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A Sociedade Feudal

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A sociedade feudal: relações feudo-vassálicas e relações de servidão. O sistema feudal : Origens do feudalismo na Europa Ocidental.

Conforme já foi analisado anteriormente, desde o século III acelera-se a crise do escravismo romano, particularmente no Ocidente, apontando para seu colapso final no século V. As migrações germânicas, relativamente pacificas, ate o século IV, tornam-se cada vez mais violentas, desestruturando as instituições políticas, econômicas, sociais e jurídicas do Império. A partir de então, sucederá uma progressiva integração das poucas estruturas do mundo romano que sobreviveram com os costumes e instituições germânicas. O sistema feudal é, em grande parte, decorrência deste processo de integração entre elementos romanos e germânicos, acrescidos de concepções teológicas difundidas pela Igreja. O período compreendido entre os séculos V e X se caracteriza, na Europa Ocidental, pelo lento processo de formação e consolidação do feudalismo. As invasões normandas (vikings), magiares (húngaros) e sarracenas (árabes), entre os séculos IX e X, contribuíram para um maior isolamento da sociedade européia; o comércio mediterrâneo, embora não tenham desaparecido de todo, declinou sensivelmente, levando a uma maior ruralização do mundo medieval. A fragilidade político-militar dos vários reinos germânicos, que se formaram após a desintegração do Estado romano, fez com que as populações ameaçadas buscassem proteção junto aos grandes proprietários de terras, fortalecendo os laços de dependência pessoal entre os homens.

A sociedade feudal Os círculos sociais do período medieval podem ser compreendidos através de algumas características básicas. A principio, a sociedade feudal pode ser definida como uma organização rigidamente hierarquizada onde, praticamente, não havia a possibilidade de mobilidade social – uma estrutura social estamental. Em meio a essa estrutura hierarquizada, travavam-se relações sociais diversificadas: havia as relações servis (que envolviam os senhores feudais e seus servos – exploração econômica e opressão social dos senhores feudais sobre os servos), existiam relações de solidariedade que se desenvolviam entre os servos (servos de gleba e vilões) e desenvolveram-se as chamadas relações feudo-vassálicas que estavam restritas ao grupo dos senhores feudais (nobreza e clero). Assim, como se pode concluir, o aspecto essencial que define a sociedade feudal é a sua hierarquização a partir da distribuição fundiária e os laços de obrigação mútua que esta distribuição acarreta. Como ressalta um importante estudioso do feudalismo “Pode considerar-se o feudalismo como uma sociedade cujos caracteres dominantes são: um desenvolvimento, levado até muito longe, dos laços de dependência de homem para homem; uma classe de guerreiros especializados a ocuparem os escalões superiores dessa hierarquia; um parcelamento máximo do direito de propriedade; uma hierarquia dos direitos sobre a terra proveniente desse parcelamento e correspondendo a hierarquias dos laços de dependência pessoal a que se acaba de fazer referencia; um parcelamento do poder publico, criando em cada região uma hierarquia de instancias autônomas, que exercem, no seu próprio interesse, poderes normalmente atribuídos ao Estado e, em épocas anteriores, quase sempre de efetiva competência deste”.(GANSHOF, F. L., Que é feudalismo?, coleção saber, publicações Europa-América, pp. 11 – 12). É nesse contexto histórico que a sociedade feudal, definida por uma série de obrigações que recaíam sobre os grupos sociais que a integravam, se desenvolve. A base de todo sistema eram as relações servis de produção, o que implicava na subordinação jurídica da população rural aos senhores proprietários de terras, o que pode ser considerado como legado do sistema de colonato, instituído durante a época da crise do escravismo romano. Considere-se, ainda, que a existência de uma grande quantidade de mão-de-obra dependente decorria, em grande parte, das técnicas agrícolas rudimentares herdadas da agricultura escravista romana. Assim, como a produtividade era muita

pequena, a única forma de aumentá-la era pela chamada “via horizontal”, ou seja, pela ampliação das áreas destinadas ao cultivo. O professor Cyro Rezende, em relação a esta questão, observa: “Herdeiros dos latifundiários romanos trabalhados com mão-de-obra escrava (as”villae”), independente de seu tamanho, o que caracterizava essencialmente os domínios era sua divisão em duas partes. Uma, explorada diretamente pelos proprietários, denominada reserva senhorial, compunha-se de várias construções (castelo fortificado, oficinas, celeiros, estábulos, moinhos), de pastagens, bosques e uma área de terras cultiváveis, que representava até 50% do total disponível no domínio. A outra, chamada de área dos mansos (área das glebas, reserva servil), dividia-se em pequenas parcelas exploradas pelos camponeses. O manso ou gleba pode ser definido como uma unidade de exploração familiar, ou seja, uma parcela de terra suficiente para garantir a sobrevivência de uma família camponesa. Bastante variável em extensão, o manso possuía, em média, 15 hectares, e continha, além de terras aráveis, uma casa e uma horta. O camponês adstrito ao manso completava sua parca dieta com o usufruto das pastagens e dos bosques da reserva senhorial (alguns autores denominam, por razoes didáticas, essas áreas como manso ou reserva comunal) (...). Os camponeses deviam ao proprietário do domínio, em troca do usufruto hereditário do manso, dois tipos de obrigações: parcelas da produção de seu manso e pagamentos in natura, prestação de serviços gratuitos na reserva senhorial. Essa dupla extração de excedente econômico, a que o camponês dependente estava sujeito parece ter sido muito mais pesada na obrigatoriedade do trabalho não-remunerado que nos pagamentos em produtos. As fontes disponíveis falam em alguns ovos, aves, porcos, lã, centeio e, muito raramente, dinheiro. O que equivale a dizer que a função primordial do manso era garantir a sobrevivência do camponês, habilitando-o ao cumprimento da tarefa na qual ele se tornara absolutamente indispensável, dada a exiguidade de mão-de-obra da época: o cultivo compulsório das áreas agricultáveis, concentradas na reserva senhorial. Em outras palavras, o trabalhador rural conseguia a reprodução de sua força de trabalho sem ônus para o proprietário da terra – e ainda lhe pagava por isso, capacitando-se para desempenhar um trabalho do qual não colhia resultado algum: a totalidade da produção conseguida na reserva senhorial era entregue ao proprietário da terra.”. (REZENDE FILHO, Cyro de Barros. História Econômica Geral. São Paulo: Contexto, 1991, p. 48-49). De uma maneira geral, os camponeses trabalhavam, em média, três dias por semana nas reservas senhoriais, perfazendo um total de 156 dias de trabalho compulsório e não remunerado por ano. Conforme a análise de Cyro Rezende, é aí que se encontra o cerne do sistema. Quanto à outra forma de extração de excedente econômico a que o camponês estava sujeito, o documento a seguir nos fornece uma interessante visão do grau de exploração de que se revestia o cotidiano do camponês medieval: “Em São João (24 de junho), os camponeses de Verson, na Normandia (França), devem ceifar os prados do senhor e levar os frutos ao castelo. Depois, devem cuidar dos fossos. Em agosto, colheita de trigo, que devem levar à granja. Eles próprios não podem recolher os seus feixes senão depois que o senhor tirou antecipadamente sua parte. Em setembro, devem a porcagem: um porco em oito e dos mais bonitos. Em São Diniz (9 de outubro), pagam o censo (quantia fixa em dinheiro que o camponês devia ao senhor), depois o direito de fechar seu campo. No começo do inverno a corvéia sobre a terra senhorial, para prepará-la, semear e passar a grade. Em Santo André (30 de novembro), se paga uma espécie de bolo. Pelo Natal, galinhas boas e finas. Depois, uma certa quantidade de cevada e trigo. No Domingo de Ramos, deve ele a carneiragem – um certo número de carneiros – e uma nova corvéia de trabalho (trabalho não remunerado). Depois deve ir para a forja, ferrar os cavalos; ao bosque, cortar árvores para o senhor e fazer a corvéia de carreto. Ainda mais: o moleiro do castelo, para moer o grão do camponês, cobra o alqueire de grão e uma certa quantidade de farinha; no forno, é preciso pagar também, e o forneiro jura que, se não tiver o seu pagamento, o pão do camponês ficará mal cozido e mal virado.” (Direitos Senhoriais em Verson apud ISAAC, J. & ALBA, A. História Universal – Idade Média. São Paulo: Mestre Jou, 1967, p. 33-34.)

“(. a senhores menores e em troca de um montante estipulado de serviço militar. Segundo essa teoria. mas só os exerciam a titulo de feudos. O relacionamento entre o suserano e o vassalo era complexo. Diferentemente dos escravos de Roma. esses senhores menores poderiam conceder alguns feudos a senhores ainda menores. o vassalo teria que escolher a quem apoiar. e dependentes (servos e vilões) no outro. estava restrito à aristocracia dominante. O vassalo também se comprometia financeiramente com o suserano. até a cadeia deter-se ao nível mais baixo. 258).. o vassalo se obrigava a pagar o resgate. (BURNS. o dos cavaleiros. Essa relação era oficializada em uma cerimônia na qual o vassalo prometia lealdade ao suserano Em troca do uso das terras e por segurança. os pequenos senhores feudais não detinham seus poderes de uma vez para sempre. direitos de governo sobre várias terras. OP. Os homens da época tiveram uma visão bastante nítida dessa ordenação e. Poderia ocorrer também que um vassalo cedesse terra a um outro nobre. isto é. o acesso à posse ou propriedade da terra. na tentativa de ganhar mais poder. O detentor de um feudo era dito vassalo daquele que o concedia. Na teoria – e grande parte dessa teoria era ignorada. Por sua vez..Disso resultou a estrutura social básica do mundo feudal na qual privilégios e obrigações se completavam – a existência de uma rígida divisão social: senhores feudais (membros do clero e da nobreza) num pólo. descentralizada. Os dependentes estavam presos a terra. onde disputas entre vassalos ou entre vassalos e suseranos eram resolvidas. Sua principal obrigação era ajudar o suserano durante batalhas. influência e autoridade. Quando uma filha de um suserano se casava. os senhores (leigos ou eclesiásticos) proprietários ocupavam o topo da hierarquia social. na pratica. mas essa expressão não tinha nenhumas das conotações pejorativas que adquiriu hoje. proprietários de grandes terras. Na verdade. . Estes nobres. Uma outra realidade da sociedade feudal européia se constituía nas relações feudo-vassálicas ou relações de suserania e vassalagem. no entanto. um nobre cedia terras a um nobre menos poderoso. se o suserano fosse preso por um inimigo. e todos os detentores de feudos eram nobres”. CIT. não vistos como mercadorias. firmavam alianças com outros nobres menos poderosos: em troca de assistência militar e prestação de outros serviços.) por meio de um complicado e sutil processo de racionalização. O nobre que fornecia a terra era chamado de suserano. A vassalagem – em tudo diferente da servidão – era uma condição puramente honrosa. o vassalo concordava em cumprir com certas obrigações para com o seu suserano. elaborou-se no decorrer dos séculos X e XI uma vaga teoria que procurava impor alguma ordem dentro do feudalismo. prestando serviço militar por 40 dias ao ano. produziram inúmeros textos que enaltecem ordem social que deveria ser representada como “natural” e fruto da vontade divina. Um senhor feudal poderia ter vassalos e ao mesmo tempo ser vassalo de outros senhores feudais. A ausência de um genuíno governo central na Europa resultou na criação de uma nova forma de poder político. Como se tratava de uma sociedade na qual os grupos sociais mantinham-se rigidamente estanques. Segundo BURNS. tornando-se assim um suserano daquele. em troca de serviços militares. posto que não podiam ser vendidos. Se houvesse uma disputa entre esses senhores feudais. os quais poderiam ser revogados no caso de não serem cumpridas certas obrigações. geralmente clérigos. podiam constituir família e eram proprietários de seus instrumentos de trabalho. expressão maior da riqueza da época. Além disso. eram os donos do poder. P. pelos menos aqueles que detinham o monopólio do “saber erudito”. durante longos períodos – o Rei ou os senhores mais poderosos concediam feudos. senhores locais. o vassalo era obrigado a participar de um tribunal de lei. Nessa sociedade a posse ou propriedade da terra garantia poder. aquele que recebia a terra era chamado de vassalo. No sistema feudal. o vassalo contribuía financeiramente. e sequer podiam abandoná-la sem a permissão do senhor.

