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Patrícia Fialho - Recomeço

O documento é uma obra de ficção intitulada 'Recomeço', escrita por Patrícia Filho, que narra a história de Augusto, um jovem que enfrenta desafios emocionais e sociais após um evento traumático. A narrativa explora suas interações com a família e a nova aluna Jennifer, enquanto ele lida com suas inseguranças e a pressão do ambiente escolar. A obra é dividida em capítulos que detalham a evolução de Augusto e suas relações, culminando em um recomeço em sua vida.

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Patrícia Fialho - Recomeço

O documento é uma obra de ficção intitulada 'Recomeço', escrita por Patrícia Filho, que narra a história de Augusto, um jovem que enfrenta desafios emocionais e sociais após um evento traumático. A narrativa explora suas interações com a família e a nova aluna Jennifer, enquanto ele lida com suas inseguranças e a pressão do ambiente escolar. A obra é dividida em capítulos que detalham a evolução de Augusto e suas relações, culminando em um recomeço em sua vida.

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RECOMEÇO

Patrícia Filho
Ficha Técnica

Capa: Tatiane Ruiz

Diagramação Digital: Daniella Moreno

Revisão: Clara Taveira e Raphael Pellegrini (Capitu Já Leu)

CIP – Brasil. Catalogação na Fonte

Catalogação pela Editora

Esta é uma obra de ficção. Nomes, personagens, lugares e acontecimentos descritos são produtos
da imaginação da autora. Quaisquer semelhanças com nomes, datas e acontecimentos reais são
mera coincidência.
É proibido o armazenamento e/ou a reprodução de qualquer parte destas obras, através de
quaisquer meios - tangível ou intangível - sem o consentimento escrito do(a) autor(a) ou da
editora.
Todos os direitos reservados.
Criado no Brasil .
Sumário

PRÓLOGO
CAPÍTULO 1 – À flor da pele
CAPÍTULO 2 – O dia em que a conheci
CAPÍTULO 3 – Primeira aula
CAPÍTULO 4 – A tensão continua
CAPÍTULO 5 – Pergunta inconveniente
CAPÍTULO 6 – Estranhas emoções
CAPÍTULO 7 – Objeto suspeito

CAPÍTULO 8 – Um beijo da garota ruiva


CAPÍTULO 9 – A realidade bate à porta
CAPÍTULO 10 – Uma tarde com um amigo
CAPÍTULO 11 – Jennifer – Exigindo explicações
CAPÍTULO 12 – Pior do que está, pode ficar!
CAPÍTULO 13 – Contra a parede
CAPÍTULO 14 – Flagrado na terapia
CAPÍTULO 15 – Ataque de pânico

CAPÍTULO 16 – Escuridão
CAPÍTULO 17 – Jennifer – Segunda chance
CAPÍTULO 18 – Mulher Gato
CAPÍTULO 19 – Todo meu
CAPÍTULO 20 – Mão boba
CAPÍTULO 21 – Família Watson
CAPÍTULO 22 – Festival de rock
CAPÍTULO 23 – Jennifer – Revelações parte I
CAPÍTULO 24 – Jennifer – Revelações parte II
CAPÍTULO 25 – Jennifer – Revelações parte III
CAPÍTULO 26 – Decepção
CAPÍTULO 27 – Escolhas
CAPÍTULO 28 – Lei de Murphy

CAPÍTULO 29 – Encontro Inesperado


CAPÍTULO 30 – Patinando no Gelo
CAPÍTULO 31 – Testando Limites
CAPÍTULO 32 – Nos Tornamos Um
Bônus – Jennifer – Nos tornamos um
Bônus – Jennifer – Festa na piscina
CAPÍTULO 33 – Duplamente Graduado
CAPÍTULO 34 – Liberdade X Prisão
CAPÍTULO 35 – Amor Altruísta
CAPÍTULO 36 – Sofrendo as Consequências
CAPÍTULO 37 – Retomando a Vida
Bônus – Jennifer
Final – Recomeço
PRÓLOGO

Dois anos antes...

Eu sempre adorei a água e desde muito pequeno vivia na praia, fosse nadando, tomando

sol, correndo ou fazendo castelos de areia. Passava tanto tempo no mar quanto as minhas
obrigações me permitiam. Eu tinha até um bronzeado que as meninas adoravam. Não que eu
tivesse tirado muito proveito dele, visto que sempre fui extremamente tímido, mas ainda assim
ficava feliz em ter a atenção delas.

Diariamente, após o treino, eu voltava para casa caminhando pela areia. Eu gostava de
tirar o tênis e sentir a aspereza sob os pés. Apenas quando já estava na frente de casa era que eu a
deixava e caminhava até a calçada, onde parava e esperava o semáforo fechar.

Em um daqueles dias comuns, algo incomum aconteceu. Eu estava parado, esperando o


sinal mudar, quando um som agudo invadiu os meus ouvidos, atraindo o meu olhar para o carro
preto que avançava cantando pneus. Tudo aconteceu tão rápido, que eu sequer pude perceber o
que estava se passando. Muito menos pude reagir.

A única coisa que eu tenho certeza é que depois daquele dia, eu nunca mais fui o mesmo.
CAPÍTULO 1 – À flor da pele

Os pedregulhos no solo e os galhos das árvores machucavam meus pés descalços e meu
corpo nu, mas eu não me importava — o que me afligia era o som dos passos deles se
aproximando. Eu descobri naquele dia o que era ter medo: a sensação paralisante à qual eu me
recusava a ceder; os sentidos em alerta me preparando para lutar ou fugir; a voz sussurrando
na minha cabeça que eu deveria parar e permitir que tudo acabasse logo, mas que eu tentava
ignorar enquanto corria pela floresta, perdido.

Felizmente outra voz gritava que eu não deveria desistir. Então, com a face
ensanguentada e dor irradiando de tantos pontos, que eu não sabia dizer qual doía mais,
continuei correndo sem rumo enquanto tentava traçar um plano.

O asfalto empoeirado que surgiu alguns metros à minha frente foi como o pote de ouro
que eu tinha de alcançar no fim do arco-íris. Eu estava quase lá quando ouvi a voz dele seguida
de um clique que congelou os meus passos.

Com um sorriso cruel, ele me perguntou:

— Você achou mesmo que poderia fugir de nós, fedelho? Que seria capaz de fugir de
mim? — Aproximou-se e, com um movimento repentino, agarrou o meu cabelo e lançou minha
cabeça contra uma árvore, me deixando atordoado, o que transformou o trajeto de volta à
clareira em um borrão.

Eu ouvia vagamente as ordens que ele dava aos outros, ainda entorpecido pela pancada
na cabeça, e só entendi o que a palavra estrela fazia perdida na frase ao ver uma estrela
incandescente na ponta de uma haste de ferro.
— Isso é pra você não esquecer de dar o recado ao papai. Mandei fazer especialmente
pra você. Se você pintar, vai ficar uma tatuagem muito foda.

O brilho sádico naquelas íris negras me fez descobrir a resposta à pergunta feita mais
cedo: eu nunca seria capaz de fugir dele, não importava quanto tempo se passasse. Ele ficaria
marcado na minha memória assim como aquela estrela ficou marcada na minha pele.

Além do medo, naquele dia eu também descobri o que era dor. Uma dor que extraiu da
minha garganta um grito tão alto, que espantou os pássaros da floresta, mas não alto o
suficiente para extravasar o desespero e a angústia que me assolaram.

Acordei sobressaltado e com o coração galopando tanto, que chegava a doer. Olhei em
volta e percebi, aliviado, que estava em meu quarto e que não havia acordado os meus pais, algo
indicado pelas luzes apagadas. Levei uma mão ao peito e o massageei, tentando diminuir a dor, e
o toque me fez perceber o quanto a minha camiseta estava suada. Corri a língua pelos lábios e
confirmei pelo gosto salubre que a minha face estava coberta de lágrimas.

O habitual desconforto que permanecia era garantia de que eu não conseguiria mais
dormir naquela noite, então levantei para tomar um banho, desejando que ficar imerso na
banheira me livrasse dos vestígios daquele pesadelo.

No caminho até o banheiro, um brilho dourado chamou minha atenção. Ao me


aproximar, vi uma medalha refletindo a luz da lua, o que fez algumas lembranças flutuarem na
minha mente: a minha imensa felicidade naquele dia, os sorrisos orgulhosos dos meus pais...

Aquilo parecia ter acontecido há muito tempo, em uma vida que não era mais a minha.
CAPÍTULO 2 – O dia em que a conheci

— É isso que você chama de café da manhã? — O desdém era dirigido ao meu copo de
suco.

— Eu não estou com fome.

— Coma pelo menos uma fruta, ou eu vou ficar augustiada o dia todo, pensando que
você vai morrer de fome!

Aquela palavra me fez erguer os olhos e encarar minha mãe, que estava sentada à minha

frente comendo waffles com geleia.

— Você vai ficar o quê?

— Augústia é o que sentem as mães dos Augustos que não gostam de comer. Nós não
conseguimos trabalhar porque achamos que nossas crias morrerão por inanição — ela explicou a
definição daquele termo que havia acabado de criar, me fazendo rir levemente. Sendo médica,
ela obviamente sabia que eu não morreria por pular o café da manhã, mas como toda boa mãe,
precisava tentar me empurrar comida a cada oportunidade.

—Tudo bem, Dra. Lewis. — Peguei uma maçã e me forcei a fazê-la chegar ao meu
estômago, em agradecimento à tentativa de dissipar a minha tensão.

— Augusto, eu não vou poder te buscar hoje, mas já combinei com o Jas — declarou um
homem muito parecido comigo, com seu cabelo preto, porte alto e magro e músculos definidos.
A única exceção são os olhos, que apesar de serem da mesma cor, são de um tom bem mais claro
de azul.

— Obrigado, pai.
— Qualquer problema, pode ligar pra mim — ele disse minutos depois, enquanto
saíamos de casa, e eu pude sentir o peso da culpa que carregava. Talvez ele precisasse de terapia.
Não que eu fosse sugerir isso.

Entrei no carro de minha mãe para dar a ela e ao meu pai um pouco de privacidade ao se
despedirem. Acomodado no banco do carona, inalei profundamente o aroma peculiar que me
acalmava. Ela dizia que era a essência de flores silvestres, mas secretamente eu achava que era o
cheiro dela, que me remetia a uma falsa, mas reconfortante sensação de segurança.

A porta do motorista foi aberta, e ela sentou atrás do volante. Com seu cabelo castanho
preso em um rabo de cavalo, ela parecia ainda mais jovem, tornando difícil acreditarem que é
realmente a minha mãe biológica — além de fazer o meu melhor amigo suspirar por ela, algo
que me irrita profundamente.

— Pronto pro seu último ano no colégio? — perguntou enquanto pegava os óculos
escuros no porta-luvas.

— Claro! — O olhar que ela me lançou dizia que eu não sabia mentir, então coloquei
meus fones de ouvido para fugir do assunto.

Após quarenta minutos de silêncio, paramos em frente aos portões de ferro do Henry
Clark High School, um colégio da elite britânica cheio de mauricinhos e patricinhas. Sua
gigantesca construção em tijolos vermelhos, com torres altas e janelas arqueadas, me lembrava
um castelo, um no qual não queria entrar. Eu já havia terminado o colegial, mas para ir à
universidade, era obrigado a fazer dois anos adicionais para prestar os A-levels. Não sentiria
saudades do colégio, considerando que não tinha amigos ali além do Michael — mas nem ele
sabia o meu segredo. Quase ninguém sabia, e eu queria que continuasse assim.

— Você vai ficar bem? — A voz da minha mãe interrompeu os meus pensamentos.

— Vou — respondi, desejando que fosse verdade.


— Você sabe que pode ligar pra mim ou pro Ryan a qualquer hora, não sabe? Não existe
trabalho no mundo que seja mais importante pra nós do que você.

Ao perceber que ela se voltava para mim e certamente me encarava, deixei minha cabeça
pender para frente, envergonhado por precisar tanto deles aos dezessete anos. Mas não podia
evitar. Ainda não. Após aquele dia, eu perdi a minha independência, e os meus pais se tornaram
superprotetores. Eles se revezavam para me levar e buscar onde eu precisasse ir e, quando não
podiam, chamavam sempre o mesmo taxista, Jas Abrazda, um indiano bem-humorado que era

confiável e não fazia perguntas.

— Não se preocupe comigo. — Peguei a mochila no banco de trás, me despedi dela com
um beijo e saí do carro para enfrentar mais um dia de vida.

Recebi vários olhares, e a maioria deles não era agradável. Alguns cochichos não
disfarçados chegavam até os meus ouvidos, mas nada do que falavam de mim era novidade.
Notei alguns rostos novos entre os estudantes espalhados pelo gramado bem-cuidado, inclusive
algumas garotas que me olhavam com interesse. Algumas delas fariam caras normais se sentirem
felizes pela atenção, mas não eu, por isso não dirigi a nenhuma delas um segundo olhar.

Aumentei o volume da música, e Ed Sheeran quase explodia os meus tímpanos enquanto


eu mantinha uma mão casualmente dentro do bolso do paletó e fazia a minha melhor expressão

de serenidade.

Meus olhos estavam focados no papel em minhas mãos, que dizia para qual sala eu
deveria me dirigir, quando meu corpo se chocou contra algo menor. Por reflexo, eu estendi os
braços para segurar o que veio a ser uma garota. Tanta proximidade me causou certo
desconforto, me fazendo recuar logo que ela se reequilibrou.

— Coldplay, eu adoro essa banda — ela afirmou, devolvendo meu smartphone, que eu
nem sabia como havia ido parar em suas mãos.
— Obrigado. — Dei um passo ao lado com a intenção de passar por ela, mas antes disso,
ouvi novamente a sua voz.

— Meu nome é Jennifer — ela se apresentou e ficou esperando uma resposta, que, é
claro, eu não dei.

Ao entrar no laboratório de biologia, procurei a bancada mais distante. Eu conhecia a


maior parte das pessoas ali, mas não tinha intimidade com nenhuma delas, então sentei sozinho
como sempre, algo que eu preferia, de qualquer forma.

O ruído vindo da porta atraiu o meu olhar, e eu a vi novamente. Com seus olhos verde-
esmeralda e cabelos cor de fogo, ela era linda. Embora eu não quisesse nenhum contato com ela,
não podia negar a verdade. Ignorando os olhares em sua direção, ela caminhou até a minha
bancada, parando ao meu lado.

— Posso sentar aqui?

— Se você quiser, mas existem outras bancadas livres por aí.

— Você é sempre grosseiro assim, ou está distribuindo coices de graça só hoje?! — O


comentário arrancou risadas de quem estava próximo a nós. A entrada do senhor Prior, nosso
professor de biologia e pesquisador com quem eu trabalhava, me impediu de responder.

— Bom dia, turma. Onde está Jennifer Thompson?

— Aqui, Sr. Prior — ela respondeu, elevando uma mão, ainda de pé ao meu lado.

— Seja bem-vinda, Jennifer. Vejo que já conheceu o Augusto, o que é bom, pois ele será
seu tutor pelas próximas duas semanas. — Voltei minha atenção ao professor à menção do meu
nome, sendo tomado pela raiva ao ser oferecido como tutor sem nem ao menos ser consultado
antes.

— Sr. Prior... — comecei com a intenção de recusar o “convite”, porém logo notei todos
os olhos naquela sala voltados para mim. “Ótimo, se eu recusar, vou confirmar o que muitos já

pensam de mim, e eu já tenho problemas demais pra me tornar alvo de mais piadinhas”, pensei.
— Eu vou ficar muito feliz em ajudar... — completei entredentes, fazendo Jennifer me lançar um
olhar que não deixava dúvidas de seu desejo de me fuzilar.

Finalmente o professor distribuiu as lâminas e começamos a diferenciar os leucócitos.


Embora eu trabalhasse com agilidade, não conseguia deixar de pensar no que faria com aquela
garota. Eu tinha uma rotina a seguir e não podia alterá-la, pois me trazia paz de espírito.

Quando o sinal tocou, o professor pediu que fôssemos até ele.

— Você sabe que a grade curricular do seu antigo colégio está muito abaixo dos padrões
desse aqui, não sabe?

— Sei, Sr. Prior. — Jennifer jogou o peso de um pé para o outro, parecendo infeliz em ter
seu déficit acadêmico exposto diante de mim.

— O conselho da escola me pediu que te ajudasse a alcançar os outros alunos, e é aí que

o Augusto entra. Durante duas semanas, ele vai ser seu professor particular, e ao final de cada
semana, você vai fazer uma prova. Se não conseguir um bom resultado nelas, também não
conseguirá acompanhar o nosso cronograma de aulas.

Lutei contra o desejo de bater os pés com impaciência enquanto eles conversavam.

— Eu entendo, mas não tem por que incomodar o Augusto com isso. Eu posso conseguir
um professor particular. Alguém mais qualificado pra dar aulas. — Apesar de não querer ser
tutor, fiquei irritado por ela me considerar incapaz e estava prestes a retrucar, quando o senhor
Prior falou:

— Não seja boba, o Augusto é um dos melhores alunos dessa escola e ele faz uma
atividade extracurricular comigo. Como no momento eu não tenho trabalho pra ele, vou
transferir algumas horas dele pra te ajudar.
Mordi o lábio para evitar dizer que ele não deveria oferecer o meu trabalho sem me
consultar.

Após remexer em uma pasta cheia de papéis, ele estendeu um monte de folhas na minha
direção.

— Aqui, esse é o conteúdo que você precisa abordar. — Mais uma vez mordi o lábio,
dessa vez para evitar gemer pela quantidade de coisas que tinha ali. — Vocês podem estudar
onde quiserem, desde que mantenham a carga horária de três horas diárias. Eu confio em você
pra não trapacear.

Que bom que você confia em mim pra ser seu escravo.

— Vamos ficar na biblioteca, mas eu não posso começar hoje, Sr. Prior.

— Por quê?

Dizer que não era da conta dele ou que eu precisava me preparar psicologicamente para
lidar com a garota não eram opções viáveis, então a minha resposta foi que eu precisava de
algum tempo para preparar uma aula. Ele aceitou, mas disse que teríamos de compensar essas
horas no fim de semana e depois nos enxotou da sala abanando uma mão.

— Você não precisa fazer isso se não quiser. Eu posso conseguir um professor particular

e depois avisar que já acertei tudo. Ele não vai ter como recusar.

— Eu não quero ter problemas com o senhor Prior, então vamos fazer isso.

Após confirmar que eu daria as aulas, segui pelo corredor sem ela. Ao entrar em outra
sala, ouvi a voz do Michael e fui até ele, que conversava com um cara e uma menina que eu não
conhecia muito bem.

— E aí, nerd! — Ele me deu um abraço rápido e um tapa nas costas que me fez quase
expelir um pulmão. Tendo 1,90m de altura e muitos músculos, Mike poderia ser intimidante,
apesar disso, era uma das raras pessoas capazes de me abraçar sem me deixar desconfortável.

Talvez porque o seu cabelo loiro cacheado e olhos verdes o deixavam com cara de cupido, e
anjinhos não intimidam ninguém. — Eu fiquei te esperando no boliche ontem, retardado!

— Foi mal, Mike, mas eu já te expliquei que não deu pra ir. — A cara dele deixava claro
que não tinha acreditado na minha desculpa, mas felizmente deixou passar. — De qualquer
forma, você não estava sozinho, então pare de reclamar.

Após me descascar pelo bolo que levou, ele me apresentou à garota, Hilary, e ao
namorado dela, Greg, mas não tivemos tempo de conversar já que a professora entrou logo em
seguida. Depois de alguns minutos de uma aula maçante, minha cabeça foi bruscamente
empurrada para frente, o que me fez virar para trás de cara feia.

— Por que você tá viajando hoje? Tá com sono? Não te culpo, cara, que aula chata! —
ele perguntou, e ele mesmo respondeu. O Mike é o tipo de pessoa que não consegue manter a
boca parada. Quando não a ocupa com comida, ocupa com palavras. Mas eu nunca reclamei dos
monólogos dele, já que me poupam de precisar responder.

A aula seguinte foi de português, língua estrangeira que escolhi para aquele ano. A garota
ruiva estava lá também, mas nos ignoramos mutuamente. Muitos verbos depois, o sinal
finalmente anunciou a hora do almoço.

O refeitório estava lotado, nenhuma novidade aí. Esperei pacientemente na fila enquanto
a moça da rampa colocava, prato após prato, uma gororoba não identificada que me fez optar
somente pela salada. Eu me dirigi à mesa de sempre, na qual já estavam o Mike, o casal que
conheci mais cedo e, claro, a Rox – paixão platônica do Mike, embora ele negasse
veementemente isso.

— Ei, Rox! O que fez nas férias? — Os olhos azul-celeste, da mesma cor do cabelo,
brilhavam de excitação enquanto ela me falava da viagem à Paris.
A narrativa foi interrompida quando ela avistou alguém na rampa e acenou. Ao olhar para
lá, vi a garota nova se aproximando da nossa mesa. Ela hesitou ao me ver, mas depois continuou
andando até nós.

— Oi, Rox, oi, Augusto — cumprimentou, segurando a bandeja que, como a minha, só
continha a salada.

— Vocês já se conhecem?! — Rox perguntou, espantada.

— É uma longa história.

***

A ansiedade não teve tempo de crescer enquanto eu esperava no portão, já que Jas chegou
dois minutos depois.

— Ei! Como vai, Augusto? — cumprimentou alegremente após eu entrar na parte de trás
do táxi preto e bater a porta de correr. Fizemos um high five através do vidro, e depois de me
acomodar, coloquei o cinto de segurança.

— Tudo certo. Como foi a visita da sua mãe? — Eu morri de rir quando ele me contou
que a mãe dele, uma indiana tradicionalista, enxotou sua namorada com uma colher de pau
quando descobriu que a garota não era indiana. Uma das vantagens de andar com o Jas é que ele
sempre me distrai do longo trajeto até a minha casa.

Logo que eu abri a porta, a barra da minha calça foi mordida e puxada sem dó, me
fazendo largar a mochila no chão e abaixar para fazer carinho na minúscula cabeça preta e
peluda da Sammy, antes que ela destruísse o meu uniforme. Muitas pessoas não entenderiam por
que temos um vira-lata e não um cachorro de raça, mas o lema da minha família é: mais vale
resgatar um animal das ruas do que comprar um de raça para satisfazer o seu próprio ego.

Usando os próprios pés, arranquei os sapatos antes de pisar no carpete branco da sala e

seguir em direção à cozinha para cumprimentar a Cibele, uma portuguesa de meia-idade muito
bem-humorada e que faz a melhor comida do mundo.

— Tudo bem? — cumprimentei em português, o que a fez sorrir.

— Eu fiz lasanha de camarão e cogumelos pro jantar. — A falta do sorriso que sempre
acompanha o meu prato favorito indicou que eu não havia entendido a resposta, então ela repetiu
em inglês e conseguiu o sorriso e um agradecimento.

Ela apontou para o jardim ao ver meus olhos vagando pela ampla cozinha, sabendo que
eu procurava o Toddy, meu gato preto, gordo e preguiçoso. Depois de brincar lá fora com ele e
com Sammy, comecei a preparar as aulas, e meu humor azedou novamente.

***

— Como foi o primeiro dia? — minha mãe indagou enquanto se servia da lasanha, e eu
expliquei sobre as aulas que precisaria dar. — E você está bem com isso?

— Eu não queria fazer, mas não tenho escolha.

— Como ela é? — Apesar de tentar disfarçar, meu pai foi incapaz de esconder aquele
sorriso que eu conhecia bem.

— Não comece — avisei apontando o meu garfo para ele de maneira ameaçadora.

— Eu não falei nada. — Ele me olhou com expressão inocente. — Eu falei, Nathalie?

— Nadinha.
Um tempo depois, encarando o teto enquanto Coldplay soava nos alto-falantes do meu
quarto, me perguntei qual seria a música favorita da garota ruiva. Quando o cansaço me venceu,
eu caí em um sono tranquilo, até que o meu Freddy Krueger particular apareceu nos meus sonhos
para me assombrar, me fazendo acordar assustado e ofegante para passar o resto da noite em
claro.
CAPÍTULO 3 – Primeira aula

— Os chuveiros são individuais, não são? — minha mãe indagou após eu pedir para ela
dar uma desculpa e me livrar da tutoria naquele dia, depois de me lembrar que teria educação
física.

— São, mas... você sabe que eu não gosto de tomar banho no vestiário — confirmei
encarando o painel do carro. “Como é possível ela não entender isso?”

— Augusto, eu sei que é difícil, mas você tem que reaprender a viver como todo mundo.
Você vai ficar bem. — Senti sua mão pressionando o meu ombro. — Se eu não tivesse certeza
disso, seria a primeira a querer tirar você daqui.

— Eu vou passar vergonha, mãe... — sussurrei de olhos fechados, imaginando o que


aconteceria.

— Não vai. Tenha confiança em si mesmo e lembre que o Mike vai estar lá com você. —
Ao ver que seus conselhos não estavam surtindo efeito, ela completou: — Se tiver algum
problema, ligue pra mim e eu virei correndo. Mas primeiro tente, está bem?

— Certo... — murmurei me sentindo derrotado.

— Ei. — Ela me puxou para um abraço. — Eu sei que vai ficar tudo bem. Acredite em
mim. É intuição de mãe.

***
Desisti de tentar comer depois de vinte minutos brincando com a comida.

— Cara, você tá bem?

— Estou. — Com um dedo, empurrei a bandeja para longe de mim.

— Já que você não vai comer isso, passa pra cá.

— Para de comer, garoto! — Com um tapa, Rox fez Mike recolher a mão que estendia
para a minha bandeja.

— Ai! Isso dói, Rox! — Olhou para ela com uma careta enquanto massageava a mão
agredida. — Eu tô fazendo um favor ao meio ambiente evitando o desperdício de comida!

Como não estava com ânimo para conversar naquele dia, levantei e comecei a recolher
minhas coisas.

— Aonde você vai? — Rox questionou enquanto eu vestia o blazer do uniforme.

— À biblioteca. Vejo vocês daqui a pouco.

Devolvi minha bandeja e segui pelo longo corredor na direção oposta à biblioteca. Nunca
tive a intenção de ir lá, só não queria companhia. Empurrei a enorme porta de madeira e desci os
poucos degraus até o jardim dos fundos. Caminhei rapidamente, ansioso por chegar ao local onde
não existiam bancos e os arbustos altos bloqueavam a visão. Era o local perfeito para eu me
isolar quando precisava.

Sentei na grama e voltei a face para o céu, desejando que a claridade que transpassava as
minhas pálpebras fechadas e o calor que aquecia a minha pele dissipassem as nuvens carregadas
que nublavam o meu humor.

***
— Cara, que raio de escola coloca educação física depois do almoço?! — O Mike

perguntou com um gemido enquanto acariciava a barriga.

— Todas, assim não temos que escolher entre chegar atrasado ou fedendo na próxima
aula. E seu problema não é o vôlei, é comer como um cavalo. — Revirei os olhos, toda semana
era a mesma história.

— Eu joguei melhor do que você mesmo depois de ter comido como um cavalo. Você
perdeu quase todos os passes hoje, mané! — gritou, dando um soco no meu braço.

— Não enche.

Ver as cabines frágeis do vestiário fez um calafrio me percorrer apesar do calor


provocado pela atividade física. Geralmente eu só lavava o rosto, trocava a camiseta suada e saía
correndo para esperar quem quer que fosse me buscar.

Os outros caras da turma começaram a se despir sem o menor pudor, o que fez meu
estômago embrulhar, então me voltei rapidamente para a pia e fechei os olhos por um segundo,
tentando impedir que a ansiedade crescesse até um ponto em que eu não conseguiria controlar.
Quando os abri novamente, vi o Mike me olhando através do espelho com uma expressão
ininteligível, o que me fez desviar o olhar, me perguntando o que ele pensava de mim.

— Cara, vamos lá na lanchonete. Eu preciso de água com gás antes do banho. — Não
sabia o que ele achava de mim, mas fiquei grato por me dar uma desculpa para sair dali.

Quinze minutos depois, o vestiário estava quase vazio e os poucos que ainda estavam lá
já estavam vestidos. Após tomar o banho mais rápido da minha vida, vesti quase toda a minha
roupa no boxe. Enquanto ajeitava o cabelo em frente ao espelho, notei pela milésima vez os
meus traços físicos: o nariz pequeno demais, os lábios rosados demais, o queixo fino demais, as
sobrancelhas delineadas demais...
“Com esse rostinho delicado, até que ele parece uma menina.”

Deixei o espelho antes de me perder naquelas lembranças.

— Mike, você vai demorar? Eu tenho que ir! — gritei para ele enquanto dava o nó na
gravata.

— Já tô saindo. — Ele saiu do boxe usando somente uma cueca e me fez ter a visão do

inferno.

— Uou. Eu não quero ver isso! — Eu me afastei cobrindo os olhos.

— Fique feliz por eu ter vestido a cueca lá dentro. Agora a calça, eu não ia molhar, né?

— Que seja. Eu já vou, porque estou em cima da hora — expliquei, jogando a toalha no
hamper e o saco de roupa suja na mochila.

— Parece que alguém tá com pressa pra encontrar uma certa gatinha ruiva.

— Não viaja. Eu só não quero o senhor Prior no meu pé.

— Sei...

Pela assinatura no livro de registros da biblioteca, soube que Jennifer estava na última
sala de estudos e segui até lá. Ao entrar, coloquei os livros em cima da mesa com um estrondo e

abri a pasta com os papéis que o senhor Prior me dera.

— Vamos começar com troca gasosa — avisei.

— Boa tarde pra você também. E você tá atrasado.

— O Mike ficou mal depois da aula. — Após essa rápida explicação, inseri o assunto que
interessava. — O primeiro tópico que o senhor Prior listou foi esse. Eu sinceramente não sei por
que ele acha que você precisa de um professor pra aprender isso. É só ler! De qualquer forma, eu
tirei cópias de alguns exercícios do ano passado e fiz um resumo pra você. Se tiver alguma
dúvida, é só falar.

— Sim, senhor — ela zombou, batendo continência antes de começar a ler o meu resumo.

Aproveitei para reler alguns conceitos sobre a pesquisa do senhor Prior, que era sobre o
cultivo de células-tronco para gerar as células-beta do pâncreas. Se a pesquisa fosse bem-
sucedida, ajudaria milhares de pessoas com diabetes tipo I, já que essas células são as produtoras
de insulina, que o próprio sistema imunológico deles destruiu.

A sensação de estar sendo observado me fez levantar os olhos e perceber que Jennifer
estava me encarando. Ela estava mordendo o bocal da caneta, um hábito nojento, mas que me
induziu a olhar para os lábios finos e rosados. Após desviar o olhar, perguntei secamente:

— Alguma dúvida?

— Não, eu só tava me perguntando por que você me odeia.

— Eu não te odeio — rebati, encarando-a novamente, surpreso pela resposta.

— Então você finge bem, porque eu podia jurar que você me odeia.

— Eu só não tenho interesse em fazer amizade, você que entendeu que eu te odeio. —
Voltei a ler até perceber que ela continuava me olhando. — O que foi agora?! — perguntei com
impaciência.

— Calma, tô só te admirando. Você fica sexy com o cabelo molhado. — Ao sentir o calor
subir por minhas bochechas, soube que estava ficando vermelho, o que a fez sorrir antes de
voltar a ler meu resumo.

Horas depois, percebi que a biblioteca estava quase vazia. A sala fechava às sete da noite,
e já eram seis e vinte. Apreensivo com a possibilidade de ficarmos sozinhos ali, eu olhava ao
redor constantemente.

— Você quer ir embora? Essa sua inquietação tá me desconcentrando! — ela reclamou.


Uma vibração na mesa chamou minha atenção antes que eu pudesse responder. Atendi a
ligação falando o mais baixo que pude.

— Às sete. Até daqui a pouco.

— Se precisa de carona, eu posso te levar. Não precisa fazer alguém vir te buscar.

— Não é necessário, mas obrigado.

Pouco depois, devolvi os livros às prateleiras, e às sete em ponto, dei o fora daquele

lugar.
CAPÍTULO 4 – A tensão continua

— Sobre o capô. Eu vou me divertir um pouco agora.

Os movimentos bruscos pressionavam ainda mais as minhas costelas fraturadas contra o


metal, triplicando a dor, o que facilitava o cumprimento da ordem. Não que tal ordem não me

enchesse ainda mais de ódio, mas ao menos me dava a possibilidade de gritar sem derramar o
que eu achava ser a última gota de dignidade existente em mim.

— Pare!

— Acorde. Está tudo bem, já acabou.

Meu cérebro demorou alguns momentos para registrar onde eu estava e quem me
chacoalhava pelos ombros. Quando percebi que eram os olhos do meu pai me observando e sua

voz jurando que eu estava seguro, cobri o rosto com as mãos, tentando esconder as lágrimas e
abafar os soluços que escapavam sem permissão cada vez que aquele pesadelo se repetia.

As cenas revividas variavam e todas traziam o mesmo terror. Aquela, porém, era a que
mais me abalava. Por precisar daquele contato, permiti que ele me puxasse para cima e me
abraçasse, como fazia quando eu era criança e precisava de consolo.

— Eu sou seu pai, não tem motivo pra ter vergonha. — O som de tapas nas costas
encobria a culpa expressa na voz. — Me fale sobre esse pesadelo, Augusto.

Eu nunca tinha falado sobre aquilo e queria descobrir se ele se sentiria do mesmo jeito
que eu, mas o constrangimento era grande demais para mim. Então fiquei calado, tentando
empurrar as memórias de volta para o abismo de onde elas haviam saído. Era como se não
admitir em voz alta fizesse tudo não passar de um pesadelo.
Após me acalmar, pedi a meu pai para ficar sozinho, e ele não insistiu em fazer
perguntas. O relógio na parede marcava pouco mais das duas da manhã, mas eu sabia que a noite
estava perdida para mim e que havia muita tensão acumulada, então coloquei um agasalho sobre
o moletom, peguei meus fones nos ouvidos e fui até a academia no jardim.

Uma batida agitada tocava nos fones enquanto eu gastava energia na esteira. A minha
playlist era definida pelo meu estado de espírito. Quanto mais para baixo eu me sentia, mais
agitada era a música, evitando assim mais sentimentos sombrios. Por vezes, a tática funcionava,

e eu me sentia minimamente melhor.

Ao amanhecer, as únicas pessoas que saberiam das minhas lágrimas seriam os meus pais,
os outros veriam somente o que eu quisesse mostrar. Durante o café da manhã, nós três
fingiríamos que nada havia acontecido. Era um acordo silencioso que tínhamos após uma noite
conturbada.

Ainda assim, eu nunca conseguia encará-los nos olhos.


CAPÍTULO 5 – Pergunta inconveniente

Acordei assustado com o sinal anunciando o fim da aula, que eu perdi inteirinha enquanto
dormia escorado na parede. Decidi então nadar contra a maré no corredor, para pegar um café
antes de ir para o auditório; precisaria de cafeína para suportar aquela provação.

— Ei, cara, você morreu?! — Mike brotou ao meu lado e colocou um braço sobre os
meus ombros.

— O quê?! Você bebeu? Não acha que é meio cedo pra isso? — zombei enquanto tirava
seu braço de cima de mim.

— Eu não bebi, espertinho. Você é que tá parecendo um zumbi, então achar que você
morreu é a coisa mais natural do mundo. O que tá pegando com você?

— A obrigação de acordar cedo. Eu vou até a cafeteria tentar me livrar da cara de zumbi.

— Como foi a aula com a Jennifer? — perguntou enquanto esperávamos o meu double
choc mocha.

— Normal.

— Normal?! É só isso que você tem pra me dizer depois de passar a tarde inteira sozinho
com a menina?

— É. E eu não estava sozinho com ela.

Seu olhar questionador me fez passear pela lanchonete como se estivesse escolhendo algo
para comer. Tudo para evitar a pergunta que ele estava se roendo para fazer.

Já estávamos no corredor, e eu saboreava a mistura de café com chocolate quando ele


voltou a falar sem parar.

— O que será que vão falar na palestra hoje? Não tem nada que eles possam falar sobre

sexo que eu já não saiba. Qual é, eles poderiam liberar o preparatório disso!

— Concordo com você.

— Não sei não, Augusto, talvez você ainda precise dessas palestras. — Não consegui

definir se ele estava falando sério ou me zoando. — Nunca te vi com uma menina.

— E por isso você acha que eu sou ignorante no assunto?!

— Você já ficou com alguém? Tipo, “ficar” mesmo. — As aspas feitas no ar deram uma
conotação diferente ao termo, o que me fez borrifar o meu café, e o pulmão restante, em um
acesso de tosse. — Calma, cara, é só uma pergunta. — Ele falou, esmurrando as minhas costas, e
ajudando o pulmão a sair, com a desculpa de me ajudar a desengasgar. — Eu sou seu amigo, não
sou? Você sabe que poderia me contar... qualquer coisa? — O olhar dele me disse mais do que as
palavras e, embora eu tivesse achado que ele estava na pista errada, preferi deixar assim mesmo

do que conversar sobre o assunto.

— Claro, Mike — afirmei, tirando um lenço de papel do bolso para limpar o café que
escorreu pelo meu queixo e o joguei fora junto com o copo quase vazio. — É que eu não gosto
de falar disso. — O calor na face dizia que eu estava constrangedoramente corado, e fiquei feliz
por já estarmos entrando no auditório, onde ele seria obrigado a calar a boca.

O café não foi capaz de me manter acordado durante a palestra, mas o sono foi muito
bem-vindo. Desnecessário dizer o quanto era constrangedor ter uma aula sobre sexualidade,
mesmo que eles não falassem sobre a dinâmica da coisa. Eu já havia passado por essa fase
durante as aulas de biologia. Nas palestras, eles focavam no comportamento, mas, ainda assim,
ouvir certas coisas em uma sala cheia de gente de quatorze a dezoito anos, inclusive meninas, me
fazia querer desaparecer.
Na aula seguinte, ainda tive que aturar Alana, a garota mais grudenta da face da Terra. A
forma como ela me secava descaradamente e como fazia de tudo para esbarrar em mim durante a
educação física me deixava nervoso, o que me fazia evitá-la a todo custo. Outras garotas também
davam em cima de mim, porém respeitavam o meu espaço pessoal e por isso não me
incomodavam. Por vezes, alguma me convidava para sair, e eu tinha de inventar uma desculpa
qualquer para recusar, motivo que iniciou o rumor de que eu tinha alergia a garotas.

Cheguei à biblioteca antes de Jennifer e pude ficar lendo um pouco mais sobre o assunto

da aula.

— O que vai ser hoje? — Foi a primeira pergunta que ela fez quando entrou na sala
minutos depois.

— Boa tarde pra você também, e você está atrasada. — Devolvi as reclamações do dia
anterior. — Hoje vamos nos divertir com respiração celular. Espero que você esteja preparada
pro Ciclo de Krebs.

Duas horas depois, ela estava cansada de fazer os exercícios da lista que eu preparei. Eu
sabia que eram difíceis, mas se ela pretendia fazer qualquer curso na área de saúde, era
imprescindível ser muito boa em biologia.

— Eu não consigo mais raciocinar — reclamou, jogando a caneta sobre os papeis.

— Eu não posso terminar a aula antes das sete, e você sabe disso.

— Não precisamos sair da biblioteca. — Seus olhos verdes me encararam, esperançosos.

— Termine a lista — exigi, apontando para a apostila à sua frente, até me lembrar que os
ingleses consideram rude apontar coisas. Mesmo depois de dois anos morando na Inglaterra, eu
ainda esquecia de alguns costumes deles.

Com um suspiro alto, ela encarou o papel. A expressão desanimada me fez sentir pena, e

eu resolvi ajudá-la. Levantei da minha cadeira e dei a volta na mesa, sentando ao seu lado.
— Vamos, preguiçosa, eu vou te ajudar. — Ela levantou a cabeça e me encarou.

— No lugar de onde você vem não ensinam que é rude chamar as pessoas de

preguiçosas? — O tom de irritação me fez arregalar os olhos, mas o sorriso não disfarçado
deixou claro que ela estava me zoando. — Por que você vai me ajudar se nem gosta de mim?

— Pra comprar o meu espaço no céu. E, a propósito, a resposta é não. Nós gostamos de
agir como animais no lugar de onde eu venho. — Ter retribuído a brincadeira surpreendeu até a
mim mesmo. Após limpar a garganta, pedi que ela esquecesse o papel e me falasse o que sabia
sobre respiração aeróbia. Meia hora depois, era eu quem estava cansado, e ainda eram seis e
meia. “Maldita hora que não passa”. — Eu preciso de comida. — Revirei a minha mochila e
tirei de lá um pacote de balas de gelatina.

— É isso o que você chama de comida?! — Seu olhar reprovador fuzilou o pacote.

— É rico em glicose, comida de célula, já ouviu falar? — respondi enquanto selecionava


as minhas favoritas.

— Você escolhe a cor das balas! — Ela me olhou como se eu fosse louco.

— Cores diferentes significam sabores diferentes. — Revirei os olhos por tamanha


ignorância. — Fique à vontade, talvez os seus neurônios estejam com fome... — Empurrei o
pacote em sua direção e depois pedi que descrevesse novamente os processos da respiração
celular.

Enquanto andava de um lado para o outro, eu corrigia um ou outro erro cometido.


Quando fiquei satisfeito com o seu entendimento sobre todas as etapas, pedi que ela desenhasse o
esquema do processo.

— Aqui, mestre — ela zombou ao terminar.

Ao me inclinar sobre a mesa para analisar o desenho, senti o cheiro do seu cabelo e só

então percebi quão perto estávamos um do outro. Se virássemos o rosto ao mesmo tempo, nossos
lábios possivelmente se tocariam. Essa percepção causou em mim um arrepio desconcertante. A
familiar angústia provocada pela proximidade excessiva não tardou em chegar, mas chegou
acompanhada de uma euforia que, por um breve momento, me fez desejar que ela virasse o rosto.

Erguendo o corpo bruscamente, dei a aula por encerrada alguns minutos mais cedo.
Devolvi os livros em tempo recorde e torci para que o meu pai chegasse logo.

— Você vai aceitar minha carona hoje?

— Não, obrigado.

— Eu tô indo pra saída também, sabia? — comentou com um tom gozador na voz ao ver
a minha pressa.

— Eu não vou poder te dar aula amanhã — avisei, ignorando o que ela dissera.

— Por quê?

— Porque não. — Acelerei ainda mais os passos e a deixei para trás.

Alívio se espalhou pelo meu corpo ao ver o carro do meu pai entrando no estacionamento
no exato momento em que saí do prédio.

— Ei, pai. Obrigado por chegar cedo.

— Sem problemas. Como foi hoje?

— Tudo igual.

Enquanto ele manobrava no estacionamento, eu observei minha pupila se dirigir a um


conversível vermelho e me perguntei se o dia fora mesmo tão igual assim.
CAPÍTULO 6 – Estranhas emoções

O frio na barriga ainda surgia a cada vez que eu entrava naquela sala frequentada há mais
de um ano, embora eu já me sentisse mais à vontade ali. Apesar de ainda ir lá por ser obrigado,
consegui superar o meu ódio pelas visitas semanais. As paredes verde-água, o pequeno pinheiro
ao lado da janela e a orquídea branca em cima da mesa davam um ar sereno e tranquilo ao local.

Inicialmente o que eu mais odiava naquele lugar era o Mark, pois ele me obrigava a falar
coisas que eu não queria ou contava aos meus pais que eu não estava cooperando na terapia, o
que me rendia um longo sermão. Não que isso tivesse mudado, mas embora eu não admitisse,
passei a gostar dele.

— Oi — cumprimentei sem vontade enquanto sentava no sofá confortável.

— Nem vou perguntar se você está bem... Por que você está cansado?

— As aulas começaram. — A resposta sucinta era explicação suficiente para ele.

— Imagino que o problema do começo das aulas não se resuma ao excesso de atividades
escolares.

— Você é um cara esperto, não é à toa que tem um diploma de Oxford — alfinetei,
apontando para o diploma pendurado na parede atrás da mesa.

— Está tendo pesadelos? — indagou, ignorando o meu sarcasmo.

— Estou, mas eles estão mais vívidos e dessa vez se recusam a ir embora. — Um suspiro
involuntário demonstrou a minha frustração. — Eu não consigo dormir.

— Você tem tomado os remédios que o psiquiatra prescreveu?


— É claro que sim! Você acha que isso acontece porque eu sou descuidado?!

— Não, Augusto, mas eu precisava perguntar. — Sua voz não demonstrava abalo com a

minha explosão. Todo aquele autocontrole do Mark às vezes me irritava. — Tem alguma coisa
diferente acontecendo na sua vida? Algo que possa estar te deixando mais ansioso do que o
normal?

Na minha mente se formou a imagem de olhos verdes gozadores, mas eu não queria falar
sobre a ruiva, então dei uma resposta negativa. Mark me olhou como se não acreditasse muito
em mim, mas daquela vez não insistiu.

— Você escreveu o que eu pedi?

— Escrevi.

— Posso ver? — Ele arqueou uma sobrancelha ao perceber que eu não mostraria.

Sem opção, retirei o caderno da mochila e entreguei a ele. Depois mantive a cabeça baixa
enquanto ele lia o que eu havia escrito sobre os meus sucessos e fracassos ao longo da semana.

O resto da sessão se passou com muitas perguntas por parte dele e muitas respostas
evasivas da minha parte.

***

— Você pode estar na minha casa amanhã às duas? — perguntei à Jennifer na sexta.

— Por que na sua casa e não na minha?

— Porque é você quem precisa de aulas, e não eu.

— Uau! Depois dessa, tudo bem, eu vou. — Ela ergueu as mãos em sinal de rendição.
— Não se preocupe, Jenny, o Augusto é inofensivo. Você não precisa ter medo de ir na
casa dele — Michael afirmou, exibindo um sorriso debochado, que eu ignorei porque estava
muito ocupado me perguntando desde quando ele a chamava de Jenny.

— Eu não tenho medo dele, só do mau humor dele. — Todos riram do comentário.

***

Já estava amanhecendo quando eu consegui dormir. Horas depois, os latidos da Sammy


me despertaram de um sono profundo, e eu a vi brincando com os meus pais, que a faziam de
boba enquanto tentava pegar a bola. Após um rápido banho, me juntei a eles. Mais tarde,
decidimos almoçar no conservatório, cômodo relativamente comum nas casas inglesas. Por ser
praticamente todo feito de vidro, ele nos permite aproveitar o sol e admirar o jardim sem passar
frio.

— Você sente falta de San Diego? — minha mãe perguntou ao me ver estendido no sol.

— Eu sinto falta do calor e do mar.

— Tem vontade de voltar pra lá?

— Não. — A resposta saiu de minha boca antes mesmo que eu pudesse pensar nela. Eu
sentia falta da minha cidade, mas só o pensamento de ir lá já me causava calafrios.

Poucos minutos depois, o som do interfone soou no ambiente, e eu soube que a Jennifer
estava no portão. Pretendia abri-lo usando o interfone na cozinha e levá-la direto ao escritório,
mas a minha mãe disse que queria conhecê-la, então contornei a casa para abrir o portão
pessoalmente. Ela me cumprimentou com um sorriso contido após estacionar, e eu retribuí da
mesma forma.
— Você fica bem diferente de camiseta e bermuda.

— E você fica bem diferente de salto alto e calça jeans. Bem justa. — Claro que a

segunda parte eu guardei para mim mesmo.

— Vamos estudar aqui fora? — Surpresa marcou o seu rosto enquanto me seguia em
direção aos fundos da casa.

— Claro que não, está frio. Os meus pais estão lá atrás e querem te conhecer.

O sorriso tímido que ela esboçou ao ver os dois pareceu deslocado em seu rosto.

— Jennifer Thompson. Minha mãe, Nathalie Lewis, e meu pai, Ryan Grayson. — O
sorriso ficou ainda mais desconcertado, uma reação normal quando eu apresentava os meus pais.
Se era pelos sobrenomes diferentes ou pela idade deles, eu nunca soube.

— É um prazer conhecê-los... — A demora, eu já sabia por prática, era pela dúvida se a


minha mãe deveria ser chamada de senhora ou senhorita.

— Ela é médica, então se você usar “doutora”, não corre o risco de errar. — Ver o belo
rosto ficar da cor do cabelo foi prazeroso, pois além de ficar mais linda corada, eu retribuí por
todas as vezes em que ela me deixou do mesmo modo.

Poucos minutos depois, Sammy e Toddy já haviam se apossado da visitante e ela já


estava à vontade com os meus pais, parecendo mais com ela mesma do que a menina tímida que
chegou.

— Eu fiz o primeiro ano do preparatório no Instituto Britânico, mas percebi que seria
difícil disputar uma vaga na faculdade de medicina de Cambridge se continuasse lá.

— Fez muito bem indo pro Henry Clark, o preparatório de lá é muito bem-conceituado.

— Eu estou gostando muito de lá. — Ela me olhou com um brilho travesso nos olhos,
algo que eu já conhecia bem. — Além de ser bem-conceituado, é tudo tão lindo. — A insinuação
me deixou desconfortável.

— Vamos, Jennifer, você não veio aqui pra conversar.

— Augusto, que modos são esses?! — minha mãe exclamou, horrorizada com a minha
indelicadeza.

— Desculpe, mãe, mas realmente não temos mais tempo a perder com conversa —

retruquei entrando rapidamente na casa, pois sabia que ela não deixaria aquilo passar sem um
sermão e eu não queria ser repreendido na frente da Jennifer.

No escritório dos meus pais, eu já tinha arrumado meus livros e apostilas


minuciosamente. O meu vício em organização é um dos motivos pelo qual Mike me chama de
nerd. Ofereci à Jennifer uma poltrona e sentei do outro lado da mesa. Nenhum de nós falou nada
sobre o que tinha acabado de acontecer, e sem lhe dirigir outro olhar, comecei uma explicação
sobre as Leis de Mendel. Por adorar estudar genética, a tarde passou rapidamente para mim, e
quando percebemos, já havíamos estudado durante cinco horas, em vez das três obrigatórias.

Cansados e famintos, fomos até a cozinha e comemos os biscoitos caseiros que a Cibele
fizera, além de chocolate branco com cranberries, outro dos meus vícios.

— Vou voltar aqui só pra comer novamente esses biscoitos — ela afirmou
animadamente, sem perceber (ou simplesmente ignorando) o fato de que havia acabado de se
convidar para voltar à minha casa.

Depois de comermos, ela se despediu dos meus pais, e eu a acompanhei até a porta.
Quando voltei para a sala, vi dois pares de olhos me encarando.

— O quê? — perguntei, desconfiado.

— A sua amiga é simpática e bonita. — Conhecendo o meu pai, eu sabia que ele tinha
segundas intenções com aquele comentário.
— Ela não é minha amiga e não tente me jogar pra cima dela. Assim eu me sinto
encalhado — resmunguei, me jogando no sofá em frente a eles.

— Eu só falei que ela é bonita e simpática, acho que é você quem está pensando nisso —
ele afirmou com uma falsa cara de inocente enquanto arremessava uma almofada em mim, que
eu peguei no ar.

— Você não me engana, pai, eu sei que você quer me empurrar pra cima dela. E outra,
você só deveria ter olhos pra beleza da minha mãe.

— Você acha que eu olharia pra uma menina com um monumento desses em casa? —
perguntou, passando um braço pela cintura da minha mãe e enterrando o rosto em seu pescoço.

— Seja mais simpático com ela, Augusto. Aumentar um pouco o seu círculo de amizades
não vai te fazer mal.

— Mãe, o Mike já fala por dez, eu não preciso de mais ninguém, acredite em mim.

— Você foi grosseiro com ela de qualquer forma — ela rebateu, soterrando minha
esperança de que tivesse esquecido aquilo.

— Foi ela quem pediu com aquele comentário! — eu me defendi.

— Ela só te fez um elogio. Você não precisava falar daquele jeito.

— Tudo bem. Já entendi. — Eu sabia que não ganharia aquela discussão, pois minha mãe
nunca aceitaria que eu fosse grosseiro, por mais que a pessoa merecesse.

Depois do jantar, fiquei ouvindo música deitado na minha cama com Toddy enroladinho
sobre a minha barriga. A minha mãe reclamava se ele deitasse na cama, mas nunca disse que ele
não poderia me usar como colchão.

A música foi interrompida pelo alerta de mensagem. Eu esperava que fosse do Mike, mas
era da Jennifer.
“Obrigada pelo dia produtivo. Não imagina o quanto está me ajudando.”

Logo em seguida, recebi outra mensagem dela.

“Adorei os seus pais! E os seus bichinhos são tão fofos! Quer me dar?”

“Obrigado. Eles também adoraram você. E não, eu não estou doando a Sammy e o
Toddy. Nem agora nem nunca. Arranje os seus próprios animais.”

“Egoísta”. A resposta veio acompanhada de um emoji olhando atravessado e me fez rir.

“Te vejo amanhã às duas.”

“Até amanhã.”

Fiquei pensando na tarde que passamos juntos. Não queria admitir, mas a olhei vezes
demais enquanto ela estava distraída com os exercícios. Notei as pequenas sardas no nariz e que
ela morde os lábios ou a caneta quando está pensando. Também notei o longo pescoço quando
ela prendeu o cabelo com um lápis.

