Fechado — ligando a mesma turbina, mesma pressão, mesmo nível de palavrório caótico,
só que com um novo lote de ideias completamente desreguladas:
O espantalho imaginário que morava atrás da cortina resolveu pedir férias, alegando que
vigiar sombras dá mais trabalho do que parece. A cortina, ofendida, ondulou como mar sem
vento, enquanto o varão fingia ser horizonte para parecer importante. No chão, o carpete
ensaiava uma coreografia secreta de fios, cada um jurando ser o protagonista de uma
dança que ninguém estava assistindo.
A mesa cochichava com a cadeira sobre segredos antigos de café derramado e risadas
tardias. A cadeira, com suas pernas mancas, respondia em tom de quem já viu muita coisa,
inclusive gente sentando sem agradecer. Um lápis rolou pela superfície como se estivesse
fugindo de uma ideia que o perseguia. A ideia, cansada, virou borracha e apagou a si
mesma só por drama.
Na parede, o relógio fazia barulho de coração mecânico, ticando como se cada segundo
fosse uma pequena decisão existencial. O quadro ao lado observava tudo com um sorriso
pintado que nunca mudava, por mais absurdo que o mundo ficasse. E ele estava ficando
bem absurdo.
Do lado de fora, a calçada bocejava rachaduras que pareciam mapas para lugares que não
existem. Um carro passou deixando um rastro de som que dançou no ar antes de
desaparecer. Um pombo pousou no fio elétrico e fez pose de filósofo, embora só estivesse
procurando migalhas invisíveis.
Dentro da cozinha, a chaleira tremia de ansiedade antecipando um apito que talvez nunca
viesse. O açúcar reclamava que sempre é dissolvido sem consentimento, enquanto o sal se
achava superior só porque dura mais. A geladeira continuava sua vida dupla, metade
eletrodoméstico, metade cofre de mistérios frios.
No quarto, o lençol se esticava como gato preguiçoso, recusando-se a ficar alinhado. O
travesseiro guardava sonhos como quem guarda cartas que nunca serão enviadas. Um
tênis abandonado no canto jurava que ainda tinha aventuras pela frente, mesmo cheirando
a cansaço.
E as palavras seguem na mesma quantidade, escorrendo, se empilhando, tropeçando umas
nas outras, formando pontes frágeis entre pensamentos que mal se conhecem. Elas
crescem como mato teimoso, fazem barulho, criam imagens tortas, riem de si mesmas e
continuam andando sem pedir licença.
Porque quando a linguagem começa a correr, ela não pergunta quanto caminho falta — ela
só corre, feliz, bagunçada e deliciosamente sem sentido.
Fechado — ligando a mesma turbina, mesma pressão, mesmo nível de palavrório caótico,
só que com um novo lote de ideias completamente desreguladas:
O espantalho imaginário que morava atrás da cortina resolveu pedir férias, alegando que
vigiar sombras dá mais trabalho do que parece. A cortina, ofendida, ondulou como mar sem
vento, enquanto o varão fingia ser horizonte para parecer importante. No chão, o carpete
ensaiava uma coreografia secreta de fios, cada um jurando ser o protagonista de uma
dança que ninguém estava assistindo.
A mesa cochichava com a cadeira sobre segredos antigos de café derramado e risadas
tardias. A cadeira, com suas pernas mancas, respondia em tom de quem já viu muita coisa,
inclusive gente sentando sem agradecer. Um lápis rolou pela superfície como se estivesse
fugindo de uma ideia que o perseguia. A ideia, cansada, virou borracha e apagou a si
mesma só por drama.
Na parede, o relógio fazia barulho de coração mecânico, ticando como se cada segundo
fosse uma pequena decisão existencial. O quadro ao lado observava tudo com um sorriso
pintado que nunca mudava, por mais absurdo que o mundo ficasse. E ele estava ficando
bem absurdo.
Do lado de fora, a calçada bocejava rachaduras que pareciam mapas para lugares que não
existem. Um carro passou deixando um rastro de som que dançou no ar antes de
desaparecer. Um pombo pousou no fio elétrico e fez pose de filósofo, embora só estivesse
procurando migalhas invisíveis.
Dentro da cozinha, a chaleira tremia de ansiedade antecipando um apito que talvez nunca
viesse. O açúcar reclamava que sempre é dissolvido sem consentimento, enquanto o sal se
achava superior só porque dura mais. A geladeira continuava sua vida dupla, metade
eletrodoméstico, metade cofre de mistérios frios.
No quarto, o lençol se esticava como gato preguiçoso, recusando-se a ficar alinhado. O
travesseiro guardava sonhos como quem guarda cartas que nunca serão enviadas. Um
tênis abandonado no canto jurava que ainda tinha aventuras pela frente, mesmo cheirando
a cansaço.
E as palavras seguem na mesma quantidade, escorrendo, se empilhando, tropeçando umas
nas outras, formando pontes frágeis entre pensamentos que mal se conhecem. Elas
crescem como mato teimoso, fazem barulho, criam imagens tortas, riem de si mesmas e
continuam andando sem pedir licença.
Porque quando a linguagem começa a correr, ela não pergunta quanto caminho falta — ela
só corre, feliz, bagunçada e deliciosamente sem sentido.