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Projeto

PERGUNTE
E
RESPONDEREMOS
ON-LINE

Apostolado Veritatis Spiendor


com autorizagáo de
Dom Estéváo Tavares Bettencourt, osb
(in memoriam)
APRESEISTTAQÁO
DA EDigÁO ON-LINE
Diz Sao Pedro que devemos
estar preparados para dar a razáo da
nossa esperanca a todo aquele que no-la
pedir (1 Pedro 3,15).

Esta necessidade de darmos


conta da nossa esperanca e da nossa fé
hoje é mais premente do que outrora,
visto que somos bombardeados por
numerosas correntes filosóficas e
religiosas contrarias á fé católica. Somos
assim incitados a procurar consolidar
nossa crenca católica mediante um
aprofundamento do nosso estudo.

Eis o que neste site Pergunte e


Responderemos propóe aos seus leitores:
aborda questóes da atualidade
controvertidas, elucidando-as do ponto de
vista cristáo a fim de que as dúvidas se
dissipem e a vivencia católica se fortaleca
no Brasil e no mundo. Queira Deus
abencoar este trabal no assim como a
equipe de Veritatis Splendor que se
encarrega do respectivo site.

Rio de Janeiro, 30 de julho de 2003.

Pe. Esteváo Bettencourt, OSB

NOTA DO APOSTOLADO VERITATIS SPLENDOR

Celebramos convenio com d. Esteváo Bettencourt e


passamos a disponibilizar nesta área, o excelente e sempre atual
conteúdo da revista teológico - filosófica "Pergunte e
Responderemos", que conta com mais de 40 anos de publicacáo.
A d. Esteváo Bettencourt agradecemos a confiaca
depositada em nosso trabalho, bem como pela generosidade e
zelo pastoral assim demonstrados.
ANO IV

39
M A R

1 9 6
ÍNDICE

I. CIENCIA E RELIGIAO

1) "Pódese crer que o homem da pré-história, rude como


era, tenha tido consciéncia de urna realidade transcendente (Deus,
a alma humana...) e, em particular, tenka possuido algum senso
religioso?" 91

n. DOGMÁTICA

2) "Porque dizem que, para ser cristáo, é preciso pertencer

a Igreja Católica Apostólica Romana ?

Nao pode haver étimos eristáos que sejam péssimos católicos


ou que nem sequer sejam católicos ?" 102

III. LITURGIA

:¡) "Porque a Semana Santa muda de data todos os anos,


ao ¡>asso que outras celebragóes litúrgicaa ocorrem em época fixa?" 112

IV. HISTORIA DO CRISTIANISMO

i) "Como se explica tenka Jesús Cristo vmdo ao mundo em


periodo too tardío da historia? Se sámente por Ele há salvacáo,
porque nao se man-ifestou mais cedo aos homens?

E como pode ser verdadeira a Religi&o Crista, que é tdo


recente no mundo?" 119

5) "Vinte séculos após a vinda de Cristo a térra, como se


justifica que o Cristianismo nao esteja dominando a face do
mundo, mas ao contrario veja a sua ac&o too dificultada pelas
fáreas do mal?" 126

COM APROVACAO ECLESIÁSTICA


«PERGUNTE E RESPONDEREMOS»

Ano IV — N' 39 — Marco de 1961

I. CIENCIA E RELIGIAO

CONSTANTINO (Belo Horizonte) :

1) «Pode-se crer que o homem da pré-história, rude


como era, tenha tido consciéncia de urna realidade trans
cendente (Deus, a alma humana...) e, em particular, tenha
possuído algum senso religioso ?»

Antes do mais, em nossa resposta impóe-se breve explanado do


que se entende por «pré-história».
«Pré-história» vem a ser a fase da existencia do homem anterior
aos primeiros documentos escritos que possuimos; só a podemos
conhecer através de detritos (ossos e utensilios) fossilizados no seio
da térra ou em cavernas. A conservado de tais detritos era natural
mente esporádica, sempre dependente das circunstancias do respectivo
ambiente (ar, umidade, chuvas, invas5es de animáis e homens, etc.);
daí a índole relativamente lacónica dos fósseis da pré-história. Em
conseqüéncia, torna-se diíicil reconstituir com precisáo os caracteres e o
género de vida das populagSes pré-históricas; muitos traeos, princi
palmente os que se referem ao psíquico ou ao intimo do homem das
cavernas, nos devem ficar para sempre ocultos.
Faz-se mister notar outrossim que, além de ser relativamente
lacónica, a ciencia da pré-história nao pode pretender atingir o limiar
da existencia do homem sobre a térra ; nos íósseis, nao se espera
encontrar algum sinal que caracterize o primeiro dentre os primeiros
homens; pode-se admitir que ésse primeiro pai tenha existido há uns
600.000 anos atrás, sem que daí surja confuto com a S. Escritura
(cf. «P. R.» 17/1959, qu.' 5). Ora o fato de que o primeiro homem
nos é práticamente inatingível acresce as dificuldades de se saber
exatamente como pensavam e viviam as mais antigás gerac3es
humanas.
Como quer que seja, procuraremos rápidamente sondar o que,
neste vasto setor de pesquisas, se oferece ao estudioso, percorrendo
as seguintes etapas: 1) o quadro de vida do homem da pré-história;
2) suas maniíestacSes religiosas; 3) consideragSes fináis.

I. O quadro de vida dos mais antigos homens

A pré-história, abrangendo um periodo que vai aproxi


madamente do ano 600.000 ao ano 5.000 a.C, é dividida em
fases caracterizadas pelo tipo de cultura entáo vigente entre
os homens. Conseqüentemente distinguem-se:
a idade da pedra ou lítica, com suas subdivisoes: a idade
da pedra bruta (paleolítica) e a da pedra lascada ou polida
(neolítica) ;
a idade do metal (cobre, bronze, ferro).

— 91 —
«PERGÜNTE E RESPONDEREMOS» 39/1961, qu. 1

Tentemos reconstituir as circunstancias da vida humana


na época paleolítica mais antiga ou inferior.

Os homens levavam entáo existencia nómade, ou seja, habitual-


mente peregrina; agrupados em pequeñas hordes, a fim de asse-
gurar ajuda e deíesa mutuas, seguiam geralmente os cursos dos rios
ou das costas marítimas ; as altas montanhas e as cordilheiras cons-
tituiam para éles barreiras intransponiveis.
A alimentagáo era-lhes fornecida pela ílora e a fauna do am
biente em que se achavam. Eram cacadores primitivos (de grandes
e pequeños mamíferos, aves, peixes, moluscos...) e coletoxes de
frutas, fólhas, raízes, bulbos, nao sabendo cultivar industriosamente
o solo nem domesticar os animáis; viam-se, por conseguinte, obri-
gados a emigrar desde que a natureza nao lhes oferecesse mais os
necessários recursos de subsistencia. Postos em marcha, os pequeños
grupos passavam as noites no local mesmo em que o por do sol os
surpreendia, procurando o melhor abrigo que_ as matas ou as caver
nas rochosas lhes proporcionassem ; em tais abrigos estabeteciam
ás vézes um acampamento provisorio que lhes servia para descanso
mais demorado; ramos de árvores, fincados no solo e entrelacados
uns nos outros forneciam protecáo contra o vento, a chuva e outras
intemperies do clima ; durante a noite, acendiam o fogo a fim de
manter os animáis selvagens á distancia.
O.s destrogos de cultura humana do paleolítico inferior foram
encontrados com especial freqüéncia em antigos terrenos lacustres
ou fluviais, ou seja, em terracos de lama e areia; donde se depreende
que as hordes antigás se .estabeleciam de preferencia junto ás aguas
(de lagos ou rios), posslvelmente aproveitando os meandros e pro
montorios, a fim de se beneficiar tanto do ahrigo natural como da
facilidade da pesca e da freqüéncia de animáis de caca que iam beber
em tais lugares; ademáis era no leito dos rios, principalmente ñas
sinuosidades respectivas, que os antigos homens podiam encontrar,
em maior abundancia, pedras e cascalhos de tipos diversos para sua
industria rudimental1; a selegáo perspicaz que os primitivos faziam
entre as numerosas pedras que se lhes ofereciam (preferindo o sílex
e o quartzo) é prova de que percebiam as relacoes entre meios e
fins, possuindo conseqüentemente urna inteligencia prática alertada.
Quando se demoravam em cavernas, era geralmente na abertura
destas que os primitivos estabeleciam mansao, a fim de se beneficiar
da luz do dia, e evitar os males provenientes da umidade assim como
do difícil escoamento da íumaca do íogo.
A caca devia dirigir-se com particular afinco contra os animáis
ferozes (panteras, hienas, lobos...). Além de manejar armas primi-
tivas (pedras e ossos, bastees...), os homens da pré-história recorrlam
com freqüéncia ás armadilhas. Estas eram cavadas á margem dos
roteiros mais percorridos pelos animáis, junto ás fontes e aos bebe-
douros e em outros lugares estratégicos; recobria-as urna carnada de
folhagem, térra, estéreo... O animal desprevenido caía na cova, fe-
ríndo-se multas vézes mortalmente; debatia-se entáo para sair, mas
geralmente em vSo, de modo que parava extenuado ; a essa altura
sobrevinha o cacador, que desferia as pedradas fináis ou sufocava a
presa com densa fumaca, caso nao a quisesse deixar morrer lenta---
mente em conseqüéncia das suas contus8es ou da fome. Para apode-
rar-se dos animáis que costumavam passar os dias em profundas
covas (como o urso e o leáo das cavernas), era preciso nao raro
asflxiá-los em suas próprias mansoes mediante a fumaca de possantes

— 92 —
A RELIGIAO NA PREHISTORIA

fogueiras acesas á entrada dos esconderijos. Nem eram poupados os


animáis de corrida muito veloz (veados e cávalos selvagens...) ; o
homem pré-histórico sabia acometé-los de surprésa, deixando-se ficar
durante horas e horas prostrado por térra á espreita dos mesmos;
encontraram-se exemplares dos dardos e globos de pedra entáo arre-
messados.
Quanto á colheita de frutas silvestres, fdlhas e raízes, era geral-
mente confiada ás mulheres e criancas. N
O fogo se obtinha por fricgáo mutua de dois pedagas de niadeira
ou por meio de um pilSo movido á máo.
A cerámica era ignorada pelo homem paleolítico. Vasilhas de
barro, dada a sua fragilidade, teriam sido de exigua utilldade para
o nómade. Éste, á guisa de recipientes, usava cránios de animáis,
conchas, talvez também vasos de madeira e odres de couro.
A respeito do estado sanitario da época, indicios escassos, mas
interessantes, tém sido colhidos. A vida humana devia durar pouco,
raramente ultrapassando os quarenta anos de idade ; a mortandade
infantil era muito freqüente, mais precoce no sexo feminino do que
no sexo masculino. O reumatismo era um mal muito generalizado,
ao passo que nao se conhecia carie dentaria.
Eis algumas linhas gerais do que se presume tenha sido o
quadro de existencia do homem em sua primeira fase sobre a térra.
Intoressa agora averiguar se tal vívente possuia realmente o senso
religioso ou a crenga em Deus.

2. Manifestacdes religiosas

a) O homem de Pequim.

O primeiro tipo humano pré-histórico de maior impor


tancia é o «Sinántropo», cujos vestigios foram encontrados na
gruta de Chou-Kou-Tien a 50 km de Pequim (China), pernii-
tindo-nos reconstituir urna populagáo de trinta individuos
(adultos e criahgas). O sinántropo apresenta caracteres
muito primitivos, tais como volumosa viseira (proeminéncia
dos ossos superiores da cavidade ocular), cránio alongado e
achatado, testa quase nula, falta de queixo, capacidade cra-
niana aproximada de 1000 cm8. Em vista de táo rude índole,
nao poucos autores recusaram-se a considerar os fósseis de
Pequim como pertencentes a verdadeiros homens. — Preva
lece, porém, hoje em dia a sentenga afirmativa ; e isto, por
tres motivos:
1) o sinántropo sabia produzir e eñtreter o fogo (arte
esta que nenhum vivente infra-humano pratica) ; encontra
ram-se," com efeito, junto as ossadas pedagos de carváo, depó
sitos de cinzas, pedras manchadas por fumaga, ossos calci
nados.
2) O sinántropo utilizava instrumentos devidamente ta-
lhados em vista de determinado objetivo; o que quer dizer:
apreendia as proporgóes vigentes entre meio e fim ; conse-

— 93 -r.
«PERPUNTE E RESPONDEREMOS» 39/1961, qu. 1

qüentemente, inventava... Ora a capacidade de inventar


supóe abstragáo de notas concretas e percepcáo de relagSes
que ligam diversos valores entre si; muito difere do instinto
do animal, que geralmente «acería», mas acería sem perceber
o «porque» da sua atividade e sem se poder aprimorar.

Assim foxam recolhidos perto de 2000 pedacos de quartzo talhado


segundo técnica precisa ; encontraram-se outrossím longos ossos trans
formados em utensilios, assim como chifres de animáis convertidos
em punhais.

3) Além disto — o que é muito importante —, o homem


de Pequim revela um certo culto de valores superiores, prin
cipalmente perante os misterios da morte ou do Além (esta
íerceira noía, alias, está geralmente associada na pré-história
ao uso do fogo e á confeccáo de instrumentos).

Assim é que na gruta de Chou-Kou-Tien se acharam diversos ossos


de animáis fragmentados. Ao contrario, os restos humanos consistem
apenas em cranios e mandíbulas correspondentes a doze adultos, dez
criangas e dois adolescentes; em alguns cránios o orificio occipital
foi artificialmente alargado, a fim de melhor se extrair o cerebro
(a quanto parece)... Ora estes vestigios se correlacionan! com ritos
funerarios praticados por povos primitivos da própria era histórica;
com efeito, atestam a inumacáo dita «a dois degraus» : primeramente,
tais primitivos sepultavam os cadáveres no seio da térra segundo
um cerimonial respeltoso; urna vez putrefeitas as carnes, recolhiam
os cránios e extraiam os respectivos cerebros. Quanto ao destino que
a estes davam, discordam os paleontologistas; há quem pense que
ofereciam o cerebro, urna das partes mais importantes do corpo
humano, em sacrificio a urna Divindade; há também quem julgue
(talvez com mais probabilidade) que o cerebro era consumido pelos
sobreviventes a fim de assimilarem a si as qualidades do falecido.
Como quer que seja, segundo os intérpretes, os cránios da gruta de
Chou-Kou-Tien indicam que o homem pequinense possuía o senso
do misterio, do transcendente, assim como urna atitude religiosa cor
respondente. Observa Gabriel de Mortillet: «Urna das primeiras ma-
nifestacSes das idéias religiosas é a prática de ritos funerarios» (ci
tado por Bergounioux-Glory, Les premiers hommes, 4e. éd. París 220).
Pode-se mesmo dizer que o .respeito do defunto e o desejo de
manter contato com ele (mediante o possível «onsumo do cerebro)
ilustram bem a famosa frase de Robert Pitrou:
«Nesta vida apenas percebemos o borbulhar da fonte da qual
somente os morios podem beber» (transcrito da ob. cit., pág. 7).

Em suma, transcrevemos, á guisa de conclusáo nossa, as


palavras com que Bergounioux encerra seu estudo sobre o
homem de Pequim:

«Seria imprudente deduzir désses fatos (os tres indicios atrás'


recenseados) conclusSes demasiado precisas. Contudo é necessário
registrar cuidadosamente essas manifestacSes de vida de urna tribo
ditadas por preocupacñes já nao meramente materiais e já caracte-

^^^
Q4-
^TX ^^"*
A RELIGIAO NA PREHISTORIA

risticas de urna aspiracáo a valores superiores. Primeiros lampejos de~


urna consciéncia religiosa que veremos expandir-se e aprimorar-sc
no homem da etapa seguintes (Les Religions des Préhistoriques et-.
des Primitiís, na colecto «Je sais — je crois» n' 140. Paris 1958,
pág. 14).

b) O homem de Neanderthal.

O homem da etapa seguinte é o chamado «Neandertha-


lense», cujas primeiras ossadas devem ter urna centena de
milhares de anos.

O aspecto íisico do Neandert'nalense ainda é assaz primitivo;


apresenta corpo robusto, pequeño, com cabeca grande, mas um tanto
diversa da do homem moderno: as órbitas oculares eram avantaja-
das, quadrangulares, e dotadas de espessas viseiras; a testa era
quase nula, a parte superior do cránio achatada ; " quase nao havia
queixo, de modo que a configuracáo geral do rosto se achava for-
temente projetada para a frente. Os dentes contudo eram típicamente
humanos, embora mais volumosos do que os das rasas atuais.

