Urdume 2
Urdume 2
Nº 02 I Maio 2019
R$ 17,90
Artes manuais têxteis, expressão e autoconsciência
Yarn bombing
É arte na rua, é manifesto, é
intervenção com tricô e crochê.
Conheça as histórias de mulheres
que espalham mensagens pela
cidade por meio de fios coloridos
Na foto: Anne
Galante e uma das
peças do seu
projeto “Nem todo
splash é tinta”
Curadoria
Estefania Lima
Edição
Belisa Rotondi
Diagramação
Nathália Abdalla
Pontos de Venda
Ateliê Clevita, Badu Space, Casa Bendita,
Casa Novelaria Hermosa, Cia do Tricô, CASA UM,
2P Ateliê, Lilá, Micapullo, Ms Aline Ateliê,
Novelaria, SP feito à mão.
Agradecimento
Adriana Costa, Ateliê Mentha, Jardineiro Fiel
e Virginia Garbin
Publicação Independente
Curitiba/ PR
sumário sumário
Editorial de crochê
Foto: Unsplash
8
Acontece 14 Arte 53
Pode uma revolução ser artesanal? Bordaduras
AUTORIA
Inspiração 16 Identidade 54
Moda com propósito O têxtil como ferramenta de Pode copiar? A cópia tende a ajudar no
empoderamento social desenvolvimento de habilidades técnicas e
criativas próprias, contribuindo para a construção
História 18 da identidade do artesão, mas o plágio
Foto: Juss
Descobrindo o crochê Psicologia 57
é uma violação dos direitos do outro. P.50
Tecelagem terapêutica
Moda 34
Editorial exclusivo - Dani Nucci Colunas
Capa
Diário 41 Marie Castro 61
É arte na rua, é manifesto, é intervenção
Tecendo novas possibilidades com tricô e crochê Yarn bombing, bombardeio
Vilma Silva 62 de fios, grafite em tricô, ativismo de lã. Muitos são os
Sustentabilidade 42 nomes dados ao movimento que espalha mensagens
Upcycling como tendência pela cidade por meio de fios coloridos. P.20
Gustavo Seraphim 63
Editora de moda e stylist. Paulista, formada Jornalista, já atuou como repórter para diversas
em moda pela universidade Moura Lacerda,
já trabalhou em projetos para revistas de moda
publicações e foi proprietária da Amora Agência
de Comunicação. Atualmente é também artista
Ciça
e desenvolvendo styling para campanhas de e professora pela marca Com Fio. Costa
grandes marcas de publicidade. @daninucci @tramascomfio
Mayra
Comunicóloga e artesã de uma família “fazedora”
onde o feito à mão sempre teve muito valor.
Aiello
É fundadora da In Totum e criadora do
movimento Revolução Artesanal. @intotum
Sarah Cyntia Psicóloga, Life Coach e Arteterapeuta. Atua
Natalia
Juliana Estela de Seeger
Allain Andrade
Iris
Artesã têxtil por ofício e antropóloga
Formada em Psicologia, com doutorado em Artesã e jornalista, já atuou como assessora Alessi por paixão e formação. Possui um ateliê focado
psicologia social e pós-doutorado em sociologia. de imprensa nas áreas de cultura e educação. em utilização de plantas, onde reutiliza tecidos
Professora de bordado e artesã, seus produtos são Atualmente, está à frente do Ateliê 91, uma trabalhando a memória das roupas através de
feitos com tecidos e linhas tingidos naturalmente. marca de produtos cheios de afeto e feitos Jornalista que atualmente dedica-se quase que técnicas como tingimento natural e impressão
@lumen.tecituraorganica à mão em crochê e macramê. @atelie91 integralmente a ensinar tricô. @flordeiris botânica. @atelienataliaseeger
Na mitologia grega as Moiras eram as três irmãs que Uma alegria. Com essa parceria inauguro um
determinavam o destino dos Deuses e seres humanos. desejo, compartilhar a criação. Como me disseram
Três mulheres responsáveis por fabricar, tecer e cortar esses dias, da URDUME sou apenas a guardiã.
o fio da vida dos seres. Cloto, a fiandeira, criava o fio Tenho a responsabilidade sobre manutenção desse
projeto, mas a sua expansão, qualidade e missão é
Foto:Monique Ferreira
do nascimento; Láquesis, a fixadora, determinava
o tamanho e espessura do fio, estabelecendo a de autoria compartilhada com todos ao seu redor.
qualidade da vida, e Átropos, a irremovível, cortava-o
fio, delimitando seu fim. Na URDUME #02 temos o prazer de apresentar o
trabalho de mulheres extraordinárias, todas fontes
Nathália, Belisa e eu fomos as Moiras dessa edição. No de inspiração. Matérias produzidas por talentosas
papel de Cloto fiz a curadoria das matérias, organizei mãos, tão hábeis com as palavras quanto são
a contribuição dos colaboradores e redigi quantidade com os fios. Para o time de colunistas, uma feliz
relevante de textos. Belisa, como Láquesis, editou essa novidade, Marie Castro, artista generosa que tanto
edição, revisou, organizou e elevou a qualidade da nos apoiou na primeira edição. Não fosse o bastante,
nossa produção em um conjunto coeso de conteúdos. ainda fomos agraciados com um editorial de moda
Por último, Nathália, nossa Átropos, cedeu seu talento produzido exclusivamente para a URDUME, por
para delimitação da forma, estabelecendo inícios e fins. Danni Nucci, um luxo só
ESTEFaNIA LIMA. Idealizadora Belisa Rotondi. NATHÁLIA ABDALLA. Designer A vida vai tecendo tramas invisíveis, escolhendo fios que estavam destinados
e empreendedora social. Como a se conectarem. No lançamento da primeira edição da URDUME, em São
da revista URDUME, a Jornalista, especialista em
Paulo, em um ambiente com muita empolgação e acolhimento, a designer,
comunicóloga, mestre em Educomunicação, trabalha pesquisadora dos saberes e
Nathália, e a editora, Belisa, se reconheceram de redações por onde
ciências médicas e, agora, há mais de 10 anos com as fazeres manuais está sempre
passaram anteriormente. Nesta segunda edição, apertamos esses nós e nós
estudante de Filosofia, palavras - na escrita e edição em busca de criar espaços de
três nos conhecemos e reconhecemos neste mesmo objetivo de entregar a
encontrou nos fios de texto - seu processo reflexão, artesanias e conexão
vocês um conteúdo cheio de sentido. Se este primeiro evento do lançamento
sua metáfora para a vida. preferido desde a infância. com o tempo das mãos. teceu essa história, imagina o que virá pela frente!
@FIOSERITOS @belisa.rotondi @NATHALIA.ABDALLA
Bruxaria têxtil
David Gauntlet, fala de como a
internet é um impulsionador do
manual por estarmos vivendo a
web 2.0. No início da internet éra-
Tricoteira e crocheteira desde a infância, Cristiane Bertoluci é uma das mos mais passivos, assim como
pioneiras no resgate das manualidades no Brasil, acredita no autoconhecimento nossas avós com revistas e a TV.
pelas mãos e na magia que se manifesta por meio dos fios Mas quando a internet começou
a ficar mais interativa, em que
Por Estefania Lima qualquer um escreve, posta, re-
cebe um comentário, publica um
Gaúcha, de Caxias do Sul, Cris- à carreira de estilista. Em 2010, na sil igual criança quando volta de vídeo, nós ficamos mais curio-
tiane Bertoluci cresceu rodeada Inglaterra, fez o curso de Criação férias e queria contar tudo para sos e criamos comunidades em
pelo artesanato têxtil. Aos oito em Tricô no extinto Atelier Knit-1, todo mundo. Foi essa sede que torno do que fazemos. Agora, a Existe uma rachadura em tudo
anos, já era tricoteira inspirada em Brighton, e já em seu retorno, me deu força para começar. No troca de informações globais e a É assim que a luz entra
pela mãe, que fazia tricô para em 2011, não teve dúvidas: passou início não foi simples, mas depois busca pela criação são maiores.
vender na loja que teve por 32 a dedicar-se integralmente ao fa- da abertura da Novelaria [Cris-
anos, pela a avô que crochetava zer manual, ajudando a encabe- tiane dá aula aula no Knit Café URDUME. A indústria da moda
e pela vizinha, que era da costu- çar um movimento importante desde a inauguração em 2011] e desperdiça um caminhão de
ra. Ótima aluna em matemática, e ainda tímido de retorno às ma- da capa da revista da Folha de S. lixo têxtil por segundo. De que
Cris gostava de pensar na enge- nualidades no Brasil. Paulo, no mesmo ano, tudo foi forma você acredita que o setor
nharia necessária para constru- acontecendo. Então, acho que da moda pode contribuir para
ção de tudo, e o tricô e o crochê URDUME. Você é uma das arte- contribuí com o conhecimento reduzir os danos que causa ao
ofereciam muitas possibilidades sãs pioneiras na revitalização que trouxe de lá, de criar, de ser- meio ambiente?
nesse sentido. “Aprontadeira”, das técnicas manuais têxteis na mos mais destemidos. O univer- Cris. Parando de produzir hoje
como ela se define ao falar de última década. O que te moveu so manual é muito amplo, todo (risos). Acredito muito na recicla-
sua infância, alternava o tempo e como entende a sua contri- mundo pode se encontrar nele. E gem e no upcycling, porém ain-
entre jogar futebol na rua e tri- buição para o retorno aos fios e o que mais procuro fazer é incen- da existe muito preconceito com
cotar roupas para suas bonecas agulhas? tivar meus alunos a se encontra- relação a esses produtos, além
ou fazer barrados de pano com Cris. O curso em Brighton e a vi- rem, criarem a sua identidade e disso, as indústrias têm mais faci-
crochê. sita aos Arquivos de Bauhaus [es- seu universo. lidade e acesso à matéria-prima
cola de design, artes plásticas e virgem do que à reciclada. Temos
Uma infância que já indicava o arquitetura de vanguarda na Ale- URDUME. Qual a diferença en- que evoluir muito a cultura do re-
futuro da artista. Ainda em Caxias manha] foram as principais ins- tre o tricô e crochê das nossas ciclado, e a indústria precisa sair
do Sul, cursou moda e começou pirações. Eu tinha saído de uma avós para o dos nossos dias? da sua zona de conforto na hora
a estagiar em uma empresa que empresa de fast fashion, onde Cris. Acho que o meio de divul- da produção. Só assim podere-
revendia máquinas industriais de o trabalho era só de cópia/cola. gação e, principalmente, a infor- mos iniciar uma conversa sobre
tricô do Japão, a Shima Seiki. Ali, Estávamos longe da confecção, mação. Nossas avós só tinham redução de danos.
