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  • INTRODUÇÃO
  • I - A HISTÓRIA DESTE TRABALHO1
  • II - NOÇÕES EPISTEMOLÓGICAS DE PAUL FEYERABEND
  • 1. A Ciência como tradição cultural
  • 2. Propaganda, contra-indução e mais
  • 3. Anarquismo epistemológico
  • 4. Incomensurabilidade e interpretações naturais
  • 5. Proliferação de teorias
  • 6. Em defesa da racionalidade científica
  • III - PERSPECTIVAS EDUCACIONAIS
  • 1. Todos devem ser igualmente iniciados na tradição científica?
  • 2. Conhecendo os especialistas
  • 3. Obediência versus Ousadia na formação científica
  • IV - O Problema da (I)mobilidade da terra
  • 1. A Terra se Move?
  • 3. O Argumento da Torre
  • 4. Onde a Pedra cai?
  • 5. Mais argumentos
  • 8. Achatamento na Forma da Terra
  • 9. O pêndulo de Foucault
  • 10. O Princípio de Mach
  • 11. Mecânica Relacional
  • BIBLIOGRAFIA

UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO

INSTITUTO DE FÍSICA E FACULDADE DE EDUCAÇÃO

TRADIÇÃO CULTURAL, CONTRASTE ENTRE TEORIAS E ENSINO DE FÍSICA

Alexandre Custódio Pinto

João Zanetic (Orientador)

Dissertação apresentada ao Instituto de Física e à Faculdade de Educação como parte dos requisitos necessários à obtenção do título de mestre em Ensino de Ciências - Modalidade Física.

Fevereiro de 2003

Ao que vive do meu pai em mim.

RESUMO
Partindo de perspectivas educacionais oriundas da epistemologia de Paul Feyerabend, este trabalho apresenta a educação em ciência concebida como a iniciação em uma tradição cultural. O contraste entre teorias é identificado como um aspecto importante no Ensino de Física, imprescindível em uma abordagem cultural. Compõe ainda o trabalho uma reflexão sobre as possíveis compreensões do papel de especialistas implícitas no ensino de ciências. Um texto subsídio ilustra alguns elementos da abordagem educacional apresentada com o estudo da noção de inércia aplicada ao problema do movimento da Terra.

The confrontation between theories is identified as an important aspect in physics teaching. . The work is still composed of a reflection on the possible comprehension of the role of specialists implicit in science teaching. A text subsidy illustrates some elements of the educational approach presented with the study of the notion of inertia applied to the problem of the movement of the Earth. indispensable in a cultural approaching. this work presents the education in science conceived as a initiation in a cultural tradition.ABSTRACT Starting of educational perspectives derived from Paul Feyrebend´s epistemology.

Ao Ferreira da CTR/CUT pela atenção e valor dado a este trabalho. Estudos e Pesquisas . À Erika e ao Cristian pela mecânica relacional (mecânica 24 horas). pelas críticas e sugestões que muito ampliaram minha compreensão. ao CNPq. Em especial a Simone. . Ao Professores Manoel Robilotta e José Sérgio. À minha esposa Cláudia. Aos Companheiros e Companheiras da Fundação Florestan Fernandes FFF e do Centro de Educação. pelo incentivo. À memória do grande amigo Alexandre Antônio. meu filho Giordano Bruno e a memória de meu pai Onofre. Aos Colegas do corredor. pelo financiamento parcial desta pesquisa. questionamento e respeito às minhas idéias. Paulão e Prado. A todos que foram meus alunos. Aos meus Professores e Colegas do IFUSP. pela minha humanidade.AGRADECIMENTOS Agradeço ao Professor e Amigo João Zanetic. em especial ao grupo de estudos do João. minha mãe Irene. pela Orientação não só na realização deste trabalho.CEEP. Ao Zé e à Cris por estimularem minha forma de escrever. mas na condução da vida. Em especial ao Luizão e ao Villani pela minha formação em mecânica e relatividade. em especial a Moniquinha e a Nádia. E. FEUSP e IQUSP. por compartilharem de uma dupla missão. com quem aprendi mais que ensinei. pela minha formação.

cozinha ilícita.. Toda descoberta da ciência pura é potencialmente subversiva: até a ciência deve. a própria ciência.. Um pouco de ciência verdadeira. Ciência? O Selvagem franziu a testa. de modo que não tem condições de julgar. TRECHO DA OBRA DE FICÇÃO CIENTÍFICA DE ALDOUS HUXLEY ADMIRÁVEL MUNDO NOVO . no meu tempo. bastante bom para compreender que toda a ciência é simplesmente um livro de cozinha. Sim.continuou Mustafá Mond . também o é a ciência.. às vezes. Shakespeare e os velhos do pueblo nunca se haviam referido à ciência..Sim . Ela é perigosa. Mas houve tempo em que eu era apenas um jovem lava-pratos cheio de curiosidade. mas que espécie de ciência? . temos de mantê-la cuidadosamente acorrentada e amordaçada.) E toda a propaganda da ciência que fazemos no colégio. uma coisa que impedia de ter rugas e de perder os dentes. O que significava exatamente.Os senhores não receberam instrução científica. Pus-me a cozinhar um pouco a meu modo. fui um bom físico. Quanto a mim. Fez esforço desesperado para compreender o que o Administrador queria dizer. Cozinha heterodoxa. Sim. e de Linda (sua mãe) ele recebera apenas indicações muito vagas: a ciência era uma coisa com a qual se faziam helicópteros. em suma..perguntou sarcasticamente Mustafá Mond. Bom demais. com uma teoria ortodoxa de arte culinária que ninguém tem o direito de contestar e uma lista de receitas às quais não se deve acrescentar nada. salvo com autorização do cozinheiro-chefe. ser tratada como um inimigo possível.ADMIRÁVEL MUNDO NOVO . Sou eu cozinheiro-chefe agora. uma coisa que fazia com que a gente risse das Danças do Trigo.essa é outra parcela no custo da estabilidade. Conhecia a palavra. Não é somente a arte que é incompatível com a felicidade. ele não o sabia.. (.1932 . . . porém.

O Filosofo trabalhando – foto preferida de Feyerabend .

.........................................................................40 4.......................................22 1..................................53 6..........................................................................................................................17 II ..122 7.....................13 I .....158 BIBLIOGRAFIA......................... A TERRA SE MOVE? ........................................................... TODOS DEVEM SER IGUALMENTE INICIADOS NA TRADIÇÃO CIENTÍFICA?......... O ARGUMENTO DA TORRE..............................................35 3........................................67 1.................. A NOÇÃO DE INÉRCIA ...............................112 4.......................................105 2.. MITOS E LENDAS ........................... A CIÊNCIA COMO TRADIÇÃO CULTURAL .147 11................................................96 IV ....................................................................................119 6.............................................................................................27 2.......... RELIGIÃO......................................PERSPECTIVAS EDUCACIONAIS ....................................................104 1.A HISTÓRIA DESTE TRABALHO ................45 5.................................Sumário INTRODUÇÃO............ A NOÇÃO DE ESPAÇO ABSOLUTO ................... CIÊNCIA.............................................................................. PROPAGANDA............................................................. INCOMENSURABILIDADE E INTERPRETAÇÕES NATURAIS ...............110 3...................................NOÇÕES EPISTEMOLÓGICAS DE PAUL FEYERABEND ............................................................................................................................................................................ MAIS ARGUMENTOS......... O PÊNDULO DE FOUCAULT...82 3.............................. CONHECENDO OS ESPECIALISTAS ............... PROLIFERAÇÃO DE TEORIAS ..................................................... EM DEFESA DA RACIONALIDADE CIENTÍFICA................................................... ONDE A PEDRA CAI? ............131 8.......................... OBEDIÊNCIA VERSUS OUSADIA NA FORMAÇÃO CIENTÍFICA.......149 CONSIDERAÇÕES FINAIS .............. CONTRA-INDUÇÃO E MAIS .......................................139 10................ O PRINCÍPIO DE MACH........................................................ MECÂNICA RELACIONAL........70 2...................161 ................................114 5.............................................60 III .......... ACHATAMENTO NA FORMA DA TERRA ............. ANARQUISMO EPISTEMOLÓGICO ...........................................................O PROBLEMA DA (I)MOBILIDADE DA TERRA............134 9............

por eles serem parte fundamental do trabalho e por permearem todas as análises e discussões realizadas posteriormente. a existência. neste trabalho. Iniciamos o primeiro capítulo com algumas considerações sobre a história deste trabalho. No segundo capítulo. segundo nossa interpretação. Optamos por escrever este capítulo. pretendemos. de procedimentos conflitantes com o método científico de um determinado período histórico. ao invés de possuir um corpo de conhecimentos perfeito e acabado. apresentamos uma descrição. na prática científica. mas. a concepção científico de anarquismo 3). sua relação com o Ensino de Física e suas limitações. dos principais elementos epistemológicos presentes na nossa análise do Ensino de Física: a Ciência. ao invés de apresentarmos estes elementos na introdução. a epistemológico como conhecimento (seção . fornecer elementos para uma reflexão sobre a concepção de Ciência difundida socialmente. fazendo progredir a Ciência baliza (seção do 2). identificar algumas perspectivas educacionais para o Ensino de Física. é apresentada com uma tradição cultural entre outras (seção 1).INTRODUÇÃO A partir de limitações metodológicas do processo de construção do conhecimento científico e do estudo de teorias alternativas presentes na epistemologia de Paul Feyerabend. bem como. Tendo por fundamento as implicações educacionais da epistemologia de Feyerabend apresentamos uma proposta para o Ensino de Física estruturada por conflitos entre teorias. no entanto.

começamos por nos perguntar se todos devem ser rígida e igualmente iniciados na tradição científica durante a formação básica (seção 1).Introdução 14 impossibilidade de redução total entre teorias sucessivas em conseqüência de alguns aspectos incomparáveis em seus conceitos fundamentais e o vínculo destes conceitos às diferentes formas de percepção fenomenológica (seção 4). jovens e adultos) nas tradições culturais. pretendemos esboçar alguns limites da epistemologia de Feyerabend e suas implicações para a análise do Ensino de Física desenvolvida neste trabalho. e. No terceiro capítulo. ainda no capítulo segundo. atentando ao desenvolvimento de uma prática da tolerância e considerando a Ciência como uma tradição cultural dentre outras. elaboramos. a seguir. Com isto. e em decorrência da primeira seção. Se consideradas fora de um amplo contexto. algumas das noções epistemológicas de Feyerabend apresentar-se-ão inconsistentes ou até mesmo contrárias a uma "verdadeira" descrição da prática científica. passamos a discutir as lições epistemológicas aprendidas com o estudo das concepções sobre a Ciência expressas no capítulo anterior e suas conseqüências para a educação: concebendo a educação escolar como um processo de iniciação de pessoas (crianças. deslocando a discussão para o nível superior de Ensino. indicamos alguns elementos para a reflexão sobre o Ensino de Ciências no nível básico apoiados na prática da (transform)ação social por professores e alunos frente aos peritos ou especialistas de diferentes tradições culturais (seção 2). contendo algumas críticas às idéias de Feyerabend. a interação entre teorias alternativas e aquelas estabelecidas por diferentes grupos de pesquisa (seção 5). Atentos a este problema. por fim. justificamos porque mesmo os aspirantes a físicos (ou a professores de . a seção 6: Em defesa da racionalidade científica.

uma variedade de modelos epistemológicos e. como uma introdução à leitura de Paul Feyerabend. permitindo-lhes ampliar suas concepções da Ciência e refletir sobre as conseqüentes implicações educacionais aqui apresentadas. principalmente. - aos pesquisadores da Ciência e do seu Ensino. seguir seus métodos e procedimentos. por meio da problematização da noção de inércia. buscar sua racionalidade e . exemplificando uma abordagem do Ensino de Física apoiada em contrastes. participar da prática de diferentes grupos de pesquisa (seção 3). e. como reflexões sobre suas próprias pesquisas. - aos professores e estudantes da Física em geral.Introdução 15 Física) devem conviver com diferentes visões de mundo. Auxiliando-os no desafio de estudar a Física. possibilitando-lhes um primeiro passo na direção de explorar e reconhecer os limites de seus trabalhos de investigação como pertencentes a uma determinada tradição de pesquisa. Como subsídio para a utilização e aprofundamento de nosso trabalho em situações de Ensino elaboramos um texto didático sobre a noção de Inércia tratando especificamente do problema do movimento da Terra (capítulo IV). Nosso trabalho pode contribuir: - aos professores de Física.

ao mesmo tempo.Introdução 16 objetividade. estar atento aos seus aspectos humanos e à coexistência de teorias e modelos alternativos que possibilitam explicitar os limites do conhecimento e flexibilizar suas verdades. e. .

de onde talvez venha minha inspiração para as "exatas". minha interação com ele não se dava no âmbito do discurso. Nasci de uma família pobre. com o jogo. ele sempre incentivou meus estudos. frente ao "aprendizado" da Ciência.I . sem o seu esforço e sacrifício eu não poderia estar escrevendo hoje estas palavras. na ocasião. e a segunda vem de minha atividade como professor de Física com uma postura intolerante. . Minas Gerais. nunca foi à escola e fico admirado com o modo como conseguia sobreviver aos "tempos modernos". meus avós eram trabalhadores rurais e meus pais vieram para a cidade com o intuito de sobreviver às transformações sociais de sua época. juntos ganhávamos dinheiro em apostas. quase não conversávamos. descrevo inicialmente duas experiências de vida fundamentais para justificar a origem e a natureza deste trabalho.A HISTÓRIA DESTE TRABALHO1 Com o intuito de permitir uma maior compreensão do conteúdo dos capítulos seguintes. desde os meus quatro anos de idade jogávamos dominó e. A primeira experiência ocorreu nos primeiros anos da minha graduação na licenciatura em Física entre 1994 e 1997. A primeira refere-se a uma crise vivida por mim (ACP) enquanto estudante de Física em minha relação pessoal com o que acreditava ser o "verdadeiro" significado do conhecimento científico. mas fazíamos muitas coisas juntos. ele 1 Em primeira pessoa. possuía uma incrível habilidade de efetuar operações matemáticas fundamentais "de cabeça" e uma surpreendente capacidade de fazer previsões em jogos de dominó. Meu pai. natural do município de Ubá.

Em 1994 ingressei no curso de licenciatura em Física na Universidade de São Paulo e no mesmo ano passei a freqüentar uma instituição "religiosa" denominada Movimento Gnóstico. por sua religiosidade e incansável busca da "verdade". estudou até a quarta série do primário. Até hoje meu irmão ainda ganha muito mais dinheiro nesta área do que eu em Ensino. e principalmente as idéias da Teoria da Relatividade. paradoxalmente. e. Ela me forneceu.A história deste trabalho 18 morreu prematuramente em 1997. entre outras. inclusive para a "realidade" do mundo físico. O avanço no estudo em Física. e possui técnicas e métodos próprios de investigação da "realidade" do conhecimento. causou em mim um profundo conflito entre estas duas formas de enxergar o mundo. na época. . sempre questionou meus estudos. Isso me levou diversas vezes a pensar em abandonar a Física. ou Gnose. Em sua vida passou por diferentes igrejas e eu sempre a acompanhei. deixando uma vida em que a Física não existia.ela dizia. Talvez guiada por um instinto de proteção. Mas ela é responsável pela segunda componente do conflito aqui descrito. Foi contra minha atitude de abandonar o emprego como eletricista industrial para estudar Física. Minha mãe. Essa instituição fundamenta seus estudos em fragmentos filosóficos de antigas tradições como a alquimia e elementos da cultura oriental.Bahia. reclamava quando eu ficava muitas horas lendo . um "modelo" muito interessante de "verdade". inclusive orgânico. O desacordo entre a Física e a Gnose gerava um mal estar. de onde talvez venha minha postura tolerante para com as diversas concepções culturais e religiosas. natural de Itabuna .você vai ficar louco .

pondo fim ao que na época consistia. Precisava convencê-la de que estudar Física e seu Ensino me traria um futuro promissor. de Feyerabend. no início. dois segundos e dois terceiros. e 12 aulas de matemática para as antigas sexta e sétima séries. e. Nesse ano comecei a participar de um projeto de iniciação científica2 com o meu atual orientador (JZ). Passei a gostar muito mais da Física e a apreciar com maior respeito seus princípios. para mim. dava . a maioria de vestibulares. O estudo de Feyerabend trouxe paz e tranqüilidade para minha vida como estudante de Física e foi um elemento fundamental para que eu não desistisse dos estudos da Física e de me tornar um de seus professores. Foram os três anos mais angustiantes de minha vida. guiava minha prática na imitação de meus antigos professores do segundo grau. não deixando os alunos "interromperem" e "atrapalhar" o Ensino. funcionou como um remédio me libertando da busca da "verdade". presente na epistemologia de Feyerabend. realizávamos encontros semanais para debater a leitura de livros sobre a História e a Filosofia da Ciência. falava a aula inteira. O segundo evento desenrolou-se em minha atuação como professor. As aulas eram "tradicionais". Em meu primeiro ano tinha 24 horas/aula por semana: 12 aulas de Física para dois primeiros anos. elaborava longas listas de exercícios. métodos e equações. A visão de Ciência.A história deste trabalho 19 Creio que só não o fiz por causa de minha mãe. Comecei a ensinar Física a partir do meu segundo ano de licenciatura e. Minha primeira participação foi no estudo do livro Contra o método. dentre outras atividades. O problema só se revolveu em 1997 quando nasce uma das principais inspirações para este trabalho. quase uma doença gerada pelo conflito entre a Física e a Gnose.

além de enormes listas para casa chegando até a elaborar um trabalho de matemática para as "férias" com mais de 100 exercícios de álgebra para os alunos da sexta e sétima séries. Há alguns meses o encontrei. Parece existir um "consenso" social. e. segundo o qual aprender matemática é um inevitável sacrifício ao qual todos devem se submeter. ao sair de uma estação do metrô. No ano seguinte R não voltou mais à escola. na época. Nunca mais fui o mesmo.. Receio que. PIBIC/CNPq . Dentre os alunos reprovados. ou melhor. como o pior aluno. ele rapidamente abaixou a cabeça. "trabalhando" como trocador de passes de ônibus. através de minha prática. tive de reconsiderar alguns casos. tentei reprovar a maioria. Daqueles que conseguiram sobreviver até o final do ano. mas pareciam conformados de sua importância. Certamente ele desistiu dos estudos por causa de minhas aulas. "Para que serve a física?". Mas. ainda era possível reprovar um grande número de alunos e eu o fiz.. não prestar atenção na aula. ao me ver. desrespeitar minha autoridade de professor ou copiar os trabalhos dos colegas. superior às opiniões individuais. Tentei caminhar em sua direção.A história deste trabalho 20 uma prova por semana. aquilo dito. ser ela. as "minhas 2 É possível levar a Física Quântica para o segundo grau? Com bolsa de iniciação científica. por interromper as aulas com perguntas "depreciativas" tais como: "Por que preciso aprender isso?". mas. Quanto à matemática eles também a detestavam. Acreditava que os alunos só aprenderiam por meio do esforço e do cansaço. pressionado pelo "conselho de classe". principalmente. como quem vê um fantasma. Quase todos os meus alunos detestavam e repudiavam a Física. mas. não só por entregar quase todas as provas em branco. "Qual o sentido desta aula?". da minha matemática. Naquela época. fugiu escondendo-se na multidão. um especial (R) era considerado por mim.

mas só assim podemos visualizá-los e compreendê-los um pouco melhor. tornando-os mais flexíveis e tolerantes com aqueles que não "conseguem" ou que verdadeiramente não "desejam" olhar para o mundo por uma "realidade suprema" . São estas as duas principais experiências da relação entre minha vida e o saber da Física no encontro com as idéias de Feyerabend. São exatamente alguns dos resultados dessa minha busca os constituintes dos capítulos seguintes e às vezes. contribuíram para uma revisão dos limites de minha concepção da Física e principalmente de seu Ensino. As idéias de Feyerabend.A história deste trabalho 21 Ciências" tenham contribuído para a destruição de sua vida. A Física. uma como estudante e outra como professor. a matemática e qualquer outra elaboração da mente humana devem ser ensinadas como tais e a vida e o desejo das pessoas devem ser respeitados acima de quaisquer "postulados algorítmicos" ou "resultados de pesquisas experimentais". . seus "efeitos" foram intencionalmente "exagerados". E só não abandonei a missão de professor por assumir o "projeto socrático" aprendido com Feyerabend de mostrar aos professores a existência de limites nos métodos da Ciência. como nos exercícios de Física. associadas a outras.a da Física. que devem ser consideradas na leitura dos capítulos seguintes.

1 Paul Karl Feyerabend (1924-1994).. a física Grazia Borrini.) Isto é o que eu gostaria que acontecesse.II . em um hospital. FEYERABEND. ele lembra 1 As últimas palavras escritas por Feyerabend. mas amor. estudou Filosofia em Cambridge. ampliando significativamente os exemplos de limites da abordagem científica em sua "filosofia". em 1947. um dos mais famosos filósofos da Ciência. Da formação de Feyerabend destacamos o contato com a filosofia de Ernst Mach. não declarações finais. . p. 197. Cf.NOÇÕES EPISTEMOLÓGICAS DE PAUL FEYERABEND Estes devem ser os últimos dias. recebeu o título de doutor honoris causa em Letras e Humanidades pela Universidade de Chicago. São devidos a Grazia também os elementos de astrologia. p. a sobrevivência não intelectual. especializou-se em teatro tornando-se assistente de Bertolt Brecht. Ao casar-se com Grazia. Sobre seu convívio com Ehrenhaft. Matando o tempo. quando era estudante em Viena. (. mas do amor. orientado por Karl Popper. não escritos. vodu e medicina alternativa presentes em seu livro Adeus à Razão. ao lado de sua esposa. Minha última paralisia veio de algum sangramento dentro do cérebro.. e. praticou canto com Adolf Vogel. 369. em Física. e a influência de professores de personalidade forte como Hans Thirring e Felix Ehrenhaft. um destacado pensador austríaco: pesquisou eletrodinâmica clássica na Universidade de Viena onde obteve seu doutorado em Física. Eu queria que depois de minha partida ficassem algumas coisas minhas. Paul K. Feyerabend casou-se também com a noção de "tradições históricas". e Adeus à Razão. quando ainda muito jovem. Nós os sorvemos um por um.

Começava depois um ataque cerrado contra os princípios da teoria eletromagnética e especialmente contra a equação div B = 0. 348.e assim por diante. Voltaremos a considerar essa influência ao explicar a concepção "anarquista" de Feyerabend sobre o processo de construção do conhecimento científico na seção 3 deste capítulo. Contra o Método. Esse pode ter sido um dos motivos a levá-lo a uma postura anarquista3 frente aos métodos da Ciência.2 Feyerabend cresceu ao lado de importantes cientistas notando que seus trabalhos se sustentavam por si mesmos. Mas ele ia mais longe e criticava igualmente os fundamentos da Física Clássica. A este respeito a atitude de Ehrenhaft estava muito próxima da de Stark e Lenard. . Cada demonstração era acompanhada por algumas observações delicadamente irônicas sobre a "Física Escolar" e sobre os "teóricos" que constroem castelos no ar sem levar em conta as experiências que Ehrenhaft improvisava e continuava a improvisar em todos os campos e que produziam uma pletora de resultados inexplicáveis. 2 3 Paul K. que citou mais de uma vez aprovadoramente. Como professor inspirou sua prática pedagógica nas aulas de Karl Popper ao deixar que os estudantes apresentassem seminários sobre temas livres. não necessitando de legitimações externas. A primeira coisa a pôr de parte era a lei da inércia: era de supor que os objetos que não sofressem interferências em vez de seguirem uma linha reta se moviam em hélice. FEYERABEND.. Em seguida eram demonstradas propriedades novas e surpreendentes da luz .. A relatividade e a teoria quântica eram rejeitadas à partida como especulações quase evidentemente ociosas. não era pouco o que tínhamos que engolir.Noções epistemológicas de Paul Feyerabend 23 . conviveu em toda sua vida de estudante com visões antagônicas da realidade apoiadas na Física. p.

com toneladas de bibliografia distribuída de antemão". p. percebeu a situação. reflexos da presunção de um grupo pequeno que conseguira escravizar toda a gente com as suas idéias. Matando o tempo. FEYERABEND.Noções epistemológicas de Paul Feyerabend 24 Qualquer assunto era possível desde que fosse exposto com clareza e tivesse consistência. Esses novos alunos sentavam-se. em parte simplesmente confusos.) Seriam sofisticações sem interesse que os filósofos haviam conseguido acumular ao longo dos anos e que os liberais tinham rodeado de frases cheias de sentimentalismo para serem agradáveis. . em conseqüência de novas políticas educativas. Adeus à razão. Ele adotou uma perspectiva diferente: Compreendi então que os argumentos complicados e as histórias maravilhosas que havia contado à minha assistência mais ou menos sofisticada. FEYERABEND. 99. Quem era eu para dizer a estas pessoas o que e como pensar? (. poderiam não passar de sonhos. Para o professor Feyerabend esse procedimento "é certamente melhor que o método de se concentrar num tópico fixo. negros. Que oportunidade para um profeta em busca de seguidores! Que oportunidade. em parte desdenhosos.. disseram-me os meus amigos racionalistas.4 De suas experiências didáticas Feyerabend sofreu grande influência quando. o 4 5 Paul K. mexicanos e índios entraram na universidade. em parte curiosos. Paul K. 368. p. de contribuir para a difusão da razão e do progresso da humanidade! Que maravilhosa oportunidade de uma nova onda de esclarecimento!5 Contudo o mais importante é o modo como Feyerabend. esperando receber "educação".. diferentemente de seus colegas.

Neste sentido. perante a segurança arrogante com que certos intelectuais interferem na existência das pessoas. p.era a de um condutor de escravos muito requintado e muito sofisticado. FEYERABEND.tornou-se-me agora bastante clara .para provocar Lakatos que morreu antes de poder responder . da sua cultura. Quanto a essa missão . Contra o Método .criticando as análises da natureza da Ciência usualmente propostas.Noções epistemológicas de Paul Feyerabend 25 mais indicado para oferecer às pessoas que haviam sido despojadas da sua terra.. da sua dignidade e que se esperava que fossem agora absorver pacientemente e repetir depois as idéias anêmicas dos porta-vozes dos captores tão humanos? (. O ponto de vista subjacente à sua obra não resulta de uma operação do pensamento solidamente planejada. e o desprezo pelo fracasso melífluo de que se servem para embelezar as 6 Paul K. . 368. as exceções e principalmente o dogmatismo de alguns seguidores destas propostas metodológicas. Adeus à razão.6 Como Filósofo. ele não desenvolveu uma metodologia da pesquisa científica.. mas de argumentos descobertos ao fio de encontros ocasionais. mas procurou apontar as limitações. E isso eu não queria ser. principalmente quando se referem à exclusão das características humanas do fazer científico. Feyerabend escreveu sua mais importante obra. A ira perante a destruição insensata de realizações culturais com as quais muito poderíamos ter aprendido.) Foram estas as idéias que me vieram à mente ao olhar a minha assistência e me fizeram ter uma revulsão e recuar de terror em face da missão que devia efetuar.

FEYERABEND.Noções epistemológicas de Paul Feyerabend 26 suas malfeitorias foram e continuam a ser a força que me moveu neste livro". p. 343. alguns elementos de sua epistemologia. 7 Paul K. Contra o Método. na seção seguinte. .7 Impulsionados por essa mesma força e tendo em mente essas experiências da vida de Feyerabend passamos a discutir.