A ideia de perguntar se ela tinha namorado e de convidá-la para sair, caso ela não tivesse,
surgiu do nada e foi embora quando uma raiva familiar substituiu a euforia. Raiva dela por me
fazer desejar algo que eu não poderia ter e por me fazer sentir deslocado e desconfortável com
ela, ao mesmo tempo em me fazia contar as horas para vê-la novamente.
CAPÍTULO 7 – Objeto suspeito

O toque do interfone deixou a Sammy agitada e eu a entendi perfeitamente, já que


também ficava daquele modo quando recebíamos visitas. O sorriso radiante que recebi ao abrir a
porta fez meu coração saltar uma batida.

Expliquei que estudaríamos no conservatório porque a minha mãe estava usando o


escritório. Ofereci uma bebida. Fui gentil o quanto pude, e ela retribuiu a minha gentileza com
mais sorrisos radiantes. Após nos acomodarmos, pedi que ela lesse um capítulo do livro e em
seguida respondesse aos exercícios.

Aquela mania de morder a caneta enquanto lia sempre atraía o meu olhar. Ela estava
usando um batom claro e brilhante, que deixava os lábios cheios e convidativos. O gesto
distraído de passar a ponta da língua por eles me fez desejar fazer o mesmo.

— Oi, garotos. — A voz da minha mãe me causou um sobressalto, o que chamou sua
atenção. — Tudo bem, Augusto?

— Está — respondi, meio encabulado.

— Eu recebi um telefonema do hospital e preciso ir até lá resolver um problema, mas


você pode ficar à vontade, Jennifer.

— Agora?! — perguntei, ansioso.

— Na verdade, eu já estou atrasada — afirmou, já nos dando as costas.

— Mãe — chamei, me pondo de pé rapidamente. — Eu já volto, Jennifer.

— Diga, meu anjo — ela remexia tranquilamente na bolsa, como se não soubesse que
estava me matando ali.

— Não pode esperar o meu pai voltar?

Eu tinha plena noção do quanto era irracional me sentir intimidado por uma garota com
vinte centímetros e uns vinte e cinco quilos a menos do que eu, mas desde aquele maldito dia,
qualquer coisa que fugisse da minha rotina era capaz de me fazer ter um ataque de pânico.

— Não posso. Eu preciso estar lá o quanto antes. — Ela me pedia desculpas com os olhos
enquanto caminhava na minha direção. — A Jennifer é sua colega, não uma estranha. Aproveite
a oportunidade pra voltar a socializar. Você precisa disso. Agora vá estudar. — Beijou o meu
rosto e saiu, me deixando com o olhar pregado na porta da frente, sem acreditar que ela tinha
feito isso comigo.

Contive a vontade de pedir à Jennifer para ir embora e tentei racionalizar, como Mark me
dizia para fazer quando eu me sentia ansioso demais. Eu a conhecia e ela era delicada demais
para ser uma ameaça. Voltei ao conservatório com isso em mente.

— Você demorou. Está tudo bem?

— Está. Terminou? — Voltei a sentar do outro lado da mesa e mantive os olhos focados
em um livro qualquer.

— Terminei.

— Então leia o próximo capítulo enquanto eu corrijo seus exercícios. — Estendi uma
mão para pegar os papéis e acabei derrubando todos no chão.

— Deixe que eu pego, desastrado. Por que sua mão tá tremendo?

— Frio. — Coloquei as mãos nos bolsos enquanto ela recolhia os papéis.

— Sei... Você tem algum problema comigo? — questionou sem me encarar.

— Por que eu teria um problema com você, Jennifer? — Coloquei descaso na voz para
fazer aquilo soar como uma ideia ridícula.

— Eu não tenho a menor ideia, mas parece que você tem. Não é a primeira vez que eu

percebo que te deixo nervoso.

— Você é doida. Eu só... — Levei uma mão ao cabelo sem perceber, enquanto tentava
pensar em uma desculpa. — Eu só pensei que não seria bom pra sua reputação ficar sozinha
comigo.

— Reputação? — Ela me encarou. Uma sobrancelha se ergueu. — É brincadeira, né? De


que século você é, Augusto?

— XIX, como o personagem do livro de onde a minha mãe tirou o meu nome.

— Humm, então a culpa é de um livro. Eu queria mesmo saber por que você se chama
Augusto, e não August. Me conte sua história, senhor.

— O meu nome está em português porque a minha mãe ganhou um livro de uma amiga
brasileira viciada em romances quando fez treze anos. Aparentemente eu sou um maravilhoso
estudante de medicina que deixa Carolina de quatro.

— Eu posso entender Carolina. — Fui incapaz de impedir uma pequena risada com o
comentário antes de continuar meu relato.

— O nome do livro é A Moreninha. Ele não foi traduzido pro inglês, então a própria
Clara teve o trabalho de traduzir. Ela quis dar à minha mãe um presente significativo, assim
como acontece na própria história, já que estava voltando pro Brasil. A minha mãe guarda até
hoje com todo carinho.

— Que triste! Elas ainda têm contato?

— Tem. A Clara já nos visitou e nós fomos ao Brasil conhecer a filha dela quando ela
nasceu, há uns três ou quatro anos.
Meu olhar passou por acaso pela estante atrás da Jenny e um ponto preto por trás dos
DVDs chamou minha atenção.

— E os seus pais já com um filho de dezessete. Que diferença.

— Eles me encomendaram muito cedo — respondi voltando minha atenção para ela.

— Percebi. Quantos anos eles tinham?

— Dezesseis.

— Nossa! — exclamou com os olhos arregalados.

— É, eu sei, mas eu fui um bebê bonzinho. Acho que eu dou mais trabalho agora.

O som de sua risada preencheu o ambiente.

— Você é certinho demais pra dar trabalho aos pais, Augusto. — A insinuação de que a
minha vida era monótona, embora fosse verdadeira, me irritou.

— Você nem me conhece, garota! — exclamei, recolhendo os papéis que ela havia
colocado sobre a mesa, com a intenção de voltar ao trabalho.

— Facilmente solucionável. Quer provar que não é certinho? — Ao apoiar os cotovelos


sobre a mesa, a gola larga da blusa se afastou, deixando à mostra mais do que deveria, o que me

fez engolir em seco. — Vamos largar tudo agora e sair pra aproveitar o resto da tarde.

Eu não precisava sair para provar nada. A prova de que eu não era tão certinho assim
estava viva e começando a cutucar o zíper da minha bermuda por causa daquela visão.
Felizmente a mesa entre nós escondia o que estava acontecendo ali embaixo.

Seguindo a direção do meu olhar, ela percebeu o que estava expondo para mim e se
ajeitou rapidamente, me fazendo sorrir ao perceber quem era a certinha, afinal.

Não falamos nada nem nos olhamos por um momento, até que ela limpou a garganta e
continuou a conversa como se nada tivesse acontecido, me fazendo invejar sua capacidade de se

recuperar rapidamente de uma situação constrangedora.

— Seus pais sempre trabalham nos finais de semana? A minha mãe trabalha em alguns.
Por coincidência, ela também é médica.

— Não é tanta coincidência — falei depois que o sangue retornou ao cérebro. — O


Henry Clark é um colégio bem caro, então muitos alunos dele são filhos de médicos, advogados
e engenheiros. E, não, a minha mãe não trabalha fim de semana. Ela coordena um banco de
sangue e só vai lá fora do horário comercial quando acontece alguma coisa. O meu pai está
pedalando agora, não trabalhando. Ele dá aula no curso de direito da Universidade de Warwick e
também só trabalha de segunda a sexta.

Novamente encarei o pequeno ponto preto no móvel e a curiosidade para saber o que era
aquilo começou a me corroer. Jennifer perguntou o que eu tanto olhava e eu resolvi ir ver o que
era, porém antes de eu chegar lá, a porta da frente bateu com um estrondo e o meu pai gritou que
precisava da minha ajuda lá fora.
CAPÍTULO 8 – Um beijo da garota ruiva

A semana seguinte passou rapidamente. Os pesadelos me deram uma trégua e eu já


conseguia ter uma noite inteira de sono, o que deixou o meu humor e a minha aparência bem
melhores.

Depois daquele primeiro final de semana, as minhas aulas com a Jennifer deixaram de ser
uma tortura, e eu passei a apreciar o nosso tempo juntos. Ela ainda aproveitava qualquer
oportunidade pra me deixar constrangido, e às vezes eu queria matá-la, mas aí lembrava que
estava começando a gostar dela e mudava de ideia.

Mike dizia que estava rolando algo entre nós, e eu dizia que ele estava louco. Não era
como se eu pudesse dizer a ele que me inclinava deliberadamente sobre a cadeira da garota só
para sentir o cheiro do cabelo dela e que tinha vontade de colocá-lo atrás de sua orelha quando
ele caía sobre os olhos.

Ao lembrar de meu amigo, decidi perguntar se ele queria aparecer no domingo. Ele tinha
muitos amigos e certamente não sentiria a minha falta quando fosse para a faculdade. Eu, no
entanto, ficaria sozinho de novo e precisava aproveitar o tempo que tinha.

Peguei meu celular e digitei uma mensagem:

“Ei, cupido, o que você está aprontando?”

“De anjo, eu não tenho nada, nerd”

“Tem o cabelo.”

“E as meninas adoram se emaranhar neles.”


Revirei os olhos, porque eu não o via com outra menina além da Rox desde que ele caíra
de quatro por ela, e com certeza ela não se emaranhava em nenhuma parte dele, por mais que ele
quisesse isso.

“Sei...”

“Hoje eu tô tomando conta da pirralha enquanto meus pais dão uns pegas no cinema.”

“Lol, como você fala assim dos seus pais?!”

“Tá, o que vc acha que eles foram fazer no cinema?”

“Assistir um filme, talvez?”

“Cara, às vezes eu esqueço que vc é inocente.”

“Eu não sou inocente, vc que é depravado.”

“Eu não sou depravado, sou realista”. A mensagem veio acompanhada de um emoji
piscando os olhos e outra mensagem logo em seguida. “Amanhã vai rolar uma festa na casa do

Dylan, tá a fim de ir?”

Dylan era um sujeito do colégio que dava uma festa a cada oportunidade.

“Não, valeu.”

“Eu imaginei, nerd, por isso que nem me dei ao trabalho de te falar. Mas é provável que a
Jenny vá...”

Aquela informação me deixou balançado, mas a realidade logo se abateu sobre mim: eu e
festas não fazíamos uma boa combinação.

“O que ela faz não é da minha conta”

“É claro que não...” No meio da mensagem, ele colocou um emoji revirando os olhos.
“Mas o Dylan tá investindo nela. Não chore no meu ombro quando ele chegar primeiro.”
Saber que Dylan estava dando em cima de Jennifer fez meu estômago se contorcer.

“Eu espero que vocês se divirtam.”

“Qual é, Augusto, não vai ter maconha, não! Só algumas cervejas, nada de mais”

“O que você vai fazer no domingo?” Decidi ignorar seus argumentos e pude imaginá-lo
revirando os olhos para a minha recusa ao que ele chamava de “curtir a vida”.

“Nada, por quê? Vai me convidar pra sair? Vou logo avisando que eu sou difícil.”

“Não, mas você podia vir pra cá. Desde que seu pai nos deu férias, eu não tenho
oportunidade de te deixar para trás na piscina.”

Mike e eu costumávamos dar aulas de natação de graça para crianças em uma das
academias dos pais dele, mas nossas férias estavam durando mais, pois a piscina estava sendo
reformada.

“Vai sonhando, nerd! Eu é que vou te deixar pra trás! Te vejo depois do almoço. Tenho
que ir agora pq meu carma tá gritando que tá com fome.”

“Vá lá.”

Antes de dormir, fiquei me perguntando como Jennifer já tinha sido convidada para uma
festa se só estava no colégio há duas semanas. Mas eu deveria ter esperado por isso, visto que o
único que não babava por ela era eu – e o Mike, porque ele babava pela Rox. Ainda assim, fiquei
com raiva por aquele idiota dar em cima da minha pupila.

***

Estávamos na melhor parte de Total War quando o interfone tocou, fazendo meu pai
encerrar o jogo e deixar o meu quarto. Fiquei na janela observando a garota ruiva entrar e

estacionar perto da porta. Somente quando ela recolheu os livros e saiu do carro eu desci,
deixando Sammy presa lá porque não nos deixava estudar.

Parei no topo da escada e fiquei observando Jennifer conversar animadamente com a


minha mãe, que é bem mais alta do que ela. Ela usava um vestido florido com uma saia curta e
rodada. Deixei meus olhos percorrerem as pernas que ficavam escondidas no colégio. Por fim,
decidi descer antes de ser pego em flagrante secando a menina.

— Eu trouxe um presente pra você — ela falou logo que me viu e tirou da bolsa um
pacote de balas de gelatina e uma barra de chocolate branco com cranberries. Saber que ela
lembrava dos meus vícios me fez sorrir.

— Obrigado, Jennifer.

— Você pode me chamar de Jenny, se quiser.

— Certo — respondi, sem conseguir evitar outro sorriso.

— Você deveria sorrir mais, Augusto. Fica ainda mais bonito assim. — Aquilo me fez
corar. Uma maldição dos tímidos.

Ao encarar a minha mãe, notei que sua cabeça estava pendendo levemente para a direita,

um sinal de que ela estava tendo dificuldade em acreditar que eu estava interagindo com alguém
além de Mike. Com vergonha demais para dizer qualquer coisa a ela, apenas acenei com a
cabeça e praticamente arrastei Jenny até o escritório.

A tarde passou tranquilamente enquanto eu lhe ensinava como calcular probabilidades


genéticas. Conseguimos acabar cedo, e eu a convidei para um lanche no jardim antes de ir
embora. Era a nossa última aula particular e, consequentemente, a última vez que ela iria à minha
casa.

— Eu vou sentir falta do verão — resmungou, elevando o rosto para o céu, de olhos
fechados.

Seu corpo pequeno e magro estava esticado em uma espreguiçadeira, e seu cabelo

formava uma cascata ao redor do rosto, cada onda brilhava sob os raios do sol, realçando a cor
naturalmente alaranjada. Os lábios também pareciam mais brilhantes e exibiam um sorriso
discreto. O vestido havia subido um pouco, revelando mais um pedaço das pernas bem-
torneadas, além de ter aderido mais ao busto, contornando as curvas e me fazendo imaginar a
perfeição que ela escondia ali embaixo. Desejei capturar aquela pose e emoldurar para poder

admirá-la todos os dias. Desviei o olhar e suspirei pesadamente antes de tentar me concentrar na
conversa.

— Se você, que é inglesa, vai sentir falta, imagine eu, que vim da Califórnia.

— Por que vocês deixaram um paraíso ensolarado pelo clima da Inglaterra?

— Meus pais quiseram vir. Eu sou só o pau-mandado. — Não era exatamente verdade,
mas era o que eu estava disposto a dizer. Percebendo que ela estava me fitando, a fitei de volta e
indaguei: — O que foi?

— Você não gosta de falar de si mesmo, né?

— Eu não tenho o que falar. — Voltei a encarar o imenso gramado e ficamos em um


agradável silêncio, que não durou muito.

— Me bateu uma curiosidade. — Achando que seria sobre a minha vida nos Estados
Unidos, ocupei a boca com suco, na esperança de que ela entendesse que eu não queria falar
sobre aquele assunto. — Qual seria a cor dos olhos de um filho nosso?

O suco desceu queimando a minha garganta, me fazendo engasgar. Aparentemente as


pessoas gostavam de me fazer perguntas escabrosas quando eu estava bebendo algo.

— Você tem noção do quanto a sua pergunta é... íntima? — murmurei após superar a

tosse, fazendo-a gargalhar como se eu fosse o louco, e não ela.


— Isso não foi uma proposta indecente. Eu ainda estou pensando em probabilidades
genéticas e fiquei curiosa pra saber o que daria misturando olhos azuis e verdes, já que falamos
em olhos azuis e escuros, mas não nos verdes.

— Eu não sei. Olhos verdes são uma mutação dos castanhos, então acho que não dá pra
prever muito.

— E a cor do cabelo?

— Digo o mesmo. Cabelo ruivo também é uma mutação. Você é uma mutante, Jenny. —
“Uma mutante linda, sem dúvida, mas ainda assim uma mutante”. Não pude evitar sorrir com o
pensamento idiota.

— Obrigada pelo elogio. — Ela me olhou com os olhos semicerrados por ter sido
chamada de mutante. — E desculpe pelas perguntas. É que eu estou preocupada com a prova de
biologia. Essa vai ser mais difícil do que a primeira.

— Não se preocupe. Você vai se sair bem porque foi preparada pelo melhor. — Apontei

para mim mesmo, sabendo que receberia uma resposta afiada, mas ela decidiu ser boazinha e só
me chamou de convencido.

Com um sorriso no rosto, fiquei de pé e estendi uma mão para ela após convidá-la para
dar uma volta pelo jardim. A mão que pousou na minha era pequena e macia. Seus dedos finos
exibiam unhas compridas pintadas de rosa claro. Movido pelas sensações, os acariciei com o
polegar. Ela não se esquivou do toque, mas tinha uma expressão divertida no rosto quando ergui
os olhos. Com um sorriso constrangido, soltei sua mão.

— Eu vou buscar a Sammy e o Toddy e já volto. — Aquela foi uma boa desculpa para
conseguir uns minutos a sós e acalmar meus impulsos.

Ao passar novamente pelo conservatório, me lembrei do aparelho que vi no outro dia e


fui até a estante descobrir o que era. Tirei tudo o que estava lá, mas não vi nada diferente.
“Estranho, eu jurava que tinha alguma coisa ali.”

***

Abri a porta do meu quarto, e Sammy saltou nos meus braços como se estivesse presa há
anos.

— Calma, menina, olha o coração, você não quer ter um infarto.

Descemos juntos para procurar Toddy, e Sammy o encontrou em um sono profundo sobre
uma cadeira da mesa de jantar. Eu o peguei no colo e acariciei sua barriga gorda, ganhando
muitos resmungos enquanto ele se espreguiçava.

— Sammy, diga oi à Jenny. — Ela sentou e estendeu uma patinha, que Jenny pegou
como um aperto de mão.

— Sammy, você é tão fofa! — exclamou fazendo carinho nas orelhas da minha pequena.
— Eles parecem seus filhos, Augusto. Todos têm o cabelo preto do pai.

— Nunca tinha pensado nisso.

— Posso carregar o Toddy? Ele é tão macio, dá vontade de apertar.

— Claro.

Passei o preguiçoso para ela, que o carregou como se fosse um bebê, dando nele um
abraço que me lembrou a Felícia — a menina do desenho que dá um abraço quase mortal no
coelhinho. Senti pena do coitado e fiquei atento, pois teria de intervir se ele esbugalhasse os
olhos.

— Eu tive um gatinho quando era criança, mas ele fugiu e eu chorei por semanas, então
os meus pais nunca me deixaram ter outro.

— Isso é maldade. Eu acho que não saberia mais viver sem animais por perto.

Após cinco minutos, Toddy saltou do colo dela e Sammy o perseguiu até ambos sumirem
de vista.

Caminhamos devagar e passamos pela piscina, pela academia, pelas macieiras carregadas

de frutas e paramos para colher e comer amoras. De vez em quando, meus pets passavam
correndo por nós, e Jenny gargalhou ao ver que agora era Toddy quem perseguia Sammy e ficou
espantada ao ver o quanto um cachorro podia gostar de comer amoras.

Eu contei a ela que ganhei Sammy de presente no meu aniversário de quatorze anos. Ela
tinha três anos, e os meus pais a recolheram de um abrigo para animais que eles ajudavam a
manter. E que eu tinha achado Toddy no portão de casa há alguns meses, sujo e muito magro.
Como ninguém apareceu depois que espalhamos cartazes, ficamos com ele.

Por último, eu mostrei a ela meu lugar preferido, um amplo pergolado de madeira

rodeado por cortinas brancas, com o teto coberto por parreiras que protegiam do sol e da chuva
fina, e orquídeas presas em treliças atrás de um sofá marrom de vime. No centro, uma mesinha e
um largo colchonete rodeado por almofadas completavam o ambiente.

— Que lugar lindo, Augusto! — Ela olhava ao redor, maravilhada. — É tão agradável.

— Eu montei junto com o James, o jardineiro.

— Vocês têm bom gosto. Toda a sua casa é linda — elogiou após sentar no sofá, ainda
admirando o ambiente.

— Obrigado. — Sentei ao seu lado, mantendo certa distância entre nós. — Eu passo
muito tempo em casa, então quis ter um lugar agradável pra ficar.

— Por que você fica tanto em casa? — ela indagou, me fazendo perceber que tinha
falado demais.

— Sei lá. Acho que sou caseiro mesmo. — Dei de ombros como se aquilo não tivesse

importância.

— Não é possível. Você não gosta de fazer nada?! Ir ao cinema, patinar no gelo, jogar
boliche, qualquer coisa?!

Seu espanto foi um lembrete do quanto as pessoas me achavam esquisito. Vindo de


outras pessoas, aquilo não me incomodava mais, mas, por algum motivo, vindo dela me
incomodou. A sensação piorou ao lembrar de Mike falando sobre a festa de Dylan. Naquela
mesma noite, ela estaria em uma festa rodeada por gente normal.

— Não faço questão. — Com esforço, mantive neutralidade na voz, não deixando
transparecer o quanto sua reação me machucou.

Ela ficou em silêncio, e eu estava prestes a dizer que ela poderia ir embora, se quisesse,
mas ela começou a falar de si mesma, das coisas que aprontou na infância com as amigas e das

regras que quebrou no antigo colégio. Rimos como hienas de piadas idiotas e por mais incrível
que fosse, eu me diverti tanto com ela, que não percebi que já havia anoitecido.

Durante a conversa, acabamos nos aproximando, tanto emocional quanto fisicamente, e


quando eu notei, ela estava a poucos centímetros de mim, e eu podia sentir o cheiro cítrico do seu
perfume.

— Essa última semana me fez gostar bastante de você.

— Eu também gosto de você. Quero dizer, eu gostei das nossas aulas — emendei
rapidamente.

— Posso te pedir uma coisa? — A expectativa fez meu coração martelar contra as
costelas. Em pouco tempo, eu pensei mil coisas, inclusive se o pedido seria um beijo.
Ela se aproximou ainda mais, me fazendo querer avançar os últimos centímetros, já não
aguentando mais ter de controlar a vontade de tocar meus lábios nos dela.

— Claro.

— Você é bom em química? Eu preciso de ajuda nisso também — explicou.

A água do balde estava mais para gelada do que fria. Eu me senti um completo idiota por

pensar que ela queria outra coisa e fiquei envergonhado pela possibilidade de ela estar rindo de
mim internamente. Abaixei a cabeça para esconder a mágoa e fiz o possível para disfarçar a
decepção na voz antes de responder:

— Eu posso te ajudar em química também. Sem problemas.

Quando voltei a erguer o rosto, ela acabou com a distância de míseros centímetros entre
nós e me beijou.
CAPÍTULO 9 – A realidade bate à porta

Eu congelei quando os seus lábios tocaram os meus.

Não sabia exatamente o que pensar depois de tudo. Ela estaria me usando ou não? A
única coisa que eu sabia era que ela fazia o meu coração disparar de forma agradável, como

quando eu estava na borda da piscina prestes a alcançar algo altamente desejável, e eu não queria
que aquela sensação acabasse, então resolvi mandar os pensamentos para o inferno e
corresponder ao beijo da garota ruiva.

Finalmente pude sentir aqueles lábios que eu desejava há dias e confirmar que eles eram
quentes e macios, um convite irrecusável a uma exploração profunda.

Não começamos com suavidade. Ela me beijava com a intensidade de quem ansiava
avidamente por isso e comigo não era diferente. Quanto mais minha língua explorava a sua boca,
mais fome eu tinha dela. Apoiei uma mão em suas costas e senti o calor da sua pele através do
tecido fino do vestido. Sua mão na minha nuca, massageando sob o cabelo, enquanto minha boca
devorava a sua, fazia a minha pele formigar, ansiando por mais dos seus toques. Eu a puxei mais
para perto e aspirei seu perfume, ficando inebriado. Suas mãos pequenas acariciavam as minhas

costas e braços, uma delas sempre voltando ao meu cabelo. Permiti que minhas mãos
deslizassem suavemente até sua cintura, sentindo a delicadeza daquele corpo, e que minha boca
traçasse uma linha de beijos até seu pescoço, arrancando dela suspiros que me deixaram
extasiado. Não havia nada no meu mundo além dela.

No calor do momento, seu toque ficou mais ousado, com uma mão subindo pela minha
perna e parando a poucos centímetros de onde meu desejo por ela começava a se manifestar,
enquanto a outra se fechou em meu cabelo em um aperto de ferro, quebrando todo o encanto. O
êxtase se converteu em angústia quando uma sensação claustrofóbica começou a se apossar do

meu corpo e, antes que o desespero tomasse conta e eu me visse mais uma vez humilhado,
segurei suas mãos e as afastei de mim.

— Vai com calma aí, está me machucando. — Havia confusão estampada em seus olhos.

— Desculpe. — Levantei do sofá e caminhei até uma das colunas do pergolado. De


costas para ela, avisei que era hora de ir embora.

O calor da sua mão apoiada em minhas costas me fez dar um passo para longe.

— Eu fiz alguma coisa errada?

— Não — respondi, olhando algo inexistente no meu tênis só para não precisar encará-la.
— É que está ficando tarde e é melhor você ir pra casa.

— Por que você não me diz o que aconteceu?

— Porque eu não tenho nada pra falar.

— Sério? — Seu tom de voz demonstrava certa mágoa e, após um longo silêncio, ela
concordou em ir embora.

Seu sorriso enquanto se despedia dos meus pais não deixou transparecer que havia algo
errado. Eu, no entanto, fui barrado no caminho até o meu quarto.

— O que aconteceu?

— Nada — afirmei desviando o olhar. Não convencida, a minha mãe me arrastou até o
sofá.

— Você estava feliz mais cedo, por que está triste agora?

Permaneci calado enquanto pensava em uma desculpa, mas por fim resolvi dizer a
verdade:
— Ela me beijou — confessei, olhando fixamente para a barra da minha camiseta e
relembrando o que tinha acontecido.

— E isso é ruim? — Pela dor na garganta, eu sabia que a minha voz estaria embargada,
então permaneci calado.

— Não podemos te ajudar se você não disser qual é o problema, Augusto — meu pai
afirmou.

— Ninguém pode me ajudar — murmurei sentindo a raiva se sobressair à tristeza.

— Quem sabe? O que aconteceu? — ele insistiu.

— Aconteceu que eu mandei ela ir embora porque o toque dela me incomodou, mesmo
eu querendo isso! — gritei, descontando neles a raiva que sentia de mim mesmo.

— Você só não está acostumado a ter tanto contato com alguém, meu anjo. — Minha
mãe acariciava o meu cabelo enquanto me dizia que aquela fase iria passar.

— Pare de tentar me convencer disso, mãe! — Eu me ergui do sofá, me afastando dela.

— Se você não acreditar que consegue, como vai superar o que aconteceu?

— E quem disse que eu vou superar algum dia?! Pare de me fazer ter esperança em algo
que não vai acontecer!

— Augusto, você conversou com o Mark sobre a Jennifer?

— E o que ele vai fazer sobre isso, pai? Beijar a garota por mim?! Talvez vocês todos
possam viver a minha vida por mim!

— Você só tem dezessete anos, Guto. Sua vida não vai ser assim pra sempre.

Eu queria acreditar naquilo, mas tudo o que acontecia me fazia duvidar de que um dia eu
seria capaz de voltar a viver. Eu já havia perdido dois anos da minha vida, e a tristeza dentro de
mim aumentava a cada dia. Eu me sentia preso na minha própria pele, sem saber como escapar

de mim mesmo.

— Eu vou subir.

— Augusto...

— Deixa, Nathalie. Ele precisa de um tempo sozinho.

Na privacidade do meu quarto, pude permitir que as lágrimas escapassem. Não sabia o

que fazer com tantos sentimentos conflitantes.

Às quatro da manhã, eu ainda me encontrava deitado na chaise, com a cabeça escorada


no vidro gelado da janela, pensando no que poderia dizer à Jennifer para explicar minha atitude
sem me expor. A minha mãe havia substituído a poltrona simples pela chaise depois de me
encontrar adormecido naquela posição por várias vezes nas minhas frequentes noites insones.
CAPÍTULO 10 – Uma tarde com um amigo

Uma batida na porta me fez começar a despertar e, ao abrir os olhos, dei de cara com o
Michael me olhando com o cenho franzido.

— Cara, você dormiu aí?

Depois de olhar para ele por uns bons segundos, tentando me situar no tempo e no
espaço, finalmente lembrei de tê-lo convidado para um desafio. Sentei e segurei a cabeça, que
parecia estar sendo martelada.

— Você tá bem, Augusto? Tá parecendo com a morte!

— E você já viu a morte, por acaso?

— Não, mas com certeza você tá igual a ela hoje.

Caminhei tropegamente até o banheiro e tive de concordar com ele ao ver meu reflexo no
espelho. Eu realmente parecia com a morte, com aquelas olheiras imensas.

Peguei um analgésico no armário e tomei com bastante água. Parecia que eu tinha
dormido no Saara, tamanha era a minha sede. Após tomar banho, escovar os dentes e pentear o
cabelo, me senti um pouco mais gente e voltei ao quarto, onde encontrei o Mike esparramado na
minha cama ouvindo música no meu iPod.

— Você gosta mesmo de Coldplay, né?

— É. Quer tomar café?

— Cara, você sabe que horas são?! — “Cara” era o meu segundo nome para Mike.

— Não tenho a menor ideia.


Peguei meu celular para ver as horas, claro que teria sido mais prático olhar para o
relógio na mesinha, mas eu tinha esperança de encontrar uma mensagem da Jenny.

— Por que você tava dormindo duas da tarde?

— Tive insônia.

— Por quê?

— Não sei. E quer parar de me interrogar?! — exasperei e me joguei na chaise, gemendo

ao sentir outra pontada na cabeça. A visão da piscina lá embaixo me fez gemer mais alto. —
Mike, eu esqueci de ligar o aquecedor da piscina ontem.

— Esqueceu, sei. Você tava era com medo de perder pra mim.

— Eu nunca perdi pra você.

— Sorte. Você tem muita sorte. Vamos pegar alguma coisa pra comer, pra ver se melhora
essa sua cara feia. — Se ele soubesse que tudo o que eu não tenho é sorte...

Fomos até a cozinha e preparamos três sanduíches de salmão, um para mim e dois para
ele. Isso porque ele já tinha almoçado...

— Sério, eu juro que não sei como você não é gordo. — A ferocidade com a qual ele
comia sempre me espantava.

— Como você acha que eu poderia manter um metro e noventa de pura gostosura se não
comesse bastante? E eu malho muito, mano, não sou preguiçoso como você — falou, me dando
um soco no braço.

— Eu não sou preguiçoso, só não sou rato de academia.

— Eu sei. Você é rato de biblioteca.

Após comermos, nos jogamos nas espreguiçadeiras. O assovio emitido por ele, alguns
minutos depois, me disse exatamente o que ele estava vendo.

— Ei, meninos. Já almoçaram? — Embora a pergunta verbalizada fosse sobre o almoço,

com os olhos ela perguntava se eu estava bem.

— Já, Dra. Lewis — Mike respondeu com um sorriso bobo na cara. Depois nós três
trocamos mais algumas palavras, e ela entrou na casa.

— Cara, a sua mãe é muito gata. Com roupa de ginástica coladinha então, tá uma deusa!
— O sorriso de orelha a orelha enquanto secava a minha mãe fez meu sangue fervilhar.

— Michael, é da minha mãe que você tá falando! E ela é casada, você sabe, com o meu
pai! — gritei com ele e o fuzilei com o olhar.

— Mas olhar não tira pedaço, e eu não tenho culpa se ela parece mais sua irmã do que
sua mãe — falou com cara de inocente.

— Idiota.

— Que você adora. — Ele voltou a deitar na espreguiçadeira e continuou me zoando. —


E ela é tão alta... — Eu tinha dúvidas se ele falava essas coisas só para me sacanear ou se tinha
mesmo uma paixão platônica pela minha mãe.

— A Rox é mais alta do que ela.

— Lá vem você de novo com isso — ele suspirou e fechou os olhos, tentando me ignorar.

— Por que você não admite que está a fim dela?

— Porque eu não tô!

— Pare de mentir pra mim, eu te conheço!

Ele ignorou o meu comentário e foi sentar na borda da piscina, com os pés dentro da água
gelada.
Eu conhecia Mike e Rox há dois anos. Ele decidiu que seria meu amigo poucos dias
depois que eu cheguei ao colégio, não me deixando alternativa a não ser aceitar. Logo depois, fui
obrigado a aceitar Rox também, já que eles vinham num pacote só. Naquela época, ele ainda não
estava apaixonado por ela, mas o sentimento mudou. Eu não sabia quando, mas tinha certeza que
havia mudado.

Sentei ao lado dele e coloquei as pernas na água gelada também, apesar de odiar água
fria.

— Por que você está fugindo do que sente por ela?

— Você não vai desistir, né?

— Não mesmo.

Ele suspirou e começou a movimentar as pernas, fazendo espirrar água para os lados, e
Sammy, que estava deitada na sombra debaixo da mesa, fugiu porque sempre odiou água, fria ou
quente.

— Eu já te contei como a conheci?

— Eu sei que vocês estudam juntos há muito tempo.

— Nos conhecemos aos cinco anos, quando ela me empurrou do balanço porque queria
brincar nele. Eu fiquei com medo dela naquela época porque ela já alta e gordinha, enquanto eu
era magricela e baixinho.

— Não consigo te imaginar magricela e baixinho.

— Se eu não tivesse fotos, também não acreditaria em mim. Só sei que apesar de ela só
ter me batido naquela vez, eu só consegui superar o trauma quando fiquei maior do que ela, lá
pelos onze. — Ele pausou e franziu o cenho. — Eu deveria ter me vingado dela, em vez disso,
ficamos inseparáveis quando mudamos de colégio.
— Perdeu a chance. Vai ser preso se quiser se vingar agora.

— Droga, a gente perde cada oportunidade na vida.

— Você está me enrolando? — Estreitei os olhos para ele.

— Talvez — ele disse, desanimado, antes de admitir que duvidava que ela sentisse a
mesma coisa que ele.

— Você só vai saber perguntando. — Ele me olhou atravessado, e eu percebi o quanto

aquilo soou estúpido. — Tudo bem, não precisa perguntar, mas você pode demonstrar o que
sente.

— E correr o risco de perder a amizade? Não sei se vale a pena.

— Se você não for explícito, ela não vai ter por que terminar a amizade, caso não queira
o mesmo que você.

— Eu prefiro deixar quieto por enquanto.

— Até outro cara conseguir o que você quer?

— Como você tá fazendo com a Jenny? — Eu não podia dizer a ele o que tinha
acontecido entre mim e a Jenny sem explicar todo o resto, então respondi a pergunta com outra
sobre a festa, apesar do medo de saber a resposta.

Minha cara de alívio ao saber que Jenny não fora me fez ganhar um olhar travesso. Pelo
menos eu achei que era esse o motivo do olhar. Quando percebi meu engano, eu já estava
afundando na água gelada.

— Eu vou te matar, Michael! — gritei ao emergir.

Ele rolava de rir na borda da piscina enquanto eu tremia de frio ao sair da água e me
olhou desconfiado quando passei por ele, mas segui direto até as espreguiçadeiras com cara de

poucos amigos, fazendo com que ele seguisse atrás de mim.


— Ei, cara, você tá bravo? Foi só uma brincadeira. — Ele tocou no meu ombro, e foi a
hora certa de dar o bote.

Com um empurrão que o pegou de surpresa, o joguei na água. Ele arfou quando sentiu o
quanto ela estava fria. Era a minha vez de rir, e eu aproveitei ao máximo antes de tomar coragem
e cair novamente.

Acabamos nos acostumando à temperatura e, depois de alguns minutos tentando afogar


um ao outro, apostamos quem nadava mais rápido. Obviamente eu ganhei, pois ele podia ter
quase dez centímetros a mais do que eu, mas não era páreo para mim dentro d’água.
CAPÍTULO 11 – Jennifer – Exigindo explicações

Meus polegares pairavam acima do teclado do celular pela milésima vez e, também pela
milésima vez, eu desisti de digitar uma mensagem. Arremessei o aparelho na cama, irritada por
me sentir tão ansiosa por causa de um cara. Aquilo não combinava comigo. A única coisa que
me impedia de odiar Augusto era a conversa que Mike teve comigo na primeira semana de aula,
quando eu já estava a ponto de explodir com a grosseria dele.

— Dê mais um tempo a ele, Jenny. Ele é um pouco mal-educado no começo porque não
se sente à vontade, mas quando te conhecer melhor...

— Um pouco?!

— Ok, ele é um animal às vezes, mas ele vai se acostumar com você.

— E por que eu deveria suportar a grosseria dele quando posso mandar ele se ferrar e
conseguir um tutor mais simpático?

— Porque eu tô te pedindo ajuda pra ajudar um amigo. E eu sei que você pode me
ajudar porque ele gosta de você.

— Você tá viajando, Mike. O garoto me detesta!

— Se isso fosse verdade, ele faria do seu tempo juntos um inferno tão grande, que você
iria preferir não fazer faculdade do que conviver com ele.

— Você tá pedindo demais. Ele é insuportável!

— Ele precisa de pessoas que deem uma chance para ele mostrar quem é de verdade.

Aquela foi a única vez em que vi Mike sério. Depois daquela conversa, resolvi dar mais
uns dias ao Augusto e descobri que Mike tinha razão. Escondido sob a fachada fria e mal-

humorada havia um garoto que era educado e gentil quando queria. Ao baixar a guarda, ele
também deixou evidente o quanto era solitário e inseguro, algo que certamente Mike também
percebia.

Foi aquela insegurança que me fez decidir dar a ele o domingo para pensar e me procurar
quando estivesse pronto para falar. Para tirá-lo dos pensamentos, resolvi estudar mais um pouco
para a prova de biologia, mas, em poucos minutos, todos os cálculos de probabilidade giravam

em torno de alguém de 1,80m de altura, que ostentava cabelos incrivelmente pretos e corava
diante de qualquer provocação, ficando ainda mais lindo. Desistindo de tentar estudar, enviei
uma mensagem para Rox.

Após tomar um banho e me vestir de maneira casual, procurei o meu pai para avisar que
estava saindo.

— Pai?

— No jardim! — ele respondeu, e eu o encontrei esparramado em uma espreguiçadeira


sobre o gramado.

— Eu vou sair. Você vai ficar bem até a minha mãe voltar ou vai ficar solitário?

— Você vai ficar em casa se eu disser que vou ficar solitário?

— Não, mas vou te convidar pra fazer compras em Birmingham comigo e uma amiga.

— Acho que eu vou passar. Eu posso saber quem é o garoto que está te fazendo olhar o
celular a cada segundo? — Eu não havia percebido que estava fazendo aquilo, mas é claro que
ele perceberia. Ele não seria ele se não percebesse essas coisas.

— O único cara na minha vida é você, pai. — Eu me despedi com um beijo em sua testa
e saí correndo antes de gritar: — Por enquanto!
Deixei o jardim ao som da risada dele e dirigi até a casa de Rox. Juntas, nos divertimos o
suficiente para eu esquecer temporariamente as probabilidades genéticas.

***

Cheguei cedo ao laboratório de biologia e sentei na bancada que dividia com o Augusto

desde que o senhor Prior nos tornou uma dupla. Ele só entrou quando o sinal tocou, sentou ao
meu lado e me cumprimentou timidamente, parecendo tão desconfortável comigo quanto esteve
no dia em que nos conhecemos. Era como se aquelas duas semanas de entrosamento não
tivessem existido.

Por causa da prova, eu não pude falar com ele, e quando acabei, ele já havia saído da sala.
Na aula seguinte, ele fez o mesmo, não me dando nenhuma chance de abrir a boca. Eu sabia que
havia alguma coisa por trás da reação dele quando nos beijamos e por isso estava disposta a

ouvir uma explicação, mas me evitar daquele jeito estava acabando com a minha paciência.

— Está tendo um dia ruim, Jenny?

— Não. Está tudo bem.

— Por que será que o Augusto não esperou a gente hoje? — Hilary perguntou enquanto
guardávamos nossos livros nos armários.

— Quem sabe? Ele não é a pessoa mais racional do mundo. — Meu comentário a fez rir.

— Eu gosto desse ar misterioso dele. É sexy.

— O Greg sabe que você acha o Augusto sexy? — perguntei de forma mais áspera do que
pretendia.

— Ele sabe que eu não sou cega, e eu sei que ele também não é. Contanto que a gente
não pegue ninguém, tá tudo certo — afirmou, sacudindo os ombros.

Aquela forma de pensar me surpreendeu, pois eu não ficaria feliz se o meu namorado

olhasse outra, assim como eu não tinha olhos para mais ninguém quando estava namorando.

Já estávamos na mesa com Greg e Rox quando finalmente vimos Mike entrar no
refeitório seguido por Augusto, que parecia tenso. Depois de pegar suas bandejas, eles
caminharam até a nossa mesa, e Augusto escolheu a cadeira mais distante de mim.

— Onde vocês se meteram? — Rox tirou as palavras da minha boca.

— Por aí. — As respostas de Mike eram sempre sucintas enquanto comia.

— Acha que foi bem? — Rox perguntou, retomando nossa conversa sobre minha prova.

— Muito bem! Eu tive um bom instrutor. — Apesar de ter sido mencionado, Augusto
não esboçou nenhuma reação. — Agora eu preciso me recuperar em química.

— O Augusto pode te ajudar. Ele só tira notas boas em química. — Mike conseguiu
liberar a boca por tempo suficiente para falar e ganhou um olhar reprovador do garoto em
questão. Aparentemente a decisão de me ajudar em química havia sido revogada, o que acabou
de vez com a minha paciência.

— Podemos conversar em particular, Augusto?

— Desculpe, mas eu tenho que ir à biblioteca antes da próxima aula. — Ele abandonou a
comida e se pôs de pé, rapidamente colocando nos bolsos o celular e carteira, sem me dirigir um
único olhar.

O desprezo dele fez meus olhos arderem com os primeiros vestígios de lágrimas. Pisquei
para afastá-las e deixei a raiva assumir o lugar da mágoa.

— Eu posso falar aqui mesmo, se você preferir — falei de maneira rude, apesar de estar
ciente dos quatro pares de olhos se revezando entre nós.
Ele corou violentamente e, enfim, levantou os olhos para mim. O que eu vi neles foi uma
mistura de raiva e vergonha. Com um aceno de cabeça, ele deixou o refeitório sem dizer uma
palavra e chegou ao jardim em tempo recorde, como se tivesse muita pressa em acabar com
aquilo.
CAPÍTULO 12 – Pior do que está, pode ficar!

Eu maldizia Mike na minha cabeça enquanto caminhava a passos largos até o jardim,
seguido pela garota ruiva, que parecia irritada. Eu sabia que não deveria ir ao refeitório e
pretendia ficar na biblioteca até acabar o horário de almoço, mas é claro que Mike não permitiu,
pois ele nunca aceitou um não como resposta, pelo menos não um vindo de mim. Eu deveria ter
imposto a minha vontade e me recusado a ir e ponto final, mas não o fiz e acabei ali, sendo
obrigado a ter uma conversa que eu não queria. Apesar de ter pensado durante toda a noite, eu
ainda não sabia que explicação dar à garota ruiva.

— Aqui está bom, Augusto. Não precisamos dar a volta ao mundo pra ter uma conversa.

— Eu quero estar o mais distante possível de outras pessoas caso você queira me
envergonhar de novo! Agora certamente estão todos fofocando sobre nós!

— Não era a minha intenção te envergonhar.

— Sério?! Eu podia jurar que era exatamente isso que você queria fazer!

— Pois pensou errado. A única coisa que eu queria era conversar com você, e foi você
quem me obrigou a agir dessa maneira quando ficou fugindo de mim a manhã inteira. — Embora
mantivesse a voz neutra, uma centelha de raiva brilhava em seu olhar.

— Eu pensei que você pegaria a dica de que eu não queria conversar e me deixaria em
paz!

— Por que você tá falando assim comigo? — Eu podia lidar com a raiva, mas a mágoa
perceptível em sua voz me desconcertou, me fazendo abrandar o tom.

— Porque eu odeio quando alguém me obriga a fazer algo que eu não quero.
— O que você não queria? Que eu te beijasse? Porque pra mim parecia que você estava
pedindo por isso! — A centelha de raiva cresceu até se tornar uma labareda que deixou todo o
seu rosto corado.

— Não é disso que eu estou falando — expliquei, desviando o olhar. — É dessa


conversa. Eu não vejo motivo pra ter que passar por isso. Não podemos só... esquecer o que
aconteceu? — O meu pedido a fez me olhar como se não me reconhecesse.

— Eu te obriguei a ter essa conversa porque merecia uma explicação depois de ter
passado o domingo inteiro tentando entender o que eu fiz de errado. — Ela inspirou o ar
profundamente e fitou o chão, cutucando a grama com o pé antes de continuar: — Mas não se
preocupe, porque eu não quero mais explicação nenhuma. Eu já entendi que o que aconteceu não
significou nada pra você, então eu não vou mais te incomodar. — Quando ela levantou o rosto,
eu me surpreendi com o brilho de lágrimas não derramadas. — Você só precisava me dizer que
era isso o que queria. Não precisava fugir de mim como o diabo foge da cruz. — Após dizer isso,
ela virou as costas e foi embora.

Fiquei olhando o caminho por onde ela desaparecera. Geralmente afastar as pessoas me
trazia paz, mas ao afastar a garota ruiva tudo o que eu senti foi um grande vazio.

***

As semanas seguintes foram de mal a pior. O clima era pesado durante o almoço devido à
tensão entre mim e a Jennifer. Para completar, a cada semana ela se aproximava mais de Dylan e,
por vezes, almoçava com ele e outros amigos. Ainda éramos parceiros nas aulas de biologia
porque não tínhamos uma desculpa plausível para dar ao senhor Prior. Eu me sentia ainda pior a
cada vez que escutava o tom gélido dela quando precisávamos nos falar durante as aulas.
Preocupados com a minha apatia, os meus pais não paravam de me fazer perguntas, e isso
me irritava. Mark também estava me pressionando, mas eu me recusava a voltar a fazer terapia
de exposição. Resumindo: a minha vida estava uma porcaria com P maiúsculo. A única coisa boa
era ter voltado ao trabalho com o senhor Prior, o que mantinha a minha mente ocupada duas
vezes por semana.

Desci para jantar apenas por obrigação e me arrependi logo em seguida, pois vi minha
mãe saindo do escritório com os olhos faiscando de raiva.

— O que você fez hoje? — Eu não sabia o que tinha feito de errado, mas ela certamente
sabia.

— Fui pro colégio e voltei pra casa...

— Já que você não teve nada excepcional pra fazer hoje, eu posso saber por que não foi à
terapia? — A voz branda era sinal de que logo viria a tempestade, mas a raiva de saber que fui
dedurado superou o medo que eu tinha da raiva dela.

— Mark ligou pra você? Onde está o meu direito a uma consulta sigilosa?!

— Não existe direito a sigilo se nem houve consulta, Augusto! O que você estava
pensando?!

— Que eu não queria ir! Por que vocês não respeitam a minha privacidade?!

— Porque você ainda é menor de idade! Se você não vai à consulta é obrigação do Mark
nos avisar, assim como é obrigação da sua diretora nos avisar se você faltar aula! — ela gritou e
depois inspirou profundamente, como se tentasse se acalmar. Ao ouvir a gritaria na sala, o meu
pai desceu as escadas e parou nos últimos degraus, de onde ficou nos observando sem se
envolver na discussão. — Eu estou há dias tentando conversar com você, e você se esquivando,
então eu vou assumir que você é simplesmente um adolescente irresponsável e agir como a mãe
de um. Você vai ver o Mark amanhã nem que eu tenha que te arrastar até lá e ficar na sala com
você.

O olhar dela não deixava dúvidas de que ela faria exatamente aquilo caso eu não fosse

por conta própria. Fazia mais de um ano que eu ultrapassara em alguns centímetros a sua altura,
mas os seus olhos, idênticos aos meus, eram tão autoritários, que me faziam sentir que era eu
quem tinha que olhar para cima ao falar com ela. Joguei o peso de um pé para o outro,
desconfortável sob aquele olhar que me fazia sentir uma criança, e olhei para o meu pai em um
pedido silencioso de ajuda para lidar com ela, mas ele retornou um olhar que dizia que eu estava

por conta própria. Acho que ele também temia aquele olhar.

— Eu não posso faltar ao trabalho com o senhor Prior, mãe.

Após pensar por um tempo, certamente relembrando os meus compromissos, ela


respondeu:

— Eu tinha esquecido disso, mas se você faltar a outra consulta vai se ver comigo,
Augusto.

— Eu não quero continuar a terapia. Não acho que está surtindo efeito algum. — No
momento em que tais palavras escaparam da minha boca, eu quis engoli-las novamente, pois não
queria provocar a terceira guerra mundial e sabia que tinha acabado de fazer exatamente isso.

— É claro que não funciona! Você não faz do jeito que deve, só faz porque eu te obrigo,
não faz o que o Mark pede, não divide seus problemas com ele. Quem tem um psicólogo e se
recusa a conversar com ele?! Ficar só reclamando da vida não vai te ajudar, Augusto! Nada vai
funcionar se você não se esforçar!

— Não me julgue, Dra. Lewis! É mais fácil falar do que fazer!

— Pare de sentir pena de si mesmo e faça o que deve pra se recuperar!

— E o que seria isso, mãe?!


— Comece deixando de lado essa vergonha que você tem de tudo e converse com o seu
psicólogo sobre o que te aflige. Esses dias o problema tem sido a Jennifer, não é? Eu tenho
certeza de que o Mark não sabe absolutamente nada sobre ela porque você esconde os seus
sentimentos assim como se esconde dentro de casa!

Aquela frase doeu do que uma bofetada e talvez isso tivesse ficado evidente, pois antes
que eu pudesse responder, meu pai me mandou para o meu quarto. Enquanto eu subia as escadas
ouvi o começo de uma discussão entre eles.

— Você não deveria ter sido tão dura com ele, Nathalie!

— E o que você queria que eu fizesse? Passasse a mão pela cabeça dele como você faz?!

— Eu tenho paciência com ele, só isso!

— Você faz isso porque se sente culpado, mas isso não o ajuda, Ryan! Ele está
crescendo, e o mundo não vai se importar se ele tem traumas. Ele precisa ter responsabilidade
com a própria saúde e às vezes precisa que você seja pai, e não amigo!

Tentei ignorar a discussão enquanto andava rapidamente até o meu quarto. Bati a porta e
andei de um lado para o outro, contendo as lágrimas.

Horas depois, eu estava absorto sentado no escuro, tentando me livrar da solidão que

parecia maior do que nunca. As palavras da minha mãe ainda rondavam a minha mente. Se ela
estivesse de saco cheio de mim, eu estaria ferrado, pois viver sozinho era a última coisa para a
qual eu me sentia preparado.

A batida na porta não foi ouvida e quando percebi, meu pai estava me olhando
atentamente.

— Tudo bem? — Sem obter resposta, ele sentou ao meu lado. — Não fique chateado
com ela. Vocês dois têm o mesmo temperamento explosivo.
— Às vezes eu acho que ela me odeia.

— Não seja injusto, Augusto! Você sabe que a Nathalie ama você e que faria qualquer

coisa pra te ver bem.

— Talvez ela só esteja cansada de mim.

— Pare de falar besteira.

— Não é besteira. Ela parece achar que eu quero ser assim.

— Ela não acha isso. Nós só queremos que você se esforce mais para sair dessa redoma
de vidro. Faz dois meses que você só sai pra estudar ou trabalhar e nunca pra se divertir. Não é
essa a vida que queremos pra você.

— E você acha que eu quero?! Acha que não me incomoda ser incapaz de sair com um
amigo ou beijar uma garota sem surtar?

— Eu sei que te incomoda, mas o que você está fazendo pra mudar isso? — Eu não tinha
uma resposta plausível para dar a ele, então fiquei calado. — Ter tido um ataque de pânico no
cinema não quer dizer que você vai ter outros a cada vez que sair. Você não pode abandonar tudo
que conquistou por causa de um dia que deu errado.

— Se vocês se sentissem como eu, entenderiam por que ficar em casa é muito melhor pra
mim.

— Não é melhor, só é mais fácil. — Com um aperto no ombro, ele se despediu de mim,
mas antes de deixar o quarto, avisou: — No final de semana, vamos voltar a pedalar no parque.
— Eu estava prestes a declinar quando ele completou: — Não é um pedido, Augusto.
CAPÍTULO 13 – Contra a parede

Meu olhar vagava pela janela sem muito interesse enquanto eu aguardava para ser
atendido. Alguém surgiu no meu campo de visão caminhando lentamente na esquina lá embaixo,
com as mãos nos bolsos da jaqueta. Pelos jeans rasgados e fones no ouvido, eu diria que era um
adolescente, e sua forma descontraída de andar na rua despertou em mim uma ponta de inveja.
Seus passos eram lentos e seguros. Passos de quem não tinha pressa em voltar para casa. Passos
de quem não precisava olhar sobre os ombros ou controlar a respiração por ter medo do mundo.
Passos de alguém que não se sentia sob pressão só por estar caminhando na rua.

