Sumário
NOTAS DA AUTORA
Atenção!
DEDICATÓRIA
Passarinhos
Mergulhando
Fumaça de Narguilé
Sede de Sangue
Espelhos Inversos
Laços Esquecidos
Velha Inimiga
O sorriso de Cheshire
Pequena Lagarta
O Apocalipse
A noite mais sombria
Xeque-Mate
♧ Epílogo ♧
AGRADECIMENTOS
NOTAS DA AUTORA
Quando comecei a escrever Sombras do Espelho em um caderno, eu
tinha apenas 15 anos. Nunca fui uma criança prodígio ou considerada um
gênio, na verdade, ninguém sabia exatamente o que eu iria me tornar
quando ficasse mais velha. Nem eu sabia.
A Aline de 15 anos era — e ainda é — apaixonada por Alice no País
das Maravilhas, morenos sarcásticos e mundos paralelos, era aquele tipo de
adolescente que almejava ser a mocinha do livro, ter poderes, que lia e relia
as páginas de O Lado Mais Sombrio (A. G. Howard) e levava um caderno
para a escola, no qual continha os primeiros rabiscos (feitos à mão) de
Sombras do Espelho. Escrever sempre foi um passatempo para mim, mas
chegou uma hora na minha vida em que tive que revelar o que guardava
para o mundo.
Confesso que tenho um apego enorme por esta história, só que eu
não teria essa coragem toda se não fosse pelo meu pequeno — mas
maravilhoso — público. Quero agradecer a todos que me acompanham
desde 2016 e que, por alguma razão, continuam comigo. Eu escolhi
Sombras do Espelho para ser AQUELE livro que te enche de memórias
agradáveis e que esquente seu coração. Houve mudanças na história, sim,
mas pegue na minha mão e confie em mim. Esta será uma experiência que
te tocará para além dos espelhos, da distância e da tela do seu celular.
Atenção!
Este livro contém cenas que abordam temas como:
transtorno de ansiedade e esquizofrenia.
DEDICATÓRIA
Para o meu querido pai, que sempre me apoia nas minhas
jornadas malucas em busca dos meus sonhos.
E também a todas as garotas que já se sentiram deslocadas no
mundo, principalmente as que enfrentam dificuldades para
enxergar a grandeza do próprio poder.
Passarinhos
Como vão vocês, meus passarinhos?
Vocês iam ter milhões de ninhos
Nesse meu mundo só meu.
Poderia num regado a rio ouvir cantar uma canção sem fim
Quem me dera que ele fosse assim
Maravilhosamente só para mim!
Alice no País das Maravilhas
⇼
Mergulhando
Sexta-feira
Nas histórias, o destino do herói estava entrelaçado com o destino
do vilão em uma dança perigosa de luz e sombras.
Pelo menos era nisso que eu acreditava.
Eu, Mabel, acabei de sair da sala de aula e deixei alguns livros no
armário. No caminho, me deparei com os cochichos de Chloe e suas fiéis
seguidoras, elas me encaravam enquanto soltavam risadinhas e murmúrios.
Desviei os olhos, não querendo chamar mais atenção do que sabia que já
tinha delas.
O horário do almoço tinha começado há pouco tempo. Passei pela
fila da comida e saí com um prato recheado de peixe com batata frita na
bandeja e sabia que Hazel me esperava para me sentar com ela em algum
lugar. Ela era a minha única e grande amiga. Hazel fazia questão de validar
os meus pontos fortes, me defendia quando precisava, e era uma ouvinte
apaixonada pelos meus delírios sobre o País das Maravilhas. Ela roubava
minutos de silêncio para contar alguma fofoca acerca da garota, cujo
objetivo soava genérico: incomodar quem não se enquadrava em seu grupo.
Mesmo adotada, eu ainda era órfã.
Assim que avistei Hazel, que estava sorrindo e acenando para mim a
algumas mesas à frente, me dirigi até ela. O refeitório era amplo, as paredes
eram brancas, assim como as mesas e os bancos, havia uma cozinha com
funcionários atrás dos aquecedores de alimentos.
Mas fui surpreendida por um baque mole no meu rosto, me fazendo
fechar os olhos em reflexo. Ao abri-los novamente, percebi as tangerinas
caídas em meu prato. Estragou o meu almoço…
Olhei ao redor e escutei risos conjuntos, pertencentes a um grupo de
garotas cochichando e olhando para mim de soslaio. Estava farta disso!
Fazia alguns dias que esse sentimento começou a se apossar de
mim. Essa raiva e rancor que se espalham pelo meu corpo através da
adrenalina pulsando através do meu sangue quente. Sem pensar demais, ou
raciocinar qualquer contraponto, virei-me e andei até as garotas.
Percebi os risos começando a parar, mas não parei até virar todo o
meu almoço em cima das garotas. Quem quer que tenha me atacado foi
atacada pelos grãos de arroz e caldo quente de batata.
— Que merda você tá pensando, garota? — Uma delas se levantou,
feições distorcidas de nojo e cabelo sujo com batata.
— Só estou devolvendo o favor. — Sorri para ela com os olhos bem
abertos, tão irritada que poderia desferir socos em sua face. — Aproveitem.
Com isso, rumei de volta para a minha amiga, sem comida. Bufei ao
me sentar, apertando os punhos. Ao encarar Hazel, seus olhos estavam
arregalados.
— Caramba, Mabel… — murmurou ela, ainda parecendo surpresa.
— Eu nunca te vi assim, está tudo bem?
— Não sei, só fiquei com muita raiva de repente.
Respirei fundo, agora me sentindo mais branda e com coragem para
enfrentar o castigo na próxima semana.
Segunda-feira
Após a detenção, fui liberada para as aulas. As nuvens formavam
uma nova camada plissada no céu azulado pela janela. A euforia dos
preparativos do colégio me prensava contra a parede. Eu observava a janela
completamente distraída, voando sem asas na minha própria imaginação.
Até então gostava de imaginar cinco coisas boas que aconteceram
naquele início de dia: a primeira, o delicioso conforto de um cappuccino no
café da manhã; o frescor entrando pelo basculante aberto na área de serviço
após abraçar mamãe, Ye-Eun, com o avental sujo de espuma da máquina de
lavar; o despertador ter atrasado; o casaco de lã rosa recém-comprado e
uma saia branca terem servido em meu corpo sem precisar trocar; não ter
tropeçado na quina da cômoda.
A Inglaterra era muito diferente. Apesar da Coreia do Sul ser ótima
na maioria dos fatores e de eu ter nascido lá, o desejo dos meus pais era se
mudarem ao me adotarem quando eu era bebê.
Agora, sobre os meus pais biológicos… Eu tinha um pensamento
puro e às vezes estranho sobre: e se fossem pessoas ruins? E se fui trocada
na maternidade? Sei lá. Eu os imaginava me carregando no colo enquanto
cantavam músicas infantis e me ninando nos braços. Seria uma lembrança
reconfortante, no lugar de uma ilusão.
Nas últimas semanas, meu orientador não falava bem de mim
durante as reuniões de classe. Por exemplo: eu não gostaria de ser chamada
de “a menina que mora na lua”. E de uns tempos para cá tive mudanças no
comportamento em intervalos curtos de tempo. Eu simplesmente saía
criticando as pessoas como uma rebelde sem causa, e o pior era que sempre
a conta do arrependimento batia como consequência.
Havia um evento estranho que eu não conseguia esquecer, uma
memória envolta em uma fumaça claustrofóbica que mexia comigo até os
dias atuais.
Eu tinha 10 anos quando conheci uma menina, aparentemente da
mesma idade que eu, e cujo rosto era um borrão. Ela aparecia dentro da
minha casa, explorando os cômodos em uma correria travessa, chamando e
observando qualquer movimento diferente. Seus cabelos tinham a cor do
crepúsculo, os olhos castanho-escuros, quase negros, cintilavam, mas
ninguém, exatamente ninguém, a via, muito menos tinha uma lembrança de
suas aparições.
Lembrava-me de mamãe dizendo:
— Não há ninguém correndo por aí, querida. E, se tivesse, pode ter
certeza de que nós a veríamos. Talvez ela seja alguma amiga imaginária —
supôs ela.
Eu não acreditava nisso. Larguei o lápis na mesa, ainda pensativa,
mas precisava focar nas tarefas escolares. Uma delas, a qual me deixava
mais empolgada, seria disputar em um campeonato de Arco e Flecha que
estava marcado para uma semana após o acampamento. Meus colegas
imploraram para que eu fosse a representante do campeonato, ou seja, eu
simbolizaria a turma do terceiro ano, assumindo toda a responsabilidade e
possíveis badernas que ocorreriam durante o torneio. E, lógico, reivindiquei
minha opinião da posse que não tinha pedido. Cada um que assumisse o que
fizesse.
Contive o desejo de fuga ao sentir alguém se aproximando, embora
usasse fones de ouvido com música baixa. Agarrei meu outro braço,
abraçando-o. Havia uma embalagem cheia pela metade ao lado da minha
mochila, com donuts açucarados, e mordi uma rosquinha com gosto de
maracujá e chiclete. Então escondi a cabeça novamente.
— Mabel — falou uma garota, quando tirei os fones —, onde está
seu arco e flecha? Você deveria estar treinando, não dormindo enquanto
damos duro nos estudos.
— Vocês deveriam me deixar em paz — sugeri, deixando as
meninas paradas na minha frente, ruborizadas. — Não se aproveitem de
mim porque sou a “melhor” arqueira — fiz aspas com as mãos —, pois
posso mudar de ideia. Eu sei que vocês só querem que eu as salve das notas
vermelhas e que eu treine sem descanso, não finjam ser outra coisa.
Voltei a afundar meu rosto e a me debruçar. De um lado, queriam
me ver humilhada e, por outro, tentavam me ganhar com bajulações. Chega
de problemas.
Desde tenra idade, fiquei encantada com a elegância e precisão de
arqueiros lendários, e já dediquei horas incansáveis aperfeiçoando
habilidades de mira, força e concentração. O arco era a extensão da minha
essência, e cada flecha lançada voava como fogo dourado, cheio de lume.
Pensei em Hazel. O fato de ela saber a história da Alice me
provocava calafrios — simplesmente porque seus questionamentos sobre o
assunto rendiam uma aula inteira.
O celular vibrou constantemente no meu bolso. Mantendo a cabeça
baixa, eu o peguei, e acessei a mensagem que acabara de receber.
Acorda, sonhadora. Estamos na escola ainda.
Hazel parecia ter bola de cristal. Levantei a cabeça para vê-la chegar
na sala de aula. Ela parou na minha frente, tomando um Starbucks pelo
canudo. Ela havia comprado a bebida aquecida na nova cafeteria do
colégio, a que eu estava ansiosa para conhecer.
— Deu sorte que a professora se atrasou. Fiz algo para você.
Abri a boca e vi um papel ocultado propositalmente sob seus braços.
— Ta-dãn! — Expôs com alegria um desenho meu em forma de
Alice.
O uso do sombreamento atrelado com uma mistura elegante das
cores evoluíra em um pulo. Estava até melhor do que os desenhos da
semana passada. Na figura, eu tinha os cabelos louros e ondulados, estava
sentada segurando um relógio na mão e com expressão perplexa. O vestido
azul e branco parecia feito para mim. Por um lado, eu tinha preguiça de
encostar em um papel e criar algo do zero; já por outro, quando Hazel me
ensinava coisas básicas de como desenhar, batia aquela vontade de fazer
algo parecido.
— Desta vez você se superou — disse eu, e me espreguicei, abrindo
um bocão. Com os olhos marejados do nada discreto bocejo, analisei a obra
bem de perto. — Ficou perfeito!
O suspense que fiz e finalmente quebrei aliviou a tensão no rosto
dela. Se alguém a criticava, ela entrava em estado de pânico.
— Agora use a sua magia para torná-lo realidade. Plim! — Ela
esganiçou a voz, imitando o tilintar de fada.
Desprendi uma risada alta já presa desde o dia em que ouvi certa
revelação: em um futuro mais próximo, serei madrinha do seu casamento
com o Chapeleiro Maluco.
Ergui a alça da minha mochila, dobrando o desenho com cuidado e
guardando-o no bolso mais vazio. Fechei o zíper. Ao fitá-la outra vez, soltei
uma confissão:
— Já te contei que você combina muito com o Coelho Branco?
♠
Senti vergonha por querer ir embora. Nem esperei a professora
chegar para ir ao banheiro esfregar o rosto com tanta força que quis arrancá-
lo. Meu rosto estava abatido no espelho. Quando situações ruins surgiam,
papai lançava palavras positivas para mim:
Mabel, vai ficar tudo bem. Mesmo que o sol esteja escondido pelas
nuvens, mesmo que não possamos ver, ainda haverá luz.
Suspirei, bufando. Olheiras profundas, cabelo preto emaranhado,
exaustão marcando sombras ao redor dos olhos. As olheiras indicavam um
acúmulo de cansaço. Todos os espelhos, com sua superfície refletora e
brilhante, com certeza ocultavam alguns segredos. Eu tinha medo deles aos
9 anos e não dormia para o lado do armário que tinha um espelho pregado,
principalmente aqueles antigos com molduras.
Alterei as mãos de posição, antes apoiadas na pia. Havia uma
mensagem refletida no canto do espelho que passou despercebida.
— O que… é isso?
Inclinei a cabeça e tomei mais proximidade. Estava escrito:
Levadinha! Minha garganta se fechou. A tonalidade da palavra continuou
transparente e meio apagada. Já estava ali quando entrei?
Contraí os dedos, ficando desesperada. Do tanto que foquei em uma
coisa só, não percebi que não estava sozinha no toalete. Virei a cabeça após
um vulto surgir atrás de mim. Era uma menina da minha sala.
— Foi você — disse eu, acusando-a. Andei até ela e senti meus
olhos… esquentarem? Isso era possível? — Eu estou cansada dessas
pegadinhas! Seu grupinho não tem o menor direito de dizer quem eu sou ou
rir de mim pelos corredores. Eu desprezo vocês!
Percebi a menina tremer com passos nervosos para trás. Dei um
pulo quando ela começou a se engasgar com o próprio ar e produzir um
som de sufocamento, olhos se revirando. Eu observei seus joelhos
dobrarem, fazendo-a perder o equilíbrio e cair no chão. Ao tomar coragem,
cutuquei seu ombro só para notar o óbvio: estava desmaiada! Qual seria a
causa de sua reação?
Mal pensei em tomar uma decisão para ajudá-la, então logo desisti,
repleta de dúvidas sobre boatos que surgiriam por me virem arrastando uma
menina até a enfermaria. Portanto, resolvi deixá-la ali e não me envolver
mais. Queria pensar que sim, que era normal e que aquilo era um sonho,
mas a sublime pergunta me assombrou: até quando?
♠
Finalmente era um dia diferente, estava bem cedo e eu teria outra
oportunidade de começar com o pé direito. Joguei a bolsa que papai havia
me emprestado sobre a cama. Fiquei sabendo que o acampamento seria
realizado em meio a uma floresta soturna até a noite. Aquilo, em todos os
sentidos, soava ótimo para quem praticava arco e flecha como eu.
Reparei e estudei meu rosto no reflexo do espelho. O batom
modelado em meus lábios não estava justo o suficiente. Desisti de pegar a
maquiagem outra vez, e faltava 30 minutos para o ônibus chegar em casa.
Foi só encarar meu rosto novamente que novas palavras foram
escritas. Bem na minha cara.
Tão perdida…
Tentei não entrar em pânico, mas falhei ao perceber uma sombra se
projetar nas minhas costas pelo reflexo. Mamãe se aproximava de mim por
trás, o que me fez apagar rapidamente a mensagem bizarra com a palma da
mão. Notei o rosto cansado dela, adornado de preocupações.
— Pingo? Ainda se arrumando?
— Você continua a me chamar assim. — Revirei os olhos, forçando
um sorriso de canto. — Nunca me disse o significado desse apelido.
— Sabe a sua infância? — Eu assenti. — Você era tão pequena.
Cabelos ondulados e escuros, comportada e não dava trabalho algum. Você
é meu pingo de gente. Significa que ainda é a minha pequena.
Ela pôs a mão sobre meu ombro, na qual fiz um carinho.
— Eu vou voltar, mãe.
— Sei que vai. — Ela encarou o espelho. — Filha, a respeito do seu
tratamento…
— Não, eu não vou para aquele lugar. — Tentei tirar aquele
pensamento maluco da cabeça dela. — Eu estou bem, não vê? Imagine se
me tratassem mal lá. Vocês nem ficariam sabendo. Além disso, meu tutor
está inventando coisas para me prejudicar. Você sabe que é só…
— Uma imaginação fértil. Até demais — completou.
Senti a testa formigar. Sabia por que estava assim.
Ela tinha noção de que tive um trauma de infância que me
assombrava até hoje. Já me perdi aos 9 anos, andando pelas ruas sem
proteção alguma. Meus pais haviam saído e me deixado sozinha.
Demoraram séculos para voltar. Não podia ficar presa em uma casa que não
sabia cuidar. Ficava com medo de alguém entrar e me sequestrar. Mas eu
era mais velha agora, então reagia de outras formas quando alguma coisa
ruim emergia.
— É apenas uma fase. Estarei de volta e bem mais calma. Estou
apenas ansiosa, porque é meu primeiro acampamento.
— Não faça besteiras. Eu confio em você, mas…
— Mas…?
— Não se perca com sua amiga Hazel. Sabe que ela adora
aventuras, e é por isso que se dão tão bem.
— Verdade.
— Só fique de olho nas pessoas a sua volta, o.k.?
— Nós somos lentas, mas também somos inteligentes — disse eu, e
a fiz rir. — Estarei logo, logo aqui, de volta.
— Se cuida, filha.
Ganhei um beijo prolongado na testa, e ela saiu pela porta
parecendo um pouco mais tranquila.
Trancei o cabelo de forma única daquela vez, prontificada a
esquecer o evento das mensagens. Peguei três mechas, misturei-as
conforme as trocava de lugar. Separei o elástico em cima da mesinha de
cabeceira, também mesclando-o no topo da cabeça. O delineador e o resto
da maquiagem não estavam borrados.
Deslizei as mãos sobre o penteado que acabara de fazer, admirando-
o enquanto sentia o suave odor do xampu. Papai arrumou para mim uma
mala gigantesca, a qual eu tinha deixado organizada ontem à tarde,
acompanhada com uma bolsa de pertences pessoais. Mamãe havia pegado
metade dos itens do guarda-roupa e variados casacos, sugerindo enfiar tudo
na minha mala, porém, não permiti, pois estava prestes a quebrar a tranca
graças ao volume e peso das peças.
Mamãe tinha esquecido da comida, mas aquilo não era um
problema. A floresta que iríamos atravessar provavelmente teria frutas,
nascentes de árvores flamejantes ou pomares — coisas que eu gostava
desde nova. Mal podia esperar para caçar.
♠
Inclinei-me para a vista da janela. A professora de história, Claire,
estava responsável pela nossa turma. Ela falava com toda a energia do
mundo que acampar no meio de um bosque era incrível. Digamos que a
palavra "bosque" seria capaz de iludir os alunos, pois não era tão mágico
assim como imaginavam. No meu ponto de vista, o mundo real tinha
poucos lugares afrodisíacos.
Busquei por informações na internet sobre significados de alguém
com olhos que esquentam, e esperei, receosa, pelos resultados. Encostei
com os ombros tensos e tentei esconder a pesquisa de Hazel — ela não
podia desconfiar de nada.
Sempre, sempre estive normal. Nenhum problema de visão. Quanto
mais buscasse a fundo, mais eu ficaria com medo de descobrir o que havia
de errado comigo.
O círculo do carregamento terminou de rodar e enfim parou. Havia
entrado em um dos sites sugeridos do navegador e, conforme respirava de
forma acirrada, comecei a ler o texto mostrado.
Misturas da cor vermelha e azul nos olhos tornam-se violetas, mais
encontradas em albinos.
Eu não era albina. Contive a insatisfação e retornei à leitura.
Embaixo da demonstração de uma foto, dizia: A cor roxa, também
denominada como púrpura, está ligada ao mundo místico e significa
espiritualidade, magia e mistério. O roxo transmite a sensação de tristeza e
introspecção.
Com certeza caí em um site fake e místico, e nada fazia sentido, já
que era um blog aleatório e entrei para ver se encontrava uma palavra-chave
interessante. Ora, ninguém tinha olhos roxos ou lilases. Nada disso existia.
Esfregava o colar de borboleta acima do peito, que ganhei da
mamãe de aniversário de 16 anos, quando Hazel me cutucou.
— Grilo feliz. Nós chegamos.
Pela preocupação interna, eu devia ter sido indiscreta, pois Hazel
fechou meu queixo com o indicador.
— Onde estamos? — perguntei.
— Na Floresta de Dean. — Hazel encarou admiradamente a janela.
— A mais antiga da Inglaterra.
O ônibus parou, fazendo um ronco no motor. Não podiam entrar por
completo na floresta, e havia uma estrada vazia desbloqueada com a mesma
largura do coletivo. Senti saudades de papai. Ele adorava passeios extensos
daquele tipo, tanto que prometera me levar.
Torcendo para o transporte não tombar, o chão tremeu devido aos
pulos fortes que davam em sintonia. Sorri de canto, sendo contagiada aos
poucos, e, antes de sair, virei-me para Hazel.
— Pode ir na frente. Ficarei caminhando à procura de comida. —
Eu retraí a barriga, após escutar um ressonar de fome. — Vou caçar umas
frutas para nos alimentar hoje à noite.
Ela balançou a cabeça em negação, o cabelo ruivo batendo nos
ombros.
— Você e essa mania de se isolar. Por que não posso ir junto?
Porque talvez eu queira procurar um coelho albino de terno.
— Somos amigas, não somos? Você confia em mim, não confia? —
Não dei oportunidade a ela para protestar. — Então ficarei sozinha só por
alguns minutos. Meu arco e flecha vão me proteger.
Um som suave de água atroou na atmosfera. Retirei a flecha da
bolsa pela haste — uma estreita vareta — e o arco pela corda e a curva.
Despedi-me de Hazel enquanto andava para trás e desci as breves escadas
do ônibus. Ao pisar no solo, experimentei um caminho distinto do dela,
esbarrando em uma natureza inacreditável e fascinante. Árvores com
colorações alaranjadas e verde-fluorescentes me enchiam os olhos. Olhei
para baixo por acaso e vi meus cadarços amarrados, então me agachei,
fazendo um laço simples novamente. Partículas de luminescência se
espalhavam entre as folhas de outono. Havia árvores baixas e altas, muito
altas.
Suspendi meu vestido mediano para ver se meus tênis estavam no
lugar conforme ficava mais quente, portanto, tive a sorte de ver maçãs e
cachos de uva penduradas nos mastros. Apertei a barriga roncando.
Determinei os alvos à distância, erguendo o arco e a flecha. Meu corpo
ficou perpendicular à mira e desenhei uma linha imaginária. Segurei a arma
com a mão esquerda, virei meu ombro esquerdo e segurei a flecha e a corda
com a mão direita. Os músculos relaxaram e firmei o corpo. Encaixei a
haste na rabeira da corda. Então, por fim, coloquei a parte posterior da
flecha ao engaste dela. Posicionei-me e soltei.
As frutas estavam espalhadas em fileiras de galhos, de modo que
acertei duas, uma atrás da outra, atirando em postura reta. Fui até elas e
peguei a primeira maçã, mordiscando-a conforme dava pulos animados.
Deduzi que estava bem afastada do local em que o passeio deveria
ir. Torci para que não precisasse ficar por muito tempo procurando o ponto
inicial de onde vim. Mantive um raciocínio silencioso, andando mais rápido
ao lembrar do Coelho Branco.
O clima ficou mais gélido de repente, arrepiando os pelos dos meus
braços. Também peguei algumas uvas e senti o sabor meio doce e azedo
grudando no paladar. Meu estômago parecia satisfeito. Observei a mudança
de ambiente e franzi a testa ao sair da breve distração. Uma bolha
transparente e resplandecente se formava junto à revoada, e arregalei os
olhos. Inclusive, vi uma névoa formando uma só, pura e branca como
nuvens descarregadas. Ela parou à minha frente. Logo meus pés também
cessaram os passos.
Havia algo escrito ali. Algo surgindo vagarosamente, estranho e
recatado. Fiquei pensando se dava meia-volta e saía correndo à procura de
Hazel e da professora Claire. Mas, se eu fugisse, ninguém jamais veria
aquilo.
Corra… Corra, Mabel! Salve a Rainha Branca!
Ao ficar surpresa, soltei um gemido estertor dos lábios. Veio uma
dor de cabeça forte, e no peito… a mesma dor que me acordava quase todas
as manhãs. Eu só queria que parasse, pois parecia que estavam me enfiando
agulhas no corpo. Rainha Branca. A personagem dos livros de Lewis
Carroll que espalhava bondade pelo País das Maravilhas, diferentemente da
Vermelha, sua irmã mais velha. Por que ela precisava de salvação? Ela era a
figura mais protegida do Mundo Subterrâneo.
As letras, por fim, ficaram totalmente visíveis.
Após minha vinda primordial…
Fui instigada a dizer em voz alta. Repeti a frase que era
movimentada na névoa constante, começando a querer uma continuação.
… a solução deste mundo quase inexistente.
Após aquilo, a fumaça da neblina fechou a bolha em substituição
por outra, tremeluzindo. Quando sumiu por um período, perfurei o vapor, e
segui a reta dele, entrando em uma área mais obscura.
Expande uma melancolia bestial.
Falei novamente, mesmo não compreendendo algumas palavras.
Eram sussurros, recados baixinhos que queriam me ajudar.
E minha vontade o ressuscitará.
Pressionei os lábios antes de dizer. Eu não queria ressuscitar
ninguém.
Egoísmos à parte.
Ela sumiu mais uma vez, e atravessei-a sem desvios.
Ao entrar, a magia renascerá.
Ela desapareceu por inteiro. Poucos segundos se passaram e não
vieram mais frases. Caminhei mais adiante, esperando encontrar uma saída,
embora tivesse aparecido algo que chamou minha atenção de imediato. Sua
moldura era uma obra-prima em si, esculpida em resina dourada com
detalhes intrincados que pareciam ter sido habilmente entalhados à mão por
um artesão habilidoso de uma era passada. A resina assumia a forma de
folhas de videira entrelaçadas, com pequenas flores enfeitando seus cantos,
como joias preciosas. O espelho estava grudado em uma parede implantada
de floreios, não logrando uma saída.
Cravei os olhos nele. Estávamos frente a frente de novo. Fui me
aproximando, conforme minha intuição mandava. Estiquei o braço, mas o
fiz com várias suspeitas… Algo sólido e pesado grudou na minha mão e me
fez atravessar para dentro do espelho, enquanto fui puxada devagar. Eu
precisava saber. Senti como se estivesse mergulhando em uma força bruta
até sentir minha corpulência flutuar.
Tendo o pressentimento de sumir do mundo, a escuridão me
recebeu, possuindo minha mente e todos os seus segredos.
Fumaça de Narguilé
Eu estava em um sonho que repassava imagens de alguns minutos
atrás, no qual as entranhas da Floresta de Dean me engoliram.
Acordei zonza. Tive a sensação de que, além de mim em qualquer
zona do espaço, alguém estava comigo. Uma onda de choque percorreu
bruscamente pelos meus braços, os olhos doendo ao se abrirem. Avistei
duas cortinas amarradas do lado de onde eu estava deitada. Elas eram
felpudas e aparentemente antigas. Formavam sombras repousadas acima de
mim, causando-me conforto. Estava em um quarto?
Os espasmos contraíam os meus músculos das pernas e pareciam
estar acompanhados de câimbras. Apertei os lábios e estremeci por
completo.
Reprimi um grito que quase saltou da garganta. Surgiu um sorriso
gigantesco à minha dianteira, obrigando-me a prestar atenção em seus
detalhes, incluindo aqueles dentes enfileirados. Entrei em pânico, quando
dois extensos olhos verde-água e ostensivos preencheram o rosto do gato
gordo.
— Ela só pode ser louca. — Vi e escutei o irmão Tweedledee
retrucar para Tweedledum. — As ninfas não a escolheriam à toa. Oh,
vejam, ela acordou.
Ninfas. Recordava-me da entediante aula de Mitologia, onde a
professora estava passando slides sobre aquelas criaturas. Cometi o erro de
não ter me concentrado na explicação. Pelo menos me lembrava delas como
espíritos femininos conectados à natureza. Para resumir, eram fadas sem
asas que habitavam em florestas, assim como a Floresta de Dean.
O famoso rosto que dera de cara comigo era do Gato de Cheshire.
Ele era uma das figuras que mais me marcou enquanto lia As Aventuras de
Alice no País das Maravilhas, era misterioso, colorido e peludo. Por outro
lado, o animal tinha um sorriso inesquecível e horrendo, ainda mais ao vivo.
— Ora, ora, Mabel. — Sua voz grossa me deu arrepios. —
Estávamos à sua espera.
Primeiro, me belisquei. Em seguida, aproximei a mão do seu pelo, e
o gato flutuava e dava a impressão de quase desaparecer no ar,
sinuosamente. Senti os pelos macios e azulados de sua cabeça escorrerem
entre meus dedos quando o acariciei.
— Arrisco que está curiosa de como veio parar neste lugar. — O
gato pairou de cabeça para baixo no ar, admirando meu rosto.
— Do espelho. — Assenti com a cabeça. — Mas onde me
encontraram?
— No Jardim das Rosas Brancas — os gêmeos Tweedledee e
Tweedledum falaram em uníssono. Eles geralmente discordavam um do
outro e só apareceram no segundo livro, Alice Através do Espelho. —
Encontramos você caída de bruços no chão e depois a levamos para um
quarto vazio até que se recuperasse.
Devia ter sido doloroso levar uma pancada de frente em um
concreto duro.
O arco e flecha que eu carregava estavam no cantinho, perto de uma
mesa posicionada à minha direita. O local atual era branco, como paredes
hospitalares, um pouco escuro e fechado. Levantei-me devagar e virei o
pescoço. Uma lareira em mármore branco se destacava em uma parede.
Embora estivesse frio, senti uma atmosfera acolhedora chegando de
mansinho até a cama — havia um majestoso leito de dossel, com colunas
altas e esculpidas, feitas de madeira nobre. As cortinas brancas e
translúcidas suavizavam a luz natural que entrava pelas janelas.
Não acreditava que estava em um lugar onde sempre quis estar,
naquele mesmo momento e quando eu mais necessitava conhecer.
Optei por não dizer nada sobre os livros de Alice.
— Quem são vocês e por que parei aqui?
— Cheshire é meu nome. — Girou sem sair do lugar. — Estes são
os irmãos Tweedledee e Tweedledum. Os espelhos, menina tola, sempre
sabem para onde nos levar. No seu caso, ele a trouxe ao coração deste país.
Tola. País. Um gato roxo e azul rodopiando no ar. Minha cabeça
começou a doer.
— É… Como este lugar se chama?
— Reino Branco, o coração deste país — ronronou Cheshire, a vista
piscando lentamente. — Ou Castelo Invernal, como quiser chamar.
Graças a Deus! Imaginei que se eu fosse parar nas mãos da Rainha
de Copas, a personagem mais temível e temperamental que já existiu em
um conto para crianças, estaria com a cabeça perdida.
— Hum, e isso tudo? — Gesticulei, abrindo um leque no ar.
— País das Maravilhas.
Senti algo cálido no peito — provavelmente felicidade por estar
onde eu queria estar. Mas senti uma tristeza melancólica invadir meu
subconsciente, tendo dúvidas se era um sentimento meu ou do lugar. Em
seguida, lembrei da principal frase antes de chegar aqui: Salve a Rainha
Branca.
— Preciso tirar algumas dúvidas. — Encarei a todos, um por um, e
eles se mostraram dispostos a ouvir. Como explicaria minha situação sem
dar a entender que queria revirar aquele mundo? — Meus olhos. Eles
arderam uma vez após se comunicarem comigo no espelho. Não foi uma
alucinação, eu juro.
As criaturas se entreolharam.
— Alucinação. Essas coisas são inexistentes — desconsiderou
Cheshire. — Levarei você aonde saciará essas incertezas agora. Arrume-se.
Será um longo caminho a percorrer.
♠
Hazel piraria naquele lugar. Há dois anos vinha repetindo para ela
que sim, as flores conversavam. Algumas eram rosas, amarelas, azuis… Eu
as vi no percurso do trajeto, enquanto Cheshire me acompanhava, e escutei
suas fofoquinhas. Com certeza o assunto era eu, a única novidade que
aparentemente surgira.
Parecia que, realmente, nunca existiu a Alice Liddell dos contos da
história de Lewis. E a Toca do Coelho, então? Por que mudaram o caminho
para o Mundo Subterrâneo?
O Jardim não parecia feliz. Algo apertou meu peito, dando-me
aquela impressão. Tudo era tão belo, tão… inalcançável. Por que até a
tristeza rondava um lugar perfeito?
Cheshire estava um pouco preguiçoso para me levar ao caminho
certo. O livro As Aventuras de Alice no País das Maravilhas entregava as
nuances de sua personalidade. Ele nunca levara Alice para algum lugar,
apenas a guiara em palavras, sendo o melhor no papel de observar aquele
mundo. Toda a ambientação, desde as construções civis às roupas que as
criaturas trajavam, tudo me lembrava o início do século 20: vestidos
flapper, paletós com coletes e calça combinando, geralmente feitos de lã.
Os chapéus eram a parte que eu mais gostava.
