Viro a página e lá está, no canto direito, 219, A perda da auréola, o poema certo de Baudelaire. – O quê!

Você por aqui, meu caro? Você, num lugar suspeito! Você, o bebedor de quintessências! Você, o comedor de ambrosia? Em verdade, tenho de surpreender-me! – Meu caro, você conhece meu pavor pelos cavalos e pelos carros. Ainda há pouco, enquanto eu atravessava a avenida, com grande pressa, e saltitava na lama por entre este caos movediço em que a morte chega a galope por todos os lados ao mesmo tempo, minha auréola, num movimento brusco, escorregou da minha cabeça para a lama da calçada. Não tive coragem de juntá-la. Julguei menos desagradável perder minhas insígnias do que deixar que me rompessem os ossos. E depois, pensei, há males que vêm para bem. Posso agora passear incógnito, praticar ações vis e me entregar à devassidão, como os simples mortais. E eis-me aqui, igualzinho a você, como vê! – Você deveria ao menos mandar anunciar esta auréola, ou mandar reavê-la pelo comissário. – Ora essa, não! Me sinto bem aqui. Só você me reconheceu. Aliás, a dignidade me entedia. E também, penso com alegria que algum poeta ruim há de juntá-la e vesti-la impudentemente. Fazer

alguém feliz, que prazer! E sobretudo um feliz que vai me fazer rir! Pense em X ou em Z, puxa! Que divertido vai ser. Porra, ele sabe das coisas. Acendo o notebook e o último cigarro da minha vida, dessa vez é sério, mais um gole de café e então resolvo pesquisar uma trilha sonora praqueles versos, uma bossa maldita para o poeta maldito de Baudelaire, o poeta maldito de Baudelaire, o poeta maldito e maldito. Do lado de fora, algumas nuvens escuras deslizam logo abaixo de uma noite ainda mais escura, sem estrelas nem poemas nem nada, apenas helicópteros e alguns pingos suados que despencavam suaves lá de cima da escuridão. E Baudelaire, que sabe das coisas, porra, gostaria de descer até o inferno e tomar um porre com esse cara. Brindar ao seu poeta. Brindar ao meu músico. Maldito e maldito. Quem sabe um dia, como “Um dia lindo de morrer”, a primeira toada que começa a reverberar pelo quarto e ambientar aqueles versos. Ou uma noite de setembro, escura como essa. A música do China combina bem com o poema e então resolvo repeti-la algumas vezes no mypace mesmo, só pra ver o poeta dançar meio samba meio salsa meio mangue. É engraçado como eu sempre caminho

sem rumo pela internet, gosto disso, sem brincadeira, vagar por aí sem mapa nem emoção e escavar num punhado de porcaria alguma coisa que preste. Mas o negócio é que tenho uma bússola saudosista dessas bem vagabundas, acho que é parecida com aquela do Jack Sparrow, e sempre acabo voltando pro mesmo lugar. Dessa vez eu deixei as pegadas bem visíveis na linha de comando – mypace.com/chinaina – e assim a música se repetia e se repetia e se repetia mais uma vez depois daquela outra e outra vez o mesmo “Simulacro” com todas as Simulações que são o segundo disco do China, para onde minha bússola repetitiva me guiara novamente naquela noite em que os acordes vibravam no quarto se repetindo e se repetindo e se repetindo mais uma vez enquanto Baudelaire dançava meio poeta meio profeta meio visionário nas palavras de seu maldito nas partituras de meu músico nos parágrafos de seu poema que se repetia e se repetia e cento e quarenta e uns anos depois se repetia e se repetia mais uma vez…

A Perda da Auréola – versão 2.0 China estava com dor de cabeça, um negócio impertinente que o acompanhou durante todo dia e não o largava nem com potentes doses de paracetamol. Ele acordou de bom humor apesar da São Paulo cinzenta e úmida de setembro. Havia dormido bem e isso é uma variável importante na vida de um cara com insônias de 48 horas. Logo desceu os dois andares da casa que divide com alguns amigos, entre eles o Felipe, Samuel e o Brigidio, todos do Mombojó, acoplou os headfones ao Macbook e começou a trabalhar na quarta música de seu próximo disco, o terceiro da carreira solo. Passou o dia todo editando acordes e samplers no Protools, se entupindo com esses enlatados todos e agora, três da manhã, China mastiga um sanduíche de salpicão e bebe um chocolate quente em pequenos goles na padaria ao lado de sua casa. “As vezes é fome, e talvez comendo um pouco a dor de cabeça passe”, mordeu mais pedaço e lambeu os lábios para limpar a maionese. Eu estava na mesma, faminto e um pouco estressado, então pedi um omelete e uma água tônica. “Bom, cara, a dor não deve ser pelo peso da auréola na sua cabeça, então deve ser fome

