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70 Anos Do Curso de Pedagogia No Brasil

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História da pedagogia no Brasil.
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Giseli Barreto da Cruz

70 ANOS DO CURSO DE PEDAGOGIA NO BRASIL: UMA ANÁLISE A PARTIR DA VISÃO DE DEZESSETE PEDAGOGOS PRIMORDIAIS
GISELI BARRETO DA CRUZ*

RESUMO: A partir da visão de dezessete pedagogos primordiais, levantou-se características do início do Curso de Pedagogia e das mutações por ele experimentadas. Levantou-se, ainda, a visão predominante acerca da pedagogia enquanto domínio de conhecimento e processo de formação, para discutir a sua posição no contexto do campo acadêmico. Os participantes foram escolhidos intencionalmente, com critérios e perfis predefinidos, no sentido de assegurar a composição de um grupo representativo dos primórdios do curso e do campo da educação no Brasil. A abordagem metodológica recaiu sobre a análise de depoimentos colhidos através de entrevistas semiestruturadas. Da análise emergiram aspectos que apontam para a forma como o curso veio se construindo entre nós e para a posição conflituosa, porém importante, que foi ocupando no âmbito do espaço acadêmico da educação. Palavras-chave: Curso de Pedagogia no Brasil. Pedagogos primordiais. Formação de pedagogos. SEVENTY
YEAR OF

PEDAGOGY COURSE IN BRAZIL:

AN ANALYSIS BASED ON THE VIEW OF SEVENTEEN PRIMORDIAL PEDAGOGUES

ABSTRACT: Based on the view of seventeen primordial pedagogues, this study surveyed characteristics from the beginning of the course and the changes it underwent. It also points out the predominant view on pedagogy as a field of knowledge and training process to discuss its position within the academic field. Participants were deliberately chosen, from predefined profiles

*

Doutora em Educação e professora adjunta do Departamento de Didática, Faculdade de Educação da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). E-mail: cruz.giseli@gmail.com

Educ. Soc., Campinas, vol. 30, n. 109, p. 1187-1205, set./dez. 2009
Disponível em <http://www.cedes.unicamp.br>

1187

Essa perspectiva interferiu. a pedagogia. chamam a atenção para o problema identitário da pedagogia. o de Bissolli da Silva (1999) e o de Saviani (2008). na própria concepção e estruturação do curso de formação de pedagogos. albeit important. enquanto domínio de conhecimento e enquanto curso. set.unicamp. situa os questionamentos que a põem em xeque. Ora. O fato é que os estudos sobre a pedagogia como produtora de saber evidenciam a perspectiva inconclusa do debate epistemológico. 1188 Educ. em especial o de Brzezinski (1996). A dificuldade em nomear o tipo de saber que a constitui contribui para fazer consolidar no senso comum pedagógico a ideia de que lhe falta um saber próprio. o Manifesto a favor dos pedagogos./dez. Soc. ao longo do tempo. mas respeitada. Hameline e Fabre (Houssaye et al. 1187-1205. realçando que ela não precisa ser resgatada. escrito por Houssaye... Campinas. Na literatura cresceu a discussão em torno do Curso de Pedagogia. ainda mais. The methodological approach focused on the analysis of statements collected through semi-structured interviews. Os estudos da história do curso. o tom das ideias difusas que cercam as proposições a respeito desse curso. em especial por conta do processo de definição de suas atuais diretrizes curriculares. 2009 Disponível em <http://www.70 anos do curso de pedagogia no Brasil. resistências e avanços na evolução desse curso e sua importância no contexto do campo acadêmico. position is has occupied in the sphere of academic education.. considerados primordiais. Soëtard. Such analysis revealed aspects that point out how the course has been building up among us and the conflicting. se dos pontos de vista teórico e histórico. que completa 70 anos de existência entre nós. vol. 109. O estudo proposto pesquisa desenvolvida investigou a trajetória e a visão de um grupo de dezessete pedagogos. Pedagogue training. imersa em um curso perpassado de ambiguidades e contradições. sobre o início do Curso de Pedagogia no Brasil e as mutações por ele sofridas. respectivamente.cedes. to ensure they would form a group representing the early stages of the course and of the educational field in Brazil. Primordial pedagogues. A pedagogia sempre foi muito questionada. 2004). and criteria. para analisar as implicações.br> . Key words: Pedagogy Course in Brazil. n.. Entre tantas obras. p. 30. 1 acentuando.

para analisar as implicações. 2009 Disponível em <http://www. imprimindo mudanças na composição curricular do curso. vol. set. isto é. 30. em seus diferentes aspectos e funções. quando foi homologado o parecer CFE n. Buscando colocar em evidência a posição desses pedagogos a respeito do Curso de Pedagogia no Brasil. dedicando-se a ela com empenho e com expressiva produção acadêmica. Sob esta perspectiva. consumo e classificação de conhecimento? Diante desse cenário. foram definidos dois objetivos para o estudo: levantar. desde então. O foco se voltou para pessoas que não só graduaram-se em pedagogia nesse período. entendida em um dos campos de sua produção? Seria ela algo dispensável? Ou seria detentora de uma posição relativamente autônoma no espaço social estruturado de produção. tanto quanto possível. no sentido de assegurar.cedes. uma questão. e 1969. em localizar pessoas-chave.unicamp. a composição de um grupo representativo dos primórdios do curso no Brasil. vivendo.Giseli Barreto da Cruz mostra-se vulnerável e frágil. 252. resistências e avanços na evolução desse curso e sua importância no âmbito acadêmico. 109. então. então. como situá-la no campo acadêmico? Como a pedagogia é percebida. O procedimento de partida do estudo consistiu. vivendo esse período? Além disso. vista. Dessa forma. junto aos pedagogos investigados. p. o recorte da pesquisa recaiu sobre pedagogos que cursaram pedagogia no período compreendido entre os anos de 1939. quando o curso foi criado. com critérios e perfis predefinidos.br> 1189 . para mapear e interpretar a posição da pedagogia no contexto do campo educacional brasileiro. como “profissionais dessa área”. Soc. no tocante à escolha dos sujeitos participantes. no exercício da ocupação de pedagogo. cujas trajetórias de formação e de atuação correspondessem aos pedagogos almejados. n. como seus primeiros destinatários. aspectos característicos do início do curso e das mutações por ele sofridas. seus alunos. Campinas.. e procurar obter junto a esse grupo qual a sua posição acerca da pedagogia enquanto domínio de conhecimento e enquanto curso. Tratou-se de uma estratégia essencialmente voltada para a identificação de um Educ. o objeto do estudo apontava para uma definição intencional e proposital. como também atuaram e/ou atuam como professores desse curso e acumulam expressivo capital científico. 1187-1205./dez. se colocou como emblemática para o estudo proposto: como se posicionam acerca do Curso de Pedagogia no Brasil aqueles pedagogos que foram testemunhas dos tempos iniciais de implantação desse curso.

