0% acharam este documento útil (0 voto)
521 visualizações36 páginas

Urdume 2

Esta edição da revista Urdume traz reportagens sobre yarn bombing, bordaduras, a bruxaria têxtil de Cristiane Bertolucci e as rendas de bilro. A publicação também aborda os limites entre criação, reprodução e plágio em artes manuais, a psicologia por trás da tecelagem e o uso do têxtil como ferramenta de empoderamento social.
Direitos autorais
© © All Rights Reserved
Levamos muito a sério os direitos de conteúdo. Se você suspeita que este conteúdo é seu, reivindique-o aqui.
Formatos disponíveis
Baixe no formato PDF, TXT ou leia on-line no Scribd
0% acharam este documento útil (0 voto)
521 visualizações36 páginas

Urdume 2

Esta edição da revista Urdume traz reportagens sobre yarn bombing, bordaduras, a bruxaria têxtil de Cristiane Bertolucci e as rendas de bilro. A publicação também aborda os limites entre criação, reprodução e plágio em artes manuais, a psicologia por trás da tecelagem e o uso do têxtil como ferramenta de empoderamento social.
Direitos autorais
© © All Rights Reserved
Levamos muito a sério os direitos de conteúdo. Se você suspeita que este conteúdo é seu, reivindique-o aqui.
Formatos disponíveis
Baixe no formato PDF, TXT ou leia on-line no Scribd

URDUME

Nº 02 I Maio 2019
R$ 17,90
Artes manuais têxteis, expressão e autoconsciência

Yarn bombing
É arte na rua, é manifesto, é
intervenção com tricô e crochê.
Conheça as histórias de mulheres
que espalham mensagens pela
cidade por meio de fios coloridos

Na foto: Anne
Galante e uma das
peças do seu
projeto “Nem todo
splash é tinta”

Pode copiar? Casa como Páginas Azuis A resistência das


Os limites entre criação, Potência A bruxaria têxtil de rendas de bilro
reprodução e plágio de Pesquisadora das Cristiane Bertolucci O desafio das rendeiras
objetos feitos a partir de artes manuais, Nina - entrevista exclusiva da Ilha frente aos novos
técnicas tradicionais Veiga milita pela vida para a Urdume tempos nas artes manuais
URDUME
Expediente

Curadoria
Estefania Lima

Edição
Belisa Rotondi

Diagramação
Nathália Abdalla

Pontos de Venda
Ateliê Clevita, Badu Space, Casa Bendita,
Casa Novelaria Hermosa, Cia do Tricô, CASA UM,
2P Ateliê, Lilá, Micapullo, Ms Aline Ateliê,
Novelaria, SP feito à mão.

Agradecimento
Adriana Costa, Ateliê Mentha, Jardineiro Fiel
e Virginia Garbin

Para se tornar um membro-investidor


ou assinar a URDUME
www.urdume.com.br

Contato, releases e anúncios


estefania@urdume.com.br

Publicação Independente
Curitiba/ PR
sumário sumário

NESTA EDIÇÃO Páginas Azuis

Bruxaria têxtil Tricoteira e crocheteira desde


a infância, Cristiane Bertoluci é uma das pioneiras
no resgate das manualidades no Brasil, acredita
Colaboradores 6 Infância 48 no autoconhecimento pelas mãos e na magia
O encanto dos bonecos que se manifesta por meio dos fios. p.10

Editorial de crochê

Foto: Unsplash
8

Acontece 14 Arte 53
Pode uma revolução ser artesanal? Bordaduras
AUTORIA
Inspiração 16 Identidade 54
Moda com propósito O têxtil como ferramenta de Pode copiar? A cópia tende a ajudar no
empoderamento social desenvolvimento de habilidades técnicas e
criativas próprias, contribuindo para a construção
História 18 da identidade do artesão, mas o plágio

Foto: Juss
Descobrindo o crochê Psicologia 57
é uma violação dos direitos do outro. P.50
Tecelagem terapêutica
Moda 34
Editorial exclusivo - Dani Nucci Colunas
Capa
Diário 41 Marie Castro 61
É arte na rua, é manifesto, é intervenção
Tecendo novas possibilidades com tricô e crochê Yarn bombing, bombardeio
Vilma Silva 62 de fios, grafite em tricô, ativismo de lã. Muitos são os
Sustentabilidade 42 nomes dados ao movimento que espalha mensagens
Upcycling como tendência pela cidade por meio de fios coloridos. P.20
Gustavo Seraphim 63

Foto: Natália Seeger


de mercado
Estefânia Verreschi 64
Reflexão 44
Ponto Doce 65
Daniela Nogueira
CONEXÕES

Fotos: Divulgação Anne Galante


Educação 46
Livros 66
Tecendo uma festa: as artes Dicas de Leitura A resistência das rendas de bilro Uma
manuais no jardim de infância das principais tradições da Ilha das Rendeiras
enfrenta desafios para encaixar-se e acompanhar
as mudanças e linguagens atuais. P.58

4 URDUME Edição #02 URDUME Edição #02 5


colaboradores colaboradores

Quem fez essa


edição acontecer Dayse
Santiago
Carina
Flores

Dayse é artista, educadora, idealizadora e Multipotencial, formada em arquitetura com


gestora do jardim de infância Ipê Amarelo- mestrado em sustentabilidade, é autora do
espaço de Criar e Brincar, em Curitiba/PR. projeto Criativo Curioso, que busca empoderar
Dani Cristiane @dayse.cristinasantiago mulheres através de objetos criados com afeto.

Nucci Bartchewsky @criativocurioso

Editora de moda e stylist. Paulista, formada Jornalista, já atuou como repórter para diversas
em moda pela universidade Moura Lacerda,
já trabalhou em projetos para revistas de moda
publicações e foi proprietária da Amora Agência
de Comunicação. Atualmente é também artista
Ciça
e desenvolvendo styling para campanhas de e professora pela marca Com Fio. Costa
grandes marcas de publicidade. @daninucci @tramascomfio
Mayra
Comunicóloga e artesã de uma família “fazedora”
onde o feito à mão sempre teve muito valor.
Aiello
É fundadora da In Totum e criadora do
movimento Revolução Artesanal. @intotum
Sarah Cyntia Psicóloga, Life Coach e Arteterapeuta. Atua

Zar Rêgo com atendimento terapêutico individual com


recursos dos fios e ferramentas do coaching.
Facilita vivências, retiros e encontros em grupo,
principalmente com mulheres.
Artesã, que após processo de autoconhecimento Historiadora e crocheteira, Cyntia busca resgatar a
ancestralidade do crochê em suas peças e discurso,
Nayamim @amocatecela
e estudos nas áreas da Psicologia e do Design,
encontrou nas Artes Manuais (principalmente aborda a arte através do manuseio de linhas e Moscal
no crochê) inspiração para manifestar agulhas, mas também de questões filosóficas,
sua criatividade. @sarahzar_ políticas, culturais e econômicas. @crochedacy
Auxiliar de biblioteca, tricoteira e mãe. Tentando
achar um jeito de harmonizar todas essas facetas.
@gatodegola

Natalia
Juliana Estela de Seeger
Allain Andrade
Iris
Artesã têxtil por ofício e antropóloga
Formada em Psicologia, com doutorado em Artesã e jornalista, já atuou como assessora Alessi por paixão e formação. Possui um ateliê focado
psicologia social e pós-doutorado em sociologia. de imprensa nas áreas de cultura e educação. em utilização de plantas, onde reutiliza tecidos
Professora de bordado e artesã, seus produtos são Atualmente, está à frente do Ateliê 91, uma trabalhando a memória das roupas através de
feitos com tecidos e linhas tingidos naturalmente. marca de produtos cheios de afeto e feitos Jornalista que atualmente dedica-se quase que técnicas como tingimento natural e impressão
@lumen.tecituraorganica à mão em crochê e macramê. @atelie91 integralmente a ensinar tricô. @flordeiris botânica. @atelienataliaseeger

6 URDUME Edição #02 URDUME Edição #02 7


editorial editorial

Tecitura coletiva Por Estefania Lima

Na mitologia grega as Moiras eram as três irmãs que Uma alegria. Com essa parceria inauguro um
determinavam o destino dos Deuses e seres humanos. desejo, compartilhar a criação. Como me disseram
Três mulheres responsáveis por fabricar, tecer e cortar esses dias, da URDUME sou apenas a guardiã.
o fio da vida dos seres. Cloto, a fiandeira, criava o fio Tenho a responsabilidade sobre manutenção desse
projeto, mas a sua expansão, qualidade e missão é

Foto:Monique Ferreira
do nascimento; Láquesis, a fixadora, determinava
o tamanho e espessura do fio, estabelecendo a de autoria compartilhada com todos ao seu redor.
qualidade da vida, e Átropos, a irremovível, cortava-o
fio, delimitando seu fim. Na URDUME #02 temos o prazer de apresentar o
trabalho de mulheres extraordinárias, todas fontes
Nathália, Belisa e eu fomos as Moiras dessa edição. No de inspiração. Matérias produzidas por talentosas
papel de Cloto fiz a curadoria das matérias, organizei mãos, tão hábeis com as palavras quanto são
a contribuição dos colaboradores e redigi quantidade com os fios. Para o time de colunistas, uma feliz
relevante de textos. Belisa, como Láquesis, editou essa novidade, Marie Castro, artista generosa que tanto
edição, revisou, organizou e elevou a qualidade da nos apoiou na primeira edição. Não fosse o bastante,
nossa produção em um conjunto coeso de conteúdos. ainda fomos agraciados com um editorial de moda
Por último, Nathália, nossa Átropos, cedeu seu talento produzido exclusivamente para a URDUME, por
para delimitação da forma, estabelecendo inícios e fins. Danni Nucci, um luxo só

Foto: Paulo Pral

ESTEFaNIA LIMA. Idealizadora Belisa Rotondi. NATHÁLIA ABDALLA. Designer A vida vai tecendo tramas invisíveis, escolhendo fios que estavam destinados
e empreendedora social. Como a se conectarem. No lançamento da primeira edição da URDUME, em São
da revista URDUME, a Jornalista, especialista em
Paulo, em um ambiente com muita empolgação e acolhimento, a designer,
comunicóloga, mestre em Educomunicação, trabalha pesquisadora dos saberes e
Nathália, e a editora, Belisa, se reconheceram de redações por onde
ciências médicas e, agora, há mais de 10 anos com as fazeres manuais está sempre
passaram anteriormente. Nesta segunda edição, apertamos esses nós e nós
estudante de Filosofia, palavras - na escrita e edição em busca de criar espaços de
três nos conhecemos e reconhecemos neste mesmo objetivo de entregar a
encontrou nos fios de texto - seu processo reflexão, artesanias e conexão
vocês um conteúdo cheio de sentido. Se este primeiro evento do lançamento
sua metáfora para a vida. preferido desde a infância. com o tempo das mãos. teceu essa história, imagina o que virá pela frente!
@FIOSERITOS @belisa.rotondi @NATHALIA.ABDALLA

8 URDUME Edição #02 URDUME Edição #02 9


páginais azuis páginas azuis

Bruxaria têxtil
David Gauntlet, fala de como a
internet é um impulsionador do
manual por estarmos vivendo a
web 2.0. No início da internet éra-
Tricoteira e crocheteira desde a infância, Cristiane Bertoluci é uma das mos mais passivos, assim como
pioneiras no resgate das manualidades no Brasil, acredita no autoconhecimento nossas avós com revistas e a TV.
pelas mãos e na magia que se manifesta por meio dos fios Mas quando a internet começou
a ficar mais interativa, em que
Por Estefania Lima qualquer um escreve, posta, re-
cebe um comentário, publica um
Gaúcha, de Caxias do Sul, Cris- à carreira de estilista. Em 2010, na sil igual criança quando volta de vídeo, nós ficamos mais curio-
tiane Bertoluci cresceu rodeada Inglaterra, fez o curso de Criação férias e queria contar tudo para sos e criamos comunidades em
pelo artesanato têxtil. Aos oito em Tricô no extinto Atelier Knit-1, todo mundo. Foi essa sede que torno do que fazemos. Agora, a Existe uma rachadura em tudo
anos, já era tricoteira inspirada em Brighton, e já em seu retorno, me deu força para começar. No troca de informações globais e a É assim que a luz entra
pela mãe, que fazia tricô para em 2011, não teve dúvidas: passou início não foi simples, mas depois busca pela criação são maiores.
vender na loja que teve por 32 a dedicar-se integralmente ao fa- da abertura da Novelaria [Cris-
anos, pela a avô que crochetava zer manual, ajudando a encabe- tiane dá aula aula no Knit Café URDUME. A indústria da moda
e pela vizinha, que era da costu- çar um movimento importante desde a inauguração em 2011] e desperdiça um caminhão de
ra. Ótima aluna em matemática, e ainda tímido de retorno às ma- da capa da revista da Folha de S. lixo têxtil por segundo. De que
Cris gostava de pensar na enge- nualidades no Brasil. Paulo, no mesmo ano, tudo foi forma você acredita que o setor
nharia necessária para constru- acontecendo. Então, acho que da moda pode contribuir para
ção de tudo, e o tricô e o crochê URDUME. Você é uma das arte- contribuí com o conhecimento reduzir os danos que causa ao
ofereciam muitas possibilidades sãs pioneiras na revitalização que trouxe de lá, de criar, de ser- meio ambiente?
nesse sentido. “Aprontadeira”, das técnicas manuais têxteis na mos mais destemidos. O univer- Cris. Parando de produzir hoje
como ela se define ao falar de última década. O que te moveu so manual é muito amplo, todo (risos). Acredito muito na recicla-
sua infância, alternava o tempo e como entende a sua contri- mundo pode se encontrar nele. E gem e no upcycling, porém ain-
entre jogar futebol na rua e tri- buição para o retorno aos fios e o que mais procuro fazer é incen- da existe muito preconceito com
cotar roupas para suas bonecas agulhas? tivar meus alunos a se encontra- relação a esses produtos, além
ou fazer barrados de pano com Cris. O curso em Brighton e a vi- rem, criarem a sua identidade e disso, as indústrias têm mais faci-
crochê. sita aos Arquivos de Bauhaus [es- seu universo. lidade e acesso à matéria-prima
cola de design, artes plásticas e virgem do que à reciclada. Temos
Uma infância que já indicava o arquitetura de vanguarda na Ale- URDUME. Qual a diferença en- que evoluir muito a cultura do re-
futuro da artista. Ainda em Caxias manha] foram as principais ins- tre o tricô e crochê das nossas ciclado, e a indústria precisa sair
do Sul, cursou moda e começou pirações. Eu tinha saído de uma avós para o dos nossos dias? da sua zona de conforto na hora
a estagiar em uma empresa que empresa de fast fashion, onde Cris. Acho que o meio de divul- da produção. Só assim podere-
revendia máquinas industriais de o trabalho era só de cópia/cola. gação e, principalmente, a infor- mos iniciar uma conversa sobre
tricô do Japão, a Shima Seiki. Ali, Estávamos longe da confecção, mação. Nossas avós só tinham redução de danos.
Cristiane aprendeu sobre máqui- manufatura, criação. E, quando acesso a três ou quatro revistas
nas, programação e confecção cheguei em Brighton, eu tinha por ano e à meia dúzia de fios. URDUME. Como diminuir o con-
em malharia retilínea, dando va- aulas de oito horas de criação, Nós temos até receitas russas! sumo? Não estamos apenas tro-
zão a seu gosto matemático. Em com pensamentos que eu nunca Um dos meus livros favoritos, cando o consumo fast fashion

Foto: Juss
2007, mudou-se para São Paulo, vi em nenhum outro curso. Tudo Making is Connecting [Fazer é pelo do slow fashion? Como
onde decidiu que iria dedicar-se era muito novo. Cheguei ao Bra- conectar, em tradução livre], de você vê as ações de greenwa-

