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Volta Redonda

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  • CONSIDERAÇÕES PRELIMINARES
  • INTRODUÇÃO
  • AcriseeconômicamundialeaVelhaRepública
  • AepopéiadaconstruçãodausinadeaçodeVoltaRedonda
  • A SOCIEDADE URBANO-INDUSTRIAL DE VOLTA REDONDA
  • AnovasociedadeurbanadeVoltaRedonda:umensaiode colonialismocultural
  • ACidadeOperáriaPlanejada
  • BrevenotíciasobreotrabalhofemininonaUsinadeAço
  • Esportes,lazereentretenimento
  • Astransformaçõessócio-culturais
  • A LUTA SINDICAL DOSMETALÚRGICOSEM VOLTA REDONDA
  • OsprimeirosmomentosdoSindicatodos Metalúrgicos
  • Ahegemoniada"ChapaIndependência" (1957-1963)
  • VOLTA REDONDA E O GOLPE MILITAR DE 1964
  • EPÍLOGO
  • REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

WALDYR BEDÊ

VOLTA REDONDA NA ERA VARGAS 1941-1964 (História Social)

© Direitos reservados ao autor.

Capa: Pedro Marins Bedê Revisão: Profa Ana Maria Bentes Brum Diagramação, fotolitos, impressão e acabamento: Nova Gráfica e Editora - Volta Redonda - RJ Tel.: (24) 3341-1254 nova.grafica@uol.com.br

As fotos deste livro pertencem ao acervo da Secretaria Municipal de Cultura da Prefeitura Municipal de Volta Redonda. Ficha catalográfica

Bedê, Waldyr Amaral B358v Volta Redonda na Era Vargas (1941- 1964)/Waldyr Amaral Bedê. - Volta Redonda: SMC/PMVR, 2004. 144 p.

1.Volta Redonda - história social; 2. Volta Redonda desenvolvimento industrial; 3. Cotidiano e mentalidades. I. Título CDD 306.098153

2

Waldyr Bedê

Volta Redonda na Era Vargas

3

4 Waldyr Bedê .

Volta Redonda na Era Vargas 5 .

6 Waldyr Bedê .

Volta Redonda na Era Vargas 7 .

8 Waldyr Bedê .

Waldyr Bedê. Volta Redonda na Era Vargas 9 . Canto III.ODE AOS CICLOPES.

10 Waldyr Bedê .

........ 81 As transformações sócio-culturais ....um bairro típico da Cidade Operária . 91 A EMANCIPAÇÃO POLÍTICA DE VOLTA REDONDA ........... 17 O MODELO AGRÁRIO E A INDUSTRIALIZAÇÃO DE BASE ........................................................ 95 A LUTA SINDICAL DOS METALÚRGICOS DE VOLTA REDONDA ........................... 23 A “Revolução” Oligárquica de 1930 e a Nova Ordem Nacional: o Estado Novo ................................ 60 A Cidade Operária Planejada ................................................................ 55 A formação social: cotidiano e mentalidades . 25 Nasce Volta Redonda......... 80 Esportes............................................................... lazer e entretenimento .............. 103 Volta Redonda na Era Vargas 11 ............................................................................................ 60 O Conforto .................................................................... 23 A crise econômica mundial de 1929 e a Velha República ............................... 73 Breve notícia sobre o trabalho feminino na Usina de Aço ...... 66 As relações do cotidiano e o paternalismo da CSN ................................................... 13 INTRODUÇÃO .............. ........................................ 55 A nova sociedade urbana de Volta Redonda: um ensaio de colonialismo cultural ...................ÍNDICE - CONSIDERAÇÕES PRELIMINARES .............................................................................................................................................. 40 A SOCIEDADE URBANO-INDUSTRIAL DE VOLTA REDONDA.......................................................... 33 A epopéia da construção da usina de aço de Volta Redonda ...............................

........................................ 139 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ............................................... 103 A hegemonia da "Chapa Independência" (1957-1963) .................................................................................. 143 12 Waldyr Bedê ................ 137 ODE AOS CICLOPES ....................................................................................... 116 João Alves dos Santos Lima Neto.. 118 VOLTA REDONDA E O GOLPE MILITAR DE 1964 ...................... 107 O Sindicato dos Metalúrgicos e o Plano de Educação Primária de Volta Redonda ............. "o Breve" ................................Os primeiros momentos do Sindicato dos Metalúrgicos ........ 121 EPÍLOGO ............................................................................................poema.....................................................

Nisso. Outros amigos e alunos também argumentaram que.cobraram-lhe. econômicas. em que o autor foi convocado a dar entrevistas e prestar depoimentos à mídia e a muitos estudantes de diferentes níveis de ensino que o procuraram. A princípio. a produção de um livro sobre a História de Volta Redonda. políticas e culturais por que ela passou. portanto. na condição de professor de história e de sociólogo profissional . a publicação deste livro não fazia parte dos planos imediatos do autor. seria seu dever .justamente alguns dos homenageados nas primeiras páginas desta obra . Foi quando vários amigos . literalmente. que pensava realizar outros projetos como escriba. do que viu e viveu.CONSIDERAÇÕES PRELIMINARES Este livro originou-se de um despretensioso trabalho acadêmico apresentado pelo autor. o que lhe permitiu. sob o título: "O Desenvolvimento Industrial Brasileiro na Era Vargas e seus Desdobramentos Sociais em Volta Redonda". ao Curso de Pós-graduação de Especialização em História Social da Faculdade de Filosofia. tornar-se uma testemunha viva da história da Cidade e das transformações sociais. Volta Redonda na Era Vargas 13 . para as gerações vindouras.deixar um registro. chegou o momento das comemorações do Cinqüentenário do Município de Volta Redonda. a propósito dessa efeméride. em 2001.sobretudo. tendo o autor chegado a Volta Redonda em 1944. Ciências e Letras de Volta Redonda.

antes de tudo. resumos e outras coisas do gênero. no meu tempo. leio muito. um rato de bibliotecas e de arquivos. quando uma prima. De lá para cá. não parei de ler história. esquemas.é outra: a sala de aula. aos doze anos. Sempre tive muita vontade de . o que é bem diferente de um historiador.dos velhos gibis de história em quadrinhos aos clássicos. Sou um professor de história. fazem fichas. até descobrir seu Eldorado (Volta Redonda) . escreve. que pesquisa.experiência que este autor viveu. ficha livros. tal como no famoso filme "Casablanca". Parabenizo a quem o faça. como o povo. organiza arquivos e. que vivia pulando de cidade em cidade.É aqui que as coisas começam a se complicar. desses que anotam tudo. Mas lê. lê muito. segundo o meu entendimento das coisas. e o fui.. O historiador é. Minha praia . relataria o que vi e vivi. Sou um contador de histórias. para montar torres de linhas de transmissão de alta voltagem. Alfabetizado somente aos nove anos porque meu pai era um mestre eletricista nômade. compila. escarafuncha. à maneira de quem presta um depoimento . e procuraria analisar tudo como sociólogo. passo a escrever na forma da primeira pessoa. convive com fungos e leptospirose. do velho e sempre bom Monteiro Lobato. me presenteou com o livro "História do Mundo Para Crianças". muitas vezes como testemunha privilegiada. nos últimos 35 anos. depois. Dito isso. Confesso que nunca fui muito estudioso. tomei a seguinte resolução: como professor de História. Esse foi o 14 Waldyr Bedê . Eu apenas leio.onde me dou bem e me sinto inteiramente à vontade . no prólogo do "Fausto"..tomei-me de paixão pela História. faz anotações. por várias vezes.ler praticamente tudo o que me caía às mãos .e paciência para . como um dos "suspeitos de costume". de Goethe: "Não anda o povo afeito a mãos de mestre. Um ler que mete medo". outras. como personagem menor. já adulta. Por isso mesmo.

filme que eu vi. as vozes discordantes. na Era Vargas. a história de Volta Redonda anteriormente a 1941. Jardim Europa. portanto. em seguida. minha abordagem específica sobre Volta Redonda abrange o período entre 1941 e 1964. porém. Inverno de 2004. para mim. Certo. porque. penso eu. Não abordei. Trata-se. também. neste livro. da forma como entendi que deveria vê-lo. de uma visão pessoal. porque outros já o fizeram. Assim. para os destinos do Brasil. com muito mais propriedade. Volta Redonda. de que me concederão a gentileza da reciprocidade. Procurei situar a História de Volta Redonda. Ao melhor estilo de Voltaire. dentro do contexto da História do Brasil. a partir da construção da Usina de Aço. Volta Redonda somente passa a ter importância. fui um de seus protagonistas. respeitarei. obviamente. Waldyr Bedê Volta Redonda na Era Vargas 15 . Primeiramente. principalmente porque.

16 Waldyr Bedê .

quando se 1 Entenda-se. Volta Redonda na Era Vargas 17 . em geral.e sua inserção no cenário político. a Era Vargas representa o momento mais expressivo do desenrolar desse processo. econômico. Uma presença tão expressiva. em Volta Redonda. em particular. social e cultural do Brasil. e para a de Volta Redonda. Um tal processo. por "ERA VARGAS" o período que vai de 1930 (início da Revolução Oligárquica liderada por Getúlio Vargas) a 1964 (ano da queda do presidente João Goulart. A Era Vargas1 marca o momento histórico da construção da usina siderúrgica de Volta Redonda .INTRODUÇÃO Segundo os autores que tratam do desenvolvimento industrial brasileiro. ao implantar a indústria pesada. militar. ou de base. por força do Golpe Militar de 1º de abril de1964). produz mudanças sócio-culturais profundas na sociedade brasileira. herdeiro político de Vargas. constitui o marco histórico da passagem definitiva do País para a etapa da industrialização em larga escala. diplomático. no Brasil. ao transformar um país de economia agrícola em outro. definitivamente industrial e urbano. A construção da usina de aço da Companhia Siderúrgica Nacional. mormente a partir de 1941. estratégico. aqui.matriz do processo de industrialização pesada do Brasil . Uma questão básica consiste em se conhecer como se processaram essas mudanças e qual a sua verdadeira importância para a sociedade brasileira.

técnicos. num mesmo lugar.. sofrendo as mesmas privações. Volta Redonda sofre diretamente as mudanças sócio-culturais decorrentes do processo de industrialização. revistas. livros. no comportamento individual e coletivo e nos elementos componentes da cultura do povo brasileiro. seus dramas e idiossincrasias. 18 Waldyr Bedê . jornais cinematográficos. em Volta Redonda. encaminhado ao presidente Vargas. assim como as mudanças e as transformações que se operam nas relações sociais. que seu nome figura abundantemente nos documentos históricos relativos à época: noticiário falado e escrito. em sua real extensão. ao longo das três décadas que se lhe seguiram. somando as mesmas esperanças. que na mitologia greco-romana são os operários das forjas de Vulcano. esse considerável acervo documental não retrata.. E com essa denominação. que deverão viver juntas. não se referem .iniciam a construção e a montagem da usina de aço. "Ciclopes". Contudo. . fazendo o mesmo trabalho. por isso mesmo. De diferentes origens. culturas e profissões. relatórios técnicos. dois dos centros culturais mais expressivos do Brasil: São Paulo e Rio de Janeiro. O documento não fala. serão referidos várias vezes neste texto. figuram no brasão do Município.lá estão contemplados. com suas histórias pessoais. essas pessoas elegem um mesmo objetivo: fazer de Volta Redonda o seu Eldorado.aos imensos recursos humanos de que o Brasil necessitaria para executá-lo: não obstante. correspondências diplomáticas. o lado humano e a fácies sócio-cultural da jornada de construção da usina da Companhia Siderúrgica Nacional. atos oficiais. como também pela privilegiada circunstância de se localizar a meio caminho entre as duas maiores metrópoles brasileiras e. As vinte e uma páginas do relatório final da Comissão Executiva do PLANO SIDERÚRGICO NACIONAL. estratégicos . de onde poderia vir a verdadeira massa humana que apeou na velha estação da Central do Brasil. por exemplo. ainda que em atividades distintas. É exatamente essa dimensão humana que avulta da história social de Volta Redonda: mesclamse. Mas os ciclopes2 2 Os ciclopes. milhares de pessoas. dividindo os mesmos anseios. não somente por sediar a usina de aço da Companhia Siderúrgica Nacional.financeiros. cartas etc.em uma única linha que seja. simbolizando os trabalhadores de Volta Redonda. todos os demais aspectos . de agosto de 1941.

pelo menos até o término da Ditadura Militar (1984). na luta contra o totalitarismo do Eixo. portanto. em sua maior parte. de economia de mercado. por um bom tempo. moderna. pleiteia. atropelaram as projeções dos ideólogos do Estado Novo.vêm e. por exemplo. Aqui. seu comportamento se revela coerente com o padrão que. pelo oportunismo de uma elite imatura e inepta. via de regra. ao realizar seu primeiro grande salto tecnológico. industrial. calcada nas observações do próprio autor. as contradições resultantes do alinhamento da Ditadura Vargas com as democracias ocidentais. vivendo numa nova sociedade urbanoindustrial. uma prevaricação contra o patrimônio nacional. E esta obra foi escrita. esse novo homem nasce com um pequeno defeito de fabricação: ele pensa! E. se lhe afigura uma traição ou. ainda.. o modelo pretendido pelo Estado Novo: nessa relação de criadorcriatura. Como se constataria mais tarde. demonstra possuir. algo saíra errado do caldeirão desses aprendizes de feiticeiro: embora se mantivesse. no mínimo. o Estado Novo lhe inculcou. reivindica e se põe a lutar por seu espaço e por mais direitos. atualmente.. em que ele busca refazer seus caminhos. que ainda tenta sobreviver. ver-se-á presa de novas contradições: numa ordem econômica capitalista. porque pensa. sem se darem conta. Fazer greve na CSN. sob o fascínio da figura do velho Caudilho. passam a se movimentar como peões num tabuleiro de xadrez. nos termos de um Projeto Nacional que contempla a construção de um novo homem brasileiro. Logram fazê-lo em parte. que ele mantém com a Siderúrgica. para que esse novo homem brasileiro. para atuar no cenário de uma nova sociedade. ele se deixa seduzir pelo canto de sereia do populismo político e do "peleguismo" sindical. durante tantos anos. ainda. eis que o "homo volta-redondensis" encarnaria. se aborda uma das passagens mais importantes da história do Brasil-República: aquela em que o Brasil se torna um país adulto. conduzida. Nesse contexto. encontrasse o seu caminho e alcançasse o aceitável grau de consciência política que. Levaria muito tempo. urbana. Contudo. ocupando as posições que o Estado Novo lhes destina. testemunha pessoal da grande epopéia que foi o processo histórico da Volta Redonda na Era Vargas 19 .

por ser o observador parte integrante dessa realidade (nota do autor). quase que abrupta. ainda. mas em períodos diferentes e em várias frentes de trabalho espalhadas pela selva amazônica (nota do autor). a dificuldade de se encontrar uma bibliografia específica sobre a história de Volta Redonda. contados. partícipe. de milhares de pessoas. que essa inevitabilidade terá conferido mais peso específico aos fatos.a maioria ainda inédita. Ressalve-se. por outro lado. Mesmo correndo o risco de reproduzir.. repetindo um verso de Olavo Bilac. relativa a esse período.". o autor não hesitou em analisar a natureza dos fatos que aqui relatou. reuniu mais de 20. o que somente aconteceria. na República Velha. e inevitável. circunstância que pode conferir mais peso.o fenômeno social . Destaque-se. 20 Waldyr Bedê 4 . num mesmo "locus" . outra vez. a "Ferrovia da Morte". em toda a sua intensidade.. que apenas recentemente é que essa bibliografia começou a ganhar alguma substância. já na segunda metade dos anos cinqüenta. Presume o autor. também. eis que a proximidade faz o observador sentir as interações humanas. de caráter mais analítico do que descritivo. para cujo relato o autor precisou recorrer.seria considerado normal à luz da Sociologia Crítica. jamais foram "com tanto ardor. como efetivo. com os aspectos humanos e sócio-culturais inerentes à aglomeração. que pudesse respaldar a análise dos episódios aqui reproduzidos e criticados. neste trabalho. à própria memória. dissertações e teses . ainda. 3 A construção da Estrada de Ferro Madeira-Mamoré. inevitavelmente. à observação: a distância entre o observador e o objeto já não é mais "olímpica". Até porque o envolvimento do observador com a realidade que observa . os quais.construção da Companhia Siderúrgica Nacional e da formação social que se verificou ao redor da usina de aço de Volta Redonda. quando da construção de Brasília. o fenômeno que a Sociologia de cunho positivista chama de "bias4". Bias: uma suposta visão deformada da realidade. em termos estritamente urbanos3. como testemunha privilegiada que foi.fato inédito na História do Brasil. contudo.000 pessoas. de diferentes origens e culturas. com a produção acadêmica de monografias.

21 . em Volta Redonda.Os "Ciclopes" num comício do PCB.Volta Redonda na Era Vargas 1945 .

22 Waldyr Bedê .

na expressão intraduzível de Rostow5. liderada por Getúlio Vargas. como a siderurgia .um modelo de economia dependente e periférica ou "satellitic". 5 Rostow.responsável por mais de 85% de nossa receita externa .isto é: de base. Walt p. 23 Volta Redonda na Era Vargas . quer por não possuir recursos próprios (poupança interna) suficientes para investir na indústria pesada . O Brasil era refém de um modelo econômico imposto pelo imperialismo das grandes potências mundiais às nações subdesenvolvidas. o Brasil apresentava sucessivas marcas de superprodução de café . Desde o fim da Grande Guerra (1914/1918). "Stages of the Economic Growth". marca o término da chamada "República Velha" no Brasil e o começo do fim do seu modelo econômico agrário.O MODELO AGRÁRIO E O PROCESSO DE INDUSTRIALIZAÇÃO DE BASE A crise econômica mundial e a Velha República A Revolução de 1930.como também pelo fato de não dominar tecnologias.. de monocultivo de exportação .mas os preços do nosso principal produto de exportação achavam-se em queda nas praças de Londres e Nova Iorque.

implicava a criação de grandes oficinas de manutenção. por estratos da aristocracia rural e por imigrantes e seus descendentes enriquecidos. massas. Uberaba. Valença. deram origem a alguns dos atuais impérios industriais privados. Boris. sob os auspícios do senador do Império Nicolau de Campos Vergueiro6. cuja acumulação serviu para financiar esse começo de industrialização. Porto Alegre. Nessa etapa. Uberlândia. Edusp. Juiz de Fora. composta.. mas operários qualificados. que não eram agricultores em sua terra de origem. Essas pequenas indústrias. em parte. Waldyr Bedê 24 . calçados. a industrialização concentrava-se na produção de alimentos (panificação. Junto a essas oficinas. Joinville. refinação de açúcar. e outros. as primeiras escolas profissionais voltadas para esses 6 Fausto. como: Rio de Janeiro.Paulo. pecuária e extrativismo). conservas. reparos e reformas de equipamentos. simples artesãos. que traziam consigo algumas economias. Estávamos condenados a uma economia primária de exportação (agricultura. tecidos. Blumenau. a construção de ferrovias e de pequenas usinas termo e hidroelétricas. cujos preços eram estabelecidos pelos importadores. bebidas. como Bauru. Ponta Grossa. Sorocaba. Com a imigração sistemática iniciada. sobretudo em São Paulo e seus arredores. a partir de 1847. (205. Barra Mansa. Monlevade. torrefação e moagem de café).206)11ed. aparecem. muitos imigrantes. propiciaram a formação de uma burguesia nacional mínima. óleos vegetais e gorduras animais. Caxias do Sul. e numa razoável gama de artigos de metalurgia. localizadas principalmente nas grandes capitais brasileiras.métodos e processos industriais de porte.. S. Alguns desses imigrantes. mobiliário. Paralelamente. necessariamente. suprimentos agrícolas e utensílios domésticos. assim como a implantação das linhas de transmissão de energia elétrica e dos sistemas de comunicação por telégrafo e telefone. ou em cidades do interior. tais como: ferramentas. 2003. São Paulo. "História do Brasil". contribuíram para o desenvolvimento de uma incipiente industrialização urbana.

a partir de 1942 iriam integrar o projeto de industrialização sistemática do Brasil na Era Vargas. do campo para as cidades. A crise econômica mundial de 1929. como o SENAI (Serviço Nacional de Amprendizagem Industrial). em processo de passagem. em razão de sua acelerada descapitalização e em face da situação fortemente recessiva dos mercados interno e externo. ajustadores. com milhões de toneladas excedentes em estoque e sem qualquer possibilidade de colocá-las em um mercado fortemente retraído. por algum tempo. Volta Redonda na Era Vargas 25 . que é deposto pelos seus próprios chefes militares. atacadistas exportadores e de empresas urbanas. no final do século XIX. contra o governo de Washington Luís. O modelo econômico baseado no monocultivo de exportação do café já não mais atende às aspirações econômicas. um quadro de desorganização da vida econômica nacional. cuja primeira fase duraria de 1930 a 1945. a Era Vargas. mas. Getúlio Vargas. em armas. cujo presidente. Elas constituiriam as matrizes de instituições. eletricistas. torneiros. montadores. no Brasil. A "Revolução" Oligárquica de 1930 e a Nova Ordem Nacional: O Estado Novo Em outubro de 1930. serralheiros etc. o surgimento das primeiras gerações de trabalhadores urbanos qualificados: mecânicos. com o apoio de Minas Gerais. então. ainda. que. soldadores. levanta-se. flagra o Brasil no pico histórico de sua produção cafeeira. fora derrotado nas eleições para a presidência da República. o Estado do Rio Grande do Sul. Iniciava-se. carpinteiros. que marca o início da Grande Depressão dos anos trinta. comerciais e de serviços. em início de ascensão na sociedade brasileira. sócio-culturais e políticas de uma burguesia "pré-industrial". industriais. então. Disso resulta. fundidores. com o endividamento em massa de fazendeiros. Dá-se. as falências e concordatas de bancos.setores produtivos.

que tem como característica básica o fortalecimento do poder do Estado sobre a vida econômica norte-americana. presidente dos Estados Unidos (1933/1945). 1940. John Maynard. Em 10 de novembro de 1937. com a criação do "New Deal" .A Grande Depressão. de regimes políticos totalitários . apologistas de uma política de aproximação do Brasil com os Estados Unidos. Franklin Roosevelt. como ponto de partida 7 Keynes. como aconteceria na Itália. pela retomada do pleno emprego. como agente indutor do processo de desenvolvimento econômico e social. que atingira a economia mundial em 1929. Vargas detém uma orientação de governo centrada na idéia da implantação da indústria de base (ou pesada). controle inspirado nas idéias de Keynes7. com a introdução de uma ordem política. "Teoria Geral do Emprego. Com efeito. com o nome de Estado Novo. A década de trinta assinala uma forte interferência do Estado na vida econômica.seu programa de governo para tirar os Estados Unidos da Depressão. in "A Experiência Roosevelt e a Revolução Brasileira". é um projeto autoritário. em ambos os casos. Londres. Mais que um projeto nacional . na Espanha e..que tomaria forma no final dos anos trinta -. quanto na execução. adota uma política de forte intervenção estatal na economia norte-americana. Tratar-se-ia da versão "tupiniquim" do "New Deal 8" segundo a concepção de alguns autores da época. O "New Deal". através do severo controle da moeda.. em todo o Mundo. como Inglaterra e Estados Unidos. na verdade. como gestor da economia nacional: nos Estados Unidos. Danton. no Brasil. na Alemanha. 1936. Rio. no Brasil. 8 Jobim. estendeu-se por toda a primeira metade dos anos trinta e propiciou a proliferação. 26 Waldyr Bedê . embora a semelhança entre um e outro projeto de governo se limitasse somente ao papel do Estado. do crédito e dos juros. mesmo em países democráticos. tanto na concepção. defende a comparação. do Juro e da Moeda". do câmbio. Vargas dá o golpe de Estado e implanta um regime ditatorial.que resultavam da descrença nos ideais democráticos e da suposição de que os governos autoritários seriam o instrumento adequado para a restauração da ordem ou para a imposição de uma Nova Ordem.

