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P rojeto

PERGUNTE

E

RESPONDEREMOS

ON-LINE

Apostolado Veritatis Spiendor Dom Estéváo Tavares Bettencourt, osb

com autorizagáo de

(in memoríam)

APRESENTAQÁO

DA EDIQÁO ON-LINE

Diz Sao Pedro que devemos estar preparados para dar a razáo da nossa

esperanca a todo aquele que no-la pedir

(1Pedro 3,15).

Esta necessidade de darmos conta da nossa esperanca e da nossa fé hoje é

mais premente do que outrora, visto que

bombardeados correntes filosóficas e religiosas contrarias á somos por numerosas — - - - fé católica.
bombardeados
correntes filosóficas e religiosas contrarias á
somos
por
numerosas
-
-
-
fé católica. Somos assim incitados a procurar
consolidar nossa crenga católica mediante
um aprofundamento do nosso estudo.
Eis o que neste site Pergunte e
~-;-
Responderemos propóe aos seus leitores:
,
i
aborda
questóes
da
atualidade
• _.___ T~ controvertidas, elucidando-as do ponto de . _^ ^^ vista cristáo a fim de
_.___
T~
controvertidas, elucidando-as do ponto de
.
_^
^^
vista cristáo a fim de que as dúvidas se
dissipem e a vivencia católica se fortalega no
Brasil e no mundo. Queira Deus abengoar

este trabalho assim como a equipe de

Veritatis Splendor que se encarrega do

respectivo site.

Rio de Janeiro, 30 de julho de 2003.

Pe. Esteváo Bettencourt, OSB

NOTA DO APOSTOLADO VERITATIS SPLENDOR

Celebramos convenio com d. Esteváo Bettencourt e conteúdo da revista teológico - filosófica "Pergunte e

passamos a disponibilizar nesta área, o excelente e sempre atual

Responderemos", que contacom maisde 40 anos de publicacáo. A d. Estéváo Bettencourtagradecemos a confiagadepositada

em nosso trabalho, bem como pela generosidade e zelo pastoral

assim demonstrados.

o ñi> eze

h

o

"Vivo eu, nao eu, é Cristo que vive em mim" (Gl 2, 20)

Há dois Jesús: um real, histórico e outro projetado pela fé?

Como o brasileiro vé Deus? "Conversas com Lutero" "Eles perceberam a verdade" 'Tentar viver a fé no terceiro milenio" Vassula Ryden: Esclarecimentos importantes

Fundar urna Igreja

Casamentos mistos

Unióes homossexuais: Por que nao? Protestantes postulam Chávez como seu "Bispo Maior" "Minha odisséia do evangelismo ao catolicismo"

PERGUNTE E RESPONDEREMOS Publicado Mensal

Dlretor Responsável

MARCO 2007

N°537

SUMARIO

"Vivo eu, nao eu, é Cristo que vive em

Estéváo Bettencourt OSB mim" (Gl 2, 20) 97 Autor e Redator de toda a materia Quem
Estéváo Bettencourt OSB
mim" (Gl 2, 20)
97
Autor e Redator de toda a materia
Quem foi Jesús?
publicada neste periódico
Há dols Jesús: um real, histórico e outro
projetado pela fé?
98

Administracáo e Dlstribulcáo:

Religiosidade: Edicóes Lumen Christi Mosteiro de Sao Bento do Rio de Janeiro Como o brasileiro vé
Religiosidade:
Edicóes Lumen Christi
Mosteiro de Sao Bento do Rio de Janeiro
Como o brasileiro vé Deus?
103
Rúa Dom Gerardo,40 -5°andar-sala501
Livro polémico:
"Conversas com Lutero"
108
Tel.: (0XX21) 2206-8283 e
(OXX21) 2206-8327
Fax (0XX21) 2263-4420
'Do Protestantismo ao Catolicismo:
"Eles perceberam a verdade"
113
Diálogo com o mundo contemporáneo:
Enderece para Correspondencia:
"Tentar viver a fé no tercelro milenio"
116
Ed. Lumen Christi
Rúa Dom Gerardo, 40 - sala 501
Explicacoes e justificativas:
Vassula Ryden: Esclarecimentos
Centro
importantes
121
CEP 20090-030 - Rio de Janeiro - RJ
O melhor negocio:
Site: www.lumenchristl.com.br
e-mail: lumen.christi@osb.org.br
Fundar urna Igreja
129
Sao possíveis?
Casamentos mistos
132
Em debate:
Unldes homossexuais: Por que nao?
Religíáoe Política:
135
Protestantes postulam Chávez como seu
"Blspo Maior"
140
"Mlnha odisséia do evangelismo ao
catolicismo"
143

COM APROVAQAO ECLESIÁSTICA

NO PRÓXIMO NÚMERO:

Percorrendo as revistas ilustradas. - "Os manuscritos de Jesús" por M. Baigent. - "Roma, sede do Anticristo" por H. Johas. - Liberdade religiosa na antiga literatura crista. - O

obelisco na Praca de Sao Pedro. - A populacáo mundial envelhece. - Fecundacao arti

ficial: Surpresas e embaracos. - Proibido o riso? - Do luteranismo ao catolicismo. - O

garotinho que rezava a ave-maria.

PARA RENOVAQÁOOU NOVA ASSINATURA (12 NÚMEROS)

NÚMERO AVULSO

R$ 50,00.

R$ 5,00.

O pagamento poderá ser á sua escolha:

  • 1. Cartao de Crédito: VISA, MASTERCARD, AMERICAN EXPRESS e DINERS CLUB (favor informar n°, validade do cartao e código de segurarnos).

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Obs.: Correspondencia para: Edicdes Lumen Christi Centro e-mail: lumen.christi@osb.org.br

.

Rúa Dom Gerardo, 40 - sala 501

CEP 20090-030 - Rio de Janeiro - RJ

>

"VIVO EU, NAO EU,

É CRISTO QUE VIVE EM MIM"

(Gl 2, 20)

A Quaresma nos póe mais urna vez ante os olhos as tristes cenas

da Paixáo de Cristo. Conhecemo-las bem, mas fica-nos talvez a pergun ta: por que tanto sofrimento? Em resposta diremos que a Paixáo do Se nhor Jesús foi nao apenas um testemunho de coragem heroica, mas sim

urna fonte de vida para nos, frágeis criaturas. Com efeito; Jesús nao teria

sofrido se nao o fizesse por nos ou para santificar e transfigurar a nossa própria vida com seus sofrimentos de cada dia. O elo entre a Paixáo de

Cristo e nos sao os sacramentos do Batismo e da Eucaristía. Aquele nos

faz morrer e ressuscitar com Cristo (cf. Rm 6,2-11) e este alimenta a vida

nova recebida no Batismo a tal ponto que Sao Paulo podia dizer: "Todos

vos que fostes batizados, revestistes o Cristo" (cf. Gl 3, 27) e "Vivo eu,

nao eu, mas é Cristo que vive em mim" (Gl 2, 20). A comunháo de vida com Cristo é bem expressa pelas imagens da Cabeca, Corpo e da Videira ramos (1Cor 12,14-27 e Jo 15,1-5). Tenha a palavra o Abade P. Bendikt

Baur para explicitar o que isto significa:

"A vida da videira, Cristo e a vida dos ramos, os cristáos, sao urna só vida. Sao urna só vida, um só sofrimento, um só esforgo e ¡uta, um amor

idéntico ao que Cristo tem pelo Pai; a oragáo, o sofrimento e o amor do

Senhor assume a nossa paupérrima oragáo, o nosso sofrimento e o nosso

amor. É istoque nos dá coragem e é nistoque nos confiamos. Na pobreza

e no nada da nossa vida, ñas nossas oragoes e sacrificios, ele, o Senhor

transfigurado, oferece-nos o valor e a forga de suas oragoes, o seu amor

pelo Pai. É tudo isto que queremos significarquando dizemos: "Ele está

em nos e nos nele. Vivo eu, oro, mas na verdade nao eu, é Ele que vive e

ora em mim. Ele vive a minha vida, Ele carrega a minha vida, Ele toma e

invade a minha vida com o valor e a forga da sua própria vida" (A Vida

Espiritual, p. 161).

Verdade é que estas propos¡cóes sao sustentadas táo somente pela fé. A fé, porém, desembocará na visáo face-a-face. Entrementes, "nossa vida está escondida com Cristo em Deus. Quando Cristo, nossa vida,

aparecer, também nos apareceremos com Ele na gloria" (Cl 3, 3s).

Eis algumas reflexóes que se enquadram bem no conceito de Qua

resma - Páscoa. Preparemo-nos para a grande solenidade da Ressurrei-

cáo do Senhor!

97

E.B.

PERGUNTE E RESPONDEREMOS

Quem foi Jesús?

Ano XLVIII - N9 537 Marco de 2007

HÁ DOIS JESÚS: UM REAL HISTÓRICO E OUTRO, PROJETADO PELA FÉ?

(SUPER INTERESSANTE)

Em síntese: A revista SUPER INTERESSANTE publicou uma re- portagem que apregoa haverdois Jesús: um histórico real e outro existen te somente na fé das pessoas religiosas. Para defender esta tese, tenta

reconstituir as condigóes de vida da Palestina de outrora e ai enquadra

Jesús, prescindindo de qualquertestemunho de autoresposterioresa Cristo sobre o Jesús histórico. Os pósteros teráo feito umjudeu pouco significa tivo o Messias (a reportagem nao dizcomo istoaconteceu). - Na verdade, o artigo de SUPER INTERESSANTE nada diz de novo se confrontado

com publicagoes críticas anterioresjá mais de uma vez refutadas, como

se verá a seguir.

*

*

*

Em sua edicao de 13 de dezembro 2006, {pp. 82-89), a revista SUPER INTERESSANTE publica uma reportagem de Rodrigo Cavalcan- te intitulada "Quem foi Jesús?". Afirma haver dois Jesús: um real histórico

bem diferente daquele que os Evangelhos propóem como resultado de

uma elaboracáo teológica. Vamos, a seguir, analisar e comentar o artigo, comecando por expor objetivamente

1. O conteúdo do artigo

Logo no inicio do seu artigo o autor apresenta a tese:

"Jesús nao nasceu em Belém. Teve varios irmáos e sua morte pas- sou quase despercebida no Imperio Romano. A historia e a arqueología

desencavam o Jesús histórico- um homem bem diferente daquele descri

to nos evangelhos" (p. 82).

98

HÁ DOIS JESÚS: UM REAL HISTÓRICO E OUTRO, PROJETADO PELA FÉ? 3

Rodrigo Cavalcante comeca por dizer que Jesús nao nasceu em Belém, sem o fundamentar satisfatoriamente. "Era filho de José, irmáo de Tiago". - Afirmacáo baseada numa ins-

cricáo encontrada numa pequeña caixa de pedra achada em Jerusalém1,

redigida em aramaico e em caligrafía de dois mil anos atrás.

Nao nasceu no inicio da era crista, mas no ano 4 a.C. Ignora-se a

data precisa do seu nascimento. A Igreja em 525 a fixou em 25 de dezem-

bro, porque na mesma época se celebravam as festas pagas do deus

Mitra em Roma.

A matanca dos inocentes e a fuga da sagrada Familia para o Egito seriam produto de "urna licenca poética" do texto ou episodios nao histó ricos, forjados para significar que Jesús é o novo Moisés.

Jesús deve ter nascido em Nazaré, em casa, cujo solo era de barro,

de familia de camponeses extremamente pobres, cercado de animáis.

Nao exerceu a profissáo de carpinteiro, pois Sao José nao era car- pinteiro, mas camponés. Jesús, o seguiu na lavoura; talvez tenha-se de dicado um pouco á arquitetura em Séforis (a seis quilómetros de Nazaré).

Os romanos acabrunhavam o povo judeu simples com elevados impostes, de modo que Jesús houve por bem iniciar urna pregacio de índole social, movido pelas injusticas que oprimiam sua gente; esta aguar-

dava a irrupcáo do Reino dos céus para breve.

Afim de se preparar para a chegada do Reino, Joáo Batista chama- va os judeus ao Batismo, que significava o apagamento dos pecados. Jesús estranhamente recebeu o Batismo; este, porém, implicou um divisor de aguas na vida de Jesús.

Rodrigo Cavalcante nao nega a historicidade dos milagres de Je sús que curavam doentes. Mas pergunta: "como Jesús conseguiu curar

as pessoas?". Para tal interrogacáo o articulista nao tem resposta.

Jesús morreu crucificado, porque irritou os fariseus com sua prega- cao e seus milagres. Tal morte nao passava de um evento policial, sem grande repercussáo. Todavía os seus discípulos imaginaram-no ressusci-

tado, concepcáo esta que Sao Paulo adotou e propagou, fazendo de Je sús o Messias nao só dos judeus, mas de todos os homens. Este gesto de

S. Paulo foi corroborado pelo Imperador Constantino no século IV. Assim

Yeshua tornou-se o Cristo ou o Messias universal. - Este final da estória de

Jesús reconstituida pelo repórter é sumario e insuficientemente explicado.

Vejamos agora:

1 A autenticidade deste foi rejeitada pelos estudiosos.

99

PERGUNTE E RESPONDEREMOS 537/2007

2. Que dizer?

Antes do mais, notemos que Rodrigo Cavalcante nada diz de novo

em comparacáo com quanto já disse a crítica racionalista. O que a repor-

tagem tem de próprio, é a reconstituicáo do ambiente humano em que

terá vivido Jesús, gracas aos progressos da arqueología e da historia

antiga. O fato, poróm, de ter Jesús vivido como os demais judeus viviam, nao quer dizer que nao podia ser o que os Evangelhos Ihe atribuem: Deus Filho feito homem em tudo, exceto no pecado. - Como quer que seja,

analisemos de mais perto as etapas de currículo de vida proposto pela

reportagem.

  • 2.1. Nascimentó de Jesús

A Escritura, a Tradicáo oral e a arqueología atestam que Jesús nas

ceu em Belém, pois era da estirpe de Davi e, por isto, José e Maria devi-

am recensear-se na cidade de Davi. - O fato de terJesús vivido em Nazaré nao exige tenha lá nascido; é gratuita a negacao da natividade do Senhor

em Belém, deve-se a um preconceito sem fundamento objetivo. De fato Jesús nao nasceu no inicio da era crista, mas provavelmen-

te no ano 6 a.C, pois Herodes o Grande, que mandou matar as criancinhas

de Belém na idade de dois ou menos anos, morreu no ano 4 a.C; donde

se vé que Jesús nasceu antes do ano 4 a.C. dentro do bienio que vai de 4

a 6 a.C. O cómputo falho é devido a Dionisio o Pequeño (século VI); que

deu origem á atual divisáo dos tempos, que nao diminui em coisa alguma

a figura de Jesús.

Adata de 25 de dezembro foi escolhida porque entáo se celebrava

o Deus Mitra ou o Sol Invicto; a Igreja queria assim dizer que o verdadeiro

Sol Invicto é Jesús; foi "balizada" a festividade paga.

  • 2.2. Os Irmáos de Jesús

A questáo dos irmáos de Jesús já foi freqüentemente abordada em PR, ver PR 472/2000, pp. 432ss; 395/1995, pp. 172ss; 376/1993, pp. 414ss;

370/1993, pp. 124ss. Em resumo, deve-se dizer que a palavra grega

adelphós traduz o hebraico ah, que significa párente ou familiar (o grego

do Novo Testamento supóe o aramaico da pregacáo oral dos Apostólos);

esta interpretacáo é corroborada pelo fato de que Jesús, ao morrer, confia

sua máe a Joáo, filho de outra familia ou de Zebedeu e Salomé. Ademáis

toda a Tradicáo oral viu nesses adelphós primos de Jesús; seja citado o

Protoevangelho deTiago, datado de 150 aproximadamente, que professa

ser Jesús filho único, pois seus "irmáos" seriam filhos de Sao José em primeiras nupcias. Nao se pode ler a Escritura independentemente da Tradicáo oral que a bercou e ilustra.