10 URDUME Edição #02 URDUME Edição #02 11


páginas azuis páginas azuis

shing [ações de marketing para do a si. Técnicas manuais têm a pensar nisso como uma metáfora risa Bussacos. Nos conhecemos
dar uma imagem ecologica- ver com gosto, com capacidade, pra minha vida: já me fiz e refiz há mais de 10 anos. A Marisa era
mente responsável a produtos e com crescimento e aprendiza- muitas vezes e espero me refazer dona do café Ekoa e, quando ela
organizações que não estão se do. Quando penso em bruxarias, muito pela vida. começou a trabalhar como co-
preocupando com a causa]? penso em astrologia, tarot, nu- ach, um dia lembrou do filme
Cris. No Brasil, o consumidor não merologia… tudo que está rela- URDUME. Você participa e mi- Colcha de Retalhos e me ligou
tem muito poder de escolha, pois cionado ao autoconhecimento. nistra aulas em retiros que res- falando que queria fazer algo re-
o valor dos produtos pesa muito E vejo uma relação grande entre gatam práticas ancestrais, como lacionado com esse assunto. É
no orçamento. Por isso, acredito uma coisa e outra. a fiação, tingimento natural e a um dos trabalhos que mais tive
que essa responsabilidade seja relação com a natureza. Qual a gosto de desenvolver, pois traz
da indústria. E as informações são URDUME. A bruxaria tem rela- diferença de tricotar na cidade e um olhar completamente dife-
ainda muito manipuladas e novas ção com o feminino dos fios? no campo? O que muda no con- rente para as técnicas manu-
para que o consumidor seja ca- Cris. Tem a ver com mulheres tato primário com o fio? ais. Procuramos trabalhar com
paz de saber sobre o que conso- unindo seus conhecimentos tra- Cris. O principal é o tempo: o tem- uma intenção nas conversas e
me. Outro dia eu estava ouvindo dicionais e populares, sim. Senta po é outro na natureza, imagina nos pensamentos, tentando de-
o podcast novo da Marina Colera- em uma roda de tricô que você sem internet. O foco e a disposi- senrolar nós internos e mudar a
to, do Modefica, e da Fê Cortez, do vai ver, a troca é infinita. Ali tem ção para fazer são outros. E acho trama da vida, nem que seja um
Menos 1 Lixo, em que elas falavam uma união por um interesse co- que a conexão entre as pessoas pouco e aos poucos, de pequeno
que o governo vai isentar o ICMS mum, o que é muito amistoso e também é diferente, pois elas es- em pequeno passo.
de frutas e verduras embaladas. grandioso. Sempre falo que te-
Ou seja, vai ser mais barato com- nho alunas que, no Facebook, já Gosto de acreditar URDUME. O futuro é manual?
prar aquelas verduras que vêm teriam se matado, mas em aula Qual o equilíbrio entre o fazer
que cada vez mais
embaladas do que as que esco- elas se entendem, conversam com as mãos e a tecnologia?
lhemos no mercado, sabe? Ao e trocam muito. Sem falar que vamos construir Cris. O meu é! Gosto de acreditar
mesmo tempo, estamos falando durante anos as mulheres só ti- nossos mundos, que cada vez mais vamos cons-
em proibir canudos. Quer dizer, veram acesso ao manual como e o manual vai ser truir nossos mundos, e o manu-
o governo tem uma ação boa de expressão. al vai ser importante para isso.
um lado e uma atitude péssima
importante para isso Acho que a tecnologia deveria
por outro. Claro que o consumi- URDUME. Como você se expres- começar a existir para o propósi-
Foto: Juss

dor também pode fazer sua par- sa por meio do que produz? O tão ali mais presentes e atentas. to que nós sempre acreditamos:
te, acho que estamos caminhan- que os fios têm a dizer sobre A natureza traz vários sentidos para aliviar nosso trabalho, para
do para uma maior consciência. você? de volta, tudo fica diferente, do que tenhamos mais tempo para
Porém, acho errado acreditar que car “natural” ou “sustentável” na em 2 dias! (risos) Vejo tudo que Cris. Eu me expresso matemati- medo do escuro e dos barulhos nos dedicar a nós. Sempre lem-
deve partir dele, uma vez que ele embalagem, mas seguir com os faço como mágico, até mesmo o camente (risos). Eu adoro testar na rua a apreciar um pôr do sol bro de um vídeo da Jout Jout em
também é vítima de desinforma- mesmos produtos. caminho que percorri para che- coisas novas, buscar soluções, en- durante uma aula que acaba que ela e o Caio ficam falando
ções constantes. A indústria se gar onde cheguei. Muitas coisas contrar novos caminhos. Jamais virando um ouro nas nossas vi- sobre isso: em vez da tecnologia
baseia muito em greenwashing URDUME. No seu Instagram, aconteceram que parecem ter seria capaz de ter uma marca das. aliviar alguns trabalhos para que
para vender produtos sustentá- você descreve seu trabalho dedo do outro mundo. O manual com 20 peças iguais, só de pen- a gente tenha mais tempo, ela
veis e existem dois problemas como Bruxaria Têxtil. O que isso nos aproxima a um lugar comum sar em fazer três peças repetidas, URDUME. Você também traba- nos escravizou e acabamos tra-
nisso: não adianta uma empresa quer dizer? da “bruxaria”: o do autoconheci- isso já acaba comigo. Eu gosto da lha com TRICOaching, pode nos balhando cada vez mais. Espero
vender um produto sustentável, Cris. Quer dizer que pego um fio, mento. Esse momento de pensar efemeridade dos fios, da ideia de explicar como funciona? que a Inteligência Artificial venha
mas continuar com 20 que são uma agulha, faço uma magia e em si, de ter um tempo pra si, de que uma peça pode ser desfeita Cris. TRICOaching é um evento exatamente para isso e não para
péssimos; e não adianta colo- tchãrã!!! Trago sua blusa favorita estudar algo que está relaciona- e outra pode surgir dela, gosto de criado por mim e pela coach Ma- nos sobrecarregar mais

12 URDUME Edição #02 URDUME Edição #02 13


acontece

Pode uma revolução


ser artesanal?
É comum associar a palavra revolução à revolta, à luta de poderes.
Já artesanal parece ir na direção contrária, ligada à arte e à
delicadeza do fazer manual. Os usos contemporâneos que causam certo
estranhamento na junção dessas palavras se dissipam no entendimento
de que, juntas, falam sobre um movimento de união.
Por Ciça Costa

Ao valorizar a união, a coletividade, ao incluir a singularidade,


o movimento da Revolução Artesanal utiliza o fazer manual
como meio para seu ativismo delicado, uma forma de ativis-
mo que expressa, por meio do olhar e da expressão de si, a
mudança que se deseja ver no mundo. Indo na contramão da
revolução industrial, que inclui o ser humano como mais um
componente na cadeia produtiva, a revolução artesanal inclui
e valoriza uma qualidade essencialmente humana: o fazer dan-
do visibilidade à arte e à singularidade de cada artesão, de cada
fazedor.

É no encontro com o tempo interno, processual, nas pausas que


começa a revolução. É nesta resistência sutil à lógica da pressa,
da alta performance e da entrega de resultados que brotam pe-
quenas mudanças internas, as quais, mais tarde, vão florescer
em escolhas conscientes e congruentes com cada um. E des-
sas flores nasce a possibilidade de polinização dessa revolução
no mundo.

FESTIVAL DO FAZER: UM MUNDO FEITO À MÃO JÁ EXISTE


Enquanto a Revolução Artesanal é um movimento, o Festival
do Fazer é um momento que entrelaça fazeres, lugares e pes-
soas e, neste ano, acontece em um espaço de dois dias, onde
Foto: Divulgação

as histórias, conversas, produtos e oficinas são feitas à mão, tra-


zendo a qualidade de vivência e experiência como forma de
aprendizado e também valorizando o processo como troca

Para conhecer mais e se inspirar com esse movimento, acesse:


www.revolucaoartesanal.com.br/festival-do-fazer

14 URDUME Edição #02


inspiração inspiração

Moda com propósito FLAVIA. É um mega desafio.


No nosso caso, acredito que o
A estilista Flavia Aranha conta como encontrou espaço para principal foi que entendemos o
que queríamos desde o começo:
uma moda sustentável, que considera toda a cadeia de produção
ser viável e gerar impacto na
e tem valorizado as mulheres há 10 anos
comunidade, em quem planta,
Por Belisa Rotondi
colhe e costura. Ter tudo isso
em mente foi fundamental para
Nós em teia o protagonismo para todas as Decidida a sair, fiquei um mês no manter valores e, em paralelo, a
Nos fazem etapas, para as pessoas. Por trás nordeste conhecendo grupos de nossa comunicação conectava
Nós que formam de uma planta, tem o ecossistema artesanatos e fui entendendo o com quem apoia e consome esse
Nos unem a todas que somos* das mulheres, produzindo, quanto de potência existia para tipo de ideia. E os clientes foram
vendendo, transformando em trabalhar com foco em planta, fundamentais para ser possível
Isto que fala, faz e defende Flavia tinta, em roupa, fazendo costura, mulheres e artesanato. Em o processo. Claro que são muitos
Aranha por meio de sua marca tecelagem. E ao mesmo tempo 2009 estava com ateliê, e fui me os desafios, mas o grande foco foi
(que leva seu nome), referência em que temos muito trabalho conectando com mais pessoas. entender que o produto precisa
em um caminho inspirador, com fiação manual, temos a Várias coisas não deram certo, gerar impacto direto com a
sustentável e respeitoso de industrial também. os problemas são complexos e cadeia que o produz, e o desafio
fazer moda: das escolhas que não dá para resolver tudo, além disso tudo é ter um equilíbrio
consideram todos os elementos URDUME. E como você do desafio de encontrar formas entre as coisas que permeiam o

Foto: Daniel Malva


da cadeia produtiva. Desde 2009 começou nesse caminho? de existir e permanecer sem ecossistema. Hoje, por exemplo,
focada em transformar seus FLAVIA. Eu trabalhei no mercado ter que se adequar à demanda temos o processo industrial, e
valores em algo sólido e viável do da moda por algum tempo, do mercado. Posso dizer que eu acredito muito na tecnologia.
ponto de vista de negócio, Flavia que é algo complicado porque começamos com esse olhar para o Antes, a gente tingia na panela,
conta que nem sempre foi tarefa o algodão é a cultura que mais feito à mão e com conexão grande e aprendemos muito com isso,
fácil. Mas ela vem mostrando polui, e o fast fashion mudou com as artesãs. Desde o começo teia, um braço novo da marca realmente impactava. E sabemos mas agora usamos máquinas.
* Trecho retirado da área de “Sobre”, do site www.flaviaaranha.com

que é possível, especialmente muito a forma de produção no pensamos como queria que focado no desenvolvimento da que não adianta empoderar e Para mim, o futuro da moda está
ao conectar-se com pessoas mundo todo. Ali eu conheci esse funcionasse nosso ecossistema, comunidade, que é uma atuação não gerar renda, gerar renda nesse encontro do ancestral com
que compartilham dos mesmos processo, que vai longe dos meus os conhecimentos integrados, que amo muito, e quero ter esse e não mudar a vida da pessoa. a tecnologia, nessa inovação, pois
objetivos. valores, e entendi que precisava afinal a roupa é a memória de tudo espaço para expandir o nosso Então, o Sistema B vem para a a troca de experiência faz parte
voltar alguns passos, me conectar isso, desses processo e afetos. impacto. gente organizar dentro de casa, do equilíbrio e sustentabilidade.
URDUME. Como você define com a essência e olhar para o os desafios internos, as muitas Outro ponto importante é se juntar
o seu trabalho? artesanal. Desde criança, tenho URDUME. Você pode contar URDUME. E como foi a questões e dilemas e problemas e a parceiros que estão olhando
FLAVIA ARANHA. Este é um envolvimento com arte, pintura, um pouco sobre o ateliê na Vila certificação da marca no incoerências. Isso dá credibilidade para o mesmo lugar, fortalecer
trabalho muito ligado a um olhar corte e costura, e isso foi muito Madalena, em São Paulo (SP)? Sistema B? (movimento global e conecta com marcas que têm outras iniciativas. A colaboração
atento para a cadeia produtiva, importante. No momento em que FLAVIA. Desde julho de 2018 que identifica empresas que desafios parecidos, não só na da rede ajuda muito, pois não dá
para tudo que está conectado comecei a crescer na indústria temos só a loja no local, o ateliê solucionam alguma questão moda. Recentemente, fizemos a para levantar todas as bandeiras
com as etapas de fazer uma roupa. da moda, me deparei com o saiu. Montamos um galpão com socioambiental) recertificação e já vieram novos sozinha. Quando começamos, a
Envolve muito de ir a campo, olhar. dilema de ser bem-sucedida, espaço para as máquinas para FLAVIA. Entramos em 2015 e desafios. gente estava olhando para um
A roupa tem vida, e nesse trabalho mas olhar de perto como as o tingimento natural. Agora, lá foi incrível porque até então era lugar que a maioria não estava,
a gente fala da terra, de olhar coisas eram feitas e saber que no fundo da loja, temos curso empírico: a gente tinha o desejo URDUME. Como ter um negócio isso há 10 anos. Agora, já existem
para todos os processos, para esse processo era agressivo para de tingimento, e vamos lançar de mudar as coisas, mas não que se sustenta financeiramente mais projetos incríveis nessa
a memória da roupa, de trazer mim, para minha visão de mundo. no segundo semestre o espaço sabia o quanto o nosso trabalho e é sustentável? mesma direção

16 URDUME Edição #02 URDUME Edição #02 17


história HISTÓRIA

Descobrindo mesmo do surgimento dos padrões escritos. As A rainha Vitória, inclusive, era uma exímia tricoteira e
amostras e aplicações dos pontos eram feitas e depois esforçou-se para aprender a técnica, tornando-a mais
costuradas em tecidos - como se fossem as páginas de elegante quando comparada às rendas de crochê