1977. o próprio banco estatal subscreve milhões de ações da nova empresa . Ao longo da década de trinta.da transferência de tecnologia. empresários com capital suficiente para bancar a implantação de uma usina siderúrgica de grande porte (no caso. marítimos. Esses institutos recolhiam." ( SODRÉ. país algum jamais promove por mera gentileza. é o siderúrgico.como. em sua primeira viagem a Belo Horizonte. criada em 9 de abril de 1941. em 1931: "Mas o problema máximo. Entrava-o a nossa míngua de transportes e a falta de aparelhamento indispensável à exploração da riqueza material que possuímos imobilizada. de fato. a idade do ferro marcará o período da sua opulência econômica. e dependeríamos .que marcaria o começo da indústria de base do Brasil. precioso. na burguesia nacional. todavia. Essa idéia aparece. ocorreu . os únicos problemas que Vargas irá enfrentar: não há.). bancários. não dispomos. pode dizer-se. compulsoriamente. básico da nossa economia. No amplo emprego desse metal. que fosse capaz de produzir. meio milhão de toneladas de aço por ano. Volta Redonda na Era Vargas 27 . Além disso. Vargas cria novos institutos de aposentadoria e pensão para as diferentes categorias de trabalhadores urbanos: industriários. o montante das contribuições previdenciárias de empregados. ferroviários. de "know how" específico para a produção de aço. mesmo se consorciados. Grande parte desses recursos entesourados no Banco do Brasil constitui o capital inicial da Companhia Siderúrgica Nacional.) A deficiência dos transportes e a falta de aparelhamento não são. que. rodoviários. sobre todos.para o desenvolvimento econômico e social do Brasil. no discurso de Vargas. muito menos. do governo federal. Para o Brasil. servidores públicos. pelo menos. teoricamente (apenas teoricamente. poucos meses após o começo do seu governo. em nítidos contornos. em chapas e perfis). obviamente. comerciários... se expressa a equação do nosso progresso. ao Banco do Brasil. patrões e.

28 Waldyr Bedê .1941-Vista aérea do local exato em que seria construída a Usina de Aço da CSN.

até a construção da própria usina. cujos canteiros de obras inspeciona por diversas vezes. pessoal e diuturnamente. nº 3 .ações que demandavam financiamento externo.como o cognominavam os áulicos palacianos . em outubro de 1945. em 1930. 1944. na Alemanha e nos Estados Unidos. fica patente que. com o presidente da então recém-criada Companhia Siderúrgica Nacional.. Bureau de Assuntos Interamericanos. como cuida. o empresário Guilher me Guinle. Em uma dessas visitas. como o major Macedo Soares e o economista Jesus Soares Pereira. deu grande destaque à obra da Usina da CSN e assim se expressou acerca do empenho do presidente Vargas em construir Volta Redonda: "Datam de mais de vinte anos os primeiros planos 9 "EM GUARDA".cit. o caudilho gaúcho não apenas possui um projeto de desenvolvimento industrial para o Brasil. mais tarde.Washington. desde que assumira o poder. desde o treinamento e o aperfeiçoamento dos técnicos brasileiros na França. Vargas vaticina: "Volta Redonda será um marco da civilização brasileira. instituindo no Brasil um novo padrão de vida e um novo futuro.Ano III. em seus mínimos detalhes. Na leitura do segundo volume do "Diário" de Getúlio Vargas (1995). para que ele se concretize: no seu "Diário". 9 A revista "EM GUARDA" (op. até a sua queda. digno de suas possibilidades". um exemplo tão convincente. 22 e 23). editada pelo Bureau do Coordenador de Assuntos Interamericanos do Governo dos Estados Unidos.tudo quer saber e a tudo acompanha. e publicada durante toda a Segunda Guerra Mundial. O "Guia da Nacionalidade" . e. Volta Redonda na Era Vargas 29 . o presidente Vargas registra inúmeros encontros com os técnicos encarregados da elaboração do Plano Siderúrgico Nacional.Restava a parte mais difícil: a transferência de tecnologia e o aparelhamento da usina siderúrgica . que afastará todas as dúvidas e apreensões acerca do seu futuro.

com um crédito no valor de 45 milhões de dólares. por intermédio do Banco de Exportação e Importação de Washington. o de maior vulto industrial levado a efeito no Brasil. sob seus auspícios. se fez de definitivo. entrou em execução e está agora em vias de conclusão. "Foi assim que. Pouco. elevando o padrão geral de vida do país. para a aquisição de maquinismos e equipamento. Esse crédito será amortizado em dez anos. foi coberta rapidamente. conseqüentemente. Parte do capital. "Volta Redonda está localizada num ponto central 30 Waldyr Bedê . Como resultado dessa grandiosa iniciativa. cujos depósitos são considerados os mais ricos do mundo. os Estados Unidos estão contribuindo com assistência técnica e. o grande projeto siderúrgico de Volta Redonda. ao mesmo tempo. em ações lançadas à subscrição pública. "O grande centro metalúrgico de Volta Redonda está sendo construído pela Companhia Siderúrgica Nacional. entretanto. "A fim de cooperar com o Brasil na defesa do Hemisfério Ocidental e. até o Presidente Vargas haver encarado o importante problema com a disposição de dar-lhe a solução mais adequada e mais pronta possível. ampliando e abrindo novos horizontes de produção e de consumo. novas indústrias surgirão. financiado em parte pelo governo. aumentando a renda pública e particular e. para dar início à produção prevista para suprir imediatamente as necessidades nacionais. sob um plano verdadeiramente nacional.para a utilização industrial do minério de ferro brasileiro. auxiliar o pais seu aliado na guerra contra o Eixo.

Das minas de Teresa Cristina. estruturas metálicas. para o porto de Laguna. folhas de Flandres. o manganês e o calcário são extraídos perto de Belo Horizonte e transportados por via férrea para Volta Redonda. dentre os quais se Volta Redonda na Era Vargas 31 . e está se procedendo ao alargamento de vários túneis. por via férrea. de onde segue. Uma estrada de ferro de bitola estreita faz a ligação entre a usina e o porto de Angra dos Reis. em Santa Catarina. Este porto é também usado para alguns dos embarques do carvão procedente de Laguna.ferro gusa. O coque será produzido numa bateria de 55 fornos em conjunção com a fábrica de subprodutos. inclusive billets. na costa do Estado do Rio. Ali é então posto em navios cargueiros que o transportam para o Rio. perfis médios e pesados. Docas e armazéns no Rio de Janeiro e em Laguna estão sendo aumentados e numerosos navios cargueiros acham-se em vias de acabamento nos estaleiros nacionais. "A usina foi projetada para produzir a quantidade e o tipo de material que o Brasil mais necessita . novas estações e sistemas de sinais foram construídos. barras e vergalhões. O minério de ferro.entre os depósitos de minério de ferro e as minas de carvão. Novos vagões. trilhos e acessórios e vigas. Rio e São Paulo. para a usina. e os centros consumidores de aço. "Grandes melhoramentos já estão sendo realizados nas vias de transportes brasileiras para atender ao tráfego de ida e volta para usina. A Estrada de Ferro Central do Brasil está sendo eletrificada no trecho entre o Rio e Laguna. o carvão é transportado num percurso de 70 quilômetros de estrada de ferro de bitola estreita.

o fornecimento alemão de uma usina siderúrgica. após a visita do presidente Roosevelt ao Nordeste do Brasil e o nosso decorrente compromisso de cedermos espaço para a localização de bases militares aeronavais em Recife. inviabiliza. na prática. com o governo alemão.000 toneladas de lingotes e de 550. A eclosão da Segunda Guerra Mundial. mais tarde. conseguimos um financiamento de 30 milhões de dólares e o contrato com a United States Steel Company para a compra e a instalação dos equipamentos da usina da Companhia Siderúrgica Nacional. Natal e Fernando de Noronha. Um total de 368. conforme consta de documentos diplomáticos alemães apreendidos pelos Aliados. Vargas negocia.um tratado específico. benzol.000 toneladas de peças e de material para o consumo. com o governo americano. com o conseqüente bloqueio do Atlântico Norte pela Armada britânica. 10 "O III Reich e o Brasil". que deverá começar brevemente". 1968. a emergência dos interesses militares dos Estados Unidos precipita a condução do processo de negociação do financiamento a um desfecho favorável. Em busca de recursos externos. a princípio. toluol. mas essa capacidade não será atingida no começo da produção. ao término do conflito10. de acordo com as exigências do consumo.que se tenha notícia .destacam: sulfato de amoníaco. Waldyr Bedê 32 .000 toneladas de produtos. outros entrarão em funcionamento. Entretanto. Laudes. A capacidade da usina é de 750. págs.000 toneladas de lingotes será transformado em 267. A usina começará a funcionar com um alto forno. outros 55 fornos adicionais entrarão em operação. 68 e 69. para a construção da usina siderúrgica de Volta Redonda. anualmente. xilol e nafta. Mais tarde. volume II. Mas. Rio. alcatrão. entre o Brasil e os Estados Unidos. Não se celebrou . Quando for necessário. para o qual o Terceiro Reich se dispunha a emprestar 300 milhões de marcos-ouro ao Brasil.

visto que contraria consideráveis conveniências técnicas. o 8º Distrito do Município de Barra Mansa. tresandava a profunda decadência. possivelmente. apenas. como a desejável proximidade das fontes de matérias primas ou de um porto fluvial ou marítimo. Comandante Ernâni do Amaral Peixoto. Mas possui eletricidade e água em abundância . Tudo acontecera em razão. Ademais. Desse modo. Trata-se de uma escolha eminentemente política. pelo esgotamento do solo. havia uma resistência. motivada.vitais para a produção siderúrgica e é servida por uma estrada de ferro. as áreas de antigos cafezais transformaram-se em pastos e foram vendidas ou arrendadas a pecuaristas mineiros.já que nem sequer uma simples cidade o fora Volta Redonda. do restante do Estado do Rio de Janeiro. política e tecnológica do Brasil. é escolhida como o lugar que vai abrigar a futura Usina de Aço da Companhia Siderúrgica Nacional. Volta Redonda. em São Paulo. Volta Redonda era. Como foi o caso de Bananal. da inércia de uma elite inepta. Graças à poderosa influência política do então Interventor do Estado do Rio de Janeiro. voltada para o passado e pressurosamente agarrada às reminiscências de um fausto e de uma opulência. em livro homônimo . social. genro de Getúlio Vargas. que se perderam com o fenecimento da lavoura cafeeira. ainda que em deploráveis condições. Volta Redonda na Era Vargas 33 . nem se poderia incluí-la no circuito das "cidades mortas" do Vale do Paraíba . Até 1941. mesmo nos áureos tempos da opulência do café . e tão importante para a vida econômica. a vida econômica da região sul-fluminense e.Nasce Volta Redonda Antes do advento da Siderúrgica de Volta Redonda. sobretudo.de que tratara Monteiro Lobato. um ponto insignificante no mapa do Estado do Rio de Janeiro. por exemplo. quanto o seria qualquer diminuto vilarejo interiorano. Ademais. à busca de alternativas agrícolas ao cultivo do café. também. os quais a pecuária não lograra trazer de volta.

34 Waldyr Bedê 1941 . . em cujas terras foram construídas a Usina e a Cidade Operária.Fazenda Santa Cecília.

como vila. Exceto pela chaminé do Engenho de Aguardente. sediado no Rio de Janeiro. Em agosto de 1942. acampados nos laranjais da Fazenda Santa Cecília. Os Estados Unidos ingressavam na Segunda Guerra Mundial. na maioria dos casos em águas territoriais de um país que se anunciara neutro. muito pouco restou de vestígios históricos da velha Santo Antônio de Volta Redonda. àquela época. o Brasil declara guerra às potências do Eixo (Alemanha. mesmo no âmbito restrito da história fluminense. remonte ao século XVIII. a apenas meia hora de travessia de barco de Niterói. de forma relevante e significativa. Apenas sobrevivia graças aos favores políticos e à vizinhança do Poder Central.tornara-se. topógrafos e agrimensores. Antes de 1941. quando o governo do Estado Novo se decide por sua escolha como local para a construção da primeira grande usina siderúrgica do Brasil. de modo a inseri-la no mapa. como um “locus” importante. arquitetonicamente falando. e das sedes de algumas fazendas. ficou descaracterizada. não havia nada em Volta Redonda que pudesse apresentar alguma relevância ou significado. o Brasil. o Estado do Rio de Janeiro . Até mesmo a igreja do seu padroeiro. O alinhamento do Brasil com as nações aliadas transforma a construção da usina de Volta Redonda em objeto Volta Redonda na Era Vargas 35 . já haviam esquadrinhado o terreno às margens do rio Paraíba do Sul. na era da indústria pesada.Tratava-se tão-somente de um distrito (o 8º) do Município de Barra Mansa. quando da sua reforma. no último quartel do século XIX. medíocre e decadente. economicamente atrasada.como era chamado. no bairro Niterói. Falcão ou Amparo. tal como Quatis. onde se ergueria a maior usina de aço do hemisfério sul. na segunda metade do século XX. Embora sua primitiva história. em virtude dos ataques de submarinos às embarcações brasileiras. admiravelmente bem conservadas. Volta Redonda somente ingressa no mapa e na História. datada de 1903. No Natal de 1941. dezoito dias após o ataque japonês a Pearl Harbour. na Vila de Santo Antônio de Volta Redonda. pejorativamente. no Hawaii. 8º Distrito do Município de Barra Mansa. A "Velha Província" . território dos EEUU. Itália e Japão).

de que a unidade de uso mais comum é a polegada . muitos deles são encaminhados ao trabalho braçal da construção civil. a usina abrigaria.como se dizia à época. alto-forno. inclui o conhecimento do sistema inglês de medidas. oficinas de manutenção e pátio de minérios. Além disso. uma central termoelétrica. muitas vezes no "fazer. e aprendem como manipulá-las. Nesse mesmo ano. Em sua maioria. mais de vinte técnicos americanos desembarcam no Brasil e passam a prestar assistência direta ao processo de montagem da usina de aço. em pleno esforço interno de guerra dos Estados Unidos e a despeito de todos os problemas de navegação num Atlântico infestado de submarinos alemães. alguns dos quais somente retornaram aos Estados Unidos no início da década de cinqüenta. o que viabiliza o fornecimento imediato. de equipamentos à Companhia Siderúrgica Nacional. uma grande fundição e uma estação de captação e tratamento de água. Analfabetos e sem qualquer qualificação profissional que os habilitasse para o serviço na indústria. Seu aprendizado. da enxada e da picareta. O terreno escolhido à margem direita do rio Paraíba do Sul exige o aterro de uma área com aproximadamente 11 km2 para acolher os seis grandes setores de uma usina siderúrgica completa: coqueria. Ainda em 1942. pelos americanos. Juntamente com os equipamentos siderúrgicos. laminação. aciaria. a Companhia Siderúrgica Nacional abre o recrutamento de mão-de-obra para a construção de sua usina de aço. com uma rapidez que surpreende seus mestres de obra. também. 36 Waldyr Bedê .de interesse militar estratégico. vão conhecendo novas ferramentas. São Paulo e Minas Gerais para o alistamento de trabalhadores. No dia-a-dia do trabalho pesado. acostumados à enxada e ao trabalho "de sol a sol" . no formigueiro humano dos canteiros de obras. fazendo". Dezenas de agentes de recrutamento deslocam-se para o interior dos Estados do Rio de Janeiro.largamente empregada nas especificações de máquinas e equipamentos importados pela CSN. além da pá. que eram transportados de caminhão até a estação ferroviária mais próxima. instalam-se várias empreiteiras para as obras de construção civil da planta da siderúrgica e da vila operária. onde embarcavam no trem para Volta Redonda. esses milhares de homens procediam das lavouras e da pecuária.

37 . Redonda: primeiros movimentos de terraplanagem.V.Volta Redonda na Era Vargas 1941.

E. F. . Central do Brasil vista do Viaduto da Usina da CSN.38 Waldyr Bedê 1941.

A Usina em construção vista do futuro bairro Laranjal.Volta Redonda na Era Vargas 39 1943 . .

Pois essa estirpe de gigantes sem estirpe é que faz surgir uma imensa fábrica. a maior do hemisfério Sul. Segundo o relato do técnico mecânico Isidório Ribeiro. da ignorância. como jamais fora vista no Brasil. na qualificação do seu pessoal . A "Escola Profissional". carcomidos.uma alternativa legalmente admitida). contudo. além do analfabetismo. que usa a metodologia do SENAI. destinada à formação de mão-de-obra qualificada. os Ciclopes . que se habilitaram nas indústrias urbanas. nas ferrovias. dos quase dez mil trabalhadores engajados na construção de Volta Redonda. de Minas. de "pés descalços. mais tarde denominada "Escola Técnica Pandiá Calógeras". mesmo quando tinham diante de si as vigas e colunas de concreto brotando das formas de madeira e que se transformavam em enormes edifícios. são profissionais qualificados.simbolizam os milhares de trabalhadores anônimos que. "vindos de todos os cantos.operários das forjas de Vulcano. Ressalte-se. no aperfeiçoamento e na especialização de mão-de-obra para a Usina da CSN. a empresa implanta uma "escola profissional". segundo a mitologia .. nada mais traziam consigo. da subnutrição e das mãos calosas do cabo da enxada. outros trabalhavam com o entusiasmo e a convicção daqueles que sabem estar erguendo uma catedral: 40 Waldyr Bedê . junto com o sonho e "a esperança de um bom e novo lugar para se viver e trabalhar".Paralelamente à construção da usina de aço da CSN. nas companhias de energia elétrica e nas próprias escolas industriais que essas empresas mantinham com subsídios governamentais (parte da contribuição compulsória destinada ao SENAI poderia ser aplicada pelas próprias empresas. tresnoitados e abatidos". São Paulo e de todos os santos.". aqui deram corpo a um sonho. cumpriria um papel histórico na formação. Muitos simplesmente não acreditavam no que viam. construindo a maior usina siderúrgica da América Latina. da miséria. que alguns milhares.. Os Ciclopes. A epopéia da construção da usina de aço de Volta Redonda Para o autor.

