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12/02/2011 -

Egito: Ocidente perde seu tirano favorito


Florian Gathmann, Ulrike Putz e Severin Weiland

No final, a recusa dos manifestantes pró-democracia em ceder selou seu destino. As pessoas nas
ruas do Egito insistiram na saída de Mubarak. Mas o Ocidente ficou ao lado do líder quase até o
final, apesar do déspota ter transformado seu país em um Estado policial e saqueado sua economia.
Eram exatamente 18h no Cairo quando a decisão foi anunciada. Em uma breve declaração, o vice-
presidente do Egito, Omar Suleiman, anunciou que o presidente Hosni Mubarak, devido à “situação
difícil” no país, estava deixando o cargo. O poder, disse Suleiman, inicialmente seria transferido ao
exército egípcio.
A renúncia é um triunfo para a oposição. Semanas de crescentes manifestações aumentaram
continuamente a pressão sobre Mubarak. O presidente se dirigiu três vezes à população. Nas três
vezes ele disse que não renunciaria.
Mubarak, 82 anos, governou seu país por três décadas inteiras, mas, no final, até mesmo ele
percebeu que não poderia resistir aos protestos em massa que sacudiram o Egito nos últimos 18
dias. Os manifestantes simplesmente se recusavam a desistir. E até mesmo aqueles que por muito
tempo permaneceram do lado de Mubarak –o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama; os
líderes por toda a Europa– começaram a abandoná-lo. Era hora, eles disseram, do líder do Egito
permitir um novo começo.
Centenas de milhares de manifestantes vibraram diante do anúncio da noite de sexta-feira na Praça
Tahrir, o epicentro do movimento pró-democracia do Egito, no centro do Cairo. Após o discurso de
Mubarak na noite de quinta-feira, no qual disse que permaneceria no cargo até setembro, muitos
quase perderam a fé de que poderiam conseguir o cumprimento de sua principal exigência.
Mubarak, eles diziam desde o início, tinha que partir.
Por 30 anos, os parceiros de Mubarak no Ocidente o apoiaram enquanto ele governava o Egito com
mão de ferro. Chamado de “vaca sorridente” antes de sua ascensão ao poder –um apelido que
recebeu pelo sorriso que costumava exibir quando permanecia atrás do ex-presidente egípcio Anwar
al Sadat– Mubarak se tornou rapidamente um líder poderoso após o assassinato de seu antecessor
em outubro de 1981. Ele se transformou em um parceiro confiável do Ocidente –e governou com
força o seu próprio país.
Seu retrato estava pendurado em todos os gabinetes e repartições públicas do país; ele era
zelosamente elogiado em cada discurso. Os jovens egípcios, mais da metade da população, nunca
conheceram outro líder fora Mubarak. De fato, para eles o presidente passou a personificar tudo o
que estava errado em seu país: poucas oportunidades econômicas, pouca liberdade e nenhum direito
de expressar críticas.
Uma apólice de seguro para o Ocidente
Mas Mubarak era prezado no Ocidente. Ele nunca cedeu na manutenção de seu acordo de paz com
Israel e exercia um grande papel no Oriente Médio. Sua influência abrangente no mundo árabe
também o tornava indispensável. Presidentes americanos, chefes de Estado franceses, primeiros-
ministros britânicos –todos mantinham um relacionamento estreito com o presidente egípcio.
Ele também era um convidado bem-vindo na Alemanha e se encontrou com quase todos os políticos
mais importantes de Berlim. De fato, a Alemanha foi até mesmo citada como possível local de
exílio para Mubarak, antes de colocar um fim a essa especulação.
Quando o então ministro das Relações Exteriores alemão, Hans-Dietrich Genscher, visitou o Cairo
em 1982, Mubarak elogiou o político de modo extravagante, “em nome de Alá, o Misericordioso”,
como “meu querido irmão”. Quando, após o encontro, Genscher elogiou a abertura de seu par, o
líder egípcio respondeu de modo lisonjeiro que essas coisas eram comuns entre irmãos.
A família Mubarak desfrutava de alta estima na Alemanha. Em 2004, a Universidade de Stuttgart
concedeu a “cidadania honorária” da universidade à esposa do presidente, Suzanne Mubarak, por
seu compromisso social e sua dedicação aos direitos das crianças e mulheres. Quando o presidente
egípcio foi tratado de uma hérnia de disco em um hospital de Munique naquele ano, ele recebeu a
visita de vários políticos proeminentes, incluindo o governador da Baviera, Edmund Stoiber, o
ministro das Relações Exteriores, Joschka Fischer, e o chanceler Gerhard Schröder. Schröder
justificou sua visita dizendo que, como um dos políticos mais experientes na região, Mubarak era
“um conselheiro particularmente importante”.
O apreço pela habilidade diplomática de Mubarak permaneceu alto até recentemente. Em março de
2010, ele foi recebido pela chanceler Angela Merkel em Berlim, antes de passar por uma operação
de vesícula em Heidelberg. Todavia, o governo alemão continuou a tratar do assunto dos direitos
humanos em suas conversações com Mubarak. Por exemplo, o ministro das Relações Exteriores,
Guido Westerwelle, disse que tratou do assunto durante sua visita ao Cairo em 2010.
Mas nunca foi além de um diálogo cauteloso, e Berlim nunca fez exigências genuínas de reforma.
Em vez disso, Mubarak era visto como um baluarte na luta contra o Islã radical. O governo do
