Você está na página 1de 14

A LÓGICA E O ESTILO EM DA

DIVISÃO DO TRABALHO SOCIAL DE


EMILE DURKHEIM
AUGUSTO CACCIA-BAVA JÚNIOR*

Durkheim escreveu De Ia división du travail social logia contemporânea e apresentar, na medida do


em 1886, à época em que se realizava, na Europa, toda possível, alguns traços do estilo de pensamento que a
potência produtiva trazida da Revolução Industrial. época lhe proporcionou.1
Seu livro não se destinava, no entanto, apenas ao elo- Durkheim, apoiado no evolucionismo de Spencer,
gio dos feitos da burguesia inglesa, francesa e da inte- buscou apresentar a divisão do trabalho social como
lectualidade que ordenava politicamente esse processo função reguladora das instituições sociais contempo-
produtivo. Apontava, ao contrário, para a necessidade râneas e não apenas um elemento genérico da civiliza-
de se transformarem as concepções que predominavam
ção. O que diz respeito ao gênero humano, para ele e
sobre os acontecimentos sociais, derivadas da teoria
natural e universal. Já a divisão do trabalho é social e
evolucionista de Spencer. do positivismo uni-
as formas que ela assume se generalizam segundo sua
versalizante de Comte e do direito coercitivo, mais que
potencialidade social.
normativo de então.
Nesse argumento, mesmo não revelando qual a
A transformação que propunha era, no entanto, no
natureza desse fenômeno social, o autor lança os pri-
sentido de criação de uma ciência particular da socie-
meiros fundamentos de sua tese, diferenciando-se do
dade e não da contestação dos filósofos lidos e adota-
evolucionismo de Spencer, mesmo não rompendo
dos por ele. Os interlocutores de Durkheim, que ele
filosoficamente com aquele pensador. Nesse primeiro
apresenta nos três livros de que se compõe De Ia divi-
livro, como se verá, Durkheim busca romper, aqui sim,
sión du traxail social, aparecem pela necessidade de
com o tradicionalismo de sua época e realizar
explicitação das razões que o levavam à defesa da
plenamente o conservadorismo vitorioso, que na Fran-
Sociologia como nova ciência da sociabilidade. Não
ça da Restauração se instalou desde meados do século
eram citados apenas para revelar erudição que, de fato,
XIX. Como o realiza é o que passaremos a ver.2
Durkheim possuía, nem mesmo por terem sido eleitos
para uma polêmica aguda, como era do feitio de Marx Na introdução à sua obra "Da Divisão do Trabalho
e Engels, seus contemporâneos, fazê-lo. A propósito. Social" reconhece a antigüidade do fenômeno da divi-
Durkheim até refere-se a Marx. ao final de seu trabalho, são do trabalho, a despeito da grande indústria moderna
para fortalecer seu argumento em torno da necessidade ser a força propulsora da sociedade contemporânea,
de uma ciência da regulação da divisão do trabalho, pela força dos capitais e pela "...divisão extrema do
que permitiria maior controle dos movimentos de trabalho" (p.39).
opinião, diversos ou divergentes, da ordem Os "grandes grupos" são os patrocinadores desse
estabelecida. Essa foi a razão fundamental da obra de movimento, que se estende para além do universo da
Durkheim. produção material imediata, atingindo "...as regiões
Procuraremos expor, neste trabalho, o encadea- mais diferentes da sociedade...", como "...as funções
mento lógico dos argumentos do fundador da Socio- políticas, administrativas, jurídicas se especializando
cada vez mais" (p.39).3

* Professor Assistente-Doutor - Departamento de Sociologia - Faculdade de Ciências e Letras - UNESP - Campus de Araraquara.

-29-
DEPARTAMENTO DE SOCIOLOGIA 1996 UNESP - FCL

Durkheim busca contemporaneidade em seu racio- produzir; que tem uma tarefa delimitada e se consagra
cínio, por isso mesmo abandona o universo das a ela. que realiza sua função, que ocupa seu lugar" (p.
abstrações filosóficas dos sábios para ingressar no 42). Esse homem - ele posteriormente virá a dizer - é
plano da reflexão teórica e científica, polemizando aquele moldado para a grande indústria, possuidor de
com os juristas, historiadores e psicólogos de seu habilidade específica (skill) qualificado, como se de-
tempo, porque, "...o círculo de suas investigações se nomina em nossos dias.
restringe a uma ordem determinada de problemas, ou
Essa concepção era, à época, plena de
mesmo a um único problema" (p. 40).
controvérsia, pois "a máxima que nos ordena
Quanto à sua grande questão teórica - a divisão do especializar-nos está negada, por todos os lados, pela
trabalho - abre sua discussão afirmando que da bio- máxima contrária, que nos ordena realizar todos um
logia à economia são reconhecidas as diversas formas mesmo ideal e que está longe de ter perdido toda sua
de manifestação desse fenômeno "...um organismo autoridade" (pp. 42/43).
ocupa um lugar, tanto mais elevado na escala animal, Se raciocinarmos com Mannheim (1982), sobre o
quanto as funções estejam, nele, mais especializadas". caráter do pensamento tradicionalista ou conservador
Esse exemplo serve para ilustrar que a divisão do dentro de uma época, Durkheim se inscreveria entre os
trabalho não é apenas uma "instituição social", mas conservadores, com certa dose de ousadia, rejeitando o
também, " um fenômeno de biologia geral", intrínseco homem genérico, perfeito, como afirmamos acima, já
às "propriedades essenciais da matéria organizada". que : "a ação conservadora (pressupõe) que o indi-
Inscrita na materialidade dos organismos vivos ganha víduo é consciente ou inconscientemente guiado por
dimensão universal (p. 40). um modo de pensar e de agir que tem por trás de si
Até aqui serviram-lhe a obra de Spencer, e as teo- uma história própria, antes de entrar em contato com
rias organicistas, mas essas trouxeram-lhe, de outra o indivíduo".Além disso, o conceito de estrutura men-
parte,uma questão controversa que é o centro de sua tal objetiva que Mannheim cunha para caracterizar o
obra : ver até onde a divisão do trabalho é apenas um pressuposto da relação indivíduo/sociedade no conser-
fenômeno da natureza orgânica dos seres e se é, tam- vantismo assemelha-se ao conceito durkheimiano de
bém, algo como "uma regra moral da conduta huma- consciência coletiva, no momento em que integra a
na". Se a resposta for afirmativa, então a noção de que "mesmo quando o indivíduo específico
generalidade, a universalidade do fenômeno da não estiver mais ali (na trama definidora de sua socia-
divisão do trabalho no interior das sociedades deriva lidade) para (dela) participar, o modo de pensar e de
desse seu caráter dominantemente regulador e, por agir ainda terá sua própria história e desenvolvimento
isso moral, por isso social. A generalidade dos autônomos" (Mannheim, 1982:109). Essa caracteriza-
fenômenos derivaria dessa "socialidade" do fato e não ção do pensamento conservador proposta por Man-
o contrário. A resposta á essa questão traria luz à nheim é, praticamente, idêntica às palavras de
definição posterior de uma das regras fundamentais de Durkheim. É a máscara de seu pensamento.
orientação da prática sociológica, ao postular que os O que chamamos de militância de Durkheim refe-
fenômenos sociais - os fatos -são gerais porque são re-se a seu esforço de criação de uma ciência particu-
sociais e não sociais porque genéricos.
lar, ao invés de reprodução do pensamento de sua
Durkheim tem uma preocupação filosófica época. Ele buscava em seus textos convencer o leitor,
implícita à sua obra, a despeito do distanciamento do para além de arrolar argumentos em torno de um obje-
discurso generalizador organicista. Quer superar a to de investigação científica. Para inovar, no entanto,
idéia do "homem perfeito" que "sabendo interessar-se ele devia reportar-se ao pensamento de sua época. E
por tudo sem dedicar-se exclusivamente a foi o que fez. Sua militância era revestida de um cará-
nada...encontrava um meio de reunir em si o que havia ter dominantemente especulativo, como estilo do
de mais requintado na civilização"(p. 41). Para ele, o debate realizado nos limites das instituições de ensino
homem que devia se afirmar era "mais que um que freqüentava no interior da França de seu tempo.
diletante" era um homem "competente que trata, não
de ser completo, mas de

