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POLLYANNA PRISCILA VENANCIO DE OLIVEIRA BULLYING : UM PROGNÓSTICO Assis-SP 2011

POLLYANNA PRISCILA VENANCIO DE OLIVEIRA

BULLYING: UM PROGNÓSTICO

Assis-SP

2011

POLLYANNA PRISCILA VENANCIO DE OLIVEIRA

BULLYING: UM PROGNÓSTICO

Trabalho de conclusão de curso apresentado ao Instituto Municipal de Ensino Superior de Assis, como requisito do curso de Licenciatura Plena em Matemática, analisado pela seguinte comissão examinadora:

Orientadora: Professora Mestre Maria Beatriz Alonso do Nascimento Analisadora: Professora Mestre Leonor Farcic Fic Menk

ASSIS

2011

FICHA CATALOGRÁFICA

OLIVEIRA, Pollyanna Priscila Venancio Bullying: um prognóstico. / Pollyanna Priscila Venancio de Oliveira. Fundação Educacional do Município de Assis FEMA Assis, 2011. 71 p. Orientadora: Maria Beatriz Alonso do Nascimento Trabalho de Conclusão de Curso Instituto Municipal de Ensino Superior de Assis

IMESA

1. Bullying. 2. Violência Escolar.

CDD: 510 Biblioteca da FEMA

BULLYING: UM PROGNÓSTICO

POLLYANNA PRISCILA VENANCIO DE OLIVEIRA

Trabalho de conclusão de curso apresentado ao Instituto Municipal de Ensino Superior de Assis, como requisito do curso de Licenciatura Plena em Matemática, analisado pela seguinte comissão examinadora:

Orientadora: Professora Mestre Maria Beatriz Alonso do Nascimento Analisadora: Professora Mestre Leonor Farcic Fic Menk

ASSIS

2011

DEDICATÓRIA

Dedico este trabalho aos meus queridos pais Célio José de Oliveira e Roseli Venancio por todo o apoio e afeto durante o meu processo de formação.

AGRADECIMENTOS

Primeiramente, ao meu querido e amado noivo, companheiro de todos os momentos, Eduardo Zanotti, pela compreensão e amor.

À professora e orientadora Maria Beatriz Alonso do Nascimento, que com atenção, dedicação e paciência, incentivou o presente trabalho.

Aos professores que contribuíram para minha formação acadêmica: Alberto Luiz Pereira da Costa; Caroline Andressa da Silva Esquerdo; Cleiton Joni Benetti Lattari; Ébano Bortotti de Oliveira; Fernando Graciliano de Brito; José Carlos Cavassini; Leonor Farcic Fic Menk; Luiz Carlos Begosso; Márcia Valéria Seródio Carbone; Rafael Falco Pereira; Sandra Regina Gregório Oliveira e Sarah Rabelo de Souza.

A todos os meus colegas de sala, de quem certamente sentirei saudades, pelos momentos de descontração e estudo. Aos que se tornaram amigos, levá-los-ei comigo para sempre.

Aos meus amados e sempre presentes irmãos Silas e Lucas; e também a João Marcos, que, mesmo estando longe, incentivou os meus estudos.

Aos meus empregadores e amigos Helinton Beline Júnior e Rodrigo Antonio Beline, os quais nunca se importaram pelos livros e cadernos espalhados pela minha mesa. Por fim, com todo meu coração, agradeço a Deus, por sua luz e sabedoria.

Bons alunos aprendem a matemática numérica, alunos fascinantes vão além, aprendem a matemática da emoção, que não tem conta exata e que rompe a regra da lógica. Nessa matemática você só aprende a multiplicar quando aprende a dividir, só consegue ganhar quando aprende a perder, só consegue receber, quando aprende a se doar.

Augusto Cury

RESUMO

O presente trabalho pretende focar o fenômeno bullying de maneira clara e objetiva, definindo conceitos para sua identificação e sugerindo estratégias para o combate desta problemática que vem crescendo exponencialmente nos últimos anos. Para este estudo teórico, reuniu-se uma variedade de pesquisas acerca do bullying e, a partir delas, verificou-se como tal violência pode prejudicar não só a vida acadêmica dos alunos como também suas vidas em particular. As consequências do comportamento violento entre os alunos refletem-se em todos os envolvidos, desde os expectadores até os autores do abuso e, principalmente, as vítimas. A violência está presente no dia-a-dia, entretanto quando ocorrida dentro do ambiente escolar, cabe à coordenação pedagógica, bem como aos professores e diretores serem aliados dos pais, comunidade e dos próprios alunos para combaterem o bullying, que é uma das formas de violência mais comuns e antigas presentes nas instituições de ensino. Para tanto, este trabalho contribui com toda informação e conhecimento teórico necessários para pais e professores enfrentarem o fenômeno e estabelecerem estratégias para um efetivo combate e prevenção.

Palavras-Chave: Bullying; violência escolar.

ABSTRACT

The present paper intends to focus the phenomenon of bullying in a clear and objective way, defining the concepts for its identification and suggesting strategies to fight this problem that is growing exponentially in the last few years. For this theoretical study, it was gathered a variety of researches concerning to the bullying and, starting from them, it was verified that such violence can harm not only the students’ academic life as well as their private lives. The consequences of the violent bahavior among the students are reflected in all the involved students, from the spectator to the authors of the abuse and, mainly, the victims. The violence is present day by day, however when it happens inside of the school environment, it is due to the pedagogic coordination, as well as to the teachers and directors to be allied with the parents, community and of the own students to fight the bullying, that is one of the ways of more common violence and the oldest one present in the teaching institutions. For this reason, this paper has contributed with every information and necessary theoretical knowledge to the parents and teachers to face the phenomenon and establishing strategies for an effective fight and the prevention of it.

Word-key: Bullying; school violence.

LISTA DE TABELAS

Tabela 1- Frequência dos maus tratos no ano de 2009 ............................................21 Tabela 2 - Sentimentos provocados pelos maus tratos por sexo da vítima ..............22 Tabela 3 - Reações aos maus tratos no ambiente escolar........................................22 Tabela 4 - Consequências dos maus tratos para as vítimas .....................................23 Tabela 5 - Consequências dos maus tratos para os agressores ..............................24

SUMÁRIO

  • 1. INTRODUÇÃO....................................................................................12

  • 2. O FENÔMENO BULLYING................................................................14

    • 2.1 CONCEITOS ...........................................................................................16

    • 2.2 TIPOS DE BULLYING..............................................................................21

      • 3. RETRATO BRASILEIRO ...................................................................25

        • 3.1 PESQUISAS APLICADAS PELO TERRITÓRIO BRASILEIRO .................25

        • 3.2 TRAGÉDIAS BRASILEIRAS CAUSADAS PELO BULLYING ...................34

          • 4. AS CONSEQUÊNCIAS CAUSADAS PELO BULLYING...................37

            • 4.1 CONSEQUÊNCIAS SOCIAIS, FÍSICAS E PSICOLÓGICAS....................37

              • 5. MEDIDAS DE COMBATE AO BULLYING.........................................48

                • 5.1 A FUNÇÃO DA FAMÍLIA ..........................................................................49

                • 5.2 A FUNÇÃO DA ESCOLA

52 ...........................................................................

  • 5.3 PROGRAMAS DE PREVENÇÃO E COMBATE

........................................

56

  • 6. CONSIDERAÇÕES FINAIS................................................................65

REFERÊNCIAS......................................................................................67

1. INTRODUÇÃO

Hodiernamente, a violência, cuja manifestação ocorre das mais variadas formas e em diversos lugares, vem crescendo de forma alarmante em todos os grupos sociais. Através dos noticiários, observamos que o mundo está mais violento, com frequentes atrocidades que, na maioria das vezes, acontecem sem razões ou justificativas. A humanidade nunca esteve tão enfraquecida psicologicamente, rica de incertezas e tensões, pobre de valores éticos e solidários.

Na sociedade escolar, lamentavelmente, a situação não é diferente. Trata-se de crianças e adolescentes com suas personalidades ainda em formação, transitando por um período emocionalmente instável, tendo que conviver diariamente com a violência, que se manifesta explicitamente ou sutilmente camuflada nas salas de aula.

A escola tem o dever de proporcionar um lugar seguro a seus alunos para que sejam socializados e respeitem as diferenças. Já o papel do professor é educar o aluno e prepará-lo para ser um cidadão de bem, torná-lo apto para a vida adulta, fazê-lo assumir responsabilidades. Mas como ensinar e orientar se a violência está por toda parte? Temos visto casos nos quais professores, em pleno exercício de sua profissão, estão sendo agredidos por seus alunos e vice-versa. A escola, assim, tornou-se um local onde tudo pode acontecer e, se professores e diretores não estiverem devidamente capacitados, uma aprendizagem eficaz estará longe de ser alcançada.

No presente trabalho, por meio de variados estudos, pretende-se mostrar os danos causados ao adolescente devido à violência sofrida durante sua formação educacional, evidenciando como este tipo de violência pode prejudicar seu desempenho escolar. Apresentamos algumas sugestões sobre quais atitudes a escola, a família e a comunidade na qual a instituição está inserida devem adotar para combater a violência, não permitindo que o aproveitamento e o desempenho escolar sejam comprometidos de forma a ocorrer a evasão escolar.

Dentre os tipos de violência que podem ocorrer no ambiente escolar, neste trabalho abordaremos um dos mais presentes no contexto escolar: o Bullying, fato bastante

pesquisado e debatido atualmente. Trata-se de um conjunto de atitudes de violência física e/ou psicológica, de caráter intencional e repetitivo, praticado por um agressor contra uma ou mais vítimas que se encontram impossibilitadas de se defender.

A terminologia é adotada por professores, em vários países, a fim de definir o uso de apelidos maldosos e toda forma de atos desumanos designados a usar-se de superioridade física e moral para intimidar, tiranizar, amedrontar e principalmente humilhar outra pessoa. O bullying é um fenômeno complexo, exige estudo e observação atenta dos educadores envolvidos nestas situações.

No capítulo dois do presente trabalho, conceituamos o fenômeno bullying e

apresentamos suas primeiras constatações no início dos anos oitenta devido ao grande aumento da violência no âmbito escolar. Prosseguimos definindo cada personagem envolvido (vítima, testemunha e agressor), caracterizando-os de forma a facilitar a identificação destes pelos pais e professores. Definimos o bullying direto e indireto, além de apresentar uma faceta surgida nos últimos anos, conhecida como

cyberbullying.

O terceiro capítulo foi destinado a retratar todo o contexto brasileiro envolvendo a problemática bullying, expusemos diversas pesquisas realizadas por educadores no Brasil. Ainda no capítulo três, apresentamos um breve resumo das tragédias ocorridas no Brasil nos últimos anos em decorrência do bullying, histórias tristes que comoveram o país e alertaram sobre a gravidade do problema.

No capítulo quatro, listamos os principais danos (sociais, físicos e psíquicos) que o indivíduo pode sofrer em decorrência do bullying e, além disso, apresentamos os principais sintomas de cada um dos transtornos e suas possíveis complicações.

No quinto capítulo, sugerimos diversas medidas de combate ao fenômeno bullying, além de relatar alguns programas antibullying, que foram criados com o propósito de contribuir para o enfrentamento dessa violência dentro das escolas. Esclarecemos como os pais, a escola, os professores e a comunidade em geral podem colaborar para a resolução de tal problema, pois todos têm sua parcela de responsabilidade neste processo e quanto maior a força reunida no combate, maior efetividade e sucesso ele terá.

2. O FENÔMENO BULLYING

Bullying é uma palavra de origem inglesa utilizada por vários países como definição do desejo consciente e deliberado de maltratar uma pessoa e colocá-la sob tensão. Bully, em sua tradução, significa tiranizar, amedrontar, brutalizar, oprimir e o substantivo bullying compreende todas as atitudes agressivas, intencionais e repetitivas que ocorrem sem motivação evidente, adotadas por um ou mais indivíduos (Bulies) com a finalidade de agredir outro(s) indivíduo(s) fisicamente e/ou psicologicamente (FANTE, 2008, p.34).

No Brasil e na maioria dos países, adota-se esta mesma nomenclatura por falta de um termo correspondente que seja capaz de refletir as especificidades já associadas ao termo inglês, tão divulgado pela mídia atualmente. Contudo, existem alguns países que utilizam termos de sua língua sem que se perca o sentido original. Na Noruega e na Dinamarca, é usado mobbing; na Suécia e na Finlândia, mobbning; já na França hercèlement quotidien; prepotenza ou bulismo na Itália; yjime no Japão; na Alemanha, Agression unter Shulern; acoso, amenaza ou intimidación na Espanha. (FANTE, 2008, p.34-35)

Apesar do fenômeno bullying estar presente nas escolas desde a concepção das mesmas, os estudos foram intensificados em 1970 na Suécia e na Dinamarca, entretanto sem muito efeito. Em 1982, ocorreu uma tragédia no norte da Noruega:

três adolescentes cometeram suicídio. Algumas investigações apontaram que a principal causa eram as situações de maus-tratos a que os jovens foram submetidos por colegas de escola. Com isso, o Ministério da Educação da Noruega iniciou uma campanha de combate efetivo ao bullying escolar (SILVA, 2010, p. 111).

No ano de 1983, os estudos começaram a evoluir e o principal responsável foi o pesquisador norueguês Dan Olweus, da Universidade de Bergen, que iniciou uma pesquisa reunindo aproximadamente 84 mil estudantes, quatrocentos professores e mil pais de alunos. A finalidade era avaliar as taxas de ocorrências e as formas como o bullying se apresentava na vida escolar dos adolescentes. (SILVA, 2010,

p.111)

O resultado de tal estudo foi alarmante: um em cada sete alunos encontrava-se envolvido, de alguma forma, em casos de bullying, seja como vítima ou agressor. Em razão disso, a sociedade civil mobilizou-se e, com o apoio do governo norueguês, deu origem à campanha nacional antibullying. A consequência dessa iniciativa foi a queda de 50% dos casos de bullying registrados em todo país. (IDEM,

p.112).

Devido a esse resultado tão preocupante, muitos países passaram a discutir esta prática de violência e a identificaram em seus contextos sociais. Já no Brasil, o assunto passou a ser divulgado e pesquisado no final da década de 1990.

A caracterização do fenômeno bullying pode ser feita pela síntese apresentada por CATINI (2004, p. 3) em resumo dos conceitos apresentado por Olweus:

  • a) Envolve um comportamento agressivo com intenção de causar dano. Assim, provocações e caçoadas presentes nas interações diárias entre pares na escola feitas, muitas vezes, por amigo brincalhão, não constituem Bullying”. Porém, este se configura quando a provocação é repetida e tem um caráter degradante e ofensivo. Quando é mantida apesar da emissão de sinais claros de oposição e desagrado por parte do alvo.

