Você está na página 1de 45

CEFAS

PSICOPATOLOGIA
Disciplina:
PSICANALÍTICA
Profa. Rachele Ferrari
racheleferrari@gmail.com
2º. Sem/2020
Aula 1 13 /08/2020
As Transformações do
sofrimento psíquico e
a atualidade da psicanálise
SUBJETIVIDADE
Significa o modo de ser do sujeito, como ele foi se
constituindo e se organizando psiquicamente desde o
seu nascimento, isso define como ele apreende o
mundo e responde aos estímulos que esse mundo lhe
impõe, bem como ele produz sentido para suas
experiências internas, suas experiências emocionais.
SAÚDE MENTAL
• implica em uma mente dotada de riquezas de recursos
(para lidar com a dor, com o medo, com o diferente de mim, com a perda, com a
minha incompletude, com a minha finitude, etc.),
• que são adquiridos na relação com o ambiente mais próximo
desde o nascimento, principalmente até a adolescência, mas continua
ao longo da vida.
• Caso, por alguma razão, não tivermos desenvolvido esses recursos
suficientemente, diante de alguma situação da vida que nos seja mais

impactante, entraremos em sofrimento psíquico.


PSICOPATOLOGIA PSICANALÍTICA

procura entender o modo como o sujeito apreende o


mundo e se organiza ou se desorganiza diante dele,
a partir disso.
BREVE HISTÓRIA DA PSICOPATOLOGIA
Philippe Pinel (1745 – 1826),
médico francês, considerado o pai da psiquiatria. Notabilizou-se por
ter considerado que os seres humanos que sofriam de
perturbações mentais eram doentes e que, ao contrário do que
acontecia na época, deviam ser cuidados pela medicina e não tratados
de forma violenta.

Ele foi o primeiro a tentar descrever e


classificar algumas perturbações mentais.
Assim,
a história da psicopatologia, a compreensão do que
é sofrimento psíquico também sofreu modificações
ao longo de seus duzentos anos, em sua tentativa
de demarcação sobre o que é:

 NORMALIDADE,
 DIFERENÇA, mas ainda não uma patologia,
 PATOLOGIA
• Até o final da 2ª Guerra Mundial, a psicopatologia era vista como
uma dilaceração interna, um enigma a ser decifrado.
• Em 1952 – grande mudança com o surgimento da Psicofarmacologia.

• Nos anos 60/70 a Psiquiatria sofreu uma crise de legitimidade, diversas


pesquisas apontavam que o diagnóstico psiquiátrico não tinha confiabilidade
nenhuma.

• A partir desses dois últimos eventos, a Psiquiatria decidiu criar um sistema de


classificação das doenças mentais que entendia os sintomas como sinais, não
importando mais o sentido deles na existência do sujeito – surge o DSM

• Desde então, houve uma ênfase cada vez maior na biologização da


psiquiatria. O número de diagnósticos psiquiátricos explodiu.
Entre a 1ª edição do DSM (1953) e a mais recente, o DSM 5 (2013), o número de
transtornos descritos triplicou.
O que é um Transtorno?
Acordo convencionado que certas condutas, certas
experiências são estranhas, merecem ser atendidas.

Então, criam-se diagnósticos como:


• Transtorno explosivo intermitente (alguém, digamos, “pavio curto”)
• Transtorno desafiador de oposição (crianças que não obedecem, culpam os
outros pelo que fazem, não querem fazer lição...)
• Transtorno Bipolar (alteração frequente de humor entre a euforia e a depressão)
• Transtorno depressivo maior
Isso é um problema porque ...

ter um diagnóstico psiquiátrico é ter um traço


marcado, no seu olhar sobre si próprio no olhar do
outro sobre você.
MEDICALIZAÇÃO DA VIDA COTIDIANA
O que vemos é a patologização e a conseqüente
medicalização da vida cotidiana. Qualquer desvio de
um padrão convencionado como normal é nomeado de
TRANSTORNO e o tratamento, via de regra, é
medicamentoso.