Adeus à razão. bases do saber científico. 39. mudança científica. A não validade dessa suposição ingênua é um dos pontos de consenso entre os modernos filósofos da Ciência. ao questionar o uso do método indutivo na ciência.mostra que a Ciência não Paul K. suficiente e inequívoca para escolhas sem ambigüidade entre hipóteses divergentes. p. reconhecido por desenvolver uma nova lógica para a investigação científica. Com essa crítica.2 Ainda no século XVIII. isto é. As pessoas podem consultá-lo.um dos mais importantes filósofos da Ciência. 3 Hume. crêem que o conhecimento científico é verdadeiro por comprovação metodológica.1 À margem da Filosofia. porém. FEYERABEND. sem apelo direto à experiência. A Ciência como tradição cultural a "ciência" ortodoxa é uma instituição entre muitas. e não o único repositório de informação válida. os resultados das observações e dos experimentos geram uma base verdadeira.1. David Hume abalou de forma irreparável a certeza do conhecimento científico ao analisar o problema da indução3. colocando em dúvida as relações de causalidade. queria dizer que podemos argumentar sobre a probabilidade de que algo venha a suceder novamente no futuro como vinha acontecendo no passado. cientistas e historiadores. 2 1 . Este equívoco apóia-se na falsa suposição de que os dados científicos. professores. ou seja. podem aceitá-lo e utilizar sugestões científicas . de fundamental importância histórica por permitir uma "solução" para o problema de Hume . Larry LAUDAN e outros. Hume criou dificuldades para o pensamento racional do século XVIII instaurando o ceticismo. p. Popper .mas não sem que antes tenham sido consideradas as alternativas locais e muito menos ainda como algo que se espera já. não podemos provar logicamente. Cf. 20. muitas pessoas. dentre elas. que essa forma de proceder seja válida.

Para ele o saber científico não é. ou a mais importante fonte de conhecimentos válidos na solução de problemas da vida humana e na investigação ou explicação dos fenômenos da natureza. Baseia-se em conjecturas comprováveis. mas sim construções humanas. na melhor das hipóteses. É revisável. precisamente. em qualquer caso. que é o objeto de estudo dessa seção. uma teoria científica não pode ser colhida diretamente de dados observacionais ou experimentais. a Ciência ortodoxa é considerada por ele como uma instituição do saber entre muitas. Em seu conjunto. Esta concepção está de acordo com a visão de que as teorias científicas não são frutos da natureza.A ciência como tradição cultural 28 corresponde a uma verdade final e absoluta. ou seja. as teorias constituiriam a Ciência que deveria ser considerada apenas como uma dentre muitas tradições culturais. um saber seguro. Neste sentido. e não como a única. . em conjecturas muito rigorosamente comprováveis. Tolerancia y responsabilidad intelectual. mas antes a um conjunto de conhecimentos sempre provisórios. É sempre um saber hipotético. Uma solução bastante polêmica adotada por Feyerabend. 151. de certo modo vai na contra-mão desta tendência consiste em abrir mão da superioridade científica frente às outras formas de resolução de problemas tradicionalmente estabelecidas.4 Diversos modernos filósofos da Ciência abordaram o problema de pontos de vista diferentes e construíram sofisticados sistemas lógicos ou sociológicos para tentar recuperar a supremacia racional do saber científico. um saber conjectural. mas. Não existiriam razões objetivas e absolutas para preferir a ciência e o racionalismo 4 Karl POPPER. p. sempre só em conjecturas.

mudança científica. e em seu lugar. não possuímos um quadro geral bem confirmado de como a Ciência funciona. que agora se encontra efetivamente refutada. FEYERABEND. Paul K. 6 A concepção feyerabendiana da Ciência como uma tradição cultural não difere da prática científica como ela é hoje exercida nas instituições de pesquisa e Ensino de Ciências. . valores estes mutáveis no decorrer da história e de significação diversa em diferentes culturas. Tivemos. propõe que a maneira como os problemas científicos são abordados e resolvidos depende das circunstâncias em que surgem. o positivismo ou empirismo lógico. Com isso. uma posição filosófica bem desenvolvida e historicamente influente. a Ciência é "posta em seu lugar como uma forma interessante. Adeus à razão. certa vez. a saber. os meios (formais. Sua compreensão faz notar a Ciência livre de influências externas como a de uma lógica soberana. p. 354. experimentais. pois mesmo para os outros modernos filósofos da Ciência.5 Feyerabend critica também a idéia do conhecimento científico ser obtido independentemente de vontades pessoais e circunstâncias culturais. p. mas de modo algum exclusiva de 5 6 Larry LAUDAN e outros. 7. Não existem condições duradouras que limitem a investigação científica. ideológicos) disponíveis na altura e os desejos daqueles que com eles trabalham. de uma verdade absoluta ou da racionalidade suprema.A ciência como tradição cultural 29 ocidental a outras tradições humanas. nem uma teoria da Ciência que mereça assentimento geral.

mas que também provocaram em outros povos muitas mazelas. estamos ressaltando não a Ciência em si como a vilã nos conflitos entre os povos. os malefícios de sua utilização para o fortalecimento da imposição ideológica/cultural/comercial/tecnológica pelos detentores da produção científica. da tecnologia e do progresso. inundações. no caso da Segunda Guerra e na Guerra Fria que a sucedeu. apoiado nos estudos de Lévi-Strauss. em nome da Ciência. exploravam o seu meio envolvente sem o 7 8 Paul K. são inegáveis. Quanto ao trabalho de extensão da Ciência. Por exemplo. mas também de muitos inconvenientes". não podemos ignorar a anterior existência de povos "primitivos" desprovidos de um aparato equivalente à Ciência. .A ciência como tradição cultural 30 conhecimento. FEYERABEND. com irreparáveis prejuízos materiais. secas . Assim. No entanto. mas o uso que se faz dela como elemento de validação da "verdade" a ser difundida. Lembramos aqui que a ciência não é em si só a causa de mazelas sociais. Contra o Método. como por exemplo. com a destruição dos valores espirituais que davam significado às vidas humanas até esferas antropológicas. Feyerabend faz notar sobre as tribos "primitivas" sabiam como fazer face às catástrofes naturais como pragas. 214.possuíam um "sistema imunológico" que lhes permitia superar uma enorme variedade de ameaças do organismo social. p. ou melhor. levaram quase ao extermínio. possuidora de muitas vantagens.7 A existência de possíveis "efeitos colaterais" da apropriação indevida do progresso científico. Em épocas normais. mas fornece instrumentos que permitem ampliar vertiginosamente o poder de destruição humano. sem levar em conta as tradições culturais dos "selvagens".8 Afetaram desde esferas mais psicológicas. nações e culturas. o desprezo do saber das tradições milenares de tribos e povos "primitivos" cuja interferência.

Eram tais abordagens heresias profanas? Os cientistas por certo não pensaram sempre deste modo. profissionais do campo do ambiente e desenvolvimento aprenderam e ainda aprendem de populações locais. Feyerabend foi. FEYERABEND. não uma razão para a. Apesar do crescente reconhecimento da Ciência se beneficiar da interação com outras tradições culturais. Estes conhecimentos foram gravemente afetados e parcialmente destruídos. p. mudanças climáticas e interações ecológicas que estamos a recuperar muito lentamente. enquanto os antropólogos descobrem que a abordagem objetiva que 9 Paul K. por esse mesmo motivo. Darwin prestou atenção nos criadores de animais e naturalistas. Descartes. A conseqüente incapacidade de grande parte do chamado Terceiro Mundo é o resultado da. Adeus à razão. . Newton. 9 Por outro lado. 1987). tachado de "o pior inimigo da Ciência" (Nature. a concepção da Ciência como tradição cultural e o conseqüente respeito às outras tradições podem trazer grandes contribuições com as quais não só os cientistas mas toda a humanidade podem se beneficiar. Como exemplo mencionamos os contributos de tradições resistentes ao efeitos colaterais da racionalização científica ortodoxa como a arte do período paleolítico e a eficácia de sistemas médicos não ocidentais. Thomson. interferência do exterior. aplicando os conhecimentos de propriedades de plantas. Joule. primeiro pelos gangsters do colonialismo e depois pelos humanitários do auxílio para o desenvolvimento. 346.A ciência como tradição cultural 31 danificar. Por quê? Porque eu dizia que abordagens não ligadas a instituições científicas podiam ter algum valor. Whewell deram razões religiosas para algumas de suas suposições mais básicas.

essa é a essência de seu caráter de tradição cultural. 154. como a Ciência. A sociedade contemporânea parece simplificar e conviver tranqüilamente com grandes problemas e conflitos da vida e do mundo contemporâneos. dentro de um amplo contexto histórico e cultural11. a Química ou a Biologia. A Ciência consiste em um modo diferente de conhecer o universo e os fenômenos naturais. cozinhamos com o microondas.10 Ao considerar a Ciência como uma tradição cultural Feyerabend não está dando às outras tradições o caráter de "científicas" ou "racionais" mas. como a Física. como qualquer outra tradição. p.A ciência como tradição cultural 32 eles seguiam como óbvia lhes fornecia caricaturas . Matando o tempo. as Ciências. Difundir a concepção de Ciência como uma tradição cultural. pode facilitar o rompimento do atual distanciamento e descomprometimento da maior parte da sociedade frente às questões da Ciência. ou da estruturação ou modelagem matemática e. ao contrário. Falamos da Ciência do "Outro" e quase nunca da "Nossa" Ciência. dentre as outras tradições já intimamente incorporadas na vida das pessoas. inclusive aqueles advindos de conhecimentos mais elaborados.e assim por diante. não estão livres do compromisso com a descrição dos fenômenos naturais. ou da utilização de procedimentos metodológicos. estão dispensadas da crítica conceitual. FEYERABEND. está mostrando a Ciência. nem tão pouco. Enfatizamos a idéia de Ciência como uma tradição cultural corresponder a uma descrição da prática científica como ela é hoje exercida nos grandes centros de pesquisa. submetemo-nos a exames por meio de tomografias 10 Paul K. .

também contribuiu para um "potencial bem estar" da humanidade... da construção desse conhecimento. das revistas de divulgação. de sua real serventia. envolvimento e responsabilidade com essa tradição humana. 12 Voltaremos a esta questão ao discutir a função dos peritos e especialistas na sociedade contemporânea. paradoxalmente não "digerimos" o microondas. Aceitamos. da nossa participação. é disseminar a idéia de que apesar de estarmos longe do objetivo de "aliviar a canseira da existência humana"13 a tradição científica. ao conceber a Física como uma tradição cultural. muitas vezes. dos livros. dos jornais. é difundir exemplos da relação entre a Ciência e o poder. da vida das pessoas. Esse e outros equívocos serão discutidos na seção final deste capítulo. das possíveis implicações éticas de sua utilização. A responsabilidade social do cientista deve ser problematizada em um complexo contexto sócio-econômico-cultural bastante amplo. assim como outras tradições sobreviventes no mundo contemporâneo. . Ela se relaciona com muitas outras instituições sociais. mas estamos cada vez mais afastados dos fundamentos científicos. esses produtos tecnológicos como "milagres" que só aos "santos" é permitido compreender. não "examinamos" o tomógrafo nem nos "comunicamos" com o computador. da mídia. 11 Esse é um dos principais equívocos das críticas à concepção de ciência como tradição defendida por Feyerabend. na segunda seção do próximo capítulo. pg. e nos comunicamos por meio do microcomputador. 165. de Bertolt Brecht. A Ciência é uma instituição social.12 Faz-se necessário. 13 Trecho de uma fala de Galileu na peça "Vida de Galileu". Atuar contra uma mistificação do poder da "Ciência do Outro". incorporar a essa maneira de olhar o mundo suas reais dimensões hoje ausentes das escolas. Assim.A ciência como tradição cultural 33 computadorizadas ou ressonância nuclear magnética.

impõe a presença de dúvidas. .A ciência como tradição cultural 34 Enfim.. mas como uma elaboração proveniente dos físicos. de mitos e princípios "inquestionáveis". que são humanos antes de serem cientistas. implica em reconhecer a presença de crenças. corresponde a apropriar-se do conhecimento científico. incertezas. nos conceitos fundamentais da formulação das teorias científicas. biólogos. muitas vezes implícitos. erros e outros atributos humanos na prática científica. químicos. significa compreender a existência de rupturas conceituais e de mudanças na prática científica.. considerar a Ciência como uma tradição cultural entre muitas permite enxergar o conhecimento e a produção científica como frutos de um processo dinâmico da construção humana.. não como algo absoluto e inquestionável dado pela natureza.

nesta seção. segundo essa sua tese. Contra o Método. pretendemos problematizar a não existência de uma unidade definida rigidamente como Ciência. a analisar a prática científica de um ponto de vista mais internalista.2. isto é. E como principais conseqüências: . ou atualmente.1 Na seção anterior. Buscamos explicitar a existência de procedimentos metodológicos e ideológicos conflitantes. Propaganda. operações e resultados que constituem as ciências não têm uma estrutura comum. seja no decorrer da história. Em seu mais famoso livro. não há elementos que se verifiquem em todas as investigações e só nelas. analisamos as relações da Ciência com outras instituições do saber procurando mostrar a inexistência de razões objetivas e absolutas que justifiquem uma superioridade do saber científico sobre as outras maneiras de solucionar problemas e de dar respostas às inquietudes da mente humana. Passamos. ou seja. agora. contra-indução e mais Os fatos. não possuem um conjunto de elementos capazes de as definirem inequivocamente. Feyerabend apresenta como tese principal uma crítica à existência de uma estrutura comum para toda a prática cientifica constituída seja por fatos históricos. As investigações científicas. em certos momentos. entre os diversos grupos de pesquisa científica. operações metodológicas ou resultados experimentais. apresentamos a natureza cultural da Ciência principalmente por uma perspectiva externalista. indispensáveis para o processo da Ciência.

p. Contra o Método. p. no capítulo 2 de Contra o Método. (+2) eliminar hipóteses que não se ajustem a fatos bem estabelecidos. mas também de uma análise abstrata da relação entre idéia e ação. REGNER. 3 Para mostrar os limites da utilização de regras metodológicas desta natureza e verificar a possibilidade de fazer avançar a Ciência agindo em oposição ao "método científico". a ilusão da correspondência entre o saber científico e uma verdade absoluta deve-se à crença. Isso só seria possível se houvessem modos de proceder que pudéssemos extrair das situações particulares da investigação e cuja presença fosse de molde a garantir o sucesso. Cf. K. na existência do que poderíamos identificar como "o método cientifico". FEYERABEND. Feyerabend. Contra o Método. [e] . 235. As duas principais regras metodológicas de "o método científico".o sucesso da "ciência" não pode ser usado como argumento para a abordagem de problemas ainda por resolver de acordo com um modelo-padrão. p. em uma versão contemporânea. contra-indução e mais 36 os êxitos científicos não podem ser explicados de maneira simples. . 11. a partir do estudo de acontecimentos históricos. Anna C. 3 Cf.2 Como já mencionamos.. P. 12. de muitos.... FEYERABEND. propõe. a título de exemplo. 1 2 Paul K.Propaganda. as contraregras: (-1) introduzir hipóteses que conflitem com teorias confirmadas ou corroboradas. Paul K. Feyerabend e o pluralismo metodológico. que se mantêm ligadas às suas raízes no empirismo e no indutivismo são: (+1) só aceitar hipóteses que se ajustem a teorias confirmadas ou corroboradas. e.

P. sobretudo pela propaganda de seus defensores. K. não podem ser simplesmente incorporadas ao "método científico". apoiando seu fazer científico em regras de natureza contra-indutiva. Galileu seguiu por um caminho contrário "ao método científico" estabelecido em sua época. Feyerabend e o pluralismo metodológico.Propaganda. p.4 Nesse estudo. contra-indução e mais 37 (-2) introduzir hipóteses que não se ajustem a fatos bem estabelecidos. Feyerabend fundamenta as idéias na História da Ciência analisando o modo como Galileu divulga a doutrina copernicana e a maneira como cria uma nova Física de contribuição fundamental para o avanço do conhecimento científico. exemplos de limites metodológicos da prática científica. As contra-regras são apenas. REGNER. . ou testáveis. mas. ou seja. e tão somente. A utilização de regras contra-indutivas associadas às regras indutivas não garante o avanço da Ciência e elas também não constituem um padrão metodológico absoluto. A propaganda presente na proposição de uma teoria aspirante à tradição científica não deve ser concebida (em quase todos os casos) em seus aspectos 4 Anna C. A propaganda depõe contra a noção de uma ciência absoluta e racionalmente construída. A utilização de propaganda na conquista de adeptos às novas teorias científicas é um outro elemento analisado por Feyerabend. 237. De sua perspectiva. Novas teorias conquistam seguidores e passam a fazer parte da tradição científica não por serem testadas. ou apoiadas de modo melhor que as antigas rivais.

5 Paul K. . teológicos e outros fatores não científicos desempenham um importante papel na avaliação de teorias científicas. A avaliação é mais do que uma simples questão de relacionar a teoria com a evidência. contra-indução e mais 38 nocivos. ou seja. Contra o Método. Segundo Laudan. como em algumas maquiavélicas estratégias de merchandising. uma só Ciência. segundo Feyerabend. acrescentamos agora a idéia de não existir uma unidade. Mas a propaganda deste tipo não é um aspecto marginal acompanhando meios supostamente mais substanciais de defesa. não podem se libertar das crenças não científicas a que são submetidos durante sua formação. p.5 Além de pecadores por contrariarem "o método científico" e de oportunistas por utilizarem propagandas para convencer os oponentes de suas idéais. e devendo talvez ser evitada por "cientistas profissionais honestos".Propaganda. os cientistas.e que por certo foi propaganda. Nas circunstâncias que estamos a considerar. FEYERABEND. não são neutros culturalmente. Dessa forma os escritos de Galileu constituem uma obra que com freqüência esteve associada à propaganda . também há consenso entre os modernos filósofos da Ciência ao admitirem que fatores metafísicos.6 Além de sugerirmos conceber a Ciência como uma tradição cultural dentre outras. a propaganda faz parte da essência das coisas. no que se refere às influências culturais sobre as escolhas científicas. 159.

e mesmo o desejo individual de cada integrante do grupo de ser reconhecido por seus pares em um sempre pequeno-grande feito. e assim.. 6 Larry LAUDAN e outros. mudança científica. para alimentar novos grupos de pesquisa. violando inconscientemente "o método científico". a exposição às propagandas e promessas de novas teorias ou procedimentos experimentais.Propaganda.. contra-indução e mais 39 uma só Física ou uma só Química. 20. desenvolver novas teorias ou procedimentos experimentais. suas teorias e prescrições metodológicas: a Ciência como Tradição Cultural. Dentre estes elementos destacamos: a compatibilidade com crenças metafísicas culturalmente compartilhadas. manter a tradição. que poderíamos chamar rigorosamente de "a tradição científica". Cada grupo atua em pesquisas envolvendo o conhecimento científico enraizado em seu fazer por elementos culturais que influenciam suas escolhas entre teorias ou procedimentos metodológicos disponíveis. mas diversos grupos de pesquisa formando distintas tradições científicas. . O reconhecimento desses elementos na prática científica leva a uma nova e frutífera maneira de olhar para o conhecimento científico. e às vezes o de. p.

Ele nos faz notar que o epistemólogo. por 1 Paul K. Einstein. critica os esforços dos filósofos "racionais" e "sistemáticos" apresentando o fazer científico independente de regras fixas ou metodologias rígidas.3.: as condições exteriores que lhe são impostas pelos fatos da experiência não lhe permitem deixar-se limitar na construção do universo conceitual aderindo a um sistema epistemológico. Einstein. por exemplo. dentre eles Boltzmann. FEYERABEND. Mach. 50. abriu o seu caminho nesse tal sistema. O cientista. não pode dar-se ao luxo de levar tão longe a sua luta pela sistematicidade epistemológica. E um método que encoraja a variedade é também o único método compatível com uma perspectiva de humanidade. Contra o Método. Duhem. e já se sente inclinado a interpretar o conteúdo ideológico da ciência na acepção do seu sistema. ou os seguidores fracos e voluntários de um tirano. porém.. p. ao procurar um sistema claro. A variedade de opiniões é necessária ao conhecimento objetivo.1 A concepção de uma prática científica relativamente livre de regras lógicas absolutas ou princípios epistemológicos rígidos não é algo novo.. Deve. está presente em escritos de diversos cientistas. às vítimas aterradas ou ávidas de um (antigo ou moderno) mito. e Bohr. . e também em filósofos como Mill e Wittgenstein. Anarquismo epistemológico A unanimidade da opinião pode servir a uma igreja.

Adeus à razão. FEYERABEND. deste modo. . as peculiaridades da situação em que estão atuando. demonstrar a inerente complexidade da investigação e prepará-los.Anarquismo epistemológico 41 conseguinte. FEYERABEND. Paul K. dentre os modernos filósofos da Ciência. Assim. nenhum modelo epistemológico pode produzir padrões e elementos estruturais úteis a todas as atividades científicas. 328. uma postura autodenominada de anarquismo epistemológico. 223. Adeus à razão. Ao ouvirem a nossa história. os cientistas podem se servir de diferentes referenciais filosóficos. apresentar-se ao epistemólogo sistemático como um tipo de oportunista sem o menor escrúpulo. pelo estudo de Mill. mas sempre. e pelo convívio com Thirring e Ehrenhaft. adotou. o melhor que um filósofo da Ciência. quando confrontados com um problema concreto de investigação. Em sua concepção.3 2 3 Paul K. para o atoleiro em que estão prestes a entrar. apresentar casos estudados que contenham processos diversos.e mais não podemos fazer devido à natureza do material. de longe. p. pode fazer para os cientistas é enumerar métodos práticos. consideram. acima destes modelos. os cientistas ficarão sensibilizados para a riqueza do processo histórico que querem transformar. influenciado principalmente pelas idéias de Mach. muitas vezes conflitantes. p. dar exemplos históricos. sentir-se-ão impelidos a pôr de lado infantilidades como regras lógicas e princípios epistemológicos e começar a pensar em formas mais complexas . a função da epistemologia da Ciência não é a de fornecer um sistema único sob o qual o cientista deve guiar rigidamente ou limitar sua prática.2 Feyerabend.

p. absoluto. REGNER. como "a" característica distintiva. demarcadora do que seja "ciência". 233. . soluções perfeitas para o problema da sobrevivência. Em suas palavras: Antes de Darwin. Na sua tradução metodológica. imutável de ordem.4 O anarquismo epistemológico. não significa. do que oposição a toda e qualquer organização. Esta idéia é defendida por Feyerabend em Consolando o especialista. tanto do ceticismo como do anarquismo político (ou religioso). para toda e qualquer situação . não tem razão de ser. K. Ele.ou seja. era costume considerar os organismos como objetos de criação divina e.5 Para justificar como a Ciência pode avançar sem um plano racionalmente organizado.Anarquismo epistemológico 42 É importante salientar que o anarquismo epistemológico de Feyerabend difere. ao contrário. fundamentalmente. produz uma imensa variedade de formas e 4 5 Anna C. Como indicado por Regner. oposição a um princípio único. Darwin chamou a atenção para inúmeros "erros": a vida não é uma realização cuidadosamente planejada e meticulosamente efetuada de objetivos claros e definidos. portanto. é efetivamente uma descrição de como historicamente o conhecimento da Ciência evoluiu. P. mas contra a instituição de um conjunto único. "anarquismo" significa. Feyerabend compara sua descrição epistemológica do progresso do conhecimento científico com a teoria de evolução de Darwin. ser contra todo e qualquer procedimento metodológico. por conseguinte. fixo. antes. restrito de regras que se pretenda universalmente válido. contra algo que se pretenda erigir como "o" método. na forma como o estamos descrevendo. é devastadora. não pretende ser apenas uma prescrição metodológica. Feyerabend e o pluralismo metodológico.

não propriedades definidoras do processo. 221. também ele precisa de muitas idéias e procedimentos para se manter em curso. Mas significa antes que o epistemólogo. Deste modo.7 O anarquismo epistemológico não implica o abandono de toda e qualquer forma de pensar a prática científica. e. . são resultados transitórios. inclusive os mais elementares princípios lógicos. ao selecionar os "fatos históricos" ou "componentes lógicos" de seu modelo.Anarquismo epistemológico 43 deixa a cargo de uma determinada fase que alcançou (e das envolventes naturais existentes na altura) a definição dos insucessos. teorias. Feyerabend tece uma analogia com o processo de evolução das Ciências ilustrando sua concepção de anarquismo epistemológico. também não proíbe os filósofos de refletirem sobre as atividades dos cientistas. Adeus à razão. 6 Partindo da influência Darwiniana. Segundo sua leitura. os cientistas não são escravos obedientes que ao entrarem no Templo da Ciência procuram ansiosamente adaptar-se às suas regras. deve 6 7 Paul K. FEYERABEND. esta concepção está implícita nas idéias de Mach. Boltzmann e outros ao demonstrarem que o desenvolvimento do conhecimento não é um processo bem planejado e que decorre normalmente. produzindo conceitos que os permitam compreender e justificar. FEYERABEND. Leis. Adeus à razão. fatos. não perguntam "o que é a ciência?" ou "o que é o conhecimento?" ou "como procede um bom cientista?" adaptando depois a sua investigação às limitações contidas na resposta. p. padrões básicos de pensamento. também ele se apresenta devastador e cheio de erros. Paul K. p. seguem em frente e redefinem constantemente a ciência (e o conhecimento e a lógica) através do seu trabalho. 221.

pior. constitui uma descrição mais humana da produção do conhecimento científico. Se estiver consciente deste aspecto da natureza de sua prática. comparará teorias com outras teorias e valorizará os momentos de conflito entre seus elementos de trabalho como oportunidades de aprimorar seu conhecimento. . desta forma. gnosiológicos. A noção de anarquismo epistemológico combate a imposição de princípios absolutos e regras lógicas que se pretendam universalmente válidos. Enfim. aqui apresentada. em meio a tantos outros. com o intuito de contribuir para seu alargamento e qualificação. o cientista terá maior oportunidade (o que não implica necessariamente que o fará) de explorar seus pressupostos. questionando as balizas de seu exercício. políticos. seus conceitos às situações as quais eles se aplicam. limitando. Um cientista interessado em ampliar a compreensão de seus resultados experimentais ou proposições teóricas adotará uma perspectiva mais pluralista. ao considerar uma pluralidade de métodos e o convívio de teorias contrastantes na formação e na prática dos cientistas e professores de Ciências. Ao reconhecer a existência de limites em sua metodologia de pesquisa o cientista (e o filósofo da Ciência que tenta compreender os seus procedimentos) estará mais atento a problemas éticos. o que se possa fazer inadvertidamente em nome deles. que seu trabalho pode gerar se considerado por um ponto de vista dogmático. ou. estéticos.Anarquismo epistemológico 44 sempre referir suas conclusões aos exemplos analisados. a concepção de anarquismo epistemológico.