100

HÁ D01S JESÚS: UM REAL HISTÓRICO E OUTRO, PROJETADO PELA FÉ? 5

2.3. Vida oculta e pregacáo

Que Jesús tenha sido carpinteiro, lavrador ou construtor de casas,

é questáo de pouca importancia. Mais verossímil e fundamentado tanto

no Evangelho quanto na Tradicáo oral é dizer que for carpinteiro.

Jesús, aos trinta anos, comecou a pregar nao por causa de injusti- cas sociais ou por motivos políticos, mas por razóes estritamente religio

sas ou para revelar Deus e seu plano aos homens: "Ninguém jamáis viu a

Deus; o Filho Unigénito, que está no seiodo Pai, no-lorevelou" (exegésato,

fez a exegese). 2.4. Os milagres de Jesús

O repórter nao ousa negar a historicidade dos milagres de Jesús,

mas confessa nao os poder explicar. Na verdade, tais feitos eram semeia ou sinais, como diz Sao Joáo (cf. Jó 12, 37), sinais que credenciavam a

pregacáo de Jesús e preparavam a aceitacáo do milagre ou sinal da res

surreicáo, comprovante máximo da messianidade de Jesús (cf. Mt 12, 38-42), a realidade desses sinais explica que muitos judeus tenham reco-

nhecido em Jesús o vencedor da morte, quando apareceu ressuscitado

aos discípulos.

2.5. A morte e a ressurreicáo de Jesús

Á primeiravista, a morte de Jesús crucificadofoium fracasso, que

afugentou os Apostólos, com excecáo de Joáo. Nao chamou a atencao das autoridades romanas, porque ocorreu num rincao do Imperio Roma no numa época em que muitos sediciosos insignificantes eram executa- dos. Algo, porém, deve teracontecido para que os Apostólos recuperas-

sem a fé em Jesús. Esta nao se deve á alucinacáo ou efeito mentalmente

doentio, pois os seguidores de Jesús estavam longe de imaginar um Mes- sias crucificado e ressuscitado. A incredulidade que os discípulos opuse- ram á noticia da ressurreicáo foi superada pela evidencia dos fatos; caso

típico é o de Tomé incrédulo, que pediu e obteve credenciais para crer (cf

Jo 20, 24-29).

2.6. Sao Paulo e o Imperador Constantino De perseguidor que era, Sao Paulo tornou-se o grande arauto da

ressurreicáo e da messianidade de Jesús, vencido pela eloqüéncia dos acontecimentos o Jesús que ele apregoa é o Jesús dos evangelhos aprofundado em longa meditacáo; o Jesús da fé crista é o Jesús da histo ria auténticamente interpretado. Nao há dois Jesús, mas um so, ora visto

como companheiro de caminhada pelas estradas da Palestina, ora visto

em profundidade como o homem no qual residiam os tesouros da Divin-

dade {cf. Cl 1, 19; Ef 1,15-22; 3, 8).

101

PERGUNTE E RESPONDEREMOS 537/2007

Constantino apenas corroborou essa fé dos cristáos, dando-lhes

liberdade de expressáo. É falsaa tese de Richard Rubenstein segundo a

qual Jesús "se tornou Deus em Nicéia", num Concilio presidido pelo Im

perador; tal tese já foi refutada em PR 534/2006, pp. 530ss. O Novo Tes

tamento atesta a Divindade de Jesús, testemunho este ao qual faz eco a

Tradicáo crista anterior a Constantino. 3. Conclusáo Verifica-se, mais urna vez, que a crítica racionalista dos Evange-

Ihos é inconsistente; parte de preconceitos gratuitamente afirmados. O

repórter de SUPER INTERESSANTE se apóia em muitos autores entre vistados por ele, dando a impressáo de trazer a público a última palavra

da exegese bíblica, impressáo, porém, que se dissipa após atento exame dos argumentos da crítica e dos textos bíblicos citados pelos críticos

racionalistas.

Bioética no inicio da vida, Cotetánea de artigos organizada por Ana Paula Pacheco Clemente. - Ed. Vozes, Petrópolis 2006,263 pp.

A organizadora é docente de Bioética na Faculdade Sao Camilo de

Minas Gerais; aprésenla, como diz o subtitulo da obra, "dilemas pensados de forma transdisciplinar", o que faz desse livrourna rica fonte de informa-

góes sobre reprodugáo humana médicamente assistida (fecundagáo artifi

Todavía deixa

). muitas questóes abertas quando poderiam ser esclarecidas em resposta;

...

cial, clonagem, portadores de H.I.V., direitos da familia

requer-se coragem para dizer toda a verdade quando ela deve ser dita. A

obra nao refere a posigáo da Igreja diante da problemática abordada; nem mesmo Jetóme Lejeune é citado onde sería de esperar; á p. 213, lé-se:

"Quando sabemos que um blastocista é urna massa de células, perguntamo- nos: já é um ser humano ou um ser pessoa? Quando utilizamos essas

células (embrionarias), matamos urna vida ou urna possível vida?"- O dr.

J. Lejeune demonstrou haver um realserhumano desde a fecundagáo do óvulo. Em conseqüéncia pode-se dizerque a obra é valiosa fonte de infor-

magóes científicas, mas incompleta do ponto de vista ético.

102

Relígiosidade:

"COMO O BRASILEIRO VÉ DEUS"

(SELEQÓES)

Em síntese: Um inquéritorealizadoporSELEQÓES revelaque95%

dos brasileiros créem em Deus. Tratase, porém, de urna religiosidade muitas vezespouco aprofundada ou mesmo eclética, carente de instrucáo

adequada. O número dos que dizem nao terreligiáo vem aumentando: em 40 anos passou de 0,5% para 7,4%. Todavía "nao terreíigiáo"nao signifi

ca nao crerem Deus; a reíigiáo vai-se tornando, em muitos casos, mera

mente subjetiva ou individualista.

*

#

*

A revista SELEQÓES (Reader's Digest)1 realizou um ¡nquérito no

Brasil, na Argentina e em 14 países da Europa sobre a maneira como a populacáo vé Deus e os valores invisfveis. No Brasil, a pesquisa foiefetu- ada pela internet com 2.600 pessoas maiores de 18 anos ñas cinco regi-

óes do país.

A seguir, proporemos os resultados da pesquisa e os comentare mos brevemente, certos de que tais pesquisas sao por vezes sujeitas a

oscilares.

1. Os resultados da pesquisa

Eis esquemáticamente quanto resultou da pesquisa empreendida

porSELEQÓES:

1.1. Vocé eré em Deus? Sim. Polonia 97% Brasil 95% Portugal 90% Rússia 87% Austria 84%
1.1. Vocé eré em Deus?
Sim.
Polonia
97%
Brasil
95%
Portugal
90%
Rússia
87%
Austria
84%
Espanha
80%
Sui'9a
77%

1 Ver a edigáo de dezembro, pp. 96-101.

103

PERGUNTE E RESPONDEREMOS 537/2007

Argentina 74% Finlandia 74% Hungría 73% Alemanha 67% Reino Unido 64% Franca 61% Bélgica 58% Países
Argentina
74%
Finlandia
74%
Hungría
73%
Alemanha
67%
Reino Unido
64%
Franca
61%
Bélgica
58%
Países Baixos
51%
República Checa
37%
1.2.
Eu creio num Deus que ...
É amor
65%
Está presente na natureza
60%
É justo
59%
Nos dá livre-arbítrio
55%
Está presente no interior do homem
46%
É urna torga impessoal
32%
'o
Recompensa os bons e castiga os maus
14%
É urna pessoa
7%
1.3.
Vocé eré em vida após morte?
Sim
Polonia
81%
Austria
67%
Suíca
64%
Espanha
60%
Brasil
58%
Reino Unido
58%
Portugal
57%
Finlandia
51%
Rússia
51%
Franca
45%
Países Baixos
45%
Alemanha
43%
Hungría
43%
Bélgica
37%
República Checa
36%

104

9

"COMO O BRASILEIRO VÉ DEUS"

1.4.0 Brasileiro acredita em ... ? Poder das oracóes Mau-olhado 53% 51% Poder dos passes Horóscopo
1.4.0 Brasileiro acredita em
...
?
Poder das oracóes
Mau-olhado
53%
51%
Poder dos passes
Horóscopo
38%
22%
Bruxaria e feiticos
21%
Quiromancia
16%
Taró
15%
Correntes de e-mails
10%

2. Comentando ... 2.1. Como entender os 95%?

A religiosidade do povo brasileiro vem numéricamente logo após a

cota mais elevada, que é a da Polonia. Seria o nosso país um dos mais

religiosos do mundo?

Respondemos: Sim e Nao. Na Polonia a religiosidade é homogé nea e forte, professando a fé católica, ligada as tradicóes nacionais do povo polonés. No Brasil, ao contrario, ao lado da religiosidade homogé nea de setores católicos, existe o sincretismo religioso. A Religiáo ou as religióes se tomaram um super-mercado, onde cada cidadáo escolhe o que

quer, fazendo assim a sua religiáo. O individualismo tende a se fortalecer,

segundo o adagio popular; "cada um na sua". Este sincretismo pode carica

turara face da religiáo, com expressóes fanáticas e desumanas; morticinio

...

É

o que

de enancas "endiabradas", supersticóes, procedimentos mágicos

se nota no quadro nQ 4 que a repórter Claudia Soares assim comenta:

"Confessa a artesa Verónica Quintana, 21 anos, de Foz do Iguagu (PR). Eu acredito em tudo; espíritos, feitigaria, horóscopo e até em simpa

tía,queja fize funcionaram. Ás vezestambémacendo urna velaparameu

anjo da guarda".

O rol de crengas nao para por ai: 38% dos consultados acreditam

em passes (ato de passar as máos, repetidas vezes, diante ou ácima de

urna pessoa, com o objetivo de magnetizá-la ou curá-la pela forga

mediúnica, e em previsáo do futuropormeio do horóscopo (22,6%), quiro

mancia (16,3%) e do taró (15,9%)" (p. 101). 2.2. Pronto Socorro espiritual e material

A religiosidade no Brasil é nao raro antropocéntrica e nao teocéntrica;

faz (ou imagina fazer) Deus servir ao homem, dando-lhe saúde e prospe-

ridade material, em vez de ser um servico da criatura ao seu Criador, a

quem o homem deve adoracáo, acáo de gracas expiacáo e também ...

105

PERGUNTE E RESPONDEREMOS 537/2007

10

súplica. Existem mesmo igrejas que se dizem "socorristas", igrejas que as pessoas freqüentam enquanto precisam de ajuda, sem compromisso

com o Senhor Deus. Na verdade, servir Deus é reinar (Missal Romano).

2.3. Vida após a morte

É estranho que alguém possa crer em Deus sem admitir urna vida

postuma. É o que declara o veterinario Marcos Paulo Pinheiro, 30 anos,

de Salvador (BA); "Creio em Deus e agradeco a Ele tudo quanto me acon

tece de bom, mas para mim a gente nasce, cresce, se reproduz e morre.

Depois, acabou. A gente precisaríaverpara acreditar que existe vida após

a morte" (p. 101).

Se nao há vida postuma, nao se explica a vida presente. Deus nos

criou cheios de anseios inatos á Verdade, ao Bem, ao Amor, á Vida, á

Ora tais anseios nao sao preenchidos antes da morte, pois

Felicidade ...

tudo o que é valor neste mundo está sujeito á deterioracáo, deixando-nos

frustrados. Porconseguinte, se creio em Deus Criador, devo crerque Ele,

tendo-me feito táo cheio de aspiracóes sadias, nao deixará de Ihes satis- fazer em urna outra vida, onde teremos em plenitude os bens que Ele mesmo nos faz almejar. Se assim nao fosse, nossa existencia nao teria

sentido, seria mesmo um absurdo.

Deus nos criou porque o Bem é difusivo de si; sendo Ele o Sumo

Bem, criou-nos para nos fazer consortes da sua bem-aventuranga. Nao

há outra resposta para a questáo: "por que existo?".

Alias, crenca em Deus e vida postuma sao tidos pelos pesquisado-

res da pré-história como urna binomio inseparável. Já os povos mais an-

tigos sepultavam seus mortos, dando-lhes armas e utensilios que Ihes

pudessem ser úteis no além, por onde deveriam chegar á Divindade. 2.4. Pessoa ou forca impessoal?

Registra-se que apenas 7% dos entrevistados responderam que

Deus é pessoa, ao passo que 32% o tiveram como forca impessoal. A

contradicáo se deve á diversa conceituacáo de pessoa. Se considero Deus

como entidade dotada de semblante de carne e osso, devo dizer que Deus

nao é pessoa. Todavía o conceito de pessoa nao consiste em corporeidade,

mas afirma que pessoa é "rationalis naturae individua substantia" ou um individuo no qual subsiste a natureza humana, que é natureza racional

(que raciocina ou pensa). O conceito de pessoa portanto se prende á capacidade de pensar e amar. Em tal contexto, deve-se dizer que Deus é

um Ser Pessoal, porque pensa e ama; a fé crista chega a afirmar que a vida em Deus é táo rica que ela se afirma tres vezes ou em tres Pessoas.

Que seria urna forca impessoal? - Urna corrente elétrica, um mag

netismo

...

?

106

"COMO O BRASILEIRO VÉ DEUS"

A existencia da ordem neste mundo pede um Criador inteligente e benévolo, que, por ser nobre e magnánimo, nao tira a liberdade de acáo

do homem, mas se compromete a tirar dos males causados pelo homem bens ainda maiores.

2.5. Instrucáo Religiosa

Vé-se que o senso religioso é inato em todos os homens. Leve-se

em considerado o caso da Rússia: sujeita a um regime ateu militante desde 1917 até 1989, tem atualmente, após a queda do comunismo, 87%

de crentes em Deus. O que falta é o aprofundamento das verdades da fé.

A fé nao é um sentimento vago, mas um ato da inteligencia humana que se aplica ao mais sublime objeto do conhecimento (Deus). Cabe portanto ao intelecto humano procurar conhecer melhor o que professa, pois nin- guém ama o que nao conhece e só pode amar na proporcao de quanto conhece. Alias nota-se um interesse geral de homens e mulheres pelos

valores invisíveis, interesse mal encaminhado por Ihe faltar a luz da inte

ligencia. É, pois, para desejarque os fiéis mais instruidos na fé procurem

colaborar na resposta a essa clamorosa demanda do homem de hoje,

que é religioso, mas órfáo de educadores na fé.

E como colaborar? - Mediante um testemunho de vida coerente e o

estudo atualizado das verdades da fé, a fim de poder transmiti-las ao seu

próximo.

GOVERNO DA AUSTRALIA, DESESPERADO PELATAXA CRESCEN- IGREJA CATÓLICA

TE DE ABORTOS, ELABORA PACOTE MILIONÁRIO E CONTRATA A

Este é mais um exemplo dramático de como a legalizacáo do abor

to nao faz com que as taxas de abortos diminuam, ao contrario do que

afirmam em todo o mundo os promotores do aborto e, no Brasil, os pro

motores do projeto da Comissáo Tripartite que pretende legalizar o aborto no Brasil durante os nove meses da gravidez.

