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RESOLUÇÃO DA PROVA DE TÉCNICO DA RECEITA FEDERAL - 2005

Henrique Cantarino

www.editoraferreira.com.br

Direito Administrativo

Caros amigos, voltamos com a correção das questões da prova de Técnico da


Receita Federal. Antes, porém, gostaria de dar meus sinceros parabéns àqueles
aprovados no certame. Que esta aprovação seja apenas o início de uma brilhante
carreira de muitas realizações. Aos demais, que não lograram êxito, continuem
estudando, pois seu sucesso está mais perto do que vocês imaginam. Bom, então,
vamos lá!!!

Questão 48
A entidade da Administração Indireta, que se conceitua como sendo uma pessoa
jurídica de direito público, criada por força de lei, com capacidade exclusivamente
administrativa, tendo por substrato um patrimônio personalizado, gerido pelos seus
próprios órgãos e destinado a uma finalidade específica, de interesse público, é a
a) autarquia.
b) fundação pública.
c) empresa pública.
d) sociedade de economia mista.
e) agência reguladora.

Gabarito: alternativa “B”

A conceituação das entidades da Administração Indireta está descrita no


Decreto-Lei n° 200/67. Traduzimos abaixo as disposições do referido diploma legal
acerca de tais entidades:

Art. 5º Para os fins desta lei, considera-se:

I - Autarquia - o serviço autônomo, criado por lei, com


personalidade jurídica, patrimônio e receita próprios, para executar
atividades típicas da Administração Pública, que requeiram, para seu
melhor funcionamento, gestão administrativa e financeira
descentralizada.

II - Empresa Pública - a entidade dotada de personalidade


jurídica de direito privado, com patrimônio próprio e capital exclusivo da
União ou de suas entidades da Administração Indireta, criada por lei
para desempenhar atividades de natureza empresarial que o Governo
seja levado a exercer, por motivos de conveniência ou contingência
administrativa, podendo tal entidade revestir-se de qualquer das formas
admitidas em direito.

III - Sociedade de Economia Mista - a entidade dotada de


personalidade jurídica de direito privado, criada por lei para o exercício
de atividade de natureza mercantil, sob a forma de sociedade anônima,
cujas ações com direito a voto pertençam, em sua maioria, à União ou à
entidade da Administração Indireta.
Temos, então, que as empresas públicas e as sociedades de economia mista
são entidades de direito privado da Administração Indireta, criadas pelo Estado
mediante lei autorizativa (CF, art. 37, inciso XIX), para a prestação de serviços
públicos ou exercício de atividades econômicas (CF, art. 173, § 1º). Já as autarquias
são pessoas jurídicas de direito público, criadas diretamente por lei específica, para o
exercício de atividades tipicamente estatais, podendo ser denominadas serviços
públicos personalizados.
As fundações públicas foram incluídas no rol de entidades da Administração
Indireta por força da Lei nº 7.596/87, cujos dispositivos de interesse transcrevemos
abaixo:

Art. 1º O Decreto-lei nº 200, de 25 de fevereiro de 1967, alterado pelo


Decreto-lei nº 900, de 29 de setembro de 1969, e pelo Decreto-lei nº
2.299, de 21 de novembro de 1986, passa a vigorar com as seguintes
alterações:

I - o inciso II do art. 4º fica acrescido da seguinte alínea d,


passando o atual 1º a parágrafo único, na forma abaixo:

"Art. 4º

II -

d) fundações públicas.

Parágrafo único. As entidades compreendidas na Administração Indireta


vinculam-se ao Ministério em cuja área de competência estiver
enquadrada sua principal atividade."

II - o art. 5º fica acrescido de um inciso e um parágrafo, a


serem numerados, respectivamente, como inciso IV e § 3º, na forma
abaixo:

"Art. 5º

IV - Fundação Pública - a entidade dotada de personalidade jurídica de


direito privado, sem fins lucrativos, criada em virtude de autorização
legislativa, para o desenvolvimento de atividades que não exijam
execução por órgãos ou entidades de direito público, com autonomia
administrativa, patrimônio próprio gerido pelos respectivos órgãos de
direção, e funcionamento custeado por recursos da União e de outras
fontes.

Como fundação (em sentido amplo), podemos entender o ente formado a partir
da personificação (atribuição de personalidade jurídica) de um patrimônio, devendo a
pessoa jurídica assim instituída gerir este patrimônio no sentido de exercer as
atribuições para as quais foi criada. Tal fundação pode ser privada (quando instituída
por particulares, tais como a Fundação Roberto Marinho, Fundação Xuxa Meneghel
etc.) ou pública (quando instituída pelo poder público, tais como a FUNAI, FIOCRUZ
etc.).
As atividades desempenhadas pelas fundações públicas não podem ser
consideradas tipicamente estatais (a cargo das autarquias) nem tampouco atividades
econômicas ou prestação de serviços públicos (a cargo das empresas públicas e
sociedades de economia mista), mas sim atividades de interesse social e coletivo,
sendo conveniente para a sociedade seu exercício por uma entidade estatal.
Quanto às fundações públicas, em que pese a falta de consenso da doutrina e a
confusão existente na própria legislação a respeito do assunto, podemos trabalhar da
seguinte forma para fins de concurso público: tais entidades podem ser instituídas com
personalidade jurídica de direito público OU personalidade jurídica de direito privado,
dependendo da vontade do ente instituidor.
As fundações públicas de direito público serão aquelas criadas por lei
específica, da mesma forma que as autarquias, sendo por este motivo consideradas
espécies do gênero autarquia (as denominadas “fundações autárquicas”). Já as
fundações públicas de direito privado seriam aquelas criadas da mesma forma que
as empresas públicas e sociedades de economia mista, ou seja, mediante lei
autorizativa, dependendo, para sua efetiva constituição, de ato do Poder Executivo e
posterior registro dos atos constitutivos no órgão competente.