mesmo”, e abocanhei um naco daquele omelete cheio de cheddar e cebola. A gente estava conversando sobre o disco do Macaco Bong, Artista igual pedreiro, que o China ainda não tinha escutado, “é um disco foda, cara, e resume tudo isso que a gente estava conversando: é a vez de vocês, músicos, caírem do púlpito. E quem deu a rasteira foi a internet, não tenho nada com isso, eu só baixo os discos e nada mais”. China não ligou muito pro que eu disse e engoliu o último pedaço do salpicão antes de chamar o garçom mais uma vez, “um pão na chapa, por favor”, e bebeu um gole do chocolate pensando no assunto por uns segundos a mais. “Merrmão, agora, com a internet no meio do caminho da música, o barco afundou mesmo: têm uns que afundaram junto, têm outros que estão boiando e têm aqueles que tentam nadar pra algum lugar. Ninguém sabe ao certo ainda pra onde, mas o mais importante agora, merrmão, é nadar pra algum lugar”, era um setembro de noites escuras e eu estava sendo sincero como aquelas nuvens baixas de cerração que esfriavam a madrugada quando disse que, “de verdade, acho que você é um dos que estão nadando pr’algum lugar”, e com o dedo espremi o limão no meio daquelas poucas gotas de água tônica que

ainda dançavam no fundo do copo, “e acho que você tem um bom motivo pra isso, é sério”. Bebi mais uma tônica e China ainda comeu outros dois pães na chapa, ele estava realmente faminto, não era apenas larica, é sério, porque ele não fumou maconha o dia todo, na verdade resolveu dar um tempo quando, numa tarde antes de começar a trabalhar no novo disco, ele acendeu um fino enquanto ligava o Macbook, numa boa, sem pensar nem nada, café e beck, mais um café da manhã como outro qualquer, “e, merrmão, essa rotina já estava no automático, saquei que eu não fazia nada sem acender um antes, e não dá pra deixar a droga dominar você”, você precisa dominar a droga, enrolar e fumar tudo, fundo, bem fundo, eu sei. Deixamos a padaria ao lado de sua casa e nos acomodamos na sala, então enrolei e acendi um beck e uma luz postada bem em cima da mesa em que estávamos, dessas de madeira e quatro lugares, rebatia no veludo da mesa de sinuca logo em frente, do mesmo modelo das que se paga por hora nos botecos de verdade, e deixava a fumaça que nos dominava em paz com uma leve coloração esverdeada.

China não quis dar uma bola, por mim tudo bem, ele parecia cansado e então deitou no sofá ao lado da mesa, e enquanto apertava a cabeça tentando espremer aquela maldita dor de cabeça, seus cachos negros se insinuavam entre os dedos. Ele suspirava e um leve silêncio flutuou no ponteiro dos minutos. Eu estava pensando naquilo tudo, na noite, naquele encontro, no China, num músico com dois filhos pra criar, nas estrelas que não apareciam no céu, em mim, em mais um cara que apenas vive sua vida e baixa umas músicas na internet. Em coisas assim. Mas de repente percebi que era melhor me concentrar na feitura do próximo beck, pensar naquilo estava me deprimindo. Porque, porra, eu sou apenas mais um cão bondoso, é sério, um cão bondoso que aprecia uma música bem feita e um livro meia-boca no final da tarde, e que está curtindo de verdade esse trânsito sem algemas nem filtros ou padrões ou mercado e milhões e bilhões e mais púlpitos e heróis e ídolos inalcançáveis dessa grande puta com hímen de ouro e de outros que é a cultura se vendendo e se insinuando e sassaricando nesse puteiro iconoclasta, delicioso e imprevisível da grande rede. “Na real, merrmão, eu acho que a internet apenas acelerou as coisas, acho que a cultura sempre foi

assim, especialmente a música, só que o fato de ter uma gravadora e muita grana envolvida deixou ela com um certo glamour”, ele levantou do sofá como que se rendendo àquela dor de cabeça, apenas sentindo sua têmpora ser malhada sem piedade. Mais e mais. “Do que você ta falando?”, lambi o beck e acendi. “Do disco do Macaco Bong”, porra, pensei que havíamos mastigado esse assunto na padaria e digerido com o omelete e o pão na chapa, mas parece que aquilo martelava em suas sinapses no mesmo ritmo da dor de cabeça. Aquilo ainda me deprimia um pouco, mas eu sabia que era um tema importante, então puxei fundo e disse: “as coisas mudaram, cara, mas as gravadoras continuaram enchendo o rabo de dinheiro ano passado, lucro histórico, é sério, mesmo com a internet, myspace e tudo mais. E como vocês, que estão na tangente, vão peitar isso, cara?”. China levantou e pegou uma Coca-cola aberta, com pouco gás, me serviu um pouco e encheu um copo: “a diferença, merrmão, é que agora a gente pode, pelo menos, tentar peitar isso tudo. O que já é um grande avanço. Essa é a parte boa da coisa, gerenciar a própria carreira, merrmão, é isso que está rolando nessa nova onda pós-internet”, ofereci uma bola e dessa vez China aceitou. Com o beck