MEDICALIZAÇÃO - é o processo em que as questões da vida social,


sempre complexas, multifatoriais e marcadas pela cultura e pelo tempo
histórico, são reduzidas à lógica médica, vinculando aquilo que não
está adequado às normas sociais a uma suposta causalidade orgânica,
expressa no adoecimento do indivíduo.
 O termo MEDICALIZAÇÃO surge ao final da década de 1960,
em referência à progressiva apropriação, pela medicina, das
formas de vida das pessoas.

 Os saberes produzidos no campo biomédico têm estabelecido


normas morais de conduta, que proscrevem e prescrevem
comportamentos.

 Uma das vertentes da medicalização se vincula ao crescente


uso dos medicamentos como forma de cura, alívio ou
solução para as mais diversas questões ligadas à vida
cotidiana. Esse processo tem sido nomeado
“MEDICAMENTALIZAÇÃO”.

http://www.sbsociologia.com.br/rbsociologia/index.php/rbs/article/view/441/pdf_7
MACHADO DE ASSIS
Após conquistar respeito em sua carreira de médico na Europa e no Brasil, o Dr. Simão Bacamarte
retorna à sua terra-natal, Itaguaí, para se dedicar ainda mais a sua profissão.

Resolve se dedicar aos estudos da psiquiatria e constrói na cidade um manicômio chamado Casa Verde para
abrigar todos os loucos da cidade e região. Em pouco tempo o local fica cheio e ele vai ficando cada vez mais
obcecado pelo trabalho.
Em certo momento Dr. Bacamarte passou a enxergar loucura em todos e a internar pessoas que causavam espanto.

Com o tempo, o clima se torna cada vez mais tenso na cidade, e o barbeiro Porfírio, que há muito almejava
ingressar na carreira política, resolve armar um protesto.

Porfírio se vê em uma posição de poder, como líder de uma revolução. Resolve, então, dirigir-se até a Câmara dos
Vereadores para destituí-la. Agora com plenos poderes, Porfírio chama o Dr. Bacamarte para uma reunião, mas,
em vez de despedi-lo, junta-se a ele e assim as internações continuam na cidade.

As internações continuam de forma acelerada, e até D. Evarista (esposa de Bacamarte) é internada após passar
uma noite sem dormir por não conseguir decidir que roupa usaria numa festa.

Por fim, 75% da população da cidade encontrava-se internada na Casa Verde. O alienista,
percebendo que estava errado, resolve libertar todos os internos e refazer sua teoria: se a maioria apresentava
desvios de personalidade e não seguia um padrão, então louco era quem mantinha regularidade nas ações e
possuía firmeza de caráter. Com base em sua nova teoria, o Dr. Bacamarte recomeça a internar as pessoas da
cidade.

Após algum tempo, o Dr. Simão Bacamarte percebe que sua teoria, mais uma vez, está incorreta, e manda soltar
todos os internos novamente.
Por que a Psiquiatria
teria tomado esse rumo?
 Grande desenvolvimento da indústria farmacêutica (o
que é uma conquista valiosíssima em inúmeros
aspectos, isso é óbvio) e os seus opulentos resultados
econômicos,
 A crise de legitimidade dos diagnósticos psiquiátricos,
(experimento Rosenhan – 1973)
 O avanço do conhecimento biológico,
 As mudanças culturais próprias da pós-modernidade
 O Experimento de Rosenhan foi um experimento sobre a validade
do diagnóstico psiquiátrico que realizou o psicólogo David Rosenhan em 1972.
Os resultados foram publicados na revista Science com o título "On Being Sane
in Insane Places" ("Sobre Estar Sadio em Lugares Insanos").[1]

 O estudo de Rosenhan teve duas partes.


 1. A primeira usou colaboradores sadios, chamados de pseudopacientes, os
quais simularam alucinações auditivas, numa tentativa de obter a admissão em
doze conceituados hospitais psiquiátricos de cinco estados dos Estados Unidos.
 2. A segunda parte consistiu em pedir às instituições psiquiátricas que
tentassem detectar os pseudopacientes.