  • b) É emitido repetidamente e durante um tempo, sendo excluídas de sua definição as ações negativas ocasionais. Ser um agressor ou uma vítima é algo que pode durar por um longo tempo, frequentemente por vários anos.

  • c) Constitui-se num relacionamento interpessoal caracterizado por um desequilíbrio de forças, que pode ocorrer de várias maneiras: o alvo da agressão pode ser fisicamente mais fraco, pode simplesmente perceber-se como física ou mentalmente mais fraco que o perpetrador ou pode existir uma diferença numérica, com vários estudantes agindo contra uma única vítima. Também pode ocorrer uma classe diferente de desequilíbrio quando a fonte de ações negativas é de difícil identificação, como no caso de exclusão social de um grupo, ou quando um estudante é alvo de bilhetes anônimos ou de comentários feitos por trás.

Dan Olweus propôs em seu programa de combate ao bullying (apud FANTE, 2005, p.45) regras explícitas, nas quais pais e professores assumem papel ativo e importantíssimo para a conscientização do problema a fim de eliminá-lo, oferecendo amparo e proteção às vítimas.

Felizmente, as pesquisas relacionadas à problemática bullying cresceram por todo mundo nos últimos cinco anos, quando a sociedade deu-se conta de um fenômeno tão grave após as tragédias noticiadas pelos meios de comunicação.

O bullying escolar é muito mais que uma mera brincadeira típica da idade, como ainda muitos acreditam, é um ato de crueldade presente em escolas de todos os países, onde os mais fortes transformam os mais fracos em objetos de diversão, causando dor e sofrimento, originando problemas físicos e psicológicos imensuráveis para as vítimas.

2.1 CONCEITOS

O bullying pode manifestar-se de diversas maneiras, classificando-se em:

- Bullying direto - atitudes de violência mais frequentes, comum entre meninos, resume-se nos xingamentos, insultos, ofensas, apelidos pejorativos, todas as formas de violência física, como bater, chutar, espancar, ferir, abusar, violentar, assediar, etc.(CHALITA, 2008, p.82)

- Bullying indireto - ações que levam a vítima ao isolamento social, mais corriqueiro entre meninas e crianças menores, são difamações, intrigas, fofocas, boatos cruéis, perseguições, chantagens, humilhações, etc., afeta principalmente o psicológico da vítima, causando danos irreversíveis. (CHALITA, 2008, p. 83)

Nesse contexto, faz-se necessária a identificação dos personagens envolvidos no bullying, todavia, deve-se ter o cuidado para não fazer um diagnóstico errôneo, o qual pode comprometer todo o processo de tratamento. Sendo assim, identificaremos as principais características dos participantes dessa violência.

Podemos classificá-los em agressores (bulies), vítimas, vítimas-agressoras, vítimas provocadoras e espectadores ou testemunhas.

As vítimas típicas são aqueles alunos normalmente pouco sociáveis, retraídos, inseguros e de baixa-estima, que não conseguem reagir aos ataques provocadores e agressivos dirigidos a eles. Na maioria das vezes, apresentam-se fisicamente

frágeis ou possuem algum atributo físico que os diferencia dos demais alunos. Muito comum em indivíduos que têm a aparência fora do padrão de beleza aceito pelo grupo, como por exemplo, os obesos, os muito baixos. Também são perseguidos os deficientes, aqueles que se vestem de forma diferenciada, os que são de raças, consideradas pelo grupo, como inferiores, que têm orientação sexual ou crença que não sejam compatíveis com as do agressor. Em muitos casos, a vítima melhor se relaciona com pessoas adultas do que com seus companheiros. (FANTE, 2005,

p.72)

Por não conseguirem impor-se ao grupo, essas pessoas tornam-se alvos fáceis para todo tipo de crueldade. Elas se retraem de tal maneira que em muitos casos chegam a pensar serem merecedoras das humilhações e não pedem ajuda por medo de retaliações piores. (SILVA, 2010, p. 38)

As vítimas-agressoras são aquelas que sofrem os ataques, porém revidam e cometem atos violentos contra quem provocou ou contra outra vítima que seja mais frágil que ela, formando, assim, um círculo vicioso. Essa convergência tem-se destacado dentre as vítimas e se alastrado, de forma a aumentar o número de vítimas.

Já a vítima provocadora não consegue responder aos revides de forma satisfatória e acaba piorando a situação e estimulando ataques posteriores. Assim, ao escolher uma vítima mais vulnerável, ela reproduz todos os maus-tratos sofridos como forma de compensação, o que torna o Bullying um problema de difícil controle. (SILVA, 2010, p.42)

Os agressores são tipicamente populares, autoritários, normalmente mais fortes que seu alvo, sendo agressivos até mesmo com adultos.

SILVA (2010, p.43) afirma que os agressores:

Possuem em sua personalidade traços de desrespeito e maldade e, na maioria das vezes, essas características estão associadas a um perigoso poder de liderança que, em geral, é obtido ou legitimado através da força

física ou de intenso assédio psicológico. O agressor pode agir sozinho ou em grupo. Quando ele está acompanhado de seus “seguidores”, seu poder de “destruição” ganha reforço exponencial, o que amplia seu território de ação e

sua capacidade de produzir mais e novas vítimas.

Os Agressores apresentam, desde muito cedo, aversão as normas, não aceitam serem contrariados ou frustrados, geralmente estão envolvidos em atos de pequenos delitos, como furtos, roubos ou vandalismo, com destruição do patrimônio público ou privado. O desempenho escolar desses jovens costuma ser regular ou deficitário; no entanto, em hipótese alguma, isso configura uma deficiência intelectual ou de aprendizagem por parte deles.

Em muitos dos casos, o agressor vem de um lar desestruturado, onde o afeto não é parte da relação familiar. Os pais ou responsáveis são falhos na supervisão, abrindo brechas para comportamentos inapropriados. Também podem ser exemplos claros de conduta violenta e agressiva, em que o filho que se espelha reflete o comportamento contra seus colegas. (FANTE, 2005, p.73)

O autor do bullying tem sempre uma plateia, os espectadores, os quais não raro agem em conjunto com ela. Necessitam do sentimento de superioridade, de dominar as pessoas, serem os líderes, pois não é comum estes indivíduos, dentro do contexto familiar, sentirem-se rejeitados ou humilhados. Sendo assim, em seu grupo, colocam-se como superiores e usam da fragilidade de suas vítimas.

As testemunhas dão apoio e, com isso, o agressor sente-se fortalecido. Podemos subdividir as testemunhas em três grupos: passivos, ativos e neutros.

O primeiro são dos espectadores que assumem postura passiva por extremo medo de se tornarem vítimas, abominam as atitudes dos bulies, mas se sentem sem forças para combatê-las. Segundo Silva (2010, p. 46), estes indivíduos, quando presenciam

cenas de violências contra seus colegas, “estão propensos a sofrer as

consequências psíquicas, uma vez que suas estruturas psicológicas também são frágeis”, sentem-se culpados, todavia fazem da impotência um consolo, podendo tornar-se adultos omissos e covardes.

Os espectadores ativos geralmente são colegas mais próximos dos agressores e manifestam apoio às atitudes dos bulies, divertem-se com os autores, tornando-se co-autores da violência, já que acreditam que os alunos considerados diferentes mereçam a humilhação que sofrem.

Ainda existem os espectadores neutros, que simplesmente não demonstram sensibilidade pelas cenas de violência que presenciam e por isso não se manifestam a favor ou contra, apenas não se incomodam. Segundo Silva (2010, p. 46) eles “são

acometidos por uma “anestesia emocional”, em função do próprio contexto social no qual estão inseridos”.

Identificar os agressores, as vítimas e os espectadores é de suma importância para que as escolas, pais e professores possam elaborar estratégias para combater efetivamente o bullying e diminuir a violência no ambiente escolar.

O bullying tem como fundamental particularidade a violência oculta, já que a vítima raramente procura ajuda por medo das retaliações e também por se sentir extremamente envergonhada pela humilhação a que é submetida. Assim, a principal dificuldade para os pais e educadores está na identificação dos personagens envolvidos.

Segundo Olweus (apud FANTE, 2005, p.75) em relação às vítimas, os professores devem observar:

  • - Durante o recreio está frequentemente isolado e separado do grupo, ou procura ficar próximo do professor ou de algum adulto?

  • - Na sala de aula, tem dificuldade em falar diante dos demais, mostrando-se inseguro ou ansioso?

  • - Nos jogos em equipe é o último a ser escolhido?

  • - Apresenta-se comumente com aspecto contrariado, triste, deprimido ou aflito?

  • - Apresenta desleixo gradual nas tarefas escolares?

  • - Apresenta ocasionalmente contusões, feridas, cortes, arranhões ou a roupa rasgada, de forma não-natural?

  • - Falta às aulas com certa frequência (absentismo 1 )?

  • - Perde constantemente seus pertences?

Em relação aos agressores, os professores devem averiguar:

  • - Fazem brincadeiras ou gozações, além de rir de modo desdenhoso e hostil?

  • - Colocam apelidos ou chama pelo nome ou sobrenome dos colegas, de forma malsoante; insulta, menospreza, ridiculariza, difama?

  • - Fazem ameaças, dá ordens, domina e subjuga? Incomoda, intimida,

empurra, picha, bate, dá socos, pontapés, beliscões, puxa os cabelos,

envolve-se em discussões e desentendimentos?

  • - Pegam dos outros colegas materiais escolares, dinheiro, lanches e outros pertences, sem o seu consentimento?

1 Absentismo: sm absenteísmo. Ausência premeditada.

FANTE (2005, p. 77) também alerta que os pais devem estar atentos aos sinais de vitimização que o filho pode apresentar:

  • - Apresenta, com frequência, dores de cabeça, pouco apetite, dor de estômago, tonturas, sobretudo de manhã?

  • - Muda o humor de maneira inesperada, apresentando explosões de irritação?

  • - Regressa da escola com as roupas rasgadas ou sujas e com o material danificado?

  • - Apresenta aspecto contrariado, triste, deprimido, aflito ou infeliz?

  • - Apresenta contusões, feridas, cortes, arranhões ou estragos na roupa?

  • - Apresenta desculpas para faltar às aulas?

  • - Raramente possui amigos, ou possui ao menos um amigo para compartilhar seu tempo livre?

  • - Pede dinheiro extra à família ou furta?

  • - Apresenta gastos altos na cantina da escola?

O agressor também merece devida atenção. Consoante a mesma autora (2005, p.77) os indícios podem ser:

  • - Regressa da escola com as roupas amarrotadas e com ar de superioridade?

  • - Apresenta atitude hostil, desafiante e agressiva com os pais e irmãos,

chegando a ponto de atemorizá-los sem levar em conta a idade ou a diferença de força física?

  • - É habilidoso para sair-se bem de “situações difíceis”?

  • - Exterioriza ou tenta exteriorizar sua autoridade sobre alguém?

  • - Porta objetos ou dinheiro sem justificar sua origem?

Quanto aos espectadores, estes não possuem uma característica que possam verdadeiramente marcá-los. Normalmente, são quietos no ambiente familiar e na escola, mas se não apresentam nenhuma característica como agressor e nem como vítima, poderão ser um espectador, levando em consideração que em todo ambiente escolar pode existir comportamento de bullying.

Os autores do bullying nem sempre são de índole verdadeiramente má. Muitos deles, assim como os espectadores, podem ajudar no combate a essa violência, desde que sejam devidamente instruídos e acompanhados.

Faz-se necessária a identificação dos legítimos agressores cruéis, para que uma intervenção mais justa possa ser feita. A psiquiatra Ana Beatriz Barbosa Silva (2010, p.52) lista algumas características que podem ser apresentadas por esses indivíduos:

  • - Mentiras constantes, em diversos ambientes e situações.

  • - Crueldade com animais, irmãos e coleguinhas.

  • - Comportamento desafiador diante das figuras de autoridade, como pais e professores.

  • - Falta de responsabilidade.

  • - Acessos de fúria quando frustrados ou contrariados, muitas vezes com revides.

  • - Insensibilidade, ausência de culpa ou remorso.

  • - Falta de constrangimento, quando pegos em flagrante.

  • - Fugas de casa ou da escola.

  • - Violação de regras de forma ampla, mesmo cientes de que estão errados e sujeitos a sanções.

  • - Participação em fraudes (falsificação de documentos), roubos ou furtos.

  • - Uso precoce de drogas.

  • - Sexualidade precoce exacerbada, podendo chegar a atos extremos, como

violentar crianças ou adolescentes mais frágeis.

  • - Atos de vandalismo, como destruição do patrimônio público e alheio.

  • - Nítida tendência a manipular fatos e pessoas para se livrarem das

responsabilidades de seus atos. Isto é, costumam dizer que são sempre

inocentes, ou que a culpa é do outro.

  • - Histórico de homicídio.

De acordo com a autora, para esses jovens que apresentam esses comportamentos

“regras e limites muito claros devem ser estabelecidos e fiscalizados para se evitar

comportamentos manipuladores e violação das normas sociais.” (2010, p.53). Tais comportamentos delinquentes devem ser levados a sério e tratados com cautela, assim podem ser evitados alguns dos diversos ataques homicidas causados por indivíduos que um dia foram os jovens agressores na escola.

2.2 TIPOS DE BULLYING

O bullying não ocorre apenas de uma maneira, por isso é de extrema importância que os educadores e familiares conheçam os tipos de violência que podem ser caracterizadas como tal.

Como já foi supracitado, o bullying direto caracteriza-se pela existência da violência verbal, física, material e sexual. Manifesta-se em insultos, ofensas, xingamentos, colocar apelidos pejorativos, fazer piadas ofensivas publicamente, bater, chutar, espancar, empurrar, roubar e furtar objetos da vítima, abusar, violentar, assediar, insinuar, etc. (SILVA, 2010, p. 23-24)

Por outro lado, no bullying indireto, os ataques afetam principalmente o psicológico e a moral da vítima. Revela-se nas humilhações, ridicularizações, no desprezo do agressor, no isolamento, na exclusão, discriminação, ameaças, perseguições, chantagens, difamações, intrigas, fofocas, etc.

Outra faceta do bullying indireto, surgida nos últimos anos, revelou-se ainda mais perigosa: o Cyberbullying. Vivemos em uma época de grandes avanços tecnológicos, onde a modernidade está ao alcance de todos e a internet faz-se presente dentre os meios de comunicação, e, por conseguinte, a periculosidade de tal ferramenta é alarmante.

O Cyberbullying difundiu-se e cresceu avassaladoramente, sendo a forma virtual de se praticar bullying, sempre com o intuito de humilhar. Nesse caso, as difamações e boatos maldosos criados para constranger a vítima ganham amplas proporções. Esse tipo de agressão possui um efeito multiplicador do sofrimento das vítimas e ultrapassa os muros da escola, uma vez que Bullying ocorre no mundo real, já o Cyberbullying dá-se no mundo virtual, dando abertura aos agressores optarem pelo anonimato, valendo-se de nomes fictícios ou se fazendo passar por outras pessoas. (FANTE, 2008, p. 65)

Os praticantes de Cyberbullying utilizam e-mails e redes sociais como blogs, fotoblogs, MSN, YouTube, Orkut, Skype, Twitter entre outros. Os agressores criam mentiras sobre a vítima ou tiram proveito de situações constrangedoras que o indivíduo vivencia, usando de difamações e boatos perversos que chegam às pessoas através das redes sociais as quais o agredido faz parte; com isso, a vítima sofre exclusão social intensa e traumática.

