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O que é e o que vale a economia social

19/5/2016, 12:43

O impacto da economia social é relevante no emprego e na produção de riqueza. O


terceiro setor está em debate e Observador perguntou a três protagonistas o que
distingue afinal a economia social.

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PAULO NOVAIS/LUSA
Autor

 Ana Suspiro
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Mais de 55 mil entidades, 260 mil trabalhadores e um contributo de 3,8% para o


Produto Interno Bruto (PIB) que resulta do trabalho voluntário, são alguns dos números
que mostram quanto vale a economia social em Portugal. Os dados mais recentes são
relativos a 2010, a primeira fez que se efetuou um estudo sobre o impacto do chamado
setor social ou terceiro setor na produção de riqueza.

Os dados elaborados em conjunto pelo Instituto Nacional de Estatística e a Cooperativa


António Sérgio para a Economia Social (CASES) revelam, ainda, que o setor
representava 5,5% do emprego total remunerado e respondia por 4,6% do total das
remunerações pagas na economia nacional. O estudo divulgado em 2013 calcula em
mais de 14 mil milhões de euros os recursos financeiros mobilizados pela economia
social, que vale 2,8% da produção nacional e 2,4% do pagamento da despesa de
consumo final. Outro dado a reter é a percentagem da população que faz trabalho
voluntário e que representava 11,5%.

O empreendedorismo e a economia social estão em debate entre os dias 19 e 21 de maio


com a presença de várias instituições, de fundações a associações, cooperativas,
autarcas e membros do governo, como os ministros da Economia e da Trabalho,
Solidariedade e Segurança Social. A iniciativa desenrola-se entre o Pavilhão Multiusos,
no Parque das Nações, e o auditório do Montepio.
Mas o que está para lá destes números? E o que cabe debaixo do grande chapéu da
economia social? O Observador colocou a pergunta a três protagonistas do setor. Afinal
o que é a economia social e o que a distingue das outras atividades.

Vice-provedor da Santa Casa da Misericórdia de


Lisboa, Edmundo Martinho.
A economia social integra o conjunto de atividades com expressão social e económica,
geridas por entidades sem fins lucrativos e que visam a satisfação de necessidades não
satisfeitas pelos mecanismos de mercado. Esta tentativa de definição, necessariamente
simplificadora, resume um universo de imenso dinamismo e potencial, seja pela
capacidade de disponibilizar respostas e serviços aos seus membros, seja às
comunidades em que nascem e de que emanam.

É na economia social que podemos encontrar a maior capacidade de responder a


novos desafios sociais e societais, inovando, avançando, juntando recursos e vontades,
em particular em áreas em que o combate às desigualdades e à exclusão e pobreza
exigem soluções solidárias e de mobilização das comunidades.

Na sua natureza de terceiro setor, acompanhando a par o setor público e o setor privado,
assume-se como complementar, como solução quando as outras respostas falham,
encontrando na concretização de objetivos sociais a razão de ser da sua existência.

Procurando na rentabilização dos seus recursos novos e renovados fatores de


desenvolvimento e de reinvestimento nos projetos sociais que gere e dinamiza, fora de
uma lógica de lucro e de distribuição de resultados.

A economia social assume-se assim, pelo peso que representa no emprego, nos serviços,
nos bens de raiz social, na produção de riqueza, como um setor de grande relevância
económica e social e cujo potencial se encontra ainda por explorar em toda a sua
extensão.

Coordenador da comissão de acompanhamento da


REDE RSO PT, André Magrinho
A economia social distingue-se da restante economia sobretudo pelo reinvestimento
dos excedentes e pela relevância social das suas intervenções. Sente-se no nosso
quotidiano de forma intensa, no contacto direto com as mais diversas entidades que
providenciam bens e serviços e que pertencem a este setor. Misericórdias; IPSS;
Associações; Fundações; Cooperativas; Mutualidades; ONG; Centros Paroquiais, são
apenas algumas dessas entidades, e que aliás estão em força connosco neste evento.

Existe uma grande densidade e riqueza nas diversas componentes da economia social,
mas não é menos verdade que por vezes faltam algumas interações e espaços de
diálogo. Todas têm as suas estratégias próprias, o que naturalmente é louvável, mas é
preciso ir mais longe, com uma estratégia comum visando uma ação coletiva com
alcance estratégico.
É para tornar a economia social mais forte, com mais e melhores canais de
comunicação, para o ajudar a refletir sobre uma estratégia e um conjunto de ações de
interesse comum, que a Fundação AIP e outras instituições representativas do setor
entenderam empenhar-se na realização do Portugal, Economia Social.