 No primeiro caso, nenhum pseudopaciente foi detectado. No segundo, o


hospital catalogou de impostores ou suspeitos, uma grande quantidade de
pacientes reais. O estudo é considerado como uma importante crítica ao
diagnóstico psiquiátrico.
 Experimento de Rosenhan - Primeira fase

Rosenhan foi ele mesmo um pseudopaciente. Além dele, participaram três psicólogos, um
pediatra, um psiquiatra, um pintor e uma dona de casa, sendo cinco homens e três mulheres.
Nenhum deles tinha sido diagnosticado com problemas mentais e possuíam um vida bem
estabelecida. Os pseudopacientes tentaram internação em doze hospitais diferentes. O único
sintoma que relatavam era que ouviam vozes, não muito claras, falando "vazio", "oco" e
"baque". Imediatamente depois da admissão, os pseudopacientes cessaram de simular
qualquer sintoma, mas alguns estavam um pouco nervosos durante um curto período
porque nenhum deles achava que iria ser internado e pensavam que a sua simulação seria
descoberta logo, ficando expostos como fraudadores.

Todos os pseudopacientes foram internados, onze com diagnóstico de esquizofrenia e um


com psicose maníaco-depressiva, ficando internados entre 7 e 52 dias, com uma média de 19
dias. Embora os pseudopacientes não tivessem sido detectados pela equipe profissional,
outros pacientes suspeitaram de sua sanidade mental. 35 de 118 pacientes que conviviam com
os pseudopacientes expressaram suas suspeitas. Os comportamentos normais
dos pseudopacientes eram frequentemente avaliados pela equipe como aspectos de sua
suposta doença. Por exemplo, registros de enfermagem para três deles afirmavam que "sua
escrita era vista como um aspecto de seu comportamento patológico".[2]
 Experimento de Rosenhan - Segunda fase

Para a segunda parte do experimento, Rosenhan usou um conhecido hospital, referência em


ensino e pesquisa, cuja equipe já conhecia os resultados do estudo inicial, e alegou que erros
semelhantes não poderiam ser cometidos em sua instituição. Rosenhan fez um acordo com
eles: durante um período de três meses, um ou mais pseudopacientes tentariam ser
admitidos e a equipe tentaria classificar cada paciente que chegasse quanto à probabilidade
de ser um impostor.

De 193 pacientes, 41 foram considerados impostores e outros 42 foram considerados


suspeitos. Na realidade, Rosenhan não enviara nenhum pseudopaciente; todos os pacientes
considerados suspeitos ou impostores pela equipe do hospital eram pacientes comuns.
Isso levou à conclusão que "qualquer processo de diagnóstico que leva tão
rapidamente a erros significativos desse modo, não pode ser muito confiável".

Rosenhan afirmou ainda que o estudo demonstrou que os psiquiatras não podem afirmar
com segurança a diferença entre pessoas saudáveis ​e insanas.
A fase inicial do experimento demonstrou uma falha em detectar a sanidade, e a
segunda fase demonstrou uma falha na detecção da insanidade. O psicólogo concluiu
também que os rótulos psiquiátricos tendem a se manter de uma forma diversa dos rótulos
médicos em geral, e que tudo que um paciente faz é interpretado de acordo com o rótulo de
diagnóstico, uma vez aplicado. Ele sugeriu que, ao invés de rotular uma pessoa como insana,
deve-se concentrar nos problemas e comportamentos específicos do indivíduo
A sociedade pós-moderna
Perdeu a força simbólica das narrativas que
procuravam explicar a existência, o sentido das coisas,
onde as agências que organizam o nosso mundo
dizendo o que é certo, o que é errado, o que é bom e o
que é ruim, o que é normal e o que não é, todas essas
agências perderam sua força de modo que hoje nós
somos cada vez mais autônomos em relação a elas, não
há qualquer valor mais alto contra o qual não
possamos fazer uma objeção.
A Cultura e as Formas de Subjetividade
 Modernidade (séc. XV – séc XVIII /XX) –
o sujeito constitui-se
em meio a instituições fortes, que produzem sentidos fixos
e inquestionáveis, dados por símbolos duradouros.

