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Manual para interpretação de informações sobre substâncias químicas

Presidenta da República Dilma Rousseff

Ministro do Trabalho e Emprego Carlos Daudt Brizola

FUNDACENTRO Presidente Eduardo de Azeredo Costa

Diretor Executivo Substituto Rogério Galvão da Silva

Diretor Técnico Substituto José Damásio de Aquino

Diretora de Administração e Finanças Substituta Solange Silva Nascimento

José Tarcísio Buschinelli Mina Kato

Manual para interpretação de informações sobre substâncias químicas

São Paulo

MINISTÉRIO

DO TRABALHO E EMPREGO

químicas São Paulo MINISTÉRIO DO TRABALHO E EMPREGO FUNDACENTRO FUNDAÇÃO JORGE DUPRAT FIGUEIREDO DE SEGURANÇA

FUNDACENTRO

FUNDAÇÃO JORGE DUPRAT FIGUEIREDO

DE SEGURANÇA E MEDICINA DO TRABALHO

2012

Qualquer parte desta publicação pode ser reproduzida, desde que citada a fonte. Disponível também em: www.fundacentro.gov.br

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) Serviço de Documentação e Biblioteca — SDB / Fundacentro São Paulo — SP Erika Alves dos Santos CRB-8/7110

1234567Buschinelli, José Tarcísio. 1234567890Manual para interpretação de informações sobre 1234567substâncias químicas / José Tarcísio Buschinelli, Mina Kato. 1234567– São Paulo : Fundacentro, 2011. 123456789062 p. ; 23 cm. 1234567890ISBN 978-85-98117-68-3 12345678901.Substância química – Ficha de dados – Interpretação 1234567de linguagem. 2. Produtos químicos – Propriedades químicas – 1234567Segurança química. I. Kato, Mina. II. Título.

CIS

CDU

Fy Zai Kimi

661:54.04

CIS – Classicação do “Centre International d’Informations de Sécurité et d’Hygiene du Travail” CDU – Classi cação Decimal Universal

Ficha Técnica Coordenação editorial: Glaucia Fernandes Revisão de textos: Karina Penariol Sanches Gisele Barbosa/Beatriz Taroni de Aguiar (estagiárias) • Grazielia Potasio dos Santos Tratamento de imagens: Gisele Almeida Projeto grá co miolo e criação da capa: Marila Geraldo Destro Apolinário

Agradecemos à Claudia Esteban e a Albertinho B. de Carvalho por sua revisão técnica e sugestões neste trabalho.

Lista de abreviaturas e siglas

ABNT – Associação Brasileira de Normas Técnicas ACGIH – American Conference of Governmental Industrial Hygienists AIHA – American Industrial Hygiene Association ATSDR – Agency for Toxic Substances & Diseases Registry BEI – Biological Exposure Index CAS – Chemical Abstracts Service CCOHS – Canadian Centre for Occupational Health and Safety CDC – Centers for Disease Control and Prevention CE – Comissão Europeia CL50 – Concentração Letal 50% DFG – Deutsche Forschungsgemeinschaft DHMO – Dihydrogen Monoxide ou Monóxido de Di-hidrogênio DL50 – Dose Letal 50% ECHA – European Chemicals Agency EINENC – European Inventory of Existing Commercial Chemical Substances ELINCS – European List of Noti ed Chemical Substances EPI – Equipamentos de Proteção Individual ERPG Emergency Response Planning Values ESIS – European Chemical Substances Information System FISPQ – Ficha de Informação de Segurança de Produtos Químicos GHS – Globally Harmonized System of Classi cation and Labelling of Chemicals IARC – International Agency for Research on Cancer IB – Indicador Biológico IBMP – Índice Biológico Máximo de Exposição ICSC – International Chemical Safety Card IDLH – Immediately Dangerous to Life or Health ILO – International Labour Of ce INSHT – Instituto Nacional de Seguridad e Higiene en el Trabajo (Espanha) IPCS – International Programme on Chemical Safety

IPVS – Imediatamente Perigoso para Vida ou Saúde

LC50 – Lethal Concentration 50%

LD50 – Lethal Dose 50%

LEO – Limites de Exposição Ocupacional

MSDS – Material Safety Data Sheet

NIOSH – National Institute of Occupational Safety and Health

NPIC – National Pesticide Information Center

OECD – Organization for Economic Co-operation and Development

OIT – Organização Internacional do Trabalho

OMS – Organização Mundial da Saúde

ONU – Organização das Nações Unidas

OSHA – Occupational Safety and Health Administration

PEL – Permissible Exposure Limit

PPRA – Programa de Prevenção de Riscos Ambientais

REL – Recommended Exposure Limit

RTECS – Registry of Toxic Effects of Chemical Substances

SDS – Safety Data Sheet

SST – Saúde e Segurança no Trabalho

STEL – Short-Term Exposure Limit TLV ® – Threshold Limit Value

LT – Limite de Tolerância

TWA – Time-Weighted Average

UE – União Europeia

UNCETDG – United Nations Committee of Experts on the Transport of Dangerous Goods

UNEP – United Nations Environment Programme

US-EPA – United States Environmental Protection Agency

VRT – Valor de Referência Tecnológico WEEL ® – Workplace Environmental Exposure Levels

WHO – World Health Organization

Sumário

Apresentação

11

1 Introdução

13

2 Conceitos e de nições

17

2.1 Substância química

17

2.1.1 Substância química simples

17

2.1.2 Substância química composta

17

2.1.3 Números de identi cação de uma substância química

18

2.2 Produtos químicos

20

3 Fontes de informação

23

3.1 FISPQ – Fichas de Informação de Segurança de Produtos Químicos

23

3.2 SDS ou MSDS

24

3.3 GHS

25

4 Como encontrar as informações sobre produtos químicos

27

4.1 Composição química

27

4.2 Usando o número CAS para encontrar informações

30

4.3 Obtenção de cha completa na biblioteca da Fundacentro

32

5 Interpretação dos itens mais relevantes para Segurança e Saúde do Trabalhador

33

5.1 Identi cação química

33

5.2 Descrição

35

5.2.1 Aparência e odor (Appearance and odour)

35

5.2.2 Limite de odor (Odour threshold)

35

5.2.4

Estado físico (State of matter)

37

 

5.2.5 Temperatura de ebulição e pressão de vapor (Boiling point and vapour pressure)

38

5.2.6 Solubilidade (Solubility)

39

5.2.7 Densidade relativa de vapor ou do gás (Vapour or gas density)

40

5.3

Principais perigos das substâncias químicas

41

5.3.1 Incêndio e explosão (Fire and explosion)

41

5.3.2 Ponto de fulgor (Flash-point)

41

5.3.3 Faixa de explosividade (Explosive range, ammable range)

42

5.3.4 Temperatura de autoignição (Autoignition temperature)

42

5.3.5 Explosão e incêndio com material particulado (Dust hazard)

42

5.4 Produtos gerados na combustão e na termodegradação (Combustion and thermal decomposition products)

43

5.5 Danos à saúde

 

44

 

5.5.1 Efeitos agudos ou por exposição de curto prazo (Acute effects or effects of short-term exposure)

44

 

5.5.1.1 Efeitos locais

44

5.5.1.2 Efeitos sistêmicos

45

5.5.1.3 DL50 e CL50 (LD50 and LC50)

45

5.5.1.4 IPVS ou IDLH

46

 

5.5.2 Efeitos crônicos ou por exposição de longo prazo (Chronic effects or effects of long-term exposure)

46

 

5.5.2.1

Classicação de carcinogenicidade

48

5.6 Limites de exposição ocupacional (Occupational exposure limits)

49

5.7 Monitoramento biológico

53

5.8 Conversão de ppm para mg m -3

54

5.9 Odor como propriedade de alerta (Warning property)

55

6 Outras informações

 

59

6.1

Controle da exposição e equipamento de proteção individual

59

6.1.1

Amostragem e análise

59

6.1.2

Proteção coletiva

60

6.1.3

Proteção individual e higiene pessoal

60

7 Misturas

63

7.1

Efeitos da exposição concomitante a diversas substâncias

64

Apresentação

Este manual foi escrito com a intenção de dar mais subsídios para a interpretação de in-

formações sobre produtos químicos para aqueles que não se especializaram nesta área de conheci-

mento. O objetivo é se familiarizar com os itens que, à primeira vista, podem não parecer de utilidade

direta para Saúde e Segurança do Trabalhador.

Essas informações serão de grande importância antes, durante e depois de uma avaliação

de ambiente de trabalho e gerenciamento qualitativo de riscos, para delineamento de um programa de

prevenção de acidentes e exposição a produtos químicos e também para subsidiar os critérios de acom-

panhamento clínico-laboratorial nos Programas de Monitoramento da Saúde do Trabalhador.

Com o intuito de sermos práticos e didáticos, apresentamos exemplos em quase todos

os itens, com tabelas comparativas. Isso permite que o leitor tenha a possibilidade de compreender a

base teórica e aplicá-la, utilizando as mesmas abordagens, ao produto químico sobre o qual necessite

procurar informações e interpretar os dados obtidos de forma correta.

O texto não é exaustivo, mas foi elaborado de modo a facilitar o aprofundamento do conhe-

cimento sobre o assunto – as referências bibliográ cas foram, sempre que possível, escolhidas com

links na internet e colocadas ao longo do texto, facilitando a busca.

Lembramos que as informações e as fontes podem mudar com o tempo. Portanto, quando

zer a consulta, que atento às datas de publicação/disponibilização dos dados e às suas atualiza-

ções.

Esperamos que, com este trabalho, possamos contribuir para a melhor avaliação das con-

dições de exposição ocupacional a agentes químicos em nosso país.

José Tarcísio Buschinelli Mina Kato

1

Introdução

Para uma boa gestão dos riscos químicos nos ambientes de trabalho, as informações corretas a respeito das substâncias químicas são de fundamental importância para que os perigos de um determinado produto sejam adequadamente dimensionados e gerenciados. Para que isso seja possível, é pré-requisito que as inúmeras fontes de informação disponíveis e atualizadas sejam corre- tamente interpretadas.

Atualmente, inclusive por força da legislação, 1,2,3,4 as empresas fornecem informações acerca da composição e dos efeitos dos produtos químicos (nem sempre de forma completa), mas existe uma grande di culdade de se interpretar corretamente as informações disponíveis para que estas possam ser transformadas em conhecimento aplicável na defesa da saúde dos trabalhadores.

Essa di culdade na interpretação atinge não só a população em geral, mas também os trabalhadores

e muitos pro ssionais da área de Segurança e Saúde do Trabalhador.

Esta realidade tem causado vários problemas: por um lado, a proteção ao trabalhador não

é adequada, podendo trazer consequências graves em termos de danos agudos e/ou crônicos causa-

dos a sua saúde por substâncias com efeitos bem conhecidos e com informações fartamente disponí- veis na literatura, inclusive com acesso pela internet; de outro, a proteção exagerada e desnecessária frente a falsos perigos, o que acarreta, muitas vezes, problemas aos trabalhadores, como estresse no trabalho, utilização de muitos equipamentos de proteção individual (EPIs) concomitantemente (em geral desconfortáveis), coleta de sangue para exames inapropriados, entre outros, além do custo inútil que é geralmente repassado para a sociedade.

A di culdade em interpretar as informações disponíveis acerca dos efeitos das substâncias químicas não é só brasileira, sendo observada em outros países. O “caso DHMO” ilustra bem esta questão.

1 ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE NORMAS TÉCNICAS. NBR 14725-1: Produtos químicos - informações sobre segurança, saúde e meio ambiente: parte 1:

terminologia. Ed. corr. Rio de Janeiro, 2010.

2 ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE NORMAS TÉCNICAS. NBR 14725-2: Produtos químicos - informações sobre segurança, saúde e meio ambiente:

parte 2: sistema de classi cação de perigo. Ed. corr. Rio de Janeiro, 2009.

3 ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE NORMAS TÉCNICAS. NBR 14725-3: Produtos químicos - informações sobre segurança, saúde e meio ambiente:

parte 3: rotulagem. Ed. corr. Rio de Janeiro, 2010.

4 ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE NORMAS TÉCNICAS. NBR 14725-4: Produtos químicos - informações sobre segurança, saúde e meio ambiente:

parte 4: cha de informações sobre segurança de produtos químicos (FISPQ). Ed. corr. Rio de Janeiro, 2010.

Há alguns anos, nos EUA, foi publicada na internet uma cha de segurança 5 de uma subs-

tância denominada DHMO (Dihydrogen Monoxide ou Monóxido de Di-hidrogênio) com várias informa-

ções preocupantes, como a de que sua inalação, quando na forma líquida, é geralmente fatal em dois

minutos e a exposição a sua forma gasosa provoca graves lesões de pele e do sistema respiratório.

Ainda, que o seu contato com a pele provoca enrugamento e sua ingestão leva a alterações da função

renal com um aumento da diurese.

Também foi lançada, utilizando-se da internet, uma campanha pelo banimento desta peri- gosa substância 6 (DMHO.ORG, 2011), pois:

• A inalação, mesmo de pequenas quantidades, provoca centenas de mortes por ano;

• A prolongada exposição à forma sólida provoca graves lesões de tecidos;

• A forma gasosa causa graves queimaduras;

• É o principal componente da chuva ácida;

• Contribui para a erosão dos solos;

• Contribui para curtos-circuitos de equipamentos elétricos;

• É encontrada nas biópsias de lesões pré-cancerosas e tumores.

A campanha ainda complementa que, não obstante todos esses perigos, o DHMO é lar- gamente utilizado em muitas atividades: como solvente industrial, em usinas nucleares, pela Marinha dos EUA em sistemas de propulsão de alguns navios, na fabricação de armas químicas e biológicas, na síntese química do poliestireno expandido, no desenvolvimento de plantas geneticamente modi - cadas, na produção e na distribuição de agrotóxicos e ainda é um subproduto da queima de hidrocar- bonetos em fornalhas.

Apesar de DHMO ser outra forma de denominar a água e não existir nenhuma inverdade nas informações veiculadas, a brincadeira gerou uma série genuína de adesões pelo banimento de tal substância aparentemente tão maléca. Um dos casos documentados foi a de um parlamentar da Nova Zelândia que escreveu ao Ministro da Saúde, através do líder de sua bancada, indagando o que o Mi- nistério estaria fazendo para o banimento de tal produto. A troca de correspondências 7 foi reproduzida a seguir nas Figuras 1 e 2. A resposta do Ministro (Figura 2) foi concisa: a tal perigosa substância era água.

Entre os inúmeros sites sobre DHMO que podem ser encontrados na internet, um de auto- ria de dois professores de Portugal, Associação Cientí ca de Pesquisa Ambiental – Informações sobre Monóxido de Di-Hidrogênio, diz que o objetivo em manter este site é a melhoria do Ensino Médio no país. Adverte:

O único perigo real associado ao Monóxido de Di-hidrogênio é o medo, excessivamente genera- lizado, da Química e da linguagem que lhe é própria. O que é perigoso, isso sim, é a ignorância! Mesmo os supostos conhecedores e divulgadores da verdade, os media, difundem inverdades porque o seu objectivo é atingir altos índices de audiências. 8

Dessa forma, o objetivo desta publicação é fornecer ao leitor conhecimentos básicos que lhe permitam interpretar corretamente as informações sobre os efeitos em seres humanos dos produ-

5 CHEM-SAFE. Material safety data sheet: Dihydrogen monoxide. [S.l.], c2007. Disponível em: <http://www.dhmo.org/msds/MSDS-DHMO-2007- ChemSafe.pdf>. Acesso em: 13 maio 2011.

