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Projeto

PERGUNTE
E
RESPONDEREMOS
ON-LINE

Apostolado Veritatis Spiendor


com autorizacáo de
Dom Estéváo Tavares Bettencourt, osb
(in memoriam)
APRESEIsfTAQÁO
DA EDIQÁO ON-LINE
Diz Sao Pedro que devemos
estar preparados para dar a razáo da
nossa esperanga a todo aquele que no-la
pedir (1 Pedro 3,15).

Esta necessidade de darmos


conta da nossa esperanca e da nossa fé
hoje é mais premente do que outrora,
visto que somos bombardeados por
numerosas correntes filosóficas e
religiosas contrarias á fé católica. Somos
assim incitados a procurar consolidar
nossa crenca católica mediante um
aprofundamento do nosso estudo.

Eis o que neste site Pergunte e


Responderemos propóe aos seus leitores:
aborda questóes da atualidade
controvertidas, elucidando-as do ponto de
vista cristáo a fim de que as dúvidas se
dissipem e a vivencia católica se fortaieca
no Brasil e no mundo. Queira Deus
abencoar este trabalho assim como a
equipe de Veritatis Splendor que se
encarrega do respectivo site.

Rio de Janeiro, 30 de julho de 2003.

Pe. Esteváo Bettencourt, OSB

NOTA DO APOSTOLADO VERITATIS SPLENDOR

Celebramos convenio com d. Esteváo Bettencourt e


passamos a disponibilizar nesta área, o excelente e sempre atual
conteúdo da revista teológico - filosófica "Pergunte e
Responderemos", que conta com mais de 40 anos de publicagáo.

A d. Esteváo Bettencourt agradecemos a confiaga


depositada em nosso trabalho, bem como pela generosidade e
zelo pastoral assim demonstrados.
SUMARIO

"O Espirito vos Ensinará Tudo"

"Escatologia Crista"

Ser Católico e ser Macom?

Urna Carta Aberta ao Cardeal Ratzinger

O Direito ao Foro Intimo

"La Religión en La URSS"

"Invitation á La Vie"

ANO XXVII - AGOSTO - 1986


PERGUNTE E RESPONDEREMOS AGOSTO - 1986
NP291
Publicacáo mensal

SUMARIO
)iretor-Responjável:
"O ESPI'RITO VOS ENSINARÁ TUDO 1
EstévSo Bettencourt OSB
Autor e Redator de toda a materia A Libertacao na Historia:
publicada neste periódico
"ESCATOLOGIA CRISTA"
)iretor-Administrador por J.B. Libánio e M.C. Bingemer 2

D. Hildebrando P. Martins OSB Mais uma vez

SER CATÓLICO E SER MACOM? 11

Xdrninistracáo e distrtbuicáo: Comentario a


UMA CARTA ABERTA AO CARDEAL
Edicoes Lumen Christi
RATZINGER,
Dom Gerardo. 40 - 5o andar, S/501
por D. Boaventura Kloppenburg 21
Tel.r (021) 291-7122
Caixa postal 2666 No Novo Oireito Canónico:
20001 - Rio de Janeiro - RJ
O OIREITO AO FORO INTIMO 30

Tese eantítese:
2omposi£ao e Impressao:
"LA RELIGIÓN EN LA URSS"
"Marques Saraiva" por Alexéi Puzin 40
Santos Rodrigues, 240
O Movi mentó de
Rio de Janeiro
"INVITATION A LA VIE" (IVI) 46

\ssinatura de 1986: CzS 100,00


Júmero avulso CzS 11,00 NO PRÓXIMO NÚMERO
'ara pagamento da assinatura de
1986, queíra depositar a importan- 292 - Agosto- 1986
;¡a no Banco do Brasil para crédito
na Conta Corrente n9 0031 304-1 "Carnis resurrectionem". - Milagres: sim ou nao? -
;rn nome do Mosteiro de Sao Bento Santa Maria Goretti: luz sobre o caso. - E as Finan-
do Rio de Janeiro, pagável na Agén- cas da Santa Sé? - "O Segredo de Fátima". - Os
Ritos Soviéticos. — O ZenBudismo.
:¡a da Pra$a Mauá (n° 0435) ou en
/iar VALE POSTAL pagável na
Agencia Centra! dos Correios do COM APROVACÁO ECLESIÁSTICA
Rio de Janeiro.

RENOVÉ O.UANTO ANTES COMUNIQUE-NOS QUALQUER


A SU A ASSINATURA MUDANCA DE ENDERECO
"O Espirito vos Ensinará Tudo..."3
(Jo 14,26) :

Aos 18/05/86 o S. Padre Joao Paulo II assinou mais urna de suas encí
clicas, que versava sobre o Espirito Santo. Entre as profundas passagens des-
te documento, apraz citar o § 65: lembra a atual situacfc da humanidade,
dotada.de vertiginoso progresso técnico-científico, mas, apesar de tudo,
ameacada por suas próprias conquistas e a bracos com real decadencia espi
ritual.

É nesta fase precisamente que. mais aflora a consciéncia do crístffo a


prática da oracao, cujo Mestre inspirador é o Espirito Santo; é pela oraclo
que o homem "obtém a forca capaz de o reerguer". "Deste modo os tempos
em que vivemos aproximan) do Espirito Santo muitas pessoas que retómam
á oracao". 0 S. Padre refere-se entffo a existencia multissecular dos mosteé
ros, onde homens e mulheres se consagram ao louvor de Deus e a vidaftie
oracao "com grande proveito para a Igreja"; depois volta-se para "o créácéfl-
te número de pessoas que nos últimos tempos tém posto a oracStíOlil^ri*
meiro lugar e nela procuram a renovacfo da vida espiritual". Asslm ntóvictó)
pelo Espirito Santo, esses cristlos tém sentido em seus coracSes uhWr&
funda aspiracao d santi'dade.

