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DEBATE DEBATE 875

Sexualidade e medicina:
a revolução do século XX

Sexuality and medicine:


the 20th-century sexual revolution

Maria Andréa Loyola 1

1 Instituto de Medicina Abstract This paper discusses the role of medicine, ranging from the normative and technologi-
Social, Universidade
cal control of women’s sexuality and reproductive process (childbirth, breastfeeding, contracep-
do Estado do Rio de Janeiro.
Rua São Francisco Xavier tion, and treatment of infertility) through the construction of a new (biological and social) re-
524, Rio de Janeiro, RJ productive model, based on a radical change of identities, relations, and forms of union between
20559-900, Brasil.
the sexes (a break with the traditional concept of marriage, growth of open unions, serial
maloy@uerj.br
loyola@ism.com.br monogamy, etc.). This model is sustained by a radical distinction between sexuality and repro-
duction, related to a unique and horizontal model of sexuality (in opposition to the hierarchical
19th-century two-sexes model); the new model focuses mainly on pleasure and moves progres-
sively away from social ties and affection. In addition to the contribution of medicine (notably
through assisted reproduction) and sexology (universalization of the orgasm imperative), the
paper also discusses the contribution of epidemiology (through AIDS-related research) to the
transformation of a moral sexual norm into an abstract and merely statistical standard.
Key words Sexuality; Reproduction; Sex Behavior; Medicine

Resumo O artigo discute a contribuição da medicina, segundo o controle normativo e tecnoló-


gico da sexualidade feminina e do processo reprodutivo (parto, aleitamento, contracepção e tra-
tamento das infertilidades) para a construção, durante o século XX, de um novo modelo de re-
produção (biológica e social), calcado em uma mudança radical das identidades e das relações e
formas de união entre os sexos (desagregação de laços matrimoniais tradicionais, crescimento
das uniões consensuais, monogamia serial, etc.). Este modelo se sustenta em uma separação ra-
dical entre sexualidade e reprodução correlata de um modelo único e horizontal de sexualidade
(contrariamente ao modelo hierárquico dos dois sexos do século XIX), dirigida primordialmente
para o prazer e progressivamente desvinculada dos laços sociais e afetos que lhes são correspon-
dentes. Discute, além da contribuição da medicina (notadamente a partir dos efeitos da repro-
dução assistida) e da sexologia (universalização do imperativo do orgasmo), a contribuição da
epidemiologia (por meio das pesquisas relacionadas à AIDS) para a transformação de uma nor-
mal moral sobre a sexualidade em uma norma abstrata e meramente estatística.
Palavras-chave Sexualidade; Reprodução; Comportamento Sexual; Medicina

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“La biologie a perdu aujourd’hui nombre de xon et al., 1990; MS/CEBRAP, 1996; NORC, 1989;
ses illusions. Elle ne cherche plus la vérité. Elle Pollak & Schiltz, 1991; Spira et al., 1993; Wel-
construit la sienne” (Jacob, 1970:24). lings et al., 1994). Esses estudos, em sua maio-
“Galilée disait que le monde natural aurait ria de inspiração epidemiológica, se de um la-
être écrit en mathématique. Aujourd’hui on veut do contribuíram para explicitar certos aspec-
nous faire croire que c’est le monde économique tos da sexualidade contemporânea, de outro,
et social qui est mis en équations, ce qui expli- tendem a reduzi-la à sua dimensão puramente
querait ou justifirait le pretendue fin de l’his- comportamental, reforçando as categorias na-
torie” (Bourdieu, 1998:41). turalizadas das explicações biomédicas sobre a
sexualidade.
Este ensaio, baseado em estudos disponí-
Introdução veis e em dados de pesquisas realizadas no Rio
de Janeiro (Loyola, 1995; Loyola et al., 1988),
A sexualidade no século XX foi marcada por pretende contribuir para reverter essa tendên-
uma crescente interferência da medicina neste cia, chamando a atenção sobre alguns determi-
domínio; por um lado, por intermédio do de- nantes sociais da sexualidade geralmente es-
senvolvimento das tecnologias reprodutivas quecidos naqueles trabalhos; pretende ainda
(contraceptivas e conceptivas) que conferem às suscitar a construção de novas hipóteses que
sexualidades não conjugais novo estatuto; por estimulem o estudo, pelas ciências sociais, da
outro, como no título do livro de Foucault (1976), sexualidade no século XXI.
por uma “imensa vontade de saber” sobre ela,
na psicanálise e em outras disciplinas correla-
tas: pedagogia, demografia, ciências sociais. Sexualidade e reprodução
Durante este século, consolida-se um mo-
delo de controle social denominado por Fou- As relações entre sexo e reprodução estão his-
cault (1976) de biopoder, que tem nas práticas toricamente tão ligadas, que ainda hoje é im-
e no discurso da medicina e daquelas discipli- possível falar da sexualidade nas sociedades
nas, peças fundamentais. Este modelo é mar- contemporâneas, sem considerar essas rela-
cado por um forte investimento político na vi- ções. Isso porque, nas sociedades humanas, to-
da, na “qualidade” das populações, na repro- dos os diferentes momentos da seqüência re-
dução individual e coletiva, sendo o domínio da produtiva – desde o coito, a gravidez, o parto e
sexualidade aquele que permite articular esses a amamentação, até o número e a socialização
dois planos da reprodução. Mas a novidade do das crianças – são socialmente organizados e
biopoder é que ele não atuará principalmente controlados. Por um lado, embora a reprodu-
pelo controle repressivo da sexualidade e pela ção humana seja vista como um processo emi-
reafirmação da aliança e do casamento, mas nentemente biológico ou natural, por esse pro-
pela incitação aos prazeres, pela valorização do cesso reproduzem-se não indivíduos abstratos,
desejo e das sensações, através de uma “explo- mas pessoas alocadas em posições sociais his-
são discursiva sobre o sexo”. toricamente construídas (Loyola, 1992). A re-
Essa “vontade de saber”, por outro lado, tor- produção biológica das populações humanas é
na a sexualidade no século XX, objeto de estu- inseparável e, em grande parte, determinada
dos empíricos focalizando o comportamento pela reprodução da sociedade ou dos sistemas
sexual, cujo marco são as pesquisas sobre o sociais como um todo. Mas, por outro lado, co-
comportamento sexual masculino e feminino mo aponta Malinowski (1980), entre outros an-
da população americana realizadas por Kinsey tropólogos (Berger & Luckman, 1973; Mauss,
(Kinsey et al., 1948, 1953). Essa abordagem so- 1976), o controle social do processo reproduti-
bre o comportamento sexual representou uma vo apóia-se primariamente na organização se-
ruptura com os estudos de sexologia clínica do xual biológica específica da espécie humana:
fim do século XIX e início do século XX, focali- sua relativa infertilidade e as características
zados sobre os “desvios sexuais” (Ellis, 1936; singulares da sexualidade das fêmeas huma-
Krafft-Ebing, 1965), e com aqueles fundados nas, nas quais a pulsão sexual (Freud, 1968), é
sobre a moral religiosa, a medicina ou a crimi- intermitente e não cíclica ou sazonal; não tem
nologia (Lanteri-Laura, 1979; Trilling, 1948). sinalização externa como manifestação do ins-
Novos estudos empíricos sobre a sexualidade tinto, nem é induzida por uma regulação hor-
se seguiram após o relatório Kinsey (Gagnon & monal ligada (e dirigida) à procriação como em
Simon, 1973; Simon et al., 1972), mas é somen- outros mamíferos.
te com o advento da AIDS, na década de 80, Assim, o casamento não é somente a insti-
que eles se multiplicam significativamente (Co- tuição que estabelece a aliança pela troca de

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mulheres, liga homens e mulheres pela divisão Essas e outras diferentes intervenções so-
do trabalho, legitima a criança fornecendo-lhe bre a sexualidade, visando a produzir um or-
uma mãe e um pai social e comanda o destino ganismo feminino especializado na reprodu-
(alocação social) das crianças (Durkheim, 1960; ção, constituem para Tabet a maior transfor-
Levi-Strauss, 1949; Malinowski, 1980). Ele é, mação e a mais complexa das condições bio-
antes de tudo, a instituição que garante uma lógicas da reprodução e, correlativamente, da
permanente exposição ao coito, portanto uma mais forte e mais complexa manipulação das
permanente exposição ao risco de gravidez (Ta- condições biológicas da sexualidade humana
bet, 1985). Se o casamento representa poten- (Tabet, 1985).
cialmente o lugar privilegiado de exposição
permanente das mulheres à fecundação, isto
não se dá sem um aparelho complexo (e variá- A sexualidade nas sociedades
vel) de pressão ideológica e de constrangimen- ocidentais modernas
tos físicos e psíquicos (Durkheim, 1960; Mali-
nowski, 1980; Mauss, 1976). Todas as socieda- As normas que comandam as relações entre
des distinguem os casos (parceiros, momentos sexualidade e reprodução em seus diferentes
etc.) nos quais a reprodução é admitida (ou momentos estão relacionadas com as formas
mesmo exigida), e aqueles em que a sexualida- de organização social, de divisão sexual do tra-
de não deve levar à procriação; orientam tam- balho, com os sistemas de representação e, em
bém as múltiplas formas que limitam as poten- particular, com as relações entre os sexos. De-
cialidades polimorfas da sexualidade humana pendendo da configuração desses aspectos
e as canalizam para a heterossexualidade e a num dado momento, é possível falar mesmo
reprodução obrigatória (Fox, 1982; Ruffié, 1986). em diferentes modelos de reprodução.
Baseando-se no exemplo de várias socieda- Em termos de tipos ideais (no sentido we-
des, Tabet (1985) distingue duas formas insti- beriano), e para fins estritamente analíticos, é
tucionais de dissociação entre a sexualidade possível pensar, por exemplo, em dois modelos
reprodutiva e não reprodutiva. Uma delas é o históricos de reprodução e de controle da se-
que ela chama de separação vertical, ligada às xualidade: um mais antigo, ligado às socieda-
sociedades hierárquicas e às sociedades de des patriarcais, que podemos chamar, na falta
classe: a sexualidade de reprodução para as es- de um nome melhor, de tradicional, baseado
posas e a heterossexualidade não reprodutiva no sistema de alianças e em normas estritas de
para as cortesãs; a função da prostituição regu- homogamia, no amor conjugal, na indissolubi-
lamentada visando a canalizar a sexualidade lidade dos laços matrimoniais, numa rígida di-
extraconjugal e mantê-la conforme a “nature- visão de trabalho entre os sexos e num rígido
za”, isto é, heterossexual (Corbin, 1982). A anti- controle da sexualidade feminina, na submis-
nomia entre procriação, de um lado, e desejo e são jurídica e social da mulher ao homem, na
conduta erótica, de outro, é nítida. O casamen- identidade familiar, na contracepção apoiada
to não tem por objeto o prazer, mas a procria- na idade ao casar e completamente dependen-
ção de crianças legítimas. Esta distinção é váli- te do intercurso sexual; e em outro, historica-
da apenas para os homens, na medida em que mente mais recente ou moderno, baseado na
eles podem ter uma sexualidade não reprodu- escolha individual do cônjuge, em normas re-
tiva fora do casamento. Para os homens, a nor- lativamente mais flexíveis de homogamia, no
ma é uma bissexualidade guerreira, que mes- amor-paixão, na possibilidade de divórcios e
mo antes do cristianismo tende a se transfor- separações freqüentes, numa divisão de traba-
mar em sexualidade de reprodução; para as lho pouco rígida entre os sexos, na liberação (e
mulheres, um papel de submissão passiva ao mesmo valorização) da sexualidade feminina,
prazer dos homens. Uma segunda forma de na igualdade jurídica e social entre os sexos, na
dissociação entre sexualidade e reprodução é a identidade individual, no controle tecnológico
separação entre as idades da vida, que Tabet da contracepção que, no limite, pode dispen-
(1985) associa a uma divisão horizontal: um sar o intercurso sexual para fins reprodutivos.
primeiro período se situa em torno da puber- Tomando como parâmetros as respostas so-
dade e pode, segundo as sociedades, ser dedi- ciais para contornar as especificidades do pro-
cada a uma sexualidade mais ou menos livre. cesso humano de reprodução biológica, apon-
Na sociedade ocidental, esta liberdade é válida tadas por Tabet, podemos detectar algumas
apenas para os homens, pesando sobre as mu- transformações, relativamente ao antigo mo-
lheres uma interdição rigorosa. O outro perío- delo: o rompimento, no nível ideológico, da as-
do é caracterizado por uma sexualidade conju- sociação entre sexualidade e reprodução – que,
gal com fins reprodutivos. como vimos, constituía um corolário dessa dis-