presidente dos Estados Unidos, George W. Bush, também considerava o regime linha-dura do Egito
útil na luta contra os suspeitos de terrorismo e aqueles que os apoiavam. O exemplo mais
espetacular dessa cooperação foi o caso do clérigo Abu Omar, que foi sequestrado pela CIA em um
lugar público na Itália antes de supostamente ter sido torturado no Egito. A descrição por Abu Omar
de sua detenção no Egito forneceu um vislumbre dos horrores que podem ser encontrados nas
masmorras do regime.
Como Mubarak se transformou em um autocrata
No Egito, Mubarak há muito é considerado um tirano. O país estava sob perpétuo estado de
emergência. Mubarak manteve seu controle do poder usando leis antiterror e eleições que eram
obviamente manipuladas. Ele transformou seu país em um Estado policial. Mais de 1 milhão de
informantes, agentes e policiais supostamente mantinham a população de mais de 80 milhões sob
vigilância. A oposição era mantida pequena, os órgãos de imprensa que criticavam o governo
enfrentavam dificuldades. Os dissidentes políticos iam parar em prisões que eram notórias pela
tortura e muitas pessoas simplesmente desapareciam sem deixar vestígio.
As tentativas de assassinato às quais Mubarak sobreviveu ao longo dos anos mostraram o quanto o
déspota era odiado. O mais próximo que ele chegou da morte foi em 1995, durante uma visita à
capital etíope, Adis Abeba. Mubarak estava a caminho de um encontro de cúpula da Organização da
Unidade Africana quando seu comboio foi atacado por radicais islâmicos egípcios. Foi apenas
graças à blindagem de seu carro de fabricação alemã que o presidente sobreviveu.
Mubarak resistiu à pressão internacional para que desse maior liberdade ao seu povo. Pressionado
por Washington, ele tolerou a presença de outros candidatos na eleição presidencial de 2005. Mas o
regime fez pouco esforço para tornar a votação democrática. Devido à óbvia manipulação, o
candidato de oposição Aiman Nur só conseguiu obter 7% dos votos. A candidatura de Nur também
lhe custou caro pessoalmente. Logo após a eleição, ele foi sentenciado a cinco anos de prisão por
acusações enganosas.
Mas foi o declínio econômico do Egito que alimentou a maior fúria. Nos anos 70, a economia do
país ainda podia ser comparada a de países como a Coreia do Sul. Mas quando os países asiáticos
iniciaram sua ascensão, o Egito não conseguiu acompanhar.
O Egito de Mubarak também fracassou economicamente
O fracasso da economia planejada socialista adotada pelo Egito, assim como muitos outros países
árabes, foi um dos motivos, é claro. Mas o sistema de Mubarak também provou ser um terreno fértil
para a corrupção e cleptocracia. Uma reportagem do jornal alemão “Die Tageszeitung” lembra de
uma piada que os egípcios gostam de contar. O filho de Mubarak, Alaa, é convidado a visitar uma
concessionária da Mercedes no Cairo. “Por apenas 2 euros, o senhor pode escolher um sedã de luxo,
sua excelência”, diz o vendedor da Mercedes. O filho do presidente então tira uma nota de 10 euros
do bolso. Quando o vendedor tenta impedi-lo, ele diz: “Eu vou ficar com cinco carros”.
As reformas realizadas, que visavam consolidar o orçamento nacional, beneficiaram em grande
parte as classes média e alta. O sofrimento dos pobres apenas continuou crescendo –e com ele, a
raiva. Rumores eram a única informação disponível a respeito do tamanho da fortuna do ditador.
Mesmo assim, eram suficientes para alimentar o ódio. A fortuna da família Mubarak supostamente
gira em torno de US$ 40 bilhões, riqueza acumulada por meio, por exemplo, de comissões
recebidas em contratos de defesa. Os órgãos de imprensa árabes dizem que o dinheiro está
seguramente investido no exterior. Mesmo fora do poder, a família Mubarak não passará
necessidade. Mas os especialistas duvidam que essas estimativas da riqueza do ditador sejam
realistas.
As relações de Mubarak com os outros países no mundo árabe foram problemáticas desde o início.
O acordo de paz separado que seu antecessor, Anwar Sadat, fechou com Israel em 1979 prejudicou
seriamente a posição do Egito como grande liderança política dentro do mundo árabe. Todavia,
Mubarak decidiu manter o tratado contencioso. Isso garantiu a ligação do Egito com o Ocidente,
assim como a ajuda externa dos Estados Unidos no valor de US$ 1,5 bilhão por ano, incluindo US$
1,3 bilhão em ajuda militar. Mubarak teve posteriormente sucesso em restaurar a participação do
Egito na Liga Árabe, encerrando assim o isolamento do país dentro da região árabe.
Todavia, muitos nunca perdoaram Mubarak por declarar a paz entre Israel e os árabes como sendo
sua missão. Por todo o mundo árabe, alguns continuaram menosprezando Mubarak como sendo
“sionista” ou “lacaio do Ocidente” até a sua renúncia. Os muçulmanos devotos também o
consideram seu inimigo, devido à repressão à Irmandade Muçulmana no Egito.
Ainda não é possível saber qual será o resultado da transferência de poder. O exército manterá o
atual plano de realização de eleições em setembro ou trará a oposição para a transição mais cedo? O
futuro papel do vice-presidente Suleiman, nomeado para o cargo há apenas poucos dias, também
permanece incerto. Mas essas são perguntas para os próximos dias.
Por ora, os egípcios estão celebrando sua revolução.
Tradução: George El Khouri Andolfato