— Consegues seguir a via sozinha? — Cheshire deslizou na
atmosfera à minha vista. — Sugiro que não se desvie dela.
— Se eu aguentar. — Dei um longo suspiro para continuar falando.
— Não vou ser louca de me afastar dela. Pode deixar.
— Cuidado com as tentações, Mabel. — Era um alerta. Sua voz
assombrosa me deu a certeza. — Elas sempre arrumam um jeito de se
aproximarem.
O felino evaporou, deixando no ar mais um dos seus avisos. A
temperatura ambiente era abafada, mas não o suficiente para me fazer assar
por baixo da roupa.
Ouvi uma cantoria oculta de longe, além de uma fumaça
desagradável preencher minhas narinas.
Narguilé.
A Lagarta Azul, segundo meus conhecimentos, fumava tabaco
aromatizado naquele cachimbo conhecido como narguilé. Era tão forte que
tossi a fumaça e quis colocar tudo para fora. Adiantei os passos, ansiosa, e
reconheci a canção perdida.
— Pisca, pisca, morceguinho — aproximei-me mais, seguindo a voz
hipnotizante —, onde estás nem adivinho…
Meu coração palpitou. Aquela canção se assemelhava ao poema do
Jaguadarte, o que me causou tanto nervosismo em saber que aquela criatura,
além das que já conheci, poderia estar por aí. Mas não era hora nem lugar
de ter outra crise.
— Lá no céu, como travessa para chá, voas depressa — completei a
cantiga, chegando ao destino.
Ao meu redor, um enorme jardim de rosas vermelhas me cercava,
parecendo admirar a música. As rosas dançavam, cara! Ainda por cima
tinham mais silhuetas curvilíneas do que eu.
Um perfil surgiu entre a emanação venenosa. De repente, a sombra
viril dirigiu-se a mim, expondo sua forma melhorada. Tapei a boca com a
mão após me lembrar de que não deveria cantar as canções ali. Deveria
mostrar que não sabia de nada.
A sombra usava um blazer, luvas com aberturas nos dedos e…
sangue. Era um homem de cartola que se cobria de sangue até o pescoço.
Por que diabos eu tinha que falar logo com ele? Aquele gato estava
querendo me assustar mesmo.
Decidi dar meia-volta, mas seu sotaque britânico interrompeu minha
rota de raciocínio.
— Você deve ser louca por vir para cá — comentou ele, analisando-
me da cabeça aos pés. Pelo visto, eu cantei baixo. Quando percebeu o terror
estampado na minha testa, um sorriso de canto dançou nos seus lábios. —
Assim como Alice Liddell. E isso não é sangue de criaturas, e sim de todas
essas rosas. Prazer, Selênio.
Compreendi tudo após ver gotas sangrentas caindo delas, maculando
feito tinta recém-esparsa. Para um rapaz sombrio, ele parecia acessível.
— M-Mas… Por quê?
— Almas do Reino Vermelho. — Havia um regador no chão, e ele o
pegou pela alça, arriando na direção das rosas e banhando-as de um jeito
atencioso. — Elas as representam.
O ser me estudava de um jeito que eu chegava ao ponto de checar as
minhas roupas, investigando se havia algo de errado. Uma coisa que eu não
deveria ter feito, acabei fazendo: encarei as rosas sendo banhadas e
perdendo sangue, cujas pétalas se moviam como asas ansiosas e algumas
exibiam dentes caninos para mim. Então, deixe-me ver se entendi: os
súditos da Rainha Vermelha tornavam-se flores?
Uma delas, de repente, enfrentou-me:
— Perdeu alguma coisa?
— Você… é asiático? — Eu sinceramente estava me assemelhando
a Alice e enchendo-o de perguntas, porém, não pude deixar de notar alguns
traços orientais nele. — Conhece Alice?
Ele sugou o tabaco pelo tubo, assentindo.
— Éramos amigos de infância, mas o que seria asiático? — Pôs
ênfase na palavra que, para ele, era inédita, liberando a fumaça pela boca. A
seguir, estalou os dedos do nada. Uma ninfa, de aparência irresistível como
uma sereia, atendeu rapidamente o seu chamado, saindo de trás de uma
árvore próxima. Um bando chegou logo depois a fim de ajudá-lo. — Ah, eu
acabei de chegar de um desaniversário — murmurou, sozinho. — Estou tão
cansado.
Alice tinha um amigo daqueles? Inclusive, ele proferiu o nome com
descontentamento… com tristeza. Seria saudade? Ah, não importava. Se ele
fosse igual ao Chapeleiro, aquilo me deixaria mais animada, por ser o meu
segundo personagem favorito — ele podia avançar ou retroceder no tempo
através de seu poder herdado da família. Aquilo podia incluir coisas como
congelar o tempo, reverter ou até mesmo viajar por diferentes épocas.
— Descanse, mestre! — acrescentou uma miniatura de fada, quase
que esganiçando. Depois, referiu-se a mim. — Só quem pode cuidar deste
lugar somos nós, nobres e devotos à linhagem escarlate.
Eu coloquei as mãos na cintura, encarando seus sapatos verdes e
gastos calçados. Selênio desfez o nó de sua gravata-borboleta com feitiço.
Um lápis preto com sombra marrom ao redor dos olhos dele destacava a
pele pálida.
— Como são os olhos das criaturas daqui?
As ninfas se prontificaram a continuar a cantoria que acalmava as
rosas — babando uma gosma branca ao falarem — enquanto Selênio
voltava sua atenção para mim.
— Os indivíduos do País das Maravilhas não têm uma formação
certa dos olhos. Alguns nascem com eles grandes, outros angulosos, outros
pequenos demais… Na testa. — Apontou. — São inúmeras raças para
contar.
— Eu não me assustaria com uma coisa dessas.
O estranho gostou da minha resposta sarcástica e estalou os dedos
mais uma vez, só que prestes a me mostrar algo. Atraída, meus olhos
varreram seu chapéu extravagante se mexendo sozinho. Ele bateu para
controlar o que quer que estivesse ali dentro.
— Ah, entendo. Então feche os olhos.
Tentei relutar em vão, e Selênio parou atrás de mim. Minha
articulação se agitou quando a voz britânica soprou bem na minha nuca, no
intuito de parecer misteriosa e sedutora. Ou tais adjetivos eram coisa da
minha cabeça?
— Eu posso ensiná-la a fazer alguns chapéus, se quiser. Não há
chapeleira alguma neste mundo que tenha o meu dom de fazer… Isso.
Selênio havia tirado uma grande xícara de chá colorida de dentro da
cartola, fazendo-me abrir a boca em total espanto, inconscientemente. Ao
olhar com mais atenção para a peça de louça, percebi que tinha… UM
CAMUNDONGO! Tinha um camundongo mergulhado na xícara!
Percebi que as fadas, enquanto sobrevoavam para irem embora,
zombavam de mim e davam risadinhas. O camundongo bufou.
Balancei a cabeça em negativa.
— Vou recusar essa oferta. Talvez na próxima eu aceite.
Selênio se afastou e devolveu a xícara do tamanho de uma bolsa de
viagens à espécie de cartola. O mesmo grupo das ninfas — vulgo o grupo
que me tratava como se eu nem existisse — deu um recado a Selênio. Com
presteza, escutei um “feia e lenta!” e, em réplica, Selênio disse: “eu não
diria isso, suas fadinhas invejosas”.
Envergonhada e em órbita perante as revelações, inventei outra
pergunta.
— Teria outro lugar que me trouxesse até aqui? Um que os levasse
ao reino humano também?
— Não. Nem pela Toca do Coelho. — O misterioso rapaz fingiu que
a conversa secreta não tinha a ver comigo. Fiz um esforço calculado para
agir meio inocente, mas era difícil.
— Hã?
— Já existiu um buraco abaixo de uma grandiosa árvore, dando
caminho para cá, o lugar debaixo da terra. — Ele saiu andando e
recomendando que eu o seguisse. — A Toca do Coelho foi demolida após a
conturbada vinda de Alice.
Senti um arrepio nas têmporas. E se eu não fosse capaz de voltar? E
se eles não me deixarem voltar?
— Qualquer um poderia simplesmente tropeçar e cair, parando no
País das Maravilhas — retirando as luvas, revelou mais uma sujeira
sangrenta nas mãos — e virando o Mundo Subterrâneo de cabeça para
cima. Fechamos aquela entrada. Mesmo com a floresta desabitada, não
poderíamos correr esse risco.
— E o Espelho foi construído — preenchi o esclarecimento. Os
espelhos seriam obras das ninfas? Será que alguém caíra pela toca e ficara
preso por todos aqueles anos?
— As ninfas florestais avisaram da sua chegada após eu ter usado o
poder para interagir com o Reino Humano. Seja bem-vinda, Mabel. Espero
que não cause muitos estragos por aqui.
Fora ele! Ele era o remetente das mensagens no espelho! Da maioria
dos meninos que conheci em Brighton, nenhum deles se comparavam a
Selênio; aquilo pela beleza que a possível Lagarta Azul herdava. Saber da
Toca do Coelho também era intrigante… Acabei imaginando orelhas
brancas presas no topo da cabeça morena. Era como se aquela pessoa fosse
moldada de vários personagens inventados ao mesmo tempo. Ademais, a
palavra “levadinha” só podia ser coisa do Chapeleiro.
Admiti que ainda estava curiosa sobre a Rainha Vermelha.
— Selênio — comecei, receosa —, esse reino de que falou, o Reino
Vermelho, está abandonado?
Esqueci onde estava. O próprio Reino Vermelho me envolvia —
percebi pelas cores, árvores estranhamente retorcidas e esculturas que
pareciam se mexer quando olhamos para elas. O silêncio externo conduzia
consigo uma história sombria.
Selênio fez menção para as ninfas saírem, pois não precisava mais
delas. Ele retesou o maxilar.
— Atualmente, a situação é uma bagunça. Não há ninguém para
suceder o trono. A Vermelha, antiga Majestade deste recinto, foi morta.
Engasguei-me com a saliva e dei tapas no meu peito.
— Você está bem? — Ele deu um passo em minha direção. A
profundeza de seu olhar encontrou o meu, confuso, e aquilo provocou uma
pequena reação em mim; fogo impelido por uma pequena fagulha. Não
sabia se deveria continuar tão próxima.
— Estou. — Tentei conter o frio esmorecendo debaixo dos meus
ossos. — Estou bem.
A Vermelha estava morta. Não caiu a ficha até então. Supus que a
Rainha Branca não deveria estar nada harmoniosa sem a irmã do seu lado, e
aquilo me preocupava.
— Me conte… Morta por quem? Quem faria essa maldade? —
disparei nos questionamentos.
— É confidencial, donzela.
— Vou provar merecer sua confiança.
— Acontecimentos inesperados. — Ele facilmente ignorou minha
oferta de confiança, assim como ignorei a sua. — Não confio em humanos.
Sabe, donzela, as palavras soam genéricas saindo de sua boca. Devo dizer
que tenho certeza de que está se esquecendo de informações valiosas sobre
sua própria história.
De supetão, minha mecha acastanhada caindo na vista foi tocada por
Selênio, que a tirou dali. Ele agia como se me conhecesse bem, adivinhando
possíveis traições minhas em um futuro sem Alice. Dar as costas para as
criaturas e viver outra vida construindo uma família, e dar as costas para
ele, provavelmente fora a maior prova de laços rompidos.
— Você e eu… já nos conhecíamos antes? — perguntei.
— Certamente, não — respondeu Selênio. — Eu teria me lembrado
de uma sósia de Alice meio rebelde. Vamos, estão esperando por nós.
Se eu fosse realmente Alice, também abriria um mar de lágrimas,
visto que só ficava mais confusa.
— Quem estaria me procurando ansiosamente?
— A Lebre de Março.
A Lebre era ninguém mais, ninguém menos que a amiga do
Chapeleiro Maluco e a atração principal dos desaniversários. Na história,
havia muitas provocações contra Alice, regras quebradas, esquisitices e
explosões de energia durante a festa do chá. Não sei se ficava contente ou
com medo por estar prestes a conhecê-la pessoalmente, e não apenas pelo
clássico de Carroll.
Eu tinha de confessar uma coisa: a lebre era assustadora. Além de
ter orelhas enormes e saburrosas, descontava em tudo que via pela frente
como uma genuína psicótica.
Precisamos jornadear até o Reino Branco mediante todo o trajeto
que percorri com Cheshire. O lado bom foi exercitar minhas terríveis pernas
sedentárias, doloridas e quase dormentes e, além disso, admirar a beleza da
natureza sobrenatural. Havia uma cachoeira ao sul pelo caminho e um
pântano a oeste; nem queria descobrir quais bichos poderiam estar ali.
A inquietude afastou-se de mim quando senti uma brisa golpear
minhas tranças enredadas sobre os ombros. Relaxei e me concentrei na
paisagem venusta — parecendo se agitar com minha vinda, transbordando
pigmentações na abóbada celeste. As árvores rosadas curvaram-se
conforme o vento se colidia nelas, como se fizessem reverência. Eu estava
no Reino Branco.
Depois, foquei naquilo que seria essencial para novas descobertas
sobre a Rainha Branca. Um portão cor-de-prata nos recebeu, Selênio na
vanguarda. Será que a Rainha Branca sabia que eu não tinha uma casa?
Uma borboleta azul-polido fez cócegas na minha nuca. Ela roçou as
asas na minha pele e depois foi embora. Eu abri um sorriso mínimo,
finalmente me sentindo bem.
♠
Carreguei meu arco e flecha com mais força, garantindo uma
proteção. Abracei-o contra minha barriga e, em seguida, escutei o que já era
previsto: talheres e xícaras de chá sendo arremessados na parede. Selênio
notou minha esperança de ver criaturas controladas se esvaindo. Encorajei-
me de pisar na cozinha, encarando a Lebre de Março direto nos olhos
amarelados, vastos e horripilantes. Sua orelha direita estava levantada, e a
outra inclinada para baixo. No focinho, notava-se que era bem dentuça.
Um faro intuitivo me alertou. Ergui meu arco para frente e atirei em
uma taça de vidro que, por pouco, iria me acertar. Ela voou para o chão pela
última vez. Fiquei surpresa comigo mesma.
— Bela pontaria. — Selênio colocou as mãos nos bolsos. — Como
sabia que ela a atacaria?
Pensei em uma resposta rápida.
— Sexto sentido.
Boa!
O odor culinário da Lebre me espantava. Uni energias para lutar em
combate com meu estômago que roncava. Doeu me lembrar que só comi
aquela maçã.
— Mabel? — Ela largou os pratos trincados na pia e saltitou na
minha direção. — Preparei um lanche de boas-vindas especialmente para
você.
O animal ampliou os olhos. Se o objetivo dele era me assustar,
estava conseguindo.
— P-Para mim? — Forcei um sorriso. — Não sei se devo…
Ela enfiou uma colherada de sopa praticamente na minha goela.
Lambuzou meus lábios sem dó nem piedade com o líquido espesso, e então
meu paladar entrou em puro atrito, sentindo um gosto repulsivo.
— O que é isso? — O líquido escorria no meu queixo.
— Sopa de minhocas.
Senti náuseas, e peguei rapidamente um lenço oferecido por Selênio.
Ele já sabia da reação que eu teria e me trouxera mesmo assim.
Higienizei a boca com urgência e acabei, no final, engolindo um
pouco da sopa. Sem dúvida fora uma má ideia vir para cá, mas minha
compaixão de aceitar ser acolhida pela Lebre havia sido maior.
— Da próxima vez, coloque um pouco mais de sal.
Oprimi um sorriso constrangido, virando as costas e andando até a
porta da saída da cozinha real. Procurei esquecer a situação ocorrida,
formulando perguntas na cabeça. Selênio ainda me guiava, pois eu não
sabia onde ficava o quarto de hóspedes.
Lembrei-me de algo importantíssimo.
— A Lebre sempre cozinha ali?
— Não em exato. Mildred, a Rainha Branca e possuinte do Castelo
Invernal, está com alguns problemas de saúde, pois não superou a morte da
irmã mais velha: a Vermelha. A Lebre a está substituindo por um período.
Quando percebi, estávamos na porta do aposento temporário. Então
a Rainha estava doente. Como não pensei naquilo antes? Será que um
súdito da própria realeza fizera aquilo com ela?
Não. Seria demais para a minha cabeça.
— Estou atrasado para colocar ordem no exército Vermelho. Nos
vemos depois, donzela.
Atraso é algo típico do Coelho Branco, pensei. Selênio
correspondeu quando me curvei para me despedir. Pretendia dormir mais
cedo, por não ter noção do horário em lugar algum.
Dirigi-me à maçaneta dourada da porta e a abri lentamente. Lá
dentro havia um casal de cães e seus filhotes. Todos sobressaltaram do
chão, parecendo assustados ao me ver.
— Querido — o animalzinho ficou perante os filhos —, creio que
este lugar não nos pertence mais.
— Desculpe-nos, não sabíamos que o quarto lhe pertencia. Vamos
— disse ele, enquanto me encarava.
Retruquei, agitada:
— N-Não! Podem ficar, eu não os deixaria desamparados. Podem
ficar — afirmei, e balancei a cabeça.
Os olhos da cachorra brilharam, e ela uivou em pleno
agradecimento. O cão falante talvez soubesse do estado da Rainha…
Curiosa, sentei-me na beirada da cama e o chamei em um gesto, tentando
proximidade.
— O que desejas, Mabel?
— Todos aqui sabem meu nome. Como?
Ele fungou.
— Um Oráculo foi aberto para sabermos a maneira de ajudar o
Reino futuramente. Você foi mencionada nesse adjutório.
Meu objetivo ali parecia incompreensível até o momento. Eu mal
havia pensado em concluir missões.
— Acho que não sou a garota certa para isso. — E eu também tenho
uma vida lá fora, embora fosse um pouco entediante.
— Você é, sim. — Ele fungou novamente. — O Oráculo não mente.
É uma divindade em forma de pergaminho. Seu propósito, mesmo que
desconhecido, é meritório e inquebrável.
Reconheci sua lição, estando de acordo.
— Como posso ajudá-los? O primeiro que deveria me guiar melhor
era Selênio, mas ele parece ser uma caixa de segredos. — Suspirei. — Ele
contou sobre a doença da Rainha. Preciso saber por que e como isso
aconteceu.
E, para melhorar, esqueci de perguntar a ele sobre os meus olhos e
as mensagens no Jardim das Rosas Vermelhas.
— Você… precisa socorrê-la. — Seu semblante ficou tenso. — A
perda da Vermelha e de sua filha a perseguiu até ela fechar os olhos. Caiu
numa depressão tão profunda quanto a vontade de reencontrá-la. Está tão
doente que mal pode acordar.
Comecei a ficar nervosa e apertei os punhos. As fadas sabiam a
forma certa de eu ajudar em algo. Poderia ser qualquer outra pessoa, mas eu
fui a escolhida por alguma razão.
— Não sei. — Prensei os olhos, evitando chorar. — Não costumo
ser especial para ninguém.
— Mabel… — Ele subiu na cama, aninhando-se do meu lado. —
Todos daqui confiam em você. Tê-la no País das Maravilhas é uma profecia
que precisa ser cumprida. Nós acreditamos que você a salve de alguma
forma.
O coração do cão era nobre… Meu nome em sua voz saía delicado e
gracioso feito um cortês. Afaguei minha mão nos seus pelos,
carinhosamente, e a outra sobre a minha perna. Se meus pais e Hazel
estivessem comigo, o apoio moral deles me daria segurança.
— E Selênio? — perguntei.
— Selênio… Ah, Selênio. — Sorri, tristemente. — Era subordinado
da Rainha. Ainda é. Ele não espera que alguém consiga descobrir o passado
dela e ampará-la da depressão. Prove-o que está disposta a salvar o País das
Maravilhas e seu coração.
Não tinha como retroceder. Estava sendo uma marionete de
inventividades, sonhos e fantasia. Eu havia cortado a própria cabeça.
Sede de Sangue
Outro ruído saiu nos fundos do jardim reluzente, portanto, fez com
que o instinto curioso despertasse, e o ar se reteve, preso em meus pulmões.
Estou lutando para não ultrapassar meus limites, mas a adrenalina do vento
jogou meus cabelos para trás, arrepiando a minha pele, como se alguém me
tocasse.
Ergui o arco na minha frente. Eu murmurei palavras encorajadoras e
confiantes, como um calmante. Rangi os dentes, quando notei o som se
esvaindo, e resolvi acelerar os passos até certo ponto. Busquei rastros pelo
chão. Senti-me como a verdadeira Alice à procura do Coelho Branco, o
qual carregava sempre um relógio marcando horas contadas no bolso.
Minha garganta ficou seca só de pensar em um buraco enorme me
engolindo. Acostumei-me um pouco com a leve loucura, me absorvendo a
ponto de fantasiar o momento.
Corra, Mabel. O País das Maravilhas está desmoronando.
Eu fiquei muda, o coração quase saltou pela boca. Um zunido
atordoante interrompeu minha linha de raciocínio. Não senti meus ouvidos
funcionando por segundos, logo eu não sabia mais onde estava. Lágrimas
rolaram nas minhas bochechas.
Abri a vista com dificuldade máxima comparada à complexidade de
parar aquela aflição desenfreada. A sapatilha que estava calçando foi
arrancada em um canto do jardim de acordo com minha agitação durante o
aperto que passei. Frágil, desviei o rosto para o chão e me deparei com uma
mancha de sangue transformando a grama — que antes era viva — em
morta.
Procurei de onde viera o rastro sangrento, e uma pontada subiu a
parte de baixo do meu corpo, parando nas pernas. Mal pude emitir um
gemido sufocado. Pedaços de um espelho estavam em volta de mim,
indicando que eu havia cortado o pé neles. Atrevi-me a agachar, vendo o
próprio reflexo surgir em um deles. O clima do ar ficou instigante, batendo
nas costas.
Apanhei por alguns segundos minha imagem, estudando a superfície
reflexiva. E o sol me refletiu. Fios coloridos de luz trocaram a cor de meus
olhos, tornando-os em roxo-ametista. Meus músculos se contraíram ao
imaginar o estranho reflexo sendo autêntico.
Pronta para fazer os curativos da ferida, larguei o objeto cortante na
superfície. Aquela não seria uma boa hora para ir mais fundo na possível
busca do Coelho Branco.
♠
Uma lufada de ar fresco invadiu meu nariz sem pedir permissão,
finalmente me despertando. Incrédula comigo mesma, eu jurava ter tido um
pesadelo. Mas tive.
— Por pouco teríamos que usá-los. — Uma mulher de vestido
branco e bordado, aparentando ser uma Alteza, suspirou, aliviada, para os
irmãos Tweedle. — Ela não acordava de jeito nenhum!
— Nossa, os seus olhos são lindos — confessou Annie.
Engoli em seco. Não estava acostumada com elogios repentinos.
— Quem é você?
— Annie, sobrinha da Rainha. Já deve conhecê-la. — Ela escondeu
alguns baldes cheios de água atrás das pernas. — Lamento por isso.
— Imagina. Eu tenho um sono pesado. — Dei uma risada, sabendo
que, por um fio, eu seria acordada e encharcada logo pela manhã. — Sua tia
está bem?
— Ah, minha criança… Ninguém sabe o que ocorreu em seu
passado. A filha desapareceu logo depois do nascimento. E, anos depois…
perdeu sua irmã.
— Não me explicaram ainda sobre isso.
— Soubemos que a Vermelha — começou ela, atenta às palavras
suspensas no ar — duelou com a maligna Rainha de Copas há algum
tempo. Ela é a mais conhecida por torturar os próprios súditos e depois
devorá-los em um banquete. Alguns a confundiam com a Vermelha, por
serem parecidas, embora tivessem um tipo de liderança oposto. As duas
nunca foram amigas, e se fossem não teriam combatido. Apenas Selênio
sabe o que aconteceu, mas…
— Mas? — pedi por uma continuação. Se não fosse por sua
explicação, eu teria achado que as duas rainhas eram apenas uma, pois no
livro clássico de Alice era assim.
— Como você é de minha confiança provada pelo Oráculo, lhe
ditarei o caminho certo — disse, e ajeitei-me na cama, pronta para ouvir
qualquer coisa. — Existem variados tipos de deusas no País das Maravilhas.
A das memórias, da compaixão, das profecias. A mais concreta e segura
para guiá-la é Ellis, a deusa memorial. Só ela saberia toda a transparência
do passado dessas rainhas.
Eu inclinei a cabeça, pensando.
— Por que eu? Vocês podiam muito bem tirar satisfações com ela.
— Não se sabe. Se a profecia diz, ela terá de ser cumprida.
Meu estômago vazio roncou. A sopa de minhocas de fato o revirara
de ponta-cabeça. Franzi a testa ao imaginar Ellis me rejeitando.
Menina tola, acha mesmo que eu vou lhe contar?
Não seria impossível.
Apertei a corrente metálica do pingente entre os dedos e me
concentrei em Annie, meio apreensiva.
— Pensarei mais sobre isso.
— Isso é bom. — Ela sorriu. — O cão de guarda da Rainha me
contou a respeito do seu medo. Não deixe que ele a pare e te cegue. Reflita
sobre as suas escolhas.
Igual ao jeito dos herdeiros Brancos, ela se retirou graciosamente,
com postura e espiritualidade. Não sabia por quê, mas eu estava feliz.
Mas primeiro iria buscar a verdade sobre o mistério que nos
envolvia.
♠
Apenas Selênio sabia do acontecido. Nada me fazia esquecer aquela
frase. Será… Seria possível que ele tivesse culpa na doença de Mildred por
alguma razão? Ele era seu subordinado. Se minha teoria estivesse certa,
precisaria de provas concretas, mas Selênio não me dava medo algum.
Bom, mesmo assim, eu me sentia no dever de confrontá-lo discretamente —
visto que senti que fui chamada ao espelho por ele também.
Cheshire me dissera o caminho para a Oficina dos Chapéus e apenas
me observava. A cada passo que eu dava ao ar livre, mais as sombras se
moviam. Eu me sentia pequena em comparação à exuberância da natureza
ao redor. Enquanto avançava, pegadas surgiam e desapareciam
misteriosamente na terra macia, indicando o caminho certo do qual
Cheshire havia mencionado anteriormente.
Uma pequena fogueira do lado de fora apareceu primeiro do que a
casa. Depois, erguia-se uma casa peculiar, construída com cartolas e cartas
de baralho empilhadas umas sobre as outras. O telhado era feito de um
chapéu cônico invertido, com um enorme pompom vermelho no topo. A
casa do Chapeleiro Maluco parecia viva e vibrante com seus padrões
extravagantes. As janelas eram olhos desenhados com tinta e a porta tinha
um sorriso largo e desigual. O ar ao redor exalava um aroma de chá recém-
feito e chocolate. Estantes cobertas de veludo exibiam fileiras de cartolas e
chapéus de seda, cada um com uma etiqueta engraçada ou um laço
extravagante. O som de risos e conversas animadas encheu o ar, apesar de
que ainda não havia aberto a porta.
Quando rodei a maçaneta, vi sua figura.
Tomei um susto após ver Selênio sem camisa. Não consegui parar
de reparar em seus músculos pouco definidos no abdômen e que marcavam
os braços magros — os quais eu nem sonhava que fossem atraentes. Selênio
não havia percebido a minha presença. Ele só… trabalhava: falava sozinho,
falava com as paredes e as peças para confeccionar chapéus da moda da
época. Algo me dizia que ele estava fora de órbita e agindo através do
instinto. Eu desviei o olhar em pleno constrangimento.
— Selênio — chamei-o.
Ao ouvir minha voz, recebi a pequena atenção que desejava. Vi seu
rosto branco como papel — tirando as maçãs do rosto levemente coradas —
contrastar com os cabelos negros desgrenhados, iluminados pela serpentina
da sala. Seu peito estava com manchas de tinta colorida.
— Quem…
— Mabel — respondi. — Lembra? A versão de Alice meio rebelde.
O olhar agitado de Selênio logo focou em um único ponto.
— Mabel Hall? Oh, Mabel… Ajude-me. Não sei o que fazer para a
Majestade acordar. — Ele jogou alguns materiais para fora da mesa,
insatisfeito, e pisou em cima de papéis abandonados no chão, suor
escorrendo por sua testa.
— Talvez fosse melhor começarmos organizando este lugar —
sussurrei, mas ele não ouviu. Estava distraído com a própria mente.
— Todos os dias penso em criar presentes artesanais para fazê-la
feliz. Olhe! Este foi feito pensando especialmente no dia em que ela me
resgatou da prisão.
Ele não era o mesmo. Não era a pessoa que dissera que desconfiava
dos humanos.
— Da… prisão? — perguntei.
Depois toquei no chapéu quando Selênio me mostrou; era branco
com adornos de rosas e duas fitas que encaixariam perfeitamente no queixo
de Mildred, estilo rendado e anos 30. Não entendi sua personalidade, sua
atitude. De alguma forma muito estranha, tudo parecia ter se misturado.
— Sim, prisão. Na época, um mensageiro a relatou que um louco
estava perturbando a Ordem (a Lei) e que queriam condená-lo. Ela foi a
única que, com sua autoridade magnânima, desejou reivindicar sua
liberdade como se já o conhecesse. Dias depois, por algum milagre, a
justiça se convenceu de que o louco não era uma ameaça mortal e, desde
então, ambos começaram a trabalhar juntos para construírem um reinado
onde a loucura e a benevolência coexistissem em perfeita harmonia. Por
isso um chapéu branco, para lembrar sua linhagem e sobre o que aconteceu
naquele dia.
Enquanto absorvia suas palavras velozes, eu também buscava quais
eram os principais sentimentos que Selênio transmitia pelo olhar. Ele
demonstrava ser o mais afetado pelo estado de Mildred do que o restante
das criaturas, e eu acreditei nele, por fim.
— Acho que estou enlouquecendo — disse Selênio, interrompendo
meus pensamentos. — Isso é repugnante, não é? Ser tão… diferente.
Decidi me aproximar para o centro da oficina e ficamos frente a
frente. Deixei o coração comandar as minhas ações: segurei o seu rosto
tenso com as duas mãos. O que deveria ser feito era…
— Ser diferente é como ser único. Todos aqui gostam de você desse
jeito, Selênio, e eu também.
Não queria sentir pena dele. E não senti. Um sorriso se formou em
meus lábios no momento em que seus olhos finalmente focaram os meus e
em mais nada. Era engraçado ver aquelas bochechas sendo apertadas com o
meu cuidado.
Ao soltá-lo, limpei a garganta. Foi tolice desconfiar das intenções de
um servo fiel, pois, pelo que acabei de perceber, elas eram as mais
inocentes possíveis.
Eu devia ter me desvencilhado assim que Selênio tomou minhas
mãos, mas algo além daquele toque quente me segurou. Era firme e
poderoso, mais do que qualquer outra sensação que eu havia experimentado
no mundo humano graças a alguém. Selênio se inclinou na minha direção.
Eu fechei as pálpebras como uma boba. O que diabos estava acontecendo?
O que papai diria caso soubesse que estava sozinha na casa de um homem?
Seu hálito quente roçou no lóbulo da minha orelha, na qual Selênio
roçou o lábio. Apertei os lábios com força quando seu tórax chegou perto
do meu rosto.
— Obrigado, Mabel Hall — sussurrou com delicadeza.
A palpitação parou quando me afastei dele devagar, ignorando o
arrepio no pescoço e qualquer outra reação que tivesse.
Quando dei por mim, fugi de Selênio, sem aceitar o convite, e saí da
Oficina dos Chapéus. Até pensei em voltar, mas me obriguei a olhar para a
frente, ainda ofegante. Ali, naquele País, podia ser eu mesma e,
principalmente, ao lado dele.
♠
Na infância, eu costumava abrir as cortinas da sala de estar atrás do
sofá para caçar uma passagem para o País das Maravilhas. Enxergava um
universo paralelo dentro delas. Meu peito doía, lembrando de minhas
expectativas inúteis sobre um mundo cor-de-rosa e sem conflitos, perfeito e
angelical, sendo que, na verdade, aquela sensação triste que senti no
caminho com Cheshire era bem notável. Era a realidade da vida.
Eu entendi a situação de Mildred. Hazel já tivera um sério momento
próximo ao dela. Passara momentos difíceis sem a mãe por perto, perdendo-
a cruelmente para a leucemia. Por isso minha mãe às vezes fazia papel de
sua cuidadora e protetora — elas eram amigas e não ligavam para suas
diferenças de idade.
Ignorei um porco voador passar correndo por onde eu andava e
tentei esquecer o evento ocorrido na Oficina dos Chapéus. Encostei no
tronco de uma árvore adornada, procurando respirar novos ares. Pousei as
mãos na grama até ouvir um barulho de uma moita remexendo-se sozinha.
Seria o vento?
Não… Havia chances de ser qualquer criatura do Submundo,
presumi, preparando minha arma. Levantei-me do chão e dei passos lentos,
rodeando o matagal enorme e observando-o se deslocar.
Algo subitamente pulou da moita, e tive tempo para distingui-la. Se
eu não estivesse enganada, era um Rábido, e criaturas semelhantes a ele,
anteriormente, perambulavam pelo Reino Branco. Tinha teorias de que uns
faziam parte de certas cortes, e outros de abundantes reinos.
— N-N-Não m-m-e mat-t-e! Estou desesperado!
Abaixei-me para ficar da sua altura.
— E por que estaria?
— E-E-Eu quebrei o Esp-pelho!