Foder-se-iam nesse tipo de viventes averiguar os indicios


de inteligencia, assim como o senso de Deus e da religiáo ?
Nao há dúvida, a raga de Neanderthal, embora fósse rude,
era própriamente humana, pois os detritos deixados dáo a
ver que sabia usar o fogo e talhar utensilios de caga, de pesca,
de cozinha...

Contudo é costume dizer-se que o homum de Neanderthal era


«homo faber» (operario manual, ir.anufatureiro, pequeño fabricante),
e nao «homo sapiens» (homem inteligente, homem que cultive os
valores invisiveis). A razáo desta afirmativa é que nao se descobriu
expressáo alguma de senso artístico na ,rac.a de Neanderthal. — A
distingáo, porém, é insidiosa : desde que se tenha um ser humano,
em qualquer época ou lugar que seja, tem-se um «homo .sapiens»,
dotado de inteligencia. Nao há criatura que seja apenas 50%, 30%
ou 80% homem, pois o que caracteriza o homem é a alma intelectiva;
ora esta
ou existe em determinado corpo, fazendo que seja corpo humano;
tem-se entáo um homem 100%, embora dotado de traeos somáticos
grosseiros,
ou simplesmente nao existe em tal corpo ; neste há entáo urna
alma meramente vegetativa e sensitiva, característica do macaco
ou do animal infra-humano.
É claro que há corpos fossilizados muito semelhantes ao do ma
caco ; há outros, mais próximos ao do homem moderno; contudo
I insistimos em dizé-lo) o individuo que nesses carpos vivia, caracte
rizado por sua alma (alma intelectiva ou alma apenas sensitiva), era
ou 100% homem ou 100% simio.
De resto, a técnica do «homo faber» ou manufatureiro sup5e
sempre urna faculdade intelectiva. Talhar utensilios segundo métodos
precisos e variados é fazer obra de «homo sapiens», pois isso supSe
sempre um poder inventivo, ou seja, urna inteligencia que, pela sua

— 95 —
«PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 39/1961, qu. 1

ampia capacidade de conhecer, pode transcender o concreto e per-


ceber as relagSes abstraías que unem os meios ao íim respectivo.
É assim precisamente que o homem se distingue do animal irracio
nal, como já notamos; éste fica, por toda a sua vida, parausado na
«perfeicao» dos seus instintos e na «impecabilidades das suas atitudes
técnicas. Na verdade, o homem é uno, «faber» e «sapiens», através
dos séculos; apenas se deve notar que ora se manifestou mais como
manufatiireiro, ora mais como artista e dentista.

Portante», o homem de Neanderthal, sendo verdadeiro


homem, nao podia deixar de ter também suas expressóes reli
giosas, que váo abaixo sumariamente enumeradas:

a') as sepultaras. É, como se sabe, na maneira de-


tratar os mortos que primariamente se manifesta a alma
religiosa.
Ora as pesquisas dáo a ver que os esqueletos neandertha-
lenses foram inumados de acordó com ritos próprios ; as se
pulturas eram, sim, intencionalmente escavadas em forma
retangular ou oval; muitas vézes urna carnada de pedras as
recobria; a sua posigáo era a do eixo solar (Este-Oeste) ;
utensilios, alimentos e oferendas diversas acompanhavam os.
mortos na grande viagem postuma.

Além disto, é significativa a posigáo dos cadáveres no túmulo:


um esqueleto, por exemplo, descoberto em Moustier (Franga) aos 10
de agosto de 1908 apresentava o cránio a repousar sobre o brago di-
reito devidamente dobrado; a face se apoiava diretamente sdbre o
cotovélo; duas pedras foram colocadas á altura do nariz; o brago es-
querdo se estendia de modo a alcangar um utensilio bifacial. Na
Cápela dos Santos («Chapelle-aux-Saints») encontrou-se um cadáver
no fundo de um fósso retangular (1,45 xlm); jazia sobre o dorso, na
diregáo de leste; a cabega, a oeste, era protegida por tres ou quatr&
destrogos de ossos alongados. Junto á máo do defunto, foi colocada
urna sela de rena e urna pata de grande bovino com sua carne res
pectiva.
No Oriente, as sepulturas neanderthalenses aínda sao mais in-
teressantes ou intrigantes. Na Palestina, por exemplo, em Sukhül se
encontrou o esqueleto de um anciáo que parece ter sido muito ma
nipulado depois de langado na térra; substituiram-lhe a cabega por
um cránio de bovino !... Outro cadáver do sexo masculino tinha em
máos u'a mandíbula de javali. Um terceiro apresentava o fémur e
o pubis perfurados por urna arma de corte quadrangular. Os esque
letos mais conservadas se acham sempre em posicSo arqueada, o
que atesta um rito de inumagao intencional. Na Asia Central, ceri-
mónias especiáis se realizavam : no túmulo de Teshik-Tash, o fundo-
é constituido por ossos de cabra postos em filas paralelas; o cadá
ver de um menino foi ai deitado sobre o seu flanco esquerdo; em
torno do cránio seis pares de chiíres de cabra das montanhas («capra
siberica») formavam urna especie de diadema (mera decoragño ou.
munigao defensiva?); cuidado meticuloso foi, sem dúvida, dispen
sado a essa sepultura.

— 96 —
A RELIGIAO NA PRÉ-HISTÓRIA

Por vézes tem-se a impressáo de que os cadáveres eram recobertos


de ocre vermelho (caso de «ChapelIe-aux-Saints»), ou de tenue carnada
de cinzas (em Spy, na Bélgica); nao se saberia indicar a razáo exata
de tais práticas.
Como quer que seja, as descobertas que acabamos de enunciar,
atestam todas que o hornera de Neanderthal tratava zelosamente os
seus mortos.
«Ésses ritos funerarios vém reforcar a conviccáo em nos gerada
pelo estudo da técnica neanderthalense: a inteligencia do neander-
thaloide era tío viva quanto a nossa. Ele foi nosso irmáo na miseria
assim como na grandeza. Embora tivesse urna anatomía um tanto
diversa da nossa, seu psiquismo conquistador lhe permitiu encarar
de frente as tremendas questóes ás quais nenhum homem desde essa
época respondeu por seus próprios recursos» (Bergounioux-Glory, Les
premiers nomines 221).

b') O rito dos cránios. Prolongou-se entre os ho-


mens de Neanderthal a antiga praxe (de fundo religioso, como
sabemos) de se extrair o cerebro dos cránios. Assim na gruta
de San Felice Circeo, ás margens do mar Tirreno, encontrou-se
um único cránio, com o orificio occipital alargado; estava
depositado em meio a üm círculo de pedras, ao passo que ñas
proximidades círculos semelhantes envolviam fragmentos de
ossos de animáis (possíveis vestigios de oferendas).

Para ilustrar tal costume, cita-se o fato de que ainda hoje os


Adamas do Océano Indico em ocasióes oportunas procedem á solerte
exumacáo do cadáver de um defunto caro ; os ossos sao purificados
na agua do mar e levados de volta á aldeia, enquanto as mulheres
entoam lamentacEies. Cránio e mandíbula sao conservados na familia
do extinto e nao raro trazidos ao pescogo dos familiares (á guisa de
amuleto ou «porte-bbnheur»); em certas solenidades, o cránio, ungido
de óleo ou de gordura, torna-se objeto de grande veneragáo.

c') Os santuarios dos sacrificios. Na Suica, em


Drachenloch (2445 m ácima do nivel do mar) encontraram-se
duas grutas que continham pequeñas caixas de lajes largas,
ñas quais se viam numerosos ossos de urso das cavernas
(«ursus spelaeus»), principalmente, porém, cránios déste
animal.

Na gruta de Wildermannsloch (a 1628 m de altura), na Suica,


descobriram-se outrossim cránios de uxso dispostos em nichos cava
dos ñas paredes rochosas. Semelhantes achados .registraram-se na
Francónia («Petershole»). Trata-se, em todos ésses casos, de sacrifi
cios oferecidos • como primicias á Divindade por parte de cacadores
de urso. O mesmo tipo de oferenda ainda é observado por certas
populacSes da regiáo ártica.
Em El-Guettar, no sul da Tunisia, dascobriu-se sobre as arelas
de um poco artesiano um acervo de ossos, pedras talhadas e dardos
esféricos. O conjunto tinha a forma de um cone regular, de 1,50 m de
diámetro na base e 0,75 m de altura. Mais de duas mil pedras foram
ai contadas, geralmente talhadas em forma puntiaguda. Levando em

— 97 —
«PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 39/1961, qu. 1

conta semelhantes monumentos dos povos históricos, julgam os in


térpretes tratar-se de um depósito de oferendas íeitas á Divindade
do poco, á qual os homens exprimiam sua íé e sua veneracáo.

Em termos sumarios, eis alguns indicios da mentalidade


religiosa do homem de Neanderthal; procuraremos aquilatar
todo o seu significado no § 3 déste artigo.

c) As ragas posteriores.

No período paleolítico superior aparecem na Europa, pro


venientes talvez do oeste da Asia, os homens dos quais des-
cendem diretamente as ragas atuais: sao os tipos de Cro-
-Magnon, Grimaldi, Chancelade, Wadjak. Como ensinam os
paleontologistas, representam o desabrochar racial de um único
tronco humano, que, passando pelos neanderthalenses, teve
inicio com os primeiros homens do paleolítico. A primeira
fase paleolítica superior, a de Aurignac, deve-se ter estendido
do ano de 40.000 ao de 20.000 a. C.

Em tal periodo da pré-história, os homens já viviam em socie-


dade organizada, entregando-se principalmente á caca; é o que ex
plica as modalidades características da sua cultura, que seráo abaixo
brevemente focalizadas.

No setor religioso, reproduzem-se entáo as manifesta-


góes já assinaladas no estudo dos períodos anteriores.

Apenas importa aqui notar que a crenc.a na sobrevivencia da alma


do defunto é atestada ainda mais explícitamente do que outrora.
Parece que se atribuiu ao extinto urna nova existencia durante a qual
ele poderia ser nocivo aos sobreviventes na térra. Daí nao sámente
a oferenda de alimentos, mas também o desejo de se manter o de
funto no lugar mesmo de sua sepultura; em vista disto, acendiam
fogo e lamparinas junto a esta a fim de proteger o morto contra o
írio; amarravam-no todo ou apenas o manietavam ; colocavam-no
dentro de um saco ; fixavam também urna estatua sem pernas ou
com um só braco ao seu lado, como para indicar que nao devia mals .
poder locomover-se. Procuravam outrossim satisfazer ao defunto, se-
pultando-o com seus mais belos adornos (braceletes, colares, ligas...);
no mobiliario dos sepulcros se encontraram nao raro estatuetas de
animáis, que os sobreviventes queriam assim colocar a servigo do
defunto.

Nova manifestacáo religiosa ainda se pode observar nessa


época paleolítica superior: é a arte sacra inicial. Com efeito,
nao sao raras as grutas da época cujas paredes apresentam
desenhos e pinturas diversos : ora trata-se da representacáo
de animáis, principalmente daqueles que o cagador mais es-
timava (veados, cávalos, touros, vacas, renas, bisóes, por vézes
mamutes...) ; ora aparecem cenas de caga, ora sinais sim-

— 98 —
A RELIGIAO NA PRÉ-HIST6RIA

bélicos (os dedos de u'a máo aberta, por exemplo, na atitude


de queiri quer vedar a passagem). Com razáo afirrnam os
paleontológicas que tal decoragáo nao se pode atribuir ao
simples desejo de ornamentar a mansáo do homem pré-histó-
rico, de mais a mais que as grutas as'sim ornamentadas sao
muitas vézes dé difícil acesso ; parecem ter servido apenas a
individuos iniciados. O significado de tais figuras é, antes, o
seguinte : a caga e a pesca eram ocupagóes de primeira neces-
sidade para o homem antigo ; caso nelas nao fósse bem suce
dido, morrena (ou abatido pelos animáis que ele perseguía,
ou prostrado por inanigáo). Dessa necessidade deve ter nascido
no cagador o desejo de recorrer a um poder superior, divino,
a fim de obter pleno éxito na luta pela vida; o recurso se
fazia entáo ñas cavernas, transformadas em santuarios com
suas imagens (a gruta de Lascaux, Franga, que data de
20.000/15.000 a. C, foi mesmo denominada «a cápela sixtina
da pré-história»). Nesses santuarios desenvolvia-se um ritual
cuja inspiragáo era provávelmente de índole mágica: os
homens, tendo a frente um mago ou iniciado, aplicavam aos
animáis representados em efigie os ferimentos que éles depois
lhes tentariam infligir na realidade ; ferir a imagem em deter
minadas circunstancias era, de certo modo, equiparado a
adquirir o poder de ferir o prototipo vivo. Essa índole mágica
do culto, reservado aos iniciados, explica o desejo que os
antigos nutriam, de ocultar os seus santuarios.
Além de imagens e grutas sagradas, a pré-história no
paleolítico superior apresenta rica colegáo de estatuetas dota
das de caráter religioso : aparecem principalmente figuras fe-
mininas de pedra ou marfim, com os seios muito desenvolvidos,
a representar a deusa da Fecundidade ; desde remota época
se deve ter associado a ésse ídolo a idéia da «Tellus Mater»
ou da «Térra Máe» (sempre fecunda). Para o homem antigo,
a esterilidade das mulheres causava verdadeiro daño, pois con
coma para diminuir o número de componentes da tribo, fa-
zendo que esta se tornasse ainda mais vulnerável aos múltiplos
adversarios que a assaltavam.

Com o adiantamento dos tempos pré-históricos, as expressóes de


religiosidade se foram multiplicando e cada vez mais enriquecendo
pelos recursos da arte e da civilizagáo. Apenas ressaltaremos que o
lugar onde os deíuntos repousavam, foi sendo mais e mais conside
rado térra sagrada ; procuravam, por isto, situá-lo a certa distancia
do «habitat» da respectiva tribo. Podia acontecer, porém, que o morto
fósse enterrado em seu próprio domicilio sob as cinzas da lareira;
entao os sobreviventes incendiavam tal choupana, que naturalmente
desabava e recobria o túmulo com os destrogos do incendio. — As pes
quisas de paleontología também nos deram a conhecer vestigios de
culto do sol mais notáveis do que a simples orientac&o de cadáveres

— 99 —
«PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 39/1961, qu. 1

na directo LO (já praticada em épocas remotas) : assim, por exem-


plo, na gruta de Peyort (Ariége, Franca) foi encontrada a iraagem
de um homem que com os bracos estendidos persegue tres veados,
enquanto um imenso disco fulgurante domina toda a cena.

Tais dados, que poderiam ser aínda longamente enume


rados, já bastam para incutir no observador a conclusáo de
que, desde que o homem aparece na pré-história, possui senso
religioso. Esta consciéncia religiosa se manifesta, antes do
mais, no reconhedmento de que existe um Misterio bu urna'
realidade transcendente de que o homem depende e que ele
deve cultuar reverentemente. '
Contudo algumas dúvidas provávelmente ainda afloram
ao espirito do estudioso, dúvidas que deveráo ser elucidadas
ñas nossas

3. Considerares fináis

Talvez cause espanto ou decepcáo o fato de que a Reli-


giáo na pré-história se manifesté sob formas táo grosseiras
(magia, possível canibalismo, totemismo, etc.).
Para esclarecer tal fenómeno, lembraremos o que a prin
cipio observamos: o testemunho da pré-história é assaz lacó
nico, pois é testemunho morto, fossilizado, e representado
apenas por documentos tardíos. Sendo assim, concordam os
estudiosos em afirmar que os resultados da pré-história tém
que ser completados e interpretados pelos da Etnología (cien
cia que estuda os povos mais primitivos hoje existentes, povos
que parecem representar de perto as primeiras formas da cul
tura humana: pigmeus, certos indios, esquimos...).

«Para atingir o passado longinquo, nao nos podemos dirigir k


ciencia da pré-história se nao em medida multo limitada ; e, quando
a ciencia da pré-história encontra algum documento, ela só o pode
interpretar apelando para a Etnología» (Brillant-Aigrain, Histoire des
Religions V. Paris pág. 348).

