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Maria Roquette!

Sciences Po 2011

Introdução
! A revista Vingtième Siècle é uma revista trimestral de história politica e cultural fundada em 1984 e publicada pelas Presses de Sciences Po. Em janeiro de 2010 no seu centésimo quinto número, Vingtième Siècle publica uma edição sobre os regimes militares na América latina. Com a democratização do sub-continente observada nas ultimas duas décadas é finalmente possível estudar um período que por muito tempo foi intratável devida a proximidade temporal. Na apresentação deste centésimo quinto número, Stéphane Boisard, Armelle Enders e Geneviève Verdo definem os seus objectivos de trabalho que se resumem ao estudo da adesão e da resistência da sociedade civil, do estabelecimento e desenrolar dos regimes militares, contextualizando-os com a situação mundial. Os dois artigos seleccionados para a nossa análise interessam-se sobre o caso brasileiro. Carlos Fico e Richard Marin são os autores respectivos de “La classe média brésilienne face au régime militaire, Du soutien à la désaffection (1964-1985)” e de “Les Eglises et le pouvoir dans le Brésil des militaires”. Graças a dois artigos que se interessam a um mesmo período temporal, é possível analisar o comportamento e a posição da classe média e das Igrejas frente ao regime ditatorial do seu estabelecimento em 1964, à sua queda em 1985. Carlos Fico, doutor de historia da Universidade de São Paulo, professor do departamento de historia na U.F.R.J. e pesquisador do Centro National de Pesquisa é o autor do primeiro texto. Através da sua análise em “La classe média brésilienne face au régime militaire, Du soutien à la désaffection (1964-1985)”, compreendemos a complexidade de definição da classe média brasileira. E é importante desde já compreender que quando analisamos a classe média no Brasil, estamos perante um grupo que em nada reflecte as características do seu homónimo francês 1. Quanto a Richard Marin, professor de historia contemporânea na Universidade de Toulouse II, pesquisador no Laboratório França Meridional e Espanha e autor de diversos livros do qual distinguimos Histoire du Brésil 1500-2000 em que colaborou com Bartolomé Bennassar, o seu artigo “Les Eglises et le pouvoir dans le Brésil des militaires”, interessa-se a compreender a evolução da posição das Igrejas durante a ditadura. Carlos Fico analisa as causas e as consequências da mudança de posição da classe média brasileira durante a ditadura, que passa de um apoio quase total em 1964 a uma progressiva contestação com a tomada de consciência dos abusos dos militares a partir do fim da década de 1960. Richard Marin estuda esta mesma evolução no seio do universo cristão. Comparando os dois artigos, a questão central é portanto compreender qual foi a posição da classe média e das Igrejas durante o regime militar e de que maneira uma pesa sobre a outra no que diz respeito ao apoio ou contestação da ditadura. Para dar resposta às questões sugeridas por esta problemática analisaremos em primeiro lugar os percursos semelhantes da classe média e das Igrejas, ambas apoiando o estabelecimento e os primeiros anos do regime militar, para ver em seguida que estes percursos se modificam de maneira similar para dar lugar a uma contestação. Por ultimo analisaremos as divergências internas da classe média e das Igrejas, reveladoras da sua heterogeneidade.

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A classe média no Brasil é muito mais extensa que em França pois engloba uma classe média baixa e uma classe média alta.