um na década de 1940 e um na década de 1930. formação. também. Como já sinalizado.cedes. Soc. que viveram e contribuíram. mas também de se manterem atuantes e influentes desde então. mediante o desenvolvimento dessas entrevistas. p. então. voltou-se. como os entrevistados percebem a pedagogia e o seu domínio de conhecimento. seja nas fases em que os primeiros marcos legais imprimiram mudanças na sua estrutura. Para Bourdieu (1983)./dez. Mas. outras fontes complementares de informação foram consideradas. as influências sentidas. 1187-1205. obtido por meio do reconhecimento concedido pelos pares. Buscou-se. Nove entrevistados cursaram pedagogia na década de 1960. no sentido amplo de terem tomado parte no período inicial do curso. Uma vez localizadas essas pessoas-chave. Tal procedimento se desdobrou em várias frentes de investimento. de algum modo.. Sobre os pedagogos entrevistados. no interior do campo a que se relaciona. conjunto de pedagogos considerados primordiais. argumentativas e interpretativas do estudo. 1190 Educ. a abordagem metodológica foi a análise de depoimentos.70 anos do curso de pedagogia no Brasil. Ao iniciar as entrevistas e também após as primeiras interpretações dos dados. Um ponto-chave no processo de composição do grupo participante do estudo residiu na própria conceituação do que se denominou de pedagogos primordiais.. fundamentalmente. de acordo com as exigências descritivas. atuação e intervenção social. set. se situa a análise documental. 109. vivenciando o curso seja na sua gênese. 2009 Disponível em <http://www. informações sobre os primórdios do Curso de Pedagogia no Brasil. vol. também. o capital científico é um tipo de capital simbólico. a formação nele recebida. para pedagogos que ocupam posições dominantes no campo acadêmico porque detêm razoável capital científico. as mutações por ele sofridas ao longo do tempo e. Entre elas. seis na década de 1950. 1950 e 1960.unicamp. não só isso. as entrevistas e o seu processo de análise O grupo dos dezessete entrevistados é formado por quatorze mulheres e três homens.2 Nove entrevistados são egressos de cursos oferecidos por instituições públicas e oito de instituições privadas.br> .. 30. Campinas. obter. colhidos através da realização de entrevistas semiestruturadas. o interesse de pesquisa voltou-se para pessoas que cursaram pedagogia nas décadas de 1940. n. para o processo de consolidação da pedagogia no Brasil.

br> . pelo mérito de sua produção em uma época em que a pós-graduação não apresentava a estrutura que tem hoje. além de atuar como formador de pedagogos e de professores primários. complementar ao Curso Normal. pôde exercer a prática pedagoga por meio da gestão. Doze atuaram como professores do primário e dez como professores do secundário na Escola Normal. O roteiro estabelecido para a entrevista do tipo semiestruturada procurou. alcançaram direto a condição de livre-docente. pró-reitor.cedes. quatorze pelo doutorado e sete pelo pós-doutorado. Alguns dos entrevistados. abarcar os seguintes eixos de análise: trajetória de formação e de 1191 Educ. de 4 de abril de 1939. 2009 Disponível em <http://www./dez. entre outras atividades de direção acadêmica.unicamp. sendo que alguns fizeram mais de um programa de pós-doutorado. 1187-1205. Quase todos os entrevistados exerceram. Soc. Ministério da Educação ou órgãos a ele vinculados. oito deles iniciando esta experiência tão logo concluído o Curso de Pedagogia e um. por meio do Decreto-Lei n. Onze passaram pelo mestrado em educação. Campinas. visto que dez deles exerceram (e alguns ainda exercem) as funções de reitor. 1. set. dez entrevistados atuaram no âmbito de Secretaria Estadual de Educação. em especial. que também foi experimentada no contexto universitário. quando o curso foi introduzido entre nós. em algum momento da sua trajetória. funções referentes ao ofício de pedagogo. No que se refere à atuação como professores do Curso de Pedagogia. 109. com base na questão central da pesquisa. coordenador do Curso de Pedagogia. n. Do grupo dos dezessete. antes de ingressar no Curso de Pedagogia. Todos os entrevistados fizeram algum tipo de curso de especialização no Brasil e/ou no exterior.Giseli Barreto da Cruz No que se refere à formação que precedeu o Curso de Pedagogia. seis deles alcançaram a “cadeira prêmio”. p. que não registram o título de mestre e o de doutor. O processo de realização das entrevistas transcorreu no decorrer dos anos de 2006 e 2007. ingressando de imediato como professor primário efetivo do sistema de ensino do seu estado. coordenador de pós-graduação.190. vol. boa parte do grupo. Desta Escola. Conselho Estadual de Educação. Nesse contexto. começando no início da década de 1940. apenas dois não passaram pela Escola Normal. chefe de departamento. Boa parte do grupo reúne experiência como professor primário e/ou secundário.. e de se constituir como referência de pesquisa na área. Apenas três fizeram um curso de aperfeiçoamento. 30. todos trabalharam como formadores de pedagogos.

