Você está na página 1de 13
O METODO EM ECONOMIA: UMA PERSPECTIVA HISTORICA* PEDRO CEZAR DUTRA FONSECA** 1 — Embora a discussio sobre as possibilidades e a origem do conhecimento remonte & Grécia, foi a partir do Renescimento, com a ctitica ao ethos medieval, quando se definiram 0s contornos modernos do debate como hoje conhecemos. Pode-s: considerar a obra de Locke, An essay concerning human understanding “Ensaio, = sobre 0 entendimento humaiio”), de 1690, como o desabrochar da autonomia académica e filosofica da Teoria do Conhecimento, nela sintetizando-se toda a inquietagdo e a criatividade da intelectuali- dade dos séculos XV @ XVII. De momento, pouco interessa a reconstrugdo dos grandes siste- mas filoséficos emergentes daquela época a atualicade, passando por Descartes ¢ Leibnitz, Hume ¢ Comte, Kant ¢ Hegel: Interessa- nos, sobretudo, sua influéncia na Economia Politici’hascente no século XVII ¢ em seus desdobramentos sucedidos tis século XIX; mais precisamente, como este debate filossfico tomou corpo, de © Trabalho apresentado no Curso, Filosofia da. Citncia, Metodologia © Economia, realizado de 16 a 27 do outubro de 1989 na Universidade de Brasflia — UnB. ** Do Departamento de Citncias Feonémicas ¢ do Curso de P6s-Graduagio em Economia da UFRGS. Agradego os comentirios de Leda Paulani, sem responsobilizéta pelas imperfeigdes que permaneceram no texto. 65 + geral, forma consciente ou no, entre os pensadores sociais os quais se convencionou denominar economistas, influenciando na forma com que este entenderam fazer ciéncia; em uma palavra, em seu método. Sabemos, todavia, que tais grandes sistemas filoséficos podem set agrupados, principalmente para fins didéticos e de exposigio (embora, evidentemeate, com fundamentos objetivos), sob os mais diferentes critérios. Para trazer 4 lume o debate no campo da Economia, convém reter inicialmente um destes critérios, o qual trata particularmente sobre a origem do conhecimento, mas com profundas implicagies em sta possibilidade. Tratam-se dos sistemas iniciados por Locke e Hume, de um lado, e por Descartes ¢ Leibnitz, de outro, costumeiramente denominados de empirismo e raciona- lismo, A medida que se pode sumariar um complexo de idéias em poucas palavras, permite-se demarcar uma linha divis6ria entre ambos quanto & resposta dada a indagagio sobre onde repousa primordialmente a coasciéntia cognoscente, se na experiéncia, como em Locke © Hume, ou na razo, como em Descartes ¢ Leibnitz. Em sua forma mais radical, o empirismo nega qualquer espécie de conhecimento que nao o emanado na experiéncia e na observa. A cigncia é mais a descti¢ao do conereio que abstragio, e mesmo os conceitos provém da experiéncia. O procedimento de “fazer cigncia” adota a méxima precaugéo a0 enunciar leis, todavia, em \dmitem-se regularidades no objeto de investigaglo, as quais permitem chegat a certa ptobabilidade de que os fatos ocorram ou yenham a ocorrer sob determinadas condigGes, mas nunca a certeza. Fica claro, portanto, que esta concepeio sobre a origem do conhe- cimento implica decisivamente sobre sua possibilidade. Prosaica- mente, alia-se 0 empirismo ao método usado de forma tradicional (embora nao exclusiva) nas ciéncias naturais, como na Biologia, onde 0 papel da observacdo e da experimentago & preponderante; nestas, 0 que € 0 € porque assim se observou, mas nfio porque devessem necessariamente ser. A estatistica, tanto descritiva como indutiva, é poderosa auxitiar para quem trabalha sob sua égide, cujas preocupagdes centrais esto em observar, medir, colecionar fatos, buscar eventuais regularidades e registré-las, sempre com a maior preciso e preccupacao. Sua importincia foi fundamental na sociologia nascente, com o positivismo e o organicismo; este tiltimo, com Spencer, procurando levar as Gltimas conseqiiéncias a analogia da sociedade com organismos vivos. Assim como estes, a sociedade conhecia uma evolucio gradual e sistémica, O préprio funcions- 66 ms lismo nfio escapou — antes assentou-se — na concepgiio de que a sociedade compunha-se de partes (células, 6rgios, tecidos) cada qual com certo grau de especializagio, mas cujo fim residia em garantit a boa harmonia do conjunto, ao cumprir corretamente sua fungio. Nao resta diivida do vies autoritdrio desta visio de sociedade — jf nfo de todo empirica, mas mediada por certa abstregio — a qual define ex-ante o papel de cada parte, tendo por pressuposta determinada nogéo de harmonia. Por outro lado, 0 racionalismo afirmaré a crenga de que a razio 6 iluminada para conhecer 0 mundo ([luminismo). © conhe- cimento no depende da observacdo, pois pode nascer do prépr pensamento, através de construgdes I6gicas. Proposigdes como “se um bem possui demanda ineléstica, ao subir seu prego também sobe 0 dispéndio total do consumidor com este bem” so deste tipo, Ela é verdadeira por definigao; se, a0 subir 0 prego, cair a despesa total do consumidor com 0 bem, entdo, por decorréncia, sua demanda néo é ineléstica. Nao se precisa de qualquer teste empitico para refuté-la e podemos convencer-nos de sua veracidade sem qualquer apelo aos fatos ou a provas empiricas. No hi davida de que o racionalismo, ao apoiarse na Iégica (formal), propés, em suas vertentes iniciais, com Descartes ¢ Leib- nitz, que os juizos possuiam validade universal. Em vez de proba- bilidade ha a certeza: um simples contra-exemplo (também “I6gico”, ‘mesmo hipotético) pode refutar uma proposicao, independentemente de investigago empirica. O racionalismo cléssico, por iss2, casase perfeitamente bem com a Matemética, uma linguagem apoiada em axiomas ¢ em conceitos evidentes por si mesmos. Encontrou campo nna mecinica, oridé se concebiam reagdes de causa-efeito perfeita- mente previsiveis. No campo das ciéncias sociais, também propée, como os empiristas, a existéncia de um método tinico; mesmo 0 positivismo de Comte, impregnado pelo empirismo, nio deixou de considerar a Sociologia uma Fisica Social, argumentando que esta evoluitia & medida que absorvesse ¢.desenvolvesse 0 método da Fisica em suas previsdes e explicagées. 