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I - Dois percursos semelhantes: o apoio inicial ao regime militar da classe média e das Igrejas: A - A pressão da classe média e das Igrejas na origem do estabelecimento da ditadura militar: ! A partir do inicio dos anos 1960, as elites políticas conservadores aliadas à classe de negócios, iniciam uma campanha de destabilização do governo de João Goulart, utilizando recursos e estratégias para atrair a classe média na luta pela fragilização de Jango. Efectivamente, a classe de negócios financia varias organizações para manipular a opinião da classe média brasileira. Em 1959 é fundado o Instituto Brasileiro da Acção Democrática (IBAD), acompanhado pela fundação do Instituto de Pesquisa e Estudos Sociais (IPES) em 1961. Estes dois institutos serão os principais catalisadores do pensamento anti-Goulart. De facto, a manipulação da classe média por parte das elites políticas e económicas revela-se um sucesso pois progressivamente o governo de Jango é associado ao comunismo, o que num contexto de guerra fria, contribui imensamente ao seu desmantelamento. No entanto, com a vitoria de Goulart no referendum de 19632, uma nova fase de destabilização agrava ainda mais a situação política do pais. Uma conspiração contra Jango começa então e o seu objectivo é fazer frente ao resultado do referendum. Além dos apoios económicos precedentes, esta conspiração conta também com a ajuda financeira dos Estados Unidos e com o imenso apoio de associações femininas, como a Campanha da Mulher pela Democracia (CAMDE), a Liga da Mulher Democrata (LIMDE) e a União Cívica Feminina (UCF). É importante notar que estas organizações têm como principais membros mulheres da classe média brasileira, na sua maioria muitos próximas da Igreja Católica, o que nos permite observar portanto a forte ligação entre a classe media e a Igreja e consequentemente a relevância da comparação entre os dois artigos escolhidos. De facto, no artigo de Richard Marin, é descrita a participação das Igrejas, nomeadamente da Igreja Católica, na campanha anti-Goulart. Em 1962, o padre Patrick Peyton lança a Cruzada do Rosário, que lutando contra o perigo do comunismo e do ateísmo, mobiliza milhares de pessoas, sobretudo da classe média nacional. ! Face à conspiração contra o seu governo e ao bloqueio pela parte do Congresso às suas medidas, João Goulart vai então organizar uma ajuntamento a 13 de março de 1964 no Rio de Janeiro, hoje em dia considerado como o seu maior erro político, tendo em conta que o Presidente ataca directa e explicitamente a Cruzada do Rosario. Como resposta ao seu ataque, o movimento de Peyton organiza-se e a 19 de março de 1964 decorre a primeira Marcha da família, com Deus, pela liberdade, em que 500 000 pessoas rezaram em São Paulo pelo afastamento do perigo comunista e pelo afastamento de Goulart do governo. Treze dias depois, dia 2 de abril diante das pressões das elites económicas e políticas, da classe média, das Igrejas e dos militares, Jango é deposto e a ditadura instaurada. Cerca de um milhão de pessoas desfilam no bairro de Candelaria, no Rio de Janeiro, na segunda Marcha da família, dita Marcha da vitória. Dom Jaime de Barros Câmara, cardeal do Rio de Janeiro abençoa a manifestação e atribui à queda de João Goulart a ajuda divina. Da mesma maneira, a Igreja Protestante organiza em Pernambuco no dia 7 de setembro de 1964 uma comemoração pelo novo regime. B) O apoio da classe média e das Igrejas nos primeiros anos da ditadura: ! Quando o governo de João Goulart é deposto, as autoridades religiosas fazem triunfar os militares. Apesar da divisão da Conferência Episcopal no comunicado da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) em junho de 1964, a aprovação do regime é relativamente forte. Richard Marin destaca no seu artigo a passagem mais célebre da Declaração da CNBB,
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O Referendum de 1963 questiona as populações sobre a natureza parlamentarista ou presidencialista do regime. É considerado uma vitoria de João Goulart pois o regime presidencialista ganha fazendo com que este obtenha a plenitude do poder executivo.