41 .Trabalhadores fazem sua refeição na Ala de Carga da velha Aciaria SM.Volta Redonda na Era Vargas 1946 .

costumes e traços culturais que essas pessoas traziam de seus lugares de origem. de quase todos os cantos do País para Volta Redonda. da cultura indígena. baianos. nem nos dávamos conta de que escurecera e a noite já ia alta. As trocas culturais processam-se principalmente nos campos da culinária. por absoluta falta de tempo para a pesca. são chamados os pioneiros da construção da usina de Volta Redonda. só ocasionalmente o peixe de água doce entra na dieta dos "arigós" ." O afluxo de brasileiros. o tutu de feijão. então. alguns muito simples e de 'pouca leitura'. a piscosidade do rio Paraíba do Sul é alta e variegada. usada tanto pelos gaúchos. passa a ser utilizada pelos mineiros. e associavam a relevância da usina de aço com o futuro de seus filhos. pernambucanos e mineiros. e. cearenses. por exemplo. 42 Waldyr Bedê . em que se mesclam os traços culturais de diferentes regiões brasileiras. inclusive. transforma-a num cadinho. capixabas. como bons soldados.foi rapidamente absorvida pelos demais segmentos forâneos: o angu de fubá. "Muitos companheiros. pela dança e no uso comum de objetos (por exemplo: a rede de dormir."Muitas vezes. o torresmo.como. propiciado pela convivência forçada de contingentes humanos de diferentes procedências. gaúchos. Nos primeiros anos de vida da nova cidade que se forma. Nessa época. das manifestações folclóricas reproduzidas. em razão das péssimas acomodações dos alojamentos de operários). uma missão a cumprir. como pelos nordestinos. a lingüiça de porco e a couve picada e refogada . Mas o intercâmbio cultural.maioria esmagadora entre os forasteiros chegados a Volta Redonda . somente parávamos quando recebíamos ordem para cessar tudo". no lugar da cama. Acontece que tínhamos um trabalho a realizar. Mas. a grande maioria da população volta-redondense obviamente constitui-se de forasteiros. tinham uma noção bem nítida da importância da obra que ajudavam a construir. a culinária da colônia mineira . dos linguajares.todos eles de simples elaboração se tornam a comida diária de paulistas. promove uma mescla de usos.

o elegante Bairro Laranjal. no alto. 43 .Volta Redonda na Era Vargas 1945: Gigantes de concreto: Edifícios das Oficinas de manutenção elétrica e mecânica. Almoxarifado e Casa de Óleo. À direita.

quando menino . 1980). Nesse quadro. naqueles primeiros tempos de pioneirismo. portanto. Outros simplesmente se dirigem às escolas de alfabetização. não acreditavam. Ali. que banhava os fundos daquele núcleo residencial provisório. é claro. 44 Waldyr Bedê . uma das obrigações do autor. sem instalações sanitárias e sem água corrente em cada módulo de habitação familial. fazem suas refeições no próprio canteiro de obras.até hoje. à noite. de uso coletivo.a exemplo de muitas crianças do alojamento da "Laminação" .os "acampamentos" . as privadas. caldeiraria. à heroína do samba "AI QUE SAUDADES DA AMÉLIA11". servidas em marmitas levadas ao local através de furgões popularmente conhecidos como "amélias" . Muitos. os chuveiros (de água fria) e os tanques de lavar roupa são públicos. Morando num desses barracos. tanto para os crianças. Os pés descalços naquelas águas poluídas causam muitos casos de tifo.consistia em lavar e arear os penicos da família no córrego Secades. eletricidade. na área denominada "Laminação". a CSN passa a construir alojamentos para as famílias. Nas poucas horas de folga. Alves. uma referência nacional de excelência no ensino técnico industrial. É "um difícil começo" .o dos "Ciclopes" chegados a Volta Redonda. Milhares delas vêm juntar-se aos seus pais. porque não havia vigas de aço disponíveis para a construção civil. E essas primeiras famílias pagam pesado tributo aos sonhos de seus chefes: os alojamentos são precários. mecânica. naqueles tempos de guerra. 4ed.. como para os adultos. quando viam os prédios aflorando do desmonte das formas de concreto. muitas vezes. Rapidamente. verminose e anemia. e ceifam muitas vidas. vale lembrar que os penicos adquirem indispensável serventia. rebatizada como Escola Técnica Pandiá Calógeras . "O Carnaval carioca através da música". aprendem os fundamentos de diversos ofícios demandados pela indústria pesada: tornearia. F. em busca do tempo perdido.. mais tarde. solda elétrica e a oxigênio. Rio. centenas de trabalhadores vão às oficinas da Escola Profissional da CSN.como no verso da canção de Caetano Veloso . Edigar de. com mínimas condições de limpeza e higiene.. Alojados em barracões de madeira . 1943 e 1944. nos idos de 1942. os operários. carpintaria. 11 Samba deAtaulfoAlves e Mário Lago. serralheria. mesmo trabalhando no local. As condições de higiene são precárias. vitorioso do Carnaval de 1942 (apudALENCAR.Os edifícios da Usina são erguidos em concreto armado. fundição.numa alusão.

Volta Redonda na Era Vargas Escola Técnica Pandiá Calógeras 45 .

2000) Indagado sobre se os operários tinham.. para eles e para o Brasil. Naquela época. À medida que a usina adquiria contornos mais nítidos. Havia no trabalho que fazíamos um amor muito grande pela CSN. trabalhávamos. "Mas a participação dos operários da CSN no desfile contribuiria também para reforçar toda uma mística desenvolvida pelo DIP em torno da criação da usina". soldados engajados na produção. como se fossem . segundo Isidório Ribeiro. para desfilar perante o presidente Vargas... cumprindo de 12 a 15 horas diárias de serviço. quando a Usina começou. as palavras do presidente da República reforçaram a identificação entre 'soldados' e 'operários'. Um dormia. ainda. vinte e quatro horas por dia. relata. enquanto o outro fazia a parte dele...Um sonho feito de aço e ousadia”. Regina da L. Rio. IARTE. do Alto-Forno. da Aciaria e da Laminação. (Moreira." ". o técnico mecânico Isidório Ribeiro: "Tinham.” 46 Waldyr Bedê . Esse entusiasmo leva uma "brigada" de 2.. o eram.. a usina de Volta Redonda encontra-se na fase final de montagem. realmente. a outra.. trajando "macacões" de serviço. certamente. cheio de ardor cívico.000 trabalhadores ao Rio de Janeiro. às vezes. e assim nos revezávamos.e. “CSN .. no dia 1º de maio de 1942. Eu fazia a parte de uma peça num torno mecânico e o outro companheiro. Era uma experiência diferente. uma noção clara da importância da CSN. envolvia os trabalhadores". eu fiz uma jornada de quarenta e oito horas de trabalho. "Na ocasião. um "entusiasmo contagiante. com a montagem da Coqueria. porque estávamos construindo alguma coisa de positivo. antecipando de certo modo o clima de esforço de guerra e de mobilização que envolveria a construção da usina .Em 1945. em que os operários trabalham febrilmente.

U. 47 ." .Volta Redonda na Era Vargas 1944 -Operários almoçando no "R.Refeitório da Usina.

. Central: barracões p/famílias dos perários.Acamp.48 Waldyr Bedê 1942 .

no meio e o prédio da Laminação. embaixo. o velho Escritório Central. no alto.Vista aérea da Vila Santa Cecília.Volta Redonda na Era Vargas 49 1945. .

o presidente Vargas. pão. não posso ocultar o meu entusiasmo patriótico e a minha confiança na capacidade dos brasileiros. a criminalidade era baixa. como o que estamos aqui realizando. para suportar mos os problemas. “O que representam as instalações da usina siderúrgica de Volta Redonda. num discurso laudatório à siderúrgica em construção: "Diante do empreendimento de tamanha magnitude.]" (MOREIRA. em visita a Volta Redonda. Veja que coisa interessante: apesar do mundaréu de gente trabalhando junto e da brutalidade do serviço a ser feito. aquilo nos dava uma força interior. uma resistência. faltava carne. 50 Waldyr Bedê . um monumento a atestar a capacidade da nossa gente [. assim se expressa..Vivíamos uma época de racionamento: às vezes.54). em cimento e ferro. uma garra.." Em 7 de maio de 1943. Trabalhava-se muito e quase não havia tempo para o lazer.. Então.. aos nossos olhos deslumbrados pelas grandiosas perspectivas de um futuro próximo... Quase não havia crime de morte.]. desafiando ceticismos e desalentos [. "Esta cidade industrial será um marco da nossa civilização. direto. Aqui ele está plantado."Quarenta e oito horas. sem sairmos da Usina. açúcar. é bem o marco definitivo da emancipação econômica do país.

Volta Redonda na Era Vargas 51 1942 -Operários de V. Redonda no desfile de 1º de Maio no Rio de Janeiro. .

Paulo.52 Waldyr Bedê 1944 -Trabalhadores no Pacaembu. . veja a faixa inferior na foto. S.

Volta Redonda na Era Vargas 1945.A Aciaria em fase final de montagem. 53 .

54 Waldyr Bedê .

então. formalmente. a temporada de "caça às bruxas". Volta Redonda na Era Vargas 55 . por força do término do contrato de concessão. o Partido Comunista é colocado na ilegalidade. direitos e garantias individuais ao cidadão. cimento para a construção de 45 km de pistas duplas da Rodovia Presidente Dutra. roupas de tecidos sintéticos. com o qual esbanjamos. quando faltava apenas um ano para que aquela ferrovia revertesse gratuitamente ao patrimônio da União. no caso. e pagamos a indenização pela desapropriação da Estrada de Ferro Leopoldina. os comunistas e os simpatizantes do marxismo. quase um bilhão de dólares (em valores da época) na importação de artigos de consumo supérfluos: uísque. inclusive a liberdade de idéias. artefatos de matéria plástica (uma grande novidade do pósguerra). automóveis de luxo.A SOCIEDADE URBANO-INDUSTRIAL DE VOLTA REDONDA A nova sociedade urbana de Volta Redonda: um ensaio de colonialismo cultural A partir de 1946. em menos de dois anos. os Estados Unidos tornam-se nosso maior parceiro comercial. calçados. fato que acarretaria diversos desdobramentos na vida interna do país: a despeito de a Constituição de 1946 assegurar. com a eleição do general Dutra para presidente da República. a política externa do Brasil se alinha abertamente à orientação dos Estados Unidos. com o que se inaugura.

"Blackout". por cuja utilização pagamos. que multinacionais do ramo. Exemplificando. "Mister Eco" etc. nossos artistas de rádio e cinema adotam nomes artísticos americanizados: "Bob Nelson". como era conhecido nos anos sessenta.. comentarista político do rádio. Volta Redonda não escapa desse abominável processo de colonialismo cultural . Guanabara. alavanca de tal forma a indústria nacional de tabaco. O hábito de fumar. "Dick Farney".. essa é a mais suave e menos nociva conseqüência desse processo de colonialismo cultural.Juntamente com os bens de consumo que importávamos. por exemplo. vão mais além do que um mero ou episódico modismo. chegam os artigos da indústria cultural . o "Stanislaw Ponte Preta". em cima de uma população inculta. 56 Waldyr Bedê . assina seus artigos com o pseudônimo "Al Neto". Até mesmo um jornalista. que introduzem no Brasil mais de quinhentos filmes por ano". com nomes de astros e estrelas do cinema e de personagens que interpretaram. na feliz expressão atribuída ao humorista Sérgio Porto. "Tor na-se obrigatória a copiagem de filmes estrangeiros em laboratórios brasileiros. até hoje. (Ribeiro. Contudo. "Cyll Farney".a "americanalhização" do Brasil. em termos de influência cultural. semiletrada. açambarcam tradicionais fábricas brasileiras de cigarros e impõem ao consumidor brasileiro marcas norte-americanas. 1985) Os efeitos dessa invasão. exibido com glamour pelos filmes americanos. pela força desse poderoso veículo de comunicação de massa que é o cinema. "Stella Egg". como a "British-American Tobacco Company". Rio. “Aos Trancos e Barrancos”. que são exibidos em mais de três mil cinemas existentes em todo o Brasil. Pouco depois se reduz esta obrigação à metade para atender à pressão dos exibidores.os filmes de Hollywood. do mimetismo em relação ao que se torna atraente. segue-se que crianças brasileiras são batizadas. Assim. Darcy. elevados royalties. aos milhares.

o famoso "Poeirinha".Volta Redonda na Era Vargas 1946 . primeiro cinema de Volta Redonda. 57 .Cine Santa Cecília.

depois do Português. no Parque Anhangüera. com a inauguração do Alto-Forno nº 2. a língua mais falada em Volta Redonda. revela um novo Brasil. planejada. e do permanente intercâmbio com a United States Steel Company. que amealháramos durante a Segunda Guerra Mundial. configura o exemplo mais eloqüente da cooperação entre os Estados Unidos e o Brasil. Esse intercâmbio e o fato de que dependíamos de desenhos. a Companhia Siderúrgica Nacional dá prosseguimento às obras de expansão de sua usina de aço. o processo de industrialização sistemática do Brasil. as preciosas reservas em divisas estrangeiras. durante todo o segundo governo de Vargas (1951/1954). passa a exigir investimentos cada vez mais amplos. o qual. O setor industrial se diversificara e já oferece um leque de bens de consumo a um mercado interno em expansão. deslanchado com a Companhia Siderúrgica Nacional. em um consumismo quase absurdo. ainda nessa mesma década de cinqüenta. para o treinamento de centenas de técnicos metalúrgicos brasileiros. à parte a circunstância da presença. Não obstante o quadro de dificuldades por que o país atravessa. Ao ingressarmos na década de cinqüenta. ao longo daquele conflito. esquemas. em Volta Redonda. 58 Waldyr Bedê . construída e organizada segundo padrões técnicos norte-americanos. o governo Dutra havia esbanjado. manuais e de literatura técnica norte-americana para fazer a usina funcionar. viria a desfrutar da produção nacional de automóveis e de eletrodomésticos. Nesse mesmo ano de 1954. de técnicos estadunidenses. em face do fornecimento de matérias primas estratégicas aos Aliados e mercê de imensas privações e sacrifícios da população brasileira. Afinal. desde o início da construção da usina. a Exposição do IV Centenário da Cidade de São Paulo. o Inglês se torne. concorrem para que. em 1954.A usina de aço. para o que não dispomos de poupança interna suficiente. por mais de uma década.

59 .Volta Redonda na Era Vargas 1946 . DE VARGAS A GETÚLIO". desenhos de Clécio Penedo e texto de Waldyr Bedê. em Volta Redonda). no Memorial Getúlio Vargas. artigos de consumo importados dos EEUU e a figura do presidente Dutra ("BRASIL.Os novos "atores" no cenário brasileiro do pós-guerra: artistas de Hoolywood.

água e esgoto" (Lopes. o arquiteto Corrêa Lima apresenta sua "Proposta para o estudo do Plano Regional de Urbanismo para Volta Redonda. A Cidade do Aço já nasce socialmente estratificada: o bairro Laranjal se destina à elite de funcionários da empresa: engenheiros e técnicos especializados. para o estamento de chefes intermediários (a quem os operários. como um dos seus itens de destaque: ".Projeto de uma cidade operária tipo. Segundo Lopes. com milhares de casas em alvenaria. tudo colocado num "locus" adrede concebido e elaborado na prancheta do arquiteto Atílio Corrêa Lima . Sessenta e Conforto. diversos tipos de moradias.A Formação Social: cotidiano e mentalidades A Cidade Operária Planejada A partir de 1943.os chamados "arigós de usina". definindo a Cidade Operária da CSN. igreja num alto de colina. ao Major Hélio Macedo Soares. op. para um mínimo de despesa e manutenção.um dos grandes planejadores de Vargas. a Vila Santa Cecília. área de lazer noutro canto. em 25 de dezembro de 1940. "setorializada": área comercial no centro. em "A Aventura da Forma . 71). Secretário de Viação e Obras Públicas do Estado do Rio de Janeiro. escolas. ao redor da Usina de aço. chamavam de "arigós de penacho”) e os bairros do Rústico. campos de esportes. áreas para localização de escolas. no Vale do Paraíba. Monte Castelo. Seu trabalho é minuciosamente relatado e comentado pelo arquiteto Alberto Lopes. cit. tendo em vista o máximo de rendimento e conforto admissível para o caso.Urbanismo e Utopia em Volta Redonda". debochando. vão invadindo e modificando a bucólica paisagem de laranjais e eucaliptos. publicado em 2003. que variam de acordo com o “status” funcional do empregado. 60 Waldyr Bedê . playgrounds. Ali consta. para Volta Redonda. vários bairros. pequeno centro comercial. onde será instalada a Usina Siderúrgica". para os trabalhadores em geral . categorias e tipos de habitação. Jardim Paraíba.

Melville. no lazer e no entretenimento. 12 Herskovits.Paulo. característico da hegemonia militar. objetos de uso pessoal. de acordo com o "status" funcional do chefe de família. ao mesmo tempo em que. como também nas relações sociais. os padrões de consumo possíveis. também. Na segunda metade dos anos quarenta. a fazer imitação de comportamentos de artistas de cinema. 1963. Volta Redonda. política e econômica dos Estados Unidos sobre os vencidos e. Mestre Jou. cigarros. É um fenômeno típico do pós-guerra. na Cidade planejada pela CSN. o rádio e o cinema estabelecem a ligação dessa incipiente sociedade urbano-industrial com as atrações do mundo moderno. a absorver expressões idiomáticas e. a hierarquia funcional da empresa se reproduz na organização de uma sociedade local estratificada em "castas". sobre seus aliados satélites. 61 Volta Redonda na Era Vargas . também. que incluem moda. veículos..o meio de transporte utilizado pela maioria dos seus habitantes. Enquanto isso. definem-se. passamos a receber a transferência desses elementos da cultura norte-americana. "O Homem e suas Obras". no imediato pós-guerra. Essa estratificação se faz presente nos aspectos mais prosaicos do cotidiano da Cidade: não somente na qualidade da moradia ou na sofisticação do tipo de urbanização do bairro em que se mora.. Naquele ano. E.Em meados de 1948. a CSN importa da Inglaterra e revende aos seus empregados as famosas bicicletas "Phillips" e "Raleigh". bebidas. que são o orgulho e um sinal de "status" dos seus proprietários. como costuma ocorrer em um processo de transculturação12 . já é a "Cidade das bicicletas" . em Volta Redonda. S. como conseqüência natural desse contato.em que traços. padrões e valores de uma dada cultura são absorvidos por outra -. até. Por exemplo: uma briga dentro de um dos clubes de empregados poderia refletir-se negativamente sobre o futuro profissional dos contendores.

uma rua transversal.62 Waldyr Bedê 1945 .Vila Santa Cecília . .

Volta Redonda na Era Vargas 1942. Ao fundo: Usina.O Rústico em construção. 63 .

ao tentar realizar.. amparado e policiado pelo Poder Público. menos que um cidadão. como vigia e controla a vida dos seus empregados. acabariam por tornarse pontos primordiais da política estadonovista de proteção ao trabalhador e ao próprio progresso material do país".A CSN assume o papel do "Grande Irmão". junto com a produção de aço de seus fornos. assim como o amparo à família. em sua famosa obra "1984": tanto provê. cordial.cit. a satisfação de necessidades básicas como habitação. 64 Waldyr Bedê . hígido. todo o empreendimento tornou-se espelho da ideologia f or jada pelo Estado Novo de valorização do trabalho e de reabilitação do trabalhador nacional. da ficção criada por George Orwell. alimentação. mas também de incentivo à sua capacidade produtiva. soldado da construção do futuro nacional. trabalhador. protegido. Nesse sentido. ordeiro. de um novo homem brasileiro. valendo-se do serviço social e da "Polícia Administrativa" da empresa. A respeito. traduzida em uma política social que incluía não apenas medidas de proteção à saúde física e mental do homem brasileiro. saúde e educação. mas um súdito do regime. o ideal anelado pelos teóricos do Estado Novo.. Volta Redonda cumpre um papel fundamental.54): ". assim comenta Moreira (op.

Volta Redonda na Era Vargas 1946 . 65 .A Polícia da CSN: os "Cabeças de Tomate".

O "Conforto". no centro da Cidade Operária. trocado por aves e ovos. oitocentas residências. suprindo. E ali passaram a residir mais de quatro mil pessoas em. pelos próprios operários. em sua quase totalidade. 66 Waldyr Bedê . e dependesse do esterco de gado. trazido pelos moradores da "Fazenda do Alemão13". na Vila Santa Cecília. que somente acontecia aos domingos. 13 Tratava-se da fazenda da família Haasis. o volume cultivado formava um pequeno excedente. na direção de Barra Mansa. Ademais. Este último detalhe desencadeou uma verdadeira "febre" de fogões. as famílias cultivavam frutas.um bairro típico da Cidade Operária A área principal do Bairro do Conforto é formada por duas avenidas paralelas. com jardins e quintais. praticamente quase toda casa passou a possuir um forno-fogão elétrico improvisado. no sentido leste-oeste. fornos e fogareiros elétricos. e criavam galinhas. cujos quintais eram bem espaçosos. hortaliças e legumes. eram de péssima qualidade. dado o seu elevado custo. E. distante 4 km a sudeste do Conforto (nota do autor). Embora a terra (saibro) não fosse a mais apropriada. confortáveis. os fogões a lenha feitos de chapa em ágata. a ausência da feira-livre. com que a CSN montara as casas. fabricados. Assim. que entrava num intercâmbio entre vizinhos. nem energia elétrica. tampouco existia o gás de cozinha em botijão.. distantes cerca de cem metros uma da outra. com chapas que "desapropriavam" do estoque da CSN. O aluguel era simbólico e os inquilinos não pagavam água. na maioria das casas das trinta ruas transversais. O nome ficou. passam pelo pioneiro Bairro Rústico e se estendem por aproximadamente dois quilômetros. o dessas casas!". aproximadamente. muitos moradores dos barracões provisórios exclamavam: "Mas que conforto. nessa época. O Conforto foi construído em frente aos barracões de alojamento das famílias da área da Laminação. para esse tipo de cultivo. Até meados dos anos cinqüenta. Em compensação.. em boa parte. sólidas e espaçosas. já que não havia desse eletrodoméstico disponível no mercado. não havia feira-livre no Conforto. na área comercial da Vila Santa Cecília. que nascem nas proximidades do Escritório Central da CSN. E à medida que as casas iam sendo erguidas.