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sociação no nível biológico – deixa a sexualida- mos acrescentar ainda a verdadeira revolução
de da mulher não mais inteiramente subordi- representada pela pílula anticoncepcional e,
nada à reprodução. A interdição sexual para a mais recentemente, pela inseminação artificial
mulher antes do período reprodutivo perde e pela fecundação in vitro, permitindo desvin-
importância, mas permanece a divisão entre cular tecnicamente não somente sexualidade
esposas e prostitutas, estas últimas se distin- (enquanto domínio do prazer) e reprodução,
guindo cada vez mais exclusivamente pelo ca- mas o próprio sexo deste processo. Por fim, é
ráter mercantil de seus serviços, em oposição necessário lembrar que esses processos ocor-
às trocas livres comandadas pelo prazer. As prá- rem num contexto crescente de globalização
ticas sexuais, uma vez autonomizadas, tornam- dos mercados e das informações, por intermé-
se mensuráveis, isto é, podem ser objeto de dio da informática e notadamente da mídia au-
cálculos racionais quanto à finalidade, apoia- diovisual.
das numa contabilidade do prazer que tem co-
mo unidade de base o orgasmo (Pollak, 1982).
A busca do prazer toma a forma de busca da É possível falar em um novo
verdade, substituindo a busca da felicidade do sistema de reprodução?
século XIX; o sexo e o amor são lançados na es-
fera intimista da individualidade. A sexualida- Uma das mais importantes transformações ou
de torna-se constitutiva da própria subjetivi- mudanças ocorridas no sistema de reprodu-
dade, relegando ao passado uma ética sexual ção das sociedades ocidentais contemporâ-
centrada na economia dos atos e de domínio neas é, como assinalou Bourdieu (1974), o pe-
público (Foucault, 1976; Sennet & Foucault, so crescente do capital escolar, relativamente
1981). ao capital econômico, o que tornou possível o
A democracia e a idéia de igualdade entre casamento amoroso baseado na escolha indi-
os sexos penetram a esfera doméstica, alteran- vidual, sem pôr em risco as funções desempe-
do a configuração tradicional do casamento e nhadas pelo sistema de alianças para a repro-
o modelo de relacionamento conjugal, que pas- dução social.
sa a ser o das uniões livres (Battagliola, 1988), De fato, ao contrário do capital econômico,
engendrando uma constante negociação dos o capital cultural é incorporado; ele faz parte
conflitos. Os laços conjugais se fragilizam e sua integrante da pessoa e torna-se invisível. As
continuidade é rompida, não obstante a vonta- condições de um amor louco e ao mesmo tem-
de em contrário dos parceiros. A noção de tem- po razoável são assim reunidas; uma mulher e
po longo, necessária à continuidade dos laços um homem podem apaixonar-se segundo suas
conjugais é substituída pela de tempo fugaz ou idiossincrasias (ou de acordo com seu “senti-
pela noção de intensidade, como bem traduz o mento ou desejo individual”) e se casar sem
poeta Vinícius de Moraes: “que não seja eterno risco social. Sua estima recíproca está fundada,
posto que é chama, mas que seja infinito en- sem que eles o saibam, sobre valores culturais
quanto dure”. próximos. Não há, pois, nenhuma necessidade
As idéias aqui expostas, agrupadas enquan- de arranjos exteriores; o sentimento de ambos
to traços incompletos de tipos ideais, apóiam- é suficiente para garantir o equilíbrio entre ca-
se sobre mudanças estruturais e institucionais pital masculino e capital feminino. A lógica
já suficientemente conhecidas. Entre elas, des- amorosa não contradiz a lógica social; a pri-
tacam-se: a liberação da força de trabalho pelo meira redobra a segunda numa sociedade em
mercado e a incorporação da mulher ao siste- que o capital cultural domina (Bourdieu, 1974;
ma produtivo, desmanchando os laços comu- Bourdieu & Saint-Martin, 1978).
nitários, introduzindo um modelo individuali- Numa ótica diferente, Tabet (1985) articula
zante da relação entre os sexos, abalando os relações de produção e relações de reprodução,
alicerces da complementaridade entre eles e a definindo a procriação como um trabalho que,
divisão sexual do trabalho que restringe a mu- à maneira do trabalho intelectual, se cumpre
lher à esfera doméstica; a introdução de mu- no corpo humano, e o processo reprodutivo
danças jurídicas na legislação que rege a rela- como um processo de produção que implica a
ção entre os sexos e os direitos decorrentes da exploração da mulher e a apropriação social de
união entre eles (sobre os filhos, patrimônio, seu corpo e mesmo de sua pessoa por meio do
etc.), entre as quais a mais recente é a legaliza- casamento. Nessa ótica, relações de produção
ção das relações entre pessoas do mesmo sexo e relações de reprodução humana seguiriam li-
como o PACS (Pacto Civil de Solidariedade, na nhas de evolução paralelas e estruturalmente
França), e experiências semelhantes em outros homólogas, e nos dois casos, evolução técnica
países. Do ponto de vista tecnológico, podería- e evolução das relações sociais estariam imbri-

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cadas. Assistimos a um fenômeno sob certos A dissolução dos laços


aspectos muito próximo do que se produziu na conjugais tradicionais
formação do capitalismo: a passagem das rela-
ções de escravismo, de apropriação direta do A desagregação dos laços matrimoniais parece
trabalhador, às relações capitalistas de produ- caracterizar atualmente amplos setores tanto
ção, em que o trabalhador é livre. Uma evolu- dos países industrializados como dos subde-
ção análoga se passa nas relações de reprodu- senvolvidos e dos em desenvolvimento. Estu-
ção, ou seja, a passagem da apropriação priva- dos realizados em alguns países da América
da da reprodutora no laço de dependência pes- Latina apontam mudanças significativas no
soal constituído pelo casamento, à emergência sistema de reprodução humana, detectáveis
atual de relações nas quais a apropriação glo- pela crescente queda da fecundidade, pelo au-
bal da reprodutora não é condição sine qua non mento do número de divórcios, de uniões con-
da reprodução. Tal como na evolução técnica, sensuais e de famílias monoparentais (Berquó,
a transformação das relações de reprodução é 1989; Berquó & Loyola, 1984; M. C. Oliveira & E.
gradual e não se dá no mesmo momento para Berquó, comunicação pessoal). No Brasil, por
as diferentes fases do ciclo reprodutivo. Assim, exemplo, além do crescente número de separa-
o aleitamento vem primeiro e sofre uma evolu- ções e divórcios, 25% das famílias do país são
ção técnica que leva, no limite, à “liberação” do famílias monoparentais (Censo 2000 – http://
seio, à transferência da lactação para uma pro- www.ibge.gov.br), o que significa em sua quase
dução completamente exterior ao corpo. totalidade dirigida por mulheres, tendência já
O aluguel do útero, por sua vez, pode ser observada desde a década de 70, na periferia
visto como caso extremo de uma lógica mer- das grandes cidades e notadamente em áreas
cantil que atinge o domínio mais privado da vi- de expulsão de mão de obra (Loyola, 1978).
da pessoal. Trata-se de uma venda na qual a Essa desagregação do casamento tradicio-
força de procriação é trocada da mesma ma- nal não parece, entretanto, contradizer a ten-
neira que a força de trabalho, isto é, por seu dência de esvaziar a família de suas antigas
próprio possuidor. O aluguel do útero é, segun- funções reprodutivas, notadamente daquelas
do Tabet (1985), a ponta emergente de um ice- relativas à criação dos filhos e à divisão sexual
berg, a parte visível de um processo de esbo- do trabalho doméstico (Loyola & Abujamra,
roamento das estruturas sólidas que controla- 1985), nem a tendência à baixa da fecundidade
ram a reprodução durante séculos. Também no ou de taxas significativas de homogamia (Lo-
caso do fenômeno mais geral constituído pelas yola, 1978). A dissolução dos laços matrimo-
famílias monoparentais – situação em que as niais parece, ao contrário, ser possível ou faci-
mulheres assumem sozinhas a tarefa reprodu- litada por esses elementos. Ela não parece afe-
tiva e a responsabilidade pelas crianças, seja tar, tampouco, o “desejo de filhos” (ainda que
porque se separaram ou romperam um laço de em número limitado), nem os de maternida-
coabitação, seja porque foram abandonadas de/paternidade. Também neste caso, a desa-
ou porque escolheram ser mães solteiras – a gregação do casamento tradicional parece faci-
apropriação privada das reprodutoras não é litar a possibilidade de realização daqueles de-
mais a condição necessária à reprodução (Ta- sejos, ampliando-os a outros setores antes ex-
bet, 1985). cluídos (pessoas solteiras, homossexuais, etc.),
Talvez seja cedo para compreender o senti- mas no geral, reforçando a visão naturalizada
do e o alcance real destas mudanças. Mas ao daqueles papéis e do processo reprodutivo: a
que tudo indica, as relações de reprodução es- idéia de filho como um prolongamento do pró-
tão em vias de transformar-se, sem uma con- prio corpo, a transmissão do patrimônio socio-
trapartida equivalente nas relações entre os se- cultural pelo sangue, em suma, os aspectos bio-
xos: os salários das mulheres permanecem in- lógicos em detrimento dos sociais (como a ado-
feriores, o acesso ao trabalho desigual, a dupla ção, por exemplo) o que explica, em parte, o
jornada de trabalho uma constante. As sepa- sucesso das novas tecnologias reprodutivas
rações ou os divórcios, a “monogamia serial” (Corrêa & Loyola, 1999).
(correlata às famílias monoparentais) são fato- Não obstante a insistência de certos antro-
res que mostram claramente que o peso eco- pólogos e sociólogos em apresentar o Brasil co-
nômico e material da reprodução vem sendo, e mo uma sociedade fortemente hierarquizada,
progressivamente, deixado para as mulheres. (o que não é totalmente falso) vários estudos
mostram que entre as camadas médias e altas
mais escolarizadas dos grandes centros urba-
nos, predomina o modelo ideológico “indivi-
dualista/igualitário” de relacionamento amo-

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roso (Loyola et al., 1988; Salem, 1989), e que es- cina e, assim sendo, não se coloca como alter-
te modelo tende a se difundir, embora de mo- nativa para a maioria da população. Mas como
do não homogêneo, entre as camadas sociais pesquisas recentes vêm mostrando, ela se ex-
mais baixas (Loyola, 1995). Assim, naquelas ca- pande rapidamente no setor privado da medi-
madas, a monoparentalidade é vista como um cina (Corrêa, 2001), e é amplamente divulgada
constrangimento, um “problema da vida”; e, pela mídia: 86% dos brasileiros, inclusive nas
nestas últimas, pode ser pensada como uma áreas rurais, sabem no que ela consiste e nas
“escolha”, livremente desejada e realizada ( T. classes altas ela já é vista como uma tecnologia
Dauster, comunicação pessoal), embora a (ou serviço médico) “naturalmente” disponível
“produção independente” – como foi chamada ou consumível (Loyola, 1999).
inicialmente a monoparentalidade por livre es-
colha – esteja relacionada com o estreitamento
do mercado matrimonial para mulheres acima A (des)naturalização/indiferenciação
de 30 anos. De fato, a tendência ao crescimen- da sexualidade
to do número de mulheres sozinhas em idade
de procriar, em todas as faixas etárias e grupos Estas e outras alterações ocorridas ainda que
sociais, vem aumentando e, de modo especial, de forma desigual, nas sociedades ocidentais,
para as faixas etárias a partir dos 50 anos (E. aqui ilustradas pelo caso brasileiro, constituem,
Berquó, comunicação pessoal; Censo 2000 – para usar uma expressão de Bourdieu (1980),
http://www.ibge.gov.br). Isto porque as uniões as bases objetivas que nos permitem pensar
conjugais tendem a se desfazer quando os côn- atualmente em uma sexualidade autonomiza-
juges se encontram em torno dos 40 a 50 anos, da e, em alguns casos, totalmente desvincula-
e, porque nesses casos, as mulheres se casam da da reprodução, isto é, em uma sexualidade
menos freqüentemente, e os homens, a maio- dirigida exclusivamente ou primordialmente
ria, voltam a se casar mas com mulheres de para o prazer, sob o controle cada vez maior e
idade bem inferior a deles (10 a 20 anos de di- mais invasivo da medicina.
ferença). A mobilidade conjugal, embora não Como a sexualidade masculina já era par-
seja uniforme ou equivalente para os dois se- cialmente desvinculada desse processo, o tra-
xos em todas as idades e meios sociais e/ou balho ideológico de construção dessa autono-
geográficos, se apresenta pois, como uma ten- mia, levado a cabo principalmente pelos médi-
dência do país. cos durante o século XIX, e notadamente por
Isso não quer dizer entretanto, que as pes- Freud (1936, 1962) no século XX, se fez, segun-
soas não mantenham laços duradouros com do Laqueur (1990), principalmente em torno
familiares e principalmente com amigos. Mas da discussão sobre a sexualidade feminina. Su-
significa que, cada vez mais, elas são obrigadas punha-se, até então, que o orgasmo feminino
a conviver com a atomização, a dispersão e era uma parte rotineira, mais ou menos indis-
provisoriedade dos laços afetivos, tanto nas re- pensável, da concepção. A partir de então, o
lações conjugais – e, notadamente, nas de tipo prazer feminino desaparece dos relatos médi-
consensual – como em outras. Na esfera das re- cos sobre a concepção, o que acontece na mes-
lações pré-conjugais, por exemplo, esta situa- ma época em que o corpo feminino veio a ser
ção se reflete no uso do termo ficar, que a par- entendido, não mais como uma versão inferior
tir dos anos 80 designa as relações entre dois do corpo masculino (o modelo do sexo único),
possíveis amorosos (Corrêa, 1996). Uma rela- mas como seu oposto (o modelo de dois sexos).
ção do tipo ficar ou estar, e portanto poder sair Os orgasmos, até então propriedade comum,
a qualquer momento, pode durar apenas uma foram diferenciados.
noite, se reduzir a uma simples conversação, à Esta nova relação do orgasmo com a con-
troca de beijos e carícias ou a uma relação se- cepção, como a formulou o modelo médico,
xual imediata. Apenas com a continuidade dos abriu a possibilidade da passividade e “falta de
encontros, o termo ficar é substituído pelo de paixão” feminina. As mulheres, cujos desejos
namorar (ou outro), o que se estende a uma ga- não conheciam limites no velho esquema, e
ma infinita de relações entre os jovens e tam- cuja razão oferecia tão pouca resistência à pai-
bém entre os adultos, que embora estáveis não xão, se tornaram criaturas cuja vida reproduti-
implicam necessariamente em compromisso. va, toda ela, podia ser passada anestesiada aos
No que diz respeito à reprodução assistida prazeres da carne. No final do século XVIII, a
no Brasil, ela só não é equivalente em termos presença ou ausência do orgasmo se tornou si-
de volume à praticada em países como a Fran- nal biológico da diferença sexual. Não apenas
ça, a Inglaterra ou os Estados Unidos, porque os sexos eram diferentes, mas eram diferentes
ela não é oferecida pelo setor público da medi- em todos os aspectos concebíveis de corpo e