o crochê na História
um livro - e encadernadas como álbuns. Estes álbuns, criadas pelos irlandeses. Elas eram muito usadas pelos
que continham as amostras, eram emprestado de nobres e pelos religiosos, e em quase todas as vestes,
pessoa a pessoa para que todos pudessem aprender na cor branca, simbolizando pureza e superioridade.
e fazer aquele determinado ponto. Em sua velhice, a rainha Vitória ainda confeccionou
Das teorias de seu surgimento aos primeiros registros em livretos, descubra oito cachecóis e lenços para presentear soldados
de que maneira o crochê começou a desenhar suas marcas na moda Em meados de 1800 surgiram os primeiros livretos de veteranos da Guerra da África do Sul (1899–1902).
crochê, que continham ilustrações em xilogravura da
Por Cyntia Rêgo
peça a ser aprendida. Eles traziam padrões de golas, E o que fica para o futuro?
adornos de cabeça, xales, punhos, rendas, bolsas Após esse emblemático “nascimento”, o crochê foi se
e chinelos. E também compartilhavam dicas de desenvolvendo e percorrendo mundos e culturas onde
O crochê é uma arte que envolve muito mais do materiais recomendados para a confecção das peças adquiriu características específicas. Foi, novamente,
que linhas, agulhas, gráficos, pontos e a peça final. em crochê, sempre na cor branca. alternativa importante em períodos de guerra e
É a união de conhecimento passado de geração em escassez, como no início da Segunda Guerra Mundial
geração somado a técnicas e ferramentas, o que o Duas décadas depois, em 1824, foram impressos os (1939-1945) em que as mulheres reformaram as
leva ao pertencimento a uma cultura, a um povo. Até primeiros padrões de crochê. Sendo que algumas próprias roupas e precisaram usar tecidos alternativos.
este momento sua origem é indefinida - e não por publicações tiveram papel importante nessa E surgiu também com força na decoração da casa nos
falta de tentativas em encontrar essa resposta. Muitos divulgação, como a revista Penélope, na Irlanda (1824 anos 50 - nas famosas toalhinhas de crochê.
estudiosos, com o passar do tempo, dedicaram-se e 1849) e a revista Modern Pricilla, nos Estados Unidos
a decifrar esse enigma, mas o que temos ainda são (1887-1930), esta possuía apenas 16 páginas e trazia Até os anos 60, mantinha o estilo clássico adquirido
sussurros de um conto - quase fábula - remetendo aos assuntos relacionados ao mundo feminino. Mesmo com o crochê irlandês, sustentando as características
Irmãos Grimm. com a imprecisão desses primeiros padrões, houve de trabalhos realizados com fio e agulhas finas. Mas a
uma euforia generalizada com possibilidades de partir dos anos 60, ele foi mudando consideravelmente
A especialista Annie Potter, por exemplo, relata que novidades a serem aprendidas. e adaptando-se às necessidades das épocas. Na década
em 1916 o antropólogo Walter Edmund Roth visitou de 70, por exemplo, sob a influência da cultura hippie,
descendentes dos indígenas da Guiana e encontrou O crochê como resgate de oportunidade o granny square atingiu seu auge: o quadradinho da
exemplos do que poderia ser o “verdadeiro crochê”. Entre os anos de 1845 a 1849, a Irlanda enfrentou vovó aparecia em mantas, xales, vestuário, bolsas e na
Já Lis Paludan, escritora e pesquisadora, apresenta um período chamado de A Grande Fome (ou Fome decoração das casas, ditando moda até hoje.
três teorias: a primeira sugere que o crochê originou- das Batatas). Foram anos marcados por doenças
se na Arábia, indo até o Tibete (ao leste) e à Espanha e imigração, em que população daquele país foi Com as redes sociais, o crochê ganhou maior
(a oeste), de onde seguiu as rotas comerciais árabes reduzida entre 20 e 25%. Diante desse contexto, os visibilidade difundindo, assim, as manualidades
para outros países do Mediterrâneo. A segunda teoria trabalhadores irlandeses, ou seja, homens, mulheres de maneira surpreendente. O grande número de
defende que a evidência mais antiga do crochê veio da e crianças, foram organizados para aprender o crochê. compartilhamento da técnica fez com que mais
América do Sul, onde dizia-se que uma tribo primitiva Escolas também passaram a ensinar a habilidade jovens se interessassem por essa arte tão antiga.
usava adornos crochetados em ritos de puberdade. aos professores, que foram enviados a todo país, E, se alguém pensava que o futuro iria massacrar e
Por fim, a terceira conta que na China os primeiros mostrando aos trabalhadores como criarem seus extinguir o feito à mão, o cenário é outro: revitalização
registros da prática eram conhecidos de bonecas próprios padrões. Como resultado desta nova e valorização do manual, de tudo que é pessoal, do
tridimensionais trabalhadas em crochê. habilidade, as famílias passaram a contar com esses que demanda tempo para ser feito, do exclusivo
novos ganhos, o que lhes dava a chance de economizar e individual. O crochê acompanhou todas as
Foto: Unsplash

Conhecimento passado de mão em mão o suficiente para emigrar e começar uma vida no transformações da História e se fortalece a cada dia.
Para além das teorias, a história mostra que muitas exterior, especialmente na Inglaterra, levando a este O que o futuro, reserva, portanto, parece ser uma
foram as maneiras de divulgação do crochê, antes novo lugar as habilidades no crochê. mescla entre o artesanal, o industrial e o virtual

18 URDUME Edição #02 URDUME Edição #02 19


capa capa

Cobrir paredes, objetos, monu- espaços cujas intervenções visu- 2011, surgiram como esguichos
mentos e prédios com crochê e ais corriqueiras, como o grafite, de crochê aplicados nos muros
tricô é um tipo de manifestação costumam ser masculinas. de São Paulo, que deram nome
artística que já tem nome: Yarn ao projeto Nem todo splash é
Bombing (ou bombardeio de Os fios coloridos contam tinta, pois quando vistos a certa
fios, em livre tradução). O movi- histórias pela ruas distância parecem pinturas, mas
mento, que ganhou até um dia No Brasil, diversas artistas e arte- de perto percebe-se que são cro-
Internacional em 11 de junho, diz sãs fazem parte deste movimen- chês. “O principal objetivo foi co-
muito a que veio apenas pela to e compartilham essa vonta- locar o crochê num lugar novo,
origem de seu nome. Bombing de de usar as cidades seja para para sempre chamar atenção
é uma palavra retirada do voca- expressar o que pensam, para para a importância das artes ma-
bulário do grafite e significa uma resgatar a importância das ma- nuais”, conta.
intervenção feita rapidamente, nualidades ou para transformar
normalmente com letras mais os espaços públicos em galerias Os trabalhos que ela faz junto
simples e eficazes e em lugares de arte a céu aberto, acessíveis, aos grafites da cidade surgiram
não autorizados. Sim, estamos provocadoras. dos sonhos da artista, que era
falando de uma intervenção feita apaixonada por essa estética
com fios e com tom de ativismo, Entre elas, está a artista têxtil e tinha vontade fazer parte do
de provocação do olhar sobre os Anne Galante, conhecida por movimento, mas do jeito dela.
espaços urbanos. seus enormes trabalhos em cro- “Eu queria colocar minha arte na
chê. Para ela, levar as artes ma- rua, bem democrática, para que
Considerada a fundadora da nuais às ruas é uma maneira de todos pudessem ver e apreciar
Intervenção de “guerrilha do tricô” (definição ti- contar a história do crochê em nessa maravilhosa galeria a céu
Anne Galante
rada do site www.magdasayeg. uma narrativa atual. As primei- aberto que é São Paulo”. Passou,
para fachada
da novelaria com e em tradução livre), a nor- ras intervenções de Anne, em então, a fazer interferências nos
knit café, em te-americana Magda Sayeg co-
Pinheiros - SP.
meçou o movimento em 2006,
Anne Galante e obra
no Texas, quando tricotou capas
feita para o evento
em azul e rosa para a maçaneta FestA - festival do
da porta de seu ateliê. E, assim, aprender dos SESCs

É arte na rua,
(SESC Consolação)
inspirou este ataque de arte pela
cidade. Em 2009, o movimen-

é manifesto, é intervenção
to ganhou força e se espalhou
pelo mundo. Ainda na biografia
em seu site, Magda conta o que
Foto da capa: Divulgação Anne Galante

com tricô e crochê


a fascina nestas intervenções.

Fotos: Divulgação Anne Galante


“A exploração da mudança am-
biental me motiva: provocar o
mundo a ser um lugar mais de-
Yarn bombing, bombardeio de fios, grafite em tricô, ativismo de lã. safiador, não convencional e in-
Muitos são os nomes dados ao movimento que espalha mensagens teressante” (em tradução livre).
de mulheres pela cidade por meio de fios coloridos Trata-se, portanto, de uma ma-
Por Iris Alessi neira de se expressar que ocupa

20 URDUME Edição #02 URDUME Edição #02 21


capa capa

grafiteiro. “Fazer esse trabalho


em mural foi muito diferente de
tudo que eu já tinha feito, tan-
to na troca durante a execução
quanto depois e tudo o que isso
rendeu. Na sequência, fiz um
trabalho que foi um coração cor-
tado no meio com a frase ‘Onde
teu medo dói?’”, conta a artista.
Trabalho que teve grande reper-
cussão, pois as pessoas passaram
a responder à pergunta feita na
intervenção. “E essa resposta das

Foto: Divulgação Anne Galante


pessoas me motivou demais a
continuar meu trabalho na rua”,
lembra Karen, que hoje também
Crochê Gigante
de Anne Galante expõe suas obras em galerias.
para Nu Festival

Outra brasileira que está colo-


cando suas ideias nas ruas é a
artista gaúcha Leticia Matos, que
grafites, mas usando as agulhas Foi também em São Paulo que criou o projeto 13 Pompons em
como pincéis. “Aqui, tudo é fei- a artista Karen Dolorez começou 2012 e começou as intervenções
to com as próprias mãos, com a desenvolver seu trabalho e a quando, após ensinar amigas a
toque espirituoso, refletindo a levar o crochê para as ruas. Nas- fazerem tricô e pompons, elas
atitude urbana com o toque ar- cida em Bauru, no interior do es- levaram o resultado dessa aula
tesanal. Acho poético as cores do tado de São Paulo, Karen apren- (13 pompons coloridos em lã)
crochê contrastadas com o cinza deu a crochetar quando ainda para uma árvore em São Paulo. A
da argamassa”, explica Anne. era pequena, uma atividade que partir desta primeira ação, Leti-
fazia em família. E, ao mudar cia seguiu com uma intervenção
Além de artista, Anne também é para São Paulo, sentiu vontade por dia pelos 13 dias seguintes e
designer de moda e, ao lado da de retomar essas vivências. Em não parou mais.
irmã, é dona da marca Señorita suas pesquisas, conheceu mo-

Foto: Arquivo pessoal Karen Dolorez


Galante, que desenvolve rou- vimentos pelo mundo que en- Crochetar e fazer tricô na capital
pas e peças de decoração feitas volviam crochê, tricô e bordado, paulista eram, originalmente, os
à mão. “Eu faço uso criativo de mas, para ela, esse movimentos jeitos de relembrar os momen-
tos junto à mãe na capital gaú- Karen Dolorez e suas obras
tudo ao meu redor e sempre ten- apareciam de maneira diferente,
"Quando o amor comeu a
to manter a liberdade de viver na saindo do formato de artesanato cha. “Nunca tive o objetivo de minha paz e a minha guerra",
estrada, sem impor muita lógica como algo que é usado apenas ter um projeto de intervenções, 2018 e "Quando o amor comeu o
meu dia e a minha noite", 2018.
no trabalho final, trabalhando dentro de casa. se tornou um projeto depois
em cima do improvável e fazen- que as intervenções já estavam
do a ressurreição dessas técnicas A primeira intervenção de Karen, nas ruas. Fui deixando as coisas
milenares”, conta ela. foi em parceria com um amigo acontecerem e dei continuidade.

22 URDUME Edição #02 URDUME Edição #02 23


capa capa

Foto: Arquivo pessoal Karen Dolorez

Mural 4 do trabalho
"O fio libertador", de
Karen Dolorez, no

Foto: Lucas Hirai


SESC Consolação
"Girl Gathering",
2018 de Karen
Dolorez

24 URDUME Edição #02 URDUME Edição #02 25


capa capa

E me sinto feliz por dedicar parte A expressão também foi o es-


do meu tempo nisso”, revela. Es- topim do trabalho de Karen. “Foi
palhados pelas ruas de São Pau- muito diferente este processo
lo e por outros cantos do mundo, porque eu simplesmente co-
os trabalhos de Leticia são os re- mecei a colocar para fora o que
sultados de mãos inquietas. “É queria dizer e senti uma identi-
minha forma de expressão, não ficação das pessoas, do público,
me imagino sem fazer alguma tanto na rua quanto na internet.
técnica manual, parece que as E ali eu percebi que, ao falar so-
mãos não conseguem ficar pa- bre temas que eram muito meus
radas”, comenta. e importantes para mim, eu
também estava falando dos ou-

Fotos: Arquivo pessoal Letícia Matos


A livre manifestação das tros. Acabei encontrando pontos
ideias pelas mãos em comum”, conta.
A vontade de expressar-se foi o
que moveu essas três artistas e A arte de Karen está ligada às
Mãos de
o que move também Nathália questões de gênero, machismo, Leticia Matos
Abdalla, que encontrou nas artes ao corpo, entre outros temas. do Projeto 13
Pompons
manuais a força para uma virada No geral, são assuntos que tra-
profissional e de estilo de vida. zem algum incômodo a ela.
“O crochê, para mim, representa “A maior parte do que eu tenho alguma coisa que está me inco-
mais do que uma técnica, ele é o feito para a rua traz temas que eu modando bastante eu faço o tra-
meio que encontrei para comu- quero expressar independente- balho e, depois, vou ver onde eu
nicar ao mundo o que de melhor mente de qualquer coisa, e aí eu quero colocá-lo”. A segunda ma-
trago dentro de mim”, conta ela. faço o trabalho e coloco em luga- neira acontece quando o espaço
Designer de formação, Nathália res em que acredito que aquela surge antes da ideia. Nesse caso,
instala portais em crochê pela arte vai caber”, explica. Ao lado a artista busca criar algo para
cidade de São Paulo com a pro- das causas, as artes manuais ga- aquele espaço disponível. Então,
posta de falar sobre o tempo das nham lugar de destaque, fazen- as inspirações e a criatividade
Leticia Matos e mãos, da presença, da contem- do sentido que sejam discutidas surgem a partir das pesquisas e
o tecimento livre novamente, assim como seu lu-
plação. “Tirar o crochê das peças leituras que faz.
de casa, como tapetes, e levá-lo gar de importância.
para cima, é a maneira que vejo Por compor suas intervenções
de honrar todas as mãos croche- Ruas, causas, sentimentos com os grafites de São Paulo, a
teiras que vieram antes de mim. na criação cidade e toda a sua cultura tra-
Quero criar espaços de cor e pau- Como chegar a resultados finais zem grande diversidade para
sa em meio ao cinza e ao barulho tão expressivos e cheios de signi- as inspirações de Anne, mas só
Fotos: @Patikeda

que nos desconectam do que há ficados? Para Karen, a inspiração a vida urbana não basta. “Sou
de mais belo em ser humano: a para um novo trabalho surge por Paulistana de corpo e alma, e
nossa capacidade de criamos dois caminhos. O primeiro acon- São Paulo, essa metrópole que é
com nossas próprias mãos uma tece quando a artista quer ex- um passarela da diversidade, da
vida boa de se viver”, explica. pressar algo específico. “Se tem boemia, da moda de rua, me im-

26 URDUME Edição #02 URDUME Edição #02 27


XX capa

abrange a todos como especta-


dores”, aponta Anne. “É a minha
vida, é a minha luta, é o que eu
acredito e posso fazer para cons-
cientizar e inspirar mais pesso-

Fotos: Arquivo pessoal Letícia Matos


as para o mundo artesanal, com
menos lixo e mais significado”,
defende ela.

Leticia Matos Esse processo de interação do


fazendo
público com a arte começa mes-
intervenção
na rua mo antes da obra estar comple-
tamente pronta e instalada. “Em
geral, quando estou colocando
pressiona sempre com seus rios ele significa para mim, então mi- alguma intervenção na rua as
de carro e tribos diversas que nha criatividade vem daí. Não me pessoas param, conversam, per-
nela habitam. Mas não nego que pressiono em relação à criativi- guntam, elogiam, tanto no Brasil
preciso me refugiar de tempos dade, nem tenho a pretensão de como no exterior”, conta Leticia.
em tempo no mato para reno- ter um trabalho mais criativo ou Para ela, o resgate da memória
var as energias e manter acesa melhor do que o de ninguém. Me de alguém da família que faz ou
aquela inspiração arrebatadora preocupo em evoluir, me reinven- fazia essas atividades tem papel
que nunca pode acabar, que é a tar, sempre comparando o meu importante na conexão das pes-
paixão pelo desenvolvimento do trabalho hoje com o que já fiz há soas com as artes nas ruas. “Esse
novo, fazendo a minha imagina- um tempo”, completa Leticia. tipo de intervenção traz uma sen-
ção se expandir a um passado sação de carinho, zelo, dedicação.
antigo, misturado a um artesa- Arte com propósito e feita Pensamos na cidade como nos-
nato refinado e um mundo de para todos sa, nos sentimos parte dela, nos
faz de conta”, revela Anne. As tramas com os fios coloridos faz refletir em como estamos in-
atraem os olhares das pessoas, teragindo com ela”, completa.
Já o caminho criativo das inter- transformando as ruas em gran-
venções de Leticia parte tam- des galerias de arte, e, mais que Seja qual for o nome dado a estes
bém do sensorial do próprio isso, mudando a maneira das ataques de arte poéticos e fortes Portal para o tempo
das mãos: arte
material que será usado. “Eu pessoas de se conectarem com pelas cidades, expressar-se pelas criada pela designer
sempre começo pelas cores. Se- os espaços públicos. “Pode-se di-

Foto: Nicholas Abdalla


ruas, fazer intervenções com os Nathália Abdalla
paro aquelas que quero usar no zer que intervir na cidade é uma fios é muito mais do que tirar o
trabalho, pesquiso algumas tra- forma de não-musealização da crochê e o tricô de dentro de casa:
mas e instintivamente vou defi- arte. A arte urbana não limita a é manifestar-se por todos e para
nindo as combinações e criando sociedade, nem sequer faz acep- todos, é falar de causas, é usar as
os padrões que vou repetir na ção de pessoas. Ela não escolhe mãos e o coração para posicio-
peça”, conta. “Acredito na identi- certo tipo de público ou classe nar-se em um mundo que cada
dade do meu trabalho e no que social. A rua, a pele da cidade, vez mais nos exige isso

28 URDUME Edição #02 URDUME Edição #02 29


entrevista entrevista

A casa como Como anda a relação das pessoas com as próprias


casas, um espaço tão significativo para a constru-
que pudessem ser vendidos e, junto a isso, surgiu
a vontade de trabalhar com mulheres de família

potência da vida
ção de cada um? A casa, lugar onde nutrimos nosso de baixa renda. Naquela época, não tinha Bolsa Fa-
corpo e nossa alma, tem sido esvaziada por diversos mília, creches, e essas mulheres precisavam deixar
motivos, segundo Ana Lygia Vieira Schil da Veiga, a seus filhos para fazer faxinas em outros lugares. Foi
Nina Veiga. E, para ela, é preciso retomar a presença quando pensei que se elas produzissem brinquedos
desse lugar no dia a dia, que também é de extrema em suas próprias casas, poderiam ter uma renda ao
Referência em pesquisa sobre importância para as artes manuais. mesmo tempo em que cuidavam das crianças. Pas-
artes manuais, Nina Veiga milita sei, então, a ensiná-las a produzir brinquedos inspi-
pelo retorno à valorização do lar A relação de Nina com as artes manuais começou rados na educação proposta por Rudolf Steiner [Pai
como nosso espaço de nutrição e na escola, mas ela também acompanhava os gestos da Antroposofia] e criados por mim. Isso durou de
construção das nossas histórias de vai-e-vem de linhas e agulhas das mulheres de forma mais intensa até metade dos anos 2000, ape-
Por Estefania Lima sua casa. E foi assim que aprendeu, desde cedo, a sar de seguir até hoje. Foi uma trajetória que come-
construir e costurar seu próprio mundo. çou intuitivamente.

