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REVISTA VEJA – edição 2020 – 8 de agosto de 2007

O Movimento dos Sem-Bolsa

"Um grito de protesto da classe média é ilegítimo? É ela hoje o verdadeiro 'negro' do
Brasil. Ninguém a protege: estado, ONG, igrejas, nada... Corajosa, sem líder, sozinha,
sem tucano, vaiou no Rio, vaiou em São Paulo, quer vaiar no Brasil inteiro”.

Fernando Pilatos/Gazeta Press/AE

Lula, ao lado do governador Sérgio Cabral,


durante a vaia no Maracanã: a oposição se faz
de surda.

Quem tem boca vaia Lula. A frase é lema e divisa de um bom número de
inconformados. Os apupos explodiram primeiro no Maracanã, na abertura dos Jogos
Pan-Americanos. O presidente estava lá. Foram reiterados na cerimônia de
encerramento, da qual ele se manteve a uma prudente distância. Em São Paulo, milhares
de pessoas enfrentaram o frio numa passeata, unidas pela palavra "Cansei". As 75 000
vozes do 13 de Julho, no estádio carioca, eram um protesto e uma premonição: quatro
dias depois, 199 corpos assariam na pira macabra da desídia. Não sei quem se
surpreendeu mais com o coro dos descontentes: o próprio Lula, acostumado aos
paparicos de seus bolsistas, ou as oposições, em especial o PSDB, cujos líderes trocam
bicadas para ter o discutível privilégio de ser o preferido do Estimado Líder.

Surpresa? Vaias e passeata nada têm de inexplicável. Lula obteve o segundo mandato
com 58 milhões de votos – e isso significa que 66 milhões de eleitores não o
escolheram. Lanço aqui uma sombra de ilegitimidade sobre o seu mandato? Não – até
porque acho o voto obrigatório indecente. Relevo é o fato de que o petista está longe de
ser uma unanimidade. A exemplo do que se viu no primeiro mandato, as dificuldades
políticas que ele enfrenta, no entanto, são obra de seus próprios aliados e de sua
administração, jamais dos adversários. E por quê? Porque o Brasil esqueceu – e esta é
uma tarefa das oposições – como se faz política sem crise econômica.

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Desde a redemocratização, é a tal crise, ou a ameaça dela, que pauta o debate. Ela tem
sido o elemento redutor de todas as divergências e demandas. Ora, catorze anos de
aposta na estabilidade, já caminhando para quinze, expulsaram esse fantasma. Em
algum lugar, é certo, ele se esconde. Mas isso é verdade para qualquer país – a
prosperidade perpétua é uma utopia. Ocorre que não adianta mais anunciar nem o
apocalipse nem a redenção. Quem quiser tomar a cadeira do PT vai ter de redescobrir a
política, que pauta os debates e divide opiniões nas outras democracias.

Antes que prossiga na trilha do primeiro parágrafo, permitam-me uma digressão. A Al


Qaeda eletrônica do petismo e os colunistas que jamais dizem "Epa!" apressam-se em
abraçar duas explicações distintas, mas combinadas, para os protestos: 1) partem da
classe média branca e incluída; 2) são manifestações manipuladas por golpistas. Os
petistas estão indecisos, como se vê, entre o arranca-rabo de classes e a teoria
conspiratória. Os terroristas cibernéticos – células dormentes da esquerdopatia
despertadas para defender o chefe – atuam para tirar dos ombros de Lula a
responsabilidade por seu próprio governo.

Ainda que estivessem certos, pergunto: um grito de protesto da classe média é


ilegítimo? É ela hoje o verdadeiro "negro" do Brasil: paga impostos abusivos; não
utiliza um miserável serviço do estado, sendo obrigada a arcar com os custos de saúde,
educação e segurança; tem perdido progressivamente a capacidade de consumo e de
poupança; é o esteio das políticas ditas sociais do governo, e, por que não lembrar?,
ninguém a protege: estado, ONG, igrejas, nada... Está entregue a si mesma: nas escolas,
nas ruas, nos campos, nos aeroportos. Pior: está proibida até de velar os seus mortos.
Quando um classe-média morre de bala perdida ou assado num avião, o protesto é logo
abafado pela tese delinqüente de algum cientista social ou jornalista que acusa a gritaria
dos incluídos. Lula foi vaiado no Maracanã porque era o nhonhô na senzala dos
escravos do seu regime.