-30-
ESTUDOS DE SOCIOLOGIA N" 01 AUGUSTO CACCIA-BAVA JÚNIOR

A especulação resultava do afastamento filosófico O desenvolvimento dos meios de transporte - como


presente no evolucionismo que abraçava, mais do que as ferrovias, os transatlânticos -; o desenvolvimento
da serenidade política da sociedade em que vivia.4 dos meios de produção - como as fábricas que são
Assim, partiu o fundador da Sociologia contempo- consideradas úteis - não são "moralmente obrigatórios"
rânea para sua empreitada, numa obra planejada para (p. 51). Há, assim, distinção entre necessidades
três distintos momentos: materiais (úteis) e necessidades sociais (morais). Ape-
sar dessas últimas estarem no centro das atenções de
1o. Investigar a função da divisão do trabalho; 2o.
Durkheim, não quer isso significar, no entanto, que a
Determinar as causas e as condições de que depende;
ciência participa dessa consciência moral. Sua ciência,
3o.Classificar as principais formas anormais que apre- ao contrário, "...é um campo de ação aberto à iniciativa
sentam para evitar que se confundam com ou- de todos...", mas não socialmente obrigatório, não
tras.(p.44) moral.
Dessa maneira, observar, comparar e tratar todos os Assim, um dos atributos da divisão do trabalho,
aspectos objetivos da divisão do trabalho tornava-se o como função, é seu caráter obrigatório para o bom
caminho necessário à realização da ciência desse fato desenvolvimento da sociabilidade. Esse caráter moral é
social. Até o término da breve introdução à essa obra, que a transforma numa necessidade social.
Durkheim também reporta-se a Simmel, professor
A divisão do trabalho "determina as relações de
junto à Universidade de Leipzig (Alemanha), que em
amizade" entre indivíduos que se integram a associa-
1890 fundava as bases da individuação da divisão do
ções "onde há um verdadeiro intercâmbio de serviços.
trabalho.
Um protege, o outro consola; este aconselha, aquele
executa" (p. 54). Ela se situa no plano da integridade
O LIVRO PRIMEIRO: A FUNÇÃO DA DIVISÃO social, se assim podemos nos expressar, para garantia
DO TRABALHO da sobrevivência de cada grupo de indivíduos. Pois
"...sua função é criar entre duas ou mais pessoas um
sentimento de solidariedade " (p. 55; grifo meu).
Durkheim é taxativo na abertura desse texto. Diz
ele que não há fenômeno que se realize por necessida- A divisão do trabalho realiza-se com esse fim, em
de, para além da consciência moral dominante na diferentes planos da vida de um grupo: tanto para
sociedade. A função que implica cada fenômeno, diz permitir a solidariedade conjugai, promovendo a divi-
respeito à correspondência desse mesmo fenômeno são do trabalho entre os sexos (p. 55), como para a
como necessidade a ele imediata: ...o que nos importa intesificação das trocas mercantis (p. 58).
é saber se existe e em que consiste, não se a pressenti- A certeza dessas ocorrências o autor extrai da leitu-
mos ou tampouco a sentimos posteriormente" (p. 49: ra de Antropogie de Waitz e de Tonipard. Mariage and
grifo do autor). Isso não quer dizer que a consciência Kinship in Early Arábia (1885), dentre outras. Fica-lhe
coletiva não fosse moral, apenas que integrava aspec- a questão, no entanto, se o valor moral da divisão do
tos relevantes que eram sociais. trabalho registrado em sociedades primitivas - como as
Fugindo à busca do valor absoluto da civilização, não ocidentais européias eram chamadas - estendia-se
Durkheim sai da história para entrar na vida dos indi- para a sociedade ocidental da grande indústria, onde os
víduos, que se articulam em torno dessa função social. grupos são miais extensos.
Contesta, também, a concepção de estado natural da Sua hipótese, derivada da leitura de Comte, era de
existência individual, formulada por Rousseau, entre que as "grandes sociedades políticas não podem man-
outros. Será exatamente entre o histórico e o natural ter-se em equilíbrio a não ser pela especialização das
que se situará o autor de " O Suicídio": no terreno, tarefas; que a divisão do trabalho é fonte, senão única,
portanto, da reflexão moral. Dessa reflexão decorrerá ao menos a principal da solidariedade social" (p.60).
o entendimento da função que é a divisão do trabalho Para ele, se Comte fundamentava essa hipótese, não o
social. demonstrava. Apesar de este ter sido, para Durkheim, o
primeiro a assinalar que a divisão do trabalho era

-31-
DEPARTAMENTO DE SOCIOLOGIA 1996 UNESP - FCL

um fenômeno distinto da realidade puramente eco- solidariedade doméstica, a solidariedade profissio


nômica, tê-la visto como "condição mais essencial da nal...", entre outras, (p. 63)
vida social", tal carecia de demonstração no nível da Durkheim acabava de constituir o que Florestan
ciência particular. Daí a necessidade de Durkheim Fernandes (1980) denominou campo de investigação
expor sua lógica de investigação. sociológica, nos seus "Fundamentos Empíricos da
Explicação Sociológica". Será no interior das relações
de solidariedade que encontraremos as razões de ser da
A LÓGICA DA INVESTIGAÇÃO
divisão do trabalho. O entendimento daquelas precede
o destas. E o direito " ..reproduz as formas principais
Para trazer à tona a comprovação de que a solidari-
de solidariedade social. ". em sua exterioridade. (p. 64).
edade deriva da divisão do trabalho e mais, que a
Classificando os diferentes tipos de direito, o autor
solidariedade por ela gerada "contribui à interação
buscou diferentes formas de solidariedade a eles cor-
geral da sociedade", o fundador da Sociologia propõe
respondentes. Essas correspondência entre aspectos
como procedimento lógico a comparação e a classifi-
exteriores da "vida social" é outro nexo lógico do
cação : "...há que comparar, pois, este laço social com
método de Durkheim. Todo o social se constitui a
outros para medir a parte que a ele corresponde na
partir da exterioridade dos acontecimentos.
resultante total, e para isso...classificar as diferentes
espécies de solidariedade social" (p. 61).
É impressionante como aqui Durkheim se expressa SOLIDARIEDADE MECÂNICA
num jargão próximo ao do biólogo. Essa forma de
exposição do seu raciocínio, deriva de sua tentativa de Um segundo capítulo do trabalho exploratório rea-
ultrapassar os motivos interiores e individuais das lizado por Durkheim irá apontar para os limites da
ações "... o fato exterior simboliza o interior que nos regulação da sociabilidade. quando esta se encontra
escapa" (idem). E o exterior se corporificava no direi- distante da divisão do trabalho, que resultará da im-
to plantação da grande indústria. Ora, se não é o trabalho
que media as relações interpessoais, o "caráter natural"
A essa altura, a lógica de Durkheim ganha vida na
dessas relações só se vê contido por normas jurídicas
polêmica com os juristas da sua época, pois, se não a
qualificadas, em sua maioria, como de direito repres-
iniciasse, restaria ao autor o recuo ao organicismo
sivo. Enquanto os indivíduos não estão regulados pela
filosófico de Spencer ou ao militarismo dos economis-
função da divisão do trabalho social, estes são mais
tas ingleses. Ele estava certo de encontrar nas preocu-
sensíveis à realidade das crenças e tradições, de um
pações dos juristas "...todas as variedades essenciais
lado, e do crime e castigo de outro. Esse era, pratica-
da solidariedade social" (p. 62). Será do estudo do
mente, o contorno da sociabilidade das pequenas cida-
direito coercitivo ou restirutivo que resultará a sua
des do interior da França, que dava origem à formação
noção de tipos sociais. O primeiro prevalecendo gera
dos saberes jurídicos e mesmo, de algumas obras lite-
relações sociais dominantemente punitivas; o segundo,
rárias. Veja-se como Balzac reconstroi os usos e cos-
restitu-tivas. O primeiro pune a agressão à norma; o
tumes da pequena cidade burguesa de Angoulême e o
segundo garante o seu exercício.
reduto aristocrático decadente de Houmeau, em meados
E se o que define os traços específicos da solidari-
do século XIX:
edade "...é a natureza do grupo cuja unidade assegura,
essa natureza é moralmente regulada pelas leis que "Fácil é perceber quanto o espirito de casta influi nos
normatizam a existência de cada grupo. É distinta a sentimentos que separam Angoulême de Hou-meau.
natureza da solidariedade no interior de uma família e O comercio é rico e a nobreza, geralmente, pobre
numa socidade política". E como Durkheim nega a Esta vinga-se daquela por um desprezo que é igual
existência de relações sociais independente das reja-ções de ambos os lados. A burguesia de Angoulême
morais no universo da solidariedade. "...o que existe são participa da querela O comerciante da cidade alta
as formas particulares de solidariedade: a