Por meio de uma aplicação prática de sua produção URDUME. E quais foram os desdobramentos des-
acadêmica, seja em oficinas, cursos de pós-gradua- se primeiro movimento?
ção e postura de vida, a educadora fala de tudo isso: Nina. Perto dos anos 2000, começaram a chegar
das artes manuais como modo de existir e da escrita até mim mulheres de classe média com o dese-
como produção de si e do mundo, da potência da jo de aprender algo que pudessem fazer com as
casa e os mecanismos que fizeram dela o lugar da mãos e que também fosse uma renda para que
vida. “Somos um fio pequeno que se une a um mo- contribuíssem com a casa. Eram advogadas, em-
vimento muito maior de ações”, pontua. presárias, bancárias - quase sempre com filhos pe-
quenos - e esgotadas do mundo corporativo. Come-
Mestre em Cultura e Linguagem, psicopedagoga cei a fazer formações abertas e, com isso, a reflexão
artística e doutora pela Universidade Federal de Juiz sobre a casa veio junto. Essas mulheres passaram
de Fora e Universidade de Lisboa, e investigadora a encontrar potências dentro de casa e, com isso,
das artes-manuais e da literatura no Instituto de Es- meu ativismo pela infância, que já vinha forte da dé-
tudos de Literatura Tradicional (IELT), da Universida- cada de 90, se consolidou na formação de adultos,
de Nova de Lisboa (Portugal), Nina conversou sobre com educadores parentais e institucionais. Passei a
suas pesquisas com a Urdume durante sua passa- fazer formação de professores, mas nunca ligada à
gem por Curitiba. Confira. escola, pois a ideia era (e é) tirar a escola de dentro
do professor. Minha proposta é que eles entendam
URDUME. Nina, como você começou a trabalhar que, principalmente nos primeiros anos de vida, o
com artes manuais têxteis? professor não é um professor, mas alguém que faz
Nina Veiga. Tudo começou pela infância, da neces- as vezes da casa na vida da criança.
sidade de criar oportunidades para que a cuidadora
principal de uma criança pequena, historicamente URDUME. Que casa é essa?
a mulher e mãe, tivesse um trabalho que permitisse Nina. A casa sempre entrou no meu discurso como
a permanência dela em casa, ao lado desse filho/fi- lugar de potência, e de potência esvaziada pelo seu

Foto: Unsplash
lha. Eu trabalhei no mundo corporativo por 15 anos valor porque a casa nunca teve valor no processo
e, aos poucos, fiz minha transição. Quando era con- civilizatório; ela sempre foi lugar da opressão. Entre-
sultora, usava meu tempo livre para fazer objetos tanto, em vez de buscar valor fora de casa, minha

30 URDUME Edição #02 URDUME Edição #02 31


ENTREVISTA
entrevista aaa

vontade sempre foi de que as pessoas vissem o valor naquelas que tinham as artes manuais como prá- lher queira sair do espaço que sempre a oprimiu. A plicado na correspondência com o imaginário da an-
da casa como lugar de nutrição, de liberdade e pro- tica do dia a dia por escolha. Então, toda a minha questão é, então, quem assume esse lugar, porque cestralidade e da casa que podem apoiar as linhas
dução de vida. Nessa organização civilizatória em pesquisa diz respeito à ideia da produção de conhe- nós saímos de casa e ela ficou vazia. terapêuticas dentro e fora do consultório. Rodas de
que vivemos, a vida não é valor, a vida vira produto. cimento junto à casa e junto à vida. Produção de conversa, empresas, nosso olhar é para a ação na co-
Por isso, temos tanta dificuldade de fazer as artes ciência e arte colada ao fazer. A partir disso, cons- URDUME. E quais são os sintomas dessa casa va- munhão do corpo com o fazer. É isso também que
manuais (que têm valor de vida), virarem produto trói-se todo um edifício de pensamento, elevando o zia? temos pesquisado na pós-graduação de artes manu-
sem pervertê-las. Precisamos entender que quan- valor da casa e questionando a matriz civilizacional. Nina. Como o esvaziamento da casa acontece um ais para educação. O locus da pesquisa é a casa e os
do compramos um produto artesanal, precisamos Quando digo que o meu trabalho não se descola da fenômeno terrível: o esvaziamento do sentido da gestos produzidos na cultura doméstica em frente
olhar para a história de quem o fez, porque o produ- luta indígena, negra, ambiental, é porque esses lu- vida. E aí está o problema. Você vai para rua ser cien- à necessidade. Questionamos, por exemplo a apro-
to em si, é o de menos. O mais importante é a vida gares de tensão são tensões de uma crise mundial. tista, mas anexo a isso vem um esvaziamento pro- priação das artes domésticas, como os fios revestin-
que apoiamos ao comprá-lo. O produto é apenas Somos um fio pequeno que seu une a um movi- fundo de sentido. Lavar, comer, brincar, cozinhar, do postes. O que é feito em casa só tem valor quando
um meio. E a minha caminhada se deu assim, fui mento muito maior de ações. passear, tomar sol, cultivar a terra, essas “bobagenzi- vai para rua?
fazendo, até chegar ao doutoramento. nhas”, são o que dão sentido à vida. É claro que isso
URDUME. Mas essa luta pela casa não vai contra não quer dizer que você precisa parar de trabalhar URDUME. Então revestir um poste com fios seria
URDUME. E o que você estudou na sua tese? à proposta de saída da casa de alguns dos movi- fora, mas que a sua jornada de trabalho precisa dei- algo ruim?
Nina. No meu doutorado, o que me interessava era mentos feministas? xar espaço para a vida. Estamos tão habituados com Nina. O poste é a composição de um discurso. Ele
a linguagem, a escrita que vem colada ao corpo que Nina. Estamos dentro da luta da mulher tensionan- essa rotina insana que não conseguimos enxergar pode dar a pensar. Se eu desloco uma coisa, eu dou
faz. Na minha prática eu adotava cadernos o tem- do um lugar que, para muitas feministas, é o lugar uma saída. Precisamos de mudanças estruturais, de a pensar, e isso é importante, mas só se a gente não
po todo porque a escrita doméstica sempre se deu que devemos abandonar. Mas e se a gente não ma- valor e econômicas. anestesiar nossos questionamentos. Ele é importan-
nesses cadernos diários - a casa tar “o anjo do lar” [Nina faz referência a te se não acreditarmos que ele tem valor e uma blusa
sempre teve a sua escrita com os um texto de Virginia Woolf] para poder URDUME. Mas de alguma forma a casa vem ga- de tricô, não. Caso contrário, estamos só alimentando
cadernos de receita, de poesia e O valor da preservar nosso lugar de nutrição? Matar nhando valor atualmente, não? o mesmo sistema. E não é isso que queremos fazer
tudo que é considerado menor, de
menor qualidade, e vinculado ne-
casa é o valor o anjo do lar é deixar a alma de fora da
vida. Como podemos não matá-lo? Como
Nina. Temos que tomar cuidado porque a máqui-
na capitalista sempre se apropria dos conceitos e
cessariamente ao feminino. Então, do abrigo, voltar para casa sem transformá-la em esvazia os sentidos. Temos todo um movimento de
quis olhar para a questão do valor: um produto? Essas são questões de pes-
a quem interessa que o que se o valor da quisa. No entanto, a primeira coisa que
“slows” cheio de nomes estrangeiros, mas normal-
mente quem encabeça essas ideias são pessoas de
produz na casa (que é vida e não
possa ser transformado em pro-
produção devemos ter em mente é que a casa ul-
trapassa as questões biológicas e de gê-
camadas sociais que não precisam trabalhar para
viver. É lícito? Claro que é, isso muda cultura, mas
duto) não tenha valor? Esse tipo de vida. nero porque o homem que fica em casa mantém as coisas no lugar, não trabalha os territó-

Foto: Retrato3 Estúdo


de pensamento, que transformou também é desvalorizado. O valor da casa rios e precisamos pensar sobre como compor outros
Nina Veiga
a casa no lugar da tela, do banho e do sono, não se é o valor do abrigo, o valor da produção de vida. His- mundos possíveis. Se você olhar com cuidado, não
e sua tese,
sustenta mais. Por isso, decidi olhar mais de perto toricamente isso foi delegado a quem tinha menos fica nada no lugar. Por esse motivo, o autocuidado feita à mão,
para onde estavam as mulheres que ainda tinham força e poder, a mulher. Entendido isso, a gente pre- é tão importante, pois quanto mais enxergamos as Fiar a Escrita

as artes manuais com prática cotidiana e o que elas cisa começar a olhar como percebemos as formas estruturas que nos aprisionam, mais fragilizados fi-
traziam como potência. de vida, como desqualificamos tudo aquilo que não camos. A casa é o lugar onde esse cuidado aconte-
se pode transformar em produto e precisa ser feito ce, o lugar da micropolítica.
URDUME. E o que você encontrou? todo dia para viver. Você precisa comer e, se você
Nina. Encontrei um tensionamento forte entre as não faz a sua comida, é porque alguém faz isso para URDUME. Falando em cuidado, pode nos falar so-
mulheres que o faziam porque não tinham se esco- você. Nós nos acostumamos a terceirizar a vida. E bre as suas linhas de pesquisa? O que seriam as
larizado, evidenciando a disputa entre o fazer bra- porque essa atividade perdeu o valor? Porque um artes manuais para terapia?
çal desqualificado versus o intelectual qualificado. dia alguém com mais poder obrigou outro com me- Nina. Queremos pesquisar a cartografia das forças
Mas encontrei o mesmo em outros níveis, também nos [poder] a fazer. Então, parece lógico que a mu- que habitam as técnicas, os fazeres, o gestual im-

32 URDUME Edição #02 URDUME Edição #02 33


moda

Trench e calça NERIAGE


Sapatos FLATS por
Mariana Cassandra

Ser consciente não


é só mais uma opção -
é necessidade
Em editorial exclusivo para a Urdume, Dani Nucci traz marcas
que apoiam o consumo consciente e o fazer artesanal
Por Estefania Lima

Editora de moda e stylist, Dani Nucci se conectou - um mercado que a stylist considera ainda res-
com a moda muito cedo: aos dez anos ganhou trito no Brasil, mas que acredita que ajuda a es-
uma mini-máquina de costura e ali começou a palhar a mensagem de que ser consciente já não
costurar para suas bonecas. Desde então, sou- é mais uma opção, é uma necessidade. Para isso,
be muito bem o que queria e foi cursar oficinas um bom começo é acompanhar as empresas pe-
de modelagem e costura até chegar à faculdade las redes sociais. “As marcas postam como é feito
de moda. Consciente de que a roupa não é feita o desenvolvimento de cada peça. Então, é legal
apenas para ser vestida, mas que é um meio de observar quais destas seguem padrões que não
expressão e comunicação, ela buscou mais infor- prejudicam o meio ambiente, seja usando tecidos
mações sobre os processos de produção e passou eco-friendly, tingimentos naturais, ou criações
a consumir menos, procurando sempre saber a de peças mais duráveis, pois esse é o raciocínio”,

Sierra
origem das roupas e a maneira como eram feitas. explica Dani.

E esta foi a virada para que Dani trabalhasse com Para apresentar seu trabalho na Urdume, Dani
Fotografia: Andre Arthur (Pri Gonsalez Artists) sustentabilidade, indo contra a moda com o viés montou um editorial com marcas que apoiam o
Styling: Dani Nucci (Baobá MGT) descartável, da proposta do “usa-se hoje a joga- consumo consciente da moda e de produção ar-
Beleza: Jordélio Vieira
se fora amanhã”. Passou, então, a trabalhar com tesanal. Veja a seguir as produções que foram fo-
marcas de produções de pequena e média esca- tografadas em Vitória, no Espírito Santo, especial-
la que promoviam a consciência socioambiental mente para esta edição

34 URDUME Edição #02 URDUME Edição #02 35


XX moda
Camisa longa e calça ROCIO CANVAS
Pochete TRAMAS COM FIO
Chapéu KELFEREY

Chapéu, jaqueta, saia


e cinto HELOÍSA FARIA
Sapatos PAULA FERBER
Brincos MONILI DI LEGNO
para Fair&Sale

Foto: Laís Domingues

36 URDUME Edição #02 URDUME Edição #02 37


Moda

Blusa e vestido JULIANA GEVAERD


Pochete ROCIO CANVAS
Brinco CAROL BARRETO

Camisa ENVIDO para Fauna


Vestido ALUF
Brincos ADRIANA VALENTE
para Fauna

38 URDUME Edição #02 URDUME EDIÇÃO #01


diário

Modelo: VIVIAN FUZARI (Ragazzo)


