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A morte

Introdução

Morrer, de acordo com o dicionário da língua portuguesa, é considerado um verbo neutro que
não exprime ação, mas um estado ou fenômeno, não sendo ativo ou passivo, e pode significar,
entre inúmeras coisas, deixar de viver, falecer.

A morte como fenômeno físico já foi exaustivamente estudada e continua sendo objeto de
pesquisas, porém permanece um mistério impenetrável quando nos aventuramos no terreno do
psiquismo.

Falar sobre morte, ao mesmo tempo que ajuda a elaborar a idéia da finitude humana, provoca
um certo desconforto, pois damos de cara com essa mesma finitude, o inevitável, a certeza de
que um dia a vida chega ao fim.

Desde muito cedo, ainda bebês, quando passamos a distinguir nosso próprio corpo do corpo da
mãe, somos obrigados a aprender a nos separar de quem ou daquilo que amamos.

O tempo todo ficamos tentando “levar vantagem” sobre a morte. Utilizamos de toda tecnologia,
invenções, inovações, progressos e artifícios que a Ciência e a Medicina nos proporcionam.
Tentamos a todo custo conquistar a juventude eterna. Mas ela, a “Dama da noite” o “Véu
Negro”, a “Foice” continuam lá, aqui e ali, nos espreitando de todas as direções...

A princípio, convivemos com separações temporárias, como por exemplo, a mudança de escola.
Mas chega uma hora, que acontece a nossa primeira perda definitiva: alguém que nos é muito
querido, um dia, se vai para sempre. É justamente esse “para sempre” que mais nos incomoda.
Porém, quanto mais conscientes estivermos de nossas mortes diárias, mais nos preparamos
para o momento da grande perda de tudo que colecionamos e nutrimos durante a vida: desde
toda a bagagem intelectual, todos os relacionamentos afetivos, até o corpo físico.

Lidar com a morte, apesar de ser a única certeza que acompanha o ser humano, significa lidar
com o que seria o próprio “fim” e dos entes queridos.

O ser humano lida com essas duas concepções em relação à morte: a morte do outro, da qual
todos nós temos consciência, embora esteja relacionada ao medo do abandono; e a concepção
da própria morte, a consciência da finitude, na qual evitamos pensar pois, para isto, temos que
encarar o desconhecido.

Ninguém crê em sua própria morte. Inconscientemente, estamos convencidos de nossa própria
imortalidade. Para o nosso inconsciente, a morte nunca é possível nem admissível quando se
trata de nós mesmos. A idéia da não-existência provoca tal desconforto que a mente humana
acaba criando alguns mecanismos de defesa para fugir dessa realidade. A negação da morte, a
repressão da idéia de morte e a causação fortuita são exemplos desses artifícios.

Segundo Freud (1917). “Nosso hábito é dar ênfase à causação fortuita da morte – acidente,
doença, idade avançada; desta forma, traímos um esforço para reduzir a morte de uma
necessidade para um fato fortuito.”

Angustias sobre a morte


“Não há lugar de onde ela não nos venha.
A morte é o objetivo de nossa caminhada, é o objeto necessário de nossa mira”.

A imagem da morte tem acompanhado o existir humano desde seu alvorecer, abrindo enorme
vazio diante da vida, representado por um aterrorizante não-ser inominável.

Não sabemos como vamos morrer. Morrer, como nascer, acontece uma única vez. Diante dessa
ignorância fundamental, podemos antecipar a morte por conjecturas, pela imaginação,
alimentada, ainda que incompletamente, por experiências cruciais, tais como a morte alheia, o
sofrimento, a doença e a velhice.

A morte, juntamente com o nascimento, a doença e a velhice, são as quatro aflições básicas da
condição humana. Elas são óbvias e inescapáveis, nas nossas experiências pessoais e nas
experiências de outras pessoas. Além disso, essas quatro aflições estão dentro das categorias
de maior sofrimento, as quais são vivenciadas por todos os seres. Um entendimento dos
fenômenos físicos, sensoriais e mentais do processo de morte pode ser muito proveitoso,
conforme a nossa própria morte se aproxima; pode também prover insights nas experiências dos
outros que estão morrendo.