set.70 anos do curso de pedagogia no Brasil. já que a fala de cada entrevistado não seguia o mesmo encadeamento. tiveram uma duração maior. dez foram realizadas nas residências dos entrevistados. em especial. no ano de 2006. 109.. para identificar traços dos primórdios deste entre nós e das mutações por ele sofridas ao longo das suas três primeiras décadas de funcionamento. as respostas foram organizadas em blocos. e posições defendidas sobre a pedagogia. o receio de ignorar aspectos importantes por eles abordados e que. Das dezessete entrevistas.unicamp. atuação do entrevistado. Assim foi que./dez. p.br> . de formador e de pesquisador. Campinas. trajetória de estudante do curso. No processo de análise. A última foi realizada durante o IX Congresso Estadual Paulista sobre Formação de Educadores. 30. para perceber.. de acordo. vol. promovido pela UNESP. Três aconteceram em uma sala da universidade. de modo especial. Das trajetórias e memórias de pedagogos primordiais: os primórdios do Curso de Pedagogia no Brasil No tocante ao seu primórdio. A duração de cada entrevista variou de duas a oito horas. trajetória de pedagogo. n. 1192 Educ. necessariamente. As entrevistas foram transcritas na íntegra e revisadas. além do curso ginasial. para favorecer a conferência de fidedignidade. recaindo o peso maior nas discussões teóricas sobre a educação. o resultado das análises mostrou que o Curso de Pedagogia se afirmou no seu início e. com o local de sua realização. 1187-1205. para evidenciar a sua condição de pedagogo primordial desde os tempos iniciais do Curso de Pedagogia. durante boa parte de sua trajetória como uma continuidade natural ao Curso Normal. após a escuta metódica de cada fita. para discutir a natureza dos seus conhecimentos e a sua materialização em um curso. não convergiam para as questões propostas forçou o trabalho concomitante com os blocos descritivos montados e com todas as demais falas. a parte referente à formação de professores foi pouco investida. Três foram realizadas durante a 29ª reunião anual da ANPEd. em 2007. 2009 Disponível em <http://www. Soc. Nesse movimento. também..cedes. a evolução do curso e do conhecimento que o sustenta. aos olhos do entrevistado. mesmo o Curso de Pedagogia tendo como uma de suas incumbências a formação de professores para a Escola Normal. Estas. principalmente. de acordo com os quatro eixos definidos no roteiro.

tal como expressam as falas a seguir: Fui aluna do Fernando Henrique Cardoso.. eu e parte do grupo para aprender inglês. facilitando o estudo aprofundado. sendo dez em francês e dez em inglês. dada a estreita relação com diferentes frentes disciplinares. de igual modo pode contribuir para engendrar um quadro de dispersão da própria pedagogia. sendo na parte da manhã e em algumas tardes.cedes. porque não havia muita bibliografia publicada no Brasil. porque durante a semana o tempo era curto para tanta atividade do curso e também porque o curso já não era de um período só. a centralidade dos clássicos na formação.. outros para aprender francês e outros para aprender os dois. exigindo dos alunos o domínio de diversas línguas. bem maior que o da prática. porque era a menina dos olhos de Florestan Fernandes. o trabalho com uma bibliografia predominantemente importada. 1187-1205. para dar conta daquilo no decorrer do ano. Situar o papel da teoria no curso representou sublinhar a multiplicidade de saberes que constituem a pedagogia. Ele entrou na sala de aula e deu uma lista de vinte livros. nós tínhamos que frequentar muito as bibliotecas. Por exemplo. com aulas expositivas. de Pestalozzi. Era outra formação! (Entrevistada H-50)3 Naquele tempo. cinco aspectos apareceram de modo recorrente nos depoimentos. Campinas. evidenciando a dinâmica predominante do curso em seus tempos iniciais: o domínio de grandes disciplinas com carga horária ampla.unicamp. os depoentes ressaltaram o seu peso no curso.. 2009 Disponível em <http://www. Saímos correndo. e se não fosse assim não conseguíamos acompanhar o curso (. dificultando a afirmação de um estatuto teórico específico. No contexto da formação teórica obtida no curso. trabalho meticuloso de interpretação dos textos e exames de arguição oral. e a marca notadamente tradicional do curso. mas em número reduzido. pegou todas as nossas fichas e discutiu com cada um para ver se tinha lido mesmo. (Entrevistada L-60) Educ.br> 1193 . eu li O belo e o sublime. p. set. Soc. 109. ora a própria fraqueza da pedagogia. sinalizando ora a força. Efeito imediato! Ninguém falou: “A gente vai ter que ler tudo isto?!”. independentemente das demais atividades de sua disciplina. quando ele era novinho e famoso já na época. porque já líamos francês. e falou que no final do ano ele iria examinar um por um dos alunos sobre a leitura dos vinte livros. um alto grau de investimento no estudo para cumprir as exigências dos trabalhos acadêmicos. Se a multiplicidade de estudos teóricos faz crescer o seu domínio de conhecimento.). 30. vol. na Biblioteca Municipal aos sábados./dez. n.Giseli Barreto da Cruz Sobre a parte teórica. E ele fez exame oral.

