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Tropa de Elite

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Published by: Eliana Vasconcelos on Mar 06, 2011
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SUMÁRIO: Introdução; 1. Considerações gerais sobre o tema; 1.1. Conceito, princípios e atributos da jurisdição; 2. Direito Processual Constitucional; 3.

Instrumentos e medidas judiciais de busca da inclusão social pela jurisdição; 3.1. Devido processo legal; 3.2. Razoabilidade na duração do processo; 3.3. Repúdio ao formalismo exacerbado; 3.4. Assistência jurídica gratuita; 3.5. Tutelas de urgência: cautelar e antecipada; 3.6. Tutelas específicas: inibitória, reintegratória (remoção do ilícito) e ressarcitória específica; 3.7. Tutela de interesses transindividuais; 3.8. Casos de inversão do ônus da prova; 3.9. Juizado Especial Cível; 3.10. Estímulo à conciliação e transação; 4. Conclusão; 5. Bibliografia. RESUMO: Este presente trabalho objetiva a análise da jurisdição como um fator de inclusão social. A partir de uma exposição singela sobre as facetas atuais da jurisdição, tecem-se considerações sobre o direito processual à luz da Constituição, cotejando-se as regras existentes com os princípios veiculados pela Lei Maior. Em seguida, passa-se à análise dos instrumentos capazes de refletir a almejada inclusão, para concluir que muito foi feito, mas falta ainda muito a fazer para que se garanta, de forma efetiva, a desejada inclusão. ABSTRACT: This present work aims to analyses jurisdiction as a factor of social inclusion. Starting from a simple exposition about jurisdiction nowadays facets, considerations are made concerning procedural law at the light of Constitution, in comparison with rules and principles existent on the Constitution. Following, it analyses instruments capable of reflecting desired inclusion, to conclude that much has been done, but there is still a lot to do to guarantee, in an effective way, desired inclusion. PALAVRAS-CHAVE: jurisdição. inclusão. social. Constituição.

INTRODUÇÃO
A Constituição da República de 1988, em atenção ao postulado da dignidade humana, proclamou uma série de direitos fundamentais. Dentre estes, situam-se os direitos individuais e coletivos, previstos no artigo 5º, da Lei Maior. Neste rol, destacase, no presente trabalho, o princípio da inafastabilidade do controle jurisdicional, previsto no inciso XXXV, de mencionado dispositivo. Dele pode ser extraída a fundamentação necessária para que a jurisdição se revista de viés democrático e conteúdo ético-jurídico, viabilizando-se, pois, a verdadeira inclusão.

1. JURISDIÇÃO: CONSIDERAÇÕES GERAIS
Ubi societas, ibi jus. Já é conhecido o adágio romano. Basta, pois, haver agrupamento de indivíduos, por mais rudimentar que seja, para que seja imperioso se cogitar de regras de condutas e seu cumprimento. A imposição de regras a certa sociedade não basta para que nela não existam conflitos de interesses, pois, hodiernamente, a quantidade de seres suplanta o número de bens e interesses. É, pois, necessário que haja mecanismos suficientes para assegurar a autoridade das normas impostas.

Em um primeiro momento, as divergências havidas eram resolvidas pelas próprias partes do conflito. É que se denomina de autotutela. Prevalecia, pois, a vontade do mais forte, ocorrendo, pois, a prevalência do império da força sobre o império das leis. A autotutela foi cedendo à medida que houve o fortalecimento dos Estados. Estes passaram, pois, a assumir o dever-poder de solucionar os conflitos surgidos entre seus membros. Conforme ensina Cesar Asfor Rocha (2007, p. 34): O aumento das populações, mesmo nos grupos sociais primitivos, foi impondo, gradativamente, a necessidade de que esses conflitos inter-individuais, naturais da convivência social, passassem a ser regulados ou resolvidos por meio de atividade estranha aos próprios esforços pessoais dos litigantes. No momento, porém, em que surgem as necessidades de julgamentos externos às vontades das partes, vencidas as etapas da autotutela e da autocomposição, vê-se o simultâneo aparecimento de estruturas formais de poder, implicando, como é natural, a organização de mecanismos também formais para pô-las em funcionamento e, ao mesmo tempo, de estilos peculiares de conduta, inclusive de linguagem, para realizar o acesso O poder, pois, de administrar os interesses coletivos, elaborar as normas estatais de conduta e aplicá-las concentra-se no Estado. Este fato remonta sua origem ao absolutismo, notadamente pela concentração dos poderes nas mãos do governante, do monarca, do príncipe. Nesse sentido, Paulo Bonavides escreve (2007, p. 33): ...foi a soberania, por sem dúvida, o grande princípio que inaugurou o Estado Moderno, impossível de constituir-se se lhe falecesse a sólida doutrina de um poder inabalável e inexpugnável, teorizado e concretizado na qualidade superlativa de autoridade central, unitária, monopolizadora de coerção Desse modo, todas as parcelas de vontades individuais deveriam se submeter à vontade estatal, a qual advinha de uma só pessoa ou grupo de pessoas (conselho), que determinavam todos os caminhos da coletividade. Após a derrocada do Estado Absoluto houve a ascensão do Estado Liberal, que teve como uma de suas determinantes a revolução burguesa havida na Europa feudal. Dentre suas idéias básicas já estava a ideologia da separação dos poderes. Houve grande fortalecimento da atividade legislativa, sendo que os julgadores deveriam se limitar a aplicar as leis, não havendo espaço para qualquer espécie de interpretação dessas normas. Na conhecida expressão de Montesquieu, os juízes deveriam ser apenas a boca da lei, privilegiando-se, pois, a escola da exegese, segundo a qual a totalidade do direito positivo se identifica por completo com a lei escrita; com isso a ciência jurídica se apegou à tese de que a função específica do jurista era ater-se com rigor absoluto ao texto legal e revelar seu sentido (Diniz: 2000, p. 50). Esse pensamento foi de inegável importância à época de seu surgimento, pois as pessoas sujeitas à norma poderiam ter a segurança da existência e extensão de seus direitos e deveres.

No entanto, apesar de sua grande pujança quando de seu surgimento, a escola da exegese sucumbiu às críticas que lhe eram direcionadas. Era inegável que qualquer norma, por mais unívoca que aparentasse ser, estava sujeita à interpretação. Ademais, patente a necessidade de a interpretação a elas conferida dar o "colorido" necessário e exigido pelo avanço social. Assim, várias correntes se contrapuseram à escola da exegese. Dentre as quais, podem ser destacadas (Diniz, 2000, p. 61-69): a corrente utilitarista de Jeremy Bentham (interpretação das leis a partir dos efeitos reais por ela produzidos quando aplicadas), o teleologismo de Rudolf von Ihering (interpretação das leis deve pressupor o conhecimento efetivo do povo e da época, pois sua finalidade é a própria existência da sociedade), a experiência prática de Oliver Wendell Holmes (a interpretação não é mera atividade silogística, mas resulta da experiência e necessidades de cada época, as teorias morais e políticas predominantes e intuições que inspiraram a ação política), a escola do direito livre de Eugen Ehrlich (o direito livre não é o direito estatal, contido nas leis, mas aquele que está constituído pelas convicções predominantes que regulam o comportamento, em um certo lugar e tempo, sobre aquilo que é justo) e a jurisprudência de interesses de Max Rümelin, entre outros (a função judicial é também a de ajustar os interesses, como o legislador o faria se tivesse de legislar sobre aquele caso). A aplicação estrita da lei, sem a pretensão de interpretá-la, sucumbiu fortemente com a promulgação de Constituições Democráticas (Rocha, 2007, p. 38), que passaram a exigir que normas fossem interpretadas a partir de seus regramentos, principalmente de cunho principiológico. Conforme Owen Fiss (2004, p. 36), a função do juiz é conferir significado concreto e aplicação aos valores constitucionais. Desse modo, longe de ser mera carta de intenções, as Constituições Democráticas veiculam preceitos de ordem pública, de índole cogente, de observância obrigatória em todo o proceder estatal. Nesse sentido, adveio a Constituição da República de 1988, cujos princípios devem irradiar-se para todo o direito pátrio. E, notadamente, em se tratando de processo e jurisdição, para que se garanta sua finalidade última, a saber, a pacificação social, na esteira do que já sustentou Gelson Amaro de Souza (2007, p. 26): É o processo o instrumento de pacificação social, através do qual o Estado visa solucionar os conflitos de interesse e difere da relação de direito material, com a qual por muitos séculos foi confundido. O processo não existe isoladamente, e a sua razão de ser está nos conflitos sociais e na conseqüente necessidade de solucioná-los na busca da pacificação social 1.1. JURISDIÇÃO: CONCEITO E PRINCÍPIOS De acordo com Fredie Didier Jr. (2007, p. 65), a jurisdição pode ser conceituada como a realização do direito em uma situação concreta, por meio de terceiro imparcial, de modo criativo e autoritativo.

Estefânia Maria de Queiroz Barbosa. definida pelo Poder Judiciário. uma solução que esteja em conformidade com as disposições e princípios constitucionais. o juiz não se escusa de julgar invocando lacuna Feitas essas considerações. bem assim com os direitos fundamentais De costume. conferindo-lhes legitimidade. a fim de iluminar todos os outros ramos do Direito. que aplicará o direito posto a uma situação concreta que lhe é submetida. ou simplesmente norma individual. Trata-se do fenômeno denominado constitucionalismo. indelegabilidade e inafastabilidade. eles devem buscar a cooperação dos outros magistrados. cumprindo-lhe compreender as particularidades do caso concreto e encontrar. a aplicação da norma geral e abstrata ao caso concreto. pode-se dizer que o Direito Constitucional figura no centro de todo o ordenamento jurídico. A ausência de investidura implica óbice instransponível para o exercício da jurisdição. d) inafastabilidade: a lei não pode excluir da apreciação do Poder Judiciário nenhuma lesão ou ameaça a direito (CF. 65): Diz-se que a decisão judicial é um ato jurídico que contém uma norma jurídica individualizada. passa-se a tecer certas considerações acerca da influência determinante dos preceitos constitucionais sobre o direito processual. exige-se do juiz uma postura muito mais ativa. p. p. que é pressuposto processual da própria existência do processo. DIREITO PROCESSUAL CONSTITUCIONAL No sentido do que acima foi exposto. não podendo haver delegação de competências. quatro princípios próprios à jurisdição são sempre destacados pela doutrina: investidura. expõe Marcus Vinicius Rios Gonçalves (2004. b) aderência ao território: os juízes só têm autoridade dentro do território nacional. como será abordado abaixo. na norma geral e abstrata. pura e simplesmente. não basta que o juiz promova. de forma específica. c) indelegabilidade: a função jurisdicional só pode ser exercida pelo Poder Judiciário. a partir de preceitos mais ou menos abstratos e de alta carga axiológica. escreve (2007. 5º. em virtude do atual Estado Constitucional Brasileiro. respeitados os limites da sua competência. pois. sob pena de ofensa ao princípio constitucional do juiz natural. de uma das funções do Estado. Para a formulação dessa norma individualizada. com a expedição de cartas precatórias. observa que (2007. fora dos limites territoriais de sua competência. É por essa razão que. que se diferencia das demais normas jurídicas (leis. por exemplo) em razão da possibilidade de tornar-se indiscutível pela coisa julgada material. contudo. Entretanto. Mesmo que não haja lei que se possa aplicar. 50): . p. XXXV).Tradicionalmente. em trabalho publicado acerca da jurisdição constitucional. trata-se. Em virtude do chamado póspositivismo que caracteriza o atual Estado constitucional. com propriedade. a um determinado caso concreto. Esta nada mais é que a medida territorial da jurisdição. aderência ao território.. 45): ‘A) investidura: só exerce jurisdição quem ocupa o cargo de juiz. típica do Poder Judiciário. de forma bastante didática. Fredie Didier Jr. art. 2. Por todos.