-32-
ESTUDOS DE N° 01 AUGUSTO CACCIA-BAVA
SOCIOLOGIA JÚNIOR

diz de um negociante do bairro de baixo, com exx- seu raciocínio, segue afirmando que: "...um ato é so-
5
pressão indefinível: E um homem de Houmeau!". (5) cialmente mau porque é rechaçado pela sociedade e
não o inverso" (p.76). O bem e o mal, o certo e o erra-
Discutindo a noção de crime de Garofalo, jurista de do, o integrado e o desintegrado, o organizado e o seu
renome à sua época, para quem existiam atos cri- oposto, antes são elementos da consciência coletiva do
minosos naturais e universais, contestava a um só que da individual. Daí valer, acima de tudo, a exterio-
tempo, essa tese e a de Spencer. Afirmava que: " É riedade da consciência coletiva, perante as consciên-
provável que ali haja um retomo à doutrina de Spen- cias individuais ou eventuais exercícios de
cer, para quem a vida social só é verdadeiramente introspecção.
natural nas sociedades industriais". Lamentavelmente,
Durkheim não chega facilmente, levianamente, à
dizia Durkheim, nada é mais falso. (p. 97: nota 1).
definição de solidariedade mecânica, a partir da qual
Mas as doutrinas jurídicas eram referência neces- evoluirá para o significado da cooperação e da divisão
sária para o exercício de interlocução com os evoluci- do trabalho, na realização da nova ordem social. Do
onistas, dos quais pretendia distanciar-se, criando a direito penal, estende-se para considerações filosóficas
ciência particular da Sociologia. Comparando a evolu- sobre o significado das idéias e das representações.
ção do direito repressivo entre sociedades distintas, Estas últimas eram centrais para o entendimento do
destacava o fato de que "nas sociedades primiti- que definira como consciência coletiva.
vas...onde o direito é inteiramente penal, a assembléia A consciência coletiva, sendo fonte de vida, quan-
do povo é quem faz justiça". Lá existe um conjunto
do revela força, vivifica a sociedade; mas quando tem
solidamente constituído de crenças e sentimentos que
como seu oposto uma representação de um "estado
"...forma um sistema determinado que tem vida pró-
contrário de coisas", essa representação "...levanta ao
pria...(a) consciência coletiva ou comum", (pp. 72 e
seu redor todo um redemoinho de fenômenos orgâni-
74).
cos e psíquicos" (pp.86/87).
Essa consciência coletiva antecede o valor objetivo
Idéias, emoções, sentimentos participam desse re-
dos atos individuais. Antecede a formação dos juízos
demoinho como o caracterizava Mandsley, em sua obra
individuais. A consciência comum é suprema e "...em
Fisiologia do Espírito, lida e anotada por Durkheim. E
outras palavras, não há que dizer que um ato ofende a
é desta breve constatação que ele extrai um dos
consciência comum. Não o reprovamos por que é
paradigmas de sua nova ciência: "Assim, como os
crime, antes é um crime e por isso o reprovamos" (p.
estados de consciência contrários se debilitam reci-
75).
procamente, os idênticos, intercambiando-se, se refor-
Dessa maneira, os indivíduos são envolvidos por çam uns aos outros..." Daí a rejeição ao crime, à
um conjunto de crenças que precede a formação de seu anomalia, ao escândalo moral, à cólera pública sinteti-
juízo individual. E essas crenças são tão mais sólidas, zadas na resistência institucional da consciência cole-
quanto menos organizada e diferenciada é a divisão do tiva e, "...dado que é a consciência comum quem (sic) é
trabalho social. O direito é tão mais punitivo, quanto atacada, é necessário, também, que seja ela quem (sic)
menos habilitada a sociedade está para se localizar no resista, e em conseqüência que a resistência seja
interior da divisão do trabalho social, quanto mais coletiva " (p.91 - grifo meu).
prevalece a instituição familiar, os tabus referentes às
Uma consciência coletiva solidária simboliza o di-
relações de parentesco, entre outras restrições
reito penal. E é solidária na medida em que se realiza
exteriores à vida de cada um.
na adesão individual aos seus valores, crenças e cos-
Durkheim apega-se a Spinosa para consolidar um
tumes.
de seus argumentos. Diz ele que "...a psicologia con-
Durkheim agora vê-se em condições de definir a
temporânea retorna cada vez mais à idéia de Spinosa,
solidariedade mecânica: " nascida das semelhanças,
segundo a qual, as coisas são boas porque as amamos,
une diretamente o indivíduo com a sociedade...torna
ainda que as amamos porque são boas". E arrematando
harmônico o detalhe dos movimentos...coletivos..." e,
assim sendo, "cada vez que (os movimentos) entram

-33-
DEPARTAMENTO DE SOCIOLOGIA 1996 UNESP - FCL

em jogo, as vontades movem-se espontaneamente e pré-determinada e integram a sociedade juntamente