que é possível identificar um pedagogo pela sua condição de prático-teórico da ação educativa. Assim. que. segue formulando proposições para a sua prática. ao teorizar sobre a educação. sendo em sua essência um problema constitutivo da pedagogia. mas não pára por aí. a pesquisa se fez presente de modo singular no curso realizado por boa parte dos entrevistados. então. os entrevistados ressaltaram a influência de alguns professores na sua formação. a prática. Junto com o aprendizado teórico e.unicamp. Enfatizaram que cultura. p. ecletismo e erudição representaram as principais marcas professorais dos formadores. frequentada pela maioria. Contudo. vol. A convivência com professores pesquisadores. a pedagogia pressupõe a junção mútua e dialética da teoria e da prática educativas pela mesma pessoa. provinham das Escolas Normais.br> . através do estudo de disciplinas como estatística. de um modo geral. Se a teoria mobilizou o andamento do curso. apareceram como aspectos favoráveis à formação para o exercício desta atividade.. participação em grupos de pesquisa. visto que a própria conceituação da pedagogia supõe a afirmação dessa relação. set.cedes. Trata-se de uma relação conflituosa. 109. n. deixaram claro que seu afastamento do curso só não foi mais prejudicial à sua própria formação porque já contavam com referenciais reunidos ao longo da Escola Normal. Segundo Houssaye (2004). Pedagogo é aquele que. Entre os componentes de formação mencionados.70 anos do curso de pedagogia no Brasil. ora sendo identificada como o modo por meio do qual essa prática se estabeleceria. 1187-1205. Defende este autor que a articulação teoria-prática é de tal modo própria da pedagogia. psicologia e biologia. a prática se afastou. em alguns casos. pelas várias críticas que teceram à parte prática. Soc./dez. também pela pesquisa. ora sendo assumida como teoria dessa prática. Campinas. um curso que se pretende formador de profissionais para atuar nesse contexto desconsidera uma dimensão que lhe é específica? Para Saviani (2007b). mesmo com toda a dispersão decorrente das diferentes filiações disciplinares. seja pela sua ausência. dos institutos de 1194 Educ. 30. parece não ter encontrado entrada no seu próprio curso. Como. Os entrevistados põem em evidência a importância dos estudos teóricos. analisa o fato educativo. seja pela sua inconsistência. monitoria e iniciação à pesquisa.. um elemento conceitual constituidor da pedagogia.. 2009 Disponível em <http://www. a pedagogia se desenvolveu a partir da estreita relação que estabeleceu com a prática educativa.

marca predominante dos primórdios do curso entre nós. cujo perfil vem se modificando e evidenciando a ausência Educ. sobremaneira. demarcando a importância da cultura universitária. Nós tínhamos um espaço formativo importantíssimo. o papel secundarizado do estudo dos clássicos em educação. referente aos professores do Curso de Pedagogia. apareceu como a principal marca do perfil dos formadores: eles não eram pedagogos. Eu participava de um dos movimentos. Nesse aspecto. onde o tema educação era um tema-chave.. que era o da JUC – Juventude Universitária Católica. Das trajetórias e memórias de pedagogos primordiais: a evolução do Curso de Pedagogia no Brasil Quanto aos aspectos observados na evolução do curso. perdeu força. imprimindo ainda mais significado à formação acadêmica recebida. e o baixo capital cultural dos alunos. aquele referente às diferenças observadas entre o curso de formação e o curso de atuação como formador. set. 2009 Disponível em <http://www. tão forte na formação que tiveram.cedes. afetando inclusive o estudo dos clássicos. Soc. em especial.br> 1195 . p. em geral. Uma condição. O peso de diferentes tradições disciplinares no curso contribuiu para que os formadores de pedagogos. que deixaram de ocupar posição relevante no andamento do curso. a dificuldade de construção de sínteses sobre o que é e como se elabora a pedagogia. em uma época notadamente marcada pelo ambiente altamente politizado e pelo movimento estudantil. As lutas pelas causas sociais reacenderam a importância do sujeito coletivo e da perspectiva de uma educação a serviço da transformação social. Primeiro./dez. a experiência vivenciada na universidade. 109. Para os entrevistados.Giseli Barreto da Cruz educação ou dos seminários e colégios de padres. decorrentes das mutações ocorridas. fossem provenientes de diferentes áreas. a partir das diferentes disciplinas estudadas. n. 1187-1205. os depoentes destacaram a perda da densidade teórica do curso. 30. que foi a militância estudantil nos plenos anos de ditadura. que marcou muito a linha da militância. Tais perdas são percebidas na problemática conceituação da própria pedagogia pelos alunos. (Entrevistada J-60) Segundo.unicamp. Campinas. Os depoentes valorizaram. o resultado das análises apontou quatro conjuntos de diferenciais. aquele referente às diferenças entre as décadas de 1940/50 e 60. vol. a densidade teórica.

pois não basta pensar o ato pedagógico. que instituiu as habilitações na formação do pedagogo. como diz Houssaye (2004. Mas o teórico da educação. O “nexo” com a “práxis educativa”. A relação deve ser permanente e irredutível ao mesmo tempo. 30. As habilitações para formar os especialistas para as atividades de orientação educacional. Por conseguinte.. em falta no curso. o conhecimento pedagógico não se elabora. Ele fica entre os dois. Houve uma fragmentação grande no curso por conta de muitas disciplinas. 10).. pois o fosso entre a teoria e a prática não pode senão subsistir (ver Soëtard. 109. 1981). Para este autor. ele é o entremeio. a partir das diferentes áreas que lhe são constitutivas. p. 1187-1205.cedes. vol. Para os entrevistados. mas a reunião mútua e dialética da teoria e da prática é o que faz emergir um pedagogo. set. como tal. Campinas. (Entrevistada J-60) A pedagogia requer formulações próprias. supervisão e inspeção de escolas e sistemas de ensino são questionadas pelos entrevistados. administração escolar. visto que. a teoria. é o que dá sentido ao saber pedagógico. de 1969.. prejudicando assim o desenvolvimento das atividades acadêmicas.unicamp. As análises sinalizam que as habilitações são apontadas como o fator que mais mudança imprimiu ao Curso de Pedagogia. Terceiro. aquele referente às alterações advindas do Parecer CNE n. mesmo pelos que 1196 Educ. tal como se depreende da fala a seguir: Eu considero que houve um distanciamento da práxis educativa. não é um pedagogo. Soc./dez. Nem só a teoria. também não é um pedagogo... A práxis fica de fora. sem que os alunos consigam fazer os nexos necessários (. Como você olha a educação do homem grego na formação do pedagogo hoje? Estuda-se o assunto. entre outros. sem consolidar outra força capaz de favorecer o processo de afirmação de um conhecimento específico da pedagogia. de domínio de habilidades linguísticas e de conhecimentos gerais.). Esse é o caldeirão de fabricação pedagógica. o pedagogo não pode ser um puro e simples prático nem um puro e simples teórico.. mencionado pela entrevistada J-60. Só será considerado pedagogo aquele que fizer surgir um plus na e pela articulação teoria-prática em educação. Por definição.br> . coerências ou sistemas pedagógicos.. sem a síntese integradora. em si mesmo. na maioria das vezes é um usuário de elementos. mas não se avança no seu pensamento sobre a inserção social e profissional do aluno.70 anos do curso de pedagogia no Brasil. o prático. nem só a prática. É essa fenda que permite a produção pedagógica. n. 252. p. 2009 Disponível em <http://www. o curso perdeu o que tinha de mais forte.