Em muitos casos, são criados blogs e comunidades em sites de relacionamentos como forma de deixar a vítima em evidência. Fotografias adulteradas são expostas e divulgadas pelo mundo inteiro em questão de minutos, deixando a vítima imediatamente exposta sem consentimento.

Há também os casos em que o praticante de cyberbullying invade o e-mail de um indivíduo fazendo-se passar por ele e envia mensagens com conteúdos difamatórios, trazendo consequências para a vítima e sua família.

Qualquer pessoa pode ser uma vítima de Cyberbullying ou ter seu e-mail invadido. Segundo Cleo Fante (2008, p. 69), são inúmeras as causas que colaboram para a prática do Bullying virtual:

Podemos citar a ausência de orientação ética e legal na utilização de recursos tecnológicos, a ausência de limites, a insensibilidade, a insensatez, os comportamentos inconseqüentes, a dificuldade de empatia, a certeza da impunidade e do anonimato. Além desses fatores, a falta de denuncia dos casos estimula a ação dos praticantes e impede a ação das autoridades e a aplicação das leis, bem como da elaboração de políticas públicas emergenciais que priorizem a contenção desse grave problema endêmico.

Os danos causados às vítimas são tão fortes quanto no bullying. A auto-estima é rebaixada e a vida social torna-se comprometida, já que ela se sente extremamente envergonhada e humilhada.

Apesar da possibilidade de se agir no anonimato, hoje existem maneiras de defender-se desses ataques virtuais. Há delegacias e instituições especializadas em crimes cibernéticos que oferecem total apoio à vítima, como a Safernet Brasil, uma associação civil de direito privado sem fins lucrativos que defende os direitos humanos na internet. Fundada em 2005 por um grupo de cientistas da computação, professores, pesquisadores e bacharéis em direito constituíram a primeira e única Central Nacional de Denúncias de Crimes Cibernéticos da América Latina

(http://www.safernet.org.br/site/denunciar) que recebe por dia uma média de 2.500

denúncias de crimes como pornografia infantil ou pedofilia, racismo, neonazismo, intolerância religiosa, apologia e incitação a crimes contra a vida, homofobia e maus tratos contra animais.

A vítima, assim que perceber o ocorrido, deve reunir provas do crime, ou seja, salvar as conversas, e-mails, as páginas da internet em que foi lesada e apresentar como fonte de informação para a investigação da polícia. É necessário registrar as provas que estejam on-line recorrendo a um cartório e fazer uma declaração de fé pública

de que o crime em questão existiu, ou lavrar uma Ata Notarial 2 do conteúdo ofensivo. Com as provas em mãos, a vítima deve procurar uma delegacia de polícia e registrar a ocorrência.

2 Ata notarial é o instrumento público pelo qual o tabelião, ou preposto autorizado, a pedido de pessoa interessada, constata fielmente os fatos, as coisas, pessoas ou situações para comprovar a sua existência, ou o seu estado. (Ferreira, 2010, p.112)

3. RETRATO BRASILEIRO

3.1 PESQUISAS APLICADAS PELO TERRITÓRIO BRASILEIRO

Uma das primeiras pesquisas registradas no Brasil foi a da Professora Marta Canfield da Universidade Federal de Santa Maria, em 1997, que devido ao agressivo comportamento de crianças das escolas públicas do Rio Grande do Sul, adaptou o questionário criado por Dan Olweus e aplicou em quatro escolas públicas da cidade de Santa Maria, constatando que o Bullying já era uma realidade entre os alunos brasileiros. (OLIBONI, 2008, p. 16)

Mais tarde, em 2000 e 2001, os professores Israel Figueira e Carlos Neto aplicaram outro questionário reformulado baseado em um projeto europeu, com a finalidade de diagnosticar o bullying em duas escolas municipais do Rio de Janeiro. (CHALITA, 2008, p. 121)

Após esses pequenos movimentos iniciais, a Associação Brasileira Multiprofissional de Proteção à infância e Adolescência (ABRAPIA) realizou uma pesquisa de novembro de 2002 a março de 2003 envolvendo 11 escolas do município do Rio de Janeiro, sendo 9 escolas públicas e 2 particulares, totalizando 5.482 alunos. Conforme Lopes Neto (2005, p. S166), obtiveram os seguintes resultados:

40,5% dos alunos admitiram estar diretamente envolvidos em atos de bullying, sendo 16,9% como alvos, 12,7% como autores e 10,9% ora como alvos, ora como autores; 60,2% dos alunos afirmaram que o bullying ocorre mais frequentemente dentro das salas de aula; 80% dos estudantes manifestaram sentimentos contrários aos atos de bullying, como medo, pena, tristeza, etc. 41,6% dos que admitiram ser alvos de bullying disseram não ter solicitado ajuda aos colegas, professores ou família; entre aqueles que pediram auxílio para reduzir ou cessar seu sofrimento, o objetivo só foi atingido em 23,7% dos casos; 69,3% dos jovens admitiram não saber as razões que levam à ocorrência de bullying ou acreditam tratar-se de uma forma de brincadeira; entre os alunos autores de bullying, 51,8% afirmaram que não receberam nenhum tipo de orientação ou advertência quanto à incorreção de seus atos.

Após a realização da pesquisa inicial, que revelou os altos índices de bullying, a ABRAPIA implantou efetivamente um programa de redução do comportamento agressivo entre estudantes nas escolas do Rio de Janeiro. Aproximadamente depois de um ano, foi realizado um novo questionário a fim de avaliar os possíveis resultados do programa. As mudanças foram claras: 79,9% dos alunos passaram a entender o que era o bullying; houve uma redução de 6,6% de vítimas e 12,3% de agressores; dentre os alunos-alvos que procuraram ajuda, o sucesso das intervenções para a redução dos maus-tratos subiram para 75,9% e sobre as advertências que os agressores recebiam pelos seus atos subiu de 45,6% para 68%. (LOPES, 2005, p. S166)

Posteriormente, um estudo realizado pela educadora Cleo Fante na cidade de São José do Rio Preto-SP foi mais específico. A pesquisa abrangeu aproximadamente dois mil alunos em oito escolas das redes pública e particular, e comprovou que 49% dos alunos estavam envolvidos de alguma forma com o Bullying, dentre eles 22% eram vítimas, 15% agressores e 12% vítimas-agressoras. Além disso, ficou evidenciado que o Bullying estava presente em 100% das escolas participantes. (CHALITA, 2008, p. 121)

A pesquisa de Fante foi subdividida em quatro estudos entre os anos de 2000 a 2003 e foi realizada com alunos do Ensino Fundamental e dos dois primeiros anos do Ensino Médio. No primeiro estudo, a intenção era identificar o fenômeno e descobrir seu indicador, com uma amostragem de 430 alunos. Concluiu-se que 81% dos alunos desse grupo (348) envolveram-se com algum tipo de violência naquele ano letivo. 41% dessa violência foram considerados como ato de Bullying; 18% dos estudantes eram vítimas; 14% agressores e 9% vítimas agressoras. Esclareceu-se que o Bullying ocorria em maior escala dentro da sala de aula e as formas de agressão eram em maior parte os maus-tratos verbais, psicológicos e físicos; a exclusão do grupo foi detectada em 32% e os maus-tratos sexuais totalizaram 3%.

No segundo projeto, participaram 431 alunos de dois municípios, um de população com aproximadamente quatro mil habitantes e o outro com quase quatrocentos mil habitantes. Neste segundo estudo, o objetivo foi averiguar se o Bullying ocorria também em uma cidade de pequeno porte. Foi constatado que 47% dos alunos

envolveram-se em Bullying, sendo 21,38% vítimas, 15,61% agressores e 10,1% vítimas agressores. Dentre os agressores, verificou-se que 66% eram meninos, atuando em grupo ou sozinhos. Outro dado alarmante foi o de que 87% dos alunos acreditam que os maus-tratos entre os colegas podem ser resultados da violência sofrida no ambiente familiar refletida na escola. (FANTE, 2005, p.54)

No terceiro estudo, a educadora procurou afunilar seus resultados. Pesquisou em apenas uma escola pública da cidade de São José do Rio Preto-SP, com cerca de 450 alunos. Foi detectado que as condutas agressivas mais frequentes eram os apelidos e as brincadeiras que causavam aborrecimentos, seguidos das acusações e discriminações. Os agressores e as vítimas compartilham a mesma sala de aula, por isso as ações de Bullying, em sua maioria, ocorrem dentro das mesmas. O físico dos agressores apresentou ser, em 44%, de porte mais forte que os da vítima e 31% deles responderam serem vítimas de violência doméstica. Foi também aplicado um questionário aos professores e os resultados demonstraram que 95% acreditavam que o comportamento de Bullying devia ser considerado um problema para a convivência escolar; em relação às causas, 56% dos professores disseram que o contexto familiar era o responsável pelo comportamento dos alunos e 34% acreditavam ser o contexto social. (IDEM, p.55-57)

Numa cidade do interior de São Paulo, foram entrevistados 450 alunos do Ensino Fundamental. Dentre eles foram identificados 24% como vítimas, 8% agressores e 13% vítimas-agressoras. Quanto às formas de Bullying, as agressões verbais destacam-se em 80% contra 8% de agressões físicas e 3% de ataques sexuais. A maior reclamação das vítimas foi a humilhação emocional e 88% delas afirmaram não ter procurado ajuda. Foi constatado que para cada três vítimas havia um agressor; essa proporção foi compatível com as pesquisas de níveis mundiais, por isso a importância “de que se deve conhecer a realidade de cada escola em relação ao fenômeno Bullying, uma vez que cada escola apresenta peculiaridades específicas.” (FANTE, 2005, p. 60)

Após completar sua pesquisa, Fante (2005, p.61) afirma que:

A ação individual do agressor acaba se irradiando e se transformando numa ação coletiva, fato que decorre de uma espécie de aliciamento por meio do qual os admiradores do agressor reiteradamente repetem suas condutas, atacando geralmente a mesma vítima ou uma outra. O poder do agressor é exercido pela imposição de autoridade respaldada na sua força física e/ou psicológica que o destaca perante o grupo, transformando-o num modelo de identificação a ser seguido. Muitas vezes, um aluno adere ao grupo de agressores ou se converte em agressor por pressão ou como estratégia de defesa, para não se transformar em uma nova vítima, para não ser banido do grupo, ou, ainda, para garantir uma certa popularidade, efeito baddy boy.

A carência afetiva e a ausência de limites educativos dos pais sobre os filhos podem ser consideradas causas para comportamentos agressivos. Segundo FANTE (2005), o agressor sente obrigação de repetir os maus-tratos sofridos em casa ou até mesmo na escola (vítima-agressora) contra outra pessoa, para se valer de uma falsa autoridade, como satisfação pessoal.

Como apresentado anteriormente, essa reprodução de maus-tratos sofridos cria um círculo vicioso e, como um vírus, alastra-se, aumentando cada vez mais o número de alunos envolvidos em casos de Bullying. Essa triste circunstância é denominada como Síndrome de Maus-Tratos Repetitivos (SMAR) procedente do processo educativo a que este aluno foi submetido; sendo assim, está propenso a repetir ou reprimir a violência sofrida, o que compromete seu processo de socialização. Outra observação plausível da educadora (2005, p. 62) é:

A ausência de modelos educativos humanistas, capazes de estimular e orientar o comportamento da criança para a convivência social pacífica e para o seu crescimento moral e espiritual, fatores indispensáveis ao bom processo socioeducacional, que se torna promotor de auto-superação na vida. A ausência desses valores humanistas tem induzido o educando ao caminho da intolerância, que se expressa pela não aceitação das diferenças pessoais inerentes a todos os seres humanos. Dessa forma o bullying começa frequentemente pela recusa de aceitação de uma diferença, seja ela qual for, mas sempre notória e abrangente, envolvendo religião, raça, estatura física, peso, cor dos cabelos, deficiências visuais, auditivas e vocais; ou é uma diferença de ordem psicológica, social, sexual e física; ou está relacionada a aspectos como força, coragem e habilidades desportivas e intelectuais. A constatação dessas diferenças faz surgir conflitos interpessoais de convivência, e os métodos utilizados para solucioná-los são aqueles aprendidos nas vivências experenciadas no modelo educativo a que o educando foi submetido, que é expresso pela imposição de autoridade e pelo emprego de vários tipos de atitudes e linguagem violenta para fazê-lo obedecer.

Foi constatado ainda dentre as pesquisas, que até a 4ª série (atual quinto ano) do Ensino Fundamental não só é fácil identificar os agressores e as vítimas, como também diferenciar as formas em que o bullying acontece, sendo a agressão verbal a mais incidente, normalmente com apelidos e discriminações. Nas terceiras e quartas séries (atual quarto e quinto ano), associam-se maus-tratos físicos às chantagens, de modo que o agressor imponha autoridade sobre a vítima. A partir da quinta série (atual sexto ano), os maus-tratos começam a se tornar de difícil identificação, pois acontecem no oculto, por meio da linguagem visual, gestual e corporal; sendo a indução aos maus-tratos e a exclusão os mais ocorrentes. Fora dos muros da escola, as intimidações tomam proporções maiores e os abusos são de maior gravidade. (FANTE, 2005, p.65)

Por volta dos treze e quatorze anos, os insultos são levados para o lado sexual, “idade da puberdade aflorada, quando a busca de identificação e a afirmação da virilidade devem ser manifestadas perante o grupo.” (IDEM). Com objetivo de excluir

a vítima, comentários maldosos são espalhados no meio de toda a sala, de modo que ela acabe ficando sem amigos, isolada de todos.

No Ensino Médio, as formas de violência geralmente são ameaças, apelidos, ofensas e brigas que podem ser dentro ou fora do ambiente escolar. Em sua pesquisa, Fante (2005) detectou a formação de gangues em consequência do bullying vivenciado na sala de aula. Os agressores sentem-se fortalecidos quando fazem parte de um grupo que compactua com suas ideias e ações; logo, sentem-se apoiados e protegidos. A vítima torna-se ainda mais indefesa, incapaz de reagir quando é atacada por mais de uma pessoa, além das agressões serem mais cruéis, causando, muitas vezes, danos físicos.