os direitos fundamentais que. pois. deve brilhar. Tem-se que o neoprocessualismo é o estudo do Direito Processual com supedâneo no neoconstitucionalismo. o chamado neoprocessualismo. mandamentos de otimização. p. estão na verdade. Se é luz. surge o pensamento denominado neoconstitucionalismo. não havendo espaço para possíveis conflitos entre elas. surgiu em um ambiente impregnado por idéias chamadas pós-positivistas. por conseguinte. ou. 343). mormente quando se tratar de comandos veiculadores de direitos fundamentais. ainda. a busca da efetividade das normas constitucionais. deve haver grande esforço para a máxima aplicação das regras e princípios constitucionais. com a sistematização de novos princípios a esta interpretação inerentes (2008. Dele origina-se.ascensão de valores. pois. devem ser satisfeitos na maior medida possível.. a proteger o povo como um todo e não apenas maiorias eventuais. Princípios. Nesse diapasão. em atenção ao princípio da unidade. p. Novo Direito Constitucional. institutos e categorias do Direito Processual. Se uma regra vale..O constitucionalismo tem. nem mais. que são caracterizados por poderem ser satisfeitos em graus variados e pelo fato de que a medida devida de sua satisfação não depende somente das possibilidades fáticas. representam os valores substantivos escolhidos pela sociedade no momento constituinte – de máxima manifestação da soberania popular – que garantem o funcionamento da democracia. como queiram alguns. o reconhecimento da normatividade dos princípios e a essencialidade dos direitos fundamentais". com base na chamada "força normativa da constituição" e desenvolvimento de novos métodos de interpretação constitucional. deve se fazer exatamente aquilo que ela exige. 342). portanto. E quem está incumbido de proteger estes valores é o Poder Judiciário. pois. então. Regras contêm. salienta-se que não basta a Constituição figurar no centro do ordenamento jurídico. ou no ápice. isto é. assim entendidas como aquelas destinadas a reconhecer a ". na imposição de ditames constitucionais. O âmbito das possibilidades jurídicas é determinado pelos princípios e regras colidentes. e não interferir na realidade prática. mas também das possibilidades jurídicas. ação. como pedra angular. Regras constitucionais devem ser sempre satisfeitas. Já as regras são normas que são sempre ou satisfeitas ou não satisfeitas. O neoconstitucionalismo. devem ter arrimo na Constituição . Trata-se de fenômeno fruto de duas mudanças básicas de paradigma. Todos eles. nem menos. por sua vez. 90-91): Princípios são. visando. quando os direitos fundamentais impõem limites materiais aos atos de governo. p. conforme determinação do próprio poder constituinte Dito isto. Leciona Robert Alexy o seguinte (2008. conforme salienta Luís Roberto Barroso. ainda. defesa e processo. pois existe a possibilidade de colidirem ou. por sua vez. por não haver possibilidade fática. determinações no âmbito daquilo que é fática e juridicamente possível Nessa perspectiva. (2008. Saliente-se que toda a ciência processual gira em torno de quatro institutos básicos: jurisdição. É uma releitura dos princípios.

se um dia foi importante para a concepção de um direito de ação independente do direito material. Dito isto. 32): A importância que se dá ao direito de acesso à justiça decorre do fato de que a ausência de tutela jurisdicional efetiva implica a transformação dos direitos garantidos constitucionalmente em meras declarações políticas. ainda. é pela atividade jurisdicional que o Poder Judiciário soluciona conflitos de interesses que lhe são submetidos. 8) a resposta judiciária de qualidade deve ser: (a) justa (equânime e plausível). Trata-se do princípio da inafastabilidade do controle jurisdicional: "A lei não excluirá da apreciação do Poder Judiciário lesão ou ameaça de lesão a direito". Conforme salienta Rodolfo de Camargo Mancuso. Compreende. no inciso LXXVIII. A jurisdição. significa apenas direito à sentença de mérito. pode ser fator de exclusão social ou de inclusão. o acesso à justiça ao patamar de direito fundamental. nessa ordem. p. o qual. deve ser interpretado em sua máxima efetividade. de modo que seus princípios básicos. 45/2004. Por outro giro. ou direito de ação. . 3. Por essas razões. a doutrina moderna abandonou a idéia de que o direito de acesso à justiça. direito a uma sentença de mérito. (c) tempestiva (vedação à excessiva duração do processo – art. não se coaduna com as novas preocupações que estão nos estudos dos processualistas ligados ao tema da "efetividade do processo". pela medida de sua efetividade. É mais que isto. de conteúdo e função mistificadores. (2007. em maioria. decorrem das garantias fundamentais. Esse modo de ver o processo. pois. CF). No inciso LIV consta a exigência de observância ao devido processo legal. persuasivas e impeditivas de recurso). Erige. (d) razoavelmente previsível (a jurisprudência dominante e suas súmulas vinculantes. recentemente acrescido pela Emenda Constitucional n. LXXVIII. Ele não deve ser confundido como mero acesso ao Poder Judiciário ou. o mandamento trazido pelo inciso XXXV. Luiz Guilherme Marinoni e Sérgio Cruz Arenhart escrevem (2006. 5º. bem por isso. p. que traz em si a superação da ilusão de que este poderia ser estudado de maneira neutra e distante da realidade social e do direito material . INSTRUMENTOS E MEDIDAS JUDICIAIS DE BUSCA DA INCLUSÃO SOCIAL PELA JURISDIÇÃO Como já foi visto. Nessa esteira. (b) jurídica (tecnicamente fundamentada e consistente). sobretudo. o direito à tutela efetiva dos direitos. do mesmo artigo.da República. trouxe no rol de seu artigo 5º alguns direitos e garantias que se aplicam diretamente ao processo. Cumpre destacar. A qualidade do serviço jurisdicional é marcada. houve a consagração explícita do princípio da razoável duração do processo. dependendo da forma como for prestada. atribuindo-se definitividade à decisão. sobretudo. importa esclarecer que nossa Lei Maior.

pelo combate à exclusão social. tanto em processos judiciais. é imprescindível a existência de seqüência de atos tendentes a esse mister. p. entende-se. Somente assim haverá o cumprimento da igualdade material ou ontológica. pois. como direitos públicos subjetivos (ou poderes e faculdades processuais) destas. Deve franquear. que existem muitos outros institutos processuais vocacionados a esse objetivo. a seguir. Sobre ele. quando obedecer às exigências de nosso Estado Democrático de Direito. quanto administrativos.1. cuja marca é a observância da razoabilidade para os atos normativos em geral. como fator legitimante do exercício da jurisdição . para que haja cerceamento de liberdade ou restrição aos bens. já defendida por Rui Barbosa: igualdade de tratamento aos iguais e tratamento desigual aos desiguais. meios especiais de acesso à justiça. visar à inclusão. de um lado. direcionando-se diante de tal ou qual situação da forma mais efetiva possível. Por outro giro. Devido processo legal Trata-se de garantia constitucional de que ninguém será privado da liberdade ou de seus bens sem o devido processo legal (art. Antônio Carlos de Araújo Cintra. ao lado do "substantial due process". "iluminados" pelos corolários do contraditório e ampla defesa. do outro. asseguram às partes o exercício de suas faculdades e poderes processuais e. a atividade jurisdicional será fator de inegável inclusão social. justamente. O Poder Judiciário. 88): Conjunto de garantias constitucionais que. devido à natureza desse trabalho. objetivamente considerado. Passa-se. LIV). Isto se dá. Desse modo.Será fator de exclusão quando não observar as peculiaridades e vicissitudes do caso que se lhe apresenta. de modo a assegurar a ordem jurídica justa. deve zelar pelo cumprimento desses preceitos. pois. Garantias que não servem apenas aos interesses das partes. A atividade jurisdicional deve. às minorias e aos sujeitos em condições especiais. na exata medida em que se desigualam. fazendo ligeiras observações a cada tema. É o viés procedimental do princípio em pauta. procura-se elencar alguns deles. mediante o afastamento de óbices indevidos de acesso à justiça. com o fito de tutelar os direito de forma efetiva. foram erigidos para que houvesse a concretização de menciona inclusão. antes de mais nada. 3. Ada P. para que as mais variadas oportunidades apareçam também a essas camadas. porém. Grinover e Cândido Rangel Dinamarco afirmaram que se trata do (2006. são indispensáveis ao correto exercício da jurisdição. na medida do possível. No entanto. aos mais necessitados. Reconhece-se. refutando todas as condutas contrárias adotadas pelo Executivo e Legislativo. mas que configuram. mormente quando se tratar de direitos fundamentais. pois. a salvaguarda do próprio processo. a tratar de assuntos pontuais que. 5º.

inegavelmente. Os pressupostos processuais são intrínsecos. 678. Os pressupostos processuais intrínsecos podem ser de existência e de validade. mormente se levada em consideração. Há quem sustente a dispensabilidade dessa previsão. e b) ainda em uma série de garantias. Nessa esteira. notadamente os pressupostos processuais e as condições da ação. de 06/11/1992. Desse modo. pois processos que se propalam excessivamente no tempo. para que as pessoas deixem de receber exatamente aquilo que receberiam se o devedor tivesse cumprido espontaneamente a obrigação. pois o fator tempo colabora. 8º. em geral). citação e demanda. tratase de corolário do princípio do acesso à Justiça.2. 1. Por outro giro. Razoabilidade na duração do processo Dentre os princípios deontológicos do processo. habeas corpus) e a qualidade dos sujeitos envolvidos (menores que pleiteiam pensão alimentícia e demandas de pessoas idosas. é de rigor a observância a certos requisitos de forma. concebido não simplesmente no direito de demandar. qualquer punição ou restrição patrimonial sem que haja o respeito ao devido processo legal é arbitrária e ilegítima. capacidade processual. fator de exclusão social. a duração razoável do processo enseja a inclusão social. uma duração não razoável é. dificilmente conseguirão por termo à crise de satisfatividade. 89): O conteúdo da fórmula vem a seguir desdobrado em um rico leque de garantias específicas. acrescentou o inciso LXXVIII ao artigo 5º. implicando verdadeira exclusão social pela via do processo. estendidas agora expressamente ao processo civil. garantindo a todos a razoável duração do processo e os meios que garantam a celeridade de sua tramitação. Pressupostos processuais intrínsecos de existência são: jurisdição. está o princípio econômico. não mais restrito à proibição de bills of attainder e juízos ou tribunais de exceção. quando devem estar ausentes. os pressupostos processuais extrínsecos de validade são: presença de juiz imparcial e competente. da Constituição da República. 5º. do qual o Brasil é signatário. 3. a EC 45/2004. sobre o desdobramento desse princípio.3. a saber: a) antes de mais nada. capacidade postulatória. Por outro turno. quando devem estar presentes e extrínsecos. Ademais. mas abrangendo a dimensão do juiz competente (art. por mais que satisfaçam a crise de certeza do direito. uma vez que já se tratava de garantia de observância obrigatória. da Convenção Americana de Direitos Humanos (Pacto de São José da Costa Rica).E ainda. para a definição dessa razoabilidade. a natureza do procedimento (mandados de segurança. Desse modo. inegavelmente. Repúdio ao formalismo exacerbado Para o regular processamento de feitos. não merecendo subsistir. . no custo e duração. ensinam que (2006. incs. 3. regendo que o processo deve ser acessível a todos. ou até mesmo novas para o ordenamento constitucional. mas de acesso à ordem jurídica justa. liminares. na dúplice garantia do juiz natural. além do maior custo que geram às partes e a todo o aparato Judiciário. por força do art. XXXVII e LIII). p. que passou a viger no Direito Brasileiro a partir do Dec.