O governo da Australia, desesperado por ter perdido o controle so bre a taxa de abortos que nao para de subir no país, elaborou um pacote

de 51 milhóes de dólares australianos, aproximadamente 40 milhóes de

dólares americanos, para contratar a Igreja Católica na montagem de um

servico nacional de aconselhamento sobre gravidez e aborto. Tres orga-

nizacóes pro aborto que poderiam ter sido contratadas porque já ofere-

cem estes servicos foram simplesmente ignoradas. O Ministerio da Saú-

de afirma que o número de abortos na Australia está excessivamente alto e pensa que os recursos destinados pelo governo poderáo ter um impac

to positivo na diminuicáo desta taxa.

107

Livro polémico:

"CONVERSAS COM LUTERO"

Por Elben Lenz César

Em síntese; Numa entrevista ficticia, concedida a um repórter,

Martinho Lutero narra sua vida muito acidentada e faz severas críticas á

Igreja nem sempre fundamentadas (como no caso da "venda de indulgen cias"). Tratase de urna discreta apología de Lutero, que nao refere senáo valores decorrentes da sua obra contestataria.

O Sr. Elben Lenz César é o diretor-redator da revista protestante ULTIMATO; tem escrito varias obras de cunho religioso, das quais a mais

recente tem o título "Conversas com Lutero. Historia e Pensamento". Em

30 capítulos (conversas) Lutero, entrevistado ficticiamente, fala da sua ori-

gem familiar e das suas relacóes com o Papa, o Imperador e os nobres

alemaes, a Maravilhosa Graca, a Virgem Maria, a morte, o fim do mundo ...

As afirmacóes de Lutero sao, em parte, tiradas das suas próprias obras, e

em parte correspondem ao que Lutero diria na época da entrevista, que

ocorreu a partir de 2 de julho de 1545 (um ano antes da sua morte).

A seguir, serao analisadas algumas das sentencas propostas pelo livro em foco.

1. "Mudou a face da térra"

Á p. 19 lé-se urna frase de Paúl Tillich: "O único que realizou urna

verdadeira transformacao que mudou a face da térra foi Martinho Lutero".

Estes dizeres contrapóem-se á afirmacáo constante de que foi Je

sús Cristo quem mudou a face da térra, dignificando o homem e a mulher e pregando o seu Evangelho; Ele dividiu os tempos em "anteriores" e

"posteriores" a Cristo, dando origem a urna contagem dos anos adotada

por todos os povos; todos reconhecem explícita ou implícitamente que estamos no ano 2007 depois de Cristo. Lutero transformou a face da Religiáo crista, que se estende pelo

universo inteiro, comunicando á Religiáo duas características negativas e

nao positivas:

1.1. Subjetivismo e individualismo

O principio básico da mensagem de Lutero ensina que "cada indivi

duo é livre para interpretar a Biblia segundo julgar melhor". Em conse-

108

"CONVERSAS COM LUTERO"

13

qüéncia cada discípulo de Lutero está habilitado a fazer seu próprio Cre

do e sua própria igreja. Daí o esfacelamento do Cristianismo protestante,

que em nossos dias conta centenas ou mais de comunidades eclesiais, nem sempre devidamente estruturadas e por vezes atendendo a interes- ses pecuniarios do respectivo fundador.

A mentalidade individualista e subjetivista passou para o campo da

filosofía ocasionando a tese de que a verdade é relativa. Pode-se obser

var na sociedade moderna um forte cunho individualista expresso pela

fórmula existencialista: "Eu e minhas circunstancias", quase em paralelo

com o axioma "Eu e minha Biblia".

1.2. Antiintelectualismo

Sao dizeres de Lutero: "O diabo se apossou de tal modo dos sofis

tas e das universidades que eles próprios nao mais percebem o que fa-

Para ser mais preciso e talvez mais virulento, devo

lam ou ensinam ...

denunciar que o reitor geral de todas as universidades nao é Cristo nem o

Espirito Santo nem o Anjo do Senhor; é Abadon em hebraico ou Apoliom

em grego - aquele anjo do Abismo que encontramos no Apocalipse (Ap 9

11)."(p. 66).

Lutero propugnava o estudo da Biblia pela Biblia sem recurso á Filosofía que razáo humana; esquecera o valor de grandes escritores da Tradicáo crista, anteriores a Lutero, como S. Agostinho, S. Atanásio, S. ...

Basilio de Cesaréia

e outros, que contribuíram para a definicáo de ver

dade crista nos sete primeiros Concilios da historia

verdade crista que

...

as heresias (ariana, macedoniana, nestoriana, monofisita

diluir.

...

) ameacavam

Esse antiintelectualismo se deve á tese de que, para Lutero, a natu- reza humana está vulnerada pelo pecado, de modo que nada pode produ-

zirde útil para a fé crista e a teología. Esta afirmacáo é equivocada, pois,

com a graca de Deus, a razáo pode contribuir para ilustrar os dogmas:

como pode Deus ser uno e trino, como pode Jesús ser Deus e homem, ...

Sem as luzes da razáo, o

como pode Jesús dizerque o pao é seu corpo

cristáo pode cair na supersticáo e ñas crendices, que desfigurem a face

do Cristianismo.

A bem da verdade, deve-se dizer que Lutero é herdeiro do anti

intelectualismo que comecou no século XIII com Sigero de Brabante (ha- veria duas verdades - a da razáo e a da fé, podendo urna contradizer á

outra, sem que o estudioso despreze urna ou outra). A corrente assim

iniciada passou pelo voluntarismo de Guilherme de Ockham (a verdade

depende únicamente da vontade de Deus, de modo que 2 + 2 poderiam

ser 3, se Deus o quisesse).

109

PERGUNTE E RESPONDEREMOS 537/2007

14

Individualismo e antiintelectualismo, eis duas atitudes que, sem

dúvida, receberam forte impulso da parte de Lutero e hoje em graus di

versos, marcam a humanidade.

2. Os pecados dos filhos da Igreja

No livroem foco, Lutero se detém longamente no relato de mazelas de filhos da Igreja. Estas devem ser reconhecidas, sem dúvida, mas nao

eram, nem sao, motivo de cindir a Igreja. Ao contrario, pode-se dizer que

correspondem á previsáo de Jesús na parábola do trigo e do joio: o patráo

nao quis arrancar o joio antes da messe, mas desejou que o trigo e o joio

crescessem juntos até o momento da colheita; por conseguinte um cam

po sem joio ou urna igreja sem pecadores sao utopias e nao a Igreja de

Cristo; esta terá sempre em seu bojo filhos pecadores, que nao poluem,

nem poluiráo, a graca de Deus que vem através dos cañáis da Igreja (cf.

Mt 13, 24-30). Donde se vé que nao se pode repetir a fundacáo da Igreja,

que Cristo fundou. O que importa é que seus membros sejam santos e

colaborem para a santificagáo de seus semelhantes.

Sabemos que Lutero nao quería o cisma, mas ele nao se pode exi

mir de urna parte de responsabilidade na ocorréncia do cisma.

É oportuna a distincáo entre a Máe Igreja e os filhos da Igreja. A

Máe Igreja é o que nela há de indefectível, porque Cristo Ihe assiste até o

fim dos tempos <Mt 28, 18-20). Os filhos da Igreja somos nos, que nem

sempre procedemos de acordó com as normas ditadas por essa santa

Máe, Esposa de Cristo sem mancha nem ruga (cf. Ef 5,25). Quem consi

dera as falhasdos filhosda Igreja, repudie-as, mas nao se separe da Máe

Igreja; antes procure cooperar para sanar os irmáos enfermos e os seto-

res da Igreja afetados por eles. 3. Venda de indulgencias

O autor do livro em foco refere-se, muitas vezes, á venda de indul

gencias.

Ora a Igreja nunca propós venda de indulgencias, como freqüen- temente já foi dito em PR; ver 442/1999, p. 127ss; 309/1988, p. 95ss; se

algum pregador apregoou tal abominacáo, ele o fez por conta própria, ao contrario do que ensina a Igreja. O que houve, é o seguinte: todo pecado,

mesmo depois de perdoado, deixa suas raízes na alma do penitente (tan

to que este fácilmente recai ñas mesmas faltas). Tal amor desordenado

ao pecado deve ser extirpado mediante um amor mais forte a Deus. Cons

ciente disto, a Igreja propóe aos seus fiéis obras que, praticadas com total repudio do pecado e pleno amor a Deus, podem contribuir para eliminar os amores desregrados remanescentes na alma do penitente; tais obras

"indulgenciadas" sao, e eram, oracoes, práticas de caridade, esmolas ...

110

"CONVERSAS COM LUTERO"

15

Os frutos dessas boas obras podem ser aplicados, á guisa de sufragios,

em favor das almas do purgatorio. Note-se bem: as esmolas podiam ser

enriquecidas de indulgencias, o que dava a impressáo de que eram o

preco simoníaco de algum valor espiritual, interpretacáo falsa. É de sali-

entar também que as indulgencias supunham o perdáo dos pecados pelo

sacramento da Reconciliacáo e incidiam apenas sobre as raízes do peca

do remanescentes após o perdáo.

Seria para desejarque nossos irmáos protestantes tomassem cons- ciéncia disto e nao imputassem aos católicos a venda de indulgencias.

Verdade é que nao Ihes é fácil compreender o arrazoado atrás exposto, visto que, para Lutero, o homem está irremediavelmente vendido ao pe

cado e nao há como extinguir os resquicios do mesmo persistentes na

alma do pecador após o perdáo. 4. Justificacáo e Salvacáo

É freqüenteadmitir-seaidentidadedejustificacáoesalvacáo,como

se

á

p. 224

da obra em

foco:

Sao atribuidas a Lutero as seguintes palavras: "Em Cristo fuisalvo

(isto é justificacáo), estou sendo salvo (isto é santificagáo) e serei salvo

(isto é glorif¡cacao).

A respeito observamos:

Justificar é "fazer justo", tirar alguém do pecado e torna-lo amigo

de Deus; é a entrada na vida da graca ou o comeco de urna vivencia crista. Tal dom é gratuito; nao se deve a anteriores obras da pessoa, mas apenas requer a fé. Salvacáo é a perseveranca na graca de Deus até a última hora; esta persistencia nao ocorre se nao sao praticadas boas obras,

como diz Sao Tiago (Tg 2,19): a fé morta ou sem obras é a do demonio.

Nao basta ter fé para ser salvo, mas sao exigidas obras de amor a Deus e ao próximo correspondentes á fé. Como se vé, Sao Paulo insiste na suficiencia da fé para receber a graca da conversáo, ao passo que Sao Tiago trata da necessidade de obras boas (praticadas com a graca de

Deus) para chegar á salvacáo no fim da vida terrestre. Também esta concepcáo deve parecer estranha a quem segué

Lutero, que diz o seguinte:

"A Escritura propóe um ser humano nao só amarrado, miserável, cativo, enfermo e morto, mas também dominado por mais urna miseria, a miseria da cegueira. De modo que ele se eré livre, beato, soltó, po tente, sao e vivo. Embora descrito como corrupto e cativo, o ser huma

no ainda despreza e ignora soberbamente sua corrupgáo e seu cativei-

ro"(p. 152).

111

PERGUNTE E RESPONDEREMOS 537/2007

16

O serhumano é um cavalo, ora montadopor Deus para fazero bem,

ora montado pelo diabo para fazer o mal (p. 154).

Quem assim pensa, nao pode conceber obras boas livres e merito

rias.

Nao nos deteremos sobre outros pontos do livro em foco, mas cita

mos, á guisa de complemento:

PR 397/1995, p. 271 (principáis linhas doutrinárias do protestantis

mo);

PR 368/1993, p. 48 (fé e obras);

PR 455/2000, p. 156 (Lutero e justif¡cacao);

PR 429/1998, p. 82 (Lutero e Maria SSma.).

Em conclusáo, reconhecemos o zelo religioso do Sr. Elben César

nosso amigo, mas, a bem da verdade, julgamos necessário propor tais

comentarios a seu livro sobre Lutero.

Os Templarios, porAlfredo Paschoal. Ed. Madras, Sao Paulo 2006,

339 pp.

O autor escreveu sobre Sao Paulo em termos aceitáveis e clássi- cos. Apresenta-se também como autor de um livro sobre os Cavaleiros

medievais ditos "Templarios", ligando essa Ordem religiosa crista com antecedentesjudaicos e a construgáo do templo por Salomáo em Jerusa- lém no sáculo X a.C; estende outrossim a historia dos Templarios medie

vais até os tempos atuais, como se a Ordem crista extinta em 1312 tivesse

sobrevivido clandestinamente até os días atuais. Esta concepgáo tem sa

bor magónico e esotérico, como também esotérica é a lenda do Santo

Graal, que A. Paschoal parece abonar como fidedigna. Alias a editora

Madras é magónica. O livroportanto apresenta auténticos fatosjuntamen

te com estórias fantasiosas nao fundamentadas. Supóe erudigáo, encami- nhada para apresentar verdades auténticas e preconceitos.

112

Do Protestantismo ao Catolicismo:

'ELES PERCEBERAM A VERDADE'

Em sintese: Nos Estados Unidos ex-ministros e outros membros de Igrejas Protestantes estáo-se convertendo ao catolicismo depois de

perceberem porsipróprios que a Igreja Católica é a Verdadeira Igreja de

Jesús.

Vía internet recebemos a seguinte mensagem:

Um fenómeno está acontecendo nos Estados Unidos: de há alguns

anos para cá, urna grande quantidade de protestantes vem-se converten

do ao catolicismo. O interessante é que ex-pastores estáo tendo muita

influencia nessa conversáo. Dentre os que se destacam, citamos:

Dr. Scott Hahn - ex-pastor presbiteriano, hoje é professor na

Franciscan University of Steubenville, Ohio. Tornou-se um dos maiores

pregadores católicos dos EEUU. Convém salientar que, na sua fase es colar, ele foi um ferrenho aliciadorde jovens católicos para o protestantis mo, tendo distribuido ¡numeras copias do livro Román Catholicism, de

Loraine Boettner, conhecido como a biblia do anti-catolicismo. Sao mais

de 450 páginas contendo todo o tipo de distorcóes e mentiras sobre a

Igreja Católica. O cd do seu testemunho de conversáo atingiu o maior

número de copias distribuidas em todos os tempos.

O seu testemunho pode seracessado pelo sitewww.chnetwork.org/

scotthconv.htm.

Marcus Grodi, também ex-pastor presbiteriano, tem um programa

as segundas-feiras, as 20h, na televisáo EWTN (católica) com ótima au

diencia, no qual sempre entrevista um ex-protestante convertido. Muitos

ligam durante o programa para perguntar algo e terminam dizendo que já

se estáo convertendo.

E muitos outros mais, todos agora ufanos por serem católicos e mui- to empenhados em divulgar o Reino de Deus, que é a Igreja Católica.

Fato relevante é que eles cresceram e receberam formacáo no meio

protestante, odiando mesmo a Igreja Católica, num ambiente onde ela é

denominada "prostituta da Babilonia" e, de repente, sentiram que foram

engañados no seu aprendizado, principalmente quando falam da funda-

113

PERGUNTE E RESPONDEREMOS 537/2007

18

cao da Igreja (Mt 16,18-19) e na conversáo do pao e do vinho em Corpo

e Sangue de Jesús (Mt 26, 26-28).

No aspecto da divulgacáo, ¡números recursos sao utilizados como:

dvd's e cd's de testemunhos e palestras; livros. Surpreso pela Verdade,

com mais de 300.000 copias vendidas, trasestórias das conversóes de 11 ex-ministros protestantes, escritas poreles mesmos; tvs e radios católicas.

Em sua coluna semanal, publicada no jornalzinho da paróquia Ascensión Catholic Church (Melbourne-FL) no dia 13.08, o padre Tobin

abordou o tema com o artigo: "Leigos católicos deixando a Igreja, minis

tros protestantes se juntando á Igreja. O que está acontecendo?".

