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Memórias de um João Sergipano I Valquíria M. S. Santana De onde vem o nome do município de Laranjeiras? O que vem a ser Maruim?

Parecem até perguntas tolas, vindas no mínimo da imaginação inquieta de uma criança. Será mesmo? Será mesmo que há alguma importância em responder a essas perguntas? Talvez! – responde um. Acho que sim! – responde outro. Deixa pra lá! – cicrano responde. Sim, é muitíssimo importante! – responde um senhor de muitas idades, de muitas histórias. Seu nome é João. E vai ser o Sr. João Sergipano a pessoa que vai nos responder a essas perguntas. Então, ele pega seu cigarro de palha, acende, dá uma boa tragada, se ajusta na sua cadeira da varanda e começa a contar. Irei começar por Maruim, pois foi a cidade que morei na minha infância, eu e meus 7 irmãos. Brincávamos no Rio Cotinguiba, onde nadávamos, pescávamos... Ainda me lembro de ver minha mãe lavando roupas nas margens daquele rio. À noite, depois do jantar, nosso pai contava histórias que meu avô contou a ele e que vinham sendo contadas de geração em geração. Falava que Maruim tinha um solo de excelente qualidade para o plantio da cana-de-açúcar, a qual se tornou a maior fonte de riqueza da região. Possui até um Barão. Seu nome era João Gomes de Mello, conhecido por Barão de Maruim, que fez muito por aquele pedaço de chão. Construiu a Igreja Nossa Senhora dos Passos, que hoje se tornou a igreja matriz, na qual dizem estar sepultados os ossos de seu fundador (Que Deus o conserve em um bom lugar!). O Barão tinha muitas influências políticas, tanto que dizem que ele possuía uma amizade com o presidente Inácio Barbosa. Ah! Esse Barão era ardiloso! Por tanta influência, Laranjeiras não se torna a capital de Sergipe, passando a vez para Aracaju, a planejada Aracaju. Maruim possui até hoje, em estado muito precário o Gabinete de Leitura, que possui livros antiqüíssimos. Mas o tempo não esta sendo generoso com eles. Arrisco a dizer que se não fizerem nada pra recuperá-los, vão virar pó e as novas gerações só vão encontrar uma plaqueta de mármore com os seguintes dizeres “Aqui já fizeram morada

carne e até umas roupas e. Resolveu responder. mas ninguém olhou por eles”. havendo lá centenas de engenhos e usinas. quem é você? A menina ficou o tempo todo calada. Ah! Que saudades daqueles tempos que não voltam. lugar onde vivi a minha adolescência. seu João olhou bem no fundo dos olhos de Maria e disse: Tu não és sergipana. apenas nascestes em Sergipe. Foi lá onde encontrei o meu primeiro e único amor. não sabe da história da sua terra. o açúcar predominava. depois da missa. mas nos dias de domingo. compro um agradinho pra minha netinha. Depois que todo mundo saia da igreja.. por isso o nome Laranjeiras. não é mais o mesmo. ele sentava no degrau e começava contando que à beira do rio (onde na infância me banhava a alguns quilômetros dali) existia muitos pés de laranjas. Tanto que foi considerado o maior produtor de açúcar cristal de Sergipe. Eu sou Maria e sou sergipana. Sabe menina. pois tem de tudo um pouco. Então. O rio. Tem verdura. viu que tinha toda razão e que seu diploma de nível superior não era nada perante o conhecimento daquele senhor. cuja casa onde morou hoje tornou-se a Casa de Cultura João Ribeiro. Já foi muito conhecida como a Atenas Sergipana. Volto lá. Esse foi o primeiro sergipano eleito imortal na Academia Sergipana de Letras. . o padre começava a nos ensinar um pouco da grande história daquele lugar. quando o dinheiro dá.. Faço isso também em Laranjeiras. Posso até citar um nome que ainda me recordo.obras primas de grandes autores e de grande valor intelectual. Brincava na rua com os meus vizinhos. Que a economia era parecida com a de Maruim. E a menina Maria olhou para ele. pelo menos uma vez ao mês. as casas e as ruas algumas sim. e ir a feira. Hoje Maruim ainda mantém alguns longínquos traços preservando o seu passado. só ouvindo a historia de vida daquele senhor de muitas idades e muitas histórias. João Ribeiro. pois gosto de visitar a cidade. Mas me diz menina. mas não conheço nada daqui. frutas.. ai. Namorei muito na praça da Matriz. Ai. pois foi um celeiro de intelectuais.. Bons tempos.