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Eletromagnetismo e Relatividade

´ MODULO 1 - AULA 1

Aula 1 – Eletromagnetismo e Relatividade
Meta da Aula
Apresentar o dilema conceitual da F´ ısica que motivou a formula¸ao da c˜ Teoria da Relatividade Restrita.

Objetivos
Ao final desta aula, vocˆ dever´ ser capaz de: e a • Explicar o princ´ ıpio da Relatividade, ou de equivalˆncia entre referene ciais inerciais. • Mostrar a incompatibilidade entre o Eletromagnetismo, a Mecˆnica a Newtoniana e o princ´ ıpio da Relatividade, quando considerados de forma conjunta.

Pr´-requisitos e
Para compreender com mais facilidade esta aula, recomendamos que vocˆ reveja os conceitos de: e • Referenciais inerciais e a lei de composi¸ao de velocidades de Galileu: c˜ F´ ısica 1, M´dulo 2, Aula 3. o • Ondas eletromagn´ticas: F´ e ısica 4A, M´dulo 1, Aula 2. o • Interferˆmetro de Michelson: F´ o ısica 4A, M´dulo 2, Aula 7. o

Introdu¸˜o ca
Neste momento do curso, vocˆ j´ possui os pr´-requisitos necess´rios e a e a para ser introduzido a um dos maiores momentos da ciˆncia no s´culo XX: e e a Teoria da Relatividade, de Albert Einstein. Ao final deste m´dulo, vocˆ o e ser´ capaz de entender a Teoria da Relatividade na sua vers˜o restrita ou a a especial. Ao longo da presente aula, vocˆ come¸ar´ a entender as dificule c a dades conceituais que deflagraram o trabalho de Einstein, revolucionando a F´ ısica no in´ do s´culo passado. Ainda nos dias atuais, a Teoria da Reıcio e latividade desperta perplexidade, pelo questionamento das no¸oes do senso c˜ comum ligadas a defini¸ao de tempo e simultaneidade. ` c˜
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CEDERJ

Eletromagnetismo e Relatividade A Teoria do Eletromagnetismo de Maxwell. descrita pelas ´ Equa¸oes de Maxwell. essa equa¸ao resume a unifica¸ao da eletricidade. parece estar em conflito direto com algumas das no¸oes c˜ b´sicas da Mecˆnica. a a nem os detalhes do processo de gera¸ao da onda — por exemplo. o magnetismo e a otica. c˜ e a Entretanto. estudada no M´dulo 1. Portanto. n˜o importando o valor do comprimento de onda. Essa ´ uma previs˜o fundamental das a a e a equa¸oes de Maxwell: c ´ uma constante universal da F´ c˜ e ısica. com a velocidade o e c a c= √ 1 0 µ0 = 3. do a c˜ c˜ magnetismo e da optica sob uma mesma teoria fundamental. passaram a ser compreendidos em termos de um unico conjunto de leis ´ ´ e princ´ ıpios f´ ısicos fundamentais. constantes fundamentais associadas a eletricic˜ ` dade (a permissividade el´trica do v´cuo 0 ) e ao magnetismo (a permeabilie a dade magn´tica do v´cuo µ0 ) determinam a velocidade de propaga¸ao da luz e a c˜ no v´cuo c. que corresponde a perspectiva de observa¸ao de a ` c˜ um passageiro sentado em seu interior. (1. e o referencial terrestre. foi o um dos grandes trunfos da ciˆncia no s´culo XIX. representada por uma c˜ constante universal. se propagam no e a v´cuo com a velocidade c. por exemplo. Ao observarmos o ceu a e e ` noite. O exemplo e c˜ e mais importante de onda eletromagn´tica ´ a luz. ou v´cuo. Fenˆmenos f´ e e o ısicos aparentemente descorrelacionados. uma conseq¨ˆncia fundamental ue da teoria de Maxwell ´ a propaga¸ao de ondas eletromagn´ticas. a luz se propaga atrav´s do espa¸o vazio. associado a um sistema de eixos coordenados. c˜ Todas as ondas eletromagn´ticas.1) De acordo com essa equa¸ao. considere um avi˜o em movimento em a rela¸ao ao aeroporto. Para chegar at´ e n´s. que representa a velocidade de propaga¸ao das ondas eletromagn´ticas no v´cuo. a no¸ao de uma velocidade absoluta. detectamos a luz emitida por estrelas muito distantes. que corresponde. Como exemplo. envolvendo a eletricidade. estudadas no curso de F´ a a ısica 1. a perspectiva de um observador em repouso ` no aeroporto. Temos dois referenciais naturais nesse problema: c˜ o referencial do avi˜o. e n˜o apenas a luz. Vamos relembrar rapidamente alguns desses conceitos e introduzir o Princ´ ıpio da Relatividade: • O movimento de part´ ıculas e a propaga¸ao de ondas s˜o descritos do c˜ a ponto de vista de um referencial. se o emissor c˜ da onda est´ ou n˜o em movimento. 0 × 108 m/s. CEDERJ 8 . Como vimos na Aula 2 de F´ ısica 4A.