6 DHMO.ORG. Disponível em: <http://www.dhmo.org/>. Acesso em: 13 maio 2011.

7 ANDERTON, J. H. [Correspondência o cial]. 2007. Disponível em: <http://img2.scoop.co.nz/media/pdfs/0709/DeanDHMO.pdf>. Acesso em: 18 maio 2011.

8 ASSOCIAÇÃO CIENTÍFICA DE PESQUISA AMBIENTAL. Monóxido de di-hidrogénio: quem somos. 2005. Disponível em: <http://modh.no.sapo.pt/ quem.html>. Acesso em: 13 jun. 2011.

tos químicos existentes, independentemente dos tipos de fonte. Não é objetivo discutir a legislação ou as regulamentações das fontes de informação.

Os focos principais deste manual são, pois, as informações referentes à Higiene do Traba-

lho e à Toxicologia Ocupacional, no entanto algumas informações a respeito de outros perigos das subs-

tâncias químicas também serão tratadas. Serão utilizados exemplos com análises das informações de

várias substâncias, algumas bem familiares, outras nem tanto. Dar-se-á atenção especial a muitos itens

frequentemente relegados a segundo plano, como as propriedades físico-químicas, mas que são dados

fundamentais para dimensionar de forma correta os perigos do manuseio de qualquer substância.

correta os perigos do manuseio de qualquer substância. Figura 1 Carta de deputado da Nova Zelândia

Figura 1 Carta de deputado da Nova Zelândia ao Ministro da Saúde solicitando o banimento do DHMO 9

Espera-se com isso que uma sociedade mais bem preparada para aproveitar melhor as in-

formações disponíveis permita que os recursos existentes sejam bem direcionados para a eliminação e/

ou controle dos produtos químicos realmente perigosos em benefício dos trabalhadores e da sociedade.

9 DEAN, J. [Correspondência o cial]. 2007. Disponível em: <http://img2.scoop.co.nz/media/pdfs/0709/DeanDHMO.pdf>. Acesso em: 18 maio 2011.

Figura 2 Resposta do Ministro da Saúde ao deputado 1 0 1 0 ANDERTON, J.

Figura 2 Resposta do Ministro da Saúde ao deputado 10

10 ANDERTON, J. H. [Correspondência o cial]. 2007. Disponível em: <http://img2.scoop.co.nz/media/pdfs/0709/DeanDHMO.pdf>. Acesso em: 18 maio 2011.

2 Conceitos e definições

Atenção:

A seguir, serão apresentados alguns conceitos e denições para facilitar a discussão que virá a seguir. É uma revisão de química básica. Quem já possui esse conhecimento, pros- siga para o item 3.

2.1 Substância química

Substância química é qualquer material com uma composição bem denida que não se

consegue separar por qualquer método mecânico ou físico e que mantém as mesmas características

físicas e químicas em qualquer amostra obtida. Pode ser simples ou composta. 11

2.1.1 Substância química simples

É formada por somente um elemento químico. Por exemplo: o hélio (He) é formado por

um só átomo deste elemento; o hidrogênio, formado por dois átomos desse elemento ligados (H-H, e

escreve-se H 2 ); o cloro (Cl 2 ), formado também pela ligação de dois átomos; e o enxofre, formado por

oito átomos (S 8 ).

2.1.2 Substância química composta

É formada por mais de um elemento, como a água, que tem molécula formada por dois

átomos de hidrogênio e um de oxigênio (H 2 O), o sal de cozinha, que é formado por cloro e sódio

(NaCl), o clorofórmio (CHCl 3 ), que é formado por um átomo de carbono, três de cloro e um de hidrogê-

nio, e o benzeno, formado por seis átomos de carbono e seis de hidrogênio (C 6 H 6 ).

As substâncias compostas formadas por moléculas maiores e mais complexas podem,

mesmo com idêntica fórmula molecular, possuir estruturas diferentes dependendo da sua forma espa-

cial. Isso é chamado de isomeria. Por exemplo, o xileno, que tem fórmula C 8 H 10 , possui um anel com

seis carbonos e quatro hidrogênios e dois grupos com um carbono e três hidrogênios cada ligados ao

anel, mas pode apresentar três formas diferentes, como mostradas na Figura 3. Cada uma das formas

isoméricas possui algumas propriedades, inclusive físico-químicas, diferentes. O ponto de ebulição do

11 UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO. Centro de Divulgação Cientí ca e Cultural. Química: materiais e transformações. Parte 2: substâncias puras e mis- turas. São Paulo, [ca. 2010]. Disponível em: <http://educar.sc.usp.br/ciencias/quimica/qm1-2.htm>. Acesso em: 25 out. 2010.

orto-xileno é cerca de 5°C mais alto que o dos demais isômeros, enquanto que sua pressão de vapor

é

menor que dos outros. Em algumas sínteses químicas, usam-se isômeros especí cos. Por exemplo,

o

meta-xileno é matéria-prima para o ácido isoftálico, enquanto o orto-xileno é usado para a produção

de anidrido ftálico. 12

Orto-xileno Meta-xileno Para-xileno

Orto-xileno

Meta-xileno

Para-xileno

Figura 3 Xileno e seus isômeros

Além de propriedades físico-químicas, os efeitos das substâncias nos vegetais e nos ani-

mais também podem variar de acordo com a estrutura molecular. Por exemplo, a fórmula molecular

C 6 H 14 pode representar uma substância de cadeia linear denominada n-hexano (n de normal ou de ca-

deia reta), que é tóxica para os nervos periféricos dos seres humanos. O hexano de cadeia rami cada

(iso-hexano ou 2-metil pentano), com a mesma fórmula molecular, não possui este efeito.

Resumindo:

– Substâncias simples possuem só um elemento:

Hélio = He Hidrogênio = dois átomos ligados H-H – escreve-se H 2 Cloro = dois átomos ligados Cl-Cl – escreve-se Cl 2 Enxofre = oito átomos ligados em círculo – escreve-se S 8

– Substâncias compostas possuem mais de um elemento:

Água = dois de hidrogênio e um átomo de oxigênio – H 2 O Sal de cozinha = um átomo de sódio e um de cloro – NaCl Clorofórmio = um átomo de carbono, um de hidrogênio e três de cloro – CHCl 3

– Isomeria:

Mesmo com fórmula molecular idêntica, as substâncias possuem diferentes estruturas es- paciais, cada uma com propriedades físico-químicas próprias, podendo ter efeitos à saúde também diferentes.

– Produto químico: pode ser tanto uma só substância química, como uma mistura de substâncias.

2.1.3 Números de identificação de uma substância química

Para facilitar a identi cação das substâncias químicas, existem vários sistemas de nume-

ração. O mais conhecido e utilizado é o número CAS, número de registro fornecido pelo Chemical

Abstrats Service (CAS). 13 Esta entidade foi fundada em 1907, nos EUA, e começou organizando e

12 OCCUPATIONAL SAFETY AND HEALTH ADMINISTRATION. Sampling and Analytical Methods. Xylenes (o-, m-, p-isomers) Ethylbenzene, 1002. Disponível em: <http://www.osha.gov/dts/sltc/methods/mdt/mdt1002/1002.html>. Acesso em 20 jand 2011.

13 AMERICAN CHEMICAL SOCIETY. CAS registry and CAS numbers. Columbus, c2011. Disponível em: <http://www.cas.org/expertise/cascontent/index. html>. Acesso em: 10 abr. 2012.

indexando a produção cientíca na área química. A partir de 1965, elaborou um sistema que registra cada substância química com um número. A numeração possibilita congregar sinônimos e os diferen- tes nomes adotados em diversos idiomas e também permite separar os isômeros. No exemplo dos isômeros do xileno mostrado anteriormente (Figura 3), os números CAS para orto-xileno, meta-xileno

e para-xileno são, respectivamente, 95-47-6, 108-38-3 e 106-42-3. O solvente cloreto de metileno

(CAS: 75-09-2) recebe várias denominações somente em português: diclorometano, dicloreto de me-

tileno, Freon 30, R-30, DCM, MDC.

O fungicida mancozebe pode ser encontrado no mundo inteiro com nomes químicos e

comerciais diversos: Carbamic acid, ethylenebis{dithio-}, manganese zinc complex (8CI); Carbamo-

dithioic acid, 1,2-ethanediylbis, manganous zinc salt; Dithane (mancozeb) M-45 technical premix;

Dithane M-45; Mancozebe; Maneb com Zinco; Manganese, EBDC; Fore; Mancozeb; {{1,2-ethan

ediylbis{carbamodithioato}}(2-)}-, {{1,2-ethanediylbis{carbamodithioato}}(2-)}Zinc; Mancozeb Zinc;

Mankoceb; mankozeb; Manzate 200; Manzeb; Manzin 80; Mn-Zn Ethylene bisdithiocarbamate;

Nemispor; Pace fungicide (014504+113501); Penncozeb; Policar MZ; Policar S; Vondozeb Plus;

Zinc ion and manganese ethylenebisdithiocarbamate 80%; Zinc ion and manganese ethylenebis-

dithiocarbamate; Zinc manganese ethylenebisdithiocarbamate. Todas essas denominações têm o

número CAS 8018-01-7.

Normalmente, o número CAS se aplica a substâncias puras, mas há algumas misturas que

também o possuem, como, por exemplo, a mistura dos isômeros de xileno, que é registrada com o nú-

mero CAS 1330-20-7, ou mesmo outras misturas comerciais de grande importância, como a gasolina,

que é uma mistura de centenas de substâncias químicas, com o número CAS 8006-61-9.

Existem também outros sistemas numéricos de identicação de substâncias químicas que

surgiram ao longo do tempo, como o da Organização das Nações Unidas (ONU) ou da União Europeia

(UE). O número da ONU (UN Number ou código da ONU) existe somente para substâncias perigosas

(inamáveis, explosivas, tóxicas) e visa basicamente à segurança no transporte. 14

O North America (NA) number é usado pelo Departamento de Transporte dos EUA e utiliza

o mesmo número UN, quando este existe. Complementarmente, adiciona um número próprio quando

a substância não possui o número UN.

A Comissão Europeia (CE), através da Agência Europeia de Produtos Químicos (European

Chemicals Agency – ECHA), realizou um inventário das substâncias químicas presentes na União Eu-

ropeia. Aquelas comercializadas até 18 de setembro de 1981 foram registradas no European Inventory

of Existing Commercial Chemical Substances (Einecs) e as catalogadas após esta data, na European

List of Noti ed Chemical Substances (Elincs). Toda a informação pode ser acessada no portal European

Chemical Substances Information System (Esis) 15 e o registro é denominado número EU Einecs/Elincs.

14 UNITED NATION ECONOMIC COMIMISSIONFOR EUROPE. UN recommendations on the transport of dangerous goods: model regulations. 12. ed. rev. [S.l.]: c2001. Disponível em: <http://live.unece.org/trans/danger/publi/unrec/12_e.html>. Acesso em: 26 nov. 2010.

15 EUROPEAN COMMISSION. Joint Research Centre. Institute for Health and Consumer Protection. ESIS: European Chemical Substances Information System. [S.l.: ca. 2008]. Disponível em: <http://esis.jrc.ec.europa.eu/>. Acesso em: 10 abril 2012.

De importância para saúde e segurança do trabalho, há ainda o número do Registry of To-

xic Effects of Chemical Substances (RTECS) de responsabilidade da National Institute of Occupational

Safety and Health (NIOSH) dos EUA. 16

Números de registros de substâncias químicas:

Número CAS (é o “CPF” das substâncias químicas): o mais importante e mais antigo sistema com mais de 56 milhões de substâncias registradas e entrada diária de cerca de 12 mil novos registros. 17

Outros registros:

UN number: número das Nações Unidas NA number: número da América do Norte (se não existir UN number para a substância) EU EINECS/ELINCS: número da União Europeia RTECS: Registro de efeitos tóxicos das substâncias químicas da NIOSH (EUA)

2.2 Produtos químicos

Para os ns deste manual, denomina-se produto químico uma substância química pura,

simples ou composta, ou ainda misturas. As misturas podem ser de líquidos, sólidos ou gases e mis-

tas, com sólidos e líquidos ou gases e líquidos.

Uma substância química, seja simples ou composta, tem diferentes graus de pureza: o

grau comercial com 70% a 90% de pureza, dependendo do produto; o grau farmacêutico (95% ou

maior); e o grau PA (Para Análise), que chega a 99,9% de pureza. Existem graus de pureza ainda

maiores para atender às especi cações de análises especiais, como o nanograu e outros. 18,19

Os trabalhadores estão normalmente expostos a produtos de grau comercial e, por isso,

deve-se estar atento aos efeitos não somente da substância propriamente dita, como também aos dos

possíveis contaminantes, que, eventualmente, podem trazer agravos à saúde até maiores do que a

própria substância. Quando a substância contaminante for carcinogênica, mutagênica ou tóxica para

reprodução e estiver presente em concentrações maiores que 0,1%, e se for corrosiva ou irritante,

acima de 1%, a sua presença deve ser declarada 20 (ver Tabela 1, p. 29).

Além dos contaminantes, pode ocorrer a formação de substâncias novas no ambiente, ge-

radas por reações químicas entre os componentes de uma mistura ao longo do tempo de estoque ou

por ocasiões do seu uso, muitas vezes facilitadas por calor e/ou incidência de luz, ou mesmo por de-

gradação de uma substância, resultando em outras duas ou mais substâncias. Por exemplo, o estireno

16 NATIONAL INSTITUTE FOR OCCUPATIONAL SAFETY AND HEALTH. RTECS: what is RTECS?. [S.l.], 2010. Disponível em: <http://portal.anvisa.gov. br/wps/wcm/connect/65652c0047457fce8b97df3fbc4c6735/M02+-Mancozebe.pdf?MOD=AJPERES&useDefaultText=0&useDefaultDesc=0>. Acesso em:

10 abril 2012.

17 AMERICAN CHEMICAL SOCIETY. CAS registry and CAS numbers. Columbus, c2011. Disponível em: <http://www.cas.org/expertise/cascontent/index. html>. Acesso em: 10 abril 2012.

18 J. T. BAKER GRADES. Disponível em: <http://www.specanalitica.pt/xFiles/scContentDeployer_pt/docs/articleFile43.pdf>. Acesso em: 10 abril 2012.

19 EMSCO SCIENTIFIC ENTERPRISES. Mallinckrodt grade de nitions. Philadelphia, c2002. Disponível em: <http://www.emscoscienti c.com/products/ mallinckrodt/gradedef.htm>. Acesso em: 18 maio 2011.

20 ASSOCIAÇÃO BRASILERA DE NORMAS TÉCNICAS. NBR 14725-2: produtos químicos – informações sobre segurança, saúde e meio ambiente: parte 2: sistema de classi cação de perigo. Ed. corr. Rio de Janeiro, 2009. p. 5.