Tratamento de Imagem: THIAGO MIRANDA
Prod. Executiva: STUDIO NAIPE

Tecendo novas
Assist. de Foto: BRUNO GAVA
Agradecimentos: RAINERI EQUIPAMENTOS

possibilidades
Por Sarah Zar

Foto: Arquivo pessoal Sarah Zar


Camisa longa e calça KELFEREY
Colar MÃOS DA TERRA
Cinto TRAMAS COM FIO Há poucas semanas, atravessei o gui em meio à neve e ao silêncio,
oceano Atlântico com meu mari- mesmo com as ruas tomadas de
do, nossos gatinhos, nossas ma- gente. Notei equilíbrio entre a na-
las e muitos fios e agulhas rumo tureza e a cidade, onde próximo a
à uma nova etapa para todos nós, grandes parques encontrei mani-
na Europa. Karlstad, no interior da festações artísticas, como grafites
Suécia, tornou-se meu novo lar. E e yarn bombs [ou “bombardeio de
antes mesmo de chegar aqui, fiz fios”, um tipo de arte de rua que e renovação, além do interesse
uma breve pesquisa para com- aplica teias de fios de tricô ou fi- em saber a procedência do que
preender o que estava por vir, mas bras coloridas pela cidade]. Outro consomem no dia a dia.
por melhor que seja uma pesqui- dos importantes passeios que fiz
sa, nada como caminhar, observar foi a ida a um armarinho próximo E nem tudo está perdido: o feito
e ter contato com o novo. de casa. Lá, em meio a tantos fios à mão ainda tem seu valor mes-
e possibilidades, confesso que me mo sendo visto com outro olhar.
Design escandinavo, frio, racio- senti mais acolhida. E foi aí que, Notei que existe incentivo por
nalidade e pessoas introvertidas munida de mais segurança neste parte do governo em manter as
foram, talvez, meus primeiros novo lugar, refleti sobre o porquê tradições e reconhecer o artesão
pensamentos antes de andar pela da nossa tendência de buscar as como profissional oferecendo
cidade. Entretanto, fui bastante diferenças em vez das semelhan- cursos livres e ensino superior em
surpreendida com o que encon- ças. Decidi, então, conversar com diversas áreas do craft sem custo
trei nesse caminhar: o frio, que os locais para compreendê-los algum. Outro fato relevante é que
eu tanto temia, não me assustou melhor. E logo após este primei- desde a infância, a educação visa
como esperava; o design e a ra- ro contato pude desmistificar al- igualdade entre os gêneros. Isto é
cionalidade estão, sim, presentes guns pré conceitos e identificar vivido em forma prática com ativi-
em boa parte do cotidiano; e o outras afinidades. dades que envolvem artes manu-
receio do contato com os mora- ais e noções básicas de tarefas de
dores foi diluído no primeiro gole Por trás da rotina de trabalho e casa. É tão comum por aqui um
de café com um delicioso bolinho consumo, enxerguei pessoas que, menino pregar um botão ou tri-
de canela (momento aqui conhe- de tão envolvidas na individua- cotar quanto uma menina numa
cido como “Fika”, uma pausa para lidade, preferem manter-se em aula de carpintaria.
tomar café com Kanelbulle). E, grupos homogêneos em vez de
assim, as possibilidades de tecer encarar o diferente. A cultura do Tão pouco tempo e tanto para ver.
novas histórias foram se abrindo. craft, por exemplo, sofreu com Agora, cabe a mim desenrolar to-
esta fragmentação e hoje é tida dos os fios e nós e deles tecer mi-
Num domingo de sol, pude estre- como algo excêntrico, “hipster”. nha história que por ora se passa
ar um xale e um gorro que cro- Em contrapartida, a consciência no interior da Suécia, mas nunca
chetei ainda no Brasil, semanas ecológica de parte da população se sabe onde pontos e tramas po-
antes da mudança. Aquecida, se- gera movimentos de reutilização dem nos levar...
Foto: Arquivo Emilie Andrade

40 URDUME Edição #02 URDUME Edição #02 41


SUSTENTABILIDADE
sustentabilidade aaa

Upcycling como
Apesar de estar em crescimento, o conceito e prin-

Foto: Telúrica/ Divulgação


cipalmente a importância da sustentabilidade ainda
são pouco conhecidos. O levantamento Panorama
do Consumo Consciente no Brasil, lançado em 2017

tendência de mercado pelo Instituto Akatu, apontou que 61% dos consumi-
dores não sabia dizer o que é um produto sustentável
e 11% não fazia ideia do que é sustentabilidade. Se-
A boa e velha customização chega às grandes marcas gundo Bruna Salatta, fundadora e designer da Telú-
rica, marca de mochilas, bolsas e acessórios, grande
Por Cristine Bartchewsky Lobato
parte dos seus clientes são atraídos pela estética e
funcionalidade e, posteriormente, descobrem que as
Quando o tema é roupa de festa, costuma vir à mente peças são feitas com tecido de reuso.
os vestidos cheios de pedrarias, rendas e brilhos que
não combinam com o dia a dia e que, eventualmen- A marca de Bruna nasceu em 2007 alinhada ao con-
te, ficam abandonados no guarda-roupas para, quem ceito do upcycling por uma necessidade. “A forma
sabe, serem usados novamente. Mas se isso pode como eu comecei a Telúrica é sustentável, mas eu
acontecer com algumas peças dentro dos armários, não pensava nisso. Comecei fazendo bolsas com as
qual será o impacto de todas as produções das gran- calças do meu pai, porque não tinha dinheiro para
des marcas? comprar tecido”, revela. Atualmente, existe muito
planejamento para a sustentabilidade: 90% dos pro-
Em uma realidade em que a indústria da moda é a dutos da marca são feitos com tecido de reuso, peças
segunda mais poluente do mundo, ficando atrás ape- garimpadas em brechós, bazares de igreja e doadas
nas do petróleo, e responsável por 10% das emissões por amigos.
de carbono em todo planeta, é urgente que todos
pensem cada vez mais sobre o consumo consciente e Estas são as mesmas fontes de Juliene Darin, direto-
sobre soluções para aumentar a vida útil das roupas e ra e criadora da marca de luxo Upcyqueen. “Sempre
reduzir os resíduos têxteis. fui apaixonada por feiras, brechós, vintage, exército
da salvação, desde os 12 anos garimpo nesses locais”,
O conceito de upcycling vem com essa proposta, que relata. Para ela, as roupas têm histórias e vale a pena
não é nova na realidade de muitas mulheres, mas que olhá-las do ponto de vista afetivo para dar um des- É importante saber que a degradação dos tecidos em
tem chegado às empresas. tino mais limpo e justo a essas peças. “Reformando geral é lenta, principalmente quando há fibra sintéti-
você realmente traz vida, coloca arte, pode mudar ca na composição. A fibra mais utilizada na produção
A customização em grande escala completamente a estrutura das peças e embelezá de vestuários no mundo, o poliéster, leva mais de 200
O upcycling consiste em manter a estrutura do ma- -las, prolongando a vida delas, diminuindo o impacto anos para se decompor. Considerando esse cenário,
terial da peça que será reaproveitada e colocar uma ambiental e evitando que cheguem aos aterros sani- diversas alternativas sustentáveis vêm surgindo na
aplicação diferente da original. Na prática, isso signi- tários, o que polui mais e mais”, afirma. indústria nos últimos anos com o objetivo de minimi-
fica que empresas passaram a repaginar roupas en- zar impactos e gerar renda a partir de um novo ciclo
calhadas de coleções anteriores, e os retalhos em fios Por que difundir essa prática produtivo.
Foto: Telúrica/ Divulgação

são utilizados por designers e artesãos. “O fio de ma- Em março de 2018, o Sebrae publicou uma estimativa
lha, por exemplo, foi o item mais vendido da loja em sobre a quantidade de retalhos produzidos no Brasil O upcycling vem como mais um dos caminhos. Seja
2018, ficando em primeiro lugar por mais de seis me- pelo mercado têxtil: 170 mil toneladas ao ano, sendo uma prática das grandes marcas ou o trabalho ma-
ses”, diz Ivana Alves, gerente de comunidade da Zôdio que 80% são destinados aos lixões. Apenas em São nual dentro de casa, existe ali uma solução sustentá-
Brasil, loja de artigos domésticos e decoração do gru- Paulo, por exemplo, o polo têxtil no bairro do Bom Re- vel para lidar com resíduos têxteis e também evitar
po ADEO, o mesmo do qual a Leroy Merlyn faz parte. tiro produz 12 toneladas de resíduos têxteis por dia. que sejam produzidos

42 URDUME Edição #02 URDUME Edição #02 43


reflexão aaa

Ponto doce
O espaço e o respeito à introversão na atualidade
Por Estefania Lima

Ponto Doce. Pode parecer, mas esse não é o nome quiserem ser esquecidos”. Tomar atitudes que
de um ponto de tricô, e sim como Susan Cain, auto- contrariem essa lógica pode parecer remar contra
ra do livro O Poder dos Quietos, chama o momento a maré, mas tem grandes chances de dar certo.
em que uma pessoa consegue organizar a vida para Sarah Corbertt, por exemplo, criadora do Craftivist
estar em ótimos níveis de estimulação. Isso porque, Collective, encontrou seu ponto doce no ativismo
segundo a autora, a sensibilidade aos estímulos é intimista. Cansada de militar nas ruas, algo que a
o que define se alguém é introvertido ou extrover- deixava ansiosa e esgotada, a autora do livro How
tido. Ou seja, o que faz com que algumas pessoas to be a craftivist – The art of gentle protest [Como
fiquem cada vez mais expansivas em uma festa ser um craftivista - A arte do protesto gentil em
cheia de gente, enquanto outras vão procurar uma tradução livre] mudou sua forma de atuação sem
única pessoa para conversar, reservadamente. desligar-se do seu propósito.

A todo momento somos convidados ao externo, ao Sarah passou a usar o artesanato como forma de
compartilhamento de opiniões, exposições, o que expressão e descobriu que, ao trazer o ativismo
nem sempre é agradável para aqueles que sen- para perto das atividades manuais, ajudaria não
tem necessidade física e psíquica de isolamento. só aos introvertidos, mas também extrovertidos,
Um desafio para quem fica do lado introvertido que poderiam meditar sobre suas ações enquanto
do espectro e que sofre com o culto à persona- desenvolviam uma peça de bordado ou tricô para
lidade extrovertida que vivemos nos nossos tem- um protesto gentil.
pos. Na verdade, parece quase impossível pensar
em estilos de vida que se descolem de um modelo As artes manuais têxteis, como já é sabido, ótimas
de expansão e autopromoção, já que, hoje em dia, ferramentas de conexão. Para algumas pessoas,
falar em público e influenciar pessoas virou sinô- externa. Para outras, interna. Encontrar seu ponto
nimo de sucesso. Necessidade essa que aparece, doce no meio das artes manuais pode ser o cami-

Ilustração: Carina Flores/Criativo Curioso


inclusive, quando falamos de atividades que teori- nho para que um prazer não passe a ser um tor-
camente nos levam à introspecção, como as artes mento. Afinal, se para alguns a delícia de fazer tri-
manuais têxteis. cô está na troca das rodas de amigas, para outros,
a potência do ofício se dá quando se está sozinho.
No cabo de guerra entre desacelerar e dar conta Sabendo disso, parece menos complexo tentar
de um mundo cada vez mais cheio de estímulos, conscientemente se situar em ambientes favorá-
onde você não precisa só receber, mas também veis a sua personalidade, nas redes sociais ou nos
emitir, diversos artesãos sofrem a pressão de esta- encontros presenciais, para encontrar também o
rem o tempo todo nas redes, produzindo, “se não ponto doce dos fios

44 URDUME Edição #02


educação educação

Tecendo uma festa: as


presenciam a dor e a beleza de
nossos erros e acertos nestes
processos, desde a dificuldade

artes manuais no jardim com a lida com a máquina de


costura, à alegria de ver uma
Coroa do Divino ficando pronta e

de infância linda pro dia da festa.

Ao adentrar em uma época,


Por Dayse Santiago
começamos nós, adultos, a nos
reunir para conversar sobre
Para que uma boa festa seja se torna translúcido no que crianças, construímos brinquedos os significados dela para cada
construída, é preciso muita é, pois procura, ao seu modo, de papel machê, enfeites para um, estudamos seus conceitos
mão na massa e muita linha fazer o melhor. Esta busca em a mesa de época, móbile para e sentimos o que disso tudo é
na agulha. É preciso “fabricar” aprimoramento ou descoberta de as salas, coroa para o Divino, apropriado e verdadeiro para
esse ambiente, envolvê-lo de uma nova habilidade é também reformamos bonecos do ano nossa vivência com as crianças
muito carinho, pois está sendo uma busca no bem estar de si anterior... tudo através das mãos em um ambiente escolar. As
preparado para um dia especial. mesmo, de fé e confiança. e do coração. De quem? Da conversas se dão em reuniões
Todo dia de festa é especial: os nossa urdidura mais poderosa: pedagógicas, nos corredores, por
aniversários, as conquistas, as Em nosso jardim, confeccionamos professoras, mães, pais e avós grupos de whatsapp, na sala de picamos tudinho, jogamos na adultos para “confeccionarmos”
realizações, os dias santos. É as bandeirinhas, bordamos a das crianças. Onde? Nas salas, na costura, no jardim; ou seja, todo panela e engrossamos o caldo. E, esse ambiente. É nesse vai e
na festa, em meio à alegria de bandeira do Divino, motivos para o cozinha, no jardim, no entre e com insight também é válido. Toda desse panelão, saem as Festas do vem das navetes que vamos
nos reunirmos por um objetivo boi, costuramos as lembrancinhas as crianças que nos rodeiam. vontade individual e criativa é Divino, os autos de Bumba Boi, compondo a trama desse tecido;
comum, que cada indivíduo das festas, adereços para as válida. O que importa é a vontade, entrega de doces em dia de São mudando cores, adicionando
Sendo esse um ambiente que é o impulso de se fazer. Cosme e Damião, mutirões em elementos, mantendo o prumo
honra e respeita a presença e a Festas da Primavera, com direito do tecer para que o tecido nem
potência da criança no mundo, A época nos dá dispositivos à construção de galinheiro, afine demais, nem fique largo
não seria mais adequado para vivenciar esse período de composteira, cabana e almoço demais. Por meio de bordados,
envolvê-la neste processo de maneira plena de significados coletivo, pintar casquinhas de tricôs, papel machê, macramês,
aprendizagem, tornando digna naturais e culturais. Em todo ovos com corantes naturais, fazer feltragens, crochês, costuras,
sua participação? Como? Sendo caso, procuramos elementos uma receita especial de pão no marcenaria, e muitas outras
nós, adultos, felizes com sua para compor esse quadro a dia de Micael, desafiar o fogo tarefas realizadas com as próprias
presença no ambiente, com partir de nossa experiência, cozinhando na fogueira, elaborar mãos, é assim que tecemos o
sua curiosidade em saber o que curiosidades individuais, estudo, máscaras de papel para um nosso ambiente
estamos fazendo, percebendo e - isso é muito importante - carnavalzinho. E, desse panelão,
Fotos: Arquivo pessoal Dayse Santiago

quando tentar imitar nosso relacionar tudo ao ambiente e vale o tempero de cada um, da
gesto em suas brincadeiras, por à localidade em que vivemos. sua maneira, com seu sabor. É
Ambiente é essa casa, nosso Texto extraído do livro “Ô de casa,
exemplo, tocando bacias de isso que nos alimenta. Se cada
ambiente escolar, as famílias que um chamado”, de Dayse Cristina
alumínio com pauzinhos imitando um colocar dentro dessa panela
Santiago, como conclusão de curso
o toque do tambor, ou cuidando nos rodeiam, os nossos vizinhos algo que nos alimente, mesmo
da Pós Graduação Artes-Manuais
com esmero um paninho de sua de bairro. Localidade é a cidade, o que seja a alegria de desfrutar da
para a Educação, e editado para a
casinha assim como cuidamos estado e o país em que vivemos. festa em si, será válido.
segunda edição da Urdume.
de nossos bordados. As crianças De todo resto, nos apropriamos, Contamos com o apoio de todos os

46 URDUME Edição #02 URDUME Edição #02 47


infância infância

O encanto
URDUME: Aliás, por que ganhou este nome? desses bonecos que, para mim, são muito mais que
YS: Queria um nome que em espanhol não tivesse ne- simples bichinhos em crochê: são minhas persona-
nhum significado e não estivesse relacionado com a gens, minhas criaturas. Além disso, amo livros e, aqui

dos bonecos
palavra amigurumi. Eu não sabia se eu ia a continuar na Argentina, ainda não existia nenhuma publicação
fazendo bichinhos em crochê e queria ter um nome deste tipo, então seria um lindo desafio.

de crochê
que identificasse o blog e qualquer outro produto. E
também Pica Pau porque eu cresci escutando a mi- URDUME: Como os artesãos podem ajudar a com-
nha mãe falando dos contos do Sítio do Pica Pau Ama- bater a pirataria?
relo. Aliás, ainda tenho a minha boneca Emília. YS: Talvez a solução seja que todas as pessoas façam o
esforço de valorizar e mencionar o trabalho do outro,
Conheça a trajetória da criadora da
URDUME: Como é o teu processo de criação de bo- do autor e dos artesãos, tanto por parte dos consumi-
Pica Pau, os processos criativos dos necos? dores, leitores, como das editoras. Acho importante o
personagens e seu primeiro contato YS: O tempo todo estou “colecionando” imagens, fo- trabalho de muitas novas publicações que enfatizam

com as artes manuais tografias, ilustrações etc, e vou desenhando persona- e valorizam a obra do autor, pois elas não estão apenas