em conjunto, num mesmo sentido" (p. 94). com as pessoas (p.102). O fato social entendido como
O sentido do direito penal não seria nunca o de coisa, que posteriormente Durkheim vai trabalhar nas
socializar os estados naturais de vontades individuais, suas Regras do Método Sociológico inspira-se nessas
pois tal não existe nas sociedades humanas; ele é ape- concepções de direito real, distinto do direito pessoal.
nas ou acima de tudo, função de coesão social. "O direito de propriedade e a hipoteca pertencem à
"...mantendo toda vitalidade da consciência comum" primeira espécie; o direito de crédito, à segunda". E
(p.95). mais, o autor justifica a eleição do direito real sobre o
pessoal pelo fato do primeiro trazer a idéia de conti-
Em conclusão, afirma existir uma solidariedade
nuidade e preferência jurídica institucional.
social que deriva de "...estados de consciência" co-
muns a todos os membros de uma sociedade. E essa O direito real fundamenta sua concepção de soli-
solidariedade vem representada "materialmente" pelo dariedade real que "...une diretamente as coisas às
direito repressivo, como quer Durkheim (cf.p. 96). pessoas, mas não as pessoas entre si". Por essa razão os
direitos reais " não entram em conflito,...as hostilidades
Nos capítulos que analisamos, encontramos a con-
estão previnidas..." disso decorrendo que não há, de
cepão de indivíduo natural contestada, como a con-
outra parte, consenso. (cf.p. 103; grifo do autor).
cepção de existência social genérica (Spencer), que
fazem de si contraparte numa mesma visão organicista O direito de propriedade é o mais perfeito entre to-
de sociedade, abstratamente concebida. dos os direitos reais:"... é a relação mais completa que
pode existir entre uma coisa e uma pessoa: é aquela
que coloca a primeira (a propriedade) sob a inteira
SOLIDARIEDADE ORGÂNICA OU DEVIDA dependência da segunda"(p. 103). Nessa altura,
À DIVISÃO DO TRABALHO Durkheim polemiza com Kant e Spencer.
Do primeiro extrai o conceito de personalidade
Durkheim, sempre alicerçado no direito social, humana e do segundo a noção de organismo. Sua
avança na caracterização da solidariedade, agora me- reticência perante ambos refere-se ao caráter abstrato
diada pela divisão do trabalho e não pelas crenças e de suas considerações. "Na realidade histórica, a ordem
costumes. O direito restitutivo, que restabelece normas moral se baseou nessas considerações abstratas". Pois
a partir das quais os indivíduos devem limitar suas os homens reconheceram os direitos um dos outros,
ações, passa a prevalecer, progressivamente, quando a "não só pela lógica", mas na "prática da vida...". Essa
consciência comum, derivada daquelas crenças, deixa prática revelou a necessidade de auto-limitação dos
de ser o núcleo da solidariedade, até então mecânica. direitos individuais e de "limitação mútua" através do
O direito restitutivo "...previa órgãos cada vez mais "entendimento e concórdia" (p. 106). Esses aspectos
especializados: tribunais consulares, tribunais paritári- todos acabam por definir o que Durkheim chamou de
os...", que se relacionam cada vez mais com o proces- "laços de sociabilidade", que seriam: concórdia, en-
so de especialização das atividades sociais, vinculadas tendimento, limitação mútua e reconhecimento recí-
à grande indústria, (cf. p. 100) proco de direitos privados. Esse conceito é tão
expressivo para o sociólogo francês, que ele o associa
A sociedade não existe para privilegiar interesses
às pré- condições da paz.
deste ou daqueles indivíduos, mas para aplicar "...ao
caso particular, que lhe é submetido, as regras gerais e A sociabilidade pressupõe reciprocidade, que por
tradicionais do direito" (p.101). Nesse sentido a razão sua vez depende de cooperação, que tem seu funda-
de ser das sociedades é reguladora e técnica, desde o mento na divisão do trabalho. Pois cooperar "...é re-
plano filosófico - veja-se Gianotti (1971) - até o plano partir-se um labor comum". Se ainda esse labor
político institucional.6 subdivide-se em tarefas simples, " qualificativamente
similares...ocorre divisão do trabalho simples". Mas se
A razão técnica da sociabilidade também deriva da
a natureza das tarefas se diversifica, então nos encon-
equivalência que o autor estabelece entre coisa e pes-
tramos perante uma "divisão do trabalho composta".
soa. As coisas tem sua relação com o organismo social

-34-
ESTUDOS DE SOCIOLOGIA N° 01 AUGUSTO CACCIA-BAVA JÚNIOR

Essa última é que define o que vem a ser, para Finalmente, colocam-se algumas questões:
Durkheim, especialização, tema tão corrente na Sócio- Ia. A existência marcada das partes e do todo pela
logia do Trabalho contemporânea. (grifos meus). individualidade de cada uma não permite pensar a
possibilidade da existência de autonomia das partes no
I interior da solidariedade?
A cooperação especializada requer um contrato que 2a. Não é exatamente isso que traduz a função da
"...é símbolo de permuta"; não é afirmação de direito
divisão do trabalho como aspecto da sociabilidade e
natural individual, nem resultante de tensões derivadas
não do gênero humano?
de enfrentamento entre produtores e proprietários. O
3a. A cooperação derivada da solidariedade não pres-
direito em si, este sim é expressão do caráter social das
supõe também autonomia?
relações de cooperação. Por essa mesma razão que
"...todo direito é público". Nisso Durkheim se alicerça, 4a. A existência de "classes de solidariedade" que se
fundamenta-se para diferenciar sua teoria do associam a conjuntos distintos de normas jurídicas
organicismo de Spencer, afirmando que " todas as (repressivo ou restitutivo) não confirmaria a autonomia
funções da sociedade são sociais, assim como todas as das instituições entre si, por exemplo, entre a família e
fuções do organismo são orgânicas" (p. 111). a propriedade industrial?
Sem dúvida, Durkheim lavra um tento contra Durkheim não o responde, na verdade. O que im-
Spencer na busca de um campo próprio para construir porta a ele é demonstrar o caráter social e não genérico
sua ciência, a Sociologia. Aqui já podemos afirmar da função da divisão do trabalho. Por isso avança em
que, nesse esforço, o autor da "Divisão do Trabalho outras provas sobre a distinção dos tipos de solidarie-
Social" saiu-se vitorioso. A Sociologia não seria mais dade por ele assinalados. Paga, no entanto, caro tributo
herdeira direta do organicismo, mas sim, fundada em ao organicismo de Spencer, pois, de fato, se a especia-
algumas de suas premissas; dele se distanciaria, ao lização é o fato contemporâneo e social que marca as
superar as problemáticas postas no nível do gênero sociedades industriais, ela não pode ser um fator de
humano para construir, a seu modo, o fato social parti- desagregação do todo. Ao contrario, reforça-a.
cular. Durkheim se perde ainda, na exposição do detalhe da
Essa distinção permite ao sociólogo criar dois con parte, ao invés de buscar sua natureza na divisão do
ceitos para denominar sociedade: tipo coletivo e sis tema trabalho.
de funções diferentes e especiais. Ao primeiro Tenta esclarecer sua tese com a exposição do cará-
corresponde a solidariedade mecânica; ao segundo a ter dos "tipos profissionais": "...à medida que o traba-
orgânica. A solidariedade mecânica patrocina o estabe lho se divide, as coisas mudam as distintas partes do
lecimento de laços que unem os indivíduos à socieda de agregado; dado que cumprem funções diferentes, não
"...análogos àqueles que unem a coisa à pessoa". Aqui a podem ser facilmente separadas...". Numa referência à
consciência individual é subordinada a um tipo coletivo, sociedade de seu tempo, exemplifica: "...separemos as
enquanto que a outra forma de solidariedade é populações mineiras, das populações vizinhas que
subordinada ao "sistema de funções diferentes e fundem os metais, ou fabricam telas, e estas morrerão,
especiais". Esta última é produzida pela divisão do primeiro socialmente, depois individualmente" (p-
trabalho. Nesse sistema, a individualidade do todo 131).
acrescenta-se ao mesmo tempo que a das partes. Surge
Há nessa obra um ir e vir às fontes do direito pú-
nesse momento a dimensão parte e todo, no contexto das
blico, do Pentateuco a Lombroso (dos textos bíblicos
sociedades contemporâneas, em sua plenitude, coisa que
ao teórico do criminoso inato). Tudo para propor desde
até então era obscurecida pelo perfil homo gêneo dos
essas fontes, que o direito penal punitivo tem seu
tipos coletivos.
campo de realização estreitado, ao longo dos tempos. É
A individualidade viva das partes é a pré-condição o que ocorre em quase todo o capitulo em que analiza a
da unidade do organismo. Essa articulação análoga às preponderância progressiva da solidariedade orgânica.
condições de funcionamento dos organismos vivos é Até chegar a um dos princípios gerais de sua
que o leva a denominar esse tipo de solidariedade
como orgânica.