 Pós-modernidade – o sujeito questiona as equivalências


simbólicas fixadas pelas instituições modernas. Um
questionamento relativo é desejável, já um relativismo
absoluto acaba por deixar o sujeito sem chão. Nessas
condições, cabe a cada um decidir no que acreditar,
criando sua própria visão de mundo e um sentido para sua
existência. O que, convenhamos, não é nada fácil e deixa
muitas pessoas à deriva.
SUJEITOS MODERNOS – trocaram uma parcela de suas possibilidades de
felicidade por uma parcela de segurança. Isso gerou empobrecimento simbólico
e violência, intensificando assim o mal-estar nas relações sociais, ou seja, uma
impossibilidade do erotismo humano, tanto no que se refere à sexualidade,
como no investimento na vida. (mais segurança, menos liberdade
individual) (FREUD)

SUJEITOS PÓS-MODERNOS – trocaram um quinhão de suas possibilidades de


segurança por um quinhão de felicidade. (mais liberdade individual,
menos segurança). (BAUMAN)

Se obscuros e monótonos dias assombraram os que procuravam a segurança,


noites insones são a desgraça dos livres. Em ambos os casos, a felicidade
naufraga.
O mal-estar contemporâneo é efeito da desregulamentação e do excesso de liberdade
individual (privatização), é fruto do excesso pulsional e da fragilidade de simbolização
(referências subjetivas).

Nesse sentido, tem uma marca essencialmente TRAUMÁTICA, o que aponta para a
VULNERABILIDADE psíquica do homem contemporâneo, assim como destaca
algumas psicopatologias (como o pânico, a anorexia, a bulimia, as toxicomanias, as
psicossomatizações, e as depressões, dentre outras) entre os modos atuais de sofrimento
humano, assim como põe em relevo a violência exacerbada entre as pessoas, a intolerância à
diferença, a baixa da alteridade.

MAL-ESTAR – expressão da condição subjetiva do humano, marcado pelo desamparo


estruturante do psiquismo.
tenderá sempre a existir, porém configurado segundo as modalidades de subjetivação de sua
época.
As formas de sofrer que os sujeitos manifestam, seus mal-estares, são indissociáveis das
transformações que remodelam o campo social.
O sujeito contemporâneo está à mercê da solidão e do vazio, do
desamparo terrífico. Sob esse prisma, o mal-estar na atualidade diz
respeito ao vazio existencial produzido pela destruição das visões de
mundo, pela DESTRUIÇÃO DA NARRATIVA.

Movimento da historicidade humana

constrói-se num eixo temporal, a partir do PRESENTE,


avaliando o PASSADO e projetando-se para o FUTURO.
É essa “narrativa”, esse “enredo” dominante, por meio do qual
somos inseridos na história, que parece ter sido destruído.
O universo simbólico para onde o sujeito se remetia não lhe serve
mais de suporte. (BIRMAN, 1997 / BAUMAN, 1998)
Na pós-modernidade, não há modelos identitários
pré-estabelecidos para o sujeito adotar, não há
nada que lhe sirva de referência, na prática, tudo é
possível. O que pode ocorrer é um “desamparo
identitário” (Muszkat, 2006). A pós-modernidade
caracteriza-se pela fragilidade do símbolo.
“SOCORRO”,
de Arnaldo Antunes e Alice Ruiz,
com Cássia Eller

• https://www.youtube.com/watch?v=4dH__M387DM
A PSICANÁLISE, SEU SABER E SUA FORMA
DE TRATAMENTO
___|_______________________|______________________________|_____________________|___
1856 1887 1900 1939
Nasce Freud inicia seus trabalhos pré-psicanalíticos Freud Morre
publicação da obra psicanalítica inaugural