É claro que isso não excluía eventuais problemas de relacionamento e seus conflitos. com um único projetor de 16mm. no geral. promoviam-se brincadeiras dançantes e. Av. as ruas 223 e227 abrem caminho para o Eucaliptal. No final do Conforto. na direção sul. que desenvolvia um árduo trabalho missionário para a Igreja Católica. formam-se vários pequenos eixos viários. Morro dos Atrevidos). em sua maioria. tanto na Rua Dois. até meados dos anos cinqüenta. como na Quatro. da professora Araci Guerra Evaristo. o Jardim Ponte Alta e a Volta Redonda na Era Vargas 67 . que era visitada por ele. bairro por bairro. metal ou madeira. que partem da Rua 4 (atualmente. formaram-se pequenas comunidades. missa matutina celebrada pelo padre jesuíta Humberto Dunkel. prevaleciam a amizade e o envolvimento emocional. podiam ser vistas por quem passasse pelas calçadas. a Minerlândia. o Bairro 249. à noite. conhecida como "Dona Ceci". aliás. Essa escola era o grande (e. oferecendo assistência religiosa à população. Aos sábados. muitos deles ainda do cinema mudo. em Volta Redonda. entre essas ruas. As varandas. funcionava um cinema. que exibia filmes antigos. funcionou a Escola Tenente Melo Morais. inevitáveis nesse tipo de convivência. Nas vias transversais. cujos integrantes estreitavam laços de uma crescente solidariedade vicinal. 245 e 249 rompem os caminhos que irão formar o Morro de São Carlos (inicialmente. aos domingos. No Conforto. Nossa Senhora da Conceição) e deixam a Cidade Planejada rumo a áreas "livres": as ruas 207 e 209 dão origem ao Bairro São Lucas. como os seriados de faroeste do Tom Mix. de resto. atualmente um depósito de uma distribuidora de bebidas. Contudo. mobiliadas com mesas e cadeiras de vime. onde. único!) espaço cultural do bairro. Uma vez por semana. e as ruas 243. há um barracão. próprios da vida em comunidade.As casas não possuíam grades e seus jardins eram abertos e entremeados de pequenas alamedas.

e de chapéu de feltro. sisudo. se encontrarem abandonadas pelo governo municipal e completamente desaparelhadas. ninguém discutia a liderança de Djalma de Assis Mello. No entanto. sujeitos. A vida. No Acampamento Central. em 1960. a nordeste da Usina. do Acampamento Central (um bairro pioneiro. e suplente e vereador. "Seu" Djalma. sempre havia um líder para colocar ordem nas coisas. acompanhava o desfile de sua escola.Mangueira. Respeitado na comunidade. Obviamente. da Rua 208. formam um "espaço" imaginário de lazer. do "Eucalipal" (corruptela popular de "eucaliptal"). em cada comunidade. de 1968 a 1972. "Unidos de São Lucas". à ganância dos especuladores imobiliários e à ocupação desordenada do solo. como se costumava dizer. a despeito de. jamais se fantasiava. nos seus primeiros anos de vida. em matéria de equipamentos públicos. pelas diferenças de temperamento e de métodos de ação. caminhando ao lado do grupo. "Escola de Samba Chico Viola". 68 Waldyr Bedê . com o passar do tempo. contido e discreto. Dois deles foram realmente notáveis. cuja área foi posteriormente ocupada pela CSN). em "mangas de camisa". fluía: o carnaval e o futebol seriam os aspectos culturais que lhes permitiriam construir a identidade comunitária de cada grota. composto de barracos de madeira. no entanto. contando com a cooperação quase unânime da comunidade local. embora com o mesmo objetivo: fazer uma escola de samba de bairro desfilar na Rua 14. que se concretiza no leito da própria rua. e a "Escola de Samba Unidos do Acampamento". a principal via do centro comercial da Vila Santa Cecília. constituíram-se comunidades com identidade própria. Djalma de Assis Mello foi suplente de vereador. Nesses grotões. que organizava a escola de samba do bairro. já que não dispõem de quadras ou galpões para os seus ensaios carnavalescos. "Escola de Samba Princesa Isabel". na apresentação principal.

.Volta Redonda na Era Vargas 69 Escola de Samba de Volta Redonda nos anos cinqüenta.

criado. como "Boca da Onça" e do Eucaliptal. Então. conhecida como "Boca da Cobra" e a segunda. inaugurado na Rua 208 (mais tarde. não se pode prescindir da deliciosa lembrança de alguns dos seus botequins e freqüentadores habituais. uma indústria de tubos de aço.C.”. devidamente fantasiado como "diretor de escola de samba". comunicativo e gostava de desfilar. pais de família. eram trabalhadores. liderava a "Unidos de São Lucas". como o “Industrial E. que se serviam das próprias ruas como raias improvisadas.". no Conforto. e o aguerrido “América F. bebedores convictos e consumidores fidelíssimos de "Colar de Pérolas". outros eram "biriteiros" de fim de semana. na Comunidade do pequeno Bairro Rústico. responsável pelo despertar do gosto de muitos moradores do bairro pela "Sétima Arte". enquanto comentavam algum fato acontecido na Usina. outros. de cento e vinte lugares. Alguns. conhecido e acatado "Pai de Santo". "Avenida" e "Santa Cecília". que apenas espaireciam. Jacy de Jesus. futebol e mulheres ou contavam "causos" de sua terra natal. "Praianinha" e outras aguardentes menos bebidas. como o "enjoadíssimo" esquadrão do "Estrela de Ouro F. carnavalesco.C. junto com o pequeníssimo Cine Marly. As grotas próximas ao Bairro do Conforto produziram vários times de futebol. que ainda funciona no bairro. 70 Waldyr Bedê . "Taça de Cristal".C. com o apoio da antiga FORNASA.No Bairro São Lucas. "Imbuhy". Alguns "batiam o ponto" diariamente. entre um e outro gole de pinga. os jogos de malha. Rua Fernando Tedesco). discutiam política. Ainda acerca da vida nas grotas das Ruas 208 e 249 . da dama e dos jogos de cartas. não havia muitas outras opções de lazer. era mais solto. Jacy.”. "Paraty". da Rua 208.a primeira. Afora os cinemas "Nove de Abril". e que funcionou como uma agradável opção de divertimento. que ficavam fora do bairro. de vida mais longa. tornaramse alternativas de entretenimento. na verdade. de existência efêmera. Em sua maioria. além do dominó. também.

Volta Redonda na Era Vargas 1945 .O Conforto visto do Morro da Viúva. 71 . na R. 249.

atual Av. da Conceição.Pres. no Conforto.E. Sra.72 Waldyr Bedê 1967 . .Alunos da E. Na. Roosevelt desfilando na Rua 4.

mais tarde. assim como na forma de administrá-los: uma mistura de postura autoritária com disciplina de caserna. graças ao serviço do "Reembolsável" do Clube de Funcionários da CSN. a recepção da imagem de televisão em Volta Redonda começou a produzir uma lenta. tentou resistir à concorrência da televisão. transformação nos hábitos. de cima a baixo. que se intitulava "funcionário de escritório" e "se dava ares de importância". Aos poucos. As cadeiras nas calçadas ou nas varandas cedem lugar aos sofás e às poltronas estofadas da sala de estar. que vendia receptores aos milhares. em que adultos e crianças se aboletam para render tributo ao novo totem recentemente entronizado nos lares . que se desdobrava. em todo o Brasil.Na segunda metade dos anos cinqüenta. Essa postura é compreensível Volta Redonda na Era Vargas 73 . mas profunda.como ocorreria. artífice ou aprendiz -. em módicas prestações mensais. "arigó de usina".a TV. a vivência comunitária cedeu lugar ao isolamento de cada qual em seu lar. Assim como outros três mil cinemas de todo o Brasil. de "arigó de obra" e. na hierarquia dos canteiros de obras e nas quase cem salas dos barracões do provisório Escritório Central da CSN. de terno e gravata. a exemplo do que afirmara McLuhan. mas acabou por fechar suas portas. costumes e comportamento da população . do bairro do Conforto. Era o começo do fim de uma época. se atirou ao grande projeto de construção da Usina Siderúrgica de Volta Redonda ficavam patentes na mobilização dos recursos materiais e humanos necessários ao empreendimento. As relações do cotidiano e o paternalismo da CSN A urgência e a determinação com que o Estado Novo. a partir de 1941. pejorativamente.não importando se era mestre. diante daquele a quem chamava. também. Mesmo entre esses. algumas das figuras-chave na execução do empreendimento estatal procediam da caserna e aplicavam seu modo peculiar de tratar as pessoas às relações do cotidiano com os empregados da empresa. o Cine "Marly". Ademais. distinguia-se o operário da obra . do burocrata. que "a televisão produz sua própria cultura".

na sua rotina administrativa. constitui uma caricatura do tipo humano representativo dessa cultura burocrática. das práticas do Serviço Público: até mesmo as "Normas de Correspondência e Arquivo". uma transposição. pejorativamente. acompanhara.. para as relações funcionais da empresa.. 14 No jargão típico dessa cultura burocrática. no Carnaval de 1952. toda uma cultura típica de repartição pública do Rio de Janeiro. o então Distrito Federal. provinham do DASP. distante 145 km de Volta Redonda. na operação de um equipamento. o antigo Departamento Administrativo do Serviço Público do governo federal. onde uma eventual ausência. quando flagrados pela "Gestapo15" do Departamento de Pessoal. o "vôo" era a ausência temporária do serventuário. a forma dessas relações burocráticas traduzia o legado de uma postura rançosa daquela sociedade decadente que. 74 Waldyr Bedê . a ponto de os homens usarem ternos (calça. Não obstante o rigor que a Nova Ordem pretendera impor à organização e ao funcionamento da CSN. imortalizada pelo cantor "Blecaute". ainda que parcial.numa sociedade que atribui enorme valor ao vestuário como indicativo de “status” social. embora em escala incomparavelmente menor com os operários da Usina. de fato. sucedia que. a funcionária classificada na letra "O". Em grande medida. essas práticas. seria facilmente notada e reclamada pela equipe de produção. o Regulamento de Pessoal e outros procedimentos de que a CSN se valia. de cuja influência Volta Redonda não escapou ilesa. em plena canícula de um país tropical. pela Estrada de Ferro Central do Brasil. Ainda assim. no Império e na República Velha. É bem verdade que os chamados "vôos14" eram severamente punidos. no tocante aos escritórios. 15 GESTAPO: abreviatura de "Geheime Staats Polizei" ("Polícia de Segurança do Estado" da Alemanha nazista) e nome adotado pelos empregados da CSN para designar. sobrevivera agarrada às benesses do poder oficial. "Maria Candelária". Houve. os fiscais do Departamento de Pessoal. da repartição em que trabalhava. uma vigarista. colete e paletó) de lã inglesa. também. tipicamente carioca. ocorriam com funcionários do Escritório Central.

75 .Volta Redonda na Era Vargas 07/10/1954: Um dia de rotina no velho Escritório Central.

um certo "aplomb". em tacape. "a Companhia é uma mãe". nas mãos de um "arigó" enfurecido. repleto de palavrões. não raro. de viés autoritário.Essa cultura incluía. a segunda geração de empregados era certamente mais informada. uma presunção.mesmo quando no exercício de funções de nível hierárquico inexpressivo . já então mais arrogante. era uma possibilidade que nenhum chefe sensato descartaria. tornava-se quase que uma regra geral e parecia reproduzir. Essa atitude. Ademais. porque exercido em nome da novíssima "doutrina da segurança nacional". na arrogância contida. A despeito de tudo. não fosse a recidiva azeitada pelos "Anos de Chumbo" da Ditadura Militar. compreensível para os costumes da época. Mas o padrão governamental de relações trabalhistas da Ditadura Vargas prosseguia intacto na empresa 76 Waldyr Bedê . descontraído e. essa atitude era mais atenuada. no interior da Usina. o mandonismo típico dos antigos senhores rurais. quando a Usina entrou em funcionamento. em especial e com mais intensidade. pelo linguajar mais solto. Na "Operação" da Usina. com que as pessoas se revelavam. nos serviços de escritório. que justificaria todos os excessos e extrapolaria todos os limites. no trato com subalternos. ocuparam todos os postos possíveis e fizeram recrudescer o mandonismo. Contudo. no âmbito inteiramente novo do mundo urbano-industrial. Quando chegou a sua vez de entrar em cena. também. repentinamente.e que ocorria. o que poderia ser observado. o risco de uma ferramenta transformar-se. Em 1946. mais crítica e menos atávica em relação à CSN. inclusive. Esse padrão de comportamento. o Estado Novo se extinguira com a instalação da democracia formal estabelecida pela Constituição de 1946. no dizer dos seus empregados. Daí um certo respeito pelo outro. ao serem guindadas a posições de chefia . perduraria quase que somente pelo tempo em que a primeira geração de empregados permanece na Companhia. os militares ocuparam a estatal. embora também fizesse parte das relações do cotidiano de trabalho.

pão e açúcar. Volta Redonda na Era Vargas 77 . aquele padrão criado pelo Estado Novo. pela assistência médicohospitalar-odontológica. Não obstante isso. de aparelhos de televisão. e terminando pela administração de conflitos conjugais. ou levar a família para um almoço domingueiro no restaurante do sofisticado Hotel Bela Vista. nem trocar uma porta de entrada ou uma simples esquadria de janela. Durante a Segunda Guerra Mundial. mudar a cor da pintura externa da sua moradia. porém. Agora. sempre com a intervenção mediadora e de aconselhamento de assistentes e visitadoras sociais. Nem tudo.estatal. a CSN lhe assegurava uma reforma geral. mais tarde. através do SESI (Serviço Social da Indústria). com o racionamento de gêneros essenciais dela decorrentes. aves. o empregado da CSN não poderia. começava na distribuição gratuita de brinquedos aos filhos dos empregados. O "facilitário" da empresa compreendia. pela farmácia do Hospital da CSN. Além de tudo. eram flores. sem gastar muito e com direito a desconto em folha de pagamento. de postos de venda de gêneros alimentícios. a CSN gerira a distribuição de carne. passando pela instalação. sim. com pintura externa e interna (esta. por exemplo. familiares e vicinais. pela assistência médica pré-natal e materno-infantil. com as cores de agrado do inquilino). pelo gerenciamento da distribuição de moradias. que incluía uma política de assistência social fortemente paternalista. a preços para além de módicos. Embora dispusesse de uma casa. lingüiças e leitoas. ovos. cujo aluguel era simbólico. a preços reduzidos. o funcionário ainda poderia adquirir. sempre que a estatal decidisse promover o aumento do seu capital. a aquisição financiada de ações da CSN pelos seus serventuários. na Fazenda Santa Cecília: desfrutar do serviço reembolsável para a aquisição de bicicletas e. também. na época do Natal. e na de leite no Centro de Puericultura.

. à esquerda e Bairro Sessenta. acima à esquerda. Cecília.78 Waldyr Bedê Quatro bairros: Laranjal. acima à direita. Monte Castelo. abaixo. abaixo à direita. Vila Sta.

No final dos anos cinqüenta. Além do mais. despejos de inquilinos e filas intermináveis de candidatos à moradia. como também se isentaria das despesas de manutenção e do pagamento do antigo Imposto Predial (hoje. conseguiu sensibilizar a diretoria da empresa para a possibilidade de venda das casas aos seus empregados. ainda. op. de cunho marcadamente liberal e de total ruptura com o paternalismo estatal. Essa atitude configurava uma nova orientação da empresa. procurou demonstrar que além da conveniência de manter uma elevada política social empresarial. uma carta-sugestão do engenheiro José Domingos de Andrade de Azevedo.. da Superintendência de Custos da CSN. Sessenta. cit. A questão da venda das casas arrastou-se por toda a década de sessenta. cessões. as ruas dos bairros operários (Jardim Paraíba. a CSN teria consideráveis vantagens financeiras com a alienação daqueles imóveis. e publicado na revista norte-americana "Seleções". IPTU). tarefas das mais desgastantes dentre os procedimentos paternalistas da empresa. desde 1956. ainda. para sempre. não obstante o empenho do Sindicato dos Metalúrgicos. se livraria. Alberto Lopes (op. da administração de ocupações. iniciada em 1968. ocorrida numa vila operária de uma empresa norte-americana. resolvendo-se somente a partir de março de 1973 (Lopes. O engenheiro Domingos.. permutas. valendo-se de um relato de situação semelhante. 171).Por muitos anos. transformando-se em mais um motivo de sofrimento e sacrifício para os trabalhadores e suas famílias. Monte Castelo. cit. segundo informa. com a decisão da CSN de se desfazer de quase quatro mil imóveis residenciais. Volta Redonda na Era Vargas 79 . Somente as ruas do elegante bairro do Laranjal e as da Vila Santa Cecília eram calçadas com paralelepípedos. Rústico e Conforto) permaneceram sem pavimentação. 117). que batalhara por uma solução.

não excluía. no momento em que ela explicava o seu trabalho ao criador de Volta Redonda. A cena revela um interesse mais do que protocolar do Velho Caudilho pelo serviço que lhe era exibido. de "viralatas". o elevado respeito que seus colegas de trabalho tributavam a essas mulheres no trato cotidiano. A Usina da CSN. pejorativa e de mau gosto. as áreas de trabalho e de circulação da mulher eram restritas e situadas no extremo oeste da Usina. os machistas ficavam boquiabertos com a competência daquela quase uma centena de mulheres fazendo um trabalho tão rápido. As "Classificadoras de Folhas de Flandres" . o mais nobre e mais caro dos produtos siderúrgicos -. contudo. que hoje leva seu nome. Ademais. pela vulgaridade machista então reinante. Rendidos a essa constatação. garantindo a qualidade das latas produzidas pela CSN. elas já estavam ali para classificá-las. o que a transforma na mão de obra preferida para a classificação e seleção de folhas de flandres. 80 Waldyr Bedê . um termo a que reagiam com justificada indignação.sua nomenclatura oficial na CSN . na parte do edifício da Laminação destinada à expedição final das folhas de Flandres. em outras usinas que produziam esse artigo . Não obstante sua indispensável presença naquele universo compreensivelmente (para a época) machista. Dificilmente algum empregado da Companhia dos anos cinqüenta imaginaria uma mulher trabalhando no interior da Usina que não fosse do setor de Classificação de Folhas de Flandres. Essa denominação.Breve notícia sobre o trabalho feminino na Usina de Aço. reconheciam que a mulher possui uma sensibilidade tátil muito mais apurada do que a masculina. o presidente Vargas foi fotografado ao lado de uma Classificadora de Folhas de Flandres. elas também eram pioneiras: desde que a primeira chapa saíra do primitivo estanhamento por imersão.por sinal. E isso somente porque. que nem sempre os olhos humanos acompanhavam.eram chamadas. Em sua derradeira visita à Usina de Aço. era masculina. a despeito do nome feminino.

como: futebol. Atlético Mineiro e Tupy de Juiz de Fora. pela sua instalação. foi instituída a "Girafa". jornais do Rio e São Paulo estamparam publicidade como a de uma empresa imobiliária que anunciava: 'Você também não acreditava em Volta Redonda. Fluminense. como: Botafogo. sendo a CSN pioneira na adoção desta medida no país. participação dos empregados nos lucros da empresa. A CSN começa a abastecer de trilhos o parque ferroviário nacional Inauguração do Hospital da CSN. Raulino prestigiava todas as promoções de eventos esportivos. ainda sob sua gestão. Vasco da Gama. de abril de 1991. Em sua gestão. responsabilizando-se pela construção da cidade que surgia ao redor da usina e que. Flamengo. Em sua administração. que a administrou por nove anos. recebeu grandes clubes do Brasil. Inauguração dos Altos-Fornos 1 e 2. passa de 12 mil para 40 mil habitantes. de 1945 a 1954. E agora?" Amante dos esportes. Usina opera a plena carga. o Brasil reduz drasticamente as importações de aço.Esportes. corridas a pé e de bicicletas. comemorativo do cinqüentenário da CSN. assim se referiu à gestão do general Raulino: "Seu trabalho ultrapassou os simples limites da fábrica. basquete. lazer e entretenimento A CSN cresceu sob a presidência do general Sylvio Raulino de Oliveira. São Paulo. vôlei. O periódico "Nove de Abril". O estádio que leva seu nome. Promoveu a construção de moradias e toda a infraestrutura de serviços. com 140 leitos. Nessa época. Volta Redonda na Era Vargas 81 . Construção e inauguração do Recreio de Trabalhador e do Estádio Sylvio Raulino.

O gen.1954 . 82 Waldyr Bedê . Raulino mostra a Vargas uma máquina na área da Laminação.