O padre enumera algumas razóes para os católicos deixarem:

• Encontraram lá urna igreja 'mais viva' do que a sua paróquia e

incitam outros católicos a fazerem o mesmo;

• Sao convidados por um amigo e se sentem atraídos pela música,

por 'boa pregacáo'.

• A(o) esposa(o) era mais forte na fé e influenciou a sua mudanca

de religiáo;

• Muitos católicos sao pobremente catequizados. Eles nao sabem porque acreditam, no que acreditam e sao incapazes para responder aos náo-católicos que os desafiam no porqué e no que eles acreditam;

O Pe. Tobin considera isso um fenómeno interessante, porque nos

últimos 20 anos, enquanto alguns membros católicos se vio, um número

crescente de ex-ministros liderados pelo Espirito Santo, se convertem ao

catolicismo. Também um grande número de leigos protestantes está se

juntando a nos.

Isso é fantástico, porque:

• Quase todos os ministros protestantes, agora católicos, cresce-

ram numa atmosfera anti-católica;

• Foram muito bem educados ñas crencas de suas religióes;

• Juntar-se á Igreja Católica, significava perderem os seus traba-

Ihos, as suas regadas;

• Muitos deixaram comunidades de fé vibrante para se juntarem a

urna paróquia que poderia nao ser muito viva espiritualmente; Agora, perguntemo-nos: porque, entáo, esses ministros vieram para

a nossa Igreja?

Porque eles sentiram insipiencia na sua doutrina ou nos ensina- mentos que receberam. Nos seus testemunhos, percebemos que coisas

114

"ELES PERCEBERAM A VERDADE"

19

pequeñas é que comecaram a suscitar dúvidas em seus coracóes. E, nos

seus questionamentos, como nao obtinham resposta lá, procuravam-na

no catolicismo e assim adentravam ñas rafzes do cristianismo, só encon

tradas na Igreja Católica, a Igreja fundada por Jesús Cristo.

Mas esse processo de conversáo nao era breve e fácil. Levou mui-

to tempo, anos, de estudos profundos e comparacoes entre as doutrinas (a nossa igreja nao ensina isso assim e ai, percebiam a verdade). Tam-

bém significava urna mudanca radical ñas suas vidas. Nao somente nos

conceitos religiosos, mas também na vida de urna familia bem estruturada

com regalías, familiares de ambos os lados seguindo os mesmos precei- tos, amizades, a tradicao, tudo isso acabaría.

Mas a conviccáo, a alegría de ser seguidor de Cristo os fazia aban donar tudo aquilo para abracar a sua nova fé, a sua nova casa, a Igreja Católica. Eles tomaram a sua cruz para seguir a Cristo.

Entáo vocé, eu, todos nos católicos, temos a obrigacáo de conhe-

cer a fundo a nossa doutrina. Nao é o bastante dizer: sou católico, pois isso nao salva, nao leva a nada. A maneira com que esses ex-protestan- tes hoje falam da nossa fé com orgulho, com conhecimento profundo,

buscando ¡nspiracáo e citacóes nos nossos santos que desprezavam, nos

obriga a seguir os seus exemplos e a nos engajar também nesse trabalho

do Reino de Deus. Vocé, católico, aqui é a sua casa. Nao se deixe influen

ciar pela música, pela "boa pregacáo" de outras igrejas que foram criadas pelo homem. Lembre-se: Jesús Cristo fundou a Sua Igreja, deu as cha

ves a Pedro e esta permanece até hoje Una, Santa, Católica e Apostólica, com um único chefe, o Papa, sucessor de Pedro, sem atacar a nenhuma

religiáo. Ele nao fundou milhares e milhares de denominacóes que se multiplicam a cada día, sem ninguém saber quem é o dirigente. Se Deus

prega a uniáo, como poderá Ele estar na divisáo, no meio da mentira?

Firmino Augusto - set/06

Paulo, o Guerreiro Místico de Cristo, por Alfredo Paschoal. Edi-

ca~o do autor, Rio de Janeiro 2006,226 pp.

O autor é um arquiteto e historiador. Apresenta urna biografía do

Apostólo Sao Paulo em linguagem clara, sem descera polémica, mas ado

tando as concepgoes classicas a respeito da cronoiogia paulina (Paulo

teña sofrido o martirio em 67, após escrever treze epístolas), como tam

bém no tocante á questáo de "fé e obras" (reconhece a importancia dos

dizeres de Sao Tiago, que compiementam o pensamento paulino). O livro é recomendável como iniciacáo a temática paulina. Apenas pode-se duvidar da validade do predicado "o guerreiro"atribuido ao Apostólo; desmerece a

sua figura de pregador da Caridade táo claramente espelhada em 1Cor 13.

115

Diálogo com o mundo contemporáneo:

'PENSAR E VIVER A FÉ NO TERCEIRO MILENIO"

por Bernard Sesboüé SJ1

Em síntese: O autor procura apresentar as verdades da fe ao ho-

mem contemporáneo levando em conta as objegóes que o pensamento

moderno levanta contra o Credo Católico. A tarefa é válida, mas o autorse desvia, mais de urna vez, dos ensinamentos do magisterio da Igreja fazen- do concessóes ao racionalismo ou a correntes de pensamento nao acei

tas; assim no tocante á antropoiogia (nao distingue entre corpo e alma), a

escatologia (nao distingue tempo, evo e eternidade), ao pecado original

(seria o pecado do mundo)

A exposigáo doutrinária de Sesboüé carece,

...

as vezes, de clareza, o que dificulta a leitura da obra.

*

*

*

O famoso teólogo Pe. Bernard Sesboüé oferece ao público um gros-

so volume em que procura apresentar ao leitorcontemporáneo a fé cató

lica levando em conta as objecóes que a mentalidade de muitos contem

poráneos levanta contra ela. A intencáo é louvável, mas a execucáo da

tarefa nao satisfaz, como se verá a seguir.

1.0 Problema

Exporemos os pontos mais importantes abordados por B. Sesboüé.

1.1. O homem moderno

O homem contemporáneo "encontra-se numa especie de deserto, ...

onde nada mais tem sentido

Viversem ideal, sem objetivo transcenden

te torna-se impossível" (p. 9). aos ensinamentos do Papa, especialmente em

"Sao reticentes ...

materia de Moral. Será que crertem a vercom tudo isso? Eles sao sensí-

veis ao mercado comum das religióes. Finalmente onde está a verdade e

o que é a verdade!" (p. 11). O autor descreve muito vivazmente a angustia do homem que vive

sem saber porqué e lembra-lhe que é inevitável crer: crer nos outros, crer

crer ñas verdades

... que ultrapassam os limites do alcance da razáo humana ou crer em Deus

no médico, crer nos meios de comunicacáo social,

que se revela.

Tradugao de Manuel Rühuri. - Ed. Gráfica de Coimbra, Portugal, 679pp.

116

"PENSAR E VIVER A FÉ NO TERCEIRO MILENIO"

E quais seriam os pontos nevrálgicos que a fé propóe?

Sesboüé quer ser fiel ao Credo da Igreja, mas, para facilitar a acei- tacáo do homem contemporáneo, adapta certos artigos á mentalidade

moderna, alterando o sentido que a fé Ibes atribui.

  • 1.2. Corpo e alma

A título de rejeitar o dualismo platónico, Sesboüé rejeita a distincáo

de corpo e alma como se fossem dois elementos antagónicos: o primeiro

mau, o segundo bom; cf. p. 167: "o corpo é o Ser humano visto segundo

sua condicáo e sua fragilidade. A alma é o mesmo ser visto sob o ángulo

da sua dimensáo espiritual, inteligente e livre".

A réplica será proposta sob o título 3 deste artigo.

Tal concepcáo antropológica repercute na doutrina escatológica.

  • 1.3. Escatologia

Já que corpo e alma nao se distinguem, morre o homem todo e,

para nao haver hiato na existencia dessa pessoa, dá-se logo a ressurrei-

cáo corpórea:

"Podemos dizer que haverá dois tempos na ressurre'igáo: um pri

meiro aínda inacabado e invisível, e um segundo tempo de realizagáo ple

na da ressurre'igáo de todos aos olhos de todos ...

A fé crista pensa sempre em termos de ressurreigáo e nunca em

termos de imortalidade da alma ...

Mas entáo o que resta para a ressurreigáo final? Enquanto houver

homens sobre a térra nao ressuscitados, a ressurreigáo permanece O que nos chamamos fim do mundo terá por conseqüéncia

... uma ressurreigáo total de todos os homens e de cada um e mesmo de

inacabada

cada um com todos" (p. 632s).

Sería desejável mais clareza.

O autor nao conhece meio-termo entre tempo e eternidade, de modo que professa a passagem direta do tempo para a eternidade:

"O defunto abandona a ordem da temporalidade para cairno Reino

eterno de Deus, isto é, na da ressurreigáo. Deste ponto de vista tudo Ihe é presente: vivejá o fim geraldo tempo no momento da sua morte e participa já na ressurreigáo" (p. 632).

Ora ai há um equívoco. Com efeito, o tempo é a duracáo que co-

meca e acaba (dia, semana, mes

...

a eternidade é, ao contrario, a dura

); cáo que nao comeca e nao acaba (é privativa de Deus só). Por nao ter

comeco, nao tem entrada e ninguém entra na eternidade. Pergunta-se

agora: e como se define a duracáo dos que comecam, mas nao acabam,

117

PERGUNTE E RESPONDEREMOS 537/2007

22

como a alma humana e os anjos? Certamente nao o tempo nem a eterni-

dade, mas deve se tratar de outro tipo de duracáo que é chamado "o evo".

Na base do que diz Sesboüé, a alma do defunto que morre hoje, vé logo o fim dos tempos e o juízo final, juízo de pessoas que ainda nao nasceram nem fazem algo que possa ser julgado - o que é inconcebível. Por conseguinte após a morte ainda há um futuro, nao o futuro da temporalidade, mas o do evo. As almas dos fiéis defuntos acompanham a historia dos irmáos na térra e aguardam o fim dos tempos para presenciar

o juízo final.

1.3. Pecado original e pecado do mundo

Por pecado original nao se entendem a culpa especial que tenha

repercutido ñas geracoes posteriores. Mas trata-se do pecado do mundo no qual a crianca nasce, incitada para o mal pelo ambiente em que ela se

encontra. Alguém terá comecado a pecar, e tal pecado tornou-se urna

bola de nevé, que se foi avolumando por provocar novos e novos peca

dos através dos séculos. Assim escreve Sesboüé:

"O pecado de Adáo é a expressáo figurada e simbólica de um acon-

tecimento misterioso de liberdade pelo qual a humanidade recusa o dom

de Deus e se orienta contra ele

O pecado de Adáo tornase a figura do

... drama humano na sua generalidade; é a representagáo simbólica do acon-

tecimento originario que constituí o ponto de partida" (p. 243).

Mais ainda:

"O pecado é universal, isto é, está em qualquerlugare em qualquer

tempo ...

Em qualquer tempo significa desde sempre, desde o principio.

Mas a origem nao pode seralcangada de modo diretopelo saberhumano.

É preciso, portanto, exprimi-la sob forma de urna narragáo'(p. 241).

Assim sao deixadas de lado as definicoes do Concilio de Trento (1545-1563) e outras declaracóes conciliares proferidas desde a época de S. Agostinho e dos pelagianos (século V) até os tempos do janseísmo

(séc. XVIII).

Sao estes os pontos mais significativos em que a obra em questáo

se apresenta falha. Em suma, pode-se dizer que é mais desconcertante

do que concertante, pois levanta urna serie de objecóes as quais nao dá

resposta clara, deixando perplexo o leitor despreparado.

2. Refletindo

2.1. De modogeral Sao dignos de louvor os estudiosos que se preocupam com o

desembargo dos caminhos que levam á fé, oferecendo aos seus seme-

118

23

"PENSAR E VIVER A FÉ NO TERCE1RO MILENIO"

Ihantes um por que e um para que viver, em lugar do vazio que Sesboüé

registra. Algumas tentativas famosas já foram feitas no sentido de adap

tar a fé católica ao pensamento moderno; tais foram - a obra de Teilhard de Chardin, que, apresentou o mundo em evo-

lucáo, mas silenciou a distincáo entre materia e espirito e a realidade do

pecado original.

- o propósito de teólogos holandeses, que tentaram logo após o Concilio, tornar mais compreensível ao homem moderno a conversáo

eucarística designada classicamente como "transubstanciacáo". Tal vo- cábulo, tido como demasiado estranho aos ouvidos contemporáneos, de-

veria ser, segundo esses teólogos, substituido por "transfinalizacáo" ou "transignificacáo". A proposta gerou confusáo e suscitou a encíclica

Mysteríum fidei do Papa Paulo VI;

- o Pe. Bernard Sesboüé empreende semelhante tarefa sem lograr

pleno éxito. Nao se pode esquecer que a palavra do Evangelho é loucura

para os gentíos e escándalo para osjudeus, conforme Sao Paulo em 1Cor

1. O apologeta da fé deve procurar mostrar que essa loucura e esse es

cándalo vém a ser suma sabedoria divina, mas nao pode apagar tudo o que haja de discordante para o "bom senso" humano nesses dois

predicados da fé. 2.2. Sobre a escatologia em particular

Eis o que a Igreja professa mediante a Carta Recentiores episco- porumúa Congregaáo para a Doutrina da Fé (17.5.1979)

A Congregacáo para a Doutrina da Fé, nesta carta (aprovada e

mandada publicar pelo Papa), remetida aos presidentes das conferencias

episcopais, fez eco das tendencias modernas de suprimir a escatologia

intermediaria.

Texto: AAS 71 (1979)941. 1. A Igreja eré na ressurreigáo dos mortos.

2. A Igreja entende que esta ressurreigáo se refere ao homem todo; para os eleitos, ela nao é senáo a extensáo aos homens da própria Res

surreigáo de Cristo.

3. A Igreja afirma a sobrevivencia e a subsistencia [continuationem

etsubsistentiamj, depois da morte, do elemento espiritual, dotado de cons-

ciéncia e de vontade, de talmodo que subsista [subsistatjo "eu humano",

ainda que temporariamenteprivado do complemento do própriocorpo. Para

designar este elemento a Igreja usa o termo "alma"[anima], consagrado pela Sagrada Escritura epela Tradigáo. Embora nao ignore que na Sagra-

119

PERGUNTE E RESPONDEREMOS 537/2007

24

da Escritura este termo tome significados diversos,julga, no entanto, que nao há motivos válidospara rejeita-lo, e o considera, além disso, um ins

trumento verbal absolutamente necessário para sustentar a Fé dos cris-

táos.

4. A Igreja exclui toda forma de pensamento ou de expressáo que torne absurda, ou incompreensível a inteligencia, sua oragáo, os ritos fú nebres, o cultodos moños: todas estas coisas que, quanto á sua substan

cia, constituem lugares teológicos.

5.A Igreja, segundo as Sagradas Escrituras, espera a manifestagáo gloriosa de Nosso Senhor Jesús Cristo (cf. 1Tm 6, 14; Tt2, 13), que no entanto eré distinta e futura[diiatam]com reiagáoá condigno dos homens

logo após a morte.

6. A Igreja, em seu ensinamento sobre o destino do homem depois

da morte, exclui toda expíicagáo que esvazie o sentido da Assungáo da Virgem María no que ela tem de singular;istoé, no sentido de que a glori- ficagáocorporalda Virgem antecipa aqueta glorificagáo que é destinada a

todos os outros eleitos.