(CAS 100-42-5) é um líquido in amável incolor que, se não estiver estocado em condições adequadas (temperatura < 25°C, sem exposição à luz solar direta, com adição de inibidor de polimerização), pode formar, em contato com o oxigênio do ar, um peróxido explosivo ou se polimerizar e formar o poliesti- reno (CAS 9003-53-6), que é sólido à temperatura ambiente. Outra substância, a etilenotioureia (CAS 96-45-7), é possivelmente carcinogênica para seres humanos (ver item 5.5.2.1 — Classi cação de carcinogenicidade), é um produto secundário na produção e também resultado da degradação de fun- gicidas ditiocarbamatos. O mancozebe 21 (CAS 8018-01-7) é considerado um exemplo de fungicida di- tiocarbonato de toxidade mediana (classe III), não carcinogênico. 22 O trabalhador rural, principalmente durante o processo de colheita e manipulação de frutas e verduras, pode estar exposto não somente ao fungicida original, como o mancozebe, mas também à etilenotiureia, um possível carcinogênico. 23

Para mais informações referentes ao armazenamento de substâncias químicas, consulte manuais de segurança de laboratórios. 24,25

21 BRASIL. Agência Nacional de Vigilância Sanitária. Índice monográ co: mancozebe. Disponível em: <http://portal.anvisa.gov.br/wps/wcm/connect/6565 2c0047457fce8b97df3fbc4c6735/M02+-Mancozebe.pdf?MOD=AJPERES&useDefaultText=0&useDefaultDesc=0>. Acesso em: 10 abril 2012.

22 BRASIL. Agência Nacional de Vigilância Sanitária. Critérios para a classi cação toxicológica. Brasília, c2009. Disponível em: <http://

portal.anvisa.gov.br/wps/portal/anvisa/educacao/!ut/p/c4/04_SB8K8xLLM9MSSzPy8xBz9CP0os3hnd0cPE3MfAwMDMydnA093Uz8z00B_

A3dTA_2CbEdFAPaAaLg!/?WCM_PORTLET=PC_7_CGAH47L0006BC0IG5N65QO0OJ4_WCM&WCM_GLOBAL_CONTEXT=/wps/wcm/connect/anvi-

sa/anvisa/inicio/agrotoxicos+e+toxicologia/publicacao+agrotoxicos+e+toxicologia/criterios+para+a+classi cacao+toxicologica>. Acesso em: 20 jan. 2011.

23 UNITED STATES OF AMERICA. Environmental Protection Agency. Technology transfer network air toxics web site: ethylene thiourea. [S.l.], c2007. Disponível em: <http://www.epa.gov/ttn/atw/hlthef/ethyl-th.html>. Acesso em: 20 jan. 2011.

24 FUNDAÇÃO OSWALDO CRUZ. Armazenamento de produtos químicos. [ca.2000]. Disponível em: <http://www.ocruz.br/biosseguranca/Bis/lab_virtual/ armazenamento_de_produtos_quimicos.html#Medidas%20de%20Seguran%C3%A7a:>. Acesso em: 18 maio 2011.

25 ESPAÑA. Ministerio de Trabajo Y Asuntos Sociales. Instituto Nacional de Seguridad e Higiene en el Trabajo. NTP 479: prevención del riesgo en el laboratorio químico: reactividad de los productos químicos (II). [S.l., ca.1992]. Disponível em: <htp://www.insht.es/InshtWeb/Contenidos/Documentacion/ FichasTecnicas/NTP/Ficheros/401a500/ntp_479.pdf>. Acesso em: 18 maio 2011.

3 Fontes de informação

Existem várias fontes de informações acerca de produtos químicos disponíveis. Discutire-

mos as principais para a área de Saúde e Segurança do Trabalho.

3.1 FISPQ – Fichas de Informação de Segurança de Produtos Químicos

As FISPQ foram instituídas no país por normas da Associação Brasileira de Normas Téc-

nicas (ABNT). 26 As empresas fornecedoras de produtos químicos devem disponibilizá-las aos seus

clientes e os itens abaixo devem nela constar com a seguinte numeração:

1. Identi cação do produto e da empresa

2. Identi cação dos perigos

3. Composição e informação dos ingredientes

4. Medidas de primeiros socorros

5. Medidas de combate a incêndio

6. Medidas de controle para derramamento ou vazamento

7. Manuseio e armazenamento

8. Controle da exposição e EPIs

9. Propriedades físico-químicas

10. Estabilidade e reatividade

11. Informações toxicológicas

12. Informações ecológicas

13. Considerações sobre tratamento e disposição

14. Informações sobre transporte

15. Regulamentações

16. Outras informações

No entanto, nem sempre as informações fornecidas nas chas estão completas ou atua-

lizadas, especialmente quanto à composição. Outro problema grave oriundo da própria norma é que

não há padronização relativa às de nições e aos critérios de como se deve considerar os perigos de

uma determinada substância. Por exemplo, o que deve ser considerado irritante, ou mutagênico, ou

qual a fonte na literatura que se deve utilizar para classicar uma substância como carcinogênica.

26 ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE NORMAS TÉCNICAS. NBR 14725-4: produtos químicos – informações sobre segurança, saúde e meio ambiente:

parte 4: cha de informações sobre segurança de produtos químicos (FISPQ). Ed. corr. Rio de Janeiro, 2010.

Para esta publicação, os itens 2, 3, 4, 8, 9 e 11 serão de especial interesse, sendo o item

2 (composição) a informação mais importante, pois é a partir dela que se pode pesquisar cada subs-

tância isoladamente em várias fontes.

O que são efeitos e perigos?

De nições da ABNT: 27

Perigo: fonte potencial de dano e característica intrínseca de um produto.

Como exemplos: substância, agente, fator ou condição irritante, carcinogênica, lesiva ao fígado, explosiva, in amável, entre outros.

Dano: lesão física e/ou prejuízo à saúde, ao meio ambiente ou à propriedade.

Efeito(s): é o resultado ou a consequência de determinada substância química no organismo. Exemplos: irritação de pele, irritação do trato respiratório, irritação ou lesão de olhos, lesão de fígado, dano ao sistema reprodutor, carcinogênese, mutagênese etc. É a realização do poten- cial de dano (perigo) da substância, o que depende da dose, do tempo de exposição, da via de contato, entre outras variáveis.

Cabe ao pro ssional de Saúde e Segurança do Trabalho previnir a ocorrência dos efeitos (con- sequências) do potencial de dano (perigo) dos produtos, evitando a exposição.

3.2 SDS ou MSDS

São as siglas em inglês para Safety Data Sheet (SDS) e Material Safety Data Sheet

(MSDS). São parecidas com as FISPQs brasileiras, mas cada país tem suas próprias normas e, as-

sim, são muito heterogêneas, não só em relação aos itens que as compõem, mas também quanto às

denições dos perigos.

Existem FISPQ, SDS e MSDS tanto para produtos comerciais de responsabilidade dos

produtores/fornecedores, quanto para substâncias puras; e muitas vezes, para essas últimas, existem

SDS publicadas por instituições públicas, como, por exemplo, a Agência de Proteção Ambiental dos

EUA (United States Environmental Protection Agency – US-EPA). 28

Várias instituições de Saúde e Segurança do Trabalho possuem bases para substâncias

químicas de acesso livre, como os links das instituições a seguir:

• Instituto Nacional de Seguridad e Higiene en el Trabajo (INSHT) 29 Espanha

• Agency for Toxic Substances & Diseases Registry (ATSDR), dos Centers of Disease Control and Prevention (CDC) Estados Unidos 30

27 ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE NORMAS TÉCNICAS. NBR 14725-1: produtos químicos informações sobre segurança, saúde e meio ambiente:

parte 1: terminologia. Ed. corr. Rio de Janeiro, 2010.

28 US-EPA. United States Environmental Protection Agency. Envirofacts Master Chemical Integrator. Disponível em: <http://www.epa.gov/enviro/html/ emci/chemref/>. Acesso em: 11 abril 2012.

29 ESPAÑA. Ministerio de Trabajo y Asuntos Sociales. Instituto Nacional de Seguridad e Higiene en el Trabajo. Fichas FISQ. [S.l., ca. 2010]. Disponível em: <http://www.insht.es/portal/site/Insht/menuitem.a82abc159115c8090128ca10060961ca/?vgnextoid=4458908b51593110VgnVCM100000dc0ca8c0RC RD>. Acesso em: 18 maio 2011.

30 AGENCY FOR TOXIC SUBSTANCES & DISEASE REGISTRY. ATSDR A-Z Index. Atlanta, 2010. Disponível em: <http://www.atsdr.cdc.gov/az/a.html>. Acesso em: 18 maio 2011.

• European Chemical Substances Information System (ESIS) da Joint Research Centre (JRC) Co- missão Europeia. 31

• International Programme on Chemical Safety (IPCS) ou Programa Internacional em Segurança Química é uma atividade conjunta de cooperação do United Nations Environment Programme (UNEP), da Organização Internacional do Trabalho (OIT) e da Organização Mundial da Saúde (OMS) para disseminar informações sobre produtos químicos e seus potenciais agravos à saú- de humana e ao meio ambiente. As chas de segurança, denominadas International Chemical Safety Cards (ICSCs), fornecem um resumo de informações essenciais para serem usadas por trabalhadores em ambientes de trabalho diversos. 32

Especi camente para produtos agrícolas e agrotóxicos, podem-se consultar as várias ba-

ses indicadas pela National Pesticide Information Center (NPIC) dos EUA. 33

Além das bases de acesso livre, mas dentro deste universo de informações referentes a

substâncias e produtos químicos, existem bases de dados de acesso pago que são muito detalhadas

e completas. Uma das mais completas, tanto em número de substâncias, quanto em profundidade de

informações e multiplicidade de referências é a CHEMINFO, de responsabilidade do Canadian Centre

for Occupational Health and Safety (CCOHS). Este material pode ser acessado através da Biblioteca

da Fundacentro nas unidades distribuídas pelo Brasil.

3.3

GHS

A sigla GHS signi ca Globally Harmonized System of Classi cation and Labelling of

Chemicals ou, em português, Sistema Globalmente Harmonizado para Classicação e Rotulagem

de Produtos Químicos. Como cada país, agência reguladora, instituição ou órgão de diferentes natu-

rezas possuíam sistemas e regulamentações distintas para classi cação e rotulagem de substâncias

químicas, a interpretação de informações por parte dos interessados se tornava muito complexa, bem

como di cultava o cumprimento de todos os sistemas por parte das empresas. Assim, a OIT, a Organi-

zação para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (Organization for Economic Co-operation and

Development – OECD) e o Comitê de Especialistas em Transporte de Cargas Perigosas das Nações

Unidas (United Nations Committee of Experts on the Transport of Dangerous Goods – UNCETDG)

criaram em conjunto um sistema geral: o GHS. 34

O GHS não é uma norma, mas um sistema composto por requisitos técnicos de classi -

cação e comunicação de perigos com informações explicativas de como aplicar o sistema. A ABNT

publicou uma norma em 2009 que, em muitos aspectos, segue o sistema globalmente harmonizado.

31 EUROPEAN COMISSION. Joint Research Centre. Institute for Health and Consumer Protection. Esis: European Chemical Substances Information System. [S.l., ca. 2008]. Disponível em: <http://esis.jrc.ec.europa.eu/>. Acesso em: 10 abr. 2012.

32 NATIONAL INSTITUTE FOR OCCUPATIONAL SAFETY AND HEALTH. International chemical safety cards (ICSCs): description. [2011?] Disponível em: <http://www.cdc.gov/niosh/ipcs/ipcscard.html>. Acesso em: 31 jan. 2011.

33 NATIONAL PESTICIDE INFORMATION CENTER. Disponível em: <http://npic.orst.edu/index.html>. Acesso em: 23 maio 2011.

34 ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DA INDÚSTRIA QUÍMICA. O que é GHS?: sistema harmonizado globalmente para a classi cação e rotulagem de produ- tos químicos. São Paulo, 2005. Disponível em: <http://www.anvisa.gov.br/reblas/reblas_public_manual_ghs.pdf>. Acesso em: 27 maio 2011.

Esta norma, a 14.725, é dividida em 4 partes: 1 – Terminologia; 2 – Sistema de Classi cação de Peri- go; 3 – Rotulagem; e 4 – FISPQ. 35,36,37,38

Pela alteração introduzida em 2011, a Norma Regulamentadora nº 26 do Ministério do Tra- balho e Emprego (Portaria nº 229, de 24 de maio de 2011), 39 determina que “produto químico utilizado no local de trabalho deve ser classi cado quanto aos perigos para a segurança e a saúde dos traba- lhadores de acordo com os critérios estabelecidos pelo Sistema Globalmente Harmonizado de Clas- sicação e Rotulagem de Produtos Químicos (GHS), da Organização das Nações Unidas”. Quanto às informações sobre produtos químicos perigosos, elas devem ser apresentadas na cha com dados de segurança do produto químico cujo formato e conteúdo devem também seguir o estabelecido pelo GHS.

35 ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE NORMAS TÉCNICAS. NBR 14725-1: produtos químicos - informações sobre segurança, saúde e meio ambiente:

parte 1: terminologia. Ed. corr. Rio de Janeiro, 2010.

36 ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE NORMAS TÉCNICAS. NBR 14725-2: produtos químicos - informações sobre segurança, saúde e meio ambiente:

parte 2: sistema de classi cação de perigo. Ed. corr. Rio de Janeiro, 2009.

37 ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE NORMAS TÉCNICAS. NBR 14725-3: produtos químicos - informações sobre segurança, saúde e meio ambiente:

parte 3: rotulagem. Ed. corr. Rio de Janeiro, 2010.

38 ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE NORMAS TÉCNICAS. NBR 14725-4: produtos químicos - informações sobre segurança, saúde e meio ambiente:

parte 4: cha de informações sobre segurança de produtos químicos (FISPQ). Ed. corr. Rio de Janeiro, 2010.

39 BRASIL. Ministério do Trabalho e Emprego. Secretaria de Inspeção do Trabalho. Portaria nº 229 de 24 de maio de 2011. Altera a norma regulamen- tadora nº 26. Disponível em: <http://portal.mte.gov.br/data/ les/8A7C812D302E6FAC013031C980D74AC9/p_20110524_229.pdf>. Acesso em: 20 jul.

2011.

4 Como encontrar as informações sobre produtos químicos

A

seguir serão descritos os principais passos para se encontrar informações sobre produ-

tos químicos.

4.1 Composição química

Inicialmente, deve-se buscar a composição química do produto que se deseja conhecer. Os produtos comerciais em geral são misturas, mas mesmo uma substância “pura” contém impurezas em concentrações diversas.

A FISPQ e os rótulos devem ser consultados a m de se obter a composição e algumas

informações básicas do produto comercial. Atualmente, a FISPQ do produto, quando não disponibili- zada pelo fornecedor, pode ser obtida através da internet, no site do fabricante ou do fornecedor.

Como as informações técnicas dessas chas são muito resumidas e sem um critério único para a classi cação de efeitos para saúde, é arriscado tomar decisões baseando-se apenas nessa fonte. Além disso, as propriedades e os efeitos de misturas comerciais são geralmente difíceis de se interpretar, mesmo que estejam bem descritas.

Ainda são disponibilizadas, por algumas empresas, composições genéricas que não acrescentam nada para a tomada de decisão de um prossional de Saúde e Segurança no Trabalho (SST). Na Figura 4, pode ser vista, como exemplo, a primeira página da FISPQ de um removedor de tintas que traz como composição: “solventes aromáticos, álcoois, ésteres e aditivos orgânicos”.

Além de existirem centenas de solventes aromáticos, ésteres e álcoois, cada qual com suas características diferentes, há, ainda, o termo “aditivos orgânicos”, que pode ser atribuído a qual- quer material orgânico. A informação é muito vaga para se conhecer o produto do ponto de vista químico. Após uma reclamação ao fabricante do produto, a empresa forneceu uma FISPQ do mesmo produto com a composição bem mais detalhada: cloreto de metileno, tolueno, etanol, hidropropil me- tilcelulose e aguarrás mineral, com os respectivos números CAS (Figura 5).