Levantei as sobrancelhas. Existiam tantos espelhos. A qual deles ele
estava se referindo?
Antes de eu chegar a perguntar, o Rábido tremeu cada vez mais. Ele
teria um colapso se não relaxasse. Quando vi, Selênio compareceu em
nossas direções, apressadamente, molhado de gosma verde-musgo. O
anormal de se dizer seria separar o conjunto de esqualidez que pingava
sobre seus cabelos de corvo e da roupa suja que vestia.
— Você! — Apontou retamente para o Rábido. — Você trincou o
espelho, e agora teremos que consertá-lo de imediato. As Almas Vermelhas
escaparam!
Quais delas? Seriam versões malignas de espíritos presos em um
limbo? Soltei um palavrão mentalmente. Gritar sufocou e revirou meus
músculos. Os fantasmas desgovernados não tinham um formato exato, não
tinham rostos nem curvas.
— Pegue as rosas sangrentas! Elas desejam sentir o próprio cheiro!
— O berro do Rábido ecoou, atormentando as almas famintas, que
farejam… sangue? — Vamos, Mabel. Elas querem qualquer corpo vivo e
propício sob controle, já que não têm mais vida.
Sorte que Selênio havia guardado uma única rosa no bolso do paletó
rasgado, tendo mais um de seus ataques enquanto levava as mãos até sua
cartola, que pulou para longe de sua cabeça. Agarrou-a antes que caísse,
mas ele se descuidou e a rosa flutuou no solo. Precisava alcançá-la antes
que a perdesse.
— Onde fica esse Espelho Vermelho? — Alterei a voz, ofegante,
com a rosa na mão.
— Siga-me! — impôs Selênio.
Ele definitivamente não sabia correr. O portão gigantesco já estava
aberto quando entramos fazendo uma curva. Nós desviamos juntos dos
súditos embriagados no objetivo de encontrarmos o fundo do castelo.
Selênio havia dito outro dia que eles sempre faziam festas e que elas não
alcançavam certos lugares que já foram usados pela falecida rainha, como a
sala que guardava um espelho. Não sabia como, mas os súditos não foram
sequer atacados. A alegria ali era buscada sem restrições…
Pensei que o preço por tal sentimento desmedido podia ser alto.
Os espíritos deslizaram pelo chão, e gritei para ele e o Rábido me
puxarem para subir as escadas rápido. Dentro do corredor escuro,
desconfiei do silêncio súbito que surgira, choramingando pelos lábios
ressecados. Os fantasmas iriam nos pegar.
Ao chegarmos à sala correta, vermelha e isolada, Selênio se apoiou
nos próprios joelhos e me encarou, alucinado.
— Fique na frente do Espelho — disse ele, sua voz ecoando de
maneira arrepiante. — Elas voltarão ao exílio por bem ou por mal.
Segurando a rosa, tive vontade de desmanchá-la ali mesmo. Olhei
de relance para o espelho.
— Salve-nos! — Ele me acordou dos pensamentos, com o suor
escorrendo pela testa.
De repente, poças gosmentas pousaram no chão, prontas para
deslizarem até a mim como seres vivos e viscosos, prontos para nos
engolfar. Até que uma agarrou meu braço direito e me rasgou parte da pele.
Sentindo a dor ardente, vi Chessir sendo quase arrastado pela escuridão
enquanto se agarrava no pé de uma mesa. Selênio lutava inutilmente contra
os espíritos usando sua cartola.
Agrupei toda a coragem que estava guardando. Tornei-me um objeto
daquelas almas, mas não uma de suas vítimas. Fechei as pálpebras, soltando
um guincho pela boca, e desprezei uma dor que nasceu do meu ferimento.
Quase que inconscientemente, detive o medo através da raiva. E mal
pisquei, aguçando o olhar e focando diretamente na expulsão de luz das
Almas Vermelhas, que imploravam para ficar. Por um triz, meu corpo
viraria almoço; por um triz, o Rábido seria decapitado por um Selênio
raivoso; e por um triz o País das Maravilhas seria invadido e dilacerado por
elas. Nós com certeza as teríamos sob controle temporariamente.
O que realmente me salvou, em uma fração de segundo, antes que
eu desmanchasse a rosa dentro do meu punho, foi lembrar do recado
daquele cachorro: salve o País das Maravilhas e seu coração.
— Rábido! Suas íris. Use-as! Crie a estabilidade no Espelho —
disse Selênio.
Saí do seu caminho, inspirando e expirando simultaneamente com
ele. A criaturinha apontou a visão acinzentada para o vidro quebrado e uniu
a rachadura em um reflexo só. Caí de joelhos no chão e senti tudo sugar
minhas energias.
— Mabel — Selênio se genuflectiu junto a mim, sacudindo meu
corpo —, você está pálida. Pedirei a Annie para enfaixar seu braço.
— Não é n-nada. — Tentei recuperar o fôlego e virei o braço. O
rasgo não parecia profundo, mas sangrava. — Só foi muita emoção para um
dia.
Ele cerrou os dentes.
— Se não fosse esse…
Fui tomada por uma onda de indignação.
— Ora, foi um acidente! Tem noção de que seu servo fiel estava
morrendo de medo de você e até se escondeu por isso?
— Depois converso com ele — refletiu Selênio. — Sabe, nós já
estávamos nos desentendendo antes porque Chessir queria sair do meu lado.
Estou com problemas de humor depois de tudo que estamos passando com
a Rainha. — De repente, ficou relutante ao me ouvir e menos estressado. —
Devo te agradecer, principalmente, por arriscar a sua vida se metendo nessa
situação conosco. Sinto que devo continuar procurando o antídoto com
Annie para a cura da Rainha Branca.
Percebi uma coisa: uma situação improvável gerava um pânico
perfeccionista em Selênio por conta da necessidade de consertar seus erros
ou o erro dos outros. No entanto, a raiva sentida por mim há poucos
segundos foi-se embora num piscar de olhos, visto que fui compreendida.
— É melhor mesmo. Por acaso, agora há pouco… você viu o que eu
fiz?
— Sim. — Ele sorriu de uma forma misteriosa. — Precisamos
conversar.
♠
Para demonstrar uma rematada disposição, contei tudo a ele sobre
minha história. Meu lado mágico, que nunca havia descoberto, um relato da
minha adoção e sonhos. Principalmente os sonhos. Mais uma vez me
segurei para não tocar no assunto dos livros de Lewis Carroll. Eu dormiria
completamente bem aquela noite, sabendo o perrengue passado ao
aprisionar as almas endoidecidas por intermédio do encabulado Rábido
Branco.
Como Alice pensava, aquilo tudo poderia ser um sonho, uma ilusão.
Ainda não tinha me convencido de que o Submundo realmente existia.
Metade minha acreditava, e a outra suspeitava até de mim mesma.
— Mabel, você herdou algo do País das Maravilhas que está no seu
sangue agora. Suas íris têm a ver com, sem dúvidas, sua vinda para cá. Não
que eu não acredite em você — explicou, antes de qualquer declaração —,
mas será difícil. Você, donzela, provou metade do que é capaz quando
aprisionou as Almas Vermelhas. A jornada que as ninfas pretendem fazer
que cresça na profecia é bem mais extensa e complexa. Saiba a escolha que
estiver tomando.
Percebi que Selênio andava como se tivesse pés de um bailarino
elegante — com leveza ao caminhar, e sempre reto, pensei. Sombras de
borboletas azuis o acompanharam durante o percurso, tão bonitas e
discretas que me distraíram da conversa séria em alguns momentos.
“Vocês, mundanos, chamam isso de telecinese. É igual ao que
pensamos. Você muito provavelmente carrega esse poder, é uma meia-
humana. Por isso está aqui.”
As escolhas e os caminhos conquistados por mim em tempo algum
prejudicaram minha vida. Selênio sabia o que falava, senti a tão esperada
ponta de esperança brilhar em seus olhos. Eu sustentava aquele olhar
positivamente, tendo a noção das escolhas brotando na minha mente.
— Não deverás voltar no meio do percurso e desistir da rota.
Lembre-se do Oráculo. — Ele fez uma longa pausa. — Não o quebre, nem
ignore seu destino, ou as consequências virão à tona.
Aquilo poderia soar tanto como um conselho quanto uma ameaça.
Ficava difícil respirar sem adversidades.
— Eu escolho ficar, Selênio.
Espelhos Inversos
Eu prestava atenção nos detalhes daquele mundo saindo da boca de
Selênio. Até ele tocar no nome Casa dos Espelhos, lembrei-me de As
Aventuras de Alice no País das Maravilhas, onde mostrava Alice visitando-
a. Indaguei sobre a casa, que também era consertada pelos trabalhos árduos
do Rábido. Ela devia ser enorme, antiga e desabitada, pelo simples motivo
de se localizar no pé da Colina Sombria, a qual Selênio fez questão de me
colocar medo.
Eu estava pensando demais acerca dos meus pais quererem me levar
para um sanatório. Não queria pôr na cabeça que a culpa da loucura
adentrar em mim fosse do País das Maravilhas. Eu fiz as minhas escolhas e
tinha de aguentar as consequências.
Eu estava fraca. Pedi para Annie contratar um novo cozinheiro no
Reino Branco e logo em seguida me arrependi. Que direito tinha de mandar
ali? Mas ela, sem se importar, aderiu à sugestão e mostrou disponibilidade
para preparar a comida dos residentes do reino, pois tinha a noção do
estrago que a Lebre de Março fizera durante a ausência da Rainha. E a
teimosa aqui cismou em ir à Casa dos Espelhos antes do jantar.
A moleza não facilitava as coisas. Eu cambaleava e tropeçava no
meu próprio pé, com terra e sangue de um machucado incrustados sob
minhas unhas. Minha vontade era de chamar o Rábido, porém, ele não
devia estar trabalhando naquela hora da noite, já que nenhum imprevisto
dos espelhos acontecera. Ele poderia me guiar até a casa, talvez. Assim eu
ficaria mais confiante. Mas aceitei a falta de Selênio sem pensar duas vezes.
Ele queria que eu explorasse o meu lado corajoso, não importava o tempo
que levasse.
Contraí a barriga e posicionei a mão acima dela, equilibrando-me
nas árvores maciças e coletando forças novamente. Inspirei e expirei de
forma rápida, já estando em frente à sigilosa colina, e ergui uma perna para
subi-la.
— Não vai ser fácil fazer isso sozinha.
Entortando a boca de lassidão, pus as mãos nos joelhos e comecei a
subir. Eu necessitava saber do que aconteceria se me visse novamente em
reflexos, dos prováveis estragos que causaria com minhas íris, mas metade
daquela probabilidade era negativa. Por enquanto, eu nem sequer tinha
percepção do meu poder, tampouco do domínio dele.
Migalhas de poeiras e ciscos se espalharam na superfície quando a
chutei com os pés, chegando ao local. Ajeitei meu cabelo e chacoalhei os
ombros retesados. Do lado de fora da Casa dos Espelhos, um tecido ou tinta
absolutamente preta tampava a visão interior dela. Minha testa começou
com os formigamentos, os mesmos que eu sentia todas as noites, dando-me
nervoso. Massageie-a em círculos, defrontando o silêncio sombrio
tumulando a região. O som dos insetos carregando comida animadamente
era a música de fundo.
E eu, claro, levava meu arco e flecha se precisasse de proteção.
Todavia, meu coração mudou de pressentimentos. Em uma piscada,
aquela sensação deu-me asas para entrar na casa. Elas me transportaram
subitamente na direção do interruptor, apertando-o e trocando de posição.
Perpassei o olhar na luz artificial que abriu minha perspectiva, iluminando
todos os espelhos colocados ali.
Seus nomes foram citados por Selênio, voltando do Reino
Vermelho: eram os Espelhos Inversos. Fui avisada de que, caso eu ficasse
vulnerável, aqueles espelhos começariam a me alucinar até certo ponto.
Ele me explicou com cautela o porquê de o nome “Espelhos
Inversos” ser assim. Os espelhos eram, meramente, pregados em conjuntos.
No teto, nas paredes e no chão. Eles estavam sob meus pés. Eu não sentia
medo. Tanto que toquei, sem notar, minha imagem particular movendo-se
em redemoinhos translúcidos de forma lenta. Encarei de modo profundo a
garota que ainda era imatura, mas também se empenhava a evoluir. Analisei
seu vestido sujo, provocado por uma distante caminhada percorrida. E, no
final, estudei sua mentalidade: ofuscada, cheia de magnetismo e fascínio.
Os próprios reflexos da minha imagem começaram a andar para lá e
para cá, sendo que eu estava parada. Tudo ganhava vida! Uma Mabel fazia
caretas para mim, a outra dançava e outra cantava. Poderiam ser partes da
minha personalidade fragmentada.
Depois da admiração perante àquela magia, lembrei-me das pessoas
que amava e certamente me aguardavam com mamãe e papai. Eu estava
prestes a esquecer meu próprio mundo.
Não, jamais. Eu tinha que cumprir a profecia primeiro e me
controlar.
O preço a pagar no fim de tudo era: tinha que abandonar todas as
criaturas e coisas adquiridas por mim, as trilhas percorridas, os sentimentos
manifestados. Meu peito doía — impossível não doer —, angustiado, como
se espinhos o perfurassem. Lágrimas quentes acabaram saindo dos meus
olhos, suplicando para que eu me decidisse. Tentei resistir em vão, sabendo
que me livrar de um choro acumulado por vários dias seria difícil.
Abri os olhos.
Eu estava normalíssima, digamos assim. Nada de mudanças. Estava
confusa, e aquele desgosto não encaixava nos significados da cor púrpura.
Ela era tranquila, equilibrada e plácida.
Cobri o rosto com as mãos, e meus soluços ficaram mais audíveis.
Não consegui conter a vontade de cair no chão gélido. Bati os dois joelhos
no chão espelhado, causando um baque estrondoso. O vidro quebrou,
trincou e cortou meus joelhos, causando-me ardência. Consegui trazer a
mistura de consequências e a significância que o País das Maravilhas viu a
minha reação dele.
E, durante tudo aquilo, presumi uma coisa. A minha vida podia ser
representada pelos espelhos. Quando a aceitei, ela era um vidro. Refletiria o
modo que lidava com ela e me olharia da mesma forma, mediante um
espelho.
Os monstros não viviam apenas na imaginação como eu pensava.
Eles dormiam dentro das nossas cabeças.
Comprimi um palavrão quando as versões copiadas de minha
aparência se transformaram, cada uma, em demônios que engatinhavam na
minha direção, saindo dos espelhos. Uma mancha escura contornava o rosto
dos meus reflexos, e eu tentava arrancar minha própria cabeça. As
manipulações. As horrendas manipulações.
Sequei as lágrimas rolando nas bochechas com o pulso e tentei me
levantar para sair correndo dali, mas minhas pernas vacilaram. Então
esperei elas descansarem e respirei de forma frenética. Assisti meu sangue
deslizar no chão. Meus reflexos sumiram dos Espelhos Inversos, e agora só
havia um — o original.
Um ágil movimento suspendeu meus cotovelos, e meu corpo
despertou de repente. Recuei, esbarrando em alguém que, sem que tivesse
notado, estava me observando. Selênio?
Girei e dei de cara com um rapaz de cabelos grandes que vestia uma
armadura de couro, o peito estufado, carregando uma espada metálica no
cinto. Um de seus olhos era desfigurado, sendo coberto por um coração
negro. Na face havia cicatrizes riscadas em um lado do rosto e continha um
sorriso árido e fechado. Tomei coragem para olhá-lo: a única íris visível era
fosca. Meu olhar abaixou discretamente até seus sapatos pontiagudos.
Dei bobeira de não verificar se fui seguida. Isso me causou calafrios.
Por impulso, peguei minha arma e apontei para ele. Eu sentia em
tudo ameaças e, às vezes, o contrário disso. Irradiei energias para falar:
— Quem é você?
Ele olhou preocupado para os meus joelhos.
— Sou o Valete de Copas. Eddy, ao seu dispor. Esta casa —
começou a explicar — é um grande tesouro da avó… de Mildred, a Rainha
Branca, sua Rainha Invernal. Suas habilidades eram, decerto, únicas.
Ele havia tentado buscar minha mão solta no ar na intenção de beijá-
la, mas dei um passo distante enquanto ouvia.
— Não farei nada com você — acrescentou. — Apenas ouvi seus
gritos e, como sou o responsável pela Casa dos Espelhos, entrei e a vi
despencada nesse estado. Foi tentada pelos espelhos?
— Sim, embora você não precise se preocupar. — Por que ele era o
responsável pela Casa?
Tentei me retirar, mas o corte não era pequeno e me fez parar. Eu
não teria o poder de quebrar o espelho só caindo. Acelerei os pensamentos
antes de responder Eddy. Como Selênio me informara, eu confirmei que
tinha uma ligação forte com o País das Maravilhas. O único jeito de eu
conquistar algo seria sendo impiedosa. E quando se tratava de duelar em
campos de batalha contra seus inimigos de infância, a Vermelha sabia
daquilo de cor e salteado.
Creio que a Copas seria tão má quanto ela.
— Ora, vejo que és corajosa para uma menina.
Fiquei surpresa por seu machismo, mas consegui respirar fundo para
não iniciar uma discussão. Eddy parecia um ser perigoso.
— Vá direto ao ponto. Aonde quer chegar?
— Para afrontar um sobrinho da Rainha de Copas, teria de ser.
Deixei o medo para trás.
— Você não é ninguém. Pelo menos não para mim.
Ele riu, sarcástico.
— Eu não vim para bajular você como está fazendo. Você precisa de
ajuda.
Eu não sabia qual era a dele, mas queria negar a sua compaixão
repentina. Dos meus livros já lidos sobre Alice, nada do Reino de Copas
tinha um lado bom, porém eu não voltaria ao Reino Branco a pé.
— Eu aceito a sua ajuda, mas — levantei o indicador — não precisa
me curar. Pode ser?
— Seu destino?
Merda. Esqueci completamente que reinos opostos eram, no
automático, inimigos. Aquelas rivalidades nunca acabavam.
— Castelo Invernal.
♠
Andar a cavalo era inacreditável. Eram sensações mescladas de
prazer e entusiasmo. Meus cabelos se erguiam segundo a ventania
provocada pela cavalgada. Será que daria encrenca se Annie soubesse que
conheci o Valete?
Subi um pouco a bainha do vestido, que estava arriando, apertei o
laço preso nas minhas costas e encaixei os pés nas sapatilhas lilases. Desci
do animal, cambaleando, e a brisa do Reino Branco foi me acalmando,
gradualmente.
— Obrigada.
— Por nada, Mabel.
Meu corpo se arrepiou.
— Como… sabe o meu nome?
— Não importa como, e sim por quê.
Ainda montado no cavalo, Eddy se despediu em silêncio, segurando
as rédeas guiadoras. Não imaginei que ele daria uma piscadela com o olho
normal, e prendi uma risada.
O que acordou minha curiosidade foi ele saber meu nome sem eu ter
dito.
Cócegas invadiam a região do meu pescoço, e encolhi os ombros,
sentindo um rabo muito familiar pinicá-los.
— Cheshire.
— Eu? — Abriu seu sorriso grandioso. — Às suas ordens,
senhorita.
— Você viu alguma coisa?
Referia-me ocultamente ao Valete. Estava me sentindo culpada por
conversar com um inimigo de quem precisava salvar.
— Olhe para a porta.
Ele virou meu corpo, usando as patas, e me deparei com Selênio
plantado na entrada do Reino Branco. Sua expressão não era das boas.
Estava seca demais, e ele me olhava de forma fixa e ardente — uma chama
de rancor que pretendia me queimar quando eu menos esperasse.
Agarrei meu pingente, raspando as unhas no desenho de chave
enferrujado. Tentei me livrar da preocupação e comecei a andar.
♠
Exausta de sustentar olhares pesados para cima de mim, disfarcei
levando uma colherada de sopa de ervilhas à boca. O vegetal preencheu o
sabor da minha língua, degustando-a como se eu passasse fome.
Antes, Annie se dispôs a colocar gaze e esparadrapos nos meus
joelhos, cuidadosamente. As chamas das velas iluminavam o local com
suavidade. Um pequeno grupo de quatro cartas Brancas tocavam violino
durante o jantar. Uma delas me bisbilhotava. Eu não tinha feito nada de
errado… Estava visível que eles temiam algo.
— Por onde andavas, Mabel? — Annie quebrou o clima tenso no
local. — Creio que não estava sozinha.
Decidi abdicar do jogo. Precisava estar confiante.
— Um tal de Valete de Copas me encontrou na Casa dos Espelhos.
Os Tweedles deixaram escapar um soluço de espanto, fitando
Selênio. Derrubei alguns talheres no prato propositalmente e,
consequentemente, uma carta desafinou no instrumento, nervosa como eu.
— O que vocês estão escondendo? — Minha voz aguda ecoou no
salão principal. — Eu estava ferida. Eddy me ajudou, trazendo-me para cá!
Selênio socou a mesa e meu prato pulou, assim como as minhas
entranhas.
— Ele não é uma boa companhia. Muito menos deveria ter
aparecido na Casa dos Espelhos.
— Você permitiu que eu fosse sem problemas.
Comprimi a boca de dor. Bati sem querer o joelho machucado no pé
da mesa de madeira.
— Parou para pensar que quando estiver nas suas batalhas, estará
sozinha? — Largou o garfo e me encarou, congelando-me no lugar que eu
estava sentada. A tensão me transformou em pedra. — Eu não pretendo
ajudá-la, e sim guiá-la. A maturidade terá que vir de você mesma. Depender
dos outros não é um caminho, é uma escolha. E estou te indicando o que é
certo a fazer.
Engoli em seco. Ele tinha uma rivalidade absurda com Eddy e eu
duvidava que me diria o motivo.
— Estou bastante comovida — falei.
Eu queria provocá-lo para falar logo a verdade, todavia estava muito
difícil. Ele precisava ouvir mais.
— Crianças… — Annie nos repreendeu, forçando uma doçura nas
palavras, mas continuei:
— As ninfas me escolheram. Não é possível que este País das
Maravilhas esteja tão desorganizado assim.
Meus olhos irradiavam igual a um farol. Eu queria me referir à
organização dele. Selênio ajudava e orientava uma parte ampla daquele
mundo, mas como uma criatura assim achava que todos deveriam
simplesmente abaixar a cabeça e obedecê-lo sem mesmo poder dar uma
palavra contraditória? Ele não era um rei.
Cheshire evaporou, aturdido, e minhas palavras endureceram.
— Se vou cometer erros, Selênio, é porque estou aprendendo.
Embora você ainda não saiba o que é um aprendizado.
Ele me fisgou pelos olhos novamente.
— Então, faça-o sozinha. — Andou até a saída do palácio. — E,
dessa vez, sem mim.
Senti náuseas. Eu o ofendi e Bayard me dizia aquilo em silêncio. O
barulho da porta se fechando se transmitiu repetidamente nos meus ouvidos.
Mesmo que meu descontrole tivesse os afetado, Cheshire e Annie surgiram,
rodeando-me com apoio e compreensão.
Meus olhos se encheram d'água. Eu não sabia mesmo como trazer
Selênio de volta. Arrependi-me de fazer com que ele me desse as costas e
me abandonasse sem prometer de retornar.
Laços Esquecidos
A rixa defrontada entre mim e Selênio abalou a todos. As árvores
cor-de-névoa davam sensação de tristeza — e não eram nada discretas.
O barulho de tique-taque reproduzido nos meus sonhos era nada
mais nada menos que o relógio de Selênio. Eu pensava que vinha do velho
paletó do Coelho Branco, mas o Coelho era ele. Ele simbolizava várias
criaturas. E eu reconheceria seu relógio de longe. Características como o
TOC — Transtorno Obsessivo Compulsivo — lembraram-me o jeito de
Selênio. Era a mania do Coelho Branco checar as horas a cada segundo.
Tudo para ele girava em torno do tempo: nada mais importava.
Contei suas três personalidades do Submundo: sábio como a Lagarta
Azul, atrasado como o Coelho e louco feito o Chapeleiro. Me recordei da
confissão alienada de Hazel querendo me unir a ele, logo acabei corando
levemente. Porém, a raiva acumulada de ontem superou essa timidez.
Eu não devia tê-lo atacado. Meu lado infantil da noite passada havia
sumido por enquanto.
No País das Maravilhas, o chá das cinco era bastante aplicado. No
almoço, acontecia o chá do meio-dia. Em todas as refeições tinha chá. Para
a bebida enganar a fome, saciar a sede. Preferi, obviamente, me alimentar à
base da comida de Annie. Ela fazia coisas saborosas e esplendidamente
apetitosas enquanto desabafava acerca de sua culpa pela rainha ter ficado
doente. O cheiro da comida me fazia voar enquanto tomava banho mais
cedo. Imaginei-me flutuando entre a fumaça do forno sem tocar os pés no
chão. Minha barriga deu o famoso alerta de uma fome ambiciosa.
O que quebrou aquele momento deleitável foram gritos surgindo no
ambiente.
— Majestade! O Exército Invernal está se destruindo! — Uma
garota apareceu, ofegante, com a boca aberta. Descendo as escadas, um
garoto apareceu às pressas.
Os dois tinham características humanas e pareciam ter a mesma
idade: eram altos e magros, trajavam mantos, botas e luvas bordadas
brancas contrastando com a escuridão dos cabelos. Um detalhe perceptível
foi que ambos trabalhavam com tecido de couro, e a desconhecida parecia
ainda mais épica com a trança única do cabelo flutuando enquanto se
movia. Ao começar a falar, vi um piercing de argola em seu lábio.
— Duas cartas entraram numa briga. Quando mal pisquei, a
confusão começou a aumentar e a provocar outros soldados. Eu tentei
apartar, mas…
Annie soltou a colher robusta na panela fervente e assumiu o lugar
dela, saindo correndo. Dei o meu prestigiado sorrisinho, esforçando-me
para ser gentil, entretanto chiando internamente por eles interromperem a
comida quase se encaminhando para mim.
— É… você… — começou a garota.
— Mabel. Prazer em conhecê-los.
Os dois trocaram olhares, mas fui ignorada por ambos quando o
garoto levantou a mão e deslizou o dedo sobre um arranhão na bochecha da
menina e tocou ali, um gesto quase que imaginário.
— Depois vá aos meus aposentos. Posso cuidar disso, se quiser — o
garoto sussurrou.
Se a garota não tivesse limpado a garganta e virado o rosto
discretamente, eu não teria vontade de deixá-los a sós.
— Sou Solar. Este é Jack — disse, apontando. — Somos amigos de
infância. Você é daqui?
Eu tinha o incrível hábito de esquecer até meu nome quando
perguntavam algo da minha vida.
— Digamos que tropecei em um certo espelho e parei aqui. — Sorri
de forma zombeteira. — Sou filha adotiva, tenho 17 anos, devo cumprir
uma estranha profecia que me aguarda neste mundo.
— Ah! Me lembrei. Você é a famosa Mabel. — Jack curvou a
cabeça. Fiz uma reverência desajeitada. — Queremos conhecê-la mais. —
Ele arrastou uma cadeira e Solar o seguiu, praticamente marchando, os
saltos das botas de couro batendo contra o chão.
— Bom… Onde vocês ficam? — Mudei a direção do assunto. —
Gostei das botas de cowboy.
— Ei, não são de cowboy. É uma peça única e muito mais estilosa
— corrigiu Jack. — E nossa função é organizar o exército do Reino Branco.
Ficamos afastados normalmente das atividades cotidianas dele — disse
Jack. — A Rainha Branca nos acolheu quando fomos abandonados, não
temos moradia. Ela foi uma luz no fim do túnel para nós, mas desde as ruas
pude ensinar a Solar técnicas de combate e luta corpo a corpo.
Imagino o quanto a Rainha devia ser protetora e tutelar. Igual a
minha mãe. Soltei um suspiro suave.
— Me sinto feliz por vê-los abrigados. Eu também fui adotada —
confessei a eles. — E desculpe, mas… você sabe o que é um cowboy?
Jack negou com a cabeça. Solar riu em descrença. Ela parecia
admirar a confiança que Jack exalava. Realmente era mais fácil enfrentar os
obstáculos na companhia de um amigo inseparável.
Por falar em mãe, de repente me passou pela cabeça o nome Lily.
No primeiro livro de Lewis sobre Alice Liddell, a filha da Rainha era Lily,
mas estava desaparecida. Sim, podia ser coincidência, como, ao mesmo
tempo, não. A Rainha acabou sumindo no final do capítulo da história,
fugindo e desaparecendo em uma terrina de sopa.
No centro disso tudo, apesar das circunstâncias e motivos, eu me
sentia prescrita a encontrá-la.
— Saiba que não vamos deixá-la sozinha. Se quiser, passe pelo
campo do nosso exército, estaremos vigiando as cartas diariamente. —
Solar pegou na minha mão, deslizando o dedo nela. Quase recuei. Não ser
uma pessoa sociável era um de meus defeitos. — Não é verdade, cowboy?
Jack bufou, e assenti para eles antes de sair.
Agora eu subia as escadas brancas acompanhada de Annie, que me
questionava sobre a minha história com o arco e flecha. Expliquei tudo nos
mínimos detalhes, que eu praticava arqueirismo, e acrescentando uma dose
de perguntas.
Eu sabia que a Torre de Observação era o lugar perfeito para
contemplar a paisagem nevada — eu desconfiava que a neve recorrente
vinha de um poder mágico — que se estendia além do Castelo Invernal.
Outra coisa que alimentava minha imaginação era a cachoeira gelada
localizada perto da Oficina dos Chapéus. Janelas arqueadas costumavam
oferecer uma vista panorâmica dos arredores, cobertos por uma fina camada
branca. Annie dissera que dentro da torre havia uma poltrona acolhedora
onde ela sentava sozinha e apreciava a própria companhia.
Quando conversamos acerca de Mildred, lembrei de Annie
conversando com ela e colocando panos quentes para esquentá-la nos dias
mais gelados. Queria perguntar-lhe cara a cara como as duas se
conheceram, mas… Parecia ser um assunto sensível no momento.
— Eu poderia ver a Rainha?
Fiquei receosa se ela me responderia.
— Preparada para vê-la naquela situação?
— Eu já passei por muita coisa.
— Sério?
— Sério. Não seria um choque.
Repentinamente passou pela minha cabeça de quantos dias eu
deveria estar aqui; se fazia diferença no mundo humano; se eu tivesse que
inventar desculpas para meus pais antecipadamente.
Não, não, não, não, não.
Quando atravessei o espelho, minha bolsa emprestada do papai
ficou na Floresta de Dean. Como eu esqueci? Agora vão deduzir que fui
sequestrada, pois se quisessem me roubar teriam a levado e me deixado em
paz. E eu sou incapaz de voltar agora. Alguém teria provavelmente ido lá e
visto a pequena mochila jogada num canto daquela mata.
De repente uma lembrança tomou meus pensamentos, trazendo uma
canção esquecida de volta para a minha vida: durante sonhos noturnos,
escutei uma música doce e nostálgica tocando ao fundo de um cenário da
minha infância. A melodia era familiar, e percebi que se tratava de uma
canção de ninar. Agora, eu emitia o mesmo som enquanto prosseguia até o
Quarto Real, escoltada por Annie — seu andar era gracioso como uma
boneca de vidro, embora demonstrasse ter um coração de ferro. A música
curta dizia:
Em sonhos e quimeras, um elo a encontrar,
Laços esquecidos, destinos a amarrar.
Mistérios e encantos, num baile a girar,
Enquanto a canção da noite começa a embalar…
E nossa, eram muitas escadas. O último corredor e câmara da
Rainha era no topo do Reino Branco — afastado e remontado, o essencial
para ser modificado. Inclusive, precisava encontrar o Rábido antes que
tivesse um surto momentâneo.
Estávamos num corredor pouco espaçoso, embora profundo e alto,
branco como de costume. Delirei fantasiando a imagem adoecida da
Rainha, a feição pálida e dolorosa, e eu a observando, sentindo um frio na
costela. Retornando às explicações de Annie, ajeitei o decote de minha
vestimenta, realçando e ajeitando os seios. Mordi a bochecha por dentro,
fingindo estar externamente tranquila.
Tudo aqui estava confuso e mal explicado: o duelo que matou a
Vermelha, o desaparecimento de Lily e como fazer a Rainha Branca voltar
aos seus sentidos.
Minha respiração trancou por alguns segundos, até Annie me
cutucar. Esfreguei o rosto.
— Desculpe.
Um lustre de ouro estava pendurado no teto, às vezes balançando
como um pêndulo. As persianas da janela mexiam juntas a ele, arejando o
ambiente pouco frequentado. Encarei de vez a cama; avistei a metade do
corpo deitado, esbranquiçado e esticado. Meus olhos ficaram marejados só
de pensar na sua possível morte.
Annie me entregou um lencinho, também secando o rosto. Não
podia acreditar que a Rainha estava em coma. Eu podia sentir o som de sua
respiração pesada, contraída, triste, perfurada. Apesar de minha compaixão
estar atingindo meu peito, abri um sorriso discreto ao me aproximar, segurei
as mãos frias da Rainha e me sentei na beirada da cama.
— Majestade… por que escondera o seu passado?
Cantei a música para ela. Suas pálpebras, no entanto, nem se
mexeram, mas queria que a canção a relaxasse. Em um gesto cauteloso,
entrelacei as nossas mãos, deixando mais lágrimas escaparem e gotejarem o
fino lençol que cobria suas pernas.