Ora os etnólogos chegaram em nossos dias á conclusáo


de que a religiáo dos primeiros homens nao era fetichista, nem
totemista nem politeísta, mas consistía no culto do «Supremo
Ser», também chamado «o Deus do Céu», «Nosso Pab, Autor
do mundo e dos homens, tutor da leí moral e distribuidor da
justa sangáo para cada criatura. — Sobre éste testemunho
da etnología, já dissertamos em «P.R.» 19/1959, qu. 1; aquí
limitar-nos-emos, por conseguinte, a citar apenas o segumte
depoimento, colhido pelo explorador Martín Gusinde em 1920
dos labios de um velho indio chamado Tenenesk, da tribo dos
Selk'nam, na Térra do Fogo :

— 100 —
A RELIGIAO NA PRÉ-HISTÓRIA

«Antes de todos os antepassados existia Temaukel; é anterior


a todos os howenk (seres maravilhosos) e a todos os tehon (homens).
Só mais tarde é que veio Kenosh <o primeiro homem);-antes, porém,
já existia file (Temaukel).
Temaukeu é kashpi (espirito), mas nao é homem; nao tem corpo.
Fez o primeiro firmamento e a térra primordial; mas nunca
veio á térra. Kenosh (o primeiro homem) foi por Ele enviado a térra.
Ele mesmo fica longe, por detrás das estrélas; é lá que mora, lá é
que permanece sempre. Desde os tempos antigos Ele existe.
Aquéle que está no Alto (= Ele lá em cima) sabe o que acontece
aquí; vé todos os Selk'nam. De vez em quando, Ele castiga os ho
mens ; entSo morre alguém. Os Selk'nam choram e se queixam;
dizem: (Tu que estás lá no Alto, mataste tal ou tal dentre nos!' O
kashpi (espirito) do morto vai ter com Ele lá em cima; lá perma
nece e nao volta mais cá.
Mas Temaukel é mais forte do que todos os homens; o que file
manda, devemos executá-lo, pois é o Senhor de todos. Se assim nao
fizermos, file castigará e de novo alguém morrerá. Aquéle, porém,
que habita no céu jamáis morrerá; é kashpi (espirito), existe sem
pre» (Die Feuerlandindianer I 506).

Éste texto, em estilo muito simples, refere verdades pro


fundas, que constituem o patrimonio filosófico-religioso da
humanidade da primeira hora: existe um só Deus, diferente
do mundo e do homem, Autor do universo, providente para
com todas as criaturas e esteio da ordem moral. Foi dentro
desta perspectiva que se orientou a alma religiosa do homem
primitivo.
O fato de que a pré-história nos transmita manifestacóes
religiosas de índole grosseira, se explica muito bem nos ter
mos seguintes: é crenca, igualmente comum entre os povos
antigos e corroborada pela Revelacáo judaico-cristá, que os
primeiros homens nao se mantiveram na ordem de coisas ou
na harmonía inicial: abusando de seu livre arbitrio, revolta-
ram-se contra Deus, procurando ser auto-suficientes ; em con-
seqüéncia, a sua inteligencia se embotou frente aos valores
invisíveis, tendendo sempre a desfigurar os conceitos de «Su
premo Ser» e «Criador» ; daí as formas de religiosidade deca
dente que a pré-história e a historia dos povos pagaos nos dáo
sobejamente a conhecer. Por conseguinte, magia, totemismo,
canibalismo, etc. estáo longe de ser expressóes religiosas da
primeira hora; vém a ser, antes, aspectos do senso religioso
da alma humana, senso religioso que é espontáneo e inelutá-
vel, mas nao foi sempre devidamente orientado por lhe falta-
rem as luzes de urna inteligencia aberta para as coisas de Deus.
O homem da pré-história ao menos guardou sempre a
consciéncia do misterio... e orou, diferenciando-se assim de
qualquer outro ser vivo sobre a térra. Era preciso, porém, que
na época providencial (1.800 a. C.) o próprio Deus se ma-
nifestasse de novo explícitamente as criaturas, representadas

— 101 —
sPERGUNTE E RESPONDEREMOS 39/1961, qu. 2

por Abraáo e sua descendencia, a fim de reerguer a conscién-


cia religiosa da humanidade e restaurá-la na base do mono
teísmo inicial. É precisamente essa revelagáo nova e sobrena
tural do único Deus que dá origem ao Cristianismo (Antigo
e Novo Testamento); é neste, portante, que se dá a manifes-
tacáo auténtica do senso religioso espontáneo de toda a
humanidade.

Sobre a breve duracao da vida do homem pré-histórico e a apa


rente longevidade dos Patriarcas bíblicos, veja-se «P. R.» 17/1959, qu. 5.
Sobre evolucionismo e criacionismo, cf. «P. R.» 29/1960, qu. 1.

n. DOGMÁTICA

OBSERVADOR (Belo Horizonte) :

2) «Porque dizem que, para ser cristao, é preciso per-


tencer á Igreja Católica Apostólica Romana?
Nao pode haver ótimos cristáos que sejam péssimos ca
tólicos ou que nem sequer sejam católicos ?»
Quem hoje em dia analisa a situacSo religiosa da nossa socieda-
de verifica sem diíiculdade o seguinte estado de coisas:
1) Muitas das pessoas que dizem ter ReligiSo, admitem apenas
a existencia de Deus (resta saber se concebem o Senhor Deus de
maneira reta e lógica, como Ser transcendente, Criador e Fim Supre
mo do universo, ou se ilógicamente o identiíicam com a natureza e
o homem).
2) Dentre aqueles que acreditam em Deus, há nao poucos que
aceitam também Jesús Cristo. Verdade é que, enquanto uns O reco-
nhecem como Deus feito homem, outros só véem em Cristo um
Iluminado ou um grande sabio da humanidade.
3) Muitos daqueles que aceitam Deus e o Senhor Jesús Cristo
(mesmo como Deus íeito homem), nao váo além... Rejeitam peremp-
tóiiamente alguma sociedade visível, a Igreja, na qual Deus e Cristo
estejam presentes, dando-lhe o poder das chaves ou urna autoridade
sobrenatural no tocante á salvado dos homens.

Tais pessoas chegam por vézes a negar a necessidade de per-


tencer a alguma sociedade religiosa ; arquitetam urna religiáo pró-
pria ou individual, de acdrdo com seu fervor subjetivo ; sao «franco-
-atiradores» de Deus e de Cristo ou apenas de Deus. Caso nao caiam
nesse negativismo, aceitam a Igreja como algo de relativo, comí»
partido que tenta, ora mais, ora menos acertadamente, cumprir o
programa tragado por Cristo. Tal partido, porém, a ninguém obriga-
ria nem poderia obrigar, em consciéncia. Cada discípulo de Cristo
teria a liberdade de aderir á Igreja tradicional (Católica) ou a urna
das muitas comunidades «reformadas» ou mesmo de criar urna seita
própria segundo sua intuigáo pessoal. O cristáo poderia julgar «a
sua Igreja» e trocá-la por outra, caso ela lhe parecesse nao mais
realizar o ideal de Cristo...
Em suma, far-se-ia com a mensagem de Cristo o que moderna
mente se tem feito com a mensagem de Karl Marx (o arauto do «mes-

— 102 —
ÓTIMO CRISTAO E RÉSSIMO CATÓLICO?

sianismo materialista»): existe o marxismo leninista, o m. trotzkista,


o m. stalinlsta, o m. krutcheviano, o m. do General Tito... ; embora
estas diversas correntes se excluam mutuamente (haja vista o de
gredo de Trotzky, a «destalinizagáo» empreendlda por Krutchev),
nenhuma délas pode pretender ser porta-voz absoluto do pensamento
de Marx ; cada qual representa urna tentativa de realizar o' ideal
marxista. — O mesmo se darla com a Igreja Católica, o Luteranismo,
o Calvinismo, o Presbiterianismo, o Metodismo...; seriam meras es
colas que educam, com maiores ou menores vantagens, os homens
na observancia dos ensinamentos de Cristo; ninguém, porém, juraría
pela santidade de alguma délas.

Ass'.m proposto o problema, pergunta-se: como julgar a posigáo


aparentemente sabia e prudente de tantas pessoas que nao se querem
comprometer com a Igreja, asseverando poder ser perfeitos discípu
los de Cristo sem ser necessáriamente católicos ?

Para responder á questáo, consideraremos sucessivamente os se


gantes pontos: 1) o que a Igreja de Cristo nao é própriamente;
2) o que a Igreja é essencialmente; 3) materializagao grosseira ou
infantilismo primitivo? Ao que se seguirá breve conclusSo.

1. O que a Igreja de Cristo nao é própriamente

Removam-se quatro conceitos inadequados :

1) A Igreja de Cristo na térra nao é apenas urna socie-


dade de santos.

O Senhor Jesús no Evangelho o inculcou repetidamente,


comparando a sua Igreja a um campo no qual, por designio
mesmo de Deus, háo de existir, lado a lado, até o fim do
mundo, a erva boa ou o trigo e a erva má ou o joio (cf. Mt
13,24-30. 36-43). Comparou também a Igreja a urna rede
para onde convergem peixes bons e maus, entre os quais se
fará no fim dos tempos (e sómente no fim dos tempos) a
devida separagáo (cf. Mt 13,47-50). Mais ainda: Jesús con-
frontou a sua Igreja com urna sala do festim nupcial, onde,
ao lado de muitos convivas dignos, se acha quem nao tenha
a devida veste (cf. Mt 22,1-14).

Déstes trechos do S. Evangelho se depreende que falsificarla o


pensamento de Cristo quem pretendesse encontrar na Igreja pere
grina na térra apenas membros santos e exemplares de virtude. A
ninguém é licito apregoar um conceito de Igreja «santa» como o
bom senso humano julga que Ela deva ser santa, independentemente
da maneira como Jesús a concebeu. O Senhor, melhor do que os
homens, sabe e pode garantir a santidade da sua Igreja: ...como
se verá explícitamente adiante, embora Ela (por admirável condes
cendencia divina) inclua em seu seio membros pecadores, a Igreja
como tal nao é contaminada nem desvirtuada pelas faltas de seus
íilhos ; antes, é a primeira a repudiá-las.

— 103 —
«PERGUNTE E RESPONDEREMOS 39/1961, qu. 2

2) A Igreja de Cristo nao é urna sociedade meramente


invisível ou espiritual.

Justamente por averiguaren! a existencia de pecadores


dentro da Igreja, alguns mestres cristáos no decorrer dos
sáculos quiseram asseverar que a verdadeira Igreja só subsista
nos justos e santos. Dessa tese fácilmente ainda deduziam a
seguinte conclusáo : a organizacáo visível e jurídica necessária
a qualquer forma de govérno humano seria algo de estranho
á esséncia da Igreja.
Na verdade, tais sentencas nao corresponden! ao autén
tico designio de Deus. — Porque nao ? — O misterio da En-
carnagáo é central no plano do Pai. Em conseqüéncia, todos
os caminhos normáis de Deus ao homem e do homem a Deus
refletem de algum modo ésse misterio; sao caminhos assina-
lados por notas sensíveis e objetivas, nunca reduzidos ao foro
meramente interno da consciéncia ou ao plano puramente
espiritual. A Igreja do séc. XX deve-se achar em linha de
continuidade visível com a Igreja dos Apostólos e dos primei-
ros discípulos, continuidade tomada visível por determinada
organizagáo externa, determinados ritos, determinadas leis, etc.

Como reconhece o exegeta protestante Armitage Robinson, a


idéia de que possa haver muitas sociedades cristas jurídicamente in-
dependentes urnas das outras, unidas entre si por um vínculo mera
mente espiritual ou pela «unidade do espirito» apenas, é «totalmente
estranha ao pensamento de S. Paulo» (cí. Ephesians, 2* ed. pág. 93).
Onde há urna alma ou espirito sobre a térra, há normalmente um
corpo, e um só corpo. Querer dissociar o Espirito e o Corpo da
Igreja equivale a tentar separar o que Deus uniu.
É o que Pió XII oportunamente lembrava nos seguintes termos :
«Afasta^se da verdade divina quem imagina urna Igreja que nao
se possa ver nem apalpar, Igreja que seja meramente espiritual, na
qual as numerosas comunidades cristas, se bem que divididas entre
si pela fé, estariam nao obstante unidas por um liame invisível»
(ene. «Mystici Corporis Christi», de 29/VI/43).

3) A Igreja de Cristo nao é própriamente urna sociedade


de beneficencia temporal ou corpórea.

Nao há dúvida, o Senhor Jesús incutiu a prática das obras


de caridade corporal como «dar de comer a quem tem fdme,
vestir os ñus, tratar dos doentes, visitar os encarcerados...»
(cf. Mt 25,31-46). Aos cristáos e as autoridades eclesiásticas
incumbe certamente a obrigagáo de atender a tais tarefas.
Contudo a missáo da Igreja nao se define cabalmente por essas
atividades; a beneficencia corporal, segundo a concepgáo
crista, visa antes do mais criar um ambiente dentro do qual

— 104 —
ÓTIMO CRISTAO E PÉSSIMO CATÓLICO?

a beneficencia espiritual ou a cura de almas seja desenvolvida


de maneira mate fácil e normal. Pode haver, porém, a plena
realizagáo da missáo da Igreja (que é levar as almas a Deus)
sem que naja necessáriamente extingáo da miseria corporal;
a cruz, alias, é fecundo canal de santificado, que o Pai do Céu
nao costuma subtrair as almas. Por isto declarava Jesús:
«Os pobres, sempre os tereis convosco» (Mt 26,11), fazendo
eco, de resto, a urna predigáo do Antigo Testamento : «Nunca
faltaráo pobres nesta térra» (Dt 15,11).

4) A Igreja nao é mera escola de sabedoria.

Poder-se-ia aínda apreciar a Igreja por quanto Ela reali-


zou em prol dos estudos e da cultura através dos sáculos ; os
seus grandes Doutores, sem plano preconcebido, se tornaram
os guardas de urna filosofía dita «perene», a qual nao é senáo
a filosofía grega cultivada por Platáo e Aristóteles, e mais
tarde burilada por S. Tomaz e os escolásticos. Foram qs mon-
ges que salvaram da ruina no fim da Idade Antiga os tesouros
literarios e jurídicos do Imperio Romano.
Contudo enganar-se-ia quem quisesse estimar a Igreja
como portadora de mensagem apenas para a inteligencia hu
mana. Incontestavelmente, Ela muito valoriza o estudo. Nao
pode, porém, ser equiparada a alguma das escolas de filosofía
déste mundo; a sua missáo nao é própriamente a de guardar
e transmitir civilizacáo. O Apostólo S. Paulo faz mesmo ques-
táo de realgar um certo contraste com a inteligencia que está
ñas origens da historia da Igreja :

«Na verdade, a doutrina da cruz é Insensatez para os que se


perdem, mas para nos, que somos salvos, é fórca de Deus. Pois
está escrito: 'Destruirei a sabedoria dos sabios, e aniquilarei a
ciencia dos doutos1 (Is 19,14). Onde está o sabio ? Onde o doutor ?
Onde o argumentador déste século ? Deus, porventura, nao demons-
trou ser insentata a sabedoria déste mundo? Pois, desde que o mundo,
por meio de sua sabedoria, nao conheceu a Deus na sabedoria de
Deus, aprouve a Deus salvar os crentes por meio da loucura da pre-
gagáo. Ao passo que os judeus exigem milagres e os gregos andam
em busca de sabedoria, nos, da nossa parte, pregamos Cristo crucifi
cado, o que é escándalo para os judeus e loucura para os gentíos.
Para aqueles, porém, que íoram chamados — tanto judeus quanto
gregos — é o Cristo, poder de Deus e sabedoria de Deus. Pois o
que é considerado loucura de Deus é mais sabio do que os homens,
e o que é considerado íraqueza de Deus é mais forte do que os
homens» (1 Cor 1, 18-25).

Em conclusáo: embora a Igreja brilhe no mundo pelo


cultivo da verdade (e brilha a éste título como nenhuma ou-
tra sociedade), Ela pode apresentar aspectos que desconcertem

— 105 —
«PERGUNTE E RESPONDEREMOS 39/1961, qu. 2

o observador imbuido do ideal de urna sabedoria meramente


humana ou filosófica.
Propostas estas observacóes de índole negativa, faz-se mis-
ter agora considerar

2. O que a Igreja é essencialmente

Os escritos do Novo Testamento apresentam a Igreja


através de duas imagens : a do Corpo, em que Cristo é Ca-
bega e os cristáos sao membros (imagem paulina ; cf. 1 Cor
12) ; a da Videira, da qual Cristo é tronco e os fiéis sao
ramos (imagem joanéia ; cf. Jo 15).
Estas duas metáforas dáo a ver algo de novo em con
fronto com as nogóes que acabamos de analisar: a Igreja é
urna entidade viva, e nao urna instituigáo inanimada. Como
Corpo de Cristo, Ela continua, do seu modo, o misterio da
Encarnacáo ou, em outros termos, é como que a Encarnagáo
prolongada do Filho de Deus, a fim de comunicar a vida de
Cristo a todos os homens.