Cristiane aprendeu sobre máqui- manufatura, criação. E, quando acesso a três ou quatro revistas
nas, programação e confecção cheguei em Brighton, eu tinha por ano e à meia dúzia de fios. URDUME. Como diminuir o con-
em malharia retilínea, dando va- aulas de oito horas de criação, Nós temos até receitas russas! sumo? Não estamos apenas tro-
zão a seu gosto matemático. Em com pensamentos que eu nunca Um dos meus livros favoritos, cando o consumo fast fashion
Foto: Juss
2007, mudou-se para São Paulo, vi em nenhum outro curso. Tudo Making is Connecting [Fazer é pelo do slow fashion? Como
onde decidiu que iria dedicar-se era muito novo. Cheguei ao Bra- conectar, em tradução livre], de você vê as ações de greenwa-
shing [ações de marketing para do a si. Técnicas manuais têm a pensar nisso como uma metáfora risa Bussacos. Nos conhecemos
dar uma imagem ecologica- ver com gosto, com capacidade, pra minha vida: já me fiz e refiz há mais de 10 anos. A Marisa era
mente responsável a produtos e com crescimento e aprendiza- muitas vezes e espero me refazer dona do café Ekoa e, quando ela
organizações que não estão se do. Quando penso em bruxarias, muito pela vida. começou a trabalhar como co-
preocupando com a causa]? penso em astrologia, tarot, nu- ach, um dia lembrou do filme
Cris. No Brasil, o consumidor não merologia… tudo que está rela- URDUME. Você participa e mi- Colcha de Retalhos e me ligou
tem muito poder de escolha, pois cionado ao autoconhecimento. nistra aulas em retiros que res- falando que queria fazer algo re-
o valor dos produtos pesa muito E vejo uma relação grande entre gatam práticas ancestrais, como lacionado com esse assunto. É
no orçamento. Por isso, acredito uma coisa e outra. a fiação, tingimento natural e a um dos trabalhos que mais tive
que essa responsabilidade seja relação com a natureza. Qual a gosto de desenvolver, pois traz
da indústria. E as informações são URDUME. A bruxaria tem rela- diferença de tricotar na cidade e um olhar completamente dife-
ainda muito manipuladas e novas ção com o feminino dos fios? no campo? O que muda no con- rente para as técnicas manu-
para que o consumidor seja ca- Cris. Tem a ver com mulheres tato primário com o fio? ais. Procuramos trabalhar com
paz de saber sobre o que conso- unindo seus conhecimentos tra- Cris. O principal é o tempo: o tem- uma intenção nas conversas e
me. Outro dia eu estava ouvindo dicionais e populares, sim. Senta po é outro na natureza, imagina nos pensamentos, tentando de-
o podcast novo da Marina Colera- em uma roda de tricô que você sem internet. O foco e a disposi- senrolar nós internos e mudar a
to, do Modefica, e da Fê Cortez, do vai ver, a troca é infinita. Ali tem ção para fazer são outros. E acho trama da vida, nem que seja um
Menos 1 Lixo, em que elas falavam uma união por um interesse co- que a conexão entre as pessoas pouco e aos poucos, de pequeno
que o governo vai isentar o ICMS mum, o que é muito amistoso e também é diferente, pois elas es- em pequeno passo.
de frutas e verduras embaladas. grandioso. Sempre falo que te-
Ou seja, vai ser mais barato com- nho alunas que, no Facebook, já Gosto de acreditar URDUME. O futuro é manual?
prar aquelas verduras que vêm teriam se matado, mas em aula Qual o equilíbrio entre o fazer
que cada vez mais
embaladas do que as que esco- elas se entendem, conversam com as mãos e a tecnologia?
lhemos no mercado, sabe? Ao e trocam muito. Sem falar que vamos construir Cris. O meu é! Gosto de acreditar
mesmo tempo, estamos falando durante anos as mulheres só ti- nossos mundos, que cada vez mais vamos cons-
em proibir canudos. Quer dizer, veram acesso ao manual como e o manual vai ser truir nossos mundos, e o manu-
o governo tem uma ação boa de expressão. al vai ser importante para isso.
um lado e uma atitude péssima
importante para isso Acho que a tecnologia deveria
por outro. Claro que o consumi- URDUME. Como você se expres- começar a existir para o propósi-
Foto: Juss
dor também pode fazer sua par- sa por meio do que produz? O tão ali mais presentes e atentas. to que nós sempre acreditamos:
te, acho que estamos caminhan- que os fios têm a dizer sobre A natureza traz vários sentidos para aliviar nosso trabalho, para
do para uma maior consciência. você? de volta, tudo fica diferente, do que tenhamos mais tempo para
Porém, acho errado acreditar que car “natural” ou “sustentável” na em 2 dias! (risos) Vejo tudo que Cris. Eu me expresso matemati- medo do escuro e dos barulhos nos dedicar a nós. Sempre lem-
deve partir dele, uma vez que ele embalagem, mas seguir com os faço como mágico, até mesmo o camente (risos). Eu adoro testar na rua a apreciar um pôr do sol bro de um vídeo da Jout Jout em
também é vítima de desinforma- mesmos produtos. caminho que percorri para che- coisas novas, buscar soluções, en- durante uma aula que acaba que ela e o Caio ficam falando
ções constantes. A indústria se gar onde cheguei. Muitas coisas contrar novos caminhos. Jamais virando um ouro nas nossas vi- sobre isso: em vez da tecnologia
baseia muito em greenwashing URDUME. No seu Instagram, aconteceram que parecem ter seria capaz de ter uma marca das. aliviar alguns trabalhos para que
para vender produtos sustentá- você descreve seu trabalho dedo do outro mundo. O manual com 20 peças iguais, só de pen- a gente tenha mais tempo, ela
veis e existem dois problemas como Bruxaria Têxtil. O que isso nos aproxima a um lugar comum sar em fazer três peças repetidas, URDUME. Você também traba- nos escravizou e acabamos tra-
nisso: não adianta uma empresa quer dizer? da “bruxaria”: o do autoconheci- isso já acaba comigo. Eu gosto da lha com TRICOaching, pode nos balhando cada vez mais. Espero
vender um produto sustentável, Cris. Quer dizer que pego um fio, mento. Esse momento de pensar efemeridade dos fios, da ideia de explicar como funciona? que a Inteligência Artificial venha
mas continuar com 20 que são uma agulha, faço uma magia e em si, de ter um tempo pra si, de que uma peça pode ser desfeita Cris. TRICOaching é um evento exatamente para isso e não para
péssimos; e não adianta colo- tchãrã!!! Trago sua blusa favorita estudar algo que está relaciona- e outra pode surgir dela, gosto de criado por mim e pela coach Ma- nos sobrecarregar mais
que é possível, especialmente muito a forma de produção no pensamos como queria que focado no desenvolvimento da que não adianta empoderar e Para mim, o futuro da moda está
ao conectar-se com pessoas mundo todo. Ali eu conheci esse funcionasse nosso ecossistema, comunidade, que é uma atuação não gerar renda, gerar renda nesse encontro do ancestral com
que compartilham dos mesmos processo, que vai longe dos meus os conhecimentos integrados, que amo muito, e quero ter esse e não mudar a vida da pessoa. a tecnologia, nessa inovação, pois
objetivos. valores, e entendi que precisava afinal a roupa é a memória de tudo espaço para expandir o nosso Então, o Sistema B vem para a a troca de experiência faz parte
voltar alguns passos, me conectar isso, desses processo e afetos. impacto. gente organizar dentro de casa, do equilíbrio e sustentabilidade.