à direita.1956 . num torneio de voleibol no Clube Umuarama.Gen Raulino. Volta Redonda na Era Vargas 83 .

de vôlei e de basquete. vez por outra. e ainda produzia 84 Waldyr Bedê . com os astros Tônia Carrero. a realização dos objetivos da empresa. com ênfase ao futebol amador e ao basquetebol. avulta o nome de Libiano Abiatti. um complexo esportivo magnífico para a época. que levou uma multidão ao ginásio poliesportivo do Recreio do Trabalhador. na Cidade. É bem verdade que. técnico e dirigente dessa modalidade. já que. Benevenuto dos Santos Neto e Gilson Carraro de Paula. como "Natal na Praça". em busca de distração. de forma altamente produtiva. fora os cinemas e as eventuais competições esportivas amadoras. acolheu a mundialmente famosa equipe de basquete do "Harlem Globe Trotters". Além disso. fazendo com que o basquetebol de Volta Redonda alcançasse renome nacional. muitas competições atléticas. que se notabilizou como atleta. No decorrer dos anos cinqüenta e. tendo funcionários da CSN como sócios.um órgão normativo que mereceu considerável apoio da CSN e promoveu. em 1954. por boa parte da década seguinte.O Recreio do Trabalhador "Getúlio Vargas". Muitas figuras categorizadas da hierarquia funcional da empresa destacaram-se na gestão da LDVR. Especificamente no basquetebol. não havia aonde ir. de natação. o GACEMSS . em matéria de lazer e entretenimento. de origem paulista.Grêmio Artístico e Cultural Edmundo de Macedo Soares e Silva -. realizava recitais e concertos de música erudita para a sua seleta clientela. foram promovidas pela Liga de Desportos de Volta Redonda . ainda. muitos moradores de Volta Redonda queixavam-se da falta de opções. químico. Adolfo Celli e Paulo Autran. Paralelamente. que aqui jogou contra uma seleção do Hawaii. entre elas: Osório Leme Monteiro. nos anos cinqüenta e sessenta. com Paulo Goulart e Nicette Bruno. também promovia a vinda de peças teatrais do Rio de Janeiro. com a Companhia Tonia-Celli-Autran. como foi o caso da peça "Um Deus Dormiu Lá em Casa". no campo dos esportes. a Superintendência de Serviços Sociais da CSN promovia a vinda de algum espetáculo teatral do Rio de Janeiro.

Hoje. em viagens mensais. Nas noites de sábado. o Instituto de Educação Professor Manuel Marinho o mantém em funcionamento. foi. entregando suas encomendas periódicas de livros aos assinantes da então famosa "Coleção Saraiva". Contudo. em Volta Redonda. no Escritório Central. Ambas as peças foram realizadas no auditório do extinto Grupo Escolar "Trajano de Medeiros" (atualmente. Por muitos anos e graças à sua excelente localização. desenvolvia-se um comércio livreiro informal. não alcançavam a população. de mascates. face às limitadas condições de espaço e de divulgação. que traziam livros do Rio de Janeiro e de São Paulo. com equipamento de 16mm.o GACEMSS apresentava as sessões do seu Cinema de Arte. cujo sucesso mais estrondoso foi "O Tempo e os Conways". Benedito Amaral de Matos. esses mercadores da cultura transitavam livremente. no centro da Cidade. Volta Redonda na Era Vargas 85 . com expoentes como Maria Thereza Dutra Ponchio e Roberto Sanchez. Instituto de Educação Professor Manuel Marinho). não havia bibliotecas públicas nem livrarias em Volta Redonda. Nos antigos barracões do velho Escritório Central da CSN. no auditório da EPTC . montou e dirigiu vários espetáculos teatrais de muito boa qualidade. Essa iniciativa garantia o acesso aos clássicos da Literatura a um bom número de empregados da empresa. onde se vendia de tudo (de doces em conserva a roupas "prêt-à-porter"). sem dúvida.um bom teatro amador. essas alternativas. que produziu.Escola Técnica Pandiá Calógeras . prestando um relevante serviço à população. Um dos pioneiros e grandes responsáveis pelo desenvolvimento do teatro amador. exceto a bem montada Biblioteca da CSN. No começo dos anos cinqüenta. Não obstante. sempre com excelentes filmes. o auditório do Grupo Escolar Trajano de Medeiros tornou-se um dos mais concorridos espaços culturais de que se dispunha. restringindo-se a um público específico de associados.

hoje colégio Manoel Marinho (19/10/1945) Waldyr Bedê .86 Antigo colégio Trajano de Medeiros.

87 .Volta Redonda na Era Vargas 1944 .Biblioteca da CSN no antigo Escritório Central.

perto do velho Escritório Central. depois cognominado o "Coroa Barra Limpa". no Acampamento Central. sem prejuízo da música clássica. química. nas peças de teatro. no salão do Aero Clube de Volta Redonda. durante o Carnaval. a Rádio Siderúrgica caracterizouse. Na área privada. em assuntos de interesse específico da empresa: siderurgia. num e noutro. Nos anos cinqüenta. e. economia. mais tarde. 88 Waldyr Bedê . energia. mecânica. e com a valorização da educação e da cultura. Antônio Marques. Um aspecto cultural expressivo consistiu na inauguração e funcionamento da Rádio Siderúrgica Nacional. pouco tempo depois. Embora se tratasse de uma emissora a serviço exclusivo de uma empresa industrial. arquitetura etc. custos. passam a proporcionar aos trabalhadores e suas famílias.E". shows e muitas brincadeiras de auditório. O artista mais popular. o GACEMSS começava a desenvolver uma biblioteca para uso dos seus associados. desde o seu início. destinado à elite de empregados da empresa e suas famílias. especializada. como era chamado). no Conforto e. o pioneiro Hotel Bela Vista. que possuía. seguindo-se o Clube Umuarama. o Clube Náutico Recreativo Santa Cecília. que atendia a um segmento dessa mesma categoria. era um veterano servidor da CSN. cedia os seus salões para os bailes do Clube dos Funcionários da CSN. também. atualmente arrendado à cadeia Luxor de hotéis. engenharia. sob a direção do jornalista Nazer Feres Themes. seu espaço. Os bailes de cunho popular aconteciam no Salão do antigo Refeitório dos Engenheiros (o "R. nos esquetes e nas domingueiras dançantes.A CSN mantinha uma notável biblioteca. O entretenimento e o lazer tinham suas versões populares nos “shows”. de valorização da música popular brasileira. mineralogia. por uma programação de bom gosto. que o antigo Círculo Operário de Volta Redonda. todavia. que promovia programas de calouros.

Volta Redonda na Era Vargas Equipe de rádio-show da ZYP-26 . 89 .Rádio Siderúrgica Nacional.

E. .90 Waldyr Bedê 1942 .O antigo "R.". Refeitório dos Engenheiros.

tratava-se de uma zona de baixo meretrício. no extremo leste da Cidade. de 1950 a 1952. No cotidiano. ao mesmo tempo em que o volume de trabalho das assistentes e visitadoras sociais se multiplicava. 8/ 16h e 16/24h) diárias de serviço. o que fazia da vida sexual feminina. passou a atingir. mantinha um caráter conservador. seu uso era pouco disseminado. naquela península do Extremo Oriente. com relação a valores e sanções sociais. no local conhecido como "Coréia". com todos os riscos que daí resultavam. no sistema de revesamento de turnos para jornadas de oito horas (0/8h. aliada a condições de insalubridade e de poluição (com óleos. também. fora da área urbana da CSN. Para os homens. Essa rotina. Volta Redonda na Era Vargas 91 . bem como a tabus culturais.As transformações sócio-culturais A sociedade de Volta Redonda. começou a produzir seus estragos. Embora. onde se destacavam os "points" dessa especialidade: o Hotel São Paulo e a boate da Neném. já existissem contraceptivos como a camisinha. As dispensas médicas cresciam em números preocupantes. situadas em Barra Mansa. poeira e barulho). as suas condições mentais e emocionais. gases. além de afetar a saúde física do trabalhor. em razão dos desajustamentos conjugais e familiares. Nos anos cinqüenta. eram poucas as mulheres que ousavam vestir uma calça comprida (por exemplo: nas portas dos templos católicos. principalmente nas camadas sociais mais pobres. marcada por constante violência e por uma freqüência da pior espécie. A prostituição feminina em Volta Redonda desenvolveu-se com a primeira expansão da Usina. a alternativa concentrava-se nas visitas periódicas às casas de tolerância. a rotina estressante do trabalho na Usina. uma exceção. numa alusão à guerra travada. afixavam-se avisos com esta advertência: "A mulher vestida de homem é abominável aos olhos de Deus"). independentemente de seus estamentos. Ainda assim. em meados dos anos cinqüenta. antes do casamento. como o da virgindade das mulheres até o casamento.

mas carregam consigo a contrapartida das frustrações pela eventualidade. com toda a intensidade. mas não necessariamente de doenças segundo a abalizada opinião de vários médicos da Cidade. sempre plausível. hoje em dia. por um outro simples passeio. Não massacrada. além de psicólogos e terapeutas. ao final dos anos cinqüenta. O resultado disso tudo pode ser constatado. e até mensurado. o elevado consumo de bebidas alcoólicas. a existência de uma sociedade enferma. em cujos corredores se amontoam médicos de todas as especialidades. seria suficiente para constatar a impressionante quantidade de bares e botequins em funcionamento na Cidade. ouvidos pelo autor. aspirações.Um simples passeio pelos bairros de Volta Redonda. chegando mesmo a desagregar algumas delas. Haveria uma carga de desajuste psicossocial. em pouco tempo. ao longo dos anos. mas fortemente pressionada por um novo tipo de vida: essa nova sociedade. que dispensaria qualquer preocupação com pesquisa no cadastro de firmas da Prefeitura. e que afetou a vida de muitas famílias. como a nossa. já indicava.como se verifica no sistema capitalista. Grosso modo. de necessidades artificialmente criadas . agregou àquelas necessidades o mais sedutor objeto de desejo da maioria das pessoas: o automóvel. uma sociedade de consumo. a presença de uma sociedade repleta de doentes. típicos de uma sociedade de consumo. que se teria acumulado. Obviamente. apresentava. circunstância que. 92 Waldyr Bedê . associado ao uso massivo de tranqüilizantes e de outras drogas. Eles não estão apenas disputando fatias de uma numerosa clientela: ambos assinalam. como se sabe. ao nosso "homo volta-redondensis". de objetivos e metas não alcançados. de caráter urbano-industrial. O advento dos "Anos Dourados". vive de anseios. ao centro da Cidade. a partir. transformou o comércio de distribuição de bebidas numa das mais prósperas atividades econômicas do Município. novos valores. desejos e ambições que a emulam e a tocam para frente. onde o leitor verificará a profusão de clínicas e de consultórios. dos tempos de Juscelino Kubistchek.

essa geração não alimentava um vínculo com a empresa semelhante àquele até então mantido pelos seus pais. Embora sob forte influência paterna. É claro que esses jovens ostentavam um grande orgulho em trabalhar na CSN. Sua relação com a Companhia era menos emocional e mais prática.Ao final dos anos cinqüenta. Volta Redonda na Era Vargas 93 . Nem por isso. entrava em atividade a segunda geração de trabalhadores da Usina de Volta Redonda. seria menos vulnerável aos efeitos negativos das demandas e do jogo jogado por esse tipo de sociedade de consumo. Esse novo trabalhador receberia uma longa e bem cuidada formação profissional. seria mais letrado e disporia de muito mais informação do que a geração que o precedera. se tornaria mais crítico com respeito a sua vida profissional e com relação a essa nova sociedade urbano-industrial de que fazia parte. Por conseguinte. nem arrancaram tábuas das formas de concreto dos grandes edifícios construídos na Usina. mas não puseram os pés no barro.

94 Waldyr Bedê .

As escolas resumiam-se nos excelentes Grupos Escolares "Barão de Mauá" e "Trajano de Medeiros" (hoje. No processo da emancipação política de Volta Redonda. cujo escopo abrange a formação social. autor da lei de autonomia municipal de Volta Redonda. culturais e comportamentais de outros personagens da história da Cidade: os homens e mulheres comuns que a construíram. em que pontifica a figura do então deputado Vasconcelos Torres. Santa Rita e São João permaneciam abandonados. Desde o início dos anos cinqüenta. alguns políticos locais já discutiam a idéia da emancipação de Volta Redonda. como Niterói. mantidos pelo Estado do Rio de Janeiro. Retiro. o cotidiano. então. as relações sociais. Instituto de Educação "Professor Manuel Marinho"). quando se comparava o volume dos tributos arrecadados em Volta Redonda. pelo descaso a que vinha sendo relegado o antigo 8º Distrito. A insatisfação crescia ainda mais. Mas que fique. Estavam motivados. este breve registro da emancipação política de Volta Redonda. no transcurso do Qüinquagésimo Aniversário do Município. tão ou mais importante do que a luta aberta travada no plenário da Assembléia Legislativa fluminense. Volta Redonda na Era Vargas 95 . por força de sua pujança industrial. com a pobreza das verbas que lhe eram destinadas para eventuais benfeitorias e obras públicas. sobretudo. onde se faziam mínimos os investimentos de interesse público que o Município de Barra Mansa deveria realizar. saneamento básico ou iluminação pública. foi o trabalho realizado nos bastidores. sem calçamento.A EMANCIPAÇÃO POLÍTICA DE VOLTA REDONDA A abordagem detalhada dos lances que movimentaram o processo de emancipação política de Volta Redonda não constitui objeto prioritário desta obra. Os poucos bairros existentes.

96 Waldyr Bedê Colégio Barão de Mauá .

músico e compositor (autor da música do Hino Oficial de Volta Redonda). Norival de Freitas. jornalista. comerciante. Genolfo Afonso. Edmundo Rodrigues Campello e Carlos Soares Maia. Wilson de Paiva (depois vice-prefeito de Volta Redonda). O primeiro participava ativamente da vida política de Volta Redonda. levava uma vida social muito discreta. Alkindar Cândido da Costa. o segundo Sylvio fora vencedor do 1º concurso nacional de filatelia para a escolha do selo comemorativo do Plano de Expansão da CSN para 1 milhão de toneladas de aço. Chefe da Coletoria Estadual em Volta Redonda. um dedicado filatelista e um dos fundadores do Clube Foto-filatélico-numismático de Volta Redonda). também. O segundo. com a participação entusiástica de vários cidadãos. Aristoclides Ribeiro (conhecido como o "Ary da Farmácia"). Wladyr de Castro Ferraz. juiz de paz em Volta Redonda. jornalista. é criado o Centro Cívico Pró-Emancipação Política de Volta Redonda. Jayme de Sousa Martins (notável educador). Contudo. O segundo Sylvio era. médico e subdelegado de polícia do Distrito. César Candido de Lemos (segundo prefeito de Volta Redonda). João Paulo Pio de Abreu. seu colega e sucessor nessa repartição pública. despachante oficial. político.Em 1952. mais tarde. advogado e professor de história. cujos nomes a história deve honrar: Lucas Evangelista Teixeira Franco. Sebastião Rufino Köeller. funcionário da CSN. Eduardo Dutra de Morais. Orsina Prado de Castro (primeira mulher eleita à Câmara Municipal de Volta Redonda). funcionário da CSN. Jamil Wadih Ryskalla. funcionário da CSN. Heitor Leite Franco. José de Paiva Laffitte cujo nome quase sempre é omitido como um dos obreiros da Emancipação -. Mario Ferreira Netto. em 1954. com esse nome. embora membro da Maçonaria. José Botelho de Athayde. funcionário da CSN. Miguel Fonseca Rêgo. Adauto de Oliveira. Nery Miglioli. Sylvio Fernandes de Oliveira. em "Volta Redonda: Ontem e Hoje" . Sávio de Almeida Gama (primeiro prefeito de Volta Redonda). poeta e genealogista. ambos desenhistas. Volta Redonda na Era Vargas 97 . membro ativo da Maçonaria e.fonte bibliográfica obrigatória para os pesquisadores da história da Cidade do Aço . Sinval Santos. Celso Fortes de Castro. poeta e autor da letra do Hino Oficial de Volta Redonda (havia dois funcionários na CSN.inclui os nomes de: José Lino Solares Gomes.

recebe os cumprimentos de Sylvestre Mesquita Rezende por sua vitória no concurso filatélico nacional dos Correios sobre a expansão da CSN.98 Waldyr Bedê 1954 . .Sylvio Fernandes de Oliveira. à direita.

mais tarde. o Zico. Gutemberg Perrone. Os três últimos seriam eleitos vereadores.Volta Redonda na Era Vargas 1957: Sessão da Câmara Municipal. Arnaldo Corrêa. e Guilherme Duque Koslovsky. Dermeval Pereira da Silva. Jayme de Souza Martins. Lúcio de Andrade. 99 . vice-prefeito. 3ª fila: Prof. Eng. presidente do PTB. Da esquerda p/direita: o médico Dr. José Marques Simões. gerente do Cine Avenida. Miguel Fonseca Rêgo. da Fornasa e Paulo de Carvalho da White Martins. Assessor do prefeito. Coletor Estadual. 2ª fila: Álvaro Guedes. Wilson de Paiva. Agente do IAPI.

pelos seus colegas. pareciam fazer reviver a efervescência dos debates e das conspirações maçônicas. entre 1953 e 1955. devagar. como: Thomas Jefferson. no âmbito da Maçonaria. que fizeram a roda da fortuna girar a favor do novo município a ser criado. ainda adolescente. na seda/ e no perfume. aquele homem de baixa estatura. carinhosamente. hirsuto. As confidências. objetivando divulgar a luta pela 16 O autor. a bem dizer. em 1822.sempre envolvida nas lutas libertárias em todo o Mundo./ Aqui amortalhei. José Bonifácio de Andrada. mediante um labor infatigável. então. que produzia beleza até mesmo com temas tristes. cujas extensão e profundidade dificilmente serão de todo divulgadas. que produziram a Independência do Brasil. por causa de suas meticulosas pesquisas genealógicas sobre as famílias fluminenses. Simón Bolívar. Apelidado. . no corre-corre do seu trabalho burocrático. a fim de alinhavar um artigo. Gonçalves Ledo. um de seus quadros mais atuantes. nestes paus cruzados. chamado "Astória". nas campanhas de independência das colônias européias das Américas. Benjamin Franklin.. decisiva. D. como mensageiro de escritório. Bernardo O'Higgins. 100 Waldyr Bedê 17 ./ que uma flor está nascendo:/ é o sorriso que vem vindo/ alegrar o meu Finados".. verdadeira for miga. os conciliábulos e as negociações que envolviam as figuras volta-redondenses mais preeminentes.o "Revérbero Autonomista Volta-redondense" -.vive. compor um poema 17 ou simplesmente diagramar o tablóide que ele criara . José de San Martin. em especial. A maioria dos nomes já citados neste capítulo compunha seu rol de "pedreiros livres". fumando um cigarro atrás do outro . entre uma e outra tarefa de um setor de serviços muito movimentado. na história da campanha emancipacionista de Volta Redonda. de cabelo liso gomalinado e bigode espesso. tudo que bendigo. trabalhou na Seção de Custo das Balanças da CSN. Athayde tornou-se um batalhador incansável da causa da Emancipação. à Groucho Marx. em que despontam figuras ilustres dessa fraternidade.um destronca-peitos fortíssimo. Athayde foi um poeta de fina sensibilidade. Responsável pela Seção de Custo das Balanças (rodoviárias e ferroviárias) da CSN16. Pedro I .A Maçonaria . Todavia./Repara. seu grande papel e sua participação. de "Barão". diretamente com José Botelho de Athayde. sempre encontrava uma nesga de tempo. como é o caso do seu poema "Finados": "Caminhai. amigo/ por estas sombrias alamedas. foi José Botelho de Athayde.

mas barulhento jornal. Outra figura notável da campanha foi o advogado Jamil Wadih Ryskalla. Ryskalla é o único dos Emancipadores que ainda está vivo e pôde participar das recentes comemorações do cinqüentenário do Município de Volta Redonda.um Labirinto de Creta. em 1821 e 1822 -. na defesa da emancipação do Distrito de Volta Redonda. quando estreou na vereança. baratas. Depois. e se viu no meio do furacão. Mas foi com ele que José Botelho de Athayde contribuiu para construir a emancipação políticoadministrativa de Volta Redonda. que se licenciara "por motivo de saúde". em Barra Mansa. O "Revérbero Autonomista Volta-redondense . o desempenho parlamentar de Jamil Ryskalla. onde era impresso o pequeno. Uma das funções deste historiador consistia em levar a matéria elaborada por Athayde para uma gráfica. pulgas e até cobras. cumpria-lhe a missão de distribuir o tablóide pelas dezenas de salas do primeiro grande Escritório Central da CSN .cujo nome fora inspirado a Athayde pelo valente jornal "Revérbero Constitucional Fluminense". justo quando se fazia mais acesa a discussão da autonomia política de Volta Redonda. de Joaquim Gonçalves Ledo e Januário da Cunha Barbosa. Adolescente ainda. aranhas caranguejeiras. aliás. este autor pôde testemunhar. que defendera a independência do Brasil. com corredores avarandados. um tribuno dos mais brilhantes.emancipação da Cidade do Aço. comparecendo a sessões da Câmara Municipal de Barra Mansa. Volta Redonda na Era Vargas 101 . Eleito suplente de vereador à Câmara Municipal de Barra Mansa. escorpiões. feito de intermináveis barracões de madeira. a exemplo do seu antecessor. teve vida efêmera. Ryskalla assumiu o mandato em face do afastamento temporário de Bernardo Bemfeito. cujos porões constituíam imenso repositório de ratos. O Dr.

e deixa ao seu sucessor uma prefeitura completamente organizada. 102 Waldyr Bedê . A competência demonstrada em sua primeira gestão iria assegurar-lhe um segundo mandato como prefeito de Volta Redonda. na árdua tarefa de estruturar. empresário e fazendeiro. no recéminaugurado Palácio "Dezessete de Julho". elege-se prefeito da Cidade. Realiza uma administração admirável. em 1966. organizar e fazer funcionar os serviços municipais. inaugura-se o Município de Volta Redonda e Sávio Gama. no gabinete político. e do professor Jayme de Souza Martins. Sávio Gama conta com a assessoria do contador Olívio José dos Santos. não obstante as enormes dificuldades com que se depara. no Departamento de Fazenda.Em 1955.