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alma, em todo aspecto físico e moral. Um di- Uma outra forma de controle da sexualida-
morfismo radical, uma divergência biológica; de, que adquiriu um enorme impulso com o
uma anatomia e fisiologia da incomensurabili- surgimento da AIDS, é o que poderíamos cha-
dade substituíram uma metafísica da hierar- mar de controle estatístico: a norma moral do
quia nas representações da mulher em relação século XIX é substituída no século XX, por uma
ao homem. Contraditoriamente, a construção norma estatística, inaugurada com as pesqui-
da horizontalidade entre os sexos, implicada sas empíricas sobre a sexualidade, notadamen-
no modelo dos dois sexos, torna possível (ou é te com as grandes pesquisas quantitativas de
correlata) à idéia de democracia sexual, ou tal- base populacional.
vez ao contrário: a necessidade de transpor o Em função da fluidez do próprio conceito
ideal democrático ao terreno sexual, recoloca o de comportamento sexual, os objetivos e os
orgasmo no modelo dos dois sexos, recons- contextos que norteiam a realização dessas
truindo, em certa medida, a idéia do sexo úni- pesquisas, acabam resvalando para o próprio
co, aquela de um prazer único, advogado pelos conceito de sexualidade passando em grande
sexólogos modernos. parte a defini-lo, como ocorreu com o conceito
De fato, uma parte do controle atual da se- epidemiológico de risco. Assim, como sugere
xualidade pela medicina é feita principalmente Giami (1991), se é possível falar em sexualida-
pelos sexólogos. O poder científico dos sexólo- de “orgástica” com Kinsey, “contraceptiva” com
gos contemporâneos vem, principalmente, do Simon, podemos falar, em tempo de AIDS, em
fato de que eles souberam se colocar de acordo sexualidade de risco. Podemos nos perguntar
sobre uma definição empírica, relativamente em que medida a prevenção da AIDS, se não é
precisa de saúde sexual, obtida por pesquisas um subproduto, não tende a reforçar essa visão
metódicas em laboratório (Béjin, 1982a; Giami da sexologia moderna sobre a sexualidade, so-
& Colomby, 1999). Pode ser considerado como bretudo quando ela vai ao encontro de neces-
em boa saúde sexual, todo indivíduo capaz de sidades de prevenção que não podem ser resol-
chegar (sem exercer violência) ao prazer se- vidas a não ser pelo controle do desejo e do
xual, de preferência, ao ápice do gozo sexual, prazer sexual.
ou seja, ao “orgasmo” Para atingi-lo, uma mul- Sem pretender negar a contribuição do uso
tiplicidade de caminhos (posições, técnicas) de metodologias quantitativas nos estudos so-
estão disponíveis, notadamente a masturbação bre a sexualidade, testemunhada por numero-
(Masters & Johnson, 1971). sos trabalhos deste tipo, é necessário conside-
O controle dos sexólogos sobre o prazer fun- rar os seus efeitos, principalmente quando
ciona assim, menos pela energia (pressão/re- aquelas técnicas se substituem ao trabalho
pressão), do que pela informação (inculcação teórico-conceitual. É necessário observar tam-
pedagógica, programação ética-técnica); me- bém os efeitos daqueles estudos sobre a mu-
nos sobre os prazeres perversos do que sobre lher e agora sobre os homens, tomados isola-
as carências dos desejos e os fracassos do pra- damente, e de modo especial os efeitos da
zer (Béjin, 1982b); menos sobre a sexualidade substituição, nos protocolos de pesquisa sobre
conjugal, do que sobre as “sexualidades perifé- a sexualidade, de denominações como amigos,
ricas”, a sexualidade feminina, os prazeres não- namorados, cônjuges, amantes, noivos – que
reprodutivos (Foucault, 1976). Suas aprecia- implicam tipos de relação entre os sexos so-
ções técnicas não só conduzem a uma diferen- cialmente marcadas – pela única e simples de-
ciação e a uma especificação das práticas dos nominação de parceiros, assim como por con-
desejos e do comportamento, como passam a ceitos derivados daquele uso, como partena-
deter a chave e o poder de decifração de toda riado e multipartenariado (Bozon, 1998; Spira,
manifestação neste âmbito (Corrêa, 1994). En- 1993; WHO, 1989). Se, de um lado, o uso dessas
quanto indicador de saúde sexual, o imperati- terminologias simplifica a vida dos pesquisa-
vo do orgasmo que, antes das diferentes vagas dores, sobretudo em pesquisas dirigidas a ho-
de liberação sexual do século XX, se aplicava, mossexuais, de outro, horizontalizam, igualam
sobretudo, aos coitos legítimos dos casais e e esvaziam a priori todos os conteúdos sociais
principalmente dos homens adultos heteros- implicados naquelas denominações, fazendo
sexuais, se estende também à mulher, aos ho- desaparecer inclusive o sexo das pessoas impli-
mossexuais, aos jovens e às pessoas de idade. cadas. Nas línguas inglesa e francesa, a palavra
Entre as diferentes formas de relação – entre parceiro (partner, partenaire) não diferencia o
notadamente a hetero e a homossexualidade – sexo da pessoa que ela designa; em português,
não mais existem fronteiras intransponíveis. apenas no singular, (parceiro, parceira); no
Ambas se apóiam num suporte comum: a se- plural, parceiros, pode ser aplicado a ambos os
xualidade. sexos, indiferenciadamente. A resposta de uma

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882 LOYOLA, M. A.

mulher casada, por ocasião da pesquisa nacio- de de escolha entre aqueles que terão direito à
nal sobre a sexualidade dos franceses (Spira, vida e aqueles que serão eliminados (como é o
1993) é significativa: à primeira pergunta do caso dos embriões supranumerários nas tec-
entrevistador ela respondeu não ter tido ne- nologias de reprodução assistida, ou dos pa-
nhum parceiro durante o ano; quando o pes- cientes selecionados nos serviços de trans-
quisador perguntou – “e seu marido?”, ela res- plante de órgãos, e, no geral, daqueles que te-
pondeu: “ah, meu marido; com meu marido rão acesso ou não aos “progressos da ciência”).
sim, mas ele não é um parceiro sexual”. Esses O interesse que essas descobertas desper-
exemplos ilustram como essas práticas tendem tam na mídia, seus objetivos terapêuticos e a
a autonomizar ou a isolar cada vez mais a se- forma de divulgá-las produzem efeitos, cuja
xualidade de outras dimensões e notadamente principal conseqüência é a formação de uma
de sua dimensão afetiva. demanda por esse tipo de tecnologia, suscitan-
No campo teórico conceitual observamos do desejos, ou seja, mecanismos simbólicos
um grande esforço de desconstrução e recons- que permitem fazer aparecer, como emanando
trução da sexualidade, levado a termo princi- da liberdade dos indivíduos, as finalidades da
palmente por alguns construtivistas anglo- sa- experimentação biomédica. No caso das cha-
xões (Katz, 1976; Rubin, 1984; Vance, 1991), li- madas “novas tecnologias reprodutivas” (NTRs),
gados ou inspirados nos movimentos feminista por exemplo, a forma (sensacionalista, simplis-
e gay, que tentam mostrar que a sexualidade, ta e benevolente) utilizada em sua divulgação,
como fenômeno natural, é, em realidade uma juntamente com a abordagem médica para o
construção social, e que isso se aplica tanto à “tratamento” da infertilidade, contribui para
homossexualidade quanto à heterossexualida- transformar a oferta médica das NTRs em de-
de. Mas esse esforço, se ele contribui para tor- manda de homens e mulheres, homogeneiza-
nar legítimas as sexualidades periféricas, do dos num único desejo: o desejo de filhos (Cor-
ponto de vista de sua pretensão culturalista, rêa, 1997a, 1997b, 2001). Desejo que, segundo
ele parece fadado ao fracasso (Loyola, 1998, Tort (1992), traduz uma nova subjetivação co-
2000). Quanto mais a sexualidade se autonomi- letiva da procriação, ligada à economia da pro-
za em relação à reprodução, aos gêneros e aos criação-reprodução.
afetos, mais ela se volta em direção à natureza No domínio da sexualidade, embora as no-
ou como diz Laqueur (1990), mais seus funda- vas relações de procriação não sejam desse-
mentos tendem a se enraizar na biologia, isto é, xualizadas, a concepção induzida tende a subs-
no corpo humano sexuado, a-histórico, estável. tituir os efeitos do desejo sexual de homens e
de mulheres pela eficácia da medicina. Onde o
sexual, a relação sexuada introduz o incalculá-
Conclusão: medicina e sexualidade vel, uma ordem do aleatório ligada particular-
no século XXI mente ao gozo, o projeto programado fabrica
algo calculável, um funcionamento, no modo
A intervenção da epidemiologia e notadamen- da racionalização da reprodução bioindustrial,
te da biologia experimental na clínica médica, na expressão de Tort (1992), um “desejo frio”
constitui talvez o fenômeno mais importante Mas reservando-se essas técnicas aos casais,
ocorrido no século XX, que por sua magnitude procede-se como se o sexual continuasse limi-
continuará afetando a sexualidade no século tado à privacidade dos mesmos, ocultando a
XXI. Principalmente na segunda metade da- implicação do médico no agenciamento das re-
quele século, nosso imaginário foi provocado lações de procriação. Essa operação evacua a
por numerosas proezas da biomedicina, que relação homem/mulher, com suas contradições,
até então julgávamos reservadas ao domínio em proveito da exclusiva polaridade pai/mãe,
divino e/ou da natureza: pílula anticoncepcio- que resulta da articulação das categorias médi-
nal, transplante de órgãos, barriga de aluguel, cas (esterilidade) e jurídicas (pai, mãe). A pro-
bebês de proveta, código genético, genoma, blemática das relações doadores-receptores
clonagem e quiçá o que mais está para surgir sendo resolvida pelo artifício de encobrimento
nesse processo intensivo de medicalização do do nome do doador, que mobiliza as mesmas
social. Processo que afeta profundamente, operações simbólicas que a ilegitimidade no
além daqueles aspectos já apontados, as estru- passado ( Tort, 1992). Donde a valorização do
turas simbólicas que regem as identificações filho em si, e do filho biológico em detrimento
dos indivíduos (nomeação, filiação, materni- do filho adotivo, em relação ao objeto do dese-
dade e paternidade, identidade sexual) e que jo. E, da mesma forma, a valorização da mater-
aponta para a emergência de problemas éticos, nidade como destino feminino, corresponden-
políticos e jurídicos decorrentes da necessida- do às representações mais tradicionais do pa-

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SEXUALIDADE E MEDICINA: A REVOLUÇÃO DO SÉCULO XX 883

pel da mulher, que também como vimos, justi- Como sublinha Tort (1992), o desafio à or-
fica o que acaba lhe sendo atribuído no novo ganização simbólica da procriação e da sexua-
modelo de reprodução (monogamia serial, mo- lidade em geral, constitui o principal aspecto
noparentalidade, produção independente). O das estratégias inconscientes mobilizadas por
novo “direito natural” de fundar as famílias mais essas tecnologias. Elas estão em posição de
variadas (inclusive de homossexuais) atribuído captar, por meio da proposta “terapêutica”, o
aos indivíduos, em realidade formula as condi- obscuro objeto do desejo dos sujeitos, toman-
ções exigidas pelas empresas biomédicas para do suas demandas ao pé da letra. O que está
desenvolver a aceitabilidade social de seus em jogo é sempre o mesmo: estrangular a alte-
procedimentos experimentais (como a insemi- ridade sexual com a disputa que lhe é associa-
nação artificial com doador, a doação de óvu- da, e acomodá-la com a questão política da li-
los, o aluguel de útero, entre outros). Não se tra- berdade e da vontade. Uma vez superada a “or-
ta da expressão de desejos individuais contra- gia”, a liberação do sexo terá como efeito deixar
ditórios (eles existem), mas de desígnios de mi- todo mundo em busca de seu “gênero”, de sua
cro poderes no interior de nossas sociedades, identidade genérica e sexual, com cada vez me-
que, propondo suas montagens, exploram es- nos respostas possíveis, considerando-se a cir-
ses desejos (Tort, 1992). Trata-se de fazer apa- culação dos signos e a multiplicidade dos pra-
recer, como emanando da liberdade dos indi- zeres. Trata-se em suma, da transformação das
víduos, as finalidades da experimentação bio- questões da identidade sexuada nas de um co-
médica, na expressão de Corrêa (2001), como mércio de signos, de um jogo irônico da indife-
limites de uma biologia, em realidade sem li- rença sexual. Esses desafios a sexualidade terá
mites. de enfrentar no século XXI.

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SEXUALIDADE E MEDICINA: A REVOLUÇÃO DO SÉCULO XX 885

Debate sobre o artigo de Maria Andréa Loyola ceptivos modernos – torna independentes as
variáveis sexualidade e reprodução, e transfor-
Debate on the paper by Maria Andréa Loyola ma o plural “sexualidades” na forma mais ade-
quada de designar a crescente diversidade de
modelos possíveis. Passamos, assim, de uma
sexualidade compulsivamente associada à
reprodução para uma (muitas) sexualidade(s)
Ana Cristina Santos Entre natureza e (re)construção: emancipada(s) e emancipatória(s), precisamen-
da sexualidade reprodutiva te porque mais dependente(s) da nossa capaci-
Centro de Estudos Sociais, às sexualidades emancipatórias dade criativa do que da nossa herança natural.
Faculdade de Economia, Os reflexos destas transformações traduzem-se
Universidade de Coimbra,
Coimbra, Portugal. O artigo de Maria Andréa Loyola Sexualidade e em nível da identidade pessoal, transforman-
cristina@ces.uc.pt Medicina: A Revolução do Século XX cruza dois do-se, ela própria, num contexto de múltipla
dos mais estimulantes indicadores de transfor- escolha e num projeto reflexivo que consiste
mação social dos dois últimos séculos, assu- numa narrativa sobre nós mesmos, continua-
mindo contornos particularmente interessan- mente reconstruída e cada vez mais emancipa-
tes embora não necessariamente exaustivos. A da relativamente aos desígnios alegadamente
minha resposta ao desafio formulado por Ca- imperativos da natureza. Nesse sentido, as iden-
dernos de Saúde Pública para participar neste tidades sexuais, elemento constitutivo da auto-
debate, foi formulada dentro do quadro teóri- identidade, são ficções construídas mas neces-
co-empírico a que recorro no meu trabalho em sárias, como bem formulou Jeffrey Weeks (1995).
torno das sexualidades – com particular inci- Por tudo isso, gostaria de ver aprofundado o ar-
dência para as questões relacionadas com a gumento da autora quando defende que quan-
orientação sexual (Santos, 2002, 2003; Santos & to mais a sexualidade se autonomiza em rela-
Fontes, 2001) –, sendo desde sempre assumido ção à reprodução, aos gêneros e aos afetos,
o caráter construtivista da minha reflexão. Nes- mais ela se volta em direção à natureza.
se sentido, o presente comentário crítico não A orientação sexual assume-se central na
visa a incidir de modo holista sobre os diversos formação de uma identidade pessoal, face à
aspectos apontados por Loyola, mas principal- pluralização dos contextos de ação, das fontes
mente sobre a problematização proposta em de autoridade e da diversidade de escolhas pos-
torno dos conceitos sexualidade e reprodução. síveis, nas quais o próprio corpo está incluído.
Vivemos num período de globalizações di- A multiplicidade de caminhos alternativos à
versas em que as características do que tem si- norma exige uma redefinição dos valores e prin-
do designado por pós-modernidade se torna- cípios regentes da vida quotidiana. E é neste
ram mais claras e as suas conseqüências se ra- processo de redefinição ideológica que o con-
dicalizaram e difundiram amplamente. A trans- tributo da medicina assume um particular re-
formação da sexualidade num ponto relevante levo na reflexão da autora. Maria Andréa Loyo-
para a promoção da identidade veio afirmar a la levanta algumas das inquietações e perplexi-
crescente importância de áreas até agora pro- dades suscitadas por um recente protagonis-
tegidas pela barreira do privado, tais como o mo da biologia e da medicina na esfera das se-
gênero, o corpo e a orientação sexual. Tais fato- xualidades, resultando numa maior incidência
res representaram alterações na vida quotidia- de pesquisas que, não obstante o seu caráter
na, conduzindo, por exemplo, à emergência de científico, freqüentemente ignoram, a seu ver,
novos laços de segurança, com a destruição dos alguns importantes fatores sociais subjacentes
antigos, baseados na tradição, no parentesco e às escolhas e às transformações aparentemen-
nas relações de sociabilidade local. A confian- te livres e individuais. Entre esses fatores, a au-
ça transformou-se, assim, em algo a concreti- tora destaca o poder de imposição da agenda
zar, cuja construção “significa um processo mú- da biomedicina sobre as escolhas individuais,
tuo de autodesvendamento” (Giddens, 1996:85), fazendo coincidir os direitos sexuais e repro-
no qual a sexualidade constitui um terreno pri- dutivos também reivindicados pelos movimen-
vilegiado de criação e descoberta. Este contex- tos lesbigays com as exigências da experimen-
to transformativo e fluído testemunha a emer- tação biomédica.
gência do que Giddens (1995) designa por se- Assumido pela autora foi o objetivo de en-
xualidade plástica, isto é, a sexualidade con- riquecer o objeto de estudo por meio de novas
vertida em arena de experimentação cujo obje- hipóteses. Parece-me que uma das virtudes da
tivo primordial é a obtenção de prazer. A nova sua reflexão foi a sua proposta de trabalho em
sexualidade emergente – decorrente em gran- torno dos contornos contemporâneos do po-
de medida do aparecimento dos meios contra- der discursivo dos(as) sexólogos(as), revestido