Estas observares de Joao Paulo II tém o papel de nos colocar diáhíe


dos valores supremos e definitivos. "Nossa época difícil tem particular netóísl-
dade de orapao". Em última análise, quando Deus despoja o homem dtfesteios,
naturais, Ele só o faz para Ihe recordar que, na verdade, é a graca do'SerShtir
que dá fecundidade aos seus trabalhos, graca que a oracá*o e a vida déwiilb
com Deus podem impetrar. Diríamos também: mais do que os sabios e técni
cos, sá*o os Santos que decidem as sortes da humanidade; unidos ao Senhor
Jesús, exercem a funcao dos dez justos em vista dos quais Deus estava?dis-
posto a poupar Sodoma e Gomorra (cf. Gn 18,23-33). Ora o Espirito Santo
quer cortamente dizer isto aos homens de hoje, atraindo muitos & orácfo
particular e comunitaria. ,

"A Igreja continua fiel ao misterio do seu nascimento" <n°66). Oriun


da do Cenáculo, ela nunca abandounou o Cenáculo, perseverando na oracao
com María

Sé tu também, caro cristao, urna célula viva da Igreja, na qual o Espi


rito possa gemer com gemidos inefáveis, pedindo a revelacSo da gloria dos
filhos de Deus, que será igualmente a libertacfo das demais criaturas suleitas
á loucura do homem pecador (cf. Rm 8,19-27)!

337
II'
"PERQUNTE E RESPONDEREMOS
ANO XXVII - n?291 - Agosto de 1986

A Libertado na Historia:

«Escatologia Crista»

por J. B. Libánio e M.C. Bingemer

Em sfntese: O livro do Pe. LibSnio e de María Clara Bingemer parte da


premissa de que corpo e alma nio se distinguem realmente entre si, mas sa~ó
apenas dois aspectos do mesmo ser humano. Em conseqüéncia, admite que o
homem morra todo e, por isto, deva ressuscitar na hora da morte. Esta já co
locaría o individuo diante da parusia (segunda vinda de Cristo) e dojufzo fi
nal. Assim é cancelada a distinqao entre escatologia individual (consumacaó
do individuo) e escatologia coletiva (consumacaó do género humano e do
universo); nem tem mais razio de ser a escatologia intermediaría (entre a
morte da pessoa e a ressurreigSo dos corpos no fim dos tempos). As
sim elaborado, o livro contradiz á doutrina oficial da Igreja, definida pelo
Papa Bento XII em 1336 (Constituicao "Benedictus Deus'7 e reafirmada
por um pronunciamento da S. CongregacSo para a Doutrina da Fé, datado
de 1979. — O Pe. LibSnio nSo quer negar essa doutrina oficial; por isto in
terpreta-a com sutileza para reduzi-la á tese contraria.

A metodología do livro é típica eestranha:pretende auscultaras aspira-


coes sódo-polftícas do povo de Deus (cf. p. 194) para tentar deduzir da Sa
grada Escritura e da TradicSo (entendidas de maneira preconcebida) as res-
postas a estas aspiracdes — o que deforma a perspectiva do tratado da Esca
tologia. Na verdade, a teología parte diretamente dassuas fontes (a S. Escri
tura e a TradicSo) e destas deduz substanciosas respostas para o povo de
Deus em todos os planos.

Lamentamos que. o enfoque e as premissas assumidas por Libánio e M.


C. Bingemer os levem a distorcer a auténtica mensagem escatológica do Cris
tianismo.

Jáem PR 286/1986, pp. 140-142 foi apresentada a coledlo "Teología


e Líbertapáo", que em 50 volumes deveria tornar-se um manual de Teología

338
"ESCATOLOGIA CRISTA"

elaborada em chave de libertario (sabemos que em maiopp. aS. Congregó


pao para a Doutrína da Fé mandou suspender a publicacao da obra, a fim de
proceder a urna revisao dos respectivos quadros redacionais). ■ ■ ■ •:* ■■&,

O volume "Escatologia Crista"1 deve-se ao Prof. Pe. Joao Batista Lib> .


nio e a Profa María Clara Bingemer, esta do Estudantado Franciscano de Pe-
tropolis, ex-aluna da PUC-RJ. Estuda o tema "últimos acontecimentos" aus-.
cuitando as indagacóes e as situacoes do homem latino-americano (que se
exprime em cancoes populares de Chico Buarque ou em poesias de Vinicius
de Moraes, Carlos Drumond de Andrade, D. Pedro Casaldaliga..). As fontes
da Teología, como a S. Escritura, a Tradicao e o Magisterio, sao relidasem
funcao de tais conjunturas, a fim de se formular a resposta para essas ¡nter-
rogacóes. Examinaremos, a seguir, o conteúdo do livro assim redigido e pro
curaremos ref letir sobre o mesmo. ?