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defendida nomeadamente pelo arcebispo de Diamantina, Dom Geraldo Sigaud, na qual a CNBB declara dar graças a Deus por ter respondido as orações de milhares de brasileiros e os ter livrado do perigo comunista e agradece aos militares por terem arriscado as suas vidas em nome dos interesses nacionais. E até 1968 a Igreja mantém uma excelente relação com o governo, uma relação de colaboração com o poder estabelecido tal como tinha feito sob Getulio Vargas. Aliás no primeiro aniversário da tomada de posse do governo militar ouvem-se os sinos tocar pelas cidades e são celebradas missas em todas as catedrais do pais. “As relações do governo com a Igreja são cordiais e a obra da Igreja é respeitada3 ” como descreve o jornal oficial do Vaticano Osservatore romano. No ano de 1967 atinge-se o apogeu das relações entre as duas instituições com a visita do marechal Costa e Silva ao papa e com a oferta da rosa de ouro à Basílica da Nossa Senhor Aparecida em São Paulo, símbolo de reverência, estima e afeição face ao seu espirito de lealdade para com a Santa Sé. Ao longo do ano de 1967, varias medalhas pontifícias são distribuídas a membros do governo e reciprocamente o Estado distribui condecorações a membros do clero. ! Influenciada pela Igreja, a classe média vai também apoiar o regime, sobretudo porque na sua percepção o regime militar seria provisório e apenas para instaurar ordem. Antes de 1964, o papel dos militares na vida política é já conhecido e as populações estão familiarizadas com as suas “intervenções pontuais”. No entanto, é interessante notar que o apoio ao regime é sobretudo o fruto do apoio das mulheres, nomeadamente durante o governo do marechal Castello Branco. De acordo com Lowell K. Kilday, secretário da embaixada dos Estados Unidos durante o golpe de Estado, a mulher brasileira era aliás geradora de iniciativas para aumentar a repressão do governo. Muitas cartas encontradas nos arquivos da Divisão da Censura para os Divertimentos Públicos (DCDP) revelaram que a classe média, nomeadamente feminina, através de associações femininas de defesa da moral e dos bons costumes, enviava cartas pedindo uma censura mais forte diante da “falta de decência” de algumas emissões televisivas. Observa-se portanto o peso da moral cristã no modo de acção da classe média e a importância das duas para o estabelecimento da ditadura militar. Como pudemos observar graças aos artigos de Richard Marin e de Carlos Fico, a posição das Igrejas e da classe média é a mesma durante os primeiros anos do regime. No entanto vamos observar que há uma mudança nas suas posições que passam do apoio à contestação, nomeadamente a partir de 1968. II - A contestação simultânea da Igreja e da classe média ao regime, uma relação de reciprocidade: A) A deslocação do posição da Igreja, do apoio à contestação: ! Entre 1965 e 1968, poucos são os casos de desacordo entre a Igreja e o governo. Em novembro de 1967 o presidente Costa e Silva declara mesmo que “não há conflitos entre a Igreja e o governo, apenas divergências entre alguns membros do clero e alguns oficiais das forças armadas”. No entanto, apesar do apoio indiscutível da Igreja ao regime militar no seu estabelecimento, uma pequena minoria do clero não o aceita e uma parte dela chega a ter problemas com a policia, nomeadamente o bispo de Volta Redonda depois de ter defendido um grupo de laicos contestatários. Consequentemente, em novembro de 1967 a Conferência episcopal declara que apesar da sua colaboração com o regime, irá demonstrar a sua solidariedade para com os bispos, padres e laicos perseguidos. Por conseguinte, as tensões entre a instituição e o governo agravam-se nomeadamente por causa do apoio dos movimentos operários pela Igreja em 1968, que leva 18 clérigos e 57 agentes pastorais para a prisão. Assistese a partir desse ano a uma divisão episcopal que separa os membros mais conservadores dos mais liberais e contestatários, no qual distinguimos Dom Cândido Padim que chega a comparar os métodos do governo aos métodos nazis.