os senhores feudais construíam casas que eram fortificadas para resistir a ataques. nem sempre eram respeitadas. se relacionava com seus servos e recebia convidados. Dois séculos depois. Os torneios traziam entretenimento à platéia e serviam como desafios e treinamentos de guerra em tempos de paz. ele era nomeado cavaleiro numa cerimônia bastante apreciada pela nobreza. honrar a Igreja e defendê-la de todos os seus inimigos. A filha de um nobre normalmente se casava aos 14 anos de idade. Um jovem nobre era treinado para se tornar um cavaleiro. mulheres herdavam terras. O aposento mais importante do castelo era o grande salão. chamadas genericamente de trégua de Deus. O castelo continha quartos. Os castelos construídos nos anos 900 eram feitos de madeira. Era o pai da noiva que realizava a cerimônia. depósitos e uma capela onde o senhor feudal e sua família rezavam. Ele aprendia a usar uma armadura. muitas vezes com um homem muito mais velho do que ela. a preparação da comida e dos remédios. onde o casal fazia suas refeições. montar a cavalo e lutar com espada e lança. Durante a Idade Média. O castelo era isolado de outros prédios e árvores e arbustos eram derrubados para que os guardas pudessem avistar inimigos que se aproximassem. Se seu marido fosse capturado por inimigos. ela ordenava os servos e tomava decisões financeiras. Por volta do século XII.Uma sociedade belicosa A era dos senhores foi uma época marcada por guerras o que obrigava um senhor feudal a ser um guerreiro habilidoso. e proteger sua mulher e filhos e os mais fracos também. Lá viviam todos os membros de sua família. os castelos eram feitos de pedra e cercados por muralhas e torres de guardas. a ponte levadiça era erguida e os cavaleiros se deslocavam para os pontos altos do castelo. Os cavaleiros buscavam glória – o respeito de outros nobres e a admiração de mulheres. Se o jovem provasse sua coragem. adquirindo poder. ser leal ao seu senhor. Em algumas regiões da Europa. a nobreza feudal seguia um código de lealdade chamado fidalguia (ideal cavalheiresco): um verdadeiro cavaleiro deveria lutar bravamente. Estas restrições. Um cavaleiro deveria ser um bom cristão. Em volta do castelo havia um fosso: caso um inimigo se aproximasse. O castelo do senhor feudal costumava se localizar no alto de um morro rochoso ou às curvas de um rio. Quando seu marido estava ausente. porém. Após o jantar . Os nobres protegiam seus territórios por meios bélicos. O castelo também servia de lar para o senhor feudal. ela providenciaria o resgate ou lideraria uma batalha para resgatá-lo. uma cozinha. A Igreja reconhecia que a luta entre os senhores resultava em desordem e tentava limitar este problema proibindo lutas durante certos dias da semana e certas épocas do ano. .geralmente um banquete . A senhora do castelo supervisionava os afazeres domésticos. Vivendo em épocas de muitas guerras. cavaleiros e serviçais. a mulher era considerada subordinada ao homem. tratar outros cavaleiros com respeito e cortesia. Eles frequentemente participavam de torneios com o intuito de ganhar prêmios e honra.a família e seus convidados eram entretidos por artistas viajantes.

prevaleceu à tendência à estagnação técnica. seja entre senhores (Relações feudo-vassálicas). Não foi comum. Conforme se observou. Além do mais. ainda. de toda uma série de invasões que ampliaram o quadro de insegurança geral. metal e couro. No entanto. e não as de um mercado mais amplo. visitavam os domínios e eram responsáveis pela comercialização de mercadorias de luxo (seda. A produtividade era muito baixa e a apropriação de excedentes pelos senhores (através de impostos) era de tal ordem que o campesinato ficava com apenas 1/6 do total da produção. pois qualquer inovação dependia da aprovação da comunidade aldeã. em algumas palavras. é importante ressaltar que. em função das limitações técnicas.). sintetizarmos as características básicas da economia feudal: Agrária. uma consideração especial deve ser feita ainda em relação ao seu baixo nível de produtividade. tendente a auto-suficiência. Uma observação a fazer diz respeito à produção que era fundamentalmente para consumo: destinava-se a satisfazer as necessidades de consumo da família do camponês (produtor direto) e dos demais habitantes do feudo. afirmam-se as relações de dependência pessoal. derivados de leite. fatalmente. armas. o interesse por parte dos camponeses em aumentar a produção. marfim. o sistema de trabalho comunitário não estimulava a renovação das técnicas. tecidos. papiro. etc. de baixa circulação comercial e monetária e com baixíssimo índice de produtividade. o feudalismo encontra suas origens em meio à decadência da autoridade do poder central. quer no processo de trabalho agrícola quer no processo de trabalho artesanal. estando sujeito a toda uma serie de obrigações servis. de declínio do comércio e da vida urbana.) consumidos. novos tributos e novas formas de expropriação seriam impostos pelos senhores. Assim. não se pode afirmar que a economia feudal era totalmente auto-suficiente. óleo. No quadro de desintegração do império romano e. suprindo os senhorios de produtos vindos de outras regiões. posteriormente. já vistas anteriormente. agrícola. indispensáveis no cotidiano da população. a parte da produção a ser retida pelo camponês deveria corresponder ao mínimo à sua sobrevivência e de sua família. seja entre senhores e servos (as relações servis de produção e dominação). assegurando a renda do solo que garantia o sustento do senhor feudal. Rural. essencialmente. etc. Inúmeros estudiosos admitem que sempre houve uma significativa circulação comercial. da precariedade do Estado. pois. tornando o poder central ainda mais ineficiente. que eram transformadas por artesãos. A produção manufatureira também era praticada nos domínios feudais. cerveja. por uma parcela reduzida da população (os nobres). Resumidamente poderíamos. aproveitando as matériasprimas de origem rural. evidentemente. o camponês não era livre. foice. o domínio feudal tornava-se auto-suficiente em vários produtos. Diante desta ineficiência. muitos dos quais camponeses dependentes. que o colapso das rendas públicas acentuou-se com a decadência do Império Romano do Ocidente. já que. A estrutura política feudal Outra característica do sistema feudal foi à fragmentação do poder político. Acrescente-se. Embora as técnicas de produção apresentassem algum progresso em relação à do modo de produção escravista. o nível das forças produtivas era rudimentar. Mercadores sírios e judeus. Para estes. especiarias. no contexto da fragmentação do império carolíngio a busca de proteção (na maioria das vezes ilusória) junto aos grandes proprietários foi o elemento que sedimentou uma estrutura política descentralizada. tais como vinhos. . No modo de produção feudal. ancinho etc. mesmo que periodicamente.A economia feudal Do ponto de vista econômico. o sistema feudal se caracterizava pela tendência à auto-suficiência e por ser baseado nas atividades agropastoris: a terra era a principal fonte de riqueza e a produção. utensílios de madeira. Embora proprietários de seus instrumentos de trabalho (arado. por conseguinte.

a Igreja não possuía uma estrutura hierarquizada e centralizada. e os bispos e abades se tornaram verdadeiros senhores feudais. à medida que seu poder aumentou (tanto o político quanto econômico. em alguns casos. padres. Nessa época. recebendo doações de terras em toda a Europa ocidental. o exercício de seu poder temporal e o discurso através do qual ela cumpria seu papel ideológico. reprodução e elaboração do saber formal. Embora toda a estrutura de poder que a igreja representou seja analisada no próximo tema. começou a entrar em conflito com a autoridade real e com ela competir politicamente. por isso. como tal. O papel da Igreja na Sociedade Feudal A Igreja teve papel importante na sociedade medieval. I. No princípio de sua história. Os membros do clero eram. 414. “o feudalismo é nada mais. P. quando esta instituição foi forjada como um poderoso aliado do próprio Estado romano ocidental no sentido de conter a crise que o dilacerava. abades e monges. antes concentrada nas cidades. A Igreja católica e o imaginário medieval. eliminando adversários e difundindo uma visão teológica do mundo. modo de vida e de poder soberano e era governado pelos senhores feudais (clérigos ou leigos). Essas relações foram eficazes.. 1990. a Igreja. monopolizado pelo senhor feudal. Como bem notou Georges Duby.O feudo se transformou na unidade fundamental de produção. cumprindo o papel ideológico de justificar as relações mantidas pelos círculos sociais feudais como criadas e desejadas por Deus. nada menos. foi obrigado a se deslocar para o campo. 2. O poder real transformou-se em poder simbólico. que esse quadro político se consolidou. que se estendeu por toda a Alta Idade Média. Enquanto senhora feudal. As origens do poder temporal da igreja remontam ao baixo império romano. Na época das invasões germânicas. exerceu influencia sobre a vida política de todos os seus países. um senhor detém a título privado o poder de comandar e punir e explora tal força como parte de seu patrimônio hereditário. resultado de doações de terras por parte dos fiéis).). não somente no plano da espiritualidade. afirmando-se o poder local. mesmo não conseguindo contê-las. p. mas também no domínio material. As relações de suserania e vassalagem garantiram aos senhores (suseranos) aumentar continuamente sua força militar. No próximo tema analisaremos a estrutura da igreja. ao longo da Alta Idade Média. v. através do apoio armado que recebia de seus vassalos. conseguiu sobreviver como fonte de autoridade em meio a desordem que as guerras provocavam. a igreja católica preservou e ampliou o seu poder na alta idade média. DUBY. História da vida privada: do Império Romano ao Ano Mil. as pessoas mais aptas para ocupar cargos públicos: a Igreja. a Igreja praticamente controlava a produção do saber: o domínio da leitura e da escrita eram privilégios quase exclusivos de bispos. que antes dependia dos reis. monopolizando a preservação. Em cada uma destas. a Igreja católica foi a instituição mais poderosa. fez-se necessário uma estruturação. para conter a agressividade das invasões estrangeiras e foi. & VEINE. P. cabem aqui duas importantes considerações: 1. a igreja. Com a ruralização da economia. São Paulo: Companhia das Letras.). No sistema político feudal. o Concílio de Nicéia estabeleceu a igualdade entre os patriarcas (os chefes espirituais . a igreja foi beneficiaria e reprodutora da estrutura de opressão políticosocial e exploração econômica que o feudalismo impunha a maior parcela da população. Em 325. Foi a maior senhora feudal da Europa ocidental e.” (ARIES. No entanto. (org. que o fracionamento da autoridade em múltiplas células autônomas. Assim. G. A igreja católica teve como sustentáculo principal de seu poder medieval uma enorme propriedade de terras.