Começo aqui a juntar o fio da minha digressão com aquele que está lá no início do
texto. É possível, sim, que houvesse no Maracanã e nas ruas de São Paulo uma maioria
de pessoas da classe média. São os espoliados do regime lulista, mas também homens
livres porque não dependentes da caridade estatal, da papa servida na senzala ou na
casa-grande. Eu lhes apresento o MSB: o Movimento dos Sem-Bolsa. Não são nem os
peixes grandes, que se alimentam da Bolsa-BNDES, nem os peixes pequenos, que
vivem do Bolsa Família. A classe média, coitadinha, se financia é nos bancos mesmo,
sem taxa camarada.

Corajosa, sem líder, sozinha, sem tucano, vaiou no Rio, vaiou em São Paulo, quer vaiar
no Brasil inteiro. Os oposicionistas estão se fazendo de surdos. Se é para levar alguns
espertalhões para o Conselho de Ética, deixam a tarefa para o PSOL. O governo debate
a ampliação do aborto legal e chega a adotar um método abortivo, contra a
Constituição? Eles ignoram. Lula veta uma emenda da Super-Receita e pode provocar
um desastre nas microempresas de serviços? Quatro milhões de pessoas ficam ao
relento, sem apoio. Um grupinho de aloprados resolve recriar a censura prévia no país?
Não se ouve uma voz graduada em sinal de protesto. A crise nos aeroportos mata? A
reação é não mais do que burocrática. Debate-se a possibilidade de as Forças Armadas
agirem no combate ao crime, em vez de ficar internadas, engraxando baionetas
enferrujadas? Os líderes da oposição, especialmente tucanos, nada têm a dizer. O país
cobra a maioridade penal aos 16 anos? Eles esperam passar o clamor.

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O austríaco Sigmund Freud (1856-1939), pai da psicanálise, perguntou, certa feita, sem
chegar a uma resposta definitiva: "Mas, afinal, o que querem as mulheres?". Serei o
barbudo de charuto do PSDB e do DEM: "Mas, afinal, o que querem as oposições?".
Admito que elas não formem um grupo homogêneo, o que as impede, sei bem, de
desejar uma única coisa. Se as mulheres vistas por Freud demonstravam uma inquietude
sem alvo ou ainda sem objeto definido (ao menos para ele), as oposições padecem é de
excessiva quietude e condescendência com o lulismo. E gostam de se comportar como a
mulher do padre: deixam que o petista defina a sua identidade e só exercem o papel que
Lula lhes outorga.

Assim, vai-se fazendo uma política que se manifesta como negação da política: líderes
oposicionistas, especialmente os governadores, estão sempre ocupados em negar que tal
ou qual ação seja contra o governo federal – como se fosse um ato criminoso opor-se a
ele. Cria-se uma cisão, que é pura especulação teórica, sem base empírica, entre
"administrar" e "fazer política". E qual é o marcador dessa falsa disjunção? A economia.
Como não se vislumbra a possibilidade de uma crise nos três ou quatro anos vindouros,
os oposicionistas, sobretudo tucanos, parecem ambicionar apresentar-se como a resposta
necessária para os desafios do pós-Lula – mas de braços dados com o lulismo.

Há nessa pretensão uma formidável ilusão, que consiste em supor que se possa ter um
lulismo sem Lula; que se possa apenas dar mais eficiência à economia, mas preservando
os fundamentos do estado patrão, assistencialista, gigante e reparador. As oposições
refugam todas as chances que apareceram de ter uma agenda própria e de falar àquela
gente do Maracanã e dos aeroportos. Gente capaz de, resistindo à gigantesca máquina
oficial de culto à personalidade, vaiar Lula. Os que deveriam liderar a resistência
tornam-se caudatários e até propagandistas do assistencialismo, tentando emular com
aquele que deveria ser o seu antípoda. E eu lhes digo: inexiste um lulismo virtuoso,
universitário, de barba feita e gramática no lugar. Inexiste o lulismo sem Lula.

Sim, a vaia do Maracanã era um protesto e uma premonição; expressava um juízo sobre
o passado e traduzia uma expectativa, macabramente cumprida. O Maracanã e o
movimento "Cansei" não são o Brasil, sei bem. Mas são bastante representativos da
parcela que não tem nem Bolsa Família nem Bolsa BNDES. Um Brasil que, pasmem!, é
a imensa maioria. Falta que se tenha essa clareza. A crise política que aí está é uma crise
de liderança das oposições. Ou alguém se apresenta ou já pode ir-se preparando para
entrar também na fila da vaia.

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