Talvez o "inevitável" que envolve a morte, a despeito das variações sobre as formas e as
circunstâncias do morrer. Possivelmente esta última seja a causa da angústia (ou parte das
angústias) do ser humano: o desejar perpetuar-se e ter a certeza de que não o conseguirá; e o
que é pior, que nem tem em mãos o domínio das ocorrências em que a pessoa deixará de
compartilhar com os outros desse "vale de lágrimas".

É nos pequenos acontecimentos do dia-a-dia que a vida (e a morte) vai tecendo seus dramas.
Dentro da vida, espera-se que a natureza também se adeque e siga um script que sabe-se lá
quem elaborou. Dentro desse script, os mais velhos devem morrer antes dos mais novos, assim
como os mais bonitos devem morrer depois e serem mais pranteados que os mais feios; bem
como os mais honestos devem sofrer menos que os mais desonestos e corruptos; e os mais
ricos e importantes devem ser mais pranteados que os mais pobres... Isso é o lógico? Não, mas
nada impede que seja considerado assim. Pelo menos, no tocante à idade.

É a angústia gerada ao entrar em contato com a fatalidade da morte, que faz com que o ser
humano mobilize-se a vencê-la, acionando para este fim, diversos mecanismos de defesa,
expressos através de fantasias inconscientes sobre a morte. Muito comum é a fantasia de existir
vida após a morte; de existir um mundo paradisíaco, regado pelo princípio do prazer e onde não
existe sofrimento; de existir a possibilidade de volta ao útero materno, uma espécie de parto ao
contrário, onde não existem desejos e necessidades. Ao contrário dessas fantasias prazerosas,
existem aquelas que provocam temor. O indivíduo pode relacionar a morte com o inferno. São
fantasias persecutórias que têm a ver com sentimentos de culpa e remorso. Além disso, existem
identificações projetivas com figuras diabólicas, relacionando a morte com um ser aterrorizante,
com face de caveira, interligado a pavores de aniquilamento, desintegração e dissolução.

Pensar no morrer incomoda, porque viver também incomoda, afinal o homem vive em busca de
um significado para a vida e tenta inutilmente encontrar significado “fingindo” que é imortal e que
a morte nunca vai chegar, pois com tal fantasia haverá muito tempo para procurar (e encontrar)
um sentido para a vida. Desta forma, nega-se a única e grande certeza que temos na vida:
SOMOS MORTAIS e podemos lidar bem ou mal com a morte, mas não podemos fugir dela.
Este na verdade é o maior desafio: não somos perfeitos, não somos imortais, não somos
deuses. Ficamos apegados a esta ilusão e sofremos. A ilusão de um contato perfeito que não
resiste ao tempo.

Negação da morte

Culturalmente, vários “valores” (?) contribuem para a negação da morte, seja o culto à eterna
juventude, a acumulação de bens, a busca da imortalidade ou o apego materialista, tudo isso
acaba fazendo com que a morte não seja aceitável de forma alguma.

O processo de morrer ou estar morto, a saudade que fica e a idéia do não existir ou a idéia de
ser um cadáver é ameaçador e muita vezes inimaginável.

A ilusão é a de que se fossemos capazes de afastar a morte, poderíamos dominar e controlar


todas as coisas, nos isentando de fazer contato com as dores, os limites, as fragilidades e as
situações inesperadas que a vida oferece.

A concepção de morte deve ser integrada à vida e não negada, pois havendo uma aceitação da
própria morte isto proporcionará um crescimento pessoal para lidar com a mesma.

A morte é uma realidade diária. Sabemos que morremos todos os dias, um pouquinho. Mesmo
assim, vivemos como a morte do outro. Sobre a “a minha morte” eu me preocupo amanhã. Na
verdade, o que mais preocupa o ser humano não é o “quando”, mas o “como” e “do quê” vai
morrer.

A morte é inevitável e atinge todos os homens, podendo chegar, ainda, a qualquer momento.
Temê-la constantemente pode nos paralisar, não se mostrando vantajoso, contudo, negá-la e
recusar-se a pensar no assunto. Não há idade para morrer, morrendo-se, ademais, por qualquer
motivo.