• O surgimento da psicanálise ocorreu no fim do século XIX

• Em uma sociedade extremamente repressora com padrões de conduta muito estritos o


que impedia que as pessoas pudessem dar vazão a seus desejos e com freqüência sentiam-
se muito frustradas em suas aspirações.
• O tipo de sofrimento típico naquela época era a HISTERIA, as crises histéricas eram
uma epidemia, as mulheres eram internadas e tentavam-se os mais variados tratamentos
sem sucesso. Isso intrigou Freud que passou a se dedicar a compreender aquela expressão
psicopatológica. Foi a partir do atendimento e investigação do funcionamento psíquico
das histéricas que ele começa a criar a psicanálise.
Tese central da Psicanálise
• há uma parte do nosso psiquismo ao qual não temos
acesso, exceto por determinados métodos (análise, atos
falhos, sonhos, chistes, sintomas)

• todos nós abrigamos no inconsciente impulsos, desejos e


fantasias que buscam se expressar ou se realizar.

• Neste caminho, deparam-se com as DEFESAS, que são


mecanismos internos encarregados de filtrar os impulsos e,
segundo o caso, permitir que acedam à consciência ou
mantê-los afastados dela.
• Com a forte influencia da psicanálise na cultura e outras
tantas de outros intelectuais, artistas, cientistas, etc,
aconteceu uma revolução de costumes muito
importante ao longo do século XX.

• Passamos de uma sociedade tradicional, rígida, com


instituições muito fortes para uma sociedade moderna,
liberal, com instituições frágeis.

• O que veremos é que o “mal-estar na cultura não


desapareceu, apenas assumiu novas formas.

• (R. Mezan)
Em primeiro lugar, a repressão não foi eliminada – ainda que possa se
revestir de roupagens mais sutis -;

Em segundo, surgiram novas fontes de inquietação:


• Se a sociedade antiga era muito mais RÍGIDA,
• a atual é por vezes DESNORTEANTE na sua fragmentação e na
rapidez das mudanças;
• se aquela opunha ao avanço do indivíduo obstáculos sedimentados na
tradição, a de hoje já não oferece valores nem rumos claramente
identificáveis.
• Existe uma maior tolerância no tocante à sexualidade, mas a violência
urbana, o consumo de drogas e outras pragas sociais se alastraram num
grau que Freud jamais poderia ter previsto.”

• (R. Mezan)
E como a psicanálise tem lidado com essas
subjetividades ao longo dos tempos?

• Procurando entender os diferentes modos de


subjetivação dos sujeitos, seus modos de ser e de sofrer.
• Identificando as angústias predominantes e as defesas
que são mobilizadas para lidar com tais angústias
• As interpretações, os manejos técnicos ao longo do
processo analítico irão permitir ao sujeito se
reposicionar diante da vida e de suas dores.
A análise é uma experiência que transforma; pode-se
sair dela sem o sofrimento do qual a gente se queixava
inicialmente, mas ao custo de uma MUDANÇA. Ao
fim, não seremos os mesmos sem dor, seremos outros,
diferentes.
A viagem psicanalítica ao fundo de si mesmo não é
fácil, nem indolor. Ela está na contramão do
NARCISISMO INFANTIL, promovido sem pudor pela
sociedade atual como solução para as dificuldades de
viver.

narcisismo infantil – no modo de funcionamento


psíquico que caracteriza a infância, predomina a
busca imediata de gratificação para os impulsos.
• A Psicanálise não é complacente com nosso profundo
desejo de iludirmos a nós mesmos – e a chamada
“resistência” é precisamente a prova de quão arraigada é
esta tendência.

• Vemos que tal proposta é pouco compatível com a


superficialidade, a pressa e o pouco caso com o sentido que
perpassam nossa vida atual. E, é isso que a torna ainda mais
relevante como terapêutica na atualidade, na crítica que faz
à massificação da experiência de si. Fugimos de ser
incomodados, na busca do prazer imediato, na
superficialidade das experiências, mas o fato é que a
cegueira faz sofrer.
A orientação ética da psicanálise, se propõe a acolher a
vida não em uma dimensão ideal, como gostaríamos
que ela fosse, mas em sua dimensão real.
Sofremos os efeitos desse real todas as vezes que nos
confrontamos como o fato de que as coisas não estão
ao alcance de nossas mãos, como gostaríamos que
estivessem. Isso é duro? Certamente.
“Não se pode mudar a direção do vento, mas
pode-se alterar a posição das velas”.
Definição de saúde da OMS –
perfeito estado de bem estar biopsicossocial.