Fotos: Arquivo Yan Schenkel


gens, roupas ou qualquer coisa que acho possa me ajudando a lutar contra pirataria, mas agregando valor
Por Iris Alessi
servir na hora de pensar uma personagem. Também a todas as artes manuais.
vou montando listas de animais que gostaria de fazer,
Nascida em Buenos Aires, Yanina Schenkel é filha de procuro fotografias e pesquiso sobre seus hábitos por- URDUME: Na sua visão, qual o futuro das artes ma-
um argentino com uma brasileira, e foi com a mãe e a que me ajuda a pensar e escrever as suas histórias. Aí nuais?
avó que Yan aprendeu a fazer crochê desde cedo. Ide- vou completando cadernos com rabiscos, anotações, YS: Na primeira vez em que me entrevistaram respon-
alizadora da marca Pica Pau, que depois virou o título cores. Sempre vou misturando isso de desenhar, pes- di a esta mesma pergunta. Naquele momento, acredi-
de seus livros, ela estudou Artes Visuais na UNA (Uni- URDUME: Onde conheceu os amigurumis e quando quisar e tecer. Se for possível, faço um pouco de cada tava que as pessoas tinham necessidade de voltar às
versidad Nacional de Las Artes) e, atualmente, dedica- começou a tecê-los? um no dia. coisas mais simples, feitas à mão, sentidas, cuidadas e
se a criar bonecos encantadores em crochê para que YS: Fiz o meu primeiro boneco em crochê sem saber valoradas. Mas, fora isso, que talvez seja a parte mais
muitas pessoas possam tecê-los também. Saiba mais que eles tinham esse nome. E o primeiro foi um ursi- URDUME: Quando você percebeu que criar e vender comercial do assunto, acredito que as artes manuais
sobre a história de Yan, que não considera o crochê nho para um cachecol que fiz para meu filho quando bonecos e padrões poderia ser sua principal ativi- estão ligadas à mulher e por muito tempo estiveram
uma “coisa de vó”, mas, sim, de brasileira. ele tinha 6 anos - isso há 11 anos já! Gostei tanto que dade? presas em casa do mesmo jeito que a mulher. Agora,
continuei, mas sem saber bem o que eu estava fazen- YS: Comecei a vender bonecos em 2010, que foi quan- com o ressurgimento do feminismo e as vozes de no-
REVISTA URDUME: Quais foram os teus primeiros do. Procurei outras pessoas tecendo esse tipo de bichi- do também coloquei à venda os meus primeiros pa- vas gerações, estes trabalhos estão saindo dessa clau-
pontos no crochê? nho e achei! Os blogs estavam no auge na época, e foi drões no Etsy. Em 2011, quando comecei a dar aulas sura e sendo vistos, apreciados e valorizados. Mas sei
Yanina Schenkel: Acho que a primeira vez eu deve- aí que descobri também o nome amigurumis e não de crochê, surgiram dois trabalhos importantes: dese- que ainda estamos começando e temos muito cami-
ria ter uns oito anos. Minha mãe, gaúcha, gostava de gostei nada (risos). Ainda continuo lutando um pouco nhar meus primeiros bonecos para uma grife infantil nho a percorrer
fazer babadinhos nas toalhas de banho e minha avó contra esse nome (risos). e participar do meu primeiro evento no Malba. Nes-
fazia essas galinhas que se coloca no bico da chalei- se momento percebi que podia ser um trabalho sério
ra para aquecer água. E eu adorava! Para mim, crochê URDUME: Qual foi o teu primeiro padrão criado? mesmo e isso tornou-se a minha principal atividade.
não era coisa de vovó, mas de brasileira. Contudo, não YS: Foi o segundo ursinho que eu fiz. Logo depois, teci Mas como fazia tudo sozinha, nunca cheguei a viver Livro: A banda
via o sentido em fazer nenhumas delas, então preferi algumas bonecas e coelhinhos. Mas os primeiros “Pica somente dele. Foi em 2015, com meu primeiro livro, do Pica Pau.
Ed. GGili
aprender tricô e só voltei a pegar numa agulha de cro- Pau”, com o jeitinho de Pica Pau, foram o macaco Jac- que passei a “viver” desse trabalho.
chê aos 25 anos, quando tive uma colega de Belas Ar- ques e a raposa Lucas.
tes que fazia bolsas. Mas como ela não gostava muito URDUME: Como surgiu a ideia para escrever seu pri-
de ensinar, eu tecia sem saber os nomes e ia mudando URDUME: Quando nasceu a marca Pica Pau? meiro livro de padrões?
os pontos a cada carreira. Decidi pegar os livros de te- YS: Em 2009, quando depois de fazer alguns bonecos, YS: Ele saiu depois de insistir muito, muito (risos). Eu já
cido da minha mãe, mas nenhum ensinava como pe- decidi começar um blog e ter uma página no Face- tinha mais de 30 personagens e ainda vendia os bone-
gar e passar os fios nas mãos. E é por isso que, até hoje, book para poder compartilhar meu trabalho. Éramos cos, mas muitas “marcas” locais estavam me plagian-
eu pego a agulha e fio de um jeito nada “tradicional”. tão poucos e as fotografias tão feias (risos). do. O livro era um modo de me confirmar como autora

48 URDUME Edição #02 URDUME Edição #02 49


autoria autoria

Nos últimos meses, uma questão em 2018 no Brasil, a lei protege os defende que ideias 100% inéditas
ganhou a atenção dos artesãos: resultados da criação – seja uma são quase impossíveis nos dias de
os direitos autorais. Menções à peça de vestuário, um acessório hoje, uma vez que temos acesso
cópia, plágio e autoria se espa- ou um objeto de decoração. “Os a um turbilhão de informações e
lharam em debates pelas redes direitos autorais são divididos em influências, o que tem colocado
sociais. Há quem condene qual- direitos patrimoniais, que podem em cheque as avaliações sobre
quer tipo de cópia e há quem ser licenciados ou cedidos para originalidade. Para ele, nenhuma
acredite que tudo o que está na exploração comercial por outras ideia surge de forma repentina e
internet é de domínio público, pessoas, e direitos morais, que copiar pode ajudar no desenvolvi-
independentemente de quem estão ligados à personalidade de mento de habilidades técnicas e
fez primeiro. Mas, afinal, objetos quem criou determinada obra, criativas próprias. Porém, é preci-
criados a partir de técnicas tra- sendo estes perpétuos”, explica so entender que cópia é diferente
dicionais - passadas de geração Cendão. “É o caso de materiais de de plágio. “Copiar é engenharia
para geração - têm dono? cursos ou tutoriais online. Mesmo reversa. É como um mecânico
quando disponibilizados gratui- removendo as partes de um car-
De acordo com o advogado e tamente, podem possuir licenças ro para ver como ele funciona”,
especialista em Propriedade In- que precisam ser respeitadas e, explica o autor. Já o plágio, é fa-
telectual pelo Instituto Nacional na maioria dos casos, a citação do zer o trabalho de outra pessoa se
da Propriedade Industrial (INPI), autor do conteúdo é obrigatória. passar por seu, assumindo a au-
Fabio Cendão, obras artesanais Ou seja, os direitos patrimoniais toria de algo que não criou.
podem ter, sim, a proteção pela podem ter sido licenciados ou ce-
Lei de Direitos Autorais e são con- didos, mas os direitos morais per- O autor afirma também que toda
sideradas do autor a partir do manecerão, além da possibilida- criação é fruto de diferentes ideias
momento da criação, desde que de de regras específicas criadas colecionadas ao longo da vida e
seja possível comprovar isso. “É pelo autor. É preciso estar atento elas vêm do seu dia a dia, dos fil-
importante lembrar que méto- se a distribuição do conteúdo é mes que assiste, dos livros que lê,
dos não são passíveis de proteção liberada ou se a comercialização das viagens que faz, das pessoas
de direito autoral. As técnicas, em do produto é permitida. E isso com quem convive. Coletar ideias
regra, não podem ser registradas, vale para o uso de qualquer ma- de outras pessoas e transformá
mas as obras feitas a partir delas, terial: textos, fotos, vídeos e obras -las em algo seu pode ser a chave
podem, pois são fruto da criação artesanais”, completa. para o sucesso. Quanto mais ins-

Pode copiar?
do autor. Além disso, estas obras pirações você tiver, maior será seu
não exigem um registro específi- Desenvolvendo o próprio repertório para criar. “Não se limi-
co, sendo suficiente ao autor con- estilo te a roubar o estilo, roube o pensa-
seguir provar a data de criação e No livro Roube como um artis- mento por trás do estilo. Você não
autoria. Por exemplo: pontos de ta, o autor Austin Kleon pondera quer parecer os seus heróis, você
Foto: Designecologist from Pexels

A cópia tende a ajudar no desenvolvimento de habilidades técnicas bordado não podem ter sua auto- a respeito da criatividade na era quer enxergar como eles”, sugere.
e criativas próprias, contribuindo para a construção da identidade ria registrada, porém um quadro digital: “Não saímos do útero sa- Ele explica que observar a forma
do artesão, mas o plágio é uma violação dos direitos do outro bordado com um desenho criado bendo quem somos. No come- de pensar das pessoas que admi-
por um artista, pode”, afirma. ço, aprendemos fingindo que ra e conhecer seus processos cria-
Por Estela de Andrade
somos nossos heróis. Aprende- tivos auxiliam no desenvolvimen-
Com um crescimento de 40,3% de mos copiando. Estamos falando to de uma identidade própria, já
registros de desenhos industriais de prática, não de plágio”. Kleon que a junção de ideias vindas de

50 URDUME Edição #02 URDUME Edição #02 51


autoria arte têxtil

lugares diferentes pode resultar PUC - Rio, Maria Inês Anachoreta, que estão compartilhando. Tudo
em algo autêntico e inovador. é possível concluir que a constru- é facilmente circulável e, às vezes,
ção de uma identidade está liga- coisas muito simples, como um
Um estudo da Universidade de da à essência de ser artesão. “O feliz aniversário, necessitam de
Tóquio, no Japão, parece confir- sentido do artesão/artífice está uma mensagem criada por outra
mar essa teoria. A pesquisa Como intrinsecamente ligado à cons- pessoa. O ethos das redes sociais

Foto: Rodrigo Ramirez


copiar obras de arte afeta a trução de um produto por meio é instaurador de uma não-singu-
criatividade artística dos alunos de uma técnica, mas ao mesmo laridade, o que cria um problema
(How Copying Artwork Affects tempo de algo que constitui a si para o artesão”, explica.
Students’ Artistic Creativity, no mesmo. E isso se liga a um ethos
original), revelou que a criativi- (modo de ser, ética). A fidelidade à A professora também acredita
dade pode estar muito mais em identidade como artesão é antes que ninguém cria algo do nada.
encontrar uma inspiração do que de tudo uma fidelidade à singu- “A gente sempre vai criar a partir
inventar algo do zero. Para a inves- laridade. Ser um artesão é ser fiel de outras criações, mas a identida-
tigação, 30 estudantes foram di- ao que se é, então isso já seria um de de artesão somente é mantida
vididos em dois grupos. Durante impeditivo para o plágio. E não enquanto estiver na sua atividade
três dias, foi solicitado ao primeiro de criação. A primeira coisa diante
grupo que desenhasse uma obra Ser um artesão de uma conduta profissional é a
de arte original, utilizando um ob- compreensão dessa identidade.
é ser fiel ao que
jeto real como tema – flores, por Muitas pessoas estão produzin-
exemplo. Já o segundo foi ins-
se é, então isso já do artesanato, mas é preciso que
truído a copiar uma obra de arte seria um impeditivo elas compreendam o que estão
abstrata de um artista enquanto para o plágio. E não fazendo, porque muitas vezes
imaginava a intenção do pintor. não é exatamente artesanato.
só o plágio em relação

Bordaduras
O estudo concluiu que o grupo Se é preciso uma lei para con-
que não copiou nenhum artista ao outro, mas até ter alguém em relação ao plá-
apresentou obras de arte mais mesmo de si. gio, ele já se denuncia como um
realistas, porém menos originais, não-artesão”, afirma.
uma vez que a imaginação foi só o plágio em relação ao outro, Por Estefania Lima

limitada pelas possibilidades do mas até mesmo de si. Um artesão Desenvolver o seu próprio estilo Resultado de uma exposição realizada pelas ar- tempo em que procuravam linhas e f ios de dife-
objeto fornecido. Por sua vez, os fará vários produtos semelhantes, faz parte de um processo de au- tistas plásticas Giovana Casagrande e Leila Al- rentes texturas e cores em suas próprias casas,
estudantes que copiaram outro mas jamais iguais”, ela reflete. toconhecimento, de se reconhe- berti em 2013, chamada Bordaduras - Coisas de parentes e em armarinhos para esta união
artista foram considerados mais cer artesão e de acreditar no tra- de Alice, o livro Bordaduras relata, de maneira inusitada. Com a escolha das técnicas do costu-
criativos, pois tiveram como base Para Maria Inês, a internet vem balho que realiza, mas olhar para poética, o processo de criação de bordado sobre rar, bordar, crochetar, tricotar e colar, as artistas
a interpretação da obra e não construindo um ethos do com- o outro pode auxiliar neste movi- porcelana, utilizando como ponto de partida o abriram espaço para a discussão sobre arte e ar-
seu resultado final, o que confe- partilhar e isso está trazendo uma mento de enxergar a si mesmo. universo da personagem Alice, de Lewis Carroll. tesanato. Juntaram dois elementos presentes no
riu a impressão de um estilo pes- desobrigação com a autoria e Todo artista passa pelo processo imaginário afetivo das artes do lar, f ios e porce-
soal aos desenhos. com a criação. “Tenho pensado de reunir suas inspirações para Juntas, Giovana e Leila visitaram fábricas de lana, e deram novas vidas a eles por meio da in-
muito no quanto as redes sociais descobrir sua identidade. Portan- porcelana nos arredores de Curitiba ao mesmo f inita imaginação presente no mundo de Alice
A ética do artesão: ser fiel têm permitido uma alienação to, teste, arrisque e deixe o fazer
a si próprio da nossa singularidade. As pes- manual fluir. Você pode se sur-
Bordaduras - Processo Construtivo da Exposição Coisas de Alice
Para a professora do Departa- soas compartilham em excesso preender com o quanto é possível Edição e Organização: Leila Alberti e Giovana Casagrande
mento de Filosofia da UERJ e da e não se comprometem com o aprender sobre si mesmo Texto: Marília Diaz I Edição do Autor, Curitiba|Paraná (2018)

52 URDUME Edição #02 URDUME Edição #02 53


identidade aaa

O têxtil como ferramenta


No caso desses quilombos, a luta pela posse de ter-
ras e as exclusões raciais incidiram diretamente no
desafio de sobrevivência das tradições culturais afro

de empoderamento social
-brasileiras e na manutenção dos grupos de ciranda,
maculelê, afoxé e, principalmente, coco. Apesar das
identidades estarem mais próximas do que é histo-
ricamente aprendido em vez das aprendizagens for-
Os projetos Visto o que é meu! e Mulheres do Paragaçu usam bordado mais e institucionalizadas, elas acabam se perdendo
por influências externas e apagamento cultural. “Mui-
e costura para trabalhar identidade e território
tas vezes, eles têm as referências, mas não sabem re-
Por Estefania Lima conhecê-las, e os grupos de dança são importantes
como manifestação cultural e de identidade dessa
população”, conta Katarina, idealizadora do projeto.