sem resolução de mérito. com supedâneo no artigo 244. compromisso arbitral. Por vezes. para a ação em que se pedem alimentos (inc. de todo o modo. 2004. salienta Cândido Rangel Dinamarco (2005. é imperioso que certas questões. em princípio. ainda. nada impede que o juiz da vara vizinha determine sua expedição. com a finalidade de evitar que a regra geral possa ocasionar dificuldades de acesso à justiça ao presumivelmente mais "fraco" na relação jurídica processual. Se o juiz da vara na qual tramita o processo não se encontra no recinto do Fórum. Rosa Maria de Andrade: 2007. Há exceções previstas no próprio CPC. que se o ato processual praticado for irregular. 25): . adotada por nosso Código de Processo Civil (NERY JR. ao determinar a competência do foro da residência da mulher. importa esclarecer que formalidade difere de formalismo exacerbado. posteriormente. ele tiver atingido sua finalidade. p. Estes casos e outros encontram respaldo constitucional. nos termos do artigo 267. para alguns. o foro do domicílio ou residência do alimentando. condicionam a própria existência do direito de ação. Pressupostos processuais extrínsecos são: coisa julgada. Trata-se. contraria a regra geral de competência do art. pois sua finalidade é reduzir desníveis. o art. V e VI. (GONÇALVES. Assim. para a expedição de um alvará de soltura. do CPC. deve o feito ser extinto. litispendência. p. Trata-se da aplicação do princípio da instrumentalidade das formas. pois. As condições da ação perfazem a possibilidade jurídica do pedido. Por exemplo. a nulidade – absoluta ou relativa – não deve ser decretada. para a ação de anulação de títulos extraviados ou destruídos (inc. pelo juiz competente. o interesse de agir e a legitimidade de partes. Diante da inexistência de pressupostos intrínsecos e condições da ação ou. e para a anulação de casamento (inc. perempção e. incisos IV. Nesse diapasão. 167). 94 ("domicílio do réu"). mas. Marcus Vinicius. incompetente. p. todavia. nada impedindo. verificando-se a presença de pressupostos extrínsecos. Máxime quando se trata de questões que podem ser confirmadas ou afastadas. III). quando houver necessidade. de requisitos indispensáveis à existência e desenvolvimento válido e regular do processo ou. Calha salientar.citação válida e petição inicial apta a produzir efeitos. para o resguardo do direito material. II) e o foro do domicílio do devedor. 100. em virtude da urgência. em face da urgência da medida. Nelson e NERY. em se tratando de condições da ação. assim. 105-108). conforme teoria eclética de Liebman. do Código de Processo Civil. sejam decididas por magistrado. I). CPC. que o magistrado os afaste no caso concreto. para a ação de separação dos cônjuges e a conversão desta em divórcio. nenhuma formalidade pode ser considerada um fim em si mesmo. por exemplo. Assim. Porém.

uma vez que seu objetivo é evitar maiores dúvidas quanto ao cabimento da tutela urgente (evidentemente de natureza nebulosa) no processo de conhecimento Feitas essas observações. Por vezes. tem-se que ambas as tutelas. Isto por uma razão de lógica básica: somente coisas distintas podem ser confundidas. ou. Tem cunho notadamente instrumental e o escopo de viabilizar o implemento futuro do direito que se busca. Entretanto. nas preocupações do legislador brasileiro da atualidade. 231): Esse parágrafo. de modo bastante visível. de forma efetiva. frisa a diferença entre ambas. na Lei da Ação Civil Pública. mas de forma antecipada. Por esta razão.. Ela satisfaz o direito acautelado. político. jurídico.4. é uma tendência universal. Nesse caso. Realiza. não existindo erro grosseiro do requerente. por sua vez. Com relação a ele. fatores de inclusão social. cautelar e antecipada. 273. Tutelas de urgência: cautelar e antecipada Tutela cautelar e tutela antecipada são espécies do gênero tutela de urgência. hoje 3. A tutela cautelar busca proteger a efetividade do processo correlato. concede à parte exatamente aquilo que pede. no Código de Defesa do Consumidor e no Código de Defesa da Criança e do Adolescente (medidas destinadas à efetividade do processo) (. Luiz Guilherme Marinoni e Sérgio Cruz Arenhart sustentam (2006. da tutela cautelar que foi chamada de antecipatória. consagrando o "princípio da fungibilidade" entre ambas as tutelas. o direito material afirmado pelo autor.) Aprimorar o serviço jurisdicional prestado através do processo. ao aceitar a possibilidade de confusão entre as tutelas cautelar e antecipatória. havendo dúvida fundada e razoável quanto à natureza da tutela. os direitos ali previstos. 7º do art. de modo geral. 3. são importantes instrumentos à efetividade da jurisdição e. p. também. Tutelas específicas: inibitória. não é muito fácil distingui-las. CPC. ao contrário da tutela cautelar. 273 pretendeu somente viabilizar a concessão. Em um primeira interpretação poderia ser dito que o par. exemplar. dito "principal". dando efetividade aos seus princípios formativos (lógico. aplica-se a idéia de fungibilidade. econômico). aceitando-se a possibilidade de requerimento de tutela cautelar no processo de conhecimento. Mas não se confundem.A visão instrumental que está no espírito do processualista moderno transparece. em outras palavras. pois viabilizam a adequada tutela do direito material (no caso de tutela antecipada) ou o resguardo da efetividade do processo correlato (no caso de tutela cautelar). por terem como marca característica o fator tempo como aniquilador do direito que procuram resguardar. reintegratória (remoção do ilícito) e ressarcitória específica De nada adianta possuir uma Constituição de vanguarda e uma legislação. se o ordenamento jurídico não tutela. alteração legislativa inseriu o parágrafo 7º ao art. no bojo do processo de conhecimento. é correto admitir a concessão de tutela de natureza antecipatória ainda que ela tenha sido postulada com o nome de cautelar.5. como se vê na Lei dos Juizados Especiais.. A tutela antecipada. . conseqüentemente.

O artigo 12.Nem sempre o ressarcimento dos danos materiais ou a reparação do dano moral em pecúnia ensejarão a justiça do caso concreto. 1º. Destinada a impedir. 1. por exemplo. parágrafo 1º. ou. Para o restabelecimento das partes à situação anterior àquela do dano ou ilícito. com ela não se confundindo. pois. 12 do Código Civil refere-se a técnicas de tutela específica. 6º.3. Nesse sentido. existem três modalidades de tutela específica: a tutela inibitória..2. pois atua justamente para impedir que ocorra violação a direitos. enunciadas no art. A tutela genérica. denominada "pelo equivalente em pecúnia" era aquela própria do Estado Liberal burguês. É imperiosa. devendo ser interpretada como resultado extensivo". p. o direito da personalidade. 586): Tutela inibitória. positiva (obrigação de fazer) ou negativa (obrigação de não fazer). não forem protegidos. Prefácio ao livro de Spadoni. as normas definidoras dos direitos fundamentais têm aplicação imediata. 5º. n. ou ainda sua continuação ou repetição" (Spadoni. a violação do próprio direito material da parte. inc. Sobre ela. a violação de um direito. Aliás. Seu objetivo é "impedir. Consoante parcela considerável da doutrina. no princípio da primazia da tutela específica (DIDIER et al: 2007. III. pois. o que ocorre nos casos de impossibilidade fática dessa situação (danos provenientes de ato ilícito exaurido) ou total desinteresse da vítima quanto a seu cumprimento. A tutela inibitória é de cunho preventivo. Ação inibitória. escrevem Nelson Nery Junior e Rosa Maria de Andrade Nery (2006. ela sucumbe diante dos preceitos constitucionais. pois. para a tutela das obrigações de entrega de coisa (CPC 461-A). o Enunciado 140 do Conselho da Justiça Federal: "A primeira parte do art. um dos fundamentos de nossa República Federativa (art. pois seus efeitos são de execução lato sensu (Nery. mormente os chamados novos direitos. É forma de tutela preventiva (tutela cautelar. a ação inibitória. p. de forma direta e principal. é imprescindível valer-se da tutela específica. a condenação daquele que causou um dano pague certa importância em dinheiro não causa lenitivo à dor. de forma definitiva. PP. a prática de ato contrário aos deveres estabelecidos pela ordem jurídica. Ação inibitória. A sentença inibitória prescinde de posterior e seqüencial processo de execução para ser efetiva no mundo fático. p. da Constituição. é preventiva e tem eficácia mandamental. 9). ocasionada pela prática de certo ato ilícito. para que haja observância ao sobreprincípio da dignidade da pessoa humana. por vezes. ainda. Em nosso Estado Democrático de Direito. Por expressa disposição do art. de nada adianta que tenham exigibilidade desde 05 de outubro de 1988 se eles. aplicáveis de ofício. dentre os quais se enquadra. O objetivo da . a tutela reintegratória (remoção do ilícito) e ressarcitória específica. do Código Civil. da Constituição. devem ser tutelados de forma específica. como ocorre nos casos de inadimplemento absoluto da obrigação. da CF). tutela antecipada e tutela inibitória). 461 do Código de Processo Civil. Principalmente os direitos sociais. 310). 29/30). efetivamente. Fala-se. constantes do art. Se assim o é. constitui verdadeira cláusula geral de tutela aos direitos da personalidade. em sua máxima expressão possível. de forma imediata e definitiva. É providência judicial que veda. relegando-se a tutela pelo equivalente em pecúnia para segundo plano. a proteção específica de certos direitos peculiares.

acima explanada. da prática de atos lícitos. apagá-lo. 41) Por outro lado. 3. a Lei de Aconselhamento e Assistência Judiciária da Inglaterra aumentou grandemente o alcance do sistema implantado em 1949. é impensável o cumprimento devido do pretendido acesso à justiça. a França substituiu seu esquema de assistência judiciária do século dezenove. para restabelecer a situação anterior. 314-315): A tutela reintegratória volta-se contra o ilícito já praticado (olha para o passado. tem cunho repressivo. pois atua após o ilícito ter sido praticado e consumado. Entende-se como ressarcimento na forma específica tanto a reparação in natura como a reparação através de um meio nãopecuniário Entende-se.). p. A reforma começou em 1965 nos Estados Unidos.inibitória é evitar que o ilícito corra. com o Office of Economic Opportunity (OEO) e continuou através do mundo no início da década de 70. a tutela reintegratória. que as tutelas específicas são verdadeiras formas de inclusão social. Ela se volta contra o dano já causado. como pretende a nova hermenêutica constitucional. e a Província Canadense de Quebeque estabeleceu seu primeiro programa de assistência judiciária financiado pelo governo.. pouco importa o dano. pois visa a impedir que ele continue. muito adequadamente. que o empregador seja compelido a custear e entregar-lhe uma prótese.6. eliminando-o. Didier. que se volta ao futuro). Em outubro de 1972. O que se questiona é a existência de dano e a viabilidade de seu desaparecimento. pois.5. a tutela reintegratória visa impedir que o ilícito continue. Dois meses mais tarde. no qual o custo dos honorários é suportado pelo Estado. Tut. baseado em serviço gratuito prestado pelos advogados. 316): Um bom exemplo de tutela ressarcitória específica é o caso em que um empregado que tenha sido vítima de um acidente de trabalho que leva à amputação de um de seus membros inferiores pode. especialmente na área de aconselhamento jurídico. em proporcionar serviços jurídicos para os pobres (. diferentemente da inibitória. prossiga ou se repita (Marinoni. mas não exaurido. sem elas. o novo e inovador programa da Suécia tornou-se lei. Em maio de 1972. p. pois é cediço que o dano pode decorrer. Pouco importa a culpa. 3. p. Inibitória. existe a tutela ressarcitória específica. por um enfoque moderno de "securité sociale". ela visa a removê-lo. Assistência jurídica gratuita Trata-se da primeira onda tendente a solucionar o problema de acesso à justiça. Enquanto a tutela inibitória visa impedir que o ilícito seja praticado. como forma de reparação específica. a República Federal da Alemanha aperfeiçoou seu sistema. Mauro Cappelletti e Bryant Garth escrevem (2002. fazê-lo desaparecer Por final. também chamada de remoção do ilícito. inclusive. Pouco importa a existência de ilícito. p. Em janeiro de 1972. pois. n. Os últimos autores acima citados fornecem um bom exemplo (2007. Rafael Oliveira e Paula Braga lecionam (2007. 31 e 33-34): Os primeiros esforços importantes para incrementar o acesso à justiça nos países ocidentais concentraram-se. aumentando a remuneração paga aos advogados particulares por serviços jurídicos prestados aos ..

