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SUGESTÕES PARA FACILITAR O USO DO ESPAÇO EDIFICADO POR PESSOAS PORTADORAS DE DEFICIÊNCIAS

Eduardo Linhares Qualharini

Prof. FAU / COPPE / EE / UFRJ. CP: 68.529, CEP: 21.945 - 970, RJ / RJ

Abstract

Flavio Corrêa dos Anjos

M.S.c em Racionalização da Construção pela FAU/UFRJ Rua Arari, n o 375/ 504, CEP:21875 - 260, RJ / RJ

The paper purpose some considerations about the limitations that are imposed to the handicapped persons by the equipments from these own homes, revealing some architectural solutions to turn that things accessible to then.

Key Words: Architecture; Ergonomy; Project Analysis

1- Introdução:

Admitindo-se que todas as pessoas são diferentes em dimensões, capacidade física, mental ou sensorial e a Arquitetura tem por função principal, oferecer um abrigo confortável, seguro e funcional a todas as pessoas as quais se destina, conclui-se que, os ambientes devam ser projetados prevendo o uso por pessoas com limitações físicas, oferecendo as facilidades necessárias a cada biótipo existente entre os seres humanos. Para projetar ambientes adequados, (sem barreiras arquitetônicas ao uso das pessoas portadoras de deficiências) deve-se conhecer as necessidades específicas deste grupo na população, e respectivas soluções técnicas para executar tal obra. Normalmente, devido ao desconhecimento destas informações, os projetistas continuam a produzir ambientes cujos acessos, sinalização e dimensionamento, incluem barreiras que condenam as pessoas portadoras de deficiências, a depender da ajuda de terceiros para as tarefas do dia a dia, resultando em uma condição que dificulta a utilização das edificações e do espaço urbano, para uma parcela considerável da população, estimada em aproximadamente 80%, segundo a ONU, e que inclui entre os indivíduos prejudicados: os idosos, as gestantes, os obesos, e as pessoas portadoras de deficiências temporárias ou permanentes, juntamente com os indivíduos excessivamente altos ou baixos. Segundo avaliação da OMS / ONU, feita a partir de projeções européias, estima-se que as pessoas portadoras de deficiências, seriam 10% da população. No caso brasileiro, apesar da falta de estatísticas disponíveis, pode-se afirmar que esse percentual é maior, devido a nossas precárias condições sócio-econômicas e à falência do sistema de saúde. A legislação atual exige que os edifícios de uso público, apresentem facilidades de acesso para pessoas portadoras de deficiências. Assim sendo, no sentido de contribuir para reduzir a falta de informações sobre soluções de projeto específicas para esta parcela da população, apresentamos este estudo, com algumas sugestões.

Quanto a viabilidade financeira de tais soluções, deve-se destacar que, ocorrendo a racionalização do projeto, os seus custos serão otimizados e as adaptações, porventura necessárias, serão de fácil implantação por se tornarem standardizadas, deixando de ser vistas como especiais.

2-Histórico:

Admitindo-se a influência de aspectos sociais e culturais na concepção dos projetos de edificações, entende-se, que é necessário compreender os motivos de ordem social que levaram a situação atual de segregação dos portadores de deficiência física. Para tanto, lembramos que, desde a Grécia antiga, na implementação dos ideais democráticos, a sociedade determinava quem devia ser considerado como cidadão e detentor dos direitos democráticos, excluindo os demais habitantes, aos quais era privado o direito de cidadania. Como resultado, os escravos, estrangeiros e deficientes físicos, foram desprezados como cidadãos. Tal exclusão, preconizada pelo culto a beleza do corpo e à força física, encontrou sua expressão máxima na cidade grega de Esparta, onde os bebês assim que nasciam eram examinados pelos anciãos. Caso fosse detectada qualquer deficiência visível, eram atirados do monte Taigueto, a fim de evitar que sua inferioridade física fosse transmitida para a próxima geração. Tais princípios, foram adotados por todos os povos influenciados pela cultura grega antiga, incluindo a sociedade ocidental, onde a beleza física é freqüentemente associada ao caráter das pessoas, sendo os portadores de deficiências freqüentemente vistos como, como objeto de pena, resultado de um castigo divino ou meio de diversão para os cidadãos aceitos pela sociedade como “normais”. Assim, como produto desta herança cultural, os projetistas continuam produzindo ambientes sem facilidades para o uso das pessoas com limitações físicas, através da aplicação indiscriminada dos dimensionamentos mínimos, que inviabilizam o alcance e o acesso das pessoas portadoras de deficiências. Portanto, como o ambiente não fornece facilidades para os portadores de deficiência física, tais pessoas tendem a levar uma vida reclusa e assistida por terceiros. Nesta segunda metade do século XX, através das ações dos movimentos de portadores de deficiências físicas, desenvolveu-se a conscientização de que os projetos de utensílios e espaços construídos devem ser adequados a variabilidade antropométrica, estudada através da Ergonomia e que pode criar soluções para os espaços edificados e seus utensílios, no sentido de possibilitar uma crescente participação dos interessados.