Foto: Laís Domingues


”Quando eu era nova, eu era linda, linda, linda”, disse Realizado também em outros oito quilombos da
uma das participantes do Visto o que é meu!, encan- região do agreste e sertão Pernambucano, que são
Diante dessa realidade, o objetivo tem sido mostrar
tada com seu novo figurino. Ela é uma das morado- Castainho, Tigre, Estivas, Estrela, Santa Luzia, Águas Atoleiros - Caetés:
caminhos para que essas comunidades se vejam Samba de coco de
ras do quilombo de Atoleiros-Garanhuns, em Per- Claras, Livramento e Conceição das Crioulas, o projeto
em suas potências. “Trabalhamos o reconhecimento Santa Luzia.
nambuco, uma comunidade que recebe o projeto contribui para valorização das características de ex-
identitário desses grupos, o que não se dá só pela cor
de autoria da historiadora Katarina Barbosa em re- pressão que unem e estruturam essas comunidades.
negra, mas também na elaboração das roupas e figu- ça feminina e características identitárias bastante
alização conjunta com o Coletivo TEAR. A iniciativa, São territórios compostos por questões históricas,
rinos”, afirma Katarina, que no primeiro ano de proje- fortalecidas. Lá, trabalhou apenas as questões téc-
que completou dez anos em 2018, busca trabalhar a geográficas e biológicas, e marcados por suas formas
to, em 2008, percebeu que os grupos de manifesta- nicas para produção de roupas, já que o quilombo,
identidade dos territórios a partir da modelagem e de produção e comercialização, fundação, movimen-
ção folclórica não queriam mais dançar porque não fundado por seis mulheres negras que arrendam
da produção de figurinos dos grupos de dança locais. tos sociais e, especialmente, manifestações culturais.
tinham roupas apresentáveis. “O figurino é coisa im- as terras com fiação de algodão, tinha o costu-
portante para um grupo de cultura popular. As pesso- me de registrar e valorizar sua história, inclusive
Atoleiros - Caetés: as dizem ‘aquele grupo não é bonito, não tem roupa por meio do bordado e da costura. Uma das tra-
Samba de coco de bonita’, e não o chamam para se apresentar”, explica. dições locais, por exemplo, é a construção de bo-
Santa Luzia.
necas com fibras naturais para homenagear mu-
Representação feminina lheres fortes da comunidade. Parteira, agente de
Fios, agulhas e tecidos. Estes foram os recursos en- saúde e professora são algumas das homenageadas.
contrados por Katarina para trabalhar a identidade
em comunidades, que apesar de serem identifica- Empreender e compartilhar a própria
das como quilombo, estavam muito distantes de história
suas tradições e história. Com as oficinas de criação Outro projeto que busca trabalhar identidade e ter-
e confecção de adereços, a historiadora colaborou ritório por meio dos fios - e com mulheres de muita
para o reencontro dessas populações com suas ori- fibra - é o Mulheres do Paraguaçu. Essa iniciativa
gens e apresentou às mulheres das comunidades oferece oficinas artísticas e de empreendedorismo
uma nova fonte de renda. E todo esse processo mo- a quem vive às margens do Paragaçu, um curso de
tivou os adolescentes a ingressarem nos grupos água que nasce na Chapada Diamantina e desem-
de dança, iniciando uma nova geração de artistas.
Foto: Laís Domingues

boca na Baía de todos os Santos, em Salvador (BA).

Katarina só encontrou uma situação diferente em A região é marcada por sua relação com o rio. Ca-
2018, no Quilombo Conceição das Crioulas, em choeira, por exemplo, cidade histórica localizada no
Salgueiros, uma comunidade de forte lideran- recôncavo e banhada pelo Paragaçu, era importante

54 URDUME Edição #02 URDUME Edição #02 55


XX psicologia

A tecelagem terapêutica
Por Mayra Aiello

Lindo trabalho esse de mulheres fiadeiras, Por isso, um convite: que tal olhar para o que você
mulheres aranhas, está tecendo? O que os fios, pontos e tramas dizem
que com suas mãos, sobre você e seu momento atual? Busque observar
tecem mantos de luz a intensidade dos pontos, os padrões e repetições,
a criatividade em cores, as formas e texturas, seus
Aula de bordado do para proteger o mundo mágico da criação.
projeto Mulheres de sentimentos e emoções em relação ao que está
Paraguaçu Mulheres em ação,
sendo tecido.
sem manhas, nem tramas e artimanhas
apenas tecelãs sábias,
Chama-se de tecelagem terapêutica a prática arte-
rota que se dirigia ao sertão, ao Recôncavo, às Mi- mulheres de dentro e fora da região e de diferen- dos tempos de todas as luas, terapêutica com o uso de fios e elaboração de con-
nas Gerais e a Salvador durante o período colonial. tes gerações, como no caso de umas das nossas minguantes, novas, teúdo simbólico da psique. O tecer em terapia pos-
A cidade possui 90% da sua população composta oficinas de bordado, que reuniu uma senhora de crescentes de luz e poder sibilita a percepção de aspectos de nossa maneira
de pessoas negras e as mulheres são matriarcas, 90 anos e sua bisneta, de 12”, conta Larissa. Para ela, e finalmente plenas, de agir e aprender no mundo de forma a vivenciar o
mães de santos que têm suas histórias marcadas mais do que a parte técnica, a riqueza acontece no cheias de encanto e amor. que é mais verdadeiro no próprio ser. Inspira a visão,
pela representação do rio desde a chegada dos por- elo estabelecido entre as mulheres no momento a coragem para transformar os sonhos em realidade,
Eliane Dornellas para Teia de Thea
tugueses. “O rio tem uma relação muito forte com em que bordam e compartilham suas histórias de tecer os desejos. A produção consciente manual in-
abandono, amor ou religiosidade, criando cone- voca uma pausa estratégica: parar, respirar, observar,
o estado porque a entrada dos colonizadores na
O fazer manual, assim como o terapêutico, pede tempo elaborar, refletir, sentir a textura, fazer com as mãos,
Bahia se deu por ele, antigamente transitavam na- xões, fortalecimento e empoderamento do grupo
e foco sobre a matéria bruta - os fios e nós mesmos. experimentar os fios e agulhas, testar os pontos, res-
vios ali, era a principal rota de comércio da região”,
Olhar atento, um ponto após o outro, e mãos ativas. Na peitar o tempo, analisar o trabalho que vai sendo teci-
conta Larissa Leão, diretora artística do projeto.
tecelagem manual com o crochê, tricô, tear ou borda- do, sentir, encarar o resultado, identificar expectativa
do, os fios vão na contramão da era industrial: levam-se e realidade do que foi tecido.
A iniciativa, que está no seu segundo ano, pos- horas, às vezes dias ou meses, para tecer algo. E olhar
sui uma equipe de 10 artistas e educadores que para si nestes processos artesanais que atuam no tem- E podem ser utilizadas diferentes técnicas e ferra-
convivem com a comunidade local durante duas po do fazer simbólico, o Kairós, e não apenas no tempo mentas de acordo com as demandas emocionais
semanas, realizando pesquisas de campo, cria- do relógio, o Chronos, é tarefa urgente e necessária. (luto, mudanças, angústia, depressão, ansiedade,
Fotos: Divulgação do projeto Mulheres de Paraguaçu

ção e apresentação de um espetáculo de conta- entre outras) e tipo psicológico do indivíduo. Assim,
ção de histórias. Eles oferecem também oficinas Na psicologia, o trabalho terapêutico pode ser visto compreendem-se novas possibilidades de transfor-
de bordado, audiovisual, contação de histórias como artesanal. Um trabalho singular, que exige con- mação e análise simbólica das experiências de vida,
e capacitação para mulheres empreendedoras. fiança, presença, estudo, entrega e escuta. A trama das com o resgate de memórias afetivas e a apropriação
palavras e dos fios da vida são tecidos no espaço-tem- das forças internas em prol do crescimento psíquico
po seguro da psicoterapia. Nesse sentido, tecer com neste processo de tornar-se inteiro
Por meio desse trabalho, o projeto Mulheres do Pa-
fios ajuda no trabalho dos vínculos, uma vez que os
raguaçu vai tramando a relação delas com o ter-
fios, laços e nós correspondem, em sua simbologia, à
ritório e o feminino, e dá suporte na valorização e
formação dessas conexões. As pessoas estão constan-
registro do conhecimento tradicional. “Nós quere-
temente em processo de atar e desatar nós, construir “Tecer era tudo o que fazia. Tecer era
mos contribuir para o fortalecimento das lideranças vínculos, mergulhadas em um grande processo de au- tudo o que queria fazer”
femininas que habitam a beira do rio, conectando toconhecimento e aprendizagem contínua. Em A moça Tecelã, por Marina Colasanti

56 URDUME Edição #02 URDUME Edição #02 57


conexões conexões

A resistência das
rendas de bilro
Uma das principais tradições da Ilha das Rendeiras enfrenta desafios
para encaixar-se e acompanhar as mudanças e linguagens atuais
Por Juliana Allain e Natália Seeger

Na reportagem de um jornal de interesse dos jovens na aprendi- nio cultural da ilha e, em 2009,
Florianópolis (SC), a seguinte zagem da técnica. foi criada uma lei que instituiu o
chamada: “A arte da renda de dia 21 de outubro como o dia mu-
bilro resiste heroicamente à pas- A defesa da tradição nicipal da Rendeira.
sagem do tempo e às mudanças “Eu faço renda desde que me co-
culturais”. Mas será que essa re- nheço por gente. Aprendi com Para lidar com os desafios atuais,
sistência caminha na direção de minha mãe e minhas tias, que o governo municipal tem feito ini-
acompanhar tais mudanças ou a aprenderam com a minha avó, ciativas de apoio e incentivo à pro-
renda existe apesar dessas trans- que aprendeu com a minha bi- dução da renda na ilha, como a
formações? savó. É uma tradição da família”, criação de polos de renda de bilro
conta Dona Tereza, enquanto e aulas gratuitas, que acontecem
A renda de bilro chegou à cida- suas mãos vão trançando os desde o início dos anos 90. Apesar
de pelas mãos de mulheres en- bilros com as linhas que tramam disso, há uma estagnação da pro-
viadas da região de Açores, Por- a renda. O som dos bilros baten- dução não em quantidades, mas
tugal, durante a Inquisição. A do um nos outros embalam sua em relação às mudanças estéti-
maioria foi desterrada acusada fala numa velocidade tão gran- cas. “Ainda vemos essencialmen-
de “bruxaria”. Bruxaria esta que, de quanto a delicadeza do que te peças como trilhos de mesa,
na realidade, trazia independên- vai se formando. porta-copos, toalhas e com mo-
cia, sabedoria e habilidades às tivos muito tradicionais”, conta a
mulheres: saberes manuais, téc- A renda de bilro é produzida pelo estilista Lolla, que frequentou as
nicas de benzimento e conhe- entremear de fios finos que são aulas em 2018.
cimentos de ervas medicinais. enrolados em pequenas peças
Por aqui, a vida também não foi de madeira torneadas, os bilros. Encontro harmonioso com
simples, em luta constante para Em Florianópolis, ela é feita em a contemporaneidade
o reconhecimento e valorização cima de uma almofada cilíndri- Apesar dessa estagnação, alguns
do fazer artesanal. E esta tradi- ca, onde coloca-se o pique, um artesãos buscam integrar a ren-
ção, passada entre mulheres da cartão perfurado que tem o de- da aos movimentos do momento
família, encontra agora o desafio senho da renda. Nesses furos, atual. É o caso da ceramista Lika,

Foto: Natália Seeger


de adaptar-se às mudanças esté- a rendeira espeta alfinetes que 50 anos, que já trabalhava com
ticas atuais, enfrenta a resistên- vão sendo deslocados à medida aplicação de crochê em suas ce-
cia dos questionamentos à tradi- que o trabalho vai progredindo. râmicas e queria agregar algo da
ção e precisa lidar com a falta de A renda é considerada patrimô- cultura local, então pensou na

58 URDUME Edição #02 URDUME Edição #02 59


conexões coluna

renda de bilro. “Após ter incorpo-


rado a renda às peças, as vendas
linguagens de moda e economia
criativa. Voltado à comunidade No handmade eu
costuro minha história
aumentaram bastante”, conta. Já em geral e, em especial, às ren-
a bordadeira Suzete, de 52 anos, deiras, uma das ações são aulas
criadora da marca Mania de Ren- de renda de bilro. Nelas, além de
da, produz faixas de cabelo, cola-
res, marcador de página, camisas,
abordar possibilidades de criar
produtos com base nas tendên- presente e futura
cintos e bolsas feitos inteiramen- cias sazonais de moda, ensina
Por Marie Castro
te ou com aplicações da renda. cada um a desenhar o pique - fun-
O desenho e a combinação de damental para que o artesão pos-
Eu utilizo meus processos manuais não apenas sempre aprendo algo novo sobre mim mesma – exis-
cores (não somente o tradicional sa criar e não apenas reproduzir
como uma forma de sobreviver ou de administrar tem muitas coisas que ficam nas entrelinhas dos tra-
branco) que usa nas suas rendas padrões que já existem. “Nossos minhas habilidades motoras. Para mim, o artesanal balhos. Quase sempre o handmade é o fim, afinal, ele
também mostram um trabalho alunos são variados, mas infeliz- ganha um papel muito mais transformador e intrín- vira um produto palpável. Vendável. O acabamento
de design pensado no momen- mente as rendeiras não buscam seco na minha história – ele reflete as fases que vivo precisa beirar o impecável. Ganha outros significados
to atual. “Nunca participei de um o curso. Sinto certa resistência na minha vida. por aí, mas nunca perde seu processo quase imperfei-
curso de gestão, mas os próprios quando a tradição é questiona- to e caótico. Muitas coisas acontecem com a peça no
compradores, em sua grande da”, conta Lucas da Rosa, profes- Não paro muito para refletir sobre isso, mas transfiro processo de tecimento e muito mais coisas aconte-
maioria turistas, perguntavam sor e coordenador do projeto. energia em tudo o que toco. E a qualidade desse to- cem com a minha vida nesse meio tempo.
sobre esses produtos”, revela. que está completamente ligada à história que eu vivo
Em outros lugares do Brasil, a naquele momento. O handmade em si pode ser o processo que me leva
Um projeto de extensão da Uni- renda tem acompanhado as a encontrar quem eu fui em algum momento especí-
A expressividade que transborda em forma de pon- fico da minha vida. Infelizmente, não é uma bola de
versidade do Estado de Santa mudanças culturais, inclusive
tos, modelagens e cores. Sempre que eu começo cristal exata, mas pode apontar direções interessan-
Catarina (UDESC) busca a fami- em parcerias com estilistas e de-
uma peça, eu tenho completa noção de onde que- tes sobre o meu futuro. E esse significado é como um
liarização e a capacitação nas signers. Florianópolis caminha nessa direção, mas ainda há um
ro começar, mas não faço a mínima ideia onde tudo segredo bem guardado. Só eu sei que está ali. Só eu
longo trajeto a ser percorrido. aquilo vai terminar. enxergo de fato
Talvez enquanto a renda for con-
siderada uma, sem considerar a Muitas vezes achamos que nós controlamos nossos
pessoa que a faz, ela vai apenas processos criativos, como se fosse algo que pudesse
(r)existir apesar da passagem do ser completamente arquitetado. A realidade passa
tempo. A renda tem valor por si longe disso, porque assim como na vida, existe mui-
só e foi a partir das próprias ren- ta coisa nesse processo que enxergamos somente
deiras que ela existe até hoje - e depois de um tempo. A vontade do handmade de
continuará existindo, seja com controlar tudo através de contas e fórmulas matemá-
ticas conflita com o efêmero da arte manual em si:
linguagens mais contemporâ-
se der na “telha”, eu adiciono uma cor nova, adapto
neas ou não. A renda de bilro
uma carreira, acrescento um ponto ou desfaço tudo.
vai muito além dos fios que a
E tudo isso é feito através de uma decisão bem orgâ-
compõe: é um emaranhado de
nica, consultando a forma como eu me sinto naquele
histórias, relações, técnicas, prá-
exato segundo. O processo é tão natural que chega
ticas, mãos, pessoas e vidas. É a
Fotos: Natália Seeger

assustar. Mas sigo com medo mesmo, pois assim que Marie Castro é uma designer handmade, artista
história viva de Florianópolis – e tem que ser. textil e produtora de conteúdo de lifestyle e
também de outras regiões do artesanato. Em seu canal do Youtube ensina
Brasil – que está sendo renovada Revisito trabalhos antigos para entender um pouco técnicas manuais conquistando milhares
a cada fio que se entrelaça mais sobre o que eu experienciei. O engraçado é que de seguidores. @mariecastro