-35-
DEPARTAMENTO DE SOCIOLOGIA 1996 UNESP-FCL

teoria, que busca enfrentar a questão do individualis- "(p. 165). O eclipse do indivíduo, tratado por Spencer
mo. como resultado de uma coação derivada de estados de
Para ele é da maior significação afirmar que a guerra crônicos, será entendida como "...ausência
consciência coletiva progressivamente restringe seu completa de toda centralização"(p. 166). Os indivíduos
campo de atuação, que o tipo coletivo sofre transfor- estarão, agora, subordinados à lógica do grupo e não a
mações que "...tornam suas formas mais abstratas; qualquer poder despótico personalizado. Essa tese é
(que) desde os tempos mais remotos, essa decadência também anti-darwinista, pois coloca a moral social no
vem se desenvolvendo ininterruptamente". Essa, a sua centro das forças que coesionam os grupos. Esse grupo
tese. é organizador dos indivíduos, integrados à nova ordem
da sociedade industrial emergente.
Daí o individualismo e o livre arbítrio não serem
passíveis de delimitações históricas, não podendo sua No capítulo VII, ao confrontar solidariedade orgâ-
origem ser datada, "...nem de 1789, nem da reforma, nica e solidariedade contratual, Durkheim quer resgatar
nem da escolástica, nem da caída do politeísmo greco- o espaço social da esfera da ação social. Às relações
latino ou das teocracias orientais". A abundância de contratuais rousseauníanas volta à contrapor a divisão
referência histórica, ele a traz para defesa do argumen- do trabalho. As vontades individuais, a consciência
to de que "...o individualismo é um fenômeno que não particular e à adaptação espontânea apresenta a força
começa em nenhuma parte, em especial, que se desen- de "inteligência reflexiva", os "laços exteriores", que
volve sem deter-se ao longo de toda história", (p. 147 imprimem conteúdo aos interesses humanos. Diante da
- grifo meu). crise do liberalismo e do evolucionismo orga-nicista,
propõe a ciência da solidariedade orgânica, porque
Disso também resulta a lógica da investigação
"...efetivamente não há que esquecer-se que se existe
histórica, que se limita à possibilidade das análises
mais vida regulamentada, existe também mais vida em
sincrônicas e não de processos em curso. Pois, "...é
geral", (p. 176)
necessário considerar, somente, as sociedades sucessi-
O "eclipse das organizações segmentárias" exige
vas, na mesma época de suas vidas" (p.148). Sua con-
clusão não seria outra que: "todos os laços sociais que que a família, como sua base social, se transforme, sob
resultam da similitude se debilitam progressivamen- a direção da lógica da cooperação, que a encaminha
para o sistema diversificado das qualificações, onde as
te...(e) dado que a solidariedade mecânica vai se de-
partes são pré-determinadas: "...segundo um plano pré-
bilitando, é necessário ou bem que a vida
concebido", para que as consciências individuais não
propriamente social diminua, ou bem que a outra soli-
atuem agredindo o sistema que se instala. Já que, a
dariedade venha, pouco a pouco a substituí-la". E aqui
a divisão do trabalho emerge na plenitude de suas despeito do ato inicial da cooperação decorrer de ato
possibilidades, pois ela e só ela pode realizar essa contratual, suas conseqüências ultrapassam os termos
desse contrato. (pp. 182 e 183).7
substituição, no interior de determinada ordem social.
E na exterioridade, a divisão do trabalho é agente de As partes são pré-determinadas. mas os limites da
mudança, substitui a consciência individual ou a ação sociabilidade não. Por isso a preocupação da Sociolo-
social consciente. Agente sem ser sujeito. gia deve voltar-se ao empreendimento de sistematiza-
ção das configurações morais dessa sociabilidade, para
A partir desse momento, temos condição de discu-
que se concretize uma eficaz educação da juventude,
tir mais especificamente alguns conceitos que se arti-
de proteção à saúde geral, da assistência pública, da
culam para a interpretação de realidades objetivas
administração das vias de transporte e de comunicação,
exteriores às consciências, distintas das abstrações
para que essa sociabilidade seja, integrada, "...pouco a
genéricas do organismo ou universalizantes do positi-
pouco, à esfera do órgão central", (cf. p. 189). Se os
vismo. Tratando-se, também, de busca da separação
ideólogos do welfare state não extraíram dessa obra a
dos limites jurídicos do julgamento de atos criminosos,
pauta de suas preocupações científicas, tal deve ter
que exijam punição ou restituição à parte agredida.
ocorrido por lapso de consciência, fenômeno
As conclusões de Durkheim não coincidirão com
as propostas por Spencer, "...mas sim a elas se opõem

-36-
ESTUDOS DE SOCIOLOGIA N° 01 AUGUSTO CACCIA-BAVA JÚNIOR

comumente definível pela Psicanálise, pois situa-se individual de alguns e não de princípio ordenador da
para além do "universo da razão". sociedade, o que se pode supor pela insensibilidade
A grande indústria generaliza-se por toda sociedade que essa temática provocou no autor da Divisão do
e promove a formação de uma rede de comunicação Trabalho Social.
complexa e diferenciada; a localidade desaparece como A indústria, a grande indústria, era tomada apenas
fenômeno social; as instituições passam a viver como espaço de realização da solidariedade orgânica,
relações diferenciadas e solidárias, como decorrentes seu meio social. Por essa mesma razão, não lhe inte-
da "força" da divisão do trabalho social. Há um con- ressava a pesquisa de Frederich Engels, atual a seu
junto de obrigações que envolve a todos, uma morali- tempo, sobre as condições de existência da classe
dade que no entanto é imperfeita, que, por essa razão, trabalhadora inglesa, integrada às grandes indústrias,
dá origem a algo que se distingue dos fatos sociais. São que dariam desde Manchester a tônica da universaliza-
as " correntes sociais" portadoras de caráter temporal ção da divisão do trabalho.
mais evidente e, dessa forma, dada sua transito-riedade Ingenuidade, preconceito ou objetividade, o fato é
no interior da sociabilidade, "mais suscetíveis à ação que as fronteiras da Sociologia, alicerçadas na realida-
dos homens", (pp. 192 e segs.). Por essa mesma razão de da grande indústria, não permitiram abertura para o
essas correntes não integram o universo temático da diálogo com a Economia Política, no mínimo outro
Sociologia durkheimiana; será antes tema mais atrativo pretendido universo de saber científico.
para seus seguidores, desde que subordinados à
Vamos à lógica da rejeição, expressa pelo autor
perspectivas emanadas dos chamados "órgãos centrais
aqui analisado;
reguladores da sociabilidade derivada da solidariedade
orgânica", que passam a integrar o que os sociólogos "No estado atual de nossas sociedades, o trabalho não
norte-americano dos tempos de hoje denominam somente é útil, é necessário: todo mundo o sente assim, e
research programs. faz bastante tempo que essa necessidade é experimentada.
No entanto, são relativamente escassos os que encontram
seu prazer nesse trabalho regular e persistente. Para a
O LIVRO SEGUNDO maioria é ainda uma servidão insuportável; a ociosidade
dos tempos primitivos não perdeu, para eles, seu velho
Quase toda temática da divisão do trabalho social atrativo. Portanto, estas metamorfoses custam muito,
reúne o que possui de essencial no Livro Primeiro, até durante largo tempo,sem benefícios. As gerações que as
aqui analisado. Não fosse a necessidade do autor po- inauguram não recolhem seus frutos, se os há, porque
lemizar com o utilitarismo, presente em Adam Smith e vêm demasiado tardio. Elas só têm o trabalho. Em
nos economistas clássicos da época, não teria esse conseqüência, não é a espera de uma felicidade maior o
segundo livro tanta relevância. Isso porque o argumen- que impulsiona tais empresas. Mas, em realidade, será
to central do capítulo 1 desse segundo livro, "os pro- certo que a felicidade do indivíduo se acrescenta, à
gressos da divisão do trabalho e os da felicidade", medida que o homem progride? Nada é mais duvidoso"
provocaria um certo sarcasmo em qualquer estudante (p.206).
de Ciências Sociais. Nada seria mais carregado de ceticismo do que esse
Durkheim busca aqui a desqualificação das teses pensamento de Durkheim, que acaba por revelar que a
sobre o valor de uso social dos bens materiais produ- industrialização, ao final, anda passo a passo com a
zidos, de autoria de Adam Smith. Não pretende dialo- perda de perspectiva de satisfação das necessidades,
gar com esses teóricos dos empreendimentos imediatamente vivida pelos indivíduos produtores.
industriais capitalistas, e talvez por essa mesma razão Páginas adiante, Durkheim refere-se pela primeira
não dê a mínima atenção para a controvérsia que se vez à Sociologia como ciência social, que "...deve
desenrolava a seus olhos, entre Proudhom e Marx, ou renunciar resolutamente a comparações utilitárias, nas
entre esse último e os economistas clássicos. Sim- quais, freqüentemente, se compraz" (p.213). Para ele
plesmente rejeitava o pressuposto da utilidade do tra- os individuos não provocam mudanças de espécie
balho, pois isso se tratava de exercício da consciência