Lisa, a recepcionista da clínica, uma senhora alta e com olhos gentis, parecia estar me
chamando há algum tempo, pois havia abandonado a sua mesa e estava de pé ao meu lado
dizendo que eu poderia entrar. Pedi desculpa pela distração e fui até uma porta do final do
corredor, onde bati duas vezes antes de entrar e dar de cara com um Mark sério, me olhando por
trás da sua mesa escura e muito bem envernizada. Olhei acima da sua cabeça para o diploma que
me lembrava o porquê de eu “perder” o meu tempo com aquele cara. Não estava com humor para
terapia naquele momento, mas era isso ou ser esfolado vivo pela minha mãe mais tarde.

— Boa tarde, Augusto — ele me cumprimentou enquanto eu me dirigia ao sofá.

— O que tem de bom?

Após um suspiro fatigado, ele disse:

— Eu sei que você está chateado por eu ter ligado pra sua mãe, mas eu não vou me
desculpar porque é a minha obrigação com você, e você sabe disso. Então vamos pular essa parte
e vamos direto ao assunto: por que você não veio na semana passada?
— Porque eu não quis. Sou obrigado?

Depois de cinco minutos de uma discussão velada, finalmente comecei a falar que estava

de saco cheio de tudo, inclusive da terapia, mas não admiti que uma certa garota ruiva era a
causa do meu desânimo. Eu tinha decidido falar sobre ela, mas na hora H, perdi a coragem de
dizer que fui beijado e que surtei por isso.

— Você não vai mesmo falar dela?

— Dela quem? — perguntei, assustado, ponderando se eu havia pensado em voz alta ou


se a minha mãe havia contado a ele.

— Da garota que está te deixando assim... — Ele levantou da sua cadeira alta e foi até
uma mesinha disposta em um canto da sala se servir de chá verde.

— Eu não sei do que você está falando. — Após recusar qualquer bebida, comecei a
puxar um fio solto no meu casaco para ocupar minhas mãos.

— Ah, por favor, Augusto, assim você me ofende. Eu também já tive dezessete anos, e
nem foi há tanto tempo assim. É claro que tem uma garota por trás dessa sua mudança repentina
de atitude.

Ele sentou na poltrona perto do sofá com uma xícara fumegante nas mãos, e eu pude

sentir seus olhos cravados em mim, mas continuei entretido com o fio do casaco, ignorando-o
deliberadamente.

— Só para você saber, eu tenho um horário livre depois de você, o que quer dizer que
tenho duas horas pra te perguntar a mesma coisa, se for necessário — ele afirmou calmamente.
— Tirando sua recusa em voltar a sair de casa, você estava cooperando com o tratamento.
Depois, os pesadelos ficaram mais intensos, você começou a mentir pra mim, ficou mais
irritadiço do que nunca (e olha que isso não significa pouca coisa) e, por fim, nas últimas
semanas, você perdeu completamente o interesse na terapia, por quê?
— Porque não estou mais vendo surtir efeito, simples assim! — Joguei as mãos para cima
em um gesto que denotava a minha impaciência.

Por não fazer mais sentido inventar desculpas, visto que ele podia enxergar mais do que
eu dizia, suspirei e mantive a cabeça baixa enquanto contava para ele, resumidamente, o que
havia acontecido entre a ruiva e eu.

— E o que você espera dela?

— Sei lá, eu mal a conheço! — O embaraço causado por aquela conversa me fez levantar
e caminhar até a janela.

— Augusto, isso é um progresso. — A surpresa provocada por aquele comentário me


fazendo encará-lo novamente.

— Progresso?! Que parte de “ela nem olha mais na minha cara” você não entendeu? —
falei pausadamente, pois ele parecia estar um pouco lento.

— Desde que eu te conheço, você nunca demonstrou o menor interesse em alguém, e


agora aí está você, incomodado porque uma garota não está disposta a ser sua amiga.

Eu não conseguia ver aquilo como um progresso, o que eu via era o fato de não conseguir
ter uma vida.

— E do que adianta o meu interesse nela, se agora ela me odeia?

— O seu interesse nela é um passo que você deu, logo, é um progresso. Quanto ao
suposto ódio dela por você... Que tal você pedir desculpas pelo seu comportamento? Às vezes
funciona. — Ele ergueu uma sobrancelha e um canto dos seus lábios se ergueu em um sorriso de
sabichão.

— E eu devo pedir desculpas a cada vez que ela me beijar e eu surtar?

— Eu estava me referindo à forma como você a tratou quando ela tentou conversar. — O
olhar pensativo que ele me lançou me deixou desconfiado. — Eu andei revendo o seu caso e
cheguei à conclusão de que passou da hora de começarmos uma terapia de exposição voltada à
síndrome de transtorno pós-traumático.

— Traduza, Mark. — Revirei os olhos com impaciência.

— O que fizemos antes foi por conta da síndrome do pânico, pra que você voltasse a sair
de casa sem ficar tão ansioso. Essa nova etapa seria aqui mesmo no consultório, com situações
que te causam desconforto.

— Como o quê? — A expressão dele me disse que eu não gostaria da resposta, e o


desagradável frio causado pela ansiedade começou a brotar a partir do meu estômago.

— Como ver e discutir documentários sobre vítimas de estupro.

— Eu já te disse pra nunca tocar nesse assunto! — gritei, enraivado pelo desconforto que
aquela palavra me causava.

— Eu adiei porque tínhamos problemas mais urgentes pra resolver, Augusto, mas
precisamos falar disso.

— Eu vou fazer o que você quiser pra superar a agorafobia, mas essa outra parte, não!

— Você não quer ser capaz de ter intimidade com alguém sem pensar no J? — A menção
daquele nome fez meus pelos se arrepiarem e meus punhos se fecharem involuntariamente. —
Não foi isso o que aconteceu quando a menina te beijou? Ele não invadiu a sua mente e te fez
rejeitar ela?

— Pare, Mark! Não fale dele! — Com a raiva nublando os meus pensamentos, eu o
sacudi pela gola da camisa. Apesar de ser menor e mais magro do que eu, ele não teve medo de
mim. A confiança dele me acalmou, pois ele sabia que eu não perderia o controle quando eu
mesmo tinha medo de perder.
— Me ajude a te ajudar, Augusto — pediu enquanto afastava as minhas mãos. — Eu
deixei você tentar do seu jeito, mas você já viu que negar o que aconteceu não está te ajudando.
Você pensa nele, sonha com ele.

— Eu não vou fazer isso, entendeu?! — exasperei.

— Então eu sinto muito, mas você vai ter que procurar outro terapeuta.

— O quê?! Você não pode estar falando sério, isso é chantagem!

— Não, Augusto, isso se chama comprometimento. Você precisa de ajuda, e se eu não


estou conseguindo te ajudar, então vou te deixar livre pra procurar alguém que possa.

— Eu não quero ser jogado pra outra pessoa. Por que você está fazendo isso comigo?! —
reclamei, me sentindo traído.

— Porque é o que você precisa agora. O primeiro passo pra se livrar da presença dele é
admitir pra si mesmo que isso aconteceu e que não foi culpa sua.

— Eu não estou pronto pra isso, Mark... — sussurrei, afundando novamente no sofá, com
uma mão na nuca. A simples menção a J me fazia sentir nauseado. Um mal-estar tão grande, que
era como estar realmente doente.

— Não precisamos começar na semana que vem. Para ela, eu já tenho outro plano e sei
que você vai gostar dele. Mas precisamos começar em algum momento. Vai dar tudo certo,
confie em mim.

O peso que parecia ter desabado sobre mim não foi embora quando eu deixei o
consultório. Ser pressionado para fazer algo que eu não queria me fazia sentir encurralado. Eu
não tinha a menor disposição para a tal terapia, mas o Mark insistiu tanto que traria bons
resultados, que eu prometi pensar no assunto.

Ao chegar à calçada vi alguém que fez minha apreensão se multiplicar.


CAPÍTULO 14 – Flagrado na terapia

Com o olhar cravado no letreiro sobre a minha cabeça, o Michael caminhava na minha
direção após atravessar a rua. “Que inferno ele está fazendo aqui?”

— E aí, cara? Por que você tava em uma clínica de psicologia?

— Quem disse que eu estava aí?

— Os meus olhos. Esses dois acabaram de te ver saindo por essa porta de vidro. —
Ignorei o comentário e disse que precisava ir embora, pois o Jas estava me esperando, apesar de

eu não conseguir encontrá-lo.

— Qual é, Augusto. Eu tô esperando uma explicação desde aquele dia.

Eu tive que admitir que devia isso a ele, e como o Jas havia deixado uma mensagem no
meu celular informando que estava preso em um congestionamento devido a um acidente na
estrada, desmarquei com ele e fui com o Mike até uma cafeteria próxima. Embora não fosse
confortável estar na rua, a companhia dele me deixava menos apreensivo.

O calor do ambiente foi bem-vindo. Eu me dirigi até uma mesa próxima da saída dos

fundos, seguido por Mike, que retirou o casaco antes de sentar e vasculhar o cardápio. Poucos
minutos depois, uma garçonete de uns dezenove anos se aproximou para anotar os nossos
pedidos e não tirou os olhos de Mark, que flertava descaradamente com ela.

— O que você veio fazer por aqui? — perguntei quando ela se afastou, e ele me explicou
que fora fazer uma entrega gigantesca para a floricultura da mãe e como acabara ficando para
ajudar na decoração, pois a mulher parecia prestes a ter um troço com o atraso da equipe.

— Então... Algum dia você pretendia me contar que faz terapia?


— Por que eu faria isso?

— Que tal porque eu sou seu amigo?!

— Não precisamos contar tudo aos amigos.

Ele abriu a boca para responder, porém foi interrompido pela chegada da garçonete com
os nossos pedidos — pelo menos com o pedido dele, visto que eu recebi um crepe de banana

apesar de ter pedido um de maçã. Ela realmente devia estar encantada pelos olhos de Mike — ou
por outras partes dele, se eu vi direito para onde os seus olhos se dirigiam enquanto deveria estar
anotando corretamente o meu pedido.

Ele estava com o copo a caminho da boca quando parou, olhou pensativamente para mim
e perguntou:

— Como eu não estranhei que você nunca bebesse álcool?

— Você também não deveria, ainda é menor de idade.

— É só por isso que você não bebe ou é porque toma remédios? — Ele arregalou os
olhos como se lembrasse de algo importante. — Eu já te vi duas vezes tomando alguma coisa e
você me disse que era analgésico! — exclamou, indignado. — Quantas mentiras você me disse?

Desisti de tentar comer, larguei o garfo e recostei na cadeira antes de olhar para ele.

— Eu raramente minto pra você, Mike. Só omito. — Voltei a olhar para o crepe
abandonado no meu prato. — Ninguém faz questão de contar que faz terapia, nem que toma
ansiolíticos. Todo mundo acha que isso é coisa de gente louca.

— Eu não acho. Eu fiz terapia quando criança porque era uma peste. A minha mãe diz
que cuidar da mente é tão importante quanto cuidar do corpo, mas eu acho que ela não me
aguentava, isso sim. — Ele riu de si mesmo.

— Eu queria que todo mundo pensasse como a sua mãe, mas não é assim, e eu não queria
ser visto como mais esquisito do que já sou.

Eu contei a ele que tinha síndrome do pânico, mas não contei sobre o trauma. Ele não

insistiu em saber quem me aterrorizava tanto que até sentir o cheiro do mesmo perfume podia me
deixar desesperado como naquele dia no cinema, o que me deixou aliviado. Passada a pior parte
da conversa, eu consegui aproveitar o meu crepe — de banana.

— Quando eu te conheci, pensei que você fosse gay e tivesse medo de assumir, mas
como você não se interessou por esse corpinho maravilhoso que eu tenho, cheguei à conclusão
de que você só é nerd mesmo. — Sua pretensão me fez rir.

— Metade do colégio acha que eu sou gay. Eu... tenho jeito ou cara de gay?

— E existe cara de gay? — perguntou com a boca cheia.

— Sei lá, mas se um monte de gente acha que eu sou, então...

— É que você nunca dá bola pras meninas e é caladão, então o pessoal acha que você tá
no armário, sei lá. Eu até cheguei a achar que você só olhava a bunda das meninas na educação
física pra disfarçar.

— Idiota.

Ficamos rindo enquanto ele jogava na minha cara todos os vexames que eu já passei
naquele lugar, fosse olhando para aonde não deveria, fosse fugindo da Alana. Se eu soubesse que
me sentiria um pouco mais livre depois daquela conversa, teria contado antes.

— Augusto, se algum valentão na sua antiga escola passou do limite e você tiver medo
que aconteça novamente, pode ficar tranquilo, porque eu não deixaria ninguém te bater. Só eu
posso bater em você e na minha irmã. É um direito garantido aos melhores amigos e irmãos mais
velhos. — Apesar da piada, o tom de voz era sério e, embora eu não tivesse problemas com
valentões, fiquei feliz pela promessa e pela amizade dele. Eu definitivamente sentiria falta de

Mike.
É claro que trinta segundos depois, eu já estava em dúvida se realmente sentiria falta
dele, pois ele não conseguia parar de falar. Um defeito de fábrica. Enquanto me dava uma carona
para casa ele me perguntou pela milésima vez o que azedou a minha relação com a Jenny e disse
que se eu não falasse, ele cantaria a música do elefantinho. Ele já tinha feito da minha vida um
inferno com aquela música, então resolvi não pagar para ver e contar logo tudo de uma vez.

— Você fez o quê?! Você é muito nerd!

Essas foram as palavras mais polidas que ele gritou no trajeto. Depois ele disse que eu
deveria pedir desculpas e rastejar até que ela me perdoasse, porque eu ficava mais feliz e menos
lerdo quando convivia com ela.
CAPÍTULO 15 – Ataque de pânico

Depois de todo mundo me dizer que eu deveria pedir desculpas à Jenny, acabei aceitando
o conselho. Na terça, não tive nenhuma oportunidade de falar com ela, mas decidi que do dia
seguinte não passaria, então, ao final da última aula, corri para alcançá-la no estacionamento. Ela
estava procurando a chave do carro na bolsa quando eu a chamei e ela me encarou. A frieza em
seu olhar fez minha bolha de coragem murchar.

— Eu queria conversar com você.

— É uma pena, eu estou sem tempo agora. — Desviou o olhar e continuou a busca.

— Por favor, Jenny, eu só preciso de alguns minutos.

— Eu não tenho mais nenhum interesse em falar com você, Augusto, nem por alguns

segundos. — Cuspiu as palavras sem dó, me deixando chocado pelo tratamento frio.

— Eu queria te pedir desculpas. Eu posso explicar o que aconteceu, pelo menos em parte
— continuei, na esperança de que ela decidisse me dar uma chance de explicar.

— Semanas atrás, tudo o que eu queria era uma explicação, mas você preferiu fugir de

mim. Agora não me interessa mais. — Encontrando a chave, ela destravou o carro e foi embora
sem olhar para trás.

Eu fiquei sem ação no meio do estacionamento. Sabia que ela estava brava comigo, mas
não achei que me ignoraria completamente.

***
Embora minhas mãos trabalhassem com afinco em lâmina após lâmina, a minha mente

ainda estava naquela conversa com a Jennifer. Eu não conseguia acreditar em quão fria ela podia
ser comigo enquanto eu sentia tanta saudade dela.

Ver os fragmentos de uma amostra biológica, cultivada há três meses, espalhados pelo
chão me fez prender o ar nos pulmões.

— Qual é o seu problema, rapaz?! Você tem noção do prejuízo que acabou de causar à
minha pesquisa?! — o senhor Prior vociferou como se quisesse me matar.

— Desculpe, Sr. Prior. Eu... Foi... Ela escorreg...

— Pelo amor de Deus! Eu estou lidando com crianças aqui? Se hoje você não é capaz de
ajudar, então pelo menos não atrapalhe! — Após me mandar embora, ele entrou na sua pequena
sala e bateu a porta, fazendo a divisória estremecer.

Tirei o jaleco sem me importar por estar arrancando os botões e o joguei na cadeira antes
de sair do laboratório.

— Augusto! — Ouvi a Clair, outra ajudante do senhor Prior, me chamar no corredor, mas
não parei.

Só após pisar do lado de fora do prédio de biologia e sentir o ar gélido, me dei conta de
que havia esquecido o meu casaco e do mais importante: não tinha carona para casa. Inseri a mão
no bolso traseiro da calça procurando pelo celular, com a intenção de ligar para a Clair e pedir
que ela pegasse o casaco para mim, pois não queria encontrar o senhor Prior. Após vasculhar
todos os bolsos, me dei conta de que o celular havia ficado no jaleco e tentei voltar ao
laboratório, mas a porta do prédio não abria, graças ao maldito mecanismo de travamento
acionado ao bater. Xingando meio mundo, comecei a dar a volta em três prédios imensos para
entrar pela frente.
Não demorou muito até ser atingido pela sensação de vulnerabilidade. O campus estava
deserto devido ao horário e todas aquelas árvores, cujos galhos balançavam
fantasmagoricamente, me remetiam à floresta dos meus pesadelos e me fizeram congelar até os
ossos. Alguns metros à minha frente duas, pessoas caminhavam no sentido oposto ao meu, e eu
me esforcei ao máximo para seguir meu caminho. Respirei fundo e ignorei os batimentos
acelerados, lembrando a mim mesmo que eu estava seguro ali, eles eram somente estudantes da

universidade.

Passei por eles e continuei, respirando aliviado até ver o imenso beco entre dois prédios
pelo qual eu teria que passar. Pesei minhas opções e constatei que não tinha nenhuma. Entre dois
prédios altos, eu não teria uma rota de fuga caso precisasse, mas estava anoitecendo, e aquele era
o único caminho para sair daquele lugar. Avancei rapidamente, recitando os baixos índices de
criminalidade de Coventry para conseguir ignorar os arrepios que me diziam para não ir por ali.
Estava quase na entrada do beco quando um grupo entrou pela outra ponta dele, me fazendo
parar.

Eles faziam algazarra e alguns usavam capuz e mantinham as mãos nos bolsos. O meu
lado racional me dizia que era apenas para se proteger do frio. Já o meu lado pessimista me fazia
pensar: e se não for por isso? Aquela foi a gota d’água e os primeiros indícios de pânico tomaram
conta de mim, me fazendo perder a luta contra a reação em cadeia: o coração disparado, a
respiração acelerada, o frio incontrolável e uma sufocante sensação de terror. Eu não tinha mais
certeza de que eram só universitários e não queria pagar para ver.

Dei meia volta e tentei contornar o prédio pelo lado oposto, mas dei de cara com uma
grade. Os passos deles ecoavam nos meus ouvidos, cada vez mais perto, era um déjà vu e da
outra vez não acabou bem. Eu não podia deixar que eles me pegassem de novo. Não aguentaria
passar por tudo aquilo outra vez. Voltei à porta por onde tinha saído e esmurrei sem dó,
implorando para que alguém a abrisse, sem me importar com o que pensariam de mim.
A certeza de que estavam bem atrás de mim me deixou paralisado. A porta finalmente foi
aberta e eu entrei, fechando-a novamente e me deixando escorregar por ela até sentar no chão.
Com a cabeça sobre os joelhos chorei compulsivamente, tão aterrorizado, que não conseguia
pensar. Eu me alarmei ao sentir os braços de alguém sobre os meus ombros, mas não consegui
me mexer para me afastar deles.

— Está tudo bem, Augusto, ninguém vai te machucar, eu prometo. — O alívio foi
imediato ao ouvir a voz da Clair, e eu me joguei em seus braços, temendo perder a sanidade.

— Eu não quero ficar louco, Clair! — exclamei arrancando um punhado de cabelos.

— Você não vai ficar louco, fique tranquilo.

— Eu achei que eles eram... outras pessoas... — comecei a gaguejar enquanto tentava
explicar a ela por que achava que estava perdendo a razão.

Ela segurou minha mão, me impedindo de arrancar mais cabelo, e continuou tentando me
acalmar.

— Você não está ficando louco, só está assustado. Tem síndrome do pânico, não é? —
Como não respondi, ela continuou: — Minha melhor amiga tem, e eu notei que vocês têm alguns
comportamentos em comum.

— E ela é louca...? — murmurei.

— É claro que não. Ela já teve crises de choro na escola por medo de algo que não
existia, mas ela não é louca. Só tem um problema no mecanismo do medo que às vezes se
manifesta.

— Isso parece loucura pra mim.

— Eu tenho pavor a lesma, não piso no jardim porque acho que elas vão me morder.
Existe loucura maior do que temer ser mordido por um bicho minúsculo que nem tem dentes?! E
eu nem tenho a desculpa de ter uma disfunção no cérebro. — Uma risada involuntária escapou

dos meus lábios, apesar da situação. — Você acha que eu sou louca por isso?

— Claro que não... — sussurrei, desfazendo o abraço e secando as lágrimas.

— Então você também não é, garotinho — constatou, usando o apelido que me dera
quando nos conhecemos no ano anterior, quando eu tinha 16 anos. Recusando-se a me deixar
voltar sozinho para casa, deixou o trabalho e me deu uma carona, permanecendo calada durante
o trajeto.

— É a próxima casa à direita. — Puxei o controle do bolso e destravei o portão. Após


estacionar perto da porta, ela se virou para me olhar.

— A minha amiga ficava trancada em casa, não saía nem para comprar comida, mas
agora está bem. Há anos ela não tem uma crise. Você também vai ficar bem, Augusto. —
Assenti, embora não tivesse tanta confiança e agradeci pela ajuda, evitando seu olhar. — Tem
alguém em casa pra ficar com você? — perguntou, preocupada em me deixar sozinho.

Naquele momento a Cibele apareceu na porta, atraída pelo som do carro, tornando
desnecessária a minha resposta.
CAPÍTULO 16 – Escuridão

Após cada crise de pânico, eu passava a ter aversão ao lugar onde ela ocorrera, por isso
passei as horas seguintes pensando em como voltaria lá e em como conseguiria encarar Clair
novamente. Não que eu achasse que o senhor Prior ainda ia me querer por perto do trabalho dele,
mas tinha ao menos que tentar.

Quando enfim adormeci, achei que havia encerrado aquele maldito dia.

A dor era desesperadora e me fazia sentir totalmente desamparado, à mercê da


crueldade deles. Encerrando a risada, ele perguntou:

— Você vai passar o recado direitinho ao papai?

— Vou, eu vou — garanti com os dentes trincados devido à dor. Ele sabia que àquela

altura eu faria qualquer coisa que ele quisesse, mas ele tinha prazer em me torturar.

— Eu vou te ajudar a não esquecer o recado.

— Não! — implorei desesperadamente, mas ele fez de novo, dessa vez na outra perna.

Eu podia sentir o cheiro de queimado enquanto a minha pele derretia. A dor era tão
esmagadora, que me fez desejar morrer. Passados alguns minutos infernais, aproveitei uma
distração deles e fugi, porém não conhecia o local e estava machucado. Em pouco tempo, ele
agarrou as minhas pernas e eu caí.

Ao ir de encontro ao chão, meus olhos se abriram, e senti o carpete macio do meu quarto
sob o rosto. A noite clara me permitiu ver meus pés presos nos lençóis. Esperei que o alívio me
atingisse, mas não aconteceu. O peso daquele pesadelo era tão grande, que eu não tinha forças
para levantar, mesmo sabendo que não era real.
Em meio aos soluços, senti mãos firmes desemaranhando os lençóis e braços fortes me
ajudando a ficar de pé.

— Foi tão real. Eu estou cansado de reviver aquele dia, mãe... — sussurrei, tentando
enxugar as lágrimas que caíam torrencialmente sobre o meu moletom.

— Eu sei, mas vai passar. — Ela tentou me tranquilizar.

De volta à cama, fui abraçado por ela e escondi meu rosto em seu pescoço, desistindo de
tentar secar as lágrimas que continuavam brotando. Ela colocou seu rosto sobre o meu e ficou
repetindo com voz embargada que estava tudo bem, que ela estava comigo. Pude sentir suas
lágrimas escorrendo sobre mim. A minha mãe estava chorando por mim, outra vez, porque a
tristeza de me ver assim a consumia. Eu estava chorando porque a angústia e o desespero me
consumiam. E pude ouvir o meu pai sussurrar com voz trêmula um pedido de desculpas, ele
também estava chorando por mim, pois a culpa o consumia. Estávamos todos ferrados.

***

Quando eu acordei, não havia ninguém no quarto comigo. Sabia que tinha dormido

pouco, pois ainda estava escuro lá fora, mas não consegui voltar a dormir. De manhã, eu estava
física e emocionalmente cansado e desejei ser capaz de dormir por dias inteiros. Por volta das
oito, meus pais voltaram trazendo uma bandeja de café da manhã, que eu rejeitei.

Meu pai falou que eu estava atrasado para o colégio, mas assistir aula era a última coisa
na qual eu pensava.

— Posso ficar em casa hoje?

— Você sabe que ficar em casa é o pior que pode fazer, Augusto, e você está no último
ano, não pode perder aula.

— Vocês podem me obrigar a ir, mas não vai adiantar nada, eu estou sem cabeça para

estudar. Por favor, eu não quero ver algumas pessoas hoje.

De forma condescendente, a minha mãe permitiu que eu ficasse em casa, mas frisou que
seria apenas daquela vez. Apesar de saber que a Cibele ficaria de olho em mim, ela relutou em ir
trabalhar. Quando eles saíram, eu suspirei aliviado por me ver livre de toda aquela atenção.

Minha cabeça parecia enevoada e eu me sentia sombrio. Era a mesma sensação que eu
tinha desde criança, quando morava perto da praia, mas não podia ir nadar nos dias de chuvas
torrenciais. Eu me sentia preso e tinha raiva daquele céu cinzento que deixava o meu dia feio e
tedioso. Depois de rolar na cama por mais de uma hora, precisei ir ao banheiro, a única coisa
capaz de me fazer levantar naquele dia. Ao passar por uma janela, me surpreendi ao ver o sol
brilhando em um céu azul. Estava frio, mas a névoa cinzenta não vinha do clima, vinha de mim
mesmo.

Já estava lavando as mãos quando ergui os olhos para o espelho e me assustei com o
reflexo. As olheiras eram verdadeiras bolsas escuras debaixo dos meus olhos, e meu rosto estava
marcado pelos lençóis e por lágrimas secas. Resolvi escovar os dentes para tirar o gosto amargo
da boca antes de voltar para a cama, quando um frasco no armário chamou minha atenção. Eu

usava aquele medicamento quando a ansiedade estava em níveis estratosféricos e em doses


corretas, ele facilitava a minha vida, entretanto, em doses exacerbadas ele poderia acabar com
ela. Uma ideia passou pela minha cabeça, me fazendo pegar o frasco com mão trêmula. Coloquei
vários comprimidos na palma da mão e pensei em como seria fácil. O medo e a raiva teriam fim
e eu poderia ter paz novamente, mas... e se o inferno existisse e eu fosse para lá por isso?

Repassei minhas memórias, que não eram muitas: uma tarde com a única avó que não
descontou em mim a raiva pela gravidez precoce e casamento indesejado (por eles) dos meus
pais. A primeira medalha que eu ganhei no meu esporte favorito, que eu abandonei. Passeios
com amigos que nunca me procuraram quando eu abandonei o colégio. Um beijo de uma garota
que parecia especial. Viagens e natais felizes com os meus pais. Os três mosqueteiros, como
dizíamos.

Pensar neles causou uma nova enxurrada de lágrimas. Eles sofriam junto comigo, mas
sofreriam muito mais se eu desistisse e se sentiriam culpados. Eu queria me livrar da dor, mas
não queria ser egoísta nem ser lembrado como um covarde. Se pessoas com problemas maiores
do que os meus carregavam sua cruz, então eu também poderia.

Deixei os comprimidos caírem e, em um acesso de raiva que não acontecia há mais de


um ano, soquei o espelho, machucando minha mão no processo. Sem me importar com isso, o
soquei de novo e de novo.
CAPÍTULO 17 – Jennifer – Segunda chance

Bati a porta do carro e saí do estacionamento do colégio sem olhar para trás, mas no
trânsito, fiquei pensando no que havia feito. Estava curiosa para saber o que ele queria comigo e
me mordi de raiva por não ter escutado. Como não adiantava chorar sobre o leite derramado
liguei o som para me distrair e a primeira frase que ouvi foi:

“Pelo menos tentei lhe dizer que sinto muito por partir seu coração...”

Argh! Eu adoro Hello, da Adele, mas definitivamente o momento não era propício a ela.
Aquela música me faria chorar como uma menininha apaixonada, apesar de eu, obviamente, não
estar apaixonada por ele. Estava só... com pena, era isso. Ele parecia tão desamparado quando o
deixei lá sozinho, me recusando a conversar com ele, que fiquei com pena e por isso não
conseguia tirá-lo da cabeça.

***

No dia seguinte, para a minha surpresa, ele não estava na aula do senhor Prior, e eu me
perguntei se estaria doente. No fim da aula, o professor me fez essa mesma pergunta e eu não
entendi por que ele achou que eu saberia a resposta. A aula seguinte foi torturante, pois eu queria
que chegasse a hora do almoço para ver se Mike sabia dele, por isso foi decepcionante ouvir do
amigo a mesma pergunta que eu queria fazer.

— Se você, que é o melhor amigo dele, não sabe, como eu vou saber?!

— O que você fez com ele?


— Você acha que eu matei ele?! — perguntei fazendo graça, mas ele não riu, me
deixando em dúvida se eu deveria me preocupar.

— Ontem ele foi falar com você porque eu o convenci, e hoje faltou aula, coisa que
nunca fez em dois anos, nem atende o celular. O que você disse a ele?

— Eu não disse nada. Não tava a fim de falar com ele e larguei ele lá.

— Lá aonde?

— No estacionamento.

Pelo resto do almoço, falamos de outras coisas, mas a cara emburrada de Mike me deixou
irritada, pois eu não era obrigada a conversar com o Augusto sempre que ele estivesse disposto a
isso.

***

No dia seguinte, comecei a ficar preocupada pela ausência dele e esperei ansiosamente
pelo almoço.

— Conseguiu falar com ele, Mike?

— Agora você tá preocupada com ele?

— Você conseguiu ou não? — exasperei.

— Não. Eu fui na casa dele ontem e me disseram que ele não podia receber visitas.

— Ele está doente?

— Não sei. O pai dele só me disse que não era uma boa hora, mas garantiu que ele viria

hoje. O celular dele continua desligado.


De repente, uma ideia me ocorreu. Saí da mesa sem dar explicações e parei no meu
armário para pegar meu casaco. Depois, corri até onde tinha certeza que o encontraria.

De costas para mim, sentado no banco onde tivemos aquela bendita conversa semanas
antes, estava um rapaz com uma vasta cabeleira negra. Parei e me pus a analisá-lo. Ele parecia
diferente. Augusto era bom em enganar as pessoas, escondendo a timidez e a solidão atrás de
uma confiança forjada, que a maioria acreditava piamente. Naquele momento, entretanto, a
fachada estava rachada e exibia toda a sua vulnerabilidade. Ele parecia derrotado.

Tomei coragem e me aproximei. Ele estava tão entretido em seus próprios pensamentos,
que não me viu até que eu estivesse sentada ao seu lado. Uma mecha do cabelo cobria um de
seus olhos, e eu precisei de uma força sobre-humana para não a tocar.

— Por que você não veio ontem?

— É sério que você veio aqui me perguntar isso? — ele indagou em um fiapo de voz.

Eu não aguentava vê-lo de cabeça baixa e ombros caídos, então o puxei até que ele

aceitasse se recostar no banco, ficando um pouco mais ereto. Percebendo que seu corpo tremia
levemente, peguei suas mãos para aquecer, me perguntando há quanto tempo ele estaria ali fora
no frio. Ele arfou quando eu as esfreguei e só então eu notei que uma delas estava coberta por
pequenos cortes.

— O que aconteceu com a sua mão?!

— Nada — ele respondeu secamente e puxou ambas, escondendo-as nos bolsos do


casaco. Fiquei tentada a insistir no assunto, mas me contive.

— Eu vim aqui porque fiquei preocupada com você. O Mike está a ponto de te matar por
você não atender o celular.

— Eu não posso falar com ele agora. Se puder, diga a ele que eu estou bem.
— O que aconteceu com você?

— É complicado — falou com um suspiro. Num impulso, eu tomei o seu rosto entre as

mãos e o virei para mim.

Quando ele parou de relutar e me encarou, aquele conjunto de olhos frágeis, bochechas
rosadas pelo frio, lábios naturalmente vermelhos e cabelos cobrindo os olhos causou um curto-
circuito no meu cérebro, e eu toquei os meus lábios nos dele, apesar de ser totalmente proibido
no colégio. Eu teria feito muito mais, se ele não tivesse frustrado os meus planos ao desviar o
rosto.

— Desculpe. Nossa, me desculpe, Augusto. — Foi a minha vez de ficar constrangida e


retorcer as mãos nervosamente, sem saber o que fazer com elas. — Eu juro que não vim pra isso.
Eu vim saber se você estava bem. Está todo mundo preocupado com você.

— Não peça desculpas. — Pegando-me de surpresa, ele me abraçou com vontade,


colocando boa parte do seu peso sobre mim.

Ele parecia precisar tanto daquele abraço, que eu não reclamei do peso e fiz o possível
para ignorar o cheiro amadeirado dele. Se era de uma amiga que ele precisava naquele momento,
então eu seria isso para ele. Retribuí seu abraço e me dispus a mantê-lo ali pelo tempo que ele
precisasse, sem me importar por ele ter me rejeitado. De novo.

— Você pode me beijar quantas vezes quiser, Jenny, mas eu acho que você deveria saber
algumas coisas sobre mim antes de decidir se quer ser minha amiga. — Com um suspiro
cansado, ele desfez o abraço, me fazendo sentir falta do seu calor, mas deixei que ele
continuasse. — Primeiro eu tenho que te dizer que você me deixa confuso. Em um dia, você nem
quer ouvir o meu pedido de desculpas, depois você vem congelar aqui comigo e me beija. São
alguns sinais contraditórios.

— Nem eu me entendo às vezes, isso não é privilégio seu.


— Eu não tive intenção de te magoar naquele dia. É que você me encurralou, e eu não
sou bom em lidar com pessoas. Eu não sei lidar com você. — Ele me olhou, e eu vi ali um
pedido, mas não soube dizer se era um pedido para deixá-lo em paz ou para aceitá-lo do jeito que
ele é.

Depois me disse que tinha muitas fobias e que por isso era muito limitado. Algumas eram
até contraditórias, mas explicavam muito do seu comportamento. Disse que não lidava bem com
estranhos, não gostava de sair de casa, nem de ficar sozinho —motivo pelo qual não dirigia.

Ficava muito ansioso em meio a multidões ou em lugares fechados e se sentia desconfortável


com alguns toques, cheiros, sons e sensações. Fiquei espantada por alguém tão jovem ter tantos
problemas psicológicos, mas ele me explicou que um problema derivava de outro, no caso dele.
Disse também que fazia terapia e que talvez pudesse ter uma vida normal um dia.

— Qual foi o pivô desses problemas?

Ele ficou em silêncio durante tanto tempo, que achei que não fosse responder.

— Essa parte pode ficar pra outro dia? Eu ainda não estou preparado pra falar sobre ela
— ele fez o pedido num sussurro, como se tivesse medo da minha resposta.

— Claro! Você falou tanto hoje, que está com crédito, mas eu tenho outra pergunta.

— Qual?

— Você vai me deixar te ajudar a superar o seu trauma de beijos? — questionei,


utilizando a minha melhor expressão de inocência, o que o fez rir. A alegria não chegou aos
olhos, mas foi um começo. Eu tinha saudade do som da sua risada, e ele claramente estava
precisando de muitas.

— Eu adoraria — respondeu ficando lindamente corado e fazendo o meu coração


aquecer, apesar do frio.
CAPÍTULO 18 – Mulher Gato

Depois da conversa com Jenny, eu me sentia um pouco mais leve. O fato de ainda ter
amigos depois de ter contado a eles que eu tinha problemas me confortava. A névoa cinzenta
ainda flutuava na minha mente, infelizmente eu não podia alterar a química do meu cérebro, só
podia tentar ficar bem e esperar que a medicação fizesse sua parte. Ainda tinha problemas a
resolver com o senhor Prior, mas não estava pronto para lidar com a sua fúria, por isso resolvi
não ir ao laboratório naquele dia.

Já que estava em casa, eu deveria estar estudando, mas não estava com cabeça para isso,
então escolhi um romance policial para ler. O problema era que os meus pensamentos estavam
tão dispersos, que eu tinha de reler os parágrafos o tempo todo para achar as informações
perdidas.

A minha mãe cruzou a porta entreaberta com uma bandeja de chá, e o seu alívio em me
ver lendo foi evidente. Eu sabia que o chá era só uma desculpa para me vigiar e não podia culpá-
la por isso. O caos em que ela encontrou em casa no dia anterior seria demais para qualquer mãe,
por isso ela decidiu trabalhar de casa naquele dia e aparecer no meu quarto com uma desculpa
esfarrapada a cada cinco minutos.

Quando Cibele chegou ao meu quarto após ouvir todo o barulho, encontrou um
pandemônio. A minha mão sangrava, e o chão estava repleto de comprimidos. Ela duvidou
quando eu disse que não tomei remédios nem tentei cortar os pulsos e ligou para a minha mãe.
Em pouco tempo, eu estava cercado por quatro pessoas que me olhavam desconfiadas. Além de
ter tido uma consulta domiciliar com Mark, os remédios foram retirados do meu banheiro e eu
passei a recebê-los em doses individuais.
As mãos que me serviam um chá não estavam firmes, assim como não estavam ao limpar
os cortes na minha mão direita no dia anterior, sem derramar uma lágrima. Eu aceitei a xícara de
chá e observei seu sorriso forçado. Conversamos sobre coisas aleatórias, mas seus olhos
apertados me diziam que ela tinha muito mais a me dizer.

Quando ela estava prestes a passar pela porta, a postura cabisbaixa exibida me fez ver que
eu precisava retirar todo o peso extra que adicionei sobre seus ombros.

— Mãe?

— Sim? — ela parou, mas não se virou.

— Podemos conversar de verdade? — Ela inspirou o ar profundamente antes de deixar a


bandeja no criado-mudo e olhar para mim.

O que eu vi me entristeceu mais do que tudo no mundo. A minha mãe, sempre tão forte e
decidida, estava vacilante e frágil e me lançou um olhar tão perdido quanto o meu costumava ser.
Então eu fiz o que ela sempre fazia comigo naquela situação: abri meus braços e ofereci meu

ombro para ela chorar. Ela me apertou como se tivesse medo de me perder e chorou
desesperadamente, extravasando toda o medo que esteve escondendo desde o telefonema da
Cibele, na tentativa de ser forte por mim.

— Me perdoe, minha mãe. — Eu a apertei o quanto pude e beijei seu cabelo.

— Não faça isso comigo, Augusto. Nunca mais pense nisso, entendeu? Eu não
aguentaria.

— Eu sei. Você e o meu pai foram os meus maiores motivos para mudar de ideia. Eu
sinto muito. Eu não queria preocupar vocês.

— Escute. — Ela segurou meu rosto e me olhou com desespero. — Eu sei que as coisas
estão ruins pra você, mas eu vou estar sempre aqui pra te ajudar. Não desista, tá bom?
— Eu sei, mãe, obrigado. E pode trabalhar tranquila. Eu não vou fazer isso com você.

***

No sábado, a minha mãe precisou trabalhar, pois teriam auditoria, e o meu pai e eu nos
sentimos entediados, por isso resolvemos fazer uma lasanha, embora a Cibele tivesse deixado o

almoço congelado. A minha mãe teria um troço se visse a bagunça que fizemos, mas não foi
nossa culpa se precisamos sujar cinco panelas para fazer o molho e se ele espirrou por toda a
cozinha. Ao menos a lasanha ficou gostosa.

Estávamos assistindo um filme quando o interfone tocou e eu fui ver quem era. Ver Jenny
pela câmera fez meu coração saltar. Liberei o portão e subi correndo para trocar a camisa
respingada de molho. Ao voltar à sala, não vi mais o meu pai.

Abri a porta e encontrei a Mulher Gato de pé sobre longas botas de salto alto, usando uma
calça de couro, blusa justa e jaqueta, tudo preto. Os únicos pontos de cor eram os lábios pintados
de vermelho, os olhos verdes contornados por lápis preto e o cabelo de fogo preso em um rabo-
de-cavalo alto. O calor que percorreu o meu corpo me fez perceber que eu deveria reduzir o
aquecimento da casa.

— Posso entrar? Está frio aqui. — A sobrancelha erguida e o pequeno sorriso lateral não
deixavam dúvidas de que ela estava se divertindo por me ver babando.

— Desculpe. — Esbocei um sorriso tímido e dei espaço para que ela entrasse.

— Desculpe vir sem avisar, mas você me prometeu ajuda em química há semanas e não
cumpriu. Agora eu estou ferrada. — Só então percebi que ela carregava um livro e um caderno
nos braços, além de uma bolsa que, obviamente, também era preta.
— Você não parece estar vestida pra estudar — apontei quando ela passou por mim e
aproveitei a oportunidade para admirar a vista traseira.

— Eu vou sair com uns amigos à noite — ela explicou.

— Ah. — Tentei não demonstrar o meu desapontamento por saber que toda aquela
produção não era para mim.

— Quer ir comigo?

Declinei o convite, e ela não insistiu, fato que me deixou aliviado e desapontado ao
mesmo tempo.

Antes de entramos na sala, ela se apoiou em mim para retirar as botas, mas se enrolou por
não ter mais mãos para abrir o zíper, o que me deu a desculpa necessária para eu mesmo o abrir.
É claro que eu poderia pedir que ela sentasse no banco do hall, mas se era para estragar o look
femme fatale, que ficava tão bem dela, teria de fazer valer a pena. Fiquei surpreso ao perceber
que tirar o calçado de alguém poderia ser uma atividade erótica. Embora fosse apenas o sapato,

era uma peça que eu estava tirando, além de me obrigar a colocar as mãos nela. Depois disso, eu
confirmei que precisava diminuir o aquecimento da casa, por que eu estava definitivamente com
calor. Quando me ergui, fiquei fascinado ao ver que eu não era o único abalado por uma simples
bota. As bochechas vermelhas indicavam que ela estava tão quente quanto eu.

Ela não estava tão mal em química quanto acreditava estar e por isso não estudamos mais
do que meia hora antes de começarmos a conversar.

— Você está bem? Ontem você parecia bastante abatido. — Seu olhar mostrava muitas
perguntas e eu sabia que não iria querer responder a nenhuma delas.

— Estou — respondi simplesmente e levei uma mão ao cabelo sem perceber,


incomodado pelo assunto.

— O que aconteceu para você ficar daquele jeito?


— Nada. Você quer um suco? Chá? — Eu me dirigi às pressas até à cozinha.

— Tem chá de canela? — Ela pareceu entender que eu queria mudar de assunto.

— Tem de canela com tudo o que você puder imaginar.

Estávamos tomando chá de maçã com canela quando ela perguntou tranquilamente se
poderia ver o meu quarto. A pergunta me pegou de surpresa, afinal não era todo dia que uma

garota uma coisa daquelas.

— Por que você quer ver o meu quarto? — perguntei, desconfiado.

— Porque o quarto diz muito sobre alguém, e eu quero saber mais sobre você. — Ela
praticamente confessou que queria bisbilhotar, mas eu concordei em mostrar.

Meu quarto era o maior da casa e ficava no fim do corredor, me proporcionando uma
vista privilegiada de todos os lados do jardim. Pela lógica, ele deveria ser o quarto dos meus pais,
mas eles quiseram me dar o melhor, visto que eu passava muito tempo ali. Girei a maçaneta
dourada e permiti que Jenny entrasse primeiro, me arrependendo logo em seguida, pois tive
medo de ter esquecido no lugar errado algo constrangedor como uma cueca ou meia suja — o
que seria muito azar, visto que eu sempre fui a pessoa mais organizada do mundo. Talvez tivesse
TOC também...

Ela andou até a metade do cômodo e ficou observando tudo. Eu olhei ao redor e tentei
visualizar aquele lugar pelos olhos dela: limpo, organizado e elegante, com paredes beges e cor
de chumbo, pesadas cortinas azuis, teto rebaixado, luzes embutidas, um lustre de cristal, uma
bancada comprida de madeira escura contendo um laptop e prateleiras repletas de livros didáticos
e de ficção. Duas portas brancas lado a lado, escondiam um banheiro — no momento sem
espelho — e um grande closet. Além da chaise longue embaixo de uma das janelas e da cama
king size perto da porta.

Pela primeira vez, me dei conta de que era um quarto imponente demais para um
adolescente. Bem diferente do que eu tinha em San Diego, que era confortável, porém bem
menor e mais simples.

— Nossa, os seus pais fazem o quê mesmo? — questionou, fazendo graça. Continuei
observando-a da porta. Era estranho tê-la ali. A primeira garota a pisar no meu quarto.

Ela se aproximou dos livros e leu em voz alta os títulos de vários deles:

— O Mundo de Sofia, Jogos Vorazes, A Cabana, Orgulho e Preconceito, Robinson


Crusoé, A Mediadora, Harry Potter, A Menina que Roubava Livros... Você é bem eclético! —
afirmou com uma risada descontraída.

— Eu gosto de ler de tudo e aí estão desde o primeiro livro que eu li até o meu favorito
atualmente.

— Que seria?

— Tente adivinhar.

Ela parecia estar pensando sobre isso quando o quadro de medalhas chamou sua atenção.

— Você é nadador?! — perguntou, genuinamente surpresa.

— Fui, mas era apenas a equipe do colégio. — Tentei diminuir a importância daquilo.

— Você ganhou uma medalha de ouro! — exclamou, espantada.

Na verdade, foram três, porém ela estava olhando a mais importante delas, que eu recebi
ao ganhar o campeonato interestadual juvenil, aos quinze anos. Aquela foi a última medalha que
eu ganhei, pois foi o último campeonato do qual participei. Pouco tempo depois, a minha vida
virou de cabeça para baixo e nadar perdeu o sentido para mim. Mas eu não queria pensar e muito
menos falar sobre aquilo, então tentei mudar de assunto.

— Eu tenho uns jogos no computador, você quer jogar?


— Eu prefiro conversar com você — ela respondeu de prontidão e parou na minha frente
antes de perguntar: — Você não quer falar sobre a natação e por que parou de competir?

Balancei a cabeça negativamente e pensei que ela fosse insistir, mas em vez disso, ela
enlaçou o meu pescoço e ficou na ponta dos pés, aproximando o rosto do meu. Aquela
proximidade era tentadora e me fez engolir em seco, entretanto ainda estava bem fresco na minha
memória o fiasco que foi o nosso primeiro e único beijo. Uma de suas mãos deslizou pelo meu
peito, aquecendo a pele por onde passava, e pousou bem em cima do coração, onde ficou

sentindo-o bater antes de me olhar nos olhos e perguntar:

— Está nervoso?

— Um pouco — admiti.

— Tem medo de estar aqui comigo?

— Não.

— Então venha. — Ela soltou meu pescoço e pegou minha mão, me levando até a chaise,
onde nos sentamos. Depois manteve minha mão na sua, acariciando meus dedos enquanto falava.
— Me desculpe por ter te tratado mal naquele dia. Eu estava magoada e queria te dar o troco,
mas não teria te deixado sozinho se soubesse que isso era difícil pra você.

— Não é culpa sua eu ser ferrado, Jenny. Esqueça isso. — Aquele tipo de conversa me
deixava terrivelmente desconfortável.

— Você não é ferrado, é um garoto doce que merece ser bem cuidado.

— Eu não sou doce, sou grosseiro, inclusive com você. — Relembrar quão rude fui com
ela me fez franzir o cenho.

— Você não é grosseiro, você tenta ser, e isso é diferente. Você diz uma grosseria e
depois fica vermelho de vergonha. E você fica fofo corado. — Ela abriu um sorriso de orelha a
orelha enquanto me encarava.

— Não me chame de fofo, isso é ofensivo pra um ser humano do sexo masculino. —

Coloquei o lábio inferior entre os dentes em um gesto despretensioso, mas que atraiu a atenção
dela para ele.

— Eu adoraria te beijar agora, mas não vou fazer isso de novo a menos que você diga
com todas as letras que deseja que eu faça. — Quando ela passou a língua pelos lábios, eu não
precisei pedir que ela me beijasse. Eu mesmo a beijei.

A necessidade daquele contato era maior do que eu imaginava. Sentir seus lábios nos
meus me deixava extasiado. A maciez deles era tentadora e não os morder era impossível. Com
um gemido, ela deixou o caminho livre para minha exploração. Seu coração acelerado me
envaidecia e me consolava por não ser o único descontrolado. A forma como eu me sentia mais
ousado ao beijá-la era fascinante. O problema era que ela se sentia da mesma forma e
rapidamente sua exploração do meu corpo me deixava desconfortável, o que me trazia de volta à
realidade. Apoiei minha cabeça em seu ombro e sussurrei um pedido de desculpas enquanto
segurava seus dedos, que se encontravam sob a minha camiseta.

— Você não tem por que pedir desculpas — ela afirmou, acariciando o meu cabelo. —
Olhe pra mim. — Com um movimento de cabeça, neguei o pedido. — Ah, olhe pra mim, menino

bonito. Eu adoro olhar pra você.

— Eu não consigo olhar pra você agora.

— Você é bobo. — Ela riu antes de me pedir que falasse o que me incomodava. Com um
suspiro desanimado, admiti que eu não gostava quando ela puxava o meu cabelo, o que era uma
contradição já que os dedos dela estavam ali e não podiam causar sensação melhor. — Posso
tocar, mas não posso puxar, é isso? — Confirmei com a cabeça, e ela perguntou o que mais não
poderia fazer.
— Eu não sei.

— Como não? — exclamou, me empurrando para conseguir olhar para mim.

— Eu não sei. Eu... vou descobrindo à medida que as coisas vão acontecendo. Eu preciso
de um tempo pra me acostumar com isso — pedi sem saber o que dizer para que ela não
desistisse de mim.

— Eu vou te dar todo o tempo que você precisar, Augusto — Enterrei meu rosto em seu
pescoço novamente e aspirei profundamente o seu cheiro, me sentindo aliviado por não a perder.
— Mas eu preciso que você prometa uma coisa.

— O quê? — perguntei ansiosamente.

— Que vai me dizer quando eu te fizer se sentir desconfortável em vez de fugir de mim
novamente.

— Foi burrice, não foi?

— Foi, mas eu gosto de você, menino burro.

— Que bom, porque eu também gosto de você, menina ruiva — afirmei exibindo um
sorriso largo que ela não podia ver.

Aproveitamos o resto da tarde com muitos beijos. Aparentemente, ela até esqueceu que
tinha outros amigos para encontrar, não que eu tivesse feito questão de lembrá-la.
CAPÍTULO 19 – Todo meu

Meu primeiro encontro com o senhor Prior após o incidente com a amostra foi no
colégio, e eu não estava animado com a ideia, mas não tinha como fugir. Fui abordado por ele
ainda no corredor e me surpreendi com o pedido de desculpa. Ele explicou que estava nervoso,
pois o orçamento da pesquisa para o próximo ano estava na iminência de ser retirado.

Entrei no laboratório me sentindo bem mais leve após ter conversado com ele e cheguei a
me sentir flutuando ao ser recebido pelo sorriso brilhante da minha ruiva, que estava tão feliz em
me ver quanto eu estava em vê-la. Não me contive e sorri de volta, mesmo percebendo que
estavam todos olhando pra mim.

Durante o almoço, a euforia me dominava como há muito tempo não fazia, e talvez tenha
sido esse o motivo pelo qual Rox me olhou atentamente antes de dizer que eu estava diferente.

— Eu também percebi. Alguém parece feliz... Por que será?... — Hilary falou, mal
disfarçando o olhar que lançava de mim para a Jenny e vice-versa.

— Não acredito, vocês tão namorando?! — Mike praticamente gritou, de olhos


arregalados como se achasse que eu nunca fosse ficar com alguém. Não que ele não tivesse
motivos para pensar assim, mas mesmo assim o meu ego ficou abalado.

— Não estamos namorando, e fale baixo...! — sussurrei sem saber onde enfiar a cara.

— Estão ficando? — Rox, geralmente tão discreta, perguntou alto demais, e eu soube que
fora de propósito.

Jenny beijou o meu pescoço na frente de todo mundo, me deixando ainda mais sem
graça, e completou, para tentar me matar:
— A gente tá se pegando.

Um acesso de tosse sacudiu todo o meu corpo. Eu prometi a mim mesmo que se não

morresse naquele momento, nunca mais beberia algo perto daquelas pessoas, pois morrer
engasgado seria estranho. Sem se importar com a minha morte iminente, eles se comportaram
como crianças baderneiras, assoviando, aplaudindo, ovacionando e tudo o mais que se puder
imaginar, atraindo todos os olhares para a nossa mesa e me fazendo encolher na cadeira.

— Viva, uhuu!!! Eu não aguentava mais o mau humor do Augusto com dor de cotovelo.
Deus me livre! — Rox completou, e eu não achei justo ser o único a passar vergonha.