São Bento fundou a primeira ordem monástica – a Ordem Beneditina. se atribuía autoridade especial ao patriarca de Roma. o Breve. durante séculos. Em troca Gregório utilizava os beneditinos para a execução de projetos especiais. Foi um projeto de longo prazo. A consolidação do poder temporal e da organização interna da Igreja se deu com a formação e o declínio dos reinos francos: 1) Em 756. Alexandria. em geral. protegeu a ordem dos beneditinos (. surgiram os mosteiros. dando origem ao chamado “clero regular”. que levou cerca de um século para ser completado. e privados do conforto da vida material. quando a estrutura eclesiástica do Império Carolíngio foi submetida à autoridade papal. inteiramente leal ao papado e que em breve ajudaria a unificar o papado e o estado franco. eram conservadas apenas as obras que servissem aos propósitos da Igreja e que pudessem ser estudadas de acordo com os princípios cristãos. com as terras conquistadas aos lombardos. outras ordens surgiram ao longo da Idade Média.229). Em 529. (BURNS. iniciou a conversão dos povos germânicos (trabalho levado adiante por seus sucessores – no século VIII grande parte da população da Europa se encontrava cristianizada) e estimulou a fé através do “canto gregoriano” (música de exaltação religiosa em uníssono). da dinastia Merovíngia. que corriam perigo de ser esquecidas. os únicos centros conservadores da cultura clássica: possuíam bibliotecas próprias e os monges copistas eram responsáveis pela preservação de inúmeros textos da antiguidade grecoromana. dando-lhe regras próprias. assim como elegerem os abades (chefes espirituais e políticos dos mosteiros). Acima de tudo. principalmente sobre os bispos do ocidente. em 814. levou a um período de enfraquecimento do poder papal sobre a Igreja. que formulou as regras cenobitas.). Na Itália ele garantiu a sobrevivência física do papado em face da ameaça lombarda através de uma hábil diplomacia e de uma administração sensata dos territórios católicos.. constituiu o “Patrimônio de São Pedro”. Essa autoridade começou a ser estendida a toda a cristandade quando o imperador Teodósio oficializou o cristianismo como religião do Estado romano. estabeleceu os direitos e obrigações do clero. mas sua grande conseqüência foi deixar um posto avançado cristão. Desta forma. o papa Gregório I (590-604) se aproveitou da falência do poder imperial e consolidou o poder temporal da Igreja. já por essa época. gradativamente. No século V. oficializada pelo tratado de Verdum (843). dedicarem-se à oração e ao trabalho manual (artesanal ou agrícola) e intelectual (filosófico ou educativo). OP. EDWARD McNALL. através de São Basílio. Além disso. ao estudo e ao trabalho. P. CIT. da dinastia Carolíngia. quando Pepino. pois grande parte da autoridade do Bispo de Roma fundamentava-se em sua aliança com o Império expandido e consolidado no reinado de Carlos Magno. castidade. além de teólogo e lingüista. Esses mosteiros foram. 2) Após a morte de Carlos Magno. caridade e obediência..” . onde viviam os monges. homens dedicados às orações. embora. além das anteriores: os monges deviam viver em comunidades. em 391. Antioquia e Roma. Na passagem do século VI para o século VII. Entretanto. 3) Quando se consolidou o movimento monástico: este nascera no século III. O mais importante foi à conversão da Inglaterra anglo-saxônica ao cristianismo. voltou a dar ênfase às antigas pretensões de primazia papal. Baseadas nos beneditinos. determinando que os monges deveriam habitar os mosteiros e praticar os votos de pobreza. “Gregório Magno destacou-se também como estadista. Bispos e Abades fundiram seus interesses pessoais aos de . A primeira grande crise moral católica A fragmentação do Império Carolíngeo.primitivos da Igreja) de Jerusalém.

tenha sido o pior deles. Já os nobres alemães aproveitaram esta oportunidade para se rebelar contra Henrique e fortalecer o poder . Alguns levavam uma vida espantosamente depravada. ou morreu em meio a um ato sexual. Henrique. expulsando-o da Igreja. Os movimentos reformistas Entre os séculos X e XI. Sabe-se. sobretudo. mas . Gregório. Se Henrique não mais pudesse apontar os bispos alemães. O decreto de excomunhão. em 911. 272). em fins da Alta Idade Média era crescente a dependência da Igreja em relação à nobreza..) Quanto aos Papas eram em geral incompetentes ou corruptos. (. para acabar com os abusos morais e a interferência dos senhores sobre a vida monástica.poderosos senhores de terras. A querela das Investiduras O mais árduo defensor das reformas foi o monge beneditino que se tornou o Papa Gregório VII em 1073. filhos ou apaniguados de famílias poderosas de Roma ou arredores. Gregório alegava que um papa estava acima de qualquer imperador e. por Henrique da Saxônia. enfraqueceu-se dando lugar a problemas de natureza não somente políticas. que dispunham de cargos eclesiásticos sobre o seu controle como bem desejavam.. O poder católico. ele decidiu excomungar Henrique. antes centralizado no Papa.CIT. devido a influencia de sua família no Sacro império. inclusive clérigos). O Papa Gregório insistia que somente a Igreja tinha o poder de nomear bispos. portanto. a causa de sua morte. transtornado com tal declaração e tendo em vista uma tradição de sobreposição do poder do imperador sobre o poder do papa (entre 955 e 1057 os imperadores germânicos haviam derrubado cinco papas e influenciado na nomeação de outros vinte e cinco). surgiram diversos movimentos reformistas. talvez.. a descentralização religiosa e conseqüente corrupção passaram a prevalecer na maior parte da Europa. pois havia se rebelado contra a Igreja. Ele declarou que todos os imperadores eram obrigados a se submeterem e obedecerem ao Papa. Tais afirmações resultaram numa luta por poder entre Gregório e Henrique IV. de 1076. bispado e abadias se transformaram em sustentáculo do dito império. poderia depô-lo. Ou foi apanhado em flagrante por um marido ciumento e assassinado sumariamente. Imperador do Sacro Império Romano-germânico. João XII. Foi eleito papa aos dezoito anos de idade.. Os bispos alemães eram os mais importantes aliados do Sacro Imperador Romano-germânico. muitas vezes vendendo-os ou entregando-os a parentes próximos. que viveu em meio a uma completa libertinagem não se conhecendo.] a derrocada do império carolíngio. OP. A guerra política começou em razão do processo de nomeação de bispos. Apesar das tentativas de Cluny e Cister. em 955. mas Henrique não concordava. quando não passaram diretamente a serem nomeados pelos mesmos. Os bispos alemães tinham medo de apoiar Henrique e arriscar serem excomungados pelo Papa (e a salvação pessoal era um objetivo perseguido pelos homens da idade média.” (Adaptado de BURNS. moral: “[. Esta vinculação se consolidou quando foi fundado o Sacro Império Romano Germânico (grande parte da atual Alemanha). de pura exaustão. P. com certeza. acreditava que o objetivo principal de um papa era o de construir uma sociedade cristã na Terra. A maioria das Igrejas e mosteiros tornou-se propriedade `privada´ dos poderosos senhores locais. destacando-se os de Cluny (para acabar com a interferência dos senhores sobre os mosteiros) e Cister (defendendo um restauração da vida espiritual dos monges). ele perderia o apoio deles. Quando a carta chegou às mãos do Papa Gregório. pois eram responsáveis por dois terços do exército e por grande parte da arrecadação dos impostos. escreveu uma carta alegando que Gregório não era Papa. como ideólogo que foi. Nesta época. mas sim um falso monge. ao certo. determinava que Henrique não era mais rei da Itália e da Alemanha..

igualmente. os nobres alemães acabariam com a revolta contra Henrique. Ele proclamou que o Papa estava acima de todos os homens. a Igreja e Henrique V firmaram um acordo na cidade de Worms. Canossa também foi uma vitória para Henrique. ao passo que no campo de batalha propriamente dito o imperador foi capaz de por na defensiva as tropas que apoiavam o papa. O acordo. Em 1085 Gregório morreu. A ação da igreja sobre a sociedade A igreja constituiu-se na instituição mais poderosa da sociedade medieval sobre a qual exerceu influencia marcante. seja fixando diretrizes pedagógicas.. Henrique V manteve o direito de conceder terras e direitos políticos aos bispos. Uma guerra civil logo se espalhou pela Alemanha e a situação piorou quando os nobres convidaram o Papa Gregório a vir à Alemanha e coroar um novo imperador. Em troca. (. contudo. diversos princípios de natureza econômica que deviam atender as necessidades da comunidade e não ao proveito individual: condenou a usura e a especulação impondo o justo preço e.local. na Alemanha. com ele. seguindo-se uma terrível guerra verbal. pois o Papa desistiu de seu plano de apoiar os rebeldes alemães e apoiar um novo imperador.CIT. Os imperadores do Sacro Império Romano rejeitavam esta exigência e tentavam controlar as prósperas cidades-estados no norte da Itália. A igreja formulou. tendo o papa se tornado o dirigente supremo da cristandade ocidental. (BURNS. a ação da igreja se fez sentir de maneiras diversas.. 275).” (BURNS. os papas proclamavam que reis e imperadores deviam se submeter ao seu poder. OP. tinha o direito de julgar todos eles. Na economia. não determinou quem teria supremacia política. OP. em frente às muralhas do castelo até que o Papa Gregório decidisse perdoálo.. Porém. O poder do papado chegou ao seu ponto mais alto sob a liderança do Papa Inocente III (1198-1216). Durante muitos anos. Henrique chegou em Canossa e durante três dias permaneceu de pé. 274-275). sem sapatos.CIT. Henrique abriu mão de seu direito de nomear bispos que passou a ser exercido pela Igreja. não só por suas concepções comunitárias. mas seus sucessores continuaram a luta contra Henrique IV e. Para evitar a perda total de seu poder. mas nunca poderia ser julgado por outras pessoas. Posteriormente Henrique conseguiu mobilizar algum apoio para si. Henrique V.) Isso fez com que pessoas antes indiferentes às questões religiosas o que delas eram excluídos passassem a se interessar pelas mesmas”. P. Pp.. O Édito de Worms Anos após o episódio em Canossa. De acordo com o Édito de Worms. sobre a neve. exercendo controle sobre as atividades comercial e manufatureira. O Papa Inocente estabeleceu o papado como o centro da vida política européia. seja fundando escolas e preparando os alunos para seguir a carreira . o conflito ajudou a reunir o clero ocidental em torno do papa e galvanizou a atenção das pessoas. “O acabou sendo menos importante que o fato de haver o conflito prejudicado duradouramente o prestígio dos imperadores e aumentado o poder dos papas. A imagem de um imperador implorando por perdão fortaleceu o poder do Papa. contra seu filho. Além disso. intervindo nos assuntos de estado de qualquer reino. a igreja controlou o ensino durante a maior parte da idade média. mais tarde. Se o Papa concordasse. “Em 1077 Henrique IV se humilhou diante do papa com o intuito de protela uma deposição formal: esse ato espantou os contemporâneos ainda mais. mas também por dispor de rico patrimônio representado pelos feudos eclesiásticos. No setor educacional. O Édito de Worms firmava que a Igreja tinha autoridade absoluta em assuntos espirituais e o Imperador em questões temporais. Henrique foi à Itália em janeiro de 1077 para tentar persuadir Gregório a anular a excomunhão. aparentemente derrotado.