Presidente do conselho diretivo da OIKOS, João José


Fernandes
Antes de definirmos o conceito de “economia social” convém perceber o significado
etimológico da palavra “economia”. O termo contemporâneo tem a origem em duas
palavras do grego antigo: “Oikos” (casa) e “nomos” (lei, regra, norma). Para o filósofo
grego Aristóteles, a economia (oikonomia) designava a gestão da casa, ou seja, o
conjunto de normas que regem, ou deveriam reger, a atividade do “senhor da casa” na
obtenção dos recursos necessários à vida da família.

A ação em torno da economia, como a conjunto de práticas que devem assegurar os


meios para uma vida digna das famílias (a casa no sentido aristotélico) e do mundo
habitado, no respeito pela sustentabilidade dos recursos do planeta, está na matriz
fundacional e na origem da missão social da Oikos como organização não-
governamental de cooperação para o desenvolvimento.

Infelizmente, ao longo da história o sentido originário do conceito de “oikonomia” foi


perdendo algum do seu “sentido humano”, passando a visar a maximização do lucro
através da defesa e da gestão dos interesses privados por uma suposta “mão invisível do
mercado”. Neste sentido, a economia passou a confundir-se com o modelo capitalista da
economia de mercado ou com o seu estudo.

Assim, para a Oikos, a designação de “economia social” é uma tautologia, na medida


em que os conceitos de “economia” e “social” se reforçam mutuamente. Em
circunstância alguma, a economia pode ser desligada da sua função de gestão
sustentável dos recursos comuns à disposição da humanidade. Porém, como o modelo
de facto vigente na ordem mundial atual é o da “economia capitalista de mercado”,
orientada para a maximização do lucro, através da exploração insustentável do trabalho
e dos recursos naturais para a satisfação de desejos insaciáveis (wants) e menos para a
gestão das capacidades de satisfação sustentável das necessidades básicas de todos os
seres humanos, tornou-se necessário falar de “economia social”.

Não existe um consenso alargado acerca da delimitação teórica e prática da “economia


social”. Frequentemente, o termo “economia social” é confundido com o chamado
Terceiro Setor, ou para utilizar a terminologia da Constituição, o Setor Cooperativo,
Social e Solidário que se distinguem do setor privado Assimilar o conceito de
“economia social” a estes setores parece-nos uma redundância e um uso que não
permite realçar a verdadeira riqueza das práticas de “economia social”.

A Oikos considera que nem todas as organizações do setor social, cooperativo e


solidário atuam como agentes de “economia social”, ou, pelo menos, não em todas as
circunstâncias. Com efeito, uma organização que contratualize com o Estado a
prestação de serviços sociais em regime de subsidiariedade (resposta supletiva) pode
estar a resolver um problema social de forma legítima, meritória e eficiente, mas não
necessariamente a utilizar instrumentos da “economia social”.

Atuar como “agente” da “economia social” implica utilizar metodologias e instrumentos


de gestão que permitam conciliar a satisfação de necessidades básicas com a otimização
do valor económico e social.

Neste sentido, a economia social não pode ser vista como limitada a uma esfera “não
mercantil” – habitualmente assimilada ao “terceiro setor”, o setor não lucrativo. Em
rigor, uma ONG ou organização social deverá poder atuar, simultaneamente, no setor
“não mercantil” (respostas sociais financiadas por fundos públicos e donativos) e no
setor “mercantil”, desde que as atividades de caráter mercantil se submetam aos
princípios e missão social da organização. É possível – mesmo desejável para manter a
sua autonomia estratégica e financeira, face aos poderes do Estado ou de agentes
privados – que uma organização social possa exercer algumas atividades no âmbito da
“economia social”, ou seja, atividades na esfera mercantil, sempre e quando os
resultados (excedentes) obtidos sejam reinvestidos na concretização da sua missão
social e não no enriquecimento dos seus associados ou dirigentes.

Acresce que, para manter uma posição coerente, uma organização com atividade na
economia social deve fomentar e enquadrar a participação no processo de decisão
organizacional por parte dos seus membros, dos utilizadores (clientes e beneficiários),
dos assalariados e também de outros agentes que eventualmente lhe estejam associados
(stakeholders).

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