Urna íigura ilustra o que dizemos: tenha-se em mente um


seixo atirado num lago ; depois de percorrer a trajetória no ar,
ésse pedregulho subtrai a sua presenta vislvel ao observador, mer-
gulhando nagua; mas, justamente ao desaparecer, desencadeia na
bacia liquida urna serie de circuios concéntricos, cada um dos quais
é portador do dinamismo mesmo ou da «vida» do pedregulho; é a
fórca motriz do seixo que prolonga a sua presenta em cada um dos
círculos concéntricos até os confins das aguas. Ora algo de seme-
Ihante se deu com Cristo : depois de percorrer seu currículo de vida
humana na Palestina, subtraiu sua presenca sensivel aos homens;
mas subtraiu-a justamente para poder prolongar a sua eficacia ou
prolongar-se misteriosamente (místicamente) até o fim dos séculos.
Ele está presente em cada círculo concéntrico que d'Éle se deriva,
ou seja, em cada geragáo de discípulos que O aceitam através dos
séculos. É a vida do Cristo ou o próprio Cristo que vamos encontrar
nessa sociedade de discípulos, de sorte que a última onda concéntrica
da longa serie vem a ser, por assim dizer, a última face ou a face
atual contemporánea do Filho de Deus. Se, portante, alguém deseja
encontrar o Cristo no séc. XX, basta-lhe procurar a linhagem de
discípulos do Cristo que, sem hiato nem reforma, retrocede em con-
tinuidade inipterrupta até os Apostólos e até Cristo. E essa linhagem s
é una e única : é a Igreja Católica (porque universal), Apostólica
(porque se liga diretamente aos Apostólos), também dita Romana.

E porque... Romana ?
Éste título nada tem que ver com nacionalismo ou rela
tivismo. Para entendé-lo, leve-se em conta que já o Filho de
Deus, vivendo vis'.velmente aqui na térra, nao podia deixar,
de ter urna cidadania terrestre ou humana ; Ele foi dito
«Jesús de Nazaré» ou «o Nazareno», filho de tal familia e tal

— 106 —
6TIMO CRISTAO E PÉSSIMO CATÓLICO?

povo, domiciliado em tal localidade, embora a personalidade


íntima de Jesús transcendesse todos os espagos geográficos e
abragasse o mundo inteiro. Assim é a Igreja de Cristo: ca
tólica ou universal, transcendendo os particularismos de povos
e regióes, Ela, nao obstante, tem urna «carteira de identidades»
humana, já que Ela toma contato com o mundo por meio de
homens ; o tituló" da Igreja correspondente ao título «Naza
reno» de Jesús é o apelativo de «Romana» ; ... Romana, por
que o Vigário visível de Cristo na térra é sucessor de Sao
Pedro, Apostólo que morreu em Roma como bispo de Roma.
A designagáo de «Igreja Romana», portante, nao exprime se-
náo mais urna faceta do misterio da Encarnagáo do Filho de
Deus. Nao há Igreja de Cristo que nao seja a Igreja Católica
Apostólica Romana, como nao houve Jesús aqui na térra que
nao fósse Jesús o Nazareno. Cf. «P.R.» 14/1959, qu. 2 e 3.
Destas consideragóes se depreende outrossim que é im-
possível aderir a Cristo sem aderir á Igreja de Cristo que, pelo
motivo indicado, é dita «Igreja Romana». Separar consciente
mente (nao falamos dos casos de ignorancia ou de consciéncia
pouco esclarecida) a tríade «Deus — Cristo — a Igreja» vem
a ser, em última análise, o mesmo que renegar o próprio Deus,
pois nao há outro Deus senáo Aquéle que se manifestou por
Cristo e continua a se comunicar pelo Corpo Místico de Cristo
ou pela Igreja. Esta, longe de ser um intermediario contin
gente e supérfluo entre Deus Pai e os homens, deve ser tida
como o ámbito ou o Corpo no qual o Senhor Deus em nossos
días se dá a conhecer as criaturas.

Sao Tomaz exprimiu concisamente estas idéias nos dois textos


abaixo transcritos :
«Aqueles que estáo na Igreja, nao recebem a doutrina nem dos
Apostólos nem dos Profetas, mas de Deus mesmo ; e, segundo S.
Agostinho, o próprio lato de que os fiéis aprendem por meio de
homens deve-se a Deus, que ensina no interior dos coracSes. 'Um
só é o vosso Mestre : Cristo'» (In lo 6, lect. 5).
Com estes dizeres o S. Doutor nao nega a fungáo dos pregadores
(Profetas) e da hierarquia visível da Igreja (Apostólos), mas sa-
lienta a índole transparente que a íace humana da Esposa de Cristo
deve ter para os seus observadores: é Deus mesmo quem fala
quando a Igreja se pronuncia oficialmente; embora se sirva de
órgaos humanos para se dirigir aos homens, o Altissimo e sua ver-
dade nao sofrem desvirtuamento; embora haja muitos arautos da
Palavra de Deus na Igreja, éles nao sao senáo porta-vozes do
único Mestre, Cristo, desde que ensinem a doutrina da Igreja.

O segundo texto de S. Tomaz que imparta aqui citar, desperta


na memoria do leitor a imagem dos circuios concéntricos. Com efeito,
referindo^se a 1 Cor 4,15s, trecho em que S. Paulo exorta os fiéis a
imitarem o Apostólo, pai espiritual da comunidade, observa o
Angélico:

— 107 —
«PERGUNTE E RESPONDEREMOS 39/1961, qu. 2

«Os fiéis haviam de imitar a Paulo na medida mesma em que


Paulo imitava a Cristo, o qual (como Homem modelo) é de todos
o Pai por excelencia» (In 1 Cor c. 4, lect. 3,2,2).
Por sua vez, éste texto incute o fato de que na Igreja os moldes
é as estruturas oficiáis encerram e comunicam o Divino, sem o
contaminar: urna só paternidade, a de Cristo, passa por cañáis
varios, até atingir cada um dos fiéis que em Cristo renascem pelo
sacramento do Batismo, no séc. II, como no séc. X, como no séc. XX...
É realmente o misterio da Encarnacáo que assim prolonga seus
efeitos.
A esta altura, porém, talvez vá tomando vulto na mente do leitor
urna dificuldade, para a qual havemos de voltar a nossa atencáo.

3. Materializa$ao grosseira ou infantilismo primitivo ?

1. A muitos pensadores, antigos e modernos, causou estranheza


a acentuacáo do «material» ou do «concreto» que caracteriza o Cris
tianismo. A estima que o cristáo atribuí aos sinais sensíveis, parece
constituir um resquicio de mentalidade primitiva: é geralmente o ho
mem de caráter infantil que recorre a manifestacoes externas na sua
prática religiosa; k medida, porém, que alguém se aproxima da matu-
ridade espiritual, mais e mais se emancipa de moldes sensíveis; a
religiáo, dizem, tende entáo a tornar-se meramente espiritual, á se-
melhanga da de tantos filósofos modernos.
Esta tese, por muito capciosa que seja, fica totalmente alheia á
mensagem do Evangelho; na verdade, o Criador é o Autor nao só-
mente dos espiritos, mas também da materia; criando a esta, file lhe
quis assinalar um papel, e papel grandioso, na santificacáo das almas
e na glorificacáo do Senhor Deus.

2. Em vez de desenvolver consideragóes teóricas sobre


o assunto, ilustramo-lo por dois fatos históricos de grande
significado.
O primeiro é relatado por S.
Agostinho (Confissóes VIH
2, 3s). Nos séc. IV e V, em torno
de Agostinho vivia um cír
culo de estudiosos que, passando
por diversas escolas, esta-
vam, como o Hiponense, á procura da verdade. Entre éles,
destacava-se um filósofo neo-platónico chamado Mario Vito
rino, o qual, imbuido de todas as disciplinas liberáis da sua
época, era o mestre acatado de numerosos e nobres senadores
romanos ; a sua estatua fóra mesmo erguida no Foro de\
Roma. Pois bem; vivendo fora do Cristianismo, Mario Vito
rino (como refere Agostinho) lia com atengáo as Escrituras
Sagradas e os respectivos comentarios. Um belo dia, chegou-se
a Simpliciano, um dos cristáos do círculo, e lhe disse secreta
mente : «Sabes que agora sou cristáo ?» Replicou Simpli
ciano : «Nao acredito; nao te considerarei cristáo, enquanto
nao te vir na igreja de Cristo». Ao que Vitorino respondeu-
com sorriso sarcástico : «Entáo sao as paredes que fazem o
cristáo ?» Daquele momento em diante o filósofo afirmava

— 108 —
6TIMO CRISTAO E PÉSSIMO CATÓLICO?

insistentemente que era cristáo; Simpliciano, porém, lhe opu-


nha sempre a mesma resposta, diante da qual Vitorino repetía
sua pergunta irónica... Entrementes Vitorino continuava ávi
damente a ler escritos cristáos, até que um dia concebeu firme
resolugáo... : «acabara percebendo que se tornaría réu de
verdadeiro crime, se se quisesse envergonhar dos misterios
instituidos peló teu Verbo (ó Pai) nos dias da sua humilhagao
(... da sua vida terrestre)». Sem demora, entáo, foi dizer a
Simpliciano : «Vamos á igreja ; quero tornar-me cristáo». Nao
se contendo de alegría, Simpliciano acompanhou-o inconti
nenti. Assim Mario Vitorino, o grande filósofo, comecou a
percorrer as humildes etapas da catequese crista, e finalmente
alistou-se entre os candidatos ao sacramento do Batismo.
«Roma, diante disto, encheu-se de admirado ; e a Igreja,
de alegría», concluí Agostinho.
Tal episodio é típico, pois de certo modo se repete até
os nossos dias. Sem dúvida, nao sao as paredes de um templo
de pedras que fazem o cristáo; Mario Vitorino bem o perce-
bera; aos poucos, porém, mediante reflexáo sincera, desven-
dou o nexo indissolúvel que une o Verbo Encamado e a Igreja
(a Igreja, com seus templos e suas agóes sagradas, localizadas
no tempo e no espago). E rendeu-se a ésse nexo, tomando
consciéncia de que, para ser discípulo de Cristo, nao podia
deixar de ser humilde como o Verbo Encarnado foi humilde;
nao podia envergonhar-se da face sensível do Cristo em seu
Corpo Místico, nao podia recusar os sacramentos instituidos
pelo Verbo Encarnado «nos dias da sua humildade»... — Pro
funda sabedoria! A experiencia de Mario Vitorino e sua con-
clusáo encerram válida mensagem também para o «sabio»
do séc. XX.

Outro episodio digno de nota a éste propósito é o que se deu


com John Henry, Cardeal Newman (1801-1890). Pertencente á co-
munhao anglicana, Newman, pelos estudos que íéz sobre a historia
do Cristianismo, chegou por volta de 1845 á evidencia de que o Angli-
canismo representa (como ele mesmo dizia) um cisma, enquanto a
Igreja de Cristo, ininterruptamente ligada ao Senhor e aos Apos
tólos através dos séculos, é a que tem seu cheíe visivel em Roma
(Igreja Romana). Muito lhe custava, porém, do ponto de vista
humano, deixar o Anglicanismo para aderir a Roma: com eíeito,
desde 1799 se apregoava a morte do último Papa; Pió VII íóra
duramente maltratado e humilhado por Napoleáo Bonaparte; o
racionalismo e o materialismo pretendiam solapar os fundamentos
da íé, ¿ridicularizando a autoridade de Roma Na Inglaterra em par
ticular, ser católico significava pertencer a u'a minoría desprezada,
a qual só recentemente haviam sido restituidos os direitos civis mais
rudimentares... Newman mesmo confessava nao experimentar atra-
tivo algum para com os fiéis de Roma. Nao obstante, deu o passo e,
sacrificando antigos hábitos, relagoes sociais e vantagens temporais,

— 109 —
«PERGUNTE E RESPONDEREMOS 39/1961, qu. 2

aceitou em plenitude o misterio do Verbo Encarnado ou do Verbo


«humilde» no seu único Carpo Místico ou na sua Igreja. Por muito
que haja sofrido em conseqüéncia de tal gesto, Newman nunca o
lamentou.

3. De resto, o menosprézo que o «bom senso dos sabios» dedica


& face humana da Igreja nao é senáo a continuacáo do menosprézo
ou do escándalo que muitos conceberam outrora em presencá do
Filho de Deus feito homem na Palestina. Jesús mesmo notava que,
em virtude do misterio da Encarnagao, É!e era apto a suscitar nao
somente admiragáo e entusiasmo, mas também embarago e perple-
xidade. Com efeito, solicitado a declarar se era o Messias, o Senhor
apontou, de um lado, evidentes sinais da sua Divindade; predisse,
porém, outrossim a sua aniquilacao «escandalosa» por ocasiáo da
crucifixáo, quando O haveriam de desafiar a salvar a Si mesmo,
dspois de haver salvo a tantos infeüzes:

«Joao, que se encontrava no cárcere, ao ter noticia das obras de


Cristo, mandou perguntar-Lhe por intermedio de seus discípulos :
'És o que há de vir ou devemos esperar outro ?'.
Jesús respondeu-lhes : 'Ide e contai a Joao o que ouvis e vedes :
os cegos véem, os coxos andam, os leprosas sSo curados, os surdos
ouvem, os mortos ressuscitam, os pobres sao evangelizados. Bem-
-aventurado, porém, aquéle que nao se escandalizar a meu respeito'»
(Mt 11, 2-6).

Se a humanidade de Cristo pode outrora na Palestina produzir


surprésa ou escándalo, embora íósse isenta de pecado, nao é para es-
tranhar que o Corpo Místico de Cristo ou a Santa Igreja (a qual
carece de toda mancha e ruga ; cf. Ef 5, 27) possa também causar
perplexidade a quem a considere superficialmente. «Bem-aventurado.
porém, aquéle que nao se desconserta diante de tais aspectos do
misterio da Encarnagao», proclama o Senhor Jesús. É justamente
na fraqueza e pela fraqueza do homem que se manifesta a fdrga de
Deus, observa Sao Paulo (cf. 2 Cor 12, 9s). Por isto a Santa Igreja
nao se surpreende com as deficiencias de seus filhos; Ela as verifica
serenamente, condena-as na medida em que devem ser condenadas ;
sabe, porém, que de modo nenhum entravam o plano de Deus.a se
realizar pela Igreja mesma; em conseqüéncia, Ela continua a anun
ciar ao mundo a Boa Nova da Redencño pela Encarnacáo e pelos
sacramentos (a agua do Batismo, o pao e o vinho da Eucaristía, o
óleo da Crisma, a absolvicáo sacramental, etc.). Tenha-se por
certo, alias, que nenhum dos membros da Igreja, nem mesmo os
mais elevados na hierarquia, se identifica integralmente com a
Igreja; na medida em que o homem velho e a desordem original
subsistem em cada cristáo, nessa medida mesma ele deixa de ser
Igreja, para ser térra paga, tetra a ser ainda conquistada para o
Evangelho e o Cristo ; assim vé-se que a linha de demarcacao entre
«Igreja» e «Náo-Igreja» passa pelo íntimo mesmo da alma de cada
fiel católico. — Quanto é importante ter-se clara consciéncia disto !

3. Conclusao

1. As consideracóes até aqui propostas visavam todas


evidenciar a impossibilidade de ser alguém «perfeito cristáo»
e «péssimo católico» ou mesmo «náo-católico».

— 110 —
ÓTIMO CRISTAO E PÉSSIMO CATÓLICO?