Ao contrário.1 Uma questão muito debatida pelos modernos filósofos da Ciência é a da natureza da mudança de constituição do conhecimento científico. p. elas são como reconhecer que se estava sonhando. 100. As noções de incomensurabilidade e interpretação natural. Um conceito claramente definido numa teoria.4. Matando o tempo. A incomensurabilidade deve-se à suposição da existência de diferentes padrões conceituais e metodológicos entre teorias distintas. em que a natureza geral do objeto descoberto já é conhecido. não são como a descoberta da América. 1 Paul K. A busca por tentar entender como ocorre a mudança científica entre teorias sucessivas e a forma como são estabelecidos vínculos entre seus princípios têm levado à formulação de numerosas idéias sobre o significado do conhecimento científico. . FEYERABEND. quando analisado em uma teoria rival ou sucessiva. presentes na epistemologia de Feyerabend. Incomensurabilidade e interpretações naturais As descobertas importantes. como esses conceitos sucessivos ou concorrentes são analisados nas respectivas metodologias de trabalho adotadas por diferentes defensores ou articuladores de diferentes teorias. fazem parte desse esforço por tentar descrever como se relacionam entre si os conceitos de teorias sucessivas ou concorrentes e. freqüentemente não pode ser redefinido sem uma drástica mudança em seu significado conceitual.

tornam sem sentido. por uma mesma palavra e apresentarem expressões matemáticas equivalentes. A existência de: (1) esquemas de pensamento incomensuráveis entre si. possuem significados profundamente diferentes na passagem da formulação de uma teoria à outra. serem expressas. Lavoisier passou a enxergar o oxigênio onde antes se via ar deflogistizado. (2) estágios incomensuráveis no desenvolvimento da percepção no indivíduo (reportando-se a Piaget). na teoria da relatividade. muitas vezes. ou seja. e. os elementos de uma linguagem a outra. Problemas de indeterminação surgem claramente nas tentativas de .2 Quanto à existência de estruturas de pensamentos incomensuráveis entre si. podemos considerar a diferença inconciliável entre as formas de pensamento ocidental e oriental. a idéia de que não é possível traduzir-se. Einstein introduziu a noção de espaço-tempo com significado distinto das noções de espaço e tempo da mecânica newtoniana. apesar de referirem-se a um mesmo fenômeno. um outro exemplo bem ilustrativo e muito importante em nosso mundo contemporâneo é a indeterminação da tradução. determinados sistemas conceituais e que agem à base das cosmovisões encerradas nas nossas teorias científicas. ao apresentar a noção de incomensurabilidade. e. Galileu aprendeu a ver o pêndulo onde Aristóteles via uma queda forçada para o lugar natural. termo a termo. Por exemplo. Feyerabend.Incomensurabilidade e interpretações naturais 46 Noções incomensuráveis são aquelas que. desenvolve três teses centrais a seu favor. e. (3) princípios ontológicos condicionantes das ideologias subjacentes a culturas diversas que impedem.

ilustra bem a indeterminação contida na estrutura da linguagem: (.. cf. P... ele não havia considerado a existência de outras línguas além do inglês. K. O escritor norte-americano contemporâneo Paul Auster sempre utiliza.como se houvesse acidentalmente descoberto um caminho secreto para a verdade: a verdade absoluta. que mente escondida no centro do mundo".. juntamente com uma nota de rodapé do tradutor. "Aqui há mais um jogo de palavras do autor: 'the . p. 5 2 Anna C. Neste sentido. ampliando o sentido conferido aos fatos.. a grande Babel de língua zumbindo e se entre chocando no mundo externo à sua vida escolar.. Outra leitura da frase seria 'a verdade . é claro. p. ele se lembra de si mesmo aos oito ou nove anos. E como pode a verdade absoluta e inabalável mudar de língua para língua?4 Feyerabend questionou a proposição de que as teorias sucessivas não passam por variações em seus significados lingüísticos. as declarações da linguagem anterior se alteram.) ao escrever a palavra "escolar". 3 . do Português ao Japonês ou Inglês e vice-versa. e a súbita sensação de poder que experimentou em si mesmo quando descobriu que era capaz de brincar com as palavras dessa forma . truth that lies hidden at the center of the world'. O inventor da solidão. Nota do tradutor 4 Paul Auster. REGNER. jogos de palavras que servem para exemplificar a característica incomensurável da tradução entre línguas.Incomensurabilidade e interpretações naturais 47 tradução entre termos próprios de uma língua à outra. Feyerabend e o pluralismo metodológico. 242. em seus livros. A seguinte citação de um trecho de um dos livros deste autor. universal e inabalável que repousa escondida no centro do mundo. 166.3 Em seu entusiasmo de estudante. faz notar que quando novas teorias surgem. 'Lies' pode significar tanto 'repousa' quanto 'mente' (do verbo mentir). por exemplo.

investiga as relações desses com outras atividades.Incomensurabilidade e interpretações naturais 48 Quanto à existência de estágios incomensuráveis no desenvolvimento da percepção. O Filosofar como Prática de Cidadania. proceda: como um antropólogo ao estudar a cosmologia de uma tribo: aprende sua linguagem e informa-se dos seus hábitos sociais. Feyerabend propõe que o cientista. a única maneira possível para desvelar seus significados é vivenciando-os. MANCE. só descobre o princípio de atribuição de sentido depois de agir desse modo durante muito tempo sendo a atividade de jogo um pressuposto necessário do florescer posterior do sentido -. mesmo as que pareçam 5 Euclides A. Feyerabend tece uma analogia entre o processo de constituição da linguagem em uma criança e o processo de desenvolvimento de uma nova teoria por um cientista: Tal como uma criança que começa a servir-se das palavras antes de as ter compreendido. que soma cada vez mais fragmentos lingüísticos por compreender na sua atividade lúdica. assim também o inventor de uma nova visão do mundo (e o filósofo da ciência que tenta compreender o seu procedimento) tem que ser capaz de dizer coisas sem sentido até que o sem sentido criado por ele e pelos seus amigos atinja as dimensões suficientes para atribuir sentido a todas as partes da nova concepção. frente a uma nova visão dos fenômenos com os quais está habituado a descrever por sua teoria (língua).6 No que diz respeito à existência de princípios ontológicos condicionantes das ideologias subjacentes a culturas diversas que impedem determinados sistemas conceituais e sua impregnação da língua. . Neste sentido. a partir das idéias de Piaget sobre o desenvolvimento infantil.

em Kant. em Bacon. como os preconceitos ou ídolos que devem ser removidos antes do início de uma análise séria do fenômeno. procura identificar as idéias-chave e. não consistindo. Feyerabend e o pluralismo metodológico. sem buscar "traduções" prematuras. 8 Paul K. as chamadas interpretações naturais. notamos que os proponentes de uma teoria científica vêm o mundo com óculos conceituais diferentes e somos levados a considerar nossa percepção aparentemente natural como uma dentre outras interpretações possíveis para o fenômeno analisado. então.Incomensurabilidade e interpretações naturais 49 irrelevantes. Anna C. FEYERABEND. em Galileu. pode estabelecer comparações entre. . nem em um obstáculo. p. completando seu estudo com o conhecimento da sociedade nativa e de seu próprio desenvolvimento pessoal. Contra o Método. por exemplo. A partir dela. 242. Esses óculos conceituais constituem a segunda noção abordada nessa seção. 256. de forma absoluta. 79.8 Feyerabend identifica a presença de conceitos similares à sua noção de interpretação natural em importantes filósofos e na prática dos cientistas. nem em apoio à percepção do 6 7 Paul K. e decidir acerca da possibilidade ou não de reproduzi-lo na linguagem ocidental7 Tomar consciência da existência de conceitos incomensuráveis entre teorias distintas sobre um mesmo fenômeno natural possibilita um constante questionamento da validade de nossas percepções. FEYERABEND. como as pressuposições necessárias (a priori). P. Interpretações naturais podem ser entendidas como "idéias tão intimamente associadas à observação que se torna necessário um esforço especial para nos darmos conta da sua existência e para determinarmos o seu conteúdo". p. surgem de maneira diferente. interiorizando-as. o modo de pensar europeu e o nativo. Contra o Método. p. entendê-las. REGNER. K.

Incomensurabilidade e interpretações naturais 50 fenômeno observado. Aí a Lua surge-lhes do mesmo modo que um gato que realmente corresse por cima das telhas e os arrastasse atrás de si. 87. Esse acontecimento é a aparência para aqueles que se deslocam ao longo de uma rua durante a noite e que são seguidos pela Lua. com passos iguais aos seus. Paul K. Galileu não realiza juízos globais sobre a observação. eliminaremos também a capacidade de pensar e perceber. .por outro lado. p. quando a vêem cintilar ao longo dos beirais dos telhados. se eliminarmos todas as interpretações naturais. "ele insiste numa discussão crítica a fim de decidir quais as interpretações naturais podem ser conservadas e quais devem ser substituídas". não devemos acreditar cegamente em todas as evidências dos sentidos. Contra o Método. a partir da qual se pode descobrir quão facilmente qualquer um pode ser enganado pela simples aparência. . não podemos nunca nos livrar de todas as interpretações naturais pois. p. 84. Contra o Método. é evidente que uma pessoa que enfrentasse um campo de percepções sem uma única interpretação natural ao seu dispor ficaria completamente desorientada e nem sequer poderia começar a tratar de ciência.10 Um exemplo bastante interessante utilizado por Galileu para denunciar a contaminação da evidência empírica é a falácia do gato.. ou digamos que pelas impressões dos sentidos.ou fornecidas por outros instrumentos experimentais que são prolongações dos sentidos. mas ao contrário.9 Segundo o modo de proceder de Galileu.. FEYERABEND. uma 9 10 Paul K. FEYERABEND. acrescentaríamos .

Contra o Método. se a razão não intervier. dependem. 237. Assim.Incomensurabilidade e interpretações naturais 51 aparência que. ou seja. As descrições fenomenológicas não são apreendidas diretamente da relação com a observação. Assim. E toda teoria tem um significado mais amplo contido na tradição cultural sobre a qual foi formulada.11 Diferentes interpretações naturais são como o olhar com diferentes óculos ou de diferentes perspectivas para um mesmo fenômeno. p. a existência de interpretações naturais justifica-se dada a "contaminação" histórica e fisiológica da evidência. Anna C. mas também deve-se ao caldo cultural no qual estamos imersos. da tradição de interpretadores a que pertencemos. nada permite espelhar totalmente o fenômeno na mente de uma pessoa. 81. por exemplo. p.126. Feyerabend e o pluralismo metodológico. . ao invés disso. os membros de uma tradição. K. limitada por interpretações naturais em sua relação com os fenômenos. iludirá de modo demasiado óbvio os nossos sentidos. Cf. Toda e qualquer interpretação natural possui em sua natureza íntima a característica básica de nos conectar de forma sempre parcial ao fenômeno observado. p. REGNER.12 Toda teoria é. P. Em outras palavras. principalmente. não há nenhuma forma de se observar fenômenos livre de interpretações. portanto. nossa maneira de olhar não é somente nossa maneira de olhar. possuem finalidades ou précompreensões que definem as interpretações naturais surgidas em seu fazer científico levando-os a escolher certas peculiaridades dos fenômenos considerados. FEYERABEND. 11 12 Dialoque. como os químicos analíticos. mas. Citado em Paul K. mas somente representá-lo ou conceituá-lo parcialmente.

sob os cânones da Ciência contemporânea. contudo. de conhecimentos milenares elaborados e transmitidos sob outra interpretação natural. e. e embora elas pareçam muito diferentes entre si. a noção de interpretação natural e a idéia de que as evidências empíricas são aprendidas dentro de uma tradição cultural completam nossa concepção de Física como uma tradição cultural dentre outras. Enquanto os remédios se propõem a reagir quimicamente alterando os processos biológicos e proporcionando a defesa do organismo contra bactérias e vírus os seres elementais contidos nos chás indígenas. durante o ritual de cura. A existência de conceitos incomensuráveis entre teorias sucessivas ou concorrentes. ambas permitem operar de maneira equivalente ao solucionar o problema a que se propõem: curar determinada doença. utilizando as mesmas substâncias. a farmacológica e a indígena. Remédios são produzidos e comercializados originando-se. Apesar de existirem muitas interpretações naturais. todas podem. embora se expressem de formas distintas. . os conhecimentos milenares de tribos indígenas sobre determinadas ervas utilizadas em rituais de cura.Incomensurabilidade e interpretações naturais 52 Existem laboratórios farmacológicos realizando pesquisas em plantas com o intuito de isolar substâncias ativas e formalizar. ser consideradas valiosas se proporcionarem uma intervenção consciente sobre os próprios fenômenos alcançando os propósitos previstos pela tradição em que foram elaboradas e são elementos importantes para o aprendizado e desenvolvimento científico. Trata-se de duas tradições diferentes. sobre os mesmos fenômenos. intentam expulsar os maus espíritos causadores das doenças. de diversas tradições culturais. assim.

só com o choque de opiniões contrárias é que a restante verdade tem oportunidade de intervir. como a opinião geral e predominante de qualquer assunto muito raramente ou nunca é toda a verdade. FEYERABEND. Mill. Adeus à razão. negá-lo é assumir a nossa própria infalibilidade.5. . destacando que para a proliferação de idéias Mill indica quatro diferentes motivos: Primeiro. consideradas neste trabalho. será considerado como um preconceito. ao analisar a diversidade de perspectivas da Ciência. significa servir-se de uma reputação bem merecida para manter um dogmatismo contrário ao espírito daqueles que o conquistaram. Proliferação de teorias servir-se da ciência para denegrir e talvez mesmo eliminar todas as alternativas. 47. uma parte de verdade. p. mesmo quando estas conflitam com "fatos" ou "resultados experimentais" amplamente confirmados e estabelecidos. e. Em terceiro lugar. Em quarto. Ela implica na constatação de que os cientistas desenvolvem e sustentam teorias alternativas. porque uma perspectiva problemática pode conter e normalmente contém.1 A última e uma da mais importantes noções da epistemologia de Paul Feyerabend. é a de proliferação de teorias. mas não contestado. um ponto de vista que é totalmente verdadeiro. nem sequer se entenderá o seu 1 Paul K. Feyerabend considera as idéias de John S. com pouca compreensão ou sentimento em relação aos seus motivos racionais. porque uma pessoa pode ter razões para rejeitar uma perspectiva e esta ser mesmo verdadeira. Em segundo lugar.

e mostre em que consiste o seu significado. uma vez que esses foram precisamente os dois problemas que eventualmente produziram as mudanças revolucionárias na estrutura conceitual da Física que ocorreram no 2 3 Paul K. FEYERABEND.47. a menos que se verifique um contraste com outras opiniões. Nos referimos à postura dos físicos no final do século XIX quando se admitia a investigação em Física ter chegado ao seu fim. meu jovem. a saber. Um professor de Física de Max Planck chegou a afirmar-lhe certa vez "A física acabou. Adeus à razão. Deve-se admitir que Lord Kelvin soube escolher bem suas "nuvens". 46. temos uma lição a aprender com a história da Ciência. David Bohm relata que também Lord Kelvin. um dos físicos de renome da época. A realidade quântica. os resultados negativos da experiência de Michelson-Morley e a falha da lei de Rayleigh-Jeans em predizer a distribuição da energia radiante num corpo negro. p. Nick. HEBERT.2 Quanto à proposição de não existirem garantias das teorias atualmente estabelecidas corresponderem a uma verdade definitiva. É uma rua sem saída". expressou a opinião que o esboço básico das teorias físicas estava muito bem estabelecido e que restavam somente "duas pequenas nuvens" no horizonte. Cf.3 E o aconselhou a optar pela carreira de pianista.Proliferação de teorias 54 sentido. A aplicação bem sucedida das leis de Newton em diversos problemas do universo mecânico mostrava o poder de validade da Física Clássica que parecia incontestavelmente estabelecida. . p. Como sabemos Planck entrou nesta rua "sem saída" e abriu uma pequena passagem para uma cidade muito maior e inexplorada .a Física Quântica. e aceitá-lo será uma mera confissão formal.

p. Feyerabend faz notar que: os ingredientes ideológicos do nosso saber e. na eventualidade de uma contradição entre uma teoria nova e interessante e uma coleção de fatos firmemente estabelecidos. como ocorreu com a proposta de Aristarco para o movimento da Terra em torno do Sol que ficou esquecida por muitos num longo período por contrariar as "evidências" dos sentidos fornecidas em conformidade com a Física Aristotélico-Ptolomáica. Impedir Galileu de estudar e divulgar as novas Ciências. 68. No que diz respeito à existência de preconceitos implícitos na prática científica e a oportunidade de explicitá-los a partir do contraste com uma teoria alternativa. são descobertos com o auxílio de teorias que os refutam.4 Muitas vezes corremos o risco de negar uma teoria alternativa e esta se mostrar "verdadeira" mais tarde. em especial. portanto.. é não abandonar a teoria mas 4 David BOHM. Causality and chance in modern physics. Neste exemplo. . por elementos externos à prática científica.. das nossas observações.Proliferação de teorias 55 século vinte em conexão com a teoria da relatividade e a teoria quântica. o melhor procedimento. após o advento da teoria heliocêntrica de Copérnico. as "evidências" da imobilidade da Terra estavam articuladas de tal modo que só puderam ser contestadas. por exemplo. como a inquisição. a partir do contraste com as interpretações fornecidas por teorias alternativas desenvolvidas por Galileu em suas Duas Novas Ciências. significaria coibir a proliferação de teorias retardando o avanço da Ciência.

Proliferação de teorias 56 servirmo-nos dela para a descoberta dos princípios ocultos responsáveis pela contradição. como foi o caso da teoria heliocêntrica de Copérnico que foi formulada a partir da proposta de Aristarco.5 Esta é a característica da proliferação de teorias com maior implicação para nosso trabalho. ou seja. de um conjunto organizado de suposições alternativas. para além de uma apropriação meramente formal e dogmática dos resultados das equações matemáticas. 89. FEYERABEND. Precisamos de um modelo 'exterior' de crítica. O contraste permite que os fundamentos de ambas as teorias (a tradicionalmente estabelecida e uma jovem teoria opositora) sejam fortalecidos com uma substancial melhora na compreensão de ambas. Um aspecto importante da interação entre teorias rivais descrito por Feyerabend reside na consideração de que a proposta de uma nova teoria nunca é imediatamente incorporada pelos grupos de pesquisa. p. a oportunidade de contrastar os "fatos" que fundamentam as teorias cientificas tradicionalmente estabelecidas por grupos de pesquisa consolidados com jovens teorias alternativas. . Teorias alternativas não são incorporadas e aceitas quando novas idéias teóricas são criadas. para que se possa entender e ampliar o sentido ou significado de suas proposições básicas e princípios fundamentais. Essas Jovens Teorias Alternativas quase sempre se inspiram em antigas teorias alternativas que haviam sido desconsideradas pelos setores representativos da Ciência. ou mesmo 5 Paul K. Para ampliarmos a compreensão conceitual de uma teoria não podemos analisá-la de 'dentro'. Contra o Método.

Proliferação de teorias 57 dados empíricos são descobertos. uma teoria alternativa que negue a constância da velocidade da luz. ou que se choque frontalmente contra as verificações da hipótese do Big Bang . os cientistas de tendência empirista confrontam de imediato a nova ciência com o "status quo" e anunciam triunfantemente que ela "não está de acordo com os fatos e princípios admitidos". Sem levarmos em conta a possibilidade de que uma nova Física ou uma nova Astronomia possam ter que ser julgadas segundo uma nova teoria do conhecimento.. rever os procedimentos experimentais utilizados para medir a velocidade da luz até então realizados e revisar os "fatos" que fundamentam a idéia do Big 6 Como os contraditórios procedimentos contra-indutivos e o uso de propagandas descritos na seção 2 deste capítulo . No processo de incorporação de uma teoria alternativa não só os elementos racionais entram em jogo mas todo um conjunto de atributos essencialmente humanos6.7 Por exemplo.fatos bem estabelecidos e aparentemente "comprovados" . mas só quando toda uma nova visão de mundo toma seu lugar. pois É evidente que uma nova visão do mundo tomará algum tempo até se manifestar e que nunca teremos êxito na tentativa de a formularmos na sua plenitude.não deve ser combatida por isso só. à luz de seus novos princípios teóricos. Nesse sentido há a necessidade de dar tempo para que novas teorias alternativas da Física superem suas imperfeições iniciais e consigam se estabelecer. Esta necessidade de "esperar" e "ignorar" grandes massas de observações e medições críticas quase nunca é analisada pelas nossas metodologias. Será preciso também. requerendo verificações inteiramente novas..

consenso entre todos os grupos de pesquisa. FEYERABEND. o que é também possível. 152. Só então. tolerância. 159.8 7 8 Paul K. Dão vida ao que é dito e ajudam-nos a vencer a resistência do material observacional. passam a ser traços importantes do que conhecemos. p. uma vez que se tenha compreendido que um ajustamento empírico estrito não tem grande valor e que deve ser afrouxado em tempos de mudança. Contra o Método. Poderíamos perguntar: se novas teorias alternativas são problemáticas.Proliferação de teorias 58 Bang. romper as fronteiras das teorias estabelecidas. e nem desejamos que exista. por parte dos defensores das teorias estabelecidas.. respeito e interesse de fortalecer suas idéias denunciando erros conceituais e falsas interpretações de dados empíricos. Mas. p. a elegância da expressão. a qualidade sedutora do conteúdo. empenho. O mais importante é que nunca existirá. vontade e capacidade de convencer e conquistar novos adeptos (até com uso legítimo de propagandas) e. Contra o Método. Paul K. FEYERABEND. . será possível. a tensão entre a intriga e a narração. a simplicidade da apresentação. denunciar com convicção os equívocos da teoria alternativa proposta ou. por que os cientistas se envolvem com elas? O que os leva a questionar "fatos" amplamente estabelecidos? Ou por quê dialogar com uma teoria que de imediato não nos oferece nada de novo? Para responder essas questões recorremos a uma interessante analogia entre Ciência e arte como tradições culturais de natureza semelhante à constituição do conhecimento e ao progresso .. então o estilo. rever experimentos e rediscutir princípios básicos exige por parte dos proponentes das teorias alternativas verbas.

Proliferação de teorias

59

Podemos conceber uma parte da prática científica - aquela que está além da "evidência empírica" - como um processo de produção artística, com a diferença de o material ser o pensamento e a matemática e não a tinta, ou o mármore, ou o metal, ou sons melodiosos... A proliferação de teorias entendida aqui como a interação entre teorias bem estabelecidas e teorias alternativas não implica em uma ruptura conceitual da noção de racionalidade científica. Os atores da Ciência, como sempre fizeram, continuam trabalhando em uma dada teoria, em sua tradição. Cada cientista, corretamente segue seu grupo de pesquisa e defende-o tenazmente. Cabe ainda lembrar que as proposições de novas teorias sempre partem de cientistas de dentro de grupos de pesquisa bem estabelecidos. Ou seja, para construir uma teoria rival, é necessário conhecer tão bem, se não melhor, a teoria que está sendo questionada. A noção de proliferação permite notar ocorrências ocasionais de rupturas em alguns grupos e justifica o modo como essa ruptura gera novos grupos. Diferentes grupos discutem entre si, sem necessariamente (ou quase nunca) chegar a um acordo, se opõem e conflitam entre si.

6. Em defesa da racionalidade científica

Não sou contra uma ciência assim entendida. Essa ciência é uma das mais maravilhosas invenções do espírito humano. Mas sou contra as ideologias que se servem do nome da ciência como arma de extermínio cultural.1

Esboçamos a seguir algumas considerações sobre nossa interpretação da obra de Feyerabend, sua crítica, seus limites e uma nova concepção para a racionalidade científica como concebida por Regner2. No entanto, alertamos que não caberia neste trabalho uma justificação extensiva das críticas à filosofia por ele desenvolvida. Na seção 3, ao apresentarmos a noção de anarquismo epistemológico, procuramos distinguir essa abordagem do anarquismo político e religioso. Neste sentido reafirmamos que as idéias de Feyerabend exploradas neste trabalho não implicam em uma metodologia da pesquisa científica bem definida. Mas antes, os elementos da epistemologia aqui estudados, pretendem explicitar a existência de limites nas filosofias da Ciência que procuram descrever ou fazer prescrições sobre o modo como o conhecimento científico avança. Entendemos as idéias de Feyerabend não como um conjunto de regras (epistemo)lógicas rígidas, mas sim, como limitações de princípios e regras dessa natureza, que, muitas vezes, se encontram envolvidas por uma "racionalidade" e isolada de "atributos humanos" e da efetiva prática científica sobre as quais se
1

Paul K. FEYERABEND, Contra o Método, p. 15.

Em defesa da racionalidade científica

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fundamentam. Sobre as implicações de sua epistemologia para a vida das pessoas em geral e dos cientistas em particular, Feyerabend escreveu:

a minha preocupação não é nem a racionalidade, nem a ciência, nem a liberdade - abstrações desta natureza revelam-se mais prejudiciais do que benéficas - mas a qualidade da vida dos indivíduos. Esta qualidade deve ser conhecida por intermédio de experiência pessoal antes de poderem ser apresentadas quaisquer sugestões. Por outras palavras: as sugestões para a mudança devem provir de amigos, e não de "pensadores" longínquos.3 Feyerabend, em nossa interpretação, não desenvolveu uma lógica da pesquisa científica, não criou uma estrutura das revoluções científicas e não explorou uma formação do espírito científico4. Sua epistemologia não é um novo sistema filosófico ou um conjunto de premissas lógicas que devem compor argumentos e ser analisados pela razão, mas antes, um conjunto de regras práticas que podem ser vivenciadas por aqueles que delas se interessarem:

... comentários vagos e imprecisos que fiz sobre o estado, a ética, a educação e a máquina da ciência deverão ser analisados pelas pessoas a que se destinam. São opiniões subjetivas e não diretrizes "objetivas"; devem ser testados por outros sujeitos, não por critérios "objetivos" e receberem poder político apenas depois de todas as pessoas interessadas os terem considerado: o consenso daqueles a quem se dirigem, e não os meus argumentos, é que acabarão por decidir a questão.5
2

Anna C. K. P. REGNER, Feyerabend e o pluralismo metodológico Paul K. FEYERABEND, Adeus à razão, p. 27. 4 Estamos parafraseando aqui três grandes epistemólogos contemporâneos: Popper, Kuhn e Bachelard, nesta ordem 5 Paul K. FEYERABEND, Adeus à razão, p. 357.
3

Isso sim constitui realmente uma 6 Veja por exemplo Alan SOKAL & Jean BRICMONT. Ao dizer "tudo vale" ele simplesmente pretendia mostrar que todas as regras e critérios têm seus limites e que não devem ser mantidos a todo custo. 7 O "tudo vale" é um bom exemplo do estilo irônico e dos muitos gracejos presentes nos escritos de Feyerabend. enquanto tudo vale seria o único princípio que se aplicaria a todos os contextos. Essa não é a interpretação de nosso trabalho. Isso por Feyerabend ter escrito em seu Contra o Método que "tudo vale". ao interpretarem como implicação imediata de suas idéias o preceito de que todas as regras e critérios científicos seriam inúteis. irracionais e deveriam ser postos de lado. 84-91 . Entendido como um meta-princípio.Em defesa da racionalidade científica 62 As principais críticas às idéias de Feyerabend referem-se a ele como um relativista radical ou um anarquista ingênuo6. com a crítica que elabora contra o "racionalismo". não pretendendo uma nova "teoria da ciência" ou da "racionalidade". pg. poderia compreender sob si o princípio nem tudo vale como princípio de ordem inferior. não depende da prévia aceitação desse princípio ou de qualquer princípio que fosse universalmente válido. Imposturas Intelectuais. A interpretação que estamos justificando é compartilhada por Anna Carolina Regner. Cabe igualmente ressaltar que a análise da ciência feita por Feyerabend. Sobre o "tudo vale" ou "qualquer coisa serve" ser lido como o princípio filosófico fundamental da epistemologia de Feyerabend ela nos alerta para o fato de que: Não cabe aqui a crítica de que este princípio seria auto-destrutivo. atinente a um particular contexto.

de vez em quanto. REGNER. K. 235.mas a exclamação apavorada de um racionalista que observa a história um pouco mais de perto. seus escritos são ricamente fundamentados. p. torna muito mais desafiante. Biologia.. REGNER. prazerosa e. No prefácio à 2a edição inglesa de Against Method de 1988. Anna C. Imposturas Intelectuais. esse problema. como teríamos rido os dois lendo juntos semelhantes efusões. humana sua leitura e estudo.como todo professor . pg. também eu. com referências em trabalhos reconhecidos da história e filosofia da Ciência.muitas vezes se sentiu angustiado pela falta de ressonância de suas idéias entre os alunos e pelo mal estar gerado na 7 Anna C. P. 8 . se por um lado dificulta a compreensão de suas idéias. K. como também do próprio conhecimento da Física. pelo que.8 Contudo. Ao ler as muitas críticas sérias.9 Apesar desse seu estilo irônico e humorístico Feyerabend em sua atuação como professor . Alan SOKAL & Jean BRICMONT. "O principal problema quando se lê Feyerabend é saber quando levá-lo à sério".Em defesa da racionalidade científica 63 dificuldade na leitura de seus textos. 86. Química. Exemplo disso é o final do Capítulo 1: "qualquer coisa serve" [ou "tudo vale"] não é um "princípio" que eu sustente . por outro.. amplas e amplamente equivocadas que me foram feitas após a publicação da primeira edição inglesa do livro.não penso que possam ser utilizados e produtivamente discutidos os "princípios" fora da situação concreta de investigação que supomos que afetam . de grande fôlego. Feyerabend e o pluralismo metodológico. lembrei-me muitas vezes do meu convívio com Imre. p. por que não. 9 Cf. adotei uma escrita de estilo irônico. 235. Além disso. Feyerabend escreve ao justificar a dedicatória de seu livro a Lakatos: Imre Lakatos gostava de embaraçar os seus opositores sérios com gracejos e ironias. Feyerabend e o pluralismo metodológico. P.

do quê? De uma melhor compreensão das ciências. Nunca "denegri a razão". 141. um começo difícil . disseram meus amigos.. Com apenas algumas exceções. "Primeiro você denigre a razão e depois espera que as pessoas digam algo interessante". mas apenas algumas de suas versões petrificadas e tirânicas. certa vez..algo importante a ser considerado neste trabalho.) Mas as pessoas que encontrava pareciam privadas de idéias concretas que lhes fossem próprias. Como indicado na seção 3. Era um começo. política. de uma melhor organização da sociedade. Manoel Robilotta. mas ao invés disso. Matando o tempo. Tampouco eu supunha que minha crítica pudesse ser o fim da questão. cultural e da educação. noções que permitem questionar os limites de sistemas epistemológicos e de suas interferências. de melhores relações entre os indivíduos.Em defesa da racionalidade científica 64 maioria de seus ouvintes ao chocarem-se com suas idéias. FEYERABEND. 11 10 . contudo. seja isto o que for. costuma contar uma história em que. dentre outras. ao invés de mudar. de um teatro melhor. Feyerabend desistiu de um curso em Yale após se aborrecer a ponto de chorar ao final de um seminário: "Isto é culpa sua". O Professor do Instituto de Física da USP. ficavam sentadas chorando. de filmes melhores e assim por diante (. p. as idéias de Feyerabend não constituem uma filosofia da Ciência entendida como um conjunto de regras metodológicas rígidas ou de princípios lógicos. que participa da comissão avaliadora desta dissertação. Paul K. Eu via as coisas de outro modo.10 E é esse um dos principais efeitos nocivos de uma interpretação descontextualizada das idéias de Feyerabend11 . em nome da "verdadeira" prática científica nas esferas econômica. elas concordavam com minha crítica. alguns de seus alunos ficaram tão aborrecidos que chegaram a abandonar o curso de física após uma leitura de Contra o Método.