— Mabel… — A voz rouca de Annie cortou o momento. — Guarde
essa informação: uma deusa importantíssima chamada Ellis pode
encaminhar você para o fruto das memórias de Mildred. Viajará no tempo
do País das Maravilhas, o marcará intensamente, verá suas cicatrizes e
feridas. Mas jamais se perca. Nós do Reino não temos esse poder, no
entanto, a deusa Memorial pode ver sua alma e te receber, se achá-la digna.
O eixo do universo do Submundo estará nas suas mãos.
Assenti, ganhando confiança. Annie acrescentou:
— Será difícil falar com ela, pois no momento está inacessível —
contou, e sorriu com dentes brancos quando tocou em minha bochecha. —
Mas talvez você tenha sorte.
Firmei as mãos da Rainha contra as minhas. Levantei o rosto em
determinação, armando um inédito plano:
— Prepare as minhas coisas, Annie. Eu estou pronta.
♠
Dei uma ligeira saída para tomar um novo e puríssimo ar. Segui a
rota do jardim das rosas brancas, abrindo os braços e inspirando com
vontade a atmosfera, praticamente esvoaçando.
O doce pressentimento que eu havia absorvido foi quebrado. Os
sussurros irritantes das margaridas só aumentavam, e tive aquela ânsia
louca de tampar os ouvidos. Parecia que elas viviam e inalavam as fofocas
do dia. E eu, é lógico, tinha o imenso prazer em ignorá-las. Mas, em
compensação, nada agora me tiraria do sério.
A menos que Selênio começasse a se refletir na minha mente.
Ok, eu assumia. Ele aterrissou na minha vida de um jeito tão rápido
como se algo quisesse nos unir para depois nos separar novamente. Sua
presença me causava calafrios, além do sangue formando pontos
borbulhosos em tudo que tocava por eu tê-lo enxergado de verdade na
Oficina dos Chapéus. Eu disse coisas sobre aprendizado, sendo que eu
mesma não conhecia metade de sua vida.
Tentei me conectar onde estava. Ali era um lugar bom para
brincadeiras: fiquei sabendo por Chessir que realizavam uma Dança das
Cadeiras Malucas, a qual eu tinha interesse em participar, pois as cadeiras
estavam constantemente se movendo ou se transformando em objetos
inusitados. Também tinha a Competição de Poesia Sem Sentido, uma
divertida brincadeira em que as pequenas criaturas declamavam poesias
aleatórias pelo estilo peculiar do País das Maravilhas.
As árvores se abriram. Quando percebi, havia andado mais do que
devia, entrando em um estreito bosque cintilante. Arqueei as sobrancelhas e
avistei uma extensa mesa centralizada com um tabuleiro de xadrez aberto. E
um ovo gigante.
Para as peças do jogo, ele era enorme. E eu o conhecia muito bem:
Humpty Dumpty.
As torres, os cavalos, o peão… Todos falavam. Senti-me alucinada,
e aquilo era incrível. Os objetos lutavam entre si, tomando os lugares um
dos outros. Os expulsos caíam fora — creio que era a regra do combate.
Pensei em participar, mas minha visão destacava o Rábido Branco
organizando e civilizando as peças excluídas, usando uma vassoura.
— Ei! — Avancei na reta do coelho esquelético. — Eu… lamento
pelo estrago que fiz na Casa dos Espelhos.
— Eu já a consertei. — Ele exibiu os dentes amarelos. Senti minha
espinha se arrepiar. — Vi sangue nos Espelhos Inversos. Ficou machucada?
Neguei com a cabeça.
— Meus joelhos estão ótimos. Ah, e preciso de uma ajudinha, como
sempre…
— Diga, donzela.
Fiz uma expressão cabisbaixa ao ouvir o meu apelido.
— Aceita caminhar comigo em uma jornada para o Castelo de Ellis?
— perguntei, e sabia que minha voz soava cheia de dúvidas, porque,
sinceramente, nem tinha certeza se a porcentagem da missão dar certo era
alta.
Antes de ouvir a sua conclusão, o ovo gritou:
— Ah, não. De novo não!
Ele foi rolando de cabeça para baixo em direção ao chão.
— Ele vai quebrar! — vociferei, e voltei à mesa a tempo de impedi-
lo de cair e se despedaçar. Coloquei-o na sua posição, e ele me agradeceu,
se curvando.
Bufei em alívio e me virei para o Rábido. Ele me lançou um olhar
brilhante, balançando o rabo peludo. Como eu examinava e especulava as
leves almas das criaturas dali, já sabia a sua resposta. Por fim, sorri
astutamente.
♠
Quando pequena, mamãe puxava o meu pé, para escrever relatórios
sobre as minhas derrotas e vitórias, como uma locomotiva de meu
desempenho no futuro. E o pior fora eu não ter nenhuma conquista. Já fui
boa em variadas coisas, embora no meu crescimento me desapeguei de
distrações e quis ocupar-me mais. Além disso, hoje desconsiderava a
necessidade de fazer um relatório. Aquilo não mudaria nada nem decifraria
quem eu sou, só significava citar e formular ali meus maiores esforços
falhos para ter a consciência de que tentaria melhorar.
Naquele quesito constrangedor de não ter sido uma vitoriosa, o
torneio de arqueirismo iria provar o contrário. Hazel e todos os meus
companheiros de turma testemunhariam aquilo.
Faiscando convicção, milhares de joaninhas andavam apressadas à
minha frente. Induzi-me e as segui, curiosa, vendo a que ponto chegariam.
Elas fizeram uma curva, como se o propósito delas fosse me levar para
algum lugar ainda não descoberto por mim.
Paramos entre uma floresta e outra. O País das Maravilhas era
incrivelmente profundo, e dentro de cada ambiente havia abundantes
localidades.
Sinta a recendência, Mabel…
Meu corpo inteiro se arrepiou. Aquela voz… Obedeci-o e fechei os
olhos, absorvendo o ecossistema repleto de púberes ares.
Pinte a arte na sua alma…
Manche o seu coração de tinta. Esvazie os potes, torne o cinza da
sua vida em tons de coloração magnificentes.
Estremeci. A voz parecia sussurrar no meu ouvido, parecendo
pertencer a alguém visível. Desentendida, procurei o seu dono, embora só
tivesse encontrado o vazio.
♠
Pelo que me informei, os aposentos da deusa eram devastados,
localizados em outra parte do Mundo Subterrâneo. Pretendia convencer
Lily a se tornar a nova Vermelha. Caso negasse, eu a obrigaria,
simplesmente porque ela deveria ser ajuizada e sensata, compreender que a
Rainha Branca estava à beira da morte por sua causa e assumir um reinado
na hora certa.
Não faria as vontades da Rainha de Copas. Mesmo não a
conhecendo, ela não era flor que se cheirasse para mim. Como seu reino era
bastante semelhante ao da Vermelha, apostava a minha vida que queria
tomá-lo para si própria — gananciosa e calculista, devia ter pensado em
tudo nos mínimos detalhes.
A bola de pelo chamada Cheshire não me soltava. Eu não estava
incomodada; ele tinha um jeito perturbador e anfêmero. Isso eu achava
normal.
Carreguei dois baldes d'água para banhar as rosas brancas. Ajudei a
encantada Solar, que contava a história das borboletas e mariposas do País
das Maravilhas. Deixei o arco na diagonal das minhas costas e, após
amparar as criaturas, suspirei.
— Cheshire, me dê uma licencinha, hum? Preciso conversar com
Annie.
— Sinta-se livre, madame.
Ele se dissolveu misteriosamente. Camuflado, pensei. Como seria
ter aquele poder?
Andei às pressas para as escadas, porém dei um encontrão em
Annie, que quase tombou e caiu de costas no chão. Segurando o seu braço,
puxei-a para ficar reta.
— Céus, por pouco — murmurou compactamente, sensibilizada
pelo susto. — Por Deus, estamos atrasadas!
Ela ficou me remexendo durante nossos papos a respeito da minha
jornada. Redemoinhos de referências e avisos estavam me esgotando as
energias. Dava risadas curtas quando imaginava a medrosa Mabel em uma
caminhada de sobrevivência. Havia um porém: à noite, eu trocava de
personalidade. Tinha que tratar daquilo com Ellis. Ela era minha esperança
e entendedora sobre mudanças de temperamento. Ou eu estava viajando ao
colocar tantas expectativas nela.
— Então, preparei algo para você.
Retirou do bolso da roupa um vestido minúsculo.
— Para mim? Isso é para bonecas.
— Caso tenha que usar isto… — Ele me entregou um vidrinho com
um papel colado escrito “beba-me". — A roupa lhe caberá perfeitamente.
Ah, e isto.
Ganhei um doce pequeno que me fazia crescer a cada mordida.
— Será mesmo preciso?
— Mais do que imagina.
Mordisquei a língua.
— Realmente não sei como agradecer.
Sorri com a boca fechada, um pouco nervosa, tanto que Annie
percebeu.
— Não me agradeça, apenas faça o que seu coração está mandando.
Os Tweedles, Cheshire, A Lebre de Março, Solar, Jack, Bayard e
sua família surgiram atrás dela. Eles me davam apoio, mesmo após toda a
besteira que falei sobre o Submundo.
Eles confiavam em mim.
Levantei o cenho, esperançosa. Um arroubo de excitação incendiou
as minhas veias carregadas do sangue do País das Maravilhas. Meus olhos
explodiam de coragem e força — uma energia vital determinada a me
levantar.
Olhando para todos, despedi-me com a mão direita em um tchau
confiante e encarei os meus pés. Dei um passo limitado para a porta adiante,
pegando na maçaneta.
E, subitamente, fui levada ao vento, afastando-me pela provável
última vez do Reino Branco.
Velha Inimiga
Arrastei meu corpo exausto de andar. Ele parecia querer abandonar a
minha pobre alma. O Rábido se pendurava no meu tornozelo esquerdo,
poupando suas perninhas cadavéricas e magras sem condições de ficar 24
horas trabalhando direto. Eu cheguei a suar. Aquilo indicava que eu estava
mesmo esgotada.
Passamos pelo Reino Vermelho. Depois, o bosque onde morava
Humpty Dumpty ficou para trás. Eu ofegava, não suportava dar pausas sem
gastar a bolsa de água do Rábido. A metade enfeitiçada do meu coração
continuava a me estimular e reanimar, agradecendo à hidratação descendo
pela goela.
A frase-dica de Annie me relembrou: siga o sorriso de Cheshire,
mas crie o seu próprio caminho. Esperava que, no final daquele percurso,
eu descobrisse o que ela quisera dizer.
O País das Maravilhas mantinha o tom caramelado no céu, por isso
levei o relógio do Rábido; seria complexo distinguir se estava de dia ou de
noite. A mais desejada coragem se desdobrava dentro de mim,
acomodando-se sem hesitar. Quase tropecei na saia do vestido vermelho-
fluorescente e bordado nas mangas, então chutei a parte de baixo. Escondi a
vergonha com uma mecha do meu cabelo solto, cobrindo meus ombros nus,
e olhei para o Rábido. Ele cantarolava sozinho, distraído, enquanto era
conduzido por mim.
Eu rangi os dentes e senti o vento soprar em meu rosto. Estreitei os
olhos antes de proclamar:
— Tem ideia de para onde estamos indo?
— Visitar Ellis, é claro. — Ele cuspiu uma gosma amarelada
próxima de um cogumelo. — O castelo da deusa fica ao norte do
Submundo. Digamos que levaremos, neste ritmo, mais de um dia.
— O quê? — perguntei, e ele deu de ombros. — Se eu chegar viva
até lá, você quer dizer.
— Você é apenas uma humana, mas não significa que seria tão fraca
a ponto de não conseguir dormir ao ar livre.
Ainda tonta de frustração, pus as mãos nas têmporas.
— Se está pouco se importando, ande você sem minha ajuda, porque
é imortal e está aqui para toda a eternidade. Já está acostumado.
— Você não tem um corpo morto.
— Ah, certo — respondi. — Aí você aproveita para ganhar uma
carona nos meus tornozelos.
Ele não respondeu, somente observou o chão com a cabeça baixa.
Segui o seu olhar, agora vendo algumas formigas levarem consigo folhas
minúsculas, o suficiente para alimentá-las.
Teias de aranha surgiram emaranhadas em vários troncos. Estava
escurecendo. Eu podia sentir o leve roçar das teias acariciando minha pele,
como se a floresta estivesse tentando me envolver em seu abraço encantado.
O Rábido largou as minhas pernas e saltitou rapidamente, mas
esperou que eu o alcançasse. Fiquei ao seu lado e, em seguida, andei mais
rápido e grunhi ao avistar cogumelos vermelhos, apetitosos. Agachei-me
sem encostar os joelhos na grama fofa.
— Alguns são venenosos — alertou o Rábido. — Analise-os
cheirando e não se esqueça de olhar para trás.
Peguei a dica e suguei pelas narinas aqueles odores penetrantes.
Uma névoa se expandiu atrás de nós dois, radioativamente — era vermelha-
prateada e escura, com falatórios acompanhando-a de fundo. Nem deu
tempo para pegar os cogumelos, pois não me senti firme quando a vi.
Minha primeira ação foi agarrar o arco, e minha única alternativa
provavelmente seria atirar na direção de uma ameaça.
Concentrei-me na audição. Aproximei-me e pisquei lentamente.
Senti os olhos esquentarem, abordados de magia inexplorada. Acariciei o
pingente de borboleta descansando no pescoço e troquei olhares com o
Rábido.
Em seguida, dei passos em direção à neblina. Preparei-me, puxando
cautelosamente a corda do arco. Quando estava prestes a atirar, olhei para
baixo e vi o coelho esquelético negando com a cabeça diversas vezes para
eu não tomar qualquer atitude antes de saber o que estava acontecendo ali.
Arriei a minha arma. Ele suspirou e deu um salto para perto de onde
eu estava. Sua expressão mudou para um nervosismo repentino, e minhas
íris tremeluziam de insatisfação e curiosidade.
— A b-beb-bida — sussurrou ele, gaguejando.
— Como assim? O que houve?
— Veja você mesma.
Apertei o cenho e inclinei o corpo. Encarei inesperadamente uma
figura masculina segurando uma espada cinzenta e brilhante. Eu cambaleei
assim que quase me pegaram.
O exército de Copas estava à minha frente. Havia cerca de 20 ou 30
soldados marchando furiosos à procura de alguma coisa. Em suas mãos
havia lanças escarlates pontiagudas.
— Pegue o frasco. Rápido! — berrou o Rábido, agarrando minha
saia e puxando-a.
Estremeci as mãos gélidas e agonizantes e acabei permitindo a
loucura invasiva comandar o meu corpo. Agarrei com a palma da mão o
vidrinho e levei à garganta o líquido com gosto salgado.
O Rábido pegou o frasco de volta e exerci a força da memória de me
recordar que o vestidinho de Annie estava com ele. Meu corpo diminuiu,
menos minhas vestes enormes. A ambiência ficou vermelha da cor do
vestido que eu usara, emparedando tudo ao meu redor.
A roupa de Annie caiu ao meu lado, e como eu estava nua — pois
exagerei na dose —, peguei-a ligeiramente, estremecendo de frio. Já o
Rábido, pegou o vestido gigante e me revelou. Em seguida, jogou-o para
trás das moitas verde-musgo.
— Rábido! Me espera!
Praticamente voei até onde ele estava, implorando pela sua ajuda.
— Chessir.
— O quê?
— Meu nome é Chessir.
— Ok, Chessir. Poderia carregar o meu arco? — disse eu, e apontei
enfurecida para ele, à vista de qualquer um no chão. — Se quer “viver" —
fiz aspas —, pegue-o! Ele é pesado demais para eu fazer isso!
Chessir saiu correndo e arfando de cansaço ao apoiar a minha
querida arma em suas costas.
— Obrigada. — Fiz uma reverência. — Ei, ei, escute isso!
Escondi-me entre as grandiosas folhas que cobriam totalmente a
minha altura. A dimensão da névoa tinha se expandido.
— A Rainha nos avisou. Devemos capturar a Alma Branca de sua
velha inimiga — disse o Valete de Copas, Eddy, para os outros, dando
ênfase no objetivo.
No momento em que falou, as cartas escarlates seguiram em
disparada para as proximidades locais, sem exceção. O Rábido fez sinal
para mim de longe e se escondeu logo em seguida. O medo foi crescendo e
sibilando, tomando conta de cada fibra do meu corpo pequeno.
Uma das cartas parou bem na dianteira do meu esconderijo e
estapeou o matagal à procura de um rastro, criatura ou objeto. Vá embora,
por favor, por favor, por favor.
Então o exército desapareceu. Todos diziam que não haviam
encontrado nada. Meus cílios negros se ergueram junto às sobrancelhas. Eu
sabia que Eddy não prestava e ainda discuti com Selênio cegamente. Burra,
tola, imbecil. Aquilo caiu como uma pechincha para a minha busca do
passado da Rainha Branca, mas ainda assim não era um bom sinal. A tal
Alma Branca poderia ser qualquer um dos subordinados do Reino Branco,
inclusive eu. Eles queriam, por algum motivo secreto, realizar a vingança
contra essa velha inimiga.
Chessir reapareceu, e eu o encarei, rindo de nervoso.
♠
O estranho e aterrador manifesto no meio do caminho foram
pronunciamentos de espíritos errantes vagando pela via que eu andava.
Como não tinham rostos, fiz a tentativa de conhecer mais a analogia das
entidades e, de alguma forma, eles pareciam ser mais tranquilos do que as
Almas Vermelhas, sussurrando calmamente palavras incompreensíveis.
— Você consegue ouvi-los? — perguntei a Chessir.
Ele balançou a cabeça em negação. Quanto mais eu transitava pela
passagem, mais almas fugiam. Talvez eu tivesse algum outro dom
desconhecido, interligado diretamente ao sobrenatural.
Ser pequena não era tão ruim assim. Contudo, estar menor que os
insetos do País das Maravilhas era sacanagem.
Agora um clima quente abafava o local, e a cada salto que o coelho
magricelo dava ao lado, o chão pulava também. Eu perdia toda hora o
equilíbrio ao pousar no solo, resmungando. Preferi ficar quieta e imaginei a
cabeça da Vermelha em uma estaca de madeira, enquanto sua oponente ria
escandalosamente em público e manchada de sangue.
Uma sublevação na superfície me fez franzir o cenho e gritei para o
Rábido parar. Dei leves passos com os nervos tensos.
— Chessir…
De repente, ele fez um sinal agitado.
— Formigas! — gritou. — Fuja, Mabel!
E não, ele nunca iria querer estar na minha pele.
Percebi o nível gravíssimo da situação. Seria impossível aumentar
de tamanho. Meus ossos gelaram de terror após escutar a correria das
formigas ecoar mais próxima no ambiente.
Minha garganta trancou. Preparada para correr virando as costas,
deparei-me de repente com um pequeno graveto afiado que roçava no meu
pé. Não tinha condições de parar e pensar duas vezes antes de fazer algo,
então levantei-o em posição de guerra e dei de cara com aqueles insetos.
O pior que poderia acontecer seria ser devorada viva.
O sorriso de Cheshire
Dizem que instinto era algo incontrolável e ameaçador. Parte dos
humanos não se sentiriam intimidados por formigas, a não ser que
estivessem menores do que elas.
Soltei um bramido tão fino quanto os gritos de Hazel e, formando
um corte com a espada no ar, um dos braços do bicho gigante foi arrancado.
Sua agonia de dor quase me desvairou, mas suspendi um gesto convencido.
Se eu não as atacasse, elas pisariam em mim.
Vi Chessir, mais à frente, abrir a boca, surpreso. Ele refreou um
sorriso orgulhoso. Uma mancha negra e sangrenta amoleceu a grama.
Desviei dos rastros pulando e me deslocando para a vanguarda.
— Não faça isso! — clamou uma formiga, e fez todas elas pararem.
— Não sabes por que estamos fugindo.
Desarmei-me, abaixando a espada.
— E por que estariam?
“Invasora de outro mundo!”, gritou uma delas. “E, além de invasora,
é feia! Sinto cheiro de feiura!”. À vista disso, sua colega lhe calou a boca de
dois ganchos.
— A besta está solta. Aquele monstro nos mataria só de prensar-nos
contra os seus dedos ferrosos.
Respirei fundo, mantendo a calma, mas preocupada. Aquela
aberração que tanto falavam poderia ser qualquer criatura do País das
Maravilhas maior do que elas.
E prosseguiu:
— Sugerimos que você fuja conosco, apesar de quase ter nos
matado.
— Eu não sabia o que poderiam fazer comigo. Desculpem-me.
Olhei para a minha vítima ferida e me curvei, sorrindo fraco.
— Tenha uma boa sorte e se esconda. Você não ia querer virar a
janta principal de uma fera sanguinária.
Em um piscar de olhos, aquele bando de insetos correu do mesmo
jeito acirrado de antes, feito uma manada, e o vento que elas causavam ao
passar por mim levou os meus cabelos para o alto.
Chessir disse, encarando-me com medo:
— Oh, Mabel… Por favor, não brigue comigo.
Não sabia do que ele falava até mostrar que estava com o pão de
crescimento guardado no velho paletó. Não acredito.
— Você tinha o bolo e esperou para que eu fosse devorada por
formigas? — perguntei com falsa serenidade.
— É… E-então…
Enterrei as mãos no rosto, frustrada e rugindo. Definitivamente
aquele não era o meu dia.
Chessir esfarelou o bolo acima de mim com pressa, e migalhas
caíram. De um ângulo diferente, estava “nevando”. Engoli uma delas
quando planaram no ar e larguei a espada. O Rábido apanhou rapidamente o
vestido vermelho enquanto eu voltava ao normal.
Ainda roncava de fome. O vestidinho foi esticando e acabou se
rasgando, mas segurei a parte de cima a fim de escondê-la.
— Chessir! — exasperei após ver que o meu arco e flecha sumiram.
Ele poderia ter sido levado pelos insetos, mas estava com o Rábido, e eles
não suportariam o seu peso. — A minha arma!
Ele veio até mim e estabeleceu uma busca. Eu troquei os pés de
posição ao girar, olhando perplexa para o terreno. Meu arco estava ali,
parado.
— Como…
— Eu não sei… — Chessir recuou em aflição.
— Alguém estava aqui — sugeri — nos ajudando.
Alguém nos observava e se intrometera no nosso percurso.
Pensei em Selênio primeiro que tudo, porém ele me odiava pelo fato
de eu ter humilhado o País das Maravilhas… Só que não seria impossível
eu ter ganhado uma nova chance.
O Rábido estremeceu. Pensarei mais a respeito de quem poderia
querer nos auxiliar sem um prêmio em troca. Carreguei as minhas coisas e
apontei com a cabeça para começarmos a andar, disposta a esbarrar
intencionalmente com a fera.
♠
Uma canção infantil me arrastava à magia, me cercando e me
forçando a cantarolá-la na mente. Meu estômago corrompeu a minha
distração musical depois; pareceu contrair e se fechar entre as minhas
entranhas, e logo farejei algum cheiro no ar que fosse agradável e me
atraísse até ele. Uma farpa de arrependimento cutucou o meu peito por
negar levar a comida de Annie para a viagem.
— Nós devíamos ter vindo com a Espada Vorpal — disse Chessir
com a voz entrecortada.
Era difícil de explicar em palavras, mas Chessir tinha mania de
contar histórias mesmo quando as pessoas não queriam ouvir. Ele contara
em detalhes como a Espada Vorpal, forjada de fogo e luz em um reino
distante, beneficiava o portador que a usasse, dando-lhe mais força. O
problema era que, se por muito tempo usada, a força do portador começava
a ficar descontrolada, e todos sabiam o que o excesso de poder fazia com as
pessoas.
Como ela acabara no Castelo Invernal, já era uma história longa.
Ninguém tivera sabedoria o suficiente para portá-la sem perder a cabeça.
Sendo assim, o objeto sagrado havia sido enterrado e recuperado depois de
100 anos por um guarda do Castelo.
Em alguns casos extremos, os portadores atacavam seus próprios
companheiros de batalha, além de causar destruição nas aldeias e cidades
que tentavam proteger. A partir de então, o Castelo Invernal passara a
valorizar a sabedoria, a estratégia e cooperação em suas batalhas, no lugar
da força bruta. Aquele era o seu lema.
Estudei um círculo riscado e delineado na terra. Na intenção de ser
ensinada por Chessir, observei-o com expressão abelhuda que costumava
fazer. Ele sustentou o meu olhar e suspirou.
— Este é o Arco da Perversidade. O cheiro de frutas e banquetes
nativos daqui atrai qualquer indivíduo que for magnetizado por esse eflúvio,
e ele será envenenado.
Segurei a respiração sobrecarregada enquanto ele chutava algumas
pedrinhas com as patas esquálidas.
— Se comessem, certo?
— Sim — murmurou ele, quase se entregando para a fragrância
deleitante explanada em seu olfato. Deteve a minha mão próxima de
recolher algum alcaçuz no meio de várias plantas, e fiz uma careta.
— Coelhinho da Páscoa, eu preciso comer. Ninguém pode declarar
que são venenosas sem ter evidências.
Bom, se quiser ser morta antes de cumprir a profecia e salvar nossa
Rainha, fique à vontade.
A voz de Selênio soou na consciência. Gesticulei com as mãos um
aceno de rendição, mas fui persistente o suficiente para alcançar aquelas
plantas danosas apenas para cheirar. No mundo humano, ela era exímia para
o sistema respiratório e dores de garganta. Já ali, no País das Maravilhas,
sua função era desconhecida.
— Chessir — repetiu o nome, inquieto com meus apelidos
implicantes. — Mate a sua fome quando acharmos alimentos apropriados
para isso, madame. É para o seu bem.
Lancei um olhar significativo para Chessir, ainda inconformada.
Durante a caminhada, repensei sobre minha relação familiar. Era 50% boa,
acrescentando o fato de eu ainda não ter tido coragem de expressar gratidão
aos meus pais adotivos. Quando completei 5 anos, tínhamos chegado cedo a
uma praia, e fora a melhor experiência saboreada durante a infância. O som
do mar movimentando-se e batendo nas rochas e a areia fofa amortecendo
meus passos sobre ela eram tudo que eu precisava provar.
Eu não estava enganada, portanto, faltava muita coisa para
avistarmos o castelo. Até que o ritmo que percorremos não nos atrasara em
nenhum momento. Na verdade, eu tinha mais ou menos a noção da demora
cronometrada por Chessir. Sua mente era avançada demais para um cadáver
vivo.
Chessir quebrou o silêncio, coçando as orelhas pontudas.
— Acho melhor não bobearmos por aqui.
— Eu vou te proteger. Você sabe disso — disse eu, e dei um
sorrisinho, acariciando a sua cabecinha careca.
Andamos mais um pouco. A bolsa de água havia sido guardada, pois
a água gelada acabara, e Chessir mal tivera a chance de encostar a boca no
gargalo.
Parei no local enquanto Chessir vasculhava o caminho que
abandonamos para trás. Analisei se estávamos sendo seguidos. Nada
parecia suspeito até então. Após olhar para demasiados alvéolos e teias
enredadas no topo de árvores caliginosas, tive a sensação de um hálito
ardente golpear as minhas costas, arrepiando-as.
Prendi o oxigênio acumulado em meus pulmões, arregalando os
olhos. Uma garra farposa enjaulou o ar ao meu lado, fazendo-me saltar de
susto. Ouvi um rosnar atrás de mim, o que chamou a atenção do Rábido, o
qual se virou para o meu encontro e tapou a própria boca.
— B-bandersnatch!
Um calor lancinante percorreu o meu corpo. Chessir acabou
desmaiando, exausto de ter aguentado tanta adrenalina e entregando-se à
inconsciência. Fui abandonada!
Dei de cara diretamente com Bandersnatch. Pensei no modo que a
Branca e Vermelha lidariam com a fera, porém as duas agiriam de maneiras
diferentes e sem impulsos. Como verdadeiras rainhas.
Analisei sua mandíbula gigantesca salivar e pingar para fora da
gengiva, os dentes afiados e amarelados chacoalhando meus ossos em pleno
terror. Mas antes de tomar alguma decisão, fixei os meus olhos nos da fera,
à espera de eles se encontrarem, embora estivessem focando na planta
segurada fortemente nas minhas mãos.
O bicho não desejava a mim, e sim queria o alcaçuz venenoso —
cheguei à conclusão. Pelo seu tamanho, constatei que poderia devorá-la sem
problemas. Se ele gostava e vivia na natureza, talvez estivesse acostumado
a comê-las.
Era essa uma das tentações que Cheshire falara?
Levantei o alimento saboroso e aproveitei que ele abrira a boca,
jogando-o para sua goela abaixo. Suas íris mudaram de cor, clarearam
levemente após ter mastigado. Sorri, como se tivesse adotado um cachorro
da altura de um poste.
Bandersnatch havia ficado dócil, transbordando sensações de prazer
e satisfação. Mostrou a língua e arfou. Estiquei o braço, passei a mão nas
suas bochechas úmidas e olhei para o Rábido despencado. Em resumo, eu
tinha uma ideia brilhante que nos levaria a Ellis.
— Podemos dar uma voltinha com você?
♠
Uma submersão de alegria me fez liberar risadas breves e
contagiantes. Um braço meu envolvia o cachorro enorme correndo em alta
velocidade e o que sobrou segurava as orelhas trapalhonas de Chessir. Se eu
o acordasse naquele momento, ele se debateria de desespero e seria
atropelado caso se jogasse para fora da carona, que apelidei de Grandalhão.
Olhei para o céu. A lua iluminava graciosamente a noite escura, de
repente formando um sorriso muito peculiar. O sorriso de Cheshire não era
por acaso. Estávamos no caminho certo e bem perto de alcançarmos o nosso
destino.
Meus pais ficariam orgulhosos se soubessem o que eu estava
aprontando agora.
Surgiu uma troca de ambiência em uma nova rota a trilhar, e não
vinha da luz das reluzentes estrelas. O Grandalhão diminuiu a velocidade e
resolvi dar alguns petelecos em Chessir, ouvindo resmungos em resposta.
— Nós chegamos — disse eu.
Bandersnatch encerrou aquela carona de urgência, deixando-nos em
uma floresta semelhante à Floresta de Tulgey, pertencente ao Gato Risonho.
Troquei as pernas, descendo, e depositei um selar no tronco de Grandalhão.
Ele sacudiu os pelos sujos de terra e uivou. Despedi-me e me agachei para
limpar a lama agarrada nos meus tornozelos.
— Vamos. — Chessir adentrou em um túnel profundo, e o segui.
O lugar era sombrio demais para estarmos perto do Castelo de Ellis,
embora eu nunca o tivesse visto. Do lado de fora, parecia um túnel comum,
porém mudei de percepção ao entrar.
Mariposas sobrevoaram e pousaram nas paredes de concreto que nos
envolviam com seus ruídos em uníssono. Algumas descansavam nos meus
braços soltos. Era aconchegante sentir suas pequeninas asas deslizarem na
minha pele. Vi pequenos cogumelos de luz própria começarem a surgir na
lateral do caminho. Ou seriam fungos marrons? Eles liberavam esporos e
eram lindos.
Os passos de Chessir e meus faziam um eco até que alto. Logo, a luz
natural fluorescente iluminou desenhos traçados em toda a parte do túnel;
pareciam pinturas de criaturas distintas, intimidantes e antepassadas. Tive a
sensação de estar sendo observada por elas.
Escutei um barulho ressoar nos fundos do túnel, como se gelatinas
estivessem sendo pisadas e esmagadas. Prossegui no nosso desígnio. As
figuras ficaram mais claras, aninhando-se em uma só, e o resultado me
espantou. Uma incógnita bem estirpe se desvendava aos poucos… parecia
chamar os insetos adormecidos ao seu abrigo.
Aquele túnel era o castelo?
O Rábido esbarrou sem querer em um casulo gigante com fibras
azuis e largas. Ele caiu para trás e arrastou os pés no chão. Desprendi um
gemido de susto. Mordi o lábio inferior a ponto de ele sangrar, em choque.
O casulo estava vivo.
Pequena Lagarta
As paredes começaram a se transformar em um caleidoscópio de
cores e formas, mudando a cada segundo.
Duas asas nervuradas rasgaram a teia mesclada com o casulo. Elas
eram desenhadas em contornos delicados, alaranjadas e platinadas. O corpo
saiu ao todo daquela cápsula grossa — de repente vi uma placenta gigante
no lugar da cápsula —, revelando uma mulher possuinte de uma coroa rútila
e repleta de joias de rubis.
Então aquele era o seu reino.
— Ellis… — Chessir se curvou e fiz o mesmo. Senti-me
privilegiada por conseguir um encontro raro. — É um prazer conhecê-la,
um prazer tremendo.
— As palavras morreram na minha língua — sussurrei, diante da
deusa incandescente.
Ela chegou mais perto, arrastando o longo vestido feito de babados e
cristais, e focou em meu rosto. Seus olhos azuis e saturados de cor se
esbugalharam ao me estudar. Havia uma curiosidade e agitação implodindo
neles… algo que me deixou intrigada. Fiquei fascinada com o botão
perolado localizado na testa de Ellis; ela esbanjava classe para quem estava
presa.
— Qual é… o seu nome?
Fragmentos do meu inconsciente ponderaram sobre sua curiosidade.
As asas dela batiam lentamente, cálidas e sossegadas em concordância com
a pergunta relutante.
— Mabel — respondi, a voz trêmula de insegurança. — Viemos em
nome do Reino Branco, pois precisamos percorrer pelo meu passado.
Suas íris perderam a cor. Ela cambaleou, porém, as mariposas a
ergueram, trabalhando em conjunto.