URDUME. Como você define com a essência e olhar para o os desafios internos, as muitas Outro ponto importante é se juntar
o seu trabalho? artesanal. Desde criança, tenho URDUME. Você pode contar URDUME. E como foi a questões e dilemas e problemas e a parceiros que estão olhando
FLAVIA ARANHA. Este é um envolvimento com arte, pintura, um pouco sobre o ateliê na Vila certificação da marca no incoerências. Isso dá credibilidade para o mesmo lugar, fortalecer
trabalho muito ligado a um olhar corte e costura, e isso foi muito Madalena, em São Paulo (SP)? Sistema B? (movimento global e conecta com marcas que têm outras iniciativas. A colaboração
atento para a cadeia produtiva, importante. No momento em que FLAVIA. Desde julho de 2018 que identifica empresas que desafios parecidos, não só na da rede ajuda muito, pois não dá
para tudo que está conectado comecei a crescer na indústria temos só a loja no local, o ateliê solucionam alguma questão moda. Recentemente, fizemos a para levantar todas as bandeiras
com as etapas de fazer uma roupa. da moda, me deparei com o saiu. Montamos um galpão com socioambiental) recertificação e já vieram novos sozinha. Quando começamos, a
Envolve muito de ir a campo, olhar. dilema de ser bem-sucedida, espaço para as máquinas para FLAVIA. Entramos em 2015 e desafios. gente estava olhando para um
A roupa tem vida, e nesse trabalho mas olhar de perto como as o tingimento natural. Agora, lá foi incrível porque até então era lugar que a maioria não estava,
a gente fala da terra, de olhar coisas eram feitas e saber que no fundo da loja, temos curso empírico: a gente tinha o desejo URDUME. Como ter um negócio isso há 10 anos. Agora, já existem
para todos os processos, para esse processo era agressivo para de tingimento, e vamos lançar de mudar as coisas, mas não que se sustenta financeiramente mais projetos incríveis nessa
a memória da roupa, de trazer mim, para minha visão de mundo. no segundo semestre o espaço sabia o quanto o nosso trabalho e é sustentável? mesma direção
Descobrindo mesmo do surgimento dos padrões escritos. As A rainha Vitória, inclusive, era uma exímia tricoteira e
amostras e aplicações dos pontos eram feitas e depois esforçou-se para aprender a técnica, tornando-a mais
costuradas em tecidos - como se fossem as páginas de elegante quando comparada às rendas de crochê
o crochê na História
um livro - e encadernadas como álbuns. Estes álbuns, criadas pelos irlandeses. Elas eram muito usadas pelos
que continham as amostras, eram emprestado de nobres e pelos religiosos, e em quase todas as vestes,
pessoa a pessoa para que todos pudessem aprender na cor branca, simbolizando pureza e superioridade.
e fazer aquele determinado ponto. Em sua velhice, a rainha Vitória ainda confeccionou
Das teorias de seu surgimento aos primeiros registros em livretos, descubra oito cachecóis e lenços para presentear soldados
de que maneira o crochê começou a desenhar suas marcas na moda Em meados de 1800 surgiram os primeiros livretos de veteranos da Guerra da África do Sul (1899–1902).
crochê, que continham ilustrações em xilogravura da
Por Cyntia Rêgo
peça a ser aprendida. Eles traziam padrões de golas, E o que fica para o futuro?
adornos de cabeça, xales, punhos, rendas, bolsas Após esse emblemático “nascimento”, o crochê foi se
e chinelos. E também compartilhavam dicas de desenvolvendo e percorrendo mundos e culturas onde
O crochê é uma arte que envolve muito mais do materiais recomendados para a confecção das peças adquiriu características específicas. Foi, novamente,
que linhas, agulhas, gráficos, pontos e a peça final. em crochê, sempre na cor branca. alternativa importante em períodos de guerra e
É a união de conhecimento passado de geração em escassez, como no início da Segunda Guerra Mundial
geração somado a técnicas e ferramentas, o que o Duas décadas depois, em 1824, foram impressos os (1939-1945) em que as mulheres reformaram as
leva ao pertencimento a uma cultura, a um povo. Até primeiros padrões de crochê. Sendo que algumas próprias roupas e precisaram usar tecidos alternativos.
este momento sua origem é indefinida - e não por publicações tiveram papel importante nessa E surgiu também com força na decoração da casa nos
falta de tentativas em encontrar essa resposta. Muitos divulgação, como a revista Penélope, na Irlanda (1824 anos 50 - nas famosas toalhinhas de crochê.
estudiosos, com o passar do tempo, dedicaram-se e 1849) e a revista Modern Pricilla, nos Estados Unidos
a decifrar esse enigma, mas o que temos ainda são (1887-1930), esta possuía apenas 16 páginas e trazia Até os anos 60, mantinha o estilo clássico adquirido
sussurros de um conto - quase fábula - remetendo aos assuntos relacionados ao mundo feminino. Mesmo com o crochê irlandês, sustentando as características
Irmãos Grimm. com a imprecisão desses primeiros padrões, houve de trabalhos realizados com fio e agulhas finas. Mas a
uma euforia generalizada com possibilidades de partir dos anos 60, ele foi mudando consideravelmente
A especialista Annie Potter, por exemplo, relata que novidades a serem aprendidas. e adaptando-se às necessidades das épocas. Na década
em 1916 o antropólogo Walter Edmund Roth visitou de 70, por exemplo, sob a influência da cultura hippie,
descendentes dos indígenas da Guiana e encontrou O crochê como resgate de oportunidade o granny square atingiu seu auge: o quadradinho da
exemplos do que poderia ser o “verdadeiro crochê”. Entre os anos de 1845 a 1849, a Irlanda enfrentou vovó aparecia em mantas, xales, vestuário, bolsas e na
Já Lis Paludan, escritora e pesquisadora, apresenta um período chamado de A Grande Fome (ou Fome decoração das casas, ditando moda até hoje.
três teorias: a primeira sugere que o crochê originou- das Batatas). Foram anos marcados por doenças
se na Arábia, indo até o Tibete (ao leste) e à Espanha e imigração, em que população daquele país foi Com as redes sociais, o crochê ganhou maior
(a oeste), de onde seguiu as rotas comerciais árabes reduzida entre 20 e 25%. Diante desse contexto, os visibilidade difundindo, assim, as manualidades
para outros países do Mediterrâneo. A segunda teoria trabalhadores irlandeses, ou seja, homens, mulheres de maneira surpreendente. O grande número de
defende que a evidência mais antiga do crochê veio da e crianças, foram organizados para aprender o crochê. compartilhamento da técnica fez com que mais
América do Sul, onde dizia-se que uma tribo primitiva Escolas também passaram a ensinar a habilidade jovens se interessassem por essa arte tão antiga.
usava adornos crochetados em ritos de puberdade. aos professores, que foram enviados a todo país, E, se alguém pensava que o futuro iria massacrar e
Por fim, a terceira conta que na China os primeiros mostrando aos trabalhadores como criarem seus extinguir o feito à mão, o cenário é outro: revitalização
registros da prática eram conhecidos de bonecas próprios padrões. Como resultado desta nova e valorização do manual, de tudo que é pessoal, do
tridimensionais trabalhadas em crochê. habilidade, as famílias passaram a contar com esses que demanda tempo para ser feito, do exclusivo
novos ganhos, o que lhes dava a chance de economizar e individual. O crochê acompanhou todas as
Foto: Unsplash
Conhecimento passado de mão em mão o suficiente para emigrar e começar uma vida no transformações da História e se fortalece a cada dia.
Para além das teorias, a história mostra que muitas exterior, especialmente na Inglaterra, levando a este O que o futuro, reserva, portanto, parece ser uma
foram as maneiras de divulgação do crochê, antes novo lugar as habilidades no crochê. mescla entre o artesanal, o industrial e o virtual
Cobrir paredes, objetos, monu- espaços cujas intervenções visu- 2011, surgiram como esguichos
mentos e prédios com crochê e ais corriqueiras, como o grafite, de crochê aplicados nos muros
tricô é um tipo de manifestação costumam ser masculinas. de São Paulo, que deram nome
artística que já tem nome: Yarn ao projeto Nem todo splash é
Bombing (ou bombardeio de Os fios coloridos contam tinta, pois quando vistos a certa
fios, em livre tradução). O movi- histórias pela ruas distância parecem pinturas, mas
mento, que ganhou até um dia No Brasil, diversas artistas e arte- de perto percebe-se que são cro-
Internacional em 11 de junho, diz sãs fazem parte deste movimen- chês. “O principal objetivo foi co-
muito a que veio apenas pela to e compartilham essa vonta- locar o crochê num lugar novo,
origem de seu nome. Bombing de de usar as cidades seja para para sempre chamar atenção
é uma palavra retirada do voca- expressar o que pensam, para para a importância das artes ma-
bulário do grafite e significa uma resgatar a importância das ma- nuais”, conta.
intervenção feita rapidamente, nualidades ou para transformar
normalmente com letras mais os espaços públicos em galerias Os trabalhos que ela faz junto
simples e eficazes e em lugares de arte a céu aberto, acessíveis, aos grafites da cidade surgiram
não autorizados. Sim, estamos provocadoras. dos sonhos da artista, que era
falando de uma intervenção feita apaixonada por essa estética
com fios e com tom de ativismo, Entre elas, está a artista têxtil e tinha vontade fazer parte do
de provocação do olhar sobre os Anne Galante, conhecida por movimento, mas do jeito dela.
espaços urbanos. seus enormes trabalhos em cro- “Eu queria colocar minha arte na
chê. Para ela, levar as artes ma- rua, bem democrática, para que
Considerada a fundadora da nuais às ruas é uma maneira de todos pudessem ver e apreciar
Intervenção de “guerrilha do tricô” (definição ti- contar a história do crochê em nessa maravilhosa galeria a céu
Anne Galante
rada do site www.magdasayeg. uma narrativa atual. As primei- aberto que é São Paulo”. Passou,
para fachada
da novelaria com e em tradução livre), a nor- ras intervenções de Anne, em então, a fazer interferências nos
knit café, em te-americana Magda Sayeg co-
Pinheiros - SP.
meçou o movimento em 2006,
Anne Galante e obra
no Texas, quando tricotou capas
feita para o evento
em azul e rosa para a maçaneta FestA - festival do
da porta de seu ateliê. E, assim, aprender dos SESCs
É arte na rua,
(SESC Consolação)
inspirou este ataque de arte pela
cidade. Em 2009, o movimen-
é manifesto, é intervenção
to ganhou força e se espalhou
pelo mundo. Ainda na biografia
em seu site, Magda conta o que
Foto da capa: Divulgação Anne Galante
Mural 4 do trabalho
"O fio libertador", de
Karen Dolorez, no
que nos desconectam do que há ficados? Para Karen, a inspiração a vida urbana não basta. “Sou
de mais belo em ser humano: a para um novo trabalho surge por Paulistana de corpo e alma, e
nossa capacidade de criamos dois caminhos. O primeiro acon- São Paulo, essa metrópole que é
com nossas próprias mãos uma tece quando a artista quer ex- um passarela da diversidade, da
vida boa de se viver”, explica. pressar algo específico. “Se tem boemia, da moda de rua, me im-
potência da vida
ção de cada um? A casa, lugar onde nutrimos nosso de baixa renda. Naquela época, não tinha Bolsa Fa-
corpo e nossa alma, tem sido esvaziada por diversos mília, creches, e essas mulheres precisavam deixar
motivos, segundo Ana Lygia Vieira Schil da Veiga, a seus filhos para fazer faxinas em outros lugares. Foi
Nina Veiga. E, para ela, é preciso retomar a presença quando pensei que se elas produzissem brinquedos
desse lugar no dia a dia, que também é de extrema em suas próprias casas, poderiam ter uma renda ao
Referência em pesquisa sobre importância para as artes manuais. mesmo tempo em que cuidavam das crianças. Pas-
artes manuais, Nina Veiga milita sei, então, a ensiná-las a produzir brinquedos inspi-
pelo retorno à valorização do lar A relação de Nina com as artes manuais começou rados na educação proposta por Rudolf Steiner [Pai
como nosso espaço de nutrição e na escola, mas ela também acompanhava os gestos da Antroposofia] e criados por mim. Isso durou de
construção das nossas histórias de vai-e-vem de linhas e agulhas das mulheres de forma mais intensa até metade dos anos 2000, ape-
Por Estefania Lima sua casa. E foi assim que aprendeu, desde cedo, a sar de seguir até hoje. Foi uma trajetória que come-
construir e costurar seu próprio mundo. çou intuitivamente.