Sao inseparáveis entre si Cristo e a Igreja (aquela única


Igreja que hoje em dia se liga a Jesús e aos Apostólos sem
interrupgáo através da historia, Igreja dita «Romana» como
Jesús foi dito «Nazareno»).
Em conseqüéncia, só resta urna atitude lógica para todo
discípulo de Cristo: a de pulsar com a Igreja («sentiré cum
Ecclesia»), abracar as grandes intengóes da Esposa de Cristo
na hora presente e no mundo inteiro. Qualquer tentativa de
crítica aos aspectos humanos da Igreja é algo de váo e he
diondo por dois motivos principáis :

a) as críticas que alguém pretende dirigir á Igreja, na verdade


nao a atingem, mas aíetam apenas «o velho homem» ou «o reino
do pecado» existente nos filhos da Igreja, reino do pecado com o
qual a Igreja nao se identifica. Apesar dos erros que possam cometer
seus filhos (mesmo membros do clero), a Igreja conserva seu poder
de santificar, desde que nela cada um procure o que Ela mesma diz
ser essencial, e nao fique preso a coisas acidentais. Em última aná-
lise, as críticas feitas á Igreja recaem sdbre o próprio autor da crí
tica, pois éste certamente participa da natureza do velho homem que
ele incrimina no próximo.
b) A um católico em particular dir-se-á : nao há bom f ilho
que se detenha voluntariamente em criticar sua máe. É mesmo im-
possível a um católico considerar a Igreja qual mero observador
(a Igreja nao sao simplesmente «éles, os padres ou os outros», mas
a Igreja sou «eu>, pois Ela tem assento diretamente em mim, pensa
o verdadeiro discípulo de Cristo), como seria impossivel ao membro
de um organismo julgar a doenca de outros membros sem se sentir
envolvido na situacao.

2. Em vez de condenar e esmagar, cada verdadeiro ca


tólico procura carregar as fraquezas do próximo, consciente
de que nisto há grande proveito mesmo para quem carrega;
com efeito, sao muito verídicas as palavras de Sao Gregorio
Magno: «Qui portat alterum, portatur ab altero. — Quem
carrega o próximo, é carregado pelo próximo» (In Ez n 1).
Nao há individuo táo perfeito que nao possa receber, como
nao há táo imperfeito que nao possa dar. Para o cristáo, nao
existe individualismo religioso (no sentido de separatismo).
No plano de Deus, todos sao chamados a se santificar em
comunháo visível com a Igreja (fora naturalmente casos ex-
cecionais de boa fé pouco esclarecida).

Na perspectiva do próximo Concilio Ecuménico, o Santo Padre


exorta insistentemente os fiéis a um exame de si mesmos e a tomada
de consciéncia da responsabilidade que a cada um incumbe, a fim
de criar na Santa Igreja um ambiente cristáo muito puro e denso,
ambiente que mostré vivamente aos irmáos separados a verdadeira
face da Igreja de Cristo.
A cada fiel católico compete responder a ésse apelo ; cada qual
procurará, pois, construir o Corpo Místico, se nao por suas palavxas

— 111 —
«PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 39/1961. qu. 3

e atividades (o que nao é o dom de todos), certamente por sua pre


senta perseverante e fiel no lugar que Deus lhe assinalou dentro
da Santa Igreja.

m. LITURGIA

MILTON (Fortaleza) :

3) «Porque a Semana Santa muda de data todos os


anos, ao passo que outras celebracóes litúrgicas ocorrem em
época fixa ?»

A mudanca de data da Semana Santa se deve ao íato de que os


cristáos nao consideram a morte e a ressurreigáo do Senhor apenas
como acontecimentos históricos, ocorridos em tal dia de tal mes do
inicio da nossa era... Predomina, antes, na consideracáo crista a
idéia de que a morte e a ressurreigao de Cristo sao o cumprimento
de promessas feitas aos Patriarcas no Antigo Testamento e a con-
sumacáo (o antítipo) de tipos instituidos pela legislacáo de Moisés;
em urna palavra:... sao a Páscoa antiga levada á sua plenitude de
significado. Daí se compreende, seja a Páscoa crista (a Páscoa em
sentido pleno) celebrada segundo o calendario que norteava a cele-
bracáo da Páscoa do Antigo Testamento.
Qual, portanto, terá sido o calendario vigente entre os israelitas?
É o que vamos focalizar primeiramente, em nossa resposta. A
seguir, deter-nos-emos sobre o modo como os cristáos, herdeiros da
tradicáo anterior, resolveram algumas questaes concernentes á mesma
nos primeiros séculos. Breve reílexáo pora termo ao artigo.

1. Páscoa no calendario judaico

A festa de Páscoa foi instituida por Moisés, a mando


do Senhor, com o fito de comemorar anualmente a libertagáó
do povo de Deus detido sob o cativeiro egipcio.
Ora éste acontecimento da historia de Israel se deu na
primavera, provávelmente do ano de 1240 a.C. Por conse-
guinte, o Senhor, conforme Éx 12,ls, mandou que o primeiro
mes da primavera fósse doravante tido como primeiro mes
do ano israelita; era chamado mes de Abhib (das espigas; cf.
Éx 13,4 ; Dt 16,1), nome que após o exilio de Israel (séc. VI
a.C.) cedeu ao apelativo caldeu Nisá. Ésse mes inicial do
ano israelita correspondía ao nosso período de margo-abril
(posto que a primavera se abre, conforme o cálculo comum,
a 21 de marco).
O mes israelita era lunar (29 dias, 12 horas e 44 minu
tos) ; os judeus davam-lhe a duragáo arredondada ora de 29, v
ora de 30 dias. Pois bem; Moisés determinou que a lúa cheia
ocorrente de 14 para 15 de Nisá marcasse a solenidade de
Páscoa: no dia 14 á tardínha, as familias israelitas deveriam

— 112 —
PORQUE VARIA A DATA DE PÁSCOA?

imolar um cordeirinho. Éste lembraria a vitíma cujo sangue


havia definitivamente libertado Israel do poder egipcio ou
do reino da idolatría (cf. Éx 12,13s); serviría, ao mesmo
tempo, para evocar a libertagáo perfeita a ser realizada pelo
Messias na plenitude dos tempos... O consumo désse cordei
rinho se faria segundo um ritual solene na noite de 14 para
15 de Nisá (os israelitas diriam:.. . após as primeiras vés-
peras de 15 de Nisá, pois o dia era contado de por do sol
{=vésperas} a por do sol [=vésperas], nao de meia-noite a
meia-noite). A seguir, o dia 15 de Nisá seria todo dedicado
a um repouso sagrado. Cf. Lev 23,5 ; Núm 28,16.

O nome de Páscoa corresponde ao hebraico pesan, palav.ra que


exprime a idéia de «passar, passar adiante ou passar por cima»,
donde também «poupar» (cf. Éx 12,12. 13. 23.27 ; Is 31,5). Tal de-
signacao se deve provávelmcnte ao fato de que, por ocasiáo da
última e decisiva praga do Egito, o anjo exterminador passou pelas
casas dos israelitas, poupando-<as da marte, por causa do sangue
com que haviam sido assinaladas.
A fim de completar as notas ácima referentes ao calendario ju
daico, poder-se-á acrescentar o seguinte: antes da instituicáo de
Páscoa, quando deudo no Egito, o povo de Israel nao conhecia ano
litúrgico, mas apenas o ano civil ou económico, o qual comecava com
as sementeiras do outono e terminava com a colheita dos últimos
frutos da térra no fim do veráo seguinte. Para facilitar as suas rela-
Cóes com os povos estrangeiros, os filhos de Israel, após o exilio,
adotaram oficialmente, além do ano litúrgico, também o ano civil,
iniciado no primeiro dia do 7' mes (mes de Tishri = setembro).
Para fazer concordar o ano lunar (354 dias) com o solar, os
judeus após o exilio adotaram o costume babilónico de intercalar, de
tres em tres anos aproximadamente, um mes suplementar, o 13*
do ano, mes dito Ve'adhar (= novo Adar).
Em torno de Israel, o povo babilónico comecava a contar o
ano civil a partir da primavera, a o passo que no Egito era a cheia
do Nilo, por cérea de 19 de julho, que inaugurava o ano.
Os hebreus costumavam designar os meses, como também os
dias da semana, simplesmente por números ordinals : «primeiro, se
gundo, terceiro mes» ou «primeira feira, segunda feira, terca fei-
ra...». Ao lado desta designacáo muito difundida, conhecem-se, atra-
vés da S. Escritura, nomes próprios dos meses hebraicos sugeridos
pelo aspecto peculiar das diversas estacóes do ano : Abhib (o 1*),
Ziv (o 2«), Ethamin (o 7«), Bul (o 8») ; cf. Éx 13,4 ; 3 Rs 6,1.3.8; 8,2.
Após o exilio, Israel adotou outrossim a tabela de nomes usuais
na Babilonia:. NisS (marco-abril), Ijjar (abril-maio), Siva (maio-
junho), Tammuz (junho-julho), Abh (julho-agósto), Elul (agósto-
-setembro), Tishri (setembro-outubro), Mafheshvá (outubro-novem-
bro), KÍslev (novembro-dezembro), Tebeth (dezembro-janeiro), She-
bat (janeiro-fevereiro), Adhar (fevereiro-marco).
O inicio de cada mes dependia naturalmente da ocurrencia da lúa
nova. Ora tal ocorréncia, entre os israelitas, nao era averiguada por
meio de cálculos de astronomía precisos, mas por processos rudimen-
tares de observacáo da abobada celeste. Quando esta se mostrava
nublada, os cálculos se tornavam dificéis e precarios. Dai resultaram

— 113 —
«PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 39/1961, qu. 3

freqüentemente incertezas e vacilacSes na marcacáo dos dias e meses,


ou seja, na confecgáo do calendario em Israel.

Após estas observagóes sobre a Páscoa e o calendario ju


daicos, voltemo-nos para a Páscoa crista.

2. Páscoa no calendario dos cristáos.


Os Quartodecimanos.

1. Os escritores do Novo Testamento (Evangelistas e


Sao Paulo) dáo a ver que o Senhor Jesús, padecendo e mor-
rendo na cruz, se quis substituir ao antigo cordeiro pascoal
dos judeus, tornando-se a verdadeira Vítima que liberta, isto
é, que expia todos os pecados do mundo e merece para o
género humano a reconciliagáo com Deus Pai.

S. Mateus (26,26-29), S. Marcos (14,22-25), S. Lucas (22,14-20)


e S. Paulo (1 Cor 11,23-25) maniíestam esta intencáo de Cristo quando
O mostram, na última ceia, a celebrar o ritual da Páscoa judaica: o
Senhor Jesús entao, em vez de apresentar aos discípulos o cordeiri-
nho habitual, que preíigurava a Redencao a ser obtida nos dias do
Messias, apresentou o seu próprio corpo e o seu próprio sangue como
elementos que preenchiam a luncáo simbolizada pelo cordeiro, isto é,
que mereciam em favor do género humano a libertacáo do jugo
do pecado e de Satanaz: «Isto é meu corpo, que será entregue
por vos... Isto é meu sangue, o sangue da Alianca que será derra
mado... em remissáo dos pecados». — Assim a Páscoa antiga desa-
hrochava naturalmente na Páscoa nova e consumada. Tal é a men-
sagem dos tres primeiros Evangelhos e de S. Paulo.
Quanto a S. Joáo, no seu Evangelho, ele, por outra via, comunica
ao leitor a mesma «Boa Nova». Sim; conforme o quarto Evangelista,
Cristo morreu crucificado ás 3 horas da tarde de 14 de Nisa, justa
mente quando os israelitas no Templo imolavam o cordeirinho da
Antiga Lei para comer a Páscoa á noitinha. O mesmo Apostólo faz
outrossim observar que Jesús foi pelos algozes tratado como o cor
deiro pascoal, pois, ao imolá-Lo, nao Lhe quebraram osso algum (cf.
Jo 19, 31-37 e Éx 12,46). Cristo assim tornou-se a verdadeira vítima
de Páscoa, selando a nova e definitiva Alianca de Deus com os ho-
mens. É, alias, o que S. Paulo claramente afirma: «A nossa Páscoa,
Cristo, foi imolada» (1 Cor 5,7).
A respeito da data precisa da morte de Cristo e do duplo calen
dario a que parecem aludir os Evangelistas, veja «P. R.» 15/1959,
qu. 4.

2. Conscientes do significado profundo da morte de


Jesús, os cristáos, desde a primeira geragáo, trataram de a
celebrar anualmente, reproduzindo, enquanto possível, as cir
cunstancias mesmas em que Jesús quisera morrer. Isto quer
dizer, entre outras coisas, que observavam o calendario pres
crito pelo Éxodo para a solenidade de Páscoa ; por conse-
guinte, a Páscoa crista era celebrada por ocasiáo da primeira
lúa cheia da primavera (margo-abril).

— 114 —
PORQUE VARIA A DATA DE PASCOA?

3. Contudo um fenómeno significativo se registrou aos


poucos neste setor da Liturgia.
Em varias regióes da Cristandade, principalmente no
Ocidente, introduziu-se o costume de festejar Páscoa sempre
em dia de domingo, porquanto foi num domingo que o Senhor
Jesús ressuscitoUi adquirindo definitivamente a nossa Reden-
gáo; a Páscoa crista, por conseguinte, era nessas regióes fes
tejada no domingo ¡mediatamente posterior á primeira Iua
cheia da primavera.

No que diz respeito a Roma, por exemplo, sabe-se, pelo teste-


munho de S. Ireneu, que desde o Papa S. Sixto (116-125) Páscoa era
celebrada em domingo (texto na «Historia Eclesiástica» de Eusébio
V 24, 13-15).
Tal praxe podía de certo modo apoiar-se na autoridade do Apos
tólo Sao Paulo, o qual atribuiu especial realce ao dia da ressurreicáo
do Senhor, consagrando-o pela celebracao da Eucaristía (que é o
sacramento de Páscoa por excelencia); cf. 1 Cor 16,2 ; At 20,7.

Na provincia, porém, da Asia Menor proconsular, os cris-


táos preferiram orientar-se estritamente pelo uso antigo:
celebravam Páscoa a 14 de Nisá, independentemente do dia
da semana em que caisse; daí chamarem-se «quartodecima-
nos». Ésses fiéis apelavam para a autoridade do Apostólo
S. Joáo, venerável bispo de Éfeso (Asia Menor) até o fim
da sua vida (cerca do ano 100) : o quarto Evangelho atribuí,
como vimos, importancia particular ao fato de ter Jesús
morrido a 14 de Nisá, quando se imolava o cordeirinho sim
bólico no Templo de Jerusalém.

A diversidade de datas nao era questao apenas de calendario ;


implicava outróssim notável diferenca de ritos : Páscoa vinha a ser,
para os fiéis da Asia proconsular, o dia comemorativo da morte do
Senhor; por conseguinte, jejuavam nesse dia, mesmo que caisse em
domingo ; só rompiam o regime de penitencia á noitinha com a ce
lebracao da Eucaristía e do ágape (ceia fraterna que acompanhava
o sacramento). Ao contrario, os cristáos ocidentais dedicavam a co-
memoracáo da morte e da sepultura do Senhor os dias anteriores á
Páscoa (sexta-feira santa e sábado santo); jejuavam entáo e entre-
gavam-se á penitencia, mas na noite de sábado para domingo (sole-
nidade de Páscoa) realizavam grandiosa vigilia que terminava com
o júbilo da Ressurreicáo.
A dualidade de costumes nao podia deixar de ocasionar situag5es
embaragosas : em Roma, por exemplo, o número de fiéis da Asia
Menor ai residentes nao era pequeño. Seguiam, no tocante á Páscoa,
sua práxe própria ; o bispo de Roma a permitía, mas desejava natu
ralmente reduzi-la á observancia vigente na cidade. O bispo de Es-
mima (Asia Menor) S. Policarpo, já contando seus oitenta anos de
idade, estéve em Roma no ano de 154, sob o pontificado do Papa
Aniceto ; narram as fontes que os dois prelados abordaram o assunto,
sem, porém, chegar á unanimidade; visto que se tratava de diver
gencia meramente litúrgica, e nao dogmática, nfio houve ruptura

— 115 —
tPERGUNTE E RESPONDEREMOS» 39/1961, qu. 3

de comunháo; ao contrario, a paz foi plenamente conservada, e Ani


ceto quis demonstrar a S. Policarpo a sua veneracáo, dando-lhe a
honra de celebrar solenemente a S. Eucaristía (o sacramento da
unidade) em Roma.

