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XXVIII ENCONTRO NACIONAL DE ENGENHARIA DE PRODUÇÃO

A integração de cadeias produtivas com a abordagem da manufatura sustentável.


Rio de Janeiro, RJ, Brasil, 13 a 16 de outubro de 2008

AVALIAÇÃO ENERGÉTICA DO
BAGAÇO DE CANA EM DIFERENTES
NÍVEIS DE UMIDADE E GRAUS DE
COMPACTAÇÃO
Marcelo Bacci da Silva (UNIMINAS)
marcelob@uniminas.br
Anderson dos Santos Morais (FAZU)
andersonneea@fazu.br

A grande oferta de bagaço de cana-de-açúcar, bem como sua potencial


energia disponível, vem tornando-o cada vez mais objeto de estudo,
afim de encontrar formas alternativas de aproveitamento dessa energia
disponível. Este artigo apresenta uuma análise energética feita no
bagaço de cana-de-açúcar, em diferentes níveis de umidade e graus de
compactação, numa granulometria pré-fixada para confecção de
briquetes (finos compactados). O trabalho foi desenvolvido com o
objetivo de analisar o desempenho energético do bagaço de cana-de-
açúcar, em cada nível de umidade e em cada grau de compactação,
considerando sua relevância no processo de briquetagem
(densificação) e comparar as densidades energéticas obtidas no
experimento com a do bagaço in natura. Observou-se, pelos resultados
obtidos, que o processo de briquetagem pode ser eficiente se
respeitados alguns critérios de fabricação, como: umidade, grau de
compactação (densidade) e granulometria do bagaço, bem como
densidade energética do briquete produzido. Após sua confecção, o
mesmo tem considerável aumento no valor energético comercial.

Palavras-chaves: Bagaço de cana-de-açúcar, poder calorífico, matriz


energética
XXVIII ENCONTRO NACIONAL DE ENGENHARIA DE PRODUÇÃO
A integração de cadeias produtivas com a abordagem da manufatura sustentável.
Rio de Janeiro, RJ, Brasil, 13 a 16 de outubro de 2008

1. Introdução
Há várias décadas, em alguns países da Europa e na América do Norte, a briquetagem tem
sido utilizada e consiste em um processo bem desenvolvido e difundido, sendo de expressiva
utilização industrial e comercial. A história da briquetagem teve início a partir da escassez de
combustível e energia sofrida pela população européia, durante a I Grande Guerra Mundial,
evoluindo muito até a atualidade (ALBUQUERQUE, 1997).

Apesar do pouco conhecimento e do baixo emprego do briquete no país, o Brasil apresenta


um potencial promissor a ser explorado, o que permitiria o aproveitamento mais racional
dessa energia disponível, reduzindo o atual desperdício de resíduos industriais e agrícolas.
Como conseqüência, haveria a possibilidade da redução do custo da energia consumida nos
setores industrial e doméstico, além de uma provável redução nos níveis de poluição,
resultando na substituição dos combustíveis fósseis por renováveis de origem vegetal, no caso
os briquetes.

A briquetagem é um processo alternativo de aproveitamento da biomassa. Esse processo


consiste em densificar a biomassa, gerando mecanicamente um aquecimento, que provoca a
“liquefação” da lignina presente, que atua como agente aglomerante, dispensando a adição de
outro agente aglomerante (ALBUQUERQUE, 1997).
Diante da necessidade de viabilizar formas alternativas e eficientes de aproveitamento da
biomassa (bagaço de cana) excedente das usinas de álcool e açúcar, o presente trabalho tem
por objetivo o estudo de dois aspectos que limitam o seu uso (energético) na forma in natura,
a umidade e a baixa densidade, efetuando a otimização do processo.

Dentre os combustíveis sólidos renováveis, a lenha e o carvão vegetal apresentam números


relativamente importantes em termos de consumo, principalmente nos setores residencial e
industrial, onde a lenha aparece com respectivamente 28% e 8% do consumo total do setor e o
carvão vegetal um valor de 7% do consumo no setor industrial, onde, ao lado do coque
redutor importado, é utilizado principalmente em siderúrgicas como redutor na produção do
aço (ROMEIRO, 2004).