-37-
DEPARTAMENTODESOCIOLOGIA 1996 UNESP - FCL

alguma; as causas de toda evolução localizam-se fora 5o. As causas dos fenômenos sociais só são perceptí-
deles, no "meio que os rodeia". Daí a necessidade de veis pelos sintomas que apresentam;
se assumir um novo pressuposto, qual seja, de que 6o. A natureza das transformações da divisão do trabalho
devemos buscar as causas das mudanças nas "... con- só pode derivar "...na razão direta ao volume e à
dições originais no meio social,(pois), as variações densidade das sociedades e ...progride de uma maneira
que ali se produzem, são as que provocam essas pelas continua no transcurso do desenvolvimento soci-
quais passsam as sociedades e os indivíduos". Aqui ele al...porque as sociedades se tornam mais densas,...,
define a primeira regra metodológica que passaria a mais volumosas" (p. 223);
aplicar, no estudo dessas "causas" - capítulo II - Livro
7o. A especialização no interior da divisão do trabalho
Segundo - da "interdeterminação progressiva da
deriva da presença dos meios de sobrevivência à dis-
consciência comum" - da "herança " como obstáculo
posição dos indivíduos, que determinam as diferenças
ao progresso da divisão do trabalho, até atingir outro
de atitudes individuais no trabalho. A especialização é
patamar lógico, outro plano de abstração, onde irá
autônoma, perante os indivíduos, pois, é a função da
situar a divisão do trabalho perante os fenômenos da
divisão do trabalho que se especializa, não cada pes-
civilização. Se a ciência social deve evitar qualquer
soa;
comparação utilitária, a divisão do trabalho não
resulta do interesse deste ou daquele indivíduo ou 8o. A especialização progressiva e crescente das tare-
grupo, desta ou daquela época. Isso porque a fas realizadas no interior da divisão do trabalho de-
felicidade de cada um implica apenas "...numa pende do valor que tem para cada indivíduo, se temos
harmonia suficiente entre o conjunto do necessidade dos meios disponíveis à sobrevivência dos
desenvolvimento de suas diferentes faculdades e o indivíduos solidários e cooperantes presentes no inte-
sistema local de qualquer circunstância que domina rior de cada sociedade;
sua vida..." que, para tanto, dispensa o recurso a 9o. Há uma concorrência prevista na divisão do traba-
"...situações sociais cujo total acercamento é lho entre produtores que se assemelham, entre fabri-
absolutamente impossivel" (idem). Isto é. o recurso à cantes de seda, entre produtores de vinho, etc... Mas
história de distintas populações para fundamentar a entre uns e outros ocorre, ao contrário, complementa-
explicitação de suas necessidades só pode ser retórico riedade. O vinicultor coopera com o tecelão e assim
ou mera ilustração, sem maior significado. por diante;
No capítulo II, encontramos os pressupostos bási- 10o. Toda empresa compete com outra para recolher
cos do autor para o desenvolvimento de uma Sociolo- do mercado maiores espaços para sua realização. As
gia da divisão do trabalho. Passamos a alinhá-los pequenas tendem a desaparecer e será no interior das
para, ao final, comentá-los de uma só vez: grandes que se expandirá a divisão do trabalho; 11o.
1o. A divisão do trabalho só evolui pelas variações do As classes sociais existem enquanto produtoras
meio social; especializadas; seu progresso, bem como o das elites,
2o. O efeito - no caso, a divisão do trabalho - atua derivam do "aumento da vivacidade e da competição"
sobre as causas, que a movem, mas não perde sua (P-231).
condição de efeito. Sua ação será sempre secundária; 12o Os progressos da divisão do trabalho "...estão em
3o. As relações sociais são entendidas sempre imedia- harmonia com as mudanças que realizam no homem, e
tamente, como relações interpessoais: "...o número é o que permite que perdurem" (p. 233). Esse é o cará-
das relações sociais aumenta geralmente com o dos ter socialmente dominante da divisão do trabalho;
indivíduos" (p. 222); 13o Em conclusão: toda condensação da massa social
4o A densidade dinâmica da sociedade coincide com (indivíduos produtivos especializados), sobretudo se
sua densidade moral. Os progressos da divisão do está acompanhada de um acréscimo da população,
trabalho são diretamente proporcionais ao progresso determina, necessariamente, progressos na divisão do
moral da sociedade; trabalho" (p. 227; grifo meu).