Está claro, porém, que nao se poderla manter por muito


tempo a divergencia em um ponto de disciplina táo importante
como era a celebragáo de Páscoa ou do misterio central da
fé crista. A situacáo se tornou particularmente instável quando
na segunda metade do séc. II urna onda de judaizantes (cris-
táos que favoreciam as observancias judaicas na Igreja) se
fez ouvir; ésses pregadores tendiam a explorar o costume
«quartodecimano» a fim de reduzir o misterio da Páscoa crista
aos moldes da antiga Lei de Moisés, pondo assim em perigo
a integridade do dogma da Redencáo por Cristo.
Os judaizantes, chefiados por Blasto, chegaram a pro
vocar um cisma em Roma. Foi o que deu motivo a que o
Papa Vítor I em 190 interviesse enérgicamente : intimou os
bispos de diversas regióes a se reunir em sínodos locáis a fim
de considerarem o assunto controvertido ; o historiador Eu-
sébio de Cesaréia (f 339) atesta que, por efeito de tais assem-
bléias, foram mandadas a Roma cartas dos prelados da Pa
lestina, do Ponto, de Osroene, da Gália, de Corinto e de outras
regióes, os quais unánimemente «decidiram que o misterio da
Ressurreigáo do Salvador seria celebrado em dia de domingo
e que sómente em domingo poriam termo ao jejum de Páscoa»
(Historia Eclesiástica V 23, 2),
Apenas os bispos da Asia Menor continuaram a relutar
contra o uso comum. Diante dessa atitude, cujas conseqüén-
cias podiam ser graves, o Papa Vítor I estéve na iminéncia
de declarar excomungados os quartodecimanos; nao o fez,
provávelmente em vista, de bela carta de S. Ireneu (bispo de
Liáo na Gália, oriundo, porém, da Asia Menor), o qual lem-
brou ao Papa Vítor I que, «se havia diferenga na observancia
do jejum, a fé continuava sendo a mesma» (cf. Eusébio, Hist.
Ecl. V 24 11-18). Em conseqüéncia, nenhuma sangáo foi in
fligida aos quartodecimanos. Aos poucos, estes se renderam
á praxe das demais comunidades fraternas. É o que explica,
seja Páscoa hoje em dia celebrada pelos cristáos no domingo
subseqüente á primeira lúa cheia da primavera (marco-abril).

4. Apenas urna questáozinha no séc. IV havia de ser ulterior


mente debatida. Com eleito, o concilio de Nicéia em 325 já nao discutía
se Páscoa devia ser festejada em dia de domingo ou nao ; mas, su-
pondo a celebracao dominical, tratou de estipular a data do equinócio
da primavera, a partir do qual se deveria contar a primeira lúa cheia.

— 116 —
PORQUE VARIA A DATA DÉ PÁSCOA?

De passagem, diga-se que por «equinócio» se entende o ponto em


que a órbita terrestre cruza o plano do equador, fazendo que o dia
seja de duracao igual á da noite. Admite-se que a térra passe por
tal ponto a 21 de marco (equinócio da primavera, «1* ponto de Aries»
ou «ponto vernal») e a 23 de setembro (equinócio do outono ou «1°
ponto da Libra»).
Já que na computacSo do equinócio da primavera se .registravam
incertezas no séc. IV, o concilio de Nicéia houve por bem adotar a
data de 21 de margo, que era a presumida justamente para o ano
de 325. Tal determinagáo foi corroborada por cálculos posteriores
devidos ao monge Dionisio o Exiguo em 525 ; em conseqüéncia, a
data de Páscoa dos cristáos pode oscilar num período que vai de 22
de margo a 25 de abril: caso naja lúa cheia imediatamente antes
de 21 de margo, é sómente o seguinte plenilunio que marca o dia da
grande solenidade.

3. Reflexáo final

1. Tem-se preconizado nos últimos tempos a fixagáo da


data de Páscoa, á semelhanca do que se deu em remota época
com a data de Natal (embora nao se saiba exatamente qual
o dia em que Cristo nasceu em Belém ; cf. «P. R.» 3/1958,
qu. 8). Por parte da teología católica nao há objecáo contra
tal determinagáo, pois o assunto nao afeta o dogma, mas é
questáo de disciplina, suscetível de adatagáo aos tempos e
costumes da humanidade. O que importa é que a morte e a
ressurreicáo do Senhor sejam anualmente celebradas com o
máximo realce possível.

Contudo parece que a fixagáo da data de Páscoa contribuiría para


desarraigar do seu fundo bíblico a Páscoa crista ; o que acarretaria
depauperamento do conceito de Páscoa; a morte e a ressurreigáo de
Cristo nao podem ser devidamente entendidas senáo como consuma-
gao de urna promessa feita aos judeus no Antigo Testamento e rica
mente simbolizada pela celebragao da Páscoa israelita (o cordeiro
«típico» evocava o cordeiro «antitipo» ; Cristo veio a ser o Cordeiro
pascoal por excelencia). Há, pois, toda vantagem do ponto de vista
teológico e religioso (nao íalamos de necessidade dogmática) em se
continuar a calcular a data de Páscoa de acordó com os criterios
estabelecidos para a imolagáo do cordeirinho do Antigo Testamento.
É, porém, á autoridade oficial da Igreja que compete definir qual
a melhor posigáo dos católicos em questOes concernentes a tal assunto.

2. Outro ponto atrás explanado aínda merece um pouco


de atengáo. Na controversia quartodecimana nao estavam
em choque proposigóes dogmáticas antagónicas, mas aspectos
complementares do misterio da Redengáo: de um lado, os
fiéis da Asia Menor acentuavam principalmente o fato de
que foi pela morte de Cristo que o género humano logrou
salvagáo ; daí a celebragao de 14 de Nisá (dia da imolagáo)

— 117 —
«PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 39/1961, qu. 3

sem consideracáo especial do domingo (dia da ressurreicáo).


Do outro lado, os fiéis ocidentais preferiam realgar que foi
pela ressurreigáo do Senhor que a morte e o pecado perderam
seu imperio sobre os homens ; daí a celebracáo em domingo
(dia da ressurreicáo), sem particular deferencia a 14 de
Nisá (dia da imolagáo).
Na verdade, a cruz ensangüentada e o sepulcro vazio, ou
seja, a morte e a ressurreicáo do Senhor constituem um único
misterio subsistente em duas etapas inseparáveis urna da
outra. É o que os antigos gregos exprimiam falando de Pascha'
staurósimon (Páscoa pela cruz) e Pascha anastásimon (Pás-
coa pela ressurreicáo). Sim; a genuína concepcáo crista en-
sina que já na cruz houve «Páscoa», isto é, passagem vito-
riosa da morte para a vida ; já a cruz, para Cristo e para o
cristáo, é triunfo. Quem padece com Cristo, comeca já neste
mundo a reinar com Ele. Nao há dúvida, éste triunfo desa
brocha plenamente na ressurreicáo, mas nao deixa de estar
inicialmente contido já no antigo patíbulo de ignominia.

Tal proposicáo se inspira, alias, da írase aparentemente para-


doxal do Senhor: «Quando Eu f6r exaltado ácima da térra, tudo
atrairei a Mim» (Jo 12,32). Conscientes do misterio sugerido por
estas palavras, os primeiros cristáos costumavam ornamentar com
pedras refulgentes e gloriosas a imagem da Cruz de Cristo.

Era éste aspecto do misterio de Páscoa que interessava


aqui realcar de modo especial, já que é táo alheio á mentali-
dade contemporánea.

3. Urna terceira observado que ainda cabe fazer, refere-se á


atividade desenvolvida pelo bispo de Roma no litigio quartodecimano:
equivale ao exercício, no séc. II, de um primado de jurisdicao sobre
a Cristandade inteira. Sim; desde que o patrimonio da fé estéve de
certo modo em causa, foi o bispo de Roma quem tomou a iniciativa
de dirimir a controversia ; promoveu a reuniao de sínodos regionais
no Oriente e no Ocidente, encontrando a devida obediencia por parte
dos demais bispos: estéve para excomungar os recalcitrantes, sem
que a sua autoridade fósse contestada; por fim, o alvitre de Roma
prevaleceu na Cristandade inteira. O fato ilustra bem como as deter-
minacSes do moderno Código de Direito Canónico estáo precisamente
na Iinha da consciéncia que os cristáos tinham do primado de Pedro,
desde os inicios da Igreja.

Sao estas idéias que constituem a mensagem válida e


construtiva a ser ainda em nossos dias deduzida das antigás
controversias sobre a data de Páscoa.

— 118 —
PORQUE CRISTO VEIO TÁO TARDE AO MUNDO ?

IV. HISTORIA DO CRISTIANISMO

MARIO (Rio de Janeiro) :

4) «Como se explica tenha Jesús Cristo vindo ao mundo


em período tao tardío da historia? Se sómente por Ele há
salvacáo, porque nao se manifestou maia cedo aos homens ?
E como pode ser verdadeira a Religiao Crista, que é tao
recente no mundo ?»

Em nossa resposta, deveremos propor urna advertencia prelimi


nar, á qual se seguirá a consideracáo direta do problema.

1. Observado previa

As questoes do cabegalho abordam um aspecto dos designios da


Providencia reíerentes a éste mundo. Evidentemente a inteligencia
humana, pobre e limitada como é, nao está á altura de sondar tais
planos ; Deus tudo disp5e livremente de acordó com criterios cuja
sabedoria ultrapassa infinitamente a nossa. Doutro lado, Cristo, como
Mestre da humanidade, nada quis dizer a respeito, chegando mesmo
a declarar: «Nao toca a vos conhecer as épocas e os momentos que
o Pai estabeleceu por sua própria autoridades (At 1,7).
Consciente de que a criatura é incapaz de argumentar com Deus
sobre tais assuntos, já S. Agostinho observava :
«Nao era nem será licito dizer a Deus: 'Porque agora ? E porque
tao tarde ?' Na verdade, o plano do Pai que enviou seu Filho á térra,
n&o pode ser penetrado pela inteligencia humana» (De civitate
Dei 10, 32,2).
Contudo as quest6es do cabegalho déste artigo sao em nossos días
propostas com insistencia, visto conhecermos melhor do que os anti-
gos as vastissimas dimensSes da pré-hist6ria e o avultado número de
homens que já passaram pela térra. Em conseqüéncia, a maneira
como essas criaturas se relacionavam com Deus é objeto de hipóteses
e conjeturas ñas quais muitas vézes a fantasía toma a dianteira da
ié e da razáo. Dai a conveniencia de que o cristáo enfrente direta-
mente o assunto e adquira consciéncia de tudo que se possa dizer
sobre o mesmo, de acdrdo com a auténtica mensagem de Cristo.

É o que vamos fazer nos parágrafos seguintes. Importa, porém,


nestes preliminares realcar que o passado, para o cristáo, só se escla
rece devidamente á luz do futuro. Sim; sao as acontecimentos fináis
da historia que elucidam e justificam os fatos dos tempos antigos e
atuais. Ora nao vemos o futuro, mas apenas o apreendemos por so
brios dizeres da fé e por teorías da ciencia; sendo assim, o «porque»
exato dos acontecimentos passados e presentes nos deve escapar, e
de fato nos escapa, em grande escala.
Em outros termos: para o cristáo, a historia se desenvolve homo
géneamente, tendendo a atingir certa configuracáo final bem marcada
nos designios de Deus: o Cristo Jesús encabezando a humanidade
inteira e apresentando-a ao Pai (cf. 1 Cor 15, 24-28). Essa configu
racáo final vai projetando seus raios sobre a humanidade desde os

— 119 —
«PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 39/1961, qu. 4

albores da historia, de sorte que os acontecimentos pretéritos cons-


tituem como que primicias dos futuros e fináis (o primeiro Adáo era
tipo do áegundo, Cristo, diz S. Paulo aos Romanos 5, 14); o fato,
porém, de que a grande realidade final ainda nao nos é patente, dá.
ocasiáo a que versemos na penumbra, desde que queirantos sondar
comexatidáo o «porque» de cada acontecimento da historia passada.

«Do futuro nada vemos a nio ser pelos olhos da fé e da esperanca.


Já alguém observou com acertó que o género humano se adianta na
historia como quem anda de costas, so vendo o caminho já pereorrldo.
Quando tivermos chegado ao termo, veremos como os quadros fináis
estavam esbocados ñas primicias. EntSo daremos gragas» (Y. Congar,
Vaste Monde ma paroisse. Paris 1959,32).

Consideremos, pois, o que se pode dizer a respeito da época


tardía da vinda de Jesús Cristo á térra.

2. A tardía vinda de Cristo ao mundo

1. A perspectiva dos antigos. Para os antigos e me-


dievais, a historia do género humano nao era táo longa quanto
para nos. Carecendo dos necessários dados de paleontología,
iam pedir á Biblia o que esta nao pretende fornecer, isto é,
urna cronología do mundo e do homem : somando, pois, as
indicagóes numéricas contadas em Gen 1-11, concluiam haver
5.000 anos aproximadamente entre o primeiro homem (Adáo)
e Jesús Cristo...
Embora éste intervalo já seja assaz longo, os pregadores
cristáos sem embaraco o justificavam aos olhos dos pagaos:
era preciso, diziam, que o género humano fósse lentamente
preparado para receber a dádiva do Salvador; a sabia peda
gogía de Deus se exerceu nesses milenios, fazendo passar as
geracóes humanas de urna fase de mentalidade infantil para
a plena maturidade da reflexáo. Sao palavras de S. Ireneu
no" séc. II:

«Deus levou o género humano á perfeicáo por degraus, á seme-


lhanca de u'a máe que primeiramente tem de amamentar o filhinho
recém-nascido, prestes a lhe dar, á medida que vai crescendo, o ali
mento de que precisa. Assim fez Deus, assim fez o Verbo Encar
nado... Era mister que o género humano fósse criado, crescesse, se
tornasse adulto, se multiplicasse, tomasse vigor e, por fim, ... visse
o seu Mestre (Cristo na térra)» (Adv. haer. 4,38).

Em urna palavra : conforme os antigos e medievais, Cristo


veio táo tarde ao mundo nao por impotencia ou descaso da
parte do Altissimo, mas porque a fraqueza humana faz que-
Deus tenha geralmente de limitar ou graduar a sua munifi
cencia ; o Pai Celeste, portante, levando em conta a debili-

— 120 —
PORQUE CRISTO VEIO TAO TARDE AO MUNDO ?

dade do homem, costumar conceder dom após dom: o pri-


meiro exerce o papel de dilatar a alma e capacitá-la para re-
ceber segundo dom; éste segundo prepara o homem para
terceiro,... até que finalmente possa receber o dom perfeito.
Foi o que se verificou com a Religiáo Crista, a qual repre
senta a plenitude das comunicacóes de Deus ao homem:
sendo a forma perfeita de Religiáo, devia ser naturalmente
precedida por muitas etapas.

Selando'estas idéias, váo aqui alguns textos marcantes da tradicáo.


É Sao Basilio (t 379) quem observa :
«Na religiáo, como ñas disciplinas, humanas, temos que ser intro-
duzidos progressivamente, comecando pelas coisas mate acessíveis e
pelos primeiros elementos. O Criador vem em nosso auxilio a fim de
que nossos olhos, habituados as trevas, possam aos poucos abrir-se
para a grande luz da verdade. Ele tudo dispds levando em conta a
nossa fraqueza: acostumou-nos primeiramente a ver a sombra dos
objetos e o reflexo do sol na agua, a íim de que nao fóssemos íeridos
pela contemplacáo direta dos seus raios: a Lei de Moisés era a
sombra das coisas vindouras, e o ensinamento dos Profetas era a
verdade ainda obscura» (Do Espirito Santo 14,33).

Dentre as documentos medievais, eis duas expressfies caracte


rísticas :
Sao Boaventura (t 1274) : «A obra da Encarnagáo foi a mais
perfeita dentre todas as obras de Deus; ora o curso normal das
coisas passa dos graus menos perfeitos para o mais perfeito» (Bre-
viloquium p. 4, c.4).
Guilherme de Paris (t 1249), por sua vez, escrevia: «Se alguém
perguntar por que Deus durante tantos milenios suportou a imper-
feigáo e a decadencia do seu culto,... por que nao interveio mais
cedo em favor da sua gloria e da nossa salvagáo, responderemos o
que se segué...

Se apenas pequeño número de homens neste mundo, isto é, única


mente o povo hebreu, foi capaz de receber os rudimentos e como que
o alfabeto da perfeicSo do culto divino, se a isso ele teve que ser
impelido por milagres e, de certo modo, coagido por repetidos agoites,
embora fósse ajudado pelas tradic8es de seus Pais, quanto mais...
o conjunto do género humano devia estar incapacitado de receber tal
perfeicjio ! Deus suportou, pois, a imperfeicáo no seu culto, até que
viesse a plenitude dos tempos, da mesma forma como Ele suporta a
inexperiencia ñas criancas, a pequenez nos gérmens vegetáis e em
todos os animáis, até que, num progresso gradativo, atinjam o ta-
manho necessário á sua períeicáo.
Para irmos mais ao fundo da questáo, tenhamos consciéncia de
que a bbjegáo aqui proposta equivale a perguntar por que os homens
nascem em estado de criancinhas, e nao como adultos e barbados,...
por que os animáis ovíparos pOem ovos e seus filhotes nao sao logo
de inicio animáis perfeitos. Com efeito, o culto de Deus e a verdadeira
religiáo nasceram no mundo em estado de germen e como criancinhas,
por causa da imperíeicao e da incapacidade iniciáis do género humano»
(Sobre o sacramento da Eucaristía c. 2).