7.A Igreja, aderindo fielmente ao Novo Testamento e á Tradigao, eré

na bem-aventuranga dos justos, que um dia estaráo com Cristo. Ela eré

também que opecadorserá punido com o castigoeterno[poena aeterna],

ficando privado da visáo de Deus, e aínda numa repercussáo desta pena

em todo o ser do próprio pecador. Quanto aos eleitos, a igreja eré, além disso, que pode haver urna purificagáo previa á visáo de Deus, que no

entanto é completamente distinta da pena dos condenados. É isto o que

entende a Igreja quando fala do inferno e do purgatorio.

Donde se vé que a Igreja proclama, entre outros, quatro pontos

importantes que vém ao caso:

1)Adualldade, nao o dualismo, de corpo e alma. O corpo é materia,

a alma é espirito ¡mortal; complementam-se entre si. Para taltese há fun

damento tanto na Filosofía tomista quanto na Escritura; cf. Mt 10, 28.

2) Existe a escatologia intermediaria ou um intervalo entre a morte

do individuo e o juízo final na consumacáo dos tempos.

3)A ressurreicáo da carne ocorrerá no fim dos tempos, por ocasiáo

a segunda vinda de Cristo e logo antes do juízo final.

4) Existem o céu, o inferno e o purgatorio.

Sobre o pecado originalver PR 272/1984, p.21; PR 476/2002, p. 3.

120

Explicares e justificativas:

VASSULA RYDEN:

ESCLARECIMENTOS IMPORTANTES

Em síntese: Vassula Ryden é urna senhora crista ortodoxa que

apregoa a uniáo dos cristáos, respondeu a cinco perguntas da Congrega- gao para a Doutrina da Fé, dissipando ambigüidades coñudas em seus escritos e justificando sua situagáo de divorciada e recasada na Igreja Ortodoxa. Tais respostas foram aceitas pela mencionada Congregacao, de modo queja nao existe embargo a que um fielcatólico abrace os tragos

de espiritualidade propagados pela obra "A Verdadeira Vida em Deus".

*

#

*

Vassula Ryden é urna senhora egipcia, crista pertencente á Igreja

Ortodoxa. Antes de se converter á fé crista, levou um teor de vida assaz

livre, em que se casou, divorciou e recasou. Em 1985 foi tocada pela

graca e diz receber desde entáo mensagens (locucoes interiores) do Se-

nhor Jesús, que exortam os cristáos a se reunir num só rebanho e incu- tem aos católicos fidelidade ao Papa, a devocáo a María, o afervoramento

de sua vida ...

Tal mensagem encontrou, entre os católicos, generosa acolhida

como também serias restricóes. A Congregacáo para a Doutrina da Fé

manifestou-se reservada em duas Notificacoes sucessivas; ver PR 406/

1996, pp. 116ss; PR 429/1997, pp. 457ss. Todavía a fím de entender a Vassula mesma e seus amigos, a Con

gregacáo para a Doutrína da Fé resolveu propor cinco perguntas a Vassula

relativas a pontos ambiguos da sua mensagem e da sua situagáo conju gal. Vassula respondeu satisfatoriamente a tais quesitos, de modo que em nossos días já nao há embargo a que um(a) católico(a) adote a

espiritualídade formulada nos livros "A Verdadeira Vida em Deus" de

Vassula Ryden.

As páginas subseqüentes apresentaráo a parte mais importante da

documentacáo referente ao intercambio entre Vassula e a Congregacáo para a Doutrina da Fé.1

1 Os textos apresentados nestas páginas seráo extraídos da coletánea intitulada "Verdadeira Vida em Deus". Esclarecimentos com a Congregagáo para a Doutrina

da Fé.publicada pela Associagáo homónima (sem enderego).

121

PERGUNTE E RESPONDEREMOS 537/2007

26

1. APRESENTACÁO DAS PERGUNTAS A VASSULA E

BREVE CARTA INTRODUTÓRIA

Em nome da Congregacáo para a Doutrina da Fé, Pe. Próspero Grech, consultor da mesma, escreveu a Vassula:

Prezada Senhora Rydén,

"Collegio Sta Monica

V¡aPaoloVI,25

00193 Roma

4 de abril de 2002

No día 6 de julho de 2000, a senhora dirigiu urna carta a Sua Emi

nencia o Cardeal Ratzinger a propósito da Notificacáo da Congregacáo

para a Doutrina da Fé relacionada com os seus escritos. Sua Eminencia

levou a sua carta em consideracáo e, com seus colaboradores, decidiu

dar-lhe a oportunidade de esclarecer o sentido de algumas afirmacóes

contidas ñas suas publicares. Nesse sentido, eu fui encarregado de

contata-la pessoalmente, tanto verbalmente como por escrito, para que a

Congregacáo possa ter urna idéia mais clara da ¡nterpretacáo correta das

suas afirmacóes. Desejaria que ficasse bem claro logo de inicio que, nao

sendo católica romana, a senhora nao está sob a jurisdicáo da Congrega

cáo, que nao a censura pessoalmente. Todavía, como muitos católicos seguem a Verdadeira Vida em Deus, eles também tém o direito de saber onde se situam quanto as questóes de doutrina e de prática abordadas

nos seus escritos. Temos também consciéncia de suas obras de carida-

de, de seus esforcos para levar todos os cristáos á uniáo com o Bispo de Roma, de sua grande devocáo á Santa Virgem Maria, de sua apresenta-

cáo de Deus como Deus de Amor, mesmo aos náo-cristáos, e de sua oposicáo ao racionalismo e á corrupcáo entre os cristáos. Seus últimos

livros parecem também ter deixado de lado algumas expressóes ambi guas contidas ñas suas primeiras obras. Apesar disso, ficaria muito reco-

nhecido se pudesse responder, o mais claramente possível, a algumas

perguntas, para ajudar a Congregacáo a ter urna idéia mais clara do que a senhora está fazendo".

PERGUNTA N9 1: RELACÁO ENTRE A VERDADEIRA VIDA EM DEUS E A REVELACÁO

Eis a primeira pergunta e parte da resposta:

"A senhora sabe muito bem que, tanto para católicos quanto para ortodoxos, há apenas urna Revelagáo, a de Deus em Jesús Cristo, que

está contida ñas Sagradas Escrituras e na Tradigáo. Na Igreja Católica,

mesmo as revelagóes "privadas" reconhecidas, como as de Lourdes e

Fátima, embora consideradas com toda a serenidade, nao sao materias de

122

27

VASSULA RYDEN: ESCLARECIMIENTOS IMPORTANTES

fé. Em que sentido, portanto, a senhora considera os seus escritos como

revelagóes e como eles devem seraceitos pelos seus ouvintes e leitores?"

Responde Vassula:

"Jamáis tive aulas de catecismo e muito menos de teología e, no inicio do meu chamado e de minha conversáo, eu nao tinha ouvido talar

de nenhuma nuance teológica como as mencionadas ácima. Essas dife- rencas foram-me ensinadas gradualmente, á medida que o suave

ensinamento do Espirito Santo prosseguia ...

Eu creio que só existe urna Revelacáo e jamáis disse o contrario nem encontraráo isso nos escritos. Eu nao espero que os leitores de A

Verdadeira Vida em Deus considerem as mensagens como mais impor tantes que a Sagrada Escritura e estou certa de que nada nos livros de A Verdadeira Vida em Deus pode levar os que me ouvem ou léem a pensar diferentemente. De fato, no meu testemunho, eu cito continuamente mui-

tas passagens das Escrituras, as vezes até mais do que as próprias men

sagens. Ñas mensagens, há urna clara e continua insistencia para se

concentrar na Biblia Sagrada e viver conforme sua verdade. Os escritos

sao urna realizacáo e urna lembranca da única Revelacáo em Cristo, con-

tida na Escritura e na Tradicáo, transmitida pela Igreja ...

PERGUNTA Ns 2: A MINHA RELACÁO, COMO CRISTA,

ORTODOXA, COM A IGREJA CATÓLICA

Eis a pergunta:

"A senhora pertence a Igreja Ortodoxa e exorta muitas vezes os sacerdotes e bispos dessa fé a reconhecero Papa e a fazeraspazes com a Igreja romana. Por isso mesmo, infelizmente, nao é acolhida em certos

países da própria confissáo. Porque empreende essa missáo? Que idéia

tem sobre o Bispo de Roma e como prevé o futuro da uniáo crista? Lendo

as suas obras, no entanto, tem-se por vezes a impressáo de que a senho ra se coloca ácima das duas Igrejas, sem estarcomprometida com nenhu

ma délas. Por exemplo, parece que a senhora recebe a Comunháo ñas

duas Igrejas, Católica e Ortodoxa; mas, na sua condigno conjugal, segué o costume da oikonomea. Comojá disse, essas observagóes nao devem

ser entendidas como urna censura pessoal, já que nao temos de modo algum o direito dejulgara sua consciéncia; mas a senhora compreenderá

a nossa preocupagáo quanto aos seus seguidores católicos, que podem

interpretar essas suas atitudes de urna forma relativista e ser, assim, ten

tados a desprezara disciplina da sua própria Igreja".

Eis parte da resposta:

"Aproximar-me dos sacerdotes, monges e bispos ortodoxos, para que eles reconhecam o Papa e se reconciliem sinceramente com a Igreja

123

PERGUNTE E RESPONDEREMOS 537/2007

28

Romana, nao é tarefa lá muito fácil, como o diz nosso Senhor numa das

Suas mensagens - é como tentar remar contra urna forte corrente - mas,

depois de ter visto quanto nosso Senhor sofre com a nossa divisao, nao

pude deixar de atendé-lo, quando me pediu que levasse essa cruz. Por

isso eu aceitei essa missáo, nao, porém, sem ter passado (e aínda pas-

sar) por muitos fogos. Eu tive alguns encontros com o clero católico, particularmente nos

Estados Unidos, na Holanda e na Suíca, que sao muito liberáis e contrari

os ao Papa. Tive que defender a Cadeira de Pedro e explicá-la da melhor

forma que pude, através de poderosas mensagens que vieram de Cristo,

mostrando-lhes quanto os seus espiritas estavam confusos. Por fim, mui tos desses sacerdotes vieram me dizer como tinham apreciado esses esclarecimentos. No entanto, nao faltaram alguns que nao estavam de

acordó, dizendo-me que era mais católica que os próprios católicos ...

Embora haja muitas passagens sobre a Uniáo, que se referem á uniáo

entre as Igrejas, há também muitas que sao particularmente escritas para

os muitos sacerdotes católicos que se revoltam contra o Papa, para léva

los á fidelidade a este último.

Eu nao sou a favor do divorcio e nao tentó promover entre os fiéis

católicos a doutrina segundo a qual o novo matrimonio das pessoas divor

ciadas deveria ser permitido. O meu divorcio e o meu novo matrimonio

civil realizaram-se antes da minha conversao. Depois da minha conver-

sáo, á luz das mensagens de A Verdadeira Vida em Deus, eu descobri

que a minha situacáo matrimonial nao era regular. Todavía, além de mim própria, ninguém conhecia esta situacao e, urna vez mais, fui eu própria

que o deplorei publicamente. Denunciei a minha própria situacáo no mo

mento em que, de fato, ninguém sabia nada disso. Tendo tomado consci- éncia da minha situacáo, aproximei-me das autoridades da minha Igreja,

em Lausanne, e passei por um processo de completo esclarecimento sobre as regras matrimoniáis ortodoxas. E, assim, eu sou crista ortodoxa em paz com a minha Igreja e com as suas regras, como todo e qualquer cristáo ortodoxo e, como tal, é-me permitido receber a Eucaristía na mi nha própria Igreja e na Igreja Católica, segundo os principios menciona

dos anteriormente. Nao desprezo de modo algum as regras da Igreja

Católica sobre o matrimonio".

PERGUNTA Ns 3: CONFUSÁO DE TERMINOLOGÍA RELACIONADA

AS PESSOAS DA SSMA. TRINDADE Eis a pergunta:

"Nos seus prímeiros escritos, como se observa na Notificagáo, ha-

via urna certa confusáo de terminología relativamente as Pessoas da

Santíssima Trindade. Nos estamos certos de que a senhora concorda com

124

29

VASSULA RYDEN: ESCLARECIMENTOS IMPORTANTES

o ensinamento da sua tgreja. Pensa, porventura, que poderla nos ajudara esclarecer essas expressóes? Quando se trata de materias de fé, nao

seria útilseguira terminología oficialdos catecismos correntes, para evi tara confusáo nos espiritos dos leitores de A Verdadeira Vida em Deus?"

Eis parte da resposta:

"Nao sei exatamente a que parte dos escritos se refere a pergunta,

mas posso imaginar que se trate da passagem em que Cristo é chamado

'Pai1 ...

Desde o inicio, jamáis confundí o Pai, o Filho e o Espirito Santo. A

Presenca (a atitude) de Cristo comigo era dominada por afeicáo paternal.

Quando, numa passagem, chamei a Jesús 'Pai', era por causa da forma

paternal com que Ele me falava. Era como urna destas ocasióes em que

os pais explicam e ensinam certas coisas a seus filhos com paciencia e

amor, para seu crescimento e desenvolvimento".

PERGUNTA N2 4: PROTOLOGIA E ESCATOLOGIA (ESTUDO

DAS ORIGENS E DO TERMO FINAL)

Eis a pergunta:

"Há também algumas dificuldades relacionadas com a protologia e

a escatologia. Em que sentido a alma tem urna 'visáo de Deus' antes de serinfundida no corpo? E como a senhora vé o lugardo Novo Pentecostés a parusia e a ressurreigáo dos

na historia da saivagáo, em relagáo com

morios?"

Eis parte da resposta:

"Protologia: nao creio em nenhuma forma de reencarnacáo. Pelo contrario, os meus escritos falam contra a reencarnacáo e a Nova Era:

'As doutrinas de Satanás ensinam-vos a acreditar na reencarnacáo, quan

do, na realidade, nao existe reencarnacáo.

Escatologia: Foi dito que sou o advogado de urna especie de milenarismo erróneo, que querestabelecer urna nova ordem, 'Novos Céus e Nova Térra' materiáis, antes da Segunda Vinda de Cristo. Isto é falso e

nao poderá encontrar-se em parte alguma das mensagens. Estou bem

consciente de que a Igreja Católica condenou essa especie de milenarismo. Como está escrito no Catecismo da Igreja Católica n9 676."

PERGUNTA N9 5: A VERDADEIRA VIDA EM DEUS, UM MOVIMENTO?

Eis a pergunta:

"Quala verdadeira identidade do movimento da Verdadeira Vida em

Deus e o que ele exige dos seus seguidores? Como está estruturado?"

125

PERGUNTE E RESPONDEREMOS 537/2007

30

Eis parte da resposta:

"A Verdadeira Vida em Deus nao é um movimento, como também

nao tem qualquer sede. É simplesmente um apelo á reconciliacáo e á

uniáo feita a todos, quem

quer que sejam.

Os monges budistas de Hiroshima tiveram também conhecimento

da mensagem e convidaram-me para dar testemunho déla no seu tem

plo. O bispo católico também estava presente. Isso aconteceu n dia co-

memorativo da bomba atómica. E assim Ihes foi transmitida uma mensa

gem inteiramente crista; depois, ofereci-lhes um grande terco para sus-

penderem no muro do templo, para sua meditacáo e uma imagem de

Nossa Senhora de Fátima que eles colocaram no patio do seu templo.

Israelitas que leram as mensagens de A Verdadeira Vida em Deus pediram o batismo e um deles traduziu para a língua hebraica o primeiro

volume de A Verdadeira Vida em Deus. Está agora no editor para ser

publicada. Todos vivem em Israel.