Uma solução viável no sentido de se diminuir a exploração de florestas é a utilização racional


e eficiente de resíduos agro florestais, subprodutos vegetais de culturas alimentícias,
agroindústrias ou de exploração de florestas, que não são utilizados diretamente como
energéticos por possuírem em geral baixa densidade, alta umidade, formato geométrico
indesejado e baixo poder calorífico, sendo necessários, portanto, processamentos com o
objetivo de aumentar a eficiência de utilização desses insumos, o que em muitos casos se
torna vantajoso devido aos baixos custos de obtenção desses resíduos (MAYER, 2007).
O problema de se verificar a disponibilidade e potencial dos resíduos agros florestais é que
dificilmente são efetuadas pesquisas para quantificá-los, como é efetuado com outros insumos
energéticos, onde se quantificam recursos e reservas (petróleo, carvão mineral, gás natural) ou
produção anual (cana-de-açúcar, culturas alimentícias). É necessário, portanto, em grande
parte dos casos, estimar-se a disponibilidade dos resíduos. A maioria dessas estimativas pode
ser considerada de razoável aceitação quando o objetivo é obter uma ordem de grandeza do
potencial real desses resíduos.

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As principais propriedades para caracterização energética de biomassas em geral são: Poder


Calorífico – PC (kJ/kg), densidade (kg/m³) e composição, onde o poder calorífico é
classificado em dois tipos:
- Poder Calorífico Superior - PCS: Poder Calorífico em base seca, onde não se leva em
consideração o calor associado à condensação da água formada em reação com o hidrogênio
contido na biomassa.
- Poder Calorífico Inferior (PCI): É calculado subtraindo do PCS o calor associado com a
condensação do vapor de água formado pela reação do hidrogênio contido na biomassa.
Durante a determinação do PCI deve-se levar em consideração o teor de umidade presente.

O bagaço de cana é um subproduto resultante da extração do caldo da cana-de-açúcar em


usinas ou destilarias na produção de álcool etílico e açúcar. Pode ser considerado atualmente
como o principal resíduo agrícola brasileiro, devido à expansão na produção de álcool. A
maior parte do bagaço produzido é utilizada na própria usina na geração de vapor para o
suprimento de energia de seu parque industrial (LORA, 2004). O bagaço de cana in natura
resultante do processo de moagem apresenta aproximadamente umidade de 50% b.u. e
densidade aparente de 120 kg/m³ (PETROBRÁS, 1982).

Define-se briquetagem como um processo no qual pequenas partículas de material sólido são
prensadas para formar blocos de forma definida e de menor tamanho. Através desse processo,
subprodutos de beneficiamento agro florestal, agroindustriais e finos de carvão convertem-se
em um material de maior valor comercial que é o briquete (ANTUNES, 1982). Os parâmetros
esperados para o briquete são: resistência mecânica, resistência ao impacto, baixa
higroscopicidade, alta densidade, boas propriedades de queima e alto poder calorífico.

2. Materiais e Método
O presente trabalho apresentou uma parte experimental conduzida no Laboratório de
Operações Unitárias do Núcleo de Excelência de Engenharia de Alimentos – NEEA da FAZU
- Faculdades Associadas de Uberaba, e foi realizada em três etapas: secagem e caracterização
dos conteúdos de umidade; caracterização dos graus de compactação e análise do poder
calorífico, esta feita na Fundação Centro tecnológico de Minas Gerais – CETEC – Belo
Horizonte MG.
2.1 Secagem

O objeto de estudo deste trabalho foi o bagaço de cana, com densidade mássica aparente de
aproximadamente 100 kg/m3, PCS a 50% de umidade da ordem de 2.275 kcal/kg e densidade
energética aparente de 227,5 Mcal/ m3. Como o bagaço se encontrava com uma umidade
relativamente alta, optou-se por secá-lo, para obter níveis de umidade variáveis, e relacioná-
los com outros parâmetros.

Nesta fase foram obtidos os seguintes conteúdos de umidade: 50, 30, 20, 10 e 0% de umidade,
com o auxílio de uma estufa de secagem na temperatura constante de 105ºC. Em seguida, foi
construída a curva de secagem para o bagaço processado, como mostra a Fig. 1. O conteúdo
de umidade em função do tempo de secagem foi ajustado pela equação (1) a seguir, com
coeficiente de correlação de 0,9929:

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X = −1,7904.t + 51,5798 (1)

Onde se tem 60.00


que:
X = Conteúdo de Umidade (%)
t = Tempo de Secagem (min). Y = -1.79404 * X + 51.5798
Coef of determination, R-squared = 0.992907
Grau de Umidade (%)

40.00
Conteúdo de umidade (%)

20.00

0.00

0.00 10.00 20.00 30.00


Tempo (Min)
Tempo (min)

Figura 1. Curva de secagem do bagaço de cana.