aos três últimos exercícios financeiros. aparentemente. estatui em seu artigo 4º que os benefícios da assistência judiciária gratuita serão devidos àqueles que. o magistrado. Em outras palavras. pois nem sempre é fácil de fazer prova desse estado de hipossuficiência. pois. baseando-se. 4º. de modo a remunerar os advogados mais adequadamente. 1. existir. em mero juízo de possibilidade para deferi-lo (DIDIER Jr. da Lei n. mas que se relacionem. foi estabelecida nos Estados Unidos a longamente esperada Legal Services Corporation – um esforço para preservar e ampliar os progressos do OEO. e a Itália quase chegou a mudar seu sistema anacrônico. não há que se exigir que a parte comprove o fato de não poder arcar com as custas e despesas processuais.: 2007. destarte. Ocorre que nossa Constituição da República. determinou a prestação jurídica gratuita aos que comprovarem insuficiência de recursos. em 05 de fevereiro de 1950. Isto significaria um verdadeiro retrocesso. de revogação do dispositivo mencionado pelo Texto Constitucional. sem prejuízo próprio ou de sua família. E em julho de 1974. tanto a Áustria quanto a Holanda reviram seus programas de assistência judiciária. a obtenção de um documento qualquer relativo à lide. à gratuidade para os atos de índole eminentemente processual. grandemente melhorados Como se percebe.060/50 que dispensava essa comprovação.pobres. Desse modo. de fato. for necessária a juntada de documentos. já agora dissolvido. pois deixa de se referir. exclusivamente. p. Houve várias reformas na Austrália. salvo quando as vicissitudes do caso apontarem para sua inexistência. de questão atinente à cognição judicial vertical superficial. o que fornece conotação muito mais ampla. para tanto. ao arrepio do preceituado pelo art. para abarcar também atos extrajudiciais. trata-se. . os quais não serão facilmente obtidos se aquele estado. Os sistemas de assistência judiciária da maior parte do mundo moderno foram. Quando isto ocorrer. LXXIV. Ressalvados entendimentos contrários. entrou em vigor a Lei n. Outra questão interessante é o fato de a Constituição ter determinado a gratuidade jurídica àqueles que comprovarem insuficiência de recursos. 1. pela lei em pauta. com o processo. A primeira é que substituiu a expressão assistência judiciária por assistência jurídica. inc. a interpretação que faço é a seguinte: em princípio. simplesmente. em seu artigo 5º. trouxe duas inovações. pois. por exemplo. Em nosso País. assinala-se que não se pode cogitar. 273). Também durante esse período. é de bom alvitre que o requerente junte as declarações de seu imposto de renda referentes. não há necessidade de demonstração do estado de pobreza. tratou-se de onda que abrangeu quase todo o mundo ocidental. Nos exatos termos do dispositivo legal em tela. por simples afirmação de que não está em condições de pagar as custas do processo e os honorários de advogado. principalmente quando.060. de algum modo. Esse preceito constitucional. que era semelhante ao esquema francês anterior a 1972. Entre outras disposições. Por exemplo.

os efeitos subjetivos da sentença se produzirão onde quer que seus destinatários se encontrem. deferindo ou não o benefício Ainda em se tratando de gratuidade. pode entender que a natureza da ação movida pelo interessado demonstra que ele possui porte econômico para suportar as despesas do processo. está instalada em quase todos os estados brasileiros. Sem prejuízo. Trata-se de interesses que suplantam a mera proteção individual. do Código de Processo Civil. p.) A medida liminar ou sentença proferida em ação civil pública ou ação coletiva. valendo-se de critérios objetivos. mas de limites subjetivos da coisa julgada. 7. É o que se extrai da redação da primeira parte do artigo 472. por parcela da doutrina. pela circunstância concreta. Nos dizeres de Nelson Nery Júnior e Rosa Maria de Andrade Nery (2007. a regra de que somente há coisa julgada entre aqueles que fizeram parte da relação jurídica processual (princípio da relatividade). p.Nessa linha. liminar ou sentença de juiz estadual tenha de produzir efeitos em outro Estado da federação. e Rosa Maria de Andrade Nery escrevem (2007. 49). não é prova inequívoca daquilo que ele afirma. simplesmente "coletivos. p. fez surgir a necessidade de novos modos de proteção. atualmente. nem obriga o juiz a se curvar aos seus dizeres se de outras provas e circunstâncias ficar evidenciado que o conceito de pobreza que a parte invoca não é aquele que justifica a concessão do privilégio. bem como a Lei n. notadamente quanto aos efeitos erga omnes ou ultra partes da coisa julgada (CDC 103). pode atingir número elevado de pessoas residentes por todo o País. 1428): O juiz da causa.347/85. Trata-se da Defensoria Pública que. o processo civil apresenta certos dogmas. a chamada "Lei de Ação Civil Pública". Dentre eles. ainda subsistem em grande parte deles o convênio formado entre advogados particulares e a Defensoria Pública ou Procuradoria-Geral do Estado. coletivos e individuais homogêneos. Entretanto. com o rompimento de certos conceitos . tradicionalmente. fazer juízo de valor acerca do termo pobreza. 3.7. Tutela de interesses transindividuais Trata-se da segunda onda de acesso à justiça (CAPPELLETTI e GARTH: 2002. Tudo isto representa inegável expressão da inclusão social. As ações coletivas são demandas tendentes à proteção de interesses transindividuais. A declaração pura e simples do interessado. cumpre destacar existe carreira própria para a defesa dos interesses dessa categoria de pessoas. em sentido amplo". Bem por isso. a compreensão da nova categoria de direitos chamada "direitos transindividuais" ou. É possível que.. por exemplo. O Código de Proteção e Defesa do Consumidor. Cabe ao magistrado. possuindo espectro coletivo. de "efeito expansivo". Neste caso. 707): (. subdividem-nos em interesses difusos. para a atuação nessas causas. Dito isto. Não se trata de jurisdição nem de competência. conquanto seja o único entrave burocrático que se exige para libertar o magistrado para decidir em favor do peticionário. livremente. a decisão ou sentença proferida nessa espécie de ação contém o chamado. Nelson Nery Jr. importa salientar que.

8.078/90 prevê a facilitação da defesa do consumidor através da inversão do ônus da prova. à visão instrumental que se vem intentando conferir ao processo civil. apenas como um meio para a consecução do direito material. a tradicional regra de que falar e não provar é mesma coisa que não falar. O fornecedor é quem tem de provar que elas não procedem. anota Antônio Herman de Vasconcellos e Benjamin (2005. do CDC. É o que se denomina inversão ope legis. O caso mais marcante dessa inversão é trazido pelo Código de Defesa do Consumidor. na medida em que o modelo tradicional mostrou-se inadequado às sociedades de massa. VIII. jurídico. o que atende. a critério do juiz. Acredita-se que o alegado se deve. possibilitando a defesa coletiva de seus interesses. mas. além de sistematizar a responsabilidade objetiva e reformular os conceitos de legitimação para agir e conferir efeitos à coisa julgada secundum eventum litis A hipótese de inversão constante do art. sem dúvidas. outrossim. inclusive. Em outros casos. Determina que incumbe ao fornecedor o ônus de provar a veracidade e correção da informação ou comunicação publicitária que patrocina. a favor do consumidor. pois. quando. a verificação dos requisitos necessários para que ela ocorra fica a critério do juiz. pelo contrário. em grande parte. em dissertação sobre o tema. 38. Este. citada por José Geraldo Brito Filomeno (2005. inc. inc. visando. Casos de inversão do ônus da prova Em certos casos. a lei assinala a possibilidade de inversão do ônus da prova. obstando o acesso à ordem jurídica efetiva e justa. 143) destaca: A Lei n. inexistindo. p. como os princípios lógico. p. "está em harmonia com a obrigação de o . Fortaleceu sua posição através da associação de grupos.tradicionais. "já teria criado um obstáculo. do CDC. Sobre ele. 3. atendendo o processo aos reclames da instrumentalidade e efetividade. acima mencionada.8. Ela está presente no art. para que pudesse ele ir a juízo". Inverteu-se. se pretendesse o legislador deixar a cargo do consumidor a prova da enganosidade e absusividade do anúncio. VIII. Em certos casos. adequando-se o processo à universalidade da jurisdição. a inversão. pois. como preleciona grande parte da doutrina. 6º. o consumidor não precisa provar suas alegações. mencionada no início deste trabalho. justamente. segundo as regras ordinárias de experiência. quase intransponível. que as alterações existentes visaram ao atendimento de maior número de consumidores. aos reclames da inclusão social. ela a determina. Na precisa lição de Thereza Alvim. nunca deve ser visto como um fim em si mesmo. é caso de inversão ope judice. for verossímil a alegação ou quando for ele hipossuficiente. verdadeiros paradigmas do processo brasileiro. Cecília Matos. Por outra banda. Vê-se. ao estabelecimento da igualdade ontológica. 358): A ratio do dispositivo é fácil de compreender. existe um caso de inversão que decorre da própria disposição legal. qualquer porção de liberdade ao julgador. aqui. iluminado por vários princípios de lastro constitucional e deontológicos. Ou seja. político e econômico. em seu artigo 6º. Determina a inversão do ônus da prova.