) A casa de deus que parece una é portanto tripla: uns rezam. por sua vez.”.. econômico e espiritual.. restava reforçar “o patrimônio de Deus na terra”. (ANGERS. etc. bigamia. heranças.). hospitais. esse mesmo discurso era completado pela idéia de que aos senhores. a influencia de senhores feudais e monarcas.. para expiar seus pecados. podemos destacar dois tipos: as heresias teológicas (que contestavam os princípios filosófico-religiosos da Igreja) e as heresias radicais (que se opunham ao poder temporal. que colocava sobre sua proteção os que estivessem em domínios da Igreja. mas há um triplo estatuto na ordem. de tal maneira que os senhores estejam obrigados a venerar e amar a Deus. podemos destacar os valdenses (referência a Pierre Valdes – que negavam a . a Igreja enfrentou inúmeras contestações. à idolatria e à própria estrutura interna da Igreja). São Paulo: Brasiliense. Os guerreiros são protetores das igrejas. casamentos. leprosários e asilos. 900 textos e documentos de história. In: Freitas. nos assuntos religiosos. sobretudo.). 1983. sua jurisdição incidiu sobre outros componentes da sociedade. estruturou um discurso que procurava justificar as desigualdades feudais. Lisboa: Plátano. e a trégua de deus. Eram as paróquias que registravam os atos de batismo. onde os interesses coletivos prevaleciam sobre os interesses individuais: “(. e com a crescente corrupção do clero. Eles defendem os poderosos e os fracos (. Além disso. 1975. surgiram uma série de movimentos que se opunham aos seus dogmas (verdades de fé): as heresias.) fornecer a todos alimentos e vestuário: eis a função dos servos.eclesiástica. Gustavo de. tem outra condição. como a instituição consolidou o seu poder sobre os cristãos do ocidente se impondo.. Durante toda Idade Média. Igualmente importante foi sua ação na defesa dos fracos e oprimidos. a ação da Igreja católica foi marcante. entre os homens.. Laud de. Entre as segundas. A ação da igreja não se limitou apenas à economia e educação. através da moderação da rudeza dos costumes feudais. (. Segundo um religioso medieval: “Deus quis que. da concessão do direito de asilo e de ativa assistência social: por sua riqueza pode fundar e manter orfanatos. Os servos. nos itens anteriores. os movimentos mais importantes foram o arianismo (negava a divindade de Cristo) e o monofisismo (reconhecia apenas a natureza divina de Cristo). St... A lei humana impõe duas condições: o nobre e o servo não estão submetidos ao mesmo regime. O feudalismo. Os movimentos heréticos Apesar de seu poder político. Nenhum homem livre pode viver sem eles (. Por outro lado..) o domínio da fé é uno. através de doações. a sua riqueza. A concepção teocentrica do mundo era complementada por um discurso que procurava apresentar a sociedade feudal como desejada e determinada por Deus. procurava demonstrar que as desigualdades existentes. Hilário Franco. etc. dos servos. no campo ideológico. outros combatem e outros trabalham. o que atendia a uma determinação divina. Destarte. e que os servos estejam obrigados a amar e venerar o seu senhor. Através do teocentrismo. eram parte de uma ordem terreno-espiritual que reservava a salvação para os oprimidos na vida eterna. enquanto os tribunais eclesiásticos julgavam questões que envolviam testamentos. os quais se subordinaram aos preceitos canônicos relativos à família. casamento e falecimento. direitos e deveres dos cônjuges e anulação do matrimonio devido a incesto. regulamentação do casamento. Esta roça de infelizes não tem nada sem sofrimento. dotes. uns fossem senhores e outros servos. Dentre estas. 34). que limitava as guerras medievais.. p. Todos os três formam um conjunto e não se separam: a obra de uns permite o trabalho dos outros dois e cada qual por sua vez presta seu apoio aos outros”. (JÚNIOR. Entre as primeiras.. Como maior beneficiaria da exploração feudal. penalizadoras. Vimos. por seu poder impôs o asilo de Deus.

Este processo possibilitou a consolidação do feudalismo entre os séculos IX e XI e seu posterior apogeu entre os séculos XI e XIII. O grupo foi nomeado em honra de seu fundador. No século XIII. “Apesar do constantes questionamentos a riqueza e poder da igreja.” (BURNS. Estes. 290). mas abriu mão de seus pertences e começou a percorrer por vilarejos italianos. a Europa assistiu uma nova onda de invasões bárbaras: vikings a norte. é preciso afirmar que ambas declararam-se como ordens submissas à autoridade papal e acabaram servindo como instrumento eficaz de combate ao que a Igreja considerava como heresias. (BURNS. inclusive promovendo ações violentas com membros do clero) e os mendicantes. P. magiares a leste. após a “partilha de Verdun”. A ordem dos Dominicanos foi criada por São Domingos (1170-1221). Dentre os dominicanos estavam alguns dos principais mestres das universidades medievais. Os papas ajudavam os padres a se propagar por toda a Europa e muitas vezes lhes permitia até usurpar alguns deveres dos párocos. Assim. P. foram organizadas expedições militares. mas andavam entre as pessoas. São Francisco de Assis. os cátaros (“puros”) ou albigenses (referência à cidade de Albi. dentre estes os franciscanos (seguidores de São Francisco de Assis: praticantes da pobreza e da caridade e valorizadores da educação). a Igreja usou de vários métodos. que viveu durante os anos 1182-1226. “Até o século XIII. e sarracenos a sul.necessidade de intermediação sacerdotal entre Deus e os homens e pregava a pobreza do clero). torturas e morte na fogueira. Os métodos utilizados pela Inquisição ficaram marcados pela extrema severidade. 289). Apogeu e Transformações Na Sociedade Feudal: o início de uma longa Transição. Embora exista fundamento histórico na afirmação de que franciscanos e dominicanos constituíram-se como posições contrarias ao poder temporal da Igreja católica sendo. levou à formação de duas novas ordens de frades . nesse sentido. com atuação mais marcante na Baixa Idade Média. realizando ativo trabalho missionário. o papa Gregório IX criou o Tribunal do Santo Ofício – a Santa Inquisição. pregando e conhecendo pessoas. Francisco nasceu numa rica família de comerciantes italianos. tanto franciscanos quanto dominicanos trabalharam em estreita aliança com a monarquia papal. pregando e fazendo boas ações. Para combater esses movimentos e defender seus dogmas. Novas ordens religiosas O fervor medieval em torno da religião. fato que não eliminou a perseguição individual contra muitos de seus membros. no sul da França. eram também radicais críticos das desigualdades que marcava a sociedade feudal. muito devido a sua grande influência popular.monges que não viviam em mosteiros. O apogeu do feudalismo Com o declínio do Império Carolíngio. também uma heresia. Estes intelectuais também trabalhavam como missionários e participavam ativamente da Inquisição em sua luta contra a heresia. mas professavam absoluta obediência ao papa e procuravam eles próprios combater as heresias. Posteriormente ao seu surgimento. um nobre espanhol. inclusive violentos: contra os cátaros. os franciscanos foram incluídos na estrutura da própria Igreja. por exemplo. Por sua vez. incluindo prisões. os frades combatiam as heresias e ajudavam a pregar as cruzadas papais. principal foco de sua atuação – defensores de uma vida pobre e comunitarista. . “assemelhavam-se aos hereges valdenses.”. Um outro grupo de frades era denominado de Franciscanos. através da ordem dos franciscanos. mantendo um relacionamento de mutuo apoio.

a ocupação e o cultivo de áreas ate então incultiváveis: florestas foram devastadas. as disputas por terras se generalizam e. que. pregara e morrera Jesus de Nazaré). e espiritualmente pelo patriarca de Constantinopla) – era o denominado Cisma do Oriente. devido ao crescimento vegetativo. o papa Urbano II convocou o Concílio de Clermont (França) e. O trecho do discurso do papa Urbano II. isto é. guerras entre senhores (com e/ou sem feudos) eclodem em toda a Europa. Com o aumento do numero de nobres. Um pouco antes. seja para atender seu crescimento. Já em princípios do século XI. Até mesmo a nobreza feudal sente os efeitos das transformações que ocorreram nesse momento. em seu discurso de abertura. em 1071. Foi nesse ambiente de rápidas transformações sócio-econômicas e de grave crise militar e religiosa que. O Movimento das Cruzadas A generalização dos conflitos entre a nobreza feudal a partir da segunda metade do século XI se fez acompanhar de crescentes problemas políticos e religiosos e de ameaças militares externas sobre a Europa. Apesar da ocupação de novas áreas. Além disso. apesar dos esforços olvidados pela Igreja no sentido de reduzi-las: a chamada “Trégua de Deus” – quando o papado impôs pena de excomunhão para quem realizasse combates durante a primavera. tribos turcas (de origem tártaro-mongol) islamizadas avançaram sobre as regiões do Oriente Próximo e da Ásia Menor pressionando as fronteiras do Império Bizantino e. o aumento populacional forçou um progressivo êxodo rural. econômica. serve para que possamos ter uma idéia do clima de tensão social. em 1095. foram algumas das inovações desse período. somada às inovações tecnológicas mencionadas. invadiram e ocuparam Jerusalém. obstacularizando a peregrinação cristã aos “lugares santos” (onde nascera. assim como da forte religiosidade que lhe marcava culturalmente: . que reproduzimos a seguir. riqueza e prestigio militar – e pelos mercadores italianos – que objetivam ampliar seus mercados para o oriente. Estes deserdados. mosteiros e/ou igrejas dando início à revitalização das cidades e de uma “nova“ economia urbana. bem como forçar a reabertura comercial do Mediterrâneo que estava sob domínio árabe dede o século VIII. O comércio. antes localizado e praticado em pequenas feiras irregulares. vivera. abandonavam os feudos e se instalavam nas pequenas vilas e burgos (fortalezas medievais) em torno de castelos. o artesanato lhe acompanha. época reservada à colheita. posto que nem todos conseguissem inserção na economia feudal. especialmente árabes e turcos) para a reconquista da “Terra Santa” e pela reunificação dos cristãos ocidentais e orientais. se amplia e se regionaliza. devido às crescentes diferenças de doutrinas e de práticas ritualísticas e às intensas disputas políticas entre seus líderes. já na segunda metade do século XI. soterrados. a utilização em larga escala da charrua (arado de ferro). os anos que se sucederam às últimas invasões bárbaras foram marcados por uma relativa paz. a sociedade feudal européia assistiu a um sensível progresso técnico resultado dos contatos com as populações mouras que ocupavam a Península Ibérica desde o século VIII: o rodízio trienal dos campos.Nesta época. e por conta do direito de primogenitura. política e militar por que passava a Europa naquele momento. gradativamente. No que foi incentivado por nobres – que buscavam aventurar conquistas territoriais. conclamou a realização das cruzadas: expedições militares contra os infiéis (povos nãocristãos. seja para assegurar o abastecimento dos moradores das nascentes cidades. possibilitaram um notável crescimento demográfico e um amplo processo de arroteamento. em 1054. pântanos. o moinho hidráulico. ocorrera a divisão da Igreja Católica em: apostólica romana (sob liderança política e espiritual do papa) e ortodoxa grega (comandada politicamente pelo imperador bizantino.

. deram origem a novas camadas sociais e destas. 138. contra os fiéis. por exemplo. Uma vez que a terra que vós habitais.). O Movimento das Cruzadas. (Salvo a primeira. tendo como epicentro as cidades italianas. a baixos salários..) Jerusalém é o umbigo do mundo. A reabertura comercial do Mediterrâneo para os mercadores europeus e o restabelecimento dos contatos com o Oriente (Próximo: Ásia Menor.) tomai o caminho do ‘Santo Sepulcro’. O desenvolvimento das atividades urbanas. Scipione. Deixai os que até aqui foram ladrões. ampliaram o comércio europeu.). deu início ao processo de desagregação do feudalismo e ao progressivo declínio socioeconômico de suas camadas dominantes (clero e nobreza feudal). Cláudio. impiedosamente. a partir de meados do século XII. 1999. As cidades foram se revitalizando: funcionando como centros mercantis. que tentaram a retomada de Jerusalém e fracassaram. externo (no entorno do Mediterrâneo) e interno (por rotas terrestres e marítimas). Num primeiro. se enquadram as cruzadas do Oriente. São Paulo.) No segundo. se desviou de seu intuito oficial e se direcionou contra Constantinopla. Os estudiosos em geral variam os números de cruzadas entre sete e doze realizadas a partir fins do século XI até o século XV.” (Vicentino. quando os cristãos espanhóis tomaram Granada e expulsaram os mouros do território europeu.. (. embora fracassado em seus objetivos iniciais. tornarem-se soldados. ainda foi realizada uma “cruzada comercial” – a Cruzada dos Mercadores (1202-1204): patrocinada pelos mercadores de Veneza. receberem agora a recompensa eterna.. que outrora se bateram contra seus irmãos e parentes. Deixai os que outrora foram mercenários. Península Arábica e Egito – e Extremo: Pérsia. lutarem agora contra os bárbaros. trouxe importantes consequências para a sociedade européia medieval.História Geral. tanto nos religiosos (reconquista da Terra Santa e reunificação da cristandade) quanto econômicos (expansão territorial para pacificação da nobreza feudal e ampliação da área cultivável). a terra é mais que todas frutífera. estão as cruzadas do Ocidente que se deram em solo europeu para a “reconquista da Península Ibérica” (episódio inicial para a formação dos reinos de Portugal e Espanha) e no combate aos movimentos heréticos (cátaros. estas lograram êxito. como foi o caso dos Templários. em guerras particulares. resultante das Cruzadas. como um novo paraíso de deleites. podemos classificar as cruzadas em dois tipos. valdenses. como devem. intensificado pelo movimento cruzadista. é demasiado pequena à vossa grande população: sua riqueza não abunda. mal fornece alimento necessário aos seus cultivadores (. Índia e China). Entre os dois extremos. . Para facilitar nossos objetivos. e seu consequente fracasso militar e religioso. fechada de todos os lados pelo mar e circundada por picos de montanhas. resultando na hegemonia da cidade italiana sobre o comércio mediterrânico europeu. Deixai aqueles. arrebatai aquela terra à raça perversa e submetei-a a vós mesmos. lutarem contra os infiéis (. que foi saqueada e mantida sob domínio veneziano até 1261... p. chamada de “Cruzada dos Nobres”: Em 1099 conquistaram Jerusalém e conseguiram mantê-la sob domínio cristão por um curto período através dos chamados Reinos Cristãos do Oriente e do apoio de ordens militar-religiosas. 17ª Ed.“Deixai os que outrora estavam acostumados a se baterem. novos padrões de relações entre elas e de comportamento vinculados a uma economia crescentemente mercantil e monetarizada – era o renascimento comercial e urbano europeu nos séculos XII a XIV. entre outros).