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Richard Marin, Les Eglises et le pouvoir dans le Brésil des militaires, Vingtième Siècle, 2010

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! Diante desta heterogeneidade do posicionamento da Igreja ao regime, Richard Marin distingue três fases dos modos de intervenção da Instituição católica. A primeira entre 1969 e 1973, marcada pela derrota do conservadorismo e pela adopção da teologia da liberação pela Conferência episcopal, distingue-se pela denúncia das violações dos direitos humanos cometidas pelo regime militar, nomeadamente dos actos de tortura por este realizados. Assiste-se portanto a uma politização da Igreja católica nesta primeira fase. A partir de 1974, a CNBB entra numa segunda fase que durará quatro anos, marcada pela acção do cardeal Arns, que se caracteriza por uma resistência explícita ao regime. Como evocamos anteriormente, um dos acontecimentos mais importantes desta fase é a contribuição da Igreja ao movimento sindicalista e operário. Enfim, a partir de 1979 dá-se a terceira fase, dita de “abertura política”, em que apesar da despolitização da Igreja a pedido do papa João Paulo II, se observa um aumento da sua importância no campo social. ! Entre 1964 e 1968, observa-se portanto uma divisão episcopal na qual o clero conservador é derrotado pelo clero mais radical e contestatário. Ora a origem e o desenrolar desta mudança de posição não teriam o mesmo impacto sem o apoio dos seus fiéis, que na sua maioria pertence à classe média. É portanto extremamente relevante analisar em seguida o papel desta classe graças ao artigo de Carlos Fico. ! B) A mudança de posição da classe média ! Graças à teologia da libertação defendida pela CNBB durante a segunda fase definida por Richard Marin, a Igreja católica contribuiu para a organização da contestação pela sociedade. Não era apenas o clero quem sentia a repressão levada a cabo pelo regime, aliás era provavelmente a classe média quem mais a sentia. Com a banalização das blitzs, das detenções e da censura, a classe média vive num verdadeiro clima de terror. No entanto, a mudança de posição da classe média em relação ao regime, é impulsionada numa primeira fase não tanto pelos seus aspectos políticos, mas mais por questões morais e económicas. Sem neglicenciarmos a importância da dimensão política, observamos efectivamente que o factor económico é primordial para a deslocação do apoio da classe média ao regime. De facto, entre 1964 e 1967, o governo leva a cabo uma “política de saneamento financeiro4 ” que se revela extremamente impopular. Congelamento dos salários, redução dos investimentos públicos, redução das atribuições de crédito aos empresários, heis algumas das suas medidas que provocam a fúria da classe média e que justificam a sua participação nos movimentos de revolta de 1968. Além do descontentamento social causado pelos factores económicos, quando a Igreja denuncia as violações dos direitos humanos e começa a pôr em causa a sua colaboração inicial com o regime a partir de 1967-1968, inicia-se também o afastamento e a contestação por parte da classe média, na sua maioria católica. Quando a 28 de março de 1968, a policia mata o estudante de 18 anos, Edson Luis de Lima Souto num restaurante universitário do Rio de Janeiro, é acendida a faísca para a revolta. Sob o slogan “Mataram um estudante. Podia ser seu filho”, movimentos de protesto são organizados por toda a cidade, cujo mais célebre é a Marcha dos Cem Mil, na qual a classe média adere em massa. ! A partir de 1968, além das questões morais e económicas evocadas mais acima, os aspectos políticos do regime começam a ser verdadeiramente postos em causa. Com o decreto do Acto Institucional n°5 que instaura poderes extraordinários ao Presidente da Republica Costa e Silva, a vaga de protestos amplifica-se, tal como os grupos clandestinos contra o governo. Do mesmo modo, quando em 1969 os Estados Unidos e a França denunciam à comunidade internacional a pratica de tortura no Brasil, isso contribui novamente para a deslocação da contestação -outrora apoio -da classe média brasileira ao governo. Por outro lado, é essencial situar a fase de deslocação do apoio para a contestação, no seu contexto no ano de 1968. No

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Carlos Fico, La classe média brésilienne face au régime militaire, Du soutien à la désaffection (1964-1985), Vingtième siècle, 2010