durante o Estado Novo. A tutela do Estado sobre o sindicato produz a figura do "pelego" sindical . neste ponto.os "cristais" . .. Volta Redonda na Era Vargas 103 . representando o Estado) e o que o autor chama de"homo volta-redondensis" (uma encarnação do novo homem brasileiro idealizado pelo Estado Novo).do tipo "pela paz social no Brasil". calcada em "slogans" . fazer o resgate e a análise .mais do que em idéias. embora estas não estejam. antigo dirigente do sindicalismo brasileiro.sob a égide do 18 Campista. O pelego "clássico" seria o promotor. descartadas.A LUTA SINDICAL DOS METALÚRGICOS EM VOLTA REDONDA. no período compreendido entre 1945(fundação do Sindicato dos Metalúrgicos) e 1964(ano do golpe militar e da intervenção do Sindicato pela Ditadura Militar). Os primeiros momentos do Sindicato dos Metalúrgicos Cabe.. segundo a definição de Campista18.necessária para a compreensão daquele momento histórico . de todo."um feltro entre cristais". É fato por demais estudado que o sindicalismo brasileiro. Ary.da atuação das lideranças sindicais nas relações entre o empreendimento industrial (neste contexto. o pretenso agente da conciliação entre o Capital e o Trabalho . torna-se um apêndice do Ministério do Trabalho e uma ponta de lança da realização da ideologia do regime. desde a época do Estado Novo.

posteriormente aquinhoado com um cartório. abandona a CSN e a militância. os dirigentes que se lhes seguem. José Cláudio Alves. Walter Millen da Silva. com uma chapa de composição ideologicamente esdrúxula. em 1955.artificialmente inflada pelos donos dos meios de produção. o general Sylvio Raulino de Oliveira. empreendem a conquista de uma série de direitos trabalhistas que não vinham sendo cumpridos pela empresa . Alan Cruz.produz um descontentamento geral em todo o país. cujo líder.Estado. é de corte populista. durante algum tempo. como o já citado "feltro entre cristais" ou um pelego de pano colocado entre a montaria e a sela.. e por dois socialistas: José Bonifácio de Castro e Nestor Lima. com o intuito de desestabilizar o governo de Vargas .. os veteranos ainda estão trabalhando na Usina. à frente do Sindicato. a Oposição. com a qual mantêm uma relação de criador com a criatura. refletindo o descontentamento generalizado da categoria. Alan Cruz. 104 Waldyr Bedê . Seu sucessor. mais tarde.com o apoio integral do Ministério do Trabalho. não consegue manter-se na liderança da classe. interpondo-se entre a empresa e os trabalhadores que representa. a Oposição vence as eleições sindicais. Todavia.não militam nas hostes da esquerda. de José Cláudio Alves e impondo uma direção exclusivamente de esquerda ao Sindicato. A carestia do custo de vida . cujo domínio sobre os sindicatos brasileiros estende-se para além do fim do Estado Novo (1945) e encontra o seu ocaso com a ascensão das esquerdas à liderança do movimento sindical. pois consideram dever lealdade à CSN e proteção ao patrimônio da empresa. na Fazenda Santa Cecília. Todavia. com uma política conciliatória. sendo derrotada nas eleições sindicais de 1957 por um grupo de militantes sindicais . Assim. pela primeira vez. que integram a então denominada "Chapa Independência". jamais cria qualquer embaraço à Siderúrgica. no segundo governo de Vargas. com o qual negocia as pendências trabalhistas. Esse comportamento conciliador é tolerado pelos trabalhadores. a inflação já corrói os salários e as vantagens anteriormente conquistadas.muitos dos quais vinculados ao Partido Trabalhista Brasileiro -. Em 1953. Em Volta Redonda. Walter Millen da Silva e Wôlmer de Andrade. prossegue na direção do Sindicato. Othon Reis Fernandes. no segundo governo de Vargas (1951/1954). por não haver reivindicação de monta a demandar maior mobilização da categoria. de caráter marcadamente conciliador. liderada por um ex-integralista. os fundadores do Sindicato dos Metalúrgicos sob a liderança de José Vigilato Peixoto e José Calaça Gomes . Todavia. que o torna habitué da residência do então presidente da CSN. Sua gestão. para não machucar o lombo do animal. mesmo descartando-se.

Superintendente de Serviços Sociais da CSN. diretores do Sindicato dos Metalúrgicos.CSN e Sindicato em conversações. Diretor da CSN. e Ferdinando Garcia Pereira. José Pereira. Da esquerda para a direita: Paulo Mendes. 105 . reunidos no velho Escritório Central da empresa. Wôlmer de Andrade e Walter Millen da Silva.Volta Redonda na Era Vargas 1954 .

diferente daquela de origem paterna .. administrado pela irmandade das "Escravas Concepcionistas do Sagrado Coração de Jesus". a Cidade de Volta Redonda. Sem poder ocupar as moradias da empresa. ao lado do qual cresce. sujeitando o infrator à demissão por justa causa.como era chamada a parte da Vila de Santo Antônio. Na margem esquerda do rio Paraíba do Sul. erguem uma nova cidade.o Decreto-lei nº 9. a CSN inicia uma nova fase de expansão de seu parque produtivo.. do tempo do Estado Novo . Com o Alto-Forno nº 2. Logo que a CSN entra em funcionamento e seu quadro de empregados se estabiliza. em anos de autoritarismo. também. o Colégio Paulo Monteiro Mendes. conquistada em 17 de julho de 1954. o magnífico Cine Nove de Abril.Por uma ideologia que lhes foi imposta.. Não muito tempo depois. de filhos dos veteranos ciclopes.. do Círculo de Trabalhadores Cristãos.070 . tornam-se avessos a uma liderança que possa conduzi-los. inúmeros equipamentos sociais. o Instituto Batista 106 Waldyr Bedê . já não mais a de criador com a criatura. passam a trabalhar em empreiteiras que servem à Siderúrgica. os desempregados voltam-se para a Volta Redonda "velha" . embalada pela autonomia administrativa.considera ilegal qualquer movimento de paralisação do trabalho no serviço público e nas empresas estatais. fora dos limites da Cidade Industrial. o Estádio General Sylvio Raulino de Oliveira.que muitos entendem como uma aventura irresponsável à parte o fato irretorquível de que um dispositivo supostamente legal.que norteará suas relações com a Siderúrgica. por exemplo. uma nova geração de trabalhadores. trazendo uma nova mentalidade . a uma greve . ingressa na empresa. em 1954. administrado pelos padres Agostinianos Recoletos. no decurso dessa década. além de cinco dos seus mais novos e importantes estabelecimentos de ensino: o Colégio Macedo Soares. parte do contingente de trabalhadores dispensados da obra de construção da usina permanece em Volta Redonda. em pequenas oficinas ou abrem suas próprias firmas. o Palácio "17 de Julho" (sede da Prefeitura Municipal de Volta Redonda). o Colégio Nossa Senhora do Rosário. como o Hospital da CSN (atualmente privatizado). e por inaugurar. um complexo desportivo denominado "Recreio do Trabalhador Getúlio Vargas".

Americano, mantido pela Igreja Batista Central e a Escola Estadual Presidente Roosevelt. Os dois primeiros colégios citados foram construídos pela Companhia Siderúrgica Nacional, aparentemente para os filhos dos seus empregados, mas, na verdade, destinados às crianças da elite da empresa, cabendo à Escola Técnica Pandiá Calógeras - que logo se tornaria uma referência nacional em matéria de ensino técnico-industrial -, erguida e sustentada pela CSN, com verbas da contribuição social devida ao SENAI, a missão de absorver os filhos dos trabalhadores em geral, com vistas à reposição do contingente de reserva de mão-de-obra qualificada. Todavia, parece que ninguém informou aos jovens volta-redondenses essas intenções: em pouquíssimo tempo, crianças procedentes de escolas primárias da rede pública - que, àquela época, possuíam um ensino de muito bom nível - acabaram conquistando o seu próprio espaço nessas instituições privadas, apoiadas pelos pais, que não mediam esforços, visando a proporcionar um ensino médio de qualidade para seus filhos. Por outro lado, muitos jovens, originários das classes média e alta, procuram a Escola Técnica Pandiá Calógeras, em busca de uma formação que lhes abrisse o rumo para a área das tecnologias industriais. Em suma, eram os novos volta-redondenses, filhos e netos dos ciclopes, que agora abriam o seu próprio caminho, à revelia das projeções dos planejadores da CSN...

A hegemonia da "Chapa Independência" (1957-1963)
Nos chamados "Anos Dourados", do presidente Juscelino Kubistchek de Oliveira, no qüinqüênio do desenvolvimento, Volta Redonda transforma-se em vitrine de uma nova sociedade brasileira, urbano-industrial, que adquire novos e diversificados padrões de consumo e é exibida pelos governantes como exemplo de um Brasil novo. Além disso, a Companhia Siderúrgica Nacional transforma-se em matriz tecnológica e exporta os técnicos que irão contribuir para a construção da Companhia Siderúrgica Paulista e da Usiminas. A antevisão de Vargas, de que Volta Redonda seria "um marco da civilização brasileira (...), instituindo no Brasil um novo padrão de vida e um novo futuro, digno de suas possibilidades", começa, então, a se concretizar.
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108 Waldyr Bedê

1957 -Expansão da Usina.Técnicos juntos ao novo Alto-forno.

A posse do Sindicato dos Metalúrgicos, pela Chapa Independência, em 1957, coincide com a euforia dos Anos Dourados, de que o presidente Juscelino Kubistchek, o "JK", era o ícone mais expressivo. Egresso do Departamento de Pessoal da empresa, Othon Reis Fernandes, o presidente do Sindicato dos Metalúrgicos, leva para a entidade uma considerável bagagem, em termos de experiência administrativa. O novo dirigente sindical reorganiza o órgão de classe, reestruturando seu setor assistencial, com farmácia, ambulatório médicoodontológico, cursos de datilografia e corte & costura; e mantém reuniões permanentes com o grupo de militantes da "Chapa Independência", que se transformam em delegados sindicais, para atuar nos diferentes setores da Usina da CSN e em outras empresas metalúrgicas. A princípio, as relações da CSN com a nova diretoria do Sindicato dos Metalúrgicos são marcadas por uma grande tensão, que se desdobrará, ao longo dos anos seguintes, num jogo entre a diretoria da CSN, presidida pelo general Edmundo de Macedo Soares, e a diretoria do Sindicato, liderada por Othon Reis, em que se fazem presentes informação e contrainformação, através do rádio, de jornais, de panfletagem nos portões e até do boletim diário de serviço da CSN, visando, cada qual à sua maneira, ao controle da opinião dos trabalhadores. Essa disputa, que se originara de um incidente político19 envolvendo Macedo Soares e Othon Reis Fernandes, acarretaria uma permanente atitude de má vontade e de endurecimento da CSN nas suas relações com o Sindicato, e que somente terminaria com a mudança da direção da empresa, ao final do governo de Kubistchek. O diretor-secretário da CSN, o médico Paulo Monteiro Mendes, responsável pelo desenvolvimento e ações dos serviços sociais da empresa e seu principal negociador, nas discussões com o Sindicato, executava, nesse mister, as ordens procedentes da diretoria liderada pelo general Macedo Soares, desafeto de Othon, pelas circunstâncias já esclarecidas. Além disso, o poder e a influência do diretor-secretário da CSN eram consideráveis e se estendiam a vários setores: educação, cultura, esportes, lazer, saúde, habitação e assistência social.
19

Quando da visita do presidente Juscelino a Volta Redonda, em 1957, Othon Reis Fernandes pede a substituição de Macedo Soares na presidência da CSN, num discurso proferido em banquete de homenagem a JK (nota do autor).
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em 31 de janeiro de 1961. o da Oposição. de 1959 a 1961. em 1960/61. e. alguns empregados mais qualificados e a hierarquia da CSN.entre eles. que nomeariam um diretor-operário para a diretoria da CSN. no acordo salarial. que incluíam. o Banco Popular de Volta Redonda. Circulo de Trabalhadores Cristãos). em 1962. a cooptação. 21 O autor participou dessa Comissão. uma questão que ocasionara enormes polêmicas em toda a cidade de Volta Redonda. Alípio Jacintho Pereira. Imediatamente após a posse de Jânio Quadros. que privilegiavam. um dos assessores de confiança do Diretor-Secretário da CSN. Chefe da Divisão de Expediente da Superintendência de Serviços Sociais da CSN. de maneira desproporcional. pela direção de serviços sociais da CSN.A despeito de todas as dificuldades. o médico Paulo Monteiro Mendes (nota do autor). que assegurava a igualdade de proporcionalidade na participação dos operários nos lucros da empresa. publicamente. a correção trimestral dos salários. toda vez que a inflação fosse igual ou superior a cinco por cento no trimestre. o Circulo Operário de Volta Redonda era presidido por Valentim Marques de Castro. com o propósito de combater a agiotagem que grassava no interior da Usina da CSN. para aferição da carestia de vida e da inflação locais. Na campanha presidencial de 1960. em razão dos critérios até então adotados. tendo como colega de diretoria. uma sociedade cooperativa. 110 Waldyr Bedê . Dentre essas conquistas. também. os candidatos à presidência da República . ainda. a inclusão de cláusula. pelo oferecimento de empréstimos a juros mais baixos aos trabalhadores. as três mais notáveis foram: a criação (inédita) de uma Comissão Mista de Pesquisa de Custo de Vida CSNSindicato21. o Sindicato dos Metalúrgicos cobrou-lhe a promessa e recebeu o sinal verde para promover a indicação de uma lista tríplice de nomes de 20 Nessa época. eleito em assembléia da categoria para representar o Sindicato dos Metalúrgicos. que valeram a reeleição de Othon Reis Fernandes e seus companheiros para o mandato seguinte. como instrumento de ação diversionista junto aos operários. no Círculo. nos comícios realizados em Volta Redonda. do Círculo Operário de Volta Redonda20 (posteriormente. Jânio da Silva Quadros assumiram. o Sindicato avançou em algumas conquistas junto à empresa. cujo titular era o dentista Ferdinando Garcia Pereira. Othon Reis Fernandes criou.

a participação dos empregados nos lucros estava sendo calculada. ajudaria na sua eleição para deputado federal. Volta Redonda na Era Vargas 111 . de novo. Dercide Monteiro Guimarães. com um desempenho sério. o Sindicato instalou seções eleitorais com urnas em todos os setores da Usina. o governo finalmente indicasse o diretor-operário na nova diretoria da empresa a ser eleita. como fazia nas eleições sindicais. Othon convocou uma assembléia geral. José Joaquim de Figueiredo Filho. O governo Jânio Quadros manda recalcular a “girafa”. após um breve período de ampla liberdade de campanha eleitoral para todos os candidatos. enviada à presidência da República. pessoa da confiança direta de Othon Reis Fernandes. então. que premiava os altíssimos salários com gratificações que iam ao dobro ou mais. em abril de 1961. sinalizou para a diretoria do Sindicato dos Metalúrgicos que buscava o diálogo. Figueiredo procurou harmonizar as aspirações dos trabalhadores com os interesses da CSN. mas opta pelo segundo nome da lista tríplice . Primeiramente. da qual o presidente escolheria o futuro diretor-operário da CSN. A lista tríplice foi. no velho critério desproporcional.5 da remuneração mensal . nesse ínterim. José Joaquim de Figueiredo Filho. chamando para auxiliá-lo na Direção de Serviços Sociais da empresa o então diretorsecretário do órgão de classe. enquanto que os salários menores recebiam uma participação de 1. para que os candidatos se apresentassem e se inscrevessem para uma eleição. em face da expressiva votação que recebera. que era um conceituado médico-cirurgião do Hospital da CSN. porém sóbrio. na assembléia geral ordinária dos acionistas da CSN.operários. Othon obtém o primeiro lugar. mais tarde. o Dr. Em seguida. Othon reage energicamente e denuncia o fato. com quase cinco vezes a votação do segundo colocado.o que contrariava outra promessa de campanha da totalidade dos candidatos à presidência da República: a de uma "participação nos lucros justa para todos".o do Dr. acontece um incidente que viria reverter todas as expectativas dos eleitores de Othon e até do mais cético dos seus oponentes: alguns funcionários do setor de Hollerit (antigo sistema de processamento de dados com cartões perfurados) da CSN fazem chegar ao Sindicato a denúncia de que a "girafa" .3 a 1. Contudo. Muito popular entre os trabalhadores e suas famílias. circunstância que. Em todo caso. Tudo indicava que seria Othon o escolhido. com a expectativa de que.

com amplos poderes na gestão das políticas de produção e de pessoal da empresa e de eleição. não tinha ele como defender. Em 1962. 112 Waldyr Bedê 22 .Em 7 de setembro de 1961. reacendeu-se a esperança de Othon Reis Fernandes e de seus seguidores. na usina da Siderúrgica Thyssen. naquele contexto sócio-político-empresarial. de qualquer dos lados. Exceto pelo fato de que a classe dos metalúrgicos dispunha. seria extinta pelo Golpe Militar de 1º de abril de 1964. de que o líder sindical. fazia-se solitária e isolada nas reuniões da diretoria. de ordem social ou trabalhista. do 21º membro. por comum acordo. Em 1961. de fato. a figura do diretor-operário22. contudo. E. Othon tomou posse em maio de 1962. de um porta-voz. assumisse o cargo de Diretor de Serviços Sociais. o autor. condenado à limitada tarefa de atender a intermináveis filas de empregados da CSN. com voz e voto. para cumprir o biênio 1961/1963. agora. quase sempre. finalmente. concorresse à presidência do órgão de classe dos metalúrgicos. era voto vencido. com seus problemas individuais. diretor-tesoureiro no mandato anterior. na época. tornou-se um assistente social de luxo. pelos empregados da CSN. em que. além de se apresentar como totalmente esdrúxula. Othon figurou na chapa apenas como candidato a representante do Sindicato junto a Federação. a Chapa Independência foi novamente eleita. sozinho. em Duisburg: um colegiado composto por dez representantes dos acionistas e dez dos trabalhadores. Em pouco tempo. dentro da direção da CSN. Na verdade. sua presença. abrindo espaço para que Samuel Antônio de Paula Reis. com a posse de João Goulart na presidência da República. para presidir o "Comitê dos 21" (nota do autor). A eleição para o cargo. as reivindicações de interesse coletivo dos metalúrgicos da empresa. Na expectativa de ser nomeado diretor da CSN. já que era correligionário político do presidente da República recém-empossado. conheceu o sistema alemão de co-gestão administrativa nas siderúrgicas. dirigente metalúrgico.

Othon Reis. lider dos Metalúrgicos. .Volta Redonda na Era Vargas 113 Ao centro.

em agosto daquele ano"(Monteiro. garantiu a posse de João Goulart na Presidência da República. dentro da Usina da CSN. como: "licença-prêmio. segundo Monteiro23. a Chapa Independência. que se estende de 1957 a 1963. Sindicato dos Metalúrgicos de V. Nas eleições sindicais de maio de 1963. que. quando se dá nova eleição. o Sindicato dos Metalúrgicos se destaca na Cidade e na Região Sul-fluminense. Samuel Antônio de Paula Reis procurou estabelecer a "despartidarização”do Sindicato. 1955. Geraldo. de novo. Redonda. conquistando considerável prestígio junto à população e se fazendo presente em todos os grandes eventos que marcam a vida de Volta Redonda. obteve significativas conquistas. 114 Waldyr Bedê . liderada por João Alves dos Santos Lima Neto. qüinqüênio e promoção por tempo de serviço" (Monteiro. ainda como Diretor da CSN. após a renúncia de Jânio Quadros. alegando supostas irregularidades. na direção de Samuel Reis. “50 ANOS BRASILEIROS”. Nessa mesma época. 41). tumultua o pleito. O mandato de Samuel de Paula Reis é prorrogado por mais sessenta dias. por reduzida margem de votos. Rio. instala-se em Volta Redonda uma Junta de Conciliação e Julgamento do Trabalho. muito embora alguns dos membros da diretoria se mantivessem vinculados ao Partido Trabalhista Brasileiro. João Alves dos Santos Lima Neto e seu grupo tomam posse em setembro de 1963.41). op. da qual sai vencedora. e obtém sua anulação pelo Ministério do Trabalho. cit. em 1961. a chapa de Oposição.Nesse período. graças à seriedade com que o órgão de classe se conduz na defesa dos seus associados e nas relações com autoridades e instituições do Município. que se constituía numa grande aspiração dos trabalhadores da Cidade do Aço e de toda a Região Sulfluminense alcançada pela jurisdição daquela corte da Justiça Trabalhista. em face da iminência de uma quarta vitória da Chapa Independência. Othon vencera Lima Neto. derrotando Othon Reis Fernandes. "Isto não o impediu de participar ativamente da "Campanha da Legalidade" que. op. O Sindicato. O fato é que. em Barra Mansa. 23 Monteiro. encabeçava. mas perdera para este nas extensões de base da Metalúrgica Barbará e da Siderúrgica Saudade. cit. a Oposição.

O Pres.Volta Redonda na Era Vargas 1962 . Goulart no comício de 1º de Maio. em Volta Redonda. 115 . na Praça Pandiá Calógeras.