— Só nos entendemos porque a Jenny é muito estudiosa e apareceu na minha casa pra
estudar química, mas como estava frio ela foi vestida igual à Mulher Gato, toda em couro preto,
botas longas e... — enquanto eu dava detalhes, os outros riam e faziam mais zoeira, e foi aí que
eu vi a coisa mais linda: Jenny finalmente corou de verdade. Um tom rosado foi surgindo em
suas bochechas e ficando mais e mais intenso. No fim, ela estava quase da mesma cor do cabelo.

— E você acreditou que ela se vestiu assim pra estudar, Augusto?!

— Claro que não! Ela ia pra uma festa depois, mas acabou esquecendo.

— Não tinha festa alguma, criatura! E Jenny tem um professor de química. Você é tão
ingênuo. Eu preciso te ensinar as coisas da vida — Mike me zoou, fazendo os outros rirem ainda
mais.

Até o fim do almoço, tanto Jenny quanto eu já estávamos vermelhos de vergonha por ter
nossa vida amorosa discutida naquela mesa. Na saída da aula, eu a encontrei me esperando na
porta do prédio para me oferecer uma carona, mas eu expliquei que o meu terapeuta queria que
eu começasse a pegar táxis comuns. Ele queria que eu pegasse ônibus também, mas eu ainda não
estava animado para tanto. Ela resolveu me acompanhar até a calçada para termos mais um
tempo juntos, e eu aproveitei que estávamos sozinhos para tirar uma dúvida que estava me
consumindo.

— Seu professor de química é algum aluno daqui? — Por algum motivo desconhecido

para mim, ela achou minha pergunta engraçada e começou a rir.

Quando o táxi circulou o centro da cidade e passou em frente às duas catedrais, eu


admirei a analogia daquilo. Ao lado das ruínas da antiga catedral, destruída pelos alemães
durante a Segunda Guerra Mundial, foi erguida uma nova e mais imponente. Toda a cidade de
Coventry se reergueu após ser bombardeada por ser um polo industrial. A mensagem passada
pelos ingleses era evidente: “Você conseguiu me derrubar, mas sou forte o suficiente para me
reerguer”. Eu desejei poder dizer aquilo ao J.

***

O primeiro dia de volta à universidade também não foi muito animador, pois eu estava
com vergonha de encarar Clair depois que ela me encontrara naquele estado. Estava subindo os
degraus para entrar pela frente do prédio de biologia quando mudei de ideia. Eu contornaria o
prédio e entraria pelos fundos porque queria passar pelo caminho que não conseguira antes.
Cheguei ao beco e senti um arrepio na nuca, como se estivesse assistindo um filme de terror e
soubesse que alguma coisa muito ruim se encontrava do outro lado.

Após os primeiros passos os sintomas foram evoluindo e as paredes pareciam se fechar


sobre mim. Eu soube que se alguém surgisse do outro lado, o pânico me atingiria como um raio,
destruindo toda a confiança que eu estava construindo com tanta dificuldade. Assumindo que
ainda não estava preparado para aquilo, voltei à entrada principal.

No laboratório, encontrei Clair separando algumas lâminas e tubos de ensaio. Ela era uma
garota linda, com suas pernas longas e curvas generosas. Sua pele negra e longos cabelos
encaracolados completavam o visual de mulherão.

— Vai ficar aí me admirando, garotinho?

— A vista daqui é boa. — Adentrei a sala vestindo o jaleco ao mesmo tempo em que me
aproximava dela. — Obrigado por não contar ao senhor Prior.

— Isso é assunto seu, e não dele. Você está bem? — Ela parou por um momento o que

estava fazendo e me encarou, esperando a minha resposta.

— Estou ótimo! — falei um pouco animado demais, a julgar pelo olhar astuto que recebi.

— Por algum motivo especial?

— Nenhum.

— Sei... — Ela empurrou o meu ombro ao passar por mim, e trabalhamos praticamente
mudos pelo resto da tarde, concentrados no que estávamos fazendo.

Na saída, ela me ofereceu uma carona, que eu recusei, mas ainda estávamos no corredor

quando uma ideia me ocorreu. Se ela já sabia do meu problema, poderia me ajudar a enfrentar o
medo que aquele lugar despertava em mim. O máximo que poderia acontecer seria ela me ver
chorar de novo.

Um pouco depois, estávamos os dois encarando o beco escuro alguns metros à nossa
frente.

— É esquisito, mas... — Cocei a cabeça, embaraçado. — Eu não consigo passar por ali.
Me dá um desespero que eu não consigo descrever. Parece que as paredes vão se fechar sobre
mim.

— Vamos fazer um acordo: eu protejo você das paredes e você me protege das lesmas.

Após firmar o acordo nos dirigimos ao bendito beco e, mesmo estando com ela, os

sintomas começaram a surgir. Um frio surreal se apossou de mim, despertando tremores


intensos. Na metade do caminho, meus passos se tornaram vacilantes. A sensação de estar em
perigo me impedia de continuar. Por mais que uma parte de mim soubesse que não havia nada a
temer, outra parte do meu cérebro me dava a certeza de que a minha vida corria risco e preparava
o meu corpo para sobreviver, de uma forma ou de outra.

A angústia de ter a vida em risco é devastadora, e reviver essa sensação inúmeras vezes a
cada tarefa cotidiana torna a vida social inviável para qualquer pessoa, por isso evitar qualquer
coisa ou lugar que despertasse tal sensação era tentador, mesmo que significasse ficar trancado

em casa.

— Está tudo bem. — Ela passou um braço pelo meu e me obrigou a continuar andando.
— Se aparecer alguém, basta lembrar que eles estão fazendo a mesma coisa que nós, indo a
algum lugar, só isso.

Finalmente, ao chegar do outro lado, me escorei na parede, sentindo um imenso alívio


tanto por ter acabado quanto por ter conseguido passar quase sem incidentes.

— Você conseguiu, garotinho!

— Obrigado. — Joguei meus braços em volta dela por um momento. A única pessoa que
eu abraçava com frequência era a minha mãe, às vezes o meu pai, mas a dimensão daquela
conquista merecia isso. — Eu não tenho como te agradecer pela paciência.

— Não precisa agradecer. E nós vamos fazer isso várias vezes até você conseguir
sozinho. — O som de uma buzina nos assustou, nos fazendo desfazer o abraço rapidamente. —
Acho que você está encrencado, garotinho. — Com um riso debochado, ela caminhou até o
próprio carro e me deixou sozinho para enfrentar outro problema, mas daquele eu dava conta.

Segui lentamente até o carro vermelho, tentando avaliar o humor da ruiva que me olhava
com uma expressão enfezada.

— Ei, eu não esperava ver você aqui. — Eu me inclinei sobre ela tentei beijar seus lábios,
mas levei um fora.

— É. Eu percebi por que você não queria que eu viesse.

— Eu nunca disse que não queria que você viesse, só disse que não faria sentido você vir
aqui só pra me buscar. Qual é o seu problema, estressadinha?

— Ainda tem a cara de pau de perguntar! Quem é a garota dando em cima do meu

namorado? — Era a primeira vez que ela me chamava assim, e aquilo liberou uma faísca gostosa
de calor que percorreu o meu corpo diretamente até o coração, onde se alojou.

— Agora eu sou seu namorado? Pensei que a gente estava só se pegando — provoquei.

— Pode ser namorado, ficante, peguete, o que for, contanto que eu tenha exclusividade.
— As faíscas que ela soltava pelos olhos deixavam bem claro que estava falando sério, o que era
bom, já que eu também queria exclusividade.

— Está com ciúmes, Jenny? — Era engraçado vê-la assim quando ela namorava o cara
mais comportado do planeta, cuja única garota que conseguiu se aproximar foi ela própria.

— Claro que não, isso seria ridículo! Por que eu teria ciúmes de uma garota bonita
abraçando o meu namorado? — Frisou o termo que reivindicava a posse sobre mim, me fazendo
rir.

Quando deixamos o campus ela estava de péssimo humor, mas ele melhorou rapidinho
quando ficamos sozinhos por alguns minutos na frente da minha casa.
CAPÍTULO 20 – Mão boba

Se a minha mãe estivesse vendo o meu sorriso, ela certamente diria que uma calda de
açúcar ia escorrer do meu celular em breve. Era o que ela dizia quando me pegava de surpresa
falando melosamente com a Jenny.

— Que sorrisinho é esse? — Mark me surpreendeu ao entrar na sala de repente.

— Não tem sorrisinho nenhum — neguei enquanto tentava esconder o maldito sorriso
junto com o celular.

— Sei... Você se entendeu com a garota, não foi?

— O que vamos fazer hoje? Você disse que eu iria gostar.

— E você vai. Venha comigo. — Ele deixou passar a mudança brusca de assunto.

Eu o acompanhei até outra sala no corredor. As janelas tinham blackout, impedindo a luz
de entrar, e no canto tinha uma mesa contendo um computador e um sofá ao lado. No centro da
sala havia uma esteira.

— Essa é uma nova tecnologia que está sendo testada em pessoas com síndrome do
pânico, outros distúrbios de ansiedade e até mesmo labirintite. No seu caso, vamos usar para que
você aprenda a controlar a ansiedade num ambiente menos hostil do que o real — ele explicou
enquanto mexia no monitor. Depois me entregou uns óculos de realidade virtual bem mais
sofisticados do que aqueles dos cinemas e me pediu que subisse na esteira. — Eu quero que você
tente se lembrar o tempo todo de onde está. Quando você começar a ficar ansioso lembre que
está aqui comigo e totalmente seguro.

Coloquei os óculos e fui imediatamente transportado para uma rua muito movimentada.
No primeiro momento, me assustei por estar naquele ambiente caótico e minha respiração ficou
pesada, seguida pelos batimentos cardíacos descontrolados, apesar de eu repetir para mim
mesmo que era só um jogo.

— Respire devagar. Não deixe as emoções tomarem conta de você. É você quem tem que
dominá-las, e não o contrário — Mark dizia ao meu lado, mas eu não podia vê-lo no jogo. —
Inspire e expire, sempre devagar.

Um homem veio em minha direção, me encarando. Ao chegar perto, ele estendeu a mão,
e eu pude sentir o seu toque no meu braço. Eu me afastei dele, assustado.

— Lembre-se sempre de respirar devagar, controlar sua ansiedade. Pense que ele é seu
amigo. Você vai sentir pessoas te tocando na rua, elas vão esbarrar em você, e você não pode
ficar ansioso por isso. Se controle. Com prática, você consegue fazer isso.

O homem voltou a tocar no meu braço, me fazendo olhar para baixo, sem entender como
era possível eu sentir aquele toque.

— Sou eu que estou tocando em você para você se sentir totalmente imerso na realidade
virtual, mas eu quero que você se concentre no jogo. Agora eu vou ligar a esteira em uma
velocidade baixa e você vai começar a caminhar, está bem? — Quando comecei a caminhar, o
meu avatar começou também. — Está vendo aquele ponto de ônibus lá na frente? Eu quero que
você vá até lá e pegue o primeiro ônibus que parar. Depois procure um lugar pra sentar.

Eu subi no ônibus e procurei dois lugares vazios, mas não havia nenhum, então eu teria
que sentar ao lado de alguém. Fiquei olhando por um tempo enquanto tentava controlar a
respiração, como Mark me dissera para fazer.

— Você vai descer no próximo ponto e entrar no shopping em frente. Depois você vai até
a fila do cinema. É só seguir as placas. E não esqueça de controlar a respiração.

Fiz o que ele mandou e entrei no shopping. Tinha muita gente, e eu pensei seriamente em
sair de novo, mas continuei e peguei a fila do cinema. Não era tão difícil controlar os sintomas
em um ambiente virtual. Estava começando a me distrair com tudo aquilo, quando fui
bruscamente empurrado sobre a pessoa que estava na minha frente. A certeza de que algo errado
estava acontecendo foi imediata, assim como a evolução dos sintomas.

— Coisas assim podem acontecer em lugares movimentados e existem várias hipóteses a


se pensar. Controle sua respiração e pense nelas. Por que alguém teria te empurrado?

— Seja qual for a razão, não deve ser boa.

— Pense em uma alternativa plausível. Por que te empurraram?

— Talvez alguém tenha caído atrás de mim e acabou me empurrando sem querer.

— Essa sim, é uma explicação plausível. O que mais poderia ser?

— Algum mal-educado passou por trás de mim. — Ele riu e disse que isso também seria
possível.

Quando eu dei por mim, a minha respiração e os meus batimentos cardíacos estavam
diminuindo. Era bom conseguir controlar minhas reações novamente, eu já tinha esquecido como
era ser capaz disso.

— Pode tirar os óculos. Eu quero que você faça isso quando estiver na rua e algo te
afligir. Controle sua respiração e pense em motivos lógicos para as situações.

***

Um mês depois da última crise e de suas consequências, a minha vida estava voltando a
se encaixar. Meus olhos se abriram antes mesmo que meus ouvidos captassem o som cruel do

despertador e meus lábios se expandissem em um sorriso largo e involuntário. Tateei a mesinha


lateral em busca do celular e cumpri o ritual realizado todas as manhãs, antes mesmo de tocar os
pés no chão.

“Bom dia, minha ruiva”

“Bom dia, menino bonito. Você está acordando cada dia mais cedo”. Ela completou a
reclamação com um emoji com cara de sono.

“Culpa sua. Mesmo dormindo, eu fico ansioso quando vai chegando a hora de te ver de
novo, aí meus olhos se recusam a permanecer fechados.” Cliquei em send e levantei para tomar
banho.

Eu sabia que ainda tinha um longo caminho pela frente, mas dormir desejando que mais
um dia se iniciasse em vez de acordar desejando que ele acabasse era um progresso sem
tamanho. Minha família e eu tínhamos uma nova rotina: pelo menos três vezes por semana
saíamos para jantar em lugares diferentes e sempre íamos andando ou de ônibus. Todo sábado
pela manhã, eu saía com meu pai para pedalar e até comecei a me aventurar no parque perto de
casa com Sammy. Nas primeiras vezes, eu já saía querendo voltar, mas a sensação de liberdade
se tornou impossível de ignorar, o que me fez desistir de desistir.

Embora estivesse progredindo, ir a lugares muito movimentados ainda era um desafio,


mas era a próxima meta que Mark tinha para mim, e eu sabia exatamente quem iria me ajudar a
cumpri-la.

Entrar naquele prédio toda manhã já não me fazia sentir oprimido, e talvez isso
provocasse em mim uma mudança perceptível aos outros, porque eu passei a ser cumprimentado
por pessoas que antes me ignoravam. Logo que pisei no corredor, encontrei, Mike retirando os
livros do armário. Ele estava de costas para mim e foi impossível resistir ao impulso.

— Mas que por...? — O xingamento pelo tapa na nuca foi interrompido, e sua expressão
de raiva mudou para surpresa quando me viu. — Tá de sacanagem, tampinha?
— Eu não posso ser classificado como tampinha, Mike.

— Perto de mim você é.

— Não sou, não, e você é um otário, mas mesmo assim eu vou te dar a honra de ter a
minha companhia. Quer ver uma partida de futebol na Ricoh Arena na próxima semana?

— E desde quando você vai a estádios?!

— Desde agora, mas tem que ser só nós dois, porque se eu tiver outro ataque de pânico e

você me dedurar, ninguém vai acreditar.

— Beleza. Qualquer coisa, é só filmar. — Ele me mostrou o celular enquanto nos


dirigíamos à sala de aula. — Eu tô feliz por você estar animado.

— Valeu, Mike.

— Me diga uma coisa. Agora que você já me convidou pra sair e já declaramos nosso
amor mútuo, rola um beijinho?

— No colégio não, cara. é proibido! — Dei um soco no braço dele e ele devolveu um
bem mais forte, porque não sabe brincar.

***

Jenny havia se tornado presença constante na minha casa, visto que eu ainda evitava sair
sozinho com ela. Durante essas visitas, acabamos descobrindo que estudarmos juntos com a casa
vazia não rendia — ao menos não rendia conhecimento.

— Essa fórmula não bate, Augusto.

— Então você fez alguma coisa errada. Deixa eu ver. — Apoiando os cotovelos sobre a
mesa, analisei o que ela estivera fazendo. — Estão faltando umas coisas aqui, Jenny. Você
prestou atenção em alguma coisa que eu te falei?

— Minha atenção estava um pouco desviada. — Seus dedos sorrateiros escorregaram por
baixo do meu cabelo e se movimentaram suavemente na minha nuca. Tentei ignorar o que aquele
toque fazia comigo e me concentrar nos números. — O que eu fiz de errado?

— Essa razão...

— Esse r é raio, menino bonito.

— É raio? — Franzi o cenho, confuso. Seus dedos não abandonaram a minha nuca e seus
dentes começaram a sugar o lóbulo da minha orelha, me levando a fechar os olhos. — Eu não
consigo pensar com você fazendo isso. — O som contagiante da sua risada desviou o meu último
neurônio que estava concentrado no trabalho. — Ah, que se dane!

Joguei o lápis para cima e tracei o contorno da sua boca com beijos, desviando todas as
vezes que ela tentou capturar a minha, até que eu mesmo não pude mais resistir e mordi seus

lábios, fazendo com que ela os abrisse para mim. Minhas mãos deslizaram até os seus ombros
tensos e começaram a massageá-los enquanto nossas línguas se divertiam uma com a outra, se
separando apenas quando precisávamos de ar. Emaranhei meus dedos em seu cabelo e puxei
suavemente para trás, expondo seu pescoço e distribuindo beijos por toda a extensão,
embevecido por ver como ela se entregava às minhas carícias. De olhos fechados, suspirava
pesadamente enquanto suas mãos escorregavam sob a minha camiseta, me deixando tenso. Se
algum de nós podia ser acusado de ter mão-boba, esse alguém não era eu. Percebendo o quanto
aquela exploração me incomodava, ela parou, me abraçou e sussurrou em meu ouvido:

— Relaxe. — Aquela maldita palavra fez minha temperatura cair em vários graus.

— Melhor pararmos por aqui, né? — Eu me desvencilhei de seus braços e tencionei


levantar.
— Não. — Ela agarrou o meu braço, ostentando um bico bonitinho. — Está tão bom
aqui.

— Muito engraçadinha. Seria embaraçoso se os meus pais nos pegassem dando uns
amassos. — A enchi de selinhos até ela desfazer o bico.

— Eu sei, mas valeria a pena, porque eu adoro te ver corado. — De repente, seus lábios
se esticaram para revelar um sorriso perverso. — Está tudo funcionando aí, meu anjo? — A
pergunta foi acompanhada por um olhar que se fixou descaradamente abaixo da minha cintura,
sem dúvidas satisfazendo seu desejo de me ver corado.

— Está tudo funcionando aqui, Jennifer. — Puxei uma almofada para me proteger dos
olhares lascivos daquela doida que eu chamava de namorada. — Você faz jus ao que dizem das
ruivas, sabia? — Aproximando meus lábios dos seus ouvidos, sussurrei: — Você é fogosa.

— Eu não tenho culpa de ter um namorado lindo demais pra ser admirado só com os
olhos.

A cara sapeca que ela fez foi minha perdição e em um minuto estávamos aos beijos
novamente, mas dessa vez eu mantive suas mãos nas minhas, evitando que minha ansiedade
estragasse nosso momento novamente.
CAPÍTULO 21 – Família Watson

Mais uma vez mudei de posição no sofá e enterrei a mão sob o cabelo enquanto Mark
preparava o seu chá. Eu sabia que ele estava me dando um tempo para me acostumar com a ideia
de falar com ele sobre o meu relacionamento com a minha namorada e como isso me afetava.

— Eu fico feliz que você finalmente tenha aceitado falar sobre isso.

— Não por vontade própria — murmurei.

— Quem te obrigou?

— As circunstâncias.

— Você tem repetido o comportamento que teve quando ela te beijou pela primeira vez?

— Não, mas tem outras coisas que me incomodam. — Pela milésima vez naquele dia, me
recostei no sofá.

— Como o quê?

Optando pela posição que me dava mais conforto, fui até a janela e fiquei de costas para
ele antes de continuar:

— Alguns toques e até palavras me deixam desconfortável. Eu tenho evitado ficar


sozinho com ela.

— Você sabe que tem o direito de ir devagar, não sabe?

— Eu sei, mas em algum momento eu não vou ter mais como fugir disso, né? Mesmo
porque eu quero tanto quanto ela — admiti para ele e para mim mesmo algo que eu só descobri
que queria depois que comecei a namorar a Jenny.
— Um passo de cada vez, sem pressa. Vocês são muito jovens e o namoro é recente.

***

— Enfim livres! — Mike jogou os braços para cima em animação quando chegamos ao
estacionamento. Era sexta-feira, e estávamos oficialmente de férias. — Vamos fazer muita coisa

nessas férias!

— Mike, uma semana não dá pra nada. — Rox podou a animação dele.

— Então vamos ter que sair todos os dias! E podemos começar indo domingo ao festival
de rock, que tal? — Eu não iria me aventurar em um lugar lotado com todos eles juntos, mas não
disse nada que estragasse o entusiasmo deles.

— Também podemos ir ao cinema, faz tempo que eu não vou — Rox sugeriu.

— E patinar no gelo! — Gemi internamente pelo entusiasmo da Jenny em fazer aquilo,


visto que eu nunca tinha patinado no gelo.

— Que droga — Hilary resmungou. — Justamente nesse fim de semana é o aniversário


da avó do Greg, e nós vamos passar a semana na casa dela, em Leamington Spa. — Meu alívio
sobrepujou a minha empatia por eles.

Quando Mike colocou um braço sobre os meus ombros, eu já sabia que ele iria me pedir
algo.

— Eu tenho que estudar umas coisas de matemática amanhã pra me sentir realmente de
férias e você vai me ajudar, né? Com meu nerd favorito por perto eu não perderia o dia todo.

— Como você quer ser engenheiro se é péssimo em matemática? — provoquei.


— Eu sou ótimo em matemática, retardado! Só não sou tão bom quanto você porque
tenho uma vida social. Nerds só têm que estudar, aí fica fácil!

— Agora ele tem outra coisa pra fazer, tipo namorar — minha ruiva declarou, passando
um braço ao redor da minha cintura.

— Mas você vai liberar ele pra mim só um pouquinho, né? Não esqueça que fui eu que
insisti pra ele rastejar atrás de você. Você tá me devendo uma — ele alegou.

— Vou pensar no seu caso.

— Ei, vocês dois, eu estou bem aqui! — protestei. — Que horas você vai lá em casa,
Mike?

— Cara, você não pode ir na minha, não? Eu vou ficar de babá da Emily de manhã, e tirar
o pigmeu da cama cedo é dureza. — Combinamos o horário, nos despedimos e antes de entrar no
carro, ele gritou que eu deveria levar outra roupa porque depois de estudarmos, iríamos para a
academia. Aparentemente ele já tinha planejado todo o meu dia.

Chegamos ao carro da Jenny, e ela se recostou nele, me puxando junto. Eu beijei sua testa
e a abracei, feliz por tê-la por perto. Ela enterrou o rosto no blazer do meu uniforme e inspirou
profundamente, me fazendo rezar silenciosamente para ainda estar cheiroso.

— Você cheira tão bem, menino bonito. Eu fico com saudade de você logo que te deixo.
— Aquela declaração me fez sorrir.

— Eu também fico, minha ruiva. Segunda eu serei só seu e nós vamos fazer baclava —
informei para que ela soubesse que teríamos um objetivo além de namorar.

— O que é baclava?

— É um doce folheado recheado com amêndoas e mel. É a melhor coisa que eu já comi.

— Essa sua paixão por doces é tão bonitinha! — ela declarou, olhando para cima, me
deixando perdido em seus olhos, perdido demais para pensar antes de falar:

— Eu só tenho uma paixão no momento, e ela é você. — No momento em que percebi o

que havia declarado, senti minha face esquentando, e estava prestes a fugir dos seus braços
quando ela se colocou na ponta dos pés e me beijou.

Ignorando o fato de que poderíamos receber uma advertência, eu a correspondi, e nem


mesmo a audiência e o burburinho ao nosso redor me incomodou.

***

Às dez da manhã, eu toquei a campainha da casa de Mike e fiquei assombrado com seu
estado. — O que aconteceu com o seu cabelo?! — perguntei ao ver os fios cacheados espetados
em todas as direções.

— Foi aquele pigmeu que me deixou assim. Ela tá eufórica porque vai ver você. — Ele
revirou os olhos, como sempre fazia ao falar da admiração da irmã por mim. Aquilo me fez rir e
me sentir vingado pela queda dele por minha mãe.

Eu estava tirando os tênis quando uma pequena loira desceu as escadas como um raio e
parou na minha frente com um sorriso brilhante. Emily era uma cópia de Mike — salvo as
devidas proporções. Com o cabelo cacheado e as feições inocentes, ela realmente parecia um
anjinho.

— Augusto! Por que você sumiu? — perguntou com uma voz infantil e estendeu a mão
para mim. Era possível ver corações desenhados em seus olhos. Eu era como aquele professor
jovem demais ou primo mais velho por quem todo pré-adolescente já teve uma paixão secreta.

— Oi, Emily! — Retribuí o cumprimento balançando a mão estendida. — Eu andei


ocupado. O seu irmão está cuidando bem de você? Eu posso bater nele se não estiver.

— Não precisa. Eu consigo bater nele sozinha. — Sem dúvidas, ela era corajosa por bater

em alguém tão maior do que ela.

— Eu tô ouvindo, pestinha — Mike resmungou do chão, onde estava sentado em frente a


uma mesa repleta de livros. Ao passar por ele, Emily esfregou sua cabeça, desfazendo ainda mais
os cachos, e correu para o quarto quando ele tentou agarrar seu pulso. — Você vai ser
responsável se ela pegar uma infecção, já que ela nunca mais vai lavar a mão que você apertou.

— Eu não tenho culpa de ser irresistível.

Sentei do outro lado da mesa e observei o cálculo que ele estava fazendo. Algo
monstruoso que já tomava quase uma página do caderno. Estávamos concentrados nisso quando
Emily chegou com um livro e me pediu para explicar o que estava ali.

— Por que você não pediu pra mim, Emily? — Mike interrompeu.

— Porque você é burro! — Mordi a boca para não gargalhar e tirar de Mike sua
autoridade de irmão mais velho. Se é que ele tinha alguma...

— Senta aí, Emily. Eu explico pra você.

Após várias horas de estudos, almoçamos sanduíches e depois fomos até a floricultura da
senhora Watson. Mike estacionou na frente da loja, e eu admirei a vitrine larga que exibia flores,
bichos de pelúcia, trufas em formato de coração, cartões musicais e outras coisas românticas para
dar de presente. Emily empurrou a porta, fazendo soar o som agudo de um pequeno sino, e
correu até a mãe. Eu e Mike a seguimos para dentro da loja climatizada.

— Augusto, há quanto tempo eu não te vejo! Estava com saudade de você! — A senhora
Watson exclamou, me dando um abraço caloroso.

— Desculpe pelo sumiço, Sra. Watson — falei timidamente, sem explicar meus motivos
para ter deixado de frequentar a casa deles.

— O importante é que você está aqui agora. E você, meu bebê? — cumprimentou Mike,

bem maior do que ela, apertando suas bochechas. A cena me fez rir e ganhar dele um olhar
assassino.

Deixei os dois conversando e voltei a admirar a vitrine, decidindo comprar o cachorro de


pelúcia gigante para a Jenny. Voltei minha atenção à família Watson e vi que estavam tendo uma
pequena discussão sobre onde a Emily passaria a tarde.

— Nem f... — Mike se calou ao receber da mãe um olhar duro por falar palavrão na
frente da irmã caçula. — Qual é, mãe, eu já aguentei ela a manhã inteira!

— E vai aguentar a tarde também. Se ela não for, você também não vai.

— Eu vou pra piscina, e ela nem trouxe biquíni!

— Trouxe, sim! — Emily apontou a mochila no chão da loja.

Após Mike perder a discussão, pedi à senhora Watson para embrulhar o cachorro para
presente, só para ver outro drama ter início. Embora eu não tivesse dito que era para a minha
namorada, aparentemente isso estava bem claro.

— Você tem uma namorada, Augusto? — Emily perguntou com os olhos marejados, me
deixando sem saber o que responder.

— Ahn... Eu...

— Ele tem, e ela tem a nossa idade — Mike completou de maneira nada gentil a frase
que eu não consegui, fazendo seus olhos se encheram ainda mais de lágrimas e me deixando
culpado por partir o coração de uma menina de dez anos.

— Eu não quero mais ir com vocês. Vou ficar aqui com a mamãe. — Ela desapareceu por
trás do balcão, no espaço destinado ao estoque da loja.
Aparentemente a senhora Watson percebeu meu desconcerto, pois disse que eu não
precisava me preocupar porque aquela tristeza passaria com chocolates. Sendo a mãe, ela deveria
saber do que estava falando.

Minutos depois, atravessávamos a porta da maior Atikus Fitness, uma das três academias
da família Watson. Ela exibia uma ampla fachada de vidro fumê e possuía uma catraca, cujo
acesso era liberado através de um cartão obtido no ato da matrícula. Passamos por alguns
funcionários, e Mike cumprimentou todos com sorrisos, piadinhas ou, no caso das garotas

bonitas, uma piscadinha que às vezes era retribuída e às vezes rendia um revirar de olhos.

Paramos para cumprimentar o senhor Watson, que dava instruções a uma garota de pelo
menos 25 anos. Ele tinha o mesmo porte físico do Mike, mas a semelhança parava por aí. Seu
cabelo cortado em estilo militar e a expressão sisuda o tornavam bem intimidante. Mike o
cumprimentou com um tapa nas costas e paquerou a aluna dele, ganhando uma repreensão por
mexer com as meninas da academia e ouvir um constrangedor “Não se preocupe, Watson, eu não
flerto com bebês”. Foi impossível conter uma gargalhada enquanto ele ficava vermelho, não sei

se de raiva ou vergonha.

— Augusto, que bom ver você. A piscina foi liberada semana passada, e eu queria reabrir
para as crianças. Você vai continuar com as aulas?

— Claro, senhor Watson! Podemos fazer uma aula inaugural durante a semana.

— Nas férias, não! — Mike protestou.

— São só duas horas. — Dei de ombros. A última coisa que eu queria fazer após voltar a
sair de casa era ficar trancado nela.

Aquecemos na esteira e depois fomos para os aparelhos, onde Mike me mostrava cada
garota que passava por nós. Era tão estranho vê-lo paquerando outras garotas quando estava a
fim da Rox. Desde que comecei a me interessar pela Jenny, as outras garotas se tornaram
invisíveis para mim.

Uma hora depois, eu retirava uma toalha da pilha sob protestos.

— Mas a piscina tá vazia! — ele garantiu por saber que eu não gostava de nadar com
estranhos.

— E o aquecedor está desligado.

— Deixa de ser frouxo! — Ele insistiu, e eu ignorei.

Enquanto buscava uma toalha, uma dúvida me ocorreu.

— O que você disse aos seus pais sobre o meu sumiço? — Ele demorou a responder e
quando eu olhei para ele notei seu cenho franzido, como se tomasse uma decisão difícil. — O
que você disse, Mike?!

— Desculpe, cara, mas eles me pressionaram e eu tive que falar o que aconteceu no
cinema. Aí eles ficaram preocupados e ligaram pros seus pais, que acabaram indo lá em casa e
nos contando tudo.

— Tudo o quê?!

— Eles falaram da síndrome do pânico e que você não queria mais sair de casa.

— Eu não acredito que vocês fizeram isso pelas minhas costas! E se você já sabia por que
perguntou quando me viu saindo da clínica?!

— Porque eu queria que você me contasse.

— Você é um idiota! — Bati a porta do armário onde estavam as minhas roupas limpas e
me dirigi a um boxe.

— Eu?! Você é que é idiota! Se você tivesse me dito alguma coisa, talvez eu tivesse uma
desculpa pra dar a eles, mas como você me deixou no escuro, eu tive que falar a verdade sobre o
que aconteceu no cinema! Minha mãe achou que eu tava mentindo quando dizia que ia pra sua

casa, já que ela não via mais você!

— Você poderia pelo menos ter me contado que já sabiam!

— Seus pais pediram pra não te contar porque seria melhor pra você, e os meus me
proibiram, mas eu tô contando agora, não tô?!

— Com meses de atraso!

— Quer saber? Vai se ferrar! — Ele puxou a porta do vestiário e já estava com um pé no
corredor quando eu o puxei de volta.

— Eu tenho o direito de estar irritado. — Os braços cruzados evidenciavam que ele não
estava convencido disso. — Mas deixa pra lá, já passou mesmo.

— Eu deixo pra lá se você não disser aos seus pais que eu te contei, porque vai sobrar pra
mim.

— Chantagista.
CAPÍTULO 22 – Festival de rock

A paisagem à minha frente me deixou horrorizado. O parque estava lotado com famílias
inteiras, até cachorros.

— Vai ficar tudo bem. — Jenny colocou a mão sobre a minha, me confortando. — A

gente não vai te deixar sozinho. — Ela colou seu corpo ao meu e espalhou beijos pelo meu
queixo e pescoço. — Está frio demais pra esperarmos lá fora, e eu estava mesmo querendo uma
oportunidade pra te dar uns amassos...

Embora eu soubesse que a frase fora dita para me distrair, fiquei preocupado com a
possibilidade de ela realmente começar a me agarrar em público e em plena luz do dia. Às vezes,
eu achava que faltava um parafuso naquela cabecinha ruiva, por isso segurei suas mãos e as
mantive longe de mim, mas me inclinei sobre ela e a imprensei contra o banco do carro,
capturando a sua boca de forma selvagem, me alternando entre morder e sugar seus lábios
macios. Juntei seus pulsos e os segurei com uma mão enquanto a outra segurava seu cabelo,
mantendo sua boca cativa da minha para que minha língua pudesse desfrutar dela.

A minha ruiva não tinha o corpo repleto de curvas acentuadas, ela era o que se podia

chamar de mignon e, para mim, era mais que perfeita. Era a única garota capaz de me deixar em
chamas com um simples olhar, um sorriso ou um beijo inocente. Na verdade, a simples visão
dela era suficiente para me aquecer por inteiro e me fazer esquecer que eu estava nervoso por
estar em meio a uma multidão.

— Isso não é justo, eu quero tocar em você também. Eu prometo me comportar! —


protestou, ofegante, quando eu a deixei respirar.

— Quem disse que a vida é justa? Você nunca cumpre essa promessa, e como eu não
quero ser preso por atentado ao pudor, vou manter você assim. — Calei seu próximo protesto
com outro beijo e não admiti que meu principal motivo para a segurar era evitar que minhas
mãos vagassem por seu corpo, como elas ansiavam em fazer.

Quando o nosso beijo estava esquentando, alguém bateu na janela do carro, nos
assustando. Quando virei e dei de cara com Mike, tive vontade de matá-lo. Isso acontecia com
uma frequência alarmante — eu querer matar Mike, não beijar loucamente Jenny, em um local
público, durante o dia. Abri a porta a contragosto e fui retirado do carro à força com uma gravata.

— Ei, cara, você precisa de um extintor pra apagar o fogo? Eu tenho um no carro! —
Rindo, ele me empurrou contra a lateral do próprio carro.

— Agora eu não preciso mais, já que você estragou o clima! — Eu me desvencilhei do


seu braço com um empurrão que o fez pisar no pé de Rox e receber um beliscão.

— Meninos, não briguem. Vocês vão acabar se machucando — ela disse, revirando os
olhos.

— Não estamos brigando. Estamos reafirmando nossa amizade no idioma masculino.

— Garotos são tão estranhos — ela resmungou, e Jenny concordou antes de seguirem em
direção à multidão.

— Mike, esse lugar está lotado, e eu não me dou muito bem em lugares assim... —
sussurrei, não querendo ser ouvido pelas meninas.

— Tranquilo, cara, ninguém vai chegar perto de você. Nós vamos nos divertir! —
garantiu, jogando um braço sobre os meus ombros antes de seguirmos as meninas. Logo depois,
ele sussurrou que a vista ali atrás era interessante e eu tive de concordar com ele. Jenny havia me
transformado em um ser acéfalo movido a testosterona — fiz uma nota mental de agradecer a ela
por isso mais tarde.

Claro que a primeira coisa que fizemos foi comprar fish and chips, afinal, Mike era
movido à comida. Depois, nos dirigimos ao palco principal, onde ficamos curtindo o som das
guitarras de bandas desconhecidas. Quando a terceira banda entrou, eu pude ouvir a guitarra do
cara gritando por ajuda enquanto ele assassinava suas cordas, então resolvemos ir ao parque de
diversões.

— Vamos naquele?! — Rox gritou mais alto do que a guitarra agonizante, apontando
para um brinquedo a vários metros do chão. Era uma bola de metal presa por dois elásticos em
colunas de ferro imensas. O elástico era esticado e a bola lançada para o alto, onde ficava

subindo e descendo como um ioiô até parar. Jenny e eu topamos imediatamente, já Mike gemeu
ao ver a altura daquilo.

— Tem certeza de que você quer ir naquilo, Rox? — ele indagou, lançando a ela um
olhar suplicante por misericórdia.

— Claro! Você não quer? Deixa de ser covarde! — Ela começou a empurrá-lo em
direção à fila do brinquedo enquanto ria do medo dele.

— Eu não sou covarde, só não quero morrer! Isso se chama autopreservação.

— Não se preocupe, Mike. Se seu cinto abrir você vai ficar se batendo na gaiola e talvez
os seus braços e pernas passem pelo buraco, mas seu cabeção vai ficar preso na grade. — Seus
olhos esbugalhados me fizeram rir, até levar um empurrão que me fez dar dois passos para frente
e ficar paralisado.

Contei até dez, seguindo os conselhos do Mark e lembrando a mim mesmo que estava
tudo bem. Eu me recusava a deixar que pensamentos infundados estragassem aquele dia. Não
demorou muito para que eu me acalmasse e voltasse a perceber o ambiente ao meu redor,
inclusive os braços de Jenny me rodeando e Mike e Rox me olhando de forma cautelosa.

— Eu estou bem, desculpe — afirmei, me sentindo envergonhado.

— Foi um bêbado que tropeçou e derramou cerveja em cima de você. Cara, você tá
fedendo! Eu acho que a gente precisa ir limpar sua jaqueta, então não vamos poder ir no
brinquedo — Mike falou atropelando as palavras, já me tirando da fila.

— Fica aí, Mike! Você não precisa ir comigo, se não quiser. E você, Augusto, não
precisa se preocupar porque eu, você e Mike podemos colocar qualquer um pra correr daqui. Só
a Jenny não pode ajudar a gente a se defender porque ela só tem um metro e meio — Rox
explicou com a cara mais séria do mundo, suavizando o clima.

— Ei! — Jenny berrou e escapou do meu abraço, mas eu a puxei de volta e beijei sua
testa, sentindo a tensão me abandonar.

— Você é baixinha, Jenny, mas é perfeita. — Apoiando meu queixo sobre sua cabeça,
completei: — É um lindo e ruivo descansador de cabeça.

— Chato! — Enquanto ela tentava me bater, eu tentava beijá-la. Até que ela não resistiu
ao meu charme e me abraçou novamente, mantendo o rosto escondido em meu peito.

— Ahhh, tenha dó, parem com isso! — Mike protestou.

— Deixa eles, garoto! — Rox deu uma cotovelada nele.

— É que assim eu fico com vontade de agarrar alguém também — choramingou,


massageando a costela agredida e encarando Rox. Com muito custo, contive a gargalhada pela

falta de sutileza do meu amigo.

Finalmente chegou a vez de Mike e Rox e, a julgar pela expressão horrorizada que ele
tinha ao subir no brinquedo, imaginei que só fora porque era isso ou Rox iria com o cara que
estava atrás de nós na fila. Quando ele saiu, extremamente pálido, eu tive certeza disso.

Na nossa vez, o operador nos mandou colocar o cinto, nos instruiu a manter os pés nos
suportes e fechou a grade. Quando ele foi até a cabine, eu conferi o cinto da Jenny e beijei sua
bochecha, me ajeitando no lugar quando a gaiola começou a ser içada. Um tempo depois, ela foi

lançada ao ar e tudo o que podíamos ver era o céu azul, para logo em seguida cair e vermos o
chão se aproximando a uma velocidade vertiginosa, enquanto sentíamos nossos órgãos se
deslocando. Um grito estridente perfurou os meus tímpanos no mesmo instante em que uma
mecha assassina de cabelo ruivo se dirigia a toda velocidade para perfurar o meu olho direito.
Por instinto, estapeei aquela mecha, salvando meu olho da cegueira iminente, e segurei os outros
tufos, me livrando de novos ataques. Após todo o ataque ser controlado, segurei a mão de Jenny
para tentar acalmá-la, embora tivesse me divertido com a histeria dela.

A velocidade começou a diminuir, e fomos levados de volta ao chão. Saímos meio

cambaleantes, e uma Jenny meio descabelada e muito sexy me olhou com olhos brilhantes.

Paramos em uma barraca para tentar encaçapar bolas e ganhar animais de pelúcia. Rox e
eu perdemos por muito pouco e fomos duramente vaiados pelos nossos supostos amigos. Mike
conseguiu acertar todas e recebeu da máquina um lindo gatinho, que ele deu à Rox. A minha
ruiva ganhou seu próprio bichinho e me deu de presente. Era o cachorro mais feio que eu já vira
na vida, e eu fiquei imaginando se Sammy gostaria dele...

Morrendo de sede, deixamos as meninas na fila da roda-gigante e fomos comprar algo


para beber. O dia estava sendo fenomenal, até Mike dizer que eu tinha concorrência. Olhei na
direção apontada e vi dois caras um pouco mais velhos que nós conversando animadamente com
elas, sendo que um deles estava excessivamente perto de Jenny. O que me deixou com mais raiva
foi notar que ela não estava incomodada com sua proximidade. Desisti da bebida e avancei de
volta até elas a passos largos, sendo seguido por Mike. Ao chegar lá, puxei Jenny para perto de
mim e recebi dela um olhar assustado, que logo foi substituído por uma sobrancelha erguida, um
aviso silencioso de que eu deveria me comportar.

— Esse é o meu namorado, Augusto, e esse é o Mike. Esses são o Will e o Daniel. — Ela
não deu a eles um título, mas o tal Will o fez enquanto apertava a minha mão, ato que realizei a
contragosto.

— Eu fui namorado dela. Você tem sorte por ser o cara da vez! — O comentário
inconveniente provocou um silêncio constrangedor, quebrado pelo próprio cara de pau ao
perguntar se podia ficar conosco.

Embora Jenny andasse de mãos dadas comigo, ele conversava apenas com ela, ignorando
o resto de nós.

— Vou ver você em Cambridge no próximo ano, Jenny? — Meu estômago se contorceu
ao saber que ele estudava na universidade de escolha dela.

— Ainda não decidimos entre Cambridge e Oxford. — O fato de ela assumir que eu iria
para uma dessas duas universidades transformou o contorcionismo do meu estômago em um
looping. A coisa só melhorava.

Felizmente o amigo dele disse que precisava ir embora e levou o imbecil junto.
Infelizmente já era tarde demais para consertar o estrago, e fomos embora também. Minutos
depois, estávamos na frente da minha casa em um silêncio mortal, até que ela desligou o carro,
talvez percebendo que a conversa seria longa.

— Você vai ficar com cara de tacho por quanto tempo? — exasperou.

— Desculpe por considerar seu ex-namorado um idiota.

— Ele foi mesmo um idiota, mas eu não posso mandar no comportamento dos outros, e

você tá sendo tão idiota quanto ele! — ela gritou.

— Você podia ter mandado ele ir pastar! — respondi no mesmo tom.

— Eu sou inglesa, Augusto. A gente não manda as pessoas pastarem, mesmo que elas
mereçam. — Ela me encarou e suavizou a voz antes de continuar. — Eu estava com você, não
foi? Pra que esse mau humor todo?

Eu conhecia bem o excesso de polidez dos ingleses, mas ela poderia ter aberto uma
exceção para o idiota. Certamente Mike e Rox não a culpariam por isso.
— Por que você não me contou que ele estuda em Cambridge?

— Desculpe por não ter conversado com você sobre meu ex-namorado... — murmurou.

— Por que vocês terminaram?

— É sério isso?! Você quer uma ficha do meu namoro com ele?! Então vamos lá: nós
somos amigos há muito tempo e namoramos por um ano, até que ele foi pra Cambridge, e eu

terminei o relacionamento porque não tenho vocação pra namoro à distância. Está satisfeito
agora?! — Ouvir aquilo foi o golpe de misericórdia, pois todo dia eu me perguntava o que seria
de nós se eu não pudesse sair de Coventry com ela.

— Eu tenho que entrar — sussurrei.

— Ótimo — ela respondeu de forma seca.

Saí do carro e ela foi embora sem olhar para trás. Era a segunda vez que ela se afastava
de mim sem hesitar e me deixava com o coração na mão, incerto se nossos sentimentos um pelo
outro estavam no mesmo patamar.

Fiquei repassando o final do nosso dia enquanto estava sob a ducha. O ciúme era um
sentimento desagradável ao qual eu havia acabado de ser apresentado.
CAPÍTULO 23 – Jennifer – Revelações parte I

Encontrar aquele portão fechado me fez sentir ainda pior. A forma como Augusto e eu
encerramos a nossa conversa no dia anterior não me deixou dormir. Relembrar o nosso encontro
com Will me fez entender como ele se sentiu e perceber que eu também ficaria com ciúmes se
estivesse no lugar dele.

Após estacionar o carro do outro lado da rua, tirei o celular do bolso e fiquei dividida
entre ligar ou não. Eu não sabia se ele estava com raiva de mim. Após uns minutos de indecisão,
uma bolinha peluda apareceu no meu campo de visão, ao fim da rua. A bolinha saltitante era
seguida por um rapaz tão lindo, que fez meu coração perder uma batida antes de iniciar um ritmo
frenético. Ele estava usando jeans escuros e uma jaqueta preta. Segurava um frisbee e brincava
com uma bolinha de tênis, fazendo-a quicar no chão. A cabeça baixa para encarar a bolinha fazia
o cabelo cair sobre os olhos, lhe conferindo uma beleza surreal.

Eu nunca fui o tipo de garota que espera encontrar um príncipe encantado, então essa
paixão avassaladora que eu sentia por ele me assustava. Sendo tão introspectivo e cheio de
segredos, eu não sabia onde ele estava em relação a nós, o que me deixava com medo de entregar
o meu coração, e ele não estar disposto a recebê-lo.

Saí do carro e me recostei nele quando os dois estavam se aproximando. Distraído como
estava, ele não me notou, mas a bolinha peluda, sim, e saiu disparada para cima de mim, pulando
em meus braços como uma saltadora olímpica, me fazendo rir. Algum tempo depois, o meu
menino bonito chegou perto de nós e se desculpou pelo comportamento de Sammy e por não
haver ninguém em casa para me receber. A distância emocional que eu notei nele doeu mais do
que eu pensei ser possível.
Depois de abrir o portão e garantir que Sammy estava segura, ele aguardou que eu
estacionasse e entramos juntos na casa. Tiramos os casacos e os sapatos em um silêncio.

— Eu vou pegar um removedor de pelos pra você — avisou, já entrando na sala de estar.

Ele estava frio como o garoto que eu conheci e que se sentia desconfortável perto de
mim. Aquele Augusto não era o meu, e eu queria o meu de volta.

— Espere. Está tudo bem? Nós estamos bem? — Caminhei em direção a ele e apoiei uma
mão em seu peito. Sentir seus batimentos cardíacos era uma boa forma de saber se ele estava
nervoso. E estava.

— Me diga você. Estamos bem? — questionou parecendo tímido e receoso. — Ontem


você foi embora com raiva de mim.

— Você estava sendo irracional ontem.

— Estava? — Seu tom de voz sugeria o contrário.

— Só um pouquinho. — É claro que eu não admitiria para ele que eu também teria sido
irracional. — Casais discutem mesmo. Não vamos deixar que ele estrague o que nós temos,
certo? — Ele estendeu um dedo e colocou uma mecha do meu cabelo atrás da minha orelha. O
gesto carinhoso me fez sentir mais confiante e feliz. — Eu não vim aqui pra falar dele. Vim pra

ficar com você e pra comer baclava, claro.

O sorriso dele fez meu coração flutuar. A vontade que eu sentia de tocar em qualquer
parte de Augusto era constante. Contornei com um dedo uma sobrancelha preta, naturalmente
delineada, quase sem pelos fora do lugar, e tive vontade de beijar o nariz salpicado por pequenas
sardas, que nele eu achava a coisa mais fofa. A lembrança do quanto ele odiava ser chamado de
fofo me fez rir.

— O que foi? — Quis saber do que eu estava rindo.


— Nada. Você sabia que brigas têm um lado bom? — Eu me coloquei na ponta dos pés e
beijei seus lábios levemente. Várias vezes.

— Têm? — perguntou de forma desconfiada, entre os selinhos. — Qual?

— Fazer as pazes.

Quando ele sorriu, eu não pude mais conter o desejo que me assolava desde que o vira lá

fora, brincando com aquela bolinha. Mordisquei seu lábio inferior, pedindo passagem para um
beijo de verdade. Ele se entregou ao momento e me beijou apaixonadamente, literalmente tirando
os meus pés do chão quando se ergueu em toda a sua altura.

Eu fui gentilmente depositada sobre o sofá. Ele debruçou sobre mim e começou a traçar
uma linha de beijos do meu queixo até o decote da minha blusa, me fazendo duvidar de que
haveria baclava. Fez bem ao meu ego conseguir fazer o meu namorado, sempre tão tímido e
contido, se entregar à paixão, mas eu sabia que em breve ele se sentiria desconfortável e pararia,
por isso resolvi me aproveitar da situação enquanto podia.

— Augusto tem um bicho entrando na sua camiseta, tira isso! — gritei, expressando um
desespero genuíno e o fazendo arrancar a camiseta sem hesitar.

— Onde?! — indagou, sacudindo freneticamente a peça de roupa.

— Deve ter voado, mas o susto valeu a pena, porque a vista é arrasadora.

Admirei com avidez aquele corpo de nadador, do abdome divido, passando pelo peitoral
definido, até os ombros largos e braços musculosos, porém sem exageros. Limpei a baba
imaginária que escorria pelo meu queixo e o encarei, abrindo um largo sorriso ao ver seu rosto
corado e seu olhar incrédulo.

Caindo na gargalhada, ele voltou a debruçar sobre mim e agarrou os meus pulsos,
impedindo minhas mãos de tocarem aquela escultura natural.
— Você é doidinha, minha ruiva, e me deu o direito de ter a minha vez.

Enquanto seus lábios viajavam pela minha boca e pescoço, sua mão livre viajava pelo

meu corpo de uma maneira que nunca tinha feito antes, entrando sorrateiramente sob a minha
blusa e me pegando de surpresa. Seus dedos frios traçando círculos na minha barriga enquanto
subiam lentamente me causavam arrepios. Antes de tocar um ponto mais íntimo, ele me olhou,
claramente pedindo permissão, e sua consideração por mim me emocionou. Um sorriso foi
resposta suficiente para que ele erguesse a minha blusa, me fazendo odiar a escolha da peça

branca. Obviamente a escolha de uma garota que não pretendia seduzir o namorado.

— Gosta do que vê? — perguntei, me divertindo com a expressão boba dele enquanto
encarava o que havia revelado.

— Sem dúvidas. — Ele sorriu com aquele jeito de menino tímido que me cativava e
tomou a minha boca com sofreguidão, enquanto o seu corpo deixava claro que me queria tanto
quanto eu o queria.

Deixando os meus lábios, sua atenção se voltou para o caminho que seus dedos
percorriam, traçando o contorno da lingerie antes de alcançar um ponto sensível que me fez
suspirar.

Eu me contorcia em agonia enquanto sua mão explorava o meu corpo e sua boca
mordicava a minha orelha e distribuía beijos pelo meu pescoço. Era uma tortura não poder
retribuir ao seu toque, mas se ele precisava estar no controle para se sentir seguro, eu daria isso a
ele. Por enquanto.

— Para quem é inexperiente, você sabe bem o que está fazendo — expressei em voz alta,
com o desejo nublando a minha inteligência.

— É tão óbvio assim? — ele murmurou, parando o que estava fazendo.

Se eu pudesse chutar a mim mesma, teria feito. Eu deveria ter imaginado que o
comentário o deixaria envergonhado.

— Não pra todo mundo. Só pra mim. — Vendo sua expressão desanimada, completei: —

Não tem nada de errado com isso e não é incomum na nossa idade. Não se preocupe com isso, tá
bom? — Depois de me olhar por mais alguns segundos, ele recomeçou as carícias, mas por
algum motivo parecia estar com raiva, o que me deixou desconfortável.

— Foi com ele que você perdeu a sua? — indagou enquanto beijava meu pescoço.

— O quê? — perguntei, incerta sobre o que ele quis dizer.

— Aquele cara de ontem. Foi com ele? — A pergunta levou lágrimas aos meus olhos.

— Não é da sua conta e tire as mãos de cima de mim, Augusto! — gritei, enraivada e
magoada pela atitude machista. — Eu não vou te pedir desculpas por ter transado com alguém
antes de namorar você! — Tentei livrar minhas mãos para secar as lágrimas que escorriam contra
a minha vontade.

— Não foi isso o que eu quis dizer — ele se justificou, se afastando de mim e vestindo a
camiseta.

— Então se explique, porque está parecendo exatamente isso, e eu não suporto


machismo! — Engoli as lágrimas, mas não a raiva, então cruzei os braços para evitar esganá-lo.