Recentemente, o grupo de Bangladesh quis que eu desse testemu

nho da Mensagem diante da populacáo de Dacca, num lugar a céu aber- to. Convidaram um ¡mame da mesquita, que aceitou o convite para abrira

reuniáo com uma oracáo. Muitos muculmanos estavam presentes. Havia também representantes hindus e budistas, assim como sacerdotes cató

licos. Uma vez mais, a Mensagem era inteiramente crista, trechos dos

escritos inspirados de A Verdadeira Vida em Deus. O testemunho central

e essencial que eu dei era revelar Deus como Amor"

II.CARTA DE VASSULA AO PÚBLICO

Uma vez aceitas as suas respostas, Vassula escreveu a seguinte

carta:

Roma, 30 de marco de 2003.

Caros Leitores de A Verdadeira Vida em Deus,

Desde o ano 2000, tive a honra de estar em comunicacáo com Sua

Eminencia o Cardeal Joseph Ratzinger, Prefeito da Sagrada Congrega-

cáo para a Doutrina da Fé. No dia 6 de julho de 2000, apresentei-lhe o

humilde pedido de que os meus escritos fossem submetidos a um estudo

Congregacáo e que me fosse concedida a oportu-

mais ampio da mesma nidade de responder as reservas expressas na Notificacáo de 6 de outu- bro de 1995. Sua Eminencia concedeu-me de bom grado essa oportuni- dade e, pela máo do Padre Prospero Grech, enviou-me, no dia 4 de abril de 2002, uma carta com cinco perguntas, as quais-eu devia responder. As

minhas respostas a essas perguntas foram entáo submetidas á Sagrada

126

VASSULA RYDEN: ESCLARECIMIENTOS IMPORTANTES

Congregacáo para a Doutrina da Fé, no dia 26 de junho de 2002.0 Car

deal Ratzinger pediu-me agora que publicasse as perguntas com as mi-

nhas respostas, e eu sinto-me feliz por partilhá-las com voces, como ex-

pressáo da minha posicáo oficial.

Espero que a publicacao deste documento sirva ao diálogo da ver- dade e do amor, tao importante, nao apenas para o ecumenismo, mas

também para tornar frutuosas, na Igreja, as gragas de Deus.

Que Deus os abencoe,

Vassula

III. PALAVRA FINAL

O artigo seguinte reflete bem o pensamento da Igreja após os es-

clarecimentos prestados por Vassula e após apresentados; nao há em bargo a que um fiel católico adote as linhas de pensamento e acáo pro postas por Vassula Ryden em sua obra "A Verdadeira Vida em Deus". Ao tomar esta atitude, a Igreja nao tenciona dirimir as dúvidas sobre a auten- ticidade ou nao das locucóes de Vassula Ryden. Apenas Ihe interessa declarar que nao há erro teológico ou heresia nos escritos dessa senhora.

Á Igreja nao é lícito agregar ao corpo dos artigos de fé o teor de alguma

revelacáo particular.

Vassula e o Cardeal Ratzinger

Aos 10 de julho de 2004, o Prefeito da Congregacáo para a Doutrina da Fé, Cardeal Ratzinger, enviou urna carta a alguns bispos, a respeito do

parecer dessa Congregacáo sobre Vassula Rydén, que visitou alguns

países nórdicos de 2 a 11 de outubro de 2004.

Urna pequeña apresentacáo sobre Vassula para os que nao a co- nhecem: Ela nasceu em 1942 no Egito, de país gregos pertencentes á

Igreja Ortodoxa Grega. Após ter-se casado com um sueco, e pertencendo

as classes sociais mais altas, viajou pelo mundo. Ela nao era urna crista

praticante. Em 1985, enquanto vivía em Bangladesh, encontrou Deus de um modo especial, inicio de urna profunda vida crista. Jesús realmente

entrou em sua vida e ela comecou a escrever suas conversas diarias com

ele. Ela ouve a voz de Jesús, mas o fato estranho nessa comunicacáo, que continua até hoje, é que Ele, ao mesmo tempo, guia a máo déla, isto

é, escreve suas mensagens usando a máo de Vassula. Isso é visto muito claramente nos manuscritos que foram publicados. Varios teólogos

renomados escreveram sobre essa forma de escrita, que, como fenóme no, difere em diversos pontos da chamada "escrita automática". Desde

entáo, ela tem viajado pelo mundo e evangelizado com base em seus

escritos, que tém o nome de "A Verdadeira Vida em Deus".

127

PERGUNTE E RESPONDEREMOS 537/2007

32

Aos 6 de outubro de 1985, a Congregagáo para a Doutrina da Fé

emitiu urna Notificagáo em resposta a muitos bispos católicos e fiéis que

haviam escrito pedindo orientagáo. A Congregagáo para a Doutrina da Fé, na época, decidiu aconselhar os fiéis a nao considerarem os escritos de Vassula como sobrenaturais e questionou certas expressóes dogmáticas

contidas neles. A Notificagáo resultou em urna chuva de protestos por

parte de renomados teólogos que estavam convencidos da autenticidade

dos escritos.

Nos últimos dois anos, houve urna comunicagáo continua entre a Congregagáo e Vassula, originando um documento dirigido a algumas

conferencias episcopais que haviam expressado especial preocupagáo

quanto ao esclarecimento do parecer da Congregagáo sobre Vassula. O

documento é assinado pelo próprio Cardeal Ratzinger. Ele menciona nes- sa carta que Vassula, em suas respostas á Congregacáo publicadas no

último volume de A Verdadeira Vida em Deus, "forneceu úteis esclareci-

mentos a respeito de sua situagáo conjugal, bem como sobre algumas

dificuldades que, na citada Notificacáo, haviam sido levantadas com rela- cáo aos seus escritos e á sua participacáo nos sacramentos".

Essa declaracáo parece um tanto lacónica, mas, com base na Noti ficacáo de 1995, significa que a Congregagáo está satisfeita com suas

respostas e nao mais possui reservas dogmáticas contra ela. Compreen-

sivelmente, a Congregagáo se abstém de concluir se Vassula é verdadei-

ramente instrumento de Deus, preferindo deixarque cada bispo, padre ou

fiel faga seu próprio julgamento. O documento diz somente que, se ne-

cessário, os bispos devem dar orientagoes para os grupos ecuménicos

de oragáo que Vassula organiza.

Há um grande número de testemunhos de diferentes denomina-

góes e até mesmo de náo-cristáos, indicando que pessoas atingiram urna

fé real e profunda em Cristo, ao ler e ouvir Vassula. Jesús diz que as

coisas espirituais devem ser julgadas por seus frutos. Nao pode haver dúvida de que os frutos das atividades de Vassula sao bons, mas cada

um tem que discernir se ela é um dos instrumentos de Jesús na atualida-

de. Com base na breve carta do Cardeal Ratzinger, sem sombra de dúvida,

um católico, com consciéncia tranquila, agora pode considerar Vassula como

enviada de Deus. Certamente, cada um é livre para nao fazé-lo, mas nao é

mais possível rejeitá-la por questóes dogmáticas. Para julgar as coisas

espirituais é preciso ouvir o próprio coragáo. Em se tratando de aparicóes e

profecías, liberdade e respeito pela opiniáo de cada um sao imperativos.

20.10.2004

Pe. Lars Messerschmidt

Igreja Católica na Dinamarca

128

O melhor negocio:

FUNDAR UMAIGREJA

Em síntese: Urna pesquisa realizada nos Estados Unidos revela

que, segundo a opiniáo do público, o mais eficaz dos meios de enriqueci-

mento é a fundagáo de urna Igreja. A comprovagáo desta opiniáo é o caso

da Igreja Renascerem Cristo, fundada pelo ex-corretorde imóveis Estevam

Fernandes Filho em 1986, que, com os demais líderes da comunidade é

acusada de estelionato, falsidade ideológica e lavagem de dinheiro; foram

bloqueados pelo Ministerio Público os bens desses dirigentes.

#

*

*

Jesús vai sendo vendido hoje em dia nao por quarenta dinheiros,

como qcorreu por obra de Judas Iscariotes, mas por milhóes de dólares e

reais. É que se depreende das noticias a seguir.

  • 1. O resultado de um ¡nquérito

PR recebeu urna carta de leitor, que transmite a seguinte noticia:

"Meu irmáo foi durante muitos anos diretor financeiro de urna das

grandes multinacionais que tem filialno Brasil, a 3M. Ele me contou que a matriz dessa empresa situada em Mineápolis, Estado de Minesota, nos

Estados Unidos, essa industria tem peculiaridade, ela produz mais de ¿rin-

ta e cinco mil produtos diferentes: lixas, colas, ¡solantes, fitas adesivas,

jogos, etc. Ela está sempre procurando novos mercados, em razao disso ela costuma fazera cada cinco anos urna pesquisa internacional a fim de

saber qual o melhor investimento para os próximos cinco anos. Em urna

das pesquisas feitas o resultado surpreendeu a alta diregáo da 3M; segun do a pesquisa, o melhor investimento, com um alto rendimento em um

curto espago de tempo, seria de fundar urna nova Igreja!"

Este resultado, por mais surpreendente que seja, encontra compro-

vantes no Brasil, como noticia a imprensa com certa freqüéncia. Um caso

assaz rumoroso é o que vai, em seguida, exposto.

  • 1. Um comprovante clamoroso

Eis o que se lé no jornal O ESTADO DE SAO PAULO de 2 de de-

zembro de 2006, p. 37:

Estelionato: UMA IGREJA NA BERLINDA

VlSÁO DE MERCADO IMPULSIONOU AVANCO DE IGREJA

Renascer foi a primeira do País a direcionar com sucesso a abordagem

para a classe media e o públicojovem

129

PERGUNTE E RESPONDEREMOS 537/2007

34

A Igreja Renascer em Cristo é um fenómeno de crescimento. Fun

dada em 1986 pelo ex-corretor de ¡movéis Estevam Hernandes Filho,

ostenta feitos inegáveis - todos conseguidos com o que se pode chamar

de visao mercadológica. Foi a primeira igreja do País a apostar em uma formatacáo evangelizadora pensada para a classe media e para o público

jovem, por meio de trabalhos voltados para a recuperacáo de viciados em

drogas.

Fala a seus fiéis com uma programacáo modeminha, transmitida

por um canal de TV - a Rede Gospel, que atinge 74% do territorio nacio nal e tem como maior sucesso o programa capitaneado pela Bispa Sónia

Hernandes -, emissoras de radio, gravadora, site e uma estrutura de ven da de CDs, DVDs e livros que ajudam a popularizar a cultura gospel no

País. Uma estrutura que Ihe deu poder de fogo para organizar a "Marcha

para Jesús", que, neste ano, arrastou 8 milhóes de pessoas em lo e integra o calendario oficial de eventos da cidade.

Sao Pau

Em seus bastidores, a Renascer tem estrutura de grande

empresa,

o que garantiu sua expansáo, mas que agora também alimenta o ánimo

investigativo do Ministerio Público (MP). Registrada como entidade filan

trópica sem fins lucrativos, a Fundacáo Renascer funciona com uma teia de empresas geridas com principios de iniciativa privada. E de olho em

lucros.

Entre seus 58 bispos - todos nomeados por Hernandes - e os cer

ca de 2 mil pastores, funciona uma livre concorréncia em que administra

dores regionais sao incentivados a cumprir metas de arrecadacáo de do-

acóes de fiéis. Na hjerarquía da denominacáo, comandar templos impor

tantes - como a Sede Internacional da Igreja Apostólica Renascer em

Cristo, uma construcáo portentosa no Cambuci - nao é apenas sinal de

sucesso na missáo de evangelizar. É uma promocáo para os que arreca-

dam mais.

Em levantamento feito apenas em Sao Paulo, o MP identificou 100

denuncias de dividas nao pagas. Sao queixas trabalhistas de ex-funcio-

nários, reclamacóes de fiéis que mergulharam em dividas depois de se-

rem obrigadosa fazerdoacóes até mesmo com cheques em branco, quei xas de pessoas que foram persuadidas a fiar ou alugar templos - e de

pois tiveram de honrar aluguéis nunca pagos.

ESTRELAS

O volume de queixas ajudou o Ministerio Público a formara convic-

cáo de que a Fundacáo Renascerteria montado sua estruturaem cima de flagrantes casos de estelionato, e, em seguida, lavado o dinheiro em uma

intrincada rede de empresas.

130

FUNDAR UMA IGREJA

35

Bloqueados bens de líderes da Renascer

Ministerio Público acusa igreja neopentecostal de ser urna organizagáo

criminosa montada para lavar dinheiro

AS IRREGULARIDADES DA IGREJA

Ministerio Público denunciar Renascer por estelionato

Pendencias na justica

  • 10 empresas do grupo Renascer sao investigadas

100 processos de cobrancas de dividas tramitam na justica contra eles

Patrimonio suspeito

R$ 46 milhóes é a movimentacáo de oitocontas de duas empresas do grupo

US$ 465 mil é o valor de urna mansáo comprada pelas empresas do

grupo no litoral da Florida

  • 45 hectares é o tamanho de urna fazenda, em Mairinque, no interiorde Sao

Paulo, comprada por empresas abertas por Estevam e Sónia Hernandes

A 1a Vara de Justica Criminal de Sao Paulo determinou o bloqueio de contas bancárias e bens dos fundadores da Igreja Apostólica Renas cer em Cristo. Sao eles o apostólo Estevam Hernandes Filho, sua mulher,

a Bispa Sónia Haddad Moraes Hernandes e mais duas pessoas ligadas á

denominacáo - o bispo primazAntonio Carlos AyresAbbud e seu irmáo, o

empresario Ricardo Abbud. Em um processo de nove volumes, o juiztitu

larda 13 Vara, Paulo Antonio Rossi, acolheu denuncia feita pelo promotor

Marcelo Mendroni, que acusa os quatro de praticar crimes de estelionato,

falsidade ideológica e lavagem de dinheiro.

Em seu pedido, Mendroni referiu-se á segunda maior comunidade neopentecostal do País como urna "organizacáo criminosa montada para

lavar dinheiro proveniente de estelionato" - caracterizado pelas doacoes

de fiéis feitas diante de promessas de algum tipo de salvacáo pela fé.

A decisáo proíbe a movimentacáo de oito contas bancárias das

empresas Colegio Gamaliel e Publicacóes Gamaliel. As contas foram

abertas em nome do casal Hernandes. Sua movimentacáo registrada em

2000 e 2003 foi monitorada com a ajuda de auditores fiscais e acusou um

montante de R$ 46,4 milhóes.

O juiz também bloqueou urna mansáo de Estevam Hernandes em

Boca Ratón, na Florida (EUA) - avaliada em US$ 465 mil -, e urna fazen da de 45 hectares em Mairinque, a 70 km de Sao Paulo, comprada pela

igreja em 2001 por R$ 1,8 milháo.

Sem comentarios.

A imprensa continua a relataros acontecimentos relativos ao casal

fundador da Renascer.

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Sao possíveis?

CASAMENTOS MISTOS

Em síntese: Hoje em dia multiplicam-seos casamentos depessoas

católicas com nao católica. Distingam-se os casos em que a parte nao

católica é crista validamente batizada e os casos em que talparte nao é

batizada. Em qualquer caso, a Igrejapode permitirao fielcatólico um ca

samento misto, desde que esse fielprometa: 1) tudo fazerpara guardar

sua fé católica;2) Tudo fazerpara educaros filhos na religiáo católica; 3)

comunicarao futuro ou a futura consorte as obrigagóes assim assumidas.

Além do qué, requer-se que ambas as partes sejam instruidas a respeito

das finalidades e das propriedades essenciais do casamento, coisas es

tas que nenhuma das duas partes deve ignorar.