• Princ´ ıpio da Relatividade: a equivalˆncia entre os referenciais e inerciais. Em muitas situa¸oes. ou que ela a e oscila mesmo estando inicialmente na vertical e em repouso em rela¸ao c˜ ao trem. o exemplo de um navio em a movimento. por uma quest˜o de primeiros princ´ a ıpios. a e qualquer experimento mecˆnico feito no interior do navio fornece os a mesmos resultados que seriam obtidos no referencial terrestre. como Galileu. pode ser dif´ decidir qual dos dois est´ em ıcil a repouso em rela¸ao a esta¸ao. h´ uma infinidade de referenciais e a a inerciais. Vamos tomar. distinguir entre dois referenciais inerciais por meio de uma experiˆncia e mecˆnica. o referencial do avi˜o ´ inercial se ele se move em rela¸ao a e c˜ ao aeroporto com velocidade constante. Nesse caso.AULA 1 • As leis de Newton valem numa classe especial de referenciais: os referenciais inerciais.Eletromagnetismo e Relatividade ´ MODULO 1 . Qualquer referencial em movimento com velocidade constante em rela¸ao a um referencial inercial tamb´m ´ inercial. Como as leis da Mecˆnica s˜o as mesmas em todos os refea a renciais inerciais. 9 CEDERJ . cada um dos quais em movimento relativo com velocidade constante em rela¸ao a qualquer outro. ent˜o e a o referencial em que o navio est´ em repouso ´ inercial. Se a velocidade ´ constante (movimento uniforme). c˜ e e Como essa velocidade ´ arbitr´ria. Quando h´ movimento relaa tivo entre os dois trens. se estivermos no por˜o do naa a a vio. Mais geralmente. N˜o h´ como definir o c˜ e a a estado de repouso absoluto ou de movimento uniforme absoluto: apenas o movimento relativo tem significado f´ ısico. ´ imposs´ e ıvel. Por exemplo. e n˜o s´ as da Mecˆnica. Isso explica por que ficamos confusos quando estamos no interior de um trem inicialmente estacionado ao lado de um outro trem. podemos supor que todas as leis da F´ ısica. Apenas quando o trem est´ acelerado c˜ ` c˜ a podemos verificar o estado de movimento: basta pendurar uma bola no teto e verificar que a sua posi¸ao de equil´ c˜ ıbrio n˜o ´ vertical. podemos pendurar uma bola de ferro no teto e verificar que sua posi¸ao de equil´ c˜ ıbrio ser´ vertical. s˜o as mesmas em todos os referenciais a o a a inerciais. c˜ Nesse caso. Em conseq¨ˆncia desse princ´ ue ıpio. mesmo que o navio esteja em a alta velocidade. sem janelas para olhar para fora e verificar se h´ movimento em a rela¸ao a alguma referˆncia externa ao navio. n˜o h´ como descobrir se o navio a a est´ ou n˜o em movimento uniforme. o refec˜ c˜ rencial terrestre pode ser considerado inercial como boa aproxima¸ao.