Por meio de uma aplicação prática de sua produção URDUME. E quais foram os desdobramentos des-
acadêmica, seja em oficinas, cursos de pós-gradua- se primeiro movimento?
ção e postura de vida, a educadora fala de tudo isso: Nina. Perto dos anos 2000, começaram a chegar
das artes manuais como modo de existir e da escrita até mim mulheres de classe média com o dese-
como produção de si e do mundo, da potência da jo de aprender algo que pudessem fazer com as
casa e os mecanismos que fizeram dela o lugar da mãos e que também fosse uma renda para que
vida. “Somos um fio pequeno que se une a um mo- contribuíssem com a casa. Eram advogadas, em-
vimento muito maior de ações”, pontua. presárias, bancárias - quase sempre com filhos pe-
quenos - e esgotadas do mundo corporativo. Come-
Mestre em Cultura e Linguagem, psicopedagoga cei a fazer formações abertas e, com isso, a reflexão
artística e doutora pela Universidade Federal de Juiz sobre a casa veio junto. Essas mulheres passaram
de Fora e Universidade de Lisboa, e investigadora a encontrar potências dentro de casa e, com isso,
das artes-manuais e da literatura no Instituto de Es- meu ativismo pela infância, que já vinha forte da dé-
tudos de Literatura Tradicional (IELT), da Universida- cada de 90, se consolidou na formação de adultos,
de Nova de Lisboa (Portugal), Nina conversou sobre com educadores parentais e institucionais. Passei a
suas pesquisas com a Urdume durante sua passa- fazer formação de professores, mas nunca ligada à
gem por Curitiba. Confira. escola, pois a ideia era (e é) tirar a escola de dentro
do professor. Minha proposta é que eles entendam
URDUME. Nina, como você começou a trabalhar que, principalmente nos primeiros anos de vida, o
com artes manuais têxteis? professor não é um professor, mas alguém que faz
Nina Veiga. Tudo começou pela infância, da neces- as vezes da casa na vida da criança.
sidade de criar oportunidades para que a cuidadora
principal de uma criança pequena, historicamente URDUME. Que casa é essa?
a mulher e mãe, tivesse um trabalho que permitisse Nina. A casa sempre entrou no meu discurso como
a permanência dela em casa, ao lado desse filho/fi- lugar de potência, e de potência esvaziada pelo seu
Foto: Unsplash
lha. Eu trabalhei no mundo corporativo por 15 anos valor porque a casa nunca teve valor no processo
e, aos poucos, fiz minha transição. Quando era con- civilizatório; ela sempre foi lugar da opressão. Entre-
sultora, usava meu tempo livre para fazer objetos tanto, em vez de buscar valor fora de casa, minha
vontade sempre foi de que as pessoas vissem o valor naquelas que tinham as artes manuais como prá- lher queira sair do espaço que sempre a oprimiu. A plicado na correspondência com o imaginário da an-
da casa como lugar de nutrição, de liberdade e pro- tica do dia a dia por escolha. Então, toda a minha questão é, então, quem assume esse lugar, porque cestralidade e da casa que podem apoiar as linhas
dução de vida. Nessa organização civilizatória em pesquisa diz respeito à ideia da produção de conhe- nós saímos de casa e ela ficou vazia. terapêuticas dentro e fora do consultório. Rodas de
que vivemos, a vida não é valor, a vida vira produto. cimento junto à casa e junto à vida. Produção de conversa, empresas, nosso olhar é para a ação na co-
Por isso, temos tanta dificuldade de fazer as artes ciência e arte colada ao fazer. A partir disso, cons- URDUME. E quais são os sintomas dessa casa va- munhão do corpo com o fazer. É isso também que
manuais (que têm valor de vida), virarem produto trói-se todo um edifício de pensamento, elevando o zia? temos pesquisado na pós-graduação de artes manu-
sem pervertê-las. Precisamos entender que quan- valor da casa e questionando a matriz civilizacional. Nina. Como o esvaziamento da casa acontece um ais para educação. O locus da pesquisa é a casa e os
do compramos um produto artesanal, precisamos Quando digo que o meu trabalho não se descola da fenômeno terrível: o esvaziamento do sentido da gestos produzidos na cultura doméstica em frente
olhar para a história de quem o fez, porque o produ- luta indígena, negra, ambiental, é porque esses lu- vida. E aí está o problema. Você vai para rua ser cien- à necessidade. Questionamos, por exemplo a apro-
to em si, é o de menos. O mais importante é a vida gares de tensão são tensões de uma crise mundial. tista, mas anexo a isso vem um esvaziamento pro- priação das artes domésticas, como os fios revestin-
que apoiamos ao comprá-lo. O produto é apenas Somos um fio pequeno que seu une a um movi- fundo de sentido. Lavar, comer, brincar, cozinhar, do postes. O que é feito em casa só tem valor quando
um meio. E a minha caminhada se deu assim, fui mento muito maior de ações. passear, tomar sol, cultivar a terra, essas “bobagenzi- vai para rua?
fazendo, até chegar ao doutoramento. nhas”, são o que dão sentido à vida. É claro que isso
URDUME. Mas essa luta pela casa não vai contra não quer dizer que você precisa parar de trabalhar URDUME. Então revestir um poste com fios seria
URDUME. E o que você estudou na sua tese? à proposta de saída da casa de alguns dos movi- fora, mas que a sua jornada de trabalho precisa dei- algo ruim?
Nina. No meu doutorado, o que me interessava era mentos feministas? xar espaço para a vida. Estamos tão habituados com Nina. O poste é a composição de um discurso. Ele
a linguagem, a escrita que vem colada ao corpo que Nina. Estamos dentro da luta da mulher tensionan- essa rotina insana que não conseguimos enxergar pode dar a pensar. Se eu desloco uma coisa, eu dou
faz. Na minha prática eu adotava cadernos o tem- do um lugar que, para muitas feministas, é o lugar uma saída. Precisamos de mudanças estruturais, de a pensar, e isso é importante, mas só se a gente não
po todo porque a escrita doméstica sempre se deu que devemos abandonar. Mas e se a gente não ma- valor e econômicas. anestesiar nossos questionamentos. Ele é importan-
nesses cadernos diários - a casa tar “o anjo do lar” [Nina faz referência a te se não acreditarmos que ele tem valor e uma blusa
sempre teve a sua escrita com os um texto de Virginia Woolf] para poder URDUME. Mas de alguma forma a casa vem ga- de tricô, não. Caso contrário, estamos só alimentando
cadernos de receita, de poesia e O valor da preservar nosso lugar de nutrição? Matar nhando valor atualmente, não? o mesmo sistema. E não é isso que queremos fazer
tudo que é considerado menor, de
menor qualidade, e vinculado ne-
casa é o valor o anjo do lar é deixar a alma de fora da
vida. Como podemos não matá-lo? Como
Nina. Temos que tomar cuidado porque a máqui-
na capitalista sempre se apropria dos conceitos e
cessariamente ao feminino. Então, do abrigo, voltar para casa sem transformá-la em esvazia os sentidos. Temos todo um movimento de
quis olhar para a questão do valor: um produto? Essas são questões de pes-
a quem interessa que o que se o valor da quisa. No entanto, a primeira coisa que
“slows” cheio de nomes estrangeiros, mas normal-
mente quem encabeça essas ideias são pessoas de
produz na casa (que é vida e não
possa ser transformado em pro-
produção devemos ter em mente é que a casa ul-
trapassa as questões biológicas e de gê-
camadas sociais que não precisam trabalhar para
viver. É lícito? Claro que é, isso muda cultura, mas
duto) não tenha valor? Esse tipo de vida. nero porque o homem que fica em casa mantém as coisas no lugar, não trabalha os territó-
as artes manuais com prática cotidiana e o que elas cisa começar a olhar como percebemos as formas estruturas que nos aprisionam, mais fragilizados fi-
traziam como potência. de vida, como desqualificamos tudo aquilo que não camos. A casa é o lugar onde esse cuidado aconte-
se pode transformar em produto e precisa ser feito ce, o lugar da micropolítica.
URDUME. E o que você encontrou? todo dia para viver. Você precisa comer e, se você
Nina. Encontrei um tensionamento forte entre as não faz a sua comida, é porque alguém faz isso para URDUME. Falando em cuidado, pode nos falar so-
mulheres que o faziam porque não tinham se esco- você. Nós nos acostumamos a terceirizar a vida. E bre as suas linhas de pesquisa? O que seriam as
larizado, evidenciando a disputa entre o fazer bra- porque essa atividade perdeu o valor? Porque um artes manuais para terapia?