1999. A esse respeito. cumulação de permissão de permanência com juros de mora e a cobrança de outros encargos que reputa ilegais. Juizado Especial Cível Com propriedade. Civ.078/90 Exercício pleno da garantia constitucional da ampla defesa . o Professor Walter Ceneviva cita lição da Min. do CPC. a regra clássica veiculada pelo art. 8): Em artigo publicado no jornal Folha de São Paulo. 17. Oséas Davi Viana).11. exemplificando. a qual normalmente é muito custosa. 3ª Câm.Caracterização. Assim. promovendo-se a indispensável inclusão social.Agravo de Instrumento Origem: São Paulo .Necessidade de manifestação do juiz para se saber se o elemento da verossimilhança está presente Recurso provido para esse fim. as seguintes lições jurisprudenciais: TAMG. 19. 3. Alega a existência de anatocismo.Perícia . Fátima Nancy Andrighi (STJ). AI 0290036-1. Civ. inclusive.4ª Câmara . mesmo que não tenha solicitado a realização dessa prova. a imposição de inversão de ônus da prova implica. O juiz. 4ª Câm. é pessoa carente de estrutura jurídica.inteligência do artigo 6º. Há de se ter em mente. da Lei 8. pois.fornecedor manter em seu poder e informar aos legítimos interessados os dados técnicos. assinala-se que o banco deve arcar com o pagamento dos honorários do perito. confira-se a seguinte decisão: Revisional de cláusulas contratuais c/c anulatória de título de crédito e tutela antecipada . também.Ônus _ Inversão . faz-se necessário que seja garantido aos consumidores o direito de acesso substancial à Justiça.Cabimento .Admissibilidade . o então imperador Hang Hsi teria baixado um decreto ordenando que todos aqueles que se dirigissem aos tribunais fossem tratados sem piedade ou consideração. que o consumidor."(Processo: 0951637-4 .Pretensão ao adiantamento das despesas do perito por parte do Banco-agravado . da hipossuficiência técnica e/ou econômica a impedir o amplo acesso à justiça e ao direito de defesa. no curso das dinastias Manchus. Assim. que remete à China do século VII.Relação de consumo caracterizada . 30/8/2000. preocupando-se com a efetiva tutela de direitos básicos. Juiz Duarte de Paula. o consumidor ingressa com uma ação de revisão de contrato bancário. PROVA . econômica e mercadológica. Veja-se. é indispensável realização de prova pericial. a inversão quanto às despesas de sua realização.Recurso provido para esse fim. também.18/10/2000 . principalmente em relação ao fornecedor. apesar de entendimentos contrários. VIII. a fim de que seus súditos se apavorassem com a idéia de .Rel. ademais. p. Isto porque a imposição legal. TAMG. deve ser um sujeito processual ativo. científicos e fáticos ligados à mensagem publicitária Saliente-se que. escreve Ricardo Cunha Chimenti (2007.9. na maioria dos casos. Para a demonstração de suas alegações. sem perder sua indispensável imparcialidade.. é de se reconhecer o direito à inversão de ônus . se for o caso de aplicação da regra da inversão do ônus da prova. Nesta hipótese. Juiza Maria Elza.Incidência do Código de Defesa do Consumidor determinada . tem o condão de afastar. AI 0311096-9. de índole constitucional. À época.

com redação determinada pela Lei n. do CPC. quando forem infrutíferas todas as tentativas de acordo (transação ou conciliação). além de pedantes. pelo advento da Lei n. técnica mediante a qual um terceiro se coloca entre os contendores. pois.comparecer perante os magistrados (os quais. economia processual e celeridade. Ou seja. Dispensa-se. por meio do Provimento 893/2004 criou os chamados "setores de conciliação". tencionando conduzi-los à autocomposição do litígio.444/2002). É inegável. um dos maiores fatores de desestabilização social é a litigiosidade reprimida. Hang Hsi tinha por objetivo evitar que seus súditos concebessem a idéia de que tinham à sua disposição uma Justiça acessível e ágil. pois. viabiliza-se o acesso e a resolução do conflito de interesses. ao lado da submissão e da renúncia. questões de família e da infância e juventude. nos moldes como hoje se apresenta. o Conselho Superior da Magistratura. corrompidos e submetiam os jurisdicionados a múltiplas humilhações). conciliar . porém. as formalidades exigidas nos demais procedimentos devem ser vistas com ressalvas. 3. p. simplicidade. informalidade.10. No mais. tem-se como outro fator de inclusão social a instituição dos Juizados Especial Cíveis. 9º. a presença de advogados (art. pois os litígios surgiriam em número infinito e a metade da população seria insuficiente para julgar os litígios da outra metade. por sua vez. 10. Seu objetivo é. o que ocorreu. por exemplo. enquanto a transação é ato de iniciativa exclusiva das partes e chega em juízo já formalizada". devendo haver instrução processual apenas em último caso. No Estado de São Paulo. pelo dever atribuído ao juiz de tentar. Neste rito. a obtenção da conciliação ou transação (art. Ricardo Cunha Chimenti as diferencia da seguinte forma (2007.099/95.099/95). eram venais. Para o imperador. De forma bastante didática. Trata-se de procedimento comum. Com isso. é uma das formas de autocomposição do litígio. nossa legislação reforça essa idéia por meio da obrigatoriedade da realização de audiência preliminar (artigo 331. o que ocorreria se pensassem que os juízes eram sérios e competentes. 9. para as questões cíveis que versarem sobre direitos patrimoniais disponíveis. ademais. 9. que nas causas não excedentes a vinte salários mínimos. 24): "A distinção básica está no fato de que a conciliação exige o comparecimento das partes perante o juiz ou conciliador. da Lei n. a qualquer tempo. informado pelos princípios da oralidade. Os treze séculos se passaram desde então. tal crença seria um desastre. A primeira é a que ocorre por meio da mediação. A transação. Estímulo à conciliação e transação É patente o estímulo conferido pela legislação e por nossos Tribunais visando à solução de conflitos pela conciliação ou pela transação. acabaram por ensinar o contrário. sempre que possível. de cunho sumaríssimo. a empatia dos Tribunais com essas formas de solução de conflitos. litigiosidade esta que os Juizados Especiais e seus princípios específicos visam a solucionar Nessa perspectiva. 2º. da mesma lei).

GARTH. Teoria geral do processo. CONCLUSÃO Diante do presente trabalho. o que gera maior grau de satisfação por parte dos jurisdicionados. muito há de ser feito. Teoria e prática dos juizados especiais cíveis e federais. 2007. o fomento e. de forma inegável. Interpretação e aplicação da Constituição. cuja aplicação devida ocasionará a almejada inclusão social. inc. Luís Roberto. de Virgílio Afonso da Silva. procurou-se. da Advocacia e dos demais setores da sociedade. Vol. promovendo-se verdadeira inclusão social. após uma singela abordagem sobre jurisdição e processo constitucional. Muito se fez. 4. inc. Porém. sobretudo. Mauro. mas. Teoria dos Direitos Fundamentais. guardam estreita pertinência com a inclusão social. Robert. I. Porto Alegre: Sergio Antônio Fabris Editor. Jurisdição constitucional: entre constitucionalismo e democracia. por essa via de pacificação de conflitos. 9ª ed. Paulo. Teoria do Estado. BONAVIDES. do CPC) e pelo revestimento do atributo de executividade à sentença homologatória de conciliação ou transação. São Paulo: Malheiros. 6ª ed. mormente àqueles cujos sociais para os quais o tempo é fator inexorável de angústia e descrédito. tangenciar alguns temas relevantes. IV. 125. São Paulo: Saraiva. 2007. 2002. Estefânia Maria de Queiroz. Acesso à justiça. reflexo de inegável inclusão. além de outros dispositivos. o que demonstra. acredita-se. Ellen Gracie Northfleet. 5. entre outros. São Paulo: Saraiva. ainda que não inclua matéria posta em juízo (art. No entanto. 2008. abordar temas pontuais que. 2007. Trad. BARROSO. Salvador: Podivm. 2008. CHIMENTI. Belo Horizonte: Fórum. Trad. procurou-se. com a abordagem. BARBOZA. vindo a ter cabo o processo em menor tempo. . Bryant. do CPC). 2007. para que as mais variadas oportunidades sejam garantidas também a estas pessoas. como é o caso das recentes alterações no processo de execução de título judicial (atual fase de cumprimento de sentença) e execução de título extrajudicial. 6ª ed. refere-se a uma postura ativa do Poder Judiciário como verdadeiro garantidor da ordem jurídica justa e responsável.as partes (art. pela efetiva tutela dos direitos. III. BIBLIOGRAFIA ALEXY. CAPPELLETTI. Ricardo Cunha. franqueando-se às minorias e às camadas mais necessitadas da sociedade uma especial atenção. Não se diz isto tão somente em se tratando de ação legiferante. a preferência. com a imprescindível colaboração do Ministério Público. 475-N. DIDIER Jr. São Paulo: Malheiros. É inegável que vários outros assuntos tendentes à celeridade e efetividade processual não foram delineados. quiçá.

Código brasileiro de defesa do consumidor: comentado pelos autores do anteprojeto. ARENHART. Ada Pelegrini. I. GONÇALVES. 22ª ed. 2005. Rafael.et al. GRINOVER. Fredie. Novo Curso de Direito Processual Civil. Salvador: Podivm. São Paulo: Revista dos Tribunais. A luta pela efetividade da jurisdição. 2004. 12ª ed. cumprimento e liquidação de sentença e coisa julgada. DINARMARCO. 5ª ed. 2007. constituição e sociedade.. São Paulo: Saraiva. Teoria geral do processo. Compêndio de introdução à ciência do direito. Marcus Vinicius. 2006. São Paulo: Saraiva. 8ª ed. São Paulo: Revista dos Tribunais. São Paulo: Revista dos Tribunais. 2007. 2005. DINAMARCO. Luiz Guilherme. A pesquisa partiu das seguintes questões: O que é jurisdição? Qual seu objetivo? E quais suas características? A resposta para esses questionamentos foi . 2006. Sérgio Cruz.DIDIER Jr.. Maria Helena. Um novo processo civil: estudos norte-americanos sobre jurisdição. FISS. Gelson Amaro de. Efeitos da sentença que julga os embargos à execução. MARINONI. Cândido Rangel. Curso de Direito Processual: direito probatório. Cândido Rangel. 2000. Ada Pelegrini. São Paulo: Malheiros. Vol. Paulo Sarno. Rio de Janeiro: Forense Universitária. SOUZA. DINIZ. ROCHA. Compreendendo O Fenômeno Jurídico Jurisdição INTRODUÇÃO O presente artigo tem por objetivo demonstrar os resultados obtidos em uma pesquisa acerca da jurisdição. Manual do processo de conhecimento. OLIVEIRA. Vol. GRINOVER. São Paulo: Malheiros. 2007. Cesar Asfor.. BRAGA. Owen. 2004. II. São Paulo: MP Editora. decisão judicial. A instrumentalidade do processo.