A idéia de perfeito estado contraria a de variação


contínua, que parece ser condição necessária à vida dos
organismos. Tomar a saúde como bem-estar significa
excluir todo o perigoso, indesejado e incômodo de seu
escopo.
NORMAL E PATOLÓGICO
uma perspectiva para nos inspirar

Canguilhem, filósofo da biologia, francês.

Seu trabalho tornou-se um clássico (1943), demonstra que o normal –


noção que se aplica ao âmbito da vida – não equivale ao padrão
estatístico, uma vez que anomalias (tais como a posição diferente de
órgãos no corpo) não necessariamente são incompatíveis com o bom
funcionamento do organismo, assim como estar dentro de limites
clínicos não quer dizer saúde. Assim, o uso de critérios objetivos
mostrar-se-ia insuficiente na avaliação de normalidade.
Haveria, segundo esse autor, uma dimensão qualitativa a ser
considerada, que corresponderia à capacidade de criar novas normas de
funcionamento quando necessário.
A idéia portanto é pensar na saúde como algo que
implica uma dinâmica e não algo estático.
Essa plasticidade em instaurar novos modos de lidar
com as variáveis da vida é mais do que um esforço
adaptativo, é explorar suas possibilidades, arriscar-se,
encontrar novas estratégias em lidar com as variáveis
da vida.
• Daí concluímos que a saúde deveria incluir um certo
grau de perigo, incômodo e mal-estar vinculados aos
movimentos expansivos do sujeito.

Então:
• Doença – uma das vicissitudes transitórias da saúde /
não só um mal a ser combatido.
• Saúde – deve incluir um certo grau de sofrimento, dor
e angústia.
“acreditamos que é preciso negar-se a aceitar qualquer
tentativa de caracterizar os infortúnios como patologias
que devem ser assistidas medicamente.... é preciso
pensar um conceito de saúde capaz de contemplar e
integrar nossa capacidade de administrar de forma
autônoma esta margem de risco, de tensão, de
infidelidade, e por que não dizer, de “mal estar” com que
inevitavelmente devemos conviver” (caponi, 2003)
• Mas afinal, segundo que concepção de saúde
trabalhamos?
• Para que o sujeito aumente sua imunidade aos afetos
ou para que tolere a vulnerabilidade necessária aos
novos investimentos?
• Para poupar o sujeito dos riscos ou para que sua vida
possa expandir-se?
• Para que se proteja contra a doença e a morte ou para
que amplie sua normatividade?
• Para que mantenha um perfeito estado de bem-estar,
ou para que tenha a liberdade de prescindir dele?
Como dizia Riobaldo,
viver é um descuido prosseguido.

Guimarães Rosa.
“ter nascido me estragou a saúde, a vida....ter nascido
dotou-me a incertezas, a dúvidas, a tristeza, a
indelicadeza, a malvadeza, a inércia, ao vazio, ao nada,
ao simples, ao minúsculo, ao ameno, ao amargo, ao
nada, ao pouco. Ter vivido tirou-me a paz, a
suficiência, a atenção, a normalidade, o amor, a raiva, o
ódio, a inveja, o sucesso, a certeza, o tudo...”

Clarice Lispector
A Descoberta do Mundo: Crônicas. Rio de Janeiro: Editora Francisco Alves, 1992
Leitura para próxima aula:

 FREUD, S. (1910) Cinco lições de psicanálise. Primeira lição. Vol XI

Leitura complementar:
 MAURANO, D. Para que serve a psicanálise? Jorge Zahar
Editor.
https://psiligapsicanalise.files.wordpress.com/2014/09/denise-maurano-pra-que-
serve-a-psicanc3a1lise.pdf
Contato:
racheleferrari@gmail.com
Rua dos Pardais, 411 Vinhedo (SP)
Rua Dr. Emílio Ribas, 491 sala 06 Campinas (SP)
(19) 99205.9784