Como a velocidade c dada pela Equa¸ao (1. Nesse referencial. Conforme estudado no curso de F´ c˜ ısica 2. onde n˜o h´ c˜ c˜ a a meio material. a velocidade de propaga¸ao depende das propriedades f´ c˜ ısicas da corda: a sua densidade µ e a tens˜o T. Se. a velocidade de propaga¸ao a c˜ de ondas na corda vale T /µ. seria c˜ c˜ c − V. seria preciso concluir tamb´m que estas c˜ e s´ valeriam nesse referencial especial. a velocidade da luz valeria c apenas num referencial espec´ ıfico. a velocidade no referencial R . devea se entender a escolha que resulta na mais simples descri¸ao poss´ para o c˜ ıvel problema). ent˜o. a medida que a onda se propaga ao ` c˜ a ` longo dessa dire¸ao. No referencial de repouso da corda.Eletromagnetismo e Relatividade • Apesar da completa equivalˆncia entre os referenciais inerciais. a a c˜ a CEDERJ 10 . no referencial R. em movimento com velocic˜ dade V ao longo da mesma dire¸ao e sentido da propaga¸ao da luz. batalhas espaciais s˜o acompanhadas de forte baa rulho de explos˜es. o referencial natural ´ e aquele em que a corda est´ globalmente em repouso (por “natural”. no espa¸o entre os planetas e as estrelas n˜o o c a h´ propaga¸ao de som! Todos os tipos de onda mecˆnica correspondem a a c˜ a ` propaga¸ao de perturba¸oes de um meio material. R. a velocidade de propaga¸ao c˜ ´ c. cada ponto da corda executa um movimento transversal a dire¸ao de extens˜o da corda.2) onde V ´ a velocidade do referencial R em rela¸ao a R. Que referencial especial seria esse? o Para ondas numa corda vibrante. por exemplo. Outro exemplo importante de onda mecˆnica ´ o som. Em particular. Entretanto.25). Em muitos a e filmes de fic¸ao cient´ c˜ ıfica. c˜ Velocidades de propaga¸˜o de ondas em diferentes reca ferenciais Vamos agora examinar a propaga¸ao da luz a partir das perspectivas de c˜ dois referenciais distintos. Portanto.1) foi c˜ derivada das equa¸oes de Maxwell. n˜o h´ propaga¸ao de ondas mecˆnicas. De acordo com esse argumento. a dese cri¸ao do movimento de uma dada part´ c˜ ıcula ´ diferente em dois referene ciais distintos. de acordo com a lei de composi¸ao de velocidades de Galileu. Essa rela¸ao ´ e c˜ c˜ e a lei de composi¸ao de velocidades de Galileu. a velocidade v de uma dada part´ ıcula em rela¸ao a um referencial R difere da velocidade v da mesma part´ c˜ ıcula em rela¸ao a um outro referencial R pela rela¸ao: c˜ c˜ v =v +V (1. e a c˜ Equa¸ao (6.