60 URDUME Edição #02 URDUME Edição #02 61


coluna coluna

Experiências estéticas Em busca do


vividas e reinvenção de si caminho do meio
Por Vilma Silva Por Gustavo Seraphim

“Pela mão: acolhida; com a mão: autoria.” vivido estas experiências, tentando captar o cotidia- Viver na pós-modernidade não é algo simples. Fa- de cooperar de forma flexível e em larga escala. Por
Luciana Ostetto no com todos os sentidos acordados. lamos muito, escutamos pouco e a polarização de intermédio da palavra e da escuta podemos nutrir
ideias tem inviabilizado boas conversas. Passamos melhores relações e cooperar. Me parece que hoje,
O convite é para falar de si. Dar visibilidade aos fios de Enquanto vou me constituindo com a inteireza de cada vez mais tempo conectados nas redes sociais, mais do que nunca, precisamos dialogar de forma
histórias que tecem caminhos para revelar processos ser e estar no mundo, fragmentos de memórias da porém desconectados da realidade e da presença. franca e honesta.
estéticos autobiográficos. Desenrolar o novelo para minha manualidade são resgatados num corpo que Negligenciamos o autocuidado e também o cuida-
narrar o vivido. Reconhecer diferentes modos de nar- faz e sente com as mãos. Nos fazeres domésticos do do do outro. Estamos ansiosos, solitários e deprimi- Em busca desse equilíbrio, criei o Fio da Conversa,
rativas sobre a vida. Ir além do conhecido. Atravessar cotidiano, nas pinturas de aquarela dos sentidos, nos dos. Como bem apontou o sociólogo Michel Maffe- um espaço para aprendizagem de trabalhos manu-
fronteiras. É neste espaço-tempo de fronteiras que textos escritos, no olhar processual, nos sons, nas co- soli, vivemos um tempo de saturação, momento de ais e conversas sobre paternidade e masculinida-
me localizo, fora do meu país, longe da minha cultu- res, nos cheiros, no toque. Tenho buscado a cada dia desconstrução dos velhos padrões e reconstrução des. A ideia é ouvir, acolher e aprender com outros
ra, apartada do que é familiar. Falo de um lugar de es- perceber e registrar os meus processos como forma de novas bases. homens e suas histórias, questões, ideias e visões.
cuta que quer se conectar com aquilo que acontece de escuta externa e interna, registrando aquilo que Compartilhando essas experiências em um am-
dentro e fora de si. Me reconheço como sujeito ativo surge do inesperado. E quero com olhos extraordi- De que maneira podemos lidar com essas transfor- biente descontraído, acredito que poderemos rever
da minha própria história. nários continuar capturando o mundo ao meu redor mações e nutrir melhores relações e afetos com os as possibilidades do masculino e nos reconstruir de
com todos os sentidos, dar continuidade aos regis- nossos pares? Não tenho respostas definitivas, ape- maneira mais equilibrada e harmônica com nossas
Explorar uma nova cidade é sempre um convite tros do “Periódico Poético da Alma” a partir de mui- nas algumas pistas ou movimentos que tenho prati- companheiras e companheiros
para se encantar com as surpresas. Gosto de não tas linguagens. Deixar marcas dos processos de vida, cado no meu processo de transformação em busca
pesquisar muito e me deixar levar ao acaso, e assim tão bem descritos em forma de poesia pela autora do melhor de mim.
descobrir ruelas, lojas, praças, docerias, instalações, Eliane Brum: “Esta é a minha memória. Dela eu sou a
galerias, pessoas. Lembrar de pessoas queridas. Que- que nasce, mas também sou a parteira” A primeira delas, sustentação para as demais, é a
rer estar com todas elas por perto, mas aceitar estar busca por uma vida e uma sociedade mais equili-
comigo mesma. Afinal, aprender a contemplar algo bradas. Não me refiro a ter uma vida sem deslizes
sozinha também é um desafio. Ser intérprete de si. E e erros, mas em saber viver na busca pelo caminho
assim seguir se reinventando, como revela o filósofo do meio, nem muito lá, nem muito cá. Se movimen-
Bachelard “a imensidão está em nós”. tando e tentando voltar sempre ao centro, para não
cair. Quem já acompanhou um bebê aprendendo a
O processo de “caminhar para si” e perceber aquilo andar sabe do que estou falando. A busca pelo equi-
que sou, penso, valorizo, desejo e faço nas relações líbrio leva tempo, exige persistência e paciência.
comigo mesma, com o outro e com o ambiente ao
meu redor, tem sido revelador. Imagino essas ruas Nessa linha, a segunda pista é praticar o diálogo. O
estreitas, com seus prédios de arquitetura modernis- exercício do diálogo foi fundamental para nossa evo-
ta catalã, cobertas pelas copas das árvores. Do poeta lução e também será para nossa sobrevivência. No
Vilma Silva é pedagoga, doutoranda em Educação Gustavo Seraphim é pai e entusiasta de todo tipo
Manoel de Barros vem a confirmação em forma de na Universidade Federal Fluminense/RJ, atua há livro Sapiens: uma breve história da humanidade, de trabalho manual, atua como gestor de projetos
poesia “...o olho vê, a lembrança revê e a imaginação 22 anos na área de educação e é fundadora da Yuval Harari demonstra que evoluímos e chegamos culturais e artísticos pela Seraphim Projetos,
transvê. É preciso transver o mundo.” E assim tenho Calore – Educação, Cultura e Arte. @caloreatelie até aqui porque fomos os únicos animais capazes da qual é sócio-diretor. @guseraphim

62 URDUME Edição #02 URDUME Edição #02 63


coluna coluna

Eu sei da cobrança de Os 5 passos para


ser forte o tempo todo viver das mãos
Por Estefânia Verreschi Por Daniela Nogueira

Eu sei que temos que ser livres o suficiente pra seguir suficiente pra cantar as minhas alegrias ou gozar até Será que muitos de nós nos entregamos com mais von- sária uma fonte de renda fixa, advinda de um outro trabalho
nosso coração, mas isso sem chorar. Somos hoje mu- perder o fôlego. tade ao fazer manual apenas nos sábados e domingos, que ainda não é o ideal, mas é aquele do momento, e grati-
lheres e fortes, mas ninguém nos contou que o nosso como se houvesse uma permissão divina para esta cone- dão por ser assim, até que possa ser diferente.
corpo falava e que não é certo quanto não nos permiti- Existe uma magia inexplicável em sentir infinitamente xão com algo que sempre esteve em nós, mas que não se

mos ouvi-lo, quando não o permitimos o desejo de fluir o movimento de ser você mesma, de fluir com amor transformou no nosso trabalho de segunda a sexta? Aos poucos, no nível psicológico que gera um engajamento
livremente, tanto em lágrimas quanto em sangue. Es- por sua essência e particularidade. Mulheres são feitas mental com seu fazer manual, quando menos se espera -
ses deveriam fluir sem medo ou repulsa, sem de modo de amor e fúria e, acima de tudo, de verdade. Verdade Arte, artesanato, handmade, maker, craftolers. Tudo aqui- porém, uma espera com fé na jornada que se iniciou - estará
algum fazer com que nos sentíssemos frágeis por isso. essa que nos foi escondida juntamente com a nossa lo que você pode fazer com as mãos, quando aplicada lá, você com seu produto, sua marca e sua essência sendo
sensibilidade e instinto. Éramos lá atrás responsáveis segurança e constância, gera prosperidade. Prospera levados para a casa de alguém. Confie e entregue-se, assu-
Nós, mulheres, terras férteis de nossos próprios sonhos, pela semeadura e colheita antes que mundo virasse quem compra seu produto conduzido pela mágica da sig- ma aquilo que já faz e comece a mudar o mundo a partir de
deveríamos aprender que é seguro sentir e reconhecer guerra. nificância entre o que você produziu e o que a alma do suas mãos. Milhares de pessoas no mundo todo, a partir da
nossos movimentos internos sem julgamento. Não dar comprador quer. Prospera você, que se percebe como um Era de Aquário, deixarão que suas tramas e urdumes envol-
ouvidos aos nossos sentimentos e ciclos é como se ti- Uma guerra externa e interna. canalizador de um processo manual que, vendido, traz re- vam a vida dos demais, por vezes tão dura e cruel, que por
véssemos que costurar a nós mesmas todas as noites, torno financeiro e aumento para sua estima. hoje insiste em ser de concreto, nos esfolando num cotidia-
muitas vezes colocando a linha na agulha no escuro Falar hoje de verdade é retomar a consciência de ser, no sem o cuidado do carinho com as mãos.
pra fazer um bordado que nem gostamos tanto assim. de se expressar e de materializar nossos devaneios Milhares de mãos em todo mundo produzem, mas produ-

É cortar as próprias asas e observar as árvores da janela. mais íntimos. Eu escolho ser novelo de lã, que se abraça zem para dentro, como se a sua produção manual fosse Muitas vezes é uma questão de tempo, de dar tempo ao
Talvez seja mais fácil ser um pássaro na gaiola ou um por inteiro, passa por todos os lados sem deixar escapar apenas um presente para família e mais próximos, um hia- tempo, mas em nenhum momento durante este tempo,
“bordado de máquina”, mas nunca vai-se saber o que é uma só emoção. Que se permite ser guiado e só confia to de licença para liberar entre fios a sua essência, apenas desanimar, retroceder, esmorecer ou duvidar de si. Assim, a
estar entre árvores ou entre dedos. no caminho de tornar-se o melhor que se possa ser num final de semana. Deveria haver uma convocação para pequena produção familiar dos finais de semana transbor-
que os projetos paralelos que envolvem o manual tomem da para os outros dias que você tem.
Quando eu me escuto, eu me lembro que sou Oxum, conta do nosso ser, a ponto de se tornar o trabalho princi-

Ísis, Héstia, Jaci, Hebe, Yemanjá, Lilith. Sou todos os aro- pal, alterando então o significado da palavra trabalho. Vira o todo, e não uma parcela
mas misturados numa língua que é só minha. Sou ale-
crim, rosa, gengibre, limão, lavanda, calêndula. Eu curo, Mas, para isso, é preciso:

cicatrizo, perfumo e enfeito sobretudo a mim mesma, 1. Reordenar-se no nível mental, espiritual e material;

na minha grandeza e nos meus defeitos. É um eterno 2. Criar segurança e estima pelo seu produto por meio do

lembrar-se mulher em conexão com o universo inteiro, estudo de técnicas, elaboração e experimentação livre de

com a terra e seus frutos e consigo mesma. amarras;


3. Encontrar no vão, que existe entre você e o que produz,

Foi ouvindo meu corpo que eu descobri que era no pul- a sua identidade e aperfeiçoá-la.

mão que se alojava a tristeza e, então, eu tive que ter 4. Produzir com constância durante o sol ou temporal, en-
*Estefânia Verreschi é amiga das plantas desde a tregando-se ao fazer num fluir absoluto e total, que iniba
humildade pra chorar bem alto sem economizar gota
infância. Tornou-se educadora a fim de entender melhor a aparição de pensamentos negativos e auto-sabotagem
alguma. Humildade que ainda hoje eu aprendo, cada Daniela Nogueira é habitante de Curitiba e flaneur
a construção e o desenvolvimento humano, mas foi nas
hora de um jeito. É o mesmo pulmão que me dá ar o durante a dura caminhada do processo; por adoração. Acredita na verdade da roupa
terapias que se encontrou. @ervariadasluas
5. Concentrar-se numa nova perspectiva, na qual é neces- acima da moda; @flanar

64 URDUME Edição #02 URDUME Edição #02 65


livros

Dicas de leitura O amor em SP existe e é feito a muitas mãos!


Por Nayamim Moscal

A SP FEITA A MÃO é formada por um grupo de pessoas que fiam,


Montar uma bibliografia sobre o fazer manual: esse é meu objetivo aqui na Urdume. Meu ponto
de partida de pesquisa das indicações são as bibliotecas e, de lá, vou para vários lugares. cuidam de plantas e criam espaços de troca de histórias, saberes
Historiadora que sou, formada no padrão tradicional das universidades, trago a vontade e fazeres e que acreditam no poder das flores e das ervas, dos
de sistematizar e teorizar o conhecimento que o fazer manual nos traz, porém sem o enrijecer.
Indico aqui, portanto, três produções que se encaixam nesta descrição. Boa leitura!
fios e das cores para espalhar esse amor pela cidade.

Quer saber mais? Se junte a nós e venha experiênciar


Um mergulho no fazer Fio, escrita e Armarinhos e suas nossas trilhas de aprendizagem:
manual no Brasil poesia viva histórias
Pietro Maria B ardi é figura de Esqueça os moldes tradicionais Não há dúvidas de que um
grande importância na arte da academia. Ainda que não trabalho com o nome de Teresa
brasileira. Um dos criadores tenhamos a oportunidade de Urban seja boa coisa. A jornalis-
do MASP, onde foi diretor por manusear a tese de Nina Veiga ta curitibana deixa, para nosso
mais de 40 anos, também foi materialmente (eu pude ver deleite, este último trabalho
pesquisador, crítico e historiador ao vivo, mas não a tomei nas dedicado a um estabelecimen-
da arte. Nesta leitura que indico, mãos), recomendo que você se to muito caro aos que se ocu-
que é o 4° volume da coleção debruce vagarosamente pelo pam das artes manuais têxteis:
Arte e Cultura, Pietro faz extensa documento digital. Permita- o armarinho. De leitura suave, a
pesquisa pelos ofícios e artífices se imaginar este toque, leia parceria com o fotógrafo Nego
brasileiros a partir da chegada calmamente o conteúdo e se Miranda – também curitibano
dos portugueses e escreve um abra para esses ensinamentos e sinônimo de bons trabalhos
capítulo dedicado ao têxtil, tão profundos que a autora nos – parte de um botão e caminha
intitulado Vestir, tecer, costurar e traz. Prestar atenção no corpo, para as histórias de muitos que
figurar. O autor ressalta que não nas mãos que fazem do cader- chegaram à cidade, contando,
tem intenção de fazer história, no de artífice um instrumento assim, um pouquinho sobre a
colocando-se como cronista, cu- da escrita de si, que tece o texto, cidade, o país, o mundo. Com
rioso. Ainda assim, nos apresenta fia a escrita e encontra no fe- depoimentos de pessoas que
uma pesquisa bastante embasa- minino o espaço para fecundar viveram um tempo de maior
da, sendo um interessante ponto sua produção. A tese de Nina prestígio desse comércio, o
de partida para quem deseja se Veiga é poesia pra ser vivida. livro apresenta lindas lições Fel tragem
aprofundar na história do fazer do que o trabalhar com
manual no Brasil. as mãos proporciona.
Veiga, Ana Lygia Vieira
Schil da. Fiar a escrita: políticas
de narratividade - exercícios
e experimentações entre arte
manual e escrita acadêmica. Um URBAN, Teresa. MIRANDA,
BARDI, P.M. Mestres, artífices,
oficiais e aprendizes no Brasil.
modo de existir em educações
inspirado numa antroposofia da
Nego. Puxando o fio: histórias
de armarinhos. Curitiba, Ed.
Não importa por onde e como seu amor
Banco Sudameris, 1981. imanência. Juiz de Fora. 2015 Do Autor, 2013. transborda, ele cabe aqui! Venha nos conhecer!
Acesse @SPFEITAAMÃO

66 URDUME Edição #02


#RESIDENCIACRIATIVA
URDUME
w w w.urdum e . co m . b r
Instagram: @revistaurdume facebook.com /revistaurdume

Você também pode gostar