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MANIFESTO DO CAMINHO

Sempre que viajo, aqui nas horas passadas em um avião, tenho


uma oportunidade única de ver minhas idéias em perspectiva. Talvez seja um efeito do
fato de não ter o que fazer com as situações deixadas atrás, talvez seja efeito do
relaxamento, ou então um efeito colateral da pressurização da cabine (ou quem sabe
da altitude que me coloca mais perto do céu). O fato é que este é um dos lugares onde
mais encontro minha agenda de coração, faço planos e vejo o próximo passo. Gosto
das solidão coletiva dos vôos, onde posso me encontrar privadamente comigo.
Estou pensando na missão, aliás esta palavra tão cheia de
significados de cima pra baixo e de salvacionismos e de arrogância, no que fazer com
a vocação e como explicitar o que vem pela frente de modo a convidar os
companheiros de caminhada e ao mesmo tempo não desiludir os que com ela não
estejam conectados ou interessados.
Até quando as pedras deverão clamar?Até quando as vozes a
se levantarem sobre as questões que tocam o coração de Deus serão mais as que
estão fora que as que estão dentro da igreja? Até onde iremos aceitar conviver com os
exageros hilariantes, as escolhas exóticas e o sem-sentido religioso que se chama
cristandade?
Uma massa persistente de seguidores de Jesus luta na
tentativa de se equilibrar entre uma religiosidade formal, e com a qual não se sente
confortável nem sente ser sua representante, e o desejo sincero de não cair na
mundanidade, na loucura da sociedade ou no vazio existencial?
Para tais pessoas o mercado cristão, de produtos nas lojas e de
mídia exótica lhes mata de vergonha e o consumo sem sentido é uma agressão. A
escolha entre o barulho e o exotismo do cristianismo evangélico e a arrogância e o
achismo do secularismo não é uma opção a ser feita, entre o eixo X e o eixo Y, seus
corações clamam por uma alternativa no eixo Z.
Em um mundo levado a sério demais e com coisas importantes
em excesso, a possibilidade de ser inocentemente tolo e conscientemente idiota pode
ser uma verdadeira alternativa. Como diz meu amigo Shane:”Em um mundo de
bombas inteligentes, talvez o que a humanidade precise é um pouco mais de bobos e
palhaços”.
Nas muitas discussões que tive ao longo de minha vida,
consigo encontrar um termo me perseguindo desde a minha meninice: RADICAL. Mas
confesso, e quero confessar isto antes que eu esteja velho demais, que as muitas
lutas e confusões e o medo de solidão me fizeram negociar demais. Tentei de tudo
para andar no meio e viver em paz. Arrependo-me dessa tentativa a qual sempre
administrei muito mal, seja com prejuízo pessoal, seja prejudicando sem querer os
outros, inclusive a quem amo.
Não sirvo para o meio, e sinto que talvez alguns outros também
se sintam em igual situação e por vezes acabem abandonando a luta. Ao me encontrar
com os amigos pelo mundo afora, sinto que ser radical é tudo o que Jesus pede de
mim, e de nós seus seguidores. Mas não o radicalismo famoso, mas o radicalismo
comum e anônimo de muitos de meus heróis. Tentei ser normal, mas estou
convencido que o que Jesus quer de mim não é a normalidade, mas apenas que seja
comum e ordinário. Ser cristão se tornou coisa normal na exata medida em que a
igreja se espalha e assume o mundo e seus valores e se torna mais uma de seus
representantes.
Por isso me manifesto em ser radical, ainda que comum e
incompleto na medida em que faço esta jornada a partir de minhas incoerências,
inconsistências, e incompetências pessoais. Mas não deixando que elas me impeçam
de assumir de vez o chamado radical. Ouvidos radicais são afiados para ouvir a voz
de Deus em meio a um mundo cheio de vozes ( e de jeitos de igreja).