Durante o s´culo XIX. Ao mesmo tempo. Quando n˜o h´ a a vento. ent˜o o referencial especial a e e a onde valeriam as equa¸oes de Maxwell. Este meio matea e rial hipot´tico. e onde a velocidade da luz seria c. e mesmo nas primeiras d´cadas ap´s a fore e o mula¸ao do Eletromagnetismo por Maxwell. e Exerc´ 1.2 ıcio Calcule a raz˜o entre a velocidade da Terra e a velocidade da luz no v´cuo a a V /c. Ent˜o deveria existir o e a um meio material ocupando todo o espa¸o entre as estrelas e os planetas.Eletromagnetismo e Relatividade ´ MODULO 1 . a conforme discutimos no exemplo da corda vibrante.1 ıcio Quando dizemos que a velocidade do som no ar vale cerca de 340m/s. esse referencial coincide com o referencial terrestre. Para ser consistente com o car´ter transverso das ondas eletro` a magn´ticas. onde V ´ a velocidade da Terra. o ´ter n˜o poderia oferecer resistˆncia ao e a e movimento dos corpos celestes.AULA 1 Exerc´ 1. No referencial terrestre. de qual referencial estamos falando? Resposta comentada: para ondas mecˆnicas. Portanto. a vee locidade de propaga¸ao de um feixe de luz ao longo da dire¸ao de movimento c˜ c˜ do planeta Terra seria c − V. c˜ seria o referencial Copernicano das estrelas fixas. acreditava-se que a luz tamb´m c˜ e s´ poderia se propagar atrav´s de um meio material. c j´ que a luz se propaga das estrelas at´ o nosso planeta. j´ mencionado na Aula 3 de a F´ ısica 1A. conhecido pelo nome de ´ter. para o som. estaria em repouso em rela¸ao e e c˜ as estrelas. o referencial natural ´ a e sempre aquele em que o meio material est´ globalmente em repouso. pois nele o ´ter estaria em repouso. como no exemplo da corda vibrante tensionada. o que parecia estar em contradi¸ao com a c˜ primeira condi¸ao! c˜ Se acredit´ssemos na existˆncia do ´ter. a velocidade vale 340m/s no referencial de repouso do ar. o ´ter deveria ser r´ e e ıgido. Qual seria a varia¸ao percentual da velocidade de propaga¸ao medida c˜ c˜ no referencial terrrestre em raz˜o do movimento da Terra em rela¸ao ao a c˜ ´ter? e 11 CEDERJ .

e com maior ree percuss˜o. Vocˆ j´ trabalhou com o intere a CEDERJ 12 . experimentos de observa¸ao de estrelas. dependendo do modelo c˜ suposto para o ´ter. em 1887. Entretanto. e No contexto de um ´ter vazio.Eletromagnetismo e Relatividade A hip´tese do ´ter era importante para justificar a existˆncia de um o e e referencial privilegiado. c˜ Todos os experimentos terrestres obtiveram uma modifica¸ao nula para c˜ a velocidade da luz. No caso de um ´ter material. isso seria e a a an´logo a ter escotilhas abertas: o movimento do navio em rela¸ao ao ar a c˜ seria detectado gra¸as ao aparecimento de uma corrente de ar. a interpreta¸ao do experimento seria e c˜ bem mais estranha. ainda no final do s´culo XIX. sem a justificativa decorrente da presen¸a de um meio material. foi publicado por Albert Michelson. O experimento mais preciso na ´poca. Isso a a exclui. c Isso implicava abandonar o princ´ de relatividade introduzido por Galileu. a hip´tese de um ´ter a e o e material foi aos poucos sendo substitu´ pelo conceito de um ´ter “vazio”. em colabora¸ao com Edward a c˜ Morley. por exemplo. Esse efeito c poderia ser observado pela altera¸ao da velocidade de propaga¸ao do som c˜ c˜ medida no por˜o. um pre¸o alto a ser pago. como referencial privilegiado. esses experimentos mee e diriam o movimento da Terra em rela¸ao a um segundo corpo material. Os experimenc˜ tos terrestres tinham duas interpreta¸oes diferentes. sem nenhum contato ou e a intera¸ao com o exterior. ıpio Assim. n˜o em rela¸ao a um outro corpo e a c˜ material. por a uma experiˆncia realizada no interior do seu por˜o. ıda e que seria equivalente a um referencial privilegiado. c˜ Seria o an´logo de detectar o estado de movimento uniforme do navio. Tratava-se de um aprimoramento do interferˆmetro deo senvolvido por Michelson alguns anos antes. O ´ter material seria o an´logo do ar para a propaga¸ao a e a c˜ da luz. foram realizadas v´rias tentativas de medir a e a modifica¸ao da velocidade da luz em experimentos terrestres. e a medida terrestre da velocidade da luz iria detectar o efeito do “vento”do ´ter. j´ discutido anteriormente. ` c˜ c Ao longo do s´culo XIX. introduziria o conceito de e movimento absoluto. A modifica¸ao da velocidade da luz seria indicadora c˜ de movimento absoluto da Terra. o ´ter vazio. em analogia ao caso de ondas sonoras e outras ondas mecˆnicas. mas aparentemente necess´rio c a para a interpreta¸ao da constante universal c como uma velocidade absoluta c˜ associada a propaga¸ao da luz no espa¸o vazio. onde valeriam as equa¸oes c˜ de Maxwell. o c˜ ´ter. No problema do por˜o do navio. Experimentos c˜ terrestres s˜o aqueles em que a fonte e o detector da luz est˜o na Terra. isto ´. mas sim em rela¸ao a um suposto referencial particular abstrato.