entre os lábios puxou fundo duas vezes e segurou. Soltou: “porque, merrmão, agora você sabe pra onde está indo cada coisa, cada centavo, cada acorde. A gente adquire uma certa experiência já que é o músico e também o marketeiro e o produtor, e isso é bom, na real é bom demais, porque se o cara te oferece vinte pau pra fazer um disco, você pode dizer ‘não, vinte pau eu descolo, nem que eu demore dez anos, mas eu descolo’”, ele falava sem muita pontuação, como um desabafo e, cara, como era bom ouvir essas coisas de um sujeito como o China. “Merrmão, agora a gravadora sou eu e meu gerente de marketing é o MSN, é outra história, mudou completamente o contexto da coisa”, sorri para aquela frase e puxei toda a fumaça que pude para os pulmões, agora mais tranqüilo. Às vezes é preciso enrolar sonhos em sedas pequenas e fumar fundo para fazer a pressão baixar e então, pelo menos por alguns segundos, sentir que é o mundo que gira ao seu redor, aceso por uma chama baixa entre seus dedos.

Posso agora passear incógnito, praticar ações vis e me entregar à devassidão “Porque pra a(s)cender na música basta um isqueiro, cara”, disse Ton antes de sorrir daquele jeito espontâneo e agudo, esticando os lábios finos rodeados pela barba rala e loira. Era a segunda vez que eu ouvia aquelas palavras. Da primeira, na sala de casa enquanto jogava Winning Eleven, ele complementou: “nossa, que frase tosca, esquece isso, cara”. Mas agora estávamos numa noite de domingo, começo de setembro e de chope double até a meia-noite no James, um bar indie no centro daquela Curitiba chuvosa e elegante como nunca naquele traje cinza demais. Conferi o relógio e resolvi pegar mais um copo, restava ainda vinte minutos de álcool em dobro enquanto Ton, Lobão, Alan e Chapolla rasgavam os amplificadores e acariciavam nossos tímpanos lá em cima do palco, num show do Nevilton, a banda fodástica do noroeste do Paraná. Com o terceiro chope na mão, sentei ao lado esquerdo do palco junto com o Chapolla e o Régis. Chapolla é o novo baterista do Nevilton, entrou há poucas semanas depois que o Fernando saiu por falta de tempo. E foi tempo o que faltou para que

Chapolla estivesse no palco naquela noite: sem ensaio não tem show, então ele resolveu viajar com os caras pra sentir o clima, a pegada, a estrada. Enquanto isso, Alan, um amigo do Ton, assumiu as baquetas estepes. Havia uma pequena multidão naquela noite no James, todos embalando a rotina a álcool e a dignidade à ressaca, mas ninguém estava tão disposto a vomitar a vida num copo de cerveja ou num beijo sincero quanto meu grande amigo Régis: apaixonado e abandonado, triste e emputecido, tudo por uma mulher que o deixou, cara, coração em pedaços, ele bebe e bebe mais, amigo, “ela me deixou, ela não me ama mais”, então um brinde e solidariedade e outro brinde, mulheres, cara, mulheres, uma merda, cara, elas acabam com a gente, chutam nossos bagos, insensíveis, pois então à cerveja, cara, à cerveja. Assim, antes da meia-noite estávamos todos bêbados e dispostos a nos embebedar ainda mais, porra, em nome do corporativismo da classe homem estávamos todos naquele bar pequeno e retangular de dois andares, e indie pra cacete com aquela decoração cheia de quadros popart, rodeado por sofás coloridos amontoados de pessoas alternativas

e hypes demais para um cara como eu, ou como Régis, que só queria uma cerveja barata com muito álcool para encharcar os sonhos, e a última ponta de um beck ardendo para apagá-lo no peito e incendiar o coração. Por isso estávamos sempre com um copo de chope não mão, pelo menos até a meia noite, porque depois me vê uma long neck da Heineken, compadre, você sabe, o chope está caro e ele leva um motivo nobre para afogar no coração partido. Chegou a hora de devolver-se o orgulho estraçalhado a tamancadas para redescobrir que, um dia, em algum lugar por ali, já existiram colhões. Então, de repente, enquanto encharcávamos nossos traumas os solos terminaram e a música silenciou. Ton se aproximou do microfone, na frente do palco: “gostaria de tocar uma música calminha agora”. Assim, o primeiro acorde de “Luz demais pra eu dormir” flanou das caixas de som nas beiradas do palco e todos conjugaram um mesmo verbo meio apaixonado enquanto a Gibson Les Paul Faded Cherry de Ton rangia no tom certo e suave de uma nota aguda e repetitiva. E o que mais me espantava naquela noite era que o Nevilton sequer lançou um disco ou coisa parecida, mas, sem brincadeira, pelo menos metade daquela pequena multidão tímida e retraída como Curitiba cantava e sacudia e cantava