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886 LOYOLA, M. A.

de eficácia justamente porque sustentado pe-


las novas tecnologias de informação, responsá-
veis, num primeiro momento, pela divulgação Sérgio Carrara A “realidade” e o “sexo”
de novas possibilidades no campo da medicina
e, num segundo, pelo desencadeamento do de- Instituto de Medicina Como todo trabalho que busca apontar novas
sejo em experimentar pessoalmente tais avan- Social, Universidade do perspectivas para os grandes temas das ciên-
Estado do Rio de Janeiro,
ços. Interessante seria, seguramente, aplicar tal Rio de Janeiro, Brasil. cias sociais e da saúde, o artigo de Maria An-
hipótese de trabalho ao campo da transsexua- scarrara@uerj.br dréa Loyola é bastante oportuno e bem-vindo.
lidade e do transgenderismo. No entanto, gos- Embora alguns pesquisadores questionem ao
taria de ver mais detalhada a utilização da ho- comparar diferentes sociedades humanas, o
mossexualidade enquanto ilustração da rela- caráter de absoluta novidade de que se reves-
ção de poder desigual entre a medicina e a se- tem certos processos contemporâneos relati-
xualidade, até porque as evidências comprovam vos à sexualidade e à reprodução – “barriga de
que, para uma decisão no sentido de constituir aluguel”, casamento entre pessoas de mesmo
uma unidade familiar – incluindo ou não o ele- sexo, etc. (Heritier, 2000) – é inegável que, do
mento reprodução –, contribui uma panóplia ponto de vista de nossas próprias sociedades,
de fatores que extravasa a influência exercida vivemos ao longo do século XX, notáveis trans-
pelas novas possibilidades do campo da medi- formações nessa área. A autora vê uma verda-
cina. Por outras palavras, a decisão objetiva de deira “revolução” Entre as transformações ana-
constituir família – dentro da variedade de mo- lisadas por Loyola, parecem-me centrais: (a) a
delos familiares possíveis – não mantém uma crescente autonomização das dimensões não-
relação direta de dependência ou exclusivida- procriativa e procriativa do sexo, ou seja, a cres-
de com a oferta biomédica. E, no sentido estri- cente separação entre sexo/prazer e sexo/re-
to da relação entre medicina, novos modelos produção; (b) a mais recente e radical separa-
familiares e sexualidades, a orientação sexual ção entre sexo e reprodução com base no de-
não tem de constituir necessariamente um ele- senvolvimento de novas tecnologias reproduti-
mento de diferenciação. vas e (c) a medicalização crescente do prazer
Resta-me agradecer a Maria Andréa Loyola sexual. A autora critica ainda a tendência dos
a oportunidade que me ofereceu de repensar a estudos contemporâneos sobre o tema, que
temática considerada, bem como o estímulo abordam a sexualidade a partir de uma “inspi-
que este seu trabalho proporciona a quem se ração epidemiológica”, reduzindo-a, segundo
interessa pela pesquisa das sexualidades no afirma, à sua dimensão puramente comporta-
âmbito das ciências sociais. mental. Em contraposição a isso, procura ana-
lisar os “determinantes sociais” da sexualidade,
GIDDENS, A., 1995. Transformações da Intimidade – aspecto que a seus olhos tem permanecido “es-
Sexualidade, Amor e Erotismo nas Sociedades
quecido” por tais estudos. A discussão que gos-
Modernas. Oeiras: Celta.
GIDDENS, A., 1996. As Conseqüências da Moderni-
taria de levantar a partir da leitura do texto diz
dade. Oeiras: Celta. respeito ao modo como a autora tematiza a re-
SANTOS, A. C., 2002. Sexualidades politizadas: Ativis- lação entre a autonomização do sexo/prazer,
mo nas áreas da AIDS e da orientação sexual em de um lado, e o seu controle cada vez maior e
Portugal. Cadernos de Saúde Pública, 18:595-611. mais invasivo da medicina (representada aqui
SANTOS, A. C., 2003. Orientação sexual em Portugal: pelos sexólogos), de outro. Além disso, levanto
Para uma emancipação. In: Reconhecer para Li-
algumas questões relativas ao impacto das no-
bertar: Os Caminhos do Cosmopolitismo Multi-
cultural (B. S. Santos, org.), pp. 335-379, Coleção vas tecnologias reprodutivas nesse processo de
Reinventar a Emancipação Social, Rio de Janeiro: medicalização do prazer.
Editora Record. Apoiando-se amplamente em trabalho de
SANTOS, A. C. & FONTES, F., 2001. O Estado portu- Tabet, a autora afirma que, principalmente de-
guês e os desafios da (homo)sexualidade. Revista vido ao seu aspecto reprodutivo, durante sécu-
Crítica de Ciências Sociais, 59:173-194.
los nossas sociedades regularam a sexualidade,
WEEKS, J., 1995. Invented Moralities – Sexual Values
particularmente a sexualidade feminina, por
in the Age of Uncertainty. Cambridge: Polity Press.
intermédio de todo um aparato institucional e
ideológico centrado no casamento, cuja função
primordial seria a produção de filhos legítimos.
Laço indissolúvel entre papéis sociais comple-
mentares e hierarquicamente ordenados, o ca-
samento tinha sua estabilidade garantida por
uma ordem social totalizante ou holista, de ca-
ráter sagrado, que seria rompida a partir de fi-

Cad. Saúde Pública, Rio de Janeiro, 19(4):875-899, jul-ago, 2003


SEXUALIDADE E MEDICINA: A REVOLUÇÃO DO SÉCULO XX 887

nais do século XVIII. As transformações estru- seram sexólogos, como Havelock Ellis e Mag-
turais e institucionais particulares à emergên- nus Hirchfeld, na Europa, ou José de Albuquer-
cia da sociedade capitalista (principalmente as que e Ernani de Irajá, no Brasil, podem muito
relativas à liberação da mulher enquanto força bem ser considerados trânsfugas da medicina,
de trabalho e a conseqüente mudança na divi- dada a heterogeneidade dos “materiais” com
são sexual do trabalho) e a simultânea difusão os quais trabalhavam e o tipo de atividade que
do individualismo moderno, racionalista e igua- exerciam (Carrara & Russo, 2002). Tão cruciais
litário, transformariam drasticamente as anti- para a autonomização do prazer sexual em re-
gas relações entre os sexos. Entre tais transfor- lação à reprodução, esses discursos múltiplos
mações, vemos que, mesmo a reprodução per- sobre a sexualidade que se colocam além da
manecendo função primordial do casamento, estrita esfera da medicina se multiplicariam e
o que passa a idealmente fundamentar o esta- se difundiriam no âmbito dos movimentos con-
belecimento e a permanência dos laços conju- traculturais dos anos 60. Independentemente
gais é a existência entre os cônjuges do amor- de considerações sobre sua função fisiológica,
paixão e do prazer sexual, seu símbolo quase o prazer sexual passa a ser então valorizado co-
“natural”. Ao que parece, teríamos aí (isso não mo parte de um estilo de vida hedonista e de
se explicita claramente no texto) uma das mais um ideário libertário, que voltaria sua crítica
importantes bases sociológicas para a autono- também à instituição médica. A medicina exer-
mização do prazer em relação à reprodução. cia seu domínio sobre a sexualidade (como con-
Olhando o processo como um todo, parece tinua a fazê-lo), sobretudo, pelo aspecto repro-
pertinente afirmar que, do ponto de vista da dutivo da atividade sexual e, se é verdade que o
medicina, o prazer sexual crescentemente au- recente aparecimento de remédios como o Via-
tonomizado foi ganhando certa importância gra marca um novo interesse da indústria far-
enquanto fenômeno puramente fisiológico ou macêutica pelo prazer e sua potencialização (e
orgânico. Nesse sentido, muitos médicos ao lon- é urgente que a atenção dos pesquisadores se
go do século XIX e, sobretudo, no século XX, volte par esse fenômeno), isso tem causado pro-
passaram a defender a idéia de que, mesmo es- fundo desconforto entre muitos sexólogos de
téril do ponto de vista reprodutivo, o prazer se- orientação “psi”. A produção desses “milagro-
xual (quando em doses moderadas, é claro) ti- sos” “afrodisíacos” pela indústria farmacêutica
nha importantes e benéficos efeitos para o or- moderna revela sem dúvida uma crescente va-
ganismo como um todo, dada a “descarga” do lorização do prazer sexual, tratado agora como
excesso de energia nervosa que implicava (Bul- algo sério por agências que anteriormente o
lough, 1994; Carrara, 1996), inclusive no caso encaravam com suspeita. Enfim, o estatuto do
das mulheres (Rohden, 2001). Essa idéia, po- processo atual de medicalização do prazer me-
rém, nunca foi consensual entre os médicos e a rece, portanto, uma reflexão mais abrangente,
valorização do prazer sexual desvinculado da evitando-se tomar a sexologia como porta-voz
reprodução deu-se em grande medida ao largo da medicina ou como veículo imediato de me-
da medicina, mesmo permanecendo no cam- dicalização. Poderíamos, por exemplo, pensar
po da saúde. Como aponta a autora, a sexolo- a atual medicalização do prazer não apenas co-
gia estrutura sua base epistemológica com ba- mo uma intensificação de um processo presen-
se nessa relativa autonomização e da correlata te desde o século XIX, mas como parte de uma
constituição da idéia de “saúde sexual”. Porém, inflexão mais ampla a que assistimos no cam-
gostaria de destacar que essa disciplina sem- po da saúde como um todo e que tem implica-
pre apresentou fronteiras extremamente poro- do, como no caso das “doenças mentais”, uma
sas, mantendo relação muito complicada com biologização mais completa do humano, com
a medicina. Os sexólogos brasileiros e estran- o conseqüente deslocamento de outros atores
geiros nunca foram bem vistos pela elite médi- até hoje cruciais nessa área, como os psicólo-
ca e, embora muitos deles procurassem funda- gos e psicanalistas (Russo & Henning, 1999).
mentar suas idéias na biologia, é importante Tal processo não possuiria uma forte conexão
lembrar que a emergência da sexologia ocorre simbólica com a valorização da juventude e
em um contexto de notável desbiologização da com as promessas de superação dos limites bio-
sexualidade e não o contrário. Não é à toa que lógicos do corpo que vemos emergir um pouco
profissionais não-médicos de diferentes feitios por toda parte?
(principalmente os psicólogos e psicanalistas) Além disso, creio que se poderia problema-
entraram logo em cena e continuam consti- tizar a relação entre um crescente controle mé-
tuindo no Brasil parcela significativa (se não dico do prazer sexual e as novas tecnologias re-
majoritária) dos que se auto-intitulam sexólo- produtivas. Hoje, como ressalta Loyola, estamos
gos. Mesmo os primeiros médicos que se dis- assistindo à desvinculação espetacular (como

Cad. Saúde Pública, Rio de Janeiro, 19(4):875-899, jul-ago, 2003


888 LOYOLA, M. A.

já disse, para alguns autores trata-se mesmo de


espetáculo, uma vez que esse tipo de desvincu-
lação sempre esteve presente nas sociedades Elisabeth Meloni Sobre a revolução do século XX
humanas) do sexo e da reprodução. A reprodu- Vieira
ção pode se realizar sem qualquer prazer, até O artigo de Loyola traz importante contribuição
mesmo sem qualquer ato sexual. Nesse proces- Faculdade de Medicina ao tema da medicalização ao explorar a ques-
so, a ruptura entre o prazer e a reprodução se de Ribeirão Preto, tão da construção da sexualidade em sua arti-
Universidade de
acentuaria, pois se ao longo do século XX assis- São Paulo, Ribeirão culação com a Medicina. Para a autora a ruptu-
timos a um complicado processo de justifica- Preto, Brasil. ra radical entre o sexo e a reprodução, verifica-
bmeloni@fmrp-usp.br
ção do sexo não-procriativo, agora se busca jus- da no século XX, trouxe condições para novas
tificar, com todos os dilemas éticos envolvidos, formas de relacionamentos entre os sexos no
a procriação não-sexual. Literalmente, a repro- contexto de uma sexualidade horizontalizada,
dução não teria mais nada a ver com o sexo e que veio substituir a sexualidade hierárquica
com o prazer. Mas porque o prazer sexual, as- entre os sexos. Será esta nova sexualidade, que
sim radicalmente autonomizado, deveria ne- floresce no contexto da alta tecnologia médica,
cessariamente cair sob o controle médico? que permitirá as novas relações no âmbito da
Para finalizar, parece-me muito pertinente reprodução, inclusive aquelas de caráter mer-
a posição assumida por Loyola de que se não cantil, transformando o seu significado. Neste
tivesse havido essa autonomização do prazer aspecto o artigo aborda a importante questão
sexual os sexólogos não teriam uma base epis- da naturalização da sexualidade, que se apóia
temológica a partir da qual pudessem falar. Se tanto na construção que a sexologia faz da se-
é possível quantificar e classificar atos sexuais xualidade, quanto realça a contribuição da epi-
é porque existe algo a que chamamos de sexo demiologia nos estudos recentes de sexualida-
ou sexualidade. É verdade também que, sem a de, em particular, após o advento da AIDS.
construção desse objeto, os sociólogos, antro- Gostaria aqui de enfatizar algumas dessas
pólogos, psicólogos também não poderiam fa- questões brilhantemente discutidas pela au-
lar dele. A questão é que enquanto alguns fa- tora.
lam do sexo como entidade natural, outros fa- A mudança que ocorre em relação à sexua-
lam dele sem nunca esquecer de que falam de lidade entre os gêneros, no contexto de uma
um certo lugar e que tal lugar e tal discurso só sexualidade hierárquica, transformou a idéia
se tornaram possíveis por meio dos complexos da medicina do século XIX, de que o orgasmo
processos históricos, sociais e culturais que feminino seria indispensável à reprodução –
ofereceram o sexo uma “realidade” para a nos- provavelmente na analogia do modelo animal
sa reflexão. do estrus (cio) – em um outro entendimento, no
qual o corpo feminino é concebido como opos-
BULLOUGH, V. L., 1994. Science in the Bedroom: A to/contrário ao masculino sendo, portanto, o
History of Sex Research. Nova York: Basic Books.
feminino a imagem espelhar negativa do ho-
CARRARA, S., 1996. Tributo a Vênus: A Luta Contra a
Sífilis no Brasil da Passagem do Século aos Anos
mem. Nesse sentido à sexualidade feminina
40. Rio de Janeiro: Editora Fiocruz. restou o espaço “da sexualidade sem paixão”.
CARRARA, S. & RUSSO, J., 2002. A psicanálise e a se- Esta concepção pode, junto com muitas ou-
xologia no Rio de Janeiro de entre-guerras: Entre tras, ainda estar presente no imaginário social,
a ciência e a auto-ajuda. História, Ciências, Saúde é comum pensar que o homossexual masculi-
– Manguinhos, 9:273-290. no “nasceu com alma de mulher”. Obedecendo
HERITIER, F., 2000. A coxa de Júpiter: Reflexões sobre
a seguinte lógica, se não tem comportamento
os novos modelos de procriação. Estudos Femi-
nistas, 8:98-114. de homem só lhe resta ser mulher, se não é
ROHDEN, F., 2001. Um Ciência da Diferença: Sexo e mulher no corpo, só lhe resta ser na alma. Para
Gênero na Medicina da Mulher. Rio de Janeiro: a autora, este modelo de dois sexos não hierar-
Editora Fiocruz. quizados permitirá a construção de uma se-
RUSSO, J. & HENNING, M. F., 1999. O sujeito da xualidade horizontalizada, a democracia se-
“psiquiatria biológica” e a concepção moderna
xual, a idéia de prazer único, se não igual, equi-
de pessoa. Antropolítica – Revista Contemporâ-
valentes, para homens e mulheres, advogado
nea de Antropologia e Política, 6:39-54.
pelos sexólogos.
Para Giddens (1992), a “democracia sexual”
seria o que o autor chama de sexualidade plás-
tica: desvinculada da reprodução e da morte,
mas que trouxe mudanças profundas e irre-
versíveis, tanto que permitiu a autonomia se-
xual feminina, quanto o florescimento de ou-