2 — A Fisiocracia francesa, primeira escola tida como de Economia, recebeu influéncia marcante do racionalismo, fazendo parte do mesmo contexto pré-revolucionério francés, com a difusio das idéias iluministas da Enciclopédia. Assinala-se, inicialmente, que a Fisiocracia pode ser vista como um momento de transigao entre as explicagdes teol6gicas do mundo as materialistas. Assim, seus 67 adeptos concebiam a sociedade (e, por extensio, o sistema econ6- mico) como partes de uma ordem natural, mas que era expressio, ao mesmo tempo, da vontade divina, Deus criara o mundo ¢ estabelecera, desde entio, suas leis, cabia ao homem descobri-las através da Cigncia, fazendo uso'de sua razio iluminada. As leis eram, portanto, universais e necessérias, quando nio.imutiveis. Os fisiocratas, com esta concepeao, elaboraram um modelo simplificado de sociedade, o que Ihes permitiu chegar a conceitos abstratos de grande valia para a Economia Politica posterior, como produto quido, classe produtiva e excedente econémico. Mas suas leis ‘econdmicas inspiravam-se primordialmente na mecéinica e, de forma até surpreendente, inaugurou-se na economia 0 modelo organico, comparando-se a vida econdmica a de um organismo vivo — mas via racionalismo © nfo empirismo. Assim, a circulagio do san- gue descoberta por Harvey tornow-se anéloga @ da circulacio da tiqueza; as trés classes fisiocratas. (proprietéria, “produtiva” e “estéril”) representam drgios ou partes desta sociedade, cujo bom funcionamento, se houvesse liberdade, levaria ao que hoje os neo- cléssicos chamariam de "timo social” A fisiocracia revela nao 56 a simbiose do materialismo (conhe- cimento “cientifico”) com o espiritualismo (conhecimento teol6gi- co), mas entre liberalismo e autoritarismo. Liberalismo, pois 0 mundo era equilibrado ¢ harménico por si mesmo, pois construgio divina; nao havendo interferéncias, como diria mais-tarde Walras, todos os mercades tenderiam a se equilibrar, Dai o: laissez-faire defendido pelos mais exaltados membros da escola, as vezes visto com reservas pot seu expoente méximo, 0 Dr. Quesnay. Nao obstante, 0 liberalismo exigia certo reforco autoritério (0 que nio nos € de todo estranho ...), pois o modelo orginico passava nio a explicar mas a julgar a vida econdmica a partir dele: qualquer desvio do definide a priori como parte da ordem natural das coisas ‘mereceria severa punigao, pois obstculo & harmonia social. Sabe-se, ppor isso, que os fisiocratas nunca compartilharam das idéias mais, afoitas correntes entré alguns membros da Enciclopédia, entendiam que a monarquia era a expresso da vontade divina, criticaram a reptblica © a existéncia de constituigdes, defendendo o despotismo esclarecido: despotismo (“autoridade”), mas esclarecido (“com liberdade”) Apesar da profunda marca do racionalismo, seria absurdo dizer que 0s fisiocratas despreocuparam-se com os fatos, com a observa- 68 Gf © com o mundo empfrico. As “‘hesitagdes” — as quais, por outro angulo, podem significar no contradigdes, no sentido vulgar, ‘mas criatividade — manifestam-se também neste aspecto. 1 bem verdade que a principal construsio terica fisiocrata, o Tableau Economique, parte de axiomas, como o homo economicus, que toda a ilustragao da circulagao da riqueza entre as classes € hipotética e propGe-se revestida da certeza universal e que carece, finalmente, de qualquer observagdo empirica mais sistematica, como dados hist6ricos e/ow estatisticos. Recorrem-se, eventualmente, a exemplos empiricos, mas como exemplos. ou seja, no para demonstrar, testar ‘ou evidenciar uma proposigéo, mas para ilustrar como.as verdades chegadas pela razao e pelo método dedutivo so corretas. A recorrén- cia a0 empirico era, por assim dizer, um aval, mas nao necessidades do proprio método. Todavia, paira sobre os fisiocratas, e no ‘prprio Tableau, uma certa inquietagdo e desconforto com este procedimento. Em vérias assagens, fugiu-se da abstrago, como na teoria do valor: ao afir- ‘mar a absoluta impossibilidade de um padrao para comparar valores de uso diferentes, diferentes “bens”, acabow-se por negar a propria possibilidade de uma teoria do valor. Toda.a construgao abstrata da circulagao da, riqueza — 0 “modelo” — parece esvaziar-se a0 no se chegar a uma {6rmula também abstrata de mecida. Isto nos permite asseverar que os fisiocratas sentiram a necessidade intelec- tual de uma mediagao entre 0 momento da abstragao ¢ o mundo empfrico; incapazes deste salto, firmaram-se.em sett racionalismo, mas advogaram a necessidade de medir as variéveis econdmicas, sendo os precursores.da Contabilidade Nacional. Tais mediagées, todavia, tudo sugere que eram menos para testar e mais para ilustrar ou quantificar o que jé se sabia por um exercicio do pensamento; e nada nos impediria de indager, seguindo a propria ldgica da escola: medir para que, se independentemente da medida ja conhe- ‘cemos a variével em todas. as stas ‘prop! Key- nes, posteriormeite, em sua critica aos “‘cléssicos”: qual a necess dade pratica ou tedrica de medir 0 PNB se ja sabemos, de antema que sua tendéncia € igualarse ao PNB potencial? Temos a necess dade de quantificar algo quando hé divida e incerteza, certamente ausente no mundo da necessidade légica ahist6rica e da ordem natural. 3 — Smith procurou resolver vérias questées que Ihe pareciam’ contradit6rias ou insuficientes nos fisiocratas. Nao s6 em questies 6 econémicas propriamente ditas, como frisa a maior parte da litera- tura (a origem da riqueza na fertilidade do solo, a impossibilidade de uma teoria do valor propriamente dita, a esterilidade da produ- fo industrial), mas também em termos de método, Em primeiro lugar, por rejeitar a limine o recurso & ordem providencial, aceitan- do, todavia, a ordem perfeita da natureza: a “‘hesitagdo” fisiocrata 6 resolvida de um ponto de vista materialist. No contexte inglés, a influéncia do empirismo de Locke e Hume possuia mais vigor que o racionalismo da Franga fisiocrata, e Smith admirava profundamente aqueles filésofos. A Teoria dos Sentimen tos Morais, de 1759, demonstra sua desenvoltura ao tratar das mais polémicas indagagdes da intelectualidade inglesa de seu tempo, principalmente a questo da condigdo humana no estado de nature- za, a qual dividia os seguidores de Hobbes ¢ Locke, ¢ na qual se debatiam, sem respostas satisfatérias, Hume e Hutcheson (este iiltimo, mestre de Smith em Glasgow). A. polaridade dizia respeito a um embate no campo da metafisica: tanto Hobbes como Locke admitiam um estado natural do homem, em busca de sua auto- conservagio. Mas, para Hobbes, este estado de natureza marcava-se pelo carter egoista da espécie, a qual ndo mediria meios na luta por sua sobrevivéncia, somente o Estado, com sua forca coercitiva, domesticaria o homem para possibilitar sua vida em sociedade. O Estado, assim, precede a sociedade organizada — proposta nfo accita pelo liberalismo de Locke, que, por stia vez, advogou a condi- 80 boa do homem no estado de natureza. O Estado, portanto, deixou de ser condigdo para a sociedade civil organizada, mas a garantia de sua permanéncia, através das leis e dos direitos naturais reconhecidos (vida, liberdade e propriedade). debate que se seguiu, em termos ultra-simplificados, diz res- peito 20 carter egofsta ou altruista do homem no estado de natu- reza, ou seja, se neste predomina certo irracionalismo, como em Hobbes, ou a racionalidade, como em Locke.* Smith resolveu a polémica deslocando 0 centro da discussio da Filosofia para a Economia Politica. Sua questo, bem presente na época da Revo- lugdo Industrial, indagava sobre as possibilidades duradouras de uma sociedade assentada no individualismo, no luero, na iniciativa individual ¢ na propriedade privada. Para tanto, rejeitou a concep- 1. Veja Napoleoni, 1978, p. 40-47. 