Mas a cidade tem atividade humana e está em constante modificação. K. ora redesenhando o mapa (mudando sua razão). E conclui Feyerabend seu Contra o método. dizendo: "a racionalidade de nossas crenças se verá consideravelmente acentuada". fortalece-a. não diminuem a racionalidade científica.Em defesa da racionalidade científica 65 Neste trabalho interpretamos a filosofia de Feyerabend de modo que o ato de dar Adeus à Razão e a tentativa de agir Contra o método12. Feyerabend e o pluralismo metodológico. Para resumir e finalizar nossa abordagem das noções epistemológicas de Feyerabend exploraremos uma analogia entre a razão e o mapa de uma cidade. a uma razão contextualizada: Expondo-a [a Ciência] em seus mecanismos irracionais. . P. acaba sendo o meio pelo qual qualquer decisão pela Ciência seja muito mais racional. REGNER. mas ao contrário.13 Apresentamos assim uma concepção interacionista da razão e da prática científica. do que tem sido. O cientista possui um mapa (razão) para percorrer uma cidade (prática). Anna Regner. 12 13 Para parafrasear os dois principais livros estudados. ao adotar uma postura semelhante em seus escritos. que deve ser vista como tal. calcada na visão esclarecida e sopesada de razões. aqui também é preciso estar atento aos limites da analogia. Anna C. desta forma ele deve agir ora modificando sua prática (atuando na cidade). 244. Mas. nos pergunta se o desvelamento da Ciência exposto por Feyerabend não conduziria a uma nova racionalidade. tornando-a mais flexível e humana. à luz das regras do racionalismo. A distinção entre a razão (o mapa) e a prática (a cidade) deve considerar duas entidades diferentes mas não disjuntas. p.

Em nenhum momento as idéias de Feyerabend significam que o conhecimento científico pode avançar sem uma interação entre uma razão e uma prática. construir uma nova avenida) a partir de uma nova razão ou um projeto interessante de pesquisa (um novo mapa). em defesa da racionalidade científica. Agimos assim. .Em defesa da racionalidade científica 66 O "Adeus à Razão" significa que o cientista guiado por sua prática (o caminhar pela cidade) pode apagar e redesenhar a razão (o mapa) ao perceber sua inadequação. Por outro lado. agir "contra o método" significa violar sua prática (modificar a cidade.

além de saberes: hábitos. Adeus à razão.PERSPECTIVAS EDUCACIONAIS A melhor educação consiste na imunização das pessoas educação. contra 1 tentativas sistemáticas de Nesse capítulo. 366. tendo a científica incluída em seu bojo.III . passamos a discutir as lições epistemológicas aprendidas com o estudo das concepções sobre a Ciência expressas no capítulo anterior e suas implicações para a educação em geral e para o Ensino de Física em particular. dentro da educação geral. pretende perpetuar. . Cabe enfatizar a contextualização do Ensino científico dentro da instituição de Ensino em que se insere . elas compõem um conjunto de reflexões sobre os ideais.a escola. Antes de iniciarmos a apresentação de considerações sobre as possíveis perspectivas educacionais das noções esboçadas no capítulo anterior é importante explicitar que compreendemos o Ensino de Ciências. objetivos e valores 1 Paul K. mas ao contrário. As perspectivas educacionais aqui apresentadas não devem ser vistas como princípios metodológicos ou sistematizações de práticas pedagógicas de modo a constituírem-se em objetivos ou num referencial para que professores de Ciência ou de Física possam organizar suas aulas. como algo que vai além da mera transmissão de conceitos. FEYERABEND. p. valores e crenças socialmente estabelecidos como importantes. A educação escolar.

Ao apresentar perspectivas educacionais tendo por base a filosofia de Feyerabend não pretendemos. ou um modo mais simples ou fácil . mas procurando contribuir com noções que funcionem como limitadores na elaboração de ações educativas. mas sim de propiciar o uso de seu modo de pensar . No entanto. e em especial professores de Física. justificação de certas escolhas e estabelecimento de objetivos e valores para o Ensino no contexto das instituições escolares. avaliarem sua própria prática.Perspectivas Educacionais 68 associados aos processos educativos em Ciências que podem contribuir para a elucidação de questões que permitam aos atores da educação. em momento algum. Assim toda a justificação se fundamenta muito mais em escolhas valorativas que em dados empíricos e seu sentido é muito mais o de orientar que conduzir ações da prática educativa.sua filosofia . uma didática eficiente. Não estamos propondo uma teoria que careça de validação empírica ou diretrizes metodológicas para organizar o Ensino. vivências e casos particulares são explorados como sintomas de situações limites que em maior ou menor grau permeiam todas as relações educacionais. Não se trata de uma transposição das noções epistemológicas de Feyerabend para a fundamentação de uma teoria de Ensino ou para aprimorar as práticas educativas. desenvolver referenciais para uma forma mais rápida.para analisar questões especificas da educação. 2 As noções educacionais desenvolvidas neste trabalho apresentam uma natureza predominantemente programática em detrimento de uma formulação prescritiva ou de uma fundamentação descritiva.

mas pode fornecer elementos importantes caso se deseje refletir sobre o modo como as práticas são desenvolvidas. Visamos sim. 2 Quanto à dimensão institucional da educação escolar. socialmente estabelecidos. (ver: CARVALHO. Se pensadas fora de um contexto escolar específico as noções discutidas fornecerão uma visão exterior e meramente abstrata da prática escolar. compartilhamos das idéias de José Sérgio Fonseca de Carvalho. geralmente estar ausente das pesquisas específicas de ensino de ciências. a consideração dos valores prioritários. As noções educacionais que serão apresentadas podem subsidiar mas não conduzir as ações de professores e outros agentes de Ensino inseridos em instituições escolares com contextos específicos.Perspectivas Educacionais 69 de educar. é algo mais parecido com uma arte-prática. conteúdos e práticas de Ensino. Nosso trabalho não terá valor nenhum se for considerado como ponto de partida para a elaboração de um projeto de Ensino. Construtivismo: uma pedagogia esquecida da escola) . com predominância na escolha de métodos. Nesse sentido nosso trabalho só estará concluído quando seus leitores o vincularem a situações reais de Ensino. Na concepção subjacente a este trabalho a educação não é uma Ciência.

respondeu Buda.respondeu o Iluminado. .Mestre.disse Buda. respeitar e valorizar as outras tradições que já fazem parte da vida dos . ou seja.Não. da negação e da dúvida.Como é que o senhor pode dar respostas diferentes para a mesma pergunta? .Deus existe? .Deus existe? quis saber . que absurdo! .1.Porque são pessoas diferentes . . Todos devem ser igualmente iniciados na tradição científica? “Buda estava reunido com os seus discípulos certa manhã. quando um homem se aproximou. .respondeu Buda. ou a melhor.Deus existe? . Também na educação básica devemos considerar o Ensino de Ciência como uma importante componente do conhecimento socialmente estabelecido e que deve compor os currículos escolares .disse um dos seus discípulos. é imprescindível conhecer.” Maktub A partir da idéia de que a Ciência é uma tradição cultural dentre outras nos perguntamos: como a Física deve entrar na formação básica? Todos devem ser igualmente iniciados na tradição científica? Respondemos a essas questões sugerindo que a Ciência deve ser ensinada como uma maneira de ver entre muitas outras e não como a única via que leva à "verdade" ou à "realidade". . aproximou-se outro homem. um terceiro homem fez a mesma pergunta: . É preciso levar em conta as condições dos grupos locais.perguntou.Existe . No final da tarde.Você terá que decidir . .de modo que ninguém pode ser-lhe indiferente mas não como a única. Depois do almoço. não existe . ou mesmo a pior fonte da sabedoria. .E cada uma aproximar-se-á de Deus à sua maneira: através da certeza. Para pensar a Ciência como uma tradição cultural tivemos de admitir a existência na prática científica de vontades pessoais e escolhas que dependem das circunstâncias culturais sob as quais atuam os diversos grupos de pesquisa.

são tradições públicas com séculos de acumulações e detentoras dos saberes desenvolvidos a partir de toda uma conjuntura social por nossos antepassados e que precisam ser valorizadas e respeitadas. Essas disciplinas. e ainda. com o conhecimento que transmite. sendo responsável por sua perpetuação.Todos devem ser igualmente iniciados na tradição científica? 71 educandos. No contexto educacional. Cada uma das disciplinas escolares constitui parte de tradições culturais e deve ser vista como muito mais que um conjunto de conteúdos ou uma lista de habilidades a serem alcançadas por um aluno individualmente. O que o professor faz quando ensina é permitir que o aluno reconheça-se no espelho das realizações humanas tradicionalmente organizadas pelo que conhecemos como disciplinas escolares e suas técnicas. de elementos associados aos valores e procedimentos dos espaços institucionais em que são desenvolvidas. a Antropologia ou a Geografia. como a Física. garantindo-lhe a preservação e a continuidade. Ao afirmar que nem todos devem ser igualmente iniciados na tradição científica não estamos afirmando que a Ciência no mundo contemporâneo. além de conteúdos. mas também com a instituição de Ensino a que pertence. As disciplinas são vivas e compõem-se. nas quais as pessoas precisam ser educadas. O professor tem um compromisso não só com o aluno. a Química. neste sentido. as atividades de Ensino estão subordinadas ao compromisso essencial para a constituição das instituições escolares e tem a missão de difundir e preservar algumas tradições culturais publicamente consideradas como preciosas para a humanidade. ou . ele professa também em favor da tradição a que corresponde e de certo modo reproduz e mantém vivo um saber que herdou. A Ciência deve ser inserida entre estas tradições e conquistar seu valor próprio e lugar na vida das pessoas.

Tem sua estrutura lógica interna e reage. Por exemplo. a política. a economia. A tentativa de destruir. como indica Paulo Freire. estas crenças mágicas não devem ser simplesmente ignoradas. etc) é negar a uma pessoa a oportunidade de compreender e utilizar os conhecimentos da Ciência para melhorar sua compreensão do mundo. o pensamento mágico não é ilógico nem é pré-lógico. contribui para o estabelecimento de uma falsa cientificidade. Este modo de pensar. um agrônomo extensionista precisa conhecer as crenças mágicas dos agricultores com os quais vai dialogar. Ao contrário. até onde pode. o desprezo e principalmente o fato de ignorar outros modos de conhecimento concorrentes ao científico corresponde. o conhecimento científico está tão afastado do público em geral que. Sobrepor a ele outra forma de pensar. que implica noutra linguagem. como qualquer outro. domina o cotidiano das pessoas de modo a impedir a manifestação de outras tradições culturais. a nosso modo de ver. Tão perigoso como atribuir à Ciência uma excessiva carga de verdade propiciando seu mau uso por parte de um discurso autoritário (não só vinculado à miopia científica mas também de outras esferas sociais como a religião. noutra estrutura e noutra maneira de atuar [noutra tradição] lhe desperta uma reação . a um dos principais equívocos da inserção do saber científico na educação básica em geral. está indiscutivelmente ligado a uma linguagem e a uma estrutura como a uma forma de atuar [a uma tradição]. ao ser substituído mecanicamente por outro.Todos devem ser igualmente iniciados na tradição científica? 72 mais especificamente no Brasil. estamos dizendo que. Não considerar a cultura dos estudantes gera um conflito entre os conhecimentos de diferentes tradições culturais pertencentes às suas vidas e aqueles da Ciência que se pretende ensinar e que precisam ser explicitados nas atividades de ensino. por isso mesmo. o desrespeito.

que o que estava ensinando era científico e verdadeiro e o que o pai dela sabia era "papo furado".Todos devem ser igualmente iniciados na tradição científica? 73 natural.Eu aprendi isso na faculdade e o seu pai? . nervoso. E a "solução" encontrada pelo Conselho de Escola.2 Nesse caso. O professor. segundo entendemos. entrou em atrito com uma aluna evangélica e a mesma disse que não assistiria mais suas aulas e pediria para seu pai. com escola localizada na Cidade de Itapevi.Isso gerou muita polêmica na escola e a diretora junto com o conselho de escola decidiu que a aluna não precisaria mais assistir as aulas de Biologia. conta que: um professor de Biologia da escola em que leciono. . A situação descrita corresponde a um exemplo de confronto entre discursos autoritários bastante presente em escolas e geralmente impregnados em diversas esferas de atuação no cotidiano contemporâneo. Para solucionar o conflito entre dois discursos autoritários (a " Ciência" autoritária do professor x a "religião" 1 2 Paulo FREIRE. bastante interessante uma professora de Física da rede pública de Ensino do estado de São Paulo. foi autoritária e a pior possível. ao explicar evolução das espécies. que era pastor. Declaração de uma professora da rede oficial de ensino do Estado de São Paulo. equivocadas por acharem-se detentoras da "verdade absoluta". E completou: .1 Em um exemplo. vir conversar com ele. Eu penso que essa não foi a melhor solução. Extensão ou comunicação? p. mas é muito difícil mudar a forma das pessoas pensarem. e assumida pela Diretora. 31. ambas as posições estão. Uma reação de defesa ante o "invasor" que ameaça romper seu equilíbrio interno. respondeu para ela.

O primeiro. Por isso. O conhecimento científico é inegavelmente uma das mais importantes construções da humanidade e proibir-lhe o acesso em "razão" desta ou daquela tradição cultural é igualmente um grande erro. O aluno deve conhecê-la. Devem antes possuir. por membros de um Conselho de Escola. Esse conflito entre "verdades" é um sintoma limite de um processo que está presente. significando que a Ciência não deve ser imposta como a verdade única ou maior. na relação de todos os estudantes com a realidade do conhecimento científico vivida nos cursos de Física. O segundo aspecto é a oportunidade de "pertencer" à tradição científica. Tolerância e oportunidade são os dois pilares fundamentais de uma educação científica que pretenda superar o discurso autoritário ao qual a civilização contemporânea. está imerso. Uma educação apoiada na concepção de Ciência como tradição cultural que pretenda ir na contra-mão da educação autoritária precisa ser entendida sempre em dois aspectos complementares: tolerância versus oportunidade. em maior ou menor grau. o que poderíamos designar como cultura científica básica. do professor. em maior ou menor grau. pior. entendemos que nem todos devem ser igualmente iniciados na tradição científica. mas precisa realizar sozinho todas as escolhas em que ela seja significativa e ser capaz de dirigir sua própria vida. da comunidade na qual a escola está inserida. a tolerância por parte da instituição de Ensino.Todos devem ser igualmente iniciados na tradição científica? 74 autoritária da aluna) foi tomada uma medida mais autoritária ainda (de uma "educação" autoritária) – e. e em particular o povo brasileiro. do currículo e dos agentes escolares às idéias de outras tradições pertencentes à vida dos alunos. permitindo-lhes relacionar .

Estamos preocupados com a educação em Ciência como algo mais amplo do que as definições econômica ou sociológica permitem conceber. para cada comunidade. verdadeira e soberana. apropriar-se ao seu modo dos conceitos científicos ou conseguir encontrar uma informação importante sobre determinado fenômeno estudado. para cada classe de aula. A educação científica para o grande público em geral pode se dar sem que ocorram rigorosamente estas atividades específicas e estas ainda podem ocorrer sem que satisfaçam todos os critérios implicados pela educação científica. certamente.Todos devem ser igualmente iniciados na tradição científica? 75 matematicamente grandezas simples presentes em seu dia-a-dia. A educação científica não pode ser construída somente em prol dos interesses de produzir cientistas mas sim de fornecer às pessoas a possibilidade de ampliarem seus domínios de pensamento. nem todos precisam dominar e se interessar por investigações sobre semântica. instrução. mas. por serem estes termos muito específicos. contrariamente ao Ensino da Ciência única. assim como. Dessa maneira a Física até o nível médio do Ensino contribuiria de forma diferente para cada cidade. para cada escola. como na perspectiva de Peters: . necessitam ser educados de forma a utilizar a língua como instrumento básico e serem capazes de decodificar textos importantes para sua vida. fazer uma estimativa. ler uma notícia sobre Ciência. porém. ação e emoção. lingüística ou literatura. Identificamos a educação neste trabalho com o que preferimos chamar de iniciação à tradição científica a termos como treinamento. Uma educação maior na qual a aquisição de saberes está associada à atribuição de valores ao conhecimento. o que não impede de alguns. fazerem da lingüística uma de suas tradições. para cada um dos alunos.

o professor e o aluno serão iniciados na prática da Física e em seus procedimentos de forma consciente e de forma a se envolverem no que estão fazendo sempre de modo a perceberem que algo valioso está ocorrendo em suas vidas. critérios aos quais os processos. Isto significa que. como o treinamento. ao estudarem a Física juntos. como fazer preleções. o professor e o programa escolar precisam respeitar as idéias oriundas da cultura local e trazidas pelos alunos e não utilizar a autoridade conferida a eles para impor suas "verdades" de modo intolerante. devem se adaptar. como o de treinamento.Todos devem ser igualmente iniciados na tradição científica? 76 O conceito de "educação" [como iniciação] não privilegia qualquer tipo particular de processos. gostem da Física. Um destes critérios é o de que algo valioso deve se manifestar. saibam . fruto da elaboração humana ao invés de uma verdade eterna. A instituição de Ensino. antes. só se estabelece com uma política educacional e um processo apropriado de formação de professores para que eles simultaneamente eduquem e sejam educados. é possível que estejamos educando alguém enquanto o treinamos. Dessa perspectiva o conhecimento científico precisa ser apresentado como um valioso produto humano e não como uma verdade superior.3 A educação em Ciências como uma iniciação à tradição científica pressupõe uma progressiva tomada de consciência sobre a aquisição de conhecimentos. mas não necessariamente. sugere. a escola e a comunidade. Uma educação que tolera o convívio do conhecimento científico com o de outras tradições e que procura transmitir o saber como algo valioso. ou de atividades. Daí. por exemplo.

. pelo mesmo motivo: como. é visto como um elo 3 4 R. 107. p. seja formado em Física e tenha conhecido físicos. ao professor de Física é preciso ser ofertada a possibilidade de ler sobre Física e conversar sobre Física. Mas. PETERS. ele não é visto como uma enciclopédia especializada de Física. porque: um homem pode ser condicionado a fugir de cachorros ou ser induzido a fazer algo por sugestão hipnótica. se ele não soubesse o que estava aprendendo. ela deve conter um mínimo de compreensão. PETERS. não entenderíamos isso como "educação". Para que alguma coisa seja considerada como educação. S. Sendo um "missionário" de sua "tradição" deve entender minimamente suas descobertas.4 Assim. É importante também que ele se mantenha informado da Física de seu tempo. só para dar um exemplo. a que exige do aluno a repetição interminável de atos estereotipados que participam de séries limitadas. acrescentamos]. a tradição da Física. enquanto aprendia [ou ensinado enquanto ensinava. entendam como se faz Física e sejam formados em Física. Algumas formas de exercícios também podem ser excluídas. Para compor um corpo docente que intermedie a relação entre as tradições científicas e os valores da instituição escolar. Educação como iniciação. ou mesmo alguém que consegue desvendar os misteriosos fenômenos que estão por trás do funcionamento de aparelhos tecnológicos do cotidiano. Assim. 113. R. por exemplo. Educação como iniciação. nesta concepção da educação científica é fundamental que o professor de Física. S. p.Todos devem ser igualmente iniciados na tradição científica? 77 Física. ou a fonte de respostas aos problemas de um livro didático. tenham vivido e ainda acompanhem. inovações e "alterações" em seus procedimentos e métodos. mas. de algum modo.

com a instituição escolar que agrega os valores sociais aos saberes científicos. sem que os ensine e sem que seu Ensino reflita as responsabilidades institucionais da instituição escolar. entre suas aulas e essa tradição culturalmente representada pela Física. e. O verdadeiro conteúdo do estudo está no envolvimento com o professor e com o programa6 da disciplina. . Respeitar o aluno é ensinar do melhor modo possível os conhecimentos tradicionalmente acumulados como Ciência. não é possível que ele respeite seus alunos .. também. para com a instituição a que ele pertence. pois . como o zelo pelos conhecimentos. os gráficos e as anotações são apenas acessórios e não o material de estudo em si. Os alunos precisam conhecer e viver a Física como uma tradição cultural. como a privação do aluno desse conhecimento são em igual intensidade um ato de irresponsabilidade e desrespeito. os seus alunos e os físicos.5 Uma aula de Física deve permitir mais que memorizações ou anotações de fórmulas ou termos conceituais sem sentido.. p. embora seja possível que um professor ensine sem recorrer ao respeito mútuo.pelo menos como alunos . os textos. pela hierarquia e pelos valores característicos dessa instituição social. Agradecemos ao prof José Sérgio pela elucidação da natureza programática desse trabalho em detrimento de uma prerrogativa prescritiva.Todos devem ser igualmente iniciados na tradição científica? 78 de ligação entre a escola e a comunidade.. Construtivismo: uma pedagogia esquecida da escola. tanto para com o aluno como para a tradição científica a qual o professor deveria representar. 83. 5 6 José Sérgio Fonseca de CARVALHO. Tanto a doutrinação em uma tradição. Para isso os livros.

Terminada a visita estaremos satisfeitos se o estrangeiro ficar com uma . eles são elementos essenciais e imprescindíveis em uma aula de Física por transmitirem uma compreensão estrutural tanto do que é a Ciência como de seus conceitos. explicações de fenômenos ou princípios da Ciência. conceitos. vamos levar o estrangeiro nos diversos setores da cidade. a observação de fenômenos. da criminalidade. museus. Para concluir. a Física como uma tradição cultural exige uma educação baseada em peças de teatro. apresentá-lo às pessoas e explicar o que elas estão fazendo. os problemas de infra-estrutura. experimentos. pelo contrário. Neste sentido. é apropriar-se de seus valores. expressando mais facilmente a natureza humana do conhecimento científico. os experimentos e os modelos matemáticos são menos importantes. em romances e em histórias em quadrinhos. só para mencionar alguns exemplos possíveis. Mas não devemos enganar o estrangeiro mostrando só o que há de bom. traduzir algumas das palavras que estão usando e explicar seus costumes. etc em que ele terá que se envolver se quiser.Todos devem ser igualmente iniciados na tradição científica? 79 Iniciar-se na tradição científica é mais que aprender algumas leis. se tornar um cidadão. é conversar com seus personagens. vamos mostrar-lhe as dificuldades. É importante fazê-lo compreender e participar da vida na cidade. da economia. consideremos a visita de um estrangeiro a uma cidade desconhecida. Seremos seus guias. principalmente aqueles locais que mais gostamos e deixar o estrangeiro escolher onde quer ficar por mais tempo durante a visita. é discutir filosoficamente seus princípios e métodos. teatros. Devemos mostrar diversos locais da cidade. em letras de música. um dia. o raciocínio. É caminhar sobre sua história. Com isto não estamos dizendo que a lógica. centros culturais e os principais pontos turísticos. de política. é reconhecer seus erros.

Analogamente. souber explicar alguns fenômenos utilizando . outras formas de interação com o conhecimento que possam despertar o interesse de diferentes alunos: peças de teatro. de algum modo. contar-lhes quem são os físicos. se tiver o desejo ou a necessidade de voltar algum dia sozinho e não se perder e. montagem de experimentos. Terminadas as aulas de Física estaremos satisfeitos se o aluno valorizar os conhecimentos que lhe transmitimos. Nós. a concepção de educação como iniciação. se ele resolver fixar morada em nossa cidade ou tornar-se um de seus guias turísticos. geometria. os professores. cálculo. orientados pelos objetivos das instituições escolares.Todos devem ser igualmente iniciados na tradição científica? 80 boa lembrança do passeio. vamos mostrar-lhe as dificuldades experimentais e teóricas. além do discurso e dos textos. etc que ele precisará desenvolver se quiser. Vamos caminhar com o aluno pelas diversas áreas da Física. material de divulgação científica e explicar-lhes os principais problemas estudados pela Física. museus de Ciência. ele deve se sentir em algum momento como um físico ou um professor de Física. Devemos utilizar. principalmente aqueles que mais gostamos e que permitem maior relação com os valores que devemos trabalhar. pode ser entendida como a visita de um aluno à cidade da Física. Mas não devemos enganar ou iludir o aluno mostrando apenas exemplos didáticos simples e fáceis. na formação básica. o aluno escolher aquilo em que quer se aprofundar. mais ainda. se tornar um físico. traduzir alguns dos conceitos e equações da Física. seremos seus guias. e explicar as atividades de diferentes grupos de pesquisa. um dia. É importante fazê-lo compreender e imitar o processo de construção do conhecimento. se possível conhecer algum e explicar o que eles fazem. letras de música. e deixar. explicitar as muitas aproximações que adotamos para simplificar os problemas e indicar-lhe a destreza em álgebra.

literárias. Por outro lado. etc. no outro extremo das diferentes aptidões e vontades manifestadas pelos alunos. a Física trabalhada como tradição cultural poderá inspirar a sua utilização em ensaios críticos sobre a realidade vivenciada ou em poemas românticos ou realistas. tiver o desejo e a capacidade de ler algo mais sobre Física. em construções artísticas. conseguir utilizar a matemática para relacionar grandezas Físicas de seu cotidiano.Todos devem ser igualmente iniciados na tradição científica? 81 a Física. . A Física como tradição cultural comunica-se com um contingente variado de leitores inteligentes do mundo contemporâneo.