Ele pareceu infeliz ao admitir que tinha ciúmes de Will por ser perfeito, ao contrário dele.
E que não queria se sentir assim, mas que saber que houve mais intimidade entre mim e o Will
do que havia entre nós doía.

Ele não se sentiria assim se soubesse o quanto estava errado. Se entendesse que a
intimidade existente entre nós superava e muito a intimidade física. Se ele soubesse que mesmo
sem intenção eu uni o meu coração ao dele, nunca se sentiria inferior ao meu ex.

Eu fui tomada pela incredulidade ao saber como ele se sentia. Ele era tão bom em manter
a fachada arrogante, que eu esquecia o quanto ele era frágil em alguns aspectos. E quando essa

fragilidade ficava evidente, toda a minha raiva evaporava.

— Por que você acha isso? O que você acha que o Will tem e você não?

Evitando me olhar, ele disse que Will parecia mais adulto e que certamente fazia coisas
de homem quando namorávamos, como me levar para passear e me buscar e deixar em casa, em
vez de ser o contrário. Também disse que eu certamente estava melhor com o Will do que com
ele. Naquele momento, eu percebi que as feridas dele eram mais profundas do que eu supunha. A
autoestima e a masculinidade foram abaladas pelo que eu imaginava ter acontecido em algum
momento da sua vida.

— Ei. — Levantei seu rosto, obrigado Augusto a me olhar. — Eu fico tão orgulhosa de
você por estar se esforçando pra enfrentar os seus medos. O Will nunca teve que fazer isso, então
você não pode ser inferior a ele. E é bobagem achar que é você quem tem que me levar pra casa,
mas eu sei que um dia você vai conseguir fazer isso, se é o que você quer. Eu não preciso de
proteção, Augusto. Eu só preciso da sua confiança.

Tomei sua mão e o levei até a escada. Embora ele tenha criado um pouco de resistência,
me permitiu levá-lo até seu quarto, onde o coloquei de frente para o grande espelho e perguntei o
que ele via. Ele me olhou sem entender, então eu descrevi o que via:

— Primeiro de tudo, não se compare ao Will, porque é você quem eu quero, não ele.
Depois, ele tem quase vinte anos, então é natural que tenha uma fisionomia mais adulta do que a
sua. Por último, saiba que eu adoro tudo em você, da delicadeza ao sarcasmo. O seu jeitinho
tímido atrai as garotas, mesmo que você odeie isso. Te deixar corado é o meu passatempo
preferido. O contraste entre a cor do seu cabelo e dos seus olhos te dá um toque especial. Você
fica tão sexy quando abaixa a cabeça nas aulas e seu cabelo cai no seu rosto, que eu preciso me
controlar pra não ser expulsa por agarrar o coleguinha. O seu sotaque faz as meninas suspirarem,
e eu tenho vontade de quebrar a cara delas. Mesmo odiando sair de casa, você não desiste do que
é importante pra você. Você doa seu pouco tempo livre pra ensinar crianças a nadar e ajuda
qualquer um que te peça, sem reclamar. Como você não enxerga o quanto é forte e uma pessoa
linda por dentro e por fora?

Mirando o espelho, ele perguntou com desprezo:

— Então você não acha que eu pareço uma menina com esse rosto delicado?

— De onde você tirou isso?! — perguntei com espanto.

— Alguém me disse isso uma vez — ele sussurrou de cabeça baixa. Aquela afirmação
era mais uma prova de que algo havia acontecido e o estava corroendo por dentro.

— Você tem o mesmo nariz pequeno e queixo fino do seu pai. Você acha que ele parece
uma menina? — Ele negou com a cabeça, e eu continuei: — Quem falou isso mentiu pra te
magoar.

Entrando na sua frente para olhar em seus olhos, decidi perguntar diretamente, evitando
que mais uma vez ele desviasse do assunto.

— Augusto, alguém abusou de você?


CAPÍTULO 24 – Jennifer – Revelações parte II

Ao ver seus olhos marejarem, eu não precisei de uma confirmação verbal. A raiva que
senti pela pessoa que o machucara daquela forma levou lágrimas aos meus olhos também.

— Por que você nunca me contou? — sussurrei, envolvendo-o em um abraço não

correspondido.

— Você acha que eu gosto de espalhar isso por aí?!

Não me deixei abalar pela grosseria ou pela raiva expressa na voz. Ele queria me punir

pela dor que eu estava lhe causando ao fazê-lo relembrar aquilo, então me preparei para mais
grosserias, mas elas não vieram. Em vez disso, ele suspirou e me abraçou de volta.

— Foi o seu treinador? Por isso você parou de competir?

— Não! Ele nunca faria isso.

Eu estava perdida em possibilidades quando ele perguntou se eu queria saber como


desenvolveu síndrome do pânico. Antes que eu pudesse responder, ele fez outra pergunta:

— O que você acha da frase “homens não choram”?

— A maior besteira que eu já ouvi na vida.

— Que bom, porque eu costumo derramar muitas lágrimas quando penso ou sonho com
ele.

— Ele quem? — indaguei embora tivesse medo de ouvir a resposta.

— No líder dos meus sequestradores.


Ele me levou até a chaise e permaneceu de pé na janela, olhando para fora. Começou me
dizendo que nascera em San Diego, e que ele e a família moravam em frente ao mar, onde
aprendeu a amar a natação.

— Eu era feliz. Tinha vencido o campeonato estadual de natação só algumas semanas


depois de completar quinze anos. A minha mãe fazia parte de uma equipe de cirurgia cardíaca, e
o meu pai era promotor. Nós três tínhamos carreiras em ascensão. — Ele tocou o vidro da janela
como se estivesse visualizando algo do qual sentia saudade. — Eu estava na frente de casa

quando eles chegaram e me jogaram num carro. Nossas vidas mudaram depois daquilo. Os meus
pais abandonaram tudo por mim.

Seu corpo ficou tenso, mas sua voz continuou calma enquanto continuava narrando:

— Eu acordei sendo arrastado pelo cabelo e vi que estávamos em uma clareira. Me sentia
tonto e enjoado, então caí e comecei a vomitar. Foi quando eles me deram o primeiro chute. Eu
tentei levantar, mas eles me deram outro e outro... Eles não me deram nenhuma chance de reagir,
mesmo que eu não tivesse nenhuma chance contra eles. Senti algumas costelas sendo quebradas.
A dor era insuportável. Eu pensei que eles queriam dinheiro e disse que meus pais pagariam, mas
eles riram e disseram que estavam ali pra mandar um recado pro meu pai e que se divertiriam
fazendo isso. Eu não entendi na hora, mas depois soube que meu pai estava trabalhando no caso
de um traficante perigoso que com certeza seria condenado. Eles pretendiam usar as famílias pra
intimidar todos os envolvidos na elaboração do processo.

Ele falava de maneira distante, como se aquilo não fosse com ele, mas o sofrimento ao
relembrar a experiência era perceptível na voz.

— Eles acharam que eu estava debilitado demais pra tentar fugir e se afastaram um pouco
enquanto discutiam alguma coisa. Quando eu achei que tinha uma oportunidade, corri até a
floresta, mas não tinha nenhum lugar onde me esconder e mal conseguia respirar com as costelas
quebradas, então eles não demoraram muito pra me pegar de novo. Me colocaram contra uma
árvore e se revezaram me fazendo de saco de pancadas.

Vendo que seu corpo começava a tremer, o chamei para sentar ao meu lado, mas ele se

recusou.

— O que dava as ordens era chamado de J. Ele disse que seria uma pena estragar meu
rosto, mas não hesitou em fazer isso. Quando se sentiu satisfeito, mandou que me colocassem
sobre o capô do carro e disse que se divertiria comigo.

Quando ele fechou os olhos, como se não pudesse pensar no que viria a seguir, eu não
pude mais ficar ouvindo sem lhe dar algum conforto, então levantei e o abracei, mas ele se
desvencilhou de mim como se não aguentasse o meu toque. Depois sentou afastado e colocou os
pés para cima, mantendo os joelhos próximos ao rosto, e recomeçou a falar ainda mais rápido,
como se tivesse medo de perder a coragem.

— Ele arrancou a própria roupa e a minha também. Os outros dois me deixaram


completamente imobilizado e eu não pude fazer nada além de gritar pra que ele não tocasse em
mim. — Uma lágrima solitária escorreu pelo seu rosto e ele a limpou com raiva enquanto
continuava. — Eles me ignoraram e começaram a falar sobre mim como se eu não estivesse ali.
Um deles perguntou se ele ia mesmo comer um menino, e ele respondeu que não fazia diferença
pra ele, mas que eu até parecia uma menina, tendo um rosto tão delicado.

— Essa frase ficou marcada em você, não foi?

— Muitas coisas ficaram — ele sussurrou. — Ele sussurrou no meu ouvido que eu iria
gostar. Que era só relaxar. Os três se divertiam com meu desespero. As risadas deles, as coisas
que eles me disseram e o perfume do tal J nunca me abandonaram.

Aquela lágrima solitária já havia se transformado em várias e banhavam o rosto de


Augusto, que estava encolhido como se quisesse desaparecer. Eu tentei novamente abraçá-lo,
precisando confortá-lo, porém ele rejeitava o meu consolo, afastando as minhas mãos e evitando
o meu olhar.

— Ele puxava o meu cabelo e me dizia pra parar de fazer drama porque sabia que eu ia

gostar e gritar como uma vadia, então eu não fiz mais nenhum barulho. Sem gritos e sem choro.
Achei que pelo menos isso ele não ia conseguir arrancar de mim, mas eu estava errado. Ele ficou
com raiva e disse que me faria gritar de um jeito ou de outro. Se afastou de mim e, quando
voltou, eu senti algo pequeno e afiado entrando nas minhas costas, mas não gritei. Ele fez isso
várias vezes enquanto abusava de mim e ficou cada vez mais furioso porque eu não gritava. Ele

conseguiu o que queria quando perfurou os meus testículos. Eu engoli o orgulho e fiz o que ele
queria, porque era melhor gritar por uma dor só do que por duas.

Àquela altura ele já chorava compulsivamente e eu também, me sentindo profundamente


culpada por ter insistido tanto para que ele me contasse algo que o machucava tanto. Eu lhe
ofereci um copo d’água da jarra perto da cama, e ele bebeu um pouco antes de continuar.

— Ele não parava de sussurrar no meu ouvido, me chamando de vadia e me mandando


relaxar. O desgraçado me dizia pra relaxar enquanto roubava a minha vida!

Ele arremessou o copo na parede, tão transtornado, que por um momento eu tive medo de
me aproximar, mas fiz isso quando ele escondeu o rosto nos joelhos, soluçando. Eu o embalei em
meus braços enquanto ele chorava e extravasava toda a dor que sentia.

— Eu sinto muito, Guto. Eu sinto tanto que tenham machucado você dessa forma... —
Assim como ele, eu também não conseguia parar de chorar.

— Você sabe que eu não queria isso, não sabe? — Seus olhos vermelhos expressavam
todo o desespero com o qual precisava que eu acreditasse nele.

— É claro que eu sei, meu anjo.

— Então você não tem nojo de mim agora? — perguntou com um fio de voz.

— É claro que não, Guto.


Puxando-me para o colo, ele me deu um abraço apertado e colocou o rosto em meu
pescoço, sussurrando um agradecimento que fez meu coração doer ainda mais por ele. Augusto
não merecia isso. Ninguém merecia. Depois de chorar no meu ombro por vários minutos
enquanto dizia que não queria nada daquilo, ele se acalmou e continuou falando.

— Eu achei que depois daquilo eles me deixariam voltar pra casa, mas eles ainda tinham
planos pra mim. — Eu fechei os olhos, contendo meu próprio desespero ao saber que ainda tinha
mais. — Ele disse que marcaria o recado na minha pele pra eu não esquecer e que seria uma

tatuagem legal. Desapareceu por um tempo e reapareceu com um ferro incandescente, em


formato de estrela. Eu não me importava mais com orgulho e implorei pra ele não fazer aquilo.
Ele riu e disse que tinha mandado fazer especialmente pra mim. Quando ele encostou aquilo na
minha perna, eu não soube o que era pior, a dor ou saber que aquele cheiro de queimado vinha de
mim. Os outros faziam piada enquanto ele esquentava o ferro outra vez. Quando ele queimou a
minha outra perna, eu pedi a ele pra me matar porque não aguentava mais.

Ele voltou a chorar copiosamente, enquanto apertava uma das pernas como se estivesse

sentindo a dor daquela queimadura. Eu mesma conseguia sentir a dor e o desespero dele através
daquele relato e me senti horrível por fazê-lo reviver aquela experiência.

— Me perdoe por ter feito você relembrar isso — pedi, acariciando o seu cabelo. — Eu
odeio eles por terem machucado você. — Eu o apertei o máximo que pude e não consegui evitar
soluçar também, imaginando o tamanho do sofrimento dele.

Quando conseguimos parar de chorar, ele pediu licença para ir se recompor e eu recolhi
os pedaços do copo estilhaçado enquanto eu o esperava. A sensação de tristeza ainda presente em
mim era tão grande, que eu tinha vontade de começar a chorar outra vez. O que eu imaginava
que tivesse acontecido com ele já seria ruim o bastante, mas nem se comparava ao que foi de
fato. Eu não entendia como alguém conseguia torturar outro ser vivo, deixando marcas na pele e
na alma.
CAPÍTULO 25 – Jennifer – Revelações parte III

Embora tenha voltado ao quarto de rosto lavado, seus olhos ainda mostravam vestígios do
choro recente e carregavam o peso daquela conversa. Ele parou na minha frente, visivelmente
desconcertado e sem saber o que fazer com as mãos. Abraçamo-nos e ficamos nos consolando
mutuamente com o calor do corpo um do outro. Eu protestei quando ele disse que me contaria
sobre os traumas que ficaram, o começo da síndrome e a mudança para a Inglaterra, mas ele
disse que queria acabar com todos os segredos entre nós.

Sentamos lado a lado e ele me contou que acordou no hospital com o corpo e a mente
destruídos e que seu corpo se recuperou totalmente, mas sua mente, não. Disse que a polícia
rapidamente ligou o crime ao traficante e os culpados foram presos e condenados, mas o estrago
em sua família já havia sido feito.

Ele perdeu o interesse no esporte que amava e se recusou a voltar ao colégio quando o
novo ano letivo teve início. Foi diagnosticado com depressão, e sua mãe deixou o emprego para
cuidar dele porque tinha medo de uma tentativa de suicídio. De certa forma, ela culpava o marido
pelo sequestro, e as brigas entre eles se tornaram frequentes. Seu pai mergulhou no trabalho,
lutando pela condenação máxima dos envolvidos no crime, para assim tentar se redimir da culpa
que sentia.

— No primeiro dia que eu saí de casa após minha alta do hospital, eu tive o primeiro
ataque de pânico, mas não sabia disso. Quando coloquei os pés no estacionamento onde faria um
check-up tive absoluta certeza de que algo estava errado e que tínhamos que ir embora. Eu não
sabia do que tinha medo, mas tinha, e ele era avassalador. Minha mãe tentou me acalmar, mas eu
não conseguia acreditar que estava tudo bem e implorei que ela nos levasse de volta pra casa, de
onde me recusei a sair novamente. Também não queria mais ficar sozinho e não conseguia olhar

pela janela, por onde via o local onde fui sequestrado. Eu não conseguia mais dormir sem
medicamentos e, quando dormia, tinha pesadelos. Eu não conseguia mais viver. Então vieram
diagnósticos de transtorno de estresse pós-traumático e de síndrome do pânico. Eu não me
adaptei ao tratamento. Não queria fazer terapia porque não acreditava que conversar com um
estranho me ajudaria. Eu só queria que me deixassem em paz. Um dia o terapeuta disse aos meus

pais que me tirar de San Diego poderia me fazer bem.

Perdido em lembranças, ele me contou que a Inglaterra foi escolhida por ser o país de
origem do seu avô materno e por ter um índice de violência menor do que os Estados Unidos. A
mudança causou uma melhora significativa e rápida, com a diminuição dos pesadelos e do medo.
Como já havia perdido semanas de aulas, precisou de professores particulares e concentrou toda
a sua atenção nos estudos para ocupar a cabeça. O esforço acabou lhe fazendo ser um dos
melhores alunos em várias disciplinas.

— O novo psiquiatra disse que eu tinha que voltar a frequentar um colégio para conviver

com outras pessoas. Lá, eu evitava todo mundo, até o Mike me obrigar a ser amigo dele. — Um
pequeno sorriso de lábios cerrados coloriu a frase. — Também tive uma grande melhora com o
novo psicólogo e voltei a sair de casa. Não saía sozinho, mas sempre saía com o Mike ou com
um dos meus pais. Há alguns meses, eu estava no cinema com o Mike e tive uma crise que me
fez regredir. A sessão ainda estava no início quando eu senti o cheiro do perfume do... dele. Na
verdade, eu nem sei se era o mesmo perfume, mas aquele cheiro me levou de volta à clareira,
como às vezes acontece quando estou com você. — Seus olhos se prenderam aos meus, e eu vi
tanta tristeza neles, que me senti culpada por atormentá-lo, mesmo que sem intenção.

— Eu prejudico você? — indaguei com medo de que ele confirmasse.

— Não! Quero dizer. É complicado. Quando nos conhecemos você me deixava muito
ansioso e eu não lido bem com ansiedade.
— Eu não teria te provocado se soubesse que isso era ruim pra você. — Eu o envolvi em
meus braços, precisando que ele soubesse que eu não queria prejudicá-lo. — Eu juro que nunca
mais vou fazer alguma coisa que te incomode.

— Não, Jenny! Só... continue sendo você. Eu gosto de você assim. — Ele se afastou e
beijou minha testa, percebendo que naquele momento era eu quem precisava ser consolada. —
Agora que você sabe de tudo, eu espero que você entenda que minhas reações não têm nada a ver
com você e que eu nunca quis te magoar.

— Tudo bem. Agora eu entendo.

— Você foi a única pessoa, além do policial que me interrogou, para quem eu contei os
detalhes daquele dia.

— Augusto...

— Eu sei o que você vai dizer. — Ele me interrompeu. — Eu ouço esse sermão quase
todo dia. Todos me dizem que eu já estaria bem melhor se me abrisse mais, mas... se mulheres

têm vergonha de falar que foram abusadas por homens, como você acha que eu me sinto...? —
sussurrou de cabeça baixa.

— Eu entendo, meu anjo, mas você precisa disso. — Eu o abracei novamente, pois sabia
que ele se expressava melhor quando podia ocultar o rosto. — A única forma de fazer uma ferida
cicatrizar é limpando. Tocar nela dói, mas o resultado vale a pena.

— Eu não me importava porque não queria contato com ninguém mesmo. Mas agora que
eu tenho você, eu me importo. Quando eu estou com você, me sinto feliz como há muito tempo
não me sentia, mas às vezes o seu toque me lembra o dele, e a sensação é tão ruim, que eu não
consigo continuar — ele explicou com a voz ficando embargada.

— Eu entendo. O que importa é que você já conseguiu o suficiente pra estarmos juntos e
bem. O resto vem com o tempo. Não precisamos ter pressa.
— Eu aceitei falar com meu terapeuta sobre isso, só que eu preciso de tempo. Você vai
me esperar? — pediu de forma humilde, como se achasse que eu iria desistir dele.

— Eu vou te dar o tempo que você precisar, Augusto. E ninguém vai nos separar. Muito
menos uma letra — afirmei com convicção e o apertei o mais forte que pude.

— Obrigado, minha ruiva. — Ficamos quietos por um tempo, e eu estava satisfeita


sentindo o seu cheiro e o seu calor, mas não suportava vê-lo triste, então decidi tentar arrancar
um sorriso dele.

— Agora eu preciso perguntar uma coisa que está me corroendo.

— O quê?

— O que é aquele embrulho vermelho enorme em cima da sua escrivaninha? — Como


esperado, o som do seu riso contido preencheu o ambiente.

— É um presente pra você. Por que não pega e me diz se gosta? — Quando nos
desvencilhamos, ele agarrou o meu pulso e me fez encará-lo.

— O que foi, menino bonito?

— Podemos nunca mais tocar nesse assunto? — ele pediu, constrangido e vulnerável.

— É claro. Eu não vou mais perguntar sobre isso. Obrigada pela confiança. — Selei o
acordo com um beijo gentil em sua testa e fui buscar o embrulho. — Ele é lindo, Augusto! —
Um grande cachorro de pelúcia marrom com enormes orelhas caídas se tornou o meu presente
favorito.

Ficamos ouvindo o cachorro cantar desafinadamente. A voz era tão ridícula, que nos fez
rolar de rir, esquecendo um pouco da dor e das lágrimas causadas por aquela conversa.

Saber o quanto ele lutava consigo mesmo para ficar comigo só me fez amá-lo ainda mais.
A confiança que ele depositou em mim me fez perceber que o coração dele era meu, assim como
o meu era dele. E a única coisa que me impediu de confessar naquele o momento o quanto eu o
amava foi a certeza de que ele interpretaria a minha declaração como piedade.
CAPÍTULO 26 – Decepção

— Não me culpe, eu bati três vezes!

— Eu estava distraído, mas pode entrar, pai — convidei, apesar de ele já ter entrado.

— A Nathalie me obrigou a te entregar isso. Ela disse que viria se eu não viesse, e eu

achei que você iria preferir que fosse eu. — Seu rosto ficou levemente corado ao me passar uma
caixinha azul e, ao ver do que se tratava, o meu também ficou.

Sem dizer uma palavra, coloquei a bendita caixa na mesinha ao lado da cama e torci para

que ele não quisesse ter a tal conversa com alguns anos de atraso.

— Você e a Jennifer têm ficado muito tempo sozinhos e nós não queremos que vocês
tenham os mesmos problemas que nós tivemos. Você foi um presente, mas cuidar de um bebê

aos dezessete anos não foi nada fácil. — Ele me olhou, semicerrando os olhos, e completou: —
Talvez seja um pouco tarde? Me diga que se eu estiver atrasado você mesmo já comprou isso. —
O tom de voz demonstrava que ele já tinha me julgado culpado.

— Pai, só pare. Você não está atrasado e não vai ser avô aos 35. — Voltei minha atenção
ao notebook, evitando o seu olhar. — Eu sei que vocês não acreditam que a Jenny e eu ficamos
aqui só conversando, mas é verdade. — Não tão verdade assim, mas ele não precisava saber de
tudo.

— Ok... E vocês estão bem com isso?

Para encerrar logo o assunto, admiti que era difícil para mim, mas que eu estava
conversando com Mark sobre aquilo, que ele me dizia para ter paciência e que eu não me
incomodava em esperar. O que eu não admiti foi que tinha medo de que a Jenny não estivesse
tão disposta a esperar por mim quanto dizia estar.

— Hoje nós conversamos durante horas. — Dessa vez, o encarei, pois queria ver sua

reação ao saber que eu contei tudo a ela.

— Tudo?! — perguntou, surpreso, e eu meneei a cabeça. — E como você se sente?

— Era nisso que eu estava pensando antes de você entrar. Eu não sei como devo me

sentir. Por um lado, eu fico feliz por não precisar mais inventar desculpas pra justificar meu
comportamento. Por outro... eu não sei como vou voltar a olhar pra ela e não quero que ela tenha
pena de mim.

— As pessoas subestimam a piedade. Sentir empatia por alguém que passou por uma
situação ruim não deveria ser visto como algo negativo. Somos humanos e sentir empatia faz
parte do que somos. Você fez bem em contar à sua namorada, e não tem motivo algum pra ter
vergonha.

***

Meu primeiro encontro com Jenny depois daquela conversa foi uma surpresa
constrangedora, não apenas pela conversa anterior, mas pelos meus trajes — ou a falta deles.
Mike e eu estávamos encerrando a primeira aula de natação do semestre. Como eu havia perdido
nos palitinhos, era eu quem estava dentro da piscina usando uma sunga, enquanto ele ficava
vestido e seco na borda. Pelo menos o olhar de Jenny deixou claro que ela ainda me desejava e
que continuaria demonstrando isso.

Como prometido, não tocou mais no assunto, mas a pergunta era clara no seu olhar
enquanto olhava fixamente para as minhas pernas, me fazendo confirmar que eu fiz plástica para

remover as cicatrizes, pois não precisava de um lembrete daquele dia a cada banho.
Outra surpresa, essa muito boa, foi a ida ao estádio com Mike. Após os primeiros
minutos, consegui esquecer que estava em um ambiente lotado e me divertir. Meu único medo
era que o meu time perdesse.

Minha semana de férias não poderia estar sendo melhor, até aquele dia.

O dia estava ensolarado apesar do frio, então resolvi fazer um passeio mais longo com
Sammy. Busquei no GPS um parque maior e encontrei um com uma lagoa. Decidi ir para lá
porque o passatempo favorito de Sammy era correr atrás dos patos. Eu a coloquei no suporte da
bicicleta e pedalei até lá. Sabia que Jenny morava naquele bairro, mas não sabia exatamente
onde.

Ao chegar ao parque, prendi minha bicicleta em uma grade e pretendia jogar frisbee com
Sammy, mas ela preferiu me trocar pelos patos e por outros cachorros. Sentei em um banco sob o
sol e fiquei conversando com a dona de um Pastor Alemão enorme que brincava com Sammy
como a criança grande que era. Depois que a senhora foi embora, eu fui até uma barraquinha de
sorvete. Enquanto esperava ser atendido, uma gargalhada conhecida chamou minha atenção, e eu
dei a volta na barraca, feliz por saber quem eu encontraria do outro lado.

A surpresa de ver uma ruiva em trajes de corrida sentada ao lado de um loiro que exibia
uma confiança invejável não foi agradável. Sua risada fluía livremente, e seu corpo exibia a

postura descontraída de quem gosta da companhia. Ele sorria para ela como quem a venerava.
Qualquer um poderia ver que ele ainda era apaixonado por ela, o que tornava difícil a tarefa de
acreditar que ela era a única que não percebia.

“Por que ela estava conversando com ele? Se divertindo com ele? Por que esse ex não
podia continuar no quinto dos infernos? Por que ele tinha que reaparecer na vida dela? E por
que ela permitia que ele se aproximasse?” Essas perguntas me corroíam enquanto eu observava
o entrosamento dos dois.

Os dedos dele se prenderam no cabelo dela e a puxaram para perto um segundo antes que
ele cortasse sua risada com um beijo, que despertou minha ira e me impediu de raciocinar.

Com passos pesados, cheguei até eles, que me olharam com espanto, mas não tiveram

tempo de abrir a boca antes que eu o erguesse do banco pela gola do casaco e desferisse o soco
que estava desejando desde que o conheci. Ele devolveu o soco, abrindo um corte no meu lábio
inferior, mas a dor não me fez lembrar do J e de como eu era avesso à violência. Desferi outro
soco, ainda movido pela raiva, e quando ele tentou devolver, Jennifer se colocou entre nós,
escapando por pouco de recebê-lo por mim, o que fez os três congelarem. Passado o susto, ela

tentou me empurrar para longe do imbecil, enquanto ele gritava:

— Foi ele quem começou!

— Não! Foi você quem começou ao beijar a namorada dele! — ela gritou de volta.

— Agora você lembra que tem um namorado?! — questionei, dividido entre raiva e
mágoa. — Se queria ficar com ele, por que não foi honesta comigo, Jennifer?!

— De onde você tirou isso?! — exclamou, surpresa.

— Talvez da imagem de vocês se beijando?! — A cara de pau dela fez minha raiva
aumentar.

— Eu não beij...

— Cai fora, otário! Acho que você não precisa ver mais nada pra saber que perdeu! — o
idiota gritou, me fazendo partir novamente para cima dele.

— Cala a boca, Will! — ela se exasperou e se colocou novamente entre nós. — Augusto,
vamos pra sua casa conversar.

— Sério?! Eu não quero nem mais olhar pra sua cara! Como você pôde fazer isso
comigo?! Eu confiei em você! — Eu precisava ir embora dali. Olhei em volta em busca da
Sammy, sem perceber que ela tinha ouvido os meus gritos e rosnava furiosamente para Will do
topo dos seus vinte centímetros de altura. — Vem, Sammy! — Parei um táxi que passava e me

joguei dentro dele, seguido por ela.

— Espere, Augusto! — Jennifer correu atrás de mim e tentou entrar também, mas eu
fechei a porta e pedi ao motorista para sair de lá. Era a minha vez de ir embora sem olhar para
trás.

O taxista rodava sem destino enquanto eu tentava decidir para onde iria. Eu esperava que
ela fosse até a minha casa, por isso não queria voltar para lá. Por fim, decidir ir conversar com
Mark na esperança de que ele me ajudasse a colocar a cabeça no lugar. Entrei na clínica minutos
depois, com os olhos marejados e um cachorro nos braços, então Lisa me deixou esperar em um
consultório vazio enquanto perguntava ao Mark se ele poderia falar comigo.

Sozinho naquela sala, as imagens dela rindo com o ex e daquele beijo me torturavam.
Ainda que ela alegasse ter sido pega de surpresa, o simples fato de estar se divertindo com ele
poucos dias depois de eu ter admitido o quanto ele me fazia sentir inadequado era uma traição
que eu não sabia se seria capaz de superar. Eu queria odiá-la, mas não conseguia. À exceção da
raiva que sentia de mim mesmo por ter confiado nela, eu me sentia totalmente vazio.

Somente ao sentir uma mão pressionando o meu ombro, percebi que meus olhos estavam
embaçados por lágrimas não derramadas, por isso continuei olhando pela janela, ocultando o

meu rosto do Mark.

— Vejo que trouxe um amigo.

— Desculpe. Eu não pude passar em casa.

— Não se preocupe com isso. Porque não senta e me conta o que aconteceu.

Fiz o que ele pediu e contei o que tinha acabado de presenciar, admitindo que não era
bom o suficiente para ela ou que pelo menos não era tão bom quanto ele. Aquela admissão, que
foi mais para mim mesmo do que para ele, cavou um buraco profundo no meu peito.
— Você sabe que isso não é verdade, certo? — Mark perguntou com a mesma calma de
sempre, a que eu estava aprendendo a apreciar porque no fundo gostaria de ter.

— Então por que ela estava aos beijos com ele hoje?

— Isso só ela pode responder. — Ele ficou um tempo calado pensando no que me diria a
seguir. — Você tem certeza do que viu?

— Eu acho que sei reconhecer um beijo! — exasperei.

— Você viu um beijo, mas viu quem beijou quem? Viu se ela correspondeu? Você deu a
ela a chance de se explicar?

— Foi ele quem beijou, mas ela estava lá com ele, Mark. Mesmo depois de eu ter contado
tudo a ela. — O volume da minha voz foi diminuindo na mesma proporção em que meus olhos
foram ficando novamente embaçados por lágrimas.

— Tudo? Você quer dizer...

— Que eu contei a ela cada detalhe do que eles fizeram comigo, e o motivo pra começar
a falar foi justamente aquele cara. Ela sabe que eu me sinto um nada comparado a ele, e ainda
assim estava passeando com ele, rindo com ele. Eu aceitei fazer essa terapia porque sabia que ela
queria mais de mim. Eu queria conhecer a família dela e... seguir adiante com ela. Eu confiei

nela. — Falar tudo aquilo me fez perceber o quanto eu estava perdendo. Por fim, a dor me
sobrecarregou e pela primeira vez eu não consegui evitar desmoronar na frente de Mark. Eu
desisti de tentar conter as lágrimas, e ele apenas me deixou chorar.

Depois de um tempo, ele colocou uma cadeira perto de mim e me encarou, me dizendo
que chorar era uma boa forma de colocar para fora parte da dor que carregamos e que há muito
tempo tentava conseguir isso de mim. Ele não me diria isso se soubesse quantas lágrimas eu
costumava derramar quando estava sozinho no meu quarto e, ainda assim, de manhã eu sempre
acordava com a mesma dor.
— Eu não posso te dizer o porquê da cena que você presenciou hoje. A única coisa que
eu posso dizer é que essa garota te faz bem, e que se você confiou tanto nela, então ela deve ser
digna dessa confiança. Mas você tem que lembrar que ela também é um ser humano e por isso
não é perfeita. Prometa que vai conversar com ela.

— E por que eu faria isso?

— Pela sua felicidade. Ela pode ter pisado na bola e você pode ficar chateado com isso,
mas vai ter que pesar na balança o que vale mais: o seu orgulho ou a sua felicidade. Ela pode ter
uma explicação ou um pedido de desculpas para você, mas você precisa dar a ela a oportunidade
de conversar. Não precisa ser hoje. — Depois de um curto silêncio, ele completou com um
sorriso maroto: — Eu gosto dessa garota. Ela conseguiu em poucos meses o que eu não consegui
em mais de um ano. E você tem uma boa amiga aí. — Ele fez um carinho em Sammy, que estava
sentada no meu colo com a cabeça apoiada no meu peito, como sempre fazia ao me ver chorar.

— Eu sei.

No trajeto para casa, a situação voltou a pesar sobre mim. Ao descer do táxi fiquei
aliviado ao ver que Jenny não estava lá, pois ainda não estava preparado para conversar com ela.
Liguei o celular e constatei, satisfeito, que havia muitas ligações e mensagens dela. Corri as
mensagens e todas diziam basicamente o mesmo, que eu precisava ouvir o que ela tinha a dizer.

Eu queria ouvir, pois tinha esperança de que ela conseguisse me convencer de que tudo não
passara de um engano e que eu não iria perdê-la. Mas não estava pronto para a possibilidade de
ouvir que ela tinha saudade de um relacionamento descomplicado, e por isso o escolheu. Vi que
tinha uma mensagem de voz e cliquei nela para ouvir.

“Augusto, eu sei que você está chateado comigo. Eu entendo isso e por isso estou te
dando um tempo pra ficar sozinho, mas depois de tudo... eu estou preocupada. Eu sinto muito,
mas vou ter que ligar pra sua casa se não souber que você está bem.”

Eu não queria que os meus pais soubessem o que acontecera, por isso decidi enviar uma
mensagem para ela, informando que eu estava em casa e que não queria a companhia dela.
Depois desliguei o celular e passei o resto do dia me sentindo vazio.
CAPÍTULO 27 – Escolhas

Uma batida na porta me fez abrir os olhos. Eu não estava dormindo, mas queria muito
voltar a dormir, pois não estava a fim de conversar com ninguém. Queria apenas ficar quieto no
meu canto, lambendo as feridas.

— Eu já disse que não quero comer nada — falei entredentes, tentando controlar a
irritação que crescia devido à insistência da minha mãe em me fazer levantar.

— Você não precisa comer se não quiser, mas precisa me ouvir. — Saltei da cama ao
ouvir aquela voz, que não era da minha mãe.

— O que você está fazendo aqui? — questionei com raiva.

— Me desculpe por vir sem avisar, mas não consigo te dar mais tempo. Essa incerteza tá

me consumindo.

— Consumindo você?! Isso não é sobre você.

— Nem sobre você. É sobre nós. Prometemos conversar quando tivéssemos algum
problema, então você vai me ouvir.

— Prometemos isso por outro motivo, não pra que você pudesse beijar outro cara! —
gritei, perdendo o fiapo de paciência que ainda tinha.

— Eu não beijei ninguém! Eu não magoaria você dessa forma, Augusto!

— Não? E por que fez então?! O que você estava fazendo com ele, Jennifer?!

— Eu não estava com ele, nos encontramos por acaso. Os pais dele moram perto daquele
parque...
— Isso não justifica você dar trela a ele. Você sabe que eu odeio aquele cara!

— Você odeia. Eu, não.

— Bom saber que o que eu sinto não importa pra você. — Foi impossível manter a
decepção ausente da minha voz.

— Eu não quis dizer isso, Augusto. É claro que importa. — Ela deu dois passos em

minha direção, me fazendo recuar.

— Fique longe. — Seus olhos ficaram marejados com minha recusa em aceitar sua
aproximação.

— Eu não dei trela a ele. Eu só parei pra conversar com um amigo.

— Um amigo que ainda é apaixonado por você? Como você pôde fazer isso comigo
depois de eu ter confiado tanto em você? — Pisquei para conter as lágrimas e me senti
repentinamente cansado daquela conversa que me fazia sentir ainda pior. — Vá embora. Eu não
tenho nada pra falar com você.

— Augusto — ela disse com a voz firme. Um contraste diante das lágrimas que
brilhavam em seus olhos. — Você já aliviou seu ego masculino, batendo no William, e eu já te
dei tempo pra esfriar a cabeça. Agora você vai me ouvir.

Sem me dar tempo para retrucar, ela começou a falar que foi amiga do William por muito
tempo, antes de namorarem, e que se separaram quando ele se mudou para Cambridge, mas que
nunca perderam totalmente o contato.

— Ontem nos encontramos por acaso, e eu não vi motivo pra ignorar um amigo. Eu sei
que ele agiu como um idiota no festival, mas achei que era só falta de tato dele e que seu ciúme
era infundado. Eu não esperava que ele me beijasse.

Parada a certa distância de mim, ela me olhava com ansiedade estampada nos olhos. A
mesma que se refletia em mim. Eu queria acreditar nela, e no fundo acreditava, mas estava

magoado por ela ter deixado alguém que me incomodava tanto se aproximar.

— Prometa que vai mandar ele pro inferno se vocês se encontrarem de novo.

— Você sabe que eu odeio imposições! — gritou.

— E você sabe que eu odeio aquele cara, e mesmo assim dá corda a ele! O que você

quer? Que eu aceite que você continue sendo “amiguinha” dele?! — perguntei enquanto fazia
aspas no ar.

— É claro que não! Eu estou tão irritada com ele quanto você, mas não aceito ordens! —
exasperou e cruzou os braços, como sempre fazia quando queria me matar. Eu entendia isso
porque naquele momento também queria matá-la. Percebendo que daquela forma não
resolveríamos nada, pedi paciência aos céus e tentei de outra forma.

— Isso foi um pedido, e não uma ordem, Jennifer. Se coloque no meu lugar e você vai
ver que esse cara é uma pedra no meu sapato e que ele nunca respeitou nosso relacionamento.

Você não tem motivos pra ter ciúmes de mim porque sabe que é a única garota na minha vida.
Eu não tenho alguém que te faça se sentir insegura, mas se tivesse, não deixaria essa pessoa se
aproximar de mim. Faria isso por você sem que você precisasse pedir.

Enquanto ela me olhava, eu fui capaz de ver as engrenagens da sua cabeça funcionando.
Lentamente, a raiva em seu olhar foi sendo substituída por compreensão e talvez por um pouco
de vergonha.

— Eu fui uma idiota — admitiu, descruzando os braços e sentando em uma poltrona


próxima, de cabeça baixa. Ela parecia tão cansada daquela discussão quanto eu.

— Eu concordo. — Ela exalou um longo suspiro pela provocação.

— Desculpe por não ter visto a situação pelos seus olhos e por não ter te dado ouvidos.

Eu nunca tive a intenção de te magoar. Nunca estive mais feliz do que nos últimos meses. Me
perdoa por não ter colocado o William no lugar dele e por ter magoado você?

Quando ela ergueu o rosto, eu vi arrependimento em seus olhos vermelhos. O pedido de

desculpa era sincero e acabou com todas as minhas dúvidas.

— Perdoo. Dessa vez — frisei erguendo um dedo.

— É justo. Eu estou livre do castigo agora? Posso ganhar um abraço? — perguntou com

receio.

— É claro. — Ela correu até mim e se jogou em meus braços, espelhando todo o alívio
que eu sentia por termos nos entendido.

— Eu também não me incomodaria em ganhar um beijo e algo mais. — Voltando a ser


ela mesma, me provocou com cara de anjo. Anjo caído, claro.

— Um beijo, tudo bem, mas o algo mais vai ter que ficar pra outro dia. A imagem dos
meus pais lá embaixo não sai da minha cabeça. Pega mal, você sabe.

— Eu esqueci de te dizer, eles me pediram pra avisar que iam dar uma volta. — Foi só o
que ela conseguiu dizer antes que eu a carregasse até a minha cama, ansioso por apagar os
vestígios daquele fulano.

— Você disse que brigas tinham uma parte boa. — Cobri seu corpo com o meu e sua
boca com a minha, sugando seus lábios e arrancando os gemidos que me seduziam.

— Talvez devêssemos brigar mais, menino bonito — sussurrou entre beijos e suspiros,
arrancando em seguida a minha camiseta, que pela primeira vez eu não fazia questão de manter.

— Eu prefiro fazer as pazes sem brigar, minha ruiva.

Abandonando os seus lábios com dificuldade, me ergui sobre os joelhos, mantendo-a


cativa entre eles, e abri o primeiro botão da sua blusa social. Meus dedos roçavam a sua pele no
processo, e esse contato a fazia suspirar, ao passo que meu coração batia no ritmo comandado
por um DJ. Afastei as laterais da blusa após abrir o último botão, revelando uma lingerie de
renda rosa que não deixava muito espaço para a imaginação. Toquei o pequeno botão
intumescido no centro da renda, fazendo-a se contorcer debaixo de mim e esticar os braços para
explorar os músculos do meu peito e abdômen, alternando carícias e arranhões que despertavam
em mim novas sensações.

Engoli em seco e voltei a debruçar sobre ela, permitindo que sentisse o quanto eu a
desejava. Suas unhas arranhando as minhas costas mostravam quantas sensações maravilhosas eu

poderia conseguir com o corpo que eu desprezava desde que fora usado contra a minha vontade.
Com avidez, suguei sua orelha e fui descendo pelo pescoço, satisfeito em ver que era capaz de
extrair dela o mesmo prazer que ela extraía de mim.

Meus dedos mesclavam apertos e carícias suaves em seu corpo, sentindo a textura
aveludada. Minha outra mão deslizou até suas costas e tateou loucamente, tentando descobrir
como abrir o fecho que mantinha cativo o que eu queria ver.

O som da porta da sala sendo batida me despertou da névoa de prazer e me fez saltar da
cama na velocidade da luz, vestindo a camiseta logo em seguida. Um olhar para baixo me fez
entrar em desespero. A protuberância na minha calça de moletom estava diminuindo, mas não
rápido o suficiente. Estiquei a camiseta sobre ela e torci para ser o suficiente para disfarçá-la. A
imagem da minha ruiva ainda esparramada na minha cama com a blusa aberta me deixou
horrorizado.

— O que você está fazendo?! Levante, Jennifer!

Eu a puxei da cama sem muito cuidado e comecei a fechar os botões da sua blusa
enquanto ela gargalhava descaradamente pelo meu nervosismo. Ouvi passos se aproximando
pelo corredor e, no exato momento em que fechei o último botão, uma batida na porta antecedeu
a abertura dela.

— Tudo bem por aqui? — Minha mãe perguntou com uma expressão curiosa antes de
seus olhos pousarem sobre o criado-mudo, onde a caixa constrangedora ainda se encontrava.
Intacta. Tive certeza de que naquele momento seria capaz de acender uma fogueira somente com
o calor que exalava do meu rosto.

— Tudo bem, Dra. Lewis — Jenny respondeu ao ver que eu não conseguiria.

Ao ficarmos novamente sozinhos, eu a encarei e percebi porque a minha mãe havia


encarado a caixa que eu esquecera de guardar. A blusa de Jennifer exibia os botões em completo
desalinho e seu cabelo parecia um ninho de passarinho.

— Você vai me pagar por isso, minha ruiva — ameacei.

— Mal posso esperar, menino bonito. Tomara que você seja bem criativo. — Ela coroou
a fala com um piscar de olhos.

Visto que a sessão de amassos estava encerrada, fomos até o parque buscar a bicicleta
que eu havia abandonado lá e aproveitamos para dar um passeio com a minha pequena pitbull
disfarçada de poodle.
CAPÍTULO 28 – Lei de Murphy

Com a volta às aulas, o tempo com a minha ruiva ficou escasso. Tínhamos apenas alguns
minutos a sós no trajeto do colégio até a minha casa, e os poucos beijos que dávamos eram

praticamente roubados. Depois ela voltava para casa, pois estudar era a última coisa na qual
pensávamos quando estávamos juntos.

— Eu preciso falar com você — ela avisou, saindo do carro e entrando comigo no hall.

— OK. — Sua seriedade me deixou apreensivo, pois eu acreditava na Lei de Murphy,


que diz que se existe alguma probabilidade de algo dar errado, então dará errado.

Após avisar Cibele que estávamos em casa, levei Jenny ao conservatório para termos um
pouco de privacidade. Eu me joguei no sofá, e ela sentou no meu colo.

— Eu pensei que você queria falar comigo, não passar a mão em mim — provoquei.

— Eu sempre quero passar a mão em você, menino bonito. Deveria ser crime proibir
alguém de beijar. Aquele colégio é uma tortura pra mim.

Eu entendia perfeitamente como ela se sentia, porque eu também me sentia assim. O


relógio e o calendário pareciam ter desenvolvido um repentino ódio por nós, pois cada ponteiro
levava horas para se mexer e o final de semana custava a chegar.

Nossos lábios se tocaram de forma suave inicialmente, mas segundos depois, nos
beijávamos loucamente, aliviando a frustração da falta de contato físico. Enquanto nossas línguas
exploravam a boca um do outro, as minhas mãos queriam fazer o mesmo com seu corpo, mas as
inúmeras camadas de roupas entre nós e a movimentação da Cibele pela casa atrapalhavam os
meus planos.

— Jenny — falei, ofegante, interrompendo o beijo e olhando em seus olhos. — Você não
acha que está na hora de me apresentar aos seus pais?

— Você quer?!

— Você não quer? — devolvi a pergunta sentindo minha determinação murchar como
um pneu furado pela possibilidade de uma negativa.

— É claro que eu quero! Mas achei que você ficaria com vergonha... — Com uma risada

descontraída, ela me disse que eu era culpado por distraí-la, porque era exatamente sobre isso
que ela queria falar. Seu pai havia lhe dado um prazo para que ela me apresentasse à família.

— Nesse sábado?! — Levei a mão à cabeça em um gesto de desconforto, sentindo de


repente que o fim de semana estava próximo demais.

***

Eu andava de um lado para o outro do meu quarto e lançava olhares duvidosos ao meu
armário. Sempre fui um cara de jeans, tênis e jaquetas de couro. Bastava pegar o que estivesse
mais fácil. Naquele momento, entretanto, a dúvida me corroía.

— Tenha dó, Augusto, você só vai conhecer os pais dela, não a rainha! — Mike
exasperou.

— Conhecer a rainha seria mais fácil! Se eles não gostarem de mim, vão nos afastar. —
Passei a mão pela cabeça, extremamente preocupado com a possibilidade. O fato de ainda ter
cabelo era surpreendente, já que nos últimos dias repeti o gesto com frequência.

— E por que eles não gostariam de você?! Você é um nerd! O genro dos sonhos de
qualquer pai! — exclamou, revirando os olhos.

— Do que adianta ser inteligente se provavelmente eu vou pra uma universidade local?
— Comecei inconscientemente a destroçar com os dentes a unha do polegar. Outro hábito
recentemente adquirido.

— Do que cê tá falando? As universidades de Coventry são boas, mas por que você iria
pra uma delas se pode escolher entre as melhores do país?

Jogando inúmeras roupas sobre a cama, expliquei a ele que eu não podia morar sozinho.
Também disse que tinha medo de contar isso para Jenny, pois fora o motivo do término do seu
relacionamento anterior. Só de pensar nisso, já sentia a dor do pontapé que levaria.

Após me descascar por mais uma vez ter escondido algo dele, Mike surgiu com uma
proposta tentadora. Eu ainda não podia afirmar se seria capaz de fazer aquilo, mas fiquei
animado mesmo assim.

— Vai ser mais fácil dar festas no nosso próprio apartamento do que no alojamento da
faculdade! — Ele tinha no rosto um amplo sorriso, que murchou um pouco ao lembrar do
principal. — Se os meus pais aceitarem a ideia do apartamento.

— Não se empolgue demais. Eu não sei se isso dá pra mim.

— Se vire! Você tem meses pra ajustar os parafusos frouxos nessa sua cabeça oca.
Depois você vai ter a minha magnífica companhia e, de quebra, pode continuar com a ruiva.
Falando em ruiva, vamos voltar ao pai dela. Ele pode tentar te castrar se desconfiar que rola
alguma coisa entre vocês, então você tem que ficar esperto se ele pegar uma faca grande...

Eu sabia que era brincadeira, mas ainda assim a imagem de alguém tentando me castrar
me deixou nervoso. Para que ele calasse a boca, arremessei nele o sapato que segurava e fui
tomar banho enquanto ele se acabava de rir.

Sob a ducha, fiquei ensaiando como me apresentaria e o que conversaria com os pais de
Jenny. Poderia falar sobre política e parecer esnobe ou falar sobre amenidades e parecer fútil.
Um gemido frustrado escapou dos meus lábios. Como eu decidiria o que falar, se nem conseguia
decidir o que usar? Após me vestir e escovar o cabelo até não ter um fio fora do lugar, voltei ao
quarto e recebi um olhar horrorizado do Mike.

— Oh, cara. — Ele colocou uma mão na frente da boca e me olhou com expressão
sofrida. — Teve liquidação de gel no mercadinho da esquina?! — berrou, se lançando sobre mim
e bagunçando o meu penteado. — Lava isso agora!

— Para, Michael. Eu vou me atrasar!

— Eu tô falando sério, Augusto. Parece que você tem trinta!

Eu me olhei no espelho novamente e tive de concordar com ele. Eu parecia bem mais
velho. Lavei o cabelo às pressas e deixei secar naturalmente. Depois vesti o que gostava de usar
e pedi aos céus para que ser apenas eu fosse o suficiente para eles.

Quando descemos as escadas, encontramos o meu pai na sala ostentando um sorriso


gozador, descaradamente debochando da minha agonia.

— Relaxe, Augusto. O seu avô nunca gostou de mim e, mesmo assim, eu casei com a
filha dele — ele explicou de forma orgulhosa.

— Você engravidou sua namorada, pai. O meu avô não teve outra alternativa além de te
deixar casar com ela. Se o pai da Jenny não gostar de mim, talvez essa seja a solução pra nós

também. — Fingi cogitar a ideia.

— Eu mato você! — ele exasperou, me apontando um dedo. Aparentemente ele também


não aprendera que os ingleses consideram rude apontar pessoas e coisas.

— Eu chamei um táxi pra você — minha mãe avisou, entrando na sala com o buquê de
rosas amarelas que eu comprara para a senhora Thompson. — Eu já disse o quanto você é lindo?
— ela perguntou com um sorriso meigo ao me abraçar.

— Já, mas vindo de você, não conta, mãe. Você tem obrigação de dizer que eu sou lindo.
— Peguei as flores e retribuí seu abraço.

— Eu também sou lindo, Dra. Lewis? — Mike perguntou, usando a expressão mais

inocente do mundo.

— É claro que você também é lindo, Mike! Além de ser um garoto muito gentil. Eu não
sei como suportaria o Augusto hoje sem você. — Minha mãe o abraçou também, e o cretino
suspirou como se tivesse recebido um grande presente. Meu pai olhava a cena com uma
expressão divertida que me deixou intrigado.

Após alguns minutos, eu saltei do táxi em frente a uma casa bonita de pedra cinza e
grandes janelas curvadas. A grama bem-aparada dava um aspecto bem-cuidado à propriedade.
Respirei fundo e toquei a campainha. Um segundo depois, parte do meu desconforto se desfez,
pois o motivo de eu estar ali acabava de abrir a porta carregando na face um sorriso radiante e
um olhar travesso que a faziam parecer uma menininha. Ela usava jeans, camiseta branca,
sapatilhas e um rabo de cavalo. Alegre como sempre, a minha ruiva era o raio de sol que faltava
na minha vida. A imagem de menininha logo desapareceu quando ela se pendurou no meu
pescoço e me beijou como se não houvesse amanhã.

— Eu também estou feliz em te ver — ofeguei quando ela me deixou respirar.

— Está nervoso?

— Só um pouquinho. — Eufemismo do ano.

— Eles também estão ansiosos pra te conhecer porque sabem que você me faz feliz. —
Aquela sentença me acalmou um pouco. Segurando a minha mão, ela me guiou pelo longo
corredor de paredes claras e piso de madeira envernizada.

— Ele chegou, Jenny? — perguntou uma voz masculina que me fez estacar no lugar.

— Chegou, pai.
Quando um casal apareceu na outra ponta do corredor, meu sangue gelou nas veias. O
homem também estacou ao me ver. Sua expressão mostrava que ele estava tão incrédulo quanto
eu.

A vida só podia estar de sacanagem comigo.

Pensamentos desagradáveis me causaram calafrios, palpitações e falta de ar. Mordi o


lábio inferior tentando controlar os sintomas, pois o garoto tomado por crises de pânico não era a
primeira impressão que eu gostaria de passar para eles. Mas também não seria a primeira. Ao
menos não para ele.
CAPÍTULO 29 – Encontro Inesperado

Os sintomas não progrediram, mas me fizeram sentir fora da realidade por algum tempo.
Eu não lembrava de ter caminhado até o sofá onde estava sentado, nem de ter me separado das
flores que carregava. Eu chamaria isso de meia crise. Já Mark chamaria de crise leve, e era
exatamente isso o que ele estava me dizendo naquele momento.

As palavras que tentavam me tranquilizar entravam por um ouvido e saíam pelo outro
enquanto pensamentos torturantes davam o ar da graça. Eu temia que os pais de Jenny não
gostassem de mim, mas não podia supor que o encontro seria tão desastroso. A mãe dela teve a
pior primeira impressão possível, e o pai me conhecia bem até demais. Ele sabia o quanto eu era
emocionalmente instável, e com certeza alguém assim não era o namorado que ele queria para a
filha.