Essa nova FISPQ muda o cenário, pois permite identi car as substâncias para veri car o risco à sua exposição e, entre outras informações, se é possível realizar monitoramento biológico

da exposição ocupacional. As exposições ao tolueno e ao cloreto de metileno da mistura podem ser avaliadas utilizando-se o ácido hipúrico urinário e a carboxihemoglobina no sangue do trabalhador, respectivamente, além de se poder realizar um monitoramento dos efeitos das várias substâncias na saúde, que agora podem ser estudadas separadamente e de forma mais aprofundada.

Se a informação da FISPQ fornecida pelo fabricante do produto referente à composição não for detalhada, deve-se solicitá-la ao fabricante, pois a NBR 14.725-4 de 2009 determina que o nome químico ou comum da substância e seu número CAS devem ser informados. A mesma norma determina que, em caso de misturas, também devem ser informados os componentes com os nomes químicos ou comuns, os respectivos números CAS e suas faixas de concentração, dependendo da classe de perigo da substância, a qual pode ser vista na Tabela 1 (p. 29).

da substância, a qual pode ser vista na Tabela 1 (p. 29). Figura 4 Reprodução da

Figura 4 Reprodução da FISPQ de um removedor de tintas disponibilizada pelo fabricante

Fonte: Arquivos da Coordenação de Saúde no Trabalho, Fundacentro

XXXXXXX
XXXXXXX

Figura 5 Reprodução da FISPQ de um removedor de tintas disponibilizada pelo fabricante após uma reclamação

Fonte: Arquivos da Coordenação de Saúde no Trabalho, Fundacentro

Tabela 1 Valores de corte/limites de concentração para cada propriedade de perigo segundo ABNT 2009 40

Classe de perigo

Valores de corte/limite de concentração (em %)

Toxicidade aguda

1,0

Corrosão/irritação da pele

1,0

Lesões oculares graves/irritação ocular

1,0

Sensibilização respiratória ou de pele

1,0

Mutagenicidade categoria 1

0,1

Mutagenicidade categoria 2

1,0

Carcinogenicidade

0,1

Toxicidade à reprodução e à lactação

0,1

Toxicidade sistêmica para certos órgãos-alvo – exposição única

1,0

Toxicidade sistêmica para certos órgãos-alvo – exposição repetida

1,0

Perigoso para o meio aquático

1,0

40 ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE NORMAS TÉCNICAS. NBR 14725-4: produtos químicos – informações sobre segurança, saúde e meio ambiente:

parte 4: cha de informações sobre segurança de produtos químicos (FISPQ). Ed. corr. Rio de Janeiro, 2010.

Ou seja, se uma substância da mistura é, por exemplo, irritante ocular, deve ser informada na FISPQ caso sua concentração seja maior que 1,0%, mas, se for carcinogênica, deve ser informa- da obrigatoriamente quando a concentração for maior que 0,1%. Em casos de segredo industrial, o fabricante pode omitir uma substância da fórmula, mas deve ser inserida uma frase informativa dessa condição, como “segredo industrial” ou “informação con dencial”, e ainda serem informados os peri- gos desse componente. 41

A obtenção da composição detalhada do produto é o primeiro passo para uma correta ava-

liação dos perigos de substâncias químicas nos ambientes de trabalho e, a partir de sua composição química, é possível obter do produto comercial as informações relevantes para a saúde e a segurança do trabalhador, inicialmente para cada substância de forma isolada e, mais tarde, para a mistura.

A partir da composição, podem-se utilizar as ferramentas de busca da internet para encon-

trar informações de cada componente.

Atenção:

A informação da composição detalhada de um produto, com os nomes químicos e o número CAS de cada ingrediente, é de fornecimento obrigatório no Brasil através da FISPQ. Se a com- posição detalhada não foi fornecida na cha, deve ser exigido do fabricante.

4.2 Usando o número CAS para encontrar informações

Em geral, a própria FISPQ já fornece os números CAS, como no caso do exemplo anterior. Mas se for necessária a busca, é só entrar em alguma ferramenta de busca da internet e digitar o nome da substância em português mesmo e a sigla CAS, como no exemplo (Figura 6).

Veri ca-se que o número CAS 79-01-6 aparece em quase todos os links. Isso pode ser feito com qualquer substância. Se houver di culdades nos buscadores da internet, pode-se utilizar o link http://chem nder.cambridgesoft.com/. É necessário registrar-se (gratuitamente) para acessar esse site, e os nomes das substâncias devem ser escritos em inglês.

O número CAS auxilia muito na busca de informações, pois se podem encontrar informa- ções em qualquer idioma, não importando a quantidade de sinônimos que a substância possua ou, ainda, os problemas da graa correta da substância em inglês ou em outro idioma. Com o número CAS obtido diretamente das FISPQs, de buscadores da internet ou ainda do site Chem nder, da Cam- bridgesoft, pode-se procurar chas na própria internet.

41 ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE NORMAS TÉCNICAS. NBR 14725-4: produtos químicos – informações sobre segurança, saúde e meio ambiente:

parte 4: cha de informações sobre segurança de produtos químicos (FISPQ). Ed. corr. Rio de Janeiro, 2010

Para encontrar informações, basta inserir nos buscadores da internet o termo MSDS e/ou SDS e o número CAS da substância que se deseja. Ainda utilizando o exemplo do tricloroetileno, caria:

Ainda utilizando o exemplo do tricloroetileno, fi caria: Figura 6 Reprodução de parte dos resultados da
Ainda utilizando o exemplo do tricloroetileno, fi caria: Figura 6 Reprodução de parte dos resultados da
Ainda utilizando o exemplo do tricloroetileno, fi caria: Figura 6 Reprodução de parte dos resultados da

Figura 6 Reprodução de parte dos resultados da busca eletrônica por Tricloroetileno e seu CAS 42

Entre os milhares de resultados encontrados, os primeiros estão na Figura 7.

79-01-6 MSDS SDS

A maior parte do material é disponibilizada pelas empresas produtoras e/ou fornecedoras

da substância, semelhantes às nossas FISPQs, muitas de excelente qualidade e completas. Alguns links são de universidades (com links .edu) ou de governos ou instituições governamentais (.gov), como o NIH (National Institute of Health, dos EUA). Estas devem ter a leitura priorizada, pois são, em geral, mais completas e, teoricamente, mais conáveis.

A busca nos links fornecidos no item 3-2 (como o da União Europeia, do CDC dos Estados

Unidos e do INSHT da Espanha) também é muito facilitada com a utilização do número CAS.

42 GOOGLE. Disponível em: <http://www.google.com.br/search?sourceid=navclient&hl=pt-BR&ie=UTF-8&rlz=1T4GGLJ_pt-BRBR302BR302&q=Tricloroe tileno+CAS>. Acesso em: 24 maio 2011.

Figura 7 Reprodução de parte dos resultados da busca por “79-01-6 MSDS SDS” 4 3
Figura 7 Reprodução de parte dos resultados da busca por “79-01-6 MSDS SDS” 4 3

Figura 7 Reprodução de parte dos resultados da busca por “79-01-6 MSDS SDS” 43

4.3 Obtenção de ficha completa na biblioteca da Fundacentro

Qualquer pro ssional da área de SST do Brasil pode ter acesso ao acervo da biblioteca

da Fundacentro através de carta, telefone ou e-mail, além de pessoalmente. Na área de informações

sobre produtos químicos, a biblioteca dispõe de vasto material. Existe uma base de dados de subs-

tâncias químicas que são as chas toxicológicas da CHEMINFO, já citada anteriormente. Elas são

muito completas, atualizadas e com informações de alta qualidade. Para acessá-las remotamente,

basta solicitar à biblioteca as chas da CHEMINFO para as substâncias desejadas. Como a base é

em inglês e pode haver di culdades quanto à graa de substâncias químicas neste idioma, além do

problema dos múltiplos sinônimos frequentes em química, sugerimos sempre que os pedidos sejam

feitos pelo número CAS.

Além da CHEMINFO, a biblioteca da Fundacentro também possui outras bases de dados,

como Chempendium, MSDS, RTECS, que também podem ser utilizadas.

As informações de como acessar a biblioteca podem ser obtidas no link http://www. fundacentro.gov.br/dominios/BIB/servicos.asp ou diretamente pelo e-mail biblioteca@fundacentro.

gov.br. As chas poderão ser enviadas também por correio eletrônico, sem custo.

Como exemplo didático, será utilizada neste manual a base de dados da CHEMINFO (2010-2011) com autorização da CCOHS.

43 GOOGLE. Disponível em: <http://www.google.com.br/search?sourceid=navclient&hl=pt-BR&ie=UTF-8&rlz=1T4GGLJ_pt-BRBR302BR302&q=79-01- 6+MSDS+SDS>. Acesso em: 24 maio 2011.

5 Interpretação dos itens mais relevantes para Segurança e Saúde do Trabalhador

Uma vez encontradas as informações sobre os produtos químicos, pode-se proceder à sua leitura e à sua interpretação.

5.1 Identificação química

Inicialmente, deve-se veri car se a cha disponível é da substância que se deseja estudar. Como exemplo, a cha do Clorofórmio da CHEMINFO:

Como exemplo, a fi cha do Clorofórmio da CHEMINFO: Figura 8 Reprodução da seção sobre identificação
Como exemplo, a fi cha do Clorofórmio da CHEMINFO: Figura 8 Reprodução da seção sobre identificação

Figura 8 Reprodução da seção sobre identificação química da ficha do Clorofórmio (CAS:67-66-3) da base de dados CHEMINFO 44

É importante observar os vários sinônimos, nomes em francês e em espanhol e os núme- ros CAS, UN/NA, RTECS e EU (ver item 2.1.3). A família química e as fórmulas, molecular e estrutural, completam a informação. Veja as mesmas informações para Etanol (CAS:64-17-5) e Mercúrio Metálico (CAS: 7439-97-6).

44 CHEMINFO. Disponível em: <http://ccinfoweb.ccohs.ca/cheminfo/advanced.html>. Acesso em: 23 maio 2011.

Figura 9 Reprodução da seção sobre identificação química da ficha do Etanol (CAS:64-17-5) da base
Figura 9 Reprodução da seção sobre identificação química da ficha do Etanol (CAS:64-17-5) da base

Figura 9 Reprodução da seção sobre identificação química da ficha do Etanol (CAS:64-17-5) da base de dados CHEMINFO 45

do Etanol (CAS:64-17-5) da base de dados CHEMINFO 4 5 Figura 10 Reprodução da seção sobre
do Etanol (CAS:64-17-5) da base de dados CHEMINFO 4 5 Figura 10 Reprodução da seção sobre

Figura 10 Reprodução da seção sobre identificação química da ficha do Mercúrio Metálico (CAS: 7439-97-6) da base de dados CHEMINFO 46

45 CHEMINFO. Disponível em: <http://ccinfoweb.ccohs.ca/cheminfo/advanced.html>. Acesso em: 23 maio 2011.

46 Ibid.

5.2

Descrição

Várias características da substância são apresentadas neste item. É sempre importante veri car se o que é descrito na cha corresponde ao que é encontrado no ambiente de trabalho.

5.2.1 Aparência e odor (Appearance and odour) 47

Acompanhe o exemplo do Clorofórmio:

and odour ) 4 7 Acompanhe o exemplo do Clorofórmio: Figura 11 Reprodução do item “Descrição

Figura 11 Reprodução do item “Descrição da substância química” da ficha do Clorofórmio da base de dados CHEMINFO 48

Ou seja, com uma tradução livre: líquido claro, incolor com odor doce de características agradáveis que lembram o éter. Os algarismos (28, 29) são os números das referências bibliográ cas de onde foram retiradas essas informações e que se encontram no nal da cha.

Para Mercúrio Metálico, a descrição é:

da fi cha. Para Mercúrio Metálico, a descrição é: Figura 12 Reprodução do item “Descrição da

Figura 12 Reprodução do item “Descrição da substância química” da ficha do Mercúrio Metálico da base de dados CHEMINFO 49

Ou seja, líquido branco prateado, inodoro, pesado e que se espalha facilmente.

5.2.2 Limiar de odor (Odour threshold)

Como existe grande variação individual na capacidade olfativa das pessoas, a informação acerca do limiar de odor é dado para uma faixa de concentração do menor valor (para as pessoas mais sensíveis) até o maior valor, e a média geométrica da população testada (média geométrica é uma medida de tendência central calculada multiplicando-se todos os n valores e extraindo-se a raiz de índice n deste produto). Não é utilizada a média aritmética por causa da grande variação dos valores. Para algumas substâncias, são dados dois limiares: o de detecção, pelo qual se percebe a presença de algo, e o de reconhecimento, pelo qual a substância pode ser reconhecida claramente. No exemplo do Clorofórmio:

47 A palavra odour pode ser também escrita odor.

48 CHEMINFO. Disponível em: <http://ccinfoweb.ccohs.ca/cheminfo/advanced.html>. Acesso em: 23 maio 2011.

49 Ibid.

Figura 13 Reprodução do item “Descrição do limiar de odor” da ficha Clorofórmio da base

Figura 13 Reprodução do item “Descrição do limiar de odor” da ficha Clorofórmio da base de dados CHEMINFO 50

No caso acima, foi dado apenas o limiar de detecção (perceber que há uma substância qualquer), não sendo citado o de reconhecimento (identi car a substância ou a família de substâncias). Os valores descritos na literatura variam entre 0,6 (mínimo) e 1.413 ppm (máximo), mas a faixa consi- derada realmente aceitável foi entre 133 a 276 ppm.

O que é ppm?

PPM (partes por milhão) é uma unidade de concentração frequentemente utilizada para concen- trações de vapores ou gases no ar. Para outras unidades e conversões, ver item 7.2.3.

Para o Tricloroetileno:

e conversões, ver item 7.2.3. Para o Tricloroetileno: Figura 14 Reprodução do item “Descrição do limiar

Figura 14 Reprodução do item “Descrição do limiar de odor” da ficha do Tricloroetileno da base de dados CHEMINFO 51

No caso anterior, foram de nidos valores de 82 ppm para detecção e de 110 ppm para o limiar de reconhecimento, e a faixa de variação cou entre 0,5 e 167 ppm. A informação que segue é relevante: a substância ocasiona cansaço olfativo, isto é, mesmo em altas concentrações, as pessoas se acostumam e passam a não mais sentir seu odor.

Já o Mercúrio Metálico não tem odor:

sentir seu odor. Já o Mercúrio Metálico não tem odor: Figura 15 Reprodução do item “Descrição

Figura 15 Reprodução do item “Descrição do limiar de odor” da ficha do Mercúrio da base de dados CHEMINFO 52

Os exemplos mostram que o odor é um sinal de que a substância (que tem a propriedade de estimular o sistema sensorial humano) está dispersa no ar. No entanto, a falta de odor não é indicativo de que não há substância presente no ambiente. Por exemplo, o Mercúrio Metálico não tem odor e, portanto, sua presença na forma de vapor no ar não pode ser percebida pelo sistema olfatório. A com- paração entre o limiar de odor e o limite de tolerância de uma substância pode ser útil (Propriedades de Alerta) e será vista no item 7.2.4 mais adiante.