vigorava nesse período lei do mais forte. 22) Dessa forma. guerreavam juntos e habitavam juntos. pretendendo para si determinado bem. usaria sua própria força para satisfazer sua pretensão. ou seja. Assim. garantisse o comprimento do direito”. (BARROSO. No mesmo sentido.encontrada nos livros de Teoria Geral do Processo de renomados autores como Ada Pellegrini Grinover. tal “espírito” de solidariedade não evitava conflitos. O artigo encontra-se estruturado em quatro partes. possuindo total liberdade. possuíam uma estrutura organizacional bastante simples. O estudo do assunto “jurisdição” se justifica na importância da matéria para os operadores e futuros operadores do Direito. 2004. p. ou por intermediação de um terceiro. seja porque (b) o próprio direito proíbe a sua satisfação voluntária da pretensão. Mas o que seria necessariamente um conflito? Juridicamente falando Ada Pellegrini Grinover. este era resolvido entre as partes. pois este não se submetia as regras de convivência. quem pretendesse para si algo que outrem o impedisse de obter. os citados autores (2004. Quando se vive em sociedade é muito comum o surgimento de conflitos. pois o ser humano vivendo em sociedade passa a ser obrigado a dividir seu espaço. a terceira compreende o objetivo da jurisdição. a segunda dediquei ao conceito de jurisdição. A eliminação desses conflitos ocorrentes na vida em sociedade pode ocorrer por obra de um ou de ambos os sujeitos envolvidos no conflito. não pode obtê-lo. Antonio Carlos de Araújo Cintra e Candido Rangel Dinamarco nos responde: Os conflitos caracterizam-se por situações em que uma pessoa. denominadas de sociedades primitivas. onde as pessoas faziam vingança com as próprias mãos. Pode-se dizer que todos no grupo faziam a mesma coisa: trabalhavam juntos. 21). Quando o homem começou a viver em sociedade não havia a figura do Estado. (GRINOVER. 2005. e na quarta parte suas características. 1 . Carlos Eduardo F. Por não existir o Estado para submeter coativamente os cidadãos . “quando inexistia um Estado organizado. Moacyr Amaral Santos e José de Albuquerque Rocha. Essa forma de resolução de conflito a doutrina denomina de autotutela. segundo a doutrina. com poder suficiente para coibir os homens de buscar solução de suas lides através da lei do mais forte e subjugo forçado do mais fraco”. 23) asseveram que tal fato ocorria devido a “falta de um órgão estatal que com soberania e autoridade. ao contrário do que ocorria com o homem fora da sociedade. As primeiras sociedades existentes. Na primeira fase da civilização dos povos quando surgia um conflito.SOCIEDADE E TUTELA JURÍDICA. CINTRA e DINAMARCO. de Mattos Barroso. Era muito comum nesse tipo de sociedade a intensa solidariedade entre os indivíduos do grupo. p. p. A primeira parte foi dedicada a uma análise de como as primeiras sociedades viviam e como elas resolviam seus litígios. além da introdução e conclusão. este ainda era embrionário. Seja porque (a) aquele que poderia satisfazer sua pretensão não a satisfaz. é a insatisfação de uma pessoa. Entretanto. o que caracteriza o conflito.

por não mais desejar o bem pretendido.quando o juiz acolher ou rejeitar o pedido do autor.quando as partes transigirem. (Op. A última forma de autocomposição é denominada de: c) Transação. atualmente “é definida como crime. a desistência é caracterizada pela renúncia à pretensão. b) Submissão. Entretanto. para solução desses conflitos o intermédio de uma terceira pessoa. chegando ambos a um denominador comum. frisa-se que a resolução de conflito por meio da autocomposição ainda perdura em nosso direito moderno. com o passar do tempo os indivíduos foram percebendo que a autocomposição não resolvia totalmente seus conflitos. nesses casos o que se diz titular de um direito material violado abre mão definitiva e voluntariamente de sua pretensão. no Código de Processo Civil artigo 269.quando o autor renunciar ao direito sobre que se funda a ação. IV . onde uma das partes em conflito. p. sendo necessário. na transação o autor renúncia apenas parte da pretensão material. pondo fim ao conflito através da entrega espontânea do bem pertencente ao autor. II . 27). nos lembra Grinover. cit. Cintra e Dinamarco (2005. onde o autor renuncia parcialmente a sua pretensão material.269 Haverá resolução de mérito: I . a submissão compreende a submissão do réu à pretensão material do autor. entregando parte do bem pretendido. p. pondo fim ao litígio de forma unilateral. Segundo Barroso são três as formas de autocomposição: a) Renuncia ou desistência.quando o réu reconhecer a procedência do pedido. o réu livremente e sem qualquer sujeição forçada submete-se à pretensão material do adversário. ou ambos. as partes do litígio passaram então a resolver amigavelmente suas pendências. incisos II. 2005. 345 Código Penal)”. (BARROSO. p. 22) Assim. III .quando o juiz pronunciar a decadência ou a prescrição. enquanto o réu reconhece a procedência de parte não renunciada. Já a autotutela. 22). Esse tipo de solução é denominado de autocomposição. abrem mão do interesse ou de parte dele. seja quando praticada pelo particular. V . . Nesse sentido. seja pelo próprio Estado (art. Neste período o Estado já estava organizado e detinha o poder de decidir e sujeitar os cidadãos ao cumprimento de suas decisões: surge então a tutela jurisdicional. III e V prevê as três formas de autocomposição: Art.ás suas decisões.

definido por Moacyr é importante. Em sentido semelhante. Estado é a sociedade que está política e juridicamente organizada. Ou. dito de outro modo. compondo os conflitos de interesses e dessa forma resguardar a ordem jurídica e a autoridade da lei. o Estado é uma forma particular. ao qual definiremos agora. pois precisava de um órgão forte para defender seus interesses e proteger seus bens 3. onde as guerras eram constantes entre os povos. o Estado teria surgido de um contrato. 44).67). Dessa forma. própria. p. Para por fim a tal situação o homem aceitou se submeter ao poder do Estado. E. em um esforço de sistematizar esses dados iniciais. também conhecida com teoria contratualista. Dentre as suas tarefas há uma muito importante que é de conservar e desenvolver as condições da vida em sociedade. singular de se estruturar (organizar) o Poder Político de acordo com certos princípios que atendam à própria administração deste poder (MARTINEZ. específica de se organizar o poder político sociedades indígenas. afirma Martinez: Assim. Há três funções distintas correspondentes ao Estado: Legislativo. apenas ao Estado. Rocha (2006. (SANTOS. mais especificamente. Consiste no poder de atuar o direito objetivo. utilizam-se de colegiados ou conselhos que respondem pela organização de todo o grupo social. tem de cumprir determinadas tarefas ou atribuições. p. 2 . 1989. p. Etimologicamente a expressão “jurisdição” indica a presença de duas palavras unidas: júris (direito) e dictio (dizer) (NORONHA. Nesse sentido. É nesta última que reside o conceito de jurisdição. função de poder. no atual paradigma. o Executivo na função administrativa.Esta terceira forma de solução dos conflitos na sociedade cabe. que exerce as funções legislativas (criar as leis). a própria e exclusiva função do poder Judiciário: . e que se distingue das demais sociedades por ter fins políticos”. 75) afirma que “o Estado é uma forma específica de sociedade humana. por exemplo. 2006). tal conceito. que o próprio Estado elaborou. Assim. Portanto. Moacyr Amaral dos Santos definiu mais detalhadamente: A jurisdição é uma das funções da soberania do Estado. em uma definição pessoal diríamos ainda que: Estado é uma forma de organização específica.CONCEITO DE JURISDIÇÃO Segundo a Teoria do Contrato Social. 2005. pois antes do seu surgimento o homem vivia em um estado natural. e o Judiciário na função jurisdicional. do poder Judiciário. através de seus órgãos investidos (juizes). pois enfatiza a função do Estado. como qualquer sociedade. a jurisdição é o poder-dever do Estado 4 de aplicar o Direito ao caso concreto.

por seus delegados. é o sinal de sua humanidade (CARNELUTTI. é assegurar a paz jurídica aplicando a lei e realizando a justiça por meio de um processo. c) a realização da jurisdição.] a composição se deve fazer conforme o direito ou conforme a eqüidade. “o ato jurisdicional é praticado pelo Juiz. 2004. 3 – FINALIDADES DA JURISDIÇÃO A função jurisdicional tem por finalidades 5 : a) a composição de litígios.. p. a eliminação inevitável deste. A doutrina específica esse objetivo como sendo o escopo jurídico da função jurisdicional.CARACTERÍSTICAS DA JURISDIÇÃO Grande parte da doutrina afirma que uma das principais características da jurisdição é a existência da lide.34) 4 . Ou seja. função e atividade”. que o realiza por dever de função” (2001. 2007). expressa o encargo que os órgãos estatais têm de promover a pacificação dos conflitos. é a capacidade de decidir e impor decisões. e a conformidade com o direito ou com a eqüidade expressa-se por meio do conceito da justiça. ou seja. 68) que “jurisdição é função provocada”. ou pelo povo como acontecia entre os germânicos nas suas assembléias Ding. um processo caracterizado pelo fim. no exercício da função jurisdicional. Afirma Moacyr (2005. ou seja.. perante aquele.(ius dicere) dicção do direito sempre foi considerada uma função estatal. como sucedeu em Roma. portanto. O processo contencioso é. que não é outro que a composição da lide. p. Se não há lide como poderia o Judiciário dizer . Para Grinover. Cintra e Dinamarco (2004. Porém não se pode deixar de dizer que o Estado desempenha a função jurisdicional sempre mediante o devido processo legal. ministros ou funcionários. conforme assevera Ovídio Batista. através da aplicação e especialização do direito ao caso concreto. mediante a realização do direito justo e por meio do processo. este seria o escopo político. Portanto.139) “jurisdição é ao mesmo tempo. p. 26). investidos pelo Estado no poder de julgar. p. Como poder. Como função. ela só é exercida mediante um conflito de interesses e por provocação de uma das partes. [. poder. pode não corresponder a ela o resultado do processo. um conflito. Já para Grinover. Apenas há necessidade de advertir que se a justiça da composição constitui o fim. p. a “pacificação social é o escopo magno da jurisdição” (2004. o objetivo do Estado. imperador. b) a pacificação social. Já como atividade ela é o complexo de atos dos juizes de direito. Cintra e Dinamarco.73) o que se dá através do devido processo legal. É inegável o seu caráter público bem como o interesse do estado em declarar e atuar o direito objetivo em relação a uma concreta pretensão (LEITE. fato que tais pessoas personificavam o poder soberano que compreendia a jurisdição. Era exercido pelo próprio rei. a fórmula pode ser integrada falando de justa composição da lide.

“os atos dos demais Poderes do Estado. uma vez proferida a sentença e não havendo mais recurso. p. podem ser revistos pelos juízes no exercício da jurisdição. para efeitos práticos. E por fim. mas o contrário é absolutamente inadmissível” (2005). Nesse sentido. sendo que nestes casos. as ações preventivas. é a existência do conflito de interesses que leva o interessado a dirigir-se ao juiz e pedir-lhe uma solução. costuma-se afirmar que a jurisdição é inerte. embora permaneça a inércia como característica da jurisdição para a maioria da doutrina. Carnelutti foi suficientemente claro ao demonstrar que a jurisdição consiste na justa composição da lide. Afinal. 5 . No entanto. 2006. Assim. por meio da aplicação das leis de forma justa.de quem é o direito. tais como a possibilidade de determinar. sendo mais adequado. sendo que como relata Candido Rangel Dinamarco. Assim. Sua finalidade precípua. as ações constitutivas necessárias e a jurisdição voluntária são. percebemos que hodiernamente não é tarefa fácil arrolá-las. esta. fica restrita à instauração de processo e a determinação do objeto litigioso. Tal fato se deve . Outra característica (bastante polemica) é a inércia. ao magistrado são atribuídos amplos poderes de direção do processo. Quanto à inércia. não necessariamente exista uma lide. 144). capitaneada por Carnelutti. Função esta que é exercida tipicamente pelo Poder Judiciário através do devido processo legal. inc. tecnicamente. Assim. 70). deve-se registrar que há quem entenda que o controle abstrato da constitucionalidade das leis. ou seja. a rigor. não existe o exercício espontâneo da atividade jurisdicional. sem provocação. ou melhor. (BARROSO. modernamente. consiste na substituição da vontade das partes. segundo algumas teorias. para a posição majoritária. pela “vontade” da norma jurídica aplicada no caso em concreto. não pode mais ser revistos ou modificados.CONSIDERAÇÃOES FINAIS Com base no que foi exposto pode-se concluir que jurisdição é o poder-dever que o Estado tem para pacificar as pessoas conflitantes. XXXVI). a “coisa julgada é a imutabilidade dos efeitos de uma sentença” (GRINOVER. só haverá jurisdição quando houver lide. a sentença será definitiva. O Estado substitui as atividades daqueles que estão envolvidos no conflito trazido à apreciação. para que o juiz possa “dizer de quem é o direito” é preciso provocá-lo. é resguardar a ordem jurídica. 2007). característica da substitutividade proposta por Chiovenda. Já quanto às características da Jurisdição. Ou seja. 2004. Como dispõe nossa Carta Magna “a lei não prejudicará o direito adquirido. Uma terceira característica é a definitividade ou imutabilidade. 5º. jurisdição. Entretanto. o caráter substitutivo que consiste na substituição das partes no litígio pelo Estado-juiz: é “uma atividade substitutiva porque se exerce em substituição à atividade das partes”. p. mas não única. pois. a produção dos meios de prova e de dar tutela sem pedido expresso pela parte (SCHMIDT. CINTRA e DINAMARCO. mantendo a paz social. tratá-la a como um princípio inerente a jurisdição. o ato jurídico perfeito e a coisa julgada” (art.