çal desqualificado versus o intelectual qualificado. dia alguém com mais poder obrigou outro com me- Nina. Queremos pesquisar a cartografia das forças
Mas encontrei o mesmo em outros níveis, também nos [poder] a fazer. Então, parece lógico que a mu- que habitam as técnicas, os fazeres, o gestual im-
Editora de moda e stylist, Dani Nucci se conectou - um mercado que a stylist considera ainda res-
com a moda muito cedo: aos dez anos ganhou trito no Brasil, mas que acredita que ajuda a es-
uma mini-máquina de costura e ali começou a palhar a mensagem de que ser consciente já não
costurar para suas bonecas. Desde então, sou- é mais uma opção, é uma necessidade. Para isso,
be muito bem o que queria e foi cursar oficinas um bom começo é acompanhar as empresas pe-
de modelagem e costura até chegar à faculdade las redes sociais. “As marcas postam como é feito
de moda. Consciente de que a roupa não é feita o desenvolvimento de cada peça. Então, é legal
apenas para ser vestida, mas que é um meio de observar quais destas seguem padrões que não
expressão e comunicação, ela buscou mais infor- prejudicam o meio ambiente, seja usando tecidos
mações sobre os processos de produção e passou eco-friendly, tingimentos naturais, ou criações
a consumir menos, procurando sempre saber a de peças mais duráveis, pois esse é o raciocínio”,
Sierra
origem das roupas e a maneira como eram feitas. explica Dani.
E esta foi a virada para que Dani trabalhasse com Para apresentar seu trabalho na Urdume, Dani
Fotografia: Andre Arthur (Pri Gonsalez Artists) sustentabilidade, indo contra a moda com o viés montou um editorial com marcas que apoiam o
Styling: Dani Nucci (Baobá MGT) descartável, da proposta do “usa-se hoje a joga- consumo consciente da moda e de produção ar-
Beleza: Jordélio Vieira
se fora amanhã”. Passou, então, a trabalhar com tesanal. Veja a seguir as produções que foram fo-
marcas de produções de pequena e média esca- tografadas em Vitória, no Espírito Santo, especial-
la que promoviam a consciência socioambiental mente para esta edição
Tecendo novas
Assist. de Foto: BRUNO GAVA
Agradecimentos: RAINERI EQUIPAMENTOS
possibilidades
Por Sarah Zar
Upcycling como
Apesar de estar em crescimento, o conceito e prin-
tendência de mercado pelo Instituto Akatu, apontou que 61% dos consumi-
dores não sabia dizer o que é um produto sustentável
e 11% não fazia ideia do que é sustentabilidade. Se-
A boa e velha customização chega às grandes marcas gundo Bruna Salatta, fundadora e designer da Telú-
rica, marca de mochilas, bolsas e acessórios, grande
Por Cristine Bartchewsky Lobato
parte dos seus clientes são atraídos pela estética e
funcionalidade e, posteriormente, descobrem que as
Quando o tema é roupa de festa, costuma vir à mente peças são feitas com tecido de reuso.
os vestidos cheios de pedrarias, rendas e brilhos que
não combinam com o dia a dia e que, eventualmen- A marca de Bruna nasceu em 2007 alinhada ao con-
te, ficam abandonados no guarda-roupas para, quem ceito do upcycling por uma necessidade. “A forma
sabe, serem usados novamente. Mas se isso pode como eu comecei a Telúrica é sustentável, mas eu
acontecer com algumas peças dentro dos armários, não pensava nisso. Comecei fazendo bolsas com as
qual será o impacto de todas as produções das gran- calças do meu pai, porque não tinha dinheiro para
des marcas? comprar tecido”, revela. Atualmente, existe muito
planejamento para a sustentabilidade: 90% dos pro-
Em uma realidade em que a indústria da moda é a dutos da marca são feitos com tecido de reuso, peças
segunda mais poluente do mundo, ficando atrás ape- garimpadas em brechós, bazares de igreja e doadas
nas do petróleo, e responsável por 10% das emissões por amigos.
de carbono em todo planeta, é urgente que todos
pensem cada vez mais sobre o consumo consciente e Estas são as mesmas fontes de Juliene Darin, direto-
sobre soluções para aumentar a vida útil das roupas e ra e criadora da marca de luxo Upcyqueen. “Sempre
reduzir os resíduos têxteis. fui apaixonada por feiras, brechós, vintage, exército
da salvação, desde os 12 anos garimpo nesses locais”,
O conceito de upcycling vem com essa proposta, que relata. Para ela, as roupas têm histórias e vale a pena
não é nova na realidade de muitas mulheres, mas que olhá-las do ponto de vista afetivo para dar um des- É importante saber que a degradação dos tecidos em
tem chegado às empresas. tino mais limpo e justo a essas peças. “Reformando geral é lenta, principalmente quando há fibra sintéti-
você realmente traz vida, coloca arte, pode mudar ca na composição. A fibra mais utilizada na produção
A customização em grande escala completamente a estrutura das peças e embelezá de vestuários no mundo, o poliéster, leva mais de 200
O upcycling consiste em manter a estrutura do ma- -las, prolongando a vida delas, diminuindo o impacto anos para se decompor. Considerando esse cenário,
terial da peça que será reaproveitada e colocar uma ambiental e evitando que cheguem aos aterros sani- diversas alternativas sustentáveis vêm surgindo na
aplicação diferente da original. Na prática, isso signi- tários, o que polui mais e mais”, afirma. indústria nos últimos anos com o objetivo de minimi-
fica que empresas passaram a repaginar roupas en- zar impactos e gerar renda a partir de um novo ciclo
calhadas de coleções anteriores, e os retalhos em fios Por que difundir essa prática produtivo.
Foto: Telúrica/ Divulgação
são utilizados por designers e artesãos. “O fio de ma- Em março de 2018, o Sebrae publicou uma estimativa
lha, por exemplo, foi o item mais vendido da loja em sobre a quantidade de retalhos produzidos no Brasil O upcycling vem como mais um dos caminhos. Seja
2018, ficando em primeiro lugar por mais de seis me- pelo mercado têxtil: 170 mil toneladas ao ano, sendo uma prática das grandes marcas ou o trabalho ma-
ses”, diz Ivana Alves, gerente de comunidade da Zôdio que 80% são destinados aos lixões. Apenas em São nual dentro de casa, existe ali uma solução sustentá-
Brasil, loja de artigos domésticos e decoração do gru- Paulo, por exemplo, o polo têxtil no bairro do Bom Re- vel para lidar com resíduos têxteis e também evitar
po ADEO, o mesmo do qual a Leroy Merlyn faz parte. tiro produz 12 toneladas de resíduos têxteis por dia. que sejam produzidos
Ponto doce
O espaço e o respeito à introversão na atualidade
Por Estefania Lima
Ponto Doce. Pode parecer, mas esse não é o nome quiserem ser esquecidos”. Tomar atitudes que
de um ponto de tricô, e sim como Susan Cain, auto- contrariem essa lógica pode parecer remar contra
ra do livro O Poder dos Quietos, chama o momento a maré, mas tem grandes chances de dar certo.
em que uma pessoa consegue organizar a vida para Sarah Corbertt, por exemplo, criadora do Craftivist
estar em ótimos níveis de estimulação. Isso porque, Collective, encontrou seu ponto doce no ativismo
segundo a autora, a sensibilidade aos estímulos é intimista. Cansada de militar nas ruas, algo que a
o que define se alguém é introvertido ou extrover- deixava ansiosa e esgotada, a autora do livro How
tido. Ou seja, o que faz com que algumas pessoas to be a craftivist – The art of gentle protest [Como
fiquem cada vez mais expansivas em uma festa ser um craftivista - A arte do protesto gentil em
cheia de gente, enquanto outras vão procurar uma tradução livre] mudou sua forma de atuação sem
única pessoa para conversar, reservadamente. desligar-se do seu propósito.
A todo momento somos convidados ao externo, ao Sarah passou a usar o artesanato como forma de
compartilhamento de opiniões, exposições, o que expressão e descobriu que, ao trazer o ativismo
nem sempre é agradável para aqueles que sen- para perto das atividades manuais, ajudaria não
tem necessidade física e psíquica de isolamento. só aos introvertidos, mas também extrovertidos,
Um desafio para quem fica do lado introvertido que poderiam meditar sobre suas ações enquanto
do espectro e que sofre com o culto à persona- desenvolviam uma peça de bordado ou tricô para
lidade extrovertida que vivemos nos nossos tem- um protesto gentil.
pos. Na verdade, parece quase impossível pensar
em estilos de vida que se descolem de um modelo As artes manuais têxteis, como já é sabido, ótimas
de expansão e autopromoção, já que, hoje em dia, ferramentas de conexão. Para algumas pessoas,
falar em público e influenciar pessoas virou sinô- externa. Para outras, interna. Encontrar seu ponto
nimo de sucesso. Necessidade essa que aparece, doce no meio das artes manuais pode ser o cami-
quando tentar imitar nosso relacionar tudo ao ambiente e vale o tempero de cada um, da
gesto em suas brincadeiras, por à localidade em que vivemos. sua maneira, com seu sabor. É
Ambiente é essa casa, nosso Texto extraído do livro “Ô de casa,
exemplo, tocando bacias de isso que nos alimenta. Se cada
ambiente escolar, as famílias que um chamado”, de Dayse Cristina
alumínio com pauzinhos imitando um colocar dentro dessa panela
Santiago, como conclusão de curso
o toque do tambor, ou cuidando nos rodeiam, os nossos vizinhos algo que nos alimente, mesmo
da Pós Graduação Artes-Manuais
com esmero um paninho de sua de bairro. Localidade é a cidade, o que seja a alegria de desfrutar da
para a Educação, e editado para a
casinha assim como cuidamos estado e o país em que vivemos. festa em si, será válido.
segunda edição da Urdume.