50 CHEMINFO. Disponível em: <http://ccinfoweb.ccohs.ca/cheminfo/advanced.html>. Acesso em: 23 maio 2011

51 Ibid.

52 Ibid.

5.2.3

Composição/pureza (Composition/purity)

Este item se refere às composições típicas da substância, seu grau de pureza e os conta-

minantes mais comuns. Os graus de pureza variam muito, mas o grau comercial, usualmente utilizado

nas indústrias, varia tipicamente de 80% a 95%, com raros casos chegando a 99%. Portanto, deve-

-se car atento à presença de contaminantes, que, muitas vezes, é um problema maior que a própria

substância em questão.

Dibenzodioxinas policloradas (ou Policloro dibenzodioxinas – PCDD) são um grupo de

substâncias que podem estar presentes como impureza em vários agrotóxicos, como Pentaclorofenol

(CAS 87-86-5) e 2,4,5T (CAS 93-76-5). Dentre estes contaminantes, o 2,3,7,8-tetraclorodibenzo p-dio-

xina TCDD (CAS 1746-01-6) é reconhecidamente carcinogênico e tóxico para o desenvolvimento

humano. 53

Atenção:

Nunca uma substância comercial é 100% pura.

Às vezes, os contaminantes que estão em pequenas quantidades são tão ou mais importantes que a própria substância. Sempre veri que o item que pode trazer a informação a respeito dos contaminantes mais frequentes para uma determinada substância.

Recordando o item 2.2: Os graus de pureza variam muito, mas o grau comercial, usualmente utilizado nas indústrias, varia tipicamente de 80% a 95%.

5.2.4 Estado físico (State of matter)

Refere-se ao estado físico (líquido, gasoso ou sólido) do produto químico nas condições

normais de temperatura e pressão. Se as substâncias estiverem na forma líquida volátil ou gasosa,

podem se dispersar facilmente na atmosfera a partir de uma fonte e contaminar o trabalhador por meio

da inalação. Os compostos sólidos (não sublimáveis) e líquidos não voláteis, para serem inalados, ne-

cessitam ser mecanicamente dispersos na forma de pequenas partículas ou produzidos em processos

(de combustão, por exemplo) que emitem material particulado no ar ambiente.

Se a forma descrita para o produto é sólida e foi observado que a substância no ambien-

te de trabalho é líquida, deve-se veri car se não se trata de erro de identi cação ou se o sólido está

dissolvido no meio líquido. Por exemplo, o hidróxido de sódio (NaOH, CAS 1310-73-2), vulgarmente

conhecido como soda cáustica, é comercializado na forma de pellets, lascas ou grânulos (sólido) e na

forma de solução aquosa de diversas concentrações.

53 INTERNATIONAL AGENCY FOR RESEARCH ON CANCER. Polychlorinated dibenzo-para-dioxins and polychlorinated dibenzofurans. Lyon, 1997. (IARC monographs on the evaluation of carcinogenic risks to humans; 69). Disponível em: <http://monographs.iarc.fr/ENG/Monographs/vol69/mono69-5A. pdf>. Acesso em: 02 fev. 2012.

5.2.5

Temperatura de ebulição e pressão de vapor (Boiling point and vapour 54

pressure)

A volatilidade é importante para a exposição ocupacional a substâncias líquidas: quanto

maior a volatilidade, maior é a exposição do trabalhador ao vapor do produto na atmosfera do ambien- te de trabalho, independentemente do contato direto com o líquido. Mesmo a substância que não é absorvida com facilidade pela pele pode ter mais predisposição a penetrar no organismo pelo sistema respiratório.

A volatilidade pode ser avaliada através da temperatura de ebulição e de sua pressão

de vapor. As duas variáveis estão de certa forma relacionadas, pois, em geral, quanto mais baixa a temperatura de ebulição, maior é a pressão de vapor a uma dada temperatura. A pressão de vapor exercida por um líquido na superfície depende da temperatura em que o líquido se encontra e, quanto maior a temperatura, maior é a pressão de vapor. Quando a pressão de vapor do líquido se iguala à pressão atmosférica (760 mmHg ao nível do mar), a substância entra em ebulição. A pressão de vapor é estabelecida normalmente para as temperaturas de 20°C ou 25°C, que são as consideradas ambien- te, e quanto maior é a pressão de vapor nessas temperaturas, maior é a “tendência à evaporação” da substância e, portanto, maiores são as concentrações na atmosfera do ambiente de trabalho.

Tabela 2 Temperatura de ebulição e pressão de vapor de substâncias selecionadas 55

Substância

Temperatura ebulição (°C)

Pressão de vapor (mmHg)

Éter etílico

34,5

537 (a 25°C)

n-Hexano

68,7

150 (a 25°C)

Benzeno

80,1

95 (a 25°C)

Tolueno

110,6

28,4 (a 25°C)

Acetato de butila

126

10 (a 20°C)

Fenol

181,8

0,351 (a 20°C)

n-Dodecano

216

0,3 (a 20°C)

Na tabela acima, veri ca-se que, geralmente, quanto maior a temperatura de ebulição, menor é a pressão de vapor, ou seja, menor quantidade de vapor é gerado no ambiente e, assim, do ponto de vista prático, para substâncias com pressões de vapor muito baixas, as exposições aos seus vapores são desprezíveis.

Outra forma de avaliar a volatilidade de uma substância é comparando-a com a evapo- ração de um composto padrão, geralmente acetato de butila ou éter etílico. O índice é conhecido como taxa de evaporação (evaporation rate), muito utilizado para solventes. 56 Tendo o acetato de butila como padrão (taxa de evaporação = 1), são em geral considerados como solventes de seca- gem rápida solventes como a acetona (5,6), o hexano (8,3), a metiletilcetona (3,8) ou benzeno (5,1). Exemplos de substâncias de evaporação lenta são a água (0,3) e o xileno (0,6).

54 A palavra vapour também pode ser grafada vapor.

55 CHEMINFO. Disponível em: <http://ccinfoweb.ccohs.ca/cheminfo/advanced.html>. Acesso em: 23 maio 2011.

56 EASTMAN CHEMICAL COMPANY. Typical physical properties: solvents. c2011. Disponível em: <http://www.eastman.com/ProductComparison/Pages/ ShowProductComparisons.aspx?categoryName=Solvents:Product%20Group:Product%20Comparisons>. Acesso em: 26 jan. 2011.

A

taxa de evaporação utilizando o éter etílico como padrão emprega uma escala inversa. 57

Por exemplo:

Benzeno: 5,1 (acetato de butila = 1) / 2,8 (éter etílico = 1).

Ou seja, o benzeno é 5,1 vezes mais volátil do que o acetato de butila e 2,8 vezes menos volátil do que o éter etílico. Isopropanol: 1,7 (acetato de butila = 1) / 7,1 (éter etílico = 1)

O álcool isopropílico é 1,7 vez mais volátil que o acetato de butila e cerca de 7 vezes me-

nos volátil que o éter etílico.

5.2.6 Solubilidade (Solubility)

A solubilidade da substância em água é geralmente informada nas chas. Os termos po-

dem ser mais ou menos vagos (parcialmente solúvel, pouco miscível), mas há fontes que trazem essa informação de forma mais precisa, expressa em massa dissolvida em volume de água à temperatura de 20 o C ou 25 o C. Por exemplo, a solubilidade do sal de cozinha (NaCl) em água é de 359 g/L, enquan- to que a do sulfato ferroso (FeSO 4 ) anidro é de 25,6 g/100mL ou 256g/L de água.

As unidades são geralmente apresentadas em termos de massa da substância (soluto) em relação ao volume do líquido (solvente):

Grama por litro Grama por mililitro Miligrama por mililitro Número de moles por litro Proporção de massa em relação a volume

g/L ou g L -1 g/mL ou g mL -1 mg/mL ou mg mL -1 mol/L ou mol L -1 % (m/v)

Substâncias pouco miscíveis ou imiscíveis em água são chamadas de hidrófobas. Uma forma de avaliar a miscibilidade da substância frente a solventes hidrofílicos (água) e lipofílicos (óleo ou gordura) ao mesmo tempo é o Coeciente de partição óleo/água. Este coeciente representa de forma numérica como uma substância líquida se distribui em uma mistura metade óleo e metade água em dadas temperatura e pressão. Como existem muitos tipos de óleos diferentes entre si, para padronizar o “óleo”, normalmente é utilizado um álcool (octanol) que tem características físico-químicas parecidas com os óleos. Por isso, esse coeciente também é chamado de octanol/água ou KOW (octanol/water).

Como a variação da solubilidade entre as substâncias é muito grande, é utilizada uma es- cala logarítmica para facilitar a sua interpretação. Quanto maior o logKOW, mais solúvel é o composto em óleos e menos em água. O logKOW de zero indica que a substância é distribuída igualmente entre óleo e água e, quando é negativa, indica que é mais solúvel em água do que em óleo. Exemplos po- dem ser vistos na tabela a seguir:

57 SIEGWERK. Evaporation rates of solvents. 2008. Disponível em: <http://www.siegwerk.com/ leadmin/user_upload/cc/Data_Sheets/TM/ Verdunstungsgeschwindigkeit_e.pdf>. Acesso em: 26 jan. 2011.

Tabela 3 Exemplos de logKOW para algumas substâncias 58

Substância

logKOW

Interpretação

Hexano

3,9

Cerca de 8 mil vezes mais solúvel no octanol que na água

Butanol

0,88

Cerca de 7,5 vezes mais solúvel no octanol que na água

Acetona

-0,24

Cerca de 2 vezes mais solúvel na água que no octanol

Resumindo o KOW:

É o coeciente octanol/água (octanol/water). Mede como se reparte uma substância colocada em uma mistura com metade água e metade octanol (álcool com características de óleo).

Como a variação da repartição é muito grande entre as inúmeras substâncias, o resultado óleo/ água é expresso como logaritmo base 10 (logKOW).

Quanto maior o número, maior a solubilidade em óleos e menor em água.

5.2.7 Densidade relativa de vapor ou do gás (Vapour or gas density)

A densidade do vapor pode ser entendida como o “peso” do vapor de uma substância

e é relativa ao ar atmosférico, que, por convenção, tem a densidade de nida como 1 a uma deter-

minada temperatura, geralmente a 200 o C. Quanto menor a densidade de vapor, mais fácil é a sua

dispersão no ar do ambiente de trabalho. Uma elevada densidade de vapor, por outro lado, indica

que o vapor tenderá a permanecer mais próximo da superfície líquida, ou se acumulando próximo ao

chão, ou no fundo dos tanques de armazenamento. Um vazamento dessas substâncias pode passar

despercebido se os meios de detecção de perigos estiverem em locais acima do nível de acúmulo,

podendo ocasionar acidentes.

Tabela 4

Exemplos de densidades de vapor e estado físico à temperatura ambiente de algumas substâncias 59

Produto químico

Densidade de vapor (Ar = 1)

Estado físico à temperatura ambiente

Metano

0,56

Gás

Etano

1,04

Gás

Óxido de etileno

1,49

Gás, líquido a 11 o C

Etanol

1,59

Líquido volátil

Butano

2,0

Gás

Benzeno

2,69

Líquido volátil

Naftaleno

4,40

Sólido sublimável

Tricloroetileno

4,53

Líquido volátil

Querosene

~ 5,0

Mistura líquida volátil

Mercúrio metálico

7,0

Líquido volátil

Iodo

9,0

Sólido sublimável

58 CHEMINFO. Disponível em: <http://ccinfoweb.ccohs.ca/cheminfo/advanced.html>. Acesso em: 23 maio 2011.

59 Ibid.

5.3

Principais perigos das substâncias químicas

Após as características das substâncias serem conhecidas, podem ser estudados os prin- cipais perigos.

5.3.1 Incêndio e explosão (Fire and explosion)

Além de trazerem a informação acerca de in amabilidade e da explosividade de uma substância ou produto, a maior parte das chas de informações traz alguns parâmetros que permitem quanti cá-los e compará-los com outros produtos.

5.3.2 Ponto de fulgor (Flash-point)

Ponto de fulgor é a temperatura acima da qual um líquido inamável deve estar para que possa pegar fogo. A combustão de líquidos inamáveis ocorre sobre a superfície líquida, onde há a mistura de vapores e oxigênio do ar. O próprio líquido não incendeia, assim, há necessidade de certa evaporação para que o combustível líquido que inamável. Os pontos de fulgor são estabelecidos em laboratório com metodologias normatizadas. Quanto mais baixo o ponto de fulgor, mais inamável é a substância. Solventes muito voláteis têm, em geral, pontos de fulgor em temperaturas abaixo de 0°C. Alguns exemplos de substâncias puras podem ser vistas na Tabela 5:

Tabela 5 Ponto de fulgor de algumas substâncias puras 60

Substância

Ponto de fulgor °C

n-hexano

-23

Benzeno

-11

Etanol

15

Fenol

79

Clorofórmio

não determinado (não é in amável)

Também são estabelecidos pontos de fulgor para misturas (como gasolina, por exemplo), mas, nesse caso, há uma faixa de temperatura. Alguns exemplos podem ser vistos na Tabela 6:

Tabela 6 Ponto de fulgor de algumas misturas 61

Produto

Ponto de fulgor °C

Gasolina

-45 a -43 71 a 81 125 a 130

Querosene

Óleo Diesel

60 CHEMINFO. Disponível em: <http://ccinfoweb.ccohs.ca/cheminfo/advanced.html>. Acesso em: 23 maio 2011.

61 Ibid.

5.3.3

Faixa de explosividade (Explosive range, flammable range)

Uma explosão pode ocorrer quando um gás ou um vapor está misturado em uma determi- nada proporção (em volume) com o oxigênio do ar atmosférico e é atingida por uma fonte de ignição (fagulha). Se a mistura estiver abaixo ou acima da faixa de explosividade, não há ocorrência de explo- são. Quanto mais ampla a faixa, maior é o risco de explosão daquele produto. Alguns exemplos podem ser vistos na tabela a seguir:

Tabela 7 Faixas de explosividade de algumas substâncias 62

Substância

Faixa de explosividade (%)

Hidrogênio

4,0 a 75

n-Hexano

1,1 a 7,5

Benzeno

1,2 a 7,8

Metano

5,0 a 15,4

Clorofórmio

não aplicável (não é in amável, nem explosivo)

5.3.4 Temperatura de autoignição (Autoignition temperature)

É a temperatura na qual um líquido se incendeia sem necessitar de uma fonte de ignição. São normalmente temperaturas bem elevadas, como se vê nos exemplos da Tabela 8:

Tabela 8 Temperatura de autoignição de algumas substâncias 63

Substância

Temperatura de autoignição (°C)

n-Hexano

225

Etanol

363

Fenol

715

5.3.5 Explosão e incêndio com material particulado (Dust hazard)

Não é difícil entender que poeira de madeira ou de carvão mineral possa ser causa de in- cêndio, anal, madeira e carvão são materiais combustíveis. Mas uma nuvem de material particulado de muitos compostos orgânicos ou inorgânicos pode ser fonte de explosão se as condições do ambien- te forem propícias. Em uma determinada faixa de concentração, um produto químico namente dividido no ar pode-se incendiar se houver uma fonte de ignição. Se a combustão se deagrar em uma área connada, pode induzir a uma explosão. Vários fatores in uenciam neste processo, como a umidade, a circulação de ar no espaço, o diâmetro da partícula (quanto mais na, maior a superfície de combus- tão), o tamanho do espaço connado, além da energia da fonte de ignição. Mas a combustão pode ser iniciada pelo simples atrito entre as partículas ou pelo aquecimento de silos de armazenamento.