. Então. Campinas. Quarto. de algum modo. projetar. visto a diversidade de enfoques formativos que passou a vigorar no curso. n. paradoxalmente. Para os entrevistados. as habilitações contribuíram para definir com mais clareza o papel a ser desempenhado pelo pedagogo. (Entrevistado D-50) As habilitações no Curso de Pedagogia tiveram o mérito de representar um dos pontos de mais difícil consenso nas discussões sobre o próprio curso. cujo reflexo é facilmente percebido nas diretrizes curriculares para o Curso de Pedagogia... o não-lugar das habilitações e a docência como base de formação. ou seja. para ser orientador ou o que quer que seja (.. Os depoentes rejeitam a concepção produtivista e a tendência tecnicista na base de sua gestação. As tradicionais Educ. acompanhar e avaliar processos educacionais em diferentes contextos.. 2009 Disponível em <http://www. a questão mais complexa reside na formação a ser oferecida para que o pedagogo possa atuar além da sala de aula. ser pedagogo ficou de certa maneira em segundo plano e não disseminou a ideia de que ser pedagogo é uma precondição para ser supervisor. aprovadas em abril de 2006.). 1187-1205. Durante muito tempo o pedagogo se identificou como professor (..br> 1197 . Dificilmente o pedagogo se identificou como pedagogo. implementar. set. No tocante às habilitações./dez. Extinguir.cedes.Giseli Barreto da Cruz se consolidaram no campo como referências teóricas importantes sobre elas. Ser pedagogo requer fazer pedagogia. teorizar sobre a educação.). Os dados analisados indicam três pontos emblemáticos nos depoimentos: o afastamento da teoria. vol. cuja identidade sempre se mostrou controvertida e ainda não está satisfatoriamente resolvida. Para eles. 109. manter ou reformular fizeram do debate um embate. a perda da densidade teórica. observada no decorrer do curso. 30. Quando as habilitações chegaram. as próprias diretrizes curriculares. os depoentes não consideram o seu fim como o ponto problemático do curso.unicamp. chegaram com uma nomenclatura nova que foi logo assumida: “Eu sou supervisor” ou “Eu sou orientador” ou “Eu sou inspetor de ensino”. lamentam a fragmentação observada na divisão do trabalho escolar e questionam a formação do especialista no âmbito da graduação. Soc. p. os depoimentos deixam ver que. Entretanto. sobretudo as desencadeadas a partir da década de 1980 pelo movimento dos educadores. Acho que vai levar muito tempo para que essa identidade seja robustecida para que ela seja orgulhosamente assumida.. corre o risco de se acentuar com as diretrizes aprovadas.

30. na visão dos entrevistados.. (re)elaboram e fomentam entre si e nos outros os aspectos culturais que necessitam ser apropriados para a preservação da sua espécie. O que os pedagogos precisam fazer? O físico faz física. o que certamente contribuiria para o crescimento da sua responsabilidade profissional. o problema das diretrizes curriculares não está na docência ser ou não o fundamento principal do curso.cedes. O biólogo faz biologia e assim por diante. mas no afastamento do estudo da própria pedagogia. que a compreensão sobre o domínio do conhecimento da pedagogia coloca-se como uma precondição. vol. interessa ressaltar. A pedagogia.. questionam os depoentes. ou seja./dez. No que tange à docência como base de formação do pedagogo. ou seja. cuja concepção apresentada nas diretrizes curriculares busca abarcar o fazer pedagógico nas suas diferentes abrangências. a proposta. é aceita. Para os entrevistados. Ele faz avançar o conhecimento sobre a física.unicamp. o que teria que fazer o pedagogo? Teria que fazer pedagogia. pensar conceitualmente sobre a pedagogia requer pensar sobre a educação. mas a docência como base de formação não pode representar a secundarização da própria pedagogia. para os depoentes. 109. da humanidade produzida historicamente pelas diferentes gerações. Porém. Por ora. vem sendo pensada correlativamente à educação. justamente no que se refere ao processo de compreensão da educação e das formas pelas quais os homens identificam. Campinas. O curso favorecerá formação para que o pedagogo faça pedagogia? (Entrevistado D-50) Das concepções de pedagogos primordiais: a posição do Curso de Pedagogia no contexto do campo acadêmico De acordo com o segundo objetivo proposto. A perspectiva de que todo pedagogo precisa entender de docência é endossada. Bom.br> . 1187-1205. 2009 Disponível em <http://www. set. fazer crescer o conhecimento existente. Trata-se de uma relação indissociável. de modo geral. habilitações dão lugar à docência. Será isto possível?. p. n. desde a antiguidade clássica. existem restrições. O resultado mostrou que. no contexto da análise desenvolvida.. buscou-se obter junto aos investigados qual sua posição acerca da pedagogia enquanto domínio de conhecimento e enquanto curso. para mapear e interpretar a posição da pedagogia no contexto do campo acadêmico. 1198 Educ. Soc.70 anos do curso de pedagogia no Brasil.

que não se limita à compreensão de que uma é objeto da outra. A fala da entrevistada E-50 deixa ver essa posição: A pedagogia precisa ser melhor entendida para bem do seu próprio curso. é o que dá sentido a ela. Apesar dessa relação intrínseca.. para tanto. fazendo aparecer pouco o conhecimento que lhe é específico. impõe-se o seu fortalecimento teórico. há que pensar sobre ela. o que poderia lhe conferir a condição de centro formador de profissionais para a educação. se a relação entre pedagogia e educação é incontestável. 109. há que colocá-la sob interrogação (. não pode significar nem a negação de sua própria unidade teórica. onde se insere o seu curso. que ela transborda puxando outras forças para o seu movimento. faz a pedagogia expandir. que os depoentes neguem a possibilidade da pedagogia ser uma ciência. tal base de teorização. como questão. Apesar de a pedagogia ser identificada como base de teorização da e sobre a educação. As diferentes áreas das ciências humanas também se encarregam de teorizar sobre a educação. Entretanto.). p. que pouco ou nada esclarece acerca da sua natureza e missão. sem se ocuparem com a definição desse tipo de saber. 1199 Educ. Campinas. elas não são a mesma coisa. n. Soc.unicamp. O que se depreendeu das análises é que os entrevistados preferem se posicionar na direção daqueles que reconhecem a pedagogia como produtora de saber. o mesmo não acontece entre pedagogia e cientificidade. tal investida não é exclusividade sua. Nessa direção. A pedagogia elabora o que a educação lhe apresenta como provocação. 1187-1205. Se fossem. por outro lado. Considero que pedagogia e educação não podem ser dissociadas.Giseli Barreto da Cruz para entender a posição da pedagogia no âmbito acadêmico. Uma e outra constituem um movimento interativo e permanente.cedes. Para podermos ver a educação com grandeza há que teorizar. 30. como dúvida./dez. O diferencial da pedagogia em relação às demais áreas encontra-se no seu objetivo de formulação de diretrizes para a prática educativa. Mas. Prevalece a tendência de compreensão da pedagogia como base de teorização da educação. para os entrevistados. 2009 Disponível em <http://www. nem o contentamento com uma definição generalizadora. ao se fundamentar em saberes plurais. como problematização. ainda muito dependente das contribuições de outras áreas.br> . set. o que é suficiente para lhe conferir um saber próprio. veio à tona a relação entre o Curso de Pedagogia e a Faculdade de Educação. diante dos dados. vol. sem perder o seu centro que é a dimensão humana. A educação acaba sendo de tal modo abrangente. A educação. Não pareceu.. não teríamos Faculdade de Educação e Curso de Pedagogia. (Entrevistada E-50) Os achados deste estudo sinalizam que..

também da pedagogia foi potencializado. em especial a partir da década de 1980. conferindo-lhe “um nível de amadurecimento que lhe possibilitou a conquista do respeito e reconhecimento da comunidade científica (.)” (Saviani... portanto. o crescimento das pesquisas em educação contribuiu para demarcar o seu lugar no contexto acadêmico. A esse respeito. trabalhando com estudantes e pesquisadores de diferentes filiações disciplinares. Tal como evidenciam os depoimentos. possibilitando que o conhecimento da educação se expanda. o impacto dessas pesquisas sobre o Curso de Pedagogia poderia ser mais significativo.unicamp. 30. Contudo. beneficiou o aprofundamento das teorias que embasam a pedagogia. atendendo à sua própria configuração de aportar-se em múltiplas referências teóricas. as análises apontam para o impacto da construção da pesquisa em educação sobre o Curso de Pedagogia. A posição predominante entre os entrevistados parece indicar que a abertura da pós-graduação em educação para as outras áreas.br> . fazendo correr o risco de ficar muito pulverizado. o fortalecimento da pós-graduação em educação e as pesquisas desenvolvidas por meio dela contribuíram para o crescimento do campo em várias direções. Para os entrevistados. O campo educacional experimentou uma significativa ampliação. p. Ainda nessa mesma direção. Para os depoentes. 2007a.. a entrevistada A30 disse o seguinte: A nossa pós-graduação tem uma peculiaridade que eu sempre defendi e considero muito boa: a sua abertura para as outras áreas do conhecimento. parece que não cresceu. do mesmo modo. Mas é de igual modo rico. set. Nessa perspectiva. 1187-1205. quando aumentou a produção acadêmico-científica. com o avanço da pesquisa em educação. Abrir demais é complexo. o 1200 Educ. através do avanço da pós-graduação em educação. (Entrevistada A-30) Além da abertura da pós-graduação.70 anos do curso de pedagogia no Brasil. As ideias pedagógicas alcançaram maior circularidade. Soc. mas o Curso de Pedagogia pouco se beneficiou dessa posição. seu crescimento também foi apontado pelos entrevistados como um dos fatores favoráveis ao desenvolvimento do pensamento educacional. Nesse sentido./dez. o esforço no sentido de fazer convergir a produção de conhecimento em educação para o fortalecimento do Curso de Pedagogia. p.. n. mas de editoras e revistas especializadas.cedes. o caráter interdisciplinar da educação e. vol. 2009 Disponível em <http://www. não só através de cursos. apesar do crescimento do campo educacional.. 405). Campinas. 109.

sem que as pesquisas desenvolvidas contribuam para a sua superação. mesmo não tendo estatuto científico inteiramente definido.br> 1201 . Predomina entre os depoentes a perspectiva de que a pedagogia. vol. set. para o processo mais abrangente e contínuo de transformação social.cedes. interessa-me apenas sinalizar. a pedagogia. por meio das práticas desenvolvidas. mais preterida que reconhecida. 6ª séries e não saiba ler e escrever direito? Alguma coisa está acontecendo! Onde estão os pedagogos e todo o conhecimento que se produz sobre a educação? (Entrevistado C-50) Dessa forma. que fundamenta os processos de formação e de atuação do pedagogo e também do professor./dez. a pedagogia não reúne condições para ser assumida dignamente no campo acadêmico. 1187-1205. 30. p. dissertações e mais dissertações. pode parecer que. Quem é o aluno de pedagogia hoje e quem são seus formadores? Certamente. a serem apontadas a partir de então. para os entrevistados. Tal como focalizado. só que um universo cada vez maior de crianças continua não aprendendo a ler e a escrever direito. dificultando a afirmação da sua posição neste campo. 5ª. refletindo diretamente no contexto da prática pedagógica. Como é que é possível você admitir que a criança fique na 4ª. principalmente no das escolas e dos sistemas de ensino. Entretanto. Diante dessas circunstâncias. contribuindo.unicamp.Giseli Barreto da Cruz aproveitamento das pesquisas se configura como um dilema para os problemas educacionais. é detentora de um corpo de conhecimentos plurais. 2009 Disponível em <http://www. n. mesmo detentora de saber específico. reconhecer os limites não significa negar as possibilidades. São teses e mais teses sendo construídas. no que tange aos alunos e com base exclusivamente no perfil daqueles com os quais tenho oportunidade de trabalhar. Soc. Reflexões finais No intuito de desenvolver uma reflexão conclusiva em face dos achados apresentados. Campinas. o Curso de Pedagogia progressivamente assumiu a função de habilitar os professores para atuação na primeira Educ. Aqui. deparo-me com algumas questões. que protagonizam um cotidiano perpassado de uma série de conflitos. que muitos não são egressos do Curso Normal. pelo contrário. 109.. se vê. no seio das disputas acadêmicas. estas são indagações para estudos específicos. pesquisas e mais pesquisas.

o Curso Normal não tenha sido uma precondição para o de Pedagogia. etapa do ensino fundamental.70 anos do curso de pedagogia no Brasil. que.cedes. set. abordava o campo da prática. esta se dará no campo de atuação e nos espaços de formação continuada. na modalidade Normal. diante de tamanha abrangência? O Curso 1202 Educ. hoje. Todavia. além disso. hoje. enquanto o Curso de Pedagogia. o fluxo crescente de candidatos ao magistério que optam pela formação no âmbito de um curso superior. à formação inicial do professor para atuar nos cursos de ensino médio. e a habilitação conferida sem tanta formação ainda assim não era tão sentida. destina-se. Campinas. A amplitude dessa formação aponta para outro questionamento que emerge deste estudo./dez. 1187-1205. vol.br> . como uma das três possibilidades formativas desse profissional. o Curso Normal destina-se exclusivamente à formação do professor para a educação infantil e para a primeira etapa do ensino fundamental. o Curso de Pedagogia considerava primordialmente os estudos teóricos em torno das disciplinas pertencentes ao campo das Ciências da Educação. de algum modo. 109. observada nos primórdios deste curso entre nós. 30. em cursos de educação profissional na área de serviços e apoio escolar e em áreas nas quais sejam previstos conhecimentos pedagógicos. consequentemente. Se. via de regra. Uma vez que o Curso de Pedagogia destina-se basicamente à formação dos mesmos docentes habilitados pelo Curso Normal. pode-se dizer.. A relação parental entre os Cursos Normal e de Pedagogia. hoje o cenário é outro. oficiosamente foi o que predominou. porque o Curso Normal. Dessa forma. visto que o Curso Normal em nível médio e o Curso Normal Superior se organizam em torno da mesma finalidade. constituindo-se. Soc. no passado. além de propiciar a instrumentação pedagógica específica para a docência. o Curso de Pedagogia. Se o Curso de Pedagogia não propiciar aos alunos a formação pretendida. Ainda que. não se atendo tanto quanto deveria aos pressupostos práticos para a formação dos professores do ensino secundário e dos técnicos de educação. restringe-se ao fato de ambos habilitarem para a mesma função. Que concepção teórico-prática conduzirá o Curso de Pedagogia.. 2009 Disponível em <http://www. p. segundo estabelecem suas diretrizes curriculares nacionais. observa-se a diminuição da oferta de vagas nesse curso e. é pautada por programas descontínuos. atualmente. sem que se identifiquem políticas articuladas a seu favor. oficialmente. n. precisa favorecer a necessária formação teórica do pedagogo..unicamp.

dialética e indissociavelmente. cujas contribuições são importantes e necessárias para o desenvolvimento da pesquisa educacional. E formar o pedagogo requer considerar essencialmente a dimensão teórico-prática da educação. Esses saberes. n. mas. p. Soc. em si mesma. Recusar como válido o saber da pedagogia. Se a pedagogia busca ser. no tocante à teoria. não se pode prescindir da teoria no seu curso. nem só prática. enquanto objeto. Os saberes de base teórica são plurais. em função da sua abrangência e do seu enraizamento com a prática. mas expressão de outro saber. Nem só teoria. set. entendo que tal perspectiva não invalida a pedagogia como domínio de conhecimento específico sobre a educação. aponta que a teoria perdeu força. Outros campos teóricos cuidam de abordar o fenômeno educativo a partir de suas próprias concepções teóricometodológicas. 30. segundo defende Isambert-Jamati (1992)./dez. não pode abster-se de formar o pedagogo. ela é um campo caudatário de conhecimentos de diferentes afluentes. Se o conhecimento da pedagogia se estrutura em torno da prática educativa.. vol. 109. teoria e prática da educação representam o seu eixo nuclear. de base teórico-prática. 2009 Disponível em <http://www.unicamp. mas teoria e prática da educação. A análise das mutações observadas no curso. 1187-1205. deve ser investigada a partir de uma base sólida em uma das disciplinas a ela confluentes.cedes. ao longo dos seus 70 anos. quando voltados para um determinado contexto prático. a ser assumido na formação dos pedagogos. considero importante demarcar que entendo e defendo o saber da pedagogia como sendo um saber composto: teoria e prática. buscando afirmar-se como teorização dessa prática. cuidando de analisá-lo propositivamente. se transformam em um novo saber. Educ. Entretanto.Giseli Barreto da Cruz de Pedagogia. Campinas. teoria e prática da educação e. que é o saber pedagógico. De acordo com a investigação realizada. ao formar o professor. em seus tempos iniciais. assim como não se pode abdicar da prática.br> 1203 . sem que outra dimensão se fortalecesse. entre nós. consolidando-se como um campo de estudos com identidades e problemáticas específicas. é negar a própria pedagogia. para o bem da própria pesquisa. A educação. não só de base teórica ou de base prática. Compreendo que a educação não se constitui em um objeto de estudo específico da pedagogia. Nesse sentido. reunindo contribuições de diferentes campos conceituais. não mais proveniente apenas de sua fonte de origem. a teorização sobre a educação e a formação humana constituiu a força principal do Curso de Pedagogia no Brasil.

tanto quanto deveria. resultando em uma formação de caráter mais abstrato e menos integrado ao campo de atuação do futuro profissional. contribuindo para o fortalecimento do domínio que lhe é específico. 2009 Disponível em <http://www. 5/2005 e n./dez. Ela não pode resultar em desarticulação das disciplinas e em um estudo dissociado da realidade educacional. a partir da lógica de cada disciplina e de seu professor. o aprofundamento teórico. identificadas nos Pareceres CNE / CP n. n. o que levou a um desvio na composição do grupo de participantes da pesquisa. Todavia. precisa considerar a educação como prática social e o trabalho pedagógico e docente como a referência primeira da pedagogia e. pela via das diferentes disciplinas. p. de fato. Uma indicação para a década de 1930 refere-se a um egresso do curso de História e Geografia da FFCL / USP (1937-1940). O Curso de Pedagogia. tal como apontaram os sujeitos desta pesquisa. Tal aspecto contribui para o esmorecimento da necessária conexão entre a teoria e a prática. à reflexão e à pesquisa sobre a educação como prática social. 109. O resultado são pedagogos docentes que revelam conhecimentos insuficientes sobre o seu próprio ofício.70 anos do curso de pedagogia no Brasil. 1. Pelo contrário. set. Nessa linha de raciocínio. precisa se ligar ao estudo. Como revelam dados de pesquisa da Fundação Carlos Chagas sobre as instituições formadoras e seus currículos para a formação de professores para o ensino fundamental (Gatti e Nunes. o exercício de relacionar adequadamente as teorias estudadas com as práticas pouco conhecidas e elaboradas. 2009). 1187-1205. enquanto graduação... que tende a gerar um efeito dispersivo do processo formativo. Soc. visto que o ensino demasiadamente descritivo não possibilita. seu percurso o colocou na condição de quem viveu. Resolução do Conselho Nacional de Educação. consequentemente. n. os 1204 Educ. 3/2006. Com efeito. propiciando aos pedagogos em formação fundamentos para teorizar sobre suas práticas e condições para submetê-las à discussão. de 10 de abril de 2006. Notas 1. a trajetória histórica da pedagogia. não se encontra na sua trajetória. O tratamento específico dos conhecimentos educacionais..br> . 30. em diálogo com as várias abordagens sobre a educação.cedes. Recebido em janeiro de 2009 e aprovado em setembro de 2009. 2. do seu curso. Campinas. precisa ser estudada no seu próprio curso. vol. no tocante ao Curso de Pedagogia sobressai atualmente a característica fragmentária do currículo. há que se tirar proveito da diversidade teórica que envolve a pedagogia.unicamp.

n. Campinas: Autores Associados. et al. São Paulo: Fundação Carlos Chagas. P. 130. set. 1992. (Org. 30. 170-173. 2008. 122-155. São Paulo. M. vol. jan.unicamp. São Paulo: Ática. ARTMED . Porto Alegre. GATTI. (Org. 5.M. Porto Alegre: ARTMED . O campo científico. 1205 Educ.. 2009 Disponível em <http://www. 3. 1999. Campinas.). História das idéias pedagógicas no Brasil. 2009. J. 1983. p. Por esta razão. NUNES. Ciências da educação: um plural importante quando se trata de pesquisa. J. B. p. Manifesto a favor dos pedagogos. Formação de professores para o ensino fundamental: estudo de currículos das licenciaturas em pedagogia. 2007b. BOURDIEU. J. A identificação dos entrevistados ocorrerá por meio de uma letra alfabética seguida da numeração da década em que o mesmo cursou pedagogia. Pedagogia: o espaço da educação na universidade. SAVIANI. quando o curso se instalou ali. Curso de pedagogia no Brasil: história e identidade.. v. Soc.A. 2004.cedes. Pedagogia: justiça para uma causa perdida? In: H OUSSAYE . 109. Pierre Bourdieu. et al. p.). 9-45. p. BRZEZINSKI. Teoria & Educação. pedagogos e formação de professores: busca e movimento. n. Porto Alegre: 2004. 37. D. matemática e ciências biológicas. Pedagogia. Campinas: Autores Associados. Campinas: Autores Associados. Referências BISSOLLI DA SILVA. SAVIANI./dez. língua portuguesa.Giseli Barreto da Cruz primórdios da pedagogia no Brasil. HOUSSAYE. 1996. ISAMBERT-JAMATI. entendeu-se que seu depoimento não poderia deixar de compor o quadro pretendido com o estudo. D. A pedagogia no Brasil: história e teoria. In: O RTIZ . 99-134. Campinas: Papirus. 2007a. visto que integrava o corpo docente da FFCL/USP. Manifesto a favor dos pedagogos. Cadernos de Pesquisa. p. HOUSSAYE. V.R. I. D. 1187-1205.S. n. R. C.br> . SAVIANI.

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