Questão 49
As sociedades de economia mista, constituídas com capitais predominantes do Estado,
são pessoas jurídicas de direito privado, integrantes da Administração Pública Indireta,
são regidas pelas normas comuns aplicáveis às empresas particulares, estando fora do
âmbito de incidência do Direito Administrativo.
a) Correta esta assertiva.
b) Incorreta a assertiva, porque elas são pessoas jurídicas de direito público.
c) Incorreta a assertiva, porque eles são de regime híbrido sujeitando-se ao direito
privado e, em muitos aspectos, ao direito público.
d) Incorreta a assertiva, porque seus capitais são predominantes privados.
e) Incorreta a assertiva, porque elas são de regime público, regidas exclusivamente
pelo Direito Administrativo.

Gabarito: alternativa “C”


Apesar de as sociedades de economia mista serem, efetivamente, classificadas
como pessoas jurídicas de direito privado, seria incorreto afirmar que não se
sujeitariam, em nenhuma hipótese, ao regime jurídico publicista. Como exemplos,
podemos citar a obrigatoriedade de tais entidades realizarem procedimento licitatório
para a aquisição de bens ou contratação de serviços, a necessidade de realização de
concurso público para admissão de seus empregados, a vedação à acumulação
remunerada de cargos, empregos e funções públicas, a submissão ao teto
remuneratório previsto constitucionalmente (apenas no caso de receberem recursos do
Estado para pagamento de pessoal e custeio em geral), entre outros.
Então, na verdade, o regime jurídico das sociedades de economia mista (e
também das empresas públicas), ou seja, o complexo normativo que regula a atuação
da entidade, seria misto (ou híbrido): predominantemente de direito privado,
derrogado, porém, por normas de direito público, em situações específicas.
Lembramos que uma das diferenças entre as empresas públicas e as sociedades
de economia mista reside justamente na composição no capital: no caso das empresas
públicas, o mesmo deverá ser exclusivamente público e, em se tratando de sociedades
de economia mista, admite-se a participação do capital privado, porém a maioria das
ações com direito a voto deve permanecer em poder do Estado. Por esse motivo, está
errada a opção “D”.

Questão 50
O ato administrativo, – para cuja prática a Administração desfruta de uma certa
margem de liberdade, porque exige do administrador, por força da maneira como a lei
regulou a matéria, que sofresse as circunstâncias concretas do caso, de tal modo a ser
inevitável uma apreciação subjetiva sua, quanto à melhor maneira de proceder, para
dar correto atendimento à finalidade legal, – classifica-se como sendo
a) complexo.
b) de império.
c) de gestão.
d) discricionário.
e) vinculado.

Gabarito: alternativa “D”

Questão tradicionalmente abordada em concursos públicos, e relativamente


fácil, bastando ao candidato conhecer a doutrina acerca da classificação dos atos
administrativos. Transcrevemos abaixo a classificação dos atos administrativos
segundo Hely Lopes Meirelles, para os tipos elencados na questão:

Atos Complexos – São os que se formam pela conjugação de vontades de mais de um


órgão administrativo. O essencial, nessa categoria de atos, é o concurso de vontades
de órgãos diferentes para a formação de um ato único.

Atos de Império – São todos aqueles que a Administração pratica usando de sua
supremacia sobre o administrado ou servidor e lhes impõe obrigatório atendimento.
Tais atos podem ser gerais ou individuais, internos ou externos, mas sempre
unilaterais, expressando a vontade onipotente do Estado e seu poder de coerção.

Atos de Gestão – São os que a Administração pratica sem usar de sua supremacia
sobre os destinatários. Tal ocorre nos atos puramente de administração dos bens e
serviços públicos e nos negociais com os particulares, que não exigem coerção sobre
os interessados.

Atos Discricionários – São os que a Administração pode praticar com liberdade na


escolha de seu conteúdo, de seu destinatário, de sua conveniência, de sua
oportunidade e do modo de sua realização. A discricionariedade está em permitir o
legislador que a autoridade administrativa escolha, entre as várias possibilidades de
solução, aquela que melhor corresponda, no caso concreto, ao desejo da lei.

Atos Vinculados – São aqueles para os quais a lei estabelece os requisitos e condições
de sua realização. Nessa categoria de atos, as imposições legais absorvem, quase que
por completo, a liberdade do administrador, uma vez que sua ação fica adstrita aos
pressupostos estabelecidos pela norma legal para a validade da atividade
administrativa. Desatendido qualquer requisito, compromete-se a eficácia do ato
praticado, tornando-se passível de anulação pela própria Administração, ou pelo
Judiciário, se assim requerer o interessado.
Assim, temos que o tipo de ato descrito no enunciado da questão corresponde
ao conceito de ato discricionário. A discricionariedade administrativa fundamenta-se na
impossibilidade de a lei regular completamente todas as hipóteses concretas em que
se faria necessária a atuação do administrador. Seria, então, a ferramenta jurídica
entregue ao agente para a satisfação do interesse coletivo, conforme as necessidades
de cada momento.

Um grande abraço, e até a próxima!

Henrique Cantarino

www.editoraferreira.com.br