Em 2009, outra pesquisa especialmente relevante para nosso estudo foi realizada pela Plan Brasil, uma organização britânica não-governamental sem fins lucrativos, atuante no Brasil desde 1997 e influente por todo o mundo, que defende os direitos da criança e do adolescente. Sua investigação e objetivos: descobrir a incidência de maus-tratos e de bullying no ambiente escolar; suas possíveis causas; suas formas de manifestação; descobrir o perfil dos agressores e das vítimas e quais as possíveis estratégias de combate os maus-tratos e o bullying no ambiente escolar.

Para essa pesquisa, foram selecionadas cinco escolas de cada região do Brasil, totalizando 20 escolas públicas e 5 particulares. Para o questionário, participaram 5.168 alunos, além quatorze grupos focais com 55 alunos, 14 pais/responsáveis e 64 educadores diversos. As informações colhidas revelaram que quanto mais frequentes os atos de bullying, mais fortalecidos os agressores tornam-se, evidenciando a emergente ação de identificação e contenção desse tipo de violência.

Do total de alunos entrevistados, 70% responderam que presenciaram atos de violência na escola e 30% disseram ter vivenciado uma situação de violência. 10% ainda se colocaram como vítimas e agressoras ao mesmo tempo. A pesquisa revela que as regiões onde mais ocorrem bullying são a sudeste e centro-oeste do País, sendo a faixa etária de maior incidência dos 11 aos 15 anos. O motivo pelo qual os agressores cometem os maus-tratos foi relatado pelos alunos pela necessidade do agressor de sentir-se poderoso em relação aos demais, a fim de obter popularidade. As vítimas foram descritas como tímidas, inseguras e passivas, com algum aspecto diferente dos demais alunos como tipo de roupa que vestem, classe social, crença e principalmente diferenças físicas. Os alunos foram taxativos ao responder que as escolas não estão preparadas para conter o fenômeno, nem tão pouco evitá-lo.

Quanto ao cyberbullying, 16,8% dos alunos entrevistados foram considerados vítimas, 17,7% agressores e 3,5% vítimas-agressoras, sendo mais praticados por adolescentes do sexo masculino. Em nenhum caso, as vítimas tentaram reagir às agressões procurando ajuda e, mais uma vez, a “lei do silêncio” confirma-se. Em relação ao sentimento das vítimas, pode-se destacar o desconforto, irritabilidade, apatia e tristeza.

O estudo ainda constatou que tanto os agressores quanto as vítimas perdem a

vontade de estudar, dando abertura

à evasão

escolar.

Quanto

às

formas de

procedimento que as escolas adotam frente ao fenômeno, nenhuma passou de

métodos tradicionais, como a suspensão do aluno e a conversa com os pais, que são insuficientes para lidar com esse tipo de situação. A seguir algumas tabelas que

melhor

relatam

a

pesquisa:

(disponível

em

Tabela 1: Frequência dos maus tratos no ano de 2009 (vítimas) por sexo. (In: Relatório de

Tabela 1: Frequência dos maus tratos no ano de 2009 (vítimas) por sexo. (In:

Relatório de Pesquisa: Bullying escolar no Brasil. Plan, 2010, p.45)

Tabela 1: Frequência dos maus tratos no ano de 2009 (vítimas) por sexo. (In: Relatório de

Tabela 2: Sentimentos provocados pelos maus tratos por sexo da vítima. (In:

Relatório de Pesquisa: Bullying escolar no Brasil. Plan, 2010, p.49)

Tabela 3: Reações aos maus tratos no ambiente escolar. (In: Relatório de Pesquisa: Bullying escolar no

Tabela 3: Reações aos maus tratos no ambiente escolar. (In: Relatório de Pesquisa: Bullying escolar no Brasil. Plan, 2010, p.50)

Na tabela supracitada, fica evidenciado que as vítimas, após sofrerem os maus- tratos, nada fizeram a respeito, representando 6,6% dos alunos entrevistados, entretanto outros 6,3% defenderam-se sozinhos, sem recorrer aos pais ou professores, o que acaba, inevitavelmente, gerando ainda mais violência. Observa- se também que o aluno sente-se mais à vontade em comentar o ocorrido com os pais do que com professores e diretores, e que o revide (sendo vítima-agressora) está em 5% das reações aos ataques de bullying.

Tabela 4: Consequências dos maus tratos para as vítimas. (In: Relatório de Pesquisa: Bullying escolar no

Tabela 4: Consequências dos maus tratos para as vítimas. (In:

Relatório de Pesquisa: Bullying escolar no Brasil. Plan, 2010, p.49)

Tabela 4: Consequências dos maus tratos para as vítimas. (In: Relatório de Pesquisa: Bullying escolar no

Tabela 5: Consequências dos maus tratos para os agressores. (In: Relatório de Pesquisa: Bullying escolar no Brasil. Plan, 2010, p.49)

Nas tabelas 4 e 5, observa-se uma certa semelhança nas consequências entre os agressores e as vítimas. Para ambos, ocorre a perda do entusiasmo e da concentração, o que deixa claro que o adolescente, tanto vítima quanto agressor, sofre um déficit muito grave no seu processo de aprendizado devido à falta de qualidades essenciais para uma educação efetiva.

Pode-se facilmente perceber que a prática de bullying fere a diversidade humana e pode ocorrer em todas as escolas, expondo os alunos que são vítimas de tal constrangimento, excluindo-os dos grupos e humilhando-os, o que pode levá-los a graves consequências em sua vida futura. Está claro que o bullying existe e necessita de um combate urgente; educadores e pais precisam estar devidamente preparados para enfrentar o problema, dando a oportunidade de seus alunos e filhos sentirem-se fortalecidos e protegidos.

3.2 TRAGÉDIAS BRASILEIRAS CAUSADAS PELO BULLYING

No Brasil, não diferente do restante do mundo, o número de casos de Bullying tem aumentado consideravelmente nos últimos anos. Sabemos que as causas são muitas, desde o desafio de perseguir alguém considerado mais frágil, até a intolerância diante da diversidade.

O primeiro caso de bullying que se tem registro pela mídia no Brasil refere-se ao jovem Edmar Aparecido Freitas, de Taiúva interior de São Paulo. Um menino que tinha a obesidade como característica física e a timidez como principal traço de sua personalidade, que fizeram dele uma vítima de perseguição pelos colegas de escola durante 11 anos com apelidos como “mongolóide”, “gordo”, “elefante cor-de-rosa” e “vinagrão” (por ingerir vinagre acreditando auxiliá-lo no emagrecimento). Foi descrito como um garoto retraído, com dificuldades de se expor, com pouquíssimos amigos, inseguro, de baixa -estima, porém considerado um aluno “normal” por professores e funcionários da escola que não viam nele nenhum comportamento que pudesse ser considerado fora da normalidade. Em 27 de janeiro de 2003, Edmar, que já havia concluído o Ensino Médio entrou na escola e atirou contra aproximadamente 50

pessoas, ferindo uma professora, seis alunos e o zelador, deixando um aluno paraplégico. Após o ocorrido, posicionou a arma contra a própria cabeça e se matou (COSTA, 2011). Testemunhas do fato e outras pessoas que conheciam o desrespeito a este aluno no ambiente escolar, confirmam que ele era vítima de

bullying.

Em fevereiro de 2004, na cidade de Remanso BA, Denilton, um adolescente de 17 anos que havia sido humilhado e excluído por vários anos na escola, resolveu vingar-se e assassinou com um tiro na cabeça o seu principal agressor, de treze anos. Em seguida, encaminhou-se para uma escola de informática, onde foi impedido de entrar. Por isso, matou a secretária, depois atirou contra alunos e funcionários, ferindo três pessoas. Sua intenção era cometer uma chacina. Enquanto tentava recarregar a arma, foi surpreendido e detido; em seu depoimento disse que desejava matar mais de cem pessoas e se suicidar, seu desejo era ser lembrado

como o “terrorista suicida brasileiro”. (CHALITA, 2008, p. 43)

Em Natal-RN, Luís Antonio, de 11 anos, era considerado um excelente aluno. Porém, quando transferido para uma escola em Recife, passou a ser discriminado em razão de seu sotaque diferente, sofrendo, frequentemente, maus-tratos físicos. Devido à perseguição e à violência causadas pelos agressores, o aluno desapareceu; um corpo com características semelhantes as suas foi encontrado, contudo, a fonte desta pesquisa não pôde afirmar ser ou não desta vítima. (FANTE, 2005, p. 42)

Samuel Teles da Conceição, 17 anos, sofria constante perseguição em uma escola de Silva Jardim RJ. No final de 2008, ele foi brutalmente espancado por alunos de sua classe que não gostaram de seu corte de cabelo. A vítima não resistiu aos ferimentos (SILVA, 2010, p. 119).

Em maio de 2010, Matheus Abvragov Dalvit, de 15 anos, morreu após levar um tiro de outro jovem de 14 anos. Matheus era uma vítima-agressora e, em razão do bullying que sofria por ser obeso, agrediu um amigo do autor do disparo, o qual acabou cometendo o homicídio no momento em que foi tirar satisfações com Matheus. (SPIGLIATTI, 2010)

Em março de 2011, em Alagoas, um adolescente de 15 anos passou a ser vítima de bullying após assumir sua homossexualidade. Ele era constantemente humilhado por colegas de classe e agredido fisicamente. As agressões foram filmadas e postadas no youtube. Os pais do aluno procuraram a justiça e denunciaram o caso. O diretor da escola estava ciente dos fatos ocorridos na escola e se omitiu, fato bastante comum entre gestores escolares e professores que podem agir assim por não quererem envolver-se ou por agirem de forma preconceituosa.

Em 07 de abril de 2011, um caso chocou o Brasil e se tornou conhecido como o “Massacre de Realengo”, fato que trouxe à tona o fenômeno bullying. A escola municipal Tasso da Silveira, localizada na Zona Oeste do Rio de Janeiro foi o local onde Wellington Menezes de Oliveira, 23 anos, efetuou cerca de 60 disparos com armas de calibre 38 e 32, matando doze alunos, ferindo outros doze e se suicidando. O crime foi premeditado em mínimos detalhes. Wellington foi durante anos vítima de Bullying na escola. Seu caso é considerado por profissionais da Medicina e da Psicologia como doença mental.

Diante dos casos acima mencionados, percebe-se a gravidade das situações as quais as pessoas são expostas em casos de Bullying. As causas e as consequências são as mais variadas para vítimas e agressores, porém todas elas relacionadas à violência.

Faz-se mister salientar que a necessidade da conscientização de familiares, professores e gestores é urgente, pois deles é que partirá a orientação de crianças e jovens sobre a importância do respeito.

4. AS CONSEQUÊNCIAS CAUSADAS PELO BULLYING

O bullying não é um problema presente somente durante a vida escolar do indivíduo. Dependendo de sua intensidade e de cada característica pessoal, tanto da vítima como do agressor, suas consequências podem ser severas, estendendo-se para a vida adulta. No caso dos alunos-alvos, que frequentemente já apresentam uma baixa-estima, quando submetidos aos ataques, o quadro agrava-se, o que favorece o aparecimento de diversos transtornos psíquicos e comportamentais.

4.1 CONSEQUÊNCIAS SOCIAIS, FÍSICAS E PSICOLÓGICAS.

Segundo a Psiquiatra Ana Beatriz Barbosa Silva (2010, p. 25), dentre os problemas mais comuns observados nos históricos de seus pacientes envolvidos com bullying, destacam-se os sintomas psicossomáticos, transtorno do pânico, fobia escolar, fobia social, transtorno de ansiedade generalizada (TAG), depressão, anorexia e bulimia, transtorno obsessivo-compulsivo (TOC), transtorno do estresse pós-traumático (TEPT) e, em casos menos frequentes, a esquizofrenia, suicídio e homicídio.

Os sintomas psicossomáticos mais recorrentes manifestam-se como constantes dores de cabeça (cefaleia), cansaço crônico, dores abdominais, dores no peito, insônia, dificuldades de concentração, náuseas, diarreia, boca seca, palpitações, alergias, tonturas, desmaios, ataques de asma, calafrios, entre outros. As doenças psicossomáticas estão estritamente ligadas ao emocional, são provocadas por qualquer tipo de estresse que afete diretamente o psicológico. Sendo assim, qualquer indivíduo em situação de estresse não está imune a manifestar sintomas. Entretanto, esses sintomas podem agravar-se para doenças crônicas, o que causará extremo desconforto e prejuízos a qualquer indivíduo. (TAQUETTE, 2006)

O Transtorno do Pânico (TP), conforme Salum, Blaya & Manfro (2009), é definido pela “sensação de medo e mal-estar intenso acompanhada de sintomas físicos e cognitivos e que se iniciam de forma brusca, alcançando intensidade máxima em até 10 minutos”. Os sinais físicos mais comuns são taquicardia, sudorese, tontura, falta de ar, dor no peito, dor abdominal, tremores. Quanto à sensação, o indivíduo tem constante medo de morrer, sente estranheza de si mesmo e acredita estar tendo um

ataque cardíaco. A pessoa que sofre desse transtorno está sempre preocupada, com receio de quando surgirão novos ataques, vive incomodada e inquieta, mudando repentinamente de comportamento. Segundo o Instituto Gubel Investigacion y Docencia en Hipnosis, Psicoterapias breves e Medicina

Psicosomatica, os adolescentes que sofrem de TP apresentam menor rendimento escolar e também podem ter seus relacionamentos sociais afetados, já que devido à ansiedade por novos ataques, preferem não sair de casa. Em casos mais sérios, o jovem pode desenvolver estados depressivos e/ou se tornar usuário de drogas e álcool.

Consoante Silva (2010, p.26), a Fobia Escolar “caracteriza-se pelo medo intenso de frequentar a escola, ocasionando repetências por faltas, problemas de

aprendizagem e/ou evasão escolar”. Além de poder apresentar os sintomas

psicossomáticos, o adolescente manifesta todos os sinais do transtorno do pânico, porém só no ambiente escolar; em meio a outros ambientes o comportamento é natural. Cabral & Sawaya (2001) realizaram uma pesquisa com 60% do total de psicólogos que atuam no serviço público no município de Ribeirão Preto-SP. Foi constatado que 69% dos casos de adolescentes encaminhados a eles têm questões escolares como principal queixa, sendo que 18% estão relacionados à fobia escolar, inadaptação, problemas de relacionamento com outras crianças e com o professor, insegurança e timidez. As causas podem estar ligadas ao ambiente doméstico, mais especificamente, a ansiedade de separação. Tal transtorno está relacionado ao medo excessivo que a criança sente no momento em que se afastar dos pais ou responsáveis.

Consoante Vianna, Campos & Fernandes (2009, p.50), sentir medo ao ficar longe dos pais é considerado normal em crianças de idade pré-escolar, entretanto se configura um problema quando afeta diretamente o cotidiano do indivíduo. Os autores evidenciam que para um diagnóstico preciso da ansiedade de separação é necessário observar alguns sintomas, como o sofrimento excessivo frente ao afastamento dos pais ou a previsão deste; preocupação exagerada acerca de perigos envolvendo os responsáveis ou a ele próprio; recusa a comparecer à escola ou a qualquer outro lugar que não seja acompanhado; teme ficar sozinho em casa;

apresenta dificuldades para dormir longe dos pais; têm pesadelos frequentes referentes à separação e apresenta queixas somáticas regularmente. O adolescente pode temer ser sequestrado ou se perder de seus pais, enfim, apresenta um medo irreal de que algo acontecerá consigo ou com seus pais.