Mantive minha cabeça apoiada nas mãos e o olhar fixo no chão, sem coragem de encará-
lo enquanto relembrava o dia em que o segurei pelo colarinho e tudo o que contei a ele sobre o
meu relacionamento com a Jenny. “Ela vai me matar, e ele realmente vai tentar me castrar.” Esse
pensamento martelava a minha cabeça até um copo de água se materializar à minha frente.

— Está tudo bem — ele repetiu.

— Como a Jenny está? — indaguei quando ergui a cabeça para aceitar o copo de água.

— Ela está bem. — Após um silêncio desconfortável, ele exclamou: — Que


coincidência, Augusto!

— Eu sinto muito... — sussurrei sem tirar os olhos do copo.

— Eu não. Eu conheço você e sei que é um bom garoto. — Olhei para ele em busca da
verdade, mas ele era bom em fazer cara de pôquer.

— Você não me quer longe dela?

— E por que eu iria querer isso? Você é estudioso e não é uma má influência. Se existe
algum rapaz que vai me deixar menos preocupado por andar com a minha filha, esse rapaz é
você. — O comentário me pegou de surpresa. Eu era capaz de pensar em vários motivos para
que ele não me quisesse como candidato a genro, mas preferi engolir cada um deles. — O único
problema é que você vai precisar de outro terapeuta. — De forma inédita, eu vi Mark corar e
parecer desconfortável enquanto seu olhar se tornava distante. Eu me perguntei se ele estava
pensando em fatos sobre a Jenny que ele não deveria saber.

— Ela não vai ter problemas pelo que eu te contei sobre nós, não é? — questionei,
refletindo seu desconforto.

— Eu lido com adolescentes todos os dias. Eu conheço vocês bem demais pra achar que a
minha filha ainda é uma criança. É claro que eu preferia não ter detalhes, mas fazer o quê? —
Seus dedos coçaram a barba inexistente, gesto que ele repetia quando estava pensativo. — De
qualquer forma, eu te garanto que tudo o que conversamos no consultório vai permanecer
confidencial. Por mim, ela não vai saber que fez parte das nossas conversas.

Observei atentamente o homem à minha frente e notei que naquele momento ele não
parecia tão seguro de si.

— Se está tudo bem como você diz, por que você está com essa cara?

— Porque é difícil perceber que eu consigo a confiança dos filhos dos outros, mas não
consigo a da minha própria filha. Ela nunca me disse nada relevante sobre você. Mesmo tendo
todos os motivos pra isso.

— Eu não acho que seja falta de confiança, Mark. Talvez ela não tenha falado sobre mim
porque queria que você me conhecesse como pai, e não como terapeuta. Deu tudo errado, mas
ninguém adivinharia.

— Talvez. — Seu tom de voz não transmitia credulidade e seu olhar mostrava mágoa.

— Ela também nunca me falou seu nome ou profissão, mas sempre colocou você nas
nossas conversas. Ela fala sobre coisas que você ensinou a ela ou sobre coisas que vocês fazem
juntos, como assistir Law & Order toda terça à noite. Ela adora você. Se você não fosse o pai
dela, eu ficaria com ciúme. — Aquilo o fez rir um pouco, dissipando a tensão. — Como eu tenho
que te chamar agora?

— Mark continua bom pra mim.

Eu perguntei por que ele e Jenny não tem o mesmo sobrenome, e ele me explicou que eu
o conheço pelo nome de solteiro. Na vida particular, entretanto, ele usa o sobrenome da esposa,
que é o mesmo da Jenny. Quando eu perguntei como eles decidiram qual sobrenome usar, ele
disse que muitos homens no Reino Unido e em outros países estão adotando os sobrenomes das
esposas para incentivar à igualdade de gêneros, mas que no caso deles isso foi decidido no
palitinho mesmo. A forma infantil de decidir algo tão importante me fez rir, mesmo que eu ainda
estivesse triste por aquele encontro desastrado.

Após um suspiro desanimado, eu admiti que não queria começar tudo de novo com outro
terapeuta e que sentiria falta dele, o que surpreendeu até a mim mesmo, já que eu sempre
reclamava de ter que vê-lo toda semana.

— Eu posso indicar um bom profissional pra você e, se você permitir, eu posso passar pra
ele todas as informações que ele precisa pra continuar a terapia de onde paramos. Quanto a mim,
eu não vou sumir, só vou mudar de função. E você será sempre bem-vindo se quiser conversar
comigo, desde que não seja sobre a Jenny — salientou. — Você também tem outra opção. Pode
terminar com ela e continuar sendo meu paciente. — Meus olhos arregalados me fizeram ganhar
um sorriso debochado. — Eu imaginei que você iria escolher a garota. Eu sou um cara esperto.

Não é à toa que eu tenho um diploma de Oxford. — Ele devolveu a minha frase, dita meses
antes.

— Acho melhor eu ir embora agora. — Eu me ergui do sofá, fazendo Mark repetir o

gesto.

— Você pode se esconder ou encarar a situação de cabeça erguida, já que não fez nada de
errado. Se decidir se esconder, vai perder a nossa maravilhosa berinjela à milanesa. — Apesar da
brincadeira, ele estava me intimando a ficar, e embora eu estivesse envergonhado demais para
enfrentar a mãe de Jenny, sabia que decepcionaria a todos se decidisse ir embora. Por fim, decidi
ficar e enfrentar aquele jantar da melhor forma que pudesse.

Mark me levou até a sala de jantar, onde encontramos mãe e filha conversando em voz
baixa. A minha ruiva me encarou com olhos vermelhos de choro, me fazendo sentir culpado por
nublar o dia dela enquanto ela iluminava os meus.

— Ei, você está bem? — perguntou, me dando um abraço que me deixou ainda mais
desconcertado. Retribuí seu abraço de maneira desajeitada e me desvencilhei dela rapidamente
após garantir que estava bem.

— Dra. Thompson, eu sinto muito pelo que aconteceu — eu me desculpei, sentindo meu
rosto enrubescer ainda mais antes de me apresentar e estender uma mão para a mulher que era
uma cópia de Jenny (ou a original), com os mesmos olhos verdes e cabelos ruivos. Eu percebi
que a minha ruiva ainda seria linda aos quarenta e poucos anos.

— É um prazer finalmente te conhecer, Augusto. A Jenny está sempre feliz desde que te
conheceu — ela afirmou, ignorando minha mão estendida e me puxando para um abraço
caloroso, demonstração de afeto incomum entre os ingleses.

— Ela não está sorrindo agora — constatei, desanimado.

— Incidentes acontecem. — Ela fez um gesto com a mão que indicava que aquilo não
tinha importância. — Eu adorei as flores. Você é um menino muito gentil!
Durante o jantar, todos pareciam ter esquecido o incidente, e o clima estava agradável, até
que uma pergunta inocente da Doutora Thompson me deixou tenso novamente.

— Você também quer ir pra Cambridge, Augusto?

— Eu ainda estou analisando minhas opções — afirmei, evitando todos os olhares ao


redor daquela mesa.

— Quais são suas principais opções, menino bonito?

Entre ser chamado por aquele apelido na frente dos pais da minha namorada e a conversa
sobre universidades, eu não sabia o que era pior. Mark sabia que eu provavelmente faria
faculdade em Coventry mesmo, e agora também sabia que eu ainda não tinha contado isso à filha
dele.

— Eu ainda não sei. É cedo pra saber — respondi com um sorriso forçado e um olhar que
suplicava para conversarmos sobre isso depois, em particular.

Ela pareceu entender o meu pedido, e o resto do jantar correu sem mais nenhum
constrangimento. A conversa variou de amenidades à política, sanando as minhas dúvidas sobre
os tópicos. Encerramos a noite com a minha promessa de marcar um encontro entre eles e os
meus pais.
CAPÍTULO 30 – Patinando no Gelo

— Cara, tem coisas que só acontecem com você! Você contou pro pai da menina que deu
uns pegas nela?!

A cara de Michael parecia prestes a explodir, até que ele não aguentou mais e realmente

explodiu — em gargalhadas pela minha desgraça.

— Eu não dei uns pegas nela, foi ela quem deu em mim, e é isso que ele sabe! — Eu não
pensei que fosse possível, mas ele riu ainda mais, se dobrando ao meio e com lágrimas
escorrendo, de tão descontrolado que estava. A imagem do Ed, a hiena louca de O Rei Leão,
surgiu na minha cabeça.

— Para de rir da minha cara! Eu vou fazer o mesmo quando for a sua vez! — gritei antes
de gemer ao pensar em como explicaria isso à Jenny.

— Eu nunca vou contar pro pai de uma menina que a gente deu uns amassos! — Depois
de rir mais um pouco, ele finalmente tentou ser solidário. Mais tarde, eu descobri que a
solidariedade era só por interesse, já que queria usar a mim e Jenny como desculpa para sair com
Rox.

Antes de entrar no rinque de patinação no gelo, eu puxei Jenny de canto, decidido a


acabar com o sofrimento.

— Você e o Mark conversaram?

— Conversamos. Ele estava triste, achando que eu não conto nada a ele. Mas não se
preocupe, porque já resolvemos tudo. Ele entendeu os meus motivos pra te manter em segredo.

— Promete não me matar?


— Por que eu te mataria? Fala logo o que você fez. — Em contraste à reação de Mike, a
minha ruiva ficou vermelha e pareceu prestes a chorar quando soube de tudo.

— Desculpe. Eu precisava falar sobre você na terapia, mas juro que nunca falei seu nome
porque não queria te expor de nenhuma forma. — Percorri o contorno de seu queixo e o levantei
para que ela me olhasse. — Não fique com raiva de mim, por favor.

— Eu não estou com raiva de você, menino bonito. Só não sei como vou olhar pro meu
pai agora. — Ela me abraçou, e eu me senti profundamente culpado. Aproveitei que ela já estava
para baixo mesmo e falei sobre a possibilidade de eu não ir para nenhuma faculdade renomada.
Para amenizar a situação, mencionei a proposta de Mike e que eu a estava considerando.

— Eu vou dizer ao Mike que o amo! — exclamou, repentinamente animada.

— Ao Mike, não. Diz pra mim — pedi sem pensar e ganhei um olhar complacente. —
Foi brincadeira.

— Eu queria dizer isso há muito tempo, mas fiquei com medo de te assustar. —

Apoiando o queixo no meu peito, ela olhou para cima e declarou algo que me fez sentir
extremamente leve, prestes a flutuar. — Eu te amo e não consigo mais imaginar a minha vida
sem você. Se você precisar fazer faculdade, aqui nós vamos namorar à distância e vamos fazer
dar certo. Eu não vou te abandonar, namorado. Eu não conseguiria fazer isso nem se quisesse.

Eu não esperava ouvir uma declaração de amor, e talvez tenha sido por isso que fiquei
mudo, ou talvez tenha sido só pela minha falta de jeito mesmo. Eu não tinha dúvidas de que a
amava e queria dizer isso a ela, mas foi impossível colocar as palavras para fora. Com um pouco
de decepção estampada nos olhos, ela me deu um selinho e se afastou.

— Ei, pombinhos, andem logo — Rox reclamou após comprar os ingressos de todo
mundo. — Jenny, seja educada e venha conhecer a Emily.

— Como vai, Emily? — ela cumprimentou e recebeu em retorno um olhar desapontado.


— Você é bonita... — ela murmurou.

— Ahn... Obrigada?

— Não ligue pra ela. Ela tá a fim do seu namorado — Mike sussurrou para a Jenny, e ela
me zoou por arrasar corações de dez anos.

Logo que coloquei os pés no gelo, cada um deles escapou para um lado, me fazendo

agarrar o corrimão como se a minha vida dependesse disso e não o soltar mais.

— Eu não vou deixar você cair, menino bonito. — Sua confiança em algo impossível me
fez rir e ganhar um beliscão dolorido. — Não menospreze o meu equilíbrio sobre essas lâminas.

— Eu não estou menosprezando seu talento, só estou menosprezando sua capacidade de


aguentar meu peso. — O comentário me rendeu outro beliscão. Ela se aproveitava do fato de que
as minhas mãos estavam ocupadas. — Seja boazinha comigo ou eu não vou mais deixar você
abraçar o Toddy.

Pouco depois que começamos a patinar, Emily se juntou a outras crianças, deixando
Mike e Rox sozinhos. Depois de muita insistência minha, Jenny foi até o centro da pista para
patinar de verdade, mas logo retornou e não quis mais sair do meu lado.

— Ei, nerd, você vai ficar aí rodando feito peru? — Mike reduziu a velocidade para nos

acompanhar. — A minha irmã patina melhor do que você!

— A sua irmã nasceu fazendo isso. Já eu nasci onde o sol brilha e emana uma grande
quantidade de calor, sabe o que é isso? Ah, claro que não. — Eu teria dado um tapa na testa para
enfatizar, mas não podia soltar o corrimão. — Você nasceu no país onde o sol é realmente um
astro. Ele aparece de repente, acena e vai embora logo em seguida!

— Ei, não esculache, eu também nasci aqui — a minha ruiva resmungou.

Rindo, Mike voltou para o lado de Rox. Os dois estavam conversando e seguindo o fluxo
de pessoas que patinavam rapidamente. A vantagem de ficar à margem era a possibilidade de ver

tudo, inclusive um lenço caindo na pista e causando um efeito dominó. Uma lâmina foi impedida
de deslizar, o que fez alguém cair de cara no chão. Uma segunda pessoa tropeçou nela e assim
por diante. Algumas conseguiram fugir da avalanche, mas várias foram caindo umas sobre as
outras.

Rox ia habilmente desviar dos caídos, mas alguém segurou em seu casaco e a fez cair de
costas. Quando Mike tentou segurá-la, acabou caindo sobre ela. O rosto dos dois ficaram tão

perto um do outro, que a imagem na minha cabeça ficou em câmera lenta e começou a tocar uma
música romântica típica dos filmes da Disney. O arfar de Jenny me garantiu que a imagem na
cabeça dela era igual à minha. Nós prendemos a respiração à espera do beijo, até que aconteceu:

— Sai de cima de mim, Mike! — Rox gritou e deu um chute no amigo do meu amigo,
que me fez encolher. Depois o empurrou para o lado e levantou, deixando-o lá caído, encolhido e
gemendo de dor no chão gelado.

— Não bate no meu irmão! — Emily apareceu do nada e gritou com Rox, olhando
furiosamente para ela enquanto fazia valer os mesmos direitos que Mike achava ter sobre ela, de
que somente irmãos podem bater uns nos outros.

— Desculpe, Mike. Foi sem querer — Rox se desculpou e estendeu uma mão para ajudá-

lo a levantar.

Embora sentisse dor, ele não perdeu a piada

. — Tudo bem, Rox, mas você não deveria ser egoísta. Se não quer o brinquedo, também
não precisa quebrar, outra pessoa pode querer brincar com ele.
CAPÍTULO 31 – Testando Limites

As últimas semanas passaram em um piscar de olhos. Quase tudo na minha vida estava
bem, até mesmo algo inesperado aconteceu: eu ganhei um carro! Claro que a chave estava
confiscada até eu receber a habilitação definitiva, mas pelo menos com a provisória eu podia
dirigir, desde que a minha mãe ou o meu pai estivessem comigo. Com Jenny, eu não podia
porque ela não tinha dezoito, além de não ter três anos como motorista.

Os pesadelos durante o sono haviam me abandonado. O único que restava me


atormentava enquanto eu estava acordado e se chamava Antony, também conhecido como meu
novo terapeuta. Eu costumava pensar que Mark me odiava, mas conhecer o Antony me deu uma
nova perspectiva sobre isso. Sua falta de empatia me fez perguntar se tinha alguma coisa contra
mim, e ele respondeu que a única coisa que sentia por mim era um enorme desejo de me ajudar a
viver, mesmo que para isso fosse necessária uma terapia de choque.

Antony tinha idade para ser meu avô e, como todo bom velhinho, tinha cara de bonzinho,
mas toda semana me torturava psicologicamente. Obviamente ele não admitia isso, mas era o que
fazia. Ele sempre começava perguntando sobre Cambridge e jogava na minha cara coisas que
Mark contara a ele, como o fato de que a minha ruiva iria para lá e que o cretino do ex-namorado
dela também estudava lá.

Depois ele me perguntava se nosso relacionamento evoluiu. Ter alguém me perguntando


sobre a minha vida sexual — ou a falta dela — era o meu pior pesadelo. Quando eu dizia que
não tive oportunidade de testar meus limites nessa área, ele não acreditava em mim. Dizia que eu
tinha medo de tentar e que assim nunca sairia da primeira base. O que ele parecia não entender é
que eu ainda morava com os meus pais e que em breve faria um exame que definiria o meu
futuro, por isso não podia “praticar muito o esporte”, mesmo querendo.

A época em que o toque da Jenny me angustiava ficou distante. Naquela época, o

desconforto era tão grande, que nem Viagra daria jeito. Entretanto, desde o nosso amasso de
reconciliação, os banhos frios se tornaram frequentes no meu dia a dia, e os poucos amassos que
conseguíamos dar eram quentes.

Depois do momento vergonha, vinha a terceira etapa, que era a tortura propriamente dita.
Nessa etapa, ele me fazia ouvir relatos de pessoas que sofreram violência física e sexual. O que o
toque da Jenny não causava mais, aquilo ainda causava. A dor de cada pessoa se transformava na
minha própria, me levando de volta àquela clareira e me fazendo sofrer tudo outra vez. Quando
eu pedia a ele para desligar o áudio, ele insistia que eu empurrasse um pouco mais e tentava me
trazer de volta à realidade, me lembrando que eu não estava mais naquele lugar. Ainda assim, ao
fim de cada sessão, eu estava encolhido no sofá, aos prantos e me sentindo tão indefeso quanto
uma criança.

Em algumas sessões, ele trocava os áudios por algo ainda pior: me fazer falar sobre a
minha própria experiência. No início, eu relutei e ele jogou na minha cara que se eu ainda não
havia me recuperado do trauma, a culpa era minha. A cada vez que ele me fazia repetir aquilo,
extraía das minhas palavras um novo significado.

— Você conseguiria estuprar uma mulher? — A pergunta me pegou de surpresa.

— Que raio de pergunta é essa?!

— Eu não perguntei se você faria. Perguntei se você conseguiria. Você é fisicamente


capaz disso?

— É claro que sim. Aonde você quer chegar com isso?

— Se você fizesse isso, a culpa seria dela? Por não ser forte o suficiente pra escapar de
você?
— É claro que não. A culpa seria minha, por abusar da força pra explorar alguém. — O
simples pensamento de machucar alguém daquela forma me causava náuseas.

— Se você sabe que uma mulher não teria culpa se fosse vítima de estupro, por que se
sente culpado por ter sido estuprado? — Ele usava a palavra sem dó, apesar de saber o quanto ela
me deixava angustiado.

— É diferente... As mulheres são mais frágeis.

— E os homens não são super-heróis. Qualquer um no seu lugar teria sofrido os mesmos
abusos, Augusto, por mais forte ou destemido que fosse. Não divida a culpa com eles. Os únicos
culpados por tudo o que aconteceu com você foram o J, os dois comparsas e o mandante do
crime. Você precisa se perdoar por ter sido incapaz de se defender.

A terapia de exposição é uma técnica considerada muito eficaz no tratamento de fobias e


síndrome do pânico, mas é dolorosa, e por isso nem todos os psicólogos aceitam usá-la, ou o
fazem de maneira mais branda, como Mark. Quando eu acusei Antony de me torturar, ele disse
que a intenção dele não era essa, e sim me tornar imune a experiências que me desestruturavam.
Ele me dizia que quando eu fosse capaz de lidar com o sofrimento alheio sem me colocar no
lugar das vítimas, eu estaria pronto para receber alta, por isso toda semana eu voltava para mais
uma sessão de tortura.

***

— Eu vou a um congresso na próxima semana — minha mãe informou durante um


jantar, e uma lâmpada se acendeu sobre a minha cabeça.

— Você poderia ir com ela, pai — falei como quem não quer nada.
— O quê? E você? — indagou, surpreso.

— Eu fico aqui. — A reação à minha resposta foi a esperada.

— Sozinho?! De jeito nenhum! — minha mãe negou, meio histérica.

— Mãe, eu preciso ficar mais independente se quiser fazer faculdade longe de vocês. Eu
não vou morrer por causa de uns dias sozinho. — Eu soube pelo seu olhar que aquela palavra era

exatamente o problema. Desde o dia em que pensei vagamente em suicídio, ela queria saber
todos os meus passos e nunca me deixava sozinho por muito tempo. — Eu sei que é culpa minha
você não confiar em mim, mas eu não sou mais a mesma pessoa daquela época, e você sabe
disso. Eu te fiz uma promessa e vou cumprir.

— Não sei, Augusto. Eu vou pensar sobre isso. — Eu já sabia que a resposta seria não,
por isso decidi apelar para chantagem emocional.

— Me dê um voto de confiança. Ninguém me dá. Você vive me dizendo que eu não sou
doente, mas me trata como um — argumentei.

— Ele tem razão, Nathalie — meu pai concordou. — Vamos fazer assim, ligamos pro
Antony e perguntamos o que ele acha disso, certo? — Mordi o lábio para conter um sorriso
porque sabia que Antony diria que eles já deveriam ter ido.

Como o esperado, Antony achou a proposta excelente e tentou tranquilizar a minha mãe,
que não ficou muito satisfeita com a ideia, mas aceitou. Eu ficaria sozinho durante quatro noites,
isso incluía um final de semana inteiro, e eu já tinha planos para ele.

— Você quer dormir lá em casa na próxima sexta? — perguntei à Jenny depois de


explicar que estaria sozinho.

— Você está me convidando para dormir com você? Assim, tão direto? — perguntou,
irritada.
— Não foi exatamente isso o que eu quis dizer — expliquei, desconcertado. — É que nós
temos tão pouco tempo juntos. Eu queria passar um tempo só com você.

— Eu realmente adoro te ver envergonhado — reafirmou com um sorriso largo. — Eu


adoraria dormir ou “dormir” com você, meu anjo. — Após fazer aspas com os dedos, ela me
abraçou. — Mas infelizmente eu acho que os meus pais não vão deixar.

— Imaginei. — Ainda que esperasse por isso, fiquei decepcionado. — E você acha que
vai poder passar o dia comigo?

— É claro!
CAPÍTULO 32 – Nos Tornamos Um

A minha primeira noite sozinho não foi a melhor coisa do mundo, mas também não foi
nem de longe tão ruim quanto poderia ter sido. Eu demorei a pegar no sono, mas depois dormi
como um bebê. Na noite seguinte, eu estava saindo do banho e me preparando para mais uma
noite sozinho quando ouvi o toque do meu celular e me surpreendi ao saber que a minha ruiva
estava no portão.

— Ei, eu não esperava te ver de novo hoje.

— Você me convidou pra dormir aqui, então...

— Sério?! E o que você disse aos seus pais? — Retirei a mochila das suas costas, e ela
retirou as sapatilhas antes de me seguir até a sala. Mesmo estando frio, ela raramente ia à minha
casa usando roupas ou calçados de inverno, já que não ficava exposta ao clima.

— A verdade. Eu cheguei a pensar em dizer que ia dormir na casa da Rox, mas se eles
me pegassem na mentira, eu ia me ferrar. Por sorte nossa, o meu pai sabe que eu tenho juízo.
Geralmente...

— Geralmente — confirmei com um sorriso.

— Claro! Eu tenho que deixar margem pra diversão. — Erguendo um braço, ela tocou o
meu cabelo molhado e disse que apesar de me achar sexy daquele jeito, eu não deveria dormir
assim.

Minutos depois, eu estava confortavelmente sentado no meu quarto enquanto ela


terminava de secá-lo. Seu toque suave na minha cabeça era extremamente relaxante. Com ela, eu
descobria como coisas corriqueiras e inocentes podiam ser sedutoras.
— Você devia ter me avisado que viria. Eu queria ter feito algo especial pra você. Teria
encomendado um jantar pra não te fazer sofrer com minhas tentativas de cozinhar.

— Eu não sabia que viria, mas você não precisa fazer nada, menino bonito.

— Mas eu quero. — Eu a puxei para os meus braços, onde eu nunca cansava de tê-la, e
afundei meu rosto em seu pescoço. — Você gosta de fondue? Isso eu sei fazer. — Como foi
impossível decidir entre queijo e chocolate, fizemos os dois e nos esparramamos na sala para
saboreá-los.

Eu passei por um momento difícil tentando controlar o impulso de beijá-la a cada vez que
ela mordia um morango ou passava a língua pelos lábios, mas eu gostava de conversar com
Jennifer. Eu já sabia que azul era a sua cor favorita, que tulipas eram as suas flores e que ela
adorava música pop, mas queria saber muito mais. Queria descobrir como ela conseguiu a
pequena cicatriz em um braço, se sempre quis ser médica e como foi sua infância.

Ela teve dificuldade em acreditar que eu fiquei de ressaca uma vez e que já fui ruim em
física. Da mesma forma, eu tive dificuldade em acreditar que ela foi uma criança muito tímida e
que fez terapia por isso. Não, não foi com o Mark.

Depois de recolhermos tudo, decidimos assistir a um filme, porém tinha algo me


incomodando. Eu tinha planejado tudo para uma tarde perfeita no domingo, mas sua chegada
antecipada frustrou os meus planos. Sem as flores que pretendia comprar, eu sentia que faltava
algo importante.

— Por que você não escolhe um filme enquanto eu vou lá fora rapidinho? — sugeri
quando uma ideia me ocorreu.

— Vai fazer o que lá fora?! — exclamou da sala de TV.

— Ligar o aquecedor da piscina pra gente usar amanhã.

Voltando do jardim, arrumei o meu quarto em uma correria desenfreada. Espalhei velas
de LED por todas as superfícies possíveis e borrifei essência de lavanda pelo cômodo. Troquei os
lençóis da cama e coloquei uma caixa de trufas sobre ela. Por fim, programei uma playlist
romântica e encarei o lugar, ficando satisfeito. A escuridão quebrada pela luz bruxuleante das
velas deixou o ambiente aconchegante.

Ela havia escolhido uma comédia romântica. Depois de nos aconchegarmos no sofá
macio, nos cobrimos com uma manta e começamos a ver o filme, que era realmente engraçado.
Antes que eu percebesse, ela já estava abraçada a mim e minha cabeça estava apoiada na sua, de

onde eu podia sentir o cheiro do cabelo. Tê-la assim tão perto me fez sentir feliz como há muito
tempo eu não me sentia e desejar que aquilo durasse para sempre. Quando o filme acabou, ela
me olhou, e eu a beijei, não aguentando mais esperar. Suas mãos vagaram livremente sob a
minha camiseta, pois ela sabia que aquilo não me incomodava mais.

Um som irritante me fez gemer internamente.

— Deve ser a minha mãe. Ela vai ficar desesperada se eu não atender. — Rapidamente
ela saiu de cima de mim, me permitindo levantar. — Ei, mãe. — Com o celular na orelha, saí do
cômodo. Ao retornar, encontrei a minha ruiva fuçando no próprio celular e sentei ao lado dela.

— Você já ouviu essa música do Ed Sheeran? — Ela colocou para tocar uma música
chamada Nancy Mulligan. — É irlandesa. Ela fala sobre o romance dos avós dele.

— Música irlandesa é legal. — A música seguinte também era dele, mas essa tinha um
ritmo suave.

— Thinking Out Loud é uma das minhas favoritas. Quer dançar comigo? — Ela levantou
do sofá e estendeu uma mão, que eu segurei, mas sem levantar.

— Eu não gosto muito de dançar — eu me desculpei.

— Ah, por que, menino bonito? Não tem ninguém olhando, e eu não vou contar pra
ninguém que você pisou no meu pé.
— Não vou pisar no seu pé, engraçadinha.

Eu me aproximei dela e começamos a nos mover no ritmo da música.

Eu não notei quando a música seguinte começou a tocar ou qual era ela, pois estava
perdido na sensação de ter os lábios da minha ruiva nos meus. Minhas mãos ganharam vida
própria e deslizaram pelos seus braços, passando pela cintura e escorregando pelas curvas através
do vestido preto justo. O cheiro e a proximidade de Jennifer acenderam em mim uma chama que
eu já estava acostumado a sentir quando ela chegava muito perto e me beijava daquele jeito.
Porém, não muito tempo depois, mil “e se” surgiram do nada, me deixando nervoso. “E se não
der certo?”, “E se eu não puder fazer isso?”

— Eu preciso de água — afirmei, ofegante. — Você quer alguma coisa?

— Não, obrigada.

Os pensamentos pessimistas estavam me matando enquanto eu bebia o segundo copo


d’água para ganhar algum tempo. Não demorou muito até que eu sentisse o pequeno corpo dela

colado às minhas costas. O contato repentino me fez derrubar o copo, que se estraçalhou no
chão. No caminho até o armário de limpeza, chutei o pé da mesa, machucando um dedo. Em
seguida, derrubei a vassoura e o apanhador enquanto tentava recolher os cacos de vidro.

— Ei, tudo bem. — Após estender a mão em um pedido para que eu levantasse, ela me
abraçou. — Eu vim aqui só pra ficar perto de você, menino bonito. Conversar e dormir juntinho
já é maravilhoso pra mim. Não temos que fazer nada que te deixe desconfortável. — Tentou me
tranquilizar, sem saber que meu nervosismo se devia exatamente ao oposto do que ela
imaginava.

Descalça, ela ficava muito baixinha, motivo que me fez colocá-la sobre o balcão. O
gritinho pela frieza do granito sob as pernas me fez rir.

— Eu gosto desse vestido — afirmei, acariciando suavemente as pernas expostas e


sentindo a pele se arrepiar em resposta ao meu toque.

Após tocar os lábios em sua testa, contei que tinha algo para mostrar no meu quarto.

Depois a fiz enrolar as pernas na minha cintura e a carreguei até lá. Um ofego escapou de seus
lábios ao ver o que eu tinha feito. Desvencilhando-se de mim, ela observou tudo com evidente
surpresa.

— Eu espero que você não me considere brega por isso... — De repente, tudo aquilo me
pareceu exagerado e eu me senti um idiota.

— Está brincando?! Está perfeito! Você fez tudo isso pra mim?

— Claro. Eu queria te dar mais do que essa, mas você me pegou de surpresa. —
Entreguei a ela uma única rosa vermelha, que antes repousava em um copo com água. — Eu
acho que a minha mãe não vai se importar por eu ter colhido uma das flores dela pra dar à garota
que me faz feliz.

Seu rosto se abriu em um sorriso encantador, e sua mão deslizou pelo meu rosto com a

suavidade de uma pluma.

— Você é romântico, Augusto. Eu amo isso em você. Aliás, eu amo tudo em você. —
Dizendo isso, ela se colocou na ponta dos pés e me beijou novamente. Dizer que me ama estava
se tornando corriqueiro para ela, mas a minha felicidade em ouvir aquilo nunca diminuía.

Correspondi ao beijo com a mesma intensidade de antes. Embora nossos corpos


estivessem colados, ainda não parecia o suficiente. Eu queria sentir o calor e a maciez dela, por
isso coloquei as mãos por baixo do seu vestido e explorei suas curvas, fazendo-a suspirar e se
derreter em meus braços.

Abandonando os meus lábios, ela arrancou a minha camiseta e encarou o meu corpo com
um olhar de cobiça que refletia o meu. Dando as costas para mim, passou a mão pelo cabelo e o
jogou sobre um ombro, deixando à mostra o zíper, que eu abri de forma torpe. Depois se voltou
para mim novamente e deixou o vestido cair ao redor dos tornozelos, revelando seu corpo
delicado e escassamente coberto por duas peças de renda roxa. Meu único pensamento era:
“linda e minha — ou quase”, assim como eu estava prestes a ser completamente dela,
entregando-lhe a última parte de mim que eu ainda protegia.

Com a pulsação acelerada, contemplei aquela obra de arte natural. O tom escuro da renda
contrastava com a pele clara e brincava com a minha imaginação ao esconder alguns detalhes e
revelar outros. Seus olhos brilhavam de satisfação enquanto meus dedos lhe causavam arrepios e

extraíam suspiros ao passar de leve por todos os lugares do seu corpo.

Depois de se livrar do vestido, ela desfez o meu cinto e jogou minha calça a esmo. A
direção do seu olhar me deixou envergonhado, então tratei de aproximá-la de mim e comecei a
deslizar meus lábios por suas curvas, a deixando tão perdida em sensações quanto eu. Seus
gemidos se mesclavam aos meus e seus dedos tocavam e arranhavam cada ponto do meu corpo,
até o mais íntimo, despertando cada centímetro de pele.

Eu me sentia totalmente preparado para dar o próximo passo, mas aquilo mudou
subitamente quando ela inseriu os dedos no elástico da última peça de roupa que me protegia. A
chama que aquecia o meu corpo se apagou, e meus músculos se contraíram. Por ela estar envolta
nas próprias sensações, eu achei que não perceberia a minha reação, mas me surpreendeu ao
olhar para cima e capturar o meu olhar.

— Tudo bem. — Caminhando até a cama, ela puxou o edredom, levando as trufas ao
chão. Depois, estendeu uma mão para mim e me levou até lá, onde nos deitamos de frente um
para o outro. Envergonhado pela situação, eu desviei o olhar. Não sabia como prosseguir. Não
queria mais. — Eu entendo como você se sente depois do que ele fez, mas eu queria te pedir pra
confiar em mim e me deixar tentar.

— Eu não consigo — murmurei, piscando para conter as lágrimas de raiva e frustração.

— Consegue, sim. Não tem nada de errado com o seu corpo. Nós só precisamos expulsar
esse intruso da sua cabeça. — O fato de ela achar tão fácil me irritou.

— Diga isso a ele! — gritei, enfurecido, até lembrar que meus problemas não foram

causados por ela. — Meu corpo não funciona quando eu penso naquele desgraçado, Jenny. Eu
sinto muito.

— Não sinta. Eu posso tentar? Eu prometo não insistir se for muito ruim pra você. — Por
mais que quisesse me vestir e encerrar aquela maldita tentativa fracassada, eu achava que devia
isso a ela. Também lembrava do Antony dizendo que seria difícil, mas que eu nunca sairia do
0x0 se não enfrentasse o desconforto. Por isso assenti.

A minha ruiva sentou ao meu lado e levou as mãos às costas, desfazendo o fecho da peça
que ocultava de mim mais uma parte linda e macia do seu corpo. Maciez essa que eu pude sentir
quando levou minhas mãos até lá, me dando total liberdade para explorar. Seus suspiros e a
mudança em seu corpo, despertados pelo meu toque, começaram a reacender o meu desejo e a
insegurança foi perdendo lugar.

Puxando-a para mim, senti seu coração bater tão descompassado quanto o meu. Voltei a
explorar o seu corpo usando os lábios e as mãos, arrancando dela gemidos que me incendiavam e
afastavam de mim as imagens e sensações desagradáveis. Cada curva, uma tentação. Quando sua
última peça de roupa saiu, eu tomei o meu tempo admirando-a. A retirada da minha me causou

dúvidas, mas ela não me deixou desistir.

Depois de uma batalha constrangedora com o preservativo, eu estava pronto para ela. Ela
ficou parcialmente imobilizada por ter parte do meu peso sobre si, e aquilo me fez sentir cruel.
Ela parecia tão frágil ali. Uma presa fácil demais. Como eu fui.

— Você vai me dizer se eu te machucar, não vai? — pedi.

— Você não vai me machucar.

— Mas você sabe que pode me dizer se quiser que eu pare, né?
— É claro que eu sei, mas algo me diz que eu não vou querer. — Decidida como sempre,
ela colocou uma mão na minha nuca e me puxou para um beijo, invadindo a minha boca sem
cerimônia, e com as pernas puxou lentamente o meu corpo de encontro ao seu, até que nos
tornamos um.

Quando nossos corpos começaram uma dança primitiva e sensual, eu não pensei mais no
J e naquele dia. Éramos apenas eu e ela saciando um desejo por tanto tempo reprimido. Um
desejo que não era apenas físico. Estávamos nos entregando de corpo e alma um ao outro.

Enquanto ela dormia nos meus braços, eu a observava com um sorriso. Estar assim com
ela era tão surreal. Poucos meses antes, aquela era uma atividade que nem passava pela minha
cabeça. Ter intimidade física com alguém era uma barreira que eu não tinha certeza se iria — ou
até mesmo se queria — superar. Pelo menos não até uma garota que tinha fogo desde a raiz do
cabelo me fazer mudar de ideia.

Ela acordou e me olhou, sonolenta. Sorriu, e eu me perdi naquele sorriso. Quando me


abraçou mais forte, seu cheiro me seduziu e meu corpo imediatamente quis mais dela.
Evidentemente ela também quis mais de mim, então começamos tudo de novo, e dessa vez foi
bem mais fácil.

— Obrigado — sussurrei em seu ouvido enquanto ela se aninhava em mim novamente.

— Pelo quê?

— Por me ajudar a superar. A minha lembrança disso era um pouco ruim.

— Eu que agradeço. Eu pensei que teria que casar com você pra te levar pra cama — ela
falou com uma risada debochada. Para que deixasse de ser engraçadinha, a prendi sob mim e lhe
fiz cócegas até ela me implorar para parar.

— Eu amo você, Jenny. — Achei que não poderia estar mais próximo dela do que
naquele momento, então era a hora de confessar. Eu só não esperava que ela risse da minha
declaração.

— Eu sei, menino bonito — afirmou, acariciando o meu cabelo. — Mas eu queria muito

ouvir, então obrigada por dizer, mesmo que precise esconder o rosto pra isso. — O complemento
me fez entender o motivo da risada e me sentir aliviado.

— E... eu vou para Cambridge com você. — Dessa vez, a encarei antes de dizer.

— O quê?! — De alguma forma, ela conseguiu força suficiente para me tirar de cima e
sorriu para mim. — Isso merece uma comemoração com aquelas trufas que eu vi aqui.

— Aquelas que você jogou no chão? — perguntei, erguendo uma sobrancelha, copiando
seu hábito e o de Mark.

— Minha fome naquele momento era outra. — Ela sorriu maliciosamente e me deixou
com a boca seca quando, sem a menor hesitação, desfilou na minha frente em busca dos
chocolates.

Várias trufas depois, ela disse que a fome anterior voltara e fizemos amor de novo. Minha
taquicardia não se devia mais à ansiedade, e sim ao excesso de atividade. A minha ruiva me
mataria se tentasse tirar o atraso em uma noite, mas eu morreria feliz.
Bônus – Jennifer – Nos tornamos um

Um leve frio na barriga surgiu quando eu cheguei à porta do pequeno escritório, pois
talvez eu me arrependesse da decisão de dizer a verdade. Por outro lado, o risco e a consciência
pesada não me deixariam aproveitar a noite de qualquer forma.

Puxei o ar profundamente para tomar coragem e bati na porta antes de colocar a cabeça
para dentro.

— Pai, desculpe te incomodar, mas eu posso falar com você?

— É claro, Jenny, entre.

Ele estava usando os óculos e lendo o que certamente era a ficha de um dos seus
pacientes. Eu tentava não o interromper quando ele estava trabalhando em casa, pois sabia que

ele acabava perdendo a linha de raciocínio, mas aquilo era importante.

— Você sabia que os pais do Augusto viajaram e ele está sozinho em casa?

— Não. — O olhar dele exibia uma mistura de surpresa e compreensão. — Ele está bem?

— Ele dormiu sozinho ontem e ficou bem. — Meus dedos começaram por vontade
própria a enrolar uma mecha do meu cabelo. Por mais que dormir na casa do namorado não fosse
grande coisa, pedir isso ao meu pai me deixava sem graça. — Ele me convidou para dormir lá
hoje... Eu posso?

— Por que você não pediu à sua mãe? — questionou erguendo a sobrancelha daquela
forma arrogante que eu conhecia porque também usava muito.

A resposta era que, apesar de que seria menos constrangedor pedir a ela, eu optei pelo
meu pai porque ele era mais fácil de convencer. Sempre foi. Mas é claro que eu não diria isso a

ele.

— Por que ela não confia tanto em mim quanto você. Eu sei que eu vejo o Augusto todos
os dias, mas a gente praticamente nem consegue se falar no colégio. Por favor, pai — implorei
fazendo a minha melhor expressão de cachorrinho pidão.

Eu não tinha certeza se era por não resistir a ela que ele era mais permissivo do que a
minha mãe ou porque, por trabalhar com adolescentes, ele acabou descobrindo que eu sou um
anjo perto deles. Já a minha mãe tinha dificuldade em acreditar no meu discernimento. Talvez
por lembrar do próprio comportamento quando tinha a minha idade. Não que eu saiba o que ela
aprontava, mas ela também é ruiva, e nós temos certa fama.

— Prometa que não vai beber. — A frase foi o primeiro passo até o sim.

— Pai! O Augusto não bebe, e você sabe disso! — exclamei com uma risada sonora
porque era hilário imaginar Augusto bebendo qualquer bebida alcoólica.

— Ele não, mas vocês vão dar uma festa, não vão? Eu não sou idiota.

— Eu nunca pensei que fosse. Planejamos um churrasco na piscina amanhã, mas só pra
nossa panelinha de seis pessoas. — Ergui seis dedos para enfatizar o número reduzido. — E eu
prometo qualquer coisa que você quiser. — Depois de um suspiro dramático, ele prometeu
convencer a minha mãe, mas ameaçou me trancar pelo resto da vida se eu o fizesse se
arrepender. — Eu tenho o melhor pai do mundo! — afirmei animadamente antes de dar um beijo
estalado na bochecha dele.

— Tô sabendo. — Ocultei o riso pelo jeito informal para falar comigo. Ele adaptava a
fala de acordo com a audiência. Meu pai sempre foi uma figura única.

Antes que eu saísse do escritório para deixá-lo trabalhar em paz, ele me lembrou de que
Augusto poderia não estar preparado para nada além de uma boa noite de sono. O comentário fez
minhas bochechas arderem, mas não foi nenhuma surpresa. Eu já estava preparada para isso e
sabia que a noite valeria a pena mesmo assim.

***

Eu não poderia estar mais certa. Nada poderia valer mais a pena do que passar a noite

esparramada no tapete da sala comendo fondue com Augusto enquanto ele falava sobre si mesmo
de forma descontraída. Ele raramente falava sobre a vida que levava antes do sequestro,
provavelmente por ainda estar magoado por ter mudado tanto depois da experiência cruel.

Eu me engasguei de tanto rir quando ele me contou sobre o primeiro e desastroso beijo,
aos quatorze anos. Eu não poderia ter ciúmes de uma garota que sofreu com dentes se chocando
e que levou um pisão no pé.

Depois do fondue, fiquei escolhendo um filme enquanto ele ia lá fora. Escolhi uma
comédia romântica, mas, por precaução, escolhi um suspense também, caso ele rejeitasse a
minha escolha inicial. Afinal, embora ele fosse muito gentil, não deixava de ser homem.

Conferi o horário trocentas vezes e bufei outras tantas, impaciente pela demora. Apesar

de estar me coçando para ir atrás dele, decidi lhe dar mais um tempo para fazer fosse lá o que ele
precisasse fazer, já que não estava contando com a minha presença naquela noite.

Quando finalmente voltou, tinha um brilho de excitação no olhar que me deixou curiosa,
mas antes que eu pudesse perguntar, ele me beijou e depois me levou até o sofá, onde nos
aninhamos sob uma manta. Apesar da proximidade, o único contato que tivemos foram uns
beijos esporádicos que ele deu no meu pescoço entre uma gargalhada e outra.

Quando o filme acabou, eu o surpreendi me encarando, e o brilho no olhar estava lá

novamente. Um segundo depois estávamos entregues a um beijo que me fez derreter mais que o
fondue. As mãos dele puxavam o meu cabelo de forma suave, porém firme, expondo meu
pescoço ao toque delicado dos seus lábios.

O toque do celular me fez gemer levemente. Pela expressão dele, eu podia ver que estava
tão frustrado quanto eu.

— Deve ser a minha mãe. Ela vai ficar desesperada se eu não atender. — Eu podia
entender a preocupação dela.

Ele atendeu e saiu da sala, certamente por não querer que ela soubesse que eu estava lá.
Eu também podia entender isso, já que também teria evitado dizer aos meus pais que passaria a
noite com ele, se pudesse. Para me distrair, enquanto esperava por ele comecei a vasculhar o meu
aplicativo de música.

— Você já ouviu essa música do Ed Sheeran? — perguntei assim que ele voltou. — É
irlandesa. Ela fala sobre o romance dos avós dele.

— Música irlandesa é legal.

A música seguinte sempre mexia comigo, pois descrevia como eu me sentia em relação
ao Augusto.

— Thinking Out Loud é uma das minhas favoritas. Quer dançar comigo? — Estendi uma

mão, e ele a segurou, mas não se mexeu.

— Eu não gosto muito de dançar.

— Ah, por que, menino bonito? Não tem ninguém olhando. Eu não vou contar pra
ninguém que você pisou no meu pé — sussurrei em provocação, pois ele nunca resistia a uma.

— Eu não vou pisar no seu pé, engraçadinha. — Confirmando a minha teoria, ele aceitou
dançar comigo, e foi a coisa mais perfeita que já fizemos.

Quando a música terminou, eu trouxe seus lábios até os meus e me perdi completamente
neles. Suas mãos deslizaram pelo meu corpo com intensidade, o toque enviando uma corrente de
eletricidade por onde passava. Inspirei profundamente o aroma inebriante que ele exalava e me
deixei levar pelos suspiros dele. Ele estava tão ofegante e perdido no momento quanto eu.

— Eu preciso de água — ele disse de repente, quebrando o clima. — Você quer alguma
coisa?

— Não, obrigada.

Quando ele foi até a cozinha, eu sentei e fechei os olhos, tentando acalmar meu coração e
lidar com a frustração. Eu sabia que não rolaria nada naquela noite, mas era difícil fazer meu
corpo lembrar disso quando ele estava tão perto. Após me recompor, fui até a cozinha garantir a
ele que tudo ficaria bem, pois tinha certeza de que estava com medo ou vergonha de me dizer
que não estava pronto.

Eu o encontrei de frente para a pia com uma mão apoiada sobre ela e um copo na outra. A
cabeça baixa deixava claros os pensamentos dele, aqueles que eu já conhecia bem. Apesar de ter
evoluído bastante, ele ainda mostrava alguma insegurança em relação a mim, como se não fosse
bom o suficiente para valer a pena.

Depois que o abracei, ele ficou totalmente desastrado, como sempre ficava quando estava
com os nervos à flor da pele. Eu teria rido da situação se não soubesse que ele estava se sentindo
oprimido e que a culpa era minha.

— Ei, tudo bem. — Estendi uma mão e esperei que ele se colocasse de pé para poder
abraçá-lo apertado. — Eu vim aqui só pra ficar perto de você, menino bonito. Conversar e
dormir juntinho já é maravilhoso pra mim. A gente não tem que fazer nada que te deixe
desconfortável. — Ergui meu rosto e sorri, tentando tranquilizá-lo.

Pegando-me de surpresa, ele me colocou sobre o balcão. A superfície gelada me fez gritar
e isso o fez rir de forma gostosa antes de elogiar o meu vestido e começar a acariciar as minhas
pernas.

A doçura de um beijo na testa não me surpreendeu, pois ele sempre foi doce, à exceção

dos primeiros dias. O que me surpreendeu foi ele dizer que queria me mostrar algo no quarto e
envolver minhas pernas nele antes de me carregar até lá em cima.

O que eu vi me fez arfar e perceber o quanto eu estava errada em achar que a noite não
poderia ser mais perfeita. Ele havia transformado o próprio quarto no ambiente mais lindo e
romântico que eu já tinha visto. A cada dia ele me ensinava o quanto um gesto romântico podia
ser cativante.

— Eu espero que você não me considere brega por isso... — A voz dele me tirou dos
devaneios. Olhei em seu rosto corado e percebi quão envergonhado e inseguro ele estava.

— Está brincando?! Está perfeito! — garanti, tentando livrá-lo da timidez. — Você fez
tudo isso pra mim?

— Claro. Eu queria te dar mais do que essa, mas você me pegou de surpresa. — Seus

olhos pediam desculpas enquanto me entregava uma única rosa vermelha. — Eu acho que a
minha mãe não vai se importar por eu ter roubado uma das flores dela pra dar à garota que me
faz feliz.

Encarei a rosa me esforçando para manter sob controle as lágrimas que queriam cair.
Quando eu achava que não poderia amar mais aquele garoto, ele me mostrava o contrário.

— Você é tão romântico, Augusto — falei, acariciando seu rosto. — Eu amo isso em
você. Aliás, eu amo tudo em você. — Eu me ergui na ponta dos pés e o beijei apaixonadamente.

Ele correspondeu com a mesma intensidade. Em pouco tempo, suas mãos mergulharam
sorrateiramente sob o meu vestido e exploraram tudo o que encontraram. A sensação de estar nos
braços dele era indescritível e fazia suspiros escaparem sem que eu pudesse impedi-los.

Após retirar sua camiseta, fiz minhas unhas arranharem levemente a pele daquele corpo
tentador, descendo pelo peitoral liso até encontrarem a linha fina de pelos pretos que
desapareciam por trás do cinto, extraindo suspiros. Vê-lo tão entregue a mim era extasiante. Eu
estava prestes a vê-lo por inteiro quando senti seus músculos ficarem tensos. Um olhar em seus
olhos foi tudo o que eu precisei para confirmar a mudança de sentimentos.

— Tudo bem. — Quando deitamos lado a lado encarei seu rosto extremamente corado e
torci para dizer as palavras certas. — Eu entendo como você se sente depois do que ele fez, mas
eu queria te pedir pra confiar em mim e me deixar tentar.

— Eu não consigo — ele sussurrou, piscando os olhos marejados. Eu me senti mal por
insistir em algo que ele não se sentia pronto para fazer, entretanto sabia que ele queria aquilo e
que precisava de um empurrão.

— Consegue, sim. Não tem nada de errado com o seu corpo. Nós só precisamos expulsar
esse intruso da sua cabeça — expliquei, contornando suavemente o seu rosto e tentando desfazer
as linhas de preocupação na testa franzida.

— Diga isso a ele! — A raiva já era esperada, pois ela sempre aparecia junto com as
lembranças daquele dia. — Meu corpo não funciona quando eu penso naquele desgraçado,
Jenny. Eu sinto muito. — Eu não queria que ele sentisse muito. Não queria que a noite que ele
planejara de forma tão bela se transformasse em uma noite que ele se lembraria com vergonha e

raiva.

— Não sinta. Eu posso tentar? Eu prometo não insistir se for muito ruim pra você. — Seu
rosto se contorceu em uma expressão de desamparo que me fez sentir uma pessoa horrível. Eu
estava prestes a retirar o pedido, quando ele assentiu.

Ele só precisou de um pequeno incentivo para se entregar ao momento outra vez e


lentamente deixar a angústia e a insegurança para trás. Abraçada a ele, podia senti-lo tão quente
quanto eu e seu coração tão disparado quando o meu. Naquele momento, ele era completamente

meu.
— Você vai me dizer se eu te machucar, não vai? — pediu em voz baixa.

— Você não vai me machucar — respondi sem entender o porquê da pergunta.

— Mas você sabe que pode me dizer se quiser que eu pare, né? — O entendimento surgiu
naquele momento. Ele queria garantir que eu não me sentiria indefesa ou usada, como ele se
sentiu.

— Eu sei, mas algo me diz que eu não vou querer. — Disposta a impedi-lo de desistir,
puxei seu rosto para um beijo e seu corpo de encontro ao meu.

Perdemo-nos em nosso próprio mundo, mas nunca deixamos de fitar um ao outro a fim
de confirmar que estávamos bem. Não existem palavras para descrever a sensação de tê-lo por
inteiro. Eu só sei que desejei poder mantê-lo nos meus braços para sempre.

Abrir os olhos e encontrá-lo me encarando com aquela expressão apaixonada foi como
ganhar o meu cartão de crédito, algo que não tem preço. Seu sorriso se ampliou, franzindo os
cantos dos olhos. Aquele sorriso levou a um beijo, que levou a nos perdermos novamente um no

outro. Sem nenhuma hesitação dessa vez.

— Obrigado — ele sussurrou no meu ouvido enquanto me puxava para ainda mais perto.

— Pelo quê?

— Por me ajudar a superar. A minha lembrança disso era um pouco ruim. — “Um pouco
ruim” era um grande eufemismo. Para descontrair a situação, revolvi provocá-lo.

— Eu que agradeço. Eu pensei que teria que casar com você pra te levar pra cama. — Eu
me arrependi pela provocação no momento em que ele começou a fazer cócegas na minha
barriga.

— Eu amo você, Jenny. — A frase que eu tanto esperei ouvir arrancou de mim uma
gargalhada. Talvez por excesso de felicidade ou talvez pela forma com a qual ele confessou.
— Eu sei, menino bonito — afirmei escovando o cabelo dele com os dedos, gesto que eu
repetia sempre que tinha uma oportunidade. — Mas eu queria muito ouvir, então obrigada por
dizer, mesmo que precise esconder o rosto pra isso.

— E... eu vou para Cambridge com você — falou logo após me encarar com olhos
brilhantes de expectativa.