de nossos bordados. As crianças De todo resto, nos apropriamos, Contamos com o apoio de todos os
O encanto
URDUME: Aliás, por que ganhou este nome? desses bonecos que, para mim, são muito mais que
YS: Queria um nome que em espanhol não tivesse ne- simples bichinhos em crochê: são minhas persona-
nhum significado e não estivesse relacionado com a gens, minhas criaturas. Além disso, amo livros e, aqui
dos bonecos
palavra amigurumi. Eu não sabia se eu ia a continuar na Argentina, ainda não existia nenhuma publicação
fazendo bichinhos em crochê e queria ter um nome deste tipo, então seria um lindo desafio.
de crochê
que identificasse o blog e qualquer outro produto. E
também Pica Pau porque eu cresci escutando a mi- URDUME: Como os artesãos podem ajudar a com-
nha mãe falando dos contos do Sítio do Pica Pau Ama- bater a pirataria?
relo. Aliás, ainda tenho a minha boneca Emília. YS: Talvez a solução seja que todas as pessoas façam o
esforço de valorizar e mencionar o trabalho do outro,
Conheça a trajetória da criadora da
URDUME: Como é o teu processo de criação de bo- do autor e dos artesãos, tanto por parte dos consumi-
Pica Pau, os processos criativos dos necos? dores, leitores, como das editoras. Acho importante o
personagens e seu primeiro contato YS: O tempo todo estou “colecionando” imagens, fo- trabalho de muitas novas publicações que enfatizam
com as artes manuais tografias, ilustrações etc, e vou desenhando persona- e valorizam a obra do autor, pois elas não estão apenas
Nos últimos meses, uma questão em 2018 no Brasil, a lei protege os defende que ideias 100% inéditas
ganhou a atenção dos artesãos: resultados da criação – seja uma são quase impossíveis nos dias de
os direitos autorais. Menções à peça de vestuário, um acessório hoje, uma vez que temos acesso
cópia, plágio e autoria se espa- ou um objeto de decoração. “Os a um turbilhão de informações e
lharam em debates pelas redes direitos autorais são divididos em influências, o que tem colocado
sociais. Há quem condene qual- direitos patrimoniais, que podem em cheque as avaliações sobre
quer tipo de cópia e há quem ser licenciados ou cedidos para originalidade. Para ele, nenhuma
acredite que tudo o que está na exploração comercial por outras ideia surge de forma repentina e
internet é de domínio público, pessoas, e direitos morais, que copiar pode ajudar no desenvolvi-
independentemente de quem estão ligados à personalidade de mento de habilidades técnicas e
fez primeiro. Mas, afinal, objetos quem criou determinada obra, criativas próprias. Porém, é preci-
criados a partir de técnicas tra- sendo estes perpétuos”, explica so entender que cópia é diferente
dicionais - passadas de geração Cendão. “É o caso de materiais de de plágio. “Copiar é engenharia
para geração - têm dono? cursos ou tutoriais online. Mesmo reversa. É como um mecânico
quando disponibilizados gratui- removendo as partes de um car-
De acordo com o advogado e tamente, podem possuir licenças ro para ver como ele funciona”,
especialista em Propriedade In- que precisam ser respeitadas e, explica o autor. Já o plágio, é fa-
telectual pelo Instituto Nacional na maioria dos casos, a citação do zer o trabalho de outra pessoa se
da Propriedade Industrial (INPI), autor do conteúdo é obrigatória. passar por seu, assumindo a au-
Fabio Cendão, obras artesanais Ou seja, os direitos patrimoniais toria de algo que não criou.
podem ter, sim, a proteção pela podem ter sido licenciados ou ce-
Lei de Direitos Autorais e são con- didos, mas os direitos morais per- O autor afirma também que toda
sideradas do autor a partir do manecerão, além da possibilida- criação é fruto de diferentes ideias
momento da criação, desde que de de regras específicas criadas colecionadas ao longo da vida e
seja possível comprovar isso. “É pelo autor. É preciso estar atento elas vêm do seu dia a dia, dos fil-
importante lembrar que méto- se a distribuição do conteúdo é mes que assiste, dos livros que lê,
dos não são passíveis de proteção liberada ou se a comercialização das viagens que faz, das pessoas
de direito autoral. As técnicas, em do produto é permitida. E isso com quem convive. Coletar ideias
regra, não podem ser registradas, vale para o uso de qualquer ma- de outras pessoas e transformá
mas as obras feitas a partir delas, terial: textos, fotos, vídeos e obras -las em algo seu pode ser a chave
podem, pois são fruto da criação artesanais”, completa. para o sucesso. Quanto mais ins-
Pode copiar?
do autor. Além disso, estas obras pirações você tiver, maior será seu
não exigem um registro específi- Desenvolvendo o próprio repertório para criar. “Não se limi-
co, sendo suficiente ao autor con- estilo te a roubar o estilo, roube o pensa-
seguir provar a data de criação e No livro Roube como um artis- mento por trás do estilo. Você não
autoria. Por exemplo: pontos de ta, o autor Austin Kleon pondera quer parecer os seus heróis, você
Foto: Designecologist from Pexels
A cópia tende a ajudar no desenvolvimento de habilidades técnicas bordado não podem ter sua auto- a respeito da criatividade na era quer enxergar como eles”, sugere.
e criativas próprias, contribuindo para a construção da identidade ria registrada, porém um quadro digital: “Não saímos do útero sa- Ele explica que observar a forma
do artesão, mas o plágio é uma violação dos direitos do outro bordado com um desenho criado bendo quem somos. No come- de pensar das pessoas que admi-
por um artista, pode”, afirma. ço, aprendemos fingindo que ra e conhecer seus processos cria-
Por Estela de Andrade
somos nossos heróis. Aprende- tivos auxiliam no desenvolvimen-
Com um crescimento de 40,3% de mos copiando. Estamos falando to de uma identidade própria, já
registros de desenhos industriais de prática, não de plágio”. Kleon que a junção de ideias vindas de
lugares diferentes pode resultar PUC - Rio, Maria Inês Anachoreta, que estão compartilhando. Tudo
em algo autêntico e inovador. é possível concluir que a constru- é facilmente circulável e, às vezes,
ção de uma identidade está liga- coisas muito simples, como um
Um estudo da Universidade de da à essência de ser artesão. “O feliz aniversário, necessitam de
Tóquio, no Japão, parece confir- sentido do artesão/artífice está uma mensagem criada por outra
mar essa teoria. A pesquisa Como intrinsecamente ligado à cons- pessoa. O ethos das redes sociais
Bordaduras
O estudo concluiu que o grupo Se é preciso uma lei para con-
que não copiou nenhum artista ao outro, mas até ter alguém em relação ao plá-
apresentou obras de arte mais mesmo de si. gio, ele já se denuncia como um
realistas, porém menos originais, não-artesão”, afirma.
uma vez que a imaginação foi só o plágio em relação ao outro, Por Estefania Lima
limitada pelas possibilidades do mas até mesmo de si. Um artesão Desenvolver o seu próprio estilo Resultado de uma exposição realizada pelas ar- tempo em que procuravam linhas e f ios de dife-
objeto fornecido. Por sua vez, os fará vários produtos semelhantes, faz parte de um processo de au- tistas plásticas Giovana Casagrande e Leila Al- rentes texturas e cores em suas próprias casas,
estudantes que copiaram outro mas jamais iguais”, ela reflete. toconhecimento, de se reconhe- berti em 2013, chamada Bordaduras - Coisas de parentes e em armarinhos para esta união
artista foram considerados mais cer artesão e de acreditar no tra- de Alice, o livro Bordaduras relata, de maneira inusitada. Com a escolha das técnicas do costu-
criativos, pois tiveram como base Para Maria Inês, a internet vem balho que realiza, mas olhar para poética, o processo de criação de bordado sobre rar, bordar, crochetar, tricotar e colar, as artistas
a interpretação da obra e não construindo um ethos do com- o outro pode auxiliar neste movi- porcelana, utilizando como ponto de partida o abriram espaço para a discussão sobre arte e ar-
seu resultado final, o que confe- partilhar e isso está trazendo uma mento de enxergar a si mesmo. universo da personagem Alice, de Lewis Carroll. tesanato. Juntaram dois elementos presentes no
riu a impressão de um estilo pes- desobrigação com a autoria e Todo artista passa pelo processo imaginário afetivo das artes do lar, f ios e porce-
soal aos desenhos. com a criação. “Tenho pensado de reunir suas inspirações para Juntas, Giovana e Leila visitaram fábricas de lana, e deram novas vidas a eles por meio da in-
muito no quanto as redes sociais descobrir sua identidade. Portan- porcelana nos arredores de Curitiba ao mesmo f inita imaginação presente no mundo de Alice
A ética do artesão: ser fiel têm permitido uma alienação to, teste, arrisque e deixe o fazer
a si próprio da nossa singularidade. As pes- manual fluir. Você pode se sur-
Bordaduras - Processo Construtivo da Exposição Coisas de Alice
Para a professora do Departa- soas compartilham em excesso preender com o quanto é possível Edição e Organização: Leila Alberti e Giovana Casagrande
mento de Filosofia da UERJ e da e não se comprometem com o aprender sobre si mesmo Texto: Marília Diaz I Edição do Autor, Curitiba|Paraná (2018)
de empoderamento social
-brasileiras e na manutenção dos grupos de ciranda,
maculelê, afoxé e, principalmente, coco. Apesar das
identidades estarem mais próximas do que é histo-
ricamente aprendido em vez das aprendizagens for-
Os projetos Visto o que é meu! e Mulheres do Paragaçu usam bordado mais e institucionalizadas, elas acabam se perdendo
por influências externas e apagamento cultural. “Mui-
e costura para trabalhar identidade e território
tas vezes, eles têm as referências, mas não sabem re-
Por Estefania Lima conhecê-las, e os grupos de dança são importantes
como manifestação cultural e de identidade dessa
população”, conta Katarina, idealizadora do projeto.