A fobia escolar também está, essencialmente, ligada à prática de bullying. O adolescente que passa por uma situação traumatizante dentro do ambiente escolar está potencialmente fértil a desenvolver o transtorno, sendo que ele sentirá profunda repulsa ao se deparar com o mesmo lugar onde as lembranças foram-lhes tão lamentáveis. (SILVA, 2010, p.26)

Um transtorno que vai além dos muros da escola e que pode ser decorrente do bullying é a fobia social, também chamada de Transtorno de Ansiedade Social (TAS). De acordo com VILETE (2002, p. 1-5), o fóbico social sente intenso medo de ser observado por outras pessoas, de estar no centro das atenções. Teme agir de forma que lhe seja humilhante e embaraçosa. Em decorrência, o indivíduo evita constantemente eventos sociais, pois, quando exposto, fica ansioso, além de outros sintomas, como tremor nas mãos, náuseas, rubor, gagueira, dentre outros, que podem evoluir a ataques de pânico.

O transtorno de ansiedade social acarreta vários prejuízos na vida de qualquer pessoa. Os danos são ainda maiores quando se trata de um adolescente que vive em contato social regularmente, especialmente no ambiente escolar, onde o aluno apresenta trabalhos escolares oralmente e necessita estar em contato com o grupo, o que para um fóbico é extremamente difícil. Para SILVA (2010, p.27), muitas pessoas que sofrem de fobia social hoje tiveram um passado escolar com muitas

humilhações, “danos e sofrimentos que são capazes de se refletir por toda uma existência”.

O Transtorno de Ansiedade Generalizada (TAG) é uma sensação de medo e insegurança acompanhada de preocupações exageradas sobre qualquer aspecto da vida. O indivíduo diagnosticado com TAG tem como principais características:

Ansiedade e preocupação excessiva e de difícil controle com diversos eventos, na maioria dos dias e com duração mínima de seis meses, causando prejuízos no funcionamento da vida diária. O quadro deve ser acompanhado ainda de pelo menos três de seis sintomas físicos tais como:

inquietação; fatigabilidade; dificuldade de concentração; irritabilidade; tensão muscular ou perturbações do sono. Finalmente, o distúrbio não deve ser oriundo de ingestão de drogas ou de abuso, de uma condição médica geral ou ocorrer exclusivamente durante o curso de transtorno de humor, transtorno psicótico ou transtorno global do desenvolvimento. (VIANNA; CAMPOS; FERNANDEZ, 2009, p.52)

Segundo os autores, os adolescentes com TAG são considerados como “mini

adultos” devido à intensa preocupação em aspectos como saúde, segurança, pontualidade, situação financeira, familiar, escolar, futuro, etc. São muito perfeccionistas e extremamente inquietos. Uma pesquisa citada em seu trabalho revela que a maior preocupação entre os adolescentes está relacionada à própria saúde. Por serem muito perfeccionistas, acabam sendo autocríticos e fazem de suas pequenas falhas grandes fracassos; são extremamente rígidos consigo mesmos. Os adolescentes com Transtorno de Ansiedade Generalizada sem o devido tratamento podem tornar-se adultos com fobia social, depressivos e aptos a desenvolver transtornos muito graves.

Outro sintoma consequente do bullying e que vem crescendo muito atualmente é a depressão. Não é simplesmente uma tristeza profunda ou uma angústia mais intensa; a depressão é uma doença que merece grande a atenção da Medicina, pois afeta em potencial a saúde psíquica de qualquer pessoa. Conforme o Psiquiatra Geraldo J. Ballone, estima-se que 5% da população mundial sofra de depressão e cerca de 10% a 25% já passou por algum momento depressivo.

Nas últimas décadas, diversas pesquisas têm observado um aumento considerável de depressão com início na infância e adolescência. O psicólogo Helio José Guilhardi, em entrevista concedida a Revista Mackenzie (informação verbal) 3 , afirma que:

3 Entrevista concedida a Revista Mackenzie no dia 10 de outubro de 2006. Na íntegra em: < http://www.terapiaporcontingencias.com.br/pdf/helio/respostasMackenziedepressaoinfantil.pdf >. Acesso em: 04 ago. 2011.

O mundo tem se tornado, progressivamente, mais complexo. Os desafios para lidar com ele exigem padrões comportamentais muito elaborados, em que a diferença, entre o desempenho que leva ao bem-estar e ao desenvolvimento e aquele que produz insatisfação e fracasso, é sutil. Depressão é um sentimento produzido por condições de vida diante das quais a pessoa não possui um repertório de comportamento para lidar com elas de maneira satisfatória, qual seja, reduzir os eventos aversivos e melhorar as condições favoráveis e satisfatórias. O que contribui para esse déficit comportamental? Excesso de liberdade, com pouca orientação e falta de limites para lidar eficazmente com as situações adversas e, até mesmo, com as gratificantes. Maior acesso às informações, sem parâmetro para distinguir o “joio” do “trigo”. Afastamento de fontes tradicionais de limites para ação, as quais tinham diretrizes construtivas para o desenvolvimento humano, tais como a escola, a religião e a estabilidade da família. (O fato de que tais instituições no passado exageraram nos controles coercitivos sugere que os exageros deveriam ser amenizados e não que eles devessem ser esvanecidos e tão enfaticamente enfraquecidos.) O despreparo dos pais para lidar com seus filhos: criar é diferente de propiciar desenvolvimento através do amor. “Pouco tempo com qualidade” tem sido usado como justificativa para “pouco tempo com consumismo e prepotência”: os filhos usufruem de prazeres fáceis ofertados pelos pais e os tiranizam, a partir da culpa que os pais sentem. Atualmente, impera o sensorial (prazer imediato, que agrada aos órgãos dos sentidos) em detrimento do sensível (gratificação a longo prazo, a partir de valores de cooperação e entendimento recíproco). Esvaíram-se preocupações com o outro, que passou a ser visto como instrumento para “meus” objetivos e não co-participante de um processo de crescimento e desenvolvimento mutuamente influenciável. Quando uma pessoa não se importa com o outro, parcialmente não se importa consigo mesma. As relações deixam, progressivamente, de levar em conta o outro, como extensão necessária de mim mesmo, e passam a ser canibalescas.

Os sintomas mais frequentes apontados por Silva (2010) são: tristeza constante, ansiedade ou sensação de vazio, culpabilidade, inutilidade, insônia ou excesso de sono, pouco ou muito apetite, fadiga, desânimo, irritabilidade, dificuldade em tomar decisões, pessimismo, perda de interesse por atividade que antes despertavam prazer, ideias ou tentativas de suicídio.

Consoante Spitz (apud Cunha et al., 2005, p.2), “a depressão no adulto e a depressão na criança não são comparáveis, mas entidades psiquiátricas completamente diferentes. Os sintomas são similares, todavia o processo

subjacente é diferente”.

A depressão infantil pode ser diagnosticada ao observar os seguintes sintomas:

A)

Humor, conduta ou aparência depressivos.

B) Apresentar pelo menos quatro (possibilidade) ou cinco (segurança) dos seguintes sintomas:

  • 1. Retraimento social;

  • 2. Problemas de sono;

  • 3. Queixas ou fadiga;

  • 4. Hipoatividade;

4

  • 5. Anedonia ;

  • 6. Baixa auto-estima ou dupla patologia;

  • 7. Dificuldades nos trabalhos escolares;

  • 8. Ideação mórbida ou ideação suicida.

C) Muitas vezes a depressão é mal diagnosticada ou passa

despercebida. Assumpção e Kuczynski pesquisam os seguintes sintomas durante o exame para facilitar o reconhecimento dos quadros depressivos na infância e adolescência:

  • 1. Falta de reatividade do humor depressivo ou irritável aos estímulos positivos;

  • 2. Diferença qualitativa entre humor disfórico 5 e tristeza profunda;

  • 3. Variação diurna do humor;

  • 4. Distúrbios do sono;

  • 5. Fadiga, falta de energia e cansaço;

  • 6. Alterações cognitivas:

    • a. Concentração, desatenção ou pensamento lentificado;

    • b. Indecisão;

  • 7. Apetite/sono:

    • a. Redução do apetite;

    • b. Perda de peso;

    • c. Aumento do apetite;

    • d. Ganho de peso;

  • 8. Distúrbios psicomotores:

    • a. Agitação;

    • b. Retardo psicomotor;

  • 9. Auto percepção:

    • a. Depreciação a auto imagem negativa;

    • b. Culpa excessiva ou inapropriada;

    • 10. Desesperança, desamparo, desencorajamento e pessimismo;

    • 11. Sensação de rejeição.

    (CUNHA et al., 2005, p.3)

    Como visto, a depressão causa o desencorajamento na realização de tarefas rotineiras, a desatenção e a hipoatividade comprometem o cumprimento de afazeres escolares, causando, assim, uma queda significativa do rendimento escolar, o que compromete todo o processo de aprendizado. Além do baixo rendimento escolar, a depressão pode levar ao isolamento social, as relações com os pais e com o grupo podem gerar ansiedade e confusão, pois o depressivo sente-se, na maior parte do tempo, incompreendido, e, por conseguinte, sobrevêm-lhe a angústia e a solidão. Se o adolescente estiver inserido em uma família que está em crise, os problemas da depressão podem agravar-se. “Na busca de uma solução para seus conflitos, os

    4 Anedonia: Perda da sensação de prazer nos atos que costumam proporcioná-la. 5 Disfórico: Referente a disforia, mal-estar, indisposição.

    adolescentes podem recorrer ao uso de drogas ou à sexualidade precoce e

    promíscua, numa tentativa de resolver seus problemas”. (DAMIÃO et al., 2011, p.

    115)

    A depressão, como todas as outras doenças vistas até o presente momento, merece diagnóstico e tratamento realizados por profissionais capacitados. O médico ou psicólogo, juntamente com os familiares, poderão chegar à decisão de qual o melhor tratamento para o paciente. Em alguns casos, um aconselhamento já é suficiente, como terapia; em outros, são necessários medicamentos e aconselhamento com toda a família. Quanto antes for feito o diagnóstico, menor serão os danos causados ao desenvolvimento do adolescente, entretanto, não podemos nos esquecer de que o melhor tratamento é a prevenção.

    Na fase da puberdade, além das mudanças psicológicas, ocorrem alterações significativas na fisiologia e bioquímica do adolescente: o corpo entra em uma fase de transformação radical. Há um ganho de gordura expressivo, especialmente nas mulheres. Já nos homens, o ganho de gordura cessa e até se reverte. Este período de modificação corporal é contrário ao modelo de beleza ideal imposto pela sociedade atualmente, o que, diante do adolescente, principalmente do sexo feminino, torna-se inaceitável, fato que pode causar terríveis transtornos alimentares como a anorexia e a bulimia nervosa.

    A anorexia é definida por Dunker & Philippi (2003, p.52) como uma “restrição dietética auto-imposta, com um padrão alimentar “bizarro” e acentuada perda de peso, que está associada a um temor intenso de engordar e à má percepção corporal”. Ou seja, a pessoa acaba distorcendo sua imagem corporal achando que está acima do peso e, por desejo de alcançar o padrão de beleza imposto pela sociedade, submete-se a dietas extremamente rigorosas com longos períodos sem ingerir qualquer tipo de alimento, ou, quando ingeridos, são pobres em carboidratos e gorduras, comprometendo drasticamente a saúde do indivíduo. Segundo os autores, a anorexia é a terceira doença mais comum na adolescência, perdendo para a asma e obesidade.

    Os critérios de diagnóstico da anorexia definidos pelo DSM-IV (Diagnostic and Statistical manual of mental disorders, 4ª edição, 1994) F50.0 - 307.1 são:

    • A. Recusa a manter o peso corporal em um nível igual ou acima do

    mínimo normal adequado à idade e à altura (por ex., perda de peso levando à manutenção do peso corporal abaixo de 85% do esperado; ou fracasso em ter o ganho de peso esperado durante o período de crescimento, levando a um peso corporal menor que 85% do esperado).

    • B. Medo intenso de ganhar peso ou de se tornar gordo, mesmo estando

    com peso abaixo do normal.

    • C. Perturbação no modo de vivenciar o peso ou a forma do corpo,

    influência indevida do peso ou da forma do corpo sobre a auto-avaliação, ou

    negação do baixo peso corporal atual.

    • D. Nas mulheres pós-menarca, amenorreia, isto é, ausência de pelo

    menos três ciclos menstruais consecutivos. (Considera-se que uma mulher

    tem menorreia se seus períodos ocorrem apenas após a administração de hormônio,por ex., estrógeno.)

    • E. Especificar tipo:

    Tipo Restritivo: durante o episódio atual de Anorexia Nervosa, o indivíduo não se envolveu regularmente em um comportamento de comer compulsivamente ou de purgação (isto é, auto-indução de vômito ou uso indevido de laxantes, diuréticos ou enemas). Tipo Compulsão Periódica/Purgativo: durante o episódio atual de Anorexia Nervosa, o indivíduo envolveu-se regularmente em um comportamento de comer compulsivamente ou de purgação (isto é, auto-indução de vômito ou

    uso indevido de laxantes, diuréticos ou enemas).

    Já a bulimia nervosa, para Traebert & Moreira (2001, p.359), é diferenciada pela:

    Ingestão compulsiva e rápida de grande quantidade de alimentos com pouco ou nenhum prazer, alternando-se comportamentos dirigidos a evitar o ganho de peso como, por exemplo, vomitar, usar excessivamente laxantes e diuréticos e submeter-se a períodos de restrição alimentar severa. Tais comportamentos também se devem ao medo mórbido de engordar.

    Para diagnosticar a bulimia, de acordo com o DSM-IV F50.9 307.50, deve-se observar os episódios recorrentes à compulsão alimentar, que são caracterizados pela ingestão de grande quantidade de alimento em um curto período de tempo; sentimento de incapacidade de parar de comer; comportamentos compensatórios para não haver ganho de peso, como a indução a vômitos, uso de laxantes e diuréticos ou medicamentos, jejum e exercícios físicos excessivos; a compulsão alimentar e os comportamentos compensatórios ocorrem ao menos duas vezes por

    semana durante um período de três meses; preocupação demasiada com o corpo e com o peso; o distúrbio não ocorre exclusivamente durante episódios de anorexia nervosa; existe o tipo purgativo do distúrbio que implica vômitos ou abuso de laxantes, diuréticos e enemas; e o não-purgativo que é caracterizado pelo jejum ou exercícios excessivos.