A negação da morte fomenta ainda mais o sofrimento, já que, quando, finalmente, se dá conta
de sua proximidade, o individuo é tomado pela dor e pelo desespero. Em vez disso, deve-se
imaginar a morte. Isso nos fortalece e enrijece. A virtude está ligada ao aprendizado da morte.

Medo da morte

“(...) Quem agüentaria fardos,


Gemendo e suando numa vida servil,
Senão porque o terror de alguma coisa após a morte –
O país não descoberto, de cujos confins
Jamais voltou nenhum viajante – nos confunde a vontade,
Nos faz preferir e suportar os males que já temos,
A fugirmos para outros que desconhecemos?”
(Hamlet).

O medo da morte é básico e está presente em todos. Nas sensações de insegurança, diante do
perigo, nos sentimentos de desencorajamento e de depressão, sempre está implícito o medo
básico da morte, um medo que sofre as mais complexas elaborações e manifesta-se de muitas
formas diferentes.
O medo da morte não é inato, mas é inerente ao desenvolvimento humano e atinge a todos.

Aparece na infância, a partir das primeiras experiências de perda. E tem várias facetas: trata-se
de um medo do desconhecido, somado ao medo da própria extinção, da ruptura da teia afetiva,
da solidão e do sofrimento.

Dependendo do nível de ansiedade da pessoa, o medo da morte se torna aterrorizante.


Dependendo da maturidade psicológica ou do envolvimento religioso e filosófico, o medo pode
se tornar menos intenso.

O que se teme, na realidade, não é tanto a morte, mas sim o processo de morrer: a
dependência, a impotência, o sofrimento, o desconhecido.

A morte pode significar o fim de tudo, incluindo valores e conceitos, e os medos relacionam-se
na maioria das vezes com o desconhecido. Podemos nos questionar para onde iremos? O que
acontecerá com o nosso corpo? Viverei após a morte? Por certo essas perguntas variarão e
dependerão das crenças religiosas e espirituais do indivíduo. Nota-se que, quanto mais valores
espirituais possuem, menos evidenciam medo acerca da morte.

Acredito que a questão principal sobre a morte e o morrer é o medo do desconhecido, é a dor de
não poder controlar algo que é infinitamente maior que o desejo humano. Diz o dito popular:
“Teme mais a morte, quem mais temeu a vida”. A pergunta que surge diante dessa questão e,
que cabe a cada um de nós encontrar uma resposta é: será que vivemos com desapego? Será
que lidamos bem com nossas “mortes diárias”? Será que lidamos bem com aquelas pequenas
questões que, por vezes, minam nossa satisfação perante a vida?

O medo da morte representa, na verdade, o medo da vida. Vida que deve ser enfrentada com
todos os seus percalços e desafios. A vida é o que é por aquilo que proporciona de crescimento
aos que assumem enfrentá-la – não aos que dela fogem. Muitos podem julgar que a vida deveria
ser bela, sem tropeços. Gostariam de vê-la asséptica. Mas deve-se buscar a vida, de forma livre,
pois pior que pensar em um ser humano morto é pensar em um ser humano com má
consciência, uma pessoa culpada.

Alivio e saídas

O ser humano ocidental vive o vínculo como se possuísse as pessoas com quem tem relações,
e quando entram em contato com a morte, esta passa a ser vivenciada como perda, e não como
rompimento inerente à existência.
A morte, destino inexorável de todo ser, é dificilmente absorvida pela civilização ocidental, que
diante do golpe narcísico mais contundente descobre caminhos tortuosos na doce ilusão de um
drible possível. Diante da morte não há negociação harmoniosa possível: ou ela é plenamente
aceita, ou nos cobra um pedaço de nossas vidas. São os nossos mortos-vivos que não nos
deixam em paz, ou melhor, somos nós que não os deixamos em paz.