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artigo “1968 au Brésil”, escrito por Marieta de Moraes Ferreira, a pesquisadora descreve a eclosão das lutas universitárias durante o ano mais revolucionário do século XX. Ora para compreender a ligação entre este movimento estudante e a nossa análise neste trabalho é necessário compreender que o movimento universitário é composto essencialmente por indivíduos procedentes da classe média. ! A contestação ao regime militar pela classe média é portanto extremamente importante a partir de 1967. No entanto, como mostram Stéphane Boisard, Armelle Enders e Geneviève Verdo na sua introdução ao dossier sobre os regimes militares da revista Vingtième Siècle, a classe média brasileira é tudo menos homogénea. Consequentemente, as suas reacções e posições variam. III - Evoluções e divergências dentro de dois grupos heterogéneos: A) Do optimismo dos anos 70 à resistência democrática: ! ! Para caracterizar a classe média brasileira, a palavra mais apropriada parece efectivamente ser “heterogeneidade”. Como mostram Boisard, Enders e Verdo, este grupo social constrói no seu interior comportamentos sociais e políticos distintos. De facto, apesar da grande maioria da classe média brasileira se comprometer num combate ao regime militar a partir de 1967, como estudámos no II, uma parte significativa dela mantém o seu apoio ao governo. Por outro lado, não são raros os cidadãos que depois de aderirem ao movimento de contestação em 1968, acabam por se conformar com o autoritarismo diante de melhorias económicas significativas. A partir de 1970, o governo começa a controlar a economia o que lhe permite distribuir benefícios por uma classe média descontente e empobrecida. Dá-se o “milagre brasileiro” em que as taxas de crescimento atingem 14% em 1973 e em que grandes trabalhos “faraónicos” de desenvolvimento da infra-estrutura se organizam por todo o pais, criando assim emprego. Este crescimento económico brutal explica em grande parte a popularidade do novo general-presidente Emilio Médici e consequentemente o recuo da contestação social. Por outro lado, de um ponto de vista um pouco mais subjectivo, não se pode menosprezar a importância do Mundial de futebol FIFA de 1970 no Mexico, do qual o Brasil sai vencedor, com o titulo de primeiro tricampeão da historia do futebol. Num pais em que o futebol é religião, este acontecimento tem muito impacto na moral das populações. Assim, num contexto de prosperidade em que a classe média beneficia de melhorias económicas significativas, permitindo-lhe de participar na sociedade de consumo, uma atmosfera de optimismo ganha as populações. Consequentemente entre 1970 e 1973, observa-se uma diminuição da contestação, devida obviamente a factores económicos mas também a um sucesso da propaganda politica efectuada pelo Conselho Especial de Relações Publicas (CERP). ! Ora rapidamente a popularidade do regime desaparece a partir de 1974 e da crise petrolífera que mete um ponto final ao “milagre brasileiro”. Como é costume observar no estudo das ciências políticas graças a Tocqueville, é depois de uma perca de melhorias já obtidas que as populações têm tendência para se revoltar. E é o que acontece no Brasil: depois de um período de prosperidade, vem um período de inflação e de desemprego que faz com que a classe média tome consciência da sua condição e que a incita de novo à mobilização. Entre 1974 e 1979, observa-se então uma onda de criticas ao governo, levada a cabo por associações profissionais, religiosas e políticas, com o Movimento Democrático Brasileiro (MDB), que se acompanha por uma ligeira abertura democrática do regime militar. O pesquisador Carlos Fico defende a predominância de dois temas principais na contestação, o da defesa da amnistia dos perseguidos e exilados políticos e o da reivindicação de eleições directas com sufrágio universal. Efectivamente a partir de 1978, o Brasil acolhe varias delegações estrangeiras e associações que intensificam o movimento de reivindicação da amnistia, fazendo com que no ano seguinte o general João Figueiredo decrete a amnistia dos presos e exilados políticos. Da mesma forma, organiza-se um movimento popular em defesa da eleição presidencial por sufrágio universal directo que vai reunir nas grandes cidades ajuntamentos e manifestações. Esta “resistência