3- Desenho Universal

O Desenho Universal (Design) tem como uma de suas propostas, a adequação dos espaços construídos e utensílios a todas as pessoas, independentemente de sua capacidade física, mental ou sensorial. Para realização destes princípios, são empregados estudos ergonômicos que incluem as pessoas portadoras de limitações na sua atuação. Segundo Steinfeld (1994), os princípios básicos do Desenho Universal deverão ser:

1 - Acomodar uma grande gama antropométrica. 2 - Reduzir a energia necessária para utilizar os produtos e o meio-ambiente. 3 - Tornar o ambiente e os produtos mais compreensíveis.

4 - Pensar em produtos e ambientes como sistemas que, em caso de necessidade, tenham peças intercambiáveis ou a possibilidade de acrescentar características para as pessoas que têm necessidades especiais. (desenho de sistemas) 4- Recomendações para projetos de edificações

Algumas soluções possíveis em acessos, corrimãos, rampas, banheiros e para unidades autônomas

4.1 - Acessos

Para adequar os ambientes aos usuários de cadeiras de rodas, deve-se considerar o conjunto usuário-cadeira, como um módulo para o dimensionamento de circulações e portas, devendo o projeto respeitar as dimensões mínimas recomendáveis para manobras e deslocamento, além de propiciar menor esforço físico. Para passagem entre obstáculos ou vãos de portas, além da largura da cadeira de rodas (70 cm), devemos reservar uma folga de 10 cm para a movimentação dos braços que a impulsionam, totalizando em 80 cm o vão necessário para o deslocamento. Somando-se esta largura a largura mínima necessária a passagem de uma pessoa caminhando (60 cm), temos o vão livre mínimo (largura) para uma circulação de um edifício de uso público: 1,40 m. As paredes das circulações devem ser protegidas por faixas de materiais resistentes ao choque ou abrasão. Tais faixas protetoras (molduras) devem ser localizadas na altura entre 0.40 m e 0.90 m do nível do piso acabado, podendo ser confeccionadas em concreto revestido com borracha, madeira, fórmica ou metal, e devem ser parafusadas na parede acabada, deixando os vãos livres.

4.2 - Corrimão Duplo

acabada, deixando os vãos livres. 4.2 - Corrimão Duplo Nota-se que a parte baixa do corrimão

Nota-se que a parte baixa do corrimão facilita o alcance por usuarios de cadeiras de rodas, anões e crianças, enquanto que a parte de cima servirá para as demais pessoas, inclusive facilitando a orientação para os deficientes visuais. Este tipo de corrimão também deve ser aplicado em escadas, para facilitar o acesso de crianças e anões.

Corrimão duplo para rampas e seu detalhamento

Fonte: O Projeto Sem Barreiras (1997), Anjos, Flavio C., Qualharini, Eduardo L.

4.3 - Rampas

O projeto deve garantir o equilíbrio entre os quatro parâmetros que definem a acessibilidade da rampa, a saber:

( i ) Inclinação admissível

( d ) Desníveis máximos de cada segmento de rampa

( n ) Quantidade de segmentos de rampa

( s ) Comprimentos máximos de cada segmento de rampa.

( s ) Comprimentos máximos de cada segmento de rampa. Rampa adequada para quaisquer pessoas Modificado

Rampa adequada para quaisquer pessoas Modificado da NBR-9050/1994

Inclinação

Desnível

Números máximos de segmento de rampa ( n )

Comprimento máximo de cada segmento de rampa ( s )

admissível

máximo

de cada

de cada

segmento segmento

de rampa ( i )

de rampa ( d )

 

Unidade: (%)

(m)

-

(m)

5,00 (1:20)

1,500

-

30,00

6,25 (1:16)

1,000

14

16,00

1,200

12

19,20

8,33 (1:12)

0,900

10

10,80

10,00(1:10)

0,274

08

2,74

0,500

06

5,00

0,750

04

7,50

12,50 (1:8)

1,183

01

1,46

Tabela para Dimensionamento de Rampas

Fonte: NBR-9050/1994

4.4 - Banheiros

A tabela indica que, pode-se utilizar a inclinação de 5%, sem limite de número de segmentos de rampa. Assim sendo, este percentual revela-se o mais adequado. Porém, deve-se respeitar o comprimento máximo de cada segmento. (lance de rampa (30,00 m) Recomenda-se reservar entre os segmentos, espaço para patamares de descanso, com área suficiente para permitir a rotação de 90 0 de uma cadeira de rodas. (A Norma Brasileira indica: 1,44 m 2 de 1,20 m x 1,20 m) É fundamental a colocação de corrimãos duplos em toda a extensão da rampa e dos patamares, a fim de possibilitar firmeza, equilíbrio e possibilidade de descanso durante o percurso.