— M-Mabel? Kang Mabel Hall?
— I-Isso. — Meus ombros tensionaram, absortos por sua descoberta
do meu nome.
Fechando os punhos, ela continuou:
— Eu estava mesmo a procurando. Graças a você, fui liberta de meu
sono, o qual parecia interminável. A vida da Rainha Branca está em jogo e
dependia deste nosso encontro há vários, vários anos, querida. Por favor,
segure a minha mão.
Ela estendeu a mão de um jeito diplomático e decidi aceitá-la. Ellis
sabia de onde vim, e eu precisava desvendar como. Aposto que tinha a ver
com aquele Oráculo.
— Adorável Mabel — a deusa flutuou para os fundos do túnel —,
lhe mostrarei toda a verdade. Saiba que quando peregrinar pelo fruto do
começo de tudo as suas memórias não serão mais as mesmas.
Compartilhará sozinha coisas que ninguém nunca soubera. Apenas você.
Assenti, disfarçando a emoção com a postura reta de sempre. Pelo
menos nas aparências aquilo dava certo.
Aquele lugar não era um túnel, era a ponte para algo que estava
além da compreensão humana.
— Você confia em mim? — perguntei, exibindo uma fagulha de
insegurança.
— Estou seguindo a profecia. Acredito que seja competente para
saber, sim. O futuro deste mundo não estaria nas mãos de qualquer pessoa.
Ela delirava, tinha certeza. Chessir pediu silenciosamente para eu
mudar a minha incompreensão.
— É difícil entender. — Comprimi os lábios. — Por que eu? Não
sou importante para o País das Maravilhas, e sim inútil.
Ellis franziu o belo rosto.
— Quem te disse? Todos temos um objetivo aqui. Você, Chessir. O
Submundo estaria perdido sem nós e nossas funções.
— Ele era mais normal antes de eu chegar. Atrapalhei a minha vida
e fugi completamente da realidade — respondi.
— Esta é a realidade. Entenda, querida. Para você, o País das
Maravilhas foi só o começo.
Suas palavras de conforto finalmente me atingiram. Acabei
aceitando a escolha que cercava o meu mundo — confuso e paralelo, o gás
que enchia de vida as minhas criações fantasiosas.
Ellis pegou um relógio de bolso dourado, acompanhado de uma
corrente.
— Não se oblitere de meus conselhos. Não interfira em nada do
passado. Verás todos os seres e criaturas ligados a ele, mortes e peripécias.
Tenha uma boa viagem, Mabel. E lembre-se: o nosso futuro também lhe
pertence.
Ela o entregou para mim, e os ponteiros estavam normais, trilhando
e trilhando. Chessir explicou que eu deveria girar as agulhas rotativas ao
contrário, assim me encaminhando até as entranhas do País das Maravilhas.
Eu o rodei inversamente, submergindo meu corpo dentro dele. Eu fiquei
tonta, mas foquei em seguida. Por um momento, tive a sensação de me
afogar, pois me faltou ar. Decerto seria o efeito que o relógio propagava
para adentrar na minha loucura — caso tudo aquilo desse mesmo certo.
Eu fraquejei ao chegar ao meu destino e fui transportada para uma
cena da Vermelha, expressando ódio e rancor no semblante. Bati os joelhos
na grama que os protegia e me escondi na retaguarda de um arbusto.
Observei sorrateiramente os acontecimentos a seguir.
Creio que Copas estava fervilhando de aversão. Reconheci-a por
suas vestes manchadas de corações pretos ao invés de vermelhos — uma
referência que não queria se comparar à Rainha Vermelha. Uma guerra
estaria se formando naquele lugar.
Selênio, o deus dos pensamentos, surgiu no cenário, para a minha
surpresa. Eu podia reconhecer seu rosto infantilmente angelical. Tão novo e
já era obrigado a presenciar batalhas sangrentas entre rivalidades. Ele
segurava uma corneta e vi suas pernas balançarem de nervosismo.
Eu me senti mal por vê-lo daquele jeito, assim tão assustado. Devia
ser por isso que ele não gostava de tocar no assunto da batalha: ficou
traumatizado pela Copas. Estava na cara que ela o desprezava pelas caretas
que fazia. Queria apenas usá-lo, pensei, furiosa.
Eu queria abraçá-lo, mas não poderia interferir no passado nem me
revelar às pessoas. Constatei que se eu me comunicasse com ele apenas
com algumas palavras não faria uma interferência perigosa. Um desejo
invasivo chegou, e quis vê-lo firme para aprender a controlar seus medos,
assim como ele me ensinara e continuava me ensinando.
Mesmo fechando os olhos, senti-os formarem uma carga d’água
enquanto me concentrava.
Não se assuste, pequenino… Você ainda verá a grande lagarta que
irá se tornar.
Fiquei ansiando pela sua reação. Por pouco não cravei as unhas no
tronco da árvore que me camuflava. Eu pretendia usar um diálogo mental e
fazê-lo sorrir. O semblante dele ergueu uma animação contagiante, como se
realmente esperasse um apoio qualquer. Pelo menos uma única pessoa
fizera aquilo.
E fiquei feliz que eu fosse aquela pessoa.
Ele soprou o instrumento, determinado, e deu início ao duelo ao
correr para longe dali. Mais adiante, uma garça vestida de um terno longo
com um bolso cheio de seringas permaneceu por perto, talvez garantindo
que os súditos saíssem ilesos do duelo entre as rainhas. De fato, era algo
peculiar, pois a ave tinha pernas e pés humanos.
— Amada cabeçuda… — A Copas, na intenção de garantir as
risadas do público ao redor delas, manifestou grifos aguçados saindo de
seus dedos e asas irradiando chamas oriundas das costas. Meu sorriso se
desmanchou. Ela era mais poderosa do que eu imaginava. — Não irei
deixar escapar o que fizera com meu pai. — Ela se aproximou e parecia
mobilizar o fogo da maneira almejada.
Cheshire acertou ao me contar acerca do poder de Copas, de dar
vida a coisas nojentas. Ver aquilo ao vivo tinha um acréscimo de sensações:
fedor.
— Se fosses uma verdadeira e concreta Rainha, saberias o que fazer
quando roubam algo teu. — A Vermelha conseguiu afastar a brasa que se
aproximava devagar dela, e escamas solapavam a pele de seus braços. Elas
montavam novos espinhos na intenção de evitar qualquer toque perigoso da
Copas.
— Estou cansada de esperar. As suas armas são desprezíveis demais
para eu ficar assistindo-as.
Inusitados chicotes nasceram do solo e se resvalaram, agarrando tão
rápido a Vermelha quanto seu reflexo. Suas pernas vacilaram e oscilaram
enquanto soltava palavras de baixo calão, mas ela se livrou daqueles
flagelos consistentes quando sua criação — uma crosta sólida — perfurou o
truque da Copas.
— Esse artifício está bem velho, amada. — Seus apelidos eram
ameaçadores, uma tentativa intimidadora. A Vermelha ficou com os olhos
negros (uma combinação perfeita àquele coração vermelho pintado ao redor
deles) e tentáculos apareceram, criando buracos nojentos em seu rosto. —
Quando criança, eras uma amiga bem medrosa, para estar tão vigorosa
como agora.
Ergui as sobrancelhas. Uma amiga. Elas se conheciam há mais
tempo do que eu esperava. Constatei que o pai da Rainha de Copas furtara a
Vermelha, e ela declarara vingança. E, é claro, ela fizera uma reviravolta na
vida de ambos, cortando sua cabeça. Era só o que lhe restava a fazer.
A Copas saiu derrubando torres feitas de pedra com sua força
indestrutível. Annie havia comentado que ela somente usava os seus
poderes durante guerras e combates. Meu coração ardeu como aquele
incêndio, controlado e elevando-se. A Vermelha partiu para cima de sua
inimiga, lançando jatos ascosos e distrativos para ganhar tempo. Ela deu um
golpe violento contra o rosto da inimiga, esbravejando:
— Você não irá me vencer! — A Vermelha irradiou choques
elétricos nas mãos, e suas escamas rutilaram.
A Corte e o exército das duas rainhas mantinham espadas e lanças
levantadas, observando-as atentamente. Ninguém podia intervir. Controlei
uma ânsia subindo em meu estômago após ver a Copas criar um mar de
lama sob os pés da Vermelha. Ele borbulhou e virou um caos, espalhando-
se como um vírus de má energia e cercando seu hospedeiro — a Vermelha.
Talvez seria ali a sua morte.
Soltando um grunhido, seus olhos temerosos se ampliaram. Não
parecia ter desconfiado da artimanha da Copas. A lama absorveu, primeiro,
de suas pernas à cintura, deixando-a estupidamente inerte.
— Está perdendo, Vermelhinha. — A tranquilidade da Copas não
combinava com a situação. — Não é à toa que só virou rainha depois da
minha coroação.
O fogo se apagou. Ele estava amolecendo aquele mar. Não entendi
por que ela não permitiu que ele continuasse.
— Dizem que a morte lenta é a mais torturante e aprazível. —
Espinhos vivos cresceram e chicotearam o rosto da Vermelha, arranhando-o
intensamente. — O mais interessante é vê-la de perto.
Senti os esqueletos a agarrarem e a puxarem para baixo. A pressão
da lama perturbou, de fato, sua cabeça gigantesca. A Vermelha abriu a boca,
enquanto os ferrões de sua estatura cobriam seu pescoço, praticamente a
enforcando.
Aquele seria o fim.
Creio que apenas duas figuras importantes do País das Maravilhas
poderiam convocar os seus súditos para acompanhá-las e comparecer a tudo
aquilo, porém, Branca provavelmente estaria doente pela sua filha
desaparecida.
Ela buscava oxigênio e arfava, suplicando por ajuda. Até me faltou
ar vendo o desespero corroído que difundia. Copas a observava seriamente
e analisava suas atrocidades trabalharem. Eu estava ofegante. A Vermelha
havia mergulhado por completo. Afogou-se cruelmente, mas não era tão
ingênua antes de morrer. As risadas da bruxa de Copas me irritavam e me
davam dor de cabeça.
Selênio apareceu na porta junto a um menino que reconheci de
longe: o pequeno Valete. Ele batia palmas, orgulhoso de sua tia e ignorando
o olhar de desprezo recebido. Seu “amigo” saiu novamente do local. Eles se
conheciam desde crianças?
Aquilo foi o suficiente para eu querer embarcar em uma nova
memória. Girei os ponteiros do relógio sem olhar, aguardando até onde ele
me levaria.
Sentindo meu corpo voar momentaneamente, ultrapassei direto para
mais uma lembrança perdida. Estava de noite, e ficou difícil distinguir o
ambiente mal iluminado. Uma música tocava, alta e distante. Presumi que
era um dia de festa qualquer ao olhar em volta: eu estava em um penhasco.
Ouvi falatórios se aproximarem dele e procurei algum lugar para me
esconder atrás de uma árvore. Eram gritos, e supus que fossem de crianças
arruaceiras. Se eu vim até aqui era porque precisava saber de algo.
— Eddy, pare com isso! — implorou Selênio. — Você não tem
graça!
— Bailes à fantasia e atividades circenses são diferentes, amigo. —
O Valete correu atrás de Selênio, querendo “pegá-lo” e, talvez, machucá-lo,
mas aparentemente a máscara de monstro que ele usava o cegava. Eles
deviam estar correndo desde aquele baile, por isso Eddy talvez não
soubesse para onde estava indo, e Selênio não avisara.
Segurei um grito. Ele desviou da direção do Valete, que tropeçou em
um buraco do chão e seu corpo caiu com tudo no abismo.
— Eddy! — Selênio ficou na ponta do precipício e chorou, afligido,
bagunçando os cabelos acobreados em total desespero.
Cada vez que ele soluçava em pleno sofrimento, era como se uma
estaca fosse enfiada no meu peito, rasgando o meu coração e tudo o que
restaria dele. Eu queria ajudar sem destruir a linha temporal.
Mas era impossível.
Selênio abandonou Eddy temporariamente e chamou um amontoado
de pessoas para socorrê-lo. Aproveitei com prudência para ver o estado em
que Eddy se encontrava.
Se eu não o tivesse visto no tempo presente, diria que estava morto.
Então, naquela época, ele não tinha o olho desfigurado. A Copas havia
provavelmente colocado a culpa do acidente em Selênio, por isso eles
esbanjavam tanto ódio para cima um do outro. Ele sabia que Eddy não era
uma boa pessoa desde criança e uma má influência para mim… Devia
querer provar a sua inocência até hoje, mas ninguém tinha a coragem de
defendê-lo e afrontar a decisão da Rainha.
Uma multidão reunida carregava lanternas, e Selênio os
acompanhava perto deles. Afastei-me do local, dedilhando o relógio
flavescente. Controlei-o pelos olhos e seus ponteiros voltaram
automaticamente. Eu fugi daquela infeliz memória que me marcara com
rastros de arrependimento e dor na minha alma.
A viagem era mais longa e duradoura, girava-me e fazia minha
mente flanar, flanar e flanar. Tudo que me rodeava eram dimensões —
compactas e variegadas, adquirindo um tom soturno, com lantejoulas
grudando em mim.
Eu era um ímã: atraía-as de uma forma estranha e, ao mesmo tempo,
encantadora, apesar de flutuar em um perpétuo universo paralelo. Todos os
paetês conglutinaram na minha pele, fazendo-me fechar os olhos. Fui
levada de novo a uma peregrinação em busca de Mildred.
Perdi a noção de tempo mantendo total atenção na minha segurança.
Pus o meu pingente a descansar em meu pescoço e analisei alguns
cogumelos à frente. Eles cheiravam a veneno e malícia e pareciam estar
vivos, procurando uma vítima.
Não arrisquei inalar aquele odor. Apenas segui o caminho,
montando peças do quebra-cabeça mentalmente. Talvez eu fosse fracassar
quando soubesse o que acontecera de verdade com Lily e me retorcer de
hesitação ao informar sua mãe a respeito dela e um bocado de referências.
Respirei fundo. Tive vontade de inclinar o corpo para buscar um
lugar que eu pudesse me abrigar por precaução, ainda aturdida e cheia de
mecanismos defensivos. Eu me endireitei e segurei a barra da minha saia.
Queria que Chessir tivesse vindo para dar um daqueles sermões para cima
de mim, erguendo suas orelhas de forma convencida, mas era eu quem
deveria enfrentar novas instigações e estar preparada para resistir a qualquer
ameaça.
É pra isso que estou aqui.
Arrepiada pelo silêncio daquela floresta, um choro importuno
chegou até os meus ouvidos. Era de uma criança. Seus clamores ficavam
cada vez mais altos e em polvorosa, chamando a minha atenção. Avistei
uma pilha de rochas amontoadas e avancei nelas para escutar mais de perto.
Toquei as pedras rugosas e andei rápido até achar a criança perdida.
Ela poderia estar abandonada ou ter acabado de nascer, não sabia ao certo.
A lástima de repente aumentou e saí em disparada, parando quase
onde acabava a minha proteção. Mantendo-me focada, engoli em seco. Uma
mulher jovem, de cabelos completamente pálidos e longos, balançou um
bebê de colo, tentando acalmá-lo.
— Shh…
Era a Branca. Vê-la acordada me satisfazia por inteira de tão
saudável que estava. Ela murmurava canções de ninar para a criança,
sorrindo docemente. Eu via nos seus olhos uma esperança brilhante, mas
também reuniam um temor obscuro… Tanto que eu tive sensações de
calafrios e me retorci.
Meu peito se contraiu estranhamente. Diferentes energias a
acobertavam, trazendo um ar flamejante ao redor. Era uma descomunal
magia que eu sempre expressava ao recebê-la de braços abertos.
— Você se chamará… — A Rainha Branca deslizou os dedos na
cabeça do bebê, admirando o seu rosto e estreitando os olhos em uma feição
pensativa. Sorri de canto, achando aquela cena comovente. — Mabel.
Mabel Hall. O que achas?
Libertei um soluço de susto, arfando com o coração aceleradíssimo.
O meu nome havia saído de seus lábios. Com todas as letras e palavras.
Eu desabei no chão com milhares de coisas fazendo minha cabeça
rodar e me atingindo as escápulas. Era uma brincadeira, não? Estavam
fazendo uma pegadinha comigo. Tanto Selênio quanto todos do Reino
Branco fingiram que ele estava irritado comigo e armaram aquilo para me
assustar. Era isso, certo?
Não. Uma possibilidade irreal. Não podia ser eu. Eles não fariam
aquilo comigo.
Estava ficando louca da cabeça aos pés. Era tudo uma mentira, tinha
de ser a minha imaginação mais uma vez querendo me manipular. Um
sonho. Mas eu respirava, tocava, sentia o pulsar do País das Maravilhas. Ele
estava em meu sangue… desde quando eu nasci. Corria nas minhas veias,
assim como me fascinara a alma, bombeava o meu coração, permitindo que
eu vivesse. Quanto mais ficava naquele lugar, mais absorvia os traços
subterrâneos, tanto física quanto emocionalmente. A fase de pensar como
mundana havia acabado pelo menos daquela vez. A verdade de quem eu
realmente era estava prestes a aparecer.
Era eu. Eu era a filha de uma rainha, a única herdeira humana do
País das Maravilhas. Lily fora jogada de escanteio. Eu enganei a mim
mesma sobre meu nascimento, as minhas raízes. O pergaminho rasgado da
cronologia da minha existência, meu poder, relações, tudo fora gerado
primeiro ali.
Lágrimas quentes escorreram e caíram, molhando o canto dos meus
lábios ressecados. Selênio tinha razão, mas não parecia saber da verdade.
Foi somente uma sequência de apostas. Ellis já sabia do meu passado e me
atraíra para a mais pura e concreta realidade, porque queria que eu achasse
o princípio… do meu lugar.
Talvez eu já estivesse recebendo sinais e os ignorei aquele tempo
todo.
Minha respiração errática falhou, veloz e prejudicando o
funcionamento do meu cérebro. Estava redondamente claro e óbvio: eu
seria a nova Vermelha. Teria que substituir a original e tomar posse de tudo
que um dia ela havia governado, mas eu não estava pronta. E meus pais, o
colégio e Hazel? Jamais deixaria tudo para trás, simplesmente apagar minha
vida humana com uma borracha. Seria egoísta se eu os largasse por causa
de um sonho transfigurado em realidade. Porém, ao mesmo tempo, não
podia abandonar o que conquistei recentemente. Apertava minha garganta
deixar aquelas criaturas na mão.
Cambaleei ao lembrar da situação recente da Rainha Branca. A
única maneira de despertá-la seria termos um contato maior — o qual
sempre quis ter, embora ainda não soubesse o que viria a desmoronar acima
de nossas cabeças. E de forma alguma desistiria dela.
Faltavam-me forças para continuar ali. Havia coisas a serem tiradas
a limpo com Ellis e esclarecê-las.
Espere… As ninfas. Elas, com certeza, sabiam exatamente o que o
Oráculo dizia e me induziram para cá seguindo a profecia. Aqueles dizeres
que pediram para eu falar era um aviso do que iria acontecer.
“Ao entrar, a magia renascerá.”
Eu era a magia pertencente a uma parte importantíssima do Reino
Branco, antes morta a partir do rapto. Sem a magia, o País das Maravilhas
virara aquele caos desequilibrado. Eu era a rocha de sua tristeza por tantos
anos até o hoje.
Sequei os resíduos de lágrimas parados nas minhas bochechas e me
levantei do chão. Selênio diria que rainhas não choravam; elas tinham força
e voracidade o suficiente para afrontar sejam quais fossem as
consequências. Só que ainda era cedo para eu ganhar tal força.
Continuei assistindo discretamente Branca. Ou melhor, a minha mãe
biológica.
A ficha só ia cair depois de séculos. Sem perceber, eu ainda chorava
baixo. Eram muitas coisas a serem resolvidas e consertadas. Unir e amarrar
novamente as linhas rompidas.
— Vê-la chorar me parte o coração, meu amor. — Ela encostou a
cabeça na da filha, fechando os olhos. — Deves estar faminta. Como não há
ninguém por aqui, acho que ficarás segura, hum? — Desencostou do tronco
da árvore e deitou a filha, olhando em volta. — Me espere aqui. Eu voltarei.
Ela cambaleava. Seu corpo estava mole e quiescente. Eu tinha
nascido ali, longe de qualquer ajuda ou apoio, e ela me deixara sozinha,
sem proteção.
Eu não compreendia. Mildred se afastou do ponto central do País
das Maravilhas para dar à luz escondida. Deveria ter algum motivo para ter
se separado de todos e estar preocupada que alguém a descobrisse.
Eu cruzei os braços, exaurida. Quando ela se retirou, guinchos
distorcidos martelavam as minhas têmporas, sibilando e investindo contra
mim. Tampei os ouvidos e tentei abafar os ruídos em vão; meus batimentos
ficaram descompassados junto deles, e controlá-los ficou difícil.
Escutei novos passos amassarem folhas que descansavam no solo.
Eram largos e calmos. Olhei para trás e fiquei mais calma ao ver que
ninguém tinha me visto.
Uma sombra surgiu emitida nos muros cinzentos e feitos de pedra.
Ela assobiou misteriosamente uma música nada agradável, carregando um
saco aberto. Eu contive um gemido de pavor brotar na minha garganta,
teorizando que o vulto podia ser ameaçador para minha versão criança.
Então era por isso que Mildred estava receosa. A sombra era de um
homem e, ademais, um homem maníaco. Segurei o meu arco com força.
Aquele ser pôs as suas mãos asquerosas no pano que me cobria, e apertei os
olhos. Ele havia me sequestrado sem nem mesmo saber quem eu era.
Eu queria gritar, mas algo impediu que eu fizesse aquilo, como se
Ellis estivesse limitando os meus ataques.
O homem abraçou a bolsa e olhou para os lados. Ele havia deixado
uma fresta para eu poder respirar, saindo do local assim que adentrou nas
profundezas da floresta.
A Branca voltaria uma hora ou outra. Assim como no presente, ela
passaria toda a vida à minha procura. E o pior daquelas ocorrências era que
não podia ter o poder de recomeçar os nossos passados entrelaçados. Ter
duas vidas normais e não ter permitido muitas coisas das quais a separaram
de mim.
Impeça-o, o meu lado emocional suplicava. Controle-se, a razão me
relembrava. A dor que eu sentia era agressiva demais para eu conseguir dar
conta. Imaginei-me sentada em um trono, vestida de vermelho e usando
uma coroa repleta de joias de rubi, algumas maiores e radiantes, e eu com a
bravura finalmente libertada.
A voz da Rainha retornando quebrou os meus devaneios.
— Filha, o que você acha de…
Ela parou logo quando notou que “eu” havia sumido. Seu olhar
atormentado percorreu todas as direções e cantos que a cercavam. Sua
respiração ficou frenética. Franzi os olhos quando estes se deslocaram para
o corpo da mulher desabando e, por impulso e estímulo, eu corri na sua
direção. Ela ficara inconsciente, porém me esforcei para conseguir acordá-
la. A sua pele adquiriu uma tonalidade mais nívea do que o normal; a
palidez tomara conta da cabeça até os pés.
Eu toquei sua testa. O pescoço suava frio, e estremeci com uma
viabilidade. Arfei em surpresa. A gelidez impregnada na pele suave
indicava que Branca estava doente. E aquele adoecimento não viera de
súbito; ela já estava assim.
Brandir seus braços não adiantava. Eu devia voltar para o presente e,
contra a minha vontade, deixá-la ali. Aquilo esfrangalhou toda a minha
carne. Eu não queria consentir que mais coisas ruins a destruíssem.
Formei recentes poças de lágrimas sobrantes gotejarem a raiz da
árvore plangente, e me despedi de minha… mãe. Peguei o objeto
transportador de meu bolso, soltando lentamente as suas mãos.
Eu voltarei. E irei recuperá-la para nunca mais me tirarem de ti.
♠
Manifestei-me com uma névoa purpúrea crescendo dos meus pés. O
relógio flutuava mecanicamente para o domínio de Ellis, que estava virada
e alheia ao meu retorno. Chessir ficou abismado.
— Por que não disse logo o que estava por trás do País das
Maravilhas? — Elevei um pouco o tom da voz, fazendo Ellis me encarar
com íris ardentes. — Eu sou uma herdeira. Tem noção do quanto isso irá
transformar a minha vida?
Ela me estudou com compreensão.
— Você não acreditaria em mim, Mabel Hall. — O Rábido caiu para
trás, novamente atormentado. Uma fibra de mariposas tentou reanimá-lo
atrás de nós. — As minhas palavras podem ser sinceras, mas dependem da
sua crença. Por que não contei a ninguém a história de Mildred? Porque eu
sabia que Lily ou qualquer outra garota voltaria um dia, porém ninguém
sabia quando. A deusa da Profecia é incomunicável.
Eu pisquei várias vezes, pensando no que perguntar. Eram tantas
coisas que eu estava perdida entre elas. Diante da revelação, um risco
fluorescente trouxe vida às estrelas escondidas do céu escuro.
Eu tinha 10 anos quando procurava uma menina aparentemente da
mesma idade que eu e cujo rosto era um borrão. Ela aparecia dentro da
minha casa, explorando os cômodos em uma correria travessa, chamando-
me e me observando. Seus cabelos tinham a cor da noite. Mas ninguém,
exatamente ninguém, a via, muito menos tinha uma lembrança de suas
aparições.
Lembrava-me de mamãe dizendo:
— Não tem ninguém correndo por aí, querida. E, se tivesse, pode ter
certeza de que nós a veríamos. Talvez ela seja alguma amiga imaginária —
supôs.
Quando trazia aquilo à tona em mente, percebia que a menina era o
meu próprio reflexo, o meu eu sobre-humano me chamando para despertar.
Céus! Não sabia se aguentaria absorver tantas informações. E eu não
era órfã de pais biológicos. Eu finalmente descobri o meu passado, pensei,
desesperada.
— Eu teria quase certeza. E, sim, foi melhor eu não ter desconfiado.
Por favor, continue contando tudo.
— Há muitos anos — começou ela —, um homem queria vingança
da Rainha. Ele era o seu futuro marido, metade humano e metade do sangue
do País das Maravilhas. Dominic planejava ter filhos homens com a Rainha.
Não admitia mulheres em sua família, pois para ele somente homens seriam
ensinados a usar suas forças para o que ele quisesse. Sendo assim, ele se
tornaria o Rei Branco, tendo o direito de reger o Castelo Invernal junto a
ela. — Ellis gesticulava, enquanto escolhia as palavras, querendo a minha
total atenção. — Na era antiga do Mundo Subterrâneo, os seus indivíduos
acreditavam numa ignota maldição sobre mulheres serem proibidas de
terem filhos com humanos antes do casamento dentro do próprio reino,
senão arcariam com as consequências.
— E quais seriam elas? — interrompi-a. Fiquei tão pálida quanto às
bruxas voadoras em forma de insetos.
— Algo ruim poderia ocorrer com o seu descendente, um progênito.
Uma suposta praga causaria problemas com o seu desenvolvimento, pois
ninguém ia querer conviver com uma pessoa amaldiçoada. Desconfiavam
de um contágio.
Obriguei-me a me lembrar daquela feição horripilante vista minutos
atrás.
— Aquele homem… Ele era Dominic. A sua vingança era me tirar
da minha própria mãe. Como… como você ficou sabendo disso? Ele tinha
ido para muito longe e…
— O espelho — prosseguiu ela — criado pelas ninfas. O primeiro
espelho construído após o desmoronamento da Toca do Coelho foi usado
por ele. Elas estavam observando você para o caminho até aqui. Dominic
havia descoberto a passagem para o mundo humano e fugiu. As fadas me
alertaram desse incidente, mas não deu tempo de salvar a Rainha Branca.
Ela já se encontrava doente. Tinha medo dessa maldição e quis gerá-la
afastada do Reino Branco, pois não queria pôr a sua vida em risco. Dominic
era interesseiro, solerte. Não acreditava naquela calamidade e insistiu em
assistir ao seu nascimento no quarto da Rainha. Os dois tiveram uma briga
que, por um fio, nos separariam, mas a Rainha o amava… Tanto que a sua
paixão venceu o desacordo que tiveram, e ela não pediu um rompimento. E
foi quando teve uma recaída de tristeza, farta de esperar pelo seu retorno.
No entanto, Mabel… Você acabou aparecendo, e na idade certa,
reconhecendo os sinais de um mundo oculto.
— Ela foi boa demais para um amor não correspondido —
murmurei.
Deveria ser recíproco tudo que significava um amor fiel. Aquilo…
Aquilo era tão confuso. Parecia que eu estava de olhos fechados esse tempo
todo.
Havia outra revelação: a espada que eu havia usado quando vi as
formigas — elas eram das ninfas. Elas me ajudaram. Talvez eu tivesse sido
dura ao achar que elas tinham uma culpa no cartório só por saberem da
minha vida. Será…
— Antes de buscar pelo sorriso de Cheshire, fui orientada por uma
voz. Você conseguiria identificar de quem era?
Nem precisei me aproximar. A deusa, em passos lentos, teve a saia
agrupada de babados, conduzida a balançar ao se mover, e depositou as
mãos gélidas na minha face, estabelecendo um silêncio no qual o único som
era do farfalhar dos insetos… Os sussurros dos espíritos deles, se
porventura tivessem um. Durante a procura de Ellis por cada ligação dentro
da minha cabeça, encarei a estátua de uma mulher nua atrás dela, bem nas
sombras. A figura estava sentada em uma pedra, cercada de um extenso
tecido de cetim que cobria flores abaixo dela. As asas dela continham cores
frias. Era loira e magra.
De forma brusca, o toque entre mim e a deusa foi quebrado.
— Mabel… — Ellis segurou o meu queixo, delicadamente. — O
mundo em si é cruel, mordaz, desumano. Há pessoas boas e ruins, mas cada
uma de suas máscaras é temporária. Elas, um dia, irão cair por culpa de sua
própria desolação. Não alimente esse tipo de hipocrisia. Siga o que é certo.
— Por favor, seja direta — pedi, sentindo o meu intelecto cair.
— Ele quer você — revelou. — Propositalmente, e usando uma
tática de ajuda. — Vendo minha expressão confusa, Ellis abaixou os braços.
— O seu pai, Dominic, atualmente e em segredo, quer te atrair para um
covil de leões. Ele é o Espectro Cruel.
Chessir, ao acordar meio perdido, foi tomado de condolência ao
sustentar aqueles olhos glaciais. Fiz força para me manter de pé. O meu
genitor, que também me deu a vida, é um espectro cruel.
— Estou sendo procurada, então. Meu próprio pai quer algo em
troca. Agora eu sei por que as pessoas boas se machucam mais do que as
más. — Minhas palavras saíram em um sussurro, mas Ellis as escutou. —
Elas têm a pureza no coração tão firmes que se sentem destruídas quando
ferem alguém com os próprios problemas. — Eu suspirei. — Preciso
encontrá-lo no intuito de saber mais.
Ellis assentiu.
— A imaginação está permitindo que você abra os olhos para a
verdade, mas eu vejo que você, menina, precisa tomar cuidado. O seu poder
que a firma e a equilibra faz com que ela realize as suas fantasias, mas na
hora em que o descontrole assume a mente, dependendo se sabe controlá-la
ou não, ele faz as suas criações virarem um pesadelo.
Algo relacionado às minhas íris me tomou. Quando Chessir e eu
estávamos vindo para o Castelo de Ellis, vultos estranhos e fantasmagóricos
se movimentaram a nossa volta. Eles só seguiram o Rábido, menos eu.
Porque eu era um tipo de guia deles.
— Então os meus olhos são um tipo de comando que é preso em
meu sangue desde a minha nascença. Eu poderia tê-lo em qualquer lugar.
— E transmiti-lo corretamente quando as suas marcas surgissem.
— M-M-marcas? — perguntei, um tanto surpresa.
Ellis pegou meu braço, pressionando o polegar no meu pulso. Agora
que eu tive um contato lícito com a Rainha Branca, algo nômade em mim
havia mudado. Sentia um leve choque elétrico e linear contorná-lo,
assumindo a figura de rosas brancas abraçando uma única espada grifada no
pulso. A imagem criou forma, e eu a estudei, desnorteada.
— Isso significa a pureza e inocência da realeza Branca. Estamos
em um recomeço. — A deusa me soltou, sorrindo de canto. Eu a imitei. —
Será eterna se você a manter viva em sua alma, regando-a com
perseverança e lucidez. Não tenha medo de mostrar para aqueles que a
conhecem no outro mundo.
Tinha me esquecido totalmente daquilo.
— Eu necessito consertar o que Dominic fez. Ou melhor, o
Espectro. Vou assumir o meu dever. Aliás… o que me faz ser diferente de
Alice? Não consigo entender.
Ellis assentiu, demonstrando que estava contente e satisfeita com
minha decisão. Após a boa reação, formou um raio de luz em seus olhos
espelhados, como se, de alguma maneira, admirasse minha curiosidade.
— Selvageria, maturidade, força mental e física. Essas
características estão aí, conforme você descobre mais sobre si mesma.
— Certo. Preciso… levar a minha bagagem. — Apontei para
Chessir.
A deusa soltou uma risada breve e pairou até um certo ponto.
Carreguei Rábido, ainda aturdido, nos braços e avistei um portal no formato
de espelho emanar das profundezas, criado por Ellis. Fui hipnotizada por
ele.
— Não tenhas receio do comprometimento. Ele que a levará à
navegação pela liberdade. Ganhe-a por merecimento. Saberás o que fazer
quando colocar os pés no chão e fazer o teu destino.