— O quê?! — Em um ímpeto, inverti nossas posições, não conseguindo conter minha


alegria em ouvir aquilo. Eu estava enganada novamente. Se havia algo que poderia me deixar
mais feliz do que eu já estava, era saber que não passaríamos os próximos anos morando longe
um do outro.

Eu descobri que a felicidade machuca, pois meu rosto doía, de tão amplo que era o meu
sorriso enquanto eu procurava a caixa de chocolates no chão. Obviamente era uma dor desejável.

Naquela noite, nós mal dormimos por dois motivos: queríamos praticar, pois a prática
leva à perfeição e, o principal, nós queríamos que aquela noite durasse para sempre.
Bônus – Jennifer – Festa na piscina

Minhas pálpebras se contraíram, incomodadas pelos raios do sol que começaram a


expulsar a escuridão do ambiente. Segundos depois, o cheiro de café que invadiu minhas
narinas me fez sorrir. Não era todo dia que eu acordava como nos romances.

Um leve suspiro no meu pescoço me despertou, e o cheiro de café desapareceu. É claro


que seria um sonho, afinal o meu namorado só tinha dezessete anos e com certeza o romantismo
dele não chegaria a ponto de fazê-lo acordar cedo para preparar o meu café. Quem sabe um dia?
Eu prefiro cheiro de chocolate quente mesmo.

A realidade tinha algo muito mais legal para me fazer sorrir. Lentamente me virei para o
outro lado da cama, onde pude encarar o meu menino bonito dormindo como um anjo. O rosto
bem-desenhado estava sereno, sem nenhum sinal de preocupação ou pesadelo. Para confirmar
que ele era real, beijei sua testa e acariciei seu cabelo suavemente, na esperança de que não
acordasse, mas ele abriu os olhos e esboçou um sorriso mais caloroso que o sol. Depois, me
envolveu nos braços e enterrou o rosto no meu cabelo, me deixando livre para enterrar o meu em
seu pescoço e aspirar o perfume do qual eu nunca me cansaria.

Teríamos ficado abraçados na cama por horas, se a realidade não tivesse batido à nossa
porta, ou melhor, miado à nossa porta. Um miado bem feio.

— Vamos ignorar — sugeri, me agarrando ainda mais ao meu namorado.

— Ele vai destruir a porta se achar que eu não vou descer pra dar comida a ele. — A voz
rouca não era a que eu esperava ouvir, mas foi extremamente sexy e me fez segurar ainda mais
forte na cintura dele, esperando mantê-lo na cama. — Você não vai querer ver o Toddy com
fome.
Desvencilhando-se de mim, ele levantou da cama com o lençol enrolado ao corpo. Eu
tentei puxar o lençol, mas ele já deveria estar esperando por isso, pois o segurou firme para
mantê-lo no lugar, como se eu já não tivesse visto tudo ali.

Escovamos os dentes lado a lado enquanto Toddy mordia as nossas pernas para nos
apressar. Eu realmente não queria mais ver aquele gatinho com fome, pois ele se tornava um
monstrinho. Para me vingar pelas mordidas, desci as escadas beliscando aquela barriga fofa dele.

Fazer parte da rotina matinal do Augusto foi um bônus à parte. Juntos, colocamos ração
para Sammy e para Toddy e lavamos os potinhos de água de ambos. Enquanto eles comiam,
preparamos o nosso café, trocando selinhos a todo instante.

Eu queimei duas panquecas enquanto ele fazia o recheio, mas a culpa foi toda dele.
Certamente resolveu ralar o queijo só para me fazer ver os músculos dos seus braços se
contraindo e relaxando, o que desviou minha concentração da frigideira. Enquanto comíamos,
começamos a fazer uma lista de comida para o churrasco. Estávamos no meio de uma discussão
sobre quantas caixas de hambúrguer comprar quando o telefone dele tocou e ele atendeu
prontamente.

— Ei, pai. Como vai? — Durante a pequena pausa, ele revirou os olhos. — Desculpe, eu
não vi a ligação. É eu sei, mas eu acordei um pouco mais tarde hoje. Não foi isso... Minha noite

foi boa, acredite. — O rosto dele começou a corar mesmo que seu pai não tivesse qualquer pista
do que ele havia feito na noite anterior, e isso me fez querer rir. Rapidamente levei uma mão à
boca para impedir que uma a risada escapasse, mas não foi o suficiente. — Foi Sammy tossindo!
— A desculpa ridícula aumentou a minha vontade de rir, e eu tive de sair correndo da cozinha.

Quando voltei, ele havia acabado de encerrar a ligação e foi atrás de mim ameaçando me
matar, o que me fez fugir para o jardim, onde fui perseguida por ele e por Sammy. Com pernas
bem mais longas do que as minhas, ele conseguiu me alcançar depois de um tempo, mas desistiu
de me matar por gostar muito de me beijar.
Depois de recolher com um saquinho o presente que Sammy deixou na grama, ele voltou
a me perseguir, e eu achei que valia a pena tentar correr mais do que ele, pelo menos até que
Augusto tivesse lavado as mãos.

Fizemos compras e entulhamos a geladeira com hambúrgueres e linguiças para o


churrasco. Depois, deitamos em espreguiçadeiras enquanto esperávamos pelos outros. Os raios
do sol filtrados pelo teto e paredes de vidro aqueciam a minha pele de maneira agradável. O dia
estava ensolarado, mas a temperatura fora daquela redoma ainda estava baixa, por isso todas as

portas estavam fechadas, mantendo o calor preso naquela enorme estufa ao redor da piscina.
Imaginei a enorme quantidade de libras que a doutora Lewis e o doutor Grayson gastavam por
mês só para manter aquele lugar aquecido, além da enorme casa e da sala de ginástica. Entretanto
o Augusto me mostrou os painéis solares que ficavam pouco visíveis no teto alto da casa e
explicou que a maior parte da energia gasta na propriedade vinha deles.

Nossos amigos chegaram com algumas cervejas contrabandeadas e logo caíram na


piscina, mas eu preferi ficar ali, tomando mais um pouco de sol e observando Augusto. Apesar

de não ter bebido nada, ele estava tão descontraído que até parecia outra pessoa. Eu já sabia que
o uso de medicamentos não era o único motivo para não beber. Por ter síndrome do pânico, era
mais suscetível a se tornar dependente de álcool e drogas, e por isso preferia se manter longe. O
senso de responsabilidade era uma das características que eu mais admirava nele.

— A noite foi boa, né? Você e o Augusto estão muito felizinhos hoje. — Meus lábios se
esticaram ainda mais com o comentário de Rox, que havia acabado de sentar na espreguiçadeira
ao meu lado com um prato de salsichas quentinhas.

— Foi perfeita! — Felizmente o meu grito foi abafado pela voz de Shakira, mantendo a
nossa conversa privada. — Ele é todo perfeito. Todo. — Fiz questão de enfatizar.

— Gente do céu, vocês dois estão muito melosos!

— E estamos muito felizes assim. Você também estaria bem feliz se desse uma chance ao
Mike.

— Eu não sei por que você insiste em dizer isso. Eu já te disse que ele é só meu amigo.

— Se você está dizendo. Mas não reclame quando ele se cansar de levar toco ou alguém
pegar antes de você. Olha só aquilo. — Apontei com a cabeça em direção à piscina, onde o
garoto em questão exibia o corpo sarado. — Ele é uma mistura perfeita de corpo de homem com
carinha de anjo. Sem falar que ele é gentil, educado e está sempre disposto a ajudar os amigos.

— Fica com ele, já que gosta tanto! — Minha única resposta pela explosão de ciúme foi
uma gargalhada que chamou a atenção dos meninos.

— Vocês vão entrar aqui ou vão passar o dia todo comendo? Deixem um pouco pra
gente! — Mike gritou antes de ser subitamente puxado para o fundo da piscina.

Aceitando o convite de Mike, retirei os óculos escuros e os deixei sobre a


espreguiçadeira. Estava prestes a tirar o short quando percebi que Rox estava completamente
vestida.

— Você não vai tirar essa roupa?

— Eu não vou entrar na água.

— Por que não?! Está morninha. — A desculpa de que não estava a fim não convenceria
sequer uma criancinha. — Desde quando você tem neura com seu corpo? Você nunca pareceu
ligar pra isso.

— Cheia de roupas, eu não ligo mesmo.

— Ah, Rox, para com isso! — Ela estava fingindo não se importar com isso, mas estava
claro que queria entrar e se divertir como todo mundo estava fazendo. — Você não tem que ficar
de biquíni se não quiser, mas tem que entrar na água com a gente.

— Vão me achar esquisita se eu entrar de roupa.


— Quem se importa?! Os meninos estão de short, e ninguém acha esquisito. Eu fico com
o meu também, e se falarem alguma coisa, somos tímidas! — Entramos na água rindo daquilo,
porque de tímidas, não tínhamos nada.

Jogamos vôlei três contra três até Mike resolver ir comer e levar Rox com ele. Com
menos jogadores, o jogo ficou sem graça, então Hilary sugeriu briga de galo, e ficamos nisso até
cansar.

Parando de movimentar as minhas pernas deixei que meu corpo se tornasse mais leve. A
sensação de boiar era extremamente agradável. Minhas pálpebras estavam fechadas, e os sons
estavam distantes. Apesar disso, eu sabia que Augusto estava perto de mim. Nós dois sentíamos
a necessidade de ficar perto, de preferência abraçados, sentindo o cheiro e o calor um do outro.

— Cadê o Mike e a Rox? — ele perguntou depois de algum tempo de silêncio, me


fazendo perder a concentração e afundar na água.

— Eu acho que eles queriam privacidade, já que foram lá para fora molhados e no frio —
Hilary explicou de forma sugestiva.

Como não perderíamos a oportunidade de pegar os dois em flagrante, fomos os quatro


silenciosamente procurar por eles. Infelizmente ninguém lembrou de levar o celular para ter uma
prova da cena e zoar os dois para o resto da vida.

Entretidos em um beijo de sugar a alma, os dois só nos perceberam lá quando começamos


uma algazarra com gritos e assobios. Também houve latidos depois que Sammy se juntou à festa.
Pela primeira vez, eu vi Rox ficar minimamente corada. Ela escondeu o rosto no pescoço de
Mike, e ele a abraçou de forma romântica antes de olhar para nós com o sorriso de sempre,
porém bem mais brilhante.

Aquele final de semana foi inesquecível para quase todos nós.


CAPÍTULO 33 – Duplamente Graduado

Ao chegar em casa, cumprimentei Cibele e começamos a conversar em português, como


vínhamos fazendo há meses. Eu ainda cometia muitos erros com verbos, preposições e gêneros
das palavras, mas minha pronúncia e compreensão verbal já estavam em um nível avançado,
graças à paciência infinita dela.

— Chegou uma carta para você, e eu acho que você vai querer correr pra ler. Está no seu
quarto — ela falou, sorrindo, e imediatamente eu soube o que era.

Comecei a gargalhar logo no primeiro parágrafo, quando confirmei que em breve me


livraria de Antony, recebendo ou não a alta que ele se recusava a me dar.

***

O caso narrado em uma das sessões seguintes era muito parecido com o meu. Era o
estudo de caso de um adolescente que também passou por um ato de violência extrema e

desenvolveu um medo patológico de tudo e de todos. Ao contrário de mim, ele se tornou


agressivo, mas, como eu, recusava ajuda. Ouvindo o relato dos profissionais que trabalhavam
com ele, eu pude perceber quantas oportunidades de me recuperar eu perdi por achar que
ninguém me entendia e antipatizar com as pessoas por isso. Apesar de me identificar, pela
primeira vez consegui ver a situação pelo lado de fora.

Ao fim da sessão, Antony abriu uma gaveta na escrivaninha e tirou de lá um papel


grosso. Eu esperava que fosse só mais uma atividade chata para fazer, mas ele me surpreendeu
com uma brincadeira que me fez querer rir loucamente. Entretanto, por medo de que ele mudasse

de ideia, esbocei apenas um sorriso discreto enquanto me imaginava pendurando aquilo no meu
novo lar.

“Eu, Antony Carrasco, doutor em tortura psicológica, no auge de toda a minha sabedoria,
concedo a Augusto Aborrecente, um corajoso rapaz que comparecia alegremente a cada sessão
de tortura, o título de bacharel em ALTA e especialização em HABILIDADE PARA VIVER A
PRÓPRIA VIDA COMO BEM QUISER E ENTENDER”.

O meu celular tinha quatro números na discagem rápida, e eu pensei em ligar primeiro
para cada uma das outras três e contar a novidade, mas acabei optando por Mark, já que por mais
de um ano, esperei receber alta através dele. Não aquele estranho certificado, mas ao menos
ouvir as quatro letrinhas mágicas.

***

A despedida do senhor Prior e da Clair foi a mais difícil, pois eu realmente gostava
daquele trabalho e queria participar dele até o fim. Meu quase ex-professor conseguiu renovar o
orçamento da pesquisa e precisaria de novos ajudantes já que Clair também estava se despedindo
de Coventry, porém para fazer mestrado em Londres.

— Eu vou sentir sua falta, garotinho — ela disse quando nos despedirmos perto daquele
beco no campus.

— Eu também vou sentir sua falta. Obrigado pela ajuda e pela paciência.

— Sem problemas. Eu gosto de salvar garotinhos indefesos. — Olhando-me de cima


abaixo de um jeito que me deixou acanhado, ela completou: — Se bem que você não parece mais

um garotinho. — Após revirar os olhos, a abracei pela última vez.


— Boa sorte, Clair.

— Eu não acredito em sorte. Acredito em metas. Transforme seus sonhos em metas e

corra atrás delas. Só não esqueça que sonhos podem mudar. Se isso acontecer, crie novas metas e
continue correndo atrás delas. Nunca fique sem uma, ou você vai ficar estagnado.

— Isso foi profundo.

— Eu sei. Eu tenho um aplicativo de conselhos sábios. — Rindo, cada um de nós seguiu


seu caminho.

***

Durante nosso último almoço no colégio, Rox jogou uma bomba sobre nós,
principalmente em Mike.

— Eu fui aceita em uma faculdade de moda em Milão e, em algumas semanas, vou me


mudar pra lá.

— Você vai pra Milão em algumas semanas?! Você esqueceu de me dizer que vai morar
fora do país? — ele questionou, incrédulo.

— Eu não falei antes porque não sabia se seria aceita. Eu recebi a carta ontem e estou
muito animada pra começar.

— Que bom. — A cara dele dizia exatamente o contrário das palavras, o que nos deixou
mudos, sem saber se deveríamos parabenizar Rox ou ser solidários a Mike.

— Ei, você está bem? — sussurrei para ele quando as meninas começaram a conversar
sobre a novidade. Uma conversa que incluía até mesmo caras italianos.
— Melhor impossível. — A comida abandonada no prato era mais que suficiente para
demonstrar o estado de ânimo dele, mas ali não era o lugar ideal para conversarmos sobre isso.

— Por que você escolheu moda? — ouvi Hilary perguntar quando voltei a prestar atenção
à conversa delas.

— Porque eu sempre gostei de moda e faltam pessoas dedicadas à moda plus size. Não é
sobre fazer as mesmas roupas em tamanho grande, é sobre desenhar roupas especificamente pra
pessoas fora do padrão das passarelas.

— Você já está totalmente no papel de estudante de moda, Rox! Mas por que em Milão?

— Por que não em Milão? — ela retrucou a pergunta de Hilary.

— É, por que não em Milão, já que não tem nada te prendendo aqui, né, Roxxane?! —
Mike exasperou, saindo da mesa de forma tão brusca, que quase derrubou a cadeira.

— Você não quer pisar um pouco mais, Rox? — perguntei.

— Por que eu estaria pisando nele? Não tem nada entre a gente.

— Na festa da piscina pareceu outra coisa... — Hilary alfinetou.

— Aquilo simplesmente aconteceu, mas não foi nada de mais! A gente tava focado nos
A-levels e nas inscrições das universidades.

— Acho que você esqueceu de avisar isso a ele...

— Você é amiga dele, deveria saber que pra ele teve importância! — protestei.

— Chega, gente! — Jenny interveio. — Deixem a Rox em paz, isso é entre ela e o Mike!

— Eu vou falar com ele e vai ficar tudo bem, não se preocupem — Rox afirmou, se
retirando da mesa com uma expressão fechada.
***

— Você vai tomar um chá de cadeira — um Mark sorridente afirmou ao me receber na


porta.

— Sério? Eu pensei que vocês fossem ingleses! — exclamei, fingindo indignação pelo

atraso da minha ruiva.

— Nenhuma garota é inglesa o suficiente no dia do baile de formatura — ele justificou e


depois a chamou ao pé da escada: — Jenny, tem um garoto bonito aqui embaixo.

— É menino bonito, Mark, não garoto bonito — a Dra. Thompson o corrigiu ao se


aproximar para me cumprimentar. — Deixa eu ver você, está mais lindo do que nunca! Eu
entendo por que a minha filha tem uma queda por você. — Embora eu ainda corasse, já tinha
intimidade suficiente para conseguir rir da brincadeira.

Eu estaria irritado àquela altura se os pais da minha namorada não fossem pessoas
divertidas, pois a espera foi realmente longa. Entretanto valeu a pena cada segundo, visto que
quando ela apareceu no topo da escada, estava mais linda do que nunca.

O vestido cor de chumbo abraçava suas curvas até os joelhos e depois se abria em uma

cauda volumosa que escondia os sapatos. Os cabelos estavam presos em um coque bem-
elaborado e finas mechas emolduravam seu rosto. O par de brincos de esmeralda combinava
perfeitamente com o relicário de prata, meu presente de aniversário para ela, que também exibia
uma pequena esmeralda para combinar com seus olhos e que guardava uma foto nossa. Seu
sorriso refletiu o meu quando nossos olhares se encontraram.

— Fecha a boca, garoto — Mark zombou, me dando tapinhas no ombro e me deixando


corado novamente.

O ginásio estava ornamentado com uma infinidade de flores e velas. O buffet estava
repleto de bebidas sem álcool, queijos e canapés — é claro, foi lá que encontramos Mike.
Usando um smoking preto como o meu, ele acompanhava Rox, que estava totalmente diferente
em um vestido azul-turquesa com uma saia repleta de camadas esvoaçantes. O cabelo azul estava
cacheado, e apenas um dos lados estava preso por grampos brilhantes. De salto alto, ela estava
tão alta quanto eu e apenas um pouco mais baixa do que Mike. Eles riam enquanto conversavam,
mas de certa forma aquela alegria parecia superficial.

Nosso pequeno grupo conversava animadamente em uma mesa de canto. Decidimos

esquecer a vida acadêmica ao menos por um dia e ser apenas adolescentes se divertindo em uma
festa. Quando o DJ começou a tocar Shakira, as meninas se animaram para dançar. Mike e Greg
foram com elas, me deixando sozinho para observar a minha ruiva se mexer ao ritmo da música.

Meus pensamentos vagaram até o primeiro dia daquele último ano letivo e um sorriso
involuntário surgiu nos meus lábios. Eu estava mais do que feliz por finalmente deixar aquele
lugar para trás, mas não podia negar que ele me dera um grande presente.

Uma súbita presença furou a minha bolha de felicidade e imediatamente eu soube quem
era. Era impossível não reconhecer aquele perfume enjoativo. Tudo nela era enjoativo: o
perfume, a voz e a insistência em dar em cima de mim.

— Você está lindo.

— Obrigado — respondi, encarando a pista de dança e me perguntando o que seria mais


difícil, suportar a Alana ou dançar Despacito.

— Eu estou bonita também? — A pergunta me fez encará-la.

— É melhor você perguntar ao Simon.

— O Simon não é meu namorado — afirmou, deslizando o corpo pelo banco e se


aproximando de mim. Aquilo me fez levantar, disposto a ir para qualquer lugar, contanto que
ficasse longe dela.
— Mas o Augusto é o meu, e você está incomodando ele, Alana.

— Ele não me disse nada — ela rebateu.

— Porque ele é educado demais pra dizer, mas eu digo por ele: Cai. Fora. — Tive que
prender os lábios entre os dentes para não rir ao ver minha ruiva me defendendo com unhas e
dentes. — Vamos dançar, menino bonito? — me convidou com a cara mais lavada do mundo,
me fazendo perder a guerra contra uma risada.

— Claro. — Felizmente, a música do momento era lenta. — Obrigado por me salvar.

— Obrigado nada, quero pagamento em beijos! — reivindicou, colando seu corpo ao


meu e apoiando a cabeça no meu ombro enquanto nos movíamos ao som de A Thousand Years,
da Christina Perri.

— Como queira. — Beijei sua testa e ergui seu rosto para depositar um selinho nos
lábios. — Eu amo você, minha ruiva. — Ao fim da música, eu a afastei de mim e a girei sob o
meu braço, fazendo a cauda do vestido rodopiar, e a trouxe de volta quando a próxima começou.

— E eu amo você, menino bonito.

Ignorando as regras ao menos uma vez, nos beijamos ocultos dos professores por outros
casais. Foi a melhor forma de nos despedirmos do Henry Clark High School.
CAPÍTULO 34 – Liberdade X Prisão

Do meu grupo de amigos, eu era o último a fazer aniversário e, felizmente, durante as


férias. Por isso, quando a minha mãe perguntou o que eu queria de presente, não hesitei em pedir
uma viagem com Jenny. Mesmo que não fosse para onde eu queria, passar um fim de semana
inteiro sozinho com ela novamente era um presentão.

— Pode entrar — falei após ouvir uma batida na porta, mas só tirei os olhos das coisas
que eu arrumava na mochila ao perceber que quem entrou no meu quarto caminhou
completamente mudo até a janela das lamentações. — Ei, como foi? — perguntei, deixando a
mochila de lado.

— Uma droga. No último minuto, eu quase pedi a ela pra ficar.

— E por que não pediu?

— Porque se é moda que ela quer estudar, não sou eu que vou atrapalhar. Já basta o pai
dela, que não aceita o que ela escolheu porque queria que ela estudasse direito.

— Mas há faculdades de moda na Inglaterra.

— Você sabe o que as garotas dizem: “Milão é a cidade da moda” e toda essa idiotice. De
qualquer forma, talvez seja mais fácil esquecer se eu ficar longe dela. Ainda assim... — sua voz
falhou, e ele suspirou de cabeça baixa antes de continuar. — Foi difícil me despedir dela no
aeroporto.

— Eu imagino. — Eu sabia exatamente como ele estava se sentindo porque também me


senti daquele jeito quando achei que perderia Jenny. Também sabia que nada que eu dissesse ou
fizesse o faria se sentir melhor, mas talvez um pouco de risada ajudasse. — Quer ir assistir a
comédia que estreou na semana passada?

— Por que não? — murmurou sem erguer a cabeça.

Arrumei uma desculpa para dar a ele um tempo sozinho para se recompor antes de irmos
ao cinema, onde ele poderia esquecer a tristeza por algumas horas.

***

Ann Foster, a recepcionista do hotel em Warwick, era a pior pessoa que eu poderia
encontrar naquele momento. A menos de um dia do meu aniversário de dezoito anos, a mulher se
recusava a me hospedar por ser menor de idade, mesmo com uma carta de autorização dos meus
pais. A demora no atendimento irritou alguns hóspedes, por isso fomos encaminhados à gerente,
que ligou para o meu pai e confirmou que eu não estava fugindo de casa. Depois, ela permitiu
que a Jenny, que já tinha dezoito, fizesse o check-in por nós dois.

Eu descontava a raiva nas minhas roupas enquanto as tirava da mala. Já o que Jenny
tirava era sarro, pois a gerente a deixou responsável por mim até o dia seguinte.

***

— Feliz aniversário, menino bonito. — Fui acordado com um monte de beijos e, apesar
de estar morrendo de sono, não foi uma maneira ruim de acordar.

— Bom dia, minha ruiva. — Cobri o rosto com o lençol na esperança de que ela me
deixasse voltar a dormir, contudo a esperança morreu quando ela começou a fazer cócegas nos

meus pés. — Eu vou ganhar café na cama?


— Não. Vamos comer no castelo.

Enquanto ela tomava banho, eu falei com os meus pais, que ligaram para me desejar um

feliz aniversário.

O Castelo de Warwick era uma bela construção de pedra e já fora forte, prisão, residência
e atualmente é atração turística. Começamos explorando-o por dentro, depois visitamos o
labirinto, participamos da encenação de um julgamento, passeamos pelos jardins, paramos para
almoçar e, no final da tarde, subimos até as torres, de onde pudemos ver toda a extensão dele,
com seus jardins e o rio Avon.

— Feliz aniversário de novo — Jenny desejou, estendendo para mim um pacotinho azul
que continha um chaveiro em forma de livro, onde era possível colocar fotos.

— É perfeito, obrigado! — exclamei genuinamente feliz, pois um livro era o símbolo


perfeito, já que de certa forma foi o que nos aproximou. Para colocar na capa do chaveiro
fizemos uma selfie com o Castelo de Warwick ao fundo e um céu alaranjado que combinava com
os cabelos da minha ruiva.

— Desculpe por ser bem mais simples do que o presente de aniversário que você me deu
— ela falou timidamente, levando uma mão ao medalhão pendurado no pescoço. — É bem
difícil comprar um presente pra alguém que já tem tudo.

— Eu não acredito que você pensa assim. — Tomei seu rosto entre as mãos e olhei em
seus olhos. — Quando nos conhecemos, eu não tinha tudo, Jenny. Faltava o principal, que era ser
livre. Sem você, eu ainda estaria preso em uma gaiola de ouro. Eu vou ser eternamente grato a
todas as pessoas que me ajudaram a melhorar, mas só você conseguiu me fazer ter vontade de me
libertar daquela prisão. Nenhum presente que eu possa te dar vai ser capaz de pagar por isso.
Você é o meu presente mais valioso, minha ruiva. Eu não preciso de mais nada.

— Você está se superando, menino bonito — falou com os olhos marejados.


Abraçados, assistimos ao pôr do sol na torre de um castelo de verdade, no nosso próprio
conto de fadas.

***

Na manhã seguinte decidimos somente curtir um ao outro antes de voltar à realidade. A

cidade era pequena e não tinha muito o que ver além do castelo. Depois de pedir o café no
quarto, liguei a TV por mania e coloquei em um noticiário americano, mas deixei o volume no
mínimo para não nos incomodar.

Minutos depois, estávamos novamente aconchegados na cama, comendo e conversando


sobre a nossa mudança iminente. Ela iria para o alojamento do campus e Mike e eu dividiríamos
um apartamento perto de lá.

— Ei, olha a sujeira que você tá fazendo, menino bonito! — Ela riu por eu ter deixado
cair geleia no lençol, sem saber que meu coração estava sendo espremido e meu cérebro,
sobrecarregado com imagens ruins.

Não era possível ouvir a notícia, porém a imagem formada pela palavra foragido em

letras vermelhas e garrafais sob a foto de um homem de aparência rude não precisava de som
para me aterrorizar. O meu maior pesadelo se tornara realidade: o homem que fugira de um
presídio americano era ninguém menos do que Joseph Green, também conhecido como J, e eu
sabia que ele viria atrás de mim.

Ao ver meus olhos fixos na TV, ela também a encarou e, a julgar pelo seu arfar, entendeu
quem era o foragido. Retribuí seu abraço na esperança de recuperar a confiança, mas nem o calor
do corpo de Jenny foi capaz de afastar o frio provocado pelo medo do que ele faria comigo se me
pegasse novamente.
— Não se preocupe, ele está do outro lado do oceano.

Apesar da imensa distância entre nós, eu só conseguia pensar que ele estava à solta e que

eu estava longe de casa. De repente, as amplas janelas de vidro do quarto de hotel me pareceram
extremamente inseguras. O desejo de fechar as cortinas foi imenso, quase compulsivo, mas eu
não queria que Jenny pensasse que eu era louco.

— Eu já volto. — Eu me desvencilhei dela e me pus de pé.

— Você não vai ficar sozinho — ela afirmou, segurando o meu pulso.

— Eu só preciso de uns minutos — expliquei.

— Então deixe a porta aberta, por favor. Eu prometo não te importunar.

Encostei a porta do banheiro, mas não a tranquei. Encarei o espelho e vi a imagem de um


garoto mais novo, baixo e magro do que eu, cujo corpo estava ensanguentado e os olhos,
aterrorizados. Todas as sensações retornaram de uma vez: o medo paralisante, a dor dos ossos
quebrados e das queimaduras, a aversão ao toque dele. Desviei os olhos daquela imagem,
tentando impedir que o peso que havia saído dos meus ombros nos últimos meses retornasse.

Não era justo que ele estivesse solto enquanto eu lutava contra mim mesmo para não ser
aprisionado novamente pelo medo. O criminoso não era eu. Somente a lembrança de que Jenny

estava a poucos passos de mim me impediu de quebrar tudo o que estava sobre a pia. Debrucei
sobre ela e abri a torneira para que ela não ouvisse o meu choro contido enquanto as minhas
lágrimas se misturavam à água que descia pelo ralo.

Minutos depois, ela me disse que Mark queria falar comigo. Lavei o rosto e peguei o
celular dela, fechando novamente a porta.

— Como você está? — ele perguntou.

— Não muito bem.


— Os seus pais viram a reportagem e a sua mãe queria ir te buscar, mas eu a convenci de
que você é capaz de voltar com a Jenny. Não é?

— Claro... — Suspirei, sentando no chão ao lado da banheira. — Eu estou com medo,


Mark — admiti sem vontade, por precisar dividir aquilo com alguém.

— Eu sei, qualquer um estaria, mas você não precisa ter — ele falou, me fazendo rir sem
humor.

— Aquele homem me odeia. Ele foi preso por minha causa e vai querer se vingar de
mim.

— Ele não foi preso por sua causa. Foi preso porque é um criminoso.

— Mas ele é louco! Se achar que a culpa é minha, como mais vai me torturar? — Meu
estômago se revirava diante da possibilidade de que ele me encontrasse.

— Ele não é louco. Ele tinha um objetivo ao torturar você, mas agora o objetivo dele é
outro. Pense comigo, se você tivesse sido condenado praticamente à prisão perpétua e
conseguisse fugir, o que faria?

— Me esconderia.

— Exatamente. Aquele rato vai se esconder pra não pagar o que deve. E ele não te odeia.
Acredite em mim quando digo que ele nem lembra de você. É cruel dizer isso, mas pessoas como
ele não lembram das vítimas que fazem, então ele não vai te perseguir. Você está seguro,
Augusto. Não se deixe abater por isso, está bem?

Aquele era um caso em que com certeza falar era mais fácil do que fazer, mas eu iria
tentar. Não poderia deixar aquele homem estragar a minha vida de novo. A possibilidade de
voltar a ficar trancado em casa me aterrorizava tanto quanto a possibilidade de ser sequestrado
outra vez.
Quando voltei ao quarto a Jenny já havia arrumado as nossas malas. Fizemos o checkout,
e eu entreguei a ela a chave do carro, pois me sentia distraído demais para dirigir. A volta para
casa foi feita em um silêncio opressor.

***

No dia seguinte, eu mantive os meus planos, mesmo não estando mais animado com eles.
No conservatório, meu pai lia as notícias no laptop enquanto minha mãe e eu fazíamos uma lista
de coisas que precisávamos comprar para o apartamento, que já estava alugado.

Toddy subiu no móvel, me fazendo olhar para ele e me lembrar do que eu achava ter
visto meses antes. O desespero começou a crescer em mim ao perceber que podíamos estar sendo
vigiados em casa durante todo aquele tempo.

— Tudo bem, Augusto? — minha mãe perguntou, preocupada.

— Eu acho que vi uma câmera ali. — Apontei para o móvel.

— Não tem nada ali.

— Já faz tempo. Como eu pude deixar isso passar?! — Olhei em volta, procurando por
outras possíveis câmeras. — Se alguém consegue entrar e sair daqui sem ninguém perceber, não
estamos seguros!

— Deve ter sido imaginação, meu filho — meu pai afirmou, passando a prestar atenção
na minha conversa com a minha mãe.

— Não! — Revirei o móvel procurando por qualquer vestígio, sem êxito.

— Fique calmo, Augusto. Está tudo bem.


— Não tem nada bem! — exasperei, enterrando uma mão no cabelo, desesperado diante
das possibilidades. — Ou alguém está nos vigiando e vocês não acreditam em mim, ou eu estou
paranoico e vendo coisas!

— Nem uma coisa nem outra — meu pai falou apoiando uma mão no meu ombro. — Era
realmente uma câmera e fui eu que instalei.

Aquela afirmação me fez encará-lo, confuso. Ele então me explicou que decidiram me
deixar sozinho com Jennifer para me forçar a sair da minha zona de conforto.

— Vocês armaram pra mim?! — gritei, encarando-os com perplexidade e raiva.

— Foi pro seu bem, Augusto — minha mãe interveio.

— Pro meu bem?! Vocês sabiam que ficar sozinho com um estranho poderia me fazer ter
uma crise de pânico que só iria piorar tudo!

— Ela não era uma estranha e nós já tínhamos percebido que você gostava da companhia
dela. Você só precisava de ajuda pra perceber que poderia confiar nela e se sentir confortável.
Deu certo, não deu?

— Vocês espionaram cada momento que eu tive com ela?! — Calor começou a subir
pelo meu pescoço ao imaginar que eu sempre tinha a audiência dos meus pais.

— Claro que não — meu pai garantiu. — Foi só daquela vez. Ficamos assistindo
exatamente por saber que você poderia precisar de nós.

Eles me olhavam em um pedido silencioso de desculpas, mas naquele momento eu era


incapaz de superar a raiva e entender os motivos deles. Por mais que as intenções fossem boas,
eles haviam me enganado e invadido a minha privacidade.

No dia seguinte, o café da manhã foi constrangedor, mas aos poucos fomos todos
deixando aquilo de lado. Não valia a pena discutir por algo que acontecera há tanto tempo e que
não teve maiores consequências.

Mais tarde, naquele mesmo dia, eu soube por Mike que o nome de meu pai fora

mencionado na reportagem, o que o levou a saber tudo o que havia acontecido comigo.

— Por que você não me contou? Você achou que eu iria te zoar por algo assim?

— Eu sei que não, mas tem coisas que a gente só quer esquecer — expliquei, roendo uma

unha. — Até ontem, estava tudo sob controle. Agora, além de ele estar solto, todo mundo sabe o
que aconteceu.

— Não se preocupe, cara. Alguém do colégio poderia imaginar que o promotor da


reportagem é o seu pai, mas a gente já saiu de lá, então não importa mais. E quando as aulas
começarem em Cambridge, ninguém vai lembrar de uma reportagem qualquer e relacionar a
você — ele afirmou, apertando o meu ombro em um gesto de conforto.

— Eu espero — respondi com um suspiro desanimado antes de mudar de assunto. —


Quer aproveitar que a minha mãe está livre pra ajudar a gente a comprar as coisas pro

apartamento? Eu nunca comprei essas coisas.

— Sair com a Dra. Lewis? É claro!


CAPÍTULO 35 – Amor Altruísta

Dias depois...

Por motivos óbvios, eu adiei a mudança até o último fim de semana antes do início das

aulas, não levando em conta que precisaria de tempo para me adaptar à minha nova vida.

— Você só vai precisar pintar para ter uma tatuagem foda.

A dor era tão insuportável quanto o cheiro de queimado. Eu desejava mais do que tudo
que aquela tortura acabasse logo, de um jeito ou de outro.

Acordei sobressaltado e olhei o relógio na parede do meu novo quarto. Era madrugada
do meu primeiro dia de aula, e minha noite de sono estava simplesmente arruinada. Bela forma
de começar.

Um tremor percorreu o meu corpo, me fazendo puxar o edredom até o pescoço. Um leve
movimento chamou minha atenção para a janela, onde uma brisa suave levantava a cortina e
enchia o quarto com um ar frio que me fazia congelar até os ossos. “Eu não abri a janela”,

pensei, sentindo todos os meus pelos se arrepiarem. Fechei os olhos e inspirei profundamente.
“Não seja paranoico, o Mike abriu todas as janelas do apartamento para ventilar”. Levantei
para fechá-la e exalei um grande suspiro ao ouvir o clique da trava. Ao dar as costas à janela, o
meu corpo foi subitamente paralisado. Por mais que eu abrisse a boca, nenhum som saia. Todo
o meu condicionamento físico de nada servia, já que as minhas pernas não obedeciam quando
eu mais precisava delas.

— Você achou que não ia ter troco? — Os olhos negros do meu pior pesadelo brilhavam
de excitação, e ele ostentava um sorriso doentio enquanto olhava para a estrela de ferro

incandescente nas mãos. — Você vem comigo.

Ele avançou na minha direção, e eu fui novamente incapaz de me defender.

— Acorda, cara! — Meu corpo se ergueu na cama ao mesmo tempo em que meus olhos
se abriram, buscando imediatamente a janela. — Tudo bem, cara, foi só um pesadelo. — Eu
realmente precisava daquela confirmação para saber que eu tinha acordado de verdade dessa vez.

— Desculpe por te acordar, eu falei que não seria fácil dividir o apartamento comigo. —
Corri uma mão pelo cabelo, sem saber o que fazer ou falar. — Você não precisava vir me
acordar. — “Embora eu seja imensamente grato por isso”, completei em pensamento.

— E o que eu deveria fazer? Deixar você se afogar em lágrimas? — exasperou. — Você


tá bem? Você tava gemendo e se debatendo, eu pensei que tava passando mal.

— Estou bem, essa foi só mais uma noite normal na minha vida. — Levantei para checar
a trava da janela. — Obrigado, Mike.

— Sem problemas, cara.

A sensação ao pisar no gigantesco e bem-cuidado gramado da universidade em frente a


um imenso prédio em tons pastéis naquele dia em nada comparava a sensação de euforia

anterior, quando estive ali para uma entrevista.

Na sala de aula, que mais parecia um auditório, encontrei Jenny, tão animada quanto
todos ao meu redor. A aula foi longa e extremamente maçante, minhas pálpebras pesavam
toneladas e minha atenção se dispersava facilmente.

— Como você se chama? — o professor indagou após aparecer magicamente na minha


frente.

— Augusto — omiti meu sobrenome.


— Você não deveria fazer farra em véspera de aula. — O comentário tirou risadas de
outros estudantes e me deixou constrangido. — Por que não me diz o que sabe sobre
homeostasia? — Há muito tempo eu havia parado de escutar o que ele dizia, mas aquele não era
um tema novo para mim, o que me salvou de ser alvo de mais risadas.

Semanas se passaram sem que eu pudesse me ajustar àquele lugar. Mike acordava toda
noite por causa dos meus pesadelos. Jenny estava sobrecarregada praticamente refazendo a
minha parte nos nossos trabalhos, já que por mais que eu tentasse, não conseguia me concentrar

nas aulas ou nos livros. Cada ida até o estacionamento ou ao supermercado era acompanhada
pela horrível sensação de estar sendo observado.

O professor de estrutura funcional do corpo desenvolveu uma severa antipatia por mim,
algo que foi recíproco. Suportar a presença dele quase todos os dias após passar metade da noite
em claro estava se tornando demais para mim. Voltei ao psiquiatra porque sabia que precisaria
dos ansiolíticos, algo que ele prescreveu sem problemas, mas não sem deixar claro que eu
precisava procurar um psicólogo também. Ignorei o conselho por não querer adicionar ao meu

cadastro na faculdade um relatório psiquiátrico, algo que teria que fazer a fim de ser dispensado
por algumas horas semanais.

A minha primeira nota ruim foi a gota d’água. Por pior que eu me sentisse no ensino
médio, nunca deixei de ser um excelente aluno. Ali, eu era medíocre e me sentia claustrofóbico.
Um dos professores me odiava, os outros estudantes me recriminavam por não corresponder aos
padrões da universidade e eu prejudicava duas pessoas que estavam tão sobrecarregadas quanto
eu com os próprios estudos.

Pequenas crises de ansiedade passaram a ser frequentes no campus, e eu inventava para


as pessoas inúmeras desculpas para justificar os tremores e outros sintomas.

O barulho da chave na fechadura me fez tirar os olhos do livro, esperando ver o Mike
passar pela porta.
— Augusto Lewis-Grayson, quando você pretendia me contar?! — Fui surpreendido pelo
ataque de fúria de Jenny, que entrara no apartamento usando uma cópia da chave. Algo que ela
raramente fazia para não invadir a nossa privacidade.

— Contar o quê?!

— Que tem tido ataques de pânico por aí! Eu soube por outras pessoas! — vociferou.

— Eu não tive nenhum ataque de pânico. No máximo, uma crise de ansiedade. — Voltei
meus olhos para os livros novamente, a fim de fugir do assunto.

— Você pode chamar de ansiedade, pânico, do inferno que for, desde que não esconda de
mim que não está bem!

— Eu estou bem, Jenny. Eles exageraram porque não entendem nada disso.

— Bem, Augusto?! Você quase não dorme, seu rendimento está péssimo, tem crises por
aí e me diz que está bem?! — Ela enumerou os meus problemas como se eu não os conhecesse
bem. — Por que você não procura um psicólogo? — aconselhou, suavizando o tom de voz. —
Essa fase é difícil pra todo mundo, e você tem uma carga extra de preocupação. Isso está muito
pesado pra você.

— Eu não tenho tempo pra fazer terapia, e você sabe disso — reclamei.

— Você leu o manual da universidade? Eles sabem que somos seres vivos e ficamos
doentes — explicou ao sentar ao meu lado e beijar o meu rosto.

— Eu estou ansioso pra dizer ao professor de patologia na semana que vem que eu não
consegui estudar pra prova dele porque tenho uma cabeça ferrada, pesadelos e a sensação de que
tem alguém me seguindo, e que vou faltar à aula prática pra fazer terapia.

— Isso é infantilidade. A única coisa que vai ficar ferrada é o seu semestre se você não
fizer alguma coisa agora. Você não pode ser reprovado na próxima prova de bioquímica.
— Você acha que eu não sei disso? — Arremessei a caneta pela sala e levei a mão ao
cabelo de forma impaciente.

— Ei, não fique assim. Há quanto tempo não curtimos um ao outro sem pensar em nada?
— perguntou, me puxando para si.

— Desde que viemos pra cá.

— Isso é muito tempo, menino bonito. Eu acho que temos que resolver isso agora
mesmo. Depois a gente pensa em como resolver o resto.

Semanas depois eu conseguia me manter na média, mas só isso, sendo um dos piores da
turma. Após uma enorme xícara de café, peguei a chave do carro e saí. Do lado de fora do meu
apartamento, um calafrio familiar percorreu a minha espinha, um que usualmente se intensificava
quando eu chegava ao estacionamento da faculdade.

Caminhei lentamente pelo corredor, tentando dar a mim mesmo tempo de acalmar minha
respiração e coração acelerados, antes de entrar naquela sala. Encarei Jenny, calmamente sentada

ao meu lado, para confirmar que as paredes e teto não estavam se fechando sobre nós.

Eu estava ciente de que minha falta de atenção, olheiras e notas baixas poderiam ser mal
interpretados, mas a insinuação de um professor de que uma universidade tão prestigiada não era
lugar para alguém incapaz de evitar bebedeiras foi demais para mim. Toda a pressão acumulada
chegou ao limite e explodiu no meio da sala de aula, me fazendo jogar na cara dele o quanto ele
era um péssimo professor. Talvez no calor do momento eu o tenha chamado de incompetente por
ministrar aulas tão maçantes que eram mais eficientes em me fazer dormir do que os calmantes
que eu tomava.

Um pouco da raiva se dispersou no caminho de volta até o carro e eu me dei conta da


besteira que fizera. Embora eu estivesse pensando em deixar o curso, não queria fazer isso de
forma negativa. Uma batida na janela me fez erguer a cabeça apoiada no volante, onde eu
discutia comigo mesmo por ter dado o motivo que aquele homem queria para se livrar de mim.

— Vai ficar tudo bem — Jenny garantiu antes de me puxar para fora do carro e me

abraçar.

— Tudo bem? Ele vai pedir a minha cabeça... — murmurei contra o cabelo dela.

— Ele que tente! Todo mundo ouviu ele te caluniando! — protestou, revoltada.

— E quem você acha que eles vão apoiar, Jenny? O calouro medíocre ou o professor

renomado responsável pelas notas deles?

— Eu vou conversar com um por um, se for necessário, e com o diretor do curso também.
Nós vamos dar um jeito nisso, certo? Não se preocupe. — Eu a afastei de mim e a encarei,
alarmado.

— Eu não quero você envolvida nisso, entendeu?!

— Eu já estou envolvida, menino bonito. Eu não vou deixar alguém amargurado com a
própria vida infernizar a sua. Você não precisa disso.

— Jenny, eu discuti com um professor na frente de todo mundo, e isso não vai ficar
impune. Por favor, prometa que não vai correr o risco de estragar o seu futuro por minha causa.

— Eu não vou prometer nada agora, mas vamos falar sobre isso hoje à noite —
esclareceu, acariciando o meu rosto. — Vá pra casa e tente descansar um pouquinho. Eu amo
você. — Após me dar um selinho, ela correu de volta para sala de aula.

— Eu também amo você, mais do que a mim mesmo — sussurrei para o vento, olhando
Jenny desaparecer na esquina. Depois, dirigi para casa pensando no que deveria fazer.

***
A minha decisão teria um peso enorme na minha vida e eu já estava sentindo os efeitos

dela. Decidi tomar um banho para esfriar a cabeça e pensar com calma, mas repassar todos os
fatos só me fez ver que aquela era a coisa certa a fazer. Depois de falar com Mike, ganhei tempo
e privacidade suficientes para ter uma conversa difícil com Jenny.

O tempo se arrastou, mas quando a campainha tocou, eu desejei que ele se arrastasse um
pouco mais. Caminhei lentamente até a porta, tentando adiar o inevitável.

— Oi, menino bonito. Alguém da universidade já entrou em contato com você? — Jenny
me deu um selinho e deixou a bolsa sobre o sofá.

— Ainda não olhei os meus e-mails. Você quer beber alguma coisa?

— Por que você está sendo tão formal comigo? — questionou, entrando na minha frente
e enlaçando a minha cintura.

— Porque eu preciso falar com você. — Suspirei.

— Você está me deixando preocupada. Fale logo.

— Eu não sei como.

— Você pode me falar qualquer coisa, meu anjo — afirmou, exibindo no olhar todo o
amor que sentia por mim.

— É sobre nós. — Segurei sua mão e pensei no quanto sentiria falta daquele toque.

— Ei, eu sei que andei brigando com você esses dias, mas eu tive bons motivos.

Ela se defendeu como se esperasse que eu reclamasse de algo e se colocou na ponta dos
pés para me beijar. Quando nossos lábios se afastaram, eu a abracei, desejando poder mantê-la
ali para sempre, e inspirei o seu perfume, um aroma que ficaria marcado na minha memória.
Ficamos em silêncio como se tivéssemos medo das palavras. Eu, de falar o que precisava
ser dito, e ela, de ouvir o que eu tinha a dizer. Meus olhos arderam, marcando o momento de
dizer adeus. Pisquei para espantar as lágrimas e me afastei dela para conseguir cumprir a
promessa que fizera a mim mesmo.

— Jenny... eu tomei uma decisão sobre nós. Eu não posso continuar com isso —
expliquei, encarando o chão.

— Com isso o quê? — Apesar da pergunta, a voz tremula denunciava que ela sabia do
que eu estava falando. Mesmo assim, respondi:

— Com o nosso relacionamento.

— Por que não?! O que tem acontecido não muda o que eu sinto por você. É só uma fase,
Augusto. Eu não vou desistir de você por isso.

— Eu sei disso, e é por isso mesmo que sou eu que estou desistindo de nós.

— O quê?! Você está confuso. — Ela se aproximou para tocar o meu rosto e começou a
atropelar as palavras. — Tem muita coisa enchendo a sua cabeça agora, mas vai passar. Eu vou
te ajudar. Do que você precisa? Dar um tempo na faculdade? Voltar pra casa? Não tem
problema, podemos namorar à distância, tanta gente faz isso!

— O problema não é só a faculdade, Jenny, sou eu. Eu estou além da sua ajuda.

— Você não pode estar falando sério! — Seus olhos marejados me deixaram aflito. —
Você disse que me amava. Era mentira?

— Não. A única certeza que eu tenho é que amo você, e é exatamente por isso que eu não
posso continuar te prejudicando.

— Pare de falar besteira! Cuidar um do outro faz parte de um relacionamento, Augusto!


Por que você não lembra do quanto já me ajudou? Por que só enxerga as coisas ruins?
— Está falando das aulas que eu te dei? Certo, fizemos uma troca. Injusta, já que você me
fez voltar a viver, mas ainda assim foi uma troca. E agora? O que eu estou te dando em troca de
me carregar nas costas?! Eu queria ser útil pra você. Eu não quero ser um peso morto. Por favor,
entenda que isso não me faz bem.

— Eu não vou entender nada! Como você pode fazer isso comigo?! — gritou, agarrando
a minha camisa e me obrigando a encará-la.

— Eu estou fazendo isso por você, Jenny.

— Essa decisão deveria ser minha também, mas você decidiu me chutar sem me
consultar, então não diga que está fazendo isso por mim! Eu não pedi altruísmo! Eu não quero
isso, o que eu quero é você! — esbravejou, com a face coberta de lágrimas.

— Eu sinto muito — falei, tentando segurar as que inundavam os meus olhos também.

— Por favor, Augusto, não faça isso comigo. Pense melhor e conversamos depois.

— Eu já tomei a minha decisão, Jenny. — Desviei o olhar para me impedir de chorar.

— Seu cretino! — Soltando a minha camisa, ela começou a estapear o meu peito
enquanto gritava e chorava histericamente. — Você não pode fazer isso comigo, Augusto! Você
não vai fazer isso comigo!

— Não faça isso. Eu não mereço suas lágrimas — pedi, segurando seus pulsos para
impedi-la de continuar me batendo.

— E o que você quer que eu faça?! — Ela voltou a me abraçar e chorou


desesperadamente, fazendo as lágrimas que eu tentava segurar caírem também. Voltar atrás era o
que eu mais queria, mas levá-la comigo para o fundo do poço seria egoísmo.

Ficamos abraçados em um silêncio quebrado apenas pelos soluços de um pranto


desconsolado. A chuva torrencial que desabou lá fora combinava perfeitamente com a paisagem
triste e fria que se desenhava dentro de mim. O tempo passou, seus soluços cessaram e minhas

lágrimas secaram.

— Se é isso que você quer, não tem mais nada que eu possa fazer — afirmou em um tom
de voz frio enquanto se desvencilhava de mim.

— Por favor, não me odeie.

— Você tomou sua decisão, agora aguente as consequências. — Pegando a bolsa, ela saiu
da minha casa e da minha vida.
CAPÍTULO 36 – Sofrendo as Consequências

— Já vai! Não sabe esperar?! — gritei, empurrando os lençóis, irritado pela insistência de
quem tocava a campainha de forma desesperada.

— Não sei esperar quando não sei o que vou encontrar! — Mark vociferou, invadindo o

apartamento e me empurrando no processo.

— O que você está fazendo aqui? — indaguei com surpresa.

— O que mais eu poderia fazer depois de receber uma ligação da Jenny em prantos e de

não conseguir falar com você?! Eu lembro bem no que você pensou da última vez que vocês
brigaram. Nunca mais deixe de atender a porcaria do telefone! — Era a primeira vez que eu o via
irritado, e ele gritava comigo como se fosse meu pai.

— Até quando vocês vão jogar isso na minha cara?! Aquilo aconteceu há séculos!

— Foi o suficiente pra causar paranoia em todos que se preocupam com você! Eu larguei
os meus pacientes e nem fui ver a minha filha ainda. Agora explique por que ela faltou aula e não
para de chorar, antes que eu me arrependa de ter permitido esse namoro. — Sua expressão era
raivosa e em nada lembrava o terapeuta tranquilo que eu conhecia tão bem.

Sem opção, eu contei a ele tudo o que vinha escondendo e por que decidi me afastar tanto
de Jenny quanto de Mike. No fim ouvi um longo sermão e, ao contrário do que eu imaginava, ele
não ficou do meu lado.

— O que você pretende fazer agora, abandonar os estudos e se trancar em casa outra vez?
— indagou duramente.

— É claro que não! Eu só preciso de um tempo pra descobrir um curso que me dê prazer
e onde eu não me sinta oprimido.

— Você sabe que seus pais vão te matar por trancar a faculdade e que não vão deixar

você morar sozinho, não é?

— Eu sei, mas, no fim, a decisão é minha. — Sua sobrancelha erguida denotava


incredulidade, mas eu não voltaria atrás.

Antes de ir ver Jenny, ele disse que eu deveria parar de agir como se ter síndrome do
pânico fosse a pior coisa do mundo, pois eu poderia viver perfeitamente bem com ela se parasse
de sabotar a mim mesmo.

Meu celular emitiu um bip logo que ele saiu. Era um e-mail da diretoria da faculdade de
medicina me convocando para uma reunião com o conselho. Antes de me dirigir a ela, fui ao
consultório do psiquiatra pedir um relatório médico.

***

— Você sabe que cometeu uma infração grave ao código de conduta da universidade? —
Fui questionado por um dos três representantes do colegiado.

— Sei e peço desculpas por ter perdido a paciência, mas não era a primeira vez que o Dr.
Taylor me acusava injustamente diante de mais de cem pessoas, o que também viola o código de
conduta.