70 go de que cada um lutando por seus interesses individuais ense- jasse um estado de guerra permanente; 0 individualismo nao era perverso, mas positivo, pois a divisio do trabalho garantiria que a luta pelo maior bem-estar individual levava ao melhor em termos sociais. O recurso & fabula das abelhas de Mandeville, a fébrica de alfinetes ¢ ao padeiro que madruga para nos vender 0 pao novo € quentinho so exemplos de que a divisio do trabalho, na fabrica ou na sociedade, permite que cada um busque egoisticamente seu lucro dando veia a seu egofsmo, mas, sem querer, ccm isto acaba beneficianda © conjunto da sociedade. As modernas. teorias do bem-estar nao se afastam desta concepeao, na qual o bem-estar social € somat6rio dos étimos individuais. u ‘A solugo de Smith, embora com fundamentos. pragméticos « materialistas, nfo esconde o terreno metafisico na qual se assenta- va e Ihe emprestava sua razio de ser. Suas respostas, conquanto cemergentes no contexto do empirismo inglés, ficaram circunscritas no proprio racionalismo. O conhecimento possuia caréter universa- lizante, a divisio do trabalho era natural e a-histérica: seu funda- mento residia na troca, para a qual os homens possiam uma “promensio natural”, A despeito do racionalismo predominante. A Riqueza das Nagdes € uma obra recheada de observagses histéticas e de algumas anotagGes estatisticas. O recurso ao empiico fez parte constante do trabalho de Smith — embora, a rigor, fosse mais para exemplificar do que para nele buscar a origem do conhecimento, a exemplo da Fisiocracia, Fazer ciéncia significava encontrar leis gerais e abstratas, de resto universais © imutaveis; fundamentava a existéncia destas a propria razao humana, 4 — Enquanto em Smith 0 empirismo ¢ 0 racicnalismo apa- recem justapostos, ou seja, sem uma solucao filosofica e sem qual- quer mediagao, em Ricardo a predomindncia deste chegou as tlti- mas conseqiiéncias. Ricardo rejeitou Smith ndo por qualquer razo de ordem empirica, mas devido seus erros de I6gica: a circularidade denunciada na teoria do valor smithiana & apenas o exemplo mais conhecido, © préprio trabalho comandado de Smith sugere uma saida empirica para o impasse do campo do pensamento: o valor corresponde 20 trabalho que efetivamente a mercadoria comanda na troca. Para Ricardo, ow a teoria possuia consisténcia légica ou nfo: a solucao, se correto o modelo tedrico, devia ser encontrado dentro dele mesmo (embora Ricardo, como se sabe, néo,péde levar sua proposta s tiltimas conseqiiéncias, afirmando, meis no fim da n vida, que 0 trabalho contido néo explicava totalmente 0 valor: de troca, mas.certa porcentagem. valor de troca repousando no trabalho contido poderia ser 0 caminho para a construgao de um exercicio ldgico sem os empecilhos do recurso aos fatos (como bem demonstram os modelos mateméti- cos ‘de Sraffa e Garegnani). O método, mais umi'vez; independe de objeto e segue uma seqiiéncia também légica: pressupostos- hipoteses-raciocinios e dedugdes-conclusdes. Admite-se, como em toda a teoria, que o modelo é simplificagao; mas 0 caréter abstrato @ hipotético estendese até os exemplos, como os dois pafses que trocam vinhos ¢ tecidos em certas quantidades. Néo interessa mos- tar que, evidentemente, tratase de Portugal e Inglaterra, e que a questi possuia fortes e bem determinadas razdes hist6ricas para despertar 0 intetesse dos economistas. Como qualquer atividade intelectual, as teotias de Ricardo nao pairavam no ar; salienta-se, todavia, seu procedimento em fazer cigncia, totalmente abstrato © dedutive, mesmo que ele proprio extrafsse das teorias propostas bem praticas de politica econdmica, como ao aconselhar a impor- tagio de cereais © ao rejeitar a ajuda aos pobres das pardquias inglesas. A teoria de distribuicfo ricardiana, onde encontramos a da renda da terra, é um exemplo tipico do método dedutivo? Admite- se, que a sociedade possui trés classes (capitalistas, trabalhadores e rentistas) ¢ que os fatores combinam-se em proporgdes fixas. A lei dos rendimentos decrescentes veio de West; a lei do crescimento da populagio, de Malthus; ¢ a lei do “individualismo altruista’, de Smith, Supdese cue primeiro se ocupam em terras mais férteis da{ se segue, por pressio do crescimento populacional da escassez de alimentos, a ocuparem-se gradual e sucessivamente as terras menos férteis, sem qualquer erro ou engano. As conseqiiéncias te6ricas — renda diferencial, pregos altos para os alimentos e queda da taxa de-lucro — levaram-no a advoger taxagao sobre os proprie- ‘térios de terra, importacao de gros e incentivos a inddstria, como no ‘elevagio dos salérios, pois dos supostos chegowse a uma lei de relagdo inversa entre lucros e salérios. Mas as teorias de Ricardo, salvo alguns contratempos, revestia- se de um primor de I6gica dedutiva, capaz de deixar de boca 2. Ver MARCHAL, André (1957, p. 2535), Rn calada mesmo seus mais fortes contendores. A preocupagdo de alguns de seus discfpulos consistiu em corrigit eventuais falhat eliminar hipéteses mais restritivas em favor de outras mais gerais, precisar melhor. algumas lacunas. Aos criticos perguntava-se qual a teoria alternativa, mas dentro dos mesmos procedimentos meto- dolégicos. Mas © se a populagdo nfo crescesse a taxas to altas? E se os famosos fatores nem sempre se combinassem em proporgdes fixas? E se a taxa de lucro nao caisse? E se inicialmente nio se ccupassem as tetras mais férteis? E se alguns oligopélios atrapalhas- sem a livre concorréncia? Ora, estas complicacdes préticas no podem invalidar a I6gica do modelo, se este admitisse todas estas particularidades, deixaria de ser universal ¢ abstrato, ou deixaria de ser modelo, retendo 0 essencial ¢ ignorando 0 acidental. “Nao encham © saco com deta- hes”, responderiam os ricardianos. 5 — Na propria época de Ricardo seu método.sofreu séria critica de Malthus. A controvérsia entre ambos niio se restrigiu a questdes de valor, demanda efetiva e quanto a crescimento de longo prazo: j na Introdugdo de 1819 de seus Princfpios de Economia Politica, Malthus lamentava a atitude “‘precipitada de simplificar generalizar” dos “autores cientificos” de Economia Politica, numa vlara referencia a Ricardo, Aconselhava “‘comprovar suficiente- mente as teorias mediante referéncias & experiéncia ampliada e abrangente que, ém assunto tio complexo, € a tnica que pode estabelecer sua.verdade e utilidade”, Esta tiltima assercio demons- tra que Malthus julgava necessério ndo apenas a recorréncia a dados empiricos e hist6ri¢os como exemplo, mas como fonte de conheci mento, inclusive de testagem e verificacio de teorias. Pitorescamen- te, chega a asseverar que’ as teorias “devem prostrarse ante o altar da verdade revelada pelos fatos ¢ pela experiéncia”. Ressai, ainda, a semelhanga da Economia Politica mais com as ciéncias Gticas que com a Matemética, e lamenta, mais’ uma vez ocultando o nome de seu contendor: “eminentes economistas politicos pensam. que, embora possa haver excecGes as leis gerais da Economia Politi- ca, elas nao precisam ser consideradas”? Malthus considerava bizarro que se multiplicassem teorias para confirmar outras teorias, fechando-se um cfreulo dentro delas 5, MALTHUS, T. R. (1985, p. 59). B mesmas.