Uma nova neblina esbranquiçada nos aguardava. Imitando a
primeira vez que fiz, estiquei o meu braço na expectativa de atravessar o
espelho e movimentei os dedos ao sentir um licor espesso e rígido envolvê-
los. Como se eu fosse me beijar, fui conduzida ao Reino Branco,
determinada a chegar antecipadamente à tempestade.
E não teria mais medo das minhas próprias sombras.
O Apocalipse
Ondas de calor superavam a ferveção crescente do espelho ao me
absorver. Meu polegar formigou; digamos que pelo impacto do meu corpo
rolando e o de Chessir, visto que caímos na entrada do portão do Reino
Branco. Retirei pedaços de mato fincados em meu traje.
Eu corri, guindando o vestido, e joguei os cabelos no ar. Eu os
coloquei por cima dos ombros. Dei saltos largos enquanto corria até o
jardim, e as árvores me saudaram. Eu as retribuí de maneira rápida e depois
foquei na porta do salão principal do castelo.
— Alteza! — Rábido berrou ao conseguir me alcançar.
Eu franzi o cenho.
— Não precisa ter essas cerimônias comigo. Sou a Mabel, aquela
garota medrosa e bipolar que você conheceu.
Ele abanou o rabo encardido, sorrindo amarelo. Chessir era uma
mistura de maciez e terror, porém parecia viver bem.
E eu tinha que arrumar uma desculpa para fugir de ser uma rainha e
princesa inexperiente ainda. Dois cargos eram demais para mim. Annie
havia dito sobre reivindicação de tronos. Se aquilo estivesse relacionado à
morte de uma rainha, eu teria o direito de substituí-la se fizesse parte do
sangue real e pertencesse a uma grande escala imperial, sendo filha ou irmã
legítima de uma realeza.
Fiz um sinal afirmativo para Chessir e voltamos a nos apressar.
Estendi o indicador para passar a minha impressão digital na admissão
metálica, em um furo que cabia perfeitamente o meu dedo. Como me
conheciam, eu já havia registrado a gravura. As duas portas se abriram,
recebendo-nos com boas-vindas. Tremi os músculos e avancei para o
primeiro corredor, dando de cara com a barulhenta cozinha. Desviei de
sujeiras culinárias empoçadas e escorreguei pelas paredes, gritando:
— Eu voltei!
A Lebre de Março saiu de debaixo da mesa e puxou as suas orelhas
feito um elástico por pura empolgação.
— De volta está Mabel! — Ela subiu na mesa e jogou o pires de chá
no chão, enquanto pisava neles e os quebrava, saltando freneticamente. Eu
procurei os outros e ouvi a Lebre chamá-los.
Foi surpreendente dizer aquelas palavras. Poderia ditá-las sílaba por
sílaba outra vez, para sentir a alegria de ter voltado viva de minha
peregrinação para encontrar Ellis.
Subindo as escadas de vidro, os gêmeos Tweedles sugiram entre
Annie, Solar e Jack. Eles sorriram — menos Jack —, contudo, ficaram
confusos.
— O que aconteceu? — perguntou Annie, parando ao meu lado.
— A rainha. Eu preciso vê-la!
Saí em disparada novamente, ignorando suas perguntas. Eu não
tinha tempo para perder distante de uma rainha à beira da morte aos poucos.
Não permitiria que sua vida desmoronasse nas minhas mãos antes mesmo
de fazer com que ela soubesse que sua filha sempre estivera e estudara a sua
história desde a infância, quando menos tinha a noção do que estava por vir.
Procurei parar de vibrar. Com as costas pinicando de calor, dei um
passo em falso no degrau e tombei para o lado, mas me apoiei no corrimão.
Eu havia sido barrada pelo cão de guarda do reino e seu semblante estava
amuado — uma notícia nada boa seria divulgada.
Ele levantou os olhos.
— Eu… n-n-não sei co-m-mo dizer isso. Só…
— Algo deu errado?
Agachei-me, sustentando o olhar do fiel cão. Eu ergui o seu queixo,
usando o dedo indicador, e o obriguei a me encarar.
— Diga-me, por favor…
Dificilmente resisti às inovadas lágrimas se unirem por baixo dos
meus cílios. Ela está viva, ela tem de estar.
Passei pelo animal e resolvi rejeitar todos que me chamavam.
Arrependi-me de tê-lo impedido de falar, mas eu estava muito perto do
quarto para retroceder.
Ansiei em girar a maçaneta da porta do cômodo e fui recebida por
uma fragrância aromática me envolvendo. Cheshire pairou e enroscou na
minha panturrilha, dando-me um pequeno susto diante da aparição
inesperada. Fiz um “shh” baixinho e escutei mais passos me
acompanharem.
Meu foco voltou à cama da rainha. Seu tórax subia e descia
lentamente, e se fosse provável ela estava pálida como a neve. A cor do
rosto estava perdida. Estava esmaecendo — o que significava o pouco
tempo que lhe restava de vida.
Cerrei os punhos e me ajoelhei ao seu lado, no tapete de camurça.
Annie se infiltrou e entortou os lábios, começando a chorar em meio a
soluços dolorosos.
Eu apanhei uma mão de Mildred e as juntei. Lembrei dos conselhos
infalíveis do meu pai quando tentava me confortar. Fechei os olhos, imersa
na escuridão. Toda aquela demora e desastres pareciam se agravar por
minha culpa.
Ninguém, exceto ela, sabia quem eu era.
Imaginei nós duas em um céu equidistante. Meus pais de coração
faziam parte das minhas duas vidas. Eu não me sentia dividida entre eles.
Também amava a Rainha assim como o País das Maravilhas, tendo cada
espaço deles enovelado em cada tecido do meu corpo.
Um vale iluminado por faíscas ultravioletas deixava visíveis
partículas de poeira no ar, tingidas e cromatizadas. Moinhos de vento
giravam, mais próximos das torres localizadas, e balões cheios de luz
voavam, comemorando mediante cada vida enviada para aquele lugar.
Era como o céu, de verdade.
Mas o céu do País das Maravilhas.
Parecia verão, pois a coloração da grama e do jardim sob a luz do
sol agitavam-se conforme a mudança climática e levavam os pássaros a
cantar. Ainda tínhamos vida. Deseje sempre o bem, de todo o coração, eu
sussurrei, recitando as palavras sinceras do meu pai, e colei o meu pulso,
desenhado no da Rainha Branca.
Era o mesmo desenho que o meu, agora revelado. Parecia ter
ativado nossa marca. Aquilo vinha de nascença, como Ellis explicara.
Minhas marcas demoraram para surgir, tanto quanto a minha
responsabilidade mal desvendada.
Senti uma palpitação agitar os meus batimentos, despertando-me de
minha distração. Eu vibrei de surpresa logo que a cicatriz da rainha cintilou
sobre a minha, e chamas dentro de uma linha de costura contornaram a
silhueta da rosa.
Um alerta surgiu. Ela estava acordando.
Eu tinha uma esperança. E ela difundia em meu próprio sangue
ligado ao dela. Em um instante, eu decidi conjurá-la, tocando na pele
amolecida de seu braço.
— M-M-M… — gaguejei pouco a pouco antes de pronunciar a
palavra certa a ser dita. — Mãe. — Agarrei mais uma mão, enredando os
nossos dedos. — Acorde. Eu estou aqui.
Todos ali preferiram o silêncio ao invés de questionar sobre minha
forma de chamá-la. Sempre repeti de forma consecutiva que era Lily a filha
da Rainha Branca, como em As Aventuras de Alice no País das Maravilhas.
Aquilo devia ter permanecido na cabeça das criaturas de tanto que repeti.
Nem Carroll sabia quem era a verdadeira herdeira do Reino Branco.
Mildred possuía o trono, já a progênita o ocuparia depois, até a morte —
caso fosse uma mortal assim como eu. O autor inventara um nome feminino
para dar sentido ao seu primeiro livro.
Era cruel saber que não estaria mais ali daqui a um tempo. Minha
vida normal estaria me esperando, chamando meu lado humano de volta.
A canícula percorrida pelos nossos pulsos se apagou
simultaneamente. Esperei alguns segundos. O silêncio deu lugar às
respirações instáveis que tinham sido refreadas. Não podia terminar ali, sem
resultado nenhum… Eu sabia que havia alguma coisa, uma chance de a
Rainha poder despertar.
Solar mexeu a cabeça, um movimento de negação. Então ela a
abaixou.
Encostei a minha no tecido polido da cama, amarrando um choro
contido na garganta. Senti um nó apertá-la. Nunca senti uma dor alucinante
como aquela. Culpava a mim mesma, mas esqueci completamente de
Dominic. A culpa era dele. Ele fugira comigo em seus braços como um
covarde, aproveitando que eu era indefesa e pequena, além de, é claro,
descartar a existência da esposa só porque não aceitava ser trocado. Como
um interesseiro de primeira mão podia ser amado? Ele a atraíra e usara suas
garras mitomaníacas para deter o trono.
A Rainha Branca respirava com dificuldade, e eu teria que ser
rápida. Pensei em usar meus poderes, embora já tivesse tentado.
Entrei em alerta, Selênio de repente surgindo na memória. Se eu
tinha a magia em meu sangue, ele também deveria ter. Nascera diretamente
do País das Maravilhas, então com certeza havia herdado algo diferente.
Minha esperança evaporou. Eu ainda precisava do seu perdão.
Recitei os conselhos de Ye-Eun assim que eles me revisitaram: quando
estiver em uma batalha contra as suas próprias decisões, estará sozinha.
— Preciso encontrar Selênio. — Eu me levantei. — Ele pode saber
o que fazer. Eu queria… queria mesmo saber como me resolver sozinha,
mas… é improvável. Selênio sempre soube como ajudar vocês, e eu fui
idiota demais para não valorizar seus conselhos.
Pela primeira vez, vi Cheshire com a expressão superchocada.
— Mabel. — Annie tomou a dianteira. Eu pousei as mãos da rainha
lentamente no lugar, fitando sua sobrinha. Ou melhor, minha prima. Sua
voz estava embargada pela emoção. — Eu deveria chamá-la de… Vossa
Alteza.
Dei um sorriso tímido de canto.
— Preciso me acostumar com isso. Devemos esperar essa
tempestade passar primeiro, certo?
Ela pôs uma mecha de cabelo branco por trás da orelha, assentindo.
— Respeito a sua decisão, sendo que não acho viável você procurar
Selênio. Vocês não estão numa boa relação para pedir um favor de extrema
importância. Ele pode rejeitá-la.
Arqueei as sobrancelhas em desdém. Ela jamais diria aquilo sem
algum motivo importante.
— Por que ele não aceitaria as minhas desculpas? Elas seriam
redondamente sinceras. Demos um tempo…
— Ele… — prosseguiu ela, quase engasgando palavras sufocantes.
— Foi capturado. Desapareceu enquanto cuidava do canteiro das rosas
vermelhas, um pouco após a sua viagem.
Meu mundo desabou e murchei. Naquela hora, Bayard tentava me
alertar sobre os dois quando o interrompi, surda para problemas que
queriam nos invadir ainda mais.
Minha memória vagou por todos os momentos que experimentei na
peregrinação: o Exército de Copas, as formigas, o Arco da Perversidade, a
fera sanguinária e o compromisso com Ellis.
É isso! O exército. Alma Branca. Tudo estava se conectando como
um enigma desvendado aos poucos. A Alma Branca era Selênio. À vista
disso, por que ele? Eu era uma ameaça afrontosa à Rainha de Copas que, a
qualquer instante, subjugaria o Reino Vermelho para as suas mãos.
Naquele caso, eu não me importaria com nada. Disciplina,
responsabilidade, nada que pudesse me estorvar de tomar decisões.
Peguei o meu arco.
— A Rainha de Copas o sequestrou por arrogância própria. Ele não
fez nada. Eddy e ele só tiveram um desacordo na infância. Isso não a afetou
diretamente.
Ela arregalou os olhos. Talvez não tivesse desconfiado daquela
serpente asquerosa.
— É arriscado, Mabel. — Ela se aproximou, massageando meu
ombro. — Se ele está mesmo nas garras dela, ela não irá entregá-lo de
bandeja. Pedirá algo em troca, uma barganha.
— Eu farei o que for preciso para recuperá-lo — garanti a ela. Tinha
dificuldade de achar as palavras certas ao falar sobre Selênio e responder a
questionamentos, o que era estranho, porque eu costumava reclamar muito
do jeito que os garotos me tratavam em Brighton. Agora… agora ficara
diferente.
— Não irei interferir nisso, e nem permitirei que os outros a
impeçam — disse Annie. Era justo deixá-la tomar as rédeas da situação.
Ela falava como uma irmã mais velha para mim — autoritária, mas
protetora.
Engoli um sentimento apreensivo.
— Sim, e é. Fico muito agradecida.
Com um último olhar para a pálida Mildred, meu peito inchou de
tanta amargura. Montei um novo plano, decidida a acabar de vez com
aquela guerra que destruía lentamente as raízes do País das Maravilhas.
♠
Aconcheguei-me em uma grossa casca de escamas de um corpo
carnoso. Voava pela primeira vez graças a uma borboleta gigante, que
planara perto de onde Chessir e eu estávamos mais cedo. Ela transpassava o
ar enquanto batia as asas pesadas.
Falando em casa, havia um monte delas em formato de bules de chá
— lá do alto, elas continuavam grandes. O motivo de eu montar no inseto,
literalmente, era uma forma de agradecimento. Toquei em seu corpo como
Rábido consertando o Espelho Vermelho. Analisei as suas entranhas se
unindo e montei os seus restos desalinhados. Senti um choque percorrer
pelos meus dedos ao tocarem nas asas e controlei estranhamente tudo.
A borboleta me ofereceu ajuda, sibilou um “Suba, estranha!” e
inclinou-se para mim. Suas pintinhas negras escorriam — parecendo uma
tintura nova derretendo devido ao efeito do calor. Um som de água corrente
me relaxou, e eu acariciei aquelas finas antenas folhosas, procurando não
segurar em suas pernas para me equilibrar no voo. Era surpreendente sentir
o organismo da borboleta funcionar e pulsar bem na palma das minhas
mãos.
— Sabe, menina — disse a borboleta falante, de repente quebrando
o silêncio —, não é a primeira vez que levo coisas pequenas como você ao
Reino de Copas, só que a maioria acaba se arrependendo.
— Ah, é? — perguntei. — E por quê?
— O motivo é único: a Rainha de Copas. Ela pode ser extravagante,
com vestidos exagerados e uma coroa ornamentada por espinhos afiados.
Seu comportamento desagradável irrita, ah, se irrita! Ela adora ter a realeza
sobre suas mãos, mas de forma alguma, ah, não — a cabeça da borboleta
balançou —, ela não nasceu para governar de jeito nenhum.
Pensei em ideias criativas para me infiltrar no Reino de Copas sem
desconfiarem de nada. Aquela rainha asquerosa provavelmente estava
ciente do que aconteceria através do Oráculo. E era ridículo uma monarca
“aleatória” tomar a posse do trono da outra. Só se a Vermelha tivesse feito
uma aposta perigosa, na qual o perdedor entregaria um reino inteiro nas
mãos do vencedor.
Assisti ao Submundo do alto, como se fosse uma miniatura de
maquete. Desviei de um pássaro selvagem que vinha em minha direção, o
coração batendo forte na bile. A ave, por pouco, não virara churrasco da
minha querida flecha.
Notei a altura do Reino de Copas semelhante a um gigante, um titã
hediondo, e um pouco distante da civilização. Ele se destacava, pois não
havia nada dos seus lados, apenas o castelo.
Pousamos amenamente. Um vapor fumegante me chicoteou o rosto,
espinhos afiados como os da Vermelha na batalha do passado.
— Todos saem de lá mais loucos do que já são — disse a borboleta.
— Tenha cuidado.
— Muito obrigada. Você é bem forte, hum? — Dei-lhe um beijo.
Ela dobrou as asas, agradecida. Pude ver um sorrisinho escapar de
sua cavidade bucal e retribuí com gentileza. Arrumei as mangas do meu
vestido inspirado nas cores do Gato Risonho e foquei em meu objetivo,
sentindo falta do apoio de Annie. Seguiria a minha escolha, como fui
aconselhada. Devia provar que fui ponderada e sensata exatamente como
ela.
Dedilhei a minha cintura e fui levada a um cheiro de carmim.
Quantos babados minha roupa tinha! E com um corpete vermelho
suportável que me lembrava a parte selvagem do País das Maravilhas: as
mangas compridas estilo rendado iam até o meio da palma da mão e uma
meia listrada cano longo cobria um pouco dos meus joelhos. Cautelosa,
balancei-me para confirmar se a minha arma estava guardada no suporte em
minhas costas e andei para me acostumar com a nova sapatilha de lacinho.
De repente, ativei as defesas após notar um movimento atrás de dois
cogumelos colossais. Fiquei receosa. A possibilidade de serem espiões do
Reino de Copas era grande. Eu continuei a andar, fingindo não ter
percebido tal ameaça.
Vi alguns guarda-cartas-de-baralho conversando, então aproveitei a
distração e curvei o corpo. Andei a passos apressados até que encontrasse
algo que me camuflasse. Avistei uma coluna na lateral do castelo e encostei
com as costas na parede.
Quando fui andando para o lado oposto, uma porta cravada por
espinhos e rosas murchas me saudou. Em cima, janelas de cristais negros
estavam fechadas. A entrada era larga e retangular.
Uma mão virou o meu ombro para trás. Eu arfei de susto, mas fiquei
aliviada ao ver Solar sorrindo, travessa.
— Como… — tentei formular uma pergunta. — Ei, vocês me
seguiram?
— Decidimos apoiá-la nessa. — Jack apareceu, segurando uma
bússola na mão fechada. — É sua.
Eu arqueei as sobrancelhas.
— Não, não é. Por que está me dando isso?
— Aceite logo, sua boba — retrucou Solar. — Você vai precisar.
Sabemos que talvez não saiba como voltar, então…
— Como chegaram tão rápido? — questionei, confusa.
— Aproveitamos que ajudou aquela borboleta, tomamos o caminho
e usamos um portal. Aliás, belo gesto, Alteza.
— É bom saber que não estou sozinha.
Jack segurou o meu cotovelo de leve e Solar nos acompanhou.
Estavam me guiando para ir entre folhas que escondiam as profundezas de
um esconderijo desconhecido.
— Nós brincávamos de pique-esconde quando crianças. Apresento-
lhe o meu lugar favorito. Essa brincadeira acabou virando uma caça ao
tesouro — disse ela. — Estamos em uma passagem secreta para o jardim do
castelo. — Eu soquei o ar de pura excitação. A dupla riu. — Vá pelo
percurso do túnel, suba as primeiras escadas que vierem pela frente e abra
uma porta caindo aos pedaços. Você estará em um porão.
Jack coçou o cavanhaque e concordou.
— Há armadilhas para intrusos por toda a parte. Arranje um jeito de
despistar as cartas guardiãs da rainha.
Daquela vez, o meu plano tinha que dar certo.
— Não sei como agradecer. É perigoso, prático e incrível.
— Você é bem corajosa para não ter medo de ser morta pela rainha
— disse Jack —, porém, nem perca o seu tempo com certas preocupações.
Siga sempre em frente.
Solar me abraçou, enquanto Jack nos assistia.
— Humm, acho que não farei tanta falta se desistir no meio do
caminho e acabar em um calabouço — disse eu.
Encarei-os com um sentimento de despedida temporário e comecei a
andar de costas, sentindo um frio na barriga. E não, eu não os pediria e
colocaria naquela missão incerta. Pensando bem, o flash do meu celular
poderia ajudar a iluminar para onde eu estava indo.
Eu senti cada teia de aranha enredada em plumas brancas e ruídos
de morcegos escondidos chamaram a minha atenção.
Cerrei os olhos e bati minha mão ereta na parede. Sem saída.
Fiquei tapeando-a até chegar mais perto do que pareciam ser
barbantes grossos na estatura de uma escada. Aquele esconderijo
assemelhava-se à Toca do Coelho. Até aquilo a Copas queria roubar?
Se era que havia sido ela quem fizera aquele caminho.
Escalando, esbarrei em uma porta com a cabeça. Uma chave gazua
seria inútil. Apenas empurrei uma alavanca para cima. Sons de fontes de
água jorrando me tranquilizaram um pouco, porém meu sangue gelou
quando um rosnar estarrecedor surgiu perto de mim. E um barulho de
correntes enferrujadas entrando em atrito escalonou.
Tapando a boca para me policiar, gritos eufóricos ecoaram. Passei
por cravos e margaridas falantes e ranzinzas como no Reino Branco.
Estavam à procura de alguém que havia feito algo contra a rainha —
portanto, um masoquista.
Eu encolhi os ombros, agachada e pronta para escutar as fofocas do
dia.
— Como aquele insolente pôde deixar a Vossa Majestade suja de
tinta?! — Uma voz já conhecida por mim me arrepiou. — Pois, no epílogo
final de sua história, seguindo a sua morte de quatro martelos deceparem a
sua cabeça ao mesmo tempo, poderei vê-la pendurada em minha sala do
trono. Maravilhoso, não? Posso decorar quantas quiser!
Contando toda a insanidade de ocorrências que aquela mulher
falava, o lugar deveria ser chamado de País das Sombras. A Copas tinha
um orgulho ferido saindo de suas palavras ameaçadoras. Pelo que eu
conseguia ouvir, ela respirava meio desgastada. No fundo de seu espírito
congelado, poderia existir uma verdade oculta, desvendando um lado
compreensivo e amado.
Alguém cairia naquela?
— Ando muito solitária ultimamente — continuou Copas, falando
sozinha. — Preciso de novos fiéis. O que acham, queridinhas?
Fingi ser uma planta e falei, baixinho:
— Nem a pau.
Demoraram segundos para o silêncio se dissipar e o rosnar
animalesco voltou a me assombrar. Daquela vez, ousei virar o rosto:
Bandersnatch estava acorrentado e olhava para mim, causando em meu
interior um grito mudo. Eu sabia o que estava por trás de seus globos
oculares. Por que o haviam prendido? Para manuseá-lo de escudo? Não
parecia mais ser a fera doce e faminta por alcaçuz que levara Rábido e eu a
descobrir onde Ellis estava.
— G-grand-d-dalhão?
Acabei falando alto demais. Meu cochicho despertou uma mudança
de humor nele, tenebrosa e assassina o suficiente para eu querer sair
correndo dali.
Soltei um gemido aflitivo, que deixou o meu braço direito dormente
com a ardência de uma patada aguçada. Naquela hora, eu estava pouco me
importando se Copas ouviria, embora ela também fosse uma assassina.
O machucado que Bandersnatch fez em minha pele foi se rasgando,
e meu sangue, liberado, esguichando pelo chão. Eu queria saber por qual
razão ele estava agindo tão submisso a Copas.
Observei as suas amarras. Elas estavam quase se rompendo e
aceleravam ainda mais os meus batimentos cardíacos; era como uma
música de fundo. Fechei os olhos e me imaginei despertando do pesadelo
interminável. Minha mente flutuou em concepções para fazer o meu
coração se distanciar da realidade por um momento.
Girando… Girando… Girando…
Eu só queria uma chance para abraçar os meus pais novamente,
dizer o quanto Hazel e seu talento impulsavam minha fantasia. Estava presa
em mim mesma. Queria provar para mamãe que era capaz de voar com os
meus sonhos, mas jamais permitir que eles estragassem a minha vida
normal de adolescente.
Pensar que tomaria de volta o trono quase roubado da inimiga da
Vermelha tornava-se tal ato em uma obrigação de uma herdeira fiel
embrulhada em um casulo. Neguei com a cabeça em desdém e algo
espinhoso e gigante cobriu a minha ferida.
Uma mão áspera e seca entrou em ação e amenizou, estranhamente,
a dor que eu sentia. Ela levantou meu corpo e me revelou para qualquer um
que passasse pelo jardim.
Por um impulso, desviei o braço sensível para não ser
perigosamente arranhado daquela vez pela Rainha, que me encarava como
se visse uma criança vulnerável sob suas enormes unhas semelhantes a
tesouras de metal.
— Quem é a forasteira?
Lembrando de algo que salvaria a minha vida, pigarreei ao
pronunciar um nome falso:
— K-k-ristal. Com K.
Seus olhos ficaram negros: a cor do isolamento, solidão e morte.
Estas três descrições me fizeram gelar da cabeça aos pés quando sabia
perfeitamente o que poderia acontecer comigo a um novo som de música
clássica saindo de dentro do castelo.
Ela trocou de feição; parecia ter mudado de ideia sobre me tratar
bem ou mal por eu ser uma invasora. Bateu palmas, vislumbrando estar
admirada comigo.
— Ora, ora. Que nem um tesouro caro e limitado! — Ela se desviou
do foco e se virou para Grandalhão, que ficou mais quieto. — Machucaras a
minha mais excêntrica convidada?
Convidada?
A fera uivou, arrependida.
— Junte-se a mim. Agora! — A Copas me ergueu pelos braços.
Aparentava estar sozinha o bastante para querer minha companhia. — E
trate de sobreviver até o jantar.
♠
Gansos voadores eram incapazes de voar.
Eles tinham os pescoços e pernas puxados por cordas consistentes e
pesadas, cortando as suas penas, igual a uma lâmina. Usados como pinhatas
de festas de aniversário para serem espancados com um bastão de beisebol,
entretendo o público acostumado com espetáculos mórbidos.
Todos os presentes pareciam acostumados com o show, então
acreditava que fosse um ritual praticado cotidianamente pelos lordes, bichos
exóticos e damas do castelo. Observei as gaiolas com besouros de ternos
presos antes de entrar, passando ao longo dos corredores. Tudo era pintado
de vermelho e havia símbolos de baralhos espalhados pelas vestimentas dos
anfitriões. Parte de um exército de cartas feitas de mármore foi colocada no
propósito de intimidar as “carnes frescas” que viessem ali.
Duendes azuis e fadas das sombras saíam de suas casas na
penumbra — baús incrustados de vidro —, tilintando após entrarem em um
portão dourado que estava aberto. O nome da Copas soou: Anastacia.
Descobri durante a reunião apressada, na qual chamavam todas as criaturas
para o jantar. Em seguida, nos adentramos no salão virado de ponta-cabeça.
Meus cabelos ficaram em pé, menos o vestido, controlado pela
Rainha, que não estava nem um pouco a fim de ver seus súditos pelados
devido à gravidade. Ela me puxou, cruzando os nossos braços
“amigavelmente”. Eu queria cuspir tudo o que sabia na sua cara, devolver
os restos de ódio consumidos que eu estava conseguindo guardar até o
momento.
Comprimi os lábios com força, descontando neles um rancor
acumulado. Levantei uma perna propensa a abrir espaço a um anão que
correu abatido pela Rainha.
— O que são eles? — perguntei, apontando.
— Elfos — respondeu ela, enojada. O degradê meio vermelho e
meio preto de sua boca se mexeu. — Trapalhões e desastrados, ficam
perdidos quando estamos em eventos importantes deste tipo. Vossas
responsabilidades são dispensáveis.
Seus assuntos eram delirantes. Envolviam a morte de animais que
ela mesma sacrificava por não serem úteis para as suas refeições do dia e da
noite, sem demonstrar qualquer compaixão.
Uma mosca pairou perto da minha orelha, sussurrando:
Tampe os ouvidos.
Franzi o cenho e a espantei. Encarei Copas. Ela encheu os pulmões,
e logo entendi o recado do ingênuo inseto.
— O jantar está servido! — gritou Anastacia, e todos pararam em
suas posições, alarmados, ainda com presteza para correrem e arrumarem a
mesa. Meu cabelo caiu novamente. Envolta em preto e carmim, as paredes
da sala de jantar começaram a girar e funcionar como uma ilusão de ótica.
A náusea me embrulhou o estômago. Apertei de leve minha barriga para
conter a ânsia de vômito. — Que sombra elegante, amada. Pena que sua
beleza não faz jus a ela. — Anastacia, bajulando-me e cuspindo ofensas
simultaneamente, referia-se à minha maquiagem azulada e tonalizada de um
roxo vibrante.
De supetão, meus sentidos pegaram fogo. Um cheiro forte de bebida
penetrou o ar que respirava, enviando a todos um odor forte. Fiquei
incomodada ao virar à esquerda e avistar dois assentos colados juntos, um
para mim e outro para ela.
Fadinhas malignas esvoaçaram pelos cálices das entidades sentadas
em cada recinto, soltando risadinhas grossas e bizarramente nefastas. A
velocidade delas ajudou na minha tontura causada pela labirintite.
Desviando o foco delas, quase me assustei com uma possível parente da
Copas, de rosto robusto da cor branca, um batom exageradamente vermelho
no centro da boca e um blush em formato de coração nas bochechas. Sei lá,
as coisas ali se assemelhavam bastante ao Reino Vermelho. A obsessão
daquela rainha por outros reinos estava escancarada.
Para mim, era possível bolar um plano em mente. Eu tinha de exigir
a liberação de Selênio da prisão e que ele fosse entregue para onde devia
estar: seu posto. Um chapeleiro precisava de liberdade para criar, e uma
lagarta, para pensar o que quisesse.
Limpei as mãos em um lenço dobrado ao lado do meu prato vazio
de acrílico. Só estava aguardando a hora do verdadeiro apocalipse.
Apesar de estar fervilhando por dentro, não queria puxar assunto ou
jogar uma isca a ninguém. Qualquer cuidado era pouco, e Copas
desconfiaria de mim por uma fração de segundo. No copo servido a mim
havia um vinho de cauda de cobra enrijecendo minha espinha. Queriam
uma morte e tanto naquele momento, simplesmente para entretenimento do
público.
Os portões desenhados de naipe se abriram. Em meio a duas colunas
de cartas marchando, uma figura indesejada ajustou o tapa-olho e levantou
o rosto em uma expressão determinada.
O Valete.
Meus olhos se arregalaram. Aproveitei que uma almofada roxa
estava em cima da minha cadeira e a coloquei na frente do meu rosto,
suando frio. Como eu havia me esquecido dele, sabendo que talvez ele
fosse mais perigoso do que eu imaginava?
A Copas continuou distraída, encarando normalmente aquela
multidão, enquanto eu me levantava da cadeira no objetivo de me esconder.
Ser reconhecida por alguém significava a morte.
— Kristal, minha querida. — Anastacia arrastou a cadeira e a sala
ficou em silêncio. Estremeci. — Apresente-se para vossas companhias a
conhecerem melhor.
Ótima hora. Agarrei a almofada na minha frente e pensei em como
conseguir uma arma, visto que a Rainha me proibira de entrar com o arco e
flecha. Eu podia tentar a sorte e roubar a mesma arma de uma mulher-
pássaro que estava sentada bem na minha frente, porém do outro lado da
mesa. Se quisessem atirar em mim a tempo, eu deveria instalar o caos e ser
mais rápida do que todos eles.
— E-eu não consigo fazer isso — respondi, fingindo gaguejo.
Os súditos começaram a cochichar entre si, e pude chutar qual tipo
de perguntas eles faziam: de onde será que vim, se estavam prestes a assistir
ao show muito mais interessante em comparação aos planos entediantes da
Rainha ou presenciar uma morte quase certa.
Será que Selênio aguardava escondido nas sombras em algum lugar,
machucado pelos guardas e com um plano em mente?
— Não sejas tímida. — A Copas pegou em meu pulso. Senti a
minha cicatriz formigar com o toque, e me encolhi. — Todos estão ansiosos
para saber como você chegou até aqui.
Nem queiram saber, pensei. Um tom metade ríspido e metade
nectáreo saíra dos lábios da Rainha, impulsionando-me a fugir daquela
armadilha.
Com uma atitude brusca e quase impensável, mordi a mão que me
segurava e dei um salto por sobre a mesa, com a respiração pulsante. A
mulher-pássaro, que desfrutava do banquete, havia feito uma expressão
pasma quando a arma foi pega de si e gritou palavras em outra língua —
supus que fossem xingamentos. Eu a ignorei e encarei Eddy.
Em uma posição intimidadora, ele avançou alguns passos e proferiu:
— Traidora! Você não é bem-vinda aqui!
Ignorei qualquer ofensa estúpida. Com um plano já formado em
mente, eu apontei e atirei em um lustre de esmeraldas, assistindo pérola por
pérola se despedaçarem no tempo em que iam de encontro uma com a
outra. Um barulho de fricção e de vidros espalharam-se pela bancada,
impedindo Valete de me alcançar.
— Traidora? — repeti suas palavras. — Nós nunca fomos aliados e
você nem sabe a minha verdadeira identidade.
— Guardas! Ela está armada! — Ele arregou por proteção e recursos
para se livrar de mim, mas gritei:
— Sou Mabel Hall, filha e herdeira da Rainha Branca, para deixá-
los mais informados. — Eu estiquei a corda do arco, que já parecia frágil
devido ao gasto. A qualquer instante, meu próximo movimento me faria
atirar. — Acho que vocês não ousariam apelar, não é? — Recuei um pouco,
mirando em uma aglomeração inteira à minha volta. — Tenho muitas
flechas aqui e, adivinhem, estão envenenadas.
Mesmo blefando, mesmo que não tivesse dado tempo de descobrir a
magia desconhecida que a arma poderia ter, tentaria derrubá-los com um
efeito dominó — contando o número de flechas que havia na bolsa roubada.