-38-
ESTUDOS DE SOCIOLOGIA N° 01 AUGUSTO CACCIA-BAVA JÚNIOR

14o A vida coletiva deu origem à vida individual, Mas o que pretendia Sorel era excluir a
pois a individualidade pessoal das unidades sociais consciência individual do universo de fenômenos
forma-se sem desagregar a sociedade. significativos, à semelhança de Durkheim. E quem o
No discurso durkheimiano, o universo das relações afirma é Gramsci (1989). Aqui vale uma breve
cotidianas no interior de uma fábrica é sereno : "...a digressão.
divisão do trabalho é um resultado da luta pela vida, Gramsci, definindo o mito soreliano, afirma:
mas com um desenlace suavizado...efetivamente gra- "...uma ideologia política que se apresenta...como uma
ças a ela, os rivais não estão obrigados a eliminarem- criação da fantasia concreta que atua sobre um povo
se mutuamente, pois podem coexistir, uns ao lado dos disperso e pulverizado para despertar e organizar a sua
outros" (p. 229). vontade coletiva". O mito se localizava ainda fora da
Por isso ele adere à tese de Sorel, expressa em sua organização política dos trabalhadores, no nível sindi-
obra Le Europe et Ia Revolution Française, quando cal, "...na ação prática do sindicato e (na)...vontade
afirmava que "há um preconceito que deve desfazer- coletiva já atuante...", onde o seu caráter positivo se
se. É o de representar a Europa do antigo regime afirmaria nos momentos do "...acordo alcançado nas
como uma sociedade de Estados regularmente vontades associadas, uma atividade que não prevê uma
constituída, onde cada um ajustava sua conduta a fase própria "ativa e construtiva" ". A vontade coleti-
princípios reconhecidos por todos, onde o respeito va, para Sorel, tinha a força da consciência coletiva
pelo direito estabelecido governava as transformações para Durkheim, as quais pulverizadas, encontrar-se-
e ditava os tratados, onde a boa fé dirigia sua íam nas consciências e vontades individuais.8
execução, onde o sentimento de solidariedade das A função da Sociologia como ciência particular era
monarquias assegurava, ao manter-se a ordem pública, encontrada nesse contexto histórico. Ela estava, para
a duração dos compromissos contraídos pelos Durkheim, apenas em condições de "guiar-nos na
príncipes...uma Europa onde os direitos de cada um solução de... problemas práticos", não necessitando
resultam dos deveres de todos era algo tão estranho debruçar-se sobre questões relativas à finalidade dos
para os homens do antigo regime que foi necessária atos individuais ou de seus meios. Os atos, na sua
uma guerra de um quarto de século, a mais formidável exterioridade, já diriam muito. (Durkheim, p. 288).
que assistimos, para impor-lhes a nação e demonstrar-
Durkheim poderia encerrar sua obra à essa altura,
lhes a necessidade dos mesmos (deveres). A tentativa
tendo polemizado com os juristas da época, com a
vivida no congresso de Viena e nos congressos
Psicologia subjetivista, com Wundt e sua teoria sobre
seguintes para dar à Europa uma organização
os fundamentos fisiológicos dos comportamentos
elementar foi um progresso e não um retorno ao
individuais, tendo aderido a Sorel, como referência
passado". (Sorel, citado por Durkheim, p. 238).
política, e a Morgan, autor de Ancient Society. Contou
Durkheim associa-se ao pensamento de Sorel, no com as teses de Schmoller, autor contemporâneo seu
aspecto da necessidade do controle social do Estado de La division du travail étudié au point de vue histo-
sobre os indivíduos, na perspectiva de compartimen- rique, e ainda com antropólogos, para além das teorias
tar, segundo princípios coerentes e coesos, a Europa e de Spencer e Comte.
o interior de cada uma de suas sociedades. Isso por-
Mas ele se encontrava na França das lutas de classe
que, "...para que o controle social seja rigoroso e para
do século XIX, que o levaram a reconhecer que uma
que a consciência comum se mantenha, é necessário
crise industrial e comercial se pronunciava: "...de 1845
que a sociedade esteja dividida em compartimentos
a 1869, as quebras aumentaram uns 70%...o antago-
bastante pequenos que envolvam completamente o
nismo do trabalho e do capital (avançaram) à medida
indivíduo ; do contrário, um e outro se debilitam à
que as funções sociais iam se especializando mais, a
medida que estas divisões se diluem" (p. 255). Evitar
luta se tornava mais viva, ainda que a solidariedade
as grandes cidades, as massas concentradas, as multi-
aumente" (p.302). Mas esses fenômenos eram estra-
dões de indivíduos aglomerados eram razões para que
nhos à divisão do trabalho propriamente dita. Por isso,
se exercitasse o controle social.
pode ser considerado o lado pobre da obra, seu aspecto
mítico, ideológico e preconceituoso. Seria
interessante,

-39-
DEPARTAMENTO DE SOCIOLOGIA 1996 UNESP-FCL

agora sim, confrontá-lo com o entendimento que Marx que é um fenômeno social. O que pretendia evidenciar
tivera do processo de desenvolvimento da divisão do era o aspecto moralmente mais sólido presente nas
trabalho na Europa e das lutas de classes na França. sociedades contemporâneas de seu tempo, que tinham
Ao citar Marx, traz apenas alguma passagem de sua no seu interior algo novo: massas de indivíduos
discussão sobre a porosidade do trabalho, quando não integrando-se à produção industrial. 6. As sociedades
atingido por significativa divisão do trabalho implan- fragmentadas correspondiam a distintos pressupostos
tada pela grande indústria: "...a divisão do trabalho jurídicos consolidados em normas de regulamentação
economiza todo...tempo perdido...segundo a expressão da sociabilidade e da solidariedade mecânica;
de Karl Marx, provavelmente através de Sorel, cerra
7. A Sociologia devia tornar-se ciência particular e não
os poros da jornada" (p. 333). Nada além.
apenas ramo de uma filosofia universalizante. Seu
objeto maior, no estudo da sociabilidade, seria a exte-
CONCLUSÃO rioridade das relações sociais, ditadas no universo da
cooperação e da solidariedade fundadas na divisão do
A época em que Durkheim escreveu Da Divisão do trabalho;
Trabalho Social, no ano de 1889, era marcada pela 8. A razão técnica emerge como núcleo articulador da
consolidação da grande burguesia industrial e da pro- sociabilidade, derivando aquela da concepção do
dução relizada nos distintos estabelecimentos fabris, autor da exterioridade perpétua dos fenômenos sociais
que surgiam gerando movimentos migratórios rumo às relevantes e a subordinação indefinida das
cidades, tornando-as densamente povoadas, além de consciências individuais àquela exterioridade;
politicamente agitadas. 9. A sociabilidade implica sempre em reciprocidade e
Mas Durkheim não se dispunha a obedecer a lógica na exclusão de antagonismos. A ruptura com o orga-
das disputas, que se realizavam no interior de antago- nicismo é de conteúdo, não de forma. Para Durkheim,
nismos de classes, mas à lógica do processo contínuo todas as funções da sociedade são sociais e não
de universalização da divisão do trabalho a partir da orgânicas. Surgem dessa ruptura os conceitos de tipos
grande indústria, da qual supunha resultar um processo coletivos e sistemas de funções diferentes e especiais.
cooperativo extenso, como uma solidariedade orgâni- Durkheim sem dúvida defendeu algumas teses
ca, enquanto função reguladora das sociedades onde através desses postulados. Alinhamo-las como nossas
essa predominava. Recuperemos seus passos.
conclusões finais:
1. A divisão do trabaiho é dominantemente uma função
1a. Considerava existirem tipos coletivos sustenta-
social, reguladora das instituições e mediação da
dos na solidariedade mecânica, que viviam um proces-
consciência moral coletiva na realização da coopera-
so de decadência. E, para ele, a desagregação social
ção e da solidariedade orgânica e mecânica;
não fazia história, só a coesão. Da mesma forma, o
2. A grande empresa industrial é o núcleo do novo individualismo pressuposto pelo liberalismo clássico
meio social e base da explicação dos movimentos tinha uma crise que não poderia ser datada. Daí a
populacionais urbanos; relevância que dava à análise da vida social sobre a da
3. A concepção organicista deve ser superada pela história das sociedades humanas. Para ele, o conserva-
contestação da concepção de homem perfeito e pela dorismo, "o histórico", era sinônimo de desagregação,
nova concepção de indivíduo habilitado, especializado já que não é humanamente determinado.
e competente; 2a. Considerava a função da divisão do trabalho
4. Na divisão do trabalho encontra-se impresso o seu como o fato social mais relevante do processo de in-
caráter necessariamente moral e o caráter social que dustrialização capitalista, sem o considerar evidente-
ao anterior se articula, e por isso mesmo, o aspecto mente como tal. Sendo tomada como agente de
moral deixa de ser absoluto; mudança sem ser sujeito, a divisão do trabalho fica
5. A classificação e a comparação como procedimentos
metodológicos decorrem do seu entendimento do