Katarina só encontrou uma situação diferente em A região é marcada por sua relação com o rio. Ca-
2018, no Quilombo Conceição das Crioulas, em choeira, por exemplo, cidade histórica localizada no
Salgueiros, uma comunidade de forte lideran- recôncavo e banhada pelo Paragaçu, era importante
A tecelagem terapêutica
Por Mayra Aiello
Lindo trabalho esse de mulheres fiadeiras, Por isso, um convite: que tal olhar para o que você
mulheres aranhas, está tecendo? O que os fios, pontos e tramas dizem
que com suas mãos, sobre você e seu momento atual? Busque observar
tecem mantos de luz a intensidade dos pontos, os padrões e repetições,
a criatividade em cores, as formas e texturas, seus
Aula de bordado do para proteger o mundo mágico da criação.
projeto Mulheres de sentimentos e emoções em relação ao que está
Paraguaçu Mulheres em ação,
sendo tecido.
sem manhas, nem tramas e artimanhas
apenas tecelãs sábias,
Chama-se de tecelagem terapêutica a prática arte-
rota que se dirigia ao sertão, ao Recôncavo, às Mi- mulheres de dentro e fora da região e de diferen- dos tempos de todas as luas, terapêutica com o uso de fios e elaboração de con-
nas Gerais e a Salvador durante o período colonial. tes gerações, como no caso de umas das nossas minguantes, novas, teúdo simbólico da psique. O tecer em terapia pos-
A cidade possui 90% da sua população composta oficinas de bordado, que reuniu uma senhora de crescentes de luz e poder sibilita a percepção de aspectos de nossa maneira
de pessoas negras e as mulheres são matriarcas, 90 anos e sua bisneta, de 12”, conta Larissa. Para ela, e finalmente plenas, de agir e aprender no mundo de forma a vivenciar o
mães de santos que têm suas histórias marcadas mais do que a parte técnica, a riqueza acontece no cheias de encanto e amor. que é mais verdadeiro no próprio ser. Inspira a visão,
pela representação do rio desde a chegada dos por- elo estabelecido entre as mulheres no momento a coragem para transformar os sonhos em realidade,
Eliane Dornellas para Teia de Thea
tugueses. “O rio tem uma relação muito forte com em que bordam e compartilham suas histórias de tecer os desejos. A produção consciente manual in-
abandono, amor ou religiosidade, criando cone- voca uma pausa estratégica: parar, respirar, observar,
o estado porque a entrada dos colonizadores na
O fazer manual, assim como o terapêutico, pede tempo elaborar, refletir, sentir a textura, fazer com as mãos,
Bahia se deu por ele, antigamente transitavam na- xões, fortalecimento e empoderamento do grupo
e foco sobre a matéria bruta - os fios e nós mesmos. experimentar os fios e agulhas, testar os pontos, res-
vios ali, era a principal rota de comércio da região”,
Olhar atento, um ponto após o outro, e mãos ativas. Na peitar o tempo, analisar o trabalho que vai sendo teci-
conta Larissa Leão, diretora artística do projeto.
tecelagem manual com o crochê, tricô, tear ou borda- do, sentir, encarar o resultado, identificar expectativa
do, os fios vão na contramão da era industrial: levam-se e realidade do que foi tecido.
A iniciativa, que está no seu segundo ano, pos- horas, às vezes dias ou meses, para tecer algo. E olhar
sui uma equipe de 10 artistas e educadores que para si nestes processos artesanais que atuam no tem- E podem ser utilizadas diferentes técnicas e ferra-
convivem com a comunidade local durante duas po do fazer simbólico, o Kairós, e não apenas no tempo mentas de acordo com as demandas emocionais
semanas, realizando pesquisas de campo, cria- do relógio, o Chronos, é tarefa urgente e necessária. (luto, mudanças, angústia, depressão, ansiedade,
Fotos: Divulgação do projeto Mulheres de Paraguaçu
ção e apresentação de um espetáculo de conta- entre outras) e tipo psicológico do indivíduo. Assim,
ção de histórias. Eles oferecem também oficinas Na psicologia, o trabalho terapêutico pode ser visto compreendem-se novas possibilidades de transfor-
de bordado, audiovisual, contação de histórias como artesanal. Um trabalho singular, que exige con- mação e análise simbólica das experiências de vida,
e capacitação para mulheres empreendedoras. fiança, presença, estudo, entrega e escuta. A trama das com o resgate de memórias afetivas e a apropriação
palavras e dos fios da vida são tecidos no espaço-tem- das forças internas em prol do crescimento psíquico
po seguro da psicoterapia. Nesse sentido, tecer com neste processo de tornar-se inteiro
Por meio desse trabalho, o projeto Mulheres do Pa-
fios ajuda no trabalho dos vínculos, uma vez que os
raguaçu vai tramando a relação delas com o ter-
fios, laços e nós correspondem, em sua simbologia, à
ritório e o feminino, e dá suporte na valorização e
formação dessas conexões. As pessoas estão constan-
registro do conhecimento tradicional. “Nós quere-
temente em processo de atar e desatar nós, construir “Tecer era tudo o que fazia. Tecer era
mos contribuir para o fortalecimento das lideranças vínculos, mergulhadas em um grande processo de au- tudo o que queria fazer”
femininas que habitam a beira do rio, conectando toconhecimento e aprendizagem contínua. Em A moça Tecelã, por Marina Colasanti
A resistência das
rendas de bilro
Uma das principais tradições da Ilha das Rendeiras enfrenta desafios
para encaixar-se e acompanhar as mudanças e linguagens atuais
Por Juliana Allain e Natália Seeger
Na reportagem de um jornal de interesse dos jovens na aprendi- nio cultural da ilha e, em 2009,
Florianópolis (SC), a seguinte zagem da técnica. foi criada uma lei que instituiu o
chamada: “A arte da renda de dia 21 de outubro como o dia mu-
bilro resiste heroicamente à pas- A defesa da tradição nicipal da Rendeira.
sagem do tempo e às mudanças “Eu faço renda desde que me co-
culturais”. Mas será que essa re- nheço por gente. Aprendi com Para lidar com os desafios atuais,
sistência caminha na direção de minha mãe e minhas tias, que o governo municipal tem feito ini-
acompanhar tais mudanças ou a aprenderam com a minha avó, ciativas de apoio e incentivo à pro-
renda existe apesar dessas trans- que aprendeu com a minha bi- dução da renda na ilha, como a
formações? savó. É uma tradição da família”, criação de polos de renda de bilro
conta Dona Tereza, enquanto e aulas gratuitas, que acontecem
A renda de bilro chegou à cida- suas mãos vão trançando os desde o início dos anos 90. Apesar
de pelas mãos de mulheres en- bilros com as linhas que tramam disso, há uma estagnação da pro-
viadas da região de Açores, Por- a renda. O som dos bilros baten- dução não em quantidades, mas
tugal, durante a Inquisição. A do um nos outros embalam sua em relação às mudanças estéti-
maioria foi desterrada acusada fala numa velocidade tão gran- cas. “Ainda vemos essencialmen-
de “bruxaria”. Bruxaria esta que, de quanto a delicadeza do que te peças como trilhos de mesa,
na realidade, trazia independên- vai se formando. porta-copos, toalhas e com mo-
cia, sabedoria e habilidades às tivos muito tradicionais”, conta a
mulheres: saberes manuais, téc- A renda de bilro é produzida pelo estilista Lolla, que frequentou as
nicas de benzimento e conhe- entremear de fios finos que são aulas em 2018.
cimentos de ervas medicinais. enrolados em pequenas peças
Por aqui, a vida também não foi de madeira torneadas, os bilros. Encontro harmonioso com
simples, em luta constante para Em Florianópolis, ela é feita em a contemporaneidade
o reconhecimento e valorização cima de uma almofada cilíndri- Apesar dessa estagnação, alguns
do fazer artesanal. E esta tradi- ca, onde coloca-se o pique, um artesãos buscam integrar a ren-
ção, passada entre mulheres da cartão perfurado que tem o de- da aos movimentos do momento
família, encontra agora o desafio senho da renda. Nesses furos, atual. É o caso da ceramista Lika,
assustar. Mas sigo com medo mesmo, pois assim que Marie Castro é uma designer handmade, artista
história viva de Florianópolis – e tem que ser. textil e produtora de conteúdo de lifestyle e
também de outras regiões do artesanato. Em seu canal do Youtube ensina
Brasil – que está sendo renovada Revisito trabalhos antigos para entender um pouco técnicas manuais conquistando milhares
a cada fio que se entrelaça mais sobre o que eu experienciei. O engraçado é que de seguidores. @mariecastro
“Pela mão: acolhida; com a mão: autoria.” vivido estas experiências, tentando captar o cotidia- Viver na pós-modernidade não é algo simples. Fa- de cooperar de forma flexível e em larga escala. Por
Luciana Ostetto no com todos os sentidos acordados. lamos muito, escutamos pouco e a polarização de intermédio da palavra e da escuta podemos nutrir
ideias tem inviabilizado boas conversas. Passamos melhores relações e cooperar. Me parece que hoje,
O convite é para falar de si. Dar visibilidade aos fios de Enquanto vou me constituindo com a inteireza de cada vez mais tempo conectados nas redes sociais, mais do que nunca, precisamos dialogar de forma
histórias que tecem caminhos para revelar processos ser e estar no mundo, fragmentos de memórias da porém desconectados da realidade e da presença. franca e honesta.