* Julgava oportuno © necessério recorrer aos fatos ¢ a experigncia, mas suas objegdes ndo tiveram 0 sucesso almejado: a superagdo marxista das teorias ricardianas nao impediu que Mill e, mais tarde, Marshall, reabilitassem-nas & sua forma, e que estas, ‘mesmo modificadas, viessem a se constituir a ortodoxia académica pelo menos até Keynes. © insucesso de Malthus pode ser explicado por vérios argu- mentos de ordem hist6rica e politica, mas parece ndo haver divide de que em boa pare devet-se ao jogar no préprio campo do adver- sério. Abandonando seus préprios conselhos — mas com boa dose de realismo para quem conhecia com certa profundidade a historia das idéias cientificas —, pereebeu que para derrubar um sistema 6gico tio apurada como o de Ricardo precisava construir. outro fem seu lugar. Mas Malthus foi ineapaz de fazélo. Em algumas passagens, recorria a Smith, exatamente o autor que Ricardo havia estudado em profundidade e, com suas criticas, arquitetado seu modelo mais preciso, abrangente € complexo. Revela-se, desta forma, a impoténcia do indutivismo: extremamente fértil na critica a0 dedutivismo, mes incapaz de superar a prépria critica no sentido de encontrar alternativas teéricas ao sistema que ajudou derrubar, Se assim procedesse, 0 indutivismo negaria a si mesmo 6 — Enguanto na Franga a reago & economia “abstrata © dedutiva” dos ingleses, apesar de algumas criticas a seu método (Sismondi, Comte), centrou-se principalmente na industrializagao, no laissez-faire e, no limite, na propriedade (Fourier, St. Simon, Proudhon), na Alemanha as objegOes mtodoldgicas chegaram 20 paradoxismo, rejeitando-se aquela forma de “fazer ciéncis substituigo a outra: 0 historicismo, Os principais nomes da assim chamada “Escola Historica ‘Alemi” — Roscher, Wagner, Knies, Hildebrand, Schmoller — discutiram no s6 0 caréter universal das construgées teGricas de ‘Smith e Ricardo, mas a psicologia do homo economicus, a caréncia de dados empiricos e de embasamento na observacio, o determinis- ‘mo ¢ o mecanicismo que thes pareciam exagerados e sem propésitos da “escola inglesa”, Estas criticas j4 haviam em parte sido formu- 4. Vejase, neste sentido, a alegoria de ‘Lakatos sobre 0 fisico anterior a Einstein que tenta, som sucesso, alternativas dentro de seu modelo para cexplicar’ a trajetéria de um planeta, sumariada no instigante artigo de SIQUEIRA, Wandyr Hagge (1988). 4 lados por List, nas primeiras décadas do século XIX, e apareceram sistematizadas em seu Sistema Nacional de Economia Politica (1841), A questio principal de List, ndo obstante, era criticar a lei das vantagens comparativas do comércio internacional de Ricardo, denunciando seu viés ao prejudicar as nagdes de industrializagdo jovem em favor das antigas, como a Inglaterra. List mencionava, ‘assim, que as leis econdmicas no podiam ser universais, mas adapta- das a0 ambiente sécio-cultural de cada nagio.S 'A“Escola Hist6rica” incorpora tal observacio como ponto de partida, mas acaba por negar o homo economicus: em contraste @ este, dever-se-ia estudar o homem real, com as vérias dimensdes além da econdmica, como a religiosa, a cultural, a familiar etc. Ricardo considerava, como Smith, que a dimensio maxima do homem residia no auto-interesse; havia, portanto, um s6 homem. desde a criagao. No limite, a critica dos historicistas consistia em afirmar que cada homem era diferente do outro, e-que, portanto, as leis gerais no podiam ter validade. Daf terem afirmado a necessidade da psicologia assentada na observacio — estudos de casos, alicergados na individualidade —, em oposi¢ao a uma psico- logia @ priori do homem, na qual entendiam apoiarem-se os ingleses. Knies, neste sentido, afirmou que a Economia Politica destes pode- ria ser considerada como a “hist6ria natural do egofsmo”. ‘Assim, no haveria como fazer ciéncia sendo com o recurso a observagio, a dados ¢ & fatos cada vez mais precisos. A Ciéncia no poderia ter a pretensio de chegar a leis, mas no méximo revelar tendéncias. Nao havia mais razdes para o determinismo, pois todo © conhecimento era probabilistic. O objeto cognoscente nunca poderia (ou dificilmente poderia) ser conhecido em toda a sua tot lidade, pois sempre haveria espaco para o especifico, pata 0 part cular € para o novo. Desnecessério assinalar que, no corpo destas concepedes, negava-se qualquer pretensio de utilizarse a Mate- mética em Economia: nfo havia mais nem axiomas nem demonstr ges dedutivas — e, indo mais adiante, nem teorias, Negligen- jando-se ou negando-se a necessidade da abstrago ao construir-se © conhecimento cientifico, negligenciava-se ou negavase a propria possibilidade de existirem teorias econ6micas. Gratia argumentandi: 5. Parece no haver divida da semelhanca entre algumas destas concepsbes © 8 dos economistas ligados a CEPAL nos anos 50, como Prebisch e Celso Furtado. 5 no haveria sentido uma teoria do valor ou mesmo dos pregos, pois cada mercadoria, a rigor, poderia conhecer motivagées especificas na determinacao de seu prego; e a mesma mercadoria poderia conhecé- Jas em paises, regides ou mesmo empresas diferentes. Mas como se convencionou desde Aristételes, nfo hi ciéncia da absoluta parti- cularidade, o que equivale a dizer que no é possivel abstragio sem algum grau de generalizacao. A proposta da “Escola Hist6rica” foi fundamental ao aprofun- dar as criticas aos “ingleses”, mas nem tanto com respeito as alter- natives sugeridas: 0 empirismo radical no raro beirou a ‘propria impossibilidade de o sujeito apreender 0 objeto. Cénscios do pro- blema, as “solugdes” encontradas por cada membro da ‘Escola foram as mais diversas. Roscher, ao que consta, nfo via problema maior em perfilhar o empirismo admitindo a existéncia de “leis naturais” Hildebrand repeliu estas iiltimas, mas admitiu “leis di- namicas de desenvolvimento”. Knies acabou negando a :prépria lidade de existir a cigncia econdmica: nfo acreditava possivel nem leis dindmicas, mas apenas vagas regularidades.§ © empirismo, assim, ao se tornar cada vez mais exigente, caia no ceticismo (come ocorrera com Hume muito tempo antes). 7 — Os caminhos opostos trilhados pelos seguidores de Ri cardo, de um ladc, eidos historicistas alemaes, de outro, teriam evado as discusses metodolégicas no ambito da Economia a verda- deiro impasse no fosse 0 aparecimento, no préprio século XIX, de propostas alternativas que, sob formas diferentes, procuraram coneiliar os dois métodos. Abordaremos aqui trés destas alternativas pela importancia emprestada & conformaco do pensamento econd- mico do século XIX e seus reflexos no século XX. Denominaremos tais alternativas, embora com certa arbitrariedade, de: a) a alterna- tiva formal, de Walras; b) a alternativa dialética, principalmente de Marx; ©) a alternativa positivista, na qual incluiremos inclusive o positivismo Iégico deste século. 8 — A rejcigio ao método dos “ingleses” por parte da “Escola Hist6rica” estendeu-se as proprias teorias de Ricardo, por parte de K. Marx, a partir da década de 1840, Ambas as eriticas — a meto- dol6gica e a tedrica — associam-se ao aparecimento do positivismo, de um lado, do socialismo, de outro, ensejando o que se conven- 6, Ver: MARCHAL, André (1957, p. 59). 