Cad. Saúde Pública, Rio de Janeiro, 19(4):875-899, jul-ago, 2003


SEXUALIDADE E MEDICINA: A REVOLUÇÃO DO SÉCULO XX 889

tros estilos de vida sexual, particularmente, da tribuição das ciências humanas para enfrentar
homossexualidade tanto masculina como fe- o desafio do século XXI.
minina.
A construção dessa nova sexualidade femi- GIDDENS, A. A., 1992. Transformação da Intimidade:
Sexualidade, Amor e Erotismo nas Sociedades
nina, que pode desvincular-se da reprodução e
Modernas. 2a Ed. São Paulo: Editora UNESP.
ultrapassar a idéia (e o fato), parafraseando HAWKES, G. A., 1996. Sociology of Sex and Sexuality.
Hawkes (1996), do “sexo como um perigo” para Buckingham: Open University Press.
“o sexo como prazer”, se deu às custas da incor-
poração da contracepção como objeto médico,
de um lado, e do desenvolvimento das novas
tecnologias de reprodução, por outro. Para me-
dicalizar é necessário naturalizar o objeto, pois
este é o caráter da medicina. Esta se apóia no
conhecimento da biologia e disciplinas corre-
latas, que tomam o corpo isolado do contexto
social e seus significados para poder com- Helena Altmann Sexualidade e reprodução:
preendê-lo isolado, enquanto objeto somático, novas configurações biopolíticas
e lhe dar novo sentido para o estabelecimento Pontifícia Universidade
da intervenção. Católica do No artigo Sexualidade e Medicina: A Revolução
Rio de Janeiro,
Interessante destacar que a autora ressalva, Rio de Janeiro, Brasil. do Século XX, Maria Andréa Loyola mostra co-
referindo-se às novas formas de reprodução, helenaalt@uol.com.br mo a sexualidade no século XX sofreu uma in-
que prescindem das relações institucionais tra- terferência crescente da medicina. Aliada a ou-
dicionais como o casamento, que talvez seja ce- tros campos, como a sexologia e a epidemiolo-
do para compreender o sentido e o alcance real gia, a medicina afetou as formas de relaciona-
destas mudanças, pois mesmo transformadas mento, os sistemas de reprodução, nosso mo-
as relações de reprodução não transformaram do de conceber o corpo, entre outros, configu-
as relações entre homens e mulheres. De fato, rando um intenso processo de medicalização
Hawkes (1996:128) chama a atenção para isto do social.
quando reporta-se às mudanças ocorridas na Ao analisar as relações entre sexualidade e
década da liberação sexual: “vivendo e experi- reprodução, a autora chama a atenção para
mentando uma ‘eqüidade’ sexual, as mulheres seus determinantes sociais – contrapondo-se
estavam simultaneamente experienciando as assim a uma perspectiva de análise comporta-
tensões que derivavam de uma condicional li- mental da sexualidade, a qual teria se multipli-
berdade no contexto ainda intacto de domina- cado com o advento da AIDS e cujos efeitos
ção de gênero”. precisam ser analisados. Seu artigo nos mostra
Não menos importante, destaca-se no texto que as normas que comandam as relações en-
a contribuição da epidemiologia para a medi- tre sexualidade e reprodução estão relaciona-
calização. Baseados em uma sociologia que das com as formas de organização social, de di-
adota o modelo naturalista, os estudos quanti- visão sexual do trabalho, com os sistemas de re-
tativos nesta área ainda parecem deixar intoca- presentação e, em particular, com as relações
da a complexidade das idéias e práticas envol- entre os sexos. Em outras palavras, poderia di-
vidas na questão da sexualidade, e como ob- zer que ela nos mostra mecanismos sociais que
serva a autora tendendo “a isolar cada vez mais penetraram nos corpos, nos comportamentos,
a sexualidade de suas outras dimensões”. nas relações sexuais e reprodutivas ao longo do
O texto induz a pensar sobre os efeitos re- século XX.
flexivos dessa medicalização, que entre outras Dialogando com a antropologia, oferece ao
coisas, pretende e valoriza o papel maternal da leitor diversos exemplos que mostram transfor-
mulher em sua forma mais tradicional, criando mações, mas também permanências, nas rela-
uma demanda cada vez maior por tecnologias ções conjugais e nos sistemas de reprodução.
novas e caras. Também nos leva à reflexão so- Desse modo, suas análises trabalham sempre
bre qual espaço restará para a questão política na tensão entre a ruptura e a continuidade, mos-
da diversidade sexual. O que é sempre bom trando que as transformações graduais ocorri-
nessas horas é lembrar que a medicina nem das nas relações conjugais e de reprodução no
sempre cumpre o que promete. A medicaliza- século XX não foram simultâneas, correlatas,
ção em seu projeto de expansão, por meio da nem uniformes.
produção de idéias e criação de práticas, preci- O processo de medicalização do social, do
sa trazer para si cada vez mais a discussão da qual nos fala a autora, está diretamente rela-
ética, e esta seria precisamente a grande con- cionado ao surgimento da medicina moderna.

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890 LOYOLA, M. A.

Ao analisar o nascimento da medicina social, fluência dos campos da medicina e da epide-


Michel Foucault (1979) afirma que com o capi- miologia. Dados estatísticos e demográficos
talismo não se deu uma passagem de uma me- sobre a epidemia de AIDS entre jovens, sobre
dicina coletiva para uma medicina privada, crescimento de casos de gravidez entre adoles-
mas justamente o contrário. Para ele, a medici- centes e sobre comportamento sexual são
na moderna é uma medicina social, funda- apontados como justificativas e fundamentam
mentada em uma certa tecnologia do corpo so- a realização de trabalhos de orientação sexual
cial. O controle da sociedade sobre os indiví- (a expressão “orientação sexual” vem substi-
duos não se opera simplesmente pela cons- tuindo, nos últimos anos, a de “educação se-
ciência ou pela ideologia, mas começa no cor- xual” e tem sido mais freqüentemente utiliza-
po. O corpo é uma realidade biopolítica e a me- da no campo da Educação) nas escolas. Esses
dicina é uma estratégia biopolítica. Curioso trabalhos deixam de ser ações isoladas e disse-
notar que esse termo foi utilizado pela primei- minam-se nas redes de ensino, inclusive inte-
ra vez por Foucault justamente nesta conferên- grando, na forma de tema transversal, os Parâ-
cia, proferida no Instituto de Medicina Social metros Curriculares Nacionais – documentos
da Universidade do Estado do Rio de Janeiro que estabelecem uma referência curricular na-
em 1974 (Michaud, 2000). cional. O controle estatístico e pela informação
Como fala Loyola, o modelo de controle so- da sexualidade, do qual nos fala Loyola, tam-
cial consolidado durante o século XX é deno- bém é operado na escola, geralmente por pro-
minado por Foucault de biopoder, o qual é mar- fessores – ligados, na maioria, à área de biolo-
cado por um forte investimento político na vi- gia – ou, por vezes, por outros especialistas, co-
da, para o qual o controle da sexualidade é fun- mo médicos, sexólogos ou psicólogos.
damental. Utilizando o mesmo autor como re- Partindo da constituição do dispositivo de
ferência, pode-se acrescentar que a importân- sexualidade no século XIX, passando pelas prin-
cia do sexo como foco de disputa política deve- cipais configurações que este recebe no século
se ao fato de ele se encontrar na articulação en- XX como tecnologia política, este artigo já apon-
tre os dois eixos ao longo dos quais se desen- ta os vetores que anunciam o século XXI, com
volveu toda a tecnologia da vida política: o se- seu imaginário calcado nas tecno-ciências, cu-
xo faz parte das disciplinas do corpo – permi- jos imperativos sociais e individuais tendem à
tindo o exercício de micropoderes – e pertence ordem de uma racionalidade instrumental. Des-
à regulação das populações. Assim, a sexuali- se modo, a sexualidade continua a jogar seus
dade foi investida e tornou-se chave da indivi- dados com a história.
dualidade, dando acesso à vida do corpo e à vi-
da da espécie, permitindo o exercício de um FOUCAULT, M., 1979. Microfísica do Poder. Rio de Ja-
neiro: Graal.
biopoder sobre a população.
MICHAUD, Y., 2000. Des modes de subjectivation aux
Destarte, o texto Sexualidade e Medicina: A techniques de soi: Foucault et les identités de
Revolução do Século XX nos mostra transfor- notre temps. Revue Cités, 2:11-39.
mações produzidas pelo exercício do biopoder
nas relações entre sexualidade e reprodução.
Alguns exemplos analisados pela autora são o
rompimento da associação entre sexualidade e
reprodução, ou a autonomização da sexualida-
de, a fragilidade e descontinuidade dos laços
conjugais, em que a noção de tempo longo é
substituída por tempo fugaz. Essas transforma-
ções estão apoiadas em mudanças estruturais, Silvana Inés Medicina y reproducción
institucionais e tecnológicas, para as quais a Weller
medicina é uma peça chave. ¿Por qué la sociedad actual que tan bien nos
Adiciono aqui mais um dado, além dos for- Departamento de describe Loyola, precisa de la intervención de
necidos pela autora, que corrobora sua tese so- Medicina Preventiva la medicina en los diferentes aspectos que per-
e Social, Faculdade de
bre a interferência da medicina e da epidemio- Ciências Médicas, miten la reproducción humana? No es difícil
logia no controle da sexualidade. Trata-se da Universidade Estadual encontrar respuestas vitales a esta pregunta. El
de Campinas, Campinas,
rede escolar como um dos espaços privilegia- mundo de las mujeres se divide entre aquellas
São Paulo, Brasil.
dos para o exercício do biopoder, buscando ex- Centro de Estudios que consiguen acceder a métodos anticoncep-
pandir o impacto populacional no controle da Estado y Sociedad, tivos modernos y seguros y las que no; entre
Buenos Aires, Argentina.
sexualidade de crianças e, principalmente, ado- aquellas que pueden realizar abortos seguros y
sweller@netizen.com.ar
lescentes. O trabalho educacional atualmen- aquellas que no; entre aquellas que pueden
te desenvolvido sobre este tema sofre forte in- contar al momento del parto con todo el auxi-