    As complicações clínicas que tais transtornos podem acarretar são semelhantes às de um estado de desnutrição crônico. Nos adolescentes, interfere na curva de crescimento, podendo interromper até o desenvolvimento puberal. Sem o tratamento adequado e em tempo hábil, as consequências podem ser fatais. Estudos apontam que a morbidade e a mortalidade de anorexia estão entre 4% a 8%; sendo assim, o tratamento deve ser precoce e emergente. A princípio, não se faz necessária a internação; um bom acompanhamento médico e nutricional em conjunto com terapias surtirão efeito satisfatório; entretanto, se o paciente apresentar peso menos que 80% do esperado para sua altura e idade, além de desidratação, vômitos persistentes e depressão sem resposta ao tratamento ambulatorial, faz-se extremamente necessária a internação. (FLEITLICH et al., 2000, p. 327-328)

    Outro transtorno psiquiátrico que está entre os quatro mais frequentes, alcançando de 1% a 4% da população de adolescentes, é o Transtorno Obsessivo-Compulsivo (TOC), conhecido também como o hábito de ter “manias”. É caracterizado pela presença exagerada e irracional de compulsões e obsessões, com ações repetidas, sistemáticas e ritualísticas. Dentre as obsessões mais comuns entre os adolescentes, estão o medo de contaminar-se (passando a se lavar várias vezes ao dia), de ferir-se ou ferir os outros, obsessões sexuais e religiosas, compulsões de lavagem, repetição, checagem de objetos (organizar simetricamente), entre outros. (CAMPOS & MERCADANTE, 2000, p.16)

    Portadores de TOC são escravos da própria mente; as obsessões e compulsões interferem na realização de atividades, o que acaba consumindo muito tempo do dia a fim de cumprir seus rituais, além de ser um incômodo para a vítima e para seus familiares, que podem passar por situações constrangedoras. O tratamento deve ser adequado e imprescindível, já que o transtorno pode acarretar outras várias doenças. A terapia cognitivo-comportamental tem demonstrado melhora significativa

    nos pacientes com TOC, principalmente quando acompanhada da devida medicação, o paciente passa por uma reeducação de seus hábitos, aos poucos vai diminuindo as compulsões, sem realizar muitas ações repetitivas. (ARGIMON, BICCA & RINALDI, 2007, p. 7-8)

    Crianças e adolescentes, assim como todo ser humano, estão suscetíveis a passar por experiências traumáticas, como sofrer acidentes, sequestros ou ser violentadas, catástrofes naturais ou mesmo presenciar tais acontecimentos; devido a esse trauma, alguns podem apresentar o transtorno do estresse pós-traumático (TEPT). Sendo um dos problemas de saúde mental mais associado à vitimização por violência, este transtorno caracteriza-se pelo medo intenso que o indivíduo sente quando vivencia ou testemunha eventos que ameacem sua integridade física ou de outros, como acidentes com mortes ou ferimentos graves. Apresenta também sintomas de revivências com recordações aflitas, sonhos e flashbacks do trauma que lhes ocorreram. Costuma evitar pessoas ou lugares que lhes façam lembrar o evento traumático, pode ter lapsos de memória, insônia, irritabilidade, dificuldades na concentração, muito zelo com a própria saúde, entre outros. (BERGER et al., 2004, p. 167-168)

    O TEPT pode gerar um quadro depressivo. Em diversos casos, observa-se o isolamento social devido à dificuldade no relacionamento afetivo ou até “frieza” com seus entes queridos, além de não alimentar expectativas para o futuro. Existem aqueles que, ao presenciarem cenas de bullying ou mesmo serem vítimas, agravam o quadro e se predispõem a desenvolver o transtorno do estresse pós-traumático. (SILVA, 2010, p.31)

    Além dos diversos transtornos que o bullying pode desencadear, visto que até aqui enfatizamos apenas os mais relatados por psicólogos, temos que advertir que os danos vão muito além. Suas consequências afetam a todos os envolvidos, e, em especial, a vítima, que pode carregar consigo os danos para o resto de sua vida, inclusive problemas para o ambiente profissional, com futuros filhos e companheiro (a), relações com colegas, enfim, em todas as áreas, desde o psicológico até o social.

    A superação frente ao fenômeno depende das características de cada indivíduo. Caso isso não ocorra, o desenvolvimento psíquico passará a ficar completamente comprometido; todo o seu comportamento será modificado por desejar não passar por novos traumas: estará sempre na defensiva. Todos os transtornos que estudamos estarão suscetíveis a acontecer, dependendo do esforço de cada um em superá-los e a predisposição individual a desenvolver as doenças psíquicas.

    Como observado nos relatos das tragédias que ocorreram no Brasil, o bullying desencadeia atitudes depressivas, chegando até mesmo ao suicídio, ou então pode gerar atitudes violentas, como os casos dos que almejaram a vingança e cometeram chacinas. Nos estudos de Dan Olweus (apud FANTE, 2005, p.79-81), foi analisado um grupo entre 13 a 16 anos que haviam sido vítimas de bullying. Grande parte deles chegou aos 23 anos apresentando quadros de depressão, como decorrência da baixa-estima. Já os identificados como agressores, 60% haviam sofrido ao menos uma sentença penal por atos delinquentes até os 24 anos, o que evidencia que o bullying tem forte relação com a criminalidade, drogas e a formação de gangues, como apontado no estudo de Cleo Fante (2005, p. 66), já que tanto o agressor como a vítima, ao tentarem solucionar os seus próprios conflitos, recorrem a outras pessoas de fora da escola para se sentirem fortalecidos e protegidos.

    No que diz respeito ao aprendizado, esse é o mais lesado, já que os adolescentes perdem o interesse pela escola e a concentração diminui ou desaparece, até mesmo aqueles que apresentam ser inteligentes focam seu intelectual para assuntos que lhes despertam mais prazer, a fim de obter uma melhor auto-estima. (SILVA, 2010,

    p.81)

    Por isso, é importante que o apoio familiar e o incentivo escolar por parte dos educadores estejam presentes no cotidiano dos alunos. Desse modo, as vítimas envolvidas no bullying superarão os traumas sofridos e os agressores podem ser instruídos a reverterem seus comportamentos, contribuindo para a paz nos ambientes escolar e social, direito de todo e qualquer indivíduo.

    5. MEDIDAS DE COMBATE AO BULLYING

    A violência é como um vírus, que quando não tratado, vai se proliferando e multiplicando, ganhando força e se torna impossível de extinguir. O bullying, quando já instalado numa determinada escola, passa por um processo de reprodução, o problema torna-se maior e mais complexo de se dissipar; sendo assim, não existe apenas uma maneira para enfrentar o fenômeno e também não é possível somente um professor implantar um único programa de combate ao problema sem nenhum tipo de ajuda. Faz-se necessária uma forte parceria com famílias, alunos, escola, com a sociedade e com todos os setores governamentais responsáveis pela segurança para planejar uma estratégia eficiente de combate.

    Primeiramente, é de extrema necessidade que toda a comunidade escolar esteja consciente de que o bullying existe e não é meramente uma brincadeira de criança; pode causar danos como todos aqueles já citados no presente trabalho. Os pais, a escola e a comunidade precisam saber que a violência é uma realidade dentro das instituições de ensino e que deve ser enfrentado o mais depressa possível. Após esta etapa de conscientização, cada qual exercerá uma função específica no processo antibullying, primeiro porque cada um possui um papel fundamental neste contexto social e, segundo, se houver uma total colaboração, ninguém se sobrecarregará, tornando, por conseguinte, o processo de combate muito mais eficiente e específico.

    É comum observar pais cobrando mudanças por parte da escola, reclamando por esse ou aquele problema, fato tão frequente como os próprios educadores que culpam os pais pelos filhos indisciplinados. E ainda existe a sociedade, exigindo que uma escola sirva para ensinar a solidariedade e o respeito, sendo que ela mesma já perdeu seus princípios. Ninguém quer assumir a responsabilidade para si, ninguém deseja ter a culpa se algo de ruim vier acontecer, entretanto a violência está acontecendo, em todo momento e nada tem sido feito para freá-la. Como bem apresenta o texto “De quem é a bola”, de autoria desconhecida:

    De quem é a bola? É de Adão e Eva? É do governo? É do pai

    ...

    Ou é da

    mãe? É da escola? Afinal de quem é a bola?[ ] ... Acontece que a bola continua solta. O mundo em decadência, as crises

    [

    ...

    ]

    aumentando, homens se violentando, crianças se degenerando, famílias se desentendendo, jovens confusos. E o mundo, que foi criado para ser paraíso passa a ser um campo de concentração, onde a guerra e o desamor

    predominam ...

    A bola está sendo jogada para lá e para cá. O problema não

    chega a uma solução, porque todos se omitem e se tornam alheios diante do amor e da responsabilidade.

    6

    A verdade é que não existe um único responsável por erradicar a violência. Tal responsabilidade é de todos e de nada adiantará tentar encontrar os culpados, já que todos devem trabalhar juntos para a conquista da paz e de valores, como respeito, solidariedade e fraternidade.

    5.1 A FUNÇÃO DA FAMÍLIA

    A família é a mais importante referência para um indivíduo, é a partir dela que ele se desenvolve, construindo seus próprios princípios e conceitos. Para uma criança, os pais são as pessoas mais importantes de sua vida, “é numa estrutura familiar sólida que a criança e o adolescente vão suprir suas necessidades de amor, de

    valorização, de limites e de coerência”. (CHALITA, 2008, p.165)

    O primeiro modelo de socialização humana é a família. A partir dela, uma criança deve, ou ao menos deveria, aprender a defender-se e a superar-se, saber desenvolver atitudes e valores humanistas, como respeitar e valorizar as diferenças de cada ser humano. Todavia, quando o ambiente familiar não é favorável ao desenvolvimento social de uma criança, ocorre exatamente o inverso: a família acaba tornando-se uma “fonte geradora de condutas agressivas ou violentas”. (FANTE, 2005, p.175)

    Quando a criança é cercada por um relacionamento de amor, carinho e diálogo, sua auto-estima e sua autoconfiança fortalecem-se. Porém, se essa relação for de

    6 Trecho retirado do texto “De quem é a bola?”, de autoria desconhecida. Disponível em < http://www.cap- unig.com.br/bola.pdf> Acesso em 19 de outubro de 2011.

    violência, desde os maus-tratos verbais até graves violências domésticas, a criança refletirá exatamente isso em suas relações sociais. Fuensanta Cerezo (apud FANTE, 2005, p.176) diz que as agressões sofridas na primeira infância são os maiores responsáveis pela maior incidência de condutas violentas durante a adolescência e até mesmo na fase adulta, podendo reproduzir os maus tratos inclusive contra seus próprios filhos, dando origem ao chamado ciclo de abusos.

    Segundo Fante (2005, p.175), existem quatro fatores familiares que contribuem para o comportamento agressivo das crianças e dos adolescentes: Os maus-tratos e o modelo educativo familiar, que é quando a criança aprende a resolver seus conflitos com atitudes agressivas ou assume uma postura frágil e submissa como forma de defesa; métodos educativos ambíguos, os quais se referem aos pais que educam baseados em punições severas ou simplesmente sem nenhum tipo de correção ou rigor; desestruturação familiar, marcada principalmente pela ausência de uma figura paterna ou pela ausência de relação afetiva entre os cônjuges e seus filhos, seja ela por falta de tempo ou de carinho.

    Chalita (2008) diz que os pais não devem ser nem autoritários, nem passivos, nem superprotetores, tudo é uma questão de equilíbrio. Pais participativos têm maior chance de proporcionar o equilíbrio nas relações familiares e a única maneira de construí-lo é com presença e diálogo. Pais presentes sabem quando algo não vai bem com seus filhos e, quando há diálogo, o filho sentir-se-á à vontade para conversar com seus pais sobre seus problemas e conflitos; assim, mais do que uma relação familiar, existirá uma amizade entre pais e filhos: “A amizade é o antídoto contra a violência”. (CHALITA, 2008, p. 180)

    Como todo relacionamento de amizade e confiança, não deve haver acusações, cobranças ou julgamentos. É necessário ouvir e, com todo esforço, procurar ajudar. Se o adolescente estiver envolvido em uma situação de bullying, os pais devem aconselhá-lo positivamente e de maneira pacífica, de forma alguma devem incentivar mais violência, como normalmente ocorre. Existem pais que, por falta de conhecimento, incitam seus filhos a revidarem as atitudes agressivas, ou até mesmo culpam o filho vitimado pela falta de competência em lidar com agressões sofridas,

    desestimulando-o ainda mais. Atitudes assim agravam ainda mais o problema. (SILVA, 2010, p.183)

    O educador Gabriel Chalita (2008, 181) afirma que os pais devem aconselhar seus filhos vitimizados de forma que favoreça o enfrentamento pacífico e, principalmente, estimulá-los para que não percam a vontade de ir à escola. O segundo passo é procurar a coordenação pedagógica da escola para explicar o que está ocorrendo e cobrar uma atitude, pois como dito anteriormente, todos devem envolver-se para planejar as estratégias de combate. As reuniões pedagógicas em conjunto com os pais, por exemplo, são excelentes oportunidades para se discutir o problema.

    Nos casos mais graves, nos quais os danos psicológicos decorrentes do bullying são maiores, os pais devem encaminhar seus filhos a profissionais da área da saúde - os psicólogos, psiquiatras e pediatras - que após suas respectivas avaliações indicarão o tratamento mais adequado para cada situação.

    Em relação aos alunos agressores, Chalita (2008, p.183-185) apresenta algumas recomendações aos pais:

    Posicionamento: Não ignorar a situação, nem procurar fazer de conta que está tudo bem. Lembre-se de que o agressor precisa ser ajudado, tanto quanto a vítima. Interesse: Procurar saber como ajudar seu filho: falar com professores, com a direção da escola, com psicólogos ou com profissionais da área, conhecer os outros alunos. Presença: Manter contato com a escola e acompanhar a evolução. Garantir

    presença, diálogo e amor em todo o processo de resgate e de transformação. Diálogo e tolerância: Conservar a calma e controlar a própria agressividade no diálogo com o filho. [ ] ...

    [

    ...

    ]

    Apoio e cumplicidade: Manifestar as insatisfações em agredir. Mostrar

    que sabe o que está acontecendo e demonstrar amor, mesmo não aprovando o comportamento. Ouvir atentamente é uma estratégia bem eficiente. Convivência: Estabelecer um canal de comunicação que permita conhecer os sentimentos a ação violenta. Participar mais, acompanhar mais, ficar mais junto. Investigação: Identificar o que pode estar desencadeando o comportamento do filho, que pode ser um problema atual ou antigo. Autoridade: Dar orientações e limites firmes para ajudar seu filho a controlar o comportamento agressivo. Cobrar relatos sobre os resultados dos acordos estabelecidos entre vocês. Estratégia: Canalizar as atitudes agressivas para outras atividades, tirando seu filho do foco da violência. Agressividade é diferente de agressão.