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democrática5” é essencial para a abertura do regime que progressivamente vai fazer grandes concessões. E efectivamente quando em 1983 se da um “concerto de buzinas”6 a frente do Congresso Nacional, quando este está em plenas votações sobre o sufrágio universal, a ditadura esta a chegar ao fim. ! As divergências dentro desta classe social em plena ascensão são portanto óbvias. E uma leitura linear do seu comportamento ao longo do regime militar não seria pertinente. O caso da Igreja Protestante não é comparável ao da classe média, no entanto é a única Igreja que mantém o seu apoio ao regime até ao fim. B) A excepção da Igreja protestante: ! Antes de analisar-mos o comportamento e a posição da Igreja Protestante durante a ditadura militar é importante parar-mos para definir esta Instituição e os seus seguidores. Carlos Fico explica que nunca no Brasil se utilizou muito o adjectivo “protestante” para qualificar os fiéis do cristianismo reformado. Sempre se deu preferência ao conceito de Igreja “evangélica” composta por “crentes” e não por protestantes. No século XX, observa-se um crescimento importante do numero de crentes que passam de 2,8 milhões (4% da população) em 1960 a 7,8 milhões de crentes (6,6% da população) em 1980. Este aumento de fiéis explica-se em parte pelas reformas internas da Igreja Evangélica que adopta uma posição menos fundamentalista a partir dos anos 1950s. Financiada em parte por protestantes estado-unidenses, o apoio inicial da Instituição ao regime militar fez-se naturalmente. E num contexto de Guerra Fria, não é negligenciar que os Estados-Unidos preferissem o regime militar ao regime potencialmente comunista de João Goulart. Alias como vimos no I, o Estado Norte-Americano financiou e apoiou a campanha anti-Goulart no inicio da década de 1960. Portanto tal como a Igreja Católica, a Igreja Evangélica teve um papel importante no apoio ao estabelecimento do regime de Castello Branco. Ora o que separa estas duas Instituições é que a partir do momento em que o regime começa a endurecer-se e a ficar demasiado violento e repressivo, a Igreja Católica o contesta e não se observa o mesmo comportamento da maior parte da Igreja Evangélica. ! Se a grande maioria da Conferência Episcopal da Igreja Católica contestou e denunciou o carácter repressivo, violento e desrespeitador dos direitos humanos do governo militar, a mesma tendência não se observou na Igreja Protestante. Certamente, uma pequena minoria marginalizada de crentes como os presbiterianos Ivan Motta Dias e Paulo Stuart Wright militaram contra as extravagancias violentas da ditadura, mas como indicámos, tratou-se de um movimento marginal da Igreja Evangélica. Muitas explicações são dadas para justificar esta atitude colaboracionista. Em certa medida, este comportamento explica-se pela essência mesmo da ideologia crente, em que a componente de obediência à autoridade estabelecida é muito mais significativa que na Católica. Por outro lado, a influência norte-americana explicaria em parte este comportamento, apesar de Carlos Fico a negligenciar. Se é verdade que os Estados Unidos tiveram um papel importante para o estabelecimento do protestantismo no Brasil, durante o regime militar quase todas as Igrejas Evangélicas são já independentes da sua casa mãe estrangeira7. O pesquisador defende que a colaboração se deve em grande parte a estratégia politica e utilitarista dos protestantes. Diante das relações praticamente cortadas entre a Conferência Episcopal e as autoridades, a instituição evangélica teria visto uma possibilidade para se aproximar do governo e beneficiar de privilégios que a Igreja Católica tinha gozado ao longo da

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Carlos Fico, La classe média brésilienne face au régime militaire, Du soutien à la désaffection (1964-1985), Vingtième siècle, 2010
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Carlos Fico, La classe média brésilienne face au régime militaire, Du soutien à la désaffection (1964-1985), Vingtième siècle, 2010
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Carlos Fico, La classe média brésilienne face au régime militaire, Du soutien à la désaffection (1964-1985), Vingtième siècle, 2010

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História. E efectivamente, a sua posição colaboracionista valeu-lhe a distribuição de empregos e de posições privilegiados no governo.