62 CHEMINFO. Disponível em: <http://ccinfoweb.ccohs.ca/cheminfo/advanced.html>. Acesso em: 23 maio 2011.

63 Ibid.

Poeira de grãos, farinhas, leite em pó, açúcar, café instantâneo, de matéria-prima para tecidos (algodão, couro ou sintético) e utensílios plásticos e alguns metais como alumínio e magnésio são fontes conhecidas de combustão e explosão em locais de trabalho. A faixa de explosividade para muitos materiais orgânicos está entre 10 e 50 g m -3 (em relação à notação da umidade de concentração, ver item 5.6 Limite de exposição ocupacional), que corresponde, visualmente, a uma cerração densa.

Os limites inferiores da faixa de explosividade estão disponíveis na literatura para muitos

produtos, mas os limites superiores são difíceis de determinar com exatidão e têm pouca importância

prática.

de explosões por pó em suspensão.

.64 A seguir, um resumo das características físico-químicas dos fatores in uentes na ocorrência

Tabela 9 Parâmetros críticos para explosões de poeira 65

Fatores

Condição crítica

Tamanho da partícula Concentração da poeira

Índice de umidade Oxigênio Energia de ignição Temperatura da ignição

< 0,1 mm

40 g m -3 a 4000 g m -3 < 11% > 12% 10 mJ a 100 mJ 410°C a 600°C

5.4 Produtos gerados na combustão e na termodegradação (Combustion and thermal decomposition products)

Na queima de madeira, gasolina, óleo mineral ou gordura animal são produzidas inúmeras substâncias que podem ser perigosas. Em condições normais de queima (combustão incompleta) de material orgânico, além de dióxido de carbono, água e nitrogênio, dezenas de grupos de substâncias podem ser emitidas na atmosfera, muitas delas irritantes (SO 2 , NO x , acroleína e outros aldeídos e áci- dos), as xiantes (monóxido de carbono CO) e outras carcinogênicas (benzeno e vários hidrocarbo- netos policíclicos aromáticos). Por exemplo, motores de combustão a diesel emitem SO 2 , NO x , material particulado, hidrocarbonetos variados e CO. Os motores de combustão a gasolina podem produzir até 10% de CO por volume de combustível. 66

Incineração de material orgânico (lixo comum) e lixo hospitalar resulta em produção de dioxinas e furanos, substâncias conhecidas por sua persistência no ambiente e, algumas delas, como as dibenzodioxinas, conhecidas pela sua toxicidade (sobre dibenzodioxinas, ver item 5.2.3).

64 HEALTY AND SAFETY EXECUTIVE. Safe handling of combustible dusts: precautions against explosions. 2. ed. Surey, 2003. Disponível em: <http:// www.hse.gov.uk/pubns/priced/hsg103.pdf>. Acesso em: 28 jan. 2011.

65 DOW CHEMICAL. Dust explosions and solid epoxy resins. Technical Bulletin, [S.l.], 2007. Disponível em: <http://msdssearch.dow.com/ PublishedLiteratureDOWCOM/dh_00cb/0901b803800cb79e.pdf? lepath=epoxy/pdfs/noreg/296-01753.pdf&fromPage=GetDoc>. Acesso em: 22 jun. 2011.

66 HEALTH AND SAFETY EXECUTIVE. Vehicle exhaust fumes (in warehouses, garages, etc): control approach 2: engineering control. [S.l., 2006?]. Disponível em: <http://www.hse.gov.uk/pubns/guidance/sr14.pdf>. Acesso em: 31 jan. 2011.

Outro problema é a chamada termodegradação (thermodecomposition ou thermal decom- position), que pode ocorrer em produtos não inamáveis, os quais podem se degradar quando sub- metidos a altas temperaturas, emitindo produtos potencialmente perigosos. Os solventes clorados, como o clorofórmio, o tricloretileno, entre outros, degradam-se em temperaturas elevadas, emitindo substâncias muito perigosas, como ácido clorídrico (HCl), cloro (Cl 2 ) e fosgênio (COCl 2 O), que podem induzir efeitos pulmonares potencialmente fatais. Material plástico à base de PVC não é in amável, mas também se degrada emitindo as substâncias citadas acima. 67,68

5.5 Danos à saúde

Os danos à saúde se incluem entre os principais perigos das substâncias químicas e, em virtude de sua importância, foram detalhados nos tópicos a seguir.

A exposição do trabalhador a uma determinada substância pode ocasionar tanto efeitos

locais, como sistêmicos.

5.5.1 Efeitos agudos ou por exposição de curto prazo (Acute effects or effects of

short-term exposure)

Efeitos agudos são aqueles que se desenvolvem rapidamente devido a exposições de me- nos de 24 horas de duração, em geral com elevadas doses/concentrações do agente químico. Para ns de estudos laboratoriais com inalação, esse tempo é de nido como de até 4 horas. 69 Esses efeitos podem ser locais, ou seja, nos locais de contato da substância, como pele ou olhos, por exemplo, ou sistêmicos, ou seja, com efeitos em órgãos internos em função da absorção da substância.

Uma exposição de curto prazo a concentrações mais altas de um agente tóxico pode ser causadora de efeitos agudos com ou sem sequelas.

5.5.1.1 Efeitos locais

A ABNT 70 classi ca os produtos químicos como corrosivos para a pele quando provoca

danos irreversíveis por contato de até 4 horas e irritantes quando o contato de até 4 horas provoca danos reversíveis à pele.

São classi cados como provocadores de danos sérios aos olhos os produtos que geram danos oculares irreversíveis em até 21 dias após o contato, e irritantes os que provocam danos rever-

67 FRONEBERG, B.; JOHNSON, P. L.; LANDRIGAN, P. J. Respiratory illness caused by overheating of polyvinyl chloride. British Journal of Industrial Medicine, London, v. 39, n. 3, p. 239-243, 1982.

68 TAYLOR, H. J.; TROUGHTON, M. J. Products evolved during hot gas welding of plastics. Cambridge: HSE, c1995. Disponível em: <http://www.hse.gov. uk/research/crr_pdf/1995/crr95086.pdf>. Acesso em: 25 maio 2011.

69 EATON, D. L.; KLAASSEN, C. D. Principles of toxicology. In: KLAASSEN, C. D. (Ed.). Casarett and Doull´s toxicology: the basic science of poisons. New York: McGraw-Hill, 2001. p. 11-34.

70 ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE NORMAS TÉCNICAS. NBR 14725-2: Produtos químicos - informações sobre segurança, saúde e meio ambiente:

parte 2: sistema de classi cação de perigo. Ed. corr. Rio de Janeiro, 2009.

síveis em até 21 dias após o contato. Por exemplo, o ácido sulfúrico concentrado é corrosivo à pele e

provoca danos sérios aos olhos, enquanto o etanol é apenas irritante para a pele e os olhos.

5.5.1.2 Efeitos sistêmicos

Efeitos sistêmicos ocorrem quando a substância é absorvida pelo organismo e seus efeitos

são observados em um ou vários órgãos ou sistemas, podendo deixar danos permanentes ou não.

5.5.1.3 DL50 e CL50 (LD50 and LC50)

Para uma comparação da toxicidade aguda entre as diferentes substâncias químicas, é

utilizado o parâmetro Dose Letal 50 (DL50 – Dose Letal para 50% da população exposta), quando a

substância é administrada por via oral ou injetada, e a Concentração Letal 50 (CL50 – Concentração

Letal para 50% da população exposta) para gases ou vapores que são inalados. Os dois parâmetros

são obtidos experimentalmente em animais de laboratório, em geral em ratos, camundongos, cobaias,

coelhos, entre outros.

• Dose letal 50 (DL50): É a dose média que levou à morte metade (50%) da população de ani- mais de laboratório submetida à administração daquela dose. A administração pode ser por diferentes vias: oral, intravenosa ou outras (intraperitoneal, subcutânea, dérmica). Os dados obtidos são extrapolados com reservas para os seres humanos, mas podem dar uma ideia do perigo imediato de uma substância química. Os resultados são apresentados em miligramas ou gramas por kilograma de peso (mg/kg, ou mg kg -1 , ou g/kg, ou g kg -1 ) e variam de acordo com a espécie, a idade, o sexo do animal e a via de introdução.

• Concentração letal 50 (CL50): Tem o mesmo conceito do DL50, mas é de nido para a con- centração média da substância no ar ambiente inalada por animais de laboratório, variando de acordo com a espécie animal e o tempo de exposição. É semelhante à exposição ocupacional no que diz respeito à via de introdução no organismo, pois se refere à contaminação do ar ina- lado. Os resultados são apresentados em miligramas por litro de ar (mg/L ou mg L -1 ) ou ainda em partes por milhão (ppm) para contaminantes na forma de vapor de gás e miligramas por metro cúbico (mg/m 3 ou mg m -3 ) para material particulado (sólido ou líquido).

Resumindo:

DL50 e CL50

Valores especícos para cada espécie animal e via de administração.

Parâmetros para avaliação de toxicidade aguda. Avaliam potencial letal da substância.

Podem ser extrapolado com reservas para seres humanos

Não avaliam efeitos de longo prazo.

5.5.1.4

IPVS ou IDLH

IPVS signi ca Imediatamente Perigoso para Vida ou Saúde, tradução de IDLH (Immediately Dangerous to Life or Health). É o parâmetro para toxicidade aguda mais importante em saúde ocu- pacional. Em meados da década de 1970, a Occupational Safety and Health Administration (OSHA)

e o NIOSH dos Estados Unidos estabeleceram o valor IPVS ou IDLH para muitas substâncias. 71 É a

concentração da substância no ar ambiente a partir da qual há risco evidente de morte, ou de causar

efeito(s) permanente(s) à saúde, ou de impedir um trabalhador de abandonar uma área contaminada.

A OSHA exige que, para o trabalhador estar em um ambiente com concentração do agente químico

superior ou igual ao IPVS, ele deve estar protegido com respiradores com reserva de ar ou ar manda- do. 72 A preocupação principal é com substâncias corrosivas, as xiantes ou com efeitos agudos sobre

o sistema nervoso central. Este parâmetro é derivado de dados obtidos com animais de laboratório e

acidentes ocorridos com trabalhadores expostos, quando disponíveis, e é expresso em ppm ou mg m -3 . Comparando-se os valores de IPVS, pode-se ter uma ideia do risco de exposição de curto prazo. Den- tre os listados na Tabela 10, a solução de formaldeído tem o efeito irritante mais evidente.

Tabela 10 Parâmetros de toxicidade aguda de algumas substâncias 73

Substância

CL50 (ppm) para ratos para 4 horas de exposição

CL50 (ppm) para camundongos para 4 horas de exposição

DL50 via oral, ratos (mg kg -1 )

DL50 via oral, camundongos (mg kg -1 )

IPVS

(ppm)

Benzeno

13.700

13.200

930

4.920

 

Etanol

32.380

30.000

7.060

Solução de formaldeído a 35,5% em água

267

——

Monóxido

1.807

 

——

de

carbono

Gás sulfídrico

444

335

500

3.300

20

1.200

100

5.5.2 Efeitos crônicos ou por exposição de longo prazo (Chronic effects or effects of long-term exposure)

Os efeitos crônicos são geralmente persistentes e causados por exposições repetidas a baixas doses ou concentrações por longos períodos, de meses a anos. Esses efeitos tóxicos podem ocorrer em órgãos e sistemas que são alvos daquela substância em particular, como fígado, rins, sistema nervoso, pulmão etc., razão pela qual as substâncias são classicadas como hepatotóxicos, nefrotóxicos, neurotóxicos etc.

Cada substância química pode agir de um modo no organismo e promover diversos efei-

tos, dependendo do tempo de exposição, da dose ou da concentração, da via de contato ou da in-

71 NATIONAL INSTITUTE FOR OCCUPATIONAL SAFETY AND HEALTH. CDC. Documentation for immediately dangerous to life or health concentrations (IDLHs): chemical listing and documentation of revised IDLH values (as of 3/1/95). Atlanta, 1994. Disponível em: <http://www.cdc.gov/niosh/idlh/intridl4. html>. Acesso em: 25 maio 2011.

72 NATIONAL INSTITUTE FOR OCCUPATIONAL SAFETY AND HEALTH. CDC. Documentation for Immediately dangerous to life or health concentra- tions (IDLHs): introduction. Atlanta, 1994. Disponível em: <http://www.cdc.gov/niosh/idlh/idlhintr.html#DOI>. Acesso em: 20 jan. 2011.

73 CHEMINFO. Disponível em: <http://ccinfoweb.ccohs.ca/cheminfo/advanced.html>. Acesso em: 23 maio 2011.

trodução no organismo. E cada organismo receptor pode reagir de forma diferente, dependendo de

suas vias metabólicas e da capacidade de reparo. Assim, nem sempre é possível extrapolar os efeitos

encontrados em animais ou células cultivadas em laboratório para o ser humano e nunca se deve

assumir que todos os seres humanos venham a apresentar exatamente os mesmos efeitos frente

aos mesmos níveis de dose e de concentração da substância no ambiente de trabalho. E, ainda, um

mesmo indivíduo pode apresentar efeitos agudos e sequelas ocasionados por exposições intensas de

curto prazo, como pode apresentar efeitos crônicos diferentes dos agudos em exposições a baixas

doses por longo tempo.

A 2,3 butanodiona (CAS: 431-03-8) ou diacetil é um dos componentes responsáveis pelo aroma de laticínios como queijo (ocorre naturalmente, resultado da fermentação) e manteiga e é uti- lizada como aditivo alimentar em margarinas e pipocas para dar o aroma da manteiga. O produto é considerado seguro para consumo humano como aditivo alimentar, mas há relatos de caso de trabalha- dores em fábrica de pipocas para microondas ou de manteiga que desenvolveram asma ocupacional relacionada à exposição a aromatizantes contendo esta substância. 74 Obviamente, esses trabalhadores estiveram expostos quase que diariamente, por um tempo relativamente longo, a concentrações con- sideráveis de diacetil no ar pelo processo industrial que é a quente e que volatiza a substância, uma situação bem distinta de consumidores de pipoca, ilustrando que tipos de exposições diferentes (tempo, frequência, concentração ou dose, via) podem resultar em efeitos distintos (localização, severidade).

As mudanças nos tamanhos das partículas podem alterar a via e a intensidade de absor- ção. No caso de nanoparticulas, suas propriedades podem ser muito diferentes do mesmo material em tamanhos grandes. Por exemplo, o dióxido de titânio (TiO2, CAS 13463-67-7), quando em forma

de nanopartículas, tem efeitos inamatórios pulmonares que não são observados quando a exposição

é a partícula do mesmo material com diâmetro ordinário. 75

Alguns sítios alvos, pela sua importância, são citados à parte nas chas de produtos quími-

cos, como os efeitos ao sistema reprodutor e à reprodução e ao sistema endócrino. Teratogenicidade

e embriotoxicidade são características das substâncias que agem no desenvolvimento de embriões e

fetos durante sua formação e gestação. A mutagenicidade é a capacidade da substância de alterar o código genético de uma célula (mutação) e, ocorrendo em óvulos e espermatozoides, propagam alte- rações que poderão aparecer nos descendentes dos expostos. A ação de substâncias químicas sobre

o DNA ou o RNA também está relacionada à formação de tumores. Carcinogenicidade signi ca que a

substância ou a mistura de substâncias tem a capacidade de induzir ou aumentar a formação de tumo- res malignos. 76 A exposição de mulheres grávidas ou lactentes a substâncias com estas propriedades pode representar risco tanto para as mães, quanto para os lhos. Além disso, condições de exposição

com pouco controle de higiene do trabalho também podem propiciar aos pais levar uma contaminação para a família.