e sussurrava, veja só, morena, só queria atenção, to aqui, morena, balançando os cabelos de olhos fechados chacoalhando o álcool naquele embalo puro e leve e áspero e intenso pra cacete que flanava quando eles pulavam e distorciam e reverberavam e tocavam e tocavam fundo e eram uma das bandas mais fodas que sequer lançou um disco pra todo mundo cantar e pular e sussurrar junto, morena, daquela maneira. Mas era isso que acontecia naquele bar e naquela noite. E foi talvez por sentir o timbre delicado, o arrepio daquelas notas e da voz aguda e um pouco adolescente de Ton que Régis virou-se para mim e disse: “Está vendo aquela menina ali?”, ela era baixa, quem sabe uns 18 anos, tinha cabelos longos e castanhos, já Régis um arrepio sutil de um naco de coragem que resvalava da música até sua espinha e fazia a boca salivar e o pau crescer latejando. Mas ela estava num vestido verde dançando em passos pares e acanhados a poucos centímetros de nós, em frente ao palco. “Então, cara, vou pegar ela, to te dizendo”, disse Régis, convicto e bêbado. Não é muito a sua, compadre, essa confiança toda nos traquejos da sedução, mas eu acredito, e é bom ser rápido, porque, porra, Nevilton ainda segue naquela canção lenta e compassada que te atravessa as entranhas, e Lobão dedilha o baixo num ritmo meio

bossa, fechando os olhos nos momentos mais românticos e balançando delicadamente a cabeça com aquele cabelo curto contornado por duas entradas calvas, carregando toda aquela pequena multidão na mesma toada. E, cara, pensando bem, apesar do Régis ser um cara retraído, lírico demais para baladas rápidas, ele estava bêbado o suficiente para esquecer disso frente a um compacto de curvas femininas que lhe devolvia algumas miradas um pouco mais picantes. Além do mais, lembro que Ton me disse certo dia: “acabou a magia, cara, acabou a época, hoje robô constrói carro, acabou a magia”. Ele falava da música, desses novos tempos pósinternet, tempos em que o independente peita o comercial com a peixeira e um pouco de esperança entre os dentes e sorrisos amarelos, e eu pensava em como o underground nunca esteve tão próximo de construir seu próprio mainstream, mas nós estávamos errados, sem brincadeira, só agora as palavras de Ton realmente faziam sentido, sei lá, rebatendo em Régis e fazendo o álcool de suas artérias vibrar e expandir uma certa dignidade masculina, que acabava inchando os colhões daquele rapaz ainda tão ingenuamente romântico, caralho, cara, “a magia acabou, cara”, acabou, já

era, não existem mais jogos infantis de sedução, meu bem, é só chegar e passar o saco, “a magia acabou, acabou a época”, carinho, acabou, caralho. Cara, acho que eu estava bebendo demais, nunca fui muito forte pra essa coisas liquidas, meu lance são fumígeros, então muitas coisas se embrulhavam desse jeito na minha cabeça e só quando Ton disse “valeu, fim de show, agora vamos beber e agitar, até mais” que me dei conta que a banda silenciou a derradeira canção e o DJ apertou o play nas baladas oitentistas.Ton caminhou até o camarim, mas logo estava escorado no bar, Régis seguiu a trilha do broto de vestido e eu resolvi beber mais, para acompanhar o Ton, um cara legal, espontâneo pra caramba com aquela risada fácil, ainda mais com um copo de cerveja na mão. O cara é um frontman das antigas, daqueles que só se sentem completos lá em cima, com as cordas vibrando na garganta e na guitarra, com os acordes e versos ricocheteando sua alma quando soam distorcidos, quando ele sorri e pula e canta uma verdade ou uma mentira que pode ser minha ou sua, quem sabe, mas apenas quando ele despluga a guitarra e encerra no case mais uma noite, se equalizando e dissolvendo como o poeta de Baudelaire com um copo de cerveja no meio daquela pequena multidão, os mesmos que até