Ligando Flandres (norte) a península itálica (sul). mas intensamente a partir deste. formou-se na Europa uma verdadeira teia de rotas por onde começou a fluir um prospero e intenso comércio. isto é comércio. que deram origem ao sistema bancário moderno. a partir de fins do século XI. Com a expansão do comercio surgem ligas de cidades em várias regiões da Europa. o método de fabricação e o tipo e quantidade de matérias-primas a serem utilizados em seus produtos. império romano-germanico formaram uma liga comercial chamada Hansa Teutônica. Um outro comércio que cresceu foi o de longa distancia. grandes feiras. D. A partir dele. assim como o salário e o numero de empregados. Dentro das corporações de ofício a divisão do trabalho se intensifica. p. As cruzadas deram grande impulso às atividades comerciais no mediterrâneo. a partir de meados do século XII. As possibilidades advindas da difusão do uso da energia hidráulica e da generalização da lã para a confecção de tecidos resultaram num salto tecnológico no artesanato. O desenvolvimento técnico. As tarefas vão sendo divididas entre os artesãos e/ou grupo. pequenas vilas rurais. Sua emissão por ligas de mercadores resultou no surgimento e desenvolvimento das atividades financeiras. envolvendo diversas regiões especializadas. Mais tarde as cidades do sacro. que serviam de ponto de encontro aos comerciantes europeus. Cidades da península itálica. 102). (Koshiba. as regulamentações [desses grêmios] tinham como objetivo proibir a concorrência e. mercadorias e/ou moedas: a burguesia. principalmente nas cidades italianas ao sul e na região de Flandres ao norte. através da abertura de novas rotas comerciais. passaram praticamente a monopolizar os contatos com o oriente. Gradativamente. História Geral e do Brasil: trabalho. Outro importante pólo de atividades comerciais se desenvolveu simultaneamente ao norte da Europa. que monopolizou o comercio nessa região. na região de Flandres (norte da atual Bélgica).O Renascimento Comercial e Urbano As origens do Renascimento Comercial e Urbano que ocorreu na Europa Ocidental. durante todo ano. As corporações rapidamente assumem o controle da economia das cidades: “determinavam o preço. chegando até a Rússia. Nesse percurso realizavam-se. cultura e poder. numa época na qual os meios de transportes eram bastante limitados e o clima de insegurança era crescente devido às constantes guerras. além de elevar o grau de segurança dos mercadores: as chamadas cartas de câmbio. desenvolveu-se uma rota terrestre que atravessava a região franca de champagne. crescimento demográfico e o cada vez mais intenso êxodo rural deram início ao progressivo processo de revitalização urbana. estão relacionadas ao próprio dinamismo do modo de produção feudal. A produtividade aumenta. & Frayze. . estabelecer o monopólio”. A divisão do trabalho voltou a se verificar com o surgimento das corporações de ofício. completou esse processo: o advento e ¬desenvolvimento das manufaturas. o fim das invasões bárbaras. L. A comercialização dos produtos fica a cargo de associações de mercadores – as guildas – que monopolizam o mercado urbano. Em suma. Entre os séculos XIII e XIV. onde até então sucediam feiras eventuais e irregulares. à atuação de bandoleiros e às extorsões dos senhores. A ampliação do comércio trouxe consigo uma “verdadeira revolução no artesanato”. o comercio se propagou pelo mar báltico. São Paulo: Atual. principalmente na tecelagem. O incremento do comércio a longa distância. o que deu maior dinamismo à economia feudal. forçou o surgimento de novos mecanismos para funcionarem como padrão de troca e de câmbio entre as diversas moedas. portanto. vão se transformando em centros mercantis e artesanais nos quais residem um novo grupo social cujo modus vivendi se vincula àquelas atividades e são expressão da posse de riqueza móvel. consolidado entre os séculos IX e X. mas especialmente no norte onde atuava a Liga Hanseática. 2004. como Veneza e Gênova. que unia mais de 300 cidades.

acompanhados pela estagnação do comércio devido à escassez de metais preciosos. A fome se espalhou e se tornou endêmica. A série de má colheitas trouxe uma fase de extrema penúria. impostos e dízimos de toda ordem. a partir dos fins do século XIV. jornaleiros ou aprendizes. composto de grandes mercadores e pelos mestres artesãos que fossem proprietários de oficinas e grêmios – foi desta camada que se formou a burguesia – que cedo se distanciaram da massa de trabalhadores que ia se proletarizando. A Crise Feudal dos séculos XIV e XV Origens da crise feudal: a Grande Fome e a Peste. O início do século XIV. pólo mais dinâmico do comércio mediterrânico. ao sul. por meio de negociação e pagamento de indenização aos antigos senhores. Este grupo. A população desnutrida e. teve início a luta pela autonomia das cidades em relação aos senhores feudais. períodos de secas e nevascas se sucederam. devido ao seu enriquecimento e ascensão socioeconômica. foram submetidas em organizações políticas mais amplas. higiene e saneamento mínimos. Em alguns casos. especialmente os anos entre 1315 e 1317: a chamada Grande Fome. através de tributos. ficava ainda mais suscetível à propagação de epidemias. na Europa. para cunhagem de moedas. os grupos sociais urbanos contaram com o apoio dos monarcas medievais. nas feiras de Champagne. onde se cruzavam grande parte das rotas mercantis terrestres. por meio da violência através de levantes ou da contratação de mercenários para enfrentar os exércitos senhoriais. processo resultante da expansão turcomongólica. Além disso. políticas e econômicas feudais. que matou aproximadamente um terço da população européia entre os anos de 1347 e 1352. na região de Flandres. Somando-se a isso. que viram nestes aliados na busca da centralização política e administrativa de seus reinos e fonte de tributação permanente para a sustentação de exércitos e de um corpo burocrático-administrativo: aqui está o embrião dos estados modernos que se constituíram a partir de fins do século XIV. cereais e matérias-primas em geral subiram. Após a obtenção da autonomia. foi marcado por um ciclo de desequilíbrios climáticos. na França. então principal centro manufatureiro da Europa. limitava a expansão das atividades econômicas urbanas. especialista no tema. a transferência de rendas para a aristocracia feudal e eclesiástica. quando conseguiam a “Carta Comunal”. por conta da sua crescente transferência para o Oriente causada pelo encarecimento de suas especiarias. Em outros. Em geral. ao norte. Em meados do séculos XIV. devido à expansão do trabalho assalariado: seja como companheiros. as cidades constituíam organizações administrativas próprias até que. passaram a questionar o domínio senhorial sobre as cidades exigindo sua autonomia das rígidas hierarquias sociais. o rápido esgotamento de vastas áreas. a produção agrícola foi prejudicada e os preços de gêneros. Os mercados urbanos se retraíram. em várias regiões concentradas em vilas e cidades sem condições de moradia. assim descreve a chegada e a disseminação da “peste” na Europa: . tanto do ponto de vista administrativo quanto territorial: os Estados nacionais modernos. quando obtinha a chamada “Carta de Franquia”.O fortalecimento da economia urbana resultou na formação e ascensão socioeconômica de um patriciado urbano. e nas cidades italianas. A historiadora Bárbara Tuchman. se deu o mais terrível desses surtos epidêmicos: a Peste Negra. Em meados do século XII. As crescentes pressões das camadas urbanas resultaram que muitas cidades conseguiram suas autonomias já em fins do século XII.

A crise social geral também atingiu a Igreja.. surgiram em lugar das inchações e bubões. num crescente desde fins do século XI. Os senhores oneravam crescentemente os camponeses. no campo e nas cidades.. por terras. para bancar os custos e despesas militares. Os primeiros levantes de vulto eclodiram em 1323 na região de Flandres. provocava a intensificação dos conflitos e guerras feudais.. Esta.).. que purgavam pus e sangue e eram acompanhadas por manchas negras por todo o corpo. Nestas os trabalhadores e artesãos pobres se levantaram contra o controle político do patriciado e contra os monopólios econômicos das corporações. Era a costumeiramente chamada superexploração feudal. Um clima de misticismo apocalíptico se espalhou entre a população o que facilitou o surgimento e expansão de diversas heresias que questionavam a riqueza . 87. Nas cidades. onde as revoltas populares foram mais contundentes. (. em 1378. p. agravaram os efeitos da crise econômica que já se desenhara.“Em outubro de 1347. o temor que eles despertaram nas camadas feudais dominantes obrigou os senhores a reconsiderar suas praticas políticas e aliviarem as pressões sobre os trabalhadores.)”. em 1358.. suavam muito e morriam depressa. feudos e títulos. provocadas por hemorragias internas. Vinham do porto de Cafa no mar Negro. B. exigindo o pagamento de rendas e tributos em moedas. por seu turno. Esses movimentos populares foram reprimidos com extrema violência. quando a Inglaterra impunha uma serie de humilhantes derrotas aos franceses: as Jacqueries. exigindo melhores salários e redução da jornada de trabalho. podemos citar: a revisão do estatuto da servidão com a crescente emancipação dos servos – gradativamente as relações servis foram sendo substituídas por rendas monetarizadas. dois meses após a queda de Calais. nas axilas e virilhas. de tempos em tempos. urina sanguinolenta e excrementos enegrecidos pelo sangue – cheirava mal. Os marinheiros doentes tinham estranhas inchações escuras. cinco dias após os primeiros sintomas. As vitimas tossiam. com homens mortos e agonizantes nos remos.. principalmente nas região de Flandres. suor.. Essa doença era a ‘peste bubônica’ (. na França e no norte da Itália. do tamanho de um ovo (. outros sintomas. W. dentro de três dias ou menos (. a propagação da peste e o aumento da mortandade.. aumentando impostos e a jornada de trabalho.) Tudo o que saía do corpo – hálito. embora pendessem para o lado dos camponeses: o enfraquecimento da nobreza feudal contribuiu sobremaneira para que grande parte delas conseguisse sua autonomia política em relação aos senhores. (TUCHMAN. na Criméia. navios mercantes genoveses chegaram ao porto de Messina. Porem. em vários pontos da Europa. Dentre as conseqüências mais notáveis dos levantes. apesar do interregno das Cruzadas. As cidades também foram beneficiadas pelos confrontos entre nobre e servos vez que elas serviram de contrapeso entre os dois pólos. A depressão e o desespero acompanhavam os sintomas físicos e ‘a morte se estampava no rosto’. Com a disseminação da doença. a monopolização das atividades econômicas pelas corporações de ofícios e grêmios e os sucessivos aumentos de impostos exigidos pelos senhores também agravavam a penúria das camadas pobres e as desigualdades sociais. Um espelho distante: o terrível século XIV. O epicentro dessas revoltas urbanas – também chamadas Comunas – se deu na região de Florença.) As revoltas populares A fome endêmica. como febre constante e escarro sangrento. onde os genoveses tinham um posto de comércio. As rebeliões populares também atingiram as cidades. os camponeses se sublevavam contra a nobreza feudal. na Sicília. Daí em diante. durante a Guerra dos Cem Anos. Sentiam muitas dores e morriam rapidamente.). na Itália. Os movimentos mais notáveis se deram na França. sangue dos bubões e pulmões.