74 OCCUPATIONAL SAFETY AND HEALTH ADMINISTRATION. Hazard communication guidance for diacetyl and food avorings containing diacetyl. Washington, [2008?]. Disponível em: <http://www.osha.gov/dsg/guidance/diacetyl-guidance.html>. Acesso em: 20 jan. 2011.

75 SCURI, M. et al. Exposure to titanium dioxide (TiO2) nanoparticles increases airway reactivity and neurogenic in ammation in rodent lungs. American Journal of Respiratory and Critical Care Medicine, New York, v. 181, n. 1, p. A5110, 2010.

76 ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DA INDÚSTRIA QUÍMICA. O que é GHS?: sistema harmonizado globalmente para a classi cação e rotulagem de produ- tos químicos. São Paulo, 2005. Disponível em: <http://www.anvisa.gov.br/reblas/reblas_public_manual_ghs.pdf>. Acesso em: 27 maio 2011.

5.5.2.1 Classificação de carcinogenicidade

As informações de carcinogenicidade da substância normalmente são fornecidas segundo um código de classi cação dado por instituições como a Agência Internacional de Pesquisa em Cân- cer (International Agency for Research on Cancer – IARC) e a American Conference of Governmental Industrial Hygienists (ACGIH), que periodicamente atualizam suas listas.

A IARC é uma instituição da OMS que desenvolveu um critério de estudo e uma classi -

cação baseada nele, o qual organiza as substâncias (e ainda exposições, hábitos e ocupações) estu-

dadas em 5 grupos: 77

1 – Com certeza carcinogênico para seres humanos

2A – Provavelmente carcinogênico para seres humanos 2B – Possivelmente carcinogênico para seres humanos

3 – Não classi cável como carcinogênico para seres humanos

4 – Provavelmente não carcinogênico para seres humanos

A ACGIH, entidade não governamental de higienistas ocupacionais (associação de clas-

se), classi ca as substâncias em 5 grupos: 78

A1 – Carcinogênico para humanos A2 – Carcinogênico para animais A3 – Carcinogênico para animais em condições especiais A4 – Não classi cável como carcinogênico para humanos A5 – Não suspeito de carcinogênico para humanos

Tabela 11 Exemplos de substâncias carcinogênicas e sua classificação de acordo com a IARC (2011) 79 e a ACGIH(2010) 80

Agente

IARC

ACGIH

Asbestos ( bras)

1

A1

Benzeno

1

A1

Clorofórmio

2B

A3

Etanol em bebidas alcoólicas

1*

A3

Óxido de etileno

1

A2

Formaldeído

1

A2

Hematita (minério de Fe)

3

A4**

Mineração subterrânea de hematita

1

-

Exposição ocupacional como bombeiro

2B

-

* Consumo via oral e não se aplica à exposição ocupacional. ** A ACGIH apresenta o óxido de ferro III em sua lista, e não o minério hematita.

77 INTERNATIONAL AGENCY FOR RESEARCH ON CANCER. IARC monographs on the evaluation of carcinogenic risks to humans: preamble. Lyon, 2006. Disponível em: <http://monographs.iarc.fr/ENG/Preamble/CurrentPreamble.pdf>. Acesso em: 27 maio 2011.

78 AMERICAN CONFERENCE OF GOVERNMENTAL INDUSTRIAL HYGIENISTS. TLVs and BEIs: based documentation of threshold limit values for chemical substances and physical agents & biological exposure indices. Cincinnati, 2010.

79 INTERNATIONAL AGENCY FOR RESEARCH ON CANCER. Agents classi ed by the IARC monographs, volumes 1–100. [S.l.], 2011. Disponível em:

<http://monographs.iarc.fr/ENG/Classi cation/Classi cationsGroupOrder.pdf>. Acesso em: 27 maio 2011

80 AMERICAN CONFERENCE OF GOVERNMENTAL INDUSTRIAL HYGIENISTS. TLVs and BEIs: based documentation of threshold limit values for chemical substances and physical agents & biological exposure indices. Cincinnati, 2010.

As classi cações nem sempre são concordantes, pois cada instituição realiza atualiza- ções em épocas diferentes e adota critérios distintos. Na tabela anterior, pode-se visualizar alguns exemplos. O benzeno e as bras de asbestos, por exemplo, estão classicados como Grupo 1 pela IARC e A1 pela ACGIH, enquanto que o clorofórmio, pela IARC, é 2B (possivelmente carcinogênico) e pela ACGIH é A3 (carcinogênico para animais em condições especiais). O etanol, pela ACGIH, é A3 e, pela IARC, é apresentado somente enquanto hábito de ingerir bebidas alcoólicas, classicado como cancerígeno conrmado, classe 1 (devido ao câncer de boca e estaria ligado aos contaminantes das bebidas alcoólicas ou metabólitos do etanol). O processo da mineração de hematita expõe os traba- lhadores a minerais radioativos e é considerado cancerígeno, enquanto que o minério extraído (Ferro) não o é. Processos de combustão emitem geralmente várias substâncias irritantes e carcinogênicas e, portanto, a exposição ocupacional de bombeiros é considerada uma atividade provavelmente car- cinogênica pela IARC. Substâncias utilizadas para desinfecção, que matam micro-organismos, são também nocivas à saúde humana, como o óxido de etileno e o formaldeído.

5.6 Limites de exposição ocupacional (Occupational exposure limits)

Os efeitos causados pelas exposições a agentes químicos de curto ou longo prazo nos ambientes de trabalho são levados em conta para o estabelecimento de limites de exposição ocu- pacional (LEOs). Os critérios para de nição de LEOs variam de uma instituição para outra e apenas alguns deles têm valor legal em seus países. Como a maioria dos LEOs são atualizados periodica- mente, deve-se procurar sempre as referências mais atuais em sua consulta. A tendência geral é dos valores carem cada vez menores, pois a ciência vai desvendando efeitos nocivos de substâncias em concentrações cada vez mais baixas.

No Brasil, os LEOs são denominados “Limites de Tolerância” (LTs), sendo denidos como “a concentração ou intensidade máxima ou mínima, relacionada com a natureza e o tempo de expo- sição ao agente, que não causará dano à saúde do trabalhador, durante a sua vida laboral” 81 , e estão estabelecidos nos Anexos 11 e 12 da Norma Regulamentadora nº 15 do Ministério do Trabalho e Em- prego, atrelada à questão da insalubridade. Várias organizações e governos de outros países também estabelecem esses parâmetros para uma exposição “segura”, e as chas toxicológicas, inclusive a CHEMINFO, normalmente trazem os valores da ACGIH e da OSHA (entidade ligada ao Departamento do Trabalho do governo norte-americano):

Os limites da ACGIH, que não têm valor legal nos EUA, são denominados Threshold Limit Values (TLV), ou valores limites de fronteira. Referem-se “às concentrações de substâncias químicas no ar, às quais, acredita-se, a maioria dos trabalhadores possa estar exposta, repetidamente, dia após dia, durante toda uma vida de trabalho sem sofrer efeitos adversos à saúde”. A ACGIH a rma que os valores não são linhas divisórias entre condições seguras e perigosas e adverte que os trabalhadores podem ainda estar sujeitos a exposições dérmicas. Há três tipos: os limites Time-Weighted Average (TWA) ou média ponderada no tempo; os Short-Term Exposure Limit (STEL) ou limites de exposição

para curto-prazo; e o Ceiling (valor-teto). 82

81 BRASIL. Ministério do Trabalho e Emprego. Norma regulamentadora n º 15. Brasília, 1978. Disponível em: <http://portal.mte.gov.br/legislacao/normas- -regulamentadora-n-15-1.htm>. Acesso em: 10 abril 2012.

82 AMERICAN CONFERENCE OF GOVERNMENTAL INDUSTRIAL HYGIENISTS. TLVs and BEIs: based documentation of threshold limit values for chemical substances and physical agents & biological exposure indices. Cincinnati, 2010. p. 3-4.

O limite por média ponderada no tempo (TLV-TWA) é a concentração média dos valores

encontrados ao longo da jornada de trabalho (8 horas diárias, 40 horas semanais) e geralmente varia

em função de inúmeras variáveis dos ciclos produtivos e ambientais. O limite de exposição por média

ponderada de 15 minutos (TLV-STEL) não deve ocorrer mais de quatro vezes ao dia e é suplementar

ao TLV-TWA. O limite de exposição Ceiling é a concentração máxima que não deve ser excedida em

qualquer momento da exposição no trabalho. Geralmente é de nida para substâncias irritantes 83 e sua

denição é a mesma do valor-teto da legislação brasileira. 84 Os valores de exposição em curto prazo

são importantes para as substâncias irritantes, cáusticas e asxiantes.

Os LEOs são estabelecidos para concentrações de gases e vapores ou material particulado na atmosfera do ambiente do trabalho. As unidades usadas são partes por milhão (ppm) em volume – ppm (v/v), válidas somente para gases e vapores. A relação entre massa do material particulado, gases ou vapores e volume do ar é expresso em mg m -3 .

Para conversão de ppm para mg m -3 , ver item 5.8.

A ACGIH adverte que “os TLVs não representam uma linha na de separação entre um

ambiente de trabalho saudável e não saudável, ou um ponto no qual ocorrerá um dano à saúde”. Os

TLVs não protegerão adequadamente todos os trabalhadores. Algumas pessoas podem apresentar

desconforto ou até efeitos adversos mais sérios à saúde quando expostas a substâncias químicas em

concentrações iguais ou mesmo inferiores aos limites de exposição. A ACGIH também divulga, para cada substância, publicações complementares ao livro do TLV, 85 estudos técnicos que justi cam os valores estabelecidos.

Algumas chas da CHEMINFO trazem, ao lado do limite, qual(is) o(s) efeito(s) serviu(ram) de base para o estabelecimento daquele valor. Existem substâncias que possuem indicadores bioló- gicos de exposição ou biomarcadores denominados de BEIs (Biological Exposure Indices) e muitas chas trazem esta informação junto com os valores de TLV.

Da gura a seguir extrai-se que a ACGIH, em 2009, estabeleceu como TLV-TWA 0,5 ppm

do benzeno e TLV-STEL de 2,5 ppm, tendo como “efeito crítico” para o estabelecimento do LEO a carci-

nogenicidade (no caso, leucemia). Apesar dessa substância possuir efeitos no sistema nervoso central,

hepáticos e depressor da medula óssea (com anemia, leucopenia e trombocitopenia como consequ-

ências), o limite foi estabelecido para a leucemia, visto que, para os outros efeitos, as concentrações

necessárias seriam mais elevadas. 86 A designação A1 dene que esta substância é carcinogênica para

humanos e a notação Skin chama a atenção para o fato de que a substância pode ser absorvida através

da pele.

83 AMERICAN CONFERENCE OF GOVERNMENTAL INDUSTRIAL HYGIENISTS. TLVs and BEIs: based documentation of threshold limit values for chemical substances and physical agents & biological exposure indices. Cincinnati, 2010.

84 BRASIL. Ministério do Trabalho e Emprego. Norma regulamentadora n º 15. Brasília, 1978. Disponível em: <http://portal.mte.gov.br/legislacao/normas- regulamentadora-nr-15-1.htm>. Acesso em: 10 abril. 2012.

85 AMERICAN CONFERENCE OF GOVERNMENTAL INDUSTRIAL HYGIENISTS. TLVs and BEIs with 7th edition documentation. Cincinnatti, c2010. 1 CD-ROM.

86 AMERICAN CONFERENCE OF GOVERNMENTAL INDUSTRIAL HYGIENISTS. TLVs and BEIs with 7th edition documentation. Cincinnatti, c2010. 1 CD-ROM.

Figura 16 Reprodução do item sobre “Exposição” da ficha Benzeno da base de dados CHEMINFO”

Figura 16 Reprodução do item sobre “Exposição” da ficha Benzeno da base de dados CHEMINFO” 87

Também alerta para existência de indicador biológico de exposição (BEI) para o benzeno e remete o leitor para documentação da ACGIH.

Atenção:

Somente para benzeno, a legislação brasileira estabelece um limite especí co denominado Valor de Referência Tecnológico (VRT), estabelecido pelo Anexo nº 13-A, incluído na NR-15 pela Portaria SSST nº 14, em 1995. O VRT é o valor possível de se atingir para determinado processo do ponto de vista da tecnologia vigente. Não exclui risco à saúde, sendo diferente do Limite de Tolerância. 88,89

De acordo com a CHEMINFO, no caso do etanol não existe TLV-TWA, somente o TLV- -STEL, e o efeito considerado é o de irritação das vias aéreas superiores, visto que para os outros efeitos (em sistema nervoso, hepáticos etc.) as concentrações atmosféricas necessárias são muito mais elevadas. O limite, mesmo assim, é extremamente alto (1.000 ppm), mostrando a pouca impor- tância da exposição aos vapores deste solvente em relação ao seu consumo via oral. Em contraste, o limite de exposição ocupacional da substância carcinogênica benzeno (TLV-TWA = 0,5 ppm) é 2.000 vezes menor que o etanol.

87 CHEMINFO. Disponível em: <http://ccinfoweb.ccohs.ca/cheminfo/advanced.html>. Acesso em: 23 maio 2011.

88 BRASIL. Ministério do Trabalho e Emprego. Norma Regulamentadora n º 15, Anexo n º 13-A. Brasília, 1995. Disponível em: <http://portal.mte.gov.br/ data/ les/FF8080812DDC2FF4012DE2BA434D1DE6/NR-15%20%28Anexo%20n%20%C2%BA%2013-A%29%20Benzeno%202011.pdf>. Acesso em: 05 abr. 2012.

89 FREITAS, N. B. B.; ARCURI, A. S. A. Valor de referência tecnológica (VRT): a nova abordagem do controle da concentração de benzeno nos ambien- tes de trabalho. Revista Brasileira de Saúde Ocupacional, São Paulo, v. 24, n. 89-90, p. 71-85, dez. 1997

Figura 17 Reprodução do item sobre “Exposição” da ficha Etanol da base de dados CHEMINFO

Figura 17 Reprodução do item sobre “Exposição” da ficha Etanol da base de dados CHEMINFO 90

Para o Clorofórmio, somente é de nido TLV-TWA, pois a substância não é muito irritante e não é carcinogênica (A3). Os efeitos levados em conta para o estabelecimento desse limite são os danos hepáticos e à reprodução. Comparada ao etanol, é 100 vezes menor.

e à reprodução. Comparada ao etanol, é 100 vezes menor. Figura 18 Reprodução do item sobre

Figura 18 Reprodução do item sobre “Exposição” da ficha Clorofórmio da base de dados CHEMINFO 91

O mercúrio metálico, o único metal líquido à temperatura ambiente, também possui parti- cularidades em relação à exposição. No caso deste metal, a notação Skin ao lado do valor de TWA chama a atenção para o fato de que o mercúrio em forma metálica (líquida) pode ser absorvido através da pele, como é também o caso do benzeno.

através da pele, como é também o caso do benzeno. Figura 19 Reprodução do item sobre

Figura 19 Reprodução do item sobre “Exposição” da ficha Mercúrio Metálico da base de dados CHEMINFO 92

Nos EUA, o instituto NIOSH, dos CDC, recomenda valores limites denominando-os de Recommended Exposure Limits (REL) e a agência encarregada da scalização dos ambientes de trabalho, a OSHA, estabelece os Permissibile Exposure Limits (PEL) com valor legal. Além dessas, outra associação de higienistas nos EUA (American Industrial Hygiene Association – AIHA) recomen- da valores de LEO para aquelas substâncias que ainda não têm limites estabelecidos pela ACGIH, denominados Workplace Environmental Exposure Level (WEEL). 93 Em outros países, há outras insti-

90 CHEMINFO. Disponível em: <http://ccinfoweb.ccohs.ca/cheminfo/advanced.html>. Acesso em: 23 maio 2011.

91 Ibid.

92 Ibid.

93 AMERICAN INDUSTRIAL HYGIENE ASSOCIATION. Workplace Environmental Exposure Level TM. Disponível em: <http://www.aiha.org/insideaiha/ GuidelineDevelopment/weel/Pages/default.aspx>. Acesso em: 02 fev 2012.

tuições que estudam e estabelecem valores limites para substâncias químicas presentes no ambiente

de trabalho, como a Fundação Alemã de Pesquisa (Deustsche Forschungsgemeinschaft – DFG) ou a

Health and Safety Executive (HSE), do governo britânico.