Nos dias de hoje. que. etc. passamos a analisar seu papel na formação básica (até o nível médio) a partir das relações que podem ser estabelecidas entre alunos e cientistas das diversas tradições culturais: físicos. conselheiros.. o jornal comenta um rapaz tão moço. geólogos. Mesmo as escolas contam. psicólogos educacionais. também. coordenadores pedagógicos. diretores. assistentes sociais. químicos.1 Considerando que nem todos devem ser igualmente iniciados na tradição científica e tendo em mente a inexistência de uma única tradição que poderíamos chamar de "a" Física. com um número crescente de "peritos": além dos professores existem os inspetores. Ao discutir esta relação estaremos analisando a função dos cientistas como intermediadores entre a sociedade e o conhecimento científico estabelecido e nos referindo a eles como especialistas ou peritos. médicos e outros profissionais que apóiam suas práticas no conhecimento científico. farmacêuticos. . cada vez mais. de outra flor que tortura.. o cientista inventa uma flor que parece a razão mais segura p’ra ninguém saber. ao seu modo e autorizados por suas 1 Trecho da letra da música "Pois é. O calor aumenta. supervisores. secretários. a relação entre os cidadãos comuns e o conhecimento científico é cada vez mais dependente de especialistas. a família cresce. o café o almoço. engenheiros. biólogos. ministros. astrônomos.2. Conhecendo os especialistas o patrão sustenta. pra que?" de Sidnei Miller.

a maneira como o Ensino deve ocorrer. implicitamente. enriquecidas e transmitidas por milhões de pessoas que estão a aprender vivendo e fazendo. bem como à comunidade a que pertenciam. um mestre" acabaram. definem e controlam. Deste modo. segundo os critérios por ele próprio estabelecidos. a educação foi transformada num bem escasso. em que "cada adulto. tal como tinham de aprender para viver e aprendiam o que quer que pudesse interessarlhes. (. durante milhares de anos. Agora. filosófica. corresponde a uma das principais causas de distanciamento entre as pessoas e o conhecimento científico. a noção de que o conhecimento científico é uma verdade incontestável.2 Uma educação dogmática. para quem viver e aprender eram sinônimos. sociológica e cultural e que desconsidera a natureza humana impregnada no saber. Antes de ser instituído o atual sistema educativo. Um Ensino de Física sem tais dimensões torna inconcebível a possibilidade de mudança científica..) os velhos tempos. que esvazia o conhecimento científico de suas dimensões histórica.Conhecendo os especialistas 83 credenciais estipulam.. poderão ter o direito de ensinar. cuja posse poderia conferir a uma pessoa o direito de lhe chamarem educada.. a educação não foi uma mercadoria escassa. a partir de noções educacionais em geral abstratas. transmitindo. O distanciamento é maior ainda ao considerarmos a . O conhecimento vem sendo tratado como um produto comercial e a figura do antigo mestre tem dado lugar à do professor entendido como um "vendedor" de conhecimentos.. Não foi o produto de algumas fábricas institucionais. só aqueles que possuírem um diploma do sistema educativo. como denuncia Majid Rahnema: as Culturas e as Civilizações foram formadas.

Stanford. quando não se percebe que a técnica não aparece por casualidade. Os próprios cientistas responsáveis por grandes mudanças na Ciência estão. . em muitos casos. Adeus à razão. Não há técnica neutra. se encontra. 16 de Abril de 1985. FEYERABEND. 3 Paulo FREIRE. Citado em Paul K. quando se tenta a capacitação dos camponeses com uma visão ingênua do problema da técnica.Conhecendo os especialistas 84 grande parcela da população que é excluída da educação (sem a formação do ensino fundamental e menos ainda do médio) no caso de nosso país. manuscrito. que a técnica bem acabada ou "elaborada". como bem compreendeu Paulo Freire: o equivoco de não ver a realidade como totalidade. Isso pode ser evidenciado pela maneira como descrevem seus próprios trabalhos e reinterpretam o trabalho de seus antecessores de forma a tornar invisível as rupturas científicas e manter o poder atribuído aos especialistas como "donos da verdade. Equívoco. contaminados pela tendência em admitir a Ciência como um conjunto de conhecimentos que aumenta continuamente em direção à "verdade". que se repete. O poder proveniente da ilusão de que a Ciência é superior às outras tradições por sua cumulatividade e sua inter-relação com o Ensino da Ciência contrário a uma noção mais ampla da realidade dentro de um contexto mais geral (histórico-socio-cultural) constitui a principal fonte do equivoco da extensão por meio da capacitação de líderes ou especialistas. por exemplo. tanto quanto a ciência de que é uma aplicação prática. 347. condicionada históricosocialmente. 34. Education for Exclusion or Partipation?. Extensão ou comunicação? p. p.3 2 Majid Rahnema. assexuada. Isto é. como já afirmarmos.

C. 71. entre os sofistas. mas propomos elementos que permitam (re)pensar o valor e o poder atribuído a eles na educação em Ciência no nível básico de Ensino. mitos e preconceitos dos debates modernos: os peritos foram algo de natural no Egito. Adeus à razão. Segundo a primeira opinião: (+A) um perito é alguém que produz conhecimentos importantes e possui técnicas importantes. e depois com Platão e Aristóteles (. na Babilônia e na Assíria. os hurritas. os fenícios e muitos outros povos que ocuparam o antigo Próximo Oriente. A primeira discussão sobre os problemas do conhecimento especializado de que há registro teve lugar na Grécia. na Grega Antiga (Atenas.). encontramos em Feyerabend uma interessante investigação da função e dos valores atribuídos aos peritos em outras culturas por estarem elas livres dos problemas.C. lideres ou especialistas na sociedade contemporânea.4 Sobre as decisões de quem deve governar a cidade e a interação dos peritos com o restante da sociedade. Os seus conhecimentos não devem ser 4 Paul K. foram formuladas duas opiniões sobre o papel dos peritos. entre os hitits. nos séculos V e IV a.) Podemos aprender com estes velhos pensadores. p.Conhecendo os especialistas 85 É importante explicitar que não pretendemos negar a importância dos peritos. o qual tem vindo a ser descoberto ao longo dos anos. FEYERABEND. . Neste sentido.. na Suméria. segundo Feyerabend. com os seus argumentos e as suas perspectivas.. Desempenharam um papel importante na astronomia e na matemática da Idade da Pedra. século V a..

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postos em causa ou alterados pelos leigos. Devem ser assumidos pela sociedade precisamente da forma sugerida pelos peritos. 5 Nesta perspectiva reis, sacerdotes, arquitetos, médicos quase nunca (ou nunca) discutiriam as suas funções ou o modo como o conhecimento que produzem interagiriam com a vida da sociedade. Na Grécia Antiga esta posição era objeto de chacota e escárnio. A segunda opinião, concebida pelos gregos sobre a função dos peritos na sociedade, se contrapunha frontalmente à primeira e os representantes dessa visão fizeram notar que:

(-A) os peritos ao chegarem aos seus resultados, limitavam a sua visão. Não estudam todos os fenômenos, mas apenas aqueles de um campo especial; e não examinam todos os aspectos dos fenômenos especiais, apenas aqueles que esporadicamente se relacionam com os seus interesses bastante limitados. Seria, por conseguinte, disparatado considerar as idéias dos peritos como 'verdadeiras', ou 'reais' (...) E, seria igualmente disparatado apresentá-las à sociedade sem terem a certeza de que os objetivos profissionais dos peritos estão de acordo com os objetivos da sociedade.6 Poderíamos nos perguntar: qual dessas duas (ou qual outra?) concepções decorrem da formação científica em nossas atuais escolas de formação básica? Ou ainda, que visão da função dos peritos predomina em nossa sociedade? Antes de esboçarmos uma resposta a estas questões, a exemplo das situações indicadas no capítulo 1 e do relato de uma professora mencionado na primeira seção deste capítulo, apresentamos, como sintoma de um problema
5

Paul K. FEYERABEND, Adeus à razão, p. 71.

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muito mais complexo, uma breve descrição de um acontecimento vivido e descrito por (ACP):

certa vez fui com minha prima levar sua filha ao médico e fiquei surpreso com o que ela muito irritada me disse após sair do consultório: "O médico me perguntou o que ela (sua filha) tinha!" e, surpreendentemente, confessou-me seu desejo reprimido de responder: "não é o senhor que é o médico? Como posso eu saber o que ela tem? Se soubesse não precisaria estar aqui!". Fiquei em silêncio e me perguntei o que teria acontecido se ela respondesse dessa forma ao médico? E, porque não o fez?

Esse "medo" perante os especialistas (no caso, indicado pela repressão em se opor ao médico) e a incompreensão dos procedimentos técnicos elementares aos quais somos submetidos em nosso convívio diário (no caso, o fato do diagnóstico médico se fundar no histórico do paciente mais que em resultados de testes ou exames) são os sintomas que nos permitem responder as questões formuladas recorrendo à primeira concepção (+A) da relação entre os peritos e a sociedade apresentada pelos gregos antigos. Ou seja, parece que nos tempos atuais os peritos, como os médicos ou os biólogos com os quais estão relacionados, por exemplo, produzem conhecimentos; seus conhecimentos não são postos em causa, criticados, questionados ou alterados pelos leigos; os conhecimentos científicos parecem alterar as vidas das pessoas em função de interesses que não beneficiam a maioria da sociedade, os conhecimentos são assumidos pela sociedade precisamente da forma sugerida. Esse exemplo ilustra

6

Paul K. FEYERABEND, Adeus à razão, p. 71.

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mais uma vez o autoritarismo presente em nossa sociedade e na educação contemporânea. O pior é admitir as recomendações dos peritos sem compreender minimamente seus significados. Em nossa sociedade contemporânea é cada vez mais dessa maneira que os conhecimentos da Ciência e os cidadãos comuns se relacionam,

os cidadãos recebem a mensagem dos peritos e não de um pensamento autônomo. É o que atualmente se considera "ser racional". Partes cada vez maiores da vida dos indivíduos, famílias, [escolas,] aldeias, cidades estão a ser ocupadas pelos especialistas. E breve, uma pessoa não poderá dizer "estou deprimida" sem ter de ouvir a objeção, "com que então acha-se psicólogo?" Kant escreveu há muito tempo: "Se eu tiver um livro que deduza por mim, um clérigo que tenha consciência por mim, um médico que decida a minha dieta e assim sucessivamente, não preciso de me preocupar comigo. Não preciso pensar, basta que pague - os outros prontamente aceitarão a fastidiosa tarefa por mim."7

Estaria desse modo terceirizada a experiência de viver?

Uma educação como iniciação, apoiada na noção de Ciência como tradição cultural e na concepção (-A) da função dos peritos na sociedade, implica que não devemos mostrar tão somente as grandes conquistas da Ciência sem contrapor a elas suas eventuais conseqüências ruins; devemos valorizar os personagens, peritos, especialistas ou grandes nomes da Ciência enfatizando sua

7

Paul K. FEYERABEND, Adeus à razão, p. 21.

Conhecendo os especialistas 89 natureza humana. como em política. mas generalizam rapidamente para toda uma nova maneira de enxergar e se relacionar com o mundo e a vida. É importante valorizar as citações de Einstein. e sempre estando atentos para o domínio de validade dos conceitos da Ciência. por exemplo. parecem adquirir percepções instáveis.. a concepção implícita de que os especialistas. são os donos da "verdade" castra de imediato essa incerteza e instabilidade produzida pelo conflito entre . Parece-nos que não é dessa maneira que a educação ocorre nas escolas de formação básica. Esses momentos de instabilidade são condição necessária para o aprendizado e devemos respeitá-los não impondo nossas próprias opiniões como "verdades científicas" mas deixando sempre a eles as escolhas finais. por exemplo. por exemplo. incluindo ai o professor ou o autor do livro didático. economia ou estratégia militar.. suas incertezas. denunciando seus conflitos. É importante para um cidadão comum entender. Ao enfrentarem conflitos gerados por novos conhecimentos. mas somente no que diz respeito aos seus trabalhos em eletrodinâmica ou relatividade e não considerá-lo um "gênio" em todo e qualquer assunto. Ao contrário. que as leis da Física ou os princípios da Biologia são fundamentalmente e estruturalmente diferentes das "Leis do livre Mercado" ou dos "princípios da nova ordem mundial". Não só encaram o conflito em relação ao conhecimento que estão estudando. suas angústias. Uma educação científica geral apoiada nesses princípios possibilita aos alunos distinguir e limitar as noções estudadas aos domínios em que são formuladas. como um grande físico. os estudantes.

Levantei a mão e ela disse-me para ficar quieto. . em minhas aulas.Conhecendo os especialistas 90 conhecimentos e "resolve" autoritariamente de forma antecipada e dogmática todas as escolhas importantes. .pensa o aluno. muitas vezes. Ao apresentarmos novas concepções. mas ele é o professor. de certo modo. conceitos ou conhecimentos aos estudantes nunca conseguimos nos libertar totalmente da impregnação de uma verdade potencial embutida em nossos argumentos.o que o professor diz parece absurdo. Ao final de longos trinta minutos a professora irritada comunicou-nos que a aula havia sido um "blefe" e as coisas que ela disse eram absurdas frente ao que vínhamos estudando. Aqui cabe menção a outra ilustrativa situação de experiência pessoal. Mas não é tarefa simples abdicar de fazer as escolhas pelos outros quando estamos de posse da autoridade conferida à função de professor. recorrem a livros e outros 8 Por exemplo. ficam um pouco mais livres e atentos para analisar minhas idéias. Os alunos são levados sempre a desconfiar do que eu estou dizendo e. e começou a explicar coisas sobre a ciência que me pareceram muito estranhas e contraditórias. pois ela era a professora que eu mais gostava. Atualmente em minhas aulas incorporei essa atividade8 (incluir defesas absurdas e incoerentes em algumas de minhas exposições) o que me parece trazer bons resultados. um pouco mal humorada. Lembro-me do imenso esforço que realizei naquele dia para acompanhar as idéias expostas a ponto de ficar com uma tremenda dor de cabeça. é melhor ficar do lado dele! . ao incluir o argumento da torre na discussão sobre a imobilidade da Terra defendo enfaticamente que a Terra não se move contrariando a informação corrente sobre a mobilidade da Terra. logo deve ser verdade. Pena que alguns. descrita por ACP: lembro-me que quando estava na quarta série do antigo primeiro grau uma professora de ciência entrou certo dia em nossa classe. Fiquei surpreso e angustiado.

.9 Quanto à escolha de valores. Será incapaz de descobrir que o apelo da razão a que cede tão prontamente não passa de uma "manobra política". permite evitar que: tal como um cachorro bem ensinado obedecerá ao seu dono por mais confuso que se sinta e por mais urgente que seja a adoção de novos critérios de comportamento. p. mas a maioria dos alunos parece gostar do jogo. Mostrar a eventual falibilidade dos especialistas e peritos e tentar diminuir a rigidez da autoridade do conhecimento durante a educação científica no nível básico de Ensino possibilita uma maior distinção entre a força lógica e o efeito material do conhecimento científico. É preciso lembrar que a Física está 9 Paul K. observará os modelos de argumentação que aprendeu. ou seja. para ampliar a relação entre a concepção social de especialista e a educação científica. FEYERABEND. atitudes. conteúdos e elaboração das atividades a serem objeto do Ensino de Ciências e da Física na escola básica. Contra o Método. e será incapaz de se dar conta de que aquilo que considera como a "voz da razão" é apenas um efeito causal posterior do Ensino que lhe foi ministrado. O esforço de convencê-los com argumentações recorrentes e utilizar a Física para esse processo. cabe ainda acrescentar outros elementos da dimensão externa ao conhecimento científico propriamente dito.Conhecendo os especialistas 91 professores mais "honestos" para resolver meus embustes. além de desenvolver um forte senso crítico corresponde a uma interessante estratégia de Ensino. aderirá a esses modelos por muito confuso que se sinta. do mesmo modo um racionalista [ou um aluno que se prenda à razão do professor] bem ensinado obedecerá à imagem mental de seu "mestre". 32.

com a realidade da comunidade a que se destinam. mas também. a Química e as outras disciplinas Humanas e Sociais e mais ainda. Muito mais adequado que um conjunto qualquer de valores. por esse motivo. parâmetros. ou a incorporação de regras . objetivos e outros parâmetros para a organização da educação escolar devem dialogar sempre. por exemplo. as propostas de especialistas em educação não se ajustarão ao contexto de uma instituição escolar específica e. Toda instituição de Ensino está imersa em uma comunidade e seu contexto sócio-cultural que deve ser explicitado e discutido por todos os agentes e atores do processo de Ensino. Também um monitoramento rigoroso ou uma sistematização exaustiva do processo educativo ou ainda a limitação a um sistema pedagógico rígido pode matar as reais oportunidade de Ensino. os detalhes finais de como ensinar a resolução de problemas em matemática. em última instância. diretores ou qualquer dos outros especialistas da educação definir o que se deve ensinar. serão artificiais e enganadoras. conteúdos. a comunidade em que a escola está inserida. o ataque ao World Trade Center ou a inundação de parte da escola pelas chuvas recentes? Quem melhor para decidir. coordenadores.Conhecendo os especialistas 92 presente junto com a Biologia. que não compete somente aos professores. ou como se deve ensinar. Caso contrário. Os currículos. e fundamentalmente. ditados de forma autoritária sobre os professores é a definição pela escola de seu projeto político pedagógico envolvendo não só os professores. orientadores educacionais e outros agentes da escola. planejamentos. Que fazer quando um aluno traz uma questão não considerada no planejamento das aulas mas de fundamental relevância para a continuidade de estudos de um determinado assunto? Ou como agir frente a um acontecimento inesperado seja. em primeiro lugar.

das necessidades de seus alunos. ao jardineiro cabe cuidar do jardim. muitas vezes conflitantes. mas sempre devem considerar as peculiaridades da situação em que estão atuando. "modelos pedagógicos gerais" ou "parâmetros curriculares nacionais" para a organização de uma dada aula sem levar em conta as reais necessidades dos alunos que compõem uma classe dentro de uma determinada escola? A prática de cada especialista tem suas peculiaridades próprias no contexto social e institucional no qual está inserido. nenhum modelo de Ensino pode produzir padrões e elementos estruturais absolutos que sirvam a todas as situações de Ensino. por exemplo. por várias maneiras diferentes de resolver as contas. E por que não aproveitar o procedimento trazido pelo aluno e estimulá-lo a apresentar ao restante da classe? Existirão referenciais absolutos que justifiquem “teorias educacionais oficiais”. e muitas vezes o é. a função das pesquisas em educação não é a de estabelecer um referencial preciso sob o qual o professor deve guiar-se rigidamente ou limitar sua prática de atuação. quando confrontados com um problema concreto em sala de aula. da instituição a que pertencem.Conhecendo os especialistas 93 gramaticais na escrita. Ao médico cabe curar e orientar para a saúde. os professores podem se servir de diferentes pesquisas em educação. . ao professor cabe educar e ensinar. Mas também em educação. Em nossa concepção. pode ser surpreendido. ou a contextualização histórica de um fato se não os professores envolvidos diária e arduamente nesta tarefa? Um professor de matemática ao ensinar subtração. e assim por diante. não estamos propondo a eliminação dos especialistas.

sentir-se-ão impelidos a pôr de lado as "teorias educacionais da moda" e os "princípios psico-pedagógicos rígidos" e começar a pensar em formas próprias. parâmetros curriculares gerais ou pretensas teorias educacionais modernas. deste modo. para as dificuldades de que só eles poderão decidir como enfrentar. em muitos casos. enriquecer os programas das licenciaturas.Conhecendo os especialistas 94 É preciso ainda garantir a formação e o acesso permanente à informação oferecidos aos professores. resgatar os valores socialmente estabelecidos para a escola. o melhor que um trabalho de investigação em Ensino de Ciência pode fornecer para os professores é explicitar contextos institucionais. E. permitir fórum de debate entre professores de áreas afins ou simplesmente garantir a assinatura de revistas e jornais pela biblioteca escolar são "medidas pedagógicas" significativas. mais criativas. os professores e os outros atores do processo educativo ficarão sensibilizados para a riqueza desse processo e as peculiaridades do Ensino de Ciência. humanizantes e determinadas por uma proposta político pedagógica coletiva. demonstrar a complexidade das relações de Ensino e prepará-los. Assim. Se quiserem promover avanços e transformar seu modo de Ensino. organizar exemplos históricos. Ao estudarem nossos trabalhos teóricos ou experimentais. A educação científica no âmbito escolar deve representar uma componente importante de um projeto político pedagógico livrando-se da rigidez de procedimentos pedagógicos pré determinados. ao ouvirem a nossa história. apresentar casos estudados que contenham processos diversos. e contribuir para envolver a comunidade escolar na escolha do modo de trabalhar. é somente assim que podemos ajudá-los. enumerar atividades práticas. desde que sejam respeitados certos valores sócio-culturais discutidos e estabelecidos no âmbito da .

Para que eles. Esse modo de organizar a orientação de professores pode afligir alguns teóricos e especialistas da educação por estarem preocupados em melhorar a pretensa eficácia dos procedimentos de ensino. de acordo com a proposta político pedagógica das instituições que compõem. possam a cada instante decidir. A função dos especialistas em educação. mas esta aflição não é legítima da perspectiva dos professores e de outros atores educacionais nas instituições de ensino que são aqueles que têm as reais condições de. em cada aula. para cada situação. decidir a forma de ensinar. é disponibilizar um máximo possível de recursos.Conhecendo os especialistas 95 instituição de Ensino a que pertence e desde que esta instituição de Ensino esteja de acordo com uma política de conscientização crítica. os professores. coordenadores ou assistentes pedagógicos no que se refere as práticas em sala de aula. como representantes de tradições culturais oriundas do saber que lhes cabe ensinar. e. alunos e a comunidade. diretores. . libertação ideológica e valorização da cultura agregando ou questionando valores representativos da sociedade na qual ela se insere. em cada momento de uma aula. experiências e espaços de troca entre professores.

Obediência versus Ousadia na formação científica O entendimento é capaz de ser instruído e abastecido por regras. algumas perspectivas educacionais para a formação em Física no nível Superior de Ensino. os modelos epistemológicos e principalmente com o convício na prática de diferentes grupos de pesquisa. Tendo em mente esses elementos. Insistimos no fato de considerarmos que a formação desses profissionais só pode ocorrer em um ambiente de pesquisa com uma máxima diversificação de grupos estabelecidos e 1 Immanuel KANT. mas somente exercitado. mas a faculdade de julgar é um talento particular que não pode ser ensinado. já indicamos algumas peculiaridades de sua atuação como tal.3. passamos a analisar a formação científica dos especialistas em Física. . especialmente no que se refere ao conflito entre aprender e obedecer às regras metodológicas nas quais são inseridos ao longo de sua formação e duvidar e ousar ou questionar essas mesmas regras e preceitos. Na seção anterior ao discutir a função do "especialista" na sociedade contemporânea. nesta seção. p. na educação básica e no Ensino de Física. Crítica da razão pura.1 Passamos a analisar. 102. Estamos interessados na relação do estudante de Física do nível superior (aspirante a físico ou a professor de Física) com os métodos científicos.

de exemplos apropriados. ao chegarem à escola trazem conhecimentos adquiridos em outras tradições de sua experiência de vida e das relações desenvolvidas de todo seu convívio no mundo que o cerca. p. Nas atividades de sala de aula e de estudo individual surgem conflitos entre o conhecimento trazido pelo estudante e o conhecimento da Física .Obediência Versus Ousadia na Formação Científica 97 atuantes possibilitando.19 . a vivência. ou seja. 2 Com essa ressalva estamos restringindo nossa discussão à formação realizada nas universidades que associam pesquisa e ensino em oposição às muitas "escolas de ensino superior" que têm surgido recentemente no Brasil. corroborada. Nas situações de conflito costuma-se simplesmente ignorar o conhecimento prévio do aluno em favor do saber científico. o conhecimento científico adquirido na escola é apresentado. Desse modo. antes dos estudantes cederem à autoridade do discurso do professor. o debate e a discussão da Física e de seu Ensino entre os estudantes.pelo menos nas séries iniciais. 3 Alberto VILLANI. Ensino de Física: dos fundamentos à prática. É o que normalmente acontece no Ensino de Física. abstrata e sistematizada.3 Com uma concepção de conhecimento definitivo e autoritário ficam eliminadas algumas dimensões importantes da constituição e natureza do saber científico.. conforme denuncia Villani: . na melhor das hipóteses. assim. com a autoridade do professor e do livro-texto.2 Já mencionamos anteriormente que os estudantes não são conceitualmente neutros. a Física escolar acaba por ficar alijada das dimensões filosófica e histórica que conferem à Ciência o caráter de tradição cultural. numa forma já final..

Ensino de Física: dos fundamentos à prática.4 Manter o confronto entre as concepções prévias dos estudantes. Este ponto também é discutido por Villani ao sugerir que essas idéias não têm somente um papel negativo. elas têm também um valor teórico. além de sua importância didática. sem uma "vitória final" de uma sobre a outra. p. implicar em uma completa superação de uma teoria sobre a outra. 5 Alberto VILLANI. e as noções científicas. aprendidas pelos alunos antes do estudo escolar. auxiliando às vezes a solução rápida de problemas cotidianos. dessas duas visões de mundo serem ainda hoje totalmente equivalentes como na dualidade onda-partícula.5 4 Este exemplo será analisado em detalhes na seção seguinte. de acordo com os princípios da mecânica relacional.Obediência Versus Ousadia na Formação Científica 98 Encontramos várias situações na história da Ciência em que o confronto entre idéias concorrentes ao invés de inibir permitiu uma interação construtiva e contribuiu para o avanço da compreensão Física dos fenômenos envolvidos. outro exemplo é a luta entre as visões heliocêntrica e geocêntrica do mundo. Os cientistas oscilaram (ou saltaram?) entre uma descrição e outra em diferentes períodos históricos sem. Um exemplo interessante foi a oposição entre as teorias ondulatória e corpuscular para a natureza da luz. Além de ter um valor prático. como possíveis alternativas ao saber científico atual. na medida que expressam de maneira rudimentar intuições básicas sobre a natureza que poderão substituir as imagens básicas atualmente utilizadas pela ciência. Refere-se ao importante resultado. contudo.se concebida como uma tradição cultural: a constatação dessas idéias prévias serem as fontes iniciais de intuições para o conhecimento científico. possui um valor fundamental para a vida e ainda para a própria Ciência .23 .

ao ser interrogada sobre o que era a luz. a idéia de que a luz. e com boas razões. muito . respondeu: A luz é como a chuva. 6 A partir da análise desse caso. é constituída de "pingos" de energia. Villani cita um exemplo muito interessante de uma criança de quatro anos que. como faz notar ao afirmar que: Certamente no final do século passado um professor teria achado esta idéia poética [a da luz em forma de pingos]. Villani propõe uma postura mais equilibrada frente aos conflitos de conhecimentos em sala de aula ao atribuir um valor precioso aos conhecimentos prévios dos alunos. no começo deste século [-referese ao séc. Entretanto. Essas idéias são de grande importância em situações em que existam conflitos com o saber científico. em última análise. ou mesmo de fragmentos de conceitos da Física difundidos nos ambientes familiar e outros espaços sociais freqüentados pelos alunos. mas muito distante e oposta à idéia científica reinante de que a luz é uma onda eletromagnética continua. Para esclarecer esse aspecto positivo da sobrevivência do conflito entre concepções prévias e teorias científicas para o desenvolvimento da Ciência. Quando identificados devem ser aprofundados pelos alunos de modo a serem considerados e não ignorados e de alguma forma respeitados durante o Ensino. feita de pingos muito pequenos que passam por todos os buracos. XX] Einstein [que poderia ter sido aquele menino com sua visão poética da natureza] propôs. mesmo os mais finos.Obediência Versus Ousadia na Formação Científica 99 Cabe ressaltar que as noções trazidas pelos alunos não surgem naturalmente e são fruto de conhecimentos de outras tradições.

ou que não devem ser avaliados quanto ao aprendizado do saber científico. Caberá sempre. Ensino de Física: dos fundamentos à prática. p. p. ao estudante. que eles precisam aprender a conviver com o conflito entre suas concepções prévias e as noções 6 Alberto VILLANI. A formação científica não pode eliminar as concepções prévias dos estudantes mas.7 A idéia de que as concepções prévias têm algum valor para a Ciência e sua associação com a compreensão de que as verdades científicas são provisórias constitui o elemento principal da análise que estamos desenvolvendo nesta seção. naturalmente existentes de forma latente e intuitiva ou que surgiriam em manifestações espontâneas..24. 7 . precisa estimular o aprendizado da Ciência a partir do esclarecimento dessas concepções em debate "aberto" com as noções da Ciência.23 Cf: Alberto VILLANI. capazes de entrar no interior dos materiais e interagir com seus átomos (.. Não estamos com isso propondo que os estudantes não devem aprender Ciência e ficar com seus próprios modelos. o progresso científico se deu retomando imagens simples do passado [e de que a ciência é uma tradição histórica e não uma verdade acabada]. ao contrário. muitas vezes. a tarefa de optar pelo saber científico em detrimento de suas intuições prévias tornando-se assim senhor do seu saber e não (re)transmissor de idéias alheias. Ensino de Física: dos fundamentos à prática.) a percepção de que muitas das idéias espontâneas [melhor dizendo. e não ao professor. Utilizamos a expressão concepção prévia para os conhecimentos acumulados pelos alunos antes do início do ensino escolar de ciência.Obediência Versus Ousadia na Formação Científica 100 pequenos. concepções prévias] sobre o mundo físico constituíram a base inicial do conhecimento científico do passado e de que. poderá ajudar professores e estudantes a ter uma posição mais equilibrada sobre o valor do conhecimento espontâneo [ou conhecimento prévio]. mas ao contrário. ao invés de expressões como conceitos intuitivos ou concepções espontâneas por considerar que estas últimas transmitem a idéia de conhecimentos do mundo natural passíveis de serem inferidas de experiências puramente empíricas do cotidiano.