1. As grandes I inhas do livro

Após urna consideracao assaz extensa da historia passada e presente do


tratado da Escatologia (em que os movimentos populares e o fenómeno Ca
nudos também tém seu lugar!), apos análise da mensagem bíblica (que pode-
ria, ou mesmo deveria, ser bem mais profunda e precisa), o Pe. Lib&nió'ex-
poe sua tese, que pode ser resumida nos segulntes termos: "'

O homem é um todo monolítico, em que corpo e alma sao duas face


tas da mesma e única realidade:

"A palavra 'alma' é suporte lingüístico de urna visSo profundamente


dualista e espiritualista, em que o corpo, a historlcidade do homem e do
mundo, as realidades cósmicas nSo encontram ressoninda nem relevancia"
(p. 181).

"A materia é um 'momento'do nosso espirito humano. Nao 6 simples


coisa qUe se une a ele" (p. 209).

Se nao há distincao real entre corpo e alma, conclui-se que o homem


morre por inteiro; nio há alma ¡mortal que sobreviva separada do corpo;
aguardando a ressurreicáo da carne no fim dos tempos. Em conseqüéncia, a
ressurreicao se dá logo após a morte:

1 Colecao "Teología e LibertacSo", serie Ill/A: Libertacao na Historia, Ed.


Vozes, Petrópoiis 1985,207x135 mm, 302 pp.

339
"PERGUNTEE RESPONDEREMOS" 291/1986

•. "O esquema ressurreicio na hora da morte resolve melhor a refació da


materia e espirito, segundo os postulados das ciencias físicas e humanas. Ca
sa melhor com as linhas antropológicas atuais" (p. 211).

A morte, portante, coloca o homem diante da parusia1 ou da segunda


vinda de Cristo e do Juízo universal:

"Em cada ressurreicio na hora da morte temos o encontró da pessoa


com a totalidade acabada da historia glorificada. Portento a ressurreipio na
hora da morte nSo contradiz o dogma da ressurreicio no final dos tempos"
(p.212).

"A ressurreicio' dos mortos é o Reinó de Deus acontecendo em pleni-


tude em relapao a cada um que termina a sua historia" (p. 212; cf. p. 218).

"O misterio do Cristo surge como fim, plenitude, Vitoria última sobre
a historia dos homens no momento da morte de cada um. Verdadeira paru-
sia\" (p. 216).

Nffo haverá consumacao da historia com a vinda de Cristo glorioso pa


ra rematar os tempos e julgar todos os homens; a questao do fim do mundo
se torna assim indiferente do ponto de vista teológico, pois o mundo acaba
(para cada um) quando cada qual termina a sua carreira terrestre:

"Nesse sentido perde relevancia o problema se a historia terrestre su


cumbirá a uma catástrofe apocalíptica ou prosseguirá interminável em inde
finidas sucessoes. Cortamente o núcleo do dogma continuará igualmente yer-
dadeiro, ao afirmar que a ressurreicio da carne, a transformado cósmica se
dará no final dos tempos por acao de Deus. Pois em cada ressurreicio na ho
ra da morte acontecem tal ressurreicio da carne e tal transformacao cósmica
pela acio transcendente de Deus" (p. 213).

0 purgatorio nao é negado, mas reduzido a um momento fugaz na


horada morte. O céu é admitido sem reservas; quanto ao inferno, é aceito
por M.CBingemer, com a referencia de que o inferno comeca na térra em
virtude das injustas condicoes sociais, das quais alguns sao responsáveis e ou-

1 "Parusia" é palavra grega (parousfa), que designava a visita do Imperador


Romano a alg'uma cidade do Imperio - o que era festejado-solenemente. Pas-
sou a designar na linguagem cristia segunda vinda de Cristo glorioso no fim dos
tempos para fulgar os vivos e os mortos, como rezam os últimos artigos do
Credo.

340
"ESCATOLOGIA CRISTA"

tros sao vítimas (o pecado social parece ser o único pecado que merecamen-

Apaga-se assim'a clássica distincao entre escatotogia individual


Julzo particular, purgatorio, céú ou inferno, antes do Juizo final) ee
gia coletiva, universal (segunda vinda da Cristo ou parusia, ressurrefcaoVifife
mortos, Julzo final); também desaparece, nesta perspectiva, o que setttilma
"a escatologia intermediaria", isto é, a considerado do estado queímedela
entre a morte de cada individuo e a consumacao dos tempos ou a parüsia de
Cristo. ■•?■?!) x!'i-•

Como se vé, a nova imagem proposta por Libünio é profundamente diver


sa daquela que classicamente se apresentou na teología, no catecismo,'? no
proprio Credo, cuJos artigos professam: "Creio em Jesús Crista .. que subju
aos céus, donde há de vír a Julgar os vivos e os mortos". A nova perspectiva
se deve, em grande parte, ao principio adotado pelo Pe. Libinio, como por
outros teólogos contemporáneos1: o homem nao é um composto de.cprpo
(materia) e alma (espirito), mas corpo e alma nao sao senáo dois aspectós'do
mesmo ser humano; a realidade da alma espiritual sendo negada, é claro que
se nega também a imortalidade da mesma. Por isto a morte há de ser p fim
do homem todo, que Deus graciosamente ressuscita quando morre£Se'h'do
assim, a parusia e o juízo final sao antecipados, ao menos na linguagemdo
autor, que Ihes tira seu sentido clássico. ^ tr..1
■"■'.• «>.-■
Vejamos o que pensar a respeito. ^<.v:::

2. Uma reflexáfo... . ,v
Raciocinaremos 1) a partir dos dados que a Filosofía e a Biblia nos
oferecem; 2) a partir de pronunciamentos do magisterio da I grej& E 3)
acrescentaremos consideracoes fináis.