Conclusão e Critica
! No inicio dos anos 1960, as elites económicas e políticas brasileiras empreendem uma campanha de destabilização e conspiração ao regime de João Goulart. Fortemente manipulada e temendo o contágio comunista, a classe média adere em massa a esta campanha. Em 1964, depois do polémico discurso de Jango no Rio de Janeiro, a classe média aliada as Igrejas manifesta-se para a sua destituição. E efectivamente quando os militares tomam o poder pela força a 31 de março do mesmo ano, são organizadas marchas “da vitoria” e celebradas missas em todas as Igrejas do Brasil. Tanto a classe média como a Igreja Católica e Protestante influenciam e apoiam o estabelecimento do regime militar. Apesar de serem dois grupos distintos, observámos que exercem uma pressão um sobre o outro. A posição da classe média em relação ao regime militar influencia o comportamento das Igrejas, que têm de se adaptar para conservar os seus fiéis. E reciprocamente as posições tomadas pela Igreja, manifestam-se nos discursos dos padres, que por sua vez influenciam aos opiniões dos cristãos. Ora, a partir de 1967-1968, diante da radicalização da “linha dura”, ja não se observa a mesma popularidade do regime. Com as denuncias de tortura e censura, as populações não mais apoiam o governo como se pode observar com os movimentos que mobilizaram estudantes e operários, cristãos ou não, em 1968. No que diz respeito às Igrejas, a Instituição Católica acompanha a mobilização social durante o ano mais revolucionário do século XX. Não se pode dizer o mesmo da Instituição Evangélica, em que apesar de uma pequena minoria contestar o regime, a grande maioria dos crentes apoia o regime até 1985. Os pontos comuns e divergências entre os dois textos são portanto bastante óbvios. Ambas a classe média e as Igrejas exercem uma pressão essencial para o estabelecimento do regime militar. A primeira divergência entre os dois grupos observa-se a partir de 1968 em que apesar da contestação da classe média e da Igreja Católica, a Igreja Evangélica se mantém colaboracionista. Da mesma forma, observa-se uma divergência interna na classe média durante o “milagre brasileiro” em que uma parte da população deixa de contestar o regime diante das melhorias económicas significativas. Pensar que se pode analisar os comportamentos de dois grupos tão importantes e tão heterogéneos de uma maneira linear é portanto simplista e isso é mostrado por Carlos Fico e Richard Marin. No entanto, há alguns elementos nos seus artigos que me parecem pouco desenvolvidos. ! Em primeiro lugar, apesar de Carlos Fico descrever o contexto e o desenrolar da destituição de Jango e do estabelecimento da ditadura militar, pouco é dito sobre o carácter populista autoritário de Jango. Segundo Luiz Koshiba, professor de Historia na UNESP e Denise Manzi Frayze Pereira, professora da Escola Nossa Senhora das Graças, o temor da oposição de que Jango poderia instaurar um regime comunista aliando-se aos movimentos populares e sindicalistas, “não era sem fundamento 8”. Diante de uma crise institucional e de legitimidade, não seria de espantar que Jango reforçasse o autoritarismo. Por outro lado, as relações entre Goulart e os militares estavam bastante tensas. Em março de 1964 tinha-se dado um motim composto por cerca de 1200 marinheiros para protestar contra a punição pelo Ministério da Marinha de onze directores da Associação dos Marinheiros e Fuzileiros Navais por motivos disciplinares considerados “autoritários”. E no seu discurso do Rio de Janeiro, Jango teria atacado as criticas dos oficiais. Outro elemento não evocado no texto de Carlos Fico é o facto do descontentamento civil e da classe média a partir dos anos 1967-1968 se dever em grande parte ao facto dos militares terem impedido o acto constitucional liderado por civis como Ulisses Guimarães, que daria ao Congresso o direito de eleger o novo presidente depois do golpe de Estado. E apesar do autor evocar que nas décadas de 1970 e 1980, o descontentamento e a perca do apoio da Igreja Católica e da classe média, se devia maioritariamente ao carácter violento das autoridades publicas, nenhum caso especifico é evocado. Ora, a década de 1980 é marcada por uma série de atentados terroristas pelos militares, indo de incêndios em bancas de jornais que vendiam
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Luiz Koshiba e Denise Manzi Frayze Pereira, Historia do Brasil, Atual Editora, 7° edição, 1999, São Paulo