alguns instantes pula vam no seu ritmo, e é só nesse momento que ele se sente ainda mais feliz que no palco, debaixo das luzes nos seu púlpito artificial e particular, porque é naquele bar longo e iluminado por propagandas de bebidas caras e inalcançáveis que, como eu, muitos se aproximam e dizem com aquela sinceridade que apenas o excesso de álcool é capaz de arrancar: “velho, do caralho esse show, foda, de verdade, puta merda, puta merda, puta merda”. Então ele estica os lábios e sorri, e quanto mais os dentes vão aparecendo mais vai aparecendo também um brilho de satisfação nos olhos verdes claros. “Porra, legal cara, que bom que você gostou”, respondeu, com a respiração ainda um pouco agitada enquanto algumas gotículas de suor dançavam na testa, escorrendo até a camisa azul. Porque como ele me disse, “musico é só mais uma pessoa no meio das outras”, suando álcool demais, só mais um fodido no meio dessa foda toda, cara, por isso ele puxa até a canela a calça xadrez meio terrosa, porque ele sempre usa calças xadrez quando sorri naquelas noites mágicas, e suspira antes de se escorar e se dissolver no bar dos mesmos. Passando ao nosso lado vejo Régis saindo do banheiro e cumprimentando a menina de vestido, ela parecia receptiva àquela conversa mole, mas

rapidamente se esgueirou e caminhou para o lado oposto. Naquela noite, a única coisa que Régis queria era aquela garota, sugar um pouco de hombridade daqueles lábios cheios de saliva e desforra, porra, e eu só queria ficar bêbado depois daquele show do caralho, e estava me esforçando pra isso, ali no bar, ao lado de Ton, esperando o momento certo pra falar alguma coisa, esperando que todos e todas aquelas novas groupies, angariadas durante a uma hora e pouco de acordes, deixassem o cara fazer um solo em paz por alguns segundos. O negócio é que ninguém levou a música tão a sério em Umuarama quanto o Nevilton, mas também a cena local nunca foi tão forte como agora. Virei para Ton e disse: “Acho que isso é uma questão contemporânea, sei lá, a globalização atiça os regionalismos e talvez um lance legal disso tudo seja o fato das cenas locais estarem mais unidas, mais fortes por conta da internet”, minha língua teimava em engatar os verbos nos adjetivos e desprezar qualquer tipo de pontuação, e tudo parecia mais cadenciado e bonito apesar daquela constante ânsia de vômito. Ton apenas sorriu e me olhou de canto de olho, deu de ombros e seguiu

escutando um outro sujeito, um novo groupie que baixara suas músicas na internet. Mas mesmo olhando nos olhos daquele cara eu sabia que Ton maquinava minhas palavras em algum canto obscuro de seu cérebro, ele levantava levemente os olhos e respondia monossilabicamente enquanto pensava: “a cena vai se fortalecer ainda mais, e não só na música, e a gente é um pouco a conseqüência de toda essa facilidade”, então o sujeito toca seu ombro e ele resolve prestar atenção cortando o pensamento sem avisar. Eu bebo mais um gole e insinuo o copo em sua direção, mas Ton me ignora novamente, tudo bem, cara, eu tenho meu copo cheio e um desejo, um desejo certeiro de me embebedar, mas ele gira as retinas na circunferência do globo e volta a refl etir sobre a minha frase: “a gente deve muito a toda essa facilidade, é real, você tem razão, Junior, hoje o MSN é a rede de contatos e o site é o centro de tudo, porra, as coisas mudaram muito mesmo”. Então com um leve soco em seu ombro tiro Ton daquela catarse,“rapaz, vou dar um giro, se cuida”. Porra, e ele sequer lançou um disco. Em volta, Régis engole litros e mais litros da saliva amarga de lúpulo da menina de vestido verde enquanto apalpa despudoradamente aquela bunda delicada. É encantador e edificante ver como um

homem regride a um estado mesozóico quando redescobre que tem um pau entre as pernas. Encosto no bar e fi co observando a cena, estou bêbado, cara, a noite acabou pra mim. De repente, Régis pede um minuto à menina, vai até o banheiro e vomita todos os cinco chopes e quatro long necks da noite no mictório. O pessoal em volta não gosta muito, aquele não é o melhor lugar pra se vomitar, mas o negócio é que o Régis está pouco se fodendo, ninguém ali sabe o que é beijar com raiva novos e úmidos lábios após um pé na bunda, então ele lava a boca e pede desculpas, chupa um Halls vermelho e volta para a pista esfregar a língua na língua da menina tentando calejar o coração à fricção. Pedi minha última cerveja e bebi em goles longos, bêbado, bêbado de novo, estava um pouco bêbado demais e de novo. Régis ainda beijava. E Ton seguia conversando com outro alguém que conhecera a banda no myspace e resolveu aparecer naquela noite e elogiar o puta show de horas atrás. Acho que, como o poeta de Baudelaire, todos fazíamos a coisa certa e do jeito certo.