modificarmos o ´ ındice de refra¸ao do meio que preenche um dos bra¸os. vocˆ e est´ descobrindo que. Como vocˆ verificou na c˜ c o e Aula 7. c˜ c Suponha agora que o eixo X coincide com a dire¸ao e o sentido da vec˜ locidade V de propaga¸ao do planeta em rela¸ao ao referencial. Agora. Para o caminho c de volta ao longo desse mesmo bra¸o. o ´ter estaria em repouso).1. por exemplo. Ela ´ o resultado e e da inteferˆncia entre os dois feixes. a velocidade de propaga¸ao no referencial terrestre teria um c c˜ 13 CEDERJ .Eletromagnetismo e Relatividade ´ MODULO 1 . enquanto o c c˜ e outro feixe ´ refletido pelo espelho E2. O feixe que segue a c o pelo bra¸o ao longo da dire¸ao X ´ refletido pelo espelho E1. a velocidade seria c + V. Ao longo c do outro bra¸o. Conforme j´ comentamos. Figura 1. que depende da diferen¸a entre as fases e c acumuladas por cada feixe no seu caminho de ida e volta entre DF e E1 ou E2. e e a a intensidade resultante ´ observada sobre o anteparo A. Eles s˜o recombinados por DF. o Essa diferen¸a de fase ´ modificada se alteramos a velocidade de proc e paga¸ao da luz em um dos bra¸os do interferˆmetro. podemos observar esse efeito se. Um feixe de luz o e se propaga ao longo da dire¸ao do eixo X at´ ser dividido pelo divisor de c˜ e feixe DF em dois feixes que se propagam ao longo das dire¸oes X e Y. e a de acordo com a lei de composi¸ao de velocidades de Galileu. Esses c˜ dois caminhos ortogonais s˜o os bra¸os do interferˆmetro. al´m das suas v´rias aplica¸oes pr´ticas.1: Interferˆmetro de Michelson. das estrelas c˜ c˜ fixas (nesse referencial. a velocidade c˜ de propaga¸ao da luz em rela¸ao ao referencial terrestre seria c − V para o c˜ c˜ caminho de ida ao longo do bra¸o alinhado com o eixo X. esse sistema a e a c˜ a teve uma enorme importˆncia na hist´ria da F´ a o ısica! O esquema b´sico do a interferˆmetro de Michelson ´ apresentado na Figura 1.AULA 1 ferˆmetro de Michelson na Aula 7 do M´dulo 2 de F´ o o ısica 3A.