ou outros.Obediência Versus Ousadia na Formação Científica 101 científicas. a coragem e a certeza. que devem ser avaliados e se avaliarem. Conceber a formação científica como jogo entre obediência e ousadia dá maior fôlego aos estudantes naqueles momentos em que atuam nas tarefas mais chatas e entediantes que antecedem a compreensão da Física. Bachelard. para assim propiciar um refletir sobre esse processo. e ainda. . superar a indiferença para manter o entusiasmo. compreender as noções científicas para imprimir-lhes nossas concepções. Laudan. ou pelo menos estimular. de maneira a perceber a forma como suas concepções permeiam as respostas dadas aos problemas propostos pelo professor e pela vida. imitar para desenvolver a criatividade. é fundamental a apresentação de modelos epistemológicos. Por isso. quando se estabelece contato com uma comunidade diversificada de pesquisadores. como os de Popper. um aprofundamento dos conceitos estudados. em algum momento da formação (melhor seria ao longo de toda ela). o medo e a dúvida para identificar a paixão. Além da natural inserção neste processo de duas faces. estar atento para aproveitar as oportunidades. Kuhn. admitir o ódio. consideramos fundamental ao longo da formação em Física um refletir sobre esse processo de inserção. obedecer para saber ousar... de modo a compreender melhor a ambas. Na formação científica é preciso considerar as duas "faces do jogo": conhecer o "outro" para reconhecer o "eu". A possibilidade latente de transgredir as regras acrescenta um "tempero" especial permitindo manter o entusiasmo frente às tarefas corriqueiras. Suspeitar que os erros e dificuldades do aprendizado são conseqüências do conflito entre uma intuição mais profunda sobre a natureza e aquela oferecida pela Física pode facilitar.

quando possível. teria ocorrido.Obediência Versus Ousadia na Formação Científica 102 Enfatizamos a importância de incluir aspectos da história (inclusive com teorias que foram tradicionalmente superadas pela Ciência estabelecida). Um maior entendimento do conteúdo de uma dada teoria científica só pode ser obtido com o seu confronto com outras teorias. O objetivo da formação científica não pode ser o de destruir as concepções prévias dos estudantes sobre o mundo físico chocando-as autoritariamente com as idéias da Física. A resistência oferecida pelo grupo frente às idéias individuais gera o primeiro "campo de batalha" que novas teorias têm de enfrentar se quiserem substituir os padrões científicos amplamente estabelecidos. seminários e debates da formação em Física. das filosofias da Ciência (mais de uma para que não se torne uma diretriz dogmática) e. religioso. Nessa ocasião. . ainda quando estudante de graduação. O professor André Assis disse em um seminário realizado na USP ter sido estimulado à busca de uma mecânica alternativa pela incompreensão do referencial sobre o qual se descrevia a força de Lorentz. segundo ele. Neste sentido é que entendemos as idéias de Feyerabend contra a excessiva simplificação do Ensino das Ciências com a eliminação de seus aspectos histórico. e as teorias para o contraste devem ser procuradas onde quer que estejam disponíveis. Enfatizamos que a existência de grupos de estudos ou pesquisa e a "obediência" ao professor ou orientador é indiscutivelmente importante para a formação científica. dos debates atuais sobre os limites e as fronteiras do conhecimento científico (contemplando propostas alternativas ou polêmicas)8 em aulas. serão resolvidas as maiores dificuldades entre os conflitos do conhecimento e outras ainda surgirão em função do reconhecimento mútuo de 8 Cabe mencionar aqui que parece ter sido esse o caso quanto à mecânica relacional. tanto no presente como no passado. metafísico e humano. Isso.

Mas é preciso. antes de questionar com maior voracidade uma noção científica. esperamos ter completado. concepções prévias e noções científicas. ao desenvolver novas idéias. é preciso compreendê-la em profundidade ou contar com o respaldo de quem já tenha uma firme reputação e experiência estabelecida. além de tenacidade. pois. como discutimos na segunda seção do capítulo anterior. Somente concepções capazes de resistir ao debate interno ao grupo sairão para o confronto com outros grupos. Enfim. . Ilustraremos as idéias aqui apresentadas por meio do estudo da noção de inércia aplicada ao problema do movimento da Terra.Obediência Versus Ousadia na Formação Científica 103 idéias entre os membros do grupo. Nestes últimos casos tornar-se-ão importantes elementos como a propaganda e a utilização de procedimentos contra-indutivos. a visão de Ciência como tradição cultural e suas implicações também para o Ensino em nível superior. a partir da análise do conflito entre obediência e ousadia. ter paciência e cautela.

Dezembro de 2002 .O Problema da (I)mobilidade da terra Alexandre Custódio Pinto João Zanetic (Orientador) IV Capítulo da Dissertação: Tradição Cultural.SUBSÍDIO IV . Contraste entre Teorias e Ensino de Física. apresentada ao Instituto de Física e à Faculdade de Educação como parte dos requisitos necessários à obtenção do título de mestre em Ensino de Ciências .Modalidade Física.UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO INSTITUTO DE FÍSICA E FACULDADE DE EDUCAÇÃO TEXTO .

chamado Nascente ou Oriente. um esforço de evitar pré-concepções. a realização das atividades sugeridas. Grupos de estrelas fixas associadas. explorando as muitas formas possíveis de responder à questão do movimento da Terra: A Terra se move? Como podemos nos certificar? Apresentamos no texto que segue várias concepções conflitantes sobre essa questão. elas giram todas juntas ao redor da Terra e por isso em seu conjunto foram batizadas de estrelasfixas (em observações modernas verifica-se que estas estrelas não são exatamente fixas entre si). A Terra se Move? . Para isso será preciso. Em um período complementar ao dia observamos a noite. É importante entendermos juntos cada uma delas. com um pouco de (i)mobilidade da Terra – (i)mobilidade da Terra – (i)mobilidade da Terra 1. Ao observarmos esse movimento das estrelas não descobrimos a princípio nenhuma modificação nas posições de uma estrela em relação às outras. Vamos lá? O Sistema Geocêntrico de Mundo Durante o dia ao olhar para o céu observamos o Sol nascer de um lado. a realização das pesquisas e a leitura dos textos sugeridos para aprofundamento. ou seja. No lugar do Sol são as estrelas que navegam no céu do Nascente ao Poente.105 Vamos juntos fazer uma viagem pelo Universo da Física. mover-se por sobre nossas cabeças e ao final da tarde se por do outro lado do céu na região chamada de Poente ou Ocidente. além da leitura.

quando realizamos medidas do céu a partir da Terra (Astrometria e Mecânica Celeste). propor o mais "simples" dos sistemas de mundo: o Geocentrismo. para a localização em alto mar utilizase o movimento das estrelas com o auxílio de mapas astronômicos. é muito conveniente adotar um sistema de coordenadas em que nós estamos sobre a Terra e juntos com ela em repouso no centro do Universo (Observação Topocêntrica). Esse movimento em sentido contrário ao conjunto das estrelas-fixas é chamado de movimento retrógrado. em determinadas épocas do ano. Noite após noite observamos o conjunto das estrelas-fixas aparentemente girarem ao redor da Terra. Há. algumas "estrelas" que não obedecem de igual modo esse movimento noturno nos céus e foram batizadas de "astros errantes" ou "planetas". Todas essas observações ao longo de milênios preocuparam os homens e os levaram a especular sobre a estrutura do Mundo. ainda hoje. chegam até a deslocarem-se no céu em sentido contrário. parece razoável. formaram o que chamamos de constelações. Em alguns casos. inicialmente. (i)mobilidade da Terra – (i)mobilidade da Terra – (i)mobilidade da Terra . a Terra ocupa uma posição central no universo e todos os corpos giram ao seu redor. Segundo o Geocentrismo. no entanto. A descrição geocêntrica não é a única possível. além de não acompanharem o movimento das outras estrelas. Por exemplo. Os planetas. Essa proposta foi sistematizada pelo Grego Ptolomeu no segundo século depois de Cristo.106 imaginação. Considerando que observamos nitidamente o movimento do Sol de dia e das estrelas à noite em torno da Terra.

Por exemplo. De igual modo. observamos as estrelas aparentemente se deslocando no céu entre o Nascente e o Poente. como sabemos. Ele parece nascer de um lado (Nascente). passamos a considerar o Sol parado e a Terra girando ao seu redor.107 O Sistema Heliocêntrico Quando estamos em um veículo que se move com velocidade constante (um trem. praticamente evitamos o movimento de vai- (i)mobilidade da Terra – (i)mobilidade da Terra – (i)mobilidade da Terra . pessoas. postes e tudo o mais que está à beira da estrada se deslocar da frente para trás do veículo. é a Terra que está girando. mover-se por sobre nossas cabeças e ao final da tarde se pôr do outro lado do céu (no Poente). no caso da determinação da órbita dos planetas. Também à noite. casas. e. uma carroça. por esse motivo. A concepção heliocêntrica do mundo permite para alguns problemas simplificar bastante a descrição do movimento. constatamos que esse é somente um movimento aparente. Sabendo que estamos em um veículo. é que observamos esse movimento aparente do conjunto das estrelas. sabendo que a Terra se move. ou seja. No entanto. nos acostumamos a utilizar a observação do movimento dos objetos externos como indicador de que nós é que estamos nos movimentando. etc) observamos árvores. para as observações do movimento das estrelas e do Sol. como no caso do movimento das árvores que observamos dentro de um carro em movimento. um automóvel. podemos ainda levar em conta uma segunda concepção de mundo com uma descrição um pouco mais abstrata: o sistema Heliocêntrico do Mundo. Durante o dia ao olhar para o céu observamos o movimento aparente do Sol. Mas.

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e-vem no céu (movimento retrógrado). No sistema heliocêntrico, a Terra não ocupa uma posição central no universo. Essa posição privilegiada passa a ser ocupada pelo Sol. Esse sistema foi aprimorado pelo polonês Copérnico, no

século XVI, que se inspirou nas concepções de antigos gregos, dentre eles Aristarco, e do cardeal medieval Nicolau de Cusa.

Velocidade de rotação cinemática

A partir das observações astronômicas medimos o período (T) de um dia como sendo de aproximadamente 24 horas (86.400 segundos) e assim podemos calcular a rotação cinemática da Terra (ωk):

ωk =

2π ≈ 7 × 10 −5 s −1 T

Esse cálculo vale tanto para o sistema Geocêntrico como para o Heliocêntrico, com a diferença de considerarmos a rotação das estrelas-fixas ou da Terra respectivamente. Essa velocidade é denominada cinemática por ter sido obtida apenas a partir das posições e dos tempos ocupados pela Terra. Além da rotação relativa entre a terra e o conjunto das estrelas-fixas conhecida desde Ptolomeu, hoje em dia, dispomos de duas outras formas de observar a rotação cinemática da Terra e, conseqüentemente, obter o valor de ωk: a rotação da Terra em relação ao conjunto de Galáxias distantes e a mais moderna das rotações cinemáticas para a Terra, sua rotação em relação à radiação cósmica de fundo - CBR (sigla de Cosmic Background Radiation).

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A radiação cósmica de fundo é bastante isotrópica, isto é, ela é igualmente distribuída em todas as direções do céu. Mas, como a Terra gira em torno de si mesma, segundo uma concepção heliocêntrica ampliada, ou o universo como um todo responsável pela radiação, gira em torno da Terra, segundo a concepção geocêntrica, surgem desvios Doppler que podem ser detectados e medidos para a determinação de ωk.

Equivalência cinemática entre os sistemas de mundo

Nenhuma das quatro formas de medir o movimento de rotação da Terra (movimento relativo em relação ao Sol, movimento relativo em relação às estrelas-fixas, movimento relativo em relação ao conjunto das Galáxias distantes e movimento relativo em relação à radiação cósmica de fundo) permite escolher entre os sistemas heliocêntrico ou geocêntrico do mundo. O geocentrismo, o heliocentrismo ou qualquer outro sistema que se baseie apenas em grandezas cinemáticas são equivalentes para descrever a aparência do movimento dos céus. Não é possível responder a questão da (i)mobilidade da Terra a partir de descrições astronômicas puramente cinemáticas. Assim, verificamos que não é possível resolver o problema da (i)mobilidade da Terra a partir das observações do movimento aparente das estrelas-fixas ou de outra descrição cinemática e astronômica. Escolher entre o sistema geocêntrico e o heliocêntrico, tendo por base somente estas observações, é mera questão de gosto, ou de simplificação dos dados. Até aqui não há definição para a resposta do movimento da Terra.

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2. Ciência, Religião, Mitos e Lendas (i)mobilidade da Terra – (i)mobilidade da Terra – (i)mobilidade da Terra

Vamos explorar uma segunda forma de responder a questão do movimento da Terra, a partir da realização de uma atividade de pesquisa.

Com o propósito de investigar as mais diferentes fontes de informação possíveis, sugerimos uma atividade de pesquisa e estudo. Essa atividade será tanto melhor quanto mais pessoas puderem participar e quanto mais fontes disporem.

1) Busque em fontes não científicas (folclóricas, religiosas, místicas, lendas, contos, letras de música, textos literários, tradições indígenas, ficções científicas, etc...) informações que ajudem a responder a questão do movimento da Terra. Além das respostas procure identificar quais são seus pressupostos, ou seja, em que se baseiam as informações e a forma como foram obtidas.

2) De posse das informações organize-as em grupos. Primeiro, quanto à resposta propriamente dita (a Terra move-se ou não?); a seguir, quanto à forma como foi obtida a resposta à questão do movimento da terra nas fontes pesquisadas (observação, experimentação, analogia, revelação, etc).

3) Troque suas informações, relate e registre suas impressões sobre o maior número possível de respostas disponíveis.

4) Guarde sua produção e reveja-a durante e ao final da leitura deste texto.

.. Canção da Janela Aberta Passa nuvem. reproduzido a seguir. Cidade Maldita que lá se vai o teu Poeta. navega. E o quarto. de Mario Quintana. identificando as estrofes que se referem ao movimento da Terra ou das Estrelas em torno dela. Adeus para sempre. Amigos. Deito-me ao fundo do barco.. Vou sepultar-me no Céu!. Sem mais cuidados na terra.. passa estrela.. Fico olhando para o Céu.. assim.... pela noite Imensa e triste. Passa a lua na janela.111 5) Aprecie o poema Canção da Janela Aberta. (i)mobilidade da Terra – (i)mobilidade da Terra – (i)mobilidade da Terra .. Que silêncio faz o Céu! Adeus.

A Terra está parada no centro do Universo? Conhecer episódios da História da Ciência nos permite investigar a origem do modo como atualmente a Ciência concebe seus conceitos e responde suas grandes questões. utilizado pelos ptolomáicos para justificar o repouso do nosso planeta. que minou as forças dos defensores da concepção geocêntrica do mundo. à luz das concepções aceitas atualmente. como veremos mais adiante. Mais que entender uma noção científica. Com o intuito de ilustrar um desses argumentos contrários ao movimento da Terra. Os aristotélicos desenvolveram sofisticados argumentos contrários ao movimento da Terra. Era uma física altamente refinada e fortemente apoiada em dados empíricos. totalmente coerentes com a visão reinante em sua época. a física aristotélica. Os argumentos contrários ao heliocentrismo não foram resolvidos em confrontos lógicos e racionais.112 Passamos a estudar um argumento histórico favorável à resposta de que a Terra não se move. Ao contrário do que costuma ser difundido. (i)mobilidade da Terra – (i)mobilidade da Terra – (i)mobilidade da Terra 3. defendida à época de Galileu. não era em nada simplista. é preciso fazer o esforço de se colocar no lugar dos personagens e no tempo em que ela se originou para compreendê-la de forma mais ampla e aceitar sua legitimidade. Eles foram vencidos pela propaganda de uma nova ciência. descrevemos o Argumento da Torre. O Argumento da Torre . Não podemos simplesmente. interpretar de forma parcial ou desrespeitar os escritos dos filósofos geocentristas que se opuseram à imposição do sistema heliocêntrico do mundo.

p. Segundo essa idéia. a pedra não se desvie durante seu movimento de queda. será preciso aceitar que a Terra não está em movimento.126) Esse argumento propõe um experimento que corresponde a deixar cair do alto de uma torre ou prédio uma pedra e verificar a que distância da linha vertical a pedra se desvia para o lado leste. é preciso responder com convicção a pergunta: onde a pedra realmente cai? (i)mobilidade da Terra – (i)mobilidade da Terra – (i)mobilidade da Terra . sendo transportada pelo girar da Terra. convenceu muitas pessoas à época dos geocentristas. ou seja.113 O Argumento da Torre: a observação mostra que os corpos graves caindo de cima tomam uma linha direta e vertical até à superfície da Terra. se ela tivesse a rotação correspondente diária. Caso contrário. viajaria muitas centenas de jardas para leste durante o tempo que demorasse a queda da pedra. (GALILEU. a partir da medida do desvio. baseado em dados de observação. a velocidade de rotação da Terra. Mas. antes de prosseguirmos nossa viajem e revelarmos qual o desfecho dessa história. caso a pedra se desvie será possível determinar. Dialogue. Esse argumento é bastante forte e seu resultado. uma torre de cujo topo deixássemos cair uma pedra. Porque. e a pedra atingiria a Terra a essa mesma distância da base da torre. Tal é um argumento considerado irrefutável em favor da imobilidade da Terra.

h' e h".114 Considerando válido o argumento da Torre. Onde a Pedra cai? . Assim na figura 1: d é maior que d' que é maior que d". e admitindo que a Terra possui movimento diário de rotação. Então vamos calcular! A pedra é solta de uma altura h do alto de um prédio. é possível calcular o desvio que uma “pedra” sofreria durante sua queda de um prédio devido ao movimento leste-oeste da Terra? Sim. d' e d") de sua posição original por conta do movimento da Terra. no entanto. Figura 1 Segundo o Argumento da Torre. a pedra deve ser desviada de uma certa distância (d. se a Terra estivesse parada a pedra cairia perpendicular ao prédio. Quanto maior h maior será d. Para o caso da Terra não possuir movimento de rotação d esperado deveria ter valor nulo (d = zero). (i)mobilidade da Terra – (i)mobilidade da Terra – (i)mobilidade da Terra 4. Vamos considerar três valores para a altura h (ver figura1): h.

115 Vamos calcular qual deve ser o valor de d em função de h? Como podemos a partir da altura do ponto em que a pedra é solta obter o valor do desvio esperado devido ao movimento da Terra? Em primeiro lugar.8 m/s2) t é o tempo de queda da pedra Ficamos então com: h= 1 2 gt 2 (2) t= 2h g (2) Vamos utilizar a equação (2) para calcular o possível deslocamento da pedra. devido ao movimento da Terra. h’ e h”) vo é a velocidade inicial da pedra (no caso nula) a é a aceleração da gravidade local (g de aproximadamente 9. teremos um movimento uniformemente acelerado dado por: h − ho = v o t + 1 2 at 2 (1) onde: h – ho = h é a altura do prédio (h. (i)mobilidade da Terra – (i)mobilidade da Terra – (i)mobilidade da Terra . Admitindo uma aceleração da gravidade g constante e que a pedra foi abandonada em repouso no alto do prédio. precisamos obter o tempo de queda da pedra.

r V : Velocidade do ponto P ω : Velocidade angular da Terra: r 2π ≅ 7.116 figura 2 O período de rotação da Terra em volta de seu eixo é de 24 horas ou 86.400 r RT : Posição do ponto P (Raio da Terra = 6.3 × 10 − 5 s −1 86.370 Km) Podemos obter o módulo dessa velocidade dado por: V = ω ⋅ RT ⋅ sinθ (4) (i)mobilidade da Terra – (i)mobilidade da Terra – (i)mobilidade da Terra . A velocidade de deslocamento na direção leste-oeste de um ponto P da superfície da Terra (ver figura 2) pode ser obtida por: r r r V = ω × RT (3) Com.400 segundos.

4x106 m .117 O ângulo θ corresponde a Colatitude (90o .Latitude).8 m/s2) pela velocidade V de 430 m/s. sin(1. localizado na Cidade de São Paulo: V = ω ⋅ RT ⋅ sinθ V = 7. Para a Cidade de São Paulo. 6. Substituindo os valores na equação 4. e a Colatitude é dada por θ = 66o 27' ou 1. g Assim.2) V = 430 m/s Finalmente.2 rad.4 rad.3x10-5 s-1 . obtemos a relação entre a altura em que a pedra é solta e o valor esperado para o desvio da pedra na direção leste-oeste: d ≅ 193 ⋅ h m (i)mobilidade da Terra – (i)mobilidade da Terra – (i)mobilidade da Terra . obtemos a equação do desvio da pedra multiplicando a velocidade V pelo tempo de queda t obtido na equação 2: d= 2h ⋅V ≅ 193 ⋅ h m g (5) O valor 193 corresponde a uma constante para a Cidade de São Paulo obtida pelo produto de 2 (com g = 9. a Latitude é de 23o 33' ou 0. obtemos a velocidade de deslocamento leste-oeste para um ponto da superfície da Terra.

deve ser menor. 3) Calcule qual deve ser o desvio d na direção leste-oeste de uma pedra abandonada do alto de cada um dos três prédios. 2) Estime o valor da altura h de cada um deles. igual ou maior que o desvio de uma pedra que cai do alto de um prédio de mesma altura localizado na Cidade de Florianópolis? Por quê? 5) Obtenha a equação de desvio para uma pedra que cai de uma altura h na superfície da Lua. (Atenção caso você não esteja na Cidade de São Paulo!) 4) Responda à questão: O desvio de uma pedra abandonada do alto de um prédio na Cidade de Natal. solte uma pedra e confira o valor esperado para o desvio. Suba ao local mais alto a que tenha acesso com segurança. considerando o argumento aristotélico da torre.118 Vamos realizar uma atividade para nos certificar dos resultados: 1) Escolha três prédios próximos ao local onde você se encontra. 6) Faça a comprovação. É importante usar uma pedra o mais redonda possível. 7) Analise seus resultados. 8) Segundo o Argumento da Torre e de posse dos dados observados e cálculos efetuados o que se pode concluir quanto ao movimento da Terra? (i)mobilidade da Terra – (i)mobilidade da Terra – (i)mobilidade da Terra . (Cuidado para não cair do prédio ou acertar a cabeça de algum passante!). para evitar a resistência do ar e primar pela segurança.

É o caso dos paradoxos na Teoria da Relatividade. A ciência está repleta de argumentos e exemplos históricos que aparentemente nos levam a situações de conflito do conhecimento.119 O Argumento da Torre é bastante convincente e por isso um importante instrumento para instigar a busca por mais explicações.). por exemplo. experimentação. para além de uma aceitação dogmática do movimento da Terra. etc. religião... 2) Pergunte a outras pessoas. Registre suas impressões... ou. mas que.. se adequadamente explorados. e ainda considerando sua pretensa imobilidade. 5) Qual a diferença entre seus registros na atividade ciência.. Para o estudo do movimento da Terra.. se conhecem argumentos que coloquem em dúvida a afirmação de que a Terra se move.. segundo as mesmas categorias usadas na atividade ciência. a dificuldade de um pássaro reencontrar seu ninho. propomos uma atividade para encontrar mais argumentos.. analogia.. 4) Classifique os argumentos encontrados quanto à forma como são obtidos. revelação. de diferentes níveis de escolaridade. religião. podem fazer avançar nossa compreensão. . mitos e lendas e nos seus novos registros desta atividade (mais argumentos. Troque-os com outros. Registre suas respostas. 3) Colecione os argumentos. (i)mobilidade da Terra – (i)mobilidade da Terra – (i)mobilidade da Terra 5. mitos e lendas: observação. Mais argumentos.)? 6) Guarde todos os seus registros para uma retomada mais à frente. 1) Tomando por base o Argumento da Torre imagine outras situações conflituosas que se originariam do movimento da Terra (por exemplo. Organize-os.

Ao realizar uma experiência certo dia. partindo da França. considerando os argumentos até agora encontrados. Afinal de contas. PERELMAN. isto é apenas ficção. pgs 249 e 250. Infelizmente. Permanecemos ainda atados. sofreríamos o impacto de um vento com força tão terrível que (i)mobilidade da Terra – (i)mobilidade da Terra – (i)mobilidade da Terra . o texto O mais Barato Meio de Transportes do interessante livro Aprenda Física Brincando de J.120 7) Aprecie e discuta. foi suspenso no ar com todas as suas retortas. Embora pareça estranho. não nos separamos da mãe Terra. motivo pelo qual aterrissara na América do Norte. aeronaves. Cyrano de Bergerac descreve um fato espantoso que supostamente lhe teria acontecido. O ar . suas camadas mais densas . (SUGESTÃO: Você também pode usar alguns de seus argumentos para produzir histórias ou contos de ficção que tentem justificar a imobilidade da Terra.nuvens. Em primeiro lugar. Ao aterrissar algumas horas mais tarde. Por que cansar com viagens pelo mundo? Simplesmente eleve-se a alguns metros do solo e espere até que o lugar de destino chegue até você. quando nos alçamos no ar.giram junto com o planeta. mas no Canadá. surpreendeu-se em não mais se encontrar em seu solo pátrio. porque estamos suspensos no envólucro de ar que também participa da rotação axial da Terra. o espirituoso escritor francês do século XVII.) O mais Barato Meio de transportes Na sua satírica História dos Estados Lunares (1652). argumentando que enquanto estava suspenso no ar.ou melhor. arrastando consigo todas as coisas . a terra continuara a girar no sentido do Leste. Cyrano de Bergerac acreditou completamente na possibilidade de seu vôo transatlântico. a França. pássaros e insetos. na realidade. se o ar não girasse com o planeta. e nem mesmo na Europa. Eu diria que é um meio muito barato e simples de viajar! Basta subir e permanecer suspenso alguns minutos para pousar num local totalmente diferente e muito mais a Oeste.

Vamos lá? (i)mobilidade da Terra – (i)mobilidade da Terra – (i)mobilidade da Terra . o que é Inércia? É o que precisamos ter uma noção.121 comparado a ele o pior dos ciclones pareceria uma brisa suave (um ciclone ou furacão move-se com a velocidade de 40 m/s ou 144 km/h: na latitude de Leningrado. não poderíamos nos beneficiar com o barato método de viajar imaginado pelo humorista francês. quando nos separamos da superfície da Terra em rotação. ou se o ar permanecesse imóvel enquanto nos movêssemos nele. enquanto a Terra. com a velocidade com que a Terra se move abaixo de nós. Em pequenos intervalos de tempo. Mas então. mesmo que pudéssemos ascender ao topo da atmosfera ou se a Terra não tivesse absolutamente invólucro algum de ar. Na verdade. Por isso. se permanecêssemos imóveis no ar em movimento. Saltamos e descemos novamente no mesmo lugar.isto é. a Terra nos transportaria pelo ar com a velocidade de 230 m/s ou 828 km/h). por exemplo. traçaria um arco. este fato pode ser desprezado. É o mesmo que dar um salto dentro do vagão de trem em movimento. Um motociclista correndo a 100 km/h enfrenta diretamente uma formidável massa de ar mesmo nas condições atmosféricas mais calmas. a nossos pés. De fato. sentiríamos o mesmo vento vigoroso. continuamos por inércia a nos mover com a mesma velocidade . Em ambos os casos. por causa da inércia. nós executamos um movimento retilíneo (segundo uma tangente). Não haveria diferença alguma. contudo.