Acesso em: 09 maio 2007. São Paulo: Atlas. 1067. BRASIL.com/doutrinas_e_pecas/ver/2165>. 2005.. Rosa Maria de Andrade. 19 ago. Desenvolvimento do Direito Processual. onde se busca a própria alteração do paradigma de processo. 19. ano 10. 2005. NERY JUNIOR. Revista dos Tribunais.. A ATIVIDADE JURISDICIONAL DO ESTADO E A PAZ SOCIAL . GRAU. São Paulo: Saraiva. Código de processo civil comentado. 2004. 2ª edição.. Nelson. Constituição (1988). ed. CARNELUTTI. Carlos Eduardo Ferraz de Mattos. Jus Vigilantibus. Disponível em: <http://jusvi. Teoria geral do processo. 2004. 1989. Eros Roberto. Candido Rangel. MARTINEZ. São Paulo. definitividade e substitutividade. 10ª edição. Como se Faz um Processo. Candido Rangel. Ovídio. São Paulo. 2005. Teresina..asp?id=8453>. 2006. Jus Navigandi. Curso de Direito Processual Penal. ed. Antônio Carlos de Araújo. Teoria geral do processo.uol. ainda se tem por características a lide. ed. atual. Vinício Carrilho. José de Albuquerque. Instituições de direito processual civil. BATISTA. 2004.ed. E.principalmente pela atual momento. Magalhães. Primeiras linhas de direito processual civil. Teoria geral do Processo Civil. 21. A Ordem Econômica na Constituição de 1988: Interpretação e crítica. ed. DINAMARCO. SANTOS. 2006. GRINOVER. São Paulo: Saraiva. São Paulo: RT.. 2004. Malheiros Editores. hodiernamente. 5ª ed. São Paulo. com a conseqüente adoção de novas teorias. Gisele. DINAMARCO. Ada Pellegrini. Moacyr Amaral. Francesco.. Teoria geral do processo e processo de conhecimento. São Paulo. Constituição da República Federativa do Brasil. Editora Minelli.br/doutrina/texto. 2001. inércia. Acesso em: 29 abr. Fundamentos institucionais do Estado. n.com. 24. São Paulo: Saraiva. Disponível em: <http://jus2. Brasília: Senado. 2007. CINTRA. NORONHA. sendo que. 5. 2005. NERY.. 8a ed. ROCHA. 8. Vitória. 3 jun. LEITE. Editora Malheiros. São Paulo:Malheiros editores. 2004. REFERÊNCIAS BARROSO.

Tais funções deveram ser atribuídas a três órgãos autônomos entre si. 6. chegando-se à solução dos conflitos entre sujeitos mediante o concurso de terceiro desinteressado e imparcial. que as exercerão com exclusividade para garantir equilíbrio e controle mútuo. A separação dos poderes consiste basicamente em distinguir as três funções do Estado: a legislativa. a honra. consagra a idéia de divisão das funções atribuídas ao Estado. os valores. era chamada “justiça de mão própria”. embora tenham permanecido alguns mecanismos de julgamento próprios de determinada sociedade como a moral. Esboço Histórico 3. O Estado se apoderou da competência de julgar os conflitos. 2 ESBOÇO HISTÓRICO Para que se possa conhecer e compreender o conceito de Jurisdição. com a entrega de cada função do poder a organismos diferentes. como dado prévio. a administrativa e a jurisdicional.39) ressalta que: [. Com o passar do tempo. Era aquilo que hoje chamamos de autotutela.. de modo a garantir o necessário equilíbrio no exercício do poder estatal [. próprias de sua soberania. A Atividade Jurisdicional do Estado e a Paz Social. apenas conhecidas e reveladas pelos sacerdotes. é imprescindível. Tais funções legislativa. o comportamento. Os órgãos tribunais surgiram da sociedade e não de Estado. a autotutela foi sendo substituída pela arbitragem facultativa. que se adota contemporaneamente. na organização da estrutura do Estado.Sumário: 1. trabalhada por John Locke e exposta por Montesquieu na sua obra “O Espírito das Leis”. numa fase mais desenvolvida. Estes tribunais foram criados com o fim de proteger o Estado. é que permite a existência do Estado Liberal. mediante o concurso dos órgãos do Poder Judiciário.. Os Princípios Fundamentais da Jurisdição. e conseqüentemente com o surgimento das primeiras noções daquilo que seria posteriormente o Estado de Direito. etc.. que se tenha algum conhecimento a cerca de seu histórico. é que a tarefa de resolver conflitos entre as pessoas foi admitida como função do Estado. . antes conferida ao soberano e mais tarde. Nesta justiça primitiva o mais forte agia sobre o mais fraco utilizando da força ou da violência pra fazer valer seu direito. WAMBIER (2006. a arbitragem foi se tornando obrigatória devido à necessidade de albergar para si toda solução de conflitos de interesse (lide) como forma de buscar o bem comum e a paz social. Introdução 2. Somente depois do desenvolvimento e estabilização da idéia de Estado. Nos primórdios da civilização humana o direito era uma manifestação das leis de Deus. Num outro momento da civilização.] a noção de Estado de Direito.] assim a tripartição das funções do Estado. e destinavam a decidir conflitos entre os membros de uma comunidade. Conceito e Características da Jurisdição. aquele que se visse envolvido em qualquer tipo de conflito intersubjetivo poderia resolvê-lo por si mesmo. 4. 5. dotados de independência estrutural e autonomia política diante dos demais órgãos. Em um outro estágio da civilização. Conclusão 1 INTRODUÇÃO A analise das funções do Estado Democrático de Direito esta estreitamente relacionada à clássica Separação dos Poderes esboçada por Aristóteles. p.. administrativa e jurisdiciona – estão voltadas ao alcance dos fins do próprio Estado e são dispostas.

37) a Jurisdição: É função que consiste. primordialmente. entende-se a presença das partes. do juiz e dos procedimentos previstos na lei. ou seja. Todas essas fases são continuas e em todas elas. exceto nas situações de incompetência. inclusive recorrendo à força se necessário. a Jurisdição “é uma função inerte que só se põe em movimento quando ativada por aquele que invoca a proteção jurisdicional do Estado”. Na conceituação de BAPTISTA DA SILVA (2006.55): “Jurisdição é uma função do Estado pela qual este atua o direito objetivo na composição dos conflitos de interesses. CONCEITO E CARACTERISTICAS DE JURISDIÇÃO A palavra Jurisdição origina-se da expressão latina dicere ius.Diante disso. e pela presença da coisa julgada. que hoje é função expressa do Estado. exercida por juiz natural. em resolver os conflitos que a ela sejam apresentados pelas pessoas físicas ou jurídicas (e também pelos despersonalizados. através da ação. Ressalta-se. em última instância. a opinião de alguns eminentes doutrinadores a respeito do conceito de Jurisdição. fica claro que a Jurisdição do Estado Democrático de Direito é fruto de desenvolvimentos milenares. no caso concreto. porque a inércia é uma de suas principais características. pois sem provocação. presença de lide. p. A Jurisdição também pode ser caracterizada pela sua forma. da . São eles: da investidura. A Jurisdição caracteriza-se pela finalidade de atuação do direito objetivo. ou seja. isto é. pelo pressuposto da inobservância do direito. Para WAMBIER (2006. ora com a presença de outro. que deve ser resolvida pelos órgãos da Jurisdição. a seguir. Por função. a paz social e is demais valores jurídicos. ao contrário. Segundo CARREIRA ALIVIM (2006 p. Ou seja. conteúdo e função. considera-se a existência de uma lide com relevância jurídica. que tem por finalidade a garantia da eficácia do direito em última instância. ora com a presença de um. não há Jurisdição. A Jurisdição é uma atividade provocada. 3. Atualmente a Jurisdição é tida como atividade provocada e pública. OS PRINCÍPIOS FUNDAMENTAIS DA JURISDIÇÃO A função jurisdicional é composta por uma série de princípios que são universalmente aceitos e reconhecidos. por meio da aplicação de uma solução prevista pelo sistema jurídico. deve ser provocado por quem tenha interesse em lide”. impedimento e suspeição. Em suma. p. independentes e imparciais. esses mecanismos estiveram presentes. o poder de dizer o direito. definitividade da solução dada. a Jurisdição é a função estatal exercida pelos órgãos do Poder Judiciário. 4. pela imparcialidade do juiz. da aderência ao território. Por conteúdo. via ação. Por forma.62). com o fim de resguardar a paz social e o império da norma de direito”. Observa ainda que “o Judiciário não atua espontaneamente. tais como o espólio e o condomínio). em lugar dos interessados. pela inércia inicial. não podendo este delegar suas atribuições nem se eximir de julgar. o juiz em regra deve aguardar a provocação da parte. o juiz aguarda que alguém lhe procure através da demanda ou pedido. entende-se a incumbência de assegurar a justiça.

por ser a ferramenta de que dispõe o Estado para controlar indivíduos. É certo que nenhum impedimento há de ser posto a qualquer meio de composição de conflito que seja capaz e eficaz de assegurar a paz social. Muitas das vezes o cidadão fica dependente do “socorro” estatal para resguardas seus direitos e ao mesmo tempo proibido de recorrer a autotutela.indelegabilidade. O primeiro é o mais importante. havia a justiça de mão própria. não agindo de oficio.61): . Como destaca BAPTISTA DA SILVA (2006. É possível afirmar que são varias as situações na vida das pessoas em sociedade que levam à busca espontânea do serviço jurisdicional. ou seja. Um dever enquanto tarefa de ofertar aos indivíduos a tutela dos seus direitos. O último princípio a ser analisado é o do juiz natural. o que. da indeclinabilidade. mas essa ainda não era a aplicação da lei como função especifica. O quinto põe em relevo que a Jurisdição depende de provocação do interessado no seu exercício. estamos a falar da demora da atividade jurisdicional. O segundo significa que a Jurisdição pressupõe um território sobre o qual é exercida. A ATIVIDADE JURISDICIONAL DO ESTADO E A PAZ SOCIAL A Função imediata da Jurisdição é a de dirimir os conflitos de interesses das mais variadas espécies e decidir as controvérsias que refletem direta ou indiretamente na ordem social. 5. não pode haver Jurisdição sem ação. A crescente complexidade das relações sociais dos dias atuais vem gerando um considerável aumento na procura da prestação da tutela jurisdicional. O terceiro tem assento constitucional. legitimar o uso da força física. A pacificação social é promovida pelo exercício da Jurisdição. É um poder. pois o juiz é investido das funções jurisdicionais como órgão do Estado. p. Em outras palavras pode-se dizer que a Jurisdição clama por uma pacificação social. por conseguinte acaba por criar ou agravar um problema que gera conseqüências nefastas ao cidadão que necessita com urgência dessa proteção. O quarto também tem assento constitucional. diz que nenhuma lesão do direito deixará de ser apreciada pelo Poder Judiciário. A atividade jurisdicional do Estado surgiu para regular as relações entre os indivíduos que compõe a sociedade. não podendo haver tribunais ou juízes de exceção. Conclusão Antes de ter o Estado monopolizado a função de julgar. suspensão do fato ou composição do litígio. devendo exercê-las pessoalmente. É importante frisar que a própria sociedade tem interesse na paz social. significa que todos têm direito a um julgamento por juiz imparcial e independente. da inércia. se necessário. significa que a Jurisdição só será legitimamente exercida por quem tenha sido dela investido por autoridade competente do Estado e de conformidade com as normas legais. quer seja visto como instrumento de aplicação da lei. e. 6. tutelando os direitos que cada um destes já não pode mais defender individualmente ou auto-tutelar. amparando-se aquele que realmente tem direito de ser protegido. e o principio do juiz natural. Pode-se alegar que a atividade jurisdicional é ao mesmo tempo um dever e um poder. desde que respeitada sempre à efetiva liberdade e autonomia do individuo em relação aos seus direitos fundamentais.