2.1. A partir da Filosofía e da Biblia

A argumentacfo básica do Pe. Libánio consiste em dizer que a real dis


tincao entré corpo (materia) e alma (espirito) nao é de origem bíblica oü de
fundo semita, mas provém da filosofía grega, que seria uma fonte espuria pa
ra a Teología

A propósito observaremos:

1) É inadequado associar a mensagem biblica a determinada córrante filo


sófica (semita, por exemplo), oposta a outra córrante filosófica (grega). A S.

1 Ver José Comblin, Antropología Crista. Colegio "Teología e Libertaba".


Petrópolis 1985.

341
"PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 291/1986

Escritura nao adota sistema filosófico algum, mas exprime verdades eternas
dentro das categorías de pensamento tanto dos semitas (hebreus) como dos
gregos. Houve, sim, autores bíblicos de cultura helenista; esta transparece,
porexemplo, em Sb 2-5 (que professa a sobrevivencia da alma sem o corpo
apos a morte), em Mt 10,28 ("Nao temáis os que matam o corpo, mas nao
podem matar a alma Temei, antes, aquele que pode destruir a alma e o cor
po na geena"), em ITs 5,23 ("o vosso ser inteiro, o espirito, a alma e o cor
po sejam guardados de modo ¡rrepreensível para o Día da vinda de Nosso Se-
nhor Jesús Cristo").

2) A filosofía grega nao é únicamente dualista Ao lado do platonismo,


do neoplatonismo e das escolas orficas, haviá'o aristotelismo, que professa-
va ser a alma o ato ou a entelecheia do corpo, destinada a se unir harmonio-
sámente ao corpo; Aristóteles admitía, pois, a real distincao entre corpo e al
ma, nao, porém, o antagonismo (dualismo) entre um e outra A proposito
observa José Ferrater Mora:

"A alma, declara Aristóteles, é de algum modo 'principio da vida ani


mal' (Da anima / 1,402a 6), na medida em que é vida que se move espontá
neamente. . . O corpo é a materia; a alma é urna certa forma. Eis aquí as
duas célebres definicoes dadas pelo Estagirita: 'A alma é a primeira entele-
quia do corpo orgánico' (ohcitll 1,412b, 25s);é 'a primeira entelequiado
corpo físico que possui vida em potencia' (II 1 412a 27ss). Por conse-
guinte, nao tem sentido perguntar se o corpo e a alma sao urna só realida-
urna realidade. 0 sentido da unidade do corpo e da alma é a relacSo de urna
atualidade com urna potendalidade.

A alma é, pois, urna substancia; é o quid essencial do corpo... A alma


é a forma do corpo na medida em que constituí o con/unto de possfveis ope-
racBes do corpo. Assim como o próprio do martelo ó dar marteladas, o pró-
prio da alma á fazer que o corpo tenha forma que Ihe corresponde como
corpo e, portañto, fazer que o corpo se/a realmente corpo. A alma é a causa
ou fonte do corpo vivo {II 4 415b S/'7Diccionario de Filosofía, vol. 3, Ma
drid 1981. pp. 104s).

A linguagem de Ferrater Mora é técnica O que nos interessa, é que


mostra que a filosofía grega nao pode ser dita, em bloco, dualista ou maní-
quéia Na escola de Aristóteles encontrase urna elaboracao do conceito de
alma distinta do corpo, que corresponde auténticamente á perspectiva cris
ta e que foi assumida, muito orgánicamente, pelos doutoresda lgre|a;S. To
más de Aquino aperfeicoou e rematou tal concepcao numa slntese profunda
e fiel a mensagem crista

342
"ESCATOLOGIA CRISTA"

Por isto nao concordamos com os dizeres do Pe. Libanio á pg*1J33:


"Aristóteles conhecia urna alma espiritual, mas universal". Na verdadéjj|¿t£
se de que o intelecto é um só e comum a todos os homens, nao é de Aristóteles,
mas do filósofo árabe Averroes (1126-1198). Cf. Ferrater Mora, ¡bií'^de-
mais, para evitar o dualismo (antagonismo) entre corpo e alma, nao é preciso
cair no monismo. Existe a dualidade, que afirma a distincao real de corpo e
alma, sem admitir antagonism'o entre um e outro. ...,si;...
■if:s«;"!i.'"
3) A verif¡cacao de que a alma humana é espiritual e distinta da materia
nao leva necessariamente ao desprezo da corporeidade; esta é criatura do
mesmo Senhor, que fez a alma humana e é chamada a participar da gloria
dos filhos de Deus na consumacao final (cf. Rm 8, 18-22). Se houve santos
que, por ascese, mortificaram seu corpo (e nao há cristao que nao o deva fa-
zer até hoie) e que procuravam esqüecer as coisas transitorias para mais de
dedicarem aos valores eternos, nao o fizeram por espirito dualista, mas den
tro da perspectiva aberta por Sao Paulo em ICor 7,25-35: "Passa a figura
deste mundo".

De resto, quem nao admite a real distinguió de corpo e alma, caí no


mero materialismo antropológico - o que destoa de toda a Trádicáo crista.
..'.:?.-r,
4} O Pe. Libánio parece propor ao leitor verdadeiros malabarismos men
táis, quando quer negar a parusia e o jufzo final nofim dos tempos, anteci-
pandoos para a hora da morte de cada individuo; cf. p. 212 — Como pode
alguém, morrendo em 1986, presenciar a consumacao final da historia que
ainda é futura e depende de criaturas que ainda nao nasceram? Ten>se I im-
pressfo de que o autor nao ousa simplesmente negar a parusia e o jufzafinal
porque estío fundamentados nos escritos do Novo Testamento e da •Tradi-
cao, mas Ihes dá um sentido que os esvazia por completo.