37 a 49. havia o interesse da Cidade. constatou que a contribuição (. realizada em Florianópolis. Mas a idéia era interessante... no Painel sobre o Ensino Básico. 116 Waldyr Bedê . ao presidente da CSN e à Inspetoria Estadual de Ensino. acima de ideologias e de interesses políticos.o PLEP-VR. um falecido dirigente sindical metalúrgico. porque. A respeito desse episódio. como expositor convidado. 1988. na sessão plenária de 9 de março de 1988. a CSN (o maior contribuinte local do Salário Educação) e uma representação do Sindicato dos Metalúrgicos já a essa altura. a Prefeitura. e que retrata o acontecido: "Em 1963. a comunidade querendo resolver seu problema de escolas.Conselho de Reitores das Universidades Brasileiras.A CONSTITUIÇÃO E O PLANO NACIONAL DE EDUCAÇÃO. págs. E então o convênio se fez. do CRUB . a Secretaria Estadual de Educação. ao presidente da Associação Comercial. "Othon Reis Fernandes. com o MEC. sob intervenção federal. 24 ESTUDOS E DEBATES 15 . SC.O Sindicato dos Metalúrgicos e o Plano de Educação Primária de Volta Redonda Um dos fatos pouco conhecidos da História de Volta Redonda é o da participação do Sindicato dos Metalúrgicos na criação do Plano de Educação Primária de Volta Redonda . o autor deste livro fez um relato de improviso na 46ª Reunião Plenária do Conselho de Reitores das Universidades Brasileiras24.verificandoascontribuiçõesdoSalárioEducação da Companhia Siderúrgica Nacional. em Volta Redonda. propôs ao prefeito.) era mais do que o dobro do orçamento municipal (de Volta Redonda) para a educação. até que veio o golpe militar de 1964. que nada tinha a ver com a área da educação. então diretor de serviços sociais da CSN. Brasília. A idéia rolou por mais de um ano. a idéia da realização de um convênio para a utilização plena do Salário Educação em Volta Redonda.

vidraceiro. As escolas eram mantidas limpas. reforma do material e manutenção permanente das escolas. pedreiro. e que. à época (nota do autor). eletricista. comparecia às escolas como uma tropa de choque. Qualquer conserto era feito com relativa facilidade e grande rapidez. que tinha bombeiro hidráulico. com competência. uma utopia. não é. altíssima.. aquele momento mágico. "Dois anos depois de terminado o convênio (.. Foram construídas 303 salas de aula.. geriu os fundos públicos destinados à educação. por suas figuras expressivas. A evasão era residual. quando chamada. enceradas semanalmente. reparos diários (de emergência) por uma equipe que apelidávamos de "SWAT"25 . então. ao contrário do que muitos supõem. com projetores de eslaides. tomou conta. carpinteiro.).) Nesses nove anos. Tudo depende do fundamental. "(.." 25 "SWAT" .. Volta Redonda na Era Vargas 117 .. um momento mágico aconteceu em Volta Redonda. merenda farta. não houve falta de vagas (nas escolas primárias) de Volta Redonda. Portanto. Pintura de dois em dois anos. E o fez com rara felicidade. geladeiras (.). porque havia reserva de vagas nas escolas construídas nos pontos nevrálgicos de elevada demanda escolar. porque ela funcionava bem. A qualidade do ensino. com todos os instrumentos pedagógicos necessários ao ensino de 1º grau. a municipalização do ensino. O crescimento vegetativo da população escolar não chegou ao excedente. Foi. com vigias.“Durante nove anos. ainda havia vagas.Sigla referente a uma tropa de choque da polícia civil norte-americana que aparecia em famoso seriado da TV. em que a comunidade. a ponto de os pais retirarem seus filhos das escolas particulares e os colocarem na rede pública.

um dos seus verdadeiros idealizadores . obviamente. "o Breve".Centro Integrado de Educação Pública estadual. e cujos integrantes eram remunerados pelas próprias instituições convenentes.por todos os títulos. por quem e por quanto construir tal ou qual escola. a idéia de se vincular a criação do PLEP-VR à figura polêmica de Othon Reis Fernandes . porém. em Volta Redonda. estatal. Othon Reis Fernandes é nome de uma escola pública municipal e de um CIEP . em que acionava uma autêntica 118 Waldyr Bedê . que reunia as preferências políticas da classe média brasileira. também. e. poderia lembrar-se de que João Alves dos Santos Lima Neto jamais militara ativamente entre os metalúrgicos. o caráter autoritário. aos novos donos do Poder. antes. Contudo. à capacidade de trabalho e à rigidez de princípios do seu diretor-executivo. nem figurara. quando. pela extinta UDN. Qualquer ativista sindical dessa época. maldita aos olhos dos militares e aos da pseudo-elite de chefes e chefetes da CSN. Hoje. simples. não agradava.É justo ressaltar que grande parte do êxito do Plano de Educação Primária de Volta Redonda se deveu à organização de sua estrutura administrativa. na Oposição sindical. Lima Neto assinava uma coluna num semanário local . cirurgião-dentista. a cujas tendências políticas ele se opusera a vida inteira. de onde procediam. Luiz Gonzaga de Souza Clímaco. União Democrática Nacional . Em que pesem suas realizações em prol da universalização do atendimento com escola pública à infância de Volta Redonda. sobre onde."A Chibata" -. à tenacidade. ambos em Volta Redonda.um partido de centro-direita. Contudo. a instituição do PLEP-VR refletia. professor universitário e antigo vereador à Câmara Municipal de Volta Redonda. como. João Alves dos Santos Lima Neto. enxuta. centralizador e de tutela daquela época: não havia participação de qualquer instituição popular nas decisões de sua administração.

achava-se desgastado por três derrotas consecutivas (em 1957.Comando Geral dos Trabalhadores.metralhadora giratória. cujo líder. 26 O fato já havia sido denunciado pelo presidente Getúlio Vargas. pela falta de abastecimento de gêneros de primeira necessidade e pela estagnação da atividade econômica. onde jamais figurara antes. Esse é um momento de crise na vida de Volta Redonda. A posse de Lima Neto assinala a retomada do Sindicato dos Metalúrgicos pelas forças de esquerda. como todo o resto do Brasil. atacando a tudo e a todos. sua breve liderança conformava-se na ação desenvolvida pelos verdadeiros militantes sindicais de esquerda: José Bonifácio de Castro. o braço sindical do PCB. a previdenciária. a militância sindical pressionando o governo de Goulart e o Congresso Nacional. entre as quais: a eleitoral. do outro. tudo refletindo um impasse entre as forças políticas em confronto: de um lado.apavorados ante a possibilidade da implantação de uma suposta "república sindicalista" no Brasil. para que aprovem as reformas de base. sem perspectivas e atormentado pela carestia do custo de vida. A ascensão de João Alves dos Santos Lima Neto ao cenário sindical de Volta Redonda. os sintomas da instabilidade do momento político nacional. que sofre. grupos econômicos nacionais aliados a interesses externos26 . de inspiração comunista. Volta Redonda na Era Vargas 119 . José Bonifácio de Castro. Lima Neto atraiu o interesse da Oposição sindical. a educacional e a agrária. Voltando-se. por algum tempo. passeatas. Os alimentos escasseiam e se sucedem as greves. no meio disso tudo. que alinham o órgão de classe ao CGT . as chamadas "classes conservadoras" .entre elas. na Cidade do Aço. Na verdade. de 24 de agosto de 1954 (nota do autor). um povo perplexo. a tributária. resultou de um lance de mero oportunismo. criado para mobilizar o povo brasileiro em defesa do presidente João Goulart e da realização das chamadas Reformas de Base. em sua CartaTestamento. contra a diretoria do Sindicato dos Metalúrgicos. Odair Benedito de Aquino e Silva e Nestor Lima. 1959 e 1961) para a Chapa Independência. quebra-quebras e saques a armazéns.

as chamadas classes conservadoras. já havia algum tempo. certas dissimulações e algumas atitudes que.. o boato de que os donos de armazéns estariam escondendo o produto.que abrange os sete meses entre a posse de Lima Neto e o Golpe Militar de 1964 -. segundo os quais. o comando da guarnição local do Exército . que incluía a aquisição e a estocagem de armas. efetuando prisões de ativistas e intervindo nos sindicatos. Em suma: algumas figuras da elite conspiravam. para resistir a um provável golpe esquerdista. na calada da noite. 120 Waldyr Bedê . Espalhou-se.União Democrática Nacional. contudo. antes pareciam estranhas e descabidas. vinculadas ou decorrentes do Golpe Militar.Nessa época . E quando as máscaras de algumas pessoas caíram. pareciam saber exatamente o que fazer. "esses açambarcadores (os donos de armazéns) deveriam ser dependurados nos postes das vias públicas".os militantes punidos pela Ditadura Militar. Eram como os componentes de uma orquestra exaustivamente ensaiada: as pessoas envolvidas com os responsáveis pelas ações locais. ocupando espaços. dentre os quais. com uma eficiência e uma rapidez somente concebíveis como resultantes de um planejamento. onde o açúcar. de acordo com um plano adrede preparado. o que indignou boa parte da população. levando alguns empresários locais. expedindo ordens e intimações de legalidade questionável. serviu apara acirrar ainda mais os ânimos. agora se tornavam óbvias aos olhos de suas vítimas . por exemplo. então. apanhando a militância de esquerda totalmente desprevenida.Batalhão de Infantaria Blindada -. além de políticos ligados à UDN . em Volta Redonda. Entre discursos ameaçadores. Lima Neto improvisou um comando de militantes "para busca e apreensão do açúcar sonegado ao povo". Quando o Golpe Militar de 1964 estourou. supostamente para forçar a alta do preço. intervindo nos sindicatos. partindo delas.. na mesma conspiração. era o gênero mais escasso. essas forças agiram rapidamente. a crise do desabastecimento também atinge Volta Redonda. Jamais encontraram um grama. a uma mobilização.o extinto 1º BIB . Essa mobilização uniu. sequer. O episódio. comerciantes e fazendeiros. na Cidade do Aço. setores ligados à alta direção da CSN. como se já estivessem esperando por ele e pelo momento de agir.

1925 e 1926. em face de uma sublevação militar. em 1954. jovem político gaúcho João Belchior Marques Goulart ao cargo de ministro do Trabalho do governo Vargas.VOLTA REDONDA E O GOLPE MILITAR DE 1964 A intervenção das Forças Armadas na vida política brasileira é uma constante histórica: iniciou-se com a Independência. em 1930. O Golpe de 64 . repetindo a mesma tentativa em 1961.a que os militares da época chamaram "Revolução de 31 de Março" . desta vez. Durante a República Velha. em 1822. na seqüência conhecida como "Tenentismo". foi derrubado por outra quartelada. sob o comando de Deodoro da Fonseca. os ministros militares depuseram Washington Luís e abriram caminho para a ascensão de Getúlio Vargas. finalmente. Volta Redonda na Era Vargas 121 . até que. Ao assumir o Ministério do Trabalho. Pedro II. As circunstâncias que levam ao golpe militar relacionam-se com a ascensão do. D. Em 1945. o imperador D. afastaram Vargas do cargo. Em 1891.estabeleceu uma relação de boa convivência com as lideranças sindicais. Pedro I abdicou do trono. Em 1955. passando a apoiar suas reivindicações e a incentivar os trabalhadores a se sindicalizarem.começou bem antes dessa data. contra João Goulart. Nove anos mais tarde. Jango .como era conhecido . em 1922. tentaram impedir a posse de Juscelino Kubistchek. levaram-no ao suicídio. os militares envolveram-se em levantes contra o governo. seu filho e sucessor. em 1954. a quem. então. 1924. derrubaram em 1964.

pela propaganda anticomunista do macartismo27. Jango elege-se vice-presidente da República28. fazem um pronunciamento contrário à investidura de Jango na presidência da República. Afinal. Não obstante toda a reação contrária. Por menos plausível que fosse. como vice-presidente de Jânio Quadros. na chapa de Juscelino Kubistchek. mobiliza o que ele mais tarde denominaria de "forças populares". o então governador do Rio Grande do Sul. Com a renúncia de Jânio. os ministros militares. com expressiva votação. a despeito da inflação que "corroía os valores do trabalho" os empresários reagiram negativamente à alternativa de remunerar. 122 Waldyr Bedê 28 . ao mesmo tempo em que vários setores do empresariado o acusavam de pretender implantar uma "República Sindicalista" no Brasil. o trabalho dos seus empregados. no dobro do valor. açulada. Jango defendeu a revisão do Salário Mínimo. repete a dose. cunhado de Jango. Entre 26 de agosto e 6 de setembro de 1961. João Goulart passou a arrostar todos os ódios dessas mesmas classes. em que. em 25 de agosto de 1961. Cinco anos mais tarde. o voto para vice-presidente era separado do de presidente (nota do autor). 27 MACARTISMO: Movimento anticomunista inspirado pelo senador norteamericano Joseph McCarthy. o governo e as empresas norte-americanas temiam a ascensão de uma liderança popular simpática aos comunistas. como substituto legal do presidente renunciante. essa suposta república sindicalista tornou-se um fantasma. Isso foi mais do que o suficiente para provocar a ira das classes conservadoras e acirrar os ânimos. Em meio a esse processo. presidente da Comissão de Atividades Antiamericanas do Senado dos EEUU. que passou a assombrar não apenas as chamadas elites. Leonel de Moura Brizola. Daí em diante. em 3 de outubro de 1955. Naquela época. em viagem oficial à República Popular da China. que foi reajustado em nada menos que 100% (cem por cento). como também consideráveis estratos de nossa incipiente classe média. também. em 1954. num momento crítico da vida nacional. envenenada por uma mídia hostil ao governo. aproveitando-se da ausência de João Goulart.com o objetivo de fortalecerem os sindicatos de trabalhadores em suas luta com a classe patronal.

Em 1963.através da "Rede da Legalidade". podando-se. O governo de João Goulart revela-se inepto. assim. os poderes do presidente. A situação chega ao clímax em março de 1964. o movimento dos marinheiros. que estavam homiziados na sede do Sindicato dos Metalúrgicos do Rio de Janeiro. em 15 de março de 44 a. A frase é uma alusão à conspiração de patrícios romanos para o assassinato de Júlio César. na Central do Brasil. onde as forças da Reação. desaparecem os investimentos externos e se sucede uma crise de abastecimento de gêneros de primeira necessidade. formam uma barreira parlamentar intransponível às proposições do Executivo. Parte. azeitadas com recursos financeiros provenientes de uma suspeitíssima instituição de caráter político denominada IBAD29. o presidente Goulart readquire seus poderes como chefe do Executivo e inicia um governo de caráter populista. de resistência aos generais golpistas e em favor da posse de João Goulart. A inflação ameaça disparar. O impasse foi resolvido com uma emenda constitucional que instituía o sistema parlamentarista de governo. enquanto as greves pipocam por todos os cantos do Brasil. no Automóvel Clube do Brasil. como reflexo da instabilidade social e econômica. 29 30 IBAD: Instituto Brasileiro de Ação Democrática. em face do quadro de quase estagnação da vida nacional. o governo não deslancha. eis que o poder executivo seria exercido por um primeiro-ministro.C. identificado com os sindicatos e os diversos setores da Esquerda. os chamados "Idos de Março30": o Comício das Reformas de Base. parte como resultante da ação desencadeada pelo oportunismo canhestro de uma Esquerda desorganizada e irresponsável. visando às reformas de que o País necessitava. porque se estabelece um impasse político no Congresso. Volta Redonda na Era Vargas 123 . e o fatídico encontro do presidente Goulart com os militares subalternos da Associação dos Subtenentes e Sargentos. que passava a ser uma figura decorativa. Contudo.

"em nome do Comandante do 1ºBIB". um instrumento judicial específico da vida militar . também. comandada por um capitão. comentários jactanciosos do general Costa e Silva. Os que a colocaram no ar falaram ao vento. Antes do meio-dia. como. presidente do Sindicato.de resto. As prisões de suspeitos de subversão e. antes daquela hora. Othon Reis Fernandes coloca no ar a Rádio Siderúrgica Nacional e conclama os trabalhadores para uma vigília de apoio a Jango.. provavelmente ninguém a sintonizara. na CSN. membro do auto-intitulado "Alto Comando Revolucionário". no mínimo. diretor de Serviços Sociais da CSN. Ainda antes das sete horas. foi apanhado em sua residência por uma patrulha do Exército. uma guarnição do 1º Batalhão de Infantaria Blindada. Othon Reis Fernandes.uma "quartelada". a busca e a apreensão de "material subversivo" prosseguiram por todo o mês de abril. Na Companhia Siderúrgica Nacional. pela Academia Militar das Agulhas Negras .. in "O Ato e o Fato" . afirma. patético. Por isso mesmo. então. O Exército instaurou dois "Inquéritos Policiais Militares" .a AMAN. A CSN não parou no dia 1º de abril de 1964. "em defesa da democracia". o que ensejou. João Alves dos Santos Lima Neto.Desferido o Golpe militar . especificamente. O episódio inteiro foi. seu Diretor Industrial 124 Waldyr Bedê .os famigerados "IPMs" ."para apurar as atividades subversivas" na região do sul do Estado e. Ao contrário. sua usina de aço quebrou um recorde histórico de produção nesse dia. O primeiro foi tocado pelo Batalhão e o segundo. através da televisão. começaram as prisões de dirigentes e militantes sindicais. segundo Carlos Heitor Cony.os dirigentes sindicais da Cidade do Aço tentam mobilizar os trabalhadores para uma greve geral de apoio ao presidente João Goulart: por volta das seis horas da manhã de 1º de abril de 1964. Lima Neto chega à emissora e vai ao ar convocando uma greve geral na CSN. porque a Cidade inteira sabia que a Rádio Siderúrgica somente entrava no ar a partir das oito horas da manhã. foi preso no interior da Usina Presidente Vargas. ocupa a emissora e a retira do ar.

homologar demissões (nota do autor). Ao final do inquérito administrativo.. Ao mesmo tempo em que a perseguição se desenrolava na Usina e no Escritório Central da CSN. criada e organizada em 1942 pelo capitão Edgard Magalhães da Silva.mandou instaurar inquérito administrativo para apurar "atividades subversivas ocorridas no âmbito da enpresa". dos tempos do macartismo. sob o comando do coronel José da Cunha Menezes e. dirigido por servidores categorizados. a CSN demitiu ou afastou do trabalho mais de cem servidores. seguia "falando de lado e olhando pro chão". com a "assistência31 do Sindicato". de acordo com o art. já não era mais aquela dos "cabeças de tomate". indicados pela própria CSN. que se achava sob intervenção32. Outros foram sumariamente demitidos. criou-se um "serviço secreto" para a prática de espionagem.. A Policia Administrativa da CSN. Muitos empregados sofreram diversos tipos de punição. sem justa causa. mais de um ano antes do Golpe Militar de 64. que batiam primeiro e depois faziam perguntas. somente ocorria com a assistência do sindicato. Aperfeiçoara-se. por exemplo. sob as mãos do general Ene Garcês dos Reis. que assumem a intervenção. Em Volta Redonda. sob acusação de atividades subversivas. com homens rudes. por ordem do "Comando Revolucionário". 32 Na tradição sindical. sem justa causa. apenas estava recomeçando. 500 da CLT (nota do autor). enquanto a maioria da população. a delação e a bajulação aos novos donos do poder . como na canção de Chico Buarque. porque não está investido de mandato eletivo que lhe dê autoridade representativa para. o interventor somente pratica atos administrativos referentes à gestão interna do sindicato. entre silenciosa e estarrecida. Volta Redonda na Era Vargas 125 . através de infiltração em reuniões e 31 Ainda não havia o FGTS e a demissão de empregado estável. a temporada de "caça às bruxas". Muitos dos que eram empregados estáveis foram constrangidos a uma demissão mediante acordo de indenização negociada. instalava-se na Cidade um autêntico Estado Policial: a denúncia anônima.os militares .moldavam o comportamento de parte das pessoas.