76 cionou denominar de “primeira crise da teoria econdmica”. Esta deveu-se & proliferagio de diatribes dos mais diferentes matizes, ticas ¢ graus de profundidade & teoria académica dominante, ento centrada em Ricardo. A criatividade intelectual deste momento manifesta-se inclusive em determinadas vertentes que atribuiam as falhas do sistema ricardiano a seu método: confundinde dedutivisio com abstragdo, negavam a propria possibilidade da teoria econd- mica propriamente dita, ou seja, discutiam a pr6pria existéncia de uma disciplina especializada denominada Economia Politica Com, por exemplo, acusa-a de metafisica © anticientifica, assentada em pressupostos a priori e sem qualquer pretensio de respaldarse na realidade: os economistas, a seu ver, recortiam @ conceitos ¢ dogmas mais teolégicos e metafisicos que propriamente cientificos, como valor, liberdade natural e homo economicus; defendiam, finalmente, o liberalismo vetusto, fruto das idéias ilumi- nistas anteriores & Revolugdo Francesa, ¢ tida pelo positivismo & pelo socialismo nascentes como completamente defasadas diante dos novos tempos.” A crise da teoria académica, como se sabe, deixard de existir somente com o aparecimento dos autorts marginalistas ¢ neocléssi- cos, a partir de 1870, como Jevons, Menger, Walras e Wicksell. Construirse-6, a partir-dai © sob novos alicerces, outra teoria do valor, dos precos e da disttibuicao. J. S. Mill viveu exatamente no perfodo desta crise da teoria ardiana, a qual pretendia parcialmente salvar das criticas. Nota-se que 0 ano da publicagdo de seus Principios de Econcmia Politica, 1848, € 0 mesmo no qual Marx e Engels publicaram o Manifesto Comunista e em que a Franga, e depois boa parte dos paises euro- peus, conheceram revolucées. nas quais emergiram por primeira vez de forma explicita reivindicagdes sociais e trabalhistas. 7. As erlicas de Comte & Economia Politica nao sio freqientts © encontranm- so esparsas a0 longo de sua obra; destacase, todavia, 0 Curso de Filosofia Positive. Em linhas gerais, Comte estende 2 Economia Politica suas critcas claboradas & metafisica e & Filosofia, as quais slo tidas por ele como inte- tgrantes da fase intermediéria entre & primiria teol6gica medieval © a fase “positiva™ ow cientifica que se ineugurara no século XIX. Procurei, noutro trabalho, estabelecer certos marcos contrastantes do positivisme com o libers- lismo, e especialmente a influéneia do primeiro no processo histSrico brasi- Ieiro deste século, Vejese: FONSECA, Pedro Cezar Dutra (1989, p. 50-89, 13839 © 244-48). 7 Isto desnuda, pelo menos em parte, as razées do ecletismo te6- rico de S. Mill, também presente em questdes de método. Pretenden- do rechacar as teorias do valor trabalho e de distribuigéo ricardis- nas, yoltou-se a Benthan, para quem o valor associava-se & utilidade. O utifitarismo de Benthan, ndo obstante seu sensualismo, pouco tem de empirista, © neste aspecto pouco se afasta de Ricardo enquanto método (haja vista a influéncia de Benthan no approach neocléssi- co): continua existindo a concepgao univoca de homem, a pretensio de universalidade absoluta, 0 método nico na ciéncia e 9 homo econamicns, ah aetzmno, maximizanda satisfagio com 0 minimo de esforgo. Mill procurava uma construgéo analitica embasada em Ben- than, mas os contribuigdes positivistas instigavam-no, haja’ vista considerar Comte a maior autoridade sobre epistemologia de seu tempo. Assim, defendia a existéncia de leis naturais e imatéveis de producio, mas leis sociais e histéricas de distribuicio. Este ecletismo permeia sua obra, e principalmente seu Sistema de Légica Dedutive ¢ Indutiva (1843). Com um otho em Comte outro em Benthan e Ricardo, defendia o uso parcial dos dois métodos simul- taneamente, em uma justaposicao que Smith fizera na prética — sem resolver, todavia, 0 ¢onflito inerente a tal mescla (embora, justiga seja feita, o enfrentasse ...). Sabe-se, no obstante, que 0 rompimento de Mill com 0 método ricardiano foi mais a nivel de discurso que real: quando foi trabalhar de fato com economia, continuou com 0 dedutivismo,e 0 apriorismo; certamente recorreu a dados e fatos, mas sem ver nestes a origem do conhecimento. Como afirma Eleutério F. S, Prado: “Se, de um lado, a Economia parte de principios, de nnoges fundantes, de universais abstratos como o postulado do homem econémico irracional e se, de outro, a experiéncia é a experiéneia do contigente, do particular do factual, entao ela no pode ser uma ciéncia empirica, suas propdsigées néo so detivadas em sentido estrito pelo método indutivo — ou a posteriori, como designa Stuart Mill. © método da Economia Positiva é 0 método a priori, ou seja, aquele baseado a partir de uma hipétese assumida, Para Mill, ele raciocina e ... deve necessariamente raciocinar a partir de assungées, néo a partir de fatos. Por isso, ele a caracteriza essencialmente como uma 78 cigneia abstrata e a compara aos Elementos de Euclides que se funda, como as matematicas em geral, em ariomas’”* Walras, entretanto, encontrou uma solugao formal ao dilema de Mill em seus Compéndio de Elementos de Ecoromia Politica Pura? Apés criticar outros autores, como Smith, que atribuiam & Economia Politica o papel de incrementar a riqueza nacional ¢ os rendimentos do povo e do Estado, Walras argumenta que a Econo- mia, se ciéncia, deveria eximir-se de julgamentos de valor, bem com de pretender buscar “o melhor”: “o caréter da eiéneia pro- priamente dita é 0 completo desinteresse por qualquer conseqiién- cia vantajosa ou prejudicial quando se dedica & busca da verdade pura”, Exemplifica mostrando que a geometria pode ser aitil para 6 carpinteiro ou para 0 arquite{o, mas ao geGmetra, como cientista, apenas caberia formular teoremas e descobrir as yerdades, as leis. Assim, a Cigncia Econémica deveria ocuparse com os fatos naturais, nos quais atuam foreas “cegas e fatais” da natureza. Mas hé fatos que dependem do homem, e que sio abrangidos pela Cién- cia Moral Pura ou Histérica. Estes mudam, jé que atos volitivos, resultado da interagio.entre os homens. Além destas, hé a Arte Econ6mica, a qual trata da aplicagdo e do uso dos prinefpios & luz da Cigncia e da Moral: abrange as relagSes entre o homem e natureza. Esta 6, pois, a solucio walrasiana, procurando resolver 0 con- flito epistemol6gico estabelecendo compartimentos, diferentes em- bora interdependentes, para a Economia, O problema da origem do conhecimento e do modus operandi ao “fazer ciéncia” continuo cem pé, mas a solugo formal foi capaz de galgar adeptos e persua- dir estudiosos. Welras fora enfético: “'Tais so, pois, a ciéncia, a arte e moral. Seus critérios respectivos so o verdadeiro, o itil ou © interesse © © bem ou a justica”. Mais tarde os compartimentos mudaram de rétulo e passaram a denominar-se, respectivamente, teoria econdmica, politica econdmica e doutrina econdmica. Sobre 6s trés paira a mie Economia. 8, PRADO, Eleutério F. S. (1986, p. 64. 9, WALRAS, Léon (1983). Veja-se especialmente o segundo capitulo, entitu- lado Distingéo entre ciéncia, arto moral, As citagbes que seguem foram dai extrafdas, bem como do capitulo 1. 