-40-
ESTUDOS DE SOCIOLOGIA N° 01 AUGUSTO CACCIA-BAVA JÚNIOR

circunscrita à lógica do chamado meio industrial, ELSTER, J. "Marxism, Funcionalism: the case for
regulador, desde sua instalação, das formas de socia- methodological individualism". In: Theory and
Society, no 11, 1982.
bilidade e solidariedade.
FARIA, V. (s/d) "Políticas de Governo e regulação da
3a. A vida para ele é derivada da regulamentação
fecundidade: conseqüências não antecipadas e
moral da sociabilidade. Se existe mais regulamenta- efeitos perversos". Campinas, Departamento de Ci-
ção, existe mais vida. ências Sociais, UNICAMP / CEBRAP, mimeogra-
4a. O trabalho antes de útil é necessário. Ele não se fado.
define por uma natureza que lhe é própria, mas pelo FERNANDES, F. Fundamentos empíricos da explica-
sentido moral que é atribuído à função da divisão ção sociológica - 4ª edição, São Paulo, T.A. Quei-
roz, 1980.
social do trabalho. As vontades individuais não estão
presentes no trabalho. O trabalho é servidão insupor- GRAMSCI, A. Maquiavel, a política e o estado mo-
derno. Tradução de Luiz Mario Gazzaneo. Rio de
tável.
Janeiro, Editora Civilização Brasileira, 1989.
5a. Só o meio social é relevante perante a existên- GIANOTTI, J. A. "A sociedade como técnica da razão:
cia de cada indivíduo; todos os indivíduos se relacio- um ensaio sobre Durkheim". In: Estudos 1. (Sobre
nam a partir desse meio social, a eles estranho e teoria e método em Sociologia). São Paulo, Edições
exterior às suas consciências individuais; CEBRAP - Brasileira de Ciências Ltda, 1971.
6a. Não há interesse individual ou grupal presente IANNI, O. "Paradigmas das ciências sociais". São
nos atos sociais, há valores morais coletivos em reali- Paulo, Unicamp, mimeografado, 1989.
zação. MANNHEIM, K. "O significado do conservadorismo"
In: Foracchi, Maria Alice (org.) e Fernandes, Flo-
A contestação teórica de suas teses, necessária se- restan (coord.) Mannheim. Coleção Grandes Cien-
gundo pensamos, deveria partir exatamente da explici- tistas São Paulo, Editora Ática, 1962.
tação do caráter capitalista da divisão do trabalho, MARX, K. As lutas de classes na França: 1848 -1850.
construída desde os economistas clássicos, por ele São Paulo, Editora Global, 1986. Com introdução
repudiados, até os críticos daqueles, como os autores de Friedrich Engels.
de O Capital e de A Situação da Classe Trabalhadora YTURBE, C. "Individualismo y marxismo: Marx visto
na Inglaterra, Marx e Engels, este último seu contem- por Elster". In: Revista Mexicana de Ciências Po-
porâneo. Esse ponto de partida não é arbitrário, é antes líticas y Sociales. México, UNAM, n° 127, janeiro
necessidade lógica para a distinção ou delimitação do e março, 1978.
universo teórico do autor aqui analisado.

1
Trata-se de Durkheim, Emile De Ia Division del Trabajo
INDICAÇÕES BIBLIOGRÁFICAS Social. Tradução do francês por David Maldavsky. Buenos
Aires, Editorial Schapire SRL(1967). Como percorreremos
praticamente o livro todo, quando a ele nos reportarmos
BUROWOY, M. "Toward a marxist theory of the faremos referência apenas à numeração da página, estando
labour process: Braverman and beyond". In: Poli- implícita a obra a que se refere.
tics andSociety, n° 3-4, 1978. 2
Para a compreensão desse período, um texto privilegiado é
o de Marx, KarI (1986) As Lutas de Classes na França: 1848-
DURKHEIM, E. De Ia division del trabajo social.
1850. São Paulo, Editora Global. É preciosa, também a
Tradução do francês por David Maldavsky. Buenos introdução que a ele faz Engels, que gerou enorme contro
Aires, Editorial Schapire SRL, 1967. vérsia junto às forças democráticas européias, nos anos de
1885 e seguintes, exatamente à época em que Durkheim
DURKHEIM, É. As regras do método sociológico. divulga suas teses inscritas na "Da Divisão...''. Sobre a dis
Nova tradução de Maria Isaura Pereira de Queiroz, tinção entre tradicionalismo e conservadorismo, é também
5a edição, São Paulo, Editora Nacional. 1968. esclarecedor o texto de Mannheim, KarI (1962) "O significado
do conservadorismo". In: Foracchi, Maria Alice (org) e Fer
ENGELS, F. A situação da classe trabalhadora na nandes, Florestan (coord) Mannheim. Coleção Grandes
Inglaterra. Tradução de Rosa C. Artigas e Regi- Cientistas. São Paulo, Editora Ática, (1982) parte II, capitulo
naldo Forti. São Paulo, Editora Global, 1985. 5.
3
Esse raciocínio é válido para o funcionalismo exercitado,
enquanto método até nossos dias, de forma elevada, onde

-41-
DEPARTAMENTO DE SOCIOLOGIA 1996 UNESP-FCL

os seus adeptos substituíram o termo "regiões" por "vetores


institucionais", ou mesmo "arenas" de decisão Veja-se, por
exemplo, Faria, Vilmar (s/d) "Políticas de Governo e Regulação da
Fecundidade: conseqüências não antecipadas e efeitos perversos".
Campinas. Departamento de Ciências Sociais, UNICAMP,
CEBRAP, mimeografado. 4 Foi Birbaum que esclareceu, na
apresentação das conferências de Durkheim sobre o Socialismo, que
"as lutas sociais alcançavam assim, uma grande intensidade, em
1886, no mesmo momento em que Durkheim redigia seu primeiro
esboço da Divisão do trabalho social. À época, estouravam as duras
greves de Decazeville". Citado de Durkheim, E. El Socialismo.
Tradução de Idea Vilarino, Uruguai, Editorial Schapire SRL,
(1972), p. 8. 5A obra referida é do romancista Balzac, H. (1978)
Ilusões Perdidas. São Paulo, Abril Cultural. Ela foi escrita entre os
anos de 1834 e 1843. A passagem citada encontra-se à página 30.
6
Ver nesse sentido, Gianotti, José A. "A sociedade como
técnica da razão: um ensaio sobre Durkheim". In: Estudos 1
- Sobre teoria e método em Sociologia. São Paulo, Edições
CEBRAP, Brasileira de Ciências Ltda., (1971), pp. 47 a 98.
7
Em nossos dias, a perspectiva contratual passou a ser
contabilizada em termos de relação custo-beneficio social,
ao se projetarem demandas corporativas, no universo de
cada unidade industrial. Essa contabilidade vem sendo en
volvida num quadro teórico denominado "teoria dos jogos", e
há farta literatura a ser consultada, dentre outras: Elster, Jon
"Marxism, Funcionalism: the case for methodological indiví-
dualism". In: Theory and Society. no. 11, (1982) Uma sinté
tica argumentação crítica encontra-se em Burowoy, M
"Toward a marxist theory of the labour process: Braverman
and beyond" In: Politics and Society. no 3-4, (1978) e em
Yturbe, Corina "Individualismo y marxismo: Marx visto por
Elster" ln:fiewsfa Mexicana de Ciências Políticas y Socia-
les". México, UNAM, no. 127, janeiro e março, (1978)
8
Gramsci, Antônio Maquiavel, a Política e o Estado Moderno.
Tradução de Luiz Mario Gazzaneo. Rio de Janeiro. Editora
Civilização Brasileira. 1989. Especialmente parte I A citação
é das paginas 4 e 5.

-42-