Parecia dif´ conciliar o eletromagnetismo de Maxwell com o princ´ ıcil ıpio de relatividade. Em vez de modificar o Eletromagnetismo de Maxwell. no quadro da Mecˆnica de Galileu e Newton. A possibilidade de o ´ter ser arrastado pelo movimento da Terra numa escala planet´ria (´ter e a e em repouso em rela¸ao a Terra) j´ havia sido descartada. ao comentar que os resultados de Michelson e e Morley representavam uma “nuvem do s´culo XIX sobre a teoria dinˆmica e a da luz”. em palestra para a Royal Institution. c˜ c Michelson e Morley montaram o interferˆmetro sobre uma plataforma gio rante. A solu¸ao para o impasse a c˜ foi obtida por Albert Einstein de uma forma extremamente audaciosa. Foi um dos mais importantes cientistas de todos os tempos. A Teoria da Relatividade foi uma das duas grana des revolu¸oes cient´ c˜ ıficas do s´culo XX – a segunda revolu¸ao foi a Mecˆnica e c˜ a Quˆntica. Eisntein contribuiu de forma decisiva no desenvolvimento da f´ ısica quˆntica e da mecˆnica a a estat´ ıstica. ` Albert Einstein nasceu em Ulm. assim como o o ar no por˜o ´ solid´rio ao movimento do navio se as escotilhas est˜o bem a e a a vedadas. Al´m da teoria da e relatividade. em 1879. Einstein: Relatividade e Eletromagnetismo sim. mas nenhuma sobreviveu a passagem do tempo. o Como conciliar esses resultados negativos com a f´ ısica conhecida na ´poca? Poder´ e ıamos imaginar que o ´ter material estivesse confinado a sala e ` do laborat´rio e fosse arrastado pelo movimento terrestre. Para descartar essa improv´vel possibilidade. c˜ o c˜ A situa¸ao de crise foi sintetizada por Lord Kelvin. um dos mais rec˜ nomados cientistas da ´poca. no topo de uma colina. Se todas essas predi¸oes fossem c˜ verdadeiras. estar´ ıamos modificando as velocidades de propaga¸ao em cada bra¸o. era necess´rio romper com a a Mecˆnica Newtoniana. a e c˜ CEDERJ 14 . diferente dos anteriores e de c.Eletromagnetismo e Relatividade terceiro valor. em 1900. e obtiveram uma modifica¸ao nula (dentro da incerteza experimental) c˜ da intensidade ao girar o interferˆmetro. nesse o caso. seria poss´ ıvel observar uma modifica¸ao da intensidade projec˜ tada sobre o anteparo A ao girar o interferˆmetro como um todo. e mais uma vez obtiveram resultado nulo. V´rias teorias ` e a alternativas a do eletromagnetismo de Maxwell foram propostas durante esse ` per´ ıodo de crise. o aparato experimental ao ar livre. em 1904. pois. que tamb´m contou com contribui¸oes fundamentais de Einstein. a F´ ıcio e ısica se encontrava num impasse. Michelson e Dayton a Miller montaram. F´ ısica Newtoniana n˜o a No in´ do s´culo XX. Alemanha. Lord Kelvin se referia a teoria eletromagn´tica da luz desenvolvida por Maxwell. em fun¸ao de c˜ ` a c˜ observa¸oes astronˆmicas das posi¸oes aparentes de estrelas.

e a c 15 CEDERJ . Einstein a c˜ argumenta que o eletromagnetismo n˜o parece ser intrinsicamente incoma pat´ ıvel com a id´ia. central ao princ´ e ıpio de relatividade. que seja o magneto que est´ em repouso e a espira a em movimento com velocidade V . magneto em movimento. como mostra a Figura 1. publicado pela rea vista alem˜ Annalen der Physik em 1905. o m´dulo do campo magn´tico cresce num ponto qualc˜ o e quer da superf´ S. Para ilustrar esse argumento. F = q V × B.2: Espira em repouso. Na introdu¸ao do artigo. Figura 1. Suponha. Suponha que a espira esteja em repouso e o magneto se aproxime. agora. conforme indicado na Figura 1. e n˜o h´ e c e a a campo el´trico induzido. Nesse caso. o campo magn´tico num dado ponto fixo do espa¸o ´ constante.AULA 1 Einstein apresentou as bases da Teoria da Relatividade Restrita no artigo “Sobre a Eletrodinˆnica de Corpos em Movimento”.2. fazendo aparecer e e a uma for¸a eletromotriz E e uma corrente I = E/R.Eletromagnetismo e Relatividade ´ MODULO 1 . No entanto. a for¸a de Lorentz. ent˜o. Pela Lei de Faraday. induzido no contorno da espira. Einstein tomou o seguinte exemplo: considere uma espira de corrente e um magneto (´ a) alinhado na dire¸ao perım˜ c˜ pendicular ao plano da espira. e c tamb´m dar´ origem a uma for¸a eletromotriz.3. de que apenas o movimento relativo tem sentido f´ ısico. onde R ´ a resistˆncia c e e da espira. Em conseq¨ˆncia ue dessa aproxima¸ao. interna ao contorno da espira. um ıcie campo el´trico ´.