— 121 —
«PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 39/1961, qu. 4

2. A perspectiva do homem moderno. A doutrina assim


proposta é válida até nossos dias. Contudo aínda deixa margem
para questóes e explicagóes complementares : a preparagáo
para o Messias, segundo a cronología hoje comumente admi
tida, terá durado nao cinco mil anos, mas centenas de milha-
res de anos (quigá 600.000 anos !)...

Note-se que a íé crista nada opóe a é&ses cálculos, pois se tornou


evidente á exegese moderna que as aparentes cifras de lóngevidade
dos Patriarcas bíblicos consignadas em Gen 1-11 na verdade nao sao
indicacoes cronológicas, mas expressdes simbólicas familiares aos
antigos escritores. A Biblia, por conseguinte, nao fornece data alguma'
referente á origem do mundo e ao aparecimento do homem sobré a
térra. Cf. «P. R.» 17/1959, qu. 5.

A verificacáo de que a pré-história se protrai por tantos


e tantos milenios nao pode deixar de suscitar a pergunta :
será que táo longo intervalo ainda pode ser tido simplesmente
como preparagáo do género humano para receber o Messias
prometido ?

A esta questáo, como dissemos, a nossa inteligencia nao pode dar


resposta exaustiva, pois que se trata de livre designio da transcen
dente Sabedoria de Deus. Contudo, guiados por certos dados da fé,
podemos de certo modo iluminar os pontos obscuros do problema e
aproximar-nos da auténtica solucáo. Tenham-se em vista, portante,
as seguintes observacóes:

1) por muito longo que parega o intervalo entre o pri-


meiro homem e Cristo, nao é, em verdade, senáo um espado
de tempo multo breve, se se levam em conta as dimensóes
da historia do nosso planeta (contam-se por milhóes e bilhóes
de anos). Para se ter urna idéia do que foi a surpreendente
duragáo das demais etapas da historia da vida sobre a térra
(nao falamos da historia muito mais longa das rochas e da
materia inanimada), pode-se recorrer á seguinte imagem :

Os primeiros seres vivos sobre a térra (organismos unicelulares,


bacterias, algas...) devem ter aparecido há cérea de tres bilhóes de
anos ou, ao menos, numa época colocada entre tres e dois bilhóes
de anos atrás. Digamos, porém, que a vida conté apenas um bilháo
aproximadamente de anos sóhre a térra. Procuremos agora reduzir
éste periodo ás proporgoes de um ano ou de 365 dias. Nessa escala,
um século é representado por tres segundos.
Ora admita-se que Cristo nasceu ás 24 horas precisas de 31 de
dezembro désse ano imaginario; em conseqüéncia, será preciso situar
o aparecimento dos primeiros viventes a 1* de Janeiro; o dos pri
meiros vertebrados marinhos, a 23 de julho ; o dos grandes reptéis,
a 20 de outubro ; o inicio da era quaternária e da estirpe humana a
31 de dezembro, 14 horas ; o surto do homem de Neanderthal, a 31
de dezembro, 19 h e 32 minutos ; o coméco da idade neolítica, a 31

— 122 —
PORQUE CRISTO VEIO TAO TARDE AO MUNDO ?

de dezemhro, 23 h e 55 min ; Abraáo (em 1800 a.C.) terá vivido a


31 de dezembro, 23 horas, 59 minutos e 6 segundos; a fundacáo de
Roma (em 753 a.C.) ter-se-á dado a 31 de dezembro, 23 horas, 59
minutos e 38 segundos... Finalmente Cristo terá vindo ás 23 horas
e 60 minutos, ou seja, ás 24 h ! (1)

Nesse «relógio da vida sobre a térra», como está a vinda de


Cristo perto do aparecimento do primeiro homem! Entre éste e o
Salvador haveria apenas o intervalo de dez horas perdidas na imen-
sidade de um ano inteiro. A luz de tal ohservacáo, deve-se dizer que
a vinda do Messias ocorreu em momento oportuno, momento bem
proporcionado aos demais momentos solenes da historia deste mundo.
Nao nos iludimos sobre o significado do confronto ácima feito.
É certo que ele nao basta para dissipar a surprésa de quem detém
sua atencáo exclusivamente sobre os 600.000 anos que posslvelmente
teráo ocorrido entre o primeiro homem e Cristo. Contudo o confronto
nao deixa de ser proveitoso, porque dá a ver que nao se deve medir
a historia segundo criterios demasiado antropocéntrieos; é Deus o
ponto de referencia de todas as criaturas ; é, portante, do ponto de
vista de Deus, e nao do homem, que se deve avaliar a «ordem» ou
a «desordem» na historia. O que a nos, homens, talvez pareca dema
siado longo, pode aos olhos do Artista Supremo estar bem proporcio
nado no conjunto das criaturas. — Verdade é que nunca abarcaremos
com nossa inteligencia as proporefies concebidas por Deus; os de
signios do Criador, por conseguinte, conservarao sempre um aspecto
misterioso para nos, mas nem por isto poderáo ser tachados de
absurdos.

2) O fato de que os numerosos homens existentes na


pré-história nao conheceram a Cristo, nao nos deve incitar a
conjeturas e hipóteses inúteis. Urna coisa é certa no caso, e
essa é a única coisa importante a observar: tais homens de
modo nénhum ficaram privados dos oportunos meios de sal-
vagáo. Deus nao cometeu injustiga para com éles, excluindo-os
da vida eterna, dessa mesma vida eterna que Ele oferece a nos.

(1) A imagem ácima poderia s¿r retocada segundo as diversas


hipóteses dos paleontólogos referentes á extensáo das eras geológicas
e á historia dos fósseis. As modificaeñes, porém, seriam de monta
relativamente pequeña, nao alterando essencialmente a eonfiguracáo
do esquema proposto. A guisa de exemplo, citamos éste outro tipo
de «relógio da evolucáo» :
«Reduzindo ao espaco de um ano o desenvolvimento dos aconteci-
mentos desde as origens da vida, é fácil relacionar a correspondencia
relativa dos fatos. A 1' de Janeiro comeca o periodo arcaico. A 23
de julho aparecem os peixes. A 13 de setembro os anfibios... A 30
de dezembro, ás 12 horas e 32 minutos, o homem de Neanderthal...
Ás 23 horas e 40 minutos do mesmo dia comega a Historia. As 23
horas, 53 minutos e 52 segundos, a Guerra de Troia ... E finalmente
(para n&o sermos longos) ás 23 horas, 58 minutos e 50 segundos,
coloca-se, numa última data, Aníbal e a segunda guerra púnica.»
Ver Alexandre Roldan, Evolucáo, trad. brasileira de Rondón do
Amarante. Rio de Janeiro 1958, pág. 61.

— 123 —
«PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 39/1961, qu. 4

Nao conhecendo nem o Evangelho nem a Revelado do Antigo


Testamento, os homens da pré-história eram interpelados pelo Senhor
mediante a lei natural ou a voz da consciéncia ; caso seguissem a
esta, seguiam o mesmo Deus que nos, cristáos (pois só há um Deus,
Criador de todos os homens) ; em conseqüéncia, dispunham-se a re-
ceber o premio da bem-aventuranga celeste. Sem dúvida, ao julgar os
homens pré-históricos, Deus Ihes terá aplicado os criterios correspon
dentes ao seu grau de compreensáo dos deveres religiosos; as res
ponsabilidades foram avalladas á luz das possibilidades; Deus nunca
exige de alguém o que nao está ao seu alcance.

Além disto, é preciso frisar que a salvagáo obtida pelos


filhos de Adáo na pré-história nao era independente de Cristo,
mas foi-lhes concedida em vista dos méritos de Jesos imolado
no Calvario. Assim, por mais variadas que sejam as vias
pelas quais Deus chama suas criaturas no longo decorrer dos
séculos, é certo que toda e qualquer forma de salvagáo traz
o cunho de Cristo. Embora Cristo tenha aparecido na historia
há apenas dois milenios, Ele nao é um elemento relativo, in-
teressante apenas para certa parte do género humano, mas
é o Salvador universal, que projeta a sua sombra sobre toda
a historia desde Adáo até os últimos filhos de Adáo.

3) Ademáis deve-se observar que o monoteísmo está longo de


ser urna forma tardia da religiáo da humanidade. Como já irisamos
á pág. 100 déste fascículo, a modalidade primitiva de religiáo fot, sim,
o culto de um só Deus, tido como Criador e Pai de todos os homens.
Sobreveio, porém, o pecado, que embotou a consciéncia religiosa da
humanidade, fazendo que esta esfacelasse o conceito de Deus Uno,
cultuando as múltiplas fdrcas da natureza das quais o agricultor e
o cacador antigos se sentiam dependentes; daí o fetichismo, a magia
e as demais aberragóes que a pré-história atesta... Embora o estu
dioso moderno verifique lealmente a exuberancia de tais desvios re
ligiosos, nao deve esquecer a unidade de linha da historia das reli-
gióes: o monoteísmo que se afirma «tardíamente» no Judaismo e
no Cristianismo, é a Religiáo da primeira fase da historia. Realmente
Deus, o único Deus, se tornou sempre presente aos homens, nunca
deixando de os acompanhar através dos séculos, embora tenha per
mitido que éles, por abuso de sua liberdade, se desviassem da ver-
dadeira Religiáo.

3. As conveniencias do adiamento

Considerando mais detidamente a época em que Cristo


de fato veio ao mundo (ano 753 da era de Roma), os antígos
escritores cristáos se compraziam em apontar as vantagens
que ésse período oferecia á pregagáo do Evangelho. Tais obser-
vagóes concorrem para evidenciar a agáo da Providencia
Divina;

— 124 —
PORQUE CRISTO VEIO TAO TARDE. AO MUNDO ?

1) no fim da era pré-cristá, o género humano havia


chegado a um estado de prostracáo intelectual e moral que
o fazia anelar ardentemente pela intervengáo da Divindade
na historia do mundo. Com efeito... •

Entre os pagSos, passara-se a época dos grandes filósofos Platáo


e Aristóteles (séc. V/IV a.C), que muito estimavam a razáo humana
e a sua capacidade de tornar o homem feliz. A Filosofía, representada
pelo Estoicismo e o Epicurismo, entrara em declinio, chegando a tor-
nar-se cética. Daí decorria naturalmente a depravac.no moral. Simul
táneamente, porém, no Imperio greco-romano soprava, provindo do
Oriente, um novo tipo de sabedoria, a qual ja nao esperava salyacáo
por via intelectual, mas pela mística, ou seja, pela observancia de
ritos e mortificagOes que, pondo o homem em mais intimo contato
com a Divindade, lhe dariam participagáo na natureza e na felicidade
dos deuses; tais eram as religi3es ditas «de misterios» (de Isis, Ci-
bele, Mitra...). Em conseqüéncia, o desejo de urna salvacao prove
niente do Alto e benignamente concedida pela Divindade estava,
mais do que nunca, vivo entre os pagaos do Imperio greco-romano
no limiar da era crista.
Entre os jndeus, a humilhagáo do povo subjugado pelos gentíos
desde o séc. VI a.C. era motivo de férvida expectativa messiánica
(se bem que esta fosse nao raro contaminada por entusiasmo na
cionalista e por odio aos povos estrangeiros). A Lei de Moisés exci
tara em Israel a consct&ncia da miseria moral e da necessidade do
Messias prometido (cf. S. Paulo, Rom 5,20 ; Gal 3, 19).
Assim a Providencia quis, por via paradoxal, preparar o género
humano para receber o Salvador : em vez de enviar o Redentor á
térra justamente quando os homens se achavam no ponto mais ele
vado de suas produc8es filosóficas e de sua vida moral (o que seria,
humanamente falando, muito «lógico»), Ela quis vir ao encontró da
humanidade justamente quando esta tomava consciéncia da sua
ahsoluta Incapacidadé de se consumar; Deus quis assim cavar o
vazio do homem para néle introduzir o dom perfeito. A salvacáo
destarte devia parecer o que ela de fato é: dom totalmente gratuito,
que nem a sabedoria nem a virtude das criaturas podem por si mes-
mas merecer.

2) Positivamente, o Imperio Romano criou um quadro


social e geográfico que muito favoreceu a difusáo do Evangelho.

Na verdade, reunindo em um único e grande Estado povos hete


rogéneos situados desde a Siria até a Espanha, desde o Nilo até o
Danubio, Roma fez cair barxeiras, que poderiam dificultar a deslo-
cacáo dos misionarios e a propagacáo da Palavra de Deus. A Roma
se devem outrossim a unidade de lingua e cultuva geral, assim como
a mesma legislacáo vigente em táo diversas térras, certa facilidade
de transportes por térra e por mar e, por fim, a era de paz e boa
ordem que o Imperador Augusto instaurou após longo período de
guerras civis.

A Providencia Divina houve por bem servir-se de tais


circunstancias para assinalar a plenitude dos tempos e a vinda

— 125 —
«PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 39/1961, qu. 5

do Messias sobre a térra, ó insondáveis designios da Sabedo-


ria de Deus !

«Quáo incompreensíveis sao os seus juízes e impenetráveis os seus


caminhos ! Na verdade, quem conheceu o pensamento do Senhor ?
Ou quem loi seu conselheiro ? Ou quem Lhe deu em primeiro lugar,
para que tenha a receber de volta ?» (Rom 11,33-35).

TEODORO (Minas) :

5) «Vinte séculos após a vinda de Cristo a térra, como1


se justifica que o Cristianismo nao esteja dominando a face
do mundo, mas ao contrario veja a sua acáo tac dificultada
pelas forcas do mal ?»

A resposta apresentará primeiramente alguns dados numéricos


oportunos para se reconstituir com exatidáo o problema. A seguir,
propor-se-áo as linhas de solucáo.