19 9 — Outro tipo de solucsio — a dialética — foi desenvolvida ‘no campo da Economia Politica (ou da Ciéncia Social) por K. Marx, sob forte influéncia da filosofia de Hegel, ‘Também fruto do racionalismo, Hegel rejeitava a possibilidade de a ciéncia reduzitse ao mundo empirico, dando televancia a0 ‘momento da. abstraglo, sem a qual néo seria possivel’ a’ prépria cigncia. Nao obstante, 0 processo de conhecimento néo se comple- tava na abstragio, ¢ possufa no concreto tanto seu ponto de partida como de chegada, Assim, a totalidade concreta inicial pode ser concebida como cabtica ¢ sua apreensio e explicagao requer que se distinga o essencial do acidental, ou a esséncia do fendmeno. Trata- se, ai, de estabelecerem-se conceitos — portanto abstrairse — ¢ sem esta decomposizo no hé conhecimento, Esta abstraco, no entanto, nfo é fim, mas um momento de mediaggo que requer voltar-se ao préprio concreto, agora nio-mais caético e desorde- nado, mas explicado. Exatamente a “volta ao concreto” assegura certa “testagem” ou a apreensio da especificidade do objeto, jé que o momento anterior requer generalizagio e alto grau de abstra- so. Assim, a dialética entende que nao se pode reduzir a ciénoia nem ao empirismo nem ao racionalismo dedutivista, embora admita a releviincia de ambes no processo de conhecimento, A dialética, por essa dentre outras razées, no pode conside- rar a si propria como um terceiro método, conquanto seja posstvel interpretéla como uma forma de sintese entre 0 empirigmo e 0 dedutivismo cléssicos. Sua pretensio é que o real € dialético, e néo © método enquanto tal: por isso as propostas metodolégicas tradé- cionais, a rigor, née podeti ser entendidas como “absurdas” ou “aberragées", mas vomo formas incompletas ¢/ou insuficientes c/ou parciais de fazer cifncia, Cara a esta ontologia & a distingdo entre conceito ¢ represen- tagio, esta entendida como projeclo, na consciéncia do sujeito, de determinadas condigées histOricas petrificadas." As representacoes ou formas fenoménicas ajudam a revelar a esséneia das coisas, mas no coincidem com ela, embora dela fagam parte (desde que os > objetivos sejam sociais ou, 0 que é a mesma coisa, os sujeitos em poténcia). O primeiro passo para conceituar algo ou para delimitar © que nele € essencial & partir das formas concretas. Estas sao ime- 10. KOSIK, Karel (1976, p. 15). 80 a iatas, enquanto a esséncia é mediata; ndo deriva co fenémeno, mas nele se revela (pelo menos parcialmente). Se assim no fosse, poderiamos supor duas outras alternatives Se a esséncia nio se revelasse absolutamente no fendmeno, seria impossivel chegar a ela; terfamos um divércio completo entre am- bos, como no mundo da-téalidade ¢ das idéias de Platio. Seria imposstvel, a rigor, fazer ciéncia; pois compreender ¢ fendmeno & chegar & esséncia. Se, por outro lado, a esséncia se revelasse intel- ramente no fendmeno, seria desnecesséria qualquer mediagao: 0 empirismo seria soberano e nfio haveria razo para existir nem ciéneia nem filosofia, pois a explicagdo coincidiia com a descri¢ao (© com a verdade). A dialética, desta forma, desconfia do imundo dé empirismo mas julga-o relevante como forma e como ponto de partida. Mas também rejeita a concepedo de que a ciéncia deva satisfazer-se com esquemas abstratos:.se a cincia se reduzisse aos modelos teria que considerar que as formas sfo irrelevantes, ou que as especificidades seriam incompreensiveis para o pensamento (ou, ainda, “‘desvios” da forma pura ou de tipos ideais, como em Weber). Assim, por exemplo, temos a construgio M-D-M de Marx, Esta supde uma abstracdo: x quantidades da mercadoria A so trocadas por y quan- tidades de dinheiro (ouro) que, por sua vez, sio trocadas por z quantidades da mercadoria B. Esta abstracdo nfo supde nenhuma dedugio: a abstracdo nao é do cientista em si mas da prépria socie- dade, que troca mercadorias entre, si em certa proporgao. & uma abstracdo real, feita pelos prdprios homens, que a fazem mesmo sem 0 saber. Ao trocarem, estes estabelecem certa igualdade: “x de A = y de ouro = z de B”, seguindo um critério que existe mas nfo é de imediato petceptivel. Descobrir tal critério “oculto” exige dar um salto, explicar a Iei subentendida e que se vé representada na troca como um fetiche. Ora, esta explicagao exige uma teoria, no caso a teoria do valor trabalho. Esta mostraré que tanto as metcadorias A, Be ouro so trabalho (abstrato): A no € tao-somente A, mas certa quantidade de trabalho em forma de A, 0 mesmo sucedendo com Be com 0 ouro, Abstratamente so iguais, sfo redutiveis a uma substncia comum, mas coneretamente assumem formas dife- rentes. As formas sio relevantes, pois possuir certa quantidade de trabalho sob a forma de A é completamente diferente de possut-la sob a forma ouro; se fosse indiferente, no haveria porque querer at trocarse A por B. Se possuir A ou B fosse igual @ possuir ouro, nfo haveria porque existir entesouramento, Admitir a relevancia do empftico desta forma afasta-se com- pletamente da concepsio do historicismo; nao s6 por ressair a ne- cessidade da abstracio, mas por destacar que existe uma relagio entre sujeito € objeto que no é univoca; 0 método depende. do objeto, ¢ procedimento de fazer ciéncia nao se reduz a colecionar dados ¢ fatos cada vez mais completos e exatos. De fato, a preten- so historicista, e com forte influéncia no positivismo, tendeu a reduzir o real & sua dimensio quantitativa, jé que 0 conereto ime- lato ¢ também imediatamente mensurdvel. Como nao se pode co- mhecer todos os dados nem todas as dimenses do real, pois infini- tos, chegou-se A assertiva de que atingir a verdade & impossivel, 0 empirismo, jd mencionow-se, quando levado as tltimas conseqiié cias transforma-se em pirronismo. i Para a dialética, no entanto, a verdade € posstvel, nem, sonho nem quimera, mas ela nfo € alcangével de uma vez por todas, pois © préprio real se trans-forma; a substancia de uma coisa & seu proprio movimento, por isso impossfvel de capté-la estaticamente.!! Descobrir as leis imanentes ou internas, nfo perceptiveis de forma imediata nos fendmenos é descobrir suas “leis de movimento”; & or isso, para Hegel, a légica formal era limitada, pois reduzia o real 20 principio da ientidade, ignorando as contradigdes. E certo que se pode dizer A = A (principio da identidade); mas A é tam- bém ndo-A. Nao se nega a priori o principio da identidade, jé que imediatamente conereto, mas se concebe o conhecimento como além dele; a contradicdo é necessdria para entender seu movimento oculto a primeira vista, sua mudanga ousua trans-formagio, Nao se pode confundir, por dutro lado, a abstraco necessétia do ponto de vista da dialética, a delimitagio do que é essencial ¢ do que é realidade fenoménica com 0 procedimento convencional de construir modelos (0 método da generalizagio, & la dedutivis- mo). Neste, reduz-se 0 particular ao geral (universal abstrato), ¢ entende-se que explicar algo é reduzirse-he sua substincia imu 11. Vela, por exemplo, © primeiro capitulo da obre de POSSAS, Mario Luiz (1987, p. 1945), Este-afirma, enfaticamente: “I preciso eliminar de saida uma possivel fonte de equivocos, reconhecendo, para todos os fins ‘elevantes, a impossibitidade de conciliar dindmiea e equilibrio como mélodo de anilise econdmica” (p. el), 82 tavel, ¢, a partir daf, generalizar. Os “modelos”, portanto, sfio for- mais ¢ encontram sua razo de ser neles mesmos; sio mais préprios do dedutivismo que da dialética, embora possam ser titeis como “primeira aproximagio” ou verséo “priméria” ou “parcial” do conhecimento. Como afirma K. Kosik, esta concepgfo fisicalista c/ou spinozista de modelo ¢ incompativel com a dialética, j4 que “toda a riqueza do mundo se precipita no abismo de uma imutével substincia”.”