assembléias sindicais. Os esbirros do serviço secreto da Polícia Administrativa eram pessoas semiletradas, que beiravam a boçalidade, mas capazes de uma atuação suficientemente nefasta na delação e na produção de provas forjadas. Todos os empregados acusados de atividades subversivas, por esses agentes secretos de roça, ainda que denunciados à Justiça Militar pelo coronel presidente do Inquérito Policial Militar instaurado na Academia Militar de Agulhas Negras, foram excluídos da denúncia, por iniciativa do próprio promotor militar, que a considerou inepta, em face da incompetência das "provas" apresentadas e originariamente produzidas pelos agentes secretos de fancaria da CSN. Não obstante, o mal já estava feito e todos, demitidos ou afastados do emprego. Apenas um foi reintegrado ao serviço da empresa, o Mestre de Aciaria Odair Benedito de Aquino e Silva, diretor-secretário do Sindicato dos Metalúrgicos na brevíssima gestão de João Alves dos Santos Lima Neto. Muito doente, Odair de Aquino morreu, alguns anos mais tarde, não sem antes experimentar o gosto de retornar à velha Aciaria Siemens-Martin (àquela altura, desativada), nem que fosse para perambular por sua Ala de Carga, como um fantasma perdido... Seu regresso, ainda que aparentemente inglório, revelou-se como um símbolo de esperança para muitos injustiçados. Odair Benedito de Aquino Silva foi um operário exemplar, querido e respeitado como companheiro de trabalho, vitorioso na profissão de metalúrgico. Apenas, como tantos outros, não tolerava injustiças e lutou contra elas. Numerosos foram os casos de injustiça provocados pelas "investigações" dos agentes da "GESTAPO" da CSN. Piores, contudo, se revelaram aquelas injustiças resultantes da delação, da intriga ou da denúncia anônima, muitas vezes motivada por inveja no ambiente de trabalho. Aqui, os famosos Sacco & Vanzetti se transformam em Bicca & Fritsch. Luiz Bicca de Alencastro e Pedro Eloy Fritsch trabalhavam na Superintendência de Projetos e Obras da CSN. O primeiro, como técnico industrial e o segundo, como auxiliar de engenheiro. Eram empregados veteranos - o primeiro, com quinze anos e o segundo, com mais de vinte
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anos de serviços prestados à CSN, mais do que exemplares - e não exerciam qualquer militância sindical ou política. Bicca, magro, alto, claro, de olhos de um tom verde-cinza, com cinqüenta anos, aproximadamente, era a própria imagem do homem educadíssimo, de índole pacífica, humilde, tranqüilo e possuidor de um olhar de tocante doçura humana; amava a doutrina espírita, seu assunto predileto nas conversas que mantinha com os colegas, nos intervalos para o café; não se tem notícia de qualquer atrito, desavença ou desentendimento, da parte dele, com quem quer que fosse, dentro ou fora do ambiente de trabalho. Pedro Eloy Fritsch, magro, baixo, claro, cabelo ralo, olhar inteligente e penetrante, mostra mais agitação no falar e no andar. Sua paixão é a Maçonaria, a cuja grandeza se dedica, de corpo e alma. No trabalho, é conhecido pela franqueza com que emite suas opiniões, sem receio de desagradar aos chefes, sendo, porém, um colega de trabalho leal e sincero para com todos. Por um desses absurdos, mesmo em um regime político de exceção, ambos são denunciados às autoridades militares como elementos "agitadores" e "subversivos", cuja permanência em serviço, na CSN, era considerada nociva e contrária à segurança da empresa e aos interesses nacionais. Logo em seguida, são sumariamente afastados do trabalho. A exemplo do que acontecera com o autor destas linhas, então, um jovem militante sindical metalúrgico, Bicca e Fritsch, humilhados por uma execração pública, perante seus colegas de trabalho, vizinhos, amigos e familiares, sofrem, ainda, a perda de todas as suas regalias e prerrogativas como empregados da CSN, com restrições ominosas - como a cessação da assistência médicohospitalar - que alcançam, inclusive, seus dependentes diretos. Obviamente, essa perda de regalias e prerrogativas se estende, também, a mais de cem companheiros da CSN, sediados em Volta Redonda e em outros setores regionais da empresa, no Rio de Janeiro e em Minas Gerais. Por conhecer apenas superficialmente outras injustiças do regime de exceção para com empregados da CSN que não eram militantes sindicais ou políticos, o autor restringe seu relato a estes dois casos já mencionados, como ilustração do ambiente deplorável, de perseguição, medo e insegurança, que se instalou na empresa, a partir do Golpe Militar de 1º de abril de 1964.
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Luiz Bicca de Alencastro jamais se recuperou da dor pela terrível perseguição que sofrera e faleceu em 25 de julho de 1980. Pedro Eloy Fritsch dedicou toda a sua energia, durante vários anos, como um autêntico paladino, visando a corrigir, por ele e seus companheiros, a injustiça de que foram vítimas. Na luta que empreendera, Fritsch recorreu aos seus irmãos de confraria maçônica, moveu céus e terras, num trabalho insano, para conseguir o "retorno e a reintegração ao quadro ativo da CSN", como pleiteara, por fim, em 20 de outubro de 1985, ao Presidente José Sarney. Fez mais: com a ajuda e a boa vontade e toda a disposição do advogado Eljo Cândido de Oliveira, então Superintendente de Recursos Humanos da Companhia Siderúrgica Nacional, Fritsch procedeu a um minucioso levantamento da situação funcional e de salários de todos os exempregados da CSN, demitidos por força dos Atos Institucionais Nº's 1 e 5, da Ditadura Militar, bem como os nomes das viúvas e herdeiros daqueles já falecidos, a fim de que pudessem receber os benefícios da Anistia concedida pela Emenda Constitucional Nº 26, de 28 de novembro de 1985. Reproduz-se aqui a lista mimeografada pelo próprio Fritsch e anexada à referida petição ao Presidente José Sarney. EMPREGADOS DA CSN DEMITIDOS PELO GOLPE MILITAR Gentil Noronha Marcello de Mendonça Pinto Cid Pereira Buarque de Gusmão Hélcio Teixeira Justino Ferreira Gomes José de Moura Villas Boas Darley de Lacerda Arneiro
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Francisco Carvalho de Castro Hjalmar Astácio Rios Joel Braga de Mendonça Estanislau Torres Marly do Santos Chaves Christiano Leal de Moraes Dilma Lourdes Botelho Ferreira Ronaldo Pereira Ferreira Antônio Luiz de Aragão Miranda José Paulo Vieira da Cunha Hélio Gonçalves Neves Luiz Bicca de Alencastro (+250780) Adalto Heleno Pereira Willy do Nascimento Sales João Batista de Abreu Luiz Ferreira Brum Fernando Parreira João Ferreira de Souza Benedito Garcia de Oliveira José Luiz Manhães Gesualdi Domingos Magalhães Luiz Gerardo de Seixas Bona Jorge Gonzaga João Domingos Darcy de Oliveira Joaquim Antônio Sales Aldemy Gomes de Oliveira Pedro Eloy Fritsch Wilton de Araújo Meira Wanildo de Carvalho Walmir Barbosa de Menezes Brito Guilherme Carlos Köhler Nelson Silva José Machado Feitosa Volta Redonda na Era Vargas 129 .

Natnael José da Silva Waldyr Amaral Bedê Ubirajara Alves Ramos Marinho Santiago (+201089) Joacyr Patriota Ady Gigante (+210489) Eurípedes Estrella José Gonçalves Paulino (+010570) João Clímaco Filho José Amâncio da Silva (+121082) José Bonifácio de Castro Otto Gibson de Carvalho (+140385) Francisco Chagas Lopes João Ignácio da Silva José Emílio da Silva Fidelis Pereira Côrtes Jorge Fernandes Manoel Izaac de Carvalho Lima Francisco Gomes de Assunção Gerson da Cunha Bastos Feliciano Honorato Wanderley José Ferreira de Araújo Argenil Mendes de Sá Nilton Carraro Machado Odair Benedito de Aquino e Silva (+070690) Gustavo Alves de Lima (+210487) Florivaldo Ciarelli Israel Sant'Ana (+100583) Alberto Almirante Barbosa Geraldo Marcello Othon Reis Fernandes (+050371) Inaldo Albuquerque de Carvalho (+080874) Antônio Nascimento da Silva (+280687) 130 Waldyr Bedê .

Todavia. à data da referida Emenda Constitucional. a CSN deixou de fornecer as informações individuais sobre a posição salarial de cada anistiado . corroída pela inflação. considerou a aposentadoria ou pensão excepcional calculada sobre o valor hipotético da remuneração a que esses servidores teriam direito. Volta Redonda na Era Vargas 131 .o que acarretou uma defasagem nos proventos de aposentadoria. como se estivessem em efetivo exercício.Genival Luiz da Silva Ely da Silva Aguiar João Alves dos Santos Lima Neto (+020284) Benedito Matos da Costa Nestor Lima Joaquim Martins Bastos (+260180) Vicente Francisco de Carvalho (+270784) José Garcia de Souza Pedro Celestino de Matos Francisco Aranha Viriato Querubino Dias Leão (+080166) Nilson Costa (+011177) Lenine Abdiel de Souza Adelino Pereira Palmeira (+150785) Anaximandro Rattes Carlos Carbalo Prieto Francisco Aguiar Guimarães (+) Iracindo Miranda (+ 211174) Joaquim Felipe de Barros (+) Joaquim Leocádio (+151265) Rubem Prota Sebastião Vilela de Andrade Wandyr de Carvalho (+260287) O INSS. depois de algum tempo. então encarregado de aplicar os benefícios da Anistia aos aposentados. e principalmente após sua privatização.

com rubi ou esmeralda. 30% tinham mais de vinte anos e 31%. a cada período de cinco anos de trabalho. ironicamente. pelo menos setenta e seis eram servidores qualificados.Analisando-se os dados pessoais de cada um dos cem exempregados da CSN aqui arrolados. A apresentação dessas informações vem a propósito das seguintes questões. aliás. ou o dobro. pelo menos. 3) dos 100 listados. "subversivos" e "elementos nocivos" à segurança da Companhia? 132 Waldyr Bedê . Toda essa gente recebera os chamados "prêmios qüinqüenais" (um mês de remuneração. dedicação e exemplar conduta. com seu esforço. aos cinco anos de serviço. suscitadas pela situação desses cem homens e uma mulher demitidos da CSN: como e por que razões. outros 28% já haviam chegado. sendo que: 4) desse número. com funções especializadas e responsabilidade técnica na vida da CSN. do "DIPLOMA DO DISTINTIVO DE BONS SERVIÇOS CSN" concedido a este autor. 2) desses. entre dez e dezenove anos de trabalho. por ordem do presidente do Inquérito Policial Militar da AMAN. de dez e de vinte anos de bons serviços. como consta. no caso de cinco anos trabalhados sem faltas ou atrasos). essas pessoas. com menos de seis faltas por ano. de um momento para o outro. se transformariam em "agitadores". constata-se que: 1) ao serem afastados. "por haver. pelo menos nove possuíam grau universitário e vinte e cinco detinham nível médio de ensino. no dia 9 de abril de 1964. 61% do total desses ex-servidores acumulavam mais de dez anos de serviço na CSN. além de distintivos de ouro. quatro dias antes de sua prisão. muito contribuído para a realização do programa da Companhia Siderúrgica Nacional".

um suposto delito de opinião. que esses cidadãos apenas teriam cometido.Fábrica de Estruturas Metálicas. “enriquecidos” com os relatórios dos beleguins do serviço secreto da Polícia Administrativa da empresa e com denúncias anônimas de uns poucos colegas. Othon Reis Fernandes .interpelara esse mesmo chefe. um dos setores mais polítizados da Usina Presidente Vargas. a inveja. Significativamente. dos servidores que viriam a ser demitidos. não eram do conhecimento das autoridades militares. meses antes do Golpe Militar. todos lotados na FEM . certamente inspiradas por sentimentos menos nobres. havia dez desenhistas técnicos. que pudesse colocar em risco a integridade patrimonial da CSN. nos tribunais militares. a Fábrica de Estruturas Metálicas. muitos dos nomes. ocorridas nos meses subseqüentes ao Golpe Militar. Constatouse.De que maneira um simples auxiliar de escritório poderia "esfriar os fornos da CSN". até que seus prontuários funcionais lhes foram entregues pela CSN. na hora da verdade. quando muito. até a ocorrência do Golpe Militar.o então Diretor de Serviços Sociais da CSN eleito pelos empregados . Nenhum dos demitidos havia cometido qualquer ato de natureza material. por isso mesmo. entre os demitidos. constituída para apurar "atividades subversivas" no âmbito da empresa. foi a primeira a tentar paralisar suas atividades no dia 1º de abril de 1964. no IPM da Academia Militar de Agulhas Negras? Até o Golpe Militar de abril de 1964. a liberdade de opinião e de Volta Redonda na Era Vargas 133 . Estas. no intuito de que ele explicasse à Diretoria como e por que a FEM perdera determinada concorrência pública de obras em estrutura metálica. Ainda por coincidência ou não. o ciúme e a ambição. num país em que. e que lhe fora lida durante a tomada de seu depoimento. a exemplo do que está escrito na acusação formal feita pelo Comando Revolucionário a este autor. a unidade que mais contribuiu para o rol de mais de trezentas demissões (anunciadas em boletim da CSN. como "por conveniência de serviço"). Coincidência ou não. como a desforra. embora sem êxito e. Seu chefe fora designado para presidir a Comissão de Inquérito Administrativo.

como se. Em algumas ocasiões. Excederam-se nas informações distorcidas e na produção de provas de validade discutível. Algumas vezes. Da ominosa perseguição humana ocorrida na CSN. certas atitudes dos novos donos do poder ultrapassaram o limite do ridículo: madames de oficiais iam às compras. o próprio comandante do extinto 1º Batalhão de Infantaria Blindada chegou a ir ao Cine "Nove de Abril" com uma escolta de quatro soldados armados "até os dentes". escoltadas por soldados armados com pistolas automáticas ou revólveres calibre 45. simplesmente. para ver quem mais agradava aos novos senhores da situação. As ruas passaram a ser patrulhadas por viaturas do Exército33. Nos clubes. fora sorvida com mão pesada pelos senhores da situação . Discrição essa.. na época (nota do autor). em Volta Redonda.Pelotão Especial. seguida à risca por todos os demais oficiais que assumiram o comando daquela unidade.. a bem da verdade. compreende-se que muitas pessoas que se prestaram ao papel de denunciar companheiros de trabalho. Isso perdurou alguns anos. os militares eram recebidos com todas as honras e rapapés.pretensos "donos" da grande Usina de Aço. como um prato frio. estivesse em curso um açodado torneio.). nas festas . 134 Waldyr Bedê .ainda que particulares . do 1º Batalhão de Infantaria Blindada. embora mais que 33 Pouco tempo depois do golpe militar.expressão era assegurada pela Constituição de 1946. até sua extinção.. Contudo. tácito. conforme divulgou a imprensa local. mas cínico e oportunista. foram movidas por ódio. pela ambição de aparecerem como guardiães da segurança da empresa. diga-se. "em reconhecimento pelos serviços prestados em defesa da democracia e da Companhia Siderúrgica Nacional". a vingança. voltaram a ser mais discretos. inveja ou.. em 1964. sabotagem ou coisa semelhante (jamais se saberá o que deveria ir pela cabeça dessas pessoas. quando constataram não existir qualquer ameaça de subversão. a CSN doou ao 1º BIB cerca de dez veículos utilitários. Meses depois. com soldados de uma unidade denominada "PELESP" .e nos eventos escolares.

suficientes para interromperem a carreira profissional de companheiros de trabalho, dignos e sem culpa. Mas, em tudo e por tudo, predominou o medo, em face de um novo tempo de autoritarismo, que jogava, abertamente, com a perspectiva de uma revolução comunista no Brasil, embora as condições objetivas para um empreendimento dessa envergadura - na verdade, qualquer movimento armado - fossem totalmente inexistentes. Aliás, os focos isolados de luta armada, que tiveram curso nos anos setenta, apenas confirmaram esta assertiva. No entanto, o espectro do comunismo prevaleceu, ainda, por muito tempo, como instrumento da propaganda reacionária. E muitos creram, piamente, que tal perigo existisse, de fato. Enfim, nossa Cidade de Volta Redonda - esse Eldorado com que, um dia, tantas pessoas sonharam - perdera, de vez, sua inocência. Marchava-se ao compasso de uma ordem unida: a da Nova Ordem imposta pela Ditadura Militar... Então, parodiando Maritain34, "uma longa noite de agonia", que duraria vinte anos, se abateu sobre o Brasil - a "Noite dos Generais". Encerrava-se a Era Vargas em Volta Redonda.

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MARITAIN, Jacques, "Noite de Agonia em França", Rio, 1941.
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EPÍLOGO
Este livro termina aqui. Não, obviamente, a história de Volta Redonda. Há muito a ser escrito a respeito dos últimos quarenta anos: as duas últimas gerações de ciclopes fizeram desta Cidade uma autêntica metrópole, e sua saga, entrecortada de dramas e comédias, merece ser contada. Certamente, outras histórias virão. Para finalizar, ofereço, ao leitor e à leitora, que tão generosamente me acompanharam por estas páginas, um poema dedicado àqueles que construíram Volta Redonda. Para compô-lo, dispensei-me dos rigores da forma poética e mergulhei fundo nos meus sentimentos, a exemplo do que fiz, ao longo de todo este livro. Ao vê-lo, e ouvi-lo, declamado em diversos jograis formados por estudantes de várias escolas de nossa Cidade - muitos deles moradores da periferia - , percebi que meu canto foi ouvido, sentido e aceito pelos meus concidadãos. Permitam-me, pois, registrá-lo, a seguir, nos escritos deste livro, eis que ele não mais me pertence, mas ao povo de Volta Redonda, a quem rendi essa singela homenagem.

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apito estridente... lembrando o dia da sinhazinha. Em busca de um Eldorado. os Ciclopes chegaram. da fazendinha E do café... carcomidos. dobrado pelo raio. CANTO I . Pés descalços.DO ÊXODO Maria-fumaça. Acho que não.. Na volta de Volta Redonda... Lembrando saudades.. tresnoitados e abatidos.. os Ciclopes chegaram.ODE AOS CICLOPES (Aos Trabalhadores de Volta Redonda) PRÓLOGO Na curva que o rio faz. Será que vou ver? Será que vou ver? Será que vou ver? Acho que não. de Joana ou de Maria.. com chocolate. Cortando o silêncio da noite fria. Jacá de queijo. Acho que não. De Severina. E o bule sujo. Nas terras dos Coroados. Queijo mineiro Com pão dormido. inté bolorento. Que ficaram lá atrás.. do coroné. Ficaram pra trás.. Volta Redonda na Era Vargas 139 .

Enquanto maria-fumaça. eles chegaram.. na manhã cinzenta. de Minas. Caindo aos pedaços. Um pouco de noite. o Mundo morria.. Manhã Imprópria para quem chega a um Eldorado. começo de outro. mineiramente... Tratores gigantes cortavam a terra Que os basculantes descarregavam. Na Ásia e na África. chegaram as máquinas. São Paulo 140 Waldyr Bedê . Aqui e ali. entrando em forma. Desconfiados. leva agonia E carrega a esperança de um novo dia. Tão grandes que eram.Alimento do dia.. Gente pra cá.DA TERRA PROMETIDA Na velha estação. poeira por cima... Transporta lembrança. CANTO II . Mas esses caboclos Ciclopes chegados De muitos cantos. Guardas armados. madeira podre. De muitos outros. Até que a agonia chegasse ao fim. Até que a sereia tocava o fim De mais um dia.. Dos "cabeças de tomate". um pouco de dia.. faziam assustar! Enquanto isso. Agonia imprópria para quem veio Na esperança de um Eldorado. Maria.. Apearam os ciclopes... que davam ordens. gente pra lá. na velha Europa. Concreto na forma. Buraco de lama. Marreta empenando as pontas dos ferros. pesadelo da noite. No caos ordenado.

Da usina de aço crescendo. Volta Redonda na Era Vargas 141 . Orgia de cores... congada e maxixe. Do candomblé à capela..E de todos os santos. morrendo... Do pai-de-santo à beata. No seio da terra. operários. Fé e fornalha aquecidas: Correu o aço na Terra Do Eldorado das vidas. sonhos e dores. se abria. E sorte nova buscaram. Saudades de ontem: dorzinha.. a nova Terra do Eldorado! Enquanto o Mundo. Louros e negros retintos. CANTO III . Até que o dia chegou. forjavam na terra.... em sangue. Enquanto o Eldorado não vinha. Loucura imprópria Para quem constrói um Eldorado. cafuzos. De Vulcano. Recalques. seguiam em frente.. Vivia-se aos poucos..DAS GENTES Reisado. Samba do bom e xaxado... Ao mesmo Deus dedicados. Mulatos. No mesmo cadinho jogaram Vãs esperanças e amores. Na mesma tarefa irmanados. De tresloucado.. instintos.. Da assembléia à tendinha... Balanços de corpos trocados. morenos.. Bumba-meu-boi e baião.

. Ninguém viverá Eldorado sem Liberdade à mão! Este poema.ONDE FICA O ELDORADO? A casa está pronta. A tristeza persiste. De beijos.. afetos e vivências. "E agora... amores. Cinzentamente. E a fome é tão triste. EPÍLOGO Ninguém verá Eldorado fora do seu coração. José" De Carlos Drummond. O dedo é em riste.. Não só de comida: De cores. Se repete a pergunta. os homens dominam.. De canto e falares. a saudade existe. Liberdade? Não viste. João? E agora.. a fumaça domina.. composto em 09/10/1980 é extraído do livro “A Terra é Azul” de Waldyr Bedê 142 Waldyr Bedê . Ardor e querências.CANTO IV . a festa acabada. Nos palácios cinzentos. A angústia insiste.. abraços... E a fome campeia.. certezas e flores. poemas e mares. Eldorado? É um chiste.. Mané? Na rua cinzenta.. E agora.

biografia política.. Alkindar Cândido da: VOLTA REDONDA ONTEM E HOJE: Volta Redonda. Conselho de Reitores das Universidades Brasileiras: Estudos e Debates 15 . S. 1944.DC. S. 2001. FAUSTO. 2000. COSTA. COSTA. 2003. revista nº 3. Antonio A. Paulo. Foster: Getúlio Vargas . DULLES.Vassouras: USS.A CONSTITUIÇÃO E O PLANO NACIONAL DE EDUCAÇÃO: CRUB. São Paulo: EDUSP. Sonia: O Brasil na década de 1940. 1988. Rio de Janeiro. Washington . Argemiro J. GOVERNO DOS EEUU: EM GUARDA. 1967. Boris: História do Brasil. Rio.N (1939-1946).ed. 11. 1978. 2001. Ática. CARDOSO. 1999. Renes. Célia Maria Leite et alli: O Bispo de Volta Redonda: memórias de Dom Waldyr Calheiros. Unijuí.REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS BERCITO. John W. . 1984. Volta Redonda na Era Vargas 143 .: O Retrato do Velho. Roberto Marinho: Da Forja ao Forno: Aspectos Políticos e Econômicos na Localização da C. Ano III.: Desenvolvimento Econômico Brasileiro. Ijuí.S. Paulo. FGV. BRUM. Brasília. Atual. FARIA.

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