É o caso. da diminuição na velocidade do objeto até o completo fim do movimento.122 Desde criança aprendemos das outras pessoas e nos acostumamos a observar que os objetos. aparentemente natural. (i)mobilidade da Terra – (i)mobilidade da Terra – (i)mobilidade da Terra 6. Essa constatação observacional é de grande importância para muitas situações práticas vivenciadas por todos nós. uma bola. ao seu fim. o projétil atingiria a situação de repouso. de modo muito mais complexo e sofisticado. em que os astros (o Sol. parecem tender ao repouso. é a base da Física Aristotélica que vigorou por mais de dois mil anos. em que os objetos tendiam naturalmente ao repouso e o celeste (perfeito). parece-nos natural que os objetos em movimento tendam ao repouso. na verdade interrompidos por causas que ignoramos. O projétil armazenaria sob a forma de impetus a força inicialmente aplicada para lançá-lo. até que. a Lua. Essa constatação. as Estrelas) permaneciam indefinidamente em movimento. esse se gastaria com o movimento. Treinados pelos outros e acostumados a tais observações admitimos que os movimentos. Aristóteles organizou o mundo em dois tipos de movimentos: o terrestre (imperfeito). No sofisticado modelo aristotélico muitas noções complementares foram se agregando para complementar as explicações. da noção de impetus usada para explicar o movimento de um projétil (uma pedra atirada no ar). ou qualquer outra coisa. Por isso. ao se movimentarem. por exemplo. notamos logo uma tendência. A Noção de Inércia . chegam a um fim por conta própria. Quando empurramos uma cadeira. um carro.

quando não há força atuando sobre o objeto. as chamadas forças de atrito que existem no contato dos objetos e a superfície sobre a qual se apóiam. não de modo natural mas. Na ausência de atrito os objetos permaneceriam indefinidamente em movimento e não parariam. A Inércia é um princípio oposto à concepção de movimento de Aristóteles. Estamos lembrados que para se contrapor ao geocentrismo exploramos o heliocentrismo alterando nosso ponto de vista (Reveja o exemplo do carro seguindo em uma estrada. mudar nosso ponto de vista quanto às observações dos movimentos terrestres que nos parecem tão naturais. se um objeto está em movimento. a menos que algo externo imprima uma força sobre ele. aqui. Apesar de observarmos as árvores em movimento. sabemos que somos nós que nos movemos).123 Podemos assim expressar a explicação aristotélica para o movimento terrestre: quando há força. e só há movimento quando há força. mais uma vez. como explicar as nossas observações cotidianas cristalizadas desde a mais tenra idade? Considerando a noção de inércia no caso dos objetos que empurramos. ele mantém seu estado de movimento ou de repouso inalterado. assim permanecerá. há movimento. Na concepção inercial. Esse fato pode ser melhor observado ao diminuirmos (i)mobilidade da Terra – (i)mobilidade da Terra – (i)mobilidade da Terra . um carro. sua tendência natural é permanecer em movimento. Significa que. Também. Precisamos agora. Mas. se um objeto está em repouso. por meio de outras forças ocultas que lhe são impressas. (uma cadeira. Uma noção que permite uma nova visão do movimento é a noção de inércia. Ela inverte a justificação aristotélica introduzindo novos elementos. a menos que algo atue sobre ele imprimindo-lhe uma força. uma bola) eles tendem ao repouso.

Por esse motivo dizemos que a noção de inércia e outras da Física Clássica pertencem a uma nova visão de mundo. A noção ou princípio de inércia pode ser enunciado de forma mais elegante como a propriedade segundo a qual a matéria não pode por si própria alterar seu estado cinético. só tende ao repouso por conta de forças que atuam sobre ele. Segundo a noção de inércia é preciso tanta ação para gerar o (i)mobilidade da Terra – (i)mobilidade da Terra – (i)mobilidade da Terra . a atração gravitacional responsável por sua trajetória parabólica e a resistência do ar. místicos. O estado cinético é a condição de movimento ou repouso de um dado objeto. Quando usamos a Noção de Inércia para explicar o lançamento de projéteis. o movimento se estenderia para sempre e em linha reta. são como projéteis que nunca caem e ficam em movimento indefinidademente. pela inércia: o objeto lançado permanece em movimento e devia mesmo permanecer assim naturalmente. Não fosse a resistência do ar e a atração da gravidade terrestre. É exatamente essa a situação dos astros celestes. diferente da visão aristotélica. no caso.124 o atrito com uma superfície: é mais fácil empurrar um objeto em um piso encerado que em um piso áspero e sujo. etc. a trajetória elíptica é devida a força de atração gravitacional e a natureza perpétua do movimento em função da ausência de forças de resistência como a resistência do ar. Assim. não precisamos mais da noção de impetus. influenciando pensares religiosos. Note que a separação aristotélica entre movimento celeste-perfeito e movimento terrestre-imperfeito também se desfaz por conta da introdução da noção de inércia. atrito. culturais etc. Esse fato tem implicações profundas na maneira como as pessoas olham para os astros e para o céus.

a dificuldade de pôr um carro em movimento não é diferente da de fazê-lo parar. Do ponto de vista da inércia da Física a expressão deveria ser entendida como: enquanto os processos estão parados tendem a ficar parados. Mas. Desse modo. Assim. quando já em movimento. mas se começam a andar é difícil pará-los. a palavra inércia costuma ser exclusivamente relacionada ao repouso e expressa um sentido de preguiça. na ausência de forças externas. (i)mobilidade da Terra – (i)mobilidade da Terra – (i)mobilidade da Terra . Para efetuar curvas um objeto também precisa de forças externas que exercem acelerações modificando a direção de seu movimento. a palavra inércia tal qual vem sendo utilizada desde os escolásticos para designar tendência exclusiva ao repouso. A significação da Física Clássica pode tornar ambígua (com duplo sentido) a expressão: a inércia do sistema judiciário. é melhor adotar no cotidiano.125 movimento. No nosso dia-a-dia. além da tendência a permanecer parado na ausência de forças externas. No entanto. por exemplo. É importante destacar que estamos discutindo a noção de inércia dentro do contexto da Física e que existem outros contextos possíveis com outros significados para a palavra inércia. Galileu e Newton. no sentido da Física Clássica com incorporação das obras de Descartes. como para atingir o repouso. igualmente há a tendência de continuar em movimento. moleza ou apatia. segundo o contexto dado. na ausência de forças externas além de manter sua velocidade constante um objeto permanecerá em movimento em linha reta.

.: . de Galileu Galilei1. que como sabemos ajusta-se à forma redonda da Terra. Simplício e Sagredo discutem sobre o movimento de uma bola sobre uma superfície. em seus diálogos ele explica que a superfície lisa e horizontal considerada neste exemplo pode ser a superfície da água do mar. como o bronze. o que acontecerá quando a soltarmos? 1 Galileu não formulou precisamente o princípio da inércia. Ela não está horizontal.. propomos mais uma atividade. Represente (por desenho) cada uma das situações apresentadas no texto. pratos e talheres e) justificativa do uso do cinto de segurança f) movimento de foguetes 2) Leia o texto a seguir. Situação a ser analisada a) lançamento de projéteis b) movimento da Lua em volta da Terra c) patinação no gelo d) puxar uma toalha de sobre a mesa sem derrubar copos. e sobre ela foi colocada uma bola perfeitamente esférica. 1) Dadas as situações a seguir. explique cada uma delas segundo a concepção aristotélica de movimento natural e segundo o princípio da inércia. Mais a frente. A seu ver. de algum material duro e pesado. Por esse motivo Alexandre Koyré e Allan Frankin defende que Galileu definiu somente a inércia circular. composto por trechos dos diálogos dos Dois sistemas de mundo. (i)mobilidade da Terra – (i)mobilidade da Terra – (i)mobilidade da Terra . indicando a condição cinética resultante da bola e explicando-a.126 Para complementar nossa apresentação da noção de inércia. Diga-me agora: Suponhamos que se tenha uma superfície plana lisa como um espelho e feita de um material duro como o aço. em que os personagens Salviati. De acordo com a concepção aristotélica De acordo com a concepção da inércia Diálogos Sobre os Dois Principais Sistemas do Mundo SALV. mas inclinada.

: Mas se quiséssemos que a bola se movesse para cima sobre a mesma superfície.. e o movimento impresso no corpo diminui continuamente até cessar de todo. acha que ela subiria? SIMP.: Não espontaneamente. se houver. nos dois casos. e de que amplitude? SIMP. SALV. não leve em consideração qualquer impedimento do ar causado por sua resistência à penetração. e duraria mais ou menos tempo conforme o impulso e a inclinação do plano fossem maiores ou menores.: O movimento seria constantemente freiado e retardado. um corpo lançado com uma dada força se move tanto mais longe quanto menor o aclive. e em resposta a sua pergunta digo que a bola continuaria a mover-se indefinidamente. afim de remover todos os impedimentos externos e acidentais.127 SIMP. e com um movimento continuamente acelerado . SALV. E por quanto tempo a bola continuaria a rolar. (i)mobilidade da Terra – (i)mobilidade da Terra – (i)mobilidade da Terra . num aclive. é preciso uma força para lançar o corpo ou mesmo mantêlo parado. Analogamente. até aqui você me explicou o movimento sobre dois planos diferentes. qual seria seu movimento. Num plano inclinado para cima. . e quão rapidamente? Lembre-se de que eu falei de uma bola perfeitamente redonda e de uma superfície altamente polida.. pelo contrário. sendo contrário à tendência natural... SIMP.: Compreendo perfeitamente. surgem diferenças conforme a inclinação do plano seja maior ou menor. Num plano inclinado para baixo. e é preciso empregar uma força para mantê-lo em repouso.: Muito bem. SALV. mas ela o faria se fosse puxada ou lançada para cima. estou certo de que rolaria espontaneamente para baixo. enquanto permanecesse sobre a superfície inclinada. SALV.: Não acredito que permaneceria em repouso. o corpo móvel desce espontaneamente e continua acelerando. de forma que um declive mais acentuado implique maior velocidade. ao passo que.: E se fosse lançada com um certo impulso. Você diria ainda que... nem qualquer outro obstáculo acidental.: .

não havendo aclive. ou continuamente retardado.: Não posso ver nenhuma causa de aceleração. como no declive.: Mas com que tipo de movimento? Seria continuamente acelerado. perpétuo? SIMP. e. Mas que sucederia se lhe déssemos um impulso em alguma direção? SIMP. SALV. Então. não pode haver tendência natural ao movimento. SIMP.: Exatamente. Mas se não há razão para que o movimento da bola se retarde.: Ela teria que se mover nessa direção.: Parece-me que sim. (i)mobilidade da Terra – (i)mobilidade da Terra – (i)mobilidade da Terra . Não pode haver resistência ao movimento. SALV.: Tão longe quanto a superfície se estendesse sem subir nem descer. Mecânica. o movimento sobre ele seria também ilimitado? Ou seja.: Aqui preciso pensar um instante sobre a resposta. Parece-me portanto que o corpo deveria naturalmente permanecer em repouso.128 Diga-me agora o que aconteceria ao mesmo corpo móvel colocado sobre uma superfície sem nenhum aclive nem declive. (Moysés. desde que o corpo móvel fosse feito de material durável. uma vez que não há aclive nem declive. Mas eu me esqueci. se este espaço fosse ilimitado. SALV. por conseguinte. ainda menos há razão para que ele pare. pgs 67 e 68) 3) Utilize o princípio da inércia para explicar porque o Experimento da pedra que cai de uma torre (Argumento da Torre) não é adequado para provar que a Terra não está se movendo. Não havendo declive. SALV. como no aclive? SIMP.: Acredito que aconteceria se colocássemos a bola firmemente num lugar. por quanto tempo você acha que a bola continuaria se movendo? SIMP. faz pouco tempo que Sagredo me deu a entender que isto é o que aconteceria..

À altura do paralelo 49 .129 4) Retome sua lista/coleção de argumentos em favor da imobilidade da Terra obtida nas atividades anteriores.o de Paris . repetiu solenemente as famosas palavras de Galileu: "Contudo. quais são os novos argumentos em favor do (i)mobilidade da Terra – (i)mobilidade da Terra – (i)mobilidade da Terra . Numerosos simplórios enviaram. Mas. o réu. mais tarde. a importância pedida. pelo preço de 25 centavos. O homem que enviou essas cartas foi preso e processado por fraude. de J. 5) Leia e discuta o texto Contudo ela se move extraído do interessante livro Aprenda Física Brincando. assumindo uma pose teatral. certa vez. pelo Correio. Pg 12. uma carta com o seguinte teor: "Senhor. Se desejar uma bela vista.o senhor estará viajando a mais de 25. Conta a história que. Cada um deles recebeu. ela se move". identifique e explique os argumentos que podem ser descartados segundo o princípio da inércia. PERELMAN. um anúncio oferecendo um agradável e pouco dispendioso modo de viajar. depois de ouvir silenciosamente o veredito e de ter pago pesada multa. fique tranqüilo em sua cama e lembre-se de que a terra está girando. abra as cortinas de sua janela e admire o céu estrelado". Contudo ela se move Os jornais de Paris publicaram.000 km por dia. Até aqui a noção de inércia parece eliminar vários argumentos contrários ao movimento da Terra.

(i)mobilidade da Terra – (i)mobilidade da Terra – (i)mobilidade da Terra . Não é? Vamos continuar nossa viagem visitando mais uma nova noção da Física Newtoniana e buscando elementos para responder a nossa questão sobre o movimento da Terra.130 movimento da Terra? Mostrar não existir nada que prove que a Terra está parada não significa aceitar que ela esteja em movimento.

A noção de referencial inercial é mais geral que a noção de espaço absoluto por incorporar.131 Para continuarmos estudando o problema da (i)mobilidade da Terra precisamos ampliar nossa compreensão descrevendo melhor o cenário no qual a Terra está inserida. logo. nos livros e artigos de física. A Noção de Espaço Absoluto . foi substituída por uma noção mais genérica denominada referencial inercial. Como encontrar um referencial verdadeiramente inercial? Ou como determinar o espaço absoluto? (i)mobilidade da Terra – (i)mobilidade da Terra – (i)mobilidade da Terra 7. encontramos em Newton a noção de espaço absoluto. onde a natureza “representaria” os fenômenos físicos. Assim. o espaço absoluto seria o “palco”. Decorre que um referencial qualquer que se mova com velocidade constante e em linha reta em relação a um referencial inercial é também inercial. além de um referencial que esteja absolutamente em repouso. O espaço absoluto seria aquele que está realmente em repouso e em relação ao qual todos os movimentos devem ser descritos. introduzida por Newton. qualquer referencial que se desloque com velocidade constante e em linha reta em relação ao espaço absoluto. Na linguagem atual da ciência. É o palco adequado para descrever as experiências. Se encontrarmos um referencial inercial. Segundo a mecânica de Newton. não acessível aos nossos sentidos. inclusive o princípio da inércia. Mas há uma dificuldade. teremos uma infinidade de outros referenciais inerciais. Um referencial inercial é um sistema de referência no qual são válidas as leis da mecânica de Newton. a noção de espaço absoluto.

132 Na verdade. Ou melhor. Apesar de nunca podermos acessar o espaço absoluto ou os referenciais inerciais concretamente. Por exemplo. e. como já estudamos. usualmente adotamos o referencial das "estrelas-fixas" como (aproximadamente) inercial e assim por diante. não podemos. é correto utilizarmos aproximações materiais para resolver os problemas. para o movimento de pequenas massas sobre a Terra. Nos referenciais inerciais e somente nesses referenciais são válidas as leis da mecânica de Newton. a saber: 1) a lei da inércia. para serem corretamente definidas além de seu valor (módulo) necessitam de uma direção e um sentido. para cada situação. isso é. em relação a um referencial inercial. já para o movimento da Lua entorno da Terra. não precisamos. Com as aproximações mencionadas é possível obter medidas para os resultados experimentais bastante precisas. Não há problema em não dispormos de referenciais verdadeiramente inerciais. ou princípio da inércia. (i)mobilidade da Terra – (i)mobilidade da Terra – (i)mobilidade da Terra . a própria Terra pode ser considerada o referencial (aproximadamente) inercial. 2) o princípio fundamental da dinâmica: r r F =m⋅a r a força resultante sobre um corpo F é igual ao produto da sua massa inercial m r pela sua aceleração a . A força e a aceleração são grandezas vetoriais.

Física volume 1 do Tipler e Física de Eisberg. e. Antes de prosseguir. para aprender mais sobre as leis de Newton e a correta utilização dos referenciais inerciais é fundamental estudar alguns capítulos e resolver os problemas de livros didáticos de Física. Física Básica de Nussenzveing.133 3) lei de ação e reação: r r F12 = − F21 a toda ação de uma força corresponde uma reação com mesmo módulo. a saber: 1) O achatamento na forma da Terra. (sugestões: Mecânica do GREF. 2) O pêndulo de Foucault Vamos lá? (i)mobilidade da Terra – (i)mobilidade da Terra – (i)mobilidade da Terra . a noção de inércia.) Tendo compreendido as Leis de Newton. podemos avançar em nossa viagem conhecendo agora dois novos argumentos que utilizam as Leis de Newton em favor do movimento da Terra. a noção de espaço absoluto e a noção de referencial inercial. mesma direção e sentido oposto.

A descrição desse efeito de achatamento dos planetas em função de seu movimento de rotação foi realizada pela primeira vez por Newton: os eixos dos planetas são menores do que os diâmetros perpendiculares aos eixos. diz respeito ao achatamento na forma da mesma devido a efeitos centrífugos. Ver também proposição 19. (Isaac NEWTON.. portanto.. Proposição 18. por sua subida em direção ao equador ela vai aumentar os diâmetros de lá e por sua descida dos pólos ela vai diminuir o eixo. tem um diâmetro menor nos pólos que no equador. Ele possui. não fosse por suas revoluções diurnas num círculo. problema 3 em que Newton calcula a partir de sua lei da gravitação a proporção do eixo de um planeta para os diâmetros perpendiculares a ele) (i)mobilidade da Terra – (i)mobilidade da Terra – (i)mobilidade da Terra 8. Principia. Devido a este movimento circular acontece de as partes que se afastam do eixo tentam subir do equador. A gravitação igual das partes sobre todos os lados daria uma forma esférica aos planetas. se a matéria está num estado fluído. colocariam todas as coisas sob a água. os mares abaixariam ao redor dos pólos e. e. se nossa Terra não fosse mais alta ao redor do equador do que nos pólos. Livro III. ou seja. na verdade. uma forma elipsoidal. por isso dizemos que a Terra é achatada. Nosso planeta não tem a forma de uma esfera perfeita. Teorema 16. Achatamento na Forma da Terra . para justificar o movimento da Terra.134 Uma observação interessante descrita por Newton no seu célebre livro Principia. subindo em direção ao equador.

uma existência real. Para calcular a razão entre o diâmetro da Terra no equador e o diâmetro de pólo a pólo que expressa o achatamento na forma da Terra é preciso integrar a força gravitacional acrescida da força centrífuga para um elipsóide (esfera achatada). e ρρ é o vetor posição em coordenadas esféricas dos pontos sobre a superfície da Terra. com a criação dessa força pode-se utilizar corretamente as leis da Mecânica Newtoniana e determinar as equações de movimento para a Terra. ou ao espaço absoluto. Essa força é uma força fictícia e não possui. Uma solução possível para continuar estudando o achatamento da Terra com a mecânica newtoniana é introduzir no referencial da Terra uma força imaginária denominada força centrífuga. (i)mobilidade da Terra – (i)mobilidade da Terra – (i)mobilidade da Terra . No entanto. para estudar seu movimento de rotação em torno de si mesma não podemos utilizar diretamente as leis de Newton. A força centrifuga a ser introduzida é dada por: r ˆ Fcentrifuga = −m ⋅ ω 2 ρρ Em que: ω é a velocidade angular de rotação da Terra em relação a um ˆ referencial inercial. portanto. segundo a mecânica de Newton.135 Newton calcula a razão entre o diâmetro da Terra no equador e o diâmetro de pólo a pólo e obtém o valor: 230 229 Mas qual o agente causador deste achatamento? Por que a Terra fica achatada? Sabemos que a Terra não é um referencial inercial e.

21 e 7. a velocidade angular de rotação da Terra: ω= 4GM 5R 3  Requador   − 1  R   pólos  (7) ω = 7. obtido a partir da introdução da força centrífuga nas leis de Newton.17.67 x 10-11 N m2/ kg2 M é a massa da Terra = 6 x 1024 kg ω é a velocidade angular de rotação da Terra Adotando para o valor da razão entre os raios o resultado obtido por Newton e que está bem próximo das modernas observações experimentais (230/229 ≈ 1.136 Não apresentaremos aqui o desenvolvimento matemático completo que. pode ser estudado nos capítulos 6 e 7 do livro Mecânica.0044) podemos calcular. 6.4 x 10-5 s-1 (i)mobilidade da Terra – (i)mobilidade da Terra – (i)mobilidade da Terra . R. Symon (ver especialmente exercícios 6. por considerações dinâmicas.10) O resultado obtido no cálculo para a razão entre os raios da terra no equador e entre os pólos. é expresso por: Requador R pólos =1+ 5ω 2 R 3 4GM (6) Em que: Requador é o raio da Terra no equador Rpólos é o raio da Terra entre os pólos R é o raio médio da Terra = 6. para uma compreensão mais aprofundada. de K.36 x 106 m G é a constante de gravitação universal = 6.

levandose em conta a rotação de um dia (24 horas): ω k = 2π ≈ 7. e por isso. podemos afirmar. Isto porque o giro do universo ao redor da Terra. de acordo com esse novo argumento. a velocidade de rotação cinemática não permite afirmar que é a Terra que está girando. possibilita afirmar que é a Terra que está girando sobre si mesma e não o restante do universo que gira ao redor da Terra. teremos uma mesma situação do ponto de vista de uma descrição cinemática. uma vez que. O achatamento na forma da Terra permite-nos calcular a rotação dinâmica da Terra. obtemos a mesma velocidade relativa entre a Terra e o conjunto de estrelas-fixas. que a Terra realmente está em movimento! (i)mobilidade da Terra – (i)mobilidade da Terra – (i)mobilidade da Terra .3 × 10 −5 s −1 T Obtivemos assim dois valores iguais para a velocidade de rotação da Terra: o primeiro ωk a partir de considerações cinemáticas e o segundo ω a partir de equações da dinâmica de Newton. que considera apenas as velocidades e as posições entre os corpos. Podemos dizer que no primeiro caso (análise cinemática) há uma simetria entre a mobilidade e a imobilidade da Terra. segundo as leis de Newton. Já no segundo caso (análise dinâmica) não se verifica a mesma simetria. tanto no heliocentrismo como no geocentrismo. não produziria o achatamento na forma do nosso planeta e ele teria uma forma perfeitamente esférica. diferentemente da situação cinemática.137 Esse valor para a velocidade de rotação da Terra é praticamente o mesmo que calculamos por observações astronômicas e considerações cinemáticas. Mas esse efeito. Tanto faz a Terra girar em volta de si mesma. ou seja. ou todo o resto do universo girar em volta da Terra. Como vimos.

138 Assim como os defensores da Física Aristotélica e da imobilidade da Terra se apoiaram no Argumento da Torre e convenceram inumeráveis mentes humanas. (i)mobilidade da Terra – (i)mobilidade da Terra – (i)mobilidade da Terra . os defensores da Mecânica de Newton se utilizam agora do Argumento do Achatamento na Forma da Terra para convencer de que ela se move.

139 Vamos explorar mais um fantástico argumento em favor do movimento da Terra: O experimento do Pêndulo de Foucault. Um fato interessante da oscilação pendular é que o plano de oscilação do pêndulo é definido pelas condições iniciais em que a massa é posta em movimento. Um pêndulo é um sistema constituído por uma massa pendurada em uma linha e que oscila de um lado para o outro de modo regular. Se o pêndulo fosse montado sobre uma base giratória. ou seja. Admitindo que o planeta Terra é uma base gigante e está girando para qualquer pêndulo. O pêndulo de Foucault . o físico francês Jean Baptiste Leon Foucault inventou outra simples e interessante maneira de se obter a velocidade de rotação dinâmica da Terra (ωd) e assim comprovar seu movimento de rotação. A criação de Foucault é até hoje a melhor "prova" do movimento de rotação da terra porque independe de medidas astronômicas. Foucault pode determinar a rotação da Terra a partir do estudo da variação do plano de oscilação de um pêndulo. Na mais famosa de suas demonstrações. Nessa (i)mobilidade da Terra – (i)mobilidade da Terra – (i)mobilidade da Terra 9. mesmo que a base girasse. Assim. Foucault pendurou seu pêndulo na enorme abóbada do Panthéon. em Paris. Em 1851. ele permaneceria oscilando sempre em um mesmo plano. A experiência proposta por Foucault é relativamente simples e para realizá-la basta observar o movimento de um longo pêndulo oscilando por um grande período de tempo. pode ser realizada em uma sala fechada sem se olhar para o céu ou considerar as grandes distâncias das dimensões terrestres como no efeito do achatamento da Terra. ele construiu um novo argumento em favor do movimento da Terra.