Embora essas duas situa¸oes pare¸am distintas. a corrente induzida na espira s´ depende do moo vimento relativo entre o magneto e a espira. em ambas. a for¸a elec˜ c c tromotriz ´ dada por: e dΦ E =− dt onde Φ ´ o fluxo de campo magn´tico atrav´s da espira. de definir o estado de repouso CEDERJ 16 .” Einstein se referia ao ´ter ao mencionar o “meio de propaga¸ao da luz” e c˜ (entre aspas no texto original). Assim como os fenˆmenos mecˆnicos. ent˜o. nos dois referenciais inerciais de repouso da espira e do magc˜ neto. somados as tena ` tativas fracassadas de detectar o efeito do movimento da Terra relativo ao ‘meio de propaga¸ao da luz’. Einstein seguramente conhecia outros experimentos desse tipo. a explica¸ao f´ c˜ ısica para a corrente pare¸a bastante dic ferente. Se o movimento relativo ´ uniforme. Assim. Einstein. ent˜o e a as descri¸oes. magneto em repouso.Eletromagnetismo e Relatividade Figura 1. nenhum fenˆmeno eletromagn´tico seria cao a o e paz. de acordo e e e com o eletromagnetismo. c˜ o a assim como os da Mecˆnica. n˜o importando se ´ a espira a e ou o magneto que se movimenta.3: Espira em movimento. os resultados desses experimentos confirmavam a sua id´ia intuitiva de que as leis do elee tromagnetismo deveriam se aplicar em todos os referenciais inerciais. dedicados a detec¸ao de uma suposta varia¸ao da ` c˜ c˜ velocidade da luz em experimentos terrestres. fornecem o mesmo resultado final para a corrente na espira. por uma quest˜o de primeiros princ´ a ıpios. embora. conclui que “exemplos desse tipo. n˜o possuem propriedades associadas a id´ia de a a ` e repouso absoluto. Embora o artigo de 1905 n˜o mencione o a experimento Michelson e Morley. sugerem que os fenˆmenos da Eletrodinˆmica. em cada referencial. Para Einstein.

ent˜o. como conseq¨ˆncia. tinha representado o e papel de exemplo (ou paradigma) para a ciˆncia de uma forma geral. Na pr´xima aula. Assim. vocˆ pˆde entender o dilema conceitual que motivou a fore o mula¸ao da Teoria da Relatividade Restrita. a 17 CEDERJ . Para isso. reformular ue completamente a Mecˆnica Newtoniana. Em particular. Se as equa¸oes de Maxwell valem em todos os c˜ referenciais inerciais (princ´ ıpio da relatividade). 0 × 108 m/s. veremos como a teoria da relativio dade ´ constru´ a partir desses dois postulados: o princ´ de relatividade e ıda ıpio e a invariˆncia da velocidade da luz. de que a velocidade da luz ´ a mesma em e todos os referenciais. se acreditarmos no princ´ c˜ ıpio da Relatividade. a Conclus˜o a Nesta aula. Equa¸ao (6. A Teoria do Eletromagnetismo c˜ introduz uma constante f´ ısica universal representando uma velocidade absoluta: a velocidade da luz no v´cuo c. nesse caso. que. detectar o efeito do movimento da Terra em rela¸ao a esse corpo hipot´tico. a luz a se propaga no v´cuo com a mesma velocidade c = 3. em todos eles. porque a a equa¸ao para as ondas eletromagn´ticas ´ uma conseq¨ˆncia matem´tica das c˜ e e ue a equa¸oes de Maxwell. c˜ e Einstein descartou tanto o ´ter material como o ´ter vazio associado a e e um referencial privilegiado. teve de c˜ romper com o conceito de tempo absoluto e. experimentos terrestres de medida da velocidade da luz jamais poderiam medir uma modifica¸ao devido ao movimento da Terra. Por sua c˜ c˜ vez. elevada por c˜ o Einstein ao status de postulado.Eletromagnetismo e Relatividade ´ MODULO 1 . durante s´culos. tendo como base a hip´tese.25). ou de movimento uniforme absoluto. Essa hip´tese audaciosa ´ claramente incompat´ c˜ o e ıvel com a lei de composi¸ao de velocidades de Galileu. seria poss´ e ıvel. a a c˜ a teoria de Einstein representou uma ruptura com uma das teorias mais bemsucedidas da hist´ria da F´ o ısica. e O ponto de partida para a revis˜o da Mecˆnica Newtoniana ´ a refora a e mula¸ao do conceito de tempo.AULA 1 absoluto. Isto ´ incompat´ a e ıvel com a lei de composi¸ao de velocidades de Galileu. essa lei est´ na base de constru¸ao da Mecˆnica de Newton. Essa modifica¸ao s´ poderia aparecer c˜ c˜ o se existisse o ´ter material. a princ´ ıpio. Einstein optou por manter o eletromagnetismo e o princ´ ıpio da relatividade e descartar a lei de composi¸ao de velocidades.