    Humildade: Encorajar seu filho a pedir desculpas ao colega agredido, como

    forma de reconhecer e reparar o erro. [ ] ... Reflexão e compaixão: Exercitar com seu filho situações de se colocar no

    [

    ]

    ... lugar da vítima, sentir a dor e a angústia vivida pelo outro. Falar sobre situações pessoais que causaram sofrimento. Estímulo: Realçar e destacar os pontos positivos do comportamento de seu filho e elogiá-lo sempre por isso. Aspiração: Fazer planos juntos, descobrir os desejos e os sonhos, descortinar novos panoramas, novas realidades, novas possibilidades. Desejar e construir um espaço melhor, mais humano e mais feliz.

    Os pais são peças-chave para o combate efetivo do bullying, pois são os únicos que poderão observar seus filhos e identificar se eles estão ou não envolvidos com algum tipo de violência escolar. As características de cada personagem envolvido com bullying apresentadas no capítulo dois deste trabalho auxiliam satisfatoriamente neste processo de identificação, porque é razoavelmente fácil para um pai ou uma mãe observarem situações simples, como o estado da roupa de seu filho quando este retorna da escola, se seu semblante estampa alegria ou tristeza, o seu humor, enfim, fatores que normalmente passam despercebidos, mas que se notados dentro de um contexto, mostrarão aos pais que algo está errado com seus filhos e, partindo disso, com um diálogo objetivo e sincero poderão iniciar a busca para a solução do problema.

    Outra observação pertinente é em relação ao exemplo que os pais dão aos seus filhos diariamente. Como já dito, os pais são o referencial e tudo o que os filhos aprendem em casa refletir-se-á espontaneamente em suas atitudes; portanto, demonstrar um verdadeiro exemplo de vida e favorecer um ambiente de amor e amizade que proporcione a compreensão, auto-estima e a autoconfiança é o objetivo fundamental de uma família.

    5.2 A FUNÇÃO DA ESCOLA

    A escola

    é

    uma

    instituição de ensino

    designada

    a educar,

    a

    levar

    a

    luz do

    conhecimento aos, como dizia Aristóteles, sem luz. Foi criada desde a Grécia antiga

    com

    o

    único

    objetivo de reunir pessoas para

    simplesmente pensar e refletir.

    Atualmente, a própria lei fundamenta a função da escola. Segundo o artigo 205 da Constituição Federal Brasileira, a educação visa ao “pleno desenvolvimento da pessoa, seu preparo para o exercício da cidadania e sua qualificação para o trabalho”.

    Alguns questionamentos que surgem a partir de então são: a escola tem preparado seu aluno para o exercício da cidadania? A escola tem proporcionado um ambiente seguro, propício à educação?

    O bullying sempre existiu nas escolas, entretanto só ganhou destaque nos últimos trinta anos, tornando-se objeto de estudo de muitos profissionais. Vários exemplos citados no presente trabalho mostram que a segurança da escola está completamente fragilizada e, lamentavelmente, já se faz presente em grande parte das instituições de ensino. Portanto, podemos fazer a seguinte reflexão: o que pode ser feito para evitar a violência dentro de uma sala de aula? Como preparar os alunos para lidar com esse problema?

    Poderíamos listar muitos questionamentos se parássemos para pensar como realmente está a educação no Brasil. Conseguiríamos discutir sobre uma infinidade de aspectos que precisam de mudanças urgentemente. No entanto, criticar e apontar os erros do sistema educacional não transformarão em nada tal situação. O ponto principal é: se existe um problema que afeta a aprendizagem a qual os alunos têm direito de receber, como diz na própria Constituição, o Estado e a família devem trabalhar para solucionar o problema. O Estado representa professores, diretores, coordenadores, inspetores, enfim, todos os envolvidos no contexto escolar, assim como secretarias de educação e o Ministério da Educação.

    Os professores, depois da família, são a referência adulta com quem a criança e o adolescente passam grande parte do tempo, aproximadamente seis horas por dia durante todo um ano ou anos, criando laços de afetividade e compromisso como todo relacionamento social. Nesse sentido, espera-se que o convívio entre aluno- professor e aluno-aluno seja o mais harmonioso possível dentro do espaço da sala de aula.

    Todavia, considerando a problemática da violência, mais especificamente do bullying, Oliboni (2008), em sua pesquisa, abordou as atitudes dos docentes frente ao comportamento de bullying em sala de aula. No referido trabalho, a educadora notou que uma considerável parte dos professores pesquisados importava-se apenas com a transmissão de conteúdos de suas disciplinas, “com uma aparente omissão e indiferença frente aos conflitos vivenciados pelos alunos no decorrer das atividades de aula”. (OLIBONI, 2008, p.54)

    Segundo a autora, essa omissão dos docentes deve-se à falta de preparo que os mesmos têm para enfrentar uma situação de violência em sala de aula. É muito comum o professor, na tentativa de acabar com o conflito, aconselhar seu aluno a ignorar o fato de estar sendo chateado por outrem, mas esse tipo de estratégia jamais resolveria o problema; ao contrário, o aluno-autor sente-se livre para praticar condutas agressivas, já que, evidentemente, não sofrerá nenhum tipo de repreensão e, por outro lado, o aluno-alvo não tomará nenhuma atitude para denunciar algum possível maltrato sofrido, pois ele tem ciência de que nada será feito por parte do professor para lhe proteger. (IDEM, p. 60)

    Dessa forma, o professor exime-se de sua função como educador e de sua parcela de responsabilidade no que diz respeito aos maus-tratos entre os alunos dentro da sala de aula. O professor tornou-se ausente da sua função de educar e se transformou em um distribuidor de conhecimentos.

    O educador deve estimular seu aluno, fazê-lo sonhar, valorizá-lo e incentivá-lo. As Diretrizes Curriculares Nacionais apresentam alguns princípios norteadores da ação pedagógica e que devem ser objetivos a serem alcançados pelos educadores:

    (CHALITA, 2008, p.193)

    Os princípios éticos: necessários para o desenvolvimento de atitudes autônomas, responsáveis, solidárias e de respeito pelo outro e pelo bem comum. Os princípios estéticos: fundamentais para o desenvolvimento da sensibilidade, da criatividade, do respeito à diversidade. Princípio que amplia o universo cultural e artístico, que revela talentos e que agrega o diferente.

    Os princípios políticos: essenciais para a percepção dos direitos e dos deveres, imprescindíveis para o exercício da cidadania, para o desenvolvimento do olhar crítico, para o respeito à ordem democrática e, principalmente, para o despertar do sentimento de pertencimento por meio da participação ativa e responsável daquele que passa a ser e a sentir-se parte da construção do seu ambiente.

    Quando um educador, como relatado na pesquisa de Oliboni, omite-se diante de situações de bullying na sala de aula, ele ignora todos os princípios previstos na lei. Estes precisam refletir sobre o tipo de sociedade que estão formando e com quais valores esses alunos estão saindo da escola. Faz-se mister que os educadores refaçam suas metodologias de ensino e que o objetivo principal seja formar cidadãos como agentes da transformação social, resgatando princípios e valores humanos, que, em meio a tanta violência, perdem-se facilmente. (OLIBONI, 2008, p.61)

    O professor, quando assume seu papel de educador e age positivamente na mediação dos conflitos objetivando uma solução definitiva, bloqueia a ação do aluno agressor e oferece proteção à vítima, fato que impede o bullying dentro da sala de aula, local com maior incidência dentro do território escolar. À partir do momento em que o discente admite que os conflitos existem em sua sala de aula, pode tomar todas as providências cabíveis a cada situação e, principalmente, encaminhar esses alunos à coordenação pedagógica.

    Deve-se ressaltar que o professor precisa agir de maneira pacificadora, ou seja, impedir os atos violentos sem ter uma postura de repressão contra seus alunos. Segundo Oliboni (2008, p.63), é comum observar professores que, na tentativa de conter a indisciplina da classe, fazem ameaças, como diminuir as notas, chamar pais ou responsáveis para irem à escola, encaminhar alunos à direção, deixar sem recreio, entre outros. Porém, esse método de reprimir os alunos, apesar de causar um aparente resultado positivo, não se mostrou verdadeiramente eficiente, pois com uma simples troca de professor o bullying voltava a ocorrer.

    Para Fante (2005), o primeiro grande passo para que um educador possa combater o bullying dentro da sala de aula é ser capacitado para isso. Ou seja, é necessário que o educador saiba com qual problema está lidando. Ele precisa saber o que é o bullying, como se manifesta, como identificá-lo, quais são suas consequências,

    enfim, precisa saber da total definição da problemática, para identificar corretamente a situação e cada personagem dela.

    Conforme a educadora, após a conscientização de que o fenômeno faz-se presente no ambiente escolar e de terem a bagagem de estudo necessária sobre o tema, os professores devem elaborar as estratégias juntamente com a coordenação e direção pedagógica de acordo com as características próprias da escola, visto que cada instituição educacional possui suas particularidades. (FANTE, 2005, p.93)

    O projeto de combate deve alcançar todos os alunos: vítimas, agressores e espectadores. Não é tarefa fácil elaborar estratégias que resolvam o problema e o eliminem satisfatoriamente, tampouco se pode dizer que o bullying será totalmente eliminado das escolas. Contudo, se o professor assumir sua postura de educador e, juntamente com os demais coordenadores, organizarem um verdadeiro programa de combate e prevenção, indubitavelmente as ocorrências de violência diminuirão significantemente.

    5.3 PROGRAMAS DE PREVENÇÃO E COMBATE

    Para toda aula ministrada por um professor existe um planejamento didático, no qual irá basear o seu trabalho, a fim de organizar as atividades que serão desenvolvidas durante a aula, visando atingir aos objetivos previamente estabelecidos. Da mesma forma, para o sucesso de um programa de intervenção e prevenção ao bullying, deve haver um planejamento.

    O programa “Educar para a paz”, idealizado por Cleo Fante e pioneiro no Brasil, tornou-se um modelo digno de ser seguido. Seus princípios e conceitos são sustentados nos valores humanistas da tolerância e da solidariedade, elementos essenciais para a construção da paz.

    Os objetivos principais do projeto são: (FANTE, 2005, p. 94-95)

    Que os alunos sejam conscientizados do fenômeno e suas

    conseqüências, a partir

    da

    análise

    das

    próprias

    experiências

    vivenciadas no cotidiano, a fim

    de

    que

    percebam

    quais

    os

    pensamentos e as emoções despertadas por ele, bem

    como os

    motivos norteadores desse tipo de conduta; Que os alunos, por meio da interiorização de valores humanos, desenvolvam a capacidade de empatia, a fim de que percebam as implicações e os sofrimentos gerados por esse tipo de comportamento e desenvolvam habilidades para sua erradicação;

    Que os alunos se comprometam com o bem-comum e se tornem agentes de transformação da violência na construção de uma realidade de paz nas escolas.

    A partir desses objetivos, foram criadas algumas etapas para o desenvolvimento do programa, divididas em Ae B. A etapa Arefere-se à conscientização, ou, mais precisamente, do conhecimento da realidade escolar; já a etapa Bengloba todos os procedimentos de mudança, como a adoção de estratégias e também a manutenção do programa.

    Segundo Fante (2005, p. 96), há um atraso da comunidade escolar em preocupar- se com a questão da violência. Os profissionais da educação só tomam alguma providência quando o problema agrava-se, alcançando elevados níveis de periculosidade, o que está de acordo com a conclusão de Oliboni (2008) em relação à omissão dos docentes na sala de aula, que se preocupam mais com a transmissão de conhecimentos do que com os conflitos entre alunos.

    O ideal seria prevenir a violência antes que ela se instalasse na escola, visto que o processo seria muito mais simples, rápido e eficiente. Entretanto, para isso acontecer seria necessário que o professor educasse as emoções de seus alunos, ajudando-os a lidar com suas frustrações, perdas, angústias e rejeições, ensinando- os a ter o controle de suas vidas, enfim, o mestre da sala de aula deve ter o compromisso de ser um verdadeiro educador. (FANTE, 2005, p.97)

    Refletir sobre as diversas formas de violência que acontecem na escola é primordial para que o docente reavalie o seu método de ensino e, a partir de então, comece a educar as emoções de seu aluno. O psiquiatra Augusto Cury (2007, p. 50), de forma

    metafórica, representa muito bem o conceito do que é um aluno educado em suas emoções:

    Bons alunos aprendem a matemática numérica, alunos fascinantes vão além, aprendem a matemática da emoção, que não tem conta exata e que rompe a regra da lógica. Nessa matemática, você só aprende a multiplicar quando aprende a dividir, só consegue ganhar quando aprende a perder, só consegue receber, quando aprende a se doar.

    Após o primeiro passo de conscientização e compromisso de toda a comunidade escolar, faz-se necessária uma organização estrutural do programa. Trata-se de uma equipe principal que assegurará a continuidade do projeto. Os integrantes dessa comissão organizadora podem ser: diretores da escola, coordenadores, representantes dos docentes, dos funcionários, dos alunos, dos pais e também, se possível, profissionais que estejam ligados à escola, como psicólogo, assistente social, médico, até mesmo vereadores e advogados. A meta principal desta equipe é avaliar o desempenho do programa e contribuir com sugestões e ideias de combate. (FANTE, 2005, p.99)

    Formada a comissão, deve haver a escolha de um coordenador geral do programa e de um professor-tutor que atuará diretamente com os alunos e que deve ser indicado pela classe ou segundo critérios definidos pelo coordenador. Cada tutor será responsável por sua classe, procurando sempre conhecer ao máximo os problemas e conflitos de seus alunos. Deverá também fazer o trabalho de identificação dos personagens, bem como assimilar quais são os motivos geradores dos conflitos e, a partir deles, esquematizar planos que possam auxiliar os alunos. (IDEM, p.100)

    Para a etapa de investigação da realidade escolar, um instrumento muito eficiente é o questionário. Ele pode ser direcionado aos alunos, professores, funcionários da escola e pais dos alunos. Um dos critérios utilizados por Dan Olweus era agrupar as perguntas em três categorias: amizades, agressões recebidas e agressões provocadas. Porém, por ser um método aberto, a coleta de dados tornou-se muito trabalhosa, com muitos aspectos a se observar, como a afetividade do grupo. Não há uma regra para a elaboração de um questionário, mas existe o modelo padrão

    TMR (Training and Mobility of Researchers), que foi uma adaptação de Ortega, Mora-Mérchan, Lera, Singer, Smith, Pereira & Menesini a partir do questionário original de Olweus. Cada escola deverá adaptar o seu próprio questionário de acordo com as informações que se deseja obter. (FANTE, 2005, p. 101)

    A primeira investigação deverá ser feita pelo professor-tutor, que observará o grupo- classe e apontará as dificuldades socioeducacionais encontradas. Atividades em grupo, por exemplo, evidenciarão relações interpessoais; com isso, o professor observará quem são os alunos normalmente excluídos e rechaçados dos grupos e poderá constatar quais os fatores que o determinam. Também, através dessas atividades, o professor deverá indicar quem serão os alunos solidários que farão parte do projeto de combate. É necessário que esses alunos apresentem bom relacionamento com seus colegas, como possuir atitudes de cooperação, tolerância e respeito, em especial com os que normalmente são excluídos do grupo. Assim, eles serão um importante apoio no quesito de denunciar os possíveis conflitos que acontecem longe da supervisão adulta, as testemunhas as quais se transformam em cooperadores.