estéticos autobiográficos. Desenrolar o novelo para minha manualidade são resgatados num corpo que Negligenciamos o autocuidado e também o cuida-
narrar o vivido. Reconhecer diferentes modos de nar- faz e sente com as mãos. Nos fazeres domésticos do do do outro. Estamos ansiosos, solitários e deprimi- Em busca desse equilíbrio, criei o Fio da Conversa,
rativas sobre a vida. Ir além do conhecido. Atravessar cotidiano, nas pinturas de aquarela dos sentidos, nos dos. Como bem apontou o sociólogo Michel Maffe- um espaço para aprendizagem de trabalhos manu-
fronteiras. É neste espaço-tempo de fronteiras que textos escritos, no olhar processual, nos sons, nas co- soli, vivemos um tempo de saturação, momento de ais e conversas sobre paternidade e masculinida-
me localizo, fora do meu país, longe da minha cultu- res, nos cheiros, no toque. Tenho buscado a cada dia desconstrução dos velhos padrões e reconstrução des. A ideia é ouvir, acolher e aprender com outros
ra, apartada do que é familiar. Falo de um lugar de es- perceber e registrar os meus processos como forma de novas bases. homens e suas histórias, questões, ideias e visões.
cuta que quer se conectar com aquilo que acontece de escuta externa e interna, registrando aquilo que Compartilhando essas experiências em um am-
dentro e fora de si. Me reconheço como sujeito ativo surge do inesperado. E quero com olhos extraordi- De que maneira podemos lidar com essas transfor- biente descontraído, acredito que poderemos rever
da minha própria história. nários continuar capturando o mundo ao meu redor mações e nutrir melhores relações e afetos com os as possibilidades do masculino e nos reconstruir de
com todos os sentidos, dar continuidade aos regis- nossos pares? Não tenho respostas definitivas, ape- maneira mais equilibrada e harmônica com nossas
Explorar uma nova cidade é sempre um convite tros do “Periódico Poético da Alma” a partir de mui- nas algumas pistas ou movimentos que tenho prati- companheiras e companheiros
para se encantar com as surpresas. Gosto de não tas linguagens. Deixar marcas dos processos de vida, cado no meu processo de transformação em busca
pesquisar muito e me deixar levar ao acaso, e assim tão bem descritos em forma de poesia pela autora do melhor de mim.
descobrir ruelas, lojas, praças, docerias, instalações, Eliane Brum: “Esta é a minha memória. Dela eu sou a
galerias, pessoas. Lembrar de pessoas queridas. Que- que nasce, mas também sou a parteira” A primeira delas, sustentação para as demais, é a
rer estar com todas elas por perto, mas aceitar estar busca por uma vida e uma sociedade mais equili-
comigo mesma. Afinal, aprender a contemplar algo bradas. Não me refiro a ter uma vida sem deslizes
sozinha também é um desafio. Ser intérprete de si. E e erros, mas em saber viver na busca pelo caminho
assim seguir se reinventando, como revela o filósofo do meio, nem muito lá, nem muito cá. Se movimen-
Bachelard “a imensidão está em nós”. tando e tentando voltar sempre ao centro, para não
cair. Quem já acompanhou um bebê aprendendo a
O processo de “caminhar para si” e perceber aquilo andar sabe do que estou falando. A busca pelo equi-
que sou, penso, valorizo, desejo e faço nas relações líbrio leva tempo, exige persistência e paciência.
comigo mesma, com o outro e com o ambiente ao
meu redor, tem sido revelador. Imagino essas ruas Nessa linha, a segunda pista é praticar o diálogo. O
estreitas, com seus prédios de arquitetura modernis- exercício do diálogo foi fundamental para nossa evo-
ta catalã, cobertas pelas copas das árvores. Do poeta lução e também será para nossa sobrevivência. No
Vilma Silva é pedagoga, doutoranda em Educação Gustavo Seraphim é pai e entusiasta de todo tipo
Manoel de Barros vem a confirmação em forma de na Universidade Federal Fluminense/RJ, atua há livro Sapiens: uma breve história da humanidade, de trabalho manual, atua como gestor de projetos
poesia “...o olho vê, a lembrança revê e a imaginação 22 anos na área de educação e é fundadora da Yuval Harari demonstra que evoluímos e chegamos culturais e artísticos pela Seraphim Projetos,
transvê. É preciso transver o mundo.” E assim tenho Calore – Educação, Cultura e Arte. @caloreatelie até aqui porque fomos os únicos animais capazes da qual é sócio-diretor. @guseraphim
Eu sei que temos que ser livres o suficiente pra seguir suficiente pra cantar as minhas alegrias ou gozar até Será que muitos de nós nos entregamos com mais von- sária uma fonte de renda fixa, advinda de um outro trabalho
nosso coração, mas isso sem chorar. Somos hoje mu- perder o fôlego. tade ao fazer manual apenas nos sábados e domingos, que ainda não é o ideal, mas é aquele do momento, e grati-
lheres e fortes, mas ninguém nos contou que o nosso como se houvesse uma permissão divina para esta cone- dão por ser assim, até que possa ser diferente.
corpo falava e que não é certo quanto não nos permiti- Existe uma magia inexplicável em sentir infinitamente xão com algo que sempre esteve em nós, mas que não se
mos ouvi-lo, quando não o permitimos o desejo de fluir o movimento de ser você mesma, de fluir com amor transformou no nosso trabalho de segunda a sexta? Aos poucos, no nível psicológico que gera um engajamento
livremente, tanto em lágrimas quanto em sangue. Es- por sua essência e particularidade. Mulheres são feitas mental com seu fazer manual, quando menos se espera -
ses deveriam fluir sem medo ou repulsa, sem de modo de amor e fúria e, acima de tudo, de verdade. Verdade Arte, artesanato, handmade, maker, craftolers. Tudo aqui- porém, uma espera com fé na jornada que se iniciou - estará
algum fazer com que nos sentíssemos frágeis por isso. essa que nos foi escondida juntamente com a nossa lo que você pode fazer com as mãos, quando aplicada lá, você com seu produto, sua marca e sua essência sendo
sensibilidade e instinto. Éramos lá atrás responsáveis segurança e constância, gera prosperidade. Prospera levados para a casa de alguém. Confie e entregue-se, assu-
Nós, mulheres, terras férteis de nossos próprios sonhos, pela semeadura e colheita antes que mundo virasse quem compra seu produto conduzido pela mágica da sig- ma aquilo que já faz e comece a mudar o mundo a partir de
deveríamos aprender que é seguro sentir e reconhecer guerra. nificância entre o que você produziu e o que a alma do suas mãos. Milhares de pessoas no mundo todo, a partir da
nossos movimentos internos sem julgamento. Não dar comprador quer. Prospera você, que se percebe como um Era de Aquário, deixarão que suas tramas e urdumes envol-
ouvidos aos nossos sentimentos e ciclos é como se ti- Uma guerra externa e interna. canalizador de um processo manual que, vendido, traz re- vam a vida dos demais, por vezes tão dura e cruel, que por
véssemos que costurar a nós mesmas todas as noites, torno financeiro e aumento para sua estima. hoje insiste em ser de concreto, nos esfolando num cotidia-
muitas vezes colocando a linha na agulha no escuro Falar hoje de verdade é retomar a consciência de ser, no sem o cuidado do carinho com as mãos.
pra fazer um bordado que nem gostamos tanto assim. de se expressar e de materializar nossos devaneios Milhares de mãos em todo mundo produzem, mas produ-
É cortar as próprias asas e observar as árvores da janela. mais íntimos. Eu escolho ser novelo de lã, que se abraça zem para dentro, como se a sua produção manual fosse Muitas vezes é uma questão de tempo, de dar tempo ao
Talvez seja mais fácil ser um pássaro na gaiola ou um por inteiro, passa por todos os lados sem deixar escapar apenas um presente para família e mais próximos, um hia- tempo, mas em nenhum momento durante este tempo,
“bordado de máquina”, mas nunca vai-se saber o que é uma só emoção. Que se permite ser guiado e só confia to de licença para liberar entre fios a sua essência, apenas desanimar, retroceder, esmorecer ou duvidar de si. Assim, a
estar entre árvores ou entre dedos. no caminho de tornar-se o melhor que se possa ser num final de semana. Deveria haver uma convocação para pequena produção familiar dos finais de semana transbor-
que os projetos paralelos que envolvem o manual tomem da para os outros dias que você tem.
Quando eu me escuto, eu me lembro que sou Oxum, conta do nosso ser, a ponto de se tornar o trabalho princi-
Ísis, Héstia, Jaci, Hebe, Yemanjá, Lilith. Sou todos os aro- pal, alterando então o significado da palavra trabalho. Vira o todo, e não uma parcela
mas misturados numa língua que é só minha. Sou ale-
crim, rosa, gengibre, limão, lavanda, calêndula. Eu curo, Mas, para isso, é preciso:
cicatrizo, perfumo e enfeito sobretudo a mim mesma, 1. Reordenar-se no nível mental, espiritual e material;
na minha grandeza e nos meus defeitos. É um eterno 2. Criar segurança e estima pelo seu produto por meio do
lembrar-se mulher em conexão com o universo inteiro, estudo de técnicas, elaboração e experimentação livre de
Foi ouvindo meu corpo que eu descobri que era no pul- a sua identidade e aperfeiçoá-la.
mão que se alojava a tristeza e, então, eu tive que ter 4. Produzir com constância durante o sol ou temporal, en-
*Estefânia Verreschi é amiga das plantas desde a tregando-se ao fazer num fluir absoluto e total, que iniba
humildade pra chorar bem alto sem economizar gota
infância. Tornou-se educadora a fim de entender melhor a aparição de pensamentos negativos e auto-sabotagem
alguma. Humildade que ainda hoje eu aprendo, cada Daniela Nogueira é habitante de Curitiba e flaneur
a construção e o desenvolvimento humano, mas foi nas
hora de um jeito. É o mesmo pulmão que me dá ar o durante a dura caminhada do processo; por adoração. Acredita na verdade da roupa
terapias que se encontrou. @ervariadasluas
5. Concentrar-se numa nova perspectiva, na qual é neces- acima da moda; @flanar