Qual foi o resultado obtido? 8. Explique o Princ´ ıpio da Relatividade. ue a velocidade de propaga¸ao das ondas eletromagn´ticas no v´cuo possui o c˜ e a mesmo valor. portanto. Enuncie a lei de composi¸ao de velocidades de Galileu e discuta alguns c˜ exemplos de aplica¸ao tomando situa¸oes pr´ticas da vida di´ria. As cordas de um viol˜o podem ser afinadas pela varia¸ao da tens˜o T a c˜ a da corda. Em que sentido a hip´tese de um ´ter vazio violaria o princ´ o e ıpio de relatividade? 7. Em conseq¨ˆncia. Explique o objetivo do experimento de Michelson e Morley.Eletromagnetismo e Relatividade Atividades finais 1. em todos eles. ´ preciso adotar o conceito e Newtoniano de tempo absoluto. Em particular. levando a uma completa a revolu¸ao das leis da Mecˆnica. Explique o que muda na propaga¸ao de ondas na corda ao c˜ variar T . Mostre que o postulado de que a velocidade da luz vale c em todos os referenciais inerciais ´ incompat´ com a lei de composi¸ao de velocie ıvel c˜ dades de Galileu. as leis da F´ ısica valem em todos os referenciais inerciais. isto ´. que fornecem. 5. 2. Explique os diferentes modelos de ´ter luminoso. Esse resultado est´ em contradi¸ao com a lei de composi¸ao a c˜ c˜ de velocidades de Galileu! Para derivar essa lei. e 6. c˜ a CEDERJ 18 . propostos ao longo do e s´culo XIX. as Equa¸oes de Maxwell o c˜ valem em todos os referenciais inerciais. supor que o tempo ´ o mesmo para e e todos os referenciais inerciais. De que vari´veis depende a velocidade de propaga¸ao de uma onda a c˜ mecˆnica num meio material? A velocidade depende da energia transa portada pela onda? Depende das propriedades do meio material? Forne¸a c alguns exemplos. descri¸oes equivalenc˜ tes de um determinado fenˆmeno. Einstein descartou essa hip´tese (que parece o t˜o natural) e reformulou o conceito de tempo. 4. c˜ c˜ a a 3. Resumo De acordo com o princ´ ıpio da relatividade.

o . veremos em detalhe como Einstein reformulou os conceitos de tempo e simultaneidade..AULA 1 E ao longo das pr´ximas aulas. a contra¸ao de Lorentz e v´rios outros! c˜ c˜ a 19 CEDERJ . Vocˆ descobrir´ os estranhos efeitos previstos pela Teoria da Relatividade e a Restrita: a dilata¸ao temporal. rompendo com o conceito Newtoniano de tempo absoluto....Eletromagnetismo e Relatividade ´ MODULO 1 .