se indignando com a corrupção existente no batalhão em que servem. Ação. GAMA. Teoria geral do processo civil. através de uma sentença de mérito ou através da execução forçada. 118 minutos. no pleno exercício da justiça.A verdadeira e autêntica Jurisdição apenas surgiu a partir do momento em que o verdadeiro Estado assumiu uma posição de maior independência. Comentários A pirataria não parece ter atrapalhado o desempenho de Tropa de Elite cinema. São Paulo: Editora Revista dos Tribunais. Rio de Janeiro: Forense. Arruda. Fábio Lago. Caio Junqueira. Baptista da. Ver. Paralelamente dois amigos de infância se tornam policiais e se destacam pela honestidade e honra ao cumprir suas atribuições. . A Jurisdição é uma das funções do Estado. O dia-a-dia do grupo de policiais e de um capitão do BOPE (Wagner Moura). São Paulo: Editora Revista Tropa de Elite Publicado em 16/10/2007. Luiz Rodriguez. André Ramiro.e ampl. e atual. 2006 WAMBIER. Com Wagner Moura. SILVA. a tática de marketing funcionou. São Paulo: Editora Revista dos Tribunais. Referências ALVIM. Se é verdade que o filme foi liberado pela própria podutora. 8 ed. v. imparcialmente. 2006. Poucas vezes vi uma sala tão abarrotada e em nenhuma delas tratava-se de filme nacional. Direção: José Padilha. em ação. desvinculando-se dos valores estritamente religiosos e passando a exercer um poder mais acentuado de controle social. Milhem Cortaz. Manual de direito processual civil. 9 ed. ed.1: parte geral. Ovídio A. no . o Estado deverá desempenhar essa função sempre mediante o processo. cinema.1. 2007. 1997. Ficha Técnica Brasil. E atual. Ver. que quer deixar a corporação e tenta encontrar um substituto para sua função. Teoria geral do processo. Fabio Luiz. Mais informações: Adoro Cinema.. rev. Fernanda de Freitas. José Eduardo Carreira. 2005 ALVIM. 4. Curso avançado de processo civil. Para finalizar. atual e ampl. mediante a qual este substitui os titulares dos interesses em conflito para. alcançar a pacificação do conflito que os envolve. Fernanda Machado. Vol. Essa pacificação é realizada através da atuação da vontade do direito objetivo que rege o caso apresentado em concreto para ser solucionado.

Também não é uma questão restrita ao Rio de Janeiro ou aos morros. serve apenas para aliviar a culpa das classes economicamente privilegiadas. Não me venha com o discurso "eles não tiveram outra chance". Talvez essa proximidade com a realidade é que tenha agredido os mais puritanos. o Cap. A violência não é um fantasma. o que está longe da verdade.Sim. Ver num filme." Será que. traz uma sensação de alívio e de justiça que quase não é possível no mundo real. é um filme violento. restaria a Nascimento outra alternativa além da tortura? Lembre-se de que os torturados são traficantes. Trainspotting ou Jogos Mortais. Não. muito mais poderoso e articulado que este. não negocia. não pensam duas vezes antes de matar barbaramente quem os desafia (ninguém mais se lembra de Tim Lopes?). para extrair informações. encarando policiais como inimigos e pessoas comuns como peças de seu jogo de poder. Quase todo mundo tem uma história de terror para contar. não justifica. amigo ou conhecido. a pior laia de gente que pode existir. a guerra continua. bem como. Nascimento não contemporiza. impondo sua lei e sua ordem por meio da força? "Só rico com consciência social é que não entende que guerra é guerra. Acreditar nisso é assumir que todo pobre é bandido. protagonizada por algum criminoso e acontecida consigo ou com algum parente. declararam-se chocados com a vibração da platéia diante das ações drásticas do Capitão Nascimento. Articulistas. Enquanto os traficantes tiverem dinheiro pra se armar. Evidentemente. não faz apologia da tortura. "O curso do BOPE prepara os policiais para a guerra e não adianta me dizer que isso é desumano. a bandidagem ser punida. não é o banho de sangue que alguns críticos querem fazer crer. O comportamento de Nascimento é criticado pelos seus pares e pela sua própria consciência. Seu idealismo é o dinheiro farto proporcionado pelas drogas. É isso que a platéia aplaude. qual é a surpresa? Alguém ainda duvida que o Rio de Janeiro vive em estado de guerra? Alguém aí não sabe que os traficantes agem como um Estado dentro do Estado de direito. Nascimento não é um santo e Tropa de Elite não pretende canonizá-lo. Afinal. ao contrário do que mal-intencionados espalharam. age. teoricamente formadores de opinião. Não. Armados até os dentes. não é uma história de ficção. Simplesmente. o protagonista brilhantemente interpretado por Wagner Moura. embora ele se aferre à idéia de que "os fins justificam os meios". ao contrário dos exemplos. Tropa de Elite não é mais violento que Cães de Aluguel. Essa falácia." As críticas que ando lendo sobre Tropa de Elite assustam-me mais que o próprio filme. É necessário estar totalmente alheio à realidade – como não deveria estar um formador de opinião – para não chocar-se com o comportamento dos espectadores. O discurso torto "direitos . José Padilha transpôs para o cinema o que acontece cotidianamente nos morros cariocas. Essa gente não tem escrúpulos e não hesita em eliminar quem se põe em seu caminho. criada e propagada aos quatro cantos com intenções nem sempre samaritanas.

não há ficção aqui. Ocupa os espaços que o Estado e o tráfico deixam para trás. é culpa da inversão de valores na sociedade. A visão torta que a elite tem do que é certo ou errado. você ainda será acusado de violentar os "direitos humanos"? A situação de descalabro a que chegou a polícia militar carioca não é só culpa do governo. Não sei aí na sua cidade. A hierarquia de valores anda completamente deturpada. adulteração de estatísticas. mas aqui em Brasília maconha é tão acessível quanto cigarro. "Quantas crianças a gente tem que perder pro tráfico só pra um playboy enrolar um baseado?" Tropa de Elite tem o grande mérito de bater em todo mundo. mal-remunerada e desvalorizada. É dito com todas as letras: quem fuma maconha ajuda traficante. quem enrola baseado financia a violência. pertencem à classe privilegiada com poder aquisitivo para pagar uma entrada de cinema. afinal." O BOPE – Batalhão de Operações Especiais – está fora do sistema. Os poucos casos de corrupção que chegam ao conhecimento da imprensa são uma pequena parte da podridão que assola a polícia militar carioca. Corrupto e corruptor até a medula. transforma traficantes em vítimas e polícia em bandido. subornos. quem cheira pó é culpado pela situação calamitosa a que chegou o Rio de Janeiro. além de tudo. Atua em causa própria. o "sistema" é uma intrincada rede de propinas. tendo como único fim a retroalimentação. Não que essa situação seja desculpa para suas ações – não é. mal-preparada. Por quem? Por secundaristas que vivem de mesada e universitários que se acham gente grande. "O BOPE tem guerreiros que acreditam no Brasil. pelos cidadãos-de-bem com carro na garagem e celular da moda. sem meias palavras." Tropa de Elite também bate na polícia militar carioca. o sistema trabalha para resolver os problemas do sistema. é culpa de cada um de nós. permitido ou proibido. Pela mesma classe que fica furiosa quando tem o som do carro roubado. "O sistema não trabalha para resolver os problemas da sociedade. Por outro lado. Esse discurso enfático atinge boa parte dos espectadores do filme que. Nesse processo. é este: um punhado de homens que se mantém fiel ao combate ao . Se há algum heroísmo no filme. por que envonver-se numa troca de tiros se é mais fácil aceitar um suborninho? Por que arriscar sua vida para matar um traficante se. Infelizmente. é confrontada. Em última análise. cumplicidade com criminosos. A hipocrisia do discurso social "pela paz" e "contra a violência" é desnudada várias e várias vezes. responsável pela criação do tal "sistema". não poupa as classes mais favorecidas e a imprensa. e em que muita gente boa tem acreditado. e quase tão consumida quanto.humanos" que temos ouvido nas últimas décadas.

A elite de esquerda prefere criticar a ditadura militar. morre menos" -. Além da Tela Eu poderia usar este espaço para despejar estatísticas da criminalidade relacionada ao tráfico. brilhante mesmo. Tropa de Elite merecia ser o candidato do Brasil ao Oscar 2008. Se há controvérsia sobre um ou outro número – "não morre tanta gente. pouco importa. Tropa de Elite é baseado no livro A Elite da Tropa que. Sim. . colocando-o dentro da ação. a atacar reais inimigos. Deve ser falta de serviço. mas não se deve confundir os papéis: quem trafica é bandido. não há dúvidas de que. A atuação de Wagner Moura é irretocável. por menores que sejam. Nada disso é necessário. suborno. A polícia militar anda bastante preocupada com o filme. lava a alma de cada brasileiro que já foi vítima da violência. Para esse pequeno grupo altamente treinado. Nascimento. Se era a intenção de Padilha transformar Nascimento num herói ou não. É aqui que se entende a reação da platéia. baseia-se em relatos de policiais do BOPE. Claro que jamais conseguiria tal proeza. em troca de um salário ínfimo e apesar das pressões da mídia. consumo de drogas. nesse aspecto. A rápida movimentação de câmera envolve o espectador. que se encerrou há mais de 20 anos. sim. Um estado de guerra produz excessos e condutas condenáveis. A direção é tensa. honesto e fiel aos seus princípios. Sejamos maniqueístas. Você lê jornais e assiste a noticiários. corrupção. sob risco de morte. a cenografia é realista. por sua vez. a trilha sonora é dramática. são muito mais elevados do que o aceitável. a corrupção é injustificável e a omissão é uma vergonha. quem combate o tráfico é mocinho. ou encher de notícias relacionadas a mortes violentas. que traz diversos pontos de reflexão. "Faca na caveira e nada na carteira". a ponto de ter intimado para depor seu diretor e um dos autores do livro. mas conservemos a noção de certo e errado.crime. o Capitão Nascimento é um herói. O que realmente me preocupa é o esforço de certos segmentos em demonizar o protagonista. Você está a par das estatísticas. Tropa de Elite é uma produção de primeiro nível. Afora a exclente história.

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