    Realizado o processo de observação, os professores deverão reunir-se e discutir sobre as evidências encontradas e desenvolver as estratégias, começando pela elaboração do questionário. Este deve ser auto-explicativo e deverá ser aplicado em um só dia em todos os turnos. Devem ser respondidos no anonimato caso o aluno não queira expor-se. Os dados coletados devem ser tabulados e entregues à coordenação do programa, que divulgará os dados obtidos. Se realmente forem detectados índices consideráveis de violência na escola, o coordenador do programa, juntamente com toda a comissão, confeccionará um material explicativo sobre os conceitos do bullying a fim de distribuir a toda a comunidade escolar. Atualmente, diversas Organizações Não-Governamentais, como a Plan Brasil, têm distribuído cartilhas explicativas sobre o fenômeno bullying disponíveis gratuitamente pela internet; existem também diversos trabalhos acadêmicos que vêm crescendo em grande número no que desrespeito a violência nas escolas, o que contribui generosamente neste processo de coleta de materiais. (FANTE, 2005, p.104)

    Após este primeiro período de planejamento, uma boa sugestão da educadora Cleo Fante, é a realização de um dia especial de debates sobre o bullying na escola. Esta data deverá ser marcada com antecedência e todos os pais de alunos devem ser convocados. O objetivo principal deste encontro é a discussão dos dados obtidos pela pesquisa e também da divulgação do programa antibullying. A reunião deverá favorecer o comprometimento e o compromisso de toda a comunidade no combate à violência.

    A possível participação de profissionais da saúde, como psicólogos e pediatras, desde que bem informados sobre a problemática, reafirmarão com maior ênfase aos pais sobre todos os danos causados às crianças e aos adolescentes em consequência do comportamento violento. Durante todo o debate, os pais devem ser alertados que a escola tomará todas as providências necessárias quando houver uma situação de bullying, mesmo que sejam as mais simples. Deve-se destacar a “tolerância zero” e os pais deverão ser estimulados a adotar este mesmo lema em suas casas. O material explicativo deverá ser entregue e, para finalizar o dia de debates, Fante propõe que seja feita uma passeata contra a violência pela cidade, uma manifestação pública que venha a promover a paz nas escolas. (FANTE, 2005, p. 105)

    As estratégias de combate podem ser elaboradas de acordo com a conveniência da comissão do programa. Como já mencionado, cada escola possui uma característica e caberá à coordenação decidir o que será mais eficiente para sua instituição.

    Nesse sentido, Fante (2005) apresenta algumas estratégias gerais e individuais que podem facilitar o combate:

    - Medidas de supervisão: Como o bullying acontece onde não há supervisão de adultos, uma forma de aumentar a segurança das vítimas é elevar o número de pessoas para supervisionar os alunos. Entretanto, essa medida torna-se um pouco difícil de ser realizada nas escolas públicas, então uma saída é o grupo dos alunos solidários. Eles farão a supervisão dos demais alunos e, quando observarem alguma situação de bullying, acionarão os professores ou, se possível, atuarão como

    mediadores, ouvindo os alunos em conflito e apaziguando a situação através do diálogo.

    • - Serviço de denúncia: A escola pode criar um “disque-denúncia”, podendo utilizar

    telefone, e-mail ou uma caixa fechada, onde os alunos possam deixar bilhetes. Trata-se de um instrumento no qual a vítima poderá denunciar seu agressor anonimamente, sem ter medo de represálias. O responsável por atender as denúncias pode ser um professor ou diretor da escola, o qual deverá encorajar o denunciante a marcar um encontro com o professor-tutor, cujo papel é aconselhar a vítima.

    • - Estratégias individuais Redação Minha vida escolar: O tutor propõe que todos os

    alunos façam uma redação, de modo que narrem como são suas vidas escolares, a convivência com seus colegas, se são agredidos ou se agridem, como lidam com a violência na escola, quais são os motivos que levam as agressões, etc. O professor poderá utilizar músicas como fundo sonoro a fim de propiciar um ambiente tranquilo e em todo tempo deve estimular seus alunos a escreverem depoimentos sinceros. Com essa atividade, o tutor poderá encorajar os alunos vítimas a denunciarem seus agressores e também saber o nível de sofrimento em que se encontram esses

    alunos, para, então, encaminhá-los a encontros individuais. (FANTE, 2005, p.108)

    • - Redação Minha vida familiar: O tutor pode propor uma segunda redação, que fará

    os alunos refletirem sobre suas vidas familiares e o relacionamento que cada um tem com seus pais, irmãos e amigos fora da escola. Dessa forma, o tutor poderá conhecer melhor a realidade em que seus alunos estão inseridos. (FANTE, 2005, p.

    109)

    Com esses procedimentos, é possível identificar quem são as vítimas e quem são os agressores. Assim, inicia-se o processo de tratamento, composto inicialmente por entrevistas individuais. Algumas observações pertinentes são levantadas em relação aos critérios de entrevistas: (FANTE, 2005, p. 110)

    No momento em que o professor retirar um aluno da classe para conversar sobre o seu comportamento, deve olhar bem nos seus olhos, demonstrando

    compreensão e confiança; não deve dialogar com ar de superioridade ou de autoridade, mas o aluno tem que ser levado a crer que o professor está ali como seu confidente, um amigo disposto a ajudá-lo; fazendo as devidas anotações para os próximos encontros, o professor deve falar pausadamente, não demonstrando qualquer tipo de constrangimento ou de alteração. Quando o aluno estiver respondendo, o professor deve deixá-lo falar sem interrompê-lo, mostrar interesse pelo que está expondo, balançar a cabeça afirmativamente para que ele se sinta seguro.

    As entrevistas são simples, com duração de cinco a dez minutos por aluno. Quando o tutor entrevistar o agressor, deve induzi-lo a admitir o próprio erro e, além disso, apontar soluções que resolvam o conflito. Caso o agressor não coopere, o tutor deve tentar aproximar a vítima do agressor em atividades de lazer ou solidárias, mas com atenta observação. O objetivo é o cumprimento das soluções dos conflitos, caso este não seja cumprido por parte do agressor, novas entrevistas devem ser marcadas. Se este não se comprometer, sanções deverão ser aplicadas. (IDEM,

    p.112)

    É importante ressaltar que os próprios alunos devem propor as soluções para seus conflitos, tanto agressor como vítima. O tutor analisará as sugestões apresentadas e as acatarão se forem pertinentes; caso contrário, sugerirá outras opções, todavia independente do escolhido, é importante que o aluno aceite as condições e se comprometa a cumpri-las.

    Após as primeiras entrevistas com todos os envolvidos, é necessário reiniciar o processo, como forma de acompanhar o aluno e não deixar que os conflitos voltem a acontecer. Ao dialogar mais de uma vez com cada um, o tutor fará uma entrevista em grupo; primeiro com os agressores, depois com as vítimas e por último com as vítimas-provocadoras. A intenção desse encontro é reunir os esforços para a solução da violência na qual estão envolvidos aqueles alunos. Quando o objetivo não é alcançado, o tutor deverá encaminhar o caso a profissionais especializados, integrantes da comissão do programa, ou à direção da escola para que sejam tomadas as devidas providências.

    - Estatuto contra o

    bullying: Implica a

    criação de

    um

    código ou estatuto que

    estabeleçam normas, feitas pelos próprios alunos de forma democrática, para uma

    boa convivência entre os alunos e que rejeitem por completo situações de bullying no ambiente escolar. Deverá conter procedimentos para abordar os conflitos e ser composto por direitos e deveres dos docentes e discentes, sem deixar de lado os direitos humanos de igualdade e respeito. A criação do estatuto deve ser democrática e só depois de todos darem suas sugestões por meio de votação, aberta ou secreta, é que os alunos devem escolher as normas que farão parte do estatuto, bem como as sanções punitivas. Criado o estatuto, o tutor o encaminhará ao coordenador do programa e, se ele for aprovado por toda a comissão, entrará em vigor. (FANTE, 2005, p. 115-118)

    O cumprimento das normas e sanções deve ser respeitado. O aluno que infringir o estatuto deverá saber o porquê, como e quando cometeu a infração. As sanções deverão ser imediatamente aplicadas e, de preferência, convertidas em ações de solidariedade. Dessa forma, o aluno aprende a melhorar seu comportamento com atitudes positivas em convívio com o grupo.

    Há outras estratégias que o professor pode utilizar em sala de aula para propiciar um ambiente de paz e harmonia. Segundo Cury (2003, p. 121-125), a música, quando levada para dentro da escola, alivia a ansiedade, melhora a concentração dos alunos, desenvolve o prazer de aprender e, consequentemente, educa a emoção. Cury também propõe sentar em círculo ou em Una sala de aula, pois isso desenvolve a auto-segurança do aluno e promove uma educação participativa, diminuindo os conflitos em sala de aula.

    Segundo Fante (2005), envolver os alunos em projetos solidários também é uma estratégia que pode ser adotada pelos professores para estimular os valores humanos entre eles mesmos, pois desenvolverá a responsabilidade social e promoverá a cidadania. Os projetos devem ser elaborados criteriosamente, podendo ser em benefícios da comunidade escolar ou, progressivamente, da sociedade, com campanhas dos mais diversos temas sociais.

    Durante todo o programa, o tutor deve acompanhar seus alunos

    e

    abordar a

    problemática bullying semanalmente nas aulas ou atividades, como forma de

    continuar as investigações e analisar o progresso e as mudanças de comportamento de seus alunos.

    A participação da família é essencial neste processo. Na prática, sabe-se que os pais são pouco presentes na vida escolar de seus filhos, contudo a escola deve adotar medidas que incentivem essa participação; a insistência fará a diferença. Recentemente, um aspecto positivo que pôde ser observado foi que a mídia divulgou o fenômeno bullying e alcançou uma boa parte da população, com isso os professores têm a possibilidade de abordar a família do aluno, sem dúvida, é mais fácil falar com os pais sobre o bullying hoje do que era anteriormente.

    O processo de investigação de um programa de intervenção não se acaba, pois todas as atividades podem ser reutilizadas. O questionário pode ser reaplicado após alguns meses de atividades para saber qual foi o resultado final do programa. Com isso, a equipe terá uma avaliação efetiva do projeto e, principalmente, mostrará aos pais e à comunidade escolar os resultados alcançados. É importante manter o programa, já que todos os anos novas crianças e adolescentes entram na escola, por isso é primordial que elas saibam desde o primeiro dia de aula que o bullying não é permitido naquela instituição, onde só o respeito às diferenças e a solidariedade são apregoados.

    Há muito mais a realizar-se, já que existe uma variedade de estratégias que podem ser adotadas para prevenir e combater a violência nas escolas, a começar pelo próprio governo federal, que poderia criar leis que fundamentassem o repúdio ao bullying tanto nas escolas como em qualquer grupo social, ou, então, já seria de grande esforço se o ministério da educação lançasse uma campanha nacional antibullying envolvendo todas as escolas do Brasil em único projeto.

    Enfim, a luta antibullying deve ser diária e desde os primeiros anos de escolarização. O ideal seria apenas prevenir o problema antes que ele viesse à tona. A missão de bloquear todo e qualquer ato de violência é uma tarefa árdua e pode ser até frustrante, porém se todos desistirem durante o caminho, não haverá mais justiça e, muito menos, valores humanos para as próximas gerações.

    6. Considerações Finais

    A violência, como foi constatada na presente pesquisa, é um dos elementos que interferem diretamente no processo de ensino-aprendizagem, impedindo que muitos alunos desfrutem do direito de ter um bom rendimento escolar. Trata-se de um problema sério e precisa ser tratado como tal. Enquanto for vista como “brincadeira de criança”, ela continuará causando prejuízos, como tem ocorrido em grandes tragédias pelo território brasileiro.

    Eliminar o problema por completo é bastante difícil, porém o seu combate é viável, desde que haja comprometimento e dedicação por parte de todos os envolvidos neste cenário. Os pais devem começar pelos exemplos que dão em suas casas e os professores devem mudar sua postura de mestres detentores do conhecimento para educadores da emoção de seus alunos.

    Quando pensamos em valores morais, pensamos também em família e no compromisso que ela tem de preparar um indivíduo para a vivência em sociedade, por isso sabemos da importância de ter pais participativos, que apresentam seus filhos ao mundo e têm a consciência de que fazem o que é certo.

    Aos professores, cabe preparar seus alunos para a vivência no grande grupo, pois ele é composto de pessoas com histórias diferenciadas, que passam por situações que muitos professores desconhecem.

    Na junção

    da família

    com

    a escola, percebemos a

    importância de agir sem

    preconceito, pois, comportamento

    como

    já foi citado anteriormente, muitos

    por

    ser

    esta

    a

    informação

    preconceituoso

    alunos mantêm o

    que

    recebem

    dos

    familiares.

    Portanto, fica evidente que todos têm sua responsabilidade na educação das crianças e dos adolescentes, cada qual deve assumir seu papel e executá-lo com empenho. Precisam aprender a lidar com seus próprios conflitos e com os mais diversos tipos de violência, especialmente o bullying. Os valores humanos precisam ser resgatados, para que a violência não se torne um comportamento comum, pautado no desrespeito pela diversidade e pela ideia de que um é superior que o

    outro. O bullying é uma ferramenta de destruição dos valores humanos; sendo assim, a educação e a cultura deveriam tender a eliminar todas as formas agressivas de resolução de tensões que provocam as diferenças individuais.

    Perante a Constituição, somos todos iguais, sem distinção de qualquer natureza, este é o princípio fundamental e deve ser devidamente respeitado. Entretanto, de nada adiantará proclamar a paz promovida pela lei, enquanto as atitudes violentas mostram cada vez mais que o preconceito impera na sociedade e a torna tão desigual. A educação e a solidariedade são o caminho para a superação das barbáries. O preconceito e a soberba devem ser banidos das relações sociais, dando espaço ao amor e à amizade, que são os melhores antídotos contra a violência.

    Logo, cabe à sociedade preparar e instruir crianças e adolescentes para o futuro que os aguarda. Estes devem ser educados desde já, para serem líderes de si mesmos, terem controle sobre suas próprias vidas e respeito ao próximo para que desfrutem de uma sociedade mais justa e solidária, com verdadeiros cidadãos conscientes de seu papel. Assim, a diversidade humana se mostrará como riqueza, a violência passará a ser intolerável e sua minimização se tornará efetiva.

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