidade
(COSTA ,1808, p. 61 – grifo nosso).

Desta forma, a oposição a Napoleão o levou a defender argumentos


completamente distintos dos adotados por Constâncio em relação à emi-
gração do Príncipe para o Brasil. Para Hipólito, a saída da Corte fora uma
estratégia política que garantiu a sobrevivência da Casa de Bragança e da
soberania portuguesa, impedindo que Portugal tivesse o mesmo destino
da Espanha, posição que defendera constantemente no Correio Brasilien-
se. Além do mais, a emigração da família real estabelecia uma nova con-
juntura capaz de garantir a “consolidação do Novo Império do Brasil”.
Em contrapartida, os anseios revolucionários de Constâncio impediam
que ele projetasse suas expectativas na regeneração de Portugal a partir
do Brasil, por isso, como já observamos, o autor considerou a transferên-
cia da Corte um evento negativo, pois a fuga impossibilitou a tomada da
Casa de Bragança por Napoleão e, consequentemente, impediu a deseja-
da transformação institucional como se vira na Espanha.

Assim, tendo em vista a perspectiva da Revolução Francesa como o


que abalou a antiga ordem europeia e o desejo de defender politicamente
a emigração do Príncipe, Hipólito procurou avaliar o texto de Constâncio
buscando provar que os argumentos utilizados por ele só eram possíveis a
quem servia aos interesses franceses. Primeiramente, o autor do Correio
comentou os elogios que Constâncio concedeu a Pombal e ao governo
de D. José. Hipólito considerava não ser capaz de compartilhar de tais
elogios por razões que o próprio Constâncio já havia enunciado: a ad-
ministração despótica e agressiva de Pombal, que inviabiliza apreço por
qualquer benefício trazido pelo ministro a Portugal: “Pombal fez alguns
benefícios à nação, mas que são eles todos juntos comparados ao único
mal de extinguir a liberdade civil, e perverter inteiramente os princípios
fundamentais da legislação criminal do reino?” (COSTA, 1810, p. 74).

Para Hipólito, os homens da Corte no reinado de D. Maria apresen-


taram indiferença à justiça e permitiram a chegada ao estado deplorável

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Narrativas sobre a experiência da história contemporânea do Império
Luso-Brasileiro: Hipólito da Costa e Francisco Solano Constâncio (1808-1810)

de 1808 porque Pombal abrira “um terrível precedente” permitindo que


seus sucessores ignorassem a justiça. Opondo-se a Constâncio, Hipólito
avaliava o despotismo de Pombal e sua permanência no Reino como a
principal causa da decadência em vigor. Esta oposição se baseia em com-
preensões distintas das causalidades determinantes para a emergência dos
fenômenos históricos. Enquanto para Constâncio o desenvolvimento da
razão era o motivo pelo qual tudo deve estar submetido e pelo qual tudo
deve se aprimorar, sendo, em última instância, a causa da decadência por-
tuguesa a ausência das luzes e a presença da superstição, para Hipólito,
o princípio fundamental para o progresso e decadência na história era a
liberdade civil, sendo o despotismo e a tirania os responsáveis pelo deplo-
rável estado presente de Portugal.

Um tema recorrente nas narrativas lusas foi a relação entre a censura


e a decadência político-intelectual. Para Hipólito da Costa e seu adversá-
rio, o editor do Investigador Português, José Liberato Freire de Carvalho,
por exemplo, havia uma relação de causa e efeito entre o despotismo e
a decadência das letras e ciências. Esses autores identificaram no minis-
tério de Pombal o declínio das letras e das ciências por considerarem
que houve a usurpação do poder do povo em benefício do despotismo
real (ARAUJO & VARELLA, 2009; ARAUJO, 2010). Em contraponto a
esta perspectiva, para Constâncio o despotismo e a decadência das letras
e das ciências em Portugal estavam subordinados a um terceiro fator: a
ausência das luzes e a presença da superstição, por isso, apesar de criticar
o despotismo do ministro, o entende como um elemento inevitável em
um Reino onde as luzes ainda não estavam plenamente asseguradas. Com
efeito, a superstição e ausência das luzes são os elementos metanarrativos
organizadores dos argumentos de Constâncio a propósito da decadência
de Portugal, enquanto que para Hipólito o determinante metanarrativo
será a liberdade civil.

Neste sentido, procuramos aqui demonstrar que ambos os letrados


buscaram por meio da escrita da história contemporânea estabelecer as
causas da decadência portuguesa. Os projetos político-editoriais em-
preendidos ao longo da vida tanto por Hipólito quanto por Constâncio

R. IHGB, Rio de Janeiro, a. 175 (463):13-38, abr./jun. 2014 33


André da Silva Ramos e
Thamara de Oliveira Rodrigues

foram amplamente marcados pela interpretação que cada um conferiu a


este momento da história portuguesa, principalmente no que diz respeito
à saída da Corte. Hipólito desejava a manutenção da ordem ou reformas
pontuais que garantissem a liberdade civil, mas, apesar de sua preferência
pelas reformas, não deixou de apontar seu ceticismo com relação a elas.
Neste sentido, a defesa da emigração do Príncipe remete à própria expec-
tativa de um Novo Portugal a partir do Brasil. Já Constâncio, envolvido
por um ceticismo mais intenso em relação às reformas parciais, defendia
projetos mais radicais, pois a emigração da Corte representaria ao mesmo
tempo a impossibilidade da reforma absoluta do Estado e a degeneração
da América, uma vez que os vícios portugueses no Brasil seriam intensi-
ficados pela presença do governo. Desta maneira, as explicações sobre a
decadência portuguesa resultaram em distintas expectativas e linguagens
que fomentaram intensas disputas político-historiográficas sobre o desti-
no do Império Luso-Brasileiro.

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uma sociedade de literatos. Transladada em vulgar com as adições da versão
francesa e notas do tradutor português, Antonio Moraes Silva, natural do Rio de

34 R. IHGB, Rio de Janeiro, a. 175 (463):13-38, abr./jun. 2014


Narrativas sobre a experiência da história contemporânea do Império
Luso-Brasileiro: Hipólito da Costa e Francisco Solano Constâncio (1808-1810)

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Texto apresentado em março/2014. Aprovado para publicação em


abril/2014.

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