Devemos perceber, entretanto, que as sensações estranhas da morte e a perda do suporte


familiar do corpo ainda serão muito difíceis. Por esta razão, é imperativo desenvolver um
reconhecimento inamovível da natureza absoluta que irá nos carregar através do tempo de
morte, não importa o que surja.
Esse tipo de conhecimento ajuda no processo de naturalização do acontecimento “morte”, pois
traz a idéia de que da mesma forma que o nascimento, a infância, a adolescência, a maturidade
e a velhice fazem parte dos estágios da evolução humana, a morte também se caracteriza como
outro estágio, o estágio final da evolução humana. Tendo em mente essas concepções, conclui-
se que a morte está presente em praticamente todos os momentos da vida, quer sejam
biológico, psicológicos, sociais ou espirituais, ou seja, um processo de mudança e
transformação.

Pesquisas demonstram que pessoas com forte grau de envolvimento religioso,


independentemente da crença, geralmente têm menos medo da morte. A fé ajuda a superar a
ansiedade em relação à idéia de finitude. Na religião o indivíduo convive melhor com a finitude
porque lá encontra certezas sobre por que vive, por que morre e o que acontece após a morte.

Independente da crença religiosa, a maioria das doutrinas ajuda a superar a angústia em relação
à idéia de finitude, ajuda a encontrar respostas sobre por que se vive, por que se morre e o que
acontece após a morte. Excetuando as crenças de teor punitivo, que normalmente atendem
mais a aspiração de vingança do ser humano rancoroso do que uma sólida base teológica, a
maioria das doutrinas conforta e consola diante da morte.

A maioria das religiões supõe uma outra vida que se segue à morte, existiria então uma
continuidade da mente, da alma, do espírito, enfim, haveria a continuidade de alguma coisa que
convalida a pessoa e a vida atuais. A visão espiritual da morte implica viver em função dessa
continuidade, a qual, além de nos tornar mais responsáveis pelas conseqüências dos nossos
atos, sugere a noção de desapego às coisas que deixamos com a morte.

Finalização

“Porque morrer é uma ou outra destas duas coisas. Ou o morto não tem absolutamente
nenhuma existência, nenhuma consciência do que quer que seja. Ou, como se diz, a morte é
precisamente uma mudança de existência e uma migração para a alma, deste lugar para
outro”.
Para quem não acredita na continuação da vida, a morte é o nada. E para quem acredita na
continuação da vida, a morte é a passagem desta existência para outra melhor.
Isso quer dizer que as duas maneiras de considerar o problema podem ser satisfatórias; para
quem não acredita na continuação da vida, a morte é o nada, é a ausência completa de
angústias e desesperos, portanto, ao contrário do sofrimento, é o fim das aflições. E, para
quem acredita na continuação da vida, a morte é a passagem desta existência para outra
melhor. De qualquer forma, a dor estaria na vida e não na morte.
Pensar na morte retira seu aspecto trágico: o inesperado, o desassossego do desconhecido.
Praticando-a, habituando-se a ela, tendo-a no pensamento, assimila-se que algo está por vir e
que nada poder ser feito em sentido contrário.
Reconcilie-se com a morte. Não por morbidez, não para se esquecer de viver, não porque seja
bom deixar de existir. Mas simplesmente porque ela vai acontecer e não somente com você –
mas com todos os que andaram, andam ou venham a andar sobre a Terra. A você e a mim,
portanto, resta apenas aprender a conviver com ela. Encará-la de frente, compreendê-la, admiti-
la. Em vez de tentar escamoteá-la, negá-la, escondê-la debaixo do tapete. E, quem sabe, assim,
sofrer menos com a visita que ela nos fará um dia e com os eventuais sinais da sua presença
que ela já tenha plantado ao nosso redor. Desejo uma excelente vida para você, caro leitor. E
uma boa morte.

O primeiro passo para conviver melhor com a idéia da morte é esquecer aquela imagem
medieval, um tanto tétrica, de um esqueleto coberto com uma capa preta carregando uma foice
afiada na mão. Talvez uma imagem melhor para a morte seja imaginá-la como o fim de uma
festa: você já sabia que ela teria que acabar em algum momento. E, pensando bem, talvez não
seja de todo mal que a festa termine. Você agüentaria dançar na pista para sempre? Por melhor
que seja a música, tem uma hora que seu corpo e sua mente pedem descanso. E aí, talvez, seja
o momento mesmo de sair da pista, serenamente, sem traumas, e dar lugar a quem está
chegando à festa cheio de gás.