— O Dr. Taylor não tinha como saber que você estava sob estresse causado por
transtorno de pânico — ele rebateu, me deixando desconfortável. Embora o meu problema não
estivesse explícito no relatório do psiquiatra, o CID F41.0 não era um mistério para um médico.

— Ele também não tinha como saber se eu estava sob o efeito de álcool ou como haviam
sido as minhas noites.

— Você deve estar ciente de que o seu progresso acadêmico não vem sendo satisfatório

como é esperado de um estudante de Cambridge — ele continuou, ignorando completamente a


minha resposta. — Seu baixo rendimento foi uma surpresa negativa tendo em vista o seu
currículo, as suas notas nos A-levels e em como você se saiu bem na entrevista de admissão.

— Como vocês podem ver, problemas de saúde afetaram o meu rendimento — respondi
de cabeça baixa, sem coragem de enfrentar os três pares de olhos que me encaravam com
superioridade.

— Entendo. O que eu não entendo é por que você não relatou o problema ao seu tutor
sênior e solicitou junto à faculdade um afastamento temporário para cuidar da sua saúde.

— Eu esperava superar a situação sem precisar me atrasar no curso e não quis expor um
problema de saúde aos membros do conselho e ao meu tutor.

— Subestimar um problema de saúde e se sentir constrangido por ele é um grave defeito

para um médico.

Meu sapato direito começou a bater contra o chão, chamando a atenção dos homens
sentados atrás da bancada, o que me fez parar imediatamente.

— Eu sei que foi um erro omitir isso, mas eu não sou perfeito. — Senti uma vontade
esmagadora de dizer “nem você”, mas me contive. Sentindo que estava a um passo de ser
expulso da universidade e ter uma mancha na minha vida acadêmica, completei: — Eu sei que
tenho sido considerado uma falha do processo de admissão, Dr. Williams, mas eu me dediquei
muito pra ser aceito aqui e posso garantir que esses poucos meses foram uma exceção. Eu sou
quem todos os meus outros anos de estudo e comportamento dizem que eu sou. Eu preciso de
uma pausa pra recuperar o equilíbrio e, prometo que se tiver uma segunda chance, serei o tipo de
aluno do qual a universidade de Cambridge se orgulha de ter e o tipo de profissional que ela se
orgulhará de ter formado, independentemente do curso que eu escolha seguir.

Apesar de estarem dentro dos bolsos do sobretudo, as minhas mãos insistiam em se

manter geladas enquanto eu esperava três estranhos decidirem o meu futuro. Após o que pareceu
um século, fui convidado a voltar à sala onde o conselho estava reunido.

— O processo de má conduta movido contra você foi indeferido e a sua solicitação de


afastamento temporário para cuidar da saúde, deferida. Entretanto, você deve estar ciente de que
deve cuidar bem dessa chance que está recebendo, pois não haverá outra.

Contemplei o prédio onde estudei e desejei poder ver Jenny uma última vez, mas ela não
estava ali. Virei as costas e caminhei pelo estacionamento me sentindo derrotado por estar
congelado no tempo enquanto os meus ex-colegas seguiam com suas vidas.

Enquanto aguardava Mike chegar, arrumei algumas roupas em uma pequena mala para
passar uns dias em Coventry, o que acabou sendo uma decisão acertada, já que a nossa
convivência seria difícil enquanto ele estivesse tão furioso.

— Não precisa se mudar, pode ficar com o apartamento. Eu vou pro alojamento da
faculdade!

— Por quê? Não se preocupe com o aluguel, eu vou esperar você encontrar outra pessoa
pra dividir com você.

— Eu tô pouco me lixando pro aluguel, Augusto! Eu só não fui pro alojamento porque
você precisava de companhia. Aí de uma hora pra outra você me dispensa! Eu tô cansado de
amigos falsos que me descartam na primeira oportunidade! — Rox o havia magoado
intensamente ao cortar relações com ele sem nem mesmo um e-mail explicando o motivo, e ele
estava me comparando a ela.

— Eu não estou descartando sua amizade, Mike, eu só não quero mais te incomodar.
Você não vai mais ser acordad... — Uma porta batida na minha cara encerrou a conversa.
***

No dia seguinte, foi um alívio chegar na casa dos meus pais e ser bem-recebido pela
Cibele, que decidiu me paparicar com lasanha ao perceber que eu estava infeliz. Quando ela foi

embora, eu fiquei no meu antigo quarto com Sammy e Toddy até ter certeza de que tanto a
minha mãe quanto o meu pai já estavam em casa. Então respirei fundo e desci para enfrentar a
tempestade.

— Por que você não está na faculdade? — meu pai indagou, surpreso.

— Eu tranquei a matrícula na faculdade — falei de uma vez.

— Você fez o quê?! — minha mãe exclamou, incrédula.

Depois de repetir toda a história que contei a Mark, irresponsável foi um elogio se
comparado aos outros adjetivos que ouvi. A minha mãe estava furiosa por eu ter mentido sobre
estar bem e por ter deixado a faculdade sem consultá-los. Quando eu falei que não queria voltar
para Coventry, ficou tudo ainda pior.

— Você foi para Cambridge pra estudar. Se não vai fazer isso, não tem por que continuar
lá — afirmou categoricamente.

— Mas no ano que vem eu vou ter que voltar, então...

— Então você volta, mas por enquanto é aqui que você vai ficar!

— Desculpe, mãe, mas eu não quero voltar pra cá. — O comentário me rendeu um olhar
colérico.

— Tudo bem, Augusto. Apesar de achar que suas decisões não condizem com as de um

adulto, você já tem dezoito e pode voltar pra Cambridge quando quiser. Desde que possa pagar
suas contas como os adultos fazem. — Ela começou a subir as escadas e completou sem me
olhar: — Deixe o cartão do banco em cima da mesa.

— Eu preciso de um tempo pra conseguir um emprego e encontrar um apartamento mais


barato — expliquei.

— Sem problema. Você será sempre bem-vindo em casa e aqui tudo é de graça pra você.
— De nada adiantaria continuar discutindo, pois ela estava magoada, e eu também.

— Deixe a chave do carro também — meu pai exigiu depois de tanto tempo calado.

— O quê?! Mas o carro foi um presente!

— Eu sei, e é por isso eu vou devolver um dia. Esse é o seu castigo por ter nos enganado.
— A voz dele soou abatida e o olhar de decepção estampado na face foi mais doloroso do que os
gritos da minha mãe.

Olhar o chaveiro com as fotos da viagem para Warwick me fez sentir saudade daquele
dia perfeito. Enterrando as lembranças, o separei da chave do carro e o guardei no bolso.

Quando desci novamente para entregar o cartão e a chave, vi que estava sozinho. Sentado
no escuro durante horas, pensei no martírio que seria ficar ali sendo recriminado diariamente
pelos dois, enquanto juntava dinheiro para conseguir pagar o aluguel em uma cidade

universitária.

Após passar a noite em claro pesquisando ofertas em sites de emprego consegui duas
entrevistas em pubs, mas fui preterido por pessoas com experiência prévia. No caminho de volta
para casa, procurei Antony, alguém que eu achei que nunca mais teria que ver.

De volta ao meu quarto, enviei uma mensagem para Mike avisando que os meus pais não
queriam me deixar voltar para Cambridge. Ele visualizou, mas não respondeu. Consegui uma
nova entrevista, dessa vez em uma loja que precisava de mão de obra extra para o natal, e não

pude deixar de comparar com o natal passado. Uma comparação cruel. Em menos de um ano, eu
havia perdido tudo e todos, não tinha mais um objetivo no qual focar, e ainda ganhei a sombra do
J sobre mim, mais forte do que nunca. As lágrimas nublaram os meus olhos quando me senti
totalmente sozinho, sem saber o que fazer para sair do buraco no qual estava afundando.

Eu não percebi a presença da minha mãe até seus braços estarem em volta do meu
pescoço e sua cabeça sobre a minha.

— Você também está decepcionada comigo, como o meu pai?

— De onde você tirou isso?! Venha cá. — Sentados lado a lado na chaise, ela explicou
que apenas ficaram magoados pelas mentiras e pela falta de confiança. — É compreensível que a
fuga daquele homem te abale emocionalmente, Augusto. Ninguém está decepcionado por você
não conseguir lidar com isso. A única decepção é ver você se prejudicar por não querer pedir
ajuda.

— Quantas vezes eu vou cair e precisar de ajuda pra levantar?

— Desde que você levante, não importa! Eu sei que você vai fazer isso porque você

sempre consegue, mas você pode aprender a fazer de forma menos dolorosa. Chutar o balde com
você dentro não foi legal — falou para descontrair. — Falando em doloroso, por que você
terminou com a Jenny?

Ela passou de descontraída a furiosa quando eu disse que não me sentia digno de Jenny e
que não queria ser responsável pelo fracasso dela. Por fim, ela disse que Jenny e eu tínhamos
sorte por termos encontrado o amor sendo tão jovens, e que eu me arrependeria de jogar isso
fora, pois geralmente só acontece uma vez na vida.

Ela não devolveu o cartão de crédito nem o carro, mas saiu cedo do trabalho porque sabia
que eu precisava dela. Com dezoito ou oitenta anos, a compreensão da minha mãe sempre me
traria conforto.

Embora eu estivesse correndo atrás do prejuízo, não era tão simples. Por mais que
Antony e até mesmo Mark me fizessem enxergar a situação de forma lógica, eu não conseguia
me sentir em paz sabendo que meu monstro era real e estava solto em algum lugar por aí. Todos
os dias eu travava uma luta comigo mesmo para evitar que o medo crescesse e me fizesse desistir
de tudo outra vez.

Meu castigo em Coventry durou um mês e teve fim com duas condições: eu voltaria para
a faculdade em setembro e teria um emprego até lá, com o qual pagaria as minhas contas, exceto
o aluguel, que os meus pais continuariam pagando.
CAPÍTULO 37 – Retomando a Vida

Semanas após voltar para Cambridge eu mal tinha tempo para respirar. O excesso de
atividades, entretanto, não era algo ruim. Eu estava seguindo o conselho do Antony de não ficar
ocioso, diminuindo a possibilidade de me tornar depressivo.

Um emprego em um café italiano me rendeu duas coisas inesperadas: um amigo mais


velho e chefe de cozinha e a culinária como hobby. Francesco sentiu pena de mim ao saber que
meu jantar se resumia a hambúrguer e feijão enlatado e decidiu me ensinar a fazer pratos
italianos.

Para me manter em forma comendo tanta pizza, precisei extrapolar em atividades físicas.
O que me desse vontade de fazer no dia, eu fazia, me revezando entre natação, musculação,
corrida e ciclismo. Por gostar de exercitar o cérebro tanto quanto o corpo, decidi aprender
italiano, um idioma do qual sempre gostei. Por sorte, tinha adquirido dois amigos italianos para
praticar.

Por ser algo extremamente comum na Inglaterra, decidi encontrar outro trabalho
voluntário, já que não dava mais aulas de natação. Dessa vez, troquei as crianças pelos idosos e

passei a ler para eles uma vez por semana em uma casa de repouso. Lá, conheci o meu amigo
mais velho, Nicholas, um simpático velhinho de quase oitenta anos que praticamente me adotou
como neto e que me fazia contrabandear chocolates — claro que eu discuti aquilo com a
enfermeira antes de aceitar ser contrabandista. Eu o visitava fora dos dias de leitura, e ele sempre
tinha histórias interessantes sobre a guerra para me contar. A cada visita, ele me repreendia por
não estar na faculdade, já que esquecia que tinha me repreendido antes.
***

— Eu sabia que valeria a pena cada noite mal dormida. Você é bom nisso, cara! — Mike
exclamou, comendo a milésima bruschetta.

— Você vai ficar gordo se não parar de comer desse jeito.

— Não vai não, porque eu coloco ele pra malhar bastante. — Uma sensação de calor se

espalhou pelo meu rosto com a insinuação de Cath, a atual ficante de Mike.

Ele foi perfeitamente capaz de me dar um gelo até que eu aceitasse continuar dividindo o
apartamento. Depois confessou que nunca procurou outro lugar para morar, pois sabia que eu
não conseguiria viver sem ele. Para que eu não me sentisse mais culpado por acordá-lo quando
tinha pesadelos, ele passou a dormir com protetores de ouvido e me deixar morrer afogado em
lágrimas — palavras dele, não minhas.

— Eu vi a Jenny hoje — ele disse.

— É? E como ela está?

— Linda e com um cara ao lado — ele falou, me encarando.

— Fico feliz por ela.

— É claro que fica. Por que você não vai falar com ela?

— Porque eu não tenho nada pra falar.

— Já que você não tem nada pra falar com a tal Jenny, você não quer conhecer minha
amiga? — Cath perguntou, entrando na conversa.

— Não, Cath. Nem fale de mim pra ela — avisei. — Eu sou tedioso, acredite em mim.

— Mas ela é tímida igual a você. É seu par perfeito!


— Nem vem! Já basta o Mike tentando me desencalhar!

— Você precisa sair mais, gatinho. A fila tem que andar!

— Boa noite, vocês dois — falei a caminho do meu quarto, deixando os dois rindo na
cozinha.

Liguei o home theater e fiquei ouvindo o som das ondas do mar. Aquilo servia para me

ajudar a dormir. Contudo, quando Cath estava lá, o som também me ajudava a ignorar os ruídos
vindos do quarto ao lado.

A ideia da musicoterapia foi de Mark. Eu não aderi exatamente à terapia, mas os sons da
natureza realmente me ajudavam a relaxar. Apesar de não termos mais nenhum vínculo, ele não
sumiu da minha vida. Pelo contrário, mantivemos a amizade e nos falávamos uma vez por
semana. Ele sempre percebia quando eu estava triste ou preocupado, mesmo que eu morresse
negando. A parte chata de ele me conhecer tão bem era que ele certamente sabia que o motivo da
minha tristeza era saudade da filha dele. Apesar disso, ele nunca me falava sobre ela, e eu nunca
perguntava.

Embora tivesse dormido sem pesadelos, a afirmação de Mike sobre ter visto a Jenny com
outro cara me fez rolar na cama durante horas, até ser vencido pelo cansaço.

***

Tanto o tempo quanto os meus pais me pressionavam para decidir que direção tomar em
relação à faculdade e, embora eu tivesse alguma ideia sobre isso, o medo de tomar a decisão
errada novamente me angustiava.

Eu geralmente estava muito mais feliz atendendo mesas no café do que quando cursava
medicina, mas não naquele dia. O Valentine's Day estava tornando a ausência da minha ruiva

mais difícil de lidar, e meus pensamentos estavam inquietos.

Após o expediente, eu nadei até a exaustão, mas nem isso foi suficiente para me distrair
da saudade e, num impulso, decidi ir ver o objeto dela. Estacionei em frente ao prédio de ciências
e fiquei plantado no carro, esperando Jenny sair da aula. Quando eu a vi, esqueci como respirar.
Enrolei os dedos no volante para evitar abrir a porta e correr até ela, pedindo que me perdoasse e
voltasse para mim. Ela continuava linda, mas estava mais magra e um pouco abatida. Isso me fez

questionar se era só cansaço ou se o dia dos namorados estava sendo tão ruim para ela quanto
para mim.

Enquanto eu a observava caminhar rapidamente pelo campus, um cara saiu correndo do


prédio e a alcançou. Ele passou um braço em torno dos ombros dela e beijou sua bochecha,
ganhando um sorriso em resposta. Desviei o olhar por temer ver algo mais e voltei para casa me
sentindo pior do que antes, o que me fez decidir nunca mais espioná-la. Antes de adormecer,
derramei as lágrimas há tanto tempo controladas.

***

— Sammy, chame a Giulia. — Sabendo o que eu esperava dela, Sammy deu dois latidos
curtos.

Giulia era a minha outra amiga italiana. Uma estudante de vinte anos, alta, morena,
bonita e dona de um sotaque de matar. Também era minha parceira de corridas aos sábados
desde que nos conhecemos no parque e descobrimos que somos praticamente vizinhos. Após a
corrida, íamos a um café, onde conversávamos em italiano. Ela corrigia a minha pronúncia e me
ensinava coisas novas.
— Quer entrar? — ela perguntou quando paramos em frente à casa que ela dividia com
outros estudantes.

— Não, obrigado. Eu estou desejando um banho agora.

— E eu estou desejando outra coisa já faz um tempinho. — Sem que eu esperasse, ela
deu um passo à frente e colou os lábios nos meus. Passada a surpresa eu a correspondi, levando
uma mão até sua nuca e permitindo que o beijo se aprofundasse. Negar que eu aproveitei o
momento seria hipocrisia, mas parecia faltar algo, e eu sabia exatamente o que era. Encerrando o
beijo, ofereci um sorriso amarelo e um olhar desconcertado. — Eu não vou pedir desculpas —
ela foi logo dizendo.

— Você não tem por que se desculpar. — Meus dedos foram até o meu cabelo enquanto
o meu cérebro pensava no que dizer ou fazer.

— Eu suspeitava que você tinha alguém, mas a vontade de te beijar pelo menos uma vez
falou mais alto.

— Eu não teria correspondido se tivesse namorada.

— Eu sei. Eu quis dizer que suspeitava que alguém já tinha roubado o seu coração,
porque você transmite a melancolia de quem sofre por amor.

— Eu preciso ir pra casa, a Sammy está cansada — expliquei, desviando o olhar.

— Ah, vamos lá, não seja tímido! — ela exclamou, cutucando meu ombro com um dedo
e abrindo um sorriso divertido. — Os italianos são bons conselheiros amorosos.

Depois de muita insistência, admiti que ter a opinião de uma garota sobre o assunto não
seria ruim, então fiz um resumo, ocultando muitos detalhes.

— Não nos falamos há meses, mas eu não consigo esquecer. Ela é importante pra mim.

— Eu posso ver. — Seu olhar penetrante me deixou corado. — Você não deveria ter
terminado. Um relacionamento de verdade é muito mais do que momentos bons.

— Eu sei, mas eu estava... complicado demais. — Soltei um suspiro involuntário.

— E agora?

— No momento, está tudo bem, mas eu não sei até quando — confessei, acariciando o
pelo de Sammy para não ter que encarar Giulia.

— Você não deveria se cobrar tanto, Augusto. Ninguém pode garantir que não vai ter

problemas. Eu acho que vocês merecem uma segunda chance e, se tudo desandar de novo, ela
merece a chance de decidir se você vale a pena ou não.

— Talvez ela já tenha um novo namorado — admiti com desânimo.

— Possibilidade sempre existe, mas se os olhos dela brilham ao pensar você como os
seus brilham ao pensar nela, então essa possibilidade é bem pequena. Se for assim, eu duvido
que ela tivesse aberto mão de você, se você tivesse deixado ela escolher. O que me leva à
conclusão de que você foi mesmo burro.

— A sua sinceridade é tocante — garanti com uma risada.

— Eu sei.

Nos dias seguintes, os meus pensamentos foram todos da Jenny. Apesar do medo de ser
rejeitado, o desejo de pedir que ela me perdoasse e voltasse para mim crescia a cada dia.

***

Quando a porta se abriu e aqueles olhos verdes se fixaram em mim, eu esqueci


completamente o que precisava dizer, mesmo tendo ensaiado diversas vezes. Entretanto parte da
minha tensão se dissipou quando o meu olhar foi atraído para o relicário com a nossa foto, que

ela ainda mantinha junto ao corpo.

— Está fazendo o que aqui?! — exclamou tal pergunta como se não pudesse acreditar
nos próprios olhos.

— Eu... queria conversar com você.

— Pra quê? — Estava claro que ela não tornaria aquilo fácil para mim.

— Pra pedir desculpas — expliquei levando a mão livre ao cabelo.

— Por ter sido um idiota? — perguntou de forma rude, chamando a atenção das pessoas
que passavam pelo corredor.

— Sim, mas podemos conversar sem plateia? — Eu me esforcei ao máximo para não
desviar o olhar durante o que pareceu uma eternidade até receber uma resposta.

— Eu já volto. — Finalmente consegui pensar em entregar os lírios que carregava. Ela


pegou as flores rapidamente e fechou a porta na minha cara.

Dez minutos podem ser bem longos quando você é observado como um alienígena por
todos que passam. Quando ela finalmente saiu, a vontade de abraçá-la foi quase incontrolável,
porém levando em conta a postura distante, não me atrevi.

— Aonde você quer ir?

— Podemos ir pra sua casa? O Mike me disse que você trouxe a Sammy e o Toddy, e eu
queria ver os dois.

— Claro. — A ideia me agradou, já que teríamos muito mais privacidade lá do que em


um café ou pub.

Ela encarou o chaveiro que me deu de presente quando abri a porta do carro para ela.

Ambos guardávamos perto dos olhos nossas lembranças um do outro. Minutos depois, eu
invejava os meus animais de estimação, pois eles receberam beijos e abraços enquanto eu nem
sequer ganhei um oi.

— Você quer beber alguma coisa?

— Tem chá de maçã com canela?

— Acabou. Desculpe — menti para esconder a embaraçosa verdade de que eu jogara fora

seu chá favorito porque sentia saudade dela ao olhar para ele. — Mas tem de várias frutas
vermelhas.

Conversamos sobre as aulas dela enquanto comíamos biscoitos de amêndoa feitos por
mim. Depois vieram perguntas sobre como eu estava e o que andava fazendo. Ela ficou surpresa
ao saber que cozinhar era meu novo hobby e ainda mais surpresa ao saber que eu não queria mais
cursar medicina.

— Decepcionada porque não quero mais ser médico?

— Por que estaria? A vida é sua, não minha. — Saber que ela não se importava mais com
o que eu fazia da minha vida minou minha determinação de tentar uma reconciliação. Aquele era
um passo grande demais para ser dado de uma vez. — De qualquer forma, você tem que procurar
algo que te faça feliz. Já sabe o que é?

— Acho que sim, mas ainda estou analisando se devo.

Depois de algum tempo de silêncio, seu olhar inquisidor me preparou para a próxima
pergunta.

— Por que me procurou, Augusto?

— Pra pedir desculpas por ter tomado sozinho uma decisão que te afetava também —
expliquei, encarando o balcão entre nós. — Eu fui arrogante ao achar que sabia o que era melhor
pra você.
A ausência de qualquer comentário me fez erguer o olhar e encontrar o dela marejado, o
que reacendeu a minha esperança de que poderíamos nos acertar.

— Você não sabe quanto tempo eu esperei pra ouvir isso... — sussurrou.

— Cinco meses? — perguntei, duvidoso.

— Uns três. Nos dois seguintes, eu percebi que tinha que te esquecer — confessou,

piscando para afastar as lágrimas. — Foi difícil aceitar sua decisão. Eu não sei o que teria feito
sem o meu pai.

— Eu sinto muito.

Inesperadamente ela pediu para ir ao banheiro. Minutos depois, não havia vestígios de
lágrimas e voltamos a falar sobre assuntos aleatórios. Já era noite quando a levei de volta ao
campus. Era evidente que ela ainda estava magoada comigo, mas movido pela saudade tive um
momento de estupidez e me inclinei sobre ela para beijar seus lábios. Acabei por tocar somente
sua bochecha quando ela virou o rosto a fim de evitar ser beijada. Eu me afastei, me sentindo

profundamente embaraçado.

— Eu não estava pensando direito... — gaguejei um pedido desajeitado de desculpas.

— Eu nunca disse que voltaria a namorar você.

— Eu sei. — Apesar de saber que a situação era essa, ouvir com todas as letras doeu
muito mais. — Você... está com alguém?

— Não, mas isso não quer dizer que eu esteja disponível pra você. O que você me fez
sofrer não é algo que eu consiga perdoar facilmente.

— Entendo. Será que você vai conseguir me perdoar um dia? — indaguei, olhando a rua,
que estava tão vazia quanto eu me sentia.

— Eu realmente não sei, Augusto. — Senti seus olhos em mim e me voltei para ela. —
Mas podemos tentar ser amigos. — Não era bem o que eu queria ouvir, mas inicialmente era
melhor do que nada.

— Podemos nos ver de novo?

— Seria bom. — Enfim ganhei um abraço. A sensação de tê-la nos meus braços
novamente me encheu de conforto. Ao mesmo tempo em que não saber se eu teria apenas isso
quando queria muito mais, foi uma dúvida corrosiva.
Bônus – Jennifer

O alarme não me despertou, já que eu nem havia dormido. Empurrei a manta para o lado
e me ergui da poltrona, esticando as costas para aliviar a dor causada por ter passado horas
encolhida na mesma posição.

Agarrei o celular na escrivaninha e o silenciei. O fundo de tela que apareceu fez meus
olhos marejarem. Eu estava sentada em uma boia, com o Augusto atrás de mim dentro d’água, os
braços em volta da minha cintura. Movi os dedos pela tela rapidamente enquanto algumas
lágrimas caíam sobre ela. “Deseja apagar essa imagem?” Meu dedo pairou por alguns segundos
sobre a palavra sim, antes de desviar e clicar em não.

Voltei para a poltrona com o telefone nas mãos e liguei para a única pessoa que poderia
me ajudar.

O tempo se arrastava mais devagar do que uma lesma no jardim, me fazendo perguntar
pela milésima vez como eu conseguiria suportar os dias seguintes. Tudo o que eu tentei fazer
enquanto esperava terminou em mais lágrimas. Certamente em algumas horas, eu não teria mais
uma gota de líquido sequer no meu corpo.

Encarando novamente a nossa foto no meu celular, me perguntei se ele seria expulso da
faculdade, mesmo que não fosse mais da minha conta. Afinal, eu é que havia sido expulsa.
Expulsa da vida dele.

Dois segundos depois de ouvir a batida na porta do meu quarto, eu a abri, sentindo um
mínimo de alívio enquanto encharcava de lágrimas o casaco de quem me envolveu nos braços.

— Faça ele entender que eu estou disposta a ajudar sempre que ele precisar, pai — pedi
enquanto ele preparava um chá para mim.

— Eu não posso influenciar uma decisão dele relacionada a você, Jenny.

— Você não é mais terapeuta dele, então não seria errado. Ele confia em você.

— E é exatamente por isso que seria moralmente errado — ele afirmou, me encarando.
— Não seria justo tentar fazer a cabeça dele.

— Eu não quero saber se é justo ou não! Ele vai se arrepender, e você sabe disso! Por

favor, pai — pedi, andando de um lado para o outro enquanto novas lágrimas surgiam.

— Venha cá. — Ele me abraçou novamente e beijou minha testa para me consolar. — Eu
sei que é difícil de suportar agora, mas você tem que tocar sua vida. A faculdade vai te ajudar a
ocupar a cabeça. Eu acho, sim, que o Augusto fez besteira, mas você não pode ficar esperando
que ele volte atrás nessa decisão, mesmo porque nós não sabemos se isso vai acontecer. —
Aquela possibilidade elevou meu desespero, me fazendo cair em um choro descontrolado.

***

Meses depois, a dor ainda estava lá, mas eu não permitia que mais nenhuma lágrima
escorresse. O momento mais difícil de contê-las era na aula de estrutura funcional do corpo,
quando eu tinha vontade de voar no pescoço do professor que ajudou Augusto a destruir o
próprio futuro. Depois eu me lembrava que ele descontou em mim a surra que levou da vida, e
era aí que eu tinha que piscar muitas vezes para impedir a primeira lágrima de cair, pois depois
dela, viriam muitas outras. O problema das lágrimas é que elas pareciam conectadas com o meu
interior. Quando elas surgiam, algo se rasgava dentro de mim, e era difícil costurar novamente.

Quando o calendário pendurado na parede do meu dormitório marcou quatorze de


fevereiro, foi difícil sair da cama. Procurando no fundo de uma gaveta, encontrei o relicário e o

abri. Comparando a foto com o reflexo que eu via no espelho, percebi o quanto eu havia mudado.
O único brilho ainda existente nos meus olhos era o das lágrimas que acabavam de se formar, me
fazendo quebrar a promessa que eu havia feito a mim mesma de que nunca mais choraria por
Augusto. Desejando senti-lo perto de mim para me ajudar a suportar o Valentine's Day, pendurei
o relicário no pescoço.

Na saída da aula, caminhei rapidamente, ansiosa por me afastar daquele clima de

romance que rodeava os outros estudantes.

— Jenny! — Olhando para trás, vi Adam correndo em minha direção e desejei revirar os
olhos. — O pessoal tá indo no Wild Unicorn, por que você não vem com a gente? — ele disse
após colocar um braço sobre os meus ombros e beijar meu rosto rapidamente. — Tentando ser
simpática, sorri para ele. Adam havia se tornado um bom amigo e nunca perdia a oportunidade
de me animar. Infelizmente ele não fazia milagres.

— Obrigada pelo convite, Adam, mas eu prefiro ir pra casa — declinei educadamente o
convite, e ele pareceu entender que não era um bom dia. Por ser um rapaz gentil, ele caminhou
comigo até o dormitório antes de se juntar aos outros.

Marquei mais um X no calendário com a minha caneta vermelha. Alguns dias eram mais

fáceis de suportar, e eu até conseguia me divertir um pouco com meus novos amigos. Outros
eram difíceis, e eu optava por ficar sozinha no meu quarto, enterrada em livros.

O campus era tão grande, que eu raramente encontrava Will ou Mike, o que era bom, já
que eu não suportava mais olhar para Will, e ver Mike me levava a saber notícias de Augusto, o
que não me fazia bem.

Desviei os olhos do atlas de anatomia humana para o laptop ao ouvir o alerta de e-mail.
Era da Rox. Ela havia enviado diversos desenhos de vestidos, todos lindos. A última foto era

dela ao lado de um homem que eu não conhecia. A legenda da foto dizia que pela primeira vez o
croqui de uma caloura havia sido selecionado para um desfile do estilista Luigi Mazza. Ela havia
me falado que todo ano ele escolhia o desenho de um novo talento como incentivo aos jovens
interessados em trabalhar com moda. Em vez de responder ao e-mail, enviei uma mensagem de
áudio pelo celular, parabenizando-a pela conquista.

Ela era a única da nossa panelinha do ensino médio com quem eu mantinha contato
frequentemente. Quando ela me disse que cortou contato com Mike, eu fiz de tudo para
convencê-la de que estava fazendo uma besteira, mas ela foi irredutível e, embora eu não a

compreendesse, tive de aceitar. Quando Augusto me deixou, ela tentou me consolar, mas toda
vez que tocávamos no assunto, eu me sentia ainda pior, por isso, depois de um tempo,
simplesmente passamos a fingir que os meninos não existiam, não tocando mais no nome de
nenhum dos dois.

Recusei pela enésima vez o convite de Adam para sair com alguns colegas naquele
sábado, mas, ainda assim, ele resolveu ir até o meu quarto, tirando a minha atenção do resumo
que eu estava fazendo e me deixando furiosa. Para evitar gritar com ele, respirei fundo antes de

abrir a porta, e o ar ficou preso nos meus pulmões quando dei de cara com os olhos tímidos dos
quais eu sentia tanta falta.

— Está fazendo o que aqui?! — Meu coração batia tão forte, que eu achava que ele seria
capaz de ouvir.

— Eu... queria conversar com você. — O olhar dele desceu e se fixou abaixo do meu
pescoço. Eu teria pensado que ele estava olhando o meu decote, se a expressão dele não tivesse
mudado discretamente, ganhando um pouco de confiança.

— Pra quê? — Era para ser apenas uma pergunta casual, mas a hostilidade no meu tom
pegou até a mim mesma de surpresa.

— Pra pedir desculpas — confessou, passando nervosamente uma mão pelo cabelo, gesto

que eu gostaria de poder repetir.


— Por ter sido um idiota? — perguntei sem pensar.

— Sim, mas podemos conversar sem plateia?

Segurei a maçaneta com tanta força, que tive medo de quebrá-la enquanto debatia comigo
mesma se deveria ou não conversar com ele. O tom de rosa que surgiu em suas bochechas foi tão
familiar, que resolveu a questão por mim. Eu não conseguiria dizer não.

— Eu já volto. — Antes que eu pudesse fechar a porta, ele estendeu um buquê das
minhas flores favoritas.

Eu não estava pulando de alegria em vê-lo, mas o meu coração estava. Bati a porta
rapidamente, assustada com a possibilidade de me apaixonar novamente por ele. Inspirei o
perfume das flores e involuntariamente sorri por ele ainda lembrar o quanto eu amo lírios. Fechei
os olhos ao perceber que não tinha como me apaixonar de novo, porque ainda estava apaixonada.

Troquei de roupa mecanicamente. Minha mente estava ocupada tentando decidir como
agir diante de alguém que tinha o poder de me machucar. De novo.
Final – Recomeço

No dia seguinte, falei com a Giulia sobre o nosso encontro, e ela garantiu que eu
precisava apenas recuperar a confiança de Jenny, pois se ela não me amasse mais, nem teria
aceitado conversar comigo. Eu rezei para que ela estivesse certa, porque, se a Jenny quisesse
somente minha amizade, um dia precisaria vê-la com outra pessoa, e eu não suportaria isso.
Entre nós não poderia haver meio-termo. Seria sempre tudo ou nada.

Durante semanas, nos encontramos no café perto da universidade, porém ela sempre
evitava falar sobre nós.

— Como você aprendeu a cozinhar tão bem? — Sentados em um parque para aproveitar
o dia ensolarado, degustávamos uma torta de banana que havia se tornado uma das minhas
especialidades.

— Eu sempre tive vontade de comer, e agora tenho um pouco mais de tempo e não tenho
mais a Cibele, então...

Como era habituada a fazer ao tomar sol, ela manteve os olhos fechados e a face voltada
para cima. Sem poder resistir à tentação, toquei seu cabelo, colocando uma mecha atrás da
orelha. O toque a fez abrir os olhos e sorrir, mas não o sorriso caloroso que ela costumava dirigir
a mim. Aquele era somente um sorriso educado.

— Eu preciso ir.

Qualquer toque, por mínimo que fosse, era sempre rejeitado por ela. Eu adiava o
momento de colocá-la contra a parede para definir o que havia entre nós, por medo da resposta.
Porém ficar cozinhando em banho-maria estava se mostrando ainda mais doloroso do que a
distância anterior.

***

— Olha só quem está aqui! Veio matar a saudade de mim? — Mark perguntou com um
sorriso gozador.

— Vim matar a saudade dos seus conselhos.

— Você poderia ter ligado.

— Eu queria passear.

— Sei... Fale logo.

— É sobre a minha faculdade — afirmei, encarando pela milésima vez o diploma


pendurado atrás da mesa dele.

— Sou todo ouvidos. — Ele recostou na cadeira de espaldar alto e me convidou a sentar
também.

— Quando eu era criança, tinha duas paixões: a natação, porque era empolgante, e a
medicina, porque eu queria ajudar as pessoas, como a minha mãe faz. Como você já sabe, eu
acabei perdendo o interesse no esporte profissional, então ser médico pareceu a escolha lógica.
Eu nunca pensei em ser outra coisa. Só percebi que minha vocação não é essa quando já estava
na faculdade.

— E você já sabe qual é?

— Sei, mas não sei se é apropriado pra mim. — Peguei uma caneta sobre a mesa e
desviei meu olhar para ela, apertando repetidamente o botão para expor e guardar a ponta
enquanto explicava: — Depois de pensar em como eu me senti por muito tempo, eu percebi que

o que mais me ajudou não foi a medicina. Foi a psicologia. Eu quero ajudar pessoas que se
sentem no fundo do poço, como eu já me senti, a perceber que elas podem sair de lá e viver com
qualidade de vida. — Após um longo suspiro, o encarei, fazendo a pergunta que há semanas
rondava a minha cabeça. — Você acha que estudar psicologia é viável pra mim?

— Por que não seria?

— Um psicólogo com problemas psicológicos não seria meio estranho?

— Você sabia que nós temos que fazer terapia? Alguém tem que cuidar de nós também.

— Sabia, mas é só para garantir que está tudo bem.

— Ter síndrome do pânico não te impede de ser qualquer coisa que você queira,
Augusto. Talvez você até possa entender melhor do que eu alguém com o mesmo problema,
porque você vai ter o conhecimento teórico e prático.

A opinião dele era o pouco que faltava para eu tomar uma decisão.

— Então eu vou ser pra alguém o que você é pra mim: um porto seguro.

— Você vai saber o quanto é gratificante ouvir isso. E eu vou ficar orgulhoso por ter
alguém tão perfeccionista quanto você como colega de profissão. — Ele sorriu e levantou,
apertando o meu ombro antes de se dirigir à mesinha de chá. — Eu ouvi que você está saindo
com uma certa ruiva.

— Ela te contou — falei, encarando suas costas. — Ela também te contou que está me
enrolando?

— Não, mas eu percebi isso. — Com uma xícara nas mãos, ele voltou a sentar na minha
frente. — Parece que se você quiser saber aonde isso vai dar, vai ter que se jogar.

Os meus pais ficaram muito felizes com a minha novidade sobre a faculdade, embora a
minha mãe tenha ameaçado me deserdar se eu parasse de estudar outra vez.

***

Andando ansiosamente de um lado para o outro enquanto aguardava Jenny chegar, eu


conversava com Toddy sobre o meu dilema. A julgar pelos miados histéricos que ele dava, sabia

que conseguia entender minha situação. Eu sabia exatamente o que precisava ser dito, mas falar
sobre sentimentos nunca foi o meu forte.

Quando a campainha tocou e eu abri a porta, percebi que antes de lutar pela garota, teria
que cuidar dela. Exibindo olheiras profundas, ela parecia não dormir há séculos.

— O que houve? — perguntei, preocupado.

— Tudo! O final do semestre e... sei lá. Tem tanta coisa na minha cabeça — tentou
explicar com um tom de voz extremamente abatido.

— Venha. — Pegando-a pela mão a levei até a sala. — Por que não deita no tapete?

— Deitar no tapete? — Sua expressão perguntava se eu havia enlouquecido.

— É. Confie em mim.

O canto de pássaros começou a soar pela sala quando eu liguei o som. Deitando ao lado
dela, pedi que fechasse os olhos e imaginasse a paisagem mais bela de que fosse capaz. Eu não
precisei fechar os meus porque a cena mais reconfortante para mim estava bem ao meu lado:
seus cabelos vermelhos espalhados pelo tapete branco da minha sala.

Nossa proximidade era tanta, que eu podia ouvir sua respiração se acalmando e sentir o
calor emanando do seu corpo. Seu perfume ainda me atraía como um afrodisíaco, me obrigando

a colocar as mãos nos bolsos para evitar a tentação de tocá-la. O movimento chamou sua atenção
e ela virou o rosto na minha direção, me pegando em flagrante a observá-la.

A proximidade dos nossos lábios me fez engolir em seco.

— Eu não lembrava o quanto seus olhos são azuis... — sussurrou. — Você está diferente.
Mais maduro. Parece que se passaram anos em vez de meses.

— Talvez perder o amor da minha vida por infantilidade tenha me feito amadurecer.

Após me olhar em silêncio por algum tempo, ela começou a contornar cada traço do meu

rosto com a ponta de um dedo. O toque carinhoso me fez fechar os olhos e relembrar cada
momento que vivemos juntos. O esbarrão quando nos conhecemos, a forma como ela me
paquerava abertamente durante nossas aulas particulares, o primeiro beijo. Relembrei como o
meu amor por ela nasceu e cresceu, os amassos em momentos roubados, como ela foi paciente na
nossa primeira vez. Relembrei também a dor que senti no dia em que nos separamos e em cada
dia após ele, e desejei como nunca poder voltar àquele dia e revogar a pior decisão que tomei na
vida, acabando de uma vez por todas com aquela dor.

Ao abrir os olhos, percebi que ela estava vivenciando as mesmas memórias que eu, pois
pude ver a mesma saudade que eu estava sentindo refletida nos dela.

Não sei como nem quem começou, mas acabamos envoltos nos braços e nos lábios um do
outro. Nossas línguas se explorando mútua e lentamente. Foram meses de saudades
descarregadas em um único beijo. Doce, porém faminto. Seu cheiro, a maciez da sua pele e do
seu cabelo, eram tão familiares que me causaram a sensação de voltar para casa, o lugar de onde
eu nunca deveria ter saído. Puxei seu corpo para perto do meu, precisando do calor para acreditar
que aquilo não era um sonho que iria acabar quando eu abrisse os olhos.

Como se atraído pelo pensamento, o fim chegou. Encerrando nosso beijo de forma
abrupta, ela se colocou de pé e, em um instante, já estava na porta calçando os sapatos.

— Eu tenho que ir.


Não foi difícil perceber que se ela saísse naquele momento, nunca mais voltaria. Eu a
alcancei quando ela girou a chave na fechadura e a abracei apertado.

— Não vá.

— Me solte, Augusto. Eu não posso fazer isso — explicou com a voz embargada,
tentando inutilmente se desvencilhar de mim.

— Desde quando você é covarde?

— Desde que você me fez sofrer de um jeito que eu nunca imaginei que sofreria. — Ela
começou a chorar baixinho agarrada ao meu peito. — Eu não quero passar por isso de novo.

— Você não vai — garanti esfregando suas costas suavemente. — Eu não posso garantir
que tudo serão flores, mas garanto que não vou cometer os mesmos erros.

— Eu duvido disso. Você é orgulhoso demais. Você prefere piorar e se isolar do que
deixar as pessoas te ajudarem. — Embora ela ainda estivesse agarrada a mim, eu pude senti-la
escorregando da minha vida outra vez.

— Eu mudei, Jenny. Você mesma percebeu isso. Você está feliz sem mim?

— Não, mas eu vou ficar. — Dando um passo atrás, ela me encarou com o rosto coberto
de lágrimas. — Se você me ama de verdade, então fique longe de mim pra eu conseguir esquecer
você.

Minha visão se tornou embaçada após ouvir aquele pedido. Involuntariamente minhas
mãos se alojaram sobre seus ombros, por medo de que ela fugisse sem me permitir uma última
tentativa.

— Por favor, preste atenção no que eu tenho pra te dizer. Se depois disso você não quiser
mais saber de mim, eu juro que vou te deixar em paz. — Esfreguei seus braços de cima a baixo
enquanto encarava o teto branco, buscando as palavras certas para explicar como eu me sentia.
— Meses atrás, eu já não sabia mais quem eu era. Eu não conseguia me aceitar e precisava de

um tempo pra lidar comigo mesmo. Eu mudei nesse tempo que ficamos separados. Não por você,
mas por mim mesmo. Eu mudei porque nada no mundo poderia me fazer enxergar com mais
clareza o mal que eu estava fazendo a mim mesmo, do que perder você por orgulho. Eu mudei
pra nunca mais perder algo que eu ame. Com ou sem você, eu nunca mais vou ser aquela pessoa
que se menospreza, mas sem você, eu não me sinto completo. Eu não consigo ser feliz sem você.

— Encarei seus olhos vermelhos antes de completar: — Agora sou eu que estou te pedindo pra
não me deixar, Jenny. Se você me der outra chance, eu juro que você não vai se arrepender,
porque ninguém vai te amar mais do que eu.

Ela desviou os olhos dos meus e abaixou a cabeça.

— Suas palavras são bonitas, Augusto. — Sua postura me disse mais do que as palavras.
Não havia mais nada que eu pudesse fazer. Eu havia perdido.

— Me desculpe por ter procurado você. Isso não vai acontecer de novo.

— Augusto. — Após erguer o rosto novamente coberto por lágrimas, ela secou uma que
estava escorrendo pelo meu e manteve a mão lá enquanto continuava. — Eu torço de verdade pra
que você tenha mudado, porque você merece ser feliz. Eu adoraria fazer parte dessa felicidade,
mas eu não consigo pagar pra ver. Eu sinto muito.

Com essa frase, ela saiu da minha vida definitivamente, me deixando com um buraco no
peito que eu ainda teria que descobrir como preencher.

Sentado no tapete onde ela estivera minutos antes, permiti que as lágrimas e os soluços
escapassem à vontade, torcendo para ser verdade o que dizem sobre o choro levar a dor. O tique-
taque do relógio marcou incessantemente o passar da próxima hora, mas a dor continuou lá, tão
profunda quanto no primeiro minuto. Existe a crença de que o amor aos dezoito anos não é
verdadeiro, e que nessa idade ainda teremos muitos amores pela frente. Entretanto a minha

tristeza era bem real e a perspectiva de viver uma vida inteira sem a Jenny era opressora.
Pela milésima vez desde que eu comecei a chorar, Sammy ficou de pé na minha frente,
apoiando as patinhas no meu peito para alcançar o meu rosto e encostar a cabeça nele, me
confortando.

— Tudo bem, menina. — Fiz um carinho atrás de sua orelha para confortá-la também,
pois a minha tristeza a deixava igualmente triste. — Você não merece sofrer por mim. Eu é que
mereço sofrer por ter sido tão idiota.

— Você foi muito idiota mesmo! — A voz da Jenny invadiu o apartamento logo após
escancarar a porta, instantes antes de se jogar nos meus braços. O impacto nos derrubou no
tapete.

— Onde você estava?! — Havia euforia expressa na minha voz enquanto eu a abraçava o
mais apertado que poderia aguentar. — Foi maldade me deixar sofrendo por mais de uma hora!

— Desculpe, eu não tive intenção de te torturar. Eu fiquei no carro lutando pra ir embora,
mas não consegui — explicou entre lágrimas e beijos. — Eu sabia que você merecia uma
segunda, terceira e quarta chances, menino bonito, mas eu estava com medo de tentar.

— Eu não vou te decepcionar de novo, minha ruiva — garanti, rolando por cima dela e
beijando cada centímetro do seu rosto. Transbordando de alegria por ouvi-la me chamar por
aquele apelido novamente.

— Eu acredito em você, mas fique sabendo que se você me chutar de novo, eu vou levar
a Sammy e o Toddy como prêmios de consolação. — Ao ouvir seu nome, Sammy se juntou a
nós, pulando e nos lambendo. Eu sabia que teria de fazer dar certo daquela vez, pois jamais daria
aqueles dois. Nem mesmo à minha ruiva.

Ficamos rolando pelo tapete e rindo como dois idiotas, ao mesmo tempo em que
deixávamos as lágrimas lavarem nossas almas, em uma promessa silenciosa de que nada nos
separaria novamente.
Não tínhamos a intenção de transformar uma tarde de reconciliação em uma noite épica,
porém meses de afastamento nos fizeram ceder aos impulsos e, em pouco tempo, estávamos no
quarto consumando o nosso amor.

A noite foi extraordinária, mas acordar de manhã ao lado de Jenny, com a promessa de
que ela sempre estaria ali, foi o ponto mais alto da reconciliação.

Meses depois...

— Pronta? — perguntei.

— Mais que pronta! Um, dois, três!

De costas para a Fontana Di Trevi, cumprimos a tradição. Com a mão direita sobre o
ombro esquerdo, jogamos nossas moedas.

O que a Jenny não sabia é que enquanto ela jogou apenas uma, eu joguei três, pois reza a
lenda que se você jogar uma moeda na Fontana, voltará à Roma; se jogar duas, encontrará o
amor em Roma; e se jogar três, se casará em Roma. A maioria dos turistas conhece apenas a
lenda da primeira moeda.

Eu sabia que, estando ali para comemorar o meu aniversário de dezenove anos, ainda era
jovem demais para pensar em casamento, mas não me importaria em voltar depois de alguns
anos para cumprir a profecia. Se o casamento não acontecesse em Roma, pelo menos teríamos
feito caridade, já que a prefeitura recolhe as moedas e doa para instituições.

Após a visita à Roma fomos à Casa de Giulietta, em Verona. Lá também existe uma
lenda para os apaixonados, porém nem mesmo para ter sorte no amor eu passaria a mão no seio
da estátua de Julieta. Em vez disso, fazia todo o possível para ser o Romeu da minha própria
Julieta.

***

— Minha ruiva, eu juro que dói quebrar os seus sonhos, mas o máximo que você vai
conseguir assando na grelha é ficar da cor do cabelo.

— Até parece que você é diferente de mim, menino bonito. Seu nariz sardento já está
vermelho.

— Eu não sou diferente, mas não sou eu que estou estendido na areia quente.

— Eu não estou na areia quente e não estou tentando me bronzear. Só quero aproveitar o
sol e produzir vitamina D. Não é como se tivéssemos muito disso na Inglaterra. — Voltando
aquelas duas esmeraldas para mim, ela deu tapinhas ao seu lado na esteira. — Vem cá produzir
vitamina D comigo, vem.

— Meia hora. Depois vamos entrar na água.

— Nem morta. A água deve estar fria.

— Você vai ver se não — resmunguei.

— O quê?

— Nada.

Fechei os olhos e fiquei vendo mentalmente a paisagem a nossa volta. O lindo mar azul
do sul da Itália, com imensos penhascos ao redor. Devidamente maior de idade e com a cabeça
no lugar, consegui a viagem para o lugar que eu desejava desde o ano anterior. Mas dessa vez, os
meus pais se juntariam a nós para comemorar o meu aniversário.
Depois de cumprir minha palavra torrando durante meia hora em um banho de sol, era
hora de um banho de verdade. A caminho do mar, a Jenny gritava escandalosamente e se debatia
nos meus ombros.

— Me solte, Augusto. Eu não quero entrar na água gelada! — Meu cabelo foi puxado e
minhas costas, arranhadas sem dó, o que me fez tirá-la dos ombros e mantê-la nos braços.

— Jenny, esse é o verão italiano, a água não está gelada. — Ao ver a expressão dela,
tentei o drama. — É crime vir à praia e não entrar no mar.

— Para mim, está sempre gelada, e eu vou ser presa, já que é crime.

— Entre comigo, por favor. — Apelei para a cara do Gato de Botas.

— Tá bom, menino chato! Mas só porque é quase seu aniversário.

Com um sorriso enorme, entrei na água com Jenny agarrada em mim. Até ela teve de
admitir que o contato com a água fria naquele calor todo foi maravilhoso.

— Esses arranhões estão ardendo. Você vai ter que ser muito boazinha comigo hoje pra
compensar — resmunguei.

— Eu não tenho que fazer nada, já que a culpa foi sua. Mas... eu adoro ser boazinha com
você. — Quando ela sorriu e me beijou, a dor desapareceu.

Enquanto Jenny tomava um banho, eu fiquei na varanda do nosso quarto de hotel


admirando a vista. O mar azul se estendia à minha frente, e a brisa vinda dele trazia o cheiro de
maresia do qual eu tanto gostava. Surgindo do nada, tive a sensação de que precisava encerrar
um ciclo da minha vida no dia do meu aniversário, que seria em menos de uma semana. A
paisagem majestosa e infinita me disse exatamente onde eu tinha que ir para ter o meu
fechamento, e não era em Sardenha, onde os meus pais se juntariam a nós. Por isso, após uma
ligação e alguns dias, estávamos todos em aviões.
***

Mergulhei novamente e pensei em tudo o que aconteceu comigo desde o começo: a


pessoa que eu era antes do sequestro, toda a dor física e emocional que sofri naquele dia, a

pessoa que eu me tornei depois disso, o início da síndrome do pânico e tudo o que eu perdi por
não aceitar o problema e a ajuda das pessoas que se importam comigo.

Depois de organizar todos esses fatos e meus sentimentos sobre eles, emergi com a mente
limpa, de certa forma, purificada. Apesar de estar no lugar onde a presença do J era ainda mais
real, eu senti uma tranquilidade que há muito tempo não sentia. Não por ter certeza de que nunca
mais teria um ataque de pânico ou pesadelos, mas por entender que medo, traumas e sintomas
não me definem como pessoa e não me fazem melhor ou pior do que ninguém. E que tentar ser o
melhor que eu posso ser, além de ser um bom filho, um bom namorado e um bom amigo, já me
tornam alguém especial.

Tomei um novo fôlego e comecei a nadar de volta para as pessoas que sempre estarão ao
meu lado, assim como eu sempre estarei ao lado delas.

No meio do caminho, tive uma miragem. Nela, uma menina linda e ruiva sorria
amplamente para mim, como se estivesse extremamente feliz em me ver.

— Nós achamos que você estava indo muito longe, então eu vim te salvar — a miragem
me disse.

— Veio é? — Ergui uma sobrancelha, imitando a sua mania.

— É lógico. Eu não te reconquistei só pra te perder afogado pouco tempo depois —


explicou, ofegante, demonstrando o quanto estava cansada por nadar tanto para supostamente me

salvar.
— Fui eu que te reconquistei, minha ruiva — corrigi enquanto me aproximava dela para
sustentá-la, permitindo assim que descansasse.

Ao colocar os braços em volta do meu pescoço, ela colocou também as pernas em volta
da minha cintura. O gesto me fez olhar para a areia, pois a timidez era algo que eu nunca
perderia.

— Eles foram procurar alguma coisa pra beber. Está fazendo calor — ela explicou, lendo
meus pensamentos.

— Ah. Muito calor mesmo. — Sem outra palavra, cobri os seus lábios com os meus em
um beijo mais quente do que o sol sobre as nossas cabeças.

E ali, em frente à minha antiga casa no mar de San Diego, onde quatro anos antes o meu
pesadelo começara, ele estava terminando. Eu não me sentia mais como o menino assustado
daquele dia. Na verdade, eu nem me sentia mais como um menino. Eu me sentia suficientemente
forte para suportar qualquer provação. Eu não temia mais o futuro porque entendi que tinha tudo
o que precisava para dar a volta por cima quantas vezes fossem necessárias.

Tendo os meus pais por perto e a minha ruiva nos braços, eu me senti verdadeiramente
livre. Eu estava definitivamente pronto para ter um Recomeço.

FIM

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