5) A explicacao que o mesmo autor dá de sufragio pelos mortose de indul


gencias, é assaz estranha (pp. 242s); em vez de seguir a doutrina oficial da
Igreja, o Pe. Libánio procura interpretacoes de ordem social:
r -
.■- ■
i ■.-

"A medida que luíamos por urna soríedade j'usts, á medida que. nos
engajamos num processo de libertacSó integral do homem, da sodedade,
criamos estruturas que favorecem a integragib das pessoas na ¡ustica e no
amor. Verdadeiro processo purificatorio. . . Toda ajuda comunitaria para
que alguém se integre no amor, na ¡ustica, é 'indulgencia' que sustenta a
pessoa nesse processo depuríf¡cacaoagorae no momento da morte" (p.243).

Observamos que o purgatorio, segundo a concepcao clássica, é nealida-


de postuma, que deve ser assim entendida: se eu morrer com meu amor volta-
do para Deus, mas ainda contraditado por imperfeicoas e pecados leves, de-

343
"PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 291/1986

verei extinguir esses afetos contraditórios na*o eliminados na vida presente. Es-
$a extincao nao se fará de maneira "mágica" ou repentina na hora da morte,
pois sabemos quanto a natureza desregrada resiste aos nossos propósitos de
amar plenamente a Deus. Por conseguinte, ap6s a morte (fora do tempo, mi
ma duracao chamada "evo"), o amor a Deus deverá penetraros mais recón
ditos afetos da minha alma, purificándoos de tendencias desordenadas. Isto
se dará com maior ou menor facilidade, de acordó corn o maior ou menor arrai-
gamento dessas tendencias desregradas. As preces dos vivos pelos defuntos tém
em mira pedir a Deus que essa purificacao seja firme e decidida As indulgen
cias aplicadas aos defuntos tém o mesmo sentido. Nao nos estenderemos aqui
sobre o assunto, porque'jáfoi abordado em PR 239/1979,pp. 462s; 257/1981,
p.245 e no livro Diálogo Ecuménico, cap. Vil e VIII (Ed. Lumen Christi,C.p.
2666,20001 Rio- RJ).

2.2. A partir dos pronunciamentos do Magisterio da Igreja

O Pe. Libanio sabe que a idantif¡cacao de corpo e alma e as conseqüén-


cias teológicas desta tese nao correspondem aos ensinamentos do Magisterio
da Igreja Cita ás pp. 63. 180..191. 207 a definicao de Bento XII (1336), se
gundo a qual a ressurreicao se dá no fim dos tempos e, por conseguinte, apos
a morte a alma humana subsiste sem corpo1. Cita também a Declaracáo da
S. Congregacáo para a Doutrina da Fé datada de 17 de maio de 1979, que
reafirma a separacao de corpo e alma pela morte e a subsistencia da alma
sem corpo até a ressurreicáo no fim dos tempos; cf. PR 275/1984, pp. 166-

1 Eis o texto do Papa Bento XII:

"Por esta Constituido, que há de valer para sempre, definimos com


autoridade apostólica que, por disposigao geral de Deus,
as a/mas de todos os santos que deixaram este mundo antes da PaixSo
de Nosso Senhor Jesús Cristo,
as almas dos santos apostólos, mártires, confessores, virgens e dos ou-
tros fiéis falecldos depois de ter recebido o santo Batismo de Cristo, dado
que nada tenha havido a purificar quando morreram ou nada haja a purifi
car quando futuramente morrerem, ou — caso tenha havido ou haja algo a
purificar — urna vez purificadasapósa morte,
as almas das enancas que tenham renascido ou que futuramente ha/am
de renascer pelo Batismo de Cristo, e que venham a morrer antes do uso do
fivre arbitrio,
essas almas todas, logo depois da morte e da purificacao de- que preci-
sem mesmo antes da ressurreicSb dos corpos e do jufeo geral, após a Aseen-
sio do Salvador Nosso Senhor Jesús Cristo aos céus,
foram, estafo e estarSo no cóu, possuidoras do reino dos céus e do para
íso celeste com Cristo, gozando do consorcio dos santos anjos".

344
"ESCATOLOGIA CRISTA'

27a Todavía julga que esta Declaracáo da Santa Sé é mero "esquema teo
lógico", que deve ser preterido em favor do "esquema" que identifica corpo
e alma:

"Os fiéis consa'entizados das implicantes sócio-pol(ticas do compro-


misso da fé questionam esquemas teológicos que nio dio conta de tais di-
mensdes. Assim a posicio tradicional com seu corte temporal entre o desti
no individual na hora da morte e o destino no final dos tempos nio respon
de a urna consciéncia mais comunitaria, social, de compromisso com a trans
formado do mundo. Essas comunidades pedem novo esquema interpretati
vo do conteúdo básico da mensagem de esperanca da RevelacSo" (p. 194).

Este texto su ge re alguns reparos:

1} 0 livro do Pe. Libánio e de María Clara Bingemer é todo elaborado em


funcao das "aspiracoes sócio-poKticas" do povo de Deus. Estas sao quase o
fiel da balanca para sejulgarem sentencias teológicas. Ora isto é evidentemen
te erróneo; a teología há de ser elaborada a partir de suas próprias fontes (a
S. Escritura e a Tradicao) e as sentencas dos teólogos há*o de ser julgadasa
luz de tais fontes. Cortamente as conclusoes assim elaboradas contribuirlo
valiosamente para construir o Reino de Déus nao só na etemidade, mas tam-
bém no tempo.