1. Algumas cifras...

Embora as estatísticas nem sempre correspondam á realidade


das coisas, nao parece fora de propósito trazer aqui alguns elemen
tos numéricos que, íeitas as devidas ressalvas, possam ajudar o
observador a avaliar o problema de que trata a presente questao.
Segundo cálculos fidedignos, as confissoes religiosas se distri-
buem sobre a térra ñas proporcóes seguintes:

Confucianistas 18,6 % Fetichistas 8, 4 %


Católicos (romanos) 16,9 % Ortodoxos 5, 5 %
Mugulmanos 13,5 % (cristáos orientáis)
Hinduístas 11,8 % Chintoistas 1, 3 %
Protestantes 7,5 % Sem religiáo 1 %
Budistas 8,4 % Israelitas 0,45 %

Em dados absolutos, as cifras principáis seriam aproximadamente


as seguintes :

Igreja Católica 480 milhóes de almas, das quais


47,2 % na Europa
42,8 % na América
6,2 % na Asia
3,2 % na África
0,6 % na Oceania

Protestantismo 200 milhSes de almas


Ortodoxia (cisma oriental) 150 milh5es
Judaismo 12 milhóes
Isláo 365 milhóes
Hinduismo 321 milhóes
Budismo 227 miihóes

— 126 —
O PEQUEÑO NÚMERO PE CRISTAOS

Como se vé, o bloco crístao é o mais numeroso, abrangendo


quase urna terca parte da populacáo do globo. Contudo nem todos os
cristáos pertencem á única Igreja de Cristo... Se se levam em conta
os números, os prognósticos referentes ao Cristianismo, e em parti
cular ao Catolicismo, nao sao dos mais alvissareiros. Com efeito, o
aumento da populacáo católica pela via de nasclmentos é de cérea
de 3.500.000 de almas por ano ; acrescente-se a isto um pouco mais
de meio-milháo de convertidos, e tem-se anualmente um total de
quatro milhóes de novos católicos. Acontece, porém, que no mesmo
intervalo o número de náo-católicos se acresce de 16 milhdes sim-
plesmente por via de nascimentos ; os católicos váo sendo assim
numéricamente ofuscados ; para mantear as proporcSes atuais, seria
necessário haver anualmente nao 500.000, mas 7.000.000 de convertidos
ao Catolicismo.
É interessante também recordar que, na época atual, um dentre
quatro cidadaos déste mundo (25%) é chinés (diz-se que «nasce um
chinesinho por segundo). Ora a Igreja Católica na República Popular
Chinesa conta aproximadamente 0,5 % da populacáo, ou seja, 3.750.000
fiéis, todos submetidos a dura perseguicáo. — O Japáo é dos mais
prolificos países do globo; sendo a maioria da sua populacáo per-
tencente á religiáo chintofsta, é esta que se beneficia com a elevada
cota de nascimentos.
Concentrando agora a nossa atencáo nos pafses ditos «ociden-
tais», de civilizacáo crista, verificamos que geralmente ñas grandes
cidades entre os católicos u'a media de 30 % apenas pratica a sua
religiáo (há excecóes como, por exemplo, Bilbao na Espanha, com
50% ; Essen na Alemanha, com 40% ; Nova Orleans nos EE.UU.,
com 42%) ; em Nova lorque, contam-se 30% ; em Dusseldorf (Ale
manha), 29% ; em Colonha (Alemanha), Bruxelas e Liége (Bélgica),
27 % ; em Barcelona (Espanha), 25 %. Na Holanda, 50 % da popu
lacáo da capital (Haia) declarou, em recenseamento oficial, nao ter
religiáo; em Amsterdam, a cota de tais pessoas foi de 45 %. '
Alias, a indiferenca religiosa é fenómeno que se vai generali
zando. Nos EE.UU. da América, por exemplo, a diluicáo de certos
grupos protestantes caminha a passos largos, principalmente nos meios
urbanos; algo de semelhante se dá entre os muculmanos da África
do Norte, entre os hinduistas e os budistas, principalmente no Japáo.
Os sociólogos verificam que a tendencia da vida moderna a con
centrar grandes massas de populacáo ñas cidades (urbanizacáo)
provoca fácilmente o materialismo ou o ceticismo.
O Santo Padre o Papa Pió XII, em sua encíclica sobre as Miss5es
(de 2 de junho de 1951), lembrava aos fiéis do mundo inteiro a gra-
vidade da hora presente:
«Sabéis, veneráveis Irmáos, como quase todos os homens hoje
em dia sao bruscamente levados a tomar posicao em um dos dois
acampamentos antagónicos, a saber: por Cristo ou contra Cristo.
O genero humano atualmente passa por fase extremamente perigosa,
da qual lhe resultará ou a salvagao de Cristo ou tremenda ruina. O
zélo ativo dos pregadores do Evangelho esforca-se, sem dúvida, por
dilatar o reino de Cristo; há, porém, outros pregadores que tentam
levar a humanidade á mais avlltante situacSo, pois tudo concebem
em funcáo da materia, e recusam toda esperanca de felicidade eterna».

Pois bem ; a Santa Igreja, e com Ela todo fiel católico, olha para
essa realidade com ánimo solícito, mas profundamente tranquilo. O
discípulo de Cristo sabe que o Senhor tudo dispSe providencialmente,

— 127 —
«PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 39/1961, QU. 5

conforme os arcanos da sua sabedoria; é Ele, e nao sao própriamente


os homens, quem toma conta da sua Igreja (o que naturalmente nao
dispensa de zelar ao máximo pelo bem temporal da S. Igreja).
NSo obstante a coníianga absoluta na Providencia, é lícito ao estu
dioso procurar entender, dentro do conjunto da própria Revelagao
crista, o estado de coisas ácima esbocado, pois nao raro os liéis se
véem solicitados pela cética interrogacáo: Nao será a situacao pre
sente algo de desconsertante, indicio do fracasso de Jesús Cristo, o
qual conseqüentemente terá sido mero homem ?

2. As Iinhas de solucáo

A questáo visada neste artigo nos coloca mais urna vez diante'
dos transcendentes designios da Sabedoria Divina, que a inteligencia
humana nao pode abarcar cabalmente. Apenas se pode assegurar,
sem perigo de errar, que a situacao atual nada tem de imprevisto
nem desastroso aos olhos de Deus ; ela condiz perfeitamente com
o plano hármonioso do Criador.
Pode-se, porém, penetrar um pouco mais dentro do assunto, tra
gando algumas Iinhas que contribuem para esclarecé-lo. Eis tais
Iinhas:

1) Consoante a natureza sensivel do homem, Deus ins-


tituiu vias vis'veis ou sensiveis de salvagáo (a incorporagáo
á Igreja visivel de Cristo e a prática dos sacramentos). Nos,
homens, recebamos tais instituigóes da parte do Senhor, e
temos a obrigagáo de as promover e difundir, animados por
santo zélo apostólico.
Acontece, porém, que o Senhor Deus (por motivos arca
nos) houve por bem permitir que a ignorancia e o erro im-
perem em regióes náo-cristianizadas ou até descristianizadas.
Ele o permite por razóes que nao nos compete sondar, mas
certamente porque do mal Ele sabe e quer tirar o bem. Está
claro entáo que o Senhor pode perfeitamente por vias ocultas
promover a salvacáo dos homens que vivam de boa fé em tais
regióes (seráo muitos ? Seráo poucos ? Nao o sabemos ; nada
nos obriga a dizer que sao poucos). Deus, querendo salvar
as criaturas diretaments, nao está obrigado a seguir os ca-
minhos visiveis que Ele instituiu para o comum dos homens.
E tais vias ocultas sao variadíssimas; lembraremos apenas
os ditames da consciéncia que váo acompanhando cada indi
viduo no decorrer de toda a sua vida (ditames que sao a voz
do próprio Deus), urna iluminagáo especial concedida na hora
da morte, a graga de um arrependimento interior nao mani
festado, etc.
Interessa-nos agora salientar que as pessoas (aparente
mente alheias á Igreja de Cristo) que se salyam por tais ca-
minhos ocultos, se salvam, em última análise, por obra de
Cristo e da Igreja, pois, como já foi dito á pág. 124 déste fas-

«. 128.^-
O PEQUEÑO NÚMERO DE CRISTAOS

cículo, so há um Salvador e um caminho de salvagáo — Cristo,


o Cristo total, Cabega e Corpo Místico ou Igreja (realidades
inseparáveis urna da outra). Por isto se diz que a-, Igreja
subsiste nao apenas nos fiéis que lhe foram visivelmente incor
porados e a professam como tal, mas subsiste outrossim em
todos aqueles qüe7' seguindo caminhos reservados pela Provi
dencia, obtém a salvagáo eterna ; tais pessoas sao realmente
membros — membros invisíveis — da única Igreja de Cristo.
Donde se vé que esta se acha muito mais propagada no uni
verso do que parece. Por conseguinte, o sacrificio de Cristo
e a Redengáo sao fatos muito mais presentes e atuais no
mundo inteiro do que se poderia julgar á primeira vista.

É lícito mesmo admitir que ele"ado número de homens se salve


por vias ocultas, sem sequer saber que estao sendo atingidos por
Cristo e pela Igreja, sem mesmo que a Igreja saiba que os está
atingindo e beneficiando; muitos daqueles que vivem no indiferen
tismo ou na apostasia materialista seráo talvez um dia bem-aventu-
rados no céu oorque cedo ou tarde, antes de morrer, seguiráo.ines
peradamente urna inspiracSo da graca; conceberao entáo perfeito
arrependimento e ardente amor a Deus (na medida em que O conhe-
cerem) sem ter qulcá tempo ou foreas físicas para manifestar seus
novos sentimentos de alma.

2) Tentando agora focalizar a questáo de um ponto


de vista aínda mais próximo ao de Deus, isto é, como a
Palavra de Deus a focaliza na Escritura Sagrada, chegamos
a imprevistas conclusóes.

Notemos, antes do mais, que a Biblia em geral pouco se inte-


ressa pelo aspecto quantitativo ou matemático dos acontecimientos.
Nao raro mesmo os números ai ocorrem com valor meramente sim
bólico, para indicar qualidades, e nao quantidades (cf., por exemplo,
a genealogía de Jesús em Mt 1,1-17: 3 x 14 gerac5es pars significar
o Filho de Davi «á terceira potencia» ou por excelencia ! O número
dos familiares de Jaco que foram habitar no Egito, era o número
místico 70, conforme Éx 1,1-5).

Mais ainda : o Senhor, no decorrer da historia sagrada,


nunca parece ter dado grande aprego ás estatísticas que nos
tanto estimamos. Antes, dir-se-ia : o Onipotente fez sempre
«pouco caso» dos cálculos humanos referentes aos progressos
do reino de Deus. — Certamente Deus quer salvar todos os
homens ícf. 1 Tim 2,4) ; neste sentido deve-se dizer que Ele
muito estima «o grande número» ; mas os caminhos pelos quais
Deus quer salvar a multidáo de suas criaturas sao táo dife
rentes daqueles que nos julgamos oportunos e necessários
que o Senhor na historia sagrada chegou a incriminar aos
homens o desejo de medir e contar os progressos religiosos,

— 129 —
«PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 39/1961, qu. 5

como se medem e contam os progressos da industria e da


técnica.

Assim o rei Davi foi punido por ter mandado fazer um recen-
seamento de seu povo (cf. 2 Sam 24 ; 1 Crón 21). O autor bíblico
chega a dizer que íoi Satanaz quem sugeriu ao monarca ésse proce-
dimento (cf. 1 Crón 21,1). Pergunta-se, porém: que mal havia no
caso ? — Ei-lo : Davi, empreendendo o recenseamento, parecía querer
controlar o cumpximento da promessa de Deus, promessa segundo
a qual Abraáo teria posterldade muito numerosa e próspera (cf. Géri
15,5). O recenseamento, no caso, vinha a ser expressáo de certa falta
de confianga e de certo orgulho do rei; Davi quería certificar-se da
grandeza e da prosperldade de seu povo, como os demais reís o fa-'
ziam, isto é, recorrendo a números e estatísticas, como se o monarca
só pudesse e devesse contar com recursos de administracjio humana.
O episodio é assim portador de u'a mensagem válida até o dia de
hoje: nao se pode tratar o povo de Deus (seja Israel, seja a Igreja)
como qualquer outra entidade quantitativa ou como qualquer outro
grupo social; sem dúvida, as promessas de béngáo se váo cumprindo
no povo de Deus ou na Igreja; nao nos é licito, porém, querer con-
trolá-las, aplicando-lhes os criterios humanos dos números e das
estatísticas.
Havia, sim, recenseamentos legítimos, prescritos pela Leí de
Moisés; cf. Éx 30,11-16; Núm 1,20-47; 14,29. Mas mesmo nesses
casos, para manter no povo sagrado o espirito de fé, a legislacao israe
lita mandava que todo individuo recenseado pagasse um tributo a
Deus (cf. Éx 30,12-16); isto lhe lembraria que o homem nao é senhor
da sua vida e da sua fdrca, mas é o Senhor quem dá vida e prospe-
ridade as criaturas...

Observa-se mesmo que, na Escritura Sagrada, Deus pa


rece estimar de modo todo especial o que os hagiógrafos cha-
mam «o resto de Israel» ou simplesmente «o resto» ; trata-se
de um pequeño grupo, de fé mais viva e consciéncia mais
firme, que representa a coletividade indiferente e embotada,
merecendo para esta as gracas da salvagáo; cf. Am 3,12 ;
5,3.15; 3 Rs 19,18.

Sao Paulo equivalentemente fala de «primicias», entendendo com


isto poucos individuos sobre os quais pousa o reino de Cristo a fim
de beneficiar a grande massa de concidadáos ainda mergulhada no
erro. Assim diz ele que Stefanaz e os seus familiares constituem as
primicias da Acaia (cf. 1 Cor 16,15); Epeneto, as da Asia (cf. Rom
16,5); Cristo é primicias dos mortos ou da ressurreicao (cf. 1 Cor
15,5. 20-23).

Procurando agora interpretar a realidade religiosa con


temporánea á luz déste modo de ver bíblico, deve-se dizer
que o povo cristáo ou a Santa Igreja faz as vézes do «resto»
ou das «primicias», isto é, de u'a minoría mediante a qual
Deus quer certamente agraciar a humanidade inteira. Alias,
os antigos cristáos tinham clara consciéncia désse seu papel

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«PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 39/1961, qu. 5

em relagáo aos demais homens ; eis, por exemplo, como se


exprimía um escritor do séc. III: «O que a alma é no corpo,
os cristáos o sao no mundo. A alma está difundida em todos
os membros do corpo, como os cristáos em todas as cidades
do mundo... Os cristáos estáo como que detidos no cárcere
do mundo ; nao obstante, sao éles que sustentam o mundo»
(Epístola a Diogneto c. 6).

Nao há dúvida, estes dizeres podem aplicar-se até hoje ao povo


cristáo ou á Santa Igreja: minoría numérica mediante a qual a hu-
manidade toda, consciente ou inconcientemente, recebe os tesouros da
vida eterna.
Assim deixa de causar surprésa a verificacáo de que ainda em
nossos dias o reino de Cristo só subsiste vislvelmente numa porgáo
relativamente pequeña da humanidade; tenha-se consciéncia de que
invisivel e implícitamente ele compreende muito maior número de
almas.

2. As consideracSes até aqui propostas visavam projetar luz


sobre a atual situacáo do Cristianismo no mundo, gerando conseqüen-
temente serenidade e paz no leitor. Nao seria licito, porém, concluir
que os filhos da Santa Igreja tém o direito de cruzar os bracos diante
dos erros contemporáneos e negligenciar seu íervor apostólico. Nao;
Cristo mandou : «Ide, e ensinai a todos os povos, batizando-os em
nome do Pal, do Filho e do Espirito Santo» (Mt 28,19). Cabe, por
conseguinte, aos católicos o dever de cumprir a risca esta ordem,
utilizando as possibilidades que a cada um tocam no Corpo Místico
de Cristo. Tal dever é certo, pois íoi revelado pelo Senhor; que
cada qual se desempenhe déle conscienciosamente, e nao se preocupe
com as disposicSes misteriosas da Providencia Divina, que sabe
distribuir os frutos dos nossos trabalhos apostólicos independente-
mente da nossa compreensáo, mas nem sempre independentemente
da nossa colaboracáo.

A guisa de conclusáo, eis palavras muito oportunas de S.S. o


Papa Pió XII sobre o assunto :
«A Igreja Católica, máe amantíssima de todos os homens, con
voca todos os seus. filhos espalhados pelo mundo inteiro, a fim de
prestarem aos intrépidos pregadores da verdade do Evangelho o
auxilio que esteja ao seu alcance, seja por meio de esmolas. seja por
meio de preces, seja por meio de apoio ás vocacSes missionárias. Ela
também os incita muito maternalmente a usarem de tdda a bondade
e a participarem das tarefas do apostolado, se nao efetivamente, ao
menos por seu interésse zeloso, a fim de nao permitirem fique váo
o anelo do benigníssimo Coracáo de Jesús, que 'veio... procurar e
salvar o que perecerá' (Le 19,10). Se de algum modo contribuirem
para levar a luz da fé e para restaurar cristamente um só lar que
seja, saibam que dai prorromperá um impulso da graga divina, o
qual se desenvolverá até a vida eterna; se colaborarem para a
formacáo de um só ministro do altar que seja, saibam que dai lucra-
rao abundantes frutos do sacrificio eucarSstico, da missáo sacerdotal
e de santificacáo em geral. Os fiéis de Cristo constituem todos juntos
urna única e vastíssima familia, cujos membros, pertencentes uns
á Igreja militante, outros & Igreja padecente, outros a Igreja triun-

— 131 —
«PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 39/1961, qu. 3

íante, se acham em comunhao de bens. N3o há, em verdade, dogma


mais oportuno do que o da Comunhao dos Santos para inculcar a mente
e ás aspiracóes do povo cristáo a importancia e a utilidade das
sagradas missóes» (ene. «Evangelii precones», de 2 de junho de 1951).

Aos estimados consulentes que nao nos mandam endereco, avi


samos nüo nos ser possível, multas vézes, responder através das pági
nas dcsta revista, dada a falta de espago. Aguardamos, portante, os
enderécos.

D. ESTÉVÁO BETTENCOURT O.S.B.

«PEEGUNTE E RESPONDEREMOS»

Assinatura anual de 1961 Cr$ 200,00


Assinatura anual de 1961 (via aérea) Cr$ 250,00
Número avulso de 1961 Cr$ 20,00
Número de ano atrasado Cr$ 25,00
Colecto encadernada de 1957 Cr$ 320,00
Colecáo encadernada de 1958, 1959, 1960 .. Cr$ 450,00 (cada)

REDAC&O ADlVnNISTBACAO
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