O cumprimento das duas primeiras condicóes é muito difícilpara a

parte católica, principalmente se esta é o esposo; na verdade quem trata as criangasassiduamente é a máe e nao opai, que costuma trabalharfora

de casa; se a máe nao é católica, como poderá educaros filhos na doutri-

na católica? Dato desaconselhamento de que se favoregam os matrimo

niosmistos; criam, em muitos casos, um clima de relativismo religioso, no

qual os filhos se desinteressam pela religiáo.

*

*

*

Sao cadavez mais freqüentes os casamentos mistos de partecatólica

com parte nao católica, seja crista, seja nao crista ou mesmo atéia. Essas

unióes geram problemas, aos quais dedicaremos as páginas subseqüentes.

1. O problema

O casal misto pode gozar de grande convergencia no tocante a va

rios pontos de vista, mas ressente-se de urna divisáo básica, que é a divisáo religiosa; esta é, de capital importancia, pois a religiáo implica urna cosmovisáo e urna escala de valores fundamentáis; assim pode ha- yer divergencia concernente a divorcio, limitacáo de prole, métodos an- ...

Os filhos,

ticoncepcionais, aborto, Missa ou culto religioso no domingo

nao vendo o exemplo religioso nítido no paie na máe, caem fácilmente no relativismo e se tornam indiferentes aos valores religiosos - o que nao é

desejável nem para um católico nem para quem tem fé viva.

Nao obstante, tém-se multiplicado tais casamentos em virtude de

causas diversas: migracóes, viagens de estudo, avanco de seitas, pene-

tracáo do Isla e das religióes orientáis no Ocidente ...

O fato tem merecido a atencáo da Igreja. Os Bispos da Franca, do

Canadá e principalmente daAlemanha (onde ocaso nao é raro),tém dita-

132

CASAMENTOS MISTOS

37

do ¡nstrucoes para garantir o bom éxito dos casamentas mistos. Na Italia

também tem havido atencáo ao fato.

Aos 31 de marco de 1970 o Papa Paulo VI escreveu o Motu proprio

dito Matrimonia mixta. Joáo Paulo II se interessou pela problemática na Exortacáo Apostólica Familiaris Consortio de 22 de novembro de 1980.

Todos esses documentos apontam as dificuldades que decorrem

dos matrimonios mistos e baixam normas que pedem respeito mutuo das

diversas confissóes religiosas por parte de esposo e esposa. Muito pro

blemático é o caso em que a parte católica fixa residencia em país de

maioria nao católica, vivendo com familiares de outra crenca religiosa. O matrimonio de católico com muculmana e vice-versa e especialmente

delicado, visto o caráter muito agudo da cultura muculmana.

Vejamos em que condicóes pode um(a) católico(a) realizar legíti

mamente um casamento misto.

2. Matrimonio com dispensa do impedimento

Distingamos os matrimonios de mista religiáo (entre católicos e cris- táos nao católicos) e matrimonio de disparidade de culto (parte católica

com parte nao crista ou atéia).

2.1. O matrimonio de mista religiáo

Todo casamento entre cristáos validamente batizados é válido, mas

pode ser ilícito. Com outras palavras: é verdadeiro casamento, mas con traído á revelia das normas do Direito Canónico da Igreja. Para que seja válido e lícito, a parte católica deve pedir dispensa do

impedimento á autoridade diocesana, que concederá a dispensa dede que naja motivos justos e válidos para tanto, mediante o preenchimento

de certas condicóes que os cánones 1124 e 1125 enumeram.

O canon 1124 proíbe o casamento misto realizado sem a dispensa

outorgada pelo Bispo.

O canon 1125 explícita as condicóes mediante as quais é concedida

a autorizacáo.

O matrimonio celebrado entre urna pessoa católica batizada na Igreja ou recebida nesta com alguém batizado em comunidade eclesial nao ca tólica será válido desde que se preencham as seguintes cláusulas:

1) a parte católica deve declarar estar disposta a remover todos os

perigos de abandonar a sua fé;

2) deve prometer fazer todo o possível para educar os filhos na fé

católica;

133

PERGUNTE E RESPONDEREMOS 537/2007

38

3) seja a parte nao católica informada a respeito de tais compromis-

sos assumidos pelo(a) futuro(a) consorte;

4) ambos os noivos sejam instruidos a respeito das finalidades do

casamento e das suas propriedades essenciais, que nenhuma das duas partes tem o direito de excluir (pois sao características derivadas da lei ).

...

natural; nao ao divorcio, nao a poligamia, respeito mutuo

Quanto á forma canónica ou quanto ao Ritual do casamento misto, distingamos casamento de parte católica com parte ortodoxa oriental e

casamento com protestante.

Os ortodoxos tém o matrimonio na conta de verdadeiro sacramen

to, como os católicos o tém. Por conseguinte é válido e lícito tal casamen

to se é celebrado segundo um Ritual religioso com a participacáo de um

ministro validamente habilitado.

Os protestantes nao reconhecem o matrimonio como sacramento. Por

isto requer-se a forma canónica ou a aplicacáo do ritocatólico. Nao é lícitoao

católico fazerduas cerimónias de casamento: urna no catolicismo e outra no

protestantismo; o pastor protestante pode comparecer á cerimónia católica

para fazersuas oracoes sobre os nubentes após o término do ritualcatólico.

2.2. O matrimonio com disparidade de culto

Para que seja válido e lícito, preencham-se as condicóes ácima. Sem isto o casamento nem é válido.

Quanto á forma canónica, é necessária. Todavía, se a parte nao cató

lica se recusa a ir a um templo católico, a parte católica poderá pedir dis

pensa da forma canónica ao seu Bispo através do Padre Vigário. Obtida a dispensa, os noivos comparecam ao Cartório e déem seu consentimento

matrimonial perante duas testemunhas; leve a noticia do fato ao Padre Vi gário, que o registrará devidamente. A razio desta solucáo está no fato de

que os ministros do sacramento do matrimonio sao os dois nubentes; o sacerdote é apenas testemunha qualificada, que abencoa em nome da Igreja.

Se, após o casamento meramente civil, um dos cónjuges continua

a recusar qualquer cerimónia religiosa, pode a parte católica pedir ao Sr. Bispo a "sanacáo em raíz" (procedimento que o Padre Vigário deve co-

nhecer e encaminhar).

Nos matrimonios mistos acontece algumas vezes que urna das duas

partesquerconvertera outraao seu Credo, recorrendo a certa agressividade.

A Igreja condena tal conduta e lembra as palavras de Sao Paulo:

"O marido que nao tem fé, é santificado pela esposa e a esposa que

nao tem fé é santificada pelo marido que tem fé" (1Cor 7,14).

*

Ou ainda os dizeres de Elizabeth Leseur: "Urna alma que se eleva,

eleva o mundo inteiro".

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Em debate:

UNIÓES HOMOSSEXUAIS: POR QUE NAO?

Em síntese: O Dr. Paúl Medeiros Krause, Procurador do Banco Central do Brasil, escreve longo artigo que demonstra ser inadmissível a

uniáo de duaspessoas do mesmo sexo, argumentando em nome da razáo ou do bom senso natural.

O Dr. Paúl Medeiros Krause, advogado, é Procurador do Banco Central do Brasil, escreve longo artigo para evidenciar a nao-

admissibilidade de unióes homossexuais. Sua palavra é valiosa porque

argumenta em nome da razáo natural apenas sem apelar para a fé. Des- se importante documento váo abaixo transcritos alguns dos principáis tó

picos, recebidos via internet.

1. Por que escrevo?

Escrevo contra certas decisóes judiciais, principalmente do Tribu

nal de Justica do Rio Grande do Sul, que reconhecem a existencia da uniáo estável entre homossexuais, deferindo-lhes até mesmo a adocáo de criancas, decisóes estas que se arrogam o qualificativo de avancadas,

mas que, na realidade, nao suportam urna crítica racional mais elabora

da. Na verdade, tais julgados estáo impregnados de urna certa ideología

da moda, encontrada, também, em veículos de comunicacáo em massa que nada tém contribuido para o aprimoramento das instituicóes em nos-

sa sociedade. No presente artigo, procurarei demonstrar que o direito positivo tem

origem, encontra seu fundamento de validade e tira sua forca (coercitiva) do direito natural objetivo, que Ihe é anterior. Como conseqüéncia, a uniáo

(ou parceria) civil (ou estável) de homossexuais (ou homoafetiva) nao

pode ser considerada familia nem tutelada pelo ordenamento jurídico, por

falta de lastro na natureza humana e na lei natural objetiva. Baseia-se,

como se verá, na premissa falsa da existencia de um direito de opcáo

sexual.

2. Dos ilícitos contra a razáo e dos ilícitos contra a natureza

Os julgados pretensamente avancados do Tribunal de Justica do Rio Grande do Sul denotam que os eminentes desembargadores desco-

nhecem do que estáo tratando.

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PERGUNTE E RESPONDEREMOS 537/2007

Consignou-se que o direito positivo, as leis de um Estado, repou-

sam sobre leis que Ihes sao anteriores e independentes da vontade hu

mana, o denominado direito natural. O direito á vida, por exemplo, nao

representa uma concessáo feita pelo Estado ao súdito; aquele apenas reconhece a existencia daquele outro e se dispóe a assegurá-lo.

Nao foi uma lei humana ou positiva que criou a dualidade e a

complementaridade dos sexos. Homem e mulher tendem, naturalmente, a constituir uma pequeña sociedade, ordenada á complementacao mutua - física e psíquica - e á procriacáo, necessária, ademáis, á perpetuacáo

da especie. A estabilidade, a unidade do casal - os cónjuges tornam-se

como que um só em sua estreita uniáo -, fornecem o ambiente propicio

para a formacáo da prole e também para a sua própria realizacáo pessoal.

Legislar - e julgar - segundo a natureza é preciso, mas nao é sufi

ciente. É preciso também fazé-lo segundo a reta razáo. Maltratando-a

natureza, ofende-se, igualmente, a razáo, pois a racionalidade integra a

natureza humana.

Há ilícitos que sao particularmente graves por corromperem nao apenas a razáo, mas a própria natureza. Explicando melhor: o ato come

atracáo pelo sexo oposto corresponde a um

tido pelo adulterio é natural. A instinto ¡nato do ser humano. A ilicitude do adulterio nao está no ato em si, mas decorre da qualidade da pessoa com a qual é realizado o ato sexual:

alguém que nao é o cónjuge. Sendo o homem dotado de racionalidade, e nao somente de instinto, cumpre-lhe domar o instinto quando contrario á

razáo.

No caso, porém, da uniáo entre duas pessoas do mesmo sexo, é o

próprio ato que, em si mesmo, é contrario á natureza. O organismo mas

culino nao existe para unir-se ao de outro homem nem o organismo femi-

nino para unir-se ao de outra mulher. Que o digam os mecanismos de

reproducáo da especie! A conjuncáo carnal de dois homens ou de duas mulheres nao é uma

uniáo sexual real. Na falta de órgáos que se complementem, faz-se uso

antinatural de órgáos que nao sao sexuais, desvirtuando-lhes as funcóes e finalidades. Cuida-se de imitacáo grotesca, caricatural, do ato sexual

entre pessoas do sexo oposto.

Também sob o aspecto psíquico, nao há verdadeira complemen

taridade entre conviventes homossexuais. Observe-se que nessas rela- coes imita-se a natureza, pois um dos parceiros se porta á semelhanca

de homem, e o outro, á semelhanca de mulher. Ora, sabe-se que os psiquismos feminino e masculino sao complementares. Em regra, o ho mem é mais racional e prático. A mulher, mais emotiva e detalhista.

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41

UNIÓES HOMOSSEXUAIS: POR QUE NAO?

Sao Tomás de Aquino advertía sobre a maiorgravidade dos delitos

contra a natureza em relacáo aos delitos contra a razao1. Como os princi

pios da razáo fundam-se sobre os principios da natureza, a corrupcáo da

natureza é a pior de todas as corrupcoes.

3. O direito fundamental de opcáo sexual carece de existencia real

Por conseguinte, impoe-se asseverar, com todas as letras: nao

existe direito fundamental de opcáo sexual. Essa realidade nao se

encontra na natureza. Carece de existencia ontológica. Trata-se de gros-

seiro artificialismojurídico. Nao condiz com as características inalienáveis

do ser humano.

Ninguém nasce com um terceiro ou quarto sexo. Alias, a opgáo,

que será sempre artificial, nao modificará os cromossomos do individuo,

ainda que submetido aoperacáo para mudanca de sexo: continuarao sendo

XX, se mulher, ou XY, se homem. Trata-se, a pretendida opcáo, de rema

tado,

disparatado artificialismo, de equívoco grotesco. Observe-se que

todas as células do corpo de um homem, homossexual ou nao, inclusive as dos seus fios de cábelo, sao masculinas. E todas as células de urna

mulher, homossexual ou nao, sao femininas.

Afirmo: nao existe direito contra a razáo e contra a natureza. Cuida

se de impossibilidade lógica insuperável.

4. Do direito á náo-discriminacáo

Coisas bem distinta é o direito de nao ser discriminado injustamen

te, inclusive por ser homossexual. Na substancia, o direito á igualdade do

heterossexual nao diferedo direito do homossexual. O direito á igualdade do homossexual nao gera novas realidades, novos direitos, como o de

poder casar-se com pessoa do mesmo sexo e adotar filhos que a nature

za Ihes recusou. Seria esta urna ficcáo absolutamente reprovável. A atri-

buicáo de direitos exclusivos ao homossexual, sim, é que é um verdadei-

ro discrimen: urna discriminacáo.

Note-se: a discriminacáo importa em nao reconhecer em algum ho mem toda a sua dignidade; em suprimir, injustamente, direitos seus, ine-

rentesá sua condicáo, á sua natureza. Nao pertence á natureza do homem

serhomossexual. Porconseguinte, nao caracteriza discriminacáo- supres-

sáo injusta de direitos - a recusa do Estado em atribuir, artificialmente, á convivenciaduradoura entre homossexuais efeitos próprios do casamento.

Discriminacáo haveria caso fosse negado á pessoa homossexual

direito assegurado a heterossexual. Nem homossexual, nem heterosse

xual podem casar-se com pessoa do mesmo sexo.

' Suma Teológica. Segáo II da Parte II, questao 154, artigo 11.

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PERGUNTE E RESPONDEREMOS 537/2007

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5. Da ditadura da minoría. Afronta ao art. 226 da

Constituicáo Federal. Conclusáo

Em verdade, alguns tribunais brasileiros tém legislado, usurpando

competencia do Congresso Nacional e suprimindo, arbitrariamente, da so-

ciedade o direito de participarde decisóes importantes sobre o seu destino.

A Constituicáo da República, que, alias,já malferiu o direito natural

reconhecendo a uniáo estável (que também carece de existencia

ontológica: trata-se de urna imitacáo do casamento, casamento de se

gunda classe), nao albergou a uniáo civil entre pessoas do mesmo sexo.

Dispoe a Constituicáo da República, no art. 226, caput:

"Art 226. A familia, base da sociedade, tem especial protegió do

Estado".

Ora, no art. 226, § 3a, o próprio Estado desfere o primeiro1 golpe na

familia:

"§ 3B. estávetentre o homem e a mulher como entidade familiar, devendo a lei

Para efeito da protegió do Estado, é reconhecida a uniáo

facilitara sua conversáo em casamento"(grifei).

Embora já contraria ao direito natural, ofendendo táo-somente a

razáo, aínda nao a natureza (os instintos inatos do homem), a Carta Mag na reconhece e atribuí efeitos jurídicos á uniáo estável entre homem e mulher, facilitando a sua conversáo em casamento (asseverando, implícitamente, que somente o casamento atende integralmente á nature

za humana e ao pleno desenvolvimento da sociedade2).