Para os banheiros, são necessários acessórios especiais para o uso de pessoas portadoras de deficiências, tais como: Barras de apoio para transferência dos usuários de cadeiras de rodas para o vaso sanitário ou chuveiro, proteção para o sifão do lavatório, reserva de um espaço

suficiente para a rotação de uma cadeira de rodas (1,20 mx1,20m para uma rotação de 90 o ou um círculo com 1,50m de diâmetro para uma volta completa), elevação da altura do vaso sanitário para 46 cm do piso acabado (altura próxima ao assento das cadeiras de rodas) e também a construção de um banco para o boxe do chuveiro ou para a banheira.

de um banco para o boxe do chuveiro ou para a banheira. Planta e perspectiva de
de um banco para o boxe do chuveiro ou para a banheira. Planta e perspectiva de

Planta e perspectiva de um banheiro completo adaptado para usuários de cadeiras de rodas Fonte: NBR 9050/1994

Os acessórios, devem ser posicionados conforme ilustração abaixo:

devem ser posicionados conforme ilustração abaixo: Acessórios para banheiros Fonte: NBR 9050/1994 4.5 -

Acessórios para banheiros Fonte: NBR 9050/1994

4.5 - Residência Unifamiliar

A residência ao lado, é dotada banheiro com barras de apoio para permitir a transferência

Aresidência ao lado, é dotada banheiro com barras de apoio para permitir a transferência de

residência ao lado, é dotada

banheiro com barras de apoio

para permitir a transferência de usuários de cadeiras de rodas

para o vaso sanitário e chuveiro, independente da ajuda de terceiros, portas com um metro

de largura, sendo que a porta do

sanitário deve abrir para fora, a fim de facilitar sua operação por um usuário de cadeira de rodas Os círculos tracejados com 1,50m, indicam área reservada

para rotação completa de uma

deindicam área reservada para rotação completa de uma cadeira de rodas . Exemplo de residência unifamiliar

cadeira de rodas . Exemplo de residência unifamiliar com dois quartos Fonte: O Projeto sem Barreiras (1997) Anjos, Flavio C.; Qualharini, Eduardo L. 4.6 - Cozinhas

Para o projeto de cozinhas, a principal recomendação é facilitar o trabalho por pessoas sentadas. Para isso, deve-se liberar a parte de baixo da bancada, evitando armários fíxos, optando por armários montados sobre rodízios (que devem ser executados dentro das limitações de alcance manual de uma pessoa em cadeira de rodas: (aproximadamente entre 0,40m a 1,40m do piso acabado.) Além disso, deve-se reservar espaço suficiente para a rotação de 360 o de uma cadeira de rodas. Para um melhor aproveitamento dos cantos das bancadas, pode-se optar por prateleiras giratórias, que, permitem ao usuário, fácil acesso a um objeto que esteja no canto extremo da prateleira, bastando rotaciona-la.

no canto extremo da prateleira, bastando rotaciona-la. Organização de Cozinhas e detalhamento de bancadas
no canto extremo da prateleira, bastando rotaciona-la. Organização de Cozinhas e detalhamento de bancadas

Organização de Cozinhas e detalhamento de bancadas adequadas ao uso por pessoas portadoras de deficiências

Fonte: O projeto sem barreiras (1997), Anjos, Flavio C., Qualharini, Eduardo L.

5 - Recomendações para facilitar reformas

O dimensionamento de cozinhas, banheiros e acessos, são os principais itens de custo nas reformas para adaptar uma edificação as pessoas portadoras de deficiências. Para que a reforma seja rápida e com pequeno volume de obras, sugerimos observar os seguintes cuidados durante o projeto das edificações que não são destinadas especificamente a estas pessoas:

Especificar todas as portas com no mínimo 0,80 m de vão livre

Reservar espaço livre, circular, com 1,50 m de diâmetro nos compartimentos

(sanitários, cozinhas e quartos) para a possível rotação de uma cadeira de rodas. Projetar circulações com, no mínimo, 1,20 m de largura para locais públicos e com

0,90 m ou mais, para pequenas residências. Evitar degraus que dividam ambientes, como salas de estar e jantar.

Reservar espaços para pessoas portadoras de deficiências em locais de reunião,

(cinemas, teatros, estádios,

),

seguindo as normas da ABNT.