após a morte de Carlos IV. A Guerra dos Cem Anos (1337-1453) A crise generalizada e as rebeliões populares agravaram a situação do setor rural. optando pela família dos Valois. Transição política: a formação das monarquias nacionais. Sua morte deu origem ao nacionalismo francês. entre a França e a Inglaterra. baseada na lei sálica (que proibia a sucessão por linhagem feminina) não aceitou. As primeiras. A essa questão política se somou as disputas pelo controle da região de Flandres. Esta interferência culminou com a transferência da sede do papado para Avignon. que concentrava um ativo comércio e importantes manufaturas.e o poder da Igreja. culminando com a eleição de outro papa em Roma. quando foi eleito um único papa – Martim V – no Concílio de Constança. culminando na expulsão dos ingleses. Antecedentes As transformações socioeconômicas porque passou o modo de produção feudal entre os séculos XI e XIV. sob liderança de Joana D’Arc. atacando mosteiros e membros do clero. A crise aumentou quando um dos papas buscou combater seu concorrente. da escolha de um terceiro. a formação e ascensão socioeconômica da burguesia. tanto da nobreza como do clero. de origem francesa. sem deixar sucessores diretos. Somente em 1417. com poucos períodos de trégua. O fim da Guerra dos Cem Anos. episódio conhecido como “Cativeiro da Babilônia” (1307-1377). mais tarde. A crise geral do século XIV consolidou a convergência de interesses entre a burguesia ascendente e os monarcas medievais. por isso. queimada como herege em 1431. ficando sob tutela dos reis franceses. em 1453. resultaram no enfraquecimento das camadas feudais dominantes. no desgaste e enfraquecimento da nobreza feudal que contribuíram sobremaneira para a unificação territorial da França. determinando excomunhões ao seu rival e a seus seguidores. O trono francês foi reivindicado pelo rei inglês. interessadas em superar os entraves feudais ao . reduzindo as rendas dos senhorios. inclusive violentamente. ao lado da “tomada de Constantinopla pelos turco otomanos”. a burguesia flamenga se aliou aos ingleses contra do direitos feudais que a nobreza francesa exercia na região. A mais violenta. acompanhadas pela revitalização das cidades e da economia urbana. Eduardo III (cuja avó era da família dos Capetos). que uniu a população francesa. A nobreza francesa. As guerras feudais se multiplicaram e se generalizaram no século XIV. de 1337 a 1453. e com o chamado Cisma do Ocidente: a transferência do papado para Avignon não teve aceitação por parte do clero romano. agravadas pela crise geral porque passava o feudalismo. em Pisa. que é o episodio mais utilizado para esta delimitação. é um dos marcos finais da Idade Média. Ao final de mais de um século de combates. de curta duração. cuja matéria-prima (a lã) era proveniente da Inglaterra. A origem dos conflitos se vincula às velhas disputas e rivalidades entre as nobrezas inglesa e francesa. teve fim o Grande Cisma. ampla e prolongada dessas guerras foi a Guerra dos Cem Anos. Para recompor seus ganhos. O início da guerra esta relacionado à disputa pelo trono da França. heroína de origem camponesa. da dinastia capetíngia. os franceses resistiram às investidas inglesas devido à forte participação das camadas pobres. as revoltas e guerras generalizadas dos séculos XIV e XV. a nobreza feudal recorreu à rapinagem e à violência. seguido. A crise da Igreja se agravou no decorrer do século XIV quando se tornou crescente a interferência dos reis franceses sobre a escolha dos papas.

que também podiam ser utilizadas para a repressão das revoltas populares. Estes foram vencidos e expulsos em 1143. portanto.desenvolvimento e expansão do comércio: a existência de diferentes moedas. a luta teve inicio sob liderança da Dinastia de Borgonha (1084-1383). ainda que social e politicamente fossem preservados os privilégios (entre eles: a manutenção de um regime tributário próprio e a exclusividade no exercício dos principais cargos e funções públicas) do clero e da nobreza. Isto forçou os monarcas a criarem exércitos nacionais e profissionalizados. Ao mesmo tempo em que buscavam eliminar os particularismos políticos típicos do feudalismo. desejavam se fortalecer politicamente. Em Portugal. e levou ao processo de formação das monarquias nacionais. A convergência de interesses resultou na aliança sociopolítica entre reis e burguesia. Esta. o que deu origem ao Reino de Portugal. O primeiro passo foi a unificação política e territorial. padrões de pesos e medidas. o Ducado Portucalense submeteu a nobreza feudal cristã da região à sua autoridade militar e política. eliminado os particularismos feudais. Os estados nacionais nascentes viram-se obrigados a instituir um sistema tributário unificado. favorecendo o desenvolvimento do comércio e à ascensão socioeconômica da burguesia mercantil. Os segundos. vassala da dinastia de Leão (Espanha). submetendo a nobreza. Características das monarquias nacionais O processo de formação dos estados nacionais iniciado com a aliança rei-burguesia forneceu as bases para a constituição dos estados nacionais modernos. através da ampliação do mercado interno. e limitando o universalismo político do clero. É esse processo que iremos estudar agora. Os primeiros estados nacionais A primeira região da Europa que assistiu o processo de formação do estado nacional centralizado foi a Península Ibérica. extensivo a toda a sociedade. de recursos. mas plenamente definida a partir de meados do século XII. Por essa época a economia da região se encontrava em plena efervescência devido ao desenvolvimento da agricultura nas terras tomadas aos árabes e ao incremento do comércio ítalo- . centralizando a administração pública e unificando os padrões monetários e de pesos e medidas. que foram nacionalizados. estatizando o sistema tributário. foi perdendo suas prerrogativas tributárias. e. gradativamente. tributos. bem como as guerras de definição de fronteiras. Aqui. promovendo a unidade lingüística e cultural de seus reinos. embora para nobres e clérigos tenham se assegurados alguns privilégios e isenções. nas passagens da Idade Média para a Idade Moderna. já visível desde fins do século XI. que a financiava na guerra contra os mouros. para financiá-los. A unificação territorial e a crescente centralização política e administrativa exigiram dos monarcas meios de financiamento e provimentos de aparelhos militar e administrativo. judiciais e militares que foram se concentrando nas mãos dos reis. sob controle dos reis e para atender as demandas de seus empreendimentos. os novos estados em formação também tinham que enfrentar os obstáculos externos impostos pelo universalismo político-religioso do papado e pelas disputas territoriais com outros estados. fonte permanente de tributação. entre os séculos XIV e XVI. leis. Durante o conflito. por volta de 1084. incentivaram o desenvolvimento do comércio. quando começaram as lutas dos cristãos para a expulsão dos mouros: a chamada Guerra da Reconquista Cristã. quando os monarcas medievais foram eliminando os particularismos feudais e urbanos e usurpando os poderes locais da nobreza. a formação do estado nacional teve início na segunda metade do século XI. Progressivamente. os reis foram monopolizando a violência e Justiça.

Fernando de Aragão (e Navarra) e Isabel de Castela (e Leão). A centralização política nas Ilhas Britânicas teve início por volta de 1066. que permitiu a ascensão da Dinastia de Avis (1385-1580). possibilitando o fortalecimento dos senhores feudais. o que favoreceu a formação de uma poderosa e incipiente burguesia mercantil. encontraram a rota atlântica para as Índias. os cristãos foram se unificando para enfrentarem os mouros. Durante seu reinado. Essa dinastia também conduziu Portugal ao seu apogeu econômico. em 1469. época em que os portugueses desbravaram o Oceano Atlântico. e só se concluiu em 1492 com a Tomada de Granada e a expulsão dos mouros pelos cristãos. conquistaram grande parte das costas da África. descobriram e colonizaram o Brasil. Com a expulsão destes. Esses limites foram confirmados pelos os Estatutos de Oxford de 1265. e a transformou num imenso império colonial e maior potência européia. entretanto. devido a disputas sucessórias pelo trono francês e pelo controle da região de Flandres. gerando um único reino. mais tarde. precisamente entre 1383 e 1385. deu . Nesse processo foi decisiva a formação de pequenos reinos cristãos ao longo das lutas contra os islâmicos. também por representantes das cidades (a burguesia). e de seus sucessores (Dinastia NormandoPlantageneta: 1066-1455). durante a chamada expansão marítima comercial. Essa dinastia também foi responsável pelo fortalecimento da justiça real. político e militar. os espanhóis expulsaram os mouros. liderados pela burguesia mercantil. Outras regiões da Europa assistiram a conclusão seu processo de formação do estado nacional centralizado em princípios da Idade Moderna. a nobreza inglesa impôs limites ao poder real: através da instituição da Magna Carta. e a nobreza feudal lusitana que queria manter os laços de dependência em relação à Castela. Em 1385. formado por membros da nobreza feudal e. Alianças militares estabelecidas através de casamentos entre membros das famílias reais acabaram por fundi-los. que resultou na derrota dos ingleses. a luta foi mais duradoura. durante o século XVI. contra a França. a ”common law” – aplicável a todo reino e a cargo de juízes nomeados pelo rei. marcada por um forte espírito cruzadista. era constituído o Grande Conselho (origem do Parlamento Britânico). Este foi o caso da Inglaterra (também chamada Reino Unido – composto por Inglaterra. Aqui. o poder real se enfraqueceu. do qual o pequeno reino luso passou a funcionar como entreposto entre o Mediterrâneo e o Mar do Norte. o Estado nacional português se formou definitivamente. Leão. no século XVI. A consolidação do Estado português se deu em fins do século XIV. durante os reinados de Ricardo Coração de Leão (1189-99) e João Sem Terra (1199-1216).mediterrânico. A Guerra da Reconquista também deu origem ao Reino da Espanha. Aragão e Navarra. Apesar disso. Escócia. dando origem aos reinos de Castela. Entre os séculos XI e XII. quando foi reafirmada a Independência em relação aos Reinos de Leão e Castela (Espanha) durante a Revolução de Avis: guerra civil entre as camadas populares. O passo decisivo foi o chamado casamento dos reis católicos. entre os séculos XV e XVI. Em 1215. País de Gales e Irlanda). cujo primeiro marco foi a viagem de Cristóvão Colombo e o “descobrimento" da América (1492). A eclosão da Guerra dos Cem Anos (1337-1453). com a função de limitar a criação de novos impostos pelos reis. a centralização político-administrativa se consolidou e a Espanha iniciou uma forte ascensão econômica e militar. se consolidou o feudalismo inglês por conta de sua prática distribuição de terras em troca da submissão política e militar dos senhores feudais. com a derrota da nobreza e dos castelhanos na Batalha de Aljubarrota. quando se estabeleceu o domínio dos normandos (povos bárbaros provenientes da Normandia – norte da França). sob liderança de Guilherme de Tell. Sob os reis católicos.