De ver-se que em alguns de seus julgados o Tribunal de Justica do Rio Grande do Sul3 e outros tribunais arrogam-se prerrogativas de Poder

Constítuinte4, pois, simplesmente, derrogam o art. 226, § 3e, da Constitui-

1 Na verdade, o segundo. A Lei do Divorcio, Lei 6.515, de 26 de dezembro de 1977,

constituiua prímeirapunhalada certeira na célula-máe da sociedade, da familia. É

da substancia do casamento a indissolubilidade. De lápara cá, verifícase a paulati

na fíexibilizacáo, a volatilizacáo das relagdes afetivas, o que explica comportamen-

tos sociais como o "ficaf. Em verdade, o casamento civil ó ontologicamente, subs- tancialmente, indissolúvel. Mas nao se destina a criangas ou a pessoas ¡maturas.

Compromissos definitivos requerem maturidade da personalidade.

2 A indissolubilidade do casamento tem sua razáo de ser nao somente no bem dos

esposos, na sua complementaridade material, física e psíquica. Explica-a e exige-a o bem da prole, o desenvolvimento dos fílhos em um larestável e equilibrado.

3 V. g.: Ap. Cível n* 70013801592; Ap. cível nB 70012836755; e Ap. Civel ns

70005488812.

4 A mesma críticapode serfeita a estranhos argumentos expendidos pelo Min. Celso

de Mello, do Supremo Tribunal Federal, na Adin-MC 3.300-3/DF. Nao se houve com

o brilho costumeiro o eminente Ministro.

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UNIÓES HOMOSSEXUAIS: POR QUE NAO?

43

gao Federal. Trata-se de julgamentos contra legem (Lex Mater). Nao há,

ai, invasáo da competencia do Congresso Nacional?

Escoram-se tais julgamentos no principio da "dignidade humana", que, em verdade, é postulado oriundo do direito natural. Preconizam, po- rém, os senhores magistrados a existencia do direito natural? Ou é con veniente escolher conceitos de escolas filosóficas diversas e antagónicas para defender o indefensável? Com efeito, há quem se apague á "digni dade humana", embora duvide mesmo da existencia de urna "natureza humana", paradoxo incompreensível.

A sexualidade humana é um dado objetivo, biológico. Se se tratas- se de algo subjetivo, a perda da consciéncia ou das faculdades mentáis de um individuo, acarretaria, ¡mediatamente, repercussóes em sua identi-

dade sexual.

Pois bem. A familia brasileira, desferidas as primeiras punhaladas, verte sangue e caminha claudicante. Agora, vendam-se-lhe os olhos e

levam-na á degola. Qual será o próximo passo: reconhecer a legitimidade jurídica da

poligamia, da pedofilia e da zoofilia? Mais adequado seria amputara Cons-

tituigáo, retirando-se déla o caputúo art. 226.

O direito é mais do que forma e do que discurso; o que o caracteriza é o seu conteúdo, o justo. Em razio disso, Garece de juridicidade intrínse

ca a uniao civil de homossexuais, devendo recusar-lhe efeitos o direito positivo e a jurisprudencia.

Pretender que o direito seja pura forma, inodora, acromática, é

reservá-lo para a prática de arbitrios e da injustiga. Ora, o homem é a natureza que possui. Se o direito torna-se contra

rio á natureza humana, torna-se contrario ao homem, tendendo á sua des-

truigáo. Se, em vez do bem comum, o direito positivo (ou a jurispruden

cia) promove a ruina do homem, desvirtua-se por completo a sua finalida-

de ou teleología.

As leis naturais nao sao desprovidas de sangáo. É conhecido o pro

verbio: "Deus perdoa sempre. O homem, as vezes. Mas a natureza nao perdoa nunca". As transgressóes á lei natural possuem graves conseqü- éncias para o meio social.

139

Política e Religiáo:

PROTESTANTES POSTULAN! CHAVEZ COMO SEU

"BISPO MAIOR" E RECLAMAR/! PODER NA

VENEZUELA

Em síntese: O centro Crístáo de Salvagáo, protestante, querconsi derar o presidente Hugo Chávez como seu "Bispo maior" e postula seja a doutrina protestante ministrada em todos os graus do ensino público as-

sim como ajuda financeira, inclusive aposentadoria para pastores que ha-

jam cumprído trinta e dois anos de ministerio.

Embora muitos representantes do povo aprovem tal projeto, ele é

julgado inconstitucional; será mais um ardildo presidente Chávez para se

firmar no poder da Venezuela.

*

*

*

Vía internet a Redacáo de PR recebeu a seguinte noticia altamente

significativa:

PROTESTANTES POSTULAM CHÁVEZ COMO SEU "BISPO MAIOR"

E RECLAMAM PODER NA VENEZUELA

Caracas, 14 de dezembro 06 (ACI) Os dirigentes do chamado Centro Cristáo de Salvacáo apresenta-

ram um projeto de lei que pretende converter o presidente Hugo Chávez

em o "Bispo Maior" dos protestantes da Venezuela. Exige que as crencas

protestantes sejam ministradas ñas escolas e reclama beneficios econó

micos para seus dirigentes. Segundo informa o diario El Mundo, o projeto chamado "Lei do

Poder Eclesiástico Evangélico da República Bolivariana da Venezuela" foi entregue á Comissáo de Política Interior pelo Conselho Diretivo do

Centro Cristáo de Salvacáo, liderado por Esmelin, Lugo e Renato Ramírez.

Asseguraram representar mais de 17 mil igrejas evangélicas

venezuelanas as quais congregam cerca de cinco milhóes de crentes e pedem a cessacáo ¡mediata de supostos privilegios políticos e adminis

trativos de outras religioes na Venezuela.

O projeto pede que as crencas protestantes sejam ministradas em todos os níveis do sistema de educacáo e se submetem em absolutamen te á autoridade civil e militar da República, na qual o primeiro mandatario

140

PROTESTANTES POSTULAM CHÁVEZ COMO SEU "BISPO MAIOR"

E RECLAMAM PODER NA VENEZUELA

45

nacional, o Presidente, é declarado pela Igreja Protestante Evangélica

Crista como "Bispo Maior", "assim como o Ministro da Justica e o Ministro

da Defesa, demais membros do Poder Executivo, Governadores de Esta

do, "sempre que de algum modo protejam a propagacáo da nossa fé e o bom funcionamento da nossa Igreja".

Também consideram dever do Estado contribuir para os gastos dos cultos evangélicos e criar um fundo de pensóes e aposentadorias para os

pastores, os bispos evangélicos que tenham completado 32 anos de mi nisterio.

Segundo informou El Mundo, os deputados Edgar Zambrano (AD) e Dario Vivas (MVR), ambos membros da Comissáo de Política Interior

da Assembléia Nacional fizeram a advertencia de que "o tema exigirá ampio debate para Ismrano, a proposta vem a ser uma afronta tanto para

a Igreja Católica como para o povo venezuelano, em sua maioria católico, apostólico romano; nao duvida de que o presidente Chávez está por tras

do projeto de leí, mediante o qual ele conseguiría licenca para obter uma coroacáo a mais como Sumo Sacerdote".

Vivas acrescentou que a eventual designacao de Chávez como "Bis

po Maior" evangélico exigiría uma reforma da Constituicáo, pois a Magna

Carta especifica representatividade do Chefe do Estado como Cabeca do

Governo e comandante-chefe das Forcas Armadas Nacionais. COMENTANDO ... Via internet recebemos também a seguinte mensagem:

O HENRIQUE VIII DE CARACAS

Chávez quer ser o Henrique VIII do mundo bizarro ...

Fico com a sabedoria de Napoleáo Bonaparte - quando Fouché o aconselhou a fundar a própria igreja, respondeu o Imperador: "Para fun

dar uma igreja, é preciso duas coisas: primeiro, morrernuma cruz; segun

do, ressuscitar. A primeira nao me convém, a segunda nao me é possível". Um fenómeno sociológico interessante na América Latina é a ade-

sáo fiel e entusiástica dos ditos "evangélicos" (protestantes

neopentecostais) ao projeto político neobolchevista do Foro de Sao Pau

lo. Nao conheco um porteiro crente que nao seja fiel devoto do Sr. Lula da

A adesáo da massa pseudo-evangélica só é comparável á dos

Silva ...

pterodáctilos "progressistas" da "Teología" da Libertacáo supostamente

"católica".

O projeto protestante da Venezuela é mais uma expressáo do as-

salto protestante aos países da América Latina; nao recua nem mesmo

141

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PERGUNTE E RESPONDEREMOS 537/2007

diante da perspectiva de fazer reviver épocas ultrapassadas, épocas em que o Estado oficializava determinada crenca religiosa. Hoje a tendencia

é separar Igreja e Estado, sendo que o Chefe do Governo nacional nao

pode favorecer crenca religiosa alguma.

Pode-se perguntar: que formacáo religiosa de índole superior teve

o sr. Hugo Chávez para ser considerado Bispo? Que ligacáo tem ele com os Apostólos e Bispos do Novo Testamento?

Como se vé, o protestantismo está querendo conquistar terreno novo

nao por meios cristáos, mas sim por recursos maquiavélicos, segundo os

quais tudo vale para conquistar o poder e enriquecer os bolos dos falsos

pastores. Respondam a Deus pelo mal que fazem á causa do Evangelho no mundo moderno!

(continuagao da p. 144)

Nao será necessário dizerque muitos de nossos companheiros pro

testantes se opuseram a nossa decisáo; um deles me chamou blasfemo porque eu acreditava que fora da Biblia havia mais do que um suplemento

secundario dito 'Tradigáo oral'. Outro amigo, pastorbatista, me disse que,

embora eu tivesse cometido um erro, eu estou salvo em virtude da fé que ele tinha na certeza da salvagáo.

Na verdade, muitos ignoram o nosso Catolicismo por completo. Na

medida em que crescemos em nossa fécatólica, alegramo-nos pelas gra-

gas recebidas, gragas que nos sao dadas no Corpo de Cristo plenamente

manifestado na Igreja Católica. Nela sinto-me em casa, tanto quanto podia

esperar sentir neste pedago do céu".

Á guisa de complemento, observamos mais urna vez o importante

papel que, na conversáo de Armstrong, tocou aos amigos católicos. Mui

tos dos nao católicos julgam o Catolicismo, antes do mais, pela boa ou

má conduta dos católicos. Ninguém vive para si só; estamos envolvidos

numa rede de solidariedade, que torna cada um de nos responsável pelo progresso espiritual dos irmáos: salvamo-nos em comunidade. Ministerio

nobilissimo e aterrador que Cristo confiou a cada um de nos, mas que

procuramos desempenhar com a graca do Salvador.

Reconhece, ó cristáo, a tua dignidade e a tua responsabilidade!

142

Relato de conversáo:

'MINHA ODISSEIA DO EVANGELISMO

AO CATOLICISMO"

Dave Armstrong

Vía ¡nternet recebemos o relato de Dave Armstrong concernente á

sua conversáo do protestantismo ao Catolicismo. O texto, um tanto longo, será abaixo apresentado resumidamente. O que, nesses casos de con versáo, mais importa é contemplar a acáo do Espirito Santo no coracáo

do convertido, que sempre encontra grandes obstáculos.

Escreve D. Armstrong: "Fui recebido na Igreja católica em fevereiro

ano antes me parece

de 1997 pelo Pe. John Hardon SJ, fato este que um

ría totalmente inconcebível".

E quais loram as peripecias do itinerario? Dave Armstrong nasceu de familia metodista, e freqüentava a res

pectiva igreja, notava, porém, o declínio do público jovem, fazendo que a

media da idade dos fiéis fosse de cinqüenta anos. - Em 1968 a igreja em foco encerrou suas atividades e Armstrong deixou de ir ao culto, conser vando apenas sua fé em Deus.

Em 1969 entrou em contato com grupos que praticavam um ocultis mo um pouco vago ligado a fenómenos parapsicológicos; percepcáo ex

tra-sensorial, telepatía, projecáo astral ... Na década de 1970 o jovem, influenciado por um irmáo mais velho,

passou a freqüentar a Igreja luterana, mas guardava sempre reservas frente a Religiáo por razóes de orgulho e rebeliáo, como ele mesmo diz.

Em 1979 passou por urna crise de depressáo que durou seis meses e que Ihe deu a pensar em Deus cerno único Benfeitor no caso. Armstrong

vé nisto um apelo da Providencia Divina para que abandonasse sua so-

berba. Por ocasiáo da Páscoa desse ano, assistiu ao filme Jesús de Nazaré de Franco Zeffirelli, que muito o impressionou, fazendo-lhe consi derar a imagem de Jesús com mais esperanca. Este despertar da fé,

porém, foi efémero, pois Dave recaiu na tibieza por tres anos até agosto de 1980.

Em 1980 comecou a conhecer o Catolicismo por influencia de ami gos. Nunca fora publicamente anticatólico, mas considerava o Catolicis mo urna religiáo exótica, austera e desnecessariamente ritualista.

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PERGUNTE E RESPONDEREMOS 537/2007

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Passou a fazer parte dos resgatadores ou dos cristáos que tenta-

vam dissuadir do aborto as muiheres prestes a abortar. Conheceu entao nesse ambiente muitos colegas católicos. Admirava sua piedade e seu

zelo. Todavía esse entusiasmo esmoreceu em breve e Armstrong recaiu

no indiferentismo teológico.

Em 1990 deu origem a um grupo de discussáo ecuménica e pós-se

a ler famosos teólogos. Ajudaram-no nessa fase tres amigos católicos. No estudo do Catolicismo, encontrou dificuldades no tocante á infalibilida-

de papal, dificuldades que se foram dissipando em conversas com os

amigos católicos. Fez-lhe muito bem a leitura de "O espirito do Catolicis

Eu es-

mo" de Karl Adam, "um livro quase perfeito sobre o Catolicismo

...

tava profundamente impressionado por verificar que o Catolicismo havia

sido bem pensado; parecia-me um maravilhoso e complexo sistema de crencas consistente, incomparável com qualquer producáo do evangeli-

calismo".

A essa altura dos acontecimentos, teve de enfrentar a questáo dos

anticoncepcionais. Acabou convencendo-se de que a prática dos anticon-

cepcionais nao está longe da prática do aborto e deu razáo á Igreja Católica.

Impressionou-se também muito com a leitura do livro "Ensaio so

bre o Desenvolvimento da Doutrina Católica" do Cardeal John Newman,

convertido do Anglicanismo, que Ihe mostrou a homogeneidade do pen-

samento católico, a ele que julgava ser o protestantismo a forma primitiva e pura do Cristianismo corrompida pelo Catolicismo. Mantinha longas con

versas com seus amigos católicos, que Ihe foram dissipando as dúvidas.

Nesse interim conheceu um irmáo protestante -Al Kresta - que se acha-

va ñas mesmas condicóes que Armstrong, pensando em tornar-se católi co; compartilharam suas aspiracóes. Finalmente Armstrong foi apresentado ao Pe. John Hardon, que aca

bou de ilustrarsua mente, removendo obstáculos doutrinais para que pu- desse dar o passo final. Recebeu-o na Igreja Católica em fevereiro de

1991. Escreve Armstrong:

"Nos tres anos que se seguiram á minha conversáo ocorreram fatos impresionantes. Com efeito; quatro pessoas voltaram á Igreja de sua in

fancia e tres, inclusive eu nos firmamos no Catolicismo após muito o ter

estudado. Converteu-se também meu antigopastorprotestante. O amigo

Al e sua esposa Calle, outro casalmuito amigo; aínda outros casáis, com-

panheiros de estudos se tornaram católicos. Dois outros amigos estáo

pensando seriamente no Catolicismo.

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(continua na p. 142)

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m diálogo a caminho do absoluto

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