_ 2) As declaracóes do Magisterio da Igreja (e a de Bento XII é urna deflni-


cáo de fé) nao podem ser tidas como "esquemas teológicos", .mas possuem
valor normativo; mesmo as que nao sao definicSes de fé ou Moral, extgem
respeito e obrigam em consciéncia, a menos que o teólogo tenha razoes muí-
to mais fortes e evidentes do que as do Magisterio da Igreja para proferir a
sua sentenca. O Magisterio da Igreja nao é o de urna Academia de Ciencias,
mas é assistido pelo Espirito Santo.

2.3. Consideracoes fináis

1. Como nos demais escritos da Teología da Libertadlo, a figura de Jesús


Cristo é vista em ótica reducionista ou reduzida a de mero profeta (os auto
res nao negam a Divindade de Jesús, mas nao a levam na devida conta); as
sim, por exemplo, como dito á p. 65, Jesús ignorava o desfecho da sua mis-
sao, pensando que a parusia ocorreria durante a sua vida; a p. 113 se lé que
"Jesús suou sangue para entender que o Reino de Deus passava por sua Pai-
xa o". Ver ainda p. 89.

De resto, a fundamentacao bíblica do tratado é fraca e-superTiciaL Os


autores citam escritores modernos (teólogos, poetas, compositores folclóri-

345
10 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 291/1986

eos. ..), mas nao se debrucam com a devida precisao sobre as fontes da Teo
logia

2. As aspiraedes dos fiéis cristaos nao se voltam apenas para os bens tem-
porais. Sao ardentemente sequiosas de valores transcendentais explícitamen
te (e nao implícitamente apenas) reconhecidos. A prova disto é a deband'ada
de muitos fiéis batizados na Igreja Católica para as comunidades e seitas que
tém invadido o Brasil; váo procurar nestas urna resposta, superficial e emo
cional, que encontrariam na Igreja com grandeza e profundidade inigualáveis
se os arautos da Palavra na Igreja nao se preocupassem tanto com os afazeres
temporais. Estes tim seu valor, sem dúvida, mas nao devem ser o prisma
através do qual todas as proposípoes do Cristianismo sejam lidas e aferidas.

Sao estes os principáis reparos que o livro em foco sugere. Nao se po


den a ignorar que, dentro de um enfoque infeliz, tem suas belas passagens,
insuficientes, porém, para redimir o conjunto da obra
* *

Epístola aos Colossenses e Epístola a Filemón, por José Comblin. Co-


lefio "Comentario Bíblico". Publicacao da Editora Vozes de Petrópofis, da
Imprensa Metodista de Sao Bernardo do Campo e da Editora Sinodal de Sao
Leopoldo, 135x210mm, 107 pp.

Esta serie de Comentarios Bíblicos 6 inspirada pelos principies da Teo


logía da Libertacao; considera o texto sagrado a partir da temática da luta
de c/asses, de riqueza e pobreza, lei e revolucao... - Assim também o volu
nte presentó, da autoría do Pe. Comblin: para o comentador, a epístola aos
Colossenses refere-nos o caso de urna común idade de cristaos pobres e hu
mildes, que é invadida por ¡ntelectuais de élite; estes ameácam arrebatar a
hegemonía aos pobres, que nao sabem resistir á pressSo de idéias prestigio
sas. Epafrás, o fundador da comunidade, teria ¡do procurar Sao Paulo para
informá-lo da situacSo; o Apostólo haveria entao ditado a carta aos Colos
senses, para dar-lhes argumentos de defesa contra a invasSo cultural (pp.
80s). — Ora o enfoque é artificialv toreado: em Cl tratase de fé ortodoxa e
de heresia, sim; a conotacao da luta de classes, porém, é acréscimo do co
mentador. Há também pobres que professam idéias fantasiosas e pouco ra
cionáis, como aquetas que os hereges de Colossosprofessavam\ Sao Paulo
tem em vista o quadro "verdade e erro", e nSo "riqueza e pobreza".

Enfoque semelhante é dado á carta a Filemon; esta, por tratar direta-


mente da questao de patrio e escravo, mais se presta a urna consideracSo de
ordem social tal como é apresentada as pp. 101-107; o autor parece mais
comedido nestas refíexoes sobre Fm, preconizando que a caridade ou ágape
prevaleca hoje em día ñas re/aedes entre os membros da sodedade.
E.B.

346
Mais urna vez:

Ser Católico e Ser Macom?

Em símese: A insistencia de muitas pessoas para que a Igreja retire o


seu veto á Maconaria exige novos esclarecimentos a. respeito cfessa recusa, até
hoje mantida. Um artigo do sr. Bispo de Augsburg, que participou durante
seis anos (1974-80) de um coloquio entre católicos e macons na Alemanha,
aborda minuciosamente a questSo, mostrando que a Maconaria professa o
relativismo doutrinário; nao admite verdades filosóficas e religiosas objetivas,
que obriguem todos os homens. Ora esta posicio contraria nSo umaouou-
tra proposicao de fé, mas a própria atitude de fé; esta professa a verdade
que Deus, o Senhor Absoluto e Supremo, ravelou aos homens para fazé-los
consortes da sua vida. Nesta divergencia básica está a raíz da condenacSo da
Maconaria por parte da Igreja. A verdade revelada por Deus e elevada i con-
sumacao por Cristo é um tesouro intocável, que a Igreja tem a mlssSb de
proteger para o bem mesmo da humanidade; daf a recusa de toda forma de
relativizacao da verdade. Alias, reconhecer a verdade e deixar-se guiar por
ela em nada diminuí a grandeza do homem; ao contrario, corresponde é as-
píracSo fundamental da criatura racional.