As festas são isso, festas, comemorações efêmeras de pequenas e jamais definitivas vitórias
sobre a despedida final da vida. E seria por isso que a vida é bela, é que deve ser aproveitada
ao máximo, sem prejuízo a si próprio nem aos demais. Talvez quem não perceba isso já esteja
derrotado. Afinal, a vida é permanente vigília e combate, como imortalizou Gonçalves Dias:

Não chores, meu filho,


Não chores que a vida é luta renhida:
Viver é lutar!
A vida é um combate,
Que aos fracos abate,
Mas que aos fortes, aos bravos,
Só pode exaltar!!
(Gonçalves Dias, Canção do Tamoio).

Aprender a morrer é aprender a viver.

Que se viva enquanto há vida para ser vivida.

Eis o paradoxo que nos colocam diante dos olhos as grandes celebrações da vida: a busca do
constante adiamento com a morte, única certeza que a vida encerra em si, ou dentro da qual se
desenrola.

O ser humano ocidental vive o vínculo como se possuísse as pessoas com quem tem relações,
e quando entram em contato com a morte, esta passa a ser vivenciada como perda, e não como
rompimento inerente à existência.

A morte, destino inexorável de todo ser, é dificilmente absorvida pela civilização ocidental, que
diante do golpe narcísico mais contundente descobre caminhos tortuosos na doce ilusão de um
drible possível. Diante da morte não há negociação harmoniosa possível: ou ela é plenamente
aceita, ou nos cobra um pedaço de nossas vidas. São os nossos mortos-vivos que não nos
deixam em paz, ou melhor, somos nós que não os deixamos em paz.

Desejo uma excelente vida para você. E uma boa morte.

Morte em vida

Algumas experiências vivenciadas ao longo do desenvolvimento humano apresentam analogia


com a idéia de morte: separação, desemprego, doença e, até mesmo, acontecimentos que
trazem alegria, mas que provocam algum tipo de ruptura.

A separação pode ser vivenciada através de vários tipos de experiências, desde a separação
com a figura materna até a separação de namorados e de casais. Ela envolve aspectos
semelhantes ao luto; a diferença é que, na situação de luto, houve a morte concreta de alguém,
enquanto, na separação, não. Apesar disso, é preciso matar o outro dentro de si.

O risco da separação depende da possibilidade de se perder, junto com o perdido, o significado


da vida. É preciso, nesse momento, construir uma nova vida – agora, sem o outro; o que
significa elaborar a perda, retomar as atividades cotidianas, investir em novas relações.

A doença também é um tipo de morte. Em outras épocas, a doença teve uma fase glamourosa
(por exemplo: a tuberculose). A doença era vista como um refinamento, o sofrimento
dignificando o homem. Atualmente, ela é vista como fraqueza e punição, tendo em vista a
interrupção à produção. De qualquer forma, a doença coloca o indivíduo em contato com sua
fragilidade e finitude; ou seja, ele é afastado das suas atividades rotineiras, pode sofrer
paralisias, mutilações, enfrenta muitas vezes a dor ao longo do tratamento e percebe-se
enquanto ser mortal.

Ao longo do processo de desenvolvimento, convive-se com os pólos vida e morte. A passagem


de cada fase de vida (infância, adolescência, vida adulta e velhice) caracteriza-se por um
processo de morte simbólica ou morte em vida, na medida em que se perde características e
atividades de uma fase para iniciar uma outra e atingir, assim, uma nova vida.

Uma outra possibilidade de morte em vida está relacionada à ausência de poder e controle
sobre si e sobre a realidade. A falta de controle absoluto sobre o que ocorre e a falta de amparo
subjetivo, falta de recursos emocionais para agir, caracteriza um estado de apatia e tristeza
passiva desenvolvendo uma consciência de que nada podem fazer para mudar essa situação.

Assim, pode-se afirmar que existem várias "mortes" em vida. Embora não ocorra a morte
concreta, essas experiências possibilitam a reorganização e a ressignificação da vida.