Cad. Saúde Pública, Rio de Janeiro, 19(4):875-899, jul-ago, 2003


SEXUALIDADE E MEDICINA: A REVOLUÇÃO DO SÉCULO XX 891

lio de la tecnología de avanzada y aquellas que especialmente las relaciones posibles de la me-
no. Así, en muchos países del mundo, el princi- dicina con la producción de conocimiento y
pal problema de salud de las mujeres sigue prácticas en áreas donde el eje es la salud (co-
siendo la falta de acceso a métodos seguros, el mo es el caso de la Salud Reproductiva) y no la
aborto provocado es la principal causa de muer- enfermedad; donde el núcleo del trabajo es la
tes maternas y las complicaciones por aborto prevención (y no la cura de enfermedades);
hechos por no médicos o por médicos en con- donde la superficie de trabajo es un aspecto vi-
diciones sanitarias inadecuadas constituyen la tal y errático (la sexualidad) y no una patología.
segunda causa de egreso hospitalario (primero
son los partos) en los hospitales de grandes Salud reproductiva y medicina
ciudades (Dirección de Estadísticas para la Sa-
lud, 2002; Giffin, 1994). Las mujeres que no ac- Hacia fines del siglo XIX, tal como bien argu-
ceden a los avances del último siglo siguen mu- menta Loyola, la medicina en especial pero
riendo en muchas partes del mundo por algún también la psicología, la sexología y la pedago-
evento vinculado a su reproducción. gía habían adoptado algunos atributos de un
¿Por qué los métodos anticonceptivos se nuevo sacerdocio. Estos profesionales asumie-
volvieron una necesidad social? Creo que esta ron, junto con las iglesias, la función de esta-
respuesta excede al campo de la medicina. He- blecer las normas morales y sociales en torno a
chos sociales son los que transforman un he- la sexualidad (Weeks, 1998). ¿Existe alguna so-
cho “natural” en un problema social que re- ciedad, algún grupo humano, que carezca de
quiere de una respuesta. La medicina ha gana- alguna clase de parámetro sobre el bien y el
do un lugar preponderante en la reproducción mal hacer en lo referente a lo sexual? Estos pa-
humana, en la medida que ha conseguido que rámetros existen, y hay diferentes teorías con
las mujeres que logran acceder a ciertos bene- relación a cómo se instalan y reproducen, así
ficios, no arriesgan sus vidas por mantener re- como, sobre los impactos que ocasionan y las
laciones sexuales, ¡transcurran estas con o sin formas de resistencia que se organizan ante los
orgasmos! mismos. No es posible comprender el papel de
Razonamiento similar podría realizarse pa- control social que ejerce la medicina y las otras
ra analizar el papel de la medicina frente al ciencias del “comportamiento sexual” sólo
problema de la esterilidad. Algunos estudios analizando al “emisor” de los mensajes.
disponibles (Chandra & Stephen, 1998; Larsen, Si bien con dificultad, y para evitar recaer en
2000; Schmidt et al., 1995; Wulff et al., 1997) in- posiciones de relativismo cultural, es posible tal
dican que en las últimas décadas no ha habido vez establecer “ventajas comparativas” de algu-
modificaciones significativas en la incidencia nos modelos de control social sobre la sexuali-
de infertilidad primaria y secundaria (alrede- dad con relación a otros. Hay cuchillos reales
dor del 10% de la población femenina de entre que todavía amputan órganos genitales, hay
15 y 45 años), sin embargo los estudios detec- cuchillos simbólicos que producen frigidez...
tan modificaciones sustanciales en la propor- Estas últimas sociedades “inventaron” también
ción de mujeres y/o parejas que buscan en la el imperativo del orgasmo, el psicoanálisis, en
medicina una respuesta a este problema. Más un intento tal vez, de reparar los daños.
aún, los estudios reseñados indican que son las El punto problemático, a nuestro entender,
mujeres de mayores recursos económicos las es qué tipo de relaciones pueden establecerse
que pueden acceder a los beneficios de la re- entre la medicina y la sexualidad. ¿Puede la
producción asistida, logrando así distanciarse medicina “atender/curar” sin “controlar”? ¿Pue-
una vez más de sus hermanas más pobres. Tam- de la medicina abordar un objeto sin sentir una
bién las mujeres con VIH (¡y con recursos eco- “atracción ontológica fatal” por los aspectos
nómicos!) pueden reproducirse casi sin riesgo anómalos, inesperados, patológicos? Nuestra
de transmitir el virus a sus hijos, gracias a los opinión es que esto no es en principio posible
desarrollos científicos de lo últimos años de las (¡ni necesario!) y por ello queremos invitar a la
ciencias biomédicas y la intervención de la me- reflexión sobre qué papel tendría asignado la
dicina. Queremos enfatizar entonces, que es medicina en el nuevo paradigma de la Salud
preciso considerar en el análisis de la relación Reproductiva, que tiene por ejes no ya la enfer-
entre la medicina y la sociedad que la primera medad, sino la equidad, el género y los dere-
basa parte de su legitimidad social en su capa- chos. El enfoque de la Salud Reproductiva es
cidad de intervenir eficazmente en problemas esencialmente preventivo, en la medida que
(a veces enfermedades) vinculados a la repro- toda la evidencia disponible indica que son las
ducción. Pasemos ahora a considerar la rela- prácticas básicas hechas con recursos adecua-
ción de la medicina con la sexualidad, y más dos, por personal entrenado y en el momento

Cad. Saúde Pública, Rio de Janeiro, 19(4):875-899, jul-ago, 2003


892 LOYOLA, M. A.

oportuno, las más eficaces para atender lo que


en principio, justamente, no son aspectos pa-
tológicos sino aspectos saludables de la vida: la Carlos Eduardo O artigo da Profa. Dra. Maria Andréa Loyola re-
sexualidad y la reproducción. Estellita-Lins presenta uma oportuna e significativa contri-
¿Qué rol tendría que ocupar la medicina en buição para a discussão contemporânea acerca
este que se pretende un nuevo paradigma? Departamento de da sexualidade em suas relações com o campo
¿Cuáles son sus posibilidades, y sus límites, pa- Ensino, Instituto biomédico. A ambição de suscitar novos estu-
Fernandes Figueira,
ra comandar un campo centrado ahora en los Fundação Oswaldo Cruz, dos e a “construção de novas hipóteses” sobre a
derechos y ya no en la enfermedad? Creemos Rio de Janeiro, Brasil. sexualidade no século XXI, revelam-se extrema-
cefestellita@alternex.
que su papel no es ya de “disciplina madre”. El mente pertinentes embora marcadas por difi-
com.br
campo de la Salud Reproductiva es transdisci- culdades intrínsecas ao campo em discussão.
plinario tanto en lo referido a la formulación Com base no texto, devem ser menciona-
de problemas, la producción de conocimiento, dos dois aspectos epistemológicos que compa-
la formulación de políticas públicas e incluso recem na investigação acerca das relações en-
la implementación de acciones tanto preventi- tre sexualidade e medicina. Um concerne à do-
vas como asistenciales. Más aún, la Salud Re- ença e outro à técnica.
productiva es por excelencia un espacio inter- O modo com as tecnologias de reprodução
sectorial, difícil de imaginar sin la participa- assistida compõem uma clínica da infertilida-
ción activa de amplios sectores de la sociedad. de, por meio da proposta de tratamento ou te-
Correr a la medicina de su rol central (y por en- rapêutica da infertilidade, precisa ser detida-
de desmedicalizar la vida sexual y reproducti- mente estudado em suas conseqüências para a
va) será tarea de la sociedad en su conjunto. racionalidade médica. Normal e patológico pa-
¿Y la “salud sexual”?... Oh!... ¿qué será, qué recem redesenhar sua articulação e suas fron-
será?... teiras, a partir do momento em que a infertili-
dade torna-se uma doença que pode ser trata-
CHANDRA, A. & STEPHEN, E. H., 1998. Impaired fe- da, e onde o resultado do tratamento consiste
cunditiy in the United States: 1982-1995. Family
no nascimento de uma criança. Trata-se indu-
Planning Perspectives, 30:156-157.
DIRECCION DE ESTADISTICAS PARA LA SALUD,
bitavelmente de uma inflexão complexa den-
2002. Egresos Según Diagnósticos Más Frecuentes tro do rol de intervenções corporais permitidas
y Residencia Habitual – Hospitales Generales de pela biotecnologia. A cosmetologia, a cirurgia
Agudos – Enero y Marzo del 2002. Buenos Aires: plástica podem constituir outros exemplos de
Dirección General de Sistemas de Informaciòn en intervenções – na imagem corporal – mediados
Salud, Secretaría de Salud, Gobierno de la Ciudad pelo alargamento ou enfraquecimento da no-
de Buenos Aires.
ção de doença a partir de novos recursos do
GIFFIN, K., 1994. Women’s health and the privatiza-
tion of fertility control in Brazil. Social Science biopoder. No caso da reprodução assistida as-
and Medicine, 39:355-360. sim como da sexologia, percebe-se que a se-
LARSEN, U., 2000. Primary and secondary infertility xualidade opera de modo privilegiado. Talvez
in Sub-Saharan Africa. International Journal of seja cabível interrogar a hipótese de Tabet, ci-
Epidemiology, 29:258-291. tada pela autora – de uma dissociação entre o
SCHMIDT, L.; MUNSTER, K. & HELM, P., 1995. Infer-
reprodutivo e não-reprodutivo – em sua capa-
tility and the seeking of infertility treatment in a
cidade de explicar estes deslocamentos.
representative population. British Journal of Ob-
stetrics and Gynaecology, 102:978-984. Outro aspecto em questão consiste na pro-
WEEKS, J., 1998. Sexualidad. México, DF: Paidós. gressiva interseção de vida e tecnologia, que
WULFF, M.; HOGBERG, U. & STENLUND, H., 1997. tende para aproximação e mesmo confusão en-
Infertility in an industrial setting – A population tre ambas. Isso traz à tona uma paisagem bioé-
based study from Northern Sweden. Acta Obste- tica, onde a velha pergunta sobre a técnica no
tricia et Gynecologica Scandinavica, 76:673-679.
sentido da desconfiança e suspeita de um des-
controle perigoso oculto sob toda promessa de
controle, modula-se então sobre a própria vida
manipulada biotecnologicamente. A vida, con-
ceito preciso ou apenas outra figura para cer-
tas concepções de Natureza, traz consigo o ris-
co da hybris, do descontrole e do excesso. Não
somente nas aporias bioéticas da reprodução
assistida esconde-se o rosto do chamado “im-
perativo tecnológico”, mas evidentemente um
otimismo despudorado com a técnica ronda a
sexologia, a epidemiologia e a clínica da AIDS.

Cad. Saúde Pública, Rio de Janeiro, 19(4):875-899, jul-ago, 2003


SEXUALIDADE E MEDICINA: A REVOLUÇÃO DO SÉCULO XX 893

A sexualidade indica certas modalidades de ar- ções complexas nesta estranha aventura que
ticulação entre tecnologia e vida sob a égide da conecta corpo e poder sob o individualismo das
medicina. sociedades contemporâneas.
O advento da epidemiologia clínica na me-
dicina contemporânea também responde pela FOUCAULT, M., 1984. História da Sexualidade 1. Rio
de Janeiro: Graal.
valorização da biotecnologia e por modifica-
ções relevantes no domínio conceitual de doen-
ça e saúde. A sexologia estabelece um trabalho
laborioso e constante a partir das lacunas dei-
xadas pela psicanálise, mas sua condição de
possibilidade reside no domínio de experimen-
tação estocástica que a epidemiologia clínica
pratica no terreno do patológico.
O texto faz opção pela expressão consagra-
da “sexualidade”, implicando o impasse con- Antonio Carlos A medicina e as demandas sociais
cernente ao uso da noção/conceito de sexuali- Egypto
dade, que traz consigo ressonâncias imprevisí- O artigo de Maria Andréa Loyola coloca ques-
veis. O solo freudiano de onde provém o termo, Grupo de Trabalho tões absolutamente pertinentes e atuais, que
derivado das investigações quase taxionômicas e Pesquisa em merecem ser amplamente debatidas, pela im-
Orientação Sexual,
de Kraft-Ebbing, condiciona o debate a uma São Paulo, Brasil. portância que têm. E que comportam diferen-
tensão necessária entre genitalidade e poli- egypto@uol.com.br tes perspectivas. Procurarei aqui expressar mi-
morfia perversa (sexualidade significando en- nha visão sobre o tema, ou melhor, sobre uma
tão, mais do que contato sexual genital, inter- parte do que foi apresentado por ela.
curso, coito, etc., servindo portanto como pala- A vida em sociedade está em constante mu-
vra-valise para indicar tudo aquilo que contor- tação. Valores e normas morais vão se transfor-
nava o padrão procriativo). Mesmo no “impe- mando na mesma medida em que as estruturas
rativo do orgasmo” ou no monismo sexual do sociais o fazem. A sexualidade humana e as es-
padrão-ouro masturbatório (de acordo com truturas familiares acompanham esse movimen-
André Beijin), podemos adivinhar um certo de- to. Na verdade, estão no centro dessa história.
senho do corpo com sua espessura histórica, A família extensa, com os seus agregados,
suas injunções e regulações políticas, sua filia- foi sendo progressivamente substituída pela fa-
ção a regimes de racionalidade ainda excessi- mília nuclear. Pai, mãe e filhos (cada vez em nú-
vamente poderosos para que a análise teórica mero menor), no modelo dominante heteros-
consiga atravessá-los plenamente. Algo para- sexual, é o que está no nosso imaginário hoje. É
doxal encontra-se em vias de explicitação, po- o conceito internalizado que temos de família.
de-se dizer, desde a História da Sexualidade 1 O que se distingue disso é comumente visto co-
(Foucault, 1984), pois verdade e sexo articu- mo desestruturação ou desagregação familiar.
lam-se de modo tal que qualquer discurso que Ocorre que as mudanças, sobretudo a par-
investigue suas relações deva simultaneamen- tir da segunda metade do século XX, adquiri-
te atentar para os impasses – efeitos de verda- ram uma velocidade muito maior, já que as
de enquanto efeitos de subjetivação – incontor- distâncias se encurtaram, a comunicação se dá
náveis em que qualquer discussão sobre subje- de forma instantânea e os seres humanos se
tividade e sexo incorrem. A suposta guinada ajustaram a novas condições de vida e de pro-
foucaultiana, que investiga a subjetivação im- dução, incorporando as novas possibilidades
plícita na sexualidade por meio do destaque tecnológicas e ampliando sua liberdade.
dos enunciados prescritivos, parece responder Tudo isso produziu novas necessidades,
com um recuo às questões de ordem metodo- modificou as relações, o modo de ver e pensar
lógica onde a própria noção de sexualidade se o mundo e naturalmente os desejos, conscien-
situa. tes ou inconscientes.
A pergunta que fica após o exame dos argu- Como em todas as fases da nossa história,
mentos da autora concerne ao fato de que se a há uma parcela significativa de pessoas que
medicina pode exercer novos e mais sutis con- não tem acesso a esse mundo chamado “pós-
troles sobre uma sexualidade desvinculada da moderno”. Não por acaso o presidente Lula co-
reprodução, isso nos motiva a pensar que tal- meçou seu mandato elegendo o combate à fo-
vez a própria medicina esteja em profunda me como a maior prioridade, em pleno século
mutação, que a noção de biopoderes seja real- XXI. A população de baixa renda vive, portan-
mente útil para analisar estas fraturas e des- to, esse processo de forma marginal e centrada
continuidades e que haja modulações e injun- em necessidades de sobrevivência primárias.

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894 LOYOLA, M. A.