Como radical devo afirmar não somente que um outro mundo é
possível, mas como disse Arundhati Roy no forum social mundial no Brasil: “É possível
e está a caminho” desde a eternidade, “e se pode ouvir seu respirar em uma manhã
de silêncio.”
Evangelho foi uma palavra usada primeiro pelo imperador
augusto, no ano 6 AC, como a boa notícia de que havia um salvador: ELE. Os
primeiros evangelistas anunciaram um outro evangelho, um outro Rei e conspiraram
por um novo Reino. Em um mundo hegemônico e monolítico este é meu convite:
Conspirar pela subversão de uma ordem injusta, suja, pecaminosa, artisticamente feia,
emporcalhada e duvidosa, ambientalmente irresponsável, humanamente egoísta e
politicamente retrograda. Ao anunciar um outro mundo que é possível, convido não
somente àqueles que queiram prevê-lo e prevenir o mundo, mas acima de tudo mudá-
lo e antecipá-lo a partir do questionamento de seu próprio estilo de vida pessoal.
Convido a se juntar a nós, todos os que queiram parar de reclamar do que a igreja se
tornou e pagarem o preço de se tornarem a igreja com a qual sonham.
E sinceramente, se alguém pensa que eu estou falando de um
grande movimento, de encontrar um espaço de mover estrondoso, não responda ao
chamado. Em um mundo que perdeu sua apreciação por coisas pequenas, que quer
coisas sempre maiores e que age missionariamente pelo convencimento. Meu convite
é por admirar as relações de convivência, os espaços de encontro, o anonimato e a
persuasão pelo exemplo que leva mais a me preocupar com a minha incoerência e
necessidade de mudança que a dos outros.
Re-imaginar o mundo é possível, questionando o consumo, o
individualismo, o descaso ambiental, o estilo de vida burguês, a propriedade de mais e
mais coisas, o uso do tempo, a pouca dedicação ao estudo de Deus e não aceitando
qualquer prato-feito de teologia de segunda mão. Antes que eu fique velho eu quero
parar de me enrolar e caminhar de acordo com meu Senhor.
Vou caminhar... e caminhando espero encontrar os lugares que
ele pise para neles também pisar. Ao invés de ensinar, quero aprender. E
sinceramente proclamar que um outro mundo é possível.
Pode ser que eu acabe só, mas este é meu convite: TENTAR
SER A IGREJA QUE SONHAMOS AO TENTAR SONHAR O SONHO DE DEUS.
Vivendo a utopia que proclama a esperança e a emancipação de todo homem e
mulher, até que a utopia nos encontre em algum ponto do caminho. Meu convite é
especialmente feito àqueles que se sentem sofrendo de sobre-exposição à igreja, se
sentindo por vezes sub-expostos a Jesus, e mesmo assim ainda vendo nele o grande
amor de suas vidas, desencantados com a igreja mas fascinados por Jesus.
Eu faço este convite a todos que desejem parar de reclamar da
igreja que vêem, parar de dizer como a igreja deveria ser, e que se disponham à
coragem de serem a igreja que é possível ser, e que se prepara para ser o mais bonita
possível enquanto espera pelo dia do encontro definitivo com o seu amado noivo,
Jesus.
Assim me manifesto, e se é seu desejo assim conspirar e
subverter a ordem da coisas, afirmando por vida, atos e palavras que UM OUTRO
MUNDO É POSSÍVEL, na maneira de consumir, de comprar e vender, de casar e ter
filhos, de se relacionar com a carreira e a vocação, com o tempo e com o dinheiro,
benvindo à jornada. Se não, ore por quem assim se decidir.
Estamos abertos a conversar sobre isso, entre em contato e
vejamos onde isso vai dar, pois se não sabemos direito onde é, isto se deve a crermos
que “é caminhando que eu, chegarei lá” e que o caminho se faz enquanto se anda.
Com amor e Esperança
Claudio Oliver