Evitar o projeto de acessos principais com degraus, sem a presença de rampas

devidamente dimensionadas. Reservar espaço para a construção de uma futura rampa, contígua ao patamar de

escadas, segundo as normas da ABNT. Em edificações com mais de um pavimento, prever espaço para futura instalação de um elevador de escada ou de uma plataforma de percurso vertical para pessoas portadoras de deficiências. Posicionar sanitários, chuveiros, lavatórios e banheiras de forma a permitir a instalação de barras de apoio caso seja necessário, conforme parâmetros da Norma Brasileira.

Prever pontos de chumbadores nos sanitários e cozinhas para futura colocação de barras de apoio, se necessário, para tanto, desviando tubulações e afastando barreiras arquitetônicas.

Deixar espaço ao lado ou a frente das bacias sanitárias para permitir a transferência

frontal ou lateral, caso o projeto o permita. Adaptar ou reservar espaço para que pelo menos um lavatório, e um dos boxes de cada banheiro de prédios de uso público, seja para os usuários de cadeiras de rodas.

Liberar os armários fixos, em toda a extensão das bancadas de cozinhas e banheiros, deixando aberta a posição da pia e do lavatório, numa extensão de 0,90 m, permitindo assim, a utilização destes equipamentos por pessoas sentadas.

Limitar os armários elevados ao limite máximo de alcance manual de uma pessoa

sentada (1,62 m). Projetar sinalização que inclua símbolos significativos e intuitivos, posicionados ao lado de palavras, levando em consideração sua fácil leitura, para facilitar a comunicação com os deficientes de conhecimento e a disciplina de uso dos espaços arquitetônicos. Posicionar de tomadas, interruptores, alavancas e outros comandos para o acionamento de dispositivos dentro da faixa de alcance manual de uma pessoa

sentada em uma cadeira de rodas. (entre 0,40 e 1,00 m de altura em relação ao piso acabado)

6 - Considerações Finais

Apesar da nossa percepção sugerir o contrário, a maioria das pessoas em alguma fase de sua vida, pode tornar-se incapaz para a realização das tarefas quotidianas devido a acidentes, seqüelas de doenças, idade avançada ou por apresentarem síndromes incapacitantes. Admite-se atualmente, através de pesquisas, que o percentual de idosos encontra-se em crescimento, e brevemente, a maioria da população estará limitada em sua capacidade física, necessitando de facilidades especiais para que possa levar uma vida independente da ajuda de terceiros. A adaptação de residências para o uso de idosos e deficientes físicos, tem baixo custo em relação ao custo total de construção de um imóvel (de 0,003% a 10% do custo real de construção). A longo prazo, reduzirá significativamente o custo da previdência social, além de proporcionar a possibilidade de uma vida mais digna e independente para os idosos e quaisquer pessoas que tenham limitações de acesso.

7- Referencias Bibliográficas

1 -

2 -

Anjos, Flavio Corrêa; Qualharini, Eduardo Linhares (1997); O Projeto sem Barreiras, Rio de Janeiro - Brasil

Associação

Brasileira

de

Normas

Técnicas

ABNT;

(1994),

NBR

9050,

 

Acessibilidade de Pessoas

Portadoras

- de Deficiências a

Edificações,

Espaço,

Mobiliário e Equipamento Urbanos, Rio de Janeiro - Brasil.

 

3 -

Celestino, Helena (1996);

A Revolta dos Pequenos;

Artigo do Jornal O Globo,domingo

26 de maio, caderno: O Mundo/Ciência e Vida, pág. 55, Rio de Janeiro - Brasil.

4 - Collegi d’Arquitectes de Catalunya - Oficina Consultora Técnica (novembro 1991); Accessibilitat al Medi Físic - Supressió de Barreres Arquitectòniques; Catalunya - Espanha.

5 -

Cunha,

Antônio

José;

Telles,

José

Renato;

Diretrizes

Básicas

de

Projeto

para

 

Pessoas

Deficientes;

ADEFERJ - Associação dos Deficientes Físicos do Estado do

Rio de Janeiro; Rio de Janeiro - Brasil.

 

6 -

Erickson,Greg; Buckels Jim (spring 1983);

Designing for the Handicapped; Revista

 

Better Homes and Gardens - Building Ideas,

págs: 94 a 111. Des Moines, Iowa -

Estados Unidos.

 

7 -

Estado de São Paulo (1996), Envelhecimento Rápido, Artigo do jornal O Estado de São Paulo, segunda-feira, 08 de abril, São Paulo - Brasil.

8 -

Miranda, Ricardo; Fernandes, Adriana (1996); Brasil Será um País de Velhos em 30 anos; Artigo, Jornal O Globo, quarta feira, 27 de março, pág. 8, Rio de Janeiro - Brasil.