Esse comportamento linear pode ser explicado pelo fato do bagaço estar significativamente
pulverizado com diâmetro médio de aproximadamente 0.9 mm. Isto ocorre porque a
superfície de contato é aumentada e, consequentemente, a retirada de água fica mais
facilitada.

2.2 Compactação

Neste processo foram caracterizados quatro graus de compactação, formando unidades com
densidades de: 1000, 1200, 1300 e 1400 Kg/m3 conseguidos após estudos das técnicas do
principal fabricante de briquetes do país, LIPPEL. Este processo consiste em densificar a
biomassa com o auxílio de prensas hidráulicas. Estes graus de compactação são os mais
utilizados para a fabricação de briquete de biomassa advinda da madeira e, extrapolando
este processo para o bagaço de cana, as respostas são praticamente iguais, uma
vez que suas características físicas também são parecidas.

2.3 Poder calorífico

O poder calorífico do bagaço de cana foi analisado pelo Centro Tecnológico de Minas
Gerais – CETEC, segundo os critérios estabelecidos pela Associação Brasileira de
Normas Técnicas – ABNT, constantes da NBR – 8633/84, indicada para o carvão vegetal,
podendo ser adaptada para qualquer combustível sólido e também para o bagaço. Este

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ensaio foi feito usando metodologia utilizada pelo laboratório de metrologia e ensaios com
o auxílio de uma bomba calorimétrica, conforme apresentada na Fig. 2.

Figura 2. Calorímetro.

3. Resultados e Discussão

Os resultados descritos neste item correspondem aos ensaios experimentais realizados com
bagaço de cana-de-açúcar da safra de 2004/2006.

A Tabela 1 mostra os resultados obtidos na análise do poder calorífico superior em cada nível
de umidade e, como esperado, nota-se considerável acréscimo com a diminuição da umidade.
Passando a umidade de 50% para 0% consegue-se um incremento energético da ordem de
92%, sendo que 60% são conseguidos reduzindo a umidade para 20%. Então, pode-se dizer
que o bagaço de cana-de-açúcar com umidade em torno de 20% é mais viável de ser utilizado
para o aproveitamento energético. Processos de secagem são onerosos e para produção de um
bagaço mais seco, o consumo de energia para sua produção pode inviabilizar o processo.

Tabela 1. Poder calorífico superior (PCS) x umidade.

Poder calorífico Superior (kcal/kg) Umidade (%)


4360 0
3985 10
3641 20
3145 30
2275 50

PCS pela densidade aparente do bagaço de cana-de-açúcar, decai com o aumento da umidade
e como esperado, o briquete de melhor desempenho energético entre os estudados é o que

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possui o grau de compactação da ordem de 1400 kg/m3.


Para relacionar o consumo de energia nos diferentes graus de compactação e umidade, no
presente trabalho propõe-se a criação de um número adimensional intitulado de Poder
Calorífico Relativo – PCR (dado em porcentagem) e caracterizado pela equação: PCR =
(PCS - Ec) / 100 PCS, onde Ec = Energia consumida. O resultado é mostrado na Fig. 3.
Poder calorífico relativo, PCR (%)

1000 (kg/m3)

99

1200 (kg/m3)

98

1300 (kg/m3)

1400 (kg/m3)

97

0 10 20 30 40 50
Umidade
Figura 3. Correlação entre poder calorífico relativo e umidade.

Fazendo uma analise econômica, observa-se na Fig. 3 que o grau de compactação que menos
consome energia na compactação é o que possui o maior PCR, sendo então,
consequentemente o de 1000 kg/m3 que também é o que menos sofre influência da umidade,
dado pelo grau da curvatura da curva.
Observa-se na Fig. 4 um comportamento linear e crescente da densidade energética com o
aumento do grau de compactação. Comparando esses resultados com o do bagaço de cana-de-
açúcar “in natura”, que possui uma densidade mássica aparente de 100 kg/m3, PCS a 50% de
umidade na ordem de 2.275 kcal/kg e densidade energética aparente de 227,5 Mcal/ m3,
observa-se que há um aumento considerável da densidade energética, da ordem de 1300%,
sendo que 900% são conseguidos até o grau de compactação de 1000 kg/m3.
7000

0 % umid
Densidade energética, De (Mcal/m3)

6000
10 % umid

20 % de umid

5000

30 % umid

4000

50 % umid

3000

2000
6
1000 1100 1200 1300 1400
Densidade Mássica (kg/m3)
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Figura 4. Correlação entre densidade energética e densidade mássica.