e também à sua decadência. A guerra civil acabou com um acordo político entre as famílias envolvidas. criando o exército nacional submetido ao comando real. Ao final da Guerra dos Cem Anos. só teve termo em 1417.início ao enfraquecimento da nobreza feudal britânica. 24 de agosto de 1572. Durante o domínio dos Valois. tentando recuperar o tempo perdido em relação aos reinos ibéricos pioneiros. ascendeu ao trono francês a dinastia dos Valois. Este episódio. Além disso. e consolidou a economia mercantil inglesa. quando uma disputa dinástica pelo trono.1555). posto que a vitória sobre os ingleses fortaleceu o sentimento nacionalista. Esse processo se tornou irreversível com a chamada Guerra das Duas Rosas. inclusive no Brasil. quando a Igreja Inglesa separou-se do papado. o que possibilitou o fortalecimento da burguesia. O enfraquecimento político e militar dos monarcas carolíngios permitiu a ascensão da dinastia dos Capetos. de pesos e medidas. apesar dos territórios franceses ficarem formalmente sob controle da dinastia dos carolíngios até 987. aliada à “nobreza aburguesada” e aos grupos mercantis – que usavam rosas em seus brasões. especialmente nos reinados de Henrique VIII (1509-47) e de sua filha Elizabeth I (1558-1603). data da Alta Idade Média quando da divisão do Império Carolíngio pelo Tratado de Verdun de 843: a fragmentação do império fortaleceu a nobreza feudal. entre 1455 e 1485. Esta dinastia também conseguiu controlar o universalismo do clero interferindo diretamente no papado romano. promoveu uma série incursões em vários pontos da América. entre 1589 e 1789. Esses conflitos atingiram seu apogeu na chamada ”Noite de São Bartolomeu”. envolvendo as famílias Lancaster e York – a primeira típica representante das antigas tradições feudais. conhecido como “Cativeiro de Avingnon”. O último dos grandes estados europeus a se consolidar durante as passagens da Idade Média para a Idade Moderna. entre os séculos XIV e XV. que reinou até 1589. nos reinados de Luis XV (1717-1774) e . foi a França. depois de um “Grande Cisma” entre o clero romano e o “papado de Avignon”. líder popular de origem camponesa. a segunda. que comandou vários combates contra os invasores. personificado na figura de Joana D’Árc. Esta. O início do processo. incentivando o desenvolvimento do comércio. quando a França se consolidou como potência mercantil européia. aonde protestantes franceses chegaram a funda a França Antártica (RJ. a França deu início a sua expansão marítima colonial e. quando o Concílio de Constança reunificou a Igreja. os reis franceses forçaram a transferência da sede do papado para Avignon. no sul da França. Ao longo do século XVI. unificou o sistema tributário e os padrões monetários. 1550 . levou ao apogeu o absolutismo francês. determinando o retorno de sua sede para Roma e elegendo como “papa único” Martim V. concluiu o processo de centralização promovendo a pacificação religiosa (Edito de Nantes de 1598). que reinou na França entre 987 e 1328 e deu os primeiros passos para sua centralização política ao extinguir as prerrogativas militares dos senhores locais. a França viveu um ciclo de guerras religiosas que envolveram católicos e protestantes e ameaçaram a integridade territorial francesa. A Guerra dos Cem Anos (1337-1453) consolidou o processo de centralização francês. quando católicos massacraram protestantes nas ruas de Paris. entretanto. o que permitiu a ascensão da Dinastia Tudor que reinou sobre a Inglaterra de 1485 a 1603 e foi responsável pela consolidação do absolutismo inglês. daí o nome do conflito. no reinado de Luis XIV (1643-1715). Entre 1307 e 1377. o Estado inglês submeteu o clero através da Reforma Anglicana de 1534. o esforço material e humano exigido pela longa duração do conflito possibilitou o fortalecimento do poder real e concluiu a unificação territorial. Nesta época. Este evento selou o fim do domínio da dinastia dos Valois e sua substituição pela dinastia dos Bourbons.

impregnada de humor. p. seus monges se empenhavam em sistematizar. nos séculos seguintes. 153). típica das massas populares. por parte da . simplificar e comentar os textos antigos. formadas por leigos. Além disso. História global: Brasil e geral. apontam para a existência de uma cultura popular. cuja manifestação mais evidente foi a consolidação do absolutismo monárquico entre fins do século XV e o século XVIII. crenças e atitudes não aceitas pelo clero. preservou os antigos textos gregos e latinos. apesar do monopólio sobre a dita cultura erudita e do controle ideológico exercido pela Igreja. assim como foi ela que silenciou sobre os textos clássicos cujas obras não se adequavam aos seus propósitos. Vida cultural na Alta Idade Média – Europa Ocidental Com base na historiografia tradicional tornou-se comum afirmar que a (Alta) Idade Média foi marcada pelo “obscurantismo cultural”. O tom sério caracterizava a cultura medieval oficial. o bem e tudo o que era importante”. no entanto. Outro traço característico desse período foi a distância que se estabeleceu entre a chamada “cultura erudita” (restrita aos clérigos) e a “cultura popular”. afirmou que “O riso era condenado pelo cristianismo oficial da Idade Média. Vale destacar que. Gilberto. devido a seus conflitos políticos com os estados nacionais. Entretanto. As necessidades de metais preciosos e de ampliação de mercados determinaram a expansão marítima e comercial européia. que se manifestavam em rituais. 2005. Georges Duby e Jean Delimeau. nota-se. A titulo de exemplificação. que analisou concepções e práticas culturais vigentes na Idade Média. acelerada pela crise dos séculos XIV e XV. visto que estão embasadas em um conceito muito limitado do que seja cultura. a acrescente ascensão socioeconômica da burguesia e a gradativa concentração de poder nas mãos do(s) rei(s) resultaram na formação do Estado nacional moderno. O saber historiográfico a respeito da cultura medieval e seus conflitos ressalta a vigência de uma posição predominante. outras transformações advieram do processo de desagregação e crise do feudalismo. encontramos na Alta e também na baixa idade média uma oposição entre uma cultura erudita e cultura popular por meio da qual também se expressavam as tensões latentes aos diversos interesses que encontravam-se em jogo no meio social.Luis XVI (1774-1792). Conclusão: origens da modernidade A desagregação do feudalismo. Assim. em suas obras. o lingüista russo Mikhail Bakhtin (1895-1975). A crise religiosa e redução do poder temporal do papado. (COTRIM. que também se manifestava por meio dos festejos carnavalescos. com a incorporação de suas analises aos estudos históricos mais recentes. das encenações cômicas e satíricas e dos gracejos dos bufões e dos bobos. notadamente aqueles que se prestavam à educação de seus próprios membros. Foi ela que. Dentre essas. Durante a Alta Idade Média parece não haver dúvida quanto ao monopólio cultural formal da Igreja. O progressivo declínio do clero e da nobreza. São Paulo: Saraiva. teve como conseqüência a “reforma religiosa” do século XVI. Cultura e vida intelectual no medievo. sob patrocínio dos novos estados nacionais. Outras transformações também acompanharam e foram fortalecidas e/ou facilitadas pela crise do feudalismo e pela formação das monarquias nacionais absolutistas. lançou as bases para a constituição da sociedade moderna na Europa Ocidental. pesquisadores como Jacques Le Goff. nos mosteiros e abadias. sendo a única forma de expressar a verdade. que teve como conseqüência os chamados “grandes descobrimentos” e uma verdadeira “revolução comercial”. vale destacar: a revalorização da cultura greco-romana que culminou num verdadeiro “renascimento cultural”. não encontram qualquer fundamentação histórica. Tais colocações. associados a elementos culturais bárbaros. entre as massas camponesas a manutenção de forte presença de traços da cultura e dos costumes pagãos.

o sentido da vida e da própria história pelos símbolos. em condenar as praticas culturais que circulavam fora do seu universo imaginário. os intensos debates. O Humanismo tem sua origem na filosofia escolástica desenvolvida pela Igreja. principal filosofo dessa época. vista como complemento da fé. sustentadas na revitalização do comércio e no desenvolvimento manufatureiro. razão e fé. Retórica e Dialética – estudo de textos históricos e filosóficos). junto aos mosteiros e abadias. A leitura. discípulo de Sócrates. Nos primeiros momentos da Idade Média. O Platonismo sustentava a tese da existência de um “mundo das idéias”. é valorizada em detrimento da concepção agostiniana de predestinação. mas do esforço do próprio homem. destacando-se também obras de caráter histórico e as hagiografias (narrativas sobre as vidas dos santos e mártires). No que diz respeito à cultura eclesiástica. confirmadas por ela. serve de base para o “discernimento entre o bem e o mal” fundamentando a Teoria do Livre Arbítrio de Tomás de Aquino. embora não possam ser demonstradas pela razão. ele afirmava sua máxima “compreender para crer. vale ressaltar. harmonizando assim. foram fundadas as primeiras universidades. A Escolástica procurou harmonizar razão e fé. valorizou-se o pensamento de Platão (429-347 a. Esta concepção foi aproveitada por um dos mais importantes pensadores e teólogos medievais. a troca de conhecimento e experiência entre professores e alunos. não foi somente através da repressão que se deu a interação entre essas manifestações dispares. passou a ser constantemente valorizada pelos novos grupos . divididas em: trivium (Gramática e Literatura Latina. Astronomia e Música). o que se realiza na Alta Idade Média é. Ressalte-se o desprezo pela originalidade. Em sua obra máxima. razão e fé. as cidades. Todavia. propiciaram um intenso processo de renovação cultural. e quadrivium (Aritmética. Buscava-se compreender e interpretar o universo. resultante da fusão de elementos de diversas origens: romana (técnicas.). Nestas. Procurava-se demonstrar que não havia contradição entre a doutrina cristã e o racionalismo. as verdades da fé. Nesta perspectiva. utilização do arco na arquitetura. muitas vezes. pesquisa e criatividade: tratava-se de adaptar aos interesses da teologia cristã os textos greco-latinos. Santo Agostinho (354-430). verificou-se uma tentativa de harmonizar a Filosofia grega com o Cristianismo. são. a razão. para quem. No campo das artes. caracterizadas por temáticas e simbologia tipicamente cristãs. do qual a realidade não era mais do que uma sombra. O catolicismo também teve seus momentos de licenciosidade cultural e. pintura mural). vale ressaltar que. crer para compreender”. O ensino centrava-se em torno das chamadas sete artes liberais. orientais (formas rígidas marcadas pela religiosidade) e bárbaras – germânicas (estilização geométrica) e celtas (linhas abstratas com finalidade ornamental). Geometria. Complementados pelos estudos de Teologia. foram fundadas escolas para a formação dos membros do clero e atender as necessidades do culto. Assim. C. resultaram no engendramento de uma nova visão do mundo: a Filosofia Humanista. resultantes de uma verdade superior que era revelada pela Escrituras e salvaguardadas pela Igreja. escrita no ano 426. Na baixa idade média. Em fins do século XI. partindo do pressuposto de que o progresso humano não dependia apenas da vontade divina. “A Cidade de Deus”. em grande parte. até então privilegio de clérigos. bizantinos e de outras partes da Europa.Igreja. aproveitou-se de algumas dessas tradições que alimentavam o imaginário coletivo para difundir seus ensinamentos e visão de mundo. As transformações culturais da baixa idade média – Europa ocidental. essenciais na formação dos clérigos. no entanto. os cada vez mais frequentes contatos com sábios árabes. ao menos do ponto de vista da teologia.