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publicações consideradas imorais e contestatárias, a sequestros, assassinatos e explosões de bombas. A classe média era directamente tocada por estes ataques e a isso se deve também a sua contestação ao governo. Por outro lado, se as mulheres tiveram um peso importantíssimo para o estabelecimento da ditadura, o seu papel para a democratização foi também essencial como mostra Mateus Gamba Torres, professor em Historia Social na UFRGS no seu artigo “Luta para manter, Luta para romper”. Enfim, no que diz respeito ao artigo de Richard Marin, fica bastante claro que o autor defende que a Igreja Católica se opôs estritamente ao regime a partir dos anos 1970. Ora Dermi Azevedo, jornalista, cientista político e militante durante a ditadura, defende que “embora tenha havido períodos de “distanciamento” entre as duas instituições, sempre houve uma interacção estreita entre a Igreja Católica e o Estado do Brasil, inclusive quando ela actuou como oposição directa e indirecta na fase de democracia9 ”. O jornalista dá aliás o exemplo do bispo Dom Luiz de Máscolo, sequestrado, assassinado e atirado para a Floresta Amazónica, depois de ter sido denunciado por um colega clérigo pelas suas praticas contestatárias. No entanto temos de matizar a tese de Azevedo. Certamente houve colaboração dentro da Igreja Católica, mas é inegável que a maioria da Instituição contestou o regime, pagando por isso um preço humano, social e económico caro.

Bibliografia e Webografia
Em ordem alfabética
Carlos Fico, La classe média brésilienne face au régime militaire, Du soutien à la désaffection (1964-1985), Vingtième siècle, 2010 Ingrid Faria Gianordoli Nascimento, Zeidi Araujo Trindade e Ligia Amâncio, Mulheres brasileiras e militância politica durante a ditadura militar brasileira, Actas dos ateliers do V° Congresso P o r t u g u ê s d e S o c i o l o g i a , d i s p o n í v e l e m h t t p : / / w w w. a p s . p t / c m s / d o c s _ p r v / d o c s / DPR460eb23be09d1_1.pdf consultado sexta-feira 10 de dezembro de 2010 Luiz Koshiba e Denise Manzi Frayze Pereira, Historia do Brasil, Atual Editora, 7° edição, 1999, São Paulo Marcelo Gutierres, A colaboração de alguns agentes religiosos com o Regime militar, 11/06/2002, disponível em http://www.usp.br/agen/repgs/2002/pags/136.htm consultado quinta-feira 9 de dezembro de 2010 Marieta de Moraes Ferreira, 1968 au Brésil, Vingtième Siècle, 2010 Mateus Gamba Torres, Luta para manter, luta para romper: mulheres e a ditadura militar brasileira, disponivel em http://periodicos.incubadora.ufsc.br/index.php/emdebate/article/download/.../489 consultado domingo 12 de dezembro 2010 Richard Marin, Les Eglises et le pouvoir dans le Brésil des militaires, Vingtième Siècle, 2010 Stéphane Boisard, Armelle Enders e Geneviève Verdo, Présentation, Vingtième Siècle, 2010

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Marcelo Gutierres, A colaboração de alguns agentes religiosos com o Regime militar, 11/06/2002, disponível em http://www.usp.br/agen/repgs/2002/pags/136.htm