? Entre a “lei geral” abstrata e 0 concreto no hé qual- quer mediacao, pois a explicago esgota-se no proprio abstrato, Para 1 dialética, © retorno ao conereto € imprescindivel, pois s6 af é possivel mostrar como o geral torna-se especifico, como 0 abstrato {orna-se concreto, como 0 irracional torna-se racional, O mundo ca6tico ou impossivel de comprender é descartado por sua supera- G40; 0 real e a existéncia do ser possuem sentido, ou, como afirmava Hegel: “O real racional ¢ o racional é real”. 10 — Em sentido vulgar, positivismo muitas vezss 6 associa- do ao empirismo ¢ ao historicismo, Isto se deve, certamente, as criticas que Comte e seus seguidores elaboraram ao dedutivismo, ao Huminismo © ao jusnaturalismo, mas nfo é verdads que, pelo ‘menos Comte, defendesse ponto de vista idéntico ac da Escola Hist6rica, como ao afirmar: “Porque, se de um Jado qualquer teoria positiva deve necessariamente fundar-se em observagdes, é igualmente sen: sivel, de outro, que, para entregar-se & observacio nosso es rito necessita de uma teoria qualquer. Se, a0 contemplarmos 98 fendmenos, nao os relaciondssemos imediatamente a alguns prinefpios, no somente nos seria impossivel combinar essas observagdes isoladas e, por conseguinte, extiair delas algum resultado, mas serfamos incapazes de reté-las; ¢, na maiotia das vezes, 08 fatos ficariam despercebidos sob nossos olhos”.!? Como se vé, para Comte a ciéncia nao prescinde do momento da abstragdo, nem pode ser reduzida & colegéo de fatos nem seria possfvel sem teorias. Esta postura, de certo modo “eclética”, perm te a existéncia de miiltiplas formas ¢ propostas no sentido de resol- ver a polaridade entre dedutismo ¢ empirismo. Hé, neste sentido, varios “positivismos”. Mas todos, via de regra, possuem como ponto 12, KOSIK, K. (1976, p. 27) 15. COMTE, Augusto (1978, p. 75). 8&3 comum considerar que existe um método tinico para a cifncia, em- bora para explicar 0 mesmo fenémeno se possa recorrer a mais de um modelo. Os modelos, como simplificagio da realidade, abstra- ses, podem ser méltiplos; mas o conhecimento no se esgota nos modelos em si, pois faz-se mister testé-los. O teste e a verificagio de hipoteses passam a ser a pedra de toque do positivismo, principal- mente em sua vertente mais difundida no campo da economia, o chamado “Positivismo Légico”. Com o desenvolvimento da Econo- ‘metria, este vem getthando cada vez mais adeptos entre os mais diferentes approachs teéri isseminado entre 08 economistas da formacao neoclassica. A rigor, 0 positivismo I6gi- co é incompativel com o dedutivismo neocléssico, mas vem chamar sua atengio & necessidade de testagem dos modelos; com isso, subs- titui seu determinismo pelo probabilismo, © conhecimento “positivo”, neste contexto, julga relevante a construgdo de teories, mas estas so “positivas” A medida que pas- sem pela prova da experiéncia — ou, pelo menos, que nio sejam negadas por cla. A pretensdo € que o teste leve gradualmente & construgao de teorias cada vez melhores, com hipéteses menos res- tritivas, a fim de abarcar maior ntimero de situagGes sem perder em simplicidade. De antemao admite-se que o modelo nfo coincide com a realidade ¢ nem pretende fazé-lo: ao contrério, considera-se exito- 50 0 cientista que, partindo da proposigao simples, consegue testar suas conclusies e, a partir delas, fazer predigdes que realmente yenham a ocorrer, Parece indiscutivel, sob este, ponto de vista, a semelhanga desta proposta metodoligica com a das ciéncias fisicas. Por isso, apesar dos calorosos debates, a questo da neutralidade cientifica sempre € posta pelos positivistas, em seus vérios matizes. Se a neutralidade to:al e absoluta em todos os momentos da inves- tigagdo encontra povcos defensores quanto as possibilidades de sua existéncia, nfo raro se mantém como ideal a ser perseguido. Admite- se, ainda, que o ciertista possa receber “influéncias externas” (cul- turais,.politicas, ideolgicas) ao selecionar temas para estudar © a0 admitir presupostos ao construir teorias: mas, uma vez estes explicitados, seu procedimento deve ter objetividade suficiente para que outros cientistas, dados tais pressupastos @ com as mesmas fer- ramentas, cheguem as mesmas conclus6es inicialmente alcangaidas." os, emhora seja mais 14, Note-se que autores no propriamente positivstas, do porte de Schum- peter © Max Weber, argumentam de forma semelhante. 84 Caso contrério, algum deles deve ter caido em erro — ou l6gico, ou de observacdo, ou por problema da prépria testagem. ‘Como a testagem é cara ao positivismo, uma teoria impossivel de ser testada ndo pode ser considerada, a rigor, cienttfica, Seria “mera” filosofia ou teologia, uma erenca a priori; isto induz & for- mulagio de hipéteses testiveis pelos dados, e dentre as ditas ciéncias humanas é a economia a que mais se presta para a difusio do positivismo ldgico, pois dentre tais ciéncias é a que mais possui varidveis quantificéveis. Ao contrério do hegeliano, o positivista admite que a realidade 6 soberana © que a aparéncia revela de todo a esséncia, ou, ainda, que a esséncia em si é inatingivel, mas que 86 pela observacao ¢ pela descrigdo pode-se chegar préximo a ela, Em qualquer uma das posturas, 0 empirismo reina, e daf, as vezes, (0 uso impréprio de positivismo e empirismo como sinénimos. Em ambos também 0 conhecimneto é probabilistico, refutando-se qual- quer determinism, Nota-se, neste sentido, que categorias de dificil ou impossivel {quantificago séo abandonadas, ou menos usadas, que outras no possuidoras de tal qualidade. A idéia de valor, por exemplo, funda- ‘mental de um, ponto de vista hegeliano, é trocada em favor de sua manifestago: 0 prego. Como afirma Joan Robinson, a categoria valor metafisica, segundo este ponto de vista; se esté “oculto” nio existe, se ndo ¢ imeditamente visivel nada difere de uma fan- tasia.!5 Isto porque uma coisa é reduzida a sua manifestagdo; 0 positivista pretende captar as regularidades desta manifestacéo para prever. Um hegeliano no poderia asseverar que tal tarefa € indtil ou descabida, pois admite que a manifestagio é relevante ¢ que as formas aparentes tém légica e existem; consideram, todavia, insufi- ciente e incompleto tal procedimento, pois o real ndo se reduz as suas manifestacées, ¢ hé leis imanentes de imediato imperceptiveis fe que 86 podem ser descobertas por um exercicio do pensamento ow da razio. ‘A preocupagao hegeliana centra-se em explicar, no refutando a idéia de que a ciéncia possa e deva prever. Jé no positivismo Iégico a explicagdo é de certo modo secundéria frente exigéncia de predigao: “O objetivo ultimo da ciéncia positiva é 0 desenvol- 15. Acusar tanto a teoria do valor trabalho como a do valor utlidade como metafisicas & uma constante na vasta obra de Joan Robinsea. Veja-se, por texemplo, ROBINSON, J. ¢ EATWELL, J. (1978) € ROBINSON, J. (1979). 