considerado precursor do Renascimento. P. que também exaltava os valores cavalheirescos: bravura. a serviço da corte de algum grande senhor ou perambulavam por toda parte. Nem afastaremos do pensamento Esses corpos macios e ternos". assim como o progresso técnico.. 1975). imensas janelas. 315). de fato. Dá-me absolvição! É grata a morte que me leva. os maiores expoentes da cultura cavalheiresca. ainda. Lisboa: Plátano. a ascensão da burguesia fez surgir uma ”literatura das classes urbanas” que satirizava os ideais da nobreza e atacava o clero decadente e corrupto: o goliardorismo. pensador e político italiano. escrita por Dante Alighieri (1265-1321). discreto entre os discretos. articulados à vida voltada cada vez mais para os mercados”. graças ao seu talento. trovadores nãoprofissionais. (BURNS. é ilustrativo da poesia goliarda de meados da baixa idade média: "Padre. então. a fonte de recursos que possibilitaram tais edificações era a urbanização. que os privava da herança paterna. decoradas com pinturas e esculturas: era o estilo gótico.. quase sempre. OP. típico desse período de transição pois que “reunia componentes antagônicos: de um lado. cujo exemplo maior foi ciclo da Távola Redonda. podiam se elevar ao grau de cavaleiros. Por essa época apareceram os primeiros romances medievais. que praticamente desaparecera na Alta Idade Média. expressava a transbordante religiosidade cristão-feudal expressa na grandiosidade do templo e no predomínio da verticalidade. o amor romântico. mais lírico e profano: “Os trovadores eram. Alguns eram. (VICENTINO. extraído das Confissões de Golias. tanto como fonte de lazer como de ascensão social. In: Freitas. P. Esses cavaleiros sem recursos colocavam-se. Todas as mulheres que não alcancei Possuo em minha ilusão.). coloridas com vitrais. pertencentes à alta nobreza (. até mesmo príncipes e reis”. De outro lado. de traços leves e rebuscados.163). Havia. É tão difícil conseguir Que a natureza se renda E. É doce extinguir-me. Aqui se deu o início da transição para uma literatura moderna e humanista cujo grande exemplo foi a Divina Comédia. 900 textos e documentos de história. A partir de meados do século XIII.burgueses. lealdade. cavaleiros de nascimento. o chamado romance cortes. O poema a seguir. Embora frequentassem as cortes. também apresentou notável . buscando Deus. seu progresso e engenhosidade. Gustavo de. corar e fingir Que se é o campeão da inocência! Nós os moços. estruturas verticais. Cláudio. mas. (Autor desconhecido. que se verificavam nesta época possibilitou o desenvolvimento de novos padrões arquitetônicos. O crescimento das cidades e a prosperidade da economia urbana. não submeteremos jamais Nossos desejos à lei severa. junto às belas. CIT. recorrendo para sobreviver ao ofício de poetas ou cantores. A Ciência. muitos deles tinham origem humilde. Pois meu coração sofre Da meiga doença que a beleza traz. mas empobrecidos devido à prática do direito de primogenitura. Uma “nova Literatura” surgia nas cidades e cortes: o Trovadorismo.

continuaram a ser consideradas pelo clero como criaturas débeis e suscetíveis as tentações do diabo. Os contatos com as civilizações bizantina e sarracena. aliada de Satanás e culpada pela Queda. impuseram limites à ciência. deveriam estar sempre sob a tutela masculina. eram utilizadas nos sermões. em especial no século XIII. e que se submeteu aos homens e a Igreja. Eva concentra em si todos os vícios que trazem símbolos tidos como femininos. como reflexo das diversas ideologias presentes nos trezentos anos que levou para se estabelecer. E como forma de salvação para a mulher. Esse fato será abordado com mais profundidade no capitulo sobre Renascimento cultural. personificada em Eva. Na Idade Média. os pensadores da época não conseguiram escapar das influências místicas o que deu origem À (pseudo) ciência da Alquimia. o cristianismo sofreu um processo de cristalização baseado em um doutrina ascética e repressora. Esta concepção da mulher. Esses homens possuíam acerca da mulher uma visão dicotômica. de preferência de prostitutas arrependidas. vem atraindo a muitos estudiosos. Mas. ou seja. pitagórica e gnóstica. ou melhor. às inovações técnicas e artísticas e à produção do conhecimento. a pregação e. a que era feita pelos franciscanos. e sobre o prazer sexual era encontrada nas filosofias platônica. difundiram novos conhecimentos nos campos da astronomia. . Para propor e estender suas verdades e juízos morais. Nelas. em 1223. atualmente. para toda a população. a sensualidade e a sexualidade. Apesar disso. A história das mulheres na Idade Média é um tema que foi por muito tempo desprestigiado pelos historiadores. dentre outros) para dar embasamento filosófico a doutrina cristã. intrinsecamente ligada a figura feminina. é a pecadora. a gula. que foi construída através dos séculos. Nos sermões feitos pelos pregadores era muito comum o uso do exempla. A mulher. a Igreja utilizava-se de um veículo eficiente. é anterior mesmo ao cristianismo. Textos complementares Texto 01 A mulher na Idade Média: a construção de um modelo de submissão. preservadoras do legado greco-romano. Todos esses atributos apareciam nos exempla. inclusive de outras áreas. estóica. como teólogos e sociólogos. a tentadora. eles ofereciam a figura de Maria Madalena. Os textos desses teóricos do cristianismo foram usados pelos homens da Igreja durante toda a Idade Média e continuam a ser consultados. matemática. como a luxúria. todas as características que eram atribuídas as mulheres apareciam e eram assim difundidas e disseminadas por toda a Cristandade. As perseguições da Igreja.progresso nesse período. a Santa Inquisição. aristotélica. As vidas de algumas santas. ao mesmo tempo em que ela era tida como a culpada pelo Pecado Original. mas. que eram histórias curtas e que poderiam relatar a vida de um santo ou santa (hagiografia). As mulheres passaram. a prostituta arrependida mais conhecida. Jerônimo e Agostinho. A desconfiança sobre a carne. Essas filosofias foram amplamente utilizadas pelos Pais da Igreja (João Crisóstomo. a Virgem Maria foi a mulher que deu ao mundo o salvador e redentor dos pecados. a maioria das idéias e dos conceitos eram elaborados pelos eclesiásticos. nas ruas das cidades. Durante o período de sua afirmação como religião. por que os clérigos tinham essas idéias sobre a mulher? O conceito dicotômico feminino está presente no cristianismo desde de sua consolidação. física e medicina. especialmente a partir da criação dos tribunais do Santo Ofício. por ser rico e pródigo em possibilidades de estudo. logo.

entrava na igreja para assistir à missa. Em seguida. estavam sujeitos a numerosos impostos e taxas que tinham que pagar a seu senhor. Os camponeses moravam em pequenas casas de um cômodo. 1995. Esta construção começou apenas a ruir. A vida dos camponeses não era fácil. já que uma pequena distração poderia destruir não só a casa. pois as casas eram quase todas de madeira. lavava o rosto e as mãos. A Mulher. muitas residências senhoriais eram construídas com pedras. No andar superior ficavam o salão principal e outras acomodações. No final do dia. mas toda a vizinhança. interrompia-se o trabalho para o almoço. A maioria das pessoas permanecia de pé durante a missa.. homens e mulheres conversavam durante algum tempo. O camponês dirigia-se ao campo. todos voltavam para casa. Eram casas feitas de madeira ou de barro. Por volta do século XIII. a alimentação e o vestuário.Depois. 1995. Após o almoço. mas os alicerces ainda estão bem fincados na nossa sociedade. jantavam e em seguida. 1990. Logo que acordava fazia o sinal-da-cruz e rezava uma oração. enfileiradas ao longo da rua da aldeia. (dir. depois da missa. roupas e vasilhas. O banho era raro. Em seguida começava o trabalho. corvéia. o trabalho recomeçava até o cair da noite. No andar térreo da residência ficavam os porões e depósitos ou adegas. além do pesado trabalho. DUBY. P. Eram os próprios camponeses que faziam seus tecidos. PERROT. M. em seu interior. muitas vezes. mas não desconhecido.121. Se alguém quisesse se sentar havia feno e palha. capitação e mão morta. Aquilo que não podiam produzir sozinhos adquiriam na aldeia em troca dos gêneros de seu lote. Porto: Afrontamento. 89 . Texto 02 Uma descrição do cotidiano medieval O homem da Idade Média começava seu dia com o nascer do sol e. até antes. o artesão à sua oficina e os vendedores com seus burros carregados de mercadorias encaminhavam-se para a praça do mercado. tal é a obrigação da classe servil. tinham o chão de terra batida que se encharcava com a chuva ou a neve. fazia-o numa tina de madeira revestida. A primeira refeição era feita em torno de seis horas da manhã. como o censo. vestia-se rapidamente. legitimou a submissão feminina e sufocou qualquer tentativa de subversão da ordem estabelecida pelos homens. Esta classe infortunada não possui .) História das Mulheres: a Idade Média. Se não fosse obrigado a começar a trabalhar imediatamente. banalidades. PILOSU.. Rio de Janeiro: Editora 34. Um bispo da época comenta sobre a vida dos camponeses: "Fornecer todo o ouro. No interior de uma igreja medieval não havia bancos nem cadeiras. os senhores saíam para a caça enquanto os mais jovens exercitavam-se nas armas e no cavalgar. Misoginia Medieval e a invenção do amor romântico ocidental. ocupando-se ainda dos trabalhos domésticos. a Luxúria e a Igreja na Idade Média. Lisboa: Estampa. fornecia uma segurança baseada na distância ao clero celibatário. H. Nos castelos. tinham o cuidado de apagar todo e qualquer vestígio de fogo. Quando tomava banho. G. com um grosso lençol para evitar machucar a pele com as irregularidades da madeira. Referências bibliográficas BLOCH. Na hora de deitar.Foi assegurada por ele e se deu porque permitiu a manutenção dos homens no poder. sob a fraca iluminação de uma vela de sebo ou do clarão do fogo da lareira. os que podiam faziam uma breve sesta ou aproveitavam o tempo para um bate-papo.. Perto do meio-dia. M.

o melhor meio de transporte era o cavalo. formadas por tábuas apoiadas sobre cavaletes. Texto 03 Demonologia na Idade Média O período medieval foi considerado pelos renascentistas dos séculos XIV. . a montes de palha. exerceu forte controle sobre a produção do conhecimento na época. os embasavam em preceitos religiosos. Assim. bispos e abades que. só as famílias mais ricas tinham um quarto para o casal. supostamente. pois os mais pobres não tinham condições de adquiri-lo. a impotência do homem diante dos ardis demoníacos e o papel da Igreja como redentora do homem. de vitela. Os estudos históricos mais recentes apontam uma diversidade de sentidos que podem ser atribuídos a essas situações históricas. Tal caracterização pejorativa foi construída a partir de uma visão que punha este período da História humana entre os culturalmente mais estagnados da civilização ocidental. A água tinha de ser tirada dos poços. foram responsáveis pela invenção de todo um discurso demonológico que procurava demonstrar a intervenção constante do demônio na vida cotidiana humana. Quem poderia. As camas e as mesas eram. nesse sentido. Normalmente atribui-se a Igreja católica o papel de instituição mais poderosa do período medieval que. as pessoas sentavam-se sobre a palha. de carneiro. Para o homem da Idade Média. mas não raro para cinco ou seis. geralmente. as fadigas que os pobres servos têm de suportar!". Na maior parte das casas havia um quarto comum onde todos dormiam. o queijo. Um colchão de penas significava um luxo excepcional. XV e XVI como a "idade das trevas" da humanidade. Só os grandes palácios senhoriais tinham instalações sanitárias. na medida em que lhe cabia reprimir tais manifestações maléficas.. Como a batata era ainda desconhecida (ela só chegou à Europa depois do descobrimento da América). A Igreja católica. de porco e dos animais caçados. as pessoas sentavam-se sobre montes de palha cobertos com belos tecidos. As roupas eram guardadas em caixotes de madeira.. Além disso. não havia armários nas casas. aqueles que produziram idéias vinculadas a Igreja. Nas casas mais humildes não havia cadeiras. a carne era acompanhada de ervilhas.nada que não seja adquirido por um duro trabalho. Até o final do século XIV. havia o pão. Mesmo nas casas mais ricas. Comia-se carne de boi. intolerância e obscurantismo intelectual como características da atuação de padres. quase sempre. até o século XIII. entre outras atribuições. Isso não estimulava os banhos. Assim. a maior parte da população viajava à pé. Uma cama servia pelo menos para duas pessoas. Os colchões se reduziam. Assim. contar as penas. foi apontada como a instituição que mais obstaculizou a produção do conhecimento – os acusadores da Igreja citam sentimentos pouco religiosos. os trabalhos. Um dos principais alimentos era a carne. os legumes. O conhecimento produzido por clérigos era reforçador de todo um discurso que procurava justificar não somente os privilégios materiais do alto clero como também o forte controle exercido pela instituição igreja sobre o imaginário e a espiritualidade do homem medieval. Mas nem todos dispunham desse meio. favas e cebolas. Assim mesmo eram muito precárias.

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