E quando repeti o que Anastacia falara no jardim do castelo, senti-me mais
persuasiva, os ossos chacoalhando de agitação logo em seguida de um
estrondo vibrar as paredes do salão real.
Apoiei-me na superfície e me proibi de vacilar. Copas me lançou um
olhar aceso e significativo.
— Filha de Mildred — murmurou ela, e a tropa de cartas se
espalhou marchando e com braços brandindo lanças afiadas —, que mente e
se atreve para a futura governante do Mundo Subterrâneo como se fosse
algo importantíssimo à realeza que existe antes mesmo da sua existência.
— A Vermelha também existia e nem por isso para você era
importante. Era fraca, porque não sabia usar seus próprios poderes. Poderia
ser ínfera a você, sim. Mas quem disse que a Vossa Majestade era mais
significativa para o povo naquela época?
— Garota insolente. — O concreto do teto se despedaçou e caiu
sobre os seres animalescos, incluindo um corvo fumante de chapéu, que
voou. — Digas logo o que queres, ser abominável, ou não terei clemência.
Respirei fundo. Fingi que Eddy não estava ali, ou melhor, aproveitei
minha sabedoria — graças a Ellis — para alfinetá-lo.
— Sei de Selênio, subordinado da Rainha Branca, sendo capturado
pelo exército e sem motivo algum, até porque ele jamais fez algo contra
vocês dois. — Enquanto ela resmungava raivosamente, eu prossegui: — E o
quero de volta. Ele pertence ao Castelo Invernal, não a você.
Anastacia zombou, dando gargalhadas altas e persistindo nas
intimidações. Permaneci inabalável.
— O seu mero cavaleiro, que escolhera ser capturado em seu lugar,
está em boas mãos — disse ela seriamente, enquanto os cílios piscavam,
mas seu semblante mudou para uma expressão sarcástica e debochada.
Pronto. Meu ponto fraco apareceu. — Mabel Hall. Não percebes que ainda
não está pronta nem para querer ter algo que nunca foi seu?
É mesmo. Eu jamais seria merecedora daquilo. Ao invés de rosnar
contra as críticas odiosas de Anastacia, o meu peito inflou de angústia;
então ele me perdoara. E pior, escolhera ser preso por minha culpa. Não
admitia que fiz algo que poderia acabar com a sua vida, permitindo Copas
ter a total permissão de machucá-lo cruelmente.
— Ele será — murmurei, referindo-me a todas as formas possíveis.
— Eu aprendi algo com a minha família, que você nunca deve ter tido. O
afeto. A compaixão. Quem é a senhora para dizer se estou pronta? Não
percebe que você mesma nunca esteve pronta para me conhecer? — Eu
guardei o arco em seu acoplamento, dando um passo à frente. — Quero
propor uma troca. Disputarei o Trono Vermelho com você, em uma luta,
sem precisar que tome ele à força. Com a minha vitória, será obrigada a
devolver Selênio para onde nunca devia ter sido retirado.
Annie me esganaria quando descobrisse a barganha arriscada que
inventei.
— E se for ao contrário? — O sorriso afiado de Anastacia
aumentou. — Deixarás a ideia de ser a herdeirazinha do Subterrâneo?
— Não. Achas mesmo que eu abandonaria o Castelo Invernal depois
de tudo que eles fizeram por mim? — questionei. — É só obedecer às
regras do jogo, amada.
Ela espiou um guarda e assentiu. Os espinhos de suas mãos
eriçaram, quase crescendo, segurando-se por dentro das peles e carnes. Ela
sabia lá no fundo que eu era capaz de fazer qualquer coisa.
— Então, será como quiseres. — Anastacia sorriu, viscosamente.
Como que insinuando um gesto triunfal, bateu na capa de babados de seu
vestido confeccionado com tecido tweed e fê-lo esvoaçar. — E que os jogos
comecem!
A noite mais sombria
Coisas que aprendi há quatro anos quando comecei a fazer Arco e
Flecha serviram como uma luva para que eu obtivesse uma certa
concentração nos objetivos.
Dois dias se passaram e, deveras, Annie me recebera sobressaltada
ao saber que eu havia proposto a minha vida em troca de Selênio, mas ele
significava muito mais do que eu ao País das Maravilhas.
Eu corria para acompanhar Jack. Devolvi sua bússola logo após
chegar ao Reino Branco e Solar e Annie foram comigo até os fundos do
castelo. O clima do ambiente foi de aconchegante à glacial.
Solar e Jack revelaram como seus poderes funcionavam separados.
Solar guiava os insetos, mandando-os fazer qualquer coisa, desde os
menores aos maiores. Criar portais ficava com Jack. Ele transportava um
objeto portátil — uma pulseira — enfeitiçado que seu pai, um artesão do
País das Maravilhas, criara quando era vivo.
Adentramo-nos em um corredor escuro iluminado apenas por velas
cheirando a incenso e pequenas luminárias penduradas em ganchos. Estava
prestes a cumprir o Oráculo, rezando mentalmente para não ser morta antes
mesmo de dar um empurrãozinho em Anastacia.
— Nem brinque com isso — alertou Solar. — Atualmente, as
guerras entre rainhas não são mais corporais. Elas costumam ter dragões
como seus aliados para combates unidos aos seus próprios poderes.
Estufei o peito.
— Então…
— Nós temos um — revelou Jack, com os olhos brilhando. — Ele
existe há um século, antes mesmo do Submundo ser isso tudo. Dentes
aguçados, patas de ira e uma alma sanguinária. É mais conhecido como
Jaguadarte.
Eu me engasguei.
— M-m-mas ele não era só um poema?
Cale a boca!, uma de minhas células exclamou.
— Hã? — Eles me encararam, confusos. Eu esfreguei a nuca,
lepidamente formulando alguma desculpa para me livrar daquela situação.
— É-É-É um nome parecido com o de um poema que já li… na
infância.
Eles suspiraram. Precisava mesmo aprender a fechar a boca
naquelas horas.
Entrando com cuidado, parecia que nenhum dos serviçais da Rainha
Branca conhecia aquele lugar; reparei em seus rostos curiosos e cismados.
Na frente, correntes adornadas de armamentos purpúreos e um piso duro
feito de pedra nos recebeu, reluzentes a uma sombra grotesca que não se
movimentava.
A dupla revelou como seus poderes funcionavam separados. Solar
guiava os insetos, mandando-os a fazer qualquer coisa, desde os menores
aos maiores. Criar portais ficava com Jack. Então ficava fácil fugir de
algum perigo, embora eu tivesse que enfrentar o de agora.
Senti dor no Calcanhar de Aquiles. Jaguadarte estava atado por
suplícios, agarrando severamente suas temíveis patas — que eram maiores
que a minha cabeça —, adormecido e com a face escondida. Eu
sinceramente não queria saber o nível de ferocidade que aquela criatura
guardava, porque o temor me tomou.
Presumi que Annie havia me trazido àquele recinto por um simples
motivo: eu teria que ajudá-lo no campo de batalhas. Como herdeira
legítima, as saídas se fecharam para que eu pedisse para outra pessoa fazer
no meu lugar. Mas aquilo seria um ato imaturo.
As coisas ficaram mais catastróficas do que eu já tinha noção. A
todo instante uma aglomeração de mensagens mentais vinha, dizendo que
se eu perdesse mais tempo a rainha morreria em meus braços — recados
superpositivos de autossabotagem.
— Ele é… estonteante.
— Creio que seja maior do que a árvore tulgey. — Annie entrelaçou
as mãos e estudou o monstro. — A Copas não terá chance alguma contra
ele.
Abri um sorriso torto. Copas devia ter atraído os súditos de
Vermelha, que não fugiram de seu magismo, para si, portanto deveriam
estar naquele jantar maluco que participei.
Segundo Annie, seria o bastante chamar o dragão pelo nome. Isso o
acordaria na hora.
— E se o dragão de Anastacia for mais forte? Mais resistente? —
perguntei com o cenho franzido de medo, mas, ao ver a sobrancelha erguida
de Annie, como se me dissesse para parar de ter dúvidas, recompus-me. —
Esquece… — Desisti de pensar besteira. Minha vitória já estava decidida,
prescrita e gravada no pergaminho. — Vamos lá… Mãos à obra.
Os planos de Solar a respeito da batalha eram o assunto do momento
enquanto íamos para o seu quarto no segundo andar da residência. Eu ouvia
as suas palavras atentamente, assim como fazia quando minha mãe resolvia
reclamar sobre o trabalho: as secretárias trocando fofocas ao invés de
atenderem os clientes, o chefe que estava de mau humor e por aí vai.
— Você vai ficar deslumbrante, hum? — Solar remexeu na gola da
minha roupa de cima, empolgada. — Jack, saia.
Ele estreitou os olhos.
— Por quê?
— Este é o momento especial da Mabel! Você não vai querer vê-la
se trocando, vai?
Fitei-o de relance arquear uma sobrancelha, pasmado.
— Eu est-tarei no jardim. Vejo vocês l-lá.
Prendi uma risada ao vê-lo sair meio atrapalhado e vermelho da
sala. Solar se virou para mim.
— Pode tirar o seu cavalinho da chuva, porque eu já vi como o
Selênio olha para você.
Espantada, derrubei algumas coisas ao tocá-las. Antes que
retrucasse em minha defesa, repensei sobre o meu coração. Ele estava
acelerado, pulsando na base da garganta. Solar equilibrava uma caixa de
costuras no topo da cabeça e, ao mesmo tempo, uma pilha de roupas nas
mãos.
Não tinha condições de me interessar por um ser mágico viciado em
narguilé. Mas se eu estivesse e não soubesse disso, teria aquele sentimento
escondido até o meu retorno para casa. E, claro, com isto, guardando
quaisquer sentimentos para depois me arrepender de não ter dito.
— Ei, princesinha branca. — Solar cutucou as minhas bochechas
com dois alfinetes. — O que acha disso? Vai combinar com as grevas que
protegem suas canelas e joelhos.
Ela me apresentou um manequim com um vestido de mangas de
renda e recamadas com cetim incrustado de lantejoulas prateadas. Um laço
de fita grossa foi amarrado na cintura por último. Mas, para minha surpresa,
Solar revelou um par de meias listradas em preto e branco, seu estilo
trazendo-me lembranças das regatas coloridas que Hazel gostava de usar.
Elas se pareciam, na verdade, até mesmo na sinceridade. Naquele meio-
tempo, visualizei as roupas de couro de Jack penduradas em cabides dentro
do armário aberto.
— É… lindo. — As minhas palavras saíram falhas diante daquela
vestimenta perfeita e igualzinha às invenções desenhadas de Hazel. — Foi
você quem fez? Será que é adequado para uma batalha?
— Sim, e sim. Acho você digna de ter uma roupa que se assemelhe,
especialmente, com a rainha que ainda se esconde aí dentro. — Apontou e
assumiu uma expressão misteriosa. — Vai ficar tudo bem. Coloquei um
segredinho nele.
Sabendo que só agradecer seria pouco, eu a abracei e soltei gritinhos
alegres com ela, pulando e rodopiando. Em vez de desdenhar, permiti que a
realeza do meu coração se revelasse.
♠
Saímos correndo para a entrada do Castelo Invernal. Cheshire
pousou em meu ombro, liberando partículas esverdeadas e pó azul no ar. Eu
havia me arrumado especialmente para a ocasião e suava frio. A Corte
Branca estava firme e de pé, parada alinhadamente na porta e nos
aguardando.
Cortar o cabelo me deixara diferente. Solar tinha talento com
adagas, mas oferecera uma especialmente para mim, para que eu cortasse o
cabelo curto em nome de uma mudança. Tive que ser ágil ao cortar o ar
com a lâmina prateada brilhando contra a luz, o que tornara a tarefa mais
divertida e perigosa. Podia não ter ficado do tamanho ideal, mas dava uma
estranha sensação de liberdade.
Todos os súditos honrados fizeram reverências treinadas a mim.
Pelo visto já sabiam quem eu era. Dei aquele famoso sorrisinho
envergonhado, cumprimentando-os. Olhei para o lado, e um nobre cavalo
com manchas pretas relinchou, demonstrando prontidão para ser levado até
o campo do duelo.
Se a Branca sobrevivesse, talvez não permitiria a minha escolha de
deixá-los por um curto período, pois me aguardara e buscara a sua vida
inteira, portanto não iria querer ver a filha longe novamente. Então, como
teria tempo para tomar conta de dois reinos, sendo que pertencia a dois
mundos?
Fazendo um sinal positivo por trás das costas, Jack me alertou para
eu poder montar no cavalo e Cheshire se afastou de mim. Jack me ergueu
assim que coloquei uma das pernas no animal, segurando forte as rédeas.
Abri espaço para passarmos e alarmei:
— Avante!
Tentei ser rápida em meus objetivos. O exército nos seguiu — parte
de nossos aliados se agruparam no Reino Branco, a fim de proteger o quarto
de Mildred. Com um talvez último olhar para trás, a minha vista queimou,
querendo marejar. O ar puro bateu em meu rosto — uma brisa de frescor
que elevava os meus cabelos ondulados. Avistei um sorriso involuntário
aparecer no rosto da minha prima. Havia sentimentos variados por detrás
dele: orgulho, apreensão e satisfação, coisas que me preencheram de
confiança mútua.
O encontro onde seria o desafio não ficava muito longe. Se
porventura ocorresse algo inesperado, quem deveria tomar uma atitude de
liderança seria eu.
— Achas mesmo que estás pronta?! — gritou Annie, pois o som da
cavalgada e a golfada de vento forte abafava a nossa voz.
— Não! — Virei o rosto para fitá-la. — Mas acho que já está na
hora de virar o jogo, né?
Sorrimos uma para a outra. Há duas noites eu estava acordada em
claro deitada de bruços na cama, apreciando as prováveis restantes horas de
vida que eu passava sendo pessimista e acanhada. Pensava na desistência,
no abandono do que eu havia conquistado ali, porém recebi um sermão de
mim mesma: irá desistir do que a manteve de pé?
Além do mundo humano, ali era uma relíquia. Ganhei chances
dobradas para ser feliz.
Limpando quaisquer resíduos de lágrimas com o punho, vi a
cavalaria chegando no campo de batalhas. Exoticamente, o céu converteu
de sua cor normal a uma pigmentação avermelhada e rosa, diminuindo a
claridade da paragem. Jack, no outro cavalo, levantou a coordenação do
corcel e todos pararam.
— Estamos no local — anunciou ele.
Eu desci do cavalo, ajustando a manga do vestido.
— Vamos.
Annie e Solar foram juntas, porém, esperaram Jack e eu nos
aprontarmos. Eu seria uma peça, digamos assim. Quadrados pontiagudos
estavam rascunhados no chão, como se estivéssemos em um tabuleiro de
xadrez tamanho gigante.
Copas dava um sorriso estranho, parecendo feliz por ter finalmente
começado uma guerra, e com Eddy ao seu dispor. Eu rangi os dentes vendo
aquilo. Onde Chessir estava para compartilhar a raiva comigo?
Paramos em dois lados opostos. Anastacia saiu e concedeu um vazio
no meio do campo para nos separar.
— Então a vossa princesinha veio. — A sua voz arranhada me tirou
do sério por um segundo. Eu pagaria para não a ouvir durante o combate
inteiro. — Tenho que confessar-te uma coisa: eu não esperava nem um
pouco que tivesses valentia convosco.
Fiz um beiço, fingindo mágoa.
— Está começando a me conhecer agora.
O Valete bufou, incrédulo. Estiquei um sorriso azedo para ele.
— Vamos começar. — Annie me seguiu. — Se querem brincar, vão
tomar um chá. — Ela se dirigiu a Copas, fuzilando-a com o olhar. — Pegue
o seu dragão, Mabel. Chame-o.
No entanto, ela olhou para mim. Girei os calcanhares. Os palacianos
de Copas saíram da direção das profundezas de uma floresta, cercando o
tabuleiro e chamando a minha atenção.
Formulei a sua imagem dentro de minha mente, conforme o que
Jack havia mencionado. Encarei as minhas mãos tremendo. Quiçá seria o
modo em que eu estava interiormente, escondido e recôndito.
— Nascendo das sombras, asas de fogo — sussurrei uma invenção
de palavras, idealizando um movimento na árvore Tamtam, da qual existia
no poema criado por Carroll. Meus passos se aproximavam à entrada do
sarçal, e vi as asas negras criadas pela minha fantasia.
Esbanjam temor, causam clamor.
Eu mergulhei na escora da minha imaginação, como se o comando
das minhas palavras fizesse um rasgo na fenda entre as duas realidades.
Descansando nas trevas do País das Maravilhas…
Olhei para Anastacia. Ela estava com os músculos do rosto tensos.
E, para ultimar, o meu coração saltou ao escutar um ruído incomum nascer
do despenhadeiro de Jaguadarte, que se encontrava soniludo.
— Jaguadarte, eu o desperto! — gritei, sentindo o chão vibrar sob
os meus pés.
Ele acabou se manifestando, real e distinto, erguendo o seu corpo
até ficar em sua altura exata. Eu sorri: um sorriso diferente, indicando a
segurança e convicção que eu situava nele. Seus passos brutos causaram
tremores, e ele me observava enquanto chegava mais perto. Meus ossos
congelaram, admirados diante de um dragão que podia viver uma centena
de anos.
Ele estava… intimidante.
— Tragam o cavaleiro!
— Como assim? — disse eu, e olhei para Annie, com voz cortante e
desviando minha concentração.
Achava que eu já sabia quem era. Eddy e um soldado de Copas
estavam trazendo — ou melhor, arrastando — Selênio.
Várias emoções se acumularam feito um bolo na minha garganta.
Ansiei para dar passos rápidos e alcançar meu cavaleiro ferido. Algumas
vozes impertinentes se asilaram em meus ouvidos, mas que se dane. Apenas
toquei na mandíbula de Selênio ao finalmente vê-lo e impedi que Valete
continuasse a carregá-lo.
Permaneci imóvel, estudando o seu rosto arranhado até o pomo de
adão manchado de sangue seco. Ele me encarou. Esqueci que Jaguadarte
estava ali. Esqueci de Anastacia, louca para pisar em mim e me despedaçar.
Agora tinha a definição certa do que Selênio era para mim: um aglomerado
de sonhos impossíveis, chá de erva-doce e ventos uivantes, tudo em um
único ser.
— Mabel.
Sua voz cansada chiou, quase em um balbucio.
Queria tocar em seus machucados.
— Shh, não fale. — Eu busquei a sua mão presa, e quando a
encontrei, prensei-a contra a minha. Alisei o seu rosto, inconformada. —
Desculpe. Eu não tive escolha. Também queria salvar você, e agora estamos
aqui. Acredite, nós vamos recuperá-lo de volta.
— Você aqui… está. — Selênio embolou as palavras, seu lado louco
assumindo o controle de suas expressões. — Era isso que eu queria,
Mabel… Você entende, não? Está cumprindo a sua promessa. Isso é
admirável.
Eu ousei sorrir. Ignorei aquela situação pesarosa e mostrei os dentes
em um sorriso orgulhoso que o fez sorrir também. Jamais havia esperado
que ele contribuísse tanto para a minha evolução. Eu imaginava como seria
não poder fazer nada por dias passando fome, sendo alvo de espadas com
lâminas cruéis contra a garganta e enfrentando noites maldormidas sob o
frio das celas dos prisioneiros. Annie havia dito que prisioneiros da Rainha
de Copas enfrentavam um julgamento repleto de absurdos e lógica
distorcida no jardim, tornando quase impossível para os acusados
apresentarem sua defesa. Já dentro do castelo, onde a realidade era
extremamente volátil, aqueles que desobedeciam à rainha podiam se
submeter a punições dolorosas, e claro, humilhantes, o que os mantinha sob
controle de sua tirania.
— E-e-u tentei… com você… me comunicar. — Ele tossiu e,
sentindo dificuldades para falar, apertou com mais força minha mão. —
Enquanto estive afastado. Q-queria ajud-dá-la para chegar o mais rápido
possível ao seu destino… m-mas não deu certo. E tenho que aprender a
perdoar minhas próprias falhas.
Se autojulgar o tempo todo era um hábito destrutivo, sem dúvida,
embora o reconhecimento fosse positivo. Mas em qual momento falara
comigo? Pois, além dele, Dominic também tentara se comunicar comigo na
casa de Humpty Dumpty.
— Mas eu já estou aqui e na hora certa. Eu sei que você não é
culpado, não é uma pessoa que merece vagar pelas sombras e ser um
prisioneiro — disse eu, tentando não me incomodar com suas feridas. Pelo
menos, Annie dissera que os prisioneiros tinham direito à cura e
regeneração para evitar uma morte repentina. — Está brincando? Um cara
como você deveria estar no topo por sua inteligência e seu caráter. — Ele
me analisou, paralisado. Será que acreditava em mim? — Selênio, cada
cicatriz que você carrega é uma medalha de honra, pois cada corte que
abriram em sua pele vai me fazer abrir em dobro na pele deles. Espere por
mim. Vou provar o quanto sou grata por tê-lo ao meu lado.
Eu abandonei o nosso contato contra a minha vontade. Ainda nos
olhávamos, porém Eddy me empurrou para trás, fazendo aquilo se quebrar.
Eu ia na direção dele exalando chamas de ódio até Solar e Jack segurarem
os meus braços. Eles já sabiam o que eu ia fazer.
— Controle-se, Mabel. Depois você acaba com a raça daquele
imprestável.
Murmurando xingamentos, eu respirei todo o ar que cabia no peito.
Eles levaram meu cavaleiro para longe de onde eu estava, apertando com
força as correntes que amarravam os seus pulsos já arranhados.
O rosnar de Jaguadarte finalmente me despertou.
— Acorde, Fúria!
Soltei uma risada ao ouvir aquele nome clichê. Solar chutou a minha
perna de forma delicada, implorando para que eu controlasse a minha arte
de zombar Anastacia sempre que podia.
Dois faróis vermelhos se acenderam do tamanho de uma bola de
basquete, e a minha visão chegou a doer de tanto fulgor irradiando dela. A
crista de Jaguadarte reluziu. Os dois dragões ficaram trocando olhares
mortíferos, conhecendo-se como oponentes.
— Ela é como harpias de um submundo. Simboliza a vingança e a
raiva de quem morre antes da hora certa, e pune quem faz juramentos
falsos.
A justificativa de Annie fez sentido com o propósito de Copas ao
escolher logo Fúria. Ela fazia questão de relembrar do seu passado
desagradável com Vermelha.
Os dois monstros abriram a boca em rosnados. Selênio estava
calado. Era provável que Eddy não permitira que ele protestasse sobre a sua
injustiça. Eu queria abraçar Selênio, sentir o seu calor me envolver sem que
precisássemos dizer uma palavra ao outro. Ele não devia ser uma daquelas
pessoas pegajosas que eu me acostumei a imaginar naqueles últimos dias, e
mesmo não sendo retribuída, eu mataria toda a saudade.
Um estrondo quebrou a linha invisível do meu raciocínio. A opção
mais simples de explicar a situação seria: duas bocas enormes com milhares
de dentes em fileiras de triângulos se abriram de tal forma que tive a certeza
de que elas engoliriam o Reino Vermelho inteiro. A minha cabeça começou
a latejar, reunindo forças para juntar palavras desafiadoras que surgiram em
minha mente:
— Estou vendo um novato? Que intrigante!
Jaguadarte estava se comunicando com Fúria, e todos podiam ouvir.
A voz do monstro soava como um trovão distante de uma tempestade
iminente.
— Novata não seria a sua teoria sobre mim?
— Quem permitiu que vocês pudessem conversar? — gritou Copas,
enfezada. — Acabe com ele!
Os monstros alados guindaram as suas asas e, de uma forma hostil,
um trovão gerou um estrondo feroz. Respingos de chuva molharam a todos.
A pata aguçada de Jaguadarte atacou a cabeça de Fúria, que tombou para o
lado esquerdo, afetada pelo golpe.
— Mabel Hall — sussurrou Jack, conferindo os lados. — Tome isto.
A Espada Vorpal é sua.
Então ela flutuou para as minhas mãos. A gravura prateada e
argêntea detalhava o seu bico semelhante a uma foice, porém era mais reta
do que encurvada.
— Ela é fantástica, de verdade, mas não lutarei. Estou bem com o
meu arco e flecha nas minhas costas.
— E quem lhe garante isso? — Ele me deu um toque pelas palavras.
— Eu conheço Anastacia. Qualquer cuidado é pouco. E essa coisinha aí é
mais poderosa do que pensa.
Agradeci a orientação, perplexa também com a cena de Jaguadarte
uivando sob a luz da lua iridescente. Fúria o abocanhou com seus dentes
afiados e impetuosos, mordendo as suas asas e agarrando a coroa do
inimigo junto a sua. Era como se fossem dois touros durante um confronto.
Lutavam um contra a cabeça do outro, e a tempestade aumentava, meu
dragão e eu melhorando as nossas chances de vitória.
Nem o exército inimigo, nem o exército invernal poderiam intervir
na guerra. Ordens comuns no País das Maravilhas.
A asa de Fúria fez um movimento ágil ao lançar Jaguadarte para
longe de onde estavam. O monstro rugiu raivosamente, e eu observei
Anastacia, certamente orgulhosa por seu dragão mitológico estar
florescendo.
Uma poça de sangue cor-de-vinho jorrou e deslizou pelo pescoço do
meu dragão, significando que o aliado de Copas o havia ferido. Eu fiquei
preocupada por um instante, acelerando os meus pensamentos a fim de
ajudá-lo.
Tentei identificar um ponto fraco de Fúria. Aquele seria o local em
que Jaguadarte atacaria por último, para terminar aquele duelo e eu acabar
recuperando Selênio. Logo, tinha uma pequena solução. A crista de Fúria
perdia a cor translúcida quando Jaguadarte a acertava perto da região.
Talvez fosse ali onde ele teria que atacar.
Jaguadarte!, eu o chamei em voz alta, contudo na minha mente. Use
o ponto fraco do seu rival. A coroa. Atinja-o na cabeça!
Aquela comunicação havia dado certo. Ele podia me ouvir, assim
como eu conseguia escutar os insetos do Submundo. Jaguadarte parou um
segundo, fazendo um jogo com Fúria. A sua cauda amolada se ergueu por
um exato instante, sem dar uma mínima chance ao inimigo. Ela derrubou
feito um furacão o corpo de Fúria, rasgando pela metade a sua nuca.
Eu sorri, orgulhosa. Fúria caiu, derrotada, quase não lhe restando
forças para lutar novamente. Segurei a minha espada com força, temendo a
reação de Anastacia.
— Isso não pode ter acabado! Não agora!
Eu estava de costas e vi Chessir chegar, porém não tive tempo para
ficar feliz. Percebi que devia virar quando o grito desesperado de Selênio
trespassou a atmosfera.
— Olhe para trás, Mabel!
Eu virei rápido, minha espada e a da Copas entrando em atrito na
mesma hora. Ela a impulsionava contra mim em uma não aceitação com o
prejuízo que Jaguadarte causara. Investi a Espada Vorpal contra o ataque
com toda a força possível.
— Corra, garotinha. — As minhas sombras apareceram, sibilando e
parecendo sair do meu corpo. Se eu me distraísse por um segundo,
Anastacia acabaria me matando. — O seu tempo está acabando.
Eu queria gritar, e meu peito se apertou de agonia. Sim, eu estava
com medo. No entanto, não o suficiente para me impedir de matar Copas.
Um assobio — que se assemelhou a um apito, de tão estridente e
alto — de Solar chamou um enxame de borboletas azuis, que assumiu o
papel de hospedeiras do meu vestido, antes branco e simples. Caramba!
Elas simplesmente invadiram o tecido de fibras naturais criado por Solar,
erguendo-me no ar. Em seguida, fui rodopiada enquanto sentia a impressão
da magia me fazendo florear, flutuar como Ellis, e ganhar uma vantagem
contra Copas. Aqueles e muitos outros faziam parte de um mundo secreto,
revertido em escuridão por uma lenda que se tornara real.
Um relâmpago pardacento resplandeceu o céu negro do País das
Maravilhas, cortes cruéis dividindo-o ao meio, e a noite mais sombria, que
parecia interminável, estava acabando de começar. Anastacia e eu paramos
com a luta, olhamos para trás e, como se tudo estivesse em câmera lenta,
caiu do céu uma criatura enigmática e jamais aguardada por mim,
manchada de vermelho e com uma cicatriz nivelada rasgando o rosto.
Esmagou o chão com um pisotear e, quando ele estourou, rachou o
gigantesco tabuleiro de xadrez em que estávamos.
Explodindo quase tudo ao nosso redor, surgira ali, insolitamente, de
maneira mais perspicaz, a mortífera Rainha Vermelha, suspendendo um
machado carregado de sangue negro.
Xeque-Mate
Alice, o teu país
Maravilhoso e tão feliz
Disse que só se podem ver
Em sonhos infantis
Onde ele está?
Quem me dera
Poder também sonhar
Pois só quem sonha
Teu país pode alcançar
■Alice no País das Maravilhas
⇼
Queria surtar. O olhar venenoso e mais vivo do que nunca da
Vermelha fagulhou contra Anastacia, inerte com a aparição de sua antiga
inimiga dada como morta em seus últimos duelos.
— Bem-vinda ao meu gabinete — disse a aranha para a mosca.
Meu coração se encolheu no tamanho de uma ervilha. A voz dela
gritou feito um eco na minha cabeça. Como Vermelha havia conseguido se
libertar do mar de lama? E se fosse mesmo possível, ela assumiria o seu
trono de volta, não eu.
Vermelha debandou ligeiramente para a direção da Rainha de
Copas, e a sua mão apertou o pescoço da mosca em um golpe ríspido, um
poder de levantar um corpo inteiro que eu nunca tinha visto antes.
Automaticamente dei atenção a um som de socos e chutes. Eu virei
para trás e me deparei com o meu cavaleiro solto de suas amarras lutando
com Eddy — Chessir havia provavelmente usado suas íris e derretera as
algemas que prendiam Selênio. Minha consciência deu um nó. Eu estudei a
arma segurada pelas minhas mãos, acabando de ter uma ideia.
— Selênio! — vociferei, percebendo que a força brutal do Valete
estava vencendo todo o seu esforço para sobreviver. — Pegue isto! Agora!
— Eu lancei a Espada Vorpal para ele, que a agarrou na mesma hora. Não
podia equilibrar ajudando os dois lados ao mesmo tempo, mas agora podia
voar.
As veias do queixo ao pescoço de Anastacia saltaram do lugar, roxas
e pressionadas. Controlei a ânsia de vômito que me revirou o estômago.
— Curioso — grunhiu Copas, esquecendo-se do fato de que seria
enforcada impiedosamente na frente daquelas pessoas que ela sempre
desprezou — o jeito que seu sangue gritou para não ser sacrificado por mim
naquele dia.
A Vermelha riu, apoiando um braço em seu machado sangrento.
— Todos sofrem, mas o que tens é um preço a pagar. — Ela encarou
Anastacia com o semblante indiferente, frio. Sufocando-a cada vez mais
que podia, as palmas de suas mãos tinham um poder alucinante de colocar
Copas em seu devido lugar. — Esta é a hora de acordar para o seu terrível
pesadelo.
Anastacia deveria entregar a sua identidade escondida de sentir
pânico quando alguém se mostrava superior a ela. As garras de Vermelha
jogaram o corpo semimorto e ferido para a ponta do abismo do País das
Maravilhas. A chuva aumentava. O cheiro de sangue e terra molhada
fizeram minha espinha congelar.
Evitei um grito que nascera na minha garganta ao ver a vertiginosa
morte de Anastacia.
Mas eu estava enganada.
Eu estreitei os olhos, retirando meu arco e flecha do acoplamento
por precaução… um sinal do meu subconsciente. Annie, Solar e Jack se
mantinham calados, esperando o meu veredito.
Um som de estalo surgiu, e as garras das mãos de Copas seguraram
com força, mesmo penduradas na superfície. Antes que Vermelha
mergulhasse e agisse para prejudicar Anastacia se restabelecendo, eu tomei
a responsabilidade de acabar com aquele jogo.
— Xeque-mate.
Flexionei os joelhos e pairei no ar. Segurei meu arco e relaxei os
músculos. Firmei o corpo onde era o lugar da rainha, substituindo-a.
Posicionei a haste da flecha na rabeira da corda e larguei o objeto
pontiagudo para atingir meu ponto principal. Em câmera lenta, imaginei
aquela pequena flecha penetrando na carne de Copas; e realizei aquilo após
desejar.
O chão úmido ajudou a fazer com que o braço e a mão de Anastacia
escorregassem, assim não tendo mais possibilidades de sobrevivência. Ela
caiu em um urro eterno, que se distanciou de nós. Minhas sombras
desapareceram coincidentemente na sincronia em que o corpo da Rainha de
Copas deixou de existir. Talvez meus medos houvessem se esvaído quando
a segurança e trabalho em grupo funcionara.
A Corte de Copas, ao invés de abandonar o local, ajoelhou-se
perante Vermelha antes que ela pudesse matá-los. Em seguida, havia
sobrado uma, desamparada, que se aproximava tremendo em nossa direção.
Solar caminhou como uma soldada até ela, mas Jack interveio pegando a
foice e, de longe, atingiu a cabeça da carta, que caiu para trás. Eles se
entreolharam por um tempo.
Fiz um pequeno esforço para conseguir encarar Vermelha. Estava
com medo de ter estragado os seus planos de vingança. Ou seja, eu havia
matado Anastacia no fim, não ela. Talvez ela quisesse a minha cabeça de
presente em uma travessa.