85 vimento de uma ‘teoria’ ou de uma ‘hipStese’ capaz de produzir previsies vidas © significativas (ou seja, nfo banals) acerca de fenémenos ainda nio observados”." Por isso, os pressupostos ¢ as hip6teses, enfim, o aréprio modelo, podem ser completamente irea- listas ou até fantasiosos: interessa seu poder de previsio, embora seus argumentos, por assim dizer, possam constituir-se uma paré- bola!” Enquanto no se produzir parabola melhor, do ponto de vista da previsio, as existentes devem ser aceitas, mas sempre com a precaugao de que melhores sio possiveis e deverlo posteriormente surgi. Visto como tentativa de captar a l6gica da aparéncia a fim de pereeber correlagées e/ou fazer previsbes, 0 postivismo légico esté mais voltado a entender o ‘com funciona’” do que explicar a coisa em si Em outras palavzas, a explicagio é captar o mecanismo de funcionamento. Dat exercer influéncia dentro de correntes neomar. xistas que pretendem advogar que a teotia do valor, pata ser cien- tifica, precisa ser empirica ou passivel de ser testada através. dos pregos. O debate sobre a transformagio de valores em pregas é um exemplo. Influencicu sobejamente, também, os economistas pés- keynesianos, erticos ou defensores de Keynes (dente estes os vin~ cailados & chamada Sfntese Neocléssica) 0s quis passaram a enten- der que a superioricade ou nio da Teoria Geral & “economia clés sica” poderia ser decidida através de testes quantitaivos. Harry Johnson, por exemplo, atribui como um dos fatores contribuintes a0 grande debate que sucedeu 4 Teoria Geral de Keynes a “um: relagio empirica importante que a tribo emergente dos econome- tristas podia medir — a fungio consumo, uma relagio muitissimo mais estimulante intlectualmente do que a demanda por agdcer, + uma relagdo estimével a base de dados disponiveis pelo desenvol. vimento de estatstcas da renda nacional (...)”. 16. FRIEDMAN, Mion 198 17, Na verdade, tais ic yen antam propriamente as yersdes mais tmadures do positivism, como 0 Postivinno Ligco, mas sino Tstument iso. No ptimete, © seo da encanto € explcr, may comdaconsr observages, por iso cs fees teics e a8 teria devem, epundo eta concepedo, serem eliminadas da ciéncia, evitandose que se cala em algum Imomento ha metas J& no Tnsrumentalismo qualguor tora &bemsind, desde que adequada ou funcional para’ realizer boas previsdes (ou seja, previsées ratificadas peia realidade). " 18, FRIEDMAN, Mion (Is, p. 170. 18, JOHNSON, Harry G- (1981p. 15) 86 Mas foi dentro das correntes vinculadas a tradigao neocléssica {que encontrou solo fértil para sua maior difusio, Estas, apesar do forte cunho dedutivista, passaram a encontrar defensozes de forma 1 formular hipsteses testaveis. A idéia da construgdo de parébolas caiu como uma luva para justificar modelos ultra-simplificados. Mas (0s eriticos, como a propria Joan Robinson, levaram as iltimas con- seqiiéncias o caréter metafisico de construgSes como valor utilidade, curvas de indiferenga, produtividade marginal do cayital € outros cconceitos e categorias nio passiveis ou dificeis de se tornarem emp: ricos. Joan Robinson denuncia a incompatibilidade en:re as teorias neoclissicas e 0 positivismo légico, e, no caso, prefere ficar com 0 ‘iltimo. No campo do valor, refuta-o como metafisico, « no ser que haja possibilidade de concretizar 0 ideal ricardiano de encontrar uum padrao absoluto para a testagem da categoria valor através de ‘sua manifestagio, enquanto a diferenca entre imanéncia e aparéncia 6 considerada va filosofia: esta mais atrapalha que ajuda 0 pensa- ‘mento cientifico.2” Todavia, mesmo para o erftico mais exigente, a postura de Joan Robinson fascina pela coeréneia, pois é mais consistente do que @ teoria neocléssica tradicional, a qual se julga ac mesmo tem- po axiomética e empirica. Esta, ao Iado de uma teoria do valor formalmente sofisticada, em certo momento a abandona em favor dos pregos. Assim, 0 comportamento a priori do consumidor deve ser abandonado em favor de suas preferéncias reveladas, a forma- ‘go de pregos pela formula bem mais empirica do somatério dos Custos mais uma markup, ¢ os mercados perfeitamente compet tivos pela concorréncia imperfeita. 11 — Como dé para se notar, as diferengas entre os econo- mistas nfo residem apenas nas teorias em si ou nas medidas dispa- res de politica econémica que dividem os académicos = a profissio. A ciéncia € paradigmética — para usar a expresso que voltou & moda — também no que se refere a sew método, embora a preocu- pagdo com este parega diletantismo frente aos graves problemas econdmicos, aparentemente sem solucdo, que nos afligem neste final do século XX, 20, Vejase, @ titulo de ilustragio, sua Carta Aberta de um Keynesiano tum marxista (ROBINSON, J. 1988, p. 203), qual termina com a poética Jndagagao: *Pelos céus, nfo me ponha Hegel na hist6ris. Cue direito tem Hegel a colocae 0 nariz entre mim © Ricardo?” 87 REFERENCIAS BIBLIOGRAFICAS COMTE, Auguste, Comte: textos selecionados. Org. de Evaristo de Mora Fitho (Coord. de Florestan Fernandes), Sio Paulo, Atica, 1978 FONSECA, Pedro Cezar Dutra. Vargas: © capitalismo em consinisio, Sao Paulo, Brasliense, 1989. FRIEDMAN, Milton. “A metodologia da economia posi plic, Rio de Janciro, MultiplicBPGE/FGV, 1981, n. 3. JOHNSON, Harry G. *A revolugSo keynesiana e a contrareyolugio moneta- rista", Edigdes Multiplic. Rio de Janeiro, MultiplicEPGE/EGY, 1981, a. 3. KOSIK, Karel, Dialética do Concrete, 2, od, Rio de Janeiro, Pat © Terra, 1976. MALTHUS, Thomas Robert. Principios de economia politica. Sf0 Paulo, Abril Cultural, 1985. (Col, Os Eeonomistas). MARCHAL, André. Metologia de la Ciencia Econémica; el conficto tra ional tntre los metodos y su renovacién. Buenos Aires, Ateneo, 1957. NAPOLEONI, Claudio. Smith, Ricardo, Marx. Rio de Janeiro, Graal, 1978. POSSAS, Mério Luiz. Dinimica da economia capitalista, uma abordagem teérica, So Paulo, Brasiliense, 1987. PRADO, Eleutério F. $. "Stuart Mill e 0 Homem econ6mico irracional”. In: BIANCHI, Ana Maria (org.) Questdes de método na ciéneia econdmica. Paulo, IPE/USP, 1986, ROBINSON, Joan. Filosofia econtmica, Rio de Janeiro, Zahar, 1979. [Novas contribuigées & economia moderna. Sio Paulo, Véetice, 1988 ROBINSON, Joan e EATWELL, John. Introdugio & economia, Rio de Janeiro, Livros Técnicos e Cientificos, 1978. SIQUEIRA, Wandyr Hagge. © califa e as estrelas, consideragdes sobre a igi de “progresso" em teoria Econdmica, Rio de Janeiro, 1978. Mimeo. WALRAS, Ledn. Compéndio dos elementos de economia politica pura. Sio Paulo, Abril Cultural, 1985. (Col. Os Economistas). ", Bdigdes Mult