Apesar da nao aceitacáoda Maconaria reafirmada pela Igreja aos 27 de


novembro de 1983, por ocasiao da promulgaba o do novo Código de Direito
Canónico1, sao insistentes as peticSes levadas á Santa Sé para que revela a
sua posicáo e reconheca a legitimidade do "ser católico e ser macom ao mes
mo tempo".

Até hoje a Igreja nao revogou sua decisáo, nem preterid» fazé-lo. As
razoes profundas desta persistencia ja foram, em parte, abordadas" em PR
275/1984, pp.303-314;281/1985,pp.3OO-307. A fim de as ex por novamente
ao público, o Sr..Bispo D. JosefStimpfle.de Augsburg (Alemanha), escreveu
um artigo para a revista 30 Giorni intitulado"L'lmpossibile Coabitazione*",

1 Ver PR 275/1984, pp. 3Ó3-314.

1 30 Giorni, maio de 1986 (edicSo italiana), pp. 41-47.

347
12 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 291/1986

artigo do qual aposentaremos as grandes linhas a seguir. O Sr. Bispo O.


Stimpfle foi um dos representantes do Episcopado Alemao que durante seis
anos (1974-1980) estudaram juntamente com membros da Magonaria a
questáo das relacoes entre esta e a Igreja Católica; é este estudo, com suas
conclusoes, que esclarece a posicao do Catolicismo frente ás Lojas Magonj-
cas. Vé-se, pois, que o autor do artigo é pessoa credencia da para abordar o
assunto.

1. A Comissao de Estudos: resultados

Em vista das hesitacoes de clérigos e fiéis leigos diante da Maconaria


contemporánea, a Santa Sé, desejosa de esclarecer dúvidas, pediu á Confe
rencia dos Bispos da Alemanha Ocidental procedesse a um estudo criterioso
e objetivo da temática Por conseguinte, em junho de 1974 urna Comissao
nomeada pelos Bispos comecou o diálogo com urna delegacao das Grandes
Lojas Unidas da Alemanha num clima de lealdade e sinceridade. Á Comissao
Episcopal foi oferecido o acesso a documentas e rituais mácemeos que sao
vedados ao público, a fim de poder informar-se devidamente. Tres eram os
pontos do programa a estudar:

1) Terá havido mudancas na Magonaria alema?


2) Será compatível a pertenga a Igreja Católica com a filiagao á Magona-
ria?

3) No caso de resposta positiva ás duas perguntas anteriores, elaborar-se-


-ia um texto que comunicasse ao público o novo relacionamentode Igreja e
Magonaria

Os prolongados estudos permitiram aos católicos tomar conhecimentó


exato dos principios e das perspectivas da Magonaria - o que evidenciou clara
mente aantftese existenteentre aqueles e as verdades fundamentáis da Revela-
cao crista Tal incompatibilidade prescinde de eventuais maquinacoes ou tra
mas da.Maconaria contra a Igreja Estas ocorreram em épocas passadss, co
mo no caso da Questao Religiosa do Brasil (que atingiu os Bispos D. Frei Vi
tal, 11878, e O. Macedo Costa). Aínda etn 1968 o Grao-Mestre da Magonaria
Francesa Jacques Miterrand, fazendo eco a dizeres de Garnier-Páges em
1848, afirmava: "A República tem as suas raízes na Magonaria e a Magonaria
é a República secreta . . O servigo á República exige, no nosso mundo oci
dental, a rebeliao contra as forcas da reacao encamada na Igreja Católica Ro
mana N&s nao nos contentamos com ser a República secreta no interior dos
nosso templos; somos, ao mesmo tempo, a Anti-lgreja".

Atualmente podem-se verificar tres atitudes da Maconaria frente á


Igreja: 1) existem Lojas que se dizem amigas da Igreja; 2)... Lojas neutras e

348
CATÓLICO E MACOM? 13

3). •. .Lojas Inimigas. A Maconarla alema, segundo testemunhos dos próprios


participantes do diálogo, se aprésente como "amiga da Igreja". Mesmo assim
ñas declaracóes de principios desta existem obstáculos á conciliacáo com o
Catolicismo; com efeitó, os tres primeiros graus de ¡niciaclo macóntea (que,
alias, sao os mesmos emqualquer ramo da Maconaria no mundo inteiro) pro-
fessam relativismo frente a verdade; ora tal atitu de é de todo incompatível
com as normas básicas do Cristianismo, como se verá sob o tfinlo seguinte.

2. Relativismo filosófico
Durante os coloquios da Comissáo mista de estudos, os macons afir-
maram, como sendo a sua característica mais original, a recusa do valor obje
tivo de qualquer proposicao ou da própria verdade. Com outras palavras, is-
to significa que o homem nao atinge a verdade; por isto tanto faz afirmar co
mo negar alguma proposicao, pois nunca se sabe o que é certo e o que é er
rado. Por isto também o homem nunca se senté obrigado pela verdade; é
absoluta a autodeterminacéb do ser humano; é o homem que faz a verdade,
e nao é a verdade que faz o homem. Este, individualmente, é o criterio da
verdade, mesmo no campo da ética ou moral, como já afirmava o sofista gre-
go Protágoras (t.410 aC): "O homem é a medida de todas as coisas". A dig-
nidade do homem, segundo os macons, "exprime-se no fato de que o ser hu
mano nao obedece a lei nenhuma a nao ser áquela que ele mesmo estabelece
para si a cada momento".