Mas a sexualidade e a família também mu- Curriculares Nacionais do Ministério da Edu-


daram aí. As famílias conduzidas só por mu- cação já a incorporaram. O que ela pretende?
lheres, em grande número estão situadas nos Produzir reflexão, promover a prevenção de
extratos sociais empobrecidos. problemas (doenças sexualmente transmissí-
Concretamente, as relações sociais e as rela- veis/AIDS, gravidez indesejada na adolescên-
ções entre os gêneros sofreram grandes transfor- cia), enfatizando o direito ao prazer. E isso faz
mações que demandam novas respostas. É aí, a toda a diferença. O discurso científico tradicio-
meu ver, que se inserem os avanços da medicina. nal fala de um corpo sem desejo, sem sensações
Foi a mulher contemporânea, que saiu em ou sentimentos. Um corpo que não é de nin-
busca do seu espaço público, que fez nascer a guém, onde a criança e o adolescente não se
pílula anticoncepcional. E não a pílula que criou reconhecem. Um organismo, apenas.
essa mulher. Ao adotar um discurso não moralista, nem
A separação entre sexo e reprodução está sexista, não é a terminologia médica que pre-
sendo concretizada pela tecnologia reproduti- valece, mas uma percepção realista das rela-
va e seus impressionantes avanços. Mas ela ções humanas num mundo em mudança. Que
avança para atender a um desejo expresso pela pede uma linguagem mais objetiva e clara, evi-
sociedade, pelos novos homens e mulheres que tando as palavras carregadas de valor. Só isso.
a habitam e pelas novas perspectivas de vida O século XXI certamente trará transforma-
familiar. ções na vida sexual e familiar muito maiores do
As famílias também incluem os filhos ado- que podemos imaginar agora, quando ele ape-
tivos e de outros casamentos. É comum as cri- nas se inicia. A ciência e a tecnologia, a medici-
anças de classe média freqüentarem duas fa- na em especial, encontrarão novas alternativas
mílias. Por exemplo, a da mãe (só ou com o pa- para atender a este mundo em mudança, como
drasto), de segunda a sexta-feira, e a do pai (só tem acontecido até agora. Por outro lado, os
ou com a madrasta), nos fins de semana. Têm, problemas éticos que decorrem de todo esse
assim, quatro genitores. Outras têm apenas processo serão objeto de resolução nas esferas
um, como ocorre na chamada “produção inde- política e legal, constantemente. Este é um
pendente” (ou no assim chamado “abandono processo histórico, sem volta. Não há o que la-
do lar”). “Bebês de proveta” completam a vida mentar.
de muitos casais. Mães convivem com filhos que
foram desenvolvidos no útero de outra mulher.
Existem tantas configurações familiares que
não faz mais sentido usar o conceito de famí-
lia. É preciso torná-lo plural e falar de famílias.
Quando for possível unir os núcleos de dois
espermatozóides ou de dois óvulos, para gerar
um ser, um casal homossexual poderá ter um
filho biológico. Isso atende a uma grande expec- Carmita Helena Convidada a comentar o instigante e bem es-
tativa dessas pessoas, que hoje buscam consti- Najjar Abdo truturado artigo da colega Loyola, flagrei-me,
tuir sua estrutura familiar por meio da adoção de pronto, bastante motivada à leitura e positi-
de crianças, o que a legislação só admite em al- Departamento de vamente surpreendida por seu título.
gumas poucas partes do mundo. Um filho bio- Psiquiatria, Faculdade Título este que se revelou, no entanto, mais
de Medicina,
lógico ajudaria também a instituir tal estrutura Universidade de São abrangente do que o conteúdo do resumo.
familiar na ordem legal? É possível. Ou a tecno- Paulo, São Paulo Brasil. Já à primeira frase do referido resumo, a au-
carmita.abdo@uol.com.br
logia estará disponível quando isso já tiver sido tora explica que o artigo discute aspectos da
conquistado mais amplamente. De todo modo, sexualidade feminina e do processo reproduti-
não é essa tecnologia que vai criar a realidade vo para a construção de um novo modelo de re-
das famílias homossexuais, que nem precisam produção. De fato, este acaba sendo um dos fo-
de filhos (adotados ou biológicos) para existir. cos do texto, mas não é o único. Mesmo porque
Com o sexo dissociado da reprodução, ga- não se poderia falar em Sexualidade, Medicina
nha mais força a sua outra função – a de prover e Século XX, sem que os dois gêneros – o femi-
o prazer, freqüentemente minimizado ou igno- nino e o masculino – fossem simultaneamente
rado em estudos e trabalhos. Não se trata de referendados, tendo em vista serem interde-
instituir a ditadura do orgasmo, via sexologia. pendentes, em todas as épocas e civilizações
Algo tão danoso quanto a repressão tradicio- conhecidas. O todo fez, então, jus ao título.
nal. Mas de reconhecer direitos e educar. Os subtítulos deste texto – Sexualidade e
A orientação sexual nas escolas é uma con- Reprodução, A Sexualidade nas Sociedades Oci-
quista progressiva no Brasil. Os Parâmetros dentais Modernas, É Possível Falar em um Novo

Cad. Saúde Pública, Rio de Janeiro, 19(4):875-899, jul-ago, 2003


SEXUALIDADE E MEDICINA: A REVOLUÇÃO DO SÉCULO XX 895

Sistema de Reprodução?, A Dissolução dos La- trabalhos, esportes, hierarquias eclesiásticas, es-
ços Conjugais Tradicionais, A (Des)Naturaliza- tados-maiores, conselhos administrativos e es-
ção/Indiferenciação da Sexualidade – encadea- tádios. O que se refere à natureza, à beleza, à so-
dos e desenvolvidos de forma elegante, ampla lidariedade, à emotividade é delegado às mu-
e concisa, a um só tempo, confirmam a presen- lheres: criação, ensino, sedução, assistência, lar,
ça, ainda que coadjuvante, da sexualidade mas- jardim, escola, bordel, hospício e hospital. As
culina... um contraponto indispensável para a mulheres, por sua vez, tornaram-se cúmplices
digressão sobre o tema central da pauta. desta segregação homossexual. Nas palavras de
Ao traçar seus objetivos, a autora enfatiza uma estudiosa americana: ‘O machismo é como
basear seu ensaio em estudos disponíveis e em a hemofilia; quem padece da doença são os ho-
dados de pesquisa realizados no Rio de Janeiro, mens, mas quem a transmite são as mulheres’”.
o que realmente se verifica. Tal ocorrência, no Teria sido essa declaração um deslize ou
entanto, acaba por se traduzir numa realidade um “eco” latino, dissonante de seu tempo, rea-
parcial que não pode ser considerada uma ten- cionário em sua retórica?
dência. Nesse sentido e a título de ilustração, Em contrapartida, “o privilégio de ser mu-
lembramos as palavras da polêmica professora lher” tornou-se realidade “legalizada”, também
americana, de arte, (Paglia, 1992:31), a qual – no Brasil, no apagar das luzes do século XX. A
entre tantos outros autores, médicos ou não – cirurgia, chamada de “redesignação” do sexo,
discute diversos aspectos dessa reconhecida passou da clandestinidade para os centros aca-
revolução do século XX: “a natureza – violenta, dêmicos. Coube aos transexuais masculinos e
caótica, imprevisível, incontrolável – fez o ho- femininos expressar a magnitude da busca pe-
mem diferente da mulher e não há como con- la identidade genérica e sexual a que estare-
sertar esta desigualdade por códigos de convi- mos todos submetidos no próximo (atual) sé-
vência social ou moral. A igualdade política pa- culo XXI, como prenuncia a autora, sem – to-
ra as mulheres, ainda que desejável e necessá- davia – fazer menção a esses indivíduos e suas
ria, não irá remediar a distinção entre os sexos, tão precursoras quanto irredutíveis reivindica-
que começa e acaba no corpo”. ções por mudanças radicais, mas genuinamen-
Em âmbito nacional – e, mais especifica- te conciliadoras.
mente, carioca –, estudiosos e pensadores tam-
bém se pronunciaram no campo teórico – con- DE MASI, D., 2000. O Ócio Criativo. Rio de Janeiro:
GMT Editores.
ceitual, sobre as “sexualidades periféricas” (pa-
FREIRE-COSTA, J., 1994. A Ética e o Espelho da Cul-
ra não dizer marginais), tal qual o fizeram os tura. Rio de Janeiro: Rocco.
anglo-saxões, sobre os quais se refere a autora. PAGLIA, C., 1992. Personas Sexuais. São Paulo: Com-
Freire-Costa (1994:131), foi um dos mais enfá- panhia das Letras.
ticos e céticos, ao admitir: “em que importa sa-
ber qual a pretensa singularidade genética de
homens e mulheres que sentem atração sexual e
amorosa por outros do mesmo sexo biológico?
Alguma vez na história, os oprimidos consegui-
ram a benevolência dos opressores, reclamando
igualdade de tratamento humano em nome da
naturalidade de suas características físico-mo-
rais?!” Esse pronunciamento expõe a fragilida- Daniela Riva No artigo Sexualidade e Medicina: A Revolução
de de uma revolução cujo mote seria a mera Knauth do Século XX, Maria Andréa Loyola aponta um
curiosidade (dos pesquisadores) e o resultado dos grandes paradoxos da atualidade no que se
não mais que a confirmação do preconceito, a Departamento de refere à sexualidade e reprodução: ao mesmo
mesmice e a inércia das populações. Medicina Social, tempo em que as novas tecnologias médicas
Universidade Federal
Tem sido o autopreconceito feminino (se é do Rio Grande do Sul, permitem romper com o modelo tradicional de
que ele existe...gostaria de ler Loyola sobre is- Porto Alegre, Brasil. família e seus equivalentes papeis de gênero
knauth@portoweb.com.br
to) uma força que ajuda a estrangular a alteri- (dissociando sexo de reprodução por meio dos
dade sexual e a acomoda com a questão políti- métodos contraceptivos e tecnologias reprodu-
ca da liberdade e da vontade? Os que assim tivas), subordinam a sexualidade, os “direitos”
pensam estariam mal-informados, desatuali- e desejos individuais à nova ordem médica. As-
zados ou alienados...? sim, aquilo que aparentemente representa um
Sobre essa temática, Domenico de Masi avanço no sentido do reconhecimento da di-
(2000:146-147) escreveu: “o que se atém ao ru- versidade sexual e familiar e, portanto, do ca-
de, ao prático, ao econômico, ao competitivo e ráter eminentemente social destas, é, na ver-
ao racional é reservado aos homens: guerras, dade, um fortalecimento da perspectiva e do

Cad. Saúde Pública, Rio de Janeiro, 19(4):875-899, jul-ago, 2003


896 LOYOLA, M. A.

controle biomédico sobre a sexualidade e a re- com base no laudo médico que atesta a mu-
produção. dança da genitália (Zambrano, 2003). A identi-
Alguns trabalhos sobre o tema, como os de dade de gênero, embora seja um fator funda-
Novaes & Salem (1995) e Strathern (1995), de- mental para o diagnóstico da transsexualidade,
monstram que a “autorização” tanto jurídica permanece insuficiente para a identificação do
quanto médica para o uso das novas tecnolo- sujeito.
gias ainda seguem os padrões tradicionais de No que concerne os novos medicamentos
gênero. Assim, a possibilidade aberta por estas para os problemas de “disfunção erétil”, como
tecnologias de prescindir do masculino e mes- o Viagra, várias questões são colocadas. A pri-
mo da sexualidade para a procriação (como no meira é, novamente, a solução de um proble-
caso das mulheres virgens que desejam engra- ma sexual através de uma pílula. A sexualidade
vidar), continua a ser percebida pela esfera aparece restrita ao funcionamento dos órgãos
médica e jurídica como uma ameaça à ordem sexuais e, portanto, como um problema indivi-
social. E, apesar de suas infinitas possibilida- dual e não relacional. Outra questão colocada
des, as novas tecnologias médicas continuam a por estes medicamentos é a eleição da ativida-
serviço da ordem social tradicional e do capi- de sexual como a fonte da felicidade e da ju-
tal. Não podemos esquecer que ao propagar o ventude. E aqui, como no caso da reprodução
discurso de que a reprodução não está mais assistida, o medicamento representa a vitória
presa aos ditames da biologia – como por exem- da ciência e da medicina contra os efeitos da
plo, a idade para a primeira gravidez – a medi- natureza. O idoso, além de ter de permanecer
cina, ao mesmo tempo que estimula as mulhe- jovem (por meio da prática de atividades físi-
res a investirem em sua carreira profissional, cas), deve manter-se sexualmente ativo. É inte-
vende seus “produtos”, visto que as chances ressante notar que embora este discurso tenha
destas mulheres necessitarem de técnicas mé- sido originalmente voltado ao público mascu-
dicas para engravidar aumentam também com lino, já aparece uma nova versão, inclusive de
a idade. É dessa forma que muitas mulheres medicamentos, dirigida às mulheres. E embora
que optam por retardar seu projeto reproduti- vários indicadores, como os índices de consu-
vo, pensando em liberar-se das pressões so- mo, já indiquem o sucesso destes medicamen-
ciais e biológicas, acabam “presas” à medicina, tos junto ao público, pouco sabemos sobre suas
com um custo econômico e emocional bastan- formas de apropriação e significação.
te elevado. O que nos resta questionar é em que medi-
É interessante notar que embora as técni- da todas essas possibilidades geradas pelos
cas de reprodução assistidas tenham interfe- avanços na área médica são capazes de influen-
rência sobre a esfera da sexualidade, outras ciar e determinar o modelo de sexualidade de
tecnologias médicas disponibilizadas nos últi- cada sociedade. Pensando no caso da socieda-
mos anos, não mencionadas no artigo, visaram de brasileira, esta discussão parece restringir-
diretamente este domínio. Este é o caso, por se aos segmentos médios e altos. Não apenas
exemplo, das cirurgias de mudança de sexo e, porque o acesso a essas tecnologias é limitado
recentemente, do Viagra e seus equivalentes a esses grupos, mas sobretudo porque nos seg-
(inclusive as novas versões destinadas às mu- mentos populares o modelo hierárquico ou
lheres). Em ambos os casos, a solução para os tradicional da sexualidade é ainda aquele que
problemas de sexualidade e mesmo de gênero prevalece. E, se fenômenos como a monopa-
é dada por meio de uma intervenção sobre o rentalidade, separações, famílias chefiadas por
biológico, reforçando o argumento da autora. mulheres etc., são bastante freqüentes, o mo-
No caso das cirurgias de mudança de sexo – delo de família nuclear tradicional ainda per-
que talvez aponte para a busca do “gênero” manece como o ideal a ser buscado. Nesse sen-
destacada no texto como um dos desafios da tido, seria ainda possível falar nos termos de
sexualidade para este século – é curioso cons- uma “revolução do século XX”?
tatar que apesar do transexualismo ser consi-
derado um “distúrbio de gênero”, a única solu- NOVAES, S. & SALEM, T., 1995. Recontextualizando o
embrião. Estudos Feministas, 3:65-88.
ção proposta e aceita é a reversão do biológico.
STRATHERN, M., 1995. Necessidade de pais, necessi-
Ou seja, a verdade sobre o gênero continua a dade de mães. Estudos Feministas, 3:303-329.
ser o sexo, que no caso dos transexuais deve ser ZAMBRANO, E., 2003. Trocando os Documentos: Um
corrigido. Assim, a mudança do nome nos do- Estudo Antropológico sobre a Cirurgia de Troca de
cumentos de identificação (carteira de identi- Sexo. Dissertação de Mestrado, Porto Alegre: Pro-
dade e passaporte) – elemento que poderia so- grama de Pós-Graduação em Antropologia So-
lucionar parte dos constrangimentos aos quais cial, Universidade Federal do Rio Grande do Sul.
os transexuais são submetidos – só é possível

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SEXUALIDADE E MEDICINA: A REVOLUÇÃO DO SÉCULO XX 897

A autora responde mentarista, e de modelos mais variados para


The author replys atingi-lo (o que não quer dizer que eles nunca
existiram). Aliás, seria interessante mapear es-
sas diferentes formas de sexualidade que justi-
ficam o uso plural que alguns pesquisadores
vêm fazendo do termo – sexualidades. Isso po-
deria nos ajudar a pensar o próprio conceito de
sexualidade ou seja, a esclarecer a que estamos
nos referindo quando usamos essa palavra:
formas diferentes de relação entre os sexos,
Maria Andréa Antes de mais nada, quero agradecer aos edi- orientações sexuais distintas, técnicas diferen-
Loyola tores de Cadernos de Saúde Publica pela opor- tes de obtenção do prazer, freqüências distin-
tunidade que me ofereceram ao colocar este tas ou intensidades variadas das relações se-
artigo em debate. É gratificante vê-lo discutido xuais, identidades de gênero, etc.
por pessoas altamente qualificadas, cujos co- Me parece igualmente pertinente a obser-
mentários enriquecem meu texto e contribuem vação de Santos de que a “orientação sexual
para fortalecer a idéia de um olhar mais amplo não tem de constituir necessariamente um ele-
sobre a sexualidade na sociedade em que vive- mento de diferenciação no sentido estrito da re-
mos. Nesse sentido, considero o objetivo de lação entre medicina, novos modelos familiares
meu trabalho em grande parte atingido. Os co- e sexualidades”. Mas acho prudente acrescen-
mentários falam por si próprios e por isso vou tar que entre os médicos e seus clientes homo
me limitar a esclarecer algumas dúvidas levan- e heterossexuais essa diferenciação existe: nem
tadas e a enfatizar contribuições que me pare- sempre o médico está disposto a apoiar o sur-
ceram especialmente importantes para am- gimento de famílias formadas em torno de “se-
pliar minha reflexão. xualidades não tradicionais”.
Inicialmente, lembraria que a busca de pra- A Sérgio Carrara devo esclarecer que se dei-
zer por intermédio do sexo e uma sexualidade xei a impressão de que coloco a sexologia e a
desvinculada da reprodução (ainda que limite- medicina no mesmo nível, trata-se de uma fal-
mos seu conceito a aquele de pulsão sexual) sa impressão. Me parece, ao contrario, que é o
são tão antigas quanto a existência do homem próprio comentarista que toma “a sexologia co-
e da mulher. A associação e dissociação entre mo porta-voz da medicina ou como veículo
essas duas dimensões da atividade humana são imediato da medicalização”. Já em 1982, Béjin
de fato uma construção social, mas tal consta- intitula um dos artigos em que me apóio para
tação não explica nem como nem porque elas discutir o papel dos sexólogos – Crespúsculo
ocorrem. A construção social é um processo dos Psicanalistas, Manhã dos Sexólogos – para
permanente e inerente às sociedades humanas mostrar, menos o esvaziamento dessa área pe-
e notadamente às sociedades que perpetuam los psicanalistas em proveito dos médicos (que
suas criações por meio da escrita. O construti- dela nunca se afastaram e aos quais vieram se
vismo por si só não constitui uma garantia con- juntar outros profissionais não estritamente
tra o essencialismo, e, muitas vezes, serve-lhe médicos), mas para enfatizar a criação de um
de disfarce; sobretudo quando associado ao in- novo discurso sobre a sexualidade, cujo mode-
dividualismo e ao subjetivismo metodológico. lo não é mais o da psicanálise. Carrara tem ra-
Ele só tem sentido quando dotado de algum zão quando aponta o lugar subalterno que a
valor heurístico, ou seja, quando contribui pa- sexologia ocupa na hierarquia médica (como
ra esclarecer os fatos, processos, contextos que os psicanalistas não médicos no campo da psi-
justificam os conteúdos e significados das cons- canálise). Mas isto não invalida o fato de que é
truções que pretendemos explicar ou deseja- a medicina, e não outra disciplina qualquer,
mos entender. que legitima o discurso dos sexólogos. Carrara
Assim, acredito que ao contrário do que fez uma leitura absolutamente correta de meu
propõe Ana Cristina Santos, apoiando-se em texto quando afirma que “poderíamos (...) pen-
Giddens, a sexualidade humana historicamen- sar a atual medicalização do prazer (...) como
te dependeu muito mais da criatividade do que uma intensificação de um processo presente
de nossa herança natural; e não acredito que desde o século XIX, mas como parte de uma in-
ela seja atualmente mais “emancipada e eman- flexão mais ampla a que assistimos no campo
cipatória” do que foi no passado. O que me pa- da saúde como um todo e que tem implicado,
rece novo é a aceitação social (ou legitimação) como no caso das doenças mentais, uma biolo-
de uma sexualidade voltada exclusivamente gização mais completa do humano”, e pergun-
para o prazer, como lembra muito bem a co- tando-se se “tal processo não possuiria uma

Cad. Saúde Pública, Rio de Janeiro, 19(4):875-899, jul-ago, 2003


898 LOYOLA, M. A.

forte conexão simbólica com a valorização da ção e controle estatístico pela informação da
juventude e com as promessas de superação dos sexualidade: a escola. “Esse controle é operado,
limites do corpo que vemos emergir por toda geralmente, por professores – ligados, na maio-
parte?” Poderíamos nos perguntar também que ria das vezes, à área da biologia – ou por vezes,
disciplinas contribuíram para construir essa por outros especialistas, como médicos, sexólo-
conexão ? E, a quem cabe em última instância gos, ou psicólogos”... “O trabalho educacional
respondê-la ? Ainda que concorde com a opor- atualmente desenvolvido sobre este tema sofre
tuna observação de Elizabeth Meloni Vieira, de forte influência dos campos da medicina e da
que é sempre bom lembrar que a medicina epidemiologia. Dados estatísticos e demográfi-
nem sempre cumpre o que promete, não posso cos sobre a epidemia de AIDS entre jovens, sobre
deixar de lembrar também que, até o presente crescimento de casos de gravidez entre adoles-
momento, somente a medicina por meio de centes e sobre comportamento sexual, são apon-
tratamentos legitimados por ela (cirurgia plás- tados como justificativas e fundamentam a rea-
tica, medicamentos antienvelhecimento, in- lização de trabalhos de orientação sexual” nas
dústria cosmética e de modelagem do corpo, escolas (expressão que vem substituindo nos
como nutrição e musculação, etc.), ou crenças últimos anos a de educação sexual.
religiosas e esotéricas, podem responder a es- Caberia acrescentar ao elenco de atores “dis-
sas expectativas, muitas vezes de forma nefas- ciplinares” da sexualidade de caráter institu-
ta, como em alguns casos de prolongamento cional, para manter a expressão de Foucault,
da vida. além da mídia, por meio da qual os sexólogos
Por fim, Carrara indaga porque o prazer se- atuam há bastante tempo (Loyola, 1982), as Or-
xual assim radicalmente autonomizado (da re- ganizações Não Governamentais (ONGs) cujas
produção) deveria necessariamente cair sob atividades giram em torno das sexualidades,
controle médico. Esta questão ainda que perti- dos sexos e dos gêneros: saúde reprodutiva, di-
nente só tem sentido quando se estabelece uma reitos sexuais, educação sexual, sexualidade do
relação direta entre ator e discurso disciplinar. adolescente, orientação sexual, sexualidade na
Felizmente, algum ou muito prazer estará sem- terceira idade que de uma forma ou de outra,
pre fora de controle. Mas no que diz respeito à mesmo quando têm como objetivo explícito
norma (leia-se estímulo) não necessariamente contraporem-se ao discurso médico e/ou epi-
são os médicos que exercem esse controle. demiológico acabam por reforçá-lo.
Além deles próprios, uma multiplicidade de É o que nos faz ver Silvana Inês Weller, em
atores – sexólogos, psicanalistas, psicólogos, seus comentários quando focaliza o tema da
epidemiólogos, cientistas sociais, assistentes “saúde da mulher”. Ela chama a atenção tam-
sociais, pedagogos, etc. – vêm se encarregando bém para um pressuposto fundamental do
dessa tarefa. Mas ainda hoje, é a medicina apoia- processo da medicalização que é importante
da na matemática, e cada vez mais, no direito enfatizar: sua “capacidade de intervir eficaz-
(como nos casos dos ditos direitos e abusos se- mente nos problemas (às vezes enfermidades)
xuais) que oferece o discurso mais eficaz para vinculados à reprodução”. Reprodução da vida
esse controle; ou seja, o argumento “cientifica- mas também da sociedade, uma vez que ela
mente” incontornável da “natureza” reforçado intervém de forma eficaz também politica-
pelo da “repetição” e da “jurisprudência”. mente, como quando exclui ou inclui determi-
Mas quem melhor responde a essa questão nadas mulheres do acesso à saúde. Weller su-
é o próprio Foucault, como enfatiza Helena gere, ainda, embora não explicitamente, que a
Altman em seu comentário: “a medicina mo- eficacidade do controle médico sobre a sexua-
derna é uma medicina social, fundamentada lidade pode ser maior no caso da medicina
em uma certa tecnologia do corpo social (...) A preventiva do que da curativa, o que me pare-
importância do sexo como foco de disputa polí- ce absolutamente correto. Esta relação entre
tica deve-se ao fato de ele se encontrar na arti- controle da sexualidade e medicina preventiva
culação entre os dois eixos de orientação do bio- e curativa é problematizada também por Car-
poder que se desenvolve a partir do século XIX: los Eduardo Estellita Lins, que se interroga so-
o investimento político na vida e na qualidade bre a relação entre o uso do conceito/noção da
de vida das populações. Assim, a sexualidade foi sexualidade, controle da sexualidade pela me-
investida e tornou-se chave da individualidade, dicina e mutações que vêm operando no seio
dando acesso à vida do corpo e à vida da espé- da própria medicina. O desenvolvimento e
cie, permitindo o exercício de um biopoder so- aprofundamento dessa relação seria de gran-
bre a população, a sociedade e a reprodução”. de utilidade para os estudos sobre medicaliza-
Altman chama a atenção para um ator mui- ção em geral e sobre medicalização da sexuali-
to importante nesse processo de medicaliza- dade em particular.

Cad. Saúde Pública, Rio de Janeiro, 19(4):875-899, jul-ago, 2003


SEXUALIDADE E MEDICINA: A REVOLUÇÃO DO SÉCULO XX 899

Antônio Carlos Egypto chama a atenção pa- a ser superado) se coletivamente, a observação
ra um problema crescente da vida moderna, ou de Paglia é correta, individualmente isso é pos-
seja, para as mutações que ocorrem no seio da sível, como ilustram as cirurgias de mudança
própria família: “as famílias incluem os filhos ou de redesignação do sexo apontadas pela
adotivos e de outros casamentos; é comum as própria comentarista. Essas cirurgias reivindi-
crianças de classe média freqüentarem duas fa- cadas pelos transexuais masculinos e femini-
mílias e terem assim 4 genitores; outros têm nos levam os indivíduos a fazer coincidir ou a
apenas 1, como na reprodução independente adaptar uma identidade sexual, ou melhor, uma
(...); mães convivem com filhos que foram pro- forma sexual à uma identidade genérica, de gê-
duzidos no útero de outra mulher, etc. Existem nero, como bem explicita Daniela Knauth que
tantas configurações familiares que não faz também chama a atenção para este ponto. Es-
mais sentido usar o conceito de família. É preci- tamos lidando com um problema de gênero, de
so torná-lo plural e falar de famílias”. Resta sa- ordem eminentemente cultural mas que só po-
ber se estamos lidando de fato com famílias di- de ser corrigido por uma intervenção biológica
ferentes e não apenas com formas diferentes no sexo (genitais e hormônios), e que parado-
de constituir o mesmo tipo de família, isto é, xalmente contraria ou põe em xeque a própria
com famílias que não obstante a presença/au- definição médica de sexualidade, explicada pe-
sência de um ou mais de um de seus membros la combinação de cromossomas da qual os atri-
tradicionais, seguem ou mantêm entre si, um butos de gênero são “naturalmente” derivados
mesmo modelo de relação. (Corrêa, 1998).
A Carmita H. Najar Abdo devo dizer que não Por fim, um outro aspecto importante so-
entendo porque o fato de meu texto basear-se bre a medicalização da sexualidade, destacado
em pesquisas realizadas no Rio (mas não ape- por Knauth diz respeito ao uso do Viagra (e
nas aí) constitui, a priori, uma limitação. Se- equivalentes) destinados a prolongar a vitali-
gundo ela, “tal ocorrência, no entanto, acaba dade sexual (e, portanto, a juventude de ho-
por se traduzir em uma realidade parcial que mens e mulheres). Para ela, o uso do Viagra,
não pode ser considerada como uma tendên- além de ser mais uma das inúmeras soluções
cia.” E, continua: “neste sentido e a título de medicamentosas ou farmacológicas aos distúr-
ilustração lembramos as palavras da polêmica bios sexuais de origem orgânica (no caso dos
professora americana de arte, C. Paglia (1992), idosos nem poderíamos falar de distúrbios) faz
a qual entre tantos autores, médicos ou não – com que a sexualidade apareça restrita ao fun-
discute diversos aspectos dessa reconhecida re- cionamento dos órgãos sexuais e, portanto, co-
volução do século XX: ‘a natureza – violenta, mo um problema individual e não relacional.
caótica, imprevisível, incontornável – faz o ho- Ou também, podemos acrescentar, como um
mem diferente da mulher e não há como con- problema estritamente biológico, químico ou
sertar essa desigualdade por códigos de convi- mecânico e não pulsional; como um desejo
vência social ou moral. A igualdade política pa- frio, diria Tort (1992), ou como um problema
ra as mulheres, ainda que desejável e necessá- derivado de uma situação em que a máquina
ria, não irá remediar a distinção entre os sexos, substitui a fantasia; ou melhor, em que à ma-
que começa e acaba no corpo”. quina humana engendrada pelos biólogos se
Apesar de ser necessário saber se a busca substitui ao desejo fantasmático dos psicana-
de igualdade política para as mulheres tem co- listas. Em suma, e para encerrar, estamos lidan-
mo objetivo remediar essa diferença, (coisas do com uma nova forma de fantasia sobre o se-
que não me parecem necessariamente ligadas, xo ou com o fim de nossas fantasias sexuais?
nem como uma doença, uma falta, um defeito Ou talvez quem sabe com o fim de nossas fan-
ou um mau funcionamento do corpo feminino tasias sexuais sobre a sexualidade?

Referências

BÉJIN, A., 1982a. Crépuscule des psychanalystes, ma- LOYOLA, M. A., 1982. Estudo da Atuação das Institui-
tin des sexologues. In: Sexualités Occidentales (P. ções Sociais no Processo de Reprodução Humano.
Ariès & A. Béjin, ed.), pp. 159-177, Paris: Seuil. São Paulo: Centro Brasileiro de Análise e Planeja-
CORRÊA, M. V., 1998. Sexo, sexualidade e diferença mento.
sexual no discurso médico. In: A Sexualidade nas TORT, M., 1992. Le Désir Froid – Procréation Artifi-
Ciências Humanas (M. A. Loyola, org.), pp. 69-91, cielle et Crise des Repêres Symboliques. Paris: La
Rio de Janeiro: Eduerj. Découverte.

Cad. Saúde Pública, Rio de Janeiro, 19(4):875-899, jul-ago, 2003