A Tabela 2 apresenta os valores do poder calorífico nos diferentes graus de umidade e em
cada grau de compactação.
Os resultados aqui apresentados mostram um bom desempenho do bagaço de cana-de-açúcar
frente às questões energéticas, e também que os principais inconvenientes de seu uso podem e
devem ser trabalhados com a finalidade de torná-lo um combustível sólido limpo, renovável e
eficaz.
TABELA 2 – Valor energético em diferentes níveis de umidade e densidade.

Umidade (%) Densidade energética (Mcal/ m3) Densidade Mássica (kg/m3)

4360 1000
5232 1200
0 5668 1300
6104 1400

3985 1000
4782 1200
10 5180 1300
5579 1400

3641 1000
4369 1200
20 4733 1300
5097 1400

3145 1000
3774 1200
30 4088 1300
4403 1400

2275 1000
2730 1200
50 2958 1300
3185 1400

4. Conclusões

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O bagaço de cana-de-açúcar, por se tratar de uma biomassa relativamente de baixo custo, é


uma das principais alternativas para se produzir energia limpa, principalmente diante do fato
de que em algumas décadas os combustíveis de origem fóssil estarão cada vez mais escassos.
Sua resposta em quantidade energética na forma “in natura” é relativamente aceitável, porém,
se utilizado de forma mais racional, seus benefícios para a sociedade poderão ser bem
melhores.

Um dos principais fatores positivos pelo uso racional do bagaço de cana-de-açúcar é a


diminuição do impacto ambiental que o mesmo causa, como a mitigação de emissão de
carbono da atmosfera e a redução do efeito estufa, sem falar dos benefícios para a economia
do país. O panorama estabelecido no cenário atual sinaliza que as fontes de energia
renováveis devem assumir papel crescente na matriz energética mundial, forçada pela
perspectiva de redução das reservas de combustíveis fósseis e, cada vez mais, por questões
ambientais. Entre as inúmeras fontes renováveis de energia, o bagaço de cana-de-açúcar
mostra-se como uma alternativa bastante promissora.

Neste contexto, a utilização de fontes alternativas de energia, em particular os resíduos da


cana-de-açúcar, aparece como uma oportunidade de particular importância para colaborar na
oferta de energia para o país.

Diante dos resultados obtidos, pode-se dizer que no processo de aproveitamento energético de
bagaço de cana-de-açúcar vários fatores precisam ser considerados, principalmente a umidade
e o grau de compactação (densidade), que são os que mais influenciam e limitam o seu uso de
forma mais abrangente como fonte de energia. Nem sempre a escolha do melhor processo é a
mais evidente, haja visto que no presente trabalho foi observado o comportamento energético
do bagaço da cana-de-açúcar em diferentes níveis de umidade e graus de compactação e pôde
ser constatado que o grau de compactação e o nível de umidade ótimos são, respectivamente,
1400 kg/m3 e 20%, se considerado apenas as variáveis aqui relacionadas.

Referências

ALBUQUERQUE, C. E. C. ; ANDRADE, A. M. Visão histórica e perspectiva futura. Floresta e Ambiente.


Rio de Janeiro, v. 4, p. 104 – 109, 1997.

ANTUNES, R.C. Briquetagem de Carvão Vegetal. In:______. Produção e Utilização de Carvão Vegetal. Belo
Horizonte: CETEC, vol. 1, p. 197-206, 1982.

HOFFMAN, R. Método Avaliativo da Geração Regionalizada de Energia, Em Potências Inferiores a 1MW a


Partir da Gestão de Resíduos da Biomassa – O Caso da Casca de Arroz. Tese de Doutorado, PROMEC –
UFRGS, Porto Alegre, RS, 1999.

LORA, E. E. S.; NASCIMENTO, M. A. R. Geração Termelétrica: Planejamento, Projeto e Operação


(Volume 2). Rio de Janeiro, Editora Interciência, 2 vol., 1296 p., 2004.

MAYER, F. D.; CASTELLANELLI, C.; HOFFMAN, R. Geração de Energia Através da Casca de Arroz:
Uma Análise Ambiental. Em: Anais do XXVII Encontro Nacional de Engenharia de Produção (XXVII
ENEGEP), Foz do Iguaçu, PR, Brasil, 09 a 11 de outubro de 2007.

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ROMEIRO, A. R. Avaliação e Contabilização de Impactos Ambientais. Campinas: Editora Unicamp, 2004.

PETROBRÁS. Dados Técnicos de Biomassas. Rio de Janeiro: PETROBRÁS. Depto. Industrial - Divisão de
Fontes Energéticas Alternativas, N. 29, 65p., 1982.

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