Essa nova força foi descoberta em 1831 por Coriolis e por isso ficou conhecida como Força de Coriolis. e. (8) v é a velocidade da massa em movimento. como ele já esperava. cheia de chumbo com massa total de 28 Kg. Aqui continua existindo a força centrífuga. que o plano de oscilação do pêndulo mudava lentamente com o tempo em relação à superfície da Terra. que não podemos simplesmente utilizar as leis de Newton. A força de Coriolis é. também uma força fictícia devida ao movimento de rotação da Terra em relação ao espaço absoluto (ou a um referencial inercial). (i)mobilidade da Terra – (i)mobilidade da Terra – (i)mobilidade da Terra . Diferente da que explica a forma da terra. para continuar estudando o movimento do pêndulo é introduzir no referencial da Terra uma nova força imaginária (Outra. Mas como explicar a mudança no plano de oscilação do pêndulo de Foucault utilizando as leis da Mecânica Newtoniana? Lembrando mais uma vez que a Terra não é um referencial inercial. ωd é a velocidade angular da Terra em relação ao espaço absoluto ou a um sistema de referência inercial. A força de Coriolis pode ser escrita como: r r r FCoriolis = −2mω d × v Em que: m é a massa em movimento. por isso. mas ela não é responsável pela alteração no plano de oscilação do pêndulo).140 ocasião. ele usou um comprimento de 67 metros e a massa suspensa era uma esfera oca de cobre. Em seu experimento com o pêndulo. Foucault observou. segundo a concepção newtoniana. A solução então. sabemos.

o pêndulo vai ficar oscilando sempre em um mesmo plano em relação a um sistema inercial. Como a Terra está girando exatamente sob o pêndulo. No equador. verá exatamente o oposto. Nessa situação. 2) Calcule a variação de direção no plano de oscilação do pêndulo de Foucault para a Cidade de São Paulo. Propomos mais uma breve atividade: 1) Calcule a variação de direção no plano de oscilação do pêndulo de Foucault para a Cidade de Paris com latitude igual a 48o 51'. ou ao espaço absoluto. Um observador colocado no pólo. Para qualquer posição entre o equador e o pólo a variação de direção no plano de oscilação do pêndulo pode ser obtida por: ω d sinα Em que ωd é a velocidade angular da Terra em relação ao espaço absoluto ou a um sistema de referência inercial e α é a Latitude no local do experimento. o plano de oscilação modificando-se com o passar do tempo. em relação à Terra.141 O caso mais simples para o experimento do pêndulo de Foucault ocorre para oscilações em um dos pólos terrestres. entretanto. (i)mobilidade da Terra – (i)mobilidade da Terra – (i)mobilidade da Terra . que estava no início do experimento. ou seja. após aproximadamente 24 horas o plano de oscilação vai estar na mesma posição. o pêndulo de Foucault não modifica seu plano de oscilação em relação à Terra porque o produto vetorial da velocidade de rotação da Terra r r pela velocidade de oscilação é igual a zero: ω d × v = 0 .

mudando infinitesimalmente de (i)mobilidade da Terra – (i)mobilidade da Terra – (i)mobilidade da Terra . a natureza terciária do π. porque no vácuo qualquer ponto material pesado. artifício disposto para contrabalançar a resistência da matéria. na base.que o período era regulado pela correlação entre a raiz quadrada do comprimento do fio e a do número π. por alguma razão divina. relaciona. móvel na extremidade de um longo fio fixado à abóbada do coro.Umberto Eco A esfera. o qual. A esfera de cobre emitia pálidos reflexos cambiantes sob a incidência dos últimos raios de sol que penetravam pelos vitrais. como outrora.142 3) Compare as experiências do Pêndulo de Foucault e da Pedra que cai da Torre. suspenso da extremidade de um fio inextensível e sem peso. embora irracional para as mentes sublunares. Eu sabia . mas que não se opunha às leis do Pêndulo. teria desenhado a cada oscilação um leve sulco no solo. a circunferência ao diâmetro de todos os círculos possíveis . O Pêndulo de Foucault . descrevia suas amplas oscilações em isócrona majestade.de modo que o oscilar de uma esfera de um pólo a outro decorre de uma arcana conspiração entre a mais intemporal das medidas. que não sofresse a resistência do ar nem o atrito com seu ponto de apoio. sua ponta estivesse roçando uma camada de areia úmida espalhada sobre o pavimento de coro. teria oscilado de modo regular por toda a eternidade. Em que elas são semelhantes? Em que diferem? 4) Leia e discuta o texto O Pêndulo de Foucault do livro de Umberto Eco. a dualidade de uma dimensão abstrata. transmitindo sua atração a um cilindro oculto no cerne da esfera.mas quem quer que o tivesse advertido no encanto daquele plácido respirar . Sabia também que na vertical do ponto de suspensão. antes lhes permitia manifestarem-se. Se. e o sulco. garantia a permanência do movimento. a unidade do ponto de suspensão. transcrito a seguir. um dispositivo magnético. o tetrágono secreto da raiz e a perfeição do círculo.

tornando ao ponto de partida. e SaintMartin-des-Champs e Paris inteira comigo. no qual o Pêndulo realizaria seu círculo aparente em vinte e quatro horas. Não melhor talvez a peripécia. Contudo. Talvez o cálculo. às quatro da tarde de 23 de junho. enquanto desenhava no vazio as suas diagonais. de vala. Talvez a igreja abacial de Saint-Martin-des-Champs fosse o verdadeiro Templo. de uma estrela.elipse que girasse em torno de seu próprio centro com uma velocidade angular uniforme. Mas não era este desvio da Lei. Eu sabia que a Terra estava rodando. a experiência só teria sido perfeita no Pólo. aquele ápice de lança.como um esqueleto de mandala. a fixar aquela cabeça de pássaro. aflorando os pontos opostos de sua astigmática circunferência. Naquele momento. não houvesse modificado. não era esta violação da medida áurea que tornava menos admirável o prodígio.. teria sido vítima de uma ilusão fabulatória. em trinta e duas horas. que de resto a própria Lei previa.. e juntos rodávamos sob o Pêndulo que na realidade não mudava jamais a direção do próprio (i)mobilidade da Terra – (i)mobilidade da Terra – (i)mobilidade da Terra . descrevendo uma elipse achatada . readquirir velocidade a meio do percurso e desferir seus golpes de sabre confidentes no quadrado oculto das forças que o destino lhe apontava. de uma rosa mística. dos traços que deixaram caravanas infinitas e erráticas. ter-se-ia alargado sempre em forma de brecha. proporcional ao seno da latitude. Como teria girado se o ponto fosse fixado ao alto da cúpula do Templo de Salomão? Talvez os Cavalheiros tivessem experimentado também lá. resistente ao passar das horas. o Pêndulo amortecia a própria velocidade numa extremidade do plano de oscilação.143 direção a cada instante. deixando adivinhar uma simetria radiada . para recair indolente em relação ao centro. o significado final. Se eu permanecesse muito tempo. único lugar em que o ponto de suspensão incide sobre o prolongamento do eixo de rotação da Terra. e eu com ela. registrada na extensão do deserto. pois o Pêndulo me levaria a crer que o plano de oscilação teria realizado uma rotação completa. a estrutura invisível de um pentáculo. aquele elmo emborcado.

embora tudo se movesse. o sistema solar. eixo. não é treva nem luz. quer dizer todo ponto que esteja no meio dos pontos que você vê. inteligência. eu que embora me movesse com tudo e com o todo. entre um rapaz de óculos e uma jovem que infelizmente não os tinha. substância. preciso e desenvolvido. a Rocha. e em seguida sob a cúpula do Panthéon. e ao longo do infinito prolongamento ideal do fio. nem um tempo ou um espaço. para o alto em direção às mais remotas galáxias estava. não é erro nem verdade. a Garantia. Sacudiu-me um diálogo. depois no Observatoire. ordem. lá onde se celebrava o mistério da imobilidade absoluta. imóvel por toda a eternidade. deixando que o universo se movesse em torno dele. os buracos negros e todos os filhos da grande emanação cósmica. não é um lugar. em formato reduzido. como direi... cavilha.. "E para que serve. desde 1855 está aqui. eu podia ver o Quid. o globo." "Mas por que permanece fixo?" "Porque um ponto. Por isso. as nebulosas. não sente. "Foi primeiro experimentado numa cave em 1851.. mas o lugar onde o fio estava ancorado era o único ponto fixo do universo. a caligem luminosíssima que não é corpo. eternidade. não tem figura forma peso quantidade ou qualidade. A Terra girava.. não era propriamente à Terra que o meu olhar se dirigia. aquele ponto - (i)mobilidade da Terra – (i)mobilidade da Terra – (i)mobilidade da Terra . porque lá em cima. com um fio de sessenta e sete metros e uma esfera de vinte e oito quilos. o Não-Movente. opinião. e não vê.144 plano. de onde pendia. Se considerarmos que o ponto de suspensão permanece fixo. dizia o moço. e pende daquele furo. o Ponto Eixo. engate ideal. não é apreendido pela sensibilidade. um único ponto permanecia. E eu participava agora daquela experiência suprema. imaginação. número. na travessa da abóbada". Finalmente. não é alma.. mas ao alto. no seu ponto central. "É o pêndulo de Foucault". medida. só para ficar balançando?" "Serve para demonstrar a rotação da Terra. O Pêndulo dizia-me que. bem. desde os éons primitivos à matéria mais viscosa.

nem para baixo nem para cima. diferentemente da situação cinemática. não gira.com o Uno. e não dela.primeiro e último . pg 9 à 12) A velocidade de rotação do plano de oscilação pendular obtida por Foucault é precisamente a mesma velocidade de rotação da Terra.145 o ponto geométrico . Este resultado confirma de forma brilhante o movimento da Terra! Mais uma vez verifica-se a coincidência entre o valor da velocidade de rotação dinâmica (ωd) obtida a partir do experimento de Foucault e os valores apresentados anteriormente. inacessível ao arrepio do infinito. Mas logo em seguida o casal se afastou ele. o En-sof. Tinha sobre a cabeça o único lugar estável do cosmo." "Nem com a Terra girando?" "A Terra gira.. danese. tanto pelas descrições cinemáticas como pela descrição dinâmica a partir do achatamento da Terra. ou seja ω d = 7. Se lhe agrada. e portanto não tendo dimensão não pode mover-se nem à esquerda nem à direita. Conseqüentemente.você não vê. O resultado da experiência de Foucault." Miserável. O pêndulo de Foucault. ambos sem terem registrado na memória a experiência terrificante daquele seu encontro . Está bem?" "Problema dele. Nem mesmo este si mesmo existe. permite afirmar que é a (i)mobilidade da Terra – (i)mobilidade da Terra – (i)mobilidade da Terra . o único ponto resgatado da danação do panta rei. mas o ponto não. Como não cair de joelhos diante do altar daquela certeza? (Umberto ECO. é assim. Entendeu? Se um ponto não tem dimensão. ela inerte. assim como o achatamento na forma da Terra. se não.. não tem dimensão. o Indizível. tendo estudado nesses manuais que lhe obnubilaram as possibilidades de maravilhar-se. e pensava que fosse problema Dele. não pode sequer girar em torno de si mesmo.3 × 10 −5 s −1 .

Encontramos uma nova assimetria entre a mobilidade e a imobilidade da Terra. cair de joelhos diante do altar daquela certeza? Por sorte. nem todas as mentes humanas são facilmente convencidas e novas visões de mundo nos fazem repensar nossos argumentos. Isto porque. o giro do universo ao redor da Terra. segundo as leis de Newton. Vamos prosseguir um pouco mais o caminho e ouvir novos personagens. * * * * * * * * * Chegamos ao fim de nossa viagem? Está respondida a questão que nos colocamos? Podemos considerar definitivamente válida a afirmação de que a Terra se move? Podemos. Por isso. como diz Umberto Eco. não produziria nenhuma alteração no plano de oscilação do pêndulo. de acordo com o Argumento do Pêndulo de Foucault. (i)mobilidade da Terra – (i)mobilidade da Terra – (i)mobilidade da Terra . podemos afirmar. por mais sólidos que eles nos pareçam de início. Convém conhecer os argumentos daqueles que não se convenceram com os mais claros e simples argumentos em favor do movimento da Terra.146 Terra que está girando sobre si mesma e não o restante do universo que gira ao redor da Terra. que a Terra realmente está em movimento! Novas mentes humanas podem ser convencidas com esse simples e brilhante argumento de Foucault que confirma a Mecânica de Newton e comprova que a Terra não está imóvel.

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10. O Princípio de Mach (i)mobilidade da Terra – (i)mobilidade da Terra – (i)mobilidade da Terra

Há dois detalhes da Física Newtoniana que já apresentamos e que parecem não ter sido totalmente resolvidos: o primeiro é a impossibilidade de se encontrar um referencial que seja verdadeiramente inercial; o segundo é o fato da simetria para descrições cinemáticas não se verificar em descrições dinâmicas. Será possível existir uma Mecânica, baseada em novos argumentos, que não se utilize da noção de espaço absoluto, nem de referenciais inerciais e que restabeleça a simetria entre as descrições dinâmicas e cinemática do movimento? Muitas das críticas à concepção de espaço absoluto (ou de referencial inercial) já haviam sido formuladas no início do Século XVIII, por parte de filósofos como Leibniz e Berkeley. As grandes conquistas da Mecânica Newtoniana e seu sucesso no campo da astronomia, no entanto, ofuscaram essas críticas por mais de 150 anos. Em 1883 a contestação da noção de espaço absoluto ressurge nos trabalhos do Físico austríaco Ernst Mach. Para contestar as noções newtonianas de inércia e espaço absoluto, Mach, formulou em sua obra The Science of Mechanics o seguinte princípio:

Para mim só existem movimentos relativos. Não vejo, neste ponto, nenhuma diferença entre translação e rotação. Obviamente não importa se pensamos na Terra como em rotação em torno de seu eixo, ou em repouso enquanto as estrelas fixas giram em torno dela. O Princípio da Inércia deve ser concebido de tal forma que a segunda suposição leve exatamente aos mesmos resultados que a primeira. Torna-se então evidente que, na sua formulação, é preciso levar em

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conta as massas existentes no Universo. (Daniel Gardelli, Origem da Inércia, Cad. Cat. Ens. Fis., vol.16, n1. pg48)
Para Mach é preciso, à luz de seu Princípio, rever a Noção de Inércia e conseqüentemente as demais leis da Mecânica Newtoniana. Segundo essa nova concepção de inércia proposta por Mach, a massa inercial de um objeto se originaria da interação entre a massa desse objeto com todas outras massas do universo inteiro. Assim, em um universo vazio não haveria inércia. Esse princípio choca-se com a Mecânica Newtoniana que atribui a inércia a uma propriedade intrínseca da matéria e não a uma interação com as outras massas do universo. Apesar da importância de sua crítica, Mach não desenvolveu uma formulação quantitativa para seu princípio, fato que não lhe deu popularidade no meio científico. A tarefa de implementar quantitativamente o princípio de Mach para a reformulação das leis de Newton foi iniciada e abandonada sem sucesso por grandes nomes da ciência dentre os quais Einstein, o pai da Relatividade, e Schrödinger um dos principais fundadores da Mecânica Quântica. A Mecânica Relacional, apresentada a seguir, retoma as críticas de Mach à Física Newtoniana implementando-as quantitativamente em termos do formalismo da física contemporaneamente aceita e consolidando o princípio de Mach como um novo Argumento para discutir a questão da (i)mobilidade da Terra. Vamos conhecê-la?

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Finalizando nossa viagem, vamos apresentar um breve resumo da Mecânica Relacional, uma proposta alternativa à mecânica de Newton que pretende explicar os fenômenos da dinâmica e gravitação há muito conhecidos. Essa nova Mecânica foi desenvolvida pelo Físico brasileiro André K. T. Assis, professor livre-docente do Instituto de Física da Universidade de Campinas, e retoma a discussão crítica sobre as noções de espaço-absoluto e inércia implementando quantitativamente as idéias de E. Mach. É importante esclarecer que nosso intuito neste trabalho não é discutir a validade dessa proposta teórica, mas o de utilizá-la do ponto de vista da ampliação do conhecimento. Uma nova concepção da mecânica pode servir de fonte para novas argumentações alternativas e fornecer-nos elementos de contraste para uma compreensão mais profunda dos princípios implícitos na discussão sobre a inércia e o problema da (i)mobilidade da terra, como vimos até aqui discutindo. Assim como o estudo do Argumento da Torre traz contribuição para entendermos a Noção de Inércia, o Princípio de Mach, na formulação da Mecânica Relacional, aumenta nossa compreensão dos fenômenos inerciais. Como sugerido por Mach, na proposta da Mecânica Relacional não há a necessidade de admitirmos a existência do espaço absoluto (ou referencial inercial), não existem forças fictícias, ou seja, todas as forças são descritas em termos de interações reais entre os corpos, obedecendo a lei de ação e reação e, o mais importante para nossa discussão, todas as descrições cinematicamente

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11. Mecânica Relacional

ou seja. T. Nessa nova proposta todas as forças são baseadas em interações entre os corpos materiais. Dordrecht. e. Não faz sentido. A. Desse potencial obtemos a força de Weber 2 Para uma justificação detalhada ver: A. 1995. O sistema mais simples que poderíamos considerar é aquele composto de duas partículas. com termos dependentes da velocidade e da aceleração relativas entre os corpos interagentes. K. não há força entre qualquer corpo e o “espaço vazio”. (i)mobilidade da Terra – (i)mobilidade da Terra – (i)mobilidade da Terra . T. segundo a Mecânica Relacional. são restabelecidas as simetrias. no estudo da interação gravitacional entre os corpos em movimento. é dado por r& U 12 = & q1q 2 1  r2  1 − 122   2c  4πε o r12   (9) (εo é a constante de permissividade no vácuo e c é a velocidade da luz). Campinas. Weber’s Electrodynamics. separadas por & uma distância relativa r12. q1 e q2. Para a implementação das idéias de Mach. falar de movimento de um único corpo em um Universo completamente vazio de outros corpos materiais. Aplicações e Exercícios. Como acontecia nas forças de Coriolis e Centrípetas. K. Assis. Assis. a Lei da Gravitação Universal deve ser modificada de modo a assumir uma forma análoga à força de Weber2 para cargas elétricas.150 equivalentes para a (i)mobilidade da Terra tornam-se dinamicamente equivalentes. Kluwer Academic Publishers. Editora da Universidade Estadual de Campinas – UNICAMP. Eletrodinâmica de Weber – Teoria. 1994. O potencial de interação entre duas cargas elétricas. que se movem com uma velocidade relativa r12 e aceleração relativa &12 na formulação de Weber.

(i)mobilidade da Terra – (i)mobilidade da Terra – (i)mobilidade da Terra r ˆ & dU 12 q1q 2 r12  r 2 r &&  r 1 − 122 + 12 212  ˆ F21 = −r12 = 2  dr12 4πε o r12  2c c   (10) . e. são apresentados os seguintes postulados ou axiomas: 1) a força é uma quantidade vetorial que descreve a interação entre corpos materiais. pode ser escrita como m g1m g 2  &2 r12  1 − ξ 2  U 12 = G r12  2c    (11) (G é a constante de gravitação universal e ξ é um parâmetro cosmológico). na Mecânica Relacional. para uma correta implementação do princípio de Mach. considerando o princípio de Mach. separadas por uma distância relativa r12. 2) a força que uma partícula pontual A exerce sobre uma partícula pontual B é igual e oposta à força que B exerce sobre A e é direcionada ao longo da linha reta conectando A até B. obtém-se uma nova expressão para a força de interação gravitacional r  ˆ & dU 12 r  ξ  r2 ˆ F21 = − r12 = Gm g1m g 2 12 1 − 2  12 + r12 &&   r12   2   2 dr12 r12  c   (12) Além da modificação da Lei da Gravitação Universal.151 Analogamente a energia de interação entre duas massas gravitacionais. mg1 e mg2. A partir dessa expressão para o potencial.

. entre uma partícula teste e o restante do universo. André K T Assis. p. ASSIS. T.152 3) a soma de todas as forças de qualquer natureza (gravitacional. esse problema equivale a encontrar o potencial gravitacional e a força de interação de uma partícula movendo-se no interior de infinitas cascas esféricas concêntricas constituídas pelas estrelas..3 Esses três postulados. Mecânica Relacional. elástica. nuclear. p. utilizando as expressões (11) e (12). magnética.. T. em termos de Energia. Os resultados precisam coincidir com a situação oposta: as cascas esféricas se movendo em relação a uma partícula fixa em seu interior. mecânica relacional . Mecânica Relacional. podem ser expressos em apenas um:4 1) A soma de todas as energias de interação (gravitacional. Considerando a simetria esférica.) agindo sobre qualquer corpo é sempre nula em todos sistemas de referência. elástica.200 Na Mecânica Relacional derivamos a energia cinética como uma energia de interação gravitacional. 218) 5 André K..5 O princípio de Mach é implementado quantitativamente quando calculamos o potencial e a força gravitacional.200 4 (i)mobilidade da Terra – (i)mobilidade da Terra – (i)mobilidade da Terra . Mecânica Relacional. elétrica. Não apresentaremos os desenvolvimentos matemáticos que devem ser examinados em: ASSIS. de mesma natureza que qualquer outro tipo de energia potencial (Ver. p..) entre qualquer corpo e todos os outros corpos no Universo é sempre nula em todos os sistemas de referência. Como resultados são obtidos: 3 André K. ASSIS. pág 207. elétrica.

. movimento com força constante. Existem também já alguns testes experimentais que corroboram resultados previstos pela mecânica relacional e outras propostas experimentais ainda em vias de serem desenvolvidas. (15) Com a formulação matemática da Mecânica Relacional é igualmente fácil resolver todos os problemas anteriormente resolvidos pela mecânica newtoniana. A característica principal da Mecânica Relacional. Dando um significado de interação com o restante do universo a essas duas energias. A mecânica Relacional permite ainda explicar problemas que vão além do que a física newtoniana alcançava. (14) c) como subproduto é deduzida uma relação fundamental entre as constantes cosmológicas descoberta por Dirac em 1930. movimento circular uniforme. é a equivalência dinâmica entre movimentos equivalentes do ponto de vista cinemático. como a precessão do periélio dos planetas. movimento oscilatório. Essa equivalência fornece um novo argumento em favor do movimento de rotação da Terra ao permitir enxergar com novos olhos os casos do Pêndulo de Foucault e do achatamento na forma da Terra.. e o que a diferencia da teoria clássica de Newton e da teoria da Relatividade de Einstein. como o movimento retilíneo uniforme. a anisotropia da massa inercial e o movimento de partículas em alta velocidade. (i)mobilidade da Terra – (i)mobilidade da Terra – (i)mobilidade da Terra . etc. (13) b) para o cálculo da força: uma expressão equivalente à segunda lei de Newton somada a três expressões de forças equivalentes ao que chamamos de forças fictícias (centrífuga.153 a) para o cálculo do potencial: uma expressão equivalente à energia cinética somada a energia de repouso relativística. de Coriolis e outra sem nome).

o pêndulo continuaria igualmente mudando a direção do seu plano de oscilação. Mach. Assis questiona as descrições dos experimentos sobre a forma da Terra e do pêndulo de Foucault que alegam serem provas de que a interpretação heliocêntrica é melhor. obtém-se o mesmo efeito. pág 266) Assim. mecânica relacional . com o mesmo valor numérico calculado para o achatamento. Assim. a mudança de direção no plano de oscilação do pêndulo de Foucault é devida a uma interação deste com as demais massas do universo. seguindo as idéias de E. (ver detalhes em: ASSIS. Assim.". (i)mobilidade da Terra – (i)mobilidade da Terra – (i)mobilidade da Terra . "se a situação cinemática é a mesma. (ver detalhes em: ASSIS. ou mais precisa que a geocêntrica. mecânica relacional . utilizando os resultados descritos em (14). tanto faz girar o planeta. se a Terra permanecesse imóvel e todo o restante do universo girasse ao seu redor.154 a) Achatamento na forma da Terra: segundo o desenvolvimento da Mecânica Relacional . Verifica-se quantitativamente a suposição de Mach. como girar todo o resto em torno dele. utilizando os resultados descritos em (14) a Terra seria achatada em função de uma interação sua com o restante das estrelas e demais astros do universo. pág 265) b) Pêndulo de Foucault: de acordo com a Mecânica Relacional. então os efeitos dinâmicos também têm de ser os mesmos.

como explica Assis: . p. 6 André K. qualquer outro sistema de referência será também equivalente. com a nova argumentação aplicada aos resultados experimentais.6 Como vimos os sistema geocêntrico e heliocêntrico são cinematicamente equivalentes já na mecânica clássica. (i)mobilidade da Terra – (i)mobilidade da Terra – (i)mobilidade da Terra . O que acontece na Mecânica Relacional é uma ampliação desta equivalência também para a descrição dinâmica do movimento de rotação da Terra. Essas duas visões de mundo.. ASSIS. E escolher entre um sistema e outro é uma questão puramente de gosto ou de simplicidade prática. tal que sua própria velocidade e aceleração sejam sempre nulas.. ambas as concepções de mobilidade e imobilidade para a Terra são igualmente válidas e corretas. não havendo nenhuma razão física mais profunda. T. Mecânica Relacional. Todas as forças locais atuando sobre a pessoa serão contrabalançadas pela força exercida pelo universo distante. são completamente equivalentes e ainda mais. Qualquer pessoa ou sistema de referência pode-se considerar realmente em repouso enquanto que todo o universo move-se ao redor desta pessoa de acordo com sua vontade. qualquer sistema de referência é igualmente válido.155 Como fica então a resposta a nossa questão inicial quanto ao movimento da Terra? Segundo a mecânica relacional. E isto não apenas cinematicamente como sempre se soube. Por esse motivo. nós utilizamos a palavra "(i)mobilidade" (com o i entre parênteses) para expressar o estado de movimento e/ou repouso da Terra desde o início deste trabalho. mas também dinamicamente.230.

podem ser concebidas como descrições complementares de um mesmo fenômeno físico: a (i)mobilidade da Terra. as concepções em que se apóiam. os argumentos e todas os experimentos estudados a partir deste texto. as descrições geocêntrica e heliocêntrica para o movimento de rotação da terra. (i)mobilidade da Terra – (i)mobilidade da Terra – (i)mobilidade da Terra . segundo a mecânica relacional. Argumento Concepção de mundo Experimento Resposta * * * * * * * * * A resposta à nossa questão quanto ao movimento da Terra fica assim indeterminada por esse nosso último e fabuloso argumento. a partir do Princípio de Mach e da formulação da Mecânica Relacional. para o conflito entre o geocentrismo e o heliocentrismo uma solução análoga à dada ao conflito entre a natureza ondulatória e corpuscular da luz: a dualidade onda-partícula que junta. De igual modo. paradoxalmente em uma mesma teoria. Uma vez escolhida uma forma de descrever o fenômeno a outra deixa de ser válida.156 Assim sugerimos. * * * * * * * * * Como atividade final propomos a elaboração de um quadro síntese resumindo todas as respostas quanto ao movimento da Terra. aspectos totalmente antagônicos.

não podemos nos perder da História da Ciência e nem desprezar boas teorias alternativas. (i)mobilidade da Terra – (i)mobilidade da Terra – (i)mobilidade da Terra . garantir com certeza se a Terra está móvel ou imóvel? O que podemos afirmar com certeza é que jamais devemos ignorar os argumentos. por mais simples que nos pareçam.157 Sobram-nos questões: Quais dos argumentos estudados não são válidos? Quais são? Quais novos argumentos surgirão? Poderemos um dia. E. se quisermos compreender cada vez mais.

. um encontro... Apresentamos também. em função dessa perspectiva analítica. a o uso legítimo de de propagandas. uma ponte.. pluralidade metodológica.. Portanto devemos: Fazer da interrupção um caminho novo . ficaram três coisas: A certeza de que estamos sempre começando. Neste trabalho apresentamos algumas perspectivas para a análise do ensino de ciências. e do ensino de física em particular.. uma escada. Do medo. Do sonho... a partir do encontro com noções da epistemologia de Paul Feyerabend. Desenvolvemos uma concepção da ciência como tradição cultural que incorpora aspectos como a compatibilidade do conhecimento científico com crenças metafísicas a culturalmente compartilhadas...... existência conceitos . A certeza de que seremos interrompidos antes de terminar. Da queda um passo de dança.Considerações Finais De tudo.... Da procura. uma proposta alternativa de ensino relacionada ao movimento da Terra e ao conceito de Inércia. (Fernando Pessoa). A certeza de que precisamos continuar..

Kuhn.. recupera a natureza de arte-prática do processo educativo. cumpre o papel de difundir as tradições culturais e respeita as diferentes aptidões e vontades manifestadas por alunos. ainda. não consistindo em uma metodologia sistemática da pesquisa científica. que se investigasse a dinâmica de trabalho e as relações coletivas de diferentes grupos de pesquisa e estudo de Física. etc. em continuidade à nossa pesquisa. Bachelard. Tendo em vista que a filosofia de Feyerabend se propõe a apresentar somente limitações aos sistemas metodológicos. As propostas alternativas. para uma compreensão mais ampla das idéias aqui discutidas. seria bastante interessante associar este trabalho a um conjunto síntese completo das epistemologias de outros filósofos da ciência como Popper.. Como resultado do olhar sobre a Educação desenvolvemos uma abordagem cultural que. A dualidade onda-partícula. opondo-se às restrições de uma pedagogia distante ou autoritária. a noção de espaço-tempo ou as leis do eletromagnetismo são tópicos da Física que poderiam ser abordados segundo as perspectivas educacionais que desenvolvemos. na formação científica de nível superior. para o contraste.Considerações Finais 159 incomensuráveis entre teorias sucessivas ou concorrentes. professores e comunidade em que a escola está inserida. a contaminação da observação por diferentes interpretações naturais e a compreensão de que as evidências empíricas são aprendidas dentro de uma cultura específica. Laudan. podem ser obtidas de teorias novas. Lakatos. explorar outros temas da Física a partir de teorias contrastantes e por uma abordagem cultural. Como continuidade desse trabalho propomos. No que se refere ao conflito obediência versus ousadia. como no exemplo da Mecânica . seria muito apropriado.

o caminho se faz ao andar.Considerações Finais 160 Relacional. professores e estudantes de Ciências. poderiam também ser ampliados com investigações mais específicas. Por fim. dentre muitas outras possibilidades. O aprofundamento e a qualificação das nossas idéias sobre a visão da função dos especialistas. a teoria do calórico. Também é de fundamental importância verificar em situação de ensino a resposta ao uso do texto subsídio aqui proposto. enriquecer ou se opor às nossas observações quanto ao Ensino da Física. ou de teorias há muito superadas. cabe enfatizar que as idéias resultantes deste trabalho podem subsidiar mas não conduzir a prática de pesquisadores. Os resultados das atividades e as impressões de alunos e professores sobre a abordagem proposta podem consistir em um rico material de análise que permitiria complementar. implícitas no ensino de ciências e na sociedade. como a teoria do éter. Como recomendou um outro poeta a um caminhante. . Mas há que se considerar sempre o contexto em que as idéias serão discutidas e a decisões nunca podem ser antecipadas.

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