— O-o-olá, tia. — Eu realmente não sei ser formal diante de uma
rainha. — E-e-eu…
Pensei se poderia quebrar o clima assombroso contando uma
charada. “Qual é a semelhança entre um corvo e uma escrivaninha?".
Ninguém desconfiaria de onde eu havia tirado aquilo.
Vermelha conseguiu manter meus olhos presos nos dela. Por algum
motivo eu estava em transe. Ela me analisava como se eu fosse um inseto
abatido, apática e curiosa, mas recôndita demais para fazer com que meus
amigos do Reino Branco ficassem com medo do que ela poderia fazer
comigo. Ela aterrissou e freou na minha frente. O vento de seu salto trazia
um odor de amêndoas e cereja à nossa volta. Gostei, tirando a parte do leve
cheiro de carne pútrida que se mesclava ali, de algum lugar.
Estremeci ao sentir os dedos da rainha na minha pele, examinando o
delineado preto e o vermelho engrossado em sua pálpebra. Tentei não
cambalear, desviando também o rosto para evitar encarar seu afiado
machado. Contudo, voltei ao ser parado à minha dianteira. Perdi a noção da
razão após avistar um sorriso de canto inesperado nos lábios de Vermelha.
— És uma bela princesa.
Caí na pegadinha igual a uma pata. Imaginar que uma das
personagens mais temíveis dos livros de Lewis Carroll veria beleza em mim
um dia era impressionante. E mais ainda pela prova de que
compartilhávamos o mesmo sangue.
Será que, naquele tempo todo, ela vigiara o Reino Branco e até
mesmo a mim? Sua forma de fugir da armadilha de Anastacia só podia ser
com a sua força indestrutível de amolecer a lama que quase a afundara, mas
se não fosse aquilo, então continuava sendo um mistério.
Certa vez, Selênio me dissera algo a respeito: a Rainha Vermelha
sempre tinha um truque na manga.
Contendo-me para não agir pelos sentimentos, apenas acenei com a
cabeça, retribuindo-a com um sorriso largo.
Olhei para Jaguadarte. O dragão estava machucado, mas eu achava
que dava para aguentar. Ele patinou até mim, arrastando as próprias asas
com certa dificuldade.
Seja bem-vinda, Mabel Hall, disse Jaguadarte somente para mim.
Eu arqueei as sobrancelhas, surpresa. Havia sido aceita por ele. Deixei
escapar um sorriso pleno e sincero. Meus pais estariam orgulhosos de tudo
o que fiz para sobreviver e voltar para eles.
Estava consciente dos acontecimentos passados minutos atrás,
porém dei um soluço de espanto ao virar para o lado. Rastros de sangue
cobriam em volta um corpo sem vida caído no chão. Selênio largou a
Espada Vorpal, cambaleando.
— Está acabado. — Ele não permitiu que sua voz saísse
estremecida, quase fora de si. Embora estivesse quase sem energias,
presumi que Chessir poderia tê-lo ajudado a ganhar mais forças com sua
magia. — Foi em legítima defesa. Fiquei sem escolhas.
Chessir se aproximou, dando a entender que houve uma
reconciliação entre eles. Fiquei contente. Atritos na maioria das vezes
podiam ser resolvidos com uma boa conversa.
Jack saiu às pressas para acolher Jaguadarte. O corpo de Fúria se
desintegrava com o tempo — sua morte fora lenta e dolorosa — e Solar
havia, enfim, sorrido vitoriosamente. Ela fez gestos com a mão, e eu sabia
muito bem o que significavam. Todos compreendiam que Selênio jamais
mataria alguém por perversidade.
Não me importei se os restos de Eddy estavam ali. Continuei
cautelosa, andando lentamente na sua direção. Esqueci do que estava a
minha volta, a destruição, o apocalipse que havia passado. Eu só precisava
de um conforto, e especialmente dele.
Em um piscar de olhos, Selênio poderia ficar instável e voltar a ser
um lobo indomável. Entretanto, retornei a pôr um sorriso no rosto. Mal via
a hora para ele ter sua liberdade a fim de sair da rixa antiga com o Valete, e
tudo porque ele nunca aceitara o destino errado do Reino de Copas.
— Eu… estou realmente feliz que esteja conosco.
Minha timidez estava explícita. A chuva ficou mais pesada, e meu
cabelo encharcado. Aquilo podia ser confundido com lágrimas, se eu não
estivesse mesmo chorando. Eram tantas coisas absurdas que havia
acontecido. E o mais absurdo era saber que foram reais.
Selênio ainda estava comovido com o que fez, mas pôde dirigir sua
atenção para mim. Será… será que ele me via como uma sósia de Alice e
por isso me ajudara?
Eu precisava mostrar que eles eram importantes na minha vida, que
ela não teria tanta importância como tinha agora. Aquele dia havia chegado
mais cedo do que pensei; era a minha vez de ir embora.
Parei diante do meu cavaleiro ainda distante. Meu coração falou
mais alto, suplicando uma corrida até Selênio. Realizei o pedido. Corri com
tanta velocidade que meus pés escorregaram no cimento molhado. Selênio
me segurou, rodeando a minha cintura e, com os olhos paralisados, puxou-
me para um abraço. Deixei de lado o susto e parei para desfrutar daquele
momento inesperado, encostando minha cabeça em seu blazer.
Pingos de chuva deslizaram pelas nossas roupas, no entanto, nada
dificultava nosso contato restrito. Ele estava finalmente de volta,
esquentando seu corpo no meu. Abraçá-lo pela primeira vez nunca esteve
nos meus planos.
— Você é uma princesa — sussurrou Selênio ao meu ouvido.
Pensando bem sobre o que dissera, Copas poderia ter comentado em seu
reino sobre a minha futura posse do trono, fofocando com seus
subordinados. — Como nunca notei?
Uma gota d'água deslizou pelos meus lábios.
— Talvez eu estivesse agindo como uma, mas bem desnaturada. —
Ri nasalmente e, pela primeira vez, nosso relacionamento havia ficado
confortável.
Ele me apertou um pouco mais, e quando minhas mãos rodearam
sua cintura, senti um pequeno formigamento nelas, porém não eram elas
que estavam comichando.
Interrompi o abraço. Selênio também ficou confuso, encolhendo os
seus músculos para a frente.
Meu olhar caiu no rosto da Vermelha, que estava sorrindo… Ela
sabia o que estava acontecendo?
A magia de Selênio estava nascendo. Dois botões de asas negras se
arrebentaram à nossa volta, deixando-me sem reação, enquanto um vento
intenso levantava os cabelos de todos, que fizeram “ooooh” simultâneo.
Seu traje rasgou pela metade, danificado, e eu o observei. Era lindo ver a
enfim libertação de um poder que viera se aglomerando ao passar dos anos,
o crescimento de um encanto eterno.
Suas asas bateram, repousadas. Estiquei o indicador, observando sua
expressão surpresa, e toquei em sua metamorfose já formada. Eram feitas
de escuridão iguais às sombras presas de um espelho mágico, como um par
de facas afiadas, cortando o ar com precisão mortal.
— É tão… lindo. — Envergonhada pelo breu que nos cercava, eu
abaixei o rosto. — Me perdoe. Fui arrogante, imatura. Eu… não sei como
reagir.
Minhas pernas ficaram bambas, se não dormentes. Eu não comia há
horas e tudo parecia estar mais cansativo do que o normal.
Selênio levantou meu queixo com um dedo, seus olhos luminosos
me chamando a atenção.
— Embora doa saber que ficaremos longe de você novamente, eu
estarei sempre aqui. — De repente, tive uma crise, e fiquei ofegante; um
fator importante pelo qual ele me segurou pelos ombros. — Ei, inspire e
expire. Acabou. Acabou, donzela. — Ele quis ensinar a técnica da
respiração pousada. — Há algo que eu possa fazer?
Cheguei então à conclusão de que não estava nervosa por Anastacia,
mas por estar próxima demais de Selênio. As palavras dele quase ficaram
inaudíveis: “Eu estou aqui. É difícil, eu sei, mas acredite nisso mais do que
tudo que já te disseram, Mabel Hall: você é uma força da natureza, que
devasta e pode curar, bela e valente. Você só precisa acreditar.”
Eu soube que ele me sentia trepidar diante daquelas palavras. Cerrei
a mandíbula com força ao perguntar:
— Uma parte de mim ficará aqui, não? Principalmente com você.
Prometa que não se esquecerá de mim.
As suas asas se arquearam, dobrando-se sobre nós dois.
— Eu prometo — murmurou.
Selênio pegou minhas duas mãos, e, sem hesitarmos, entrelaçamos
os dedos. As borboletas do meu vestido saíram novamente, brilhando no ar
como vaga-lumes azuis dentro do véu negro que bloqueava a chuva.
Trocamos olhares alarmados. Selênio havia aberto um sorriso quadrado e
breve ao descobrir a verdadeira cor dos meus olhos, acesos e ardendo como
nunca. Dava para ouvir aquelas pequenas asinhas batendo agitadas contra o
ar, e eu tentava não encarar Selênio do jeito que ele me encarava. Quando
acompanhei o último inseto perder sua cor, cocei o pescoço e, mesmo suja
pela batalha, ainda me senti incrível depois de tudo. Será que eu poderia
avançar mais um passo? Como ele reagiria?
Por fim, Selênio infelizmente conseguiu abrir as asas, desesperado
por lembrar que estávamos alheios ao público ansioso. As borboletas
fugiram para fora devido ao susto e fomos envolvidos pelas mesmas cores
frias de antes.
Todos nos observavam.
— O-o-ra es-s-a, eu nem percebi que ainda estavam aqui. — Forcei
uma gargalhada desajeitada.
— E você desapareceu muito rápido, hein, princesinha? — Solar
rebateu, brincalhona, mas com uma malícia escondida na voz. — Como se
um vulto a tivesse sequestrado. Vush!
Hazel subterrânea.
Selênio a ignorou. As poças d'água haviam secado mais rápido do
que pensei e a chuva parou. Chessir, que analisara o corpo de Eddy quase
nos fundos da árvore TamTam, retornou ao tabuleiro e abraçou meu
tornozelo. Senti saudades daquele aperto. Eu só queria adotá-lo e levá-lo
para casa, para que sempre nos fizéssemos companhia.
— Desculpe-me por deixá-la! Eu havia procurado por Selênio em
todos os cantos até o dia desse combate e investiguei se ele estava mantido
escondido em algum cativeiro fora do castelo, sendo que acabei não
chegando a tempo.
De repente, fui isenta, e Chessir começou a tremer quando seu olhar
caiu para um certo ponto. Annie seguiu a mesma direção e recuou, fazendo-
me franzir o cenho. Suspeitei que, se eu virasse o rosto, viria algo tão
inesperado que…
Girei o rosto. Minha alma congelou por um instante. Afligida, não
acreditava no que via por vários e vários segundos, cogitando as
possibilidades de aquilo ter acontecido.
Meus joelhos cederam e, por um fio, não caí — Selênio me segurou
pelo braço. Uma penumbra emanou sombras, eclipsando à nossa volta e se
desenvolvendo no formato de uma silhueta. Através dos olhos pesados, algo
me mostrava que a aparição subitânea era familiar.
A figura ganhou uma aparência. Eu a reconheceria em qualquer
lugar.
— Mildred — murmurei, baixinho. Algo queimou por baixo dos
meus cílios, ardendo-os com uma emoção desproporcional formada em
novas lágrimas. O quão extraordinário era encontrá-la viva, eu não saberia
nem descrever. A Rainha parecia um cisne de gelo, assim como as
instalações do Reino Branco, frias e arrepiantes. Com certeza meu rosto
ficou mais pálido do que já era.
Nós duas trocamos olhares ansiosos. Eu queria recebê-la de
qualquer maneira e sentir-me envolvida em seus braços, porém a única
coisa que senti foram minhas pernas bambeando. Notei que estava
desmoronando nos braços de Selênio quando minha vista turvou até
escurecer.
♠
Minhas pálpebras estavam pesadas, mas consegui acordar devagar.
A dor de cabeça lacerava. Tentei me lembrar do que havia ocorrido para eu
acabar nas mesmas paredes brancas de quando cheguei ao País das
Maravilhas, e o resultado surpreendia.
Mildred.
Talvez eu estivesse em estado de choque no campo de batalhas e não
percebi, jurando que estava devidamente controlada. Só agora retornei aos
sentidos.
Dei um salto momentâneo da cama assim que senti dois dedos
gélidos e avermelhados tocarem a minha testa. As duas rainhas —
Vermelha e Branca — me aguardavam, sentadas em assentos de vidro ao
meu lado. A que me tocava era a irmã mais velha, daquela vez concentrada
e silenciosa.
— A bonequinha acordou — sussurrou uma voz doce e calma aos
meus ouvidos, tranquilizando-me. Dei um sorriso harmonioso e torci para
que aquilo não fosse um sonho, um sonho cruel, e me dei esperanças de que
Mildred acordara como um milagre. — És bem mais bonita do que o
esperado.
Ela chorava — percebi isso quando uma lágrima resvalou pelas
bochechas rosadas. Estudei minhas mãos trêmulas. Cometi um deslize ao
não ter comido por muito tempo e ter usado minhas energias sem perceber.
— Você é real?
Meus lábios tremeram. Eu só conseguia chorar e mais nada. Era só o
que me restava fazer.
— Não chore, preciosa. Estou bem, graças a você. Pelas nossas
cicatrizes e o sonho que você criou. Eu pensava… pensava que não
conseguiria tê-la de volta para mim. Os anos se passaram… você cresceu…
e o destino a trouxe para cá. Quando eu e minha irmã conversamos, ficamos
sabendo que sabes como e quando tudo aconteceu, no entanto, não lhe devo
explicações, certo?
Elas se entreolharam. Eu queria tanto que um dia elas conseguissem
se reencontrar, e agora estávamos ali, ocupando o mesmo lugar e o mesmo
tempo.
Assenti repetidamente, apertando os olhos com força.
— Então eu consegui te acordar. Ainda é difícil acreditar no sucesso
ao fantasiar um futuro melhor ao seu lado e que isso possa tê-la salvado.
Por mais que eu tenha outra família e outra vida, jamais vou esquecer da
minha promessa. Jamais esquecerei você. Estou interligada a você e às
criaturas daqui. Mãe… além disso, você merece um amor que reconheça o
seu valor. Um protetor, está me entendendo? Não vou suportar vê-la
solitária e infeliz de novo.
Ela ofereceu um abraço com um pouco de rejeição, porém a aceitei
como minha mãe e amiga, aquela que, sem dúvidas, nunca desistiria de me
procurar se não estivesse doente. Eu a compreendia: no seu lugar, faria o
mesmo se tivesse uma filha desaparecida.
— Também não precisa se preocupar com a sua coroação — disse
ela com a voz abafada. Seus cabelos brancos e longos me acarinhavam os
ombros. — Ela só será definida quando você decidir viver definitivamente
no País das Maravilhas. É uma garantia sua. Sei que tens o direito de
escolher a sua vida lá fora com aqueles que te amam, e em razão disso sou a
primeira a pronunciar-me sobre o assunto. Você é livre, bonequinha.
— Senti tantas saudades — referia-me à Vermelha, que não parecia
ser a mesma. Ela mantinha uma expressão suavizada no rosto, apesar de
estar um pouco ferida. — De vocês duas!
Chamei-as para um abraço, soltando risadas de alegria. Vermelha
disse que seu nome era Isolabella, em seguida não se conteve e também
sorri. Estava claro que ela sentia falta de um carinho diferente e especial.
Ficamos tão longe uma das outras por muito tempo que não cabia mais
sensações naquele contato coletivo.
Percebi que todas as derrotas passadas não eram sinais de fracasso, e
sim os degraus que me levaram até onde eu estava. As setas errantes, os
alvos perdidos foram catalisadores para o meu aprendizado.
As duas me apertaram, colocando-me envolta na comunicação
silenciosa, até que a porta do quarto se abriu com um ranger e ouvi a voz de
Solar junto às outras vozes abafadas; alguns anfitriões do Reino Branco
haviam pulado em cima da cama e a balançavam feito os loucos que eram.
Annie se juntou a nós, iniciando uma histeria em meus tímpanos. Pelo
menos naquela situação valia a pena a perda de audição por alguns
segundos.
O abraço finalmente cessou e fiz um bico. Percebi Selênio parado na
porta olhando para nós, encolhido e de braços cruzados.
— P-podem me deixar sozinha com… — Eu mal consegui terminar
a frase, e eles perceberam o olhar que dei para o cavaleiro. Quando todos
nos deixaram sozinhos, senti ansiedade. — Sente-se aqui. — Apalpei o
tecido fino da beirada da cama.
Selênio assentiu, e percebi um machucado em seu rosto. Peguei uma
caixinha de emergência da mesa de cabeceira, abri-a e tirei a tampa de um
frasco no qual estava escrito elixir, para evitar que ele sofresse alguma
infecção nos arranhões profundos na testa.
Ignorei as caretas de Selênio ao ter passado um creme de
machucados e segurei levemente seu maxilar. Assim que finalizei, peguei
um curativo e o fechei com cuidado.
— Eu não queria sair do País das Maravilhas, então sei como você
se sente.
Esperando por um discurso, essa expectativa se quebrou e minha
cintura foi enlaçada pelas mãos de Selênio. Ele apenas ficou me encarando
por alguns segundos, sem proferir nada, sem toques mais avançados — e
mesmo assim senti as bochechas pelando.
Selênio fez um som nasal, rindo discretamente e me dando um
abraço em seguida. Afaguei meu rosto dentro de seu ombro direito e
ficamos assim por um tempo. Quando nos separamos, ele colocou uma flor
de dente-de-leão atrás da minha orelha, mas não revelou de onde tirara
aquilo.
— Você deve seguir seu caminho. Ninguém aqui quer impedi-la,
muito menos enfrentar a Princesa Branca. — Selênio pareceu desanimado,
mas sincero com as palavras. — Desenvolva o seu poder quando ninguém
estiver por perto. Todos nós acreditamos nele, e você aprenderá a acreditar
também. Os sobre-humanos também têm suas limitações, então uma hora
você poderá falhar e acabar se cansando, mas tente… se acostumar a ele. Se
usado com sabedoria, nada dará errado.
— Tudo bem — respondi. — Ora, essa. Você também faz parte da
minha vida, então pode impedir que eu faça bobagens o quanto quiser. —
Assim que parei de falar, dei um selar rápido em suas bochechas rosadas.
Selênio paralisou, mas disfarçou, forçando uma tosse. Tive de rir ao ver a
cena, mas, de repente, no meio do silêncio constrangedor, me veio uma
ideia na cabeça que sempre quis fazer ao ar livre com várias pessoas juntas.
— Eu conheço essa cara. — Selênio cruzou os braços, curioso. —
Quer causar ainda mais estragos além de ter conquistado o meu coração,
Mabel Hall?
Eu não estava preparada para ouvir aquilo.
— Bem… Há algo que eu quero muito fazer. E você vem comigo.
♠
Eu havia conversado com Annie sobre o desenho em nossos pulsos;
ela também tinha um que somente se revelava em momentos cruciais.
Annie não me dera tanta certeza, mas talvez, no reino humano, o desenho
chegasse a um ponto que ninguém o visse mais.
Também pedi um tempo a Vermelha, que iluminou meus
pensamentos a respeito do que aconteceu enquanto o Castelo Invernal
estava à beira de um colapso.
— Passei um longo tempo construindo uma vingança contra a
injustiça daquela maldita rainha. Criei raízes em uma cidade corroída e
não-civilizada por um bom tempo. Não tive culpa se o seu próprio pai
havia roubado coisas do meu reino, e cortei sua cabeça. Foi mais que
minha obrigação. Fiquei absorta da doença de minha irmã e estive longe o
bastante no esconderijo para me afastar de todas as informações do Reino
Branco. Achei que ela nunca mais me perdoaria, mas seu coração bondoso
foi algo muito maior do que uma simples palavra de compaixão. E agora
tenho o meu reino de volta.
Ela tinha uma dupla face, digamos assim. Era vingativa e assassina,
quando deveria, doce e compreensiva quando se tratava de sua família.
Durante as minhas carícias na cabecinha careca de Chessir — o
Rábido deitado em meu colo — e no pelo liso do cão da Branca, que havia
ficado por horas no quarto da rainha a apoiando, ela também acrescentou
que ensinou um truque para a Vermelha na infância. A artimanha era
transformar lamas em pequenos redemoinhos para que eles devolvessem tal
corpo para o lado de fora da superfície. Ou seja, Vermelha usou aquela
tática para se salvar do maldito Reino de Copas.
Solar e Jack acabaram se aproximando mais, mas Jack não
facilitava. Apesar de serem amigos há anos, a relação era muito forte e
ambos conviviam um com o outro. Seria difícil não nutrirem sentimentos
um pelo outro.
Talvez aquela fosse uma história para o próximo capítulo.
Os irmãos Tweedledee e Tweedledum voltaram para o Reino Branco
de mãos dadas. Os gêmeos estavam morando perto da casa de Humpty
Dumpty, e, naquele contexto, deixaram seus afazeres reais. A Lebre de
Março continuava com as atividades na cozinha, sendo assistente da minha
prima, Annie, que nunca sossegava quando via a Rainha desanimada.
Foi doloroso me despedir de todos eles. Saber que eu deveria
mergulhar no primeiro espelho criado por ninfas selvagens e abandonar o
Submundo dilacerava temporariamente o meu coração.
Mas quem disse que aquilo seria o final?
Procurei uma tábua de madeira não usada em qualquer canto,
usando-a como se fosse um carrinho de rolimã. Eu, Selênio, Chessir e a
Lebre de Março estávamos sentados nela, pois era grande o suficiente para
caber nós quatro. Eu tinha de explicar como funcionava, portanto, pegamos
uma rampa semelhante à da Colina Sombria.
Segurando as orelhas de Chessir, quase entrando em pânico pela
altura em que iríamos descer, contive uma gargalhada. Meu cavaleiro se
apoiou em mim.
— Não é o que estou pensando, ou é? — sussurrou ele ao pé do meu
ouvido. Eu dei um sorriso travesso e respondi com mutismo, em seguida
empurrando o “carro" com as pernas. A partir daí, os gritos finos da Lebre
cresceram e pareciam fios de cristal quebrando como um vitral. Nós
mergulhamos ladeira abaixo, vento bagunçando e levantando nossos
cabelos e roupas — uma montanha-russa totalmente improvisada.
Soltei uma orelha de Rábido e estiquei o braço bem alto. Selênio
provavelmente estaria prendendo suas asas para não se soltarem durante a
descida incrivelmente veloz, e demos berros altos como se aquilo não
tivesse fim. Passamos perto do Reino Branco, onde todos nos observavam
contentes e bem-aventurados, batendo palmas e pulando empolgadamente.
Minha explosão de alegria como uma supernova não terminaria ali.
Uma gota de lágrima súbita caiu de um dos meus olhos, guardando aquele
momento em minhas memórias, e as histórias mais incríveis que partilhei.
Para que se sentir acima de todos, se ser um amigo era mais valioso do que
qualquer herança? Todos sabiam e aquilo não colava comigo. Eles me
consideravam importante para as vidas que invadi sem aviso.
Adeus, pessoal.
Adeus, País das Maravilhas.
♧ Epílogo ♧
Eu rolei rapidamente na grama da Floresta de Dean e, com a vista
turva, esbarrei na bolsa que eu havia trazido para o acampamento. Mas eu
não sumi por semanas? Como as minhas coisas estavam no mesmo lugar e
no mesmo tempo?
As folhas encrespadas das árvores fecharam a passagem do espelho
e comecei a ouvir gritos de pessoas chamando por mim.
Esforcei-me para me levantar, fitando o céu anoitecido recheado de
nuvens cinzentas. Estava ameaçando chover. Coincidência ou não, ia cair
uma imensa tempestade igual à do País das Maravilhas. Tive que parecer
controlada e agir como se nada tivesse acontecido.
— Hazel! Professora! Eu estou aqui!
Caminhei entre as sombras daquela floresta e abracei minha bolsa.
Gritei, cordas vocais ardendo até que avistei uma figura feminina surgir ao
longe.
— Mabel? — Era Hazel, que logo correu em minha direção e
espantou uma névoa para me ver em seu campo de visão.
— Seus pais estavam comigo perguntando por você e o motivo da
demora! O acampamento foi cancelado devido à chuva. Meu Deus, sua
louca, onde você se meteu?
— Eu me perdi. — Descarada, descarada. Senti-me uma foragida.
Como semanas que se passaram foram reduzidas a um dia? — Aqui é
grande demais para mim e adentrei demais na selva quando fui caçar, pois
tudo era tão… igual. Me desculpe.
Ela coçou o queixo e me analisou.
— Ei… onde você arrumou essa roupa? E o seu cabelo? — Hazel
franziu o cenho, dificultando mais as coisas. — Você foi a algum lugar?
Droga, droga, Mabel. Você é a rainha das desculpas, invente
alguma coisa e não falhe!
— Hazel.
— Oi?
— Qual é a semelhança entre um corvo e uma escrivaninha?
♠
Confesso que pude controlar a insaciável curiosidade da minha
amiga com minhas charadas, embora soubesse que não durariam por muito
tempo. Selênio havia me ensinado algumas um pouco antes de voltar para
casa para não ser encurralada.
As lembranças continuavam vivas dentro de mim.
Esperei Hazel pegar suas coisas e fui cercada por abraços e beijos
dos meus pais, mas minha mãe foi a primeira a me alcançar, chorando.
— Mãe… — Minha voz embargou e me ajoelhei sem me separar
dos dois. Permanecemos ali, quietos, até Hazel nos fazer companhia,
soluçando também.
— Você está bem? Pensei que tinha se ferido. Por que não me ligou?
— falou mamãe, apertando o meu braço de leve. — O que houve com o seu
cabelo?
Captando um leve desespero em seu tom de voz, estremeci.
— Meu celular ficou para trás com a bolsa que levei na viagem.
Perdão. Não foi minha intenção preocupá-los, e eu cortei o meu cabelo
sozinha no banheiro.
Como explicar? Voltei novamente e cheia de mentiras que duraram
um dia inteiro para eles e semanas chocantes em um Mundo Subterrâneo.
— Bom — ela suavizou seu tom —, ter você aqui conosco é o que
mais importa. Você é o único bem precioso que temos. Nunca permitiremos
a sua ausência em nossas vidas, entendeu? Fui clara?
— Eu amo vocês — admiti.
Aquela seria, talvez, a chance de eu não deixar eles me colocarem
em um sanatório. Eu insistiria, pois, sinceramente, minhas palavras de
confissão eram verdadeiras e fiéis. Eles sussurraram o que eu havia dito,
bagunçando meus cabelos.
O certo era contar o que passei.
Mas não agora.
— Vou acabar ensopando a roupa de vocês — Hazel se manifestou,
secando as lágrimas dos lábios com o casaco. Rindo, eu me levantei e
estendi o braço para o meu pai, que ainda deslizava o dedo pelas mãos de
mamãe com certa leveza.
Eu disse:
— Vamos embora, senão a chuva nos pegará no caminho.
Toquei o ombro dos meus pais e nos aproximamos do pessoal da
minha classe e de alguns alunos de outras turmas. Uma menina empurrou
quem aparecia na sua frente, direcionando seu olhar furioso para mim.
Hazel franziu o cenho, desconfiada. Ah, não. Eu a reconheceria em
qualquer lugar — era a garota que desmaiara no banheiro naquele dia em
que eu a havia deixado inconsciente perto do laboratório.
Se ela dissesse sobre o ocorrido na frente de todos, eu estava morta.
— Alto lá. — Os burburinhos dos alunos cessaram, prestando total
atenção na morena. — Você! Você não é daqui. O que vi no toalete só prova
que você faz magia negra e que quer destruir o nosso colégio. Me diga!
Diga a todos — ela gesticulou, gritando — o que fez!
Eu sorri minimamente. A menina me encarou com desdém.
— Você está bem? — Corri em sua direção, pasma, e analisei seu
rosto. — Céus, a pancada na cabeça deve ter sido forte. Não é a primeira
vez que diz bobagens.
A morena grunhiu raivosamente.
— Bobagens? Pancada? Eu desmaiei!
— Sim, desmaiou — disse eu, com indiferença. — Desculpe. Eu
não devia ter te socorrido após abrir a porta do banheiro? Aí verifiquei sua
pele. Você estava gelada e branca feito um papel. O que queria que eu
fizesse?
Ela gemeu com indignação e apontou para mim, sem palavras.
— Já chega — interferiu meu pai. — Ninguém tem esse direito de
acusar a minha filha. Se você, garotinha, passou mal e achou que Mabel a
fez escorregar intencionalmente para prejudicá-la, arrume um médico
imediatamente. Magia negra? Destruição? Por favor!
Confesso que não quis criar aquela imensa confusão, mas precisava
proteger a minha identidade, custe o que custar.
Minha professora, Claire, chamou a aluna aborrecida para se retirar
e segurou seus braços, tentando controlá-la de me atacar. Estapeei minha
testa soltando um “ufa” de alívio, respirando fundo. Hazel me abraçou.
Apenas quem conhecesse minha história saberia o que estava passando; e
decerto me perguntaria como conseguia suportar tantos problemas.
Passaram vários minutos de despedida aos vários colegas meus que
estavam curiosíssimos pelo que poderia ter acontecido comigo. Conheci
pessoas que eu sabia muito bem que só estavam interessadas em meu
desaparecimento repentino e jamais haviam trocado nem uma palavra
sequer comigo antes. Mas, para que me importar, se era totalmente
desnecessária a existência delas?
Minha melhor amiga voltou para casa e estava fazendo o mesmo;
era complicado assumir responsabilidades sendo adolescente.
Sentei-me no banco da frente ao lado do motorista, fechando a
janela com o abridor de manivela. Dei espaço para pôr o cinto de segurança
e admirei as gotas de chuva resvalando pelo vidro embaçado.
Viajando em pensamentos delirantes, relembrava o aviso da minha
mãe: não iremos colocá-la em um lugar para loucos. Nunca. Você só está
em fase de crescimento, é normal ter um pouquinho de rebeldia.
Encarei o retrovisor, reparando uma fileira de motos ultrapassarem o
sinal quando chegamos à avenida principal. Depois, uma nova ameaça
pessoal serpenteou pelo reflexo: meus olhos ganharam a cor violeta. Eu
sacudi a cabeça, tentando relaxar, e mais uma vez a cor demorou a sumir.
Fechei os olhos e senti uma breve tempestade passar feito um filme na
minha mente.
Quando abri os olhos, vi que eles voltaram ao normal, só que, no
retrovisor, dois gigantes globos oculares emergiram de dentro do pequeno
espelho. As íris azuladas e fulgurosas reluziram, estudando-me e formando
outro desenho precipitado abaixo delas.
Era aquele sorriso.
Eu fiquei nervosa.
— Sabe, aquela menina precisava de um médico. Ela acha que
minha filha é de outro planeta? — mamãe evidenciou.
Consegui sorrir, embora o susto tivesse sido um pouco forte para
minhas estruturas ainda abaladas. Mamãe sempre me fazia sorrir nas horas
mais inoportunas possíveis.
Arregacei a manga do casaco e segui os movimentos do para-brisa
balançando feito uma hipnose. Encostei a cabeça na janela e tentei
acostumar minha mente à rotina humana de novo.
— O que é isso no seu braço que eu nunca tinha visto antes?
Que hora maravilhosa para perguntar algo impossível de se explicar.
As perguntas mais indesejadas vinham sempre do meu pai. Não importava a
circunstância ou motivo, ele sempre fingia ser um agente da CIA caçando
os mínimos detalhes.
Enquanto ele encarava a silhueta da rosa branca em meu pulso,
entreguei minha atenção a outra coisa.
Não havia mais, por enquanto, discussões ou flertes com Selênio. O
apoio incomparável de Solar e Jack. O sorriso inabalável de Cheshire. Os
ossos de Chessir fazendo altos ruídos. A loucura aceita e estampada nos
olhos penetrantes da Lebre de Março.
Minha mãe biológica, a Rainha Branca.
O destino me alertava coisas que viriam mais à tona do que uma
nuvem carregada de sensações. Eu estava apenas crescendo e construindo
uma nova vida a partir de agora. E eu sabia.
O País das Maravilhas fora, realmente, apenas o começo.
Mal sabia meu próprio pai que cuidei de um dragão, enfrentei a ira
de uma monarca assassina e descobri um legado mágico.
— Tatuagem nova. Gostaram?
AGRADECIMENTOS
Desde 2016, fui construindo um pequeno, mas fiel público a partir
do Social Spirit e ainda há aqueles que permanecem ao meu lado até hoje.
Não consigo colocar em palavras o quanto me sinto grata por não ter sido
desamparada. Mesmo com a mente em um turbilhão e várias vozes me
dizendo coisas horríveis, mesmo pensando que o rascunho de Sombras do
Espelho nunca ficaria bom, eu me agarrei ao carinho de todos vocês como
se os conhecessem há décadas e segui em frente.
Aos meus amigos: Caio, Milena, Jéssica, João, Eduardo, Thamiris,
Amanda, Ranieri, Luysa e também aos outros que me incentivaram
incansavelmente.
Obrigada a todos os profissionais que fizeram parte deste projeto:
@projetoaurorawtt, @[Link], @lilymduncan, @mbeploo e
@artesmedusa. Tenho certeza de que daqui para frente a equipe só vai
aumentar!
E, por fim, à Aline de 15 anos. Muito obrigada por jamais desistir.