Comparações entre efeitos agudos e crônicos e os parâmetros de doses e concentrações

Benzeno: sua concentração letal 50% (CL50) é de 13.000 ppm para camundongos, o IDLH (para seres humanos) é de 500 ppm (ver Tabela 10). Estes valores contrastam com o limite de exposição ocupacional (ver Figura 16), que é de apenas 0,5 ppm, ou seja, cerca de 26.000 vezes menor em relação ao CL50 e 1.000 vezes menor que o IDLH em consequência da im- portância de seu efeito crônico, a carcinogenicidade.

Etanol: A CL50 para camundongos é de 30.000 ppm, o IDLH é de 3.300ppm (Tabela 10) e o limite de exposição ocupacional é de 1.000 ppm (Figura 17), ou seja, apenas 30 vezes menor que o CL50 para camundongos e cerca de 3,3 vezes em relação ao IDLH, pois a exposição por via inalatória não ocasiona efeitos crônicos em baixas concentrações.

Benzeno x etanol: Interpretando as informações sobre efeitos à saúde entre essas duas subs- tâncias, pode-se depreender que, para o etanol, do ponto de vista da exposição ocupacional, consideram-se basicamente os efeitos agudos (irritante) e que, para o benzeno, além dos efei- tos agudos (também depressor do sistema nervoso central e irritante da pele e de mucosas), levam-se em consideração os seus efeitos carcinogênicos em exposições de longo prazo, o que o etanol não causa, pelo menos em termos de exposição ocupacional aos seus vapores.

5.7 Monitoramento biológico

Algumas poucas substâncias possuem um indicador biológico (IB) que pode ser relacio-

nado de maneira quantitativa à sua exposição ocupacional. Os indicadores biológicos de exposição

ou biomarcadores podem ser a própria substância, um metabólito desta ou uma atividade enzimática,

quanti cados no sangue, na urina ou em outra matriz biológica. A correlação deste biomarcador com

a exposição ou com efeitos da substância é tal que possibilita de nir um índice biológico de exposição,

denominado pela ACGIH como Biological Exposure Índex (BEI). 94 Na legislação brasileira, o valor limi-

te para esses indicadores é denominado Índice Biológico Máximo de Exposição (IBMP). 95

É importante ter certeza de que a substância que se deseja monitorar no ambiente de

trabalho possua o IB e que este seja útil nas condições de exposição. É possível realizar análises

químicas em matrizes biológicas para inúmeras substâncias, mas a maioria dos resultados não tem

correlação direta e consistente com a exposição ocupacional ou ambiental para se fazer inferências

quanto ao nível de exposição ou de efeito. Ou seja, é perda de tempo e dinheiro.

94 AMERICAN CONFERENCE OF GOVERNMENTAL INDUSTRIAL HYGIENISTS. TLVs and BEIs: based documentation of threshold limit values for chemical substances and physical agents & biological exposure indices. Cincinnati, 2010.

95 BRASIL. Ministério do Trabalho e Emprego. NR 7 – programa de controle médico de saúde ocupacional. Brasília, 1978. Disponível em:

<http://portal.mte.gov.br/data/ les/8A7C812D308E21660130E0819FC102ED/nr_07.pdf>. Acesso em 10 abril 2012.

As chas da CHEMINFO fornecem essa informação, como no exemplo abaixo:

CHEMINFO fornecem essa informação, como no exemplo abaixo: Figura 20 Reprodução do item sobre “TLV” da

Figura 20 Reprodução do item sobre “TLV” da ficha Benzeno da base de dados CHEMINFO 96

No caso acima, deve-se procurar a documentação especí ca da ACGIH que informa sobre a determinação de ácido trans-trans mucônico na urina de nal de jornada de trabalho, com um BEI máximo de 500 mg/g creatinina, ou a quanti cação de ácido fenilmercaptúrico urinário colhida no nal de jornada de trabalho, com um BEI máximo de 25 mg/g creatinina, correspondente ao LEO estabele- cido para este solvente. 97 Ambos são produtos da biotransformação do benzeno.

Quanto ao mercúrio metálico, a CHEMINFO traz a informação de que possui BEI e, ao se consultar a documentação da ACGIH, veri ca-se que podem ser realizadas as determinações do próprio mercúrio na urina ou no sangue com valores limites respectivamente de 35 mg/g creatinina e 15 mg L -1 . 98 Ambos os valores estão relacionados com um TLV-TWA de 0,025 mg m -3 . Na legislação brasileira, só há o IBMP para urina e o valor é o mesmo que o da ACGIH. 99

Deve-se atentar para o fato de que, não se encontrando citação de IB de uma substância e conrmando-se sua não existência em fontes conáveis como a ACGIH ou a NR-7, não se deve realizar monitoramento biológico de exposição da substância, pois o resultado não é útil, podendo causar con- fusão ao se considerar uma exposição descontrolada como adequada ou criar alarme por falsas expo- sições perigosas. É importante lembrar que metais como zinco, cobre, alumínio e manganês, além de solventes como clorofórmio, vapores como cloro ou amônia e nuvem de ácido clorídrico não possuem IBs até o momento.

5.8 Conversão de ppm para mg m -3

Os valores em LEO de gases e vapores podem ser expressos em ppm ou mg m -3 e foram estabelecidos para as condições normais de temperatura e pressão (CNTP). Para converter de uma unidade para outra, precisamos do peso molecular da substância (expressa em Dalton – Da – ou g mol -1 , sendo 1 Da = 1 g mol -1 ). Isso serve para se comparar resultados de avaliações obtidas nas CNTPs forne- cidos em unidades diferentes entre si ou diferentes de LEOs. As fórmulas de conversão neste caso são:

96 CHEMINFO. Disponível em: <http://ccinfoweb.ccohs.ca/cheminfo/advanced.html>. Acesso em: 23 maio 2011.

97 AMERICAN CONFERENCE OF GOVERNMENTAL INDUSTRIAL HYGIENISTS. TLVs and BEIs: based documentation of threshold limit values for chemical substances and physical agents & biological exposure indices. Cincinnati, 2010. p. 100.

98 Ibid., p. 102.

99 Ibid.

a – Para transformar mg m -3 em ppm.

C (ppm) =

C (mg m -3 ) 24,45 L*

Peso molecular (g mol -1 )

* volume molar a 25°C e pressão de 1 ATM

b – Para transformar ppm em mg m -3

C (mg m -3 ) =

C (ppm)

Peso molecular (g.mol -1 )

24,45L

Em algumas chas com informações completas (como a CHEMINFO), é possível encon-

trar o fator de conversão já calculado como, por exemplo:

Etanol: Peso molecular (PM) = 46,07 Fatores de conversão: 1 ppm = 1,88 mg m -3

e

1 mg m -3 = 0,53 ppm a 25°C

Benzeno: PM = 78,11

Fatores de conversão: 1 ppm = 3,19 mg m -3

e

1 mg m -3 = 0,31 ppm a 25°C

Mercúrio metálico: PM = 200,59 Fatores de conversão: 1 ppm = 8,19 mg m -3

e

1 mg m -3 = 0,122 ppm a 25°C

Lembrete:

A conversão de ppm para mg m -3 é válida somente para gases e vapores, pois a concentração

de material particulado é somente expressa em mg m -3 .

5.9 Odor como propriedade de alerta (Warning property)

O odor é um sinal da presença de substância no ambiente, mas seu uso como alerta para

troca de respiradores (assim como os sinais de irritação de vias aéreas) é uma prática não mais reco-

mendada pela OSHA desde 1998. 100 Para a troca de respiradores, é necessário o estabelecimento de

uma estimativa do período de uso e da data de troca a partir do histórico de dados da empresa ou de

acordo com as instruções do fabricante de cartuchos e ltros.

Não é seguro con ar no odor como propriedade de alerta em condições normais de ativi-

dade, pois: o organismo se acostuma à sua presença constante, deixando de percebê-lo, ocorrendo

cansaço olfativo para muitas substâncias; ou, havendo uma mistura de substâncias no ambiente, o

odor de uma substância pode mascarar o de outra; e, ainda, o sistema olfativo pode estar obstruído ou

alterado por causa de resfriados ou alergias, não percebendo a presença das substâncias.

Todavia, o odor pode auxiliar como alerta, em momentos atípicos, para troca de cartu-

chos de respiradores. O odor é considerado uma boa propriedade de alerta quando o seu limiar se

encontra abaixo do LEO. Se sua presença é sentida pelo trabalhador que usa proteção respiratória, é

momento de troca de cartucho ou de tomada de outras medidas de controle, mesmo que a exposição

ainda não esteja acima do LEO. Se o limite de odor é bem mais alto que a concentração aceitável

100 UNITED STATES DEPARTMENT OF LABOR. OCCUPATIONAL SAFETY AND HEALTH ADMINISTRATION. 29 CFR Parts 1910 and 1926. Disponível em: <http://www.osha.gov/pls/oshaweb/owadisp.show_document?p_id=13749&p_table=FEDERAL_REGISTER>. Acesso em: 02 fev. 2012.

no ar (por exemplo, no caso do benzeno), a percepção do odor utilizando o respirador é indicativo de uma contaminação excessiva. Assim, o odor não serve como propriedade de alerta, pois a exposição ocupacional já seria excessiva, muito acima do LEO.

O CHEMINFO apresenta o limiar de odor e sua viabilidade como propriedade de alerta.

Exemplos:

Benzeno: a faixa do limiar de odor considerada aceitável vai de 34 a 119 ppm (média geométrica de 61 ppm), enquanto o TLV da ACGIH é de 0,5 ppm, portanto, sua propriedade de alerta é ruim. Sentido-se algum odor de benzeno no ambiente, não se deve permanecer no ambiente sem proteção respiratória adequada.

Clorofórmio: a faixa de limiar de odor vai de 133 a 276 ppm (média geométrica de 192 ppm), enquanto o TLV da ACGIH é de 10 ppm. Propriedade de alerta: ruim.

Etanol: a faixa de limiar de odor vai de 49 a 716 ppm (média geométrica de 180 ppm), en- quanto que o TLV da ACGIH é de 1000 ppm. Propriedade de alerta: boa. O odor pode estar presente no ambiente de trabalho. Quando o odor estiver mais penetrante ou mais intenso, a concentração no ambiente pode estar atingindo níveis acima daquele de ação ou se aproximando do LEO.

Acetato de butila: a faixa do limiar de detecção vai de 0,063 a 7,4 ppm (média geométrica de 0,31ppm), enquanto o de reconhecimento vai de 0,038 a 12 ppm (média geométrica de 0,68 ppm), e o TLV-TWA é de 150 ppm. Propriedade de alerta: boa.

Atenção:

Absorção através da pele e propriedade de alerta para uso de proteção respiratória:

Quando a substância pode ser absorvida por via cutânea e há exposição do trabalhador que propicie este tipo de absorção, o odor não serve como propriedade de alerta para a exposição total do trabalhador, pois, mesmo que o limite de exposição seja maior que o limite de odor, a absorção por via dérmica não estará sendo considerada.

Fenol: a faixa de limiar do odor ca entre 0,0045 a 1 ppm (média geométrica de 0,060 ppm), enquanto que o TLV da ACGIH é de 5 ppm. Mesmo assim, considera-se que o odor não serve como alerta, pois ocorre absorção cutânea.

Em relação ao benzeno, além de ter um LEO muito abaixo do limiar de odor, também pode ser absorvido através da pele, ou seja, o odor como propriedade de alerta é inviabilizada por dois motivos.

O odor é sempre um indicativo da presença de uma ou mais substâncias químicas. Assim,

ao adentrar um ambiente de trabalho em que supostamente não se considera necessário o uso de respiradores, é importante saber quais compostos podem estar presentes e se alguns deles podem

ser detectados via olfato e se o seu limiar de odor em relação a esses compostos está abaixo de seus LEOs, dos níveis de ação ou outros valores, como os ERPGs. A AIHA estabelece valores para situa- ções de emergência denominadas Emergency Response Planning Values (ERPGs), que são valores- -guia para exposições não repetidas a substâncias químicas para serem usadas como instrumento de planejamento e avaliação de planos de contingência. Os ERPGs são apresentados em níveis de acordo com a intensidade de efeitos nocivos para uma exposição única de uma hora. 101

No entanto, a ausência de odor não signi ca ausência de substâncias químicas. No caso de algumas substâncias inodoras, mas perigosas, como no caso dos gases combustíveis (gás liquefei- to de petróleo GLP), adicionam-se substâncias com cheiro desagradável e de fácil percepção (limiar de odor baixo) como medida de prevenção de acidentes.

101 AMERICAN INDUSTRIAL HYGIENE ASSOCIATION. Emergency Response Planning Guidelines TM . Disponível em < http://www.aiha.org/insideaiha/ GuidelineDevelopment/ERPG/Pages/default.aspx>. Acesso em: 02 fev. 2012.

6 Outras informações

Fichas completas como as da CHEMINFO trazem ainda informações sobre métodos de avaliação, controle de exposição, entre outras.

6.1 Controle da exposição e equipamento de proteção individual

As questões referentes à avaliação ambiental e proteção respiratória também podem ser encontradas em chas como as da CHEMINFO.

6.1.1 Amostragem e análise

A CHEMINFO e outras fontes fazem referência aos métodos validados para amostragem e análise de substâncias nos ambientes de trabalho. Citam os números dos métodos de diferentes organismos e trazem um resumo destes.

Exemplos:

diferentes organismos e trazem um resumo destes. Exemplos: Figura 21 A Reprodução do item sobre “Métodos

Figura 21 A Reprodução do item sobre “Métodos analíticos OSHA” da ficha Benzeno da base de dados CHEMINFO 102

da ficha Benzeno da base de dados CHEMINFO 1 0 2 Figura 21 B Reprodução do

Figura 21 B Reprodução do item sobre “Métodos analíticos NIOSH” da ficha Benzeno da base de dados CHEMINFO 103

102 CHEMINFO, Disponível em: <http://ccinfoweb.ccohs.ca/cheminfo/advanced.html>. Acesso em: 23 maio 2011.

103 Ibid.