Confirmando estes principios, o Dicionário Maconico professa o se


guinte: "O ponto de vista da Maconaria a respeito dos problemas do mundo
e da humanidade é o do relativismo. No seu simbolismo e nos seus Rituais
transparece claramente a posicao relativista".Por isto o aspirante a urna Loja
deve "possuir aquela intima liberdade de espirito que nao conhece submis-
sao.alguma aos dogmas e as paixSes".

Para os mapons, os dogmas estao sempre associados a constrangimen-


tos; donde a afirmacao; "As instituicóes de índole dogmática, das quais a
principal pode ser considerada a Igreja Católica, praticam oconstrangimento
da fé".

Em conseqüéncia, professam ainda as Lojas: "A Maconaria nao recc*


nhece dogma algum, mas congrega os adeptos de diversos dogmas religiosos,
políticos e nacionais, desde que se submetam ao dever da tolerancia". Esta
condicao é decisiva

A Maconaria nao distingue entre tolerancia para com as pessoas e to


lerancia para com as idéias. As pessoas devem ser respetadas, qualquer que
seja a sua opiniao filosófico-religiosa honesta; isto, porém, nao quer dizer

349
14 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 291/19Sb

que todas as opcoes sejam igualmente válidas ou de valor relativo, como pro-
fessa outra declarapao macónica:

"O Neo-humanismo e o pragmatismo sSó conaturais á Maconaria em


muitos pontos importantes, especialmente quando professa o relativismo da
verdade, que excluí toda intolerancia e faz triunfar a causa mesma da tole:
renda".

Na base de tais premissas existem diversos conceitos de Deus dentro


da propria Maponaria. As leis da moralidade podem ser desvinculadas da
nocáo de Deus - o que resulta numa Ética leiga:

"A emancipado das leis moráis de algum fundamento religioso pode


ser aportada como o conceito básico dentre todos os conceitos fundamen
táis da Maconaria"{D\c\onár\o Internacional da Maponaria).

"Kant rejeitou a teología, a lanterna mágica das idéias do cerebro, co


mo também a metafísica dogmática que menospreza a experiencia. . . A
concepcao kantiana da Moral (desvinculada de fundamento religioso) mostra
como esse filósofo, no íntimo do seu ser, era macom".

Ora tais afirmacóes nao se coadunam com os principios básicos do


Cristianismo. Este eré que a razao natural é apta a atingir a verdade, embora
o faca mediante discurso lento, e as vezes, tortuoso; eré, além disto, que
Deus revelou aos homens o seu plano de salvacao, que a fé formula. Inega-
velmente a linguagem humana é sempre pobre para exprimir o transcenden
tal; nao obstante, o que ela diz com evidencia objetiva, exprime realmente a
VERDADE. Passamos assim a novo título:

3. Maconaria e Religiao

A obra "Teses até o ano 2000" foi publicada pela Maconaria logo
apos o encerramento dos coloquios entre católicos e macons ná Alemanha
Nesse livro a Maponaria apresenta a sua identidade em nossos dias, as suas
bases doutrinarías e os seus projetos para o futura

A prímeira tese deste livro, que é também a mais importante, toma po-
sipao frente á Igreja Católica: "Nao reconhecemos sistemas ideológico-reli-
gíosos com pretensoes de vínculos exclusivistas".

O artigo 19 da obra declara que a Maponaria nao é urna religiao. Mas


logo a seguir afirma que a Maponaria age no mesmo ámbito em que se move
a fé católica: "Embora a Msconaria nao seja, nem ensine, urna religiao, ela

350
CATÓLICO E MAgOM? 15

j'jlga ser uma legitima resposta ao que Kant define como 'disposicao natural
do homem a especu lacio' e Schopenhauer chama'necessidade metafísica'".
-r.i*. -■
Num. programa radiofónico da Deutsche Welle (Onda Alema) de Colo
nia transmitido em diversas línguas aos 04/08/1981 sobre a Maconaria e a
Igreja, foi de novojjosto.em relevo o relativismo:

"Para a Maconaria, que tem exigencias de tolerancia, nSo pode haver


alguma cosmovisSo ou alguma religiio que exija absoluta vinculacao é verda
de; nao se pode admitir, portanto, a atitude da Igreja Católica, que tem a
pretensSo de proclamar uma auténtica RevelacSo divina. O confuto entre
uma e outra sodedade parece tragado de antemSb: de um lado, existe a
Igreja com um sistema de dogmas rígidamente predisposto e, de outro lado,
a Lo/a, um dos poucos agrupamentos que no decurso da sua historia nSo de-
senvotveram nenhum dogma: concebe as religiSes como sistemas paralelos e
concorrentes entre si e contesta a possibilidade de um reconhecimento obje
tivo da verdade".

0 Grao-Mestre Adriano Lemmi (t1906) aínda no século passado en-


viou uma carta circular a todas as Lojas, dizendo:

"O Grande Oriente apela para o espirito de humanidade a fim de que


todos os irmaos possam unirás suas forcas para dispersar as pedras do Vati
cano. Com estas pedras dispersas possa ser construido o templo da Nació
chegada a maioridadeV

Está clara, