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6 Umuarama, domingo, 1º de fevereiro de 2009

CRÔNICA
Tudo o que tenho é seu
ÁGUA NO RADIADOR

Nosso cérebro é a uma das grandes maravilhas da evolução,


ou da criação divina para quem preferir, ou dos dois para os que não
querem problemas teológicos. Ele tem sido objeto de estudos
neurocientíficos cada vez mais avançados para desvendar seu
funcionamento, mas sempre que os estudos e descobertas avançam,
mais o Sr. Cérebro aumenta em complexidade. É um grande enigma Sarah Vaughan foi uma das vozes femininas mais influentes do Jazz, de
a forma como um mesmo órgão se comporta de formas tão distintas timbre um tanto grave, porém muito versátil. Ela foi uma das primeiras vocalistas
e imprevisíveis em diferentes pessoas. a incorporar as intrincadas frases do Bebop em seus vocais.
Esse grande “não saber” acerca do cérebro nos fez criar Filha de um guitarrista amador e de uma lavadeira, Sarah Lois Vaughan
entidades como “a mente” ou “a alma” para explicar esses desvios nasceu em Newark, E.U.A, aos 24 de março de 1924. Desde cedo estudou
pessoais e intransferíveis que moldam as particularidades de cada música e ainda na adolescência se juntou a algumas “Big Bands” como
indivíduo nesse mundão-de-meu-deus. Estas entidades são tão vocalista. Com uma bela voz e interpretações cheias de sentimento, não
antigas quanto a humanidade. Os egípcios, e os povos anteriores a demoraria para ela despontar em carreira solo, o que duraria dos anos 1940
eles, já cultuavam e consideravam a existência de alguma coisa até o final da década de 80 quando ela, por causa de um câncer de pulmão,
invisível que complementava o físico de cada pessoa. se afastou dos palcos. Vaughan faleceu em 3 de Abril de 1990, em sua casa
O interessante é que até surgir o grego Hipócrates, pai da na Califórnia, enquanto assistia um filme estrelado por sua filha Debra Lois na
medicina ocidental, que viveu entre 460 a 379 AC, a morada da televisão.
consciência, ou alma, ou sabedoria e afins era o coração. Ele foi o Há, nestes últimos dias um disco dela que não me sai da vitrola, chama-
primeiro a apontar o cérebro como o órgão que controlava as se Every Thing I Have Is Yours, e é uma coletânea de várias gravações da
sensações e a inteligência. Sim, os antigos acreditavam que o a razão “Divina” (como também era chamada) durante a década de 40. A cantora está O clima dessa coletânea é mormente romântico, o próprio titulo já adianta
e o intelecto moravam no coração, portanto, antes Hipócrates, “ouvir próxima da perfeição em faixas como September Song, do compositor alemão o clima, mas não existe no disco aquele mundo de lágrimas ou tristeza demais,
o coração” era ser racional, frase que nos dias de hoje é bem o oposto. Kurt Weill, e Lover Man. O disco também conta com a participação, em algumas os sentimentos como nostalgia, saudade, amor são passados ao ouvinte com
Mas interessante mesmo era a visão que o filósofo Aristóteles faixas, do saxofonista Charlie Parker e do trompetista Dizzy Gillespie, também um sorriso, facilmente perceptível na bela voz de Sarah.
tinha da nossa “cachola”. Para ele a inteligência e a razão eram ícones do Jazz, principalmente do Bebop. Tal álbum foi produzido pelo selo É certamente uma boa chance para quem se interessa e não sabe por
controladas pelo coração, o cérebro funcionaria como um radiador americano Drive, especializado em raridades desse gênero e foi distribuído no onde começar a ouvir esse estilo tão misterioso e ao mesmo tempo simples, que
que resfriava o sangue aquecido pelas batidas do coração. Maluquice? Brasil pela Trama. é o Jazz.
Acho que não.
Com a evolução da neurociência, o cérebro tem se tornado

OS CARECAS
cada vez mais complexo e distante do nosso entendimento. Ele é
praticamente uma entidade abstrata e intocável aos meros mortais
como nós. Usá-lo é para os cientistas, a gente fica mesmo é com o Por Jefferson Silveira
coração. Na hora de amar, na hora de brigar, na hora da indecisão,
o coração sempre ganha do cérebro, é mais fácil. Muitas vezes essa
técnica ajuda e faz a vida andar, mas ignorar a razão por muito tempo
gera um mal costume, um retorno ao primitivo, ao ato reflexo, à
inconsequência e à superstição.
Perceba que as confusões e brigas começam quando uma das
partes perde a razão, quando acabam os seus argumentos. Perceba
que um sujeito atira em alguém numa briga de trânsito quando escolhe
não usar a cabeça e medir as ações. Perceba que uma sociedade
afunda quando se ignora o intelectual e não pensa nas consequências
futuras do que está fazendo.
Existe sempre o valentão que, depois de fazer burrada, se
justifica: “Pô, eu não tenho sangue de barata!”. E não tem mesmo! Mas
como anda o seu radiador? Tem usado direito? Trocado a água,
limpado? Afinal, como qualquer peça de qualquer máquina que não
se usa, ele enferruja e para de funcionar. É aí que vão meus créditos
pro Aristóteles, o cara que melhor definiu o cérebro na história do
mundo, só faltou dizer que a “água” desse “radiador” é o conhecimento,
a criatividade e refrescâncias afins.

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