“Pense em X ou em Z, puxa! Que divertido vai ser!” “Merrmão, eu também acho que estou fazendo a coisa certa, e do jeito certo. Eu acredito nisso de disponibilizar os discos na internet chamando o pessoal pro blog, batendo no peito e administrando a própria carreira, fazendo um selo e tudo mais. Eu acredito que daqui pra frente será assim, é preciso diminuir a distância com o público”, eu tentava interromper, mas China era só desabafo. “E sem essa coisa de modéstia, eu sei que eu tenho um talento do caralho, sei que eu sou bom, me sinto um cara bom porque eu me esforço e trabalho pra caralho, e espero que tudo isso aconteça, mas eu não sei se as outras pessoas enxergam isso, é sério, essa é a grande questão. Mas eu sou otimista pra caralho. Minha mulher até reclama, diz ‘tu sonha demais’, e eu respondo ‘preciso sonhar as coisas pra elas acontecerem’, por que se o cara não sonhar como ele vai viver?! Só que eu realmente não sei se as outras pessoas pensam assim”, debaixo daquela luz que resvalava em mim e em Chiquinho, China falava e falava, e aquelas palavras tão seguras e metralhadas assim, sem compasso, pareciam surgir de alguém que só se encontra e nunca se perde. Só que ele se perde, cara, se perde de verdade, o lance

é que agora ele não tem mais medo nem ressentimento da perdição, nada disso, agora ele sabe curtir e chacoalhar pra se perder e se encontrar, confiante e cansado, da mesma forma que se jogava no sofá resignado com aquela dor de cabeça e com o tédio da madrugada. Chiquinho, o tecladista do Mombojó, havia se sentado na mesa com a gente, e carregava uma alegria esgotada naqueles olhos fundos como dois canos de uma escopeta pronta para te fuzilar. Faiscando. “Eu passei por um lance parecido com o do China”, comentou puxando o assunto para si. Era desse lance que brotava aquela alegria esgotada: Chiquinho acabava de voltar da masterização da primeira música do primeiro disco independente do Mombojó, e isso era uma espécie de regeneração para ele. O negócio é que depois do Homem-Espuma, segundo disco dos caras pela Trama, o destino enfiou o pé no peito de cada um deles. “Tudo deu errado demais, mesmo, todas as expectativas da gente que pudesse entrar com alguma grana deu errado, então não tinha outra solução”, Chiquinho entrou numa espiral depressiva e aquelas duas retinas fumegantes se tornaram revólveres de lágrimas num drama de cangaceiros desesperados.

O cenário não mostrava nenhuma gravadora, nenhuma proposta interessante, a internet engolindo o mercado, o independente numa orgia incestuosa com o underground sem que ninguém soubesse que tipo alienígena algum deles pariria. Mas chega um momento na vida de um cara, ou de uma banda, quando tudo está mudando e ninguém sabe exatamente o que fazer, que é preciso engatilhar a vida e disparar bem no coração do destino, só pra ver que merda vai dar. Então, de repente, “a gente caiu no buraco, não foi a gente que escolheu ser independente, eu estaria mentido se dissesse isso, a gente acabou caindo caindo nessa por um monte de coisas que aconteceram. Sei lá, o Rafa morreu, aí um saiu da banda, a Trama muito doida, um mercado muito doido, e pra sair do buraco a gente teve mesmo que esticar as mãos. Então chegou uma hora que a gente acordou, se a gente fosse ficar esperando esse papo de produtor e pessoas de fora a gente não ia sair do ponto”. Assim, Chiquinho resolveu seguir os conselhos de China, começou a conversar com as pessoas sobre como estava deprimido e o Mombojó percebeu que era sua vez de depositar o cheque assinado liberdade e anexar na carta de alforria: “porque é isso mesmo, foi-se o tempo que você esperava

alguém que administrasse totalmente sua carreira. Acho que acabou isso, o artista que espera por gravadora, ou até por um empresário, não vai sair do canto. Hoje você tem que pensar em colaboração, nos seus brothers, mas quem guia essa porra é a gente mesmo”. Chiquinho parecia feliz naquele momento, passando a mão sobre a mesa, sentindo sua textura e relembrando a pequena epopeia que se repete no independente 2.0 de hoje: “e no final nós fizemos esse último disco num sistema bem colaborativo mesmo, todo pingado, foi gravado uma coisa aqui e outra ali e outra lá, acho que ao todo envolveu umas doze locações mais ou menos”. Chiquinho dispensou o beck que eu começara a selar na saliva e a dissecar a baforadas, seguia resgatando da memória algumas sensações novas e inebriantes: “foi massa isso ter acontecido, do caralho, mas como eu disse, isso não foi opcional, foi o que deu pra fazer”, mirou então a segunda leva de fumaça que soltei no ar, logo abaixo da única luz acesa na sala, bem em cima de nós. Recoloquei o beck entre os lábios e escutei: “agora que passou, ou melhor, que está passando, dá pra ver que foi do caralho, essa noite escutei a primeira música mixada e masterizada e pensei ‘massa, do caralho, agora só faltam dez’”.

Chiquinho acha que vai chorar no show de estreia do disco, ele parece um cara terno, desses que sentam com um desconhecido qualquer, que ainda segura entre os dedos o beck que ele recusou há pouco e puxa uma terceira tragada, e abrem o jogo sem maiores estratégias, blefando com a sinceridade. Mas mesmo olhando fundo em seus olhos eu não conseguia invadir aqueles dois canos de escopeta e ler o calibre de sua munição. Com o China é diferente, é um sujeito que percebe as pessoas e assim se deixa perceber, sem brincadeira, ele é de uma espécie de caras que te laça a alma com um primeiro olhar e só pisca para apertar o nó e fechar a guarda. É esse tipo de coisa que faz dele um cara sensível, sensível demais. Mas de repente, vendo o cara deitado no sofá com um copo de Coca-cola na mão e aqueles olhos castanhos escancarando a alma, eu realmente não conseguia velo refl etido naquele mesmo frontman elétrico que eu tanto admirava nos palcos, que samba e requebra, que sua e malsoa, que balança um chapeuzinho de malandro e não uma dor impertinente na cabeça. “Acontece que quando você está lá em cima tem que se cortar”, respondeu logo que expus minha percepção, “merrmão, tem que sentir cada palavra que canta, mesmo que desafine, e quando eu subo no palco eu me corto

completamente, me corto mesmo. Altos shows do Del Rey, estava cantando umas músicas que nem fui eu quem fez, e sentia aquilo vindo e eu cantando e ouvindo e vindo aquilo, e eu começo a chorar, chorar pra caralho”. Mas quando são suas as canções, compadre, quando são suas as estrofes e os acentos e as vírgulas, então o corte é mais fundo, é muito mais fundo, e a gilete é afiada no ferro oxidado daqueles malditos sentimentos frescos, curtidos na conserva imprevisível do tempo, arde mais, porra, arde demais, muito e muito além, corta lá dentro, cara, e sangra de verdade. Mas lá no palco, durante um show qualquer, enquanto ele agarrava o microfone e desabafava seu próprio repertório, vibrando nas cordas vocais e nos verbos quando reverberavam e reverberam pelas caixas de som e fatiavam o seu e o meu coração, ele pensava: “meu caralho, já canto ainda fico me sentimentos”. Mas então chega o refrão , a rima do verso, e ele se acalma: “pois rima com as coisas que eu vivi, com as coisas que eu vivo e com as coisas que eu vejo”. E assim, entre os amplificadores e os cabos e as luzes, bem no meio de um agudo, ele se dá conta: “cara, esse é um sentimento lindo, quando me corto é lindo, porque eu sou completamente diferente fora do palco, mas lá em cima, merrmão,

ainda que seja a mesma pessoa, sou eu nu, completamente nu e largado ali, e as facas vindo e cortando e cortando e eu cantando e me fudendo mais uma vez com aquele mesmo sentimento, e aquilo, merrmão, aquilo é verdadeiro”. Eu sabia que China estava sendo sincero quando me contava todas aquelas coisas deitado no sofá com o copo vazio e entregue a uma dor de cabeça persistente. Não que minhas retinas sejam qualquer tipo barato de escâner da alma ou coisa parecida, mas como outras milhares de pessoas eu estive no Studio SP no último show do ano do Del Rey, a banda que ele e o pessoal do Mombojó formaram para tocar as músicas do Rei. E cara, eu vi as facas vindo e rasgando e China se deixando cortar enquanto flertava com as mulheres histéricas na frente do palco. “Acontece que eu não consigo cantar Roberto Carlos e não piscar pras meninas, não dá, merrmão, não seria verdadeiro. Lá no palco é quase uma dramaturgia, eu preciso sentir o que a música quer que eu sinta, e por isso eu me corto. E cantando coisas como Negro Gato não dá pra não dar uma olhadinha safada pras meninas, a música pede, elas pedem, Roberto pede”, mas naquela sexta-feira, em cima do palco do Studio, durante a derradeira apresentação de 2009, ele remetia as

piscadelas mais cafajestes para os brotos mais histéricos enquanto segurava a gola da camisa para depois esticá-la novamente como quem tenta arrancar dos versos um pouco de sinceridade. E ele arrancava. Eu estava sentado no lado direito colado ao palco, e a casa estava cheia de mulheres histéricas digladiando-se por um naco de atenção de China, que agora estava pequeno, fazendo movimentos curtos no centro do palco, diminuindo a cada nova estrofe à medida que o amor de Roberto Carlos, tão forte e distante que até as cartas já não adiantam mais, vai se tornando o protagonista. Então, de repente, ele se vira para uma loira de olhos embriagados e coxas grossas dançando num vestido branco e curto bem ao meu lado, e sussurra piscando o olho esquerdo: “eu te amo, eu te amo, ahh.. eu amo”. A loira tenta incontidamente e em vão subir no palco para agarrar o cara com furor e beijá-lo na frente de todas aquelas vadias. Mas China estava impassível diminuindo ainda mais e sequer notou o desesperado ato de paixão etílica da loira. Acontece que o cara criou uma casca que o protege destes delírios, de toda essa liturgia psicótica em que rezam fãs angustiados por um

novo deus materialista e artistas megalomaníacos. Lembro que ele me disse depois do show: “eu sei que aquela loira jamais me daria bola fora daqui, na rua ela passaria por mim e me esnobaria, tenho consciência disso”. Mas não se trata apenas da loira de coxas grossas, a casca que China criou é algo maior que isso, e quanto mais eu admirava aquele cara rebolando meio samba meio salsa meio mangue e cantando os galanteios do Rei naquele palco imenso e cinza, mais eu entendia como aquela casca endureceu. China começou cedo na música e quando era apenas um adolescente se viu caminhando no mesmo corredor de Britney Spears, e tomando o elevador com Steve Harris e Jimmy Page durante o Rock in Rio de 2001. China tocava com o Sheik Tosado e a responsabilidade, a pressão e a velocidade com que tudo acontecia fritaram o cérebro do cara. China começou a ter breves e constantes aceleramentos cardíacos, um medo irrefletido cada vez mais intenso e freqüente e a desmaiar quando simplesmente abria os olhos: “ninguém sabia o que era, e passei um ano me fudendo muito sem ninguém saber o que eu tinha”. Cada vez mais ele se ilhava, abandonou o Sheik, mudou-se para o Rio de Janeiro para cursar

jornalismo, mas nada deu certo. A única solução era entupir as sinapses de Rivotril: “minha sensação quando acordava era que tinha sido espancado, eu abria os olhos e pensava ‘caralho, vamos lá, de volta pra vida, pooorra’. Mas o primeiro que eu tomei foi o Prozac e, porra, a sensação é que a vida passa na sua frente e você nem pisca. Merrmão, tomei muita coisa, vários remédios, mas nunca fiquei internado”. As coisas só se acalmaram quando um psiquiatra, que era também médico legista adepto a experiências exponenciais com substâncias psicoativas, diagnosticou-o com síndrome do pânico: “era massa que em várias consultas a gente tinha que parar, porque entrava alguém com uma certidão de óbito pra ele assinar”. O médico prescreveu alguns medicamentos e muitos conselhos, muita conversa. A necessidade de tomar os remédios não era o que mais emputecia China, “o que me deixava realmente puto era que, na análise, eu me sentia pagando pra ter um amigo”. Mas o médico era um sujeito arguto, e respondeu: “pra começar eu não sou seu amigo, e sobre os medicamentos, quando você sentir que está melhor, pare de tomar”. E assim aconteceu, certo dia China abandonou os antidepressivos e nunca mais apareceu no consultório, sentiu que havia finalizado a troca de

pele, e a nova superfície que o embalava era calejada, era uma casca robusta, a sua casca, “a casca que eu criei conversando, me abrindo com meus amigos e seguindo os conselhos daquele médico”. E aquela casca reluzia verde, amarelo e vermelho quando as luzes acendiam no ritmo dos acordes, e China seguia impassível dançando e remexendo de um lado pro outro do palco, naquele último show do Del Rey. China, o singular do Mombojó. Mombojó o coletivo do China. Enquanto isso eu continuava sentado, no mesmo lado direito do palco, sem sequer uma maldita cerveja, sem um puto centavo no bolso, mas batucando os dedos na perna e cantando Na Estrada de Santos o mais alto que conseguia. E de repente, o “muito obrigado, boa noite” e como o poeta de Baudelaire em tempos pós-internet, China dispara rápida e cirurgicamente pela tangente direita do palco, buscando chegar ao camarim pelo único caminho possível, passando bem no meio da multidão. E é então que o microfone, num movimento brusco, escorrega de sua mão e despenca ao lado do público. China se enfia naquele caos movediço em que a morte chega a galope por

todos os lados e ao mesmo tempo, onde não há microfone nem púlpito, os primeiros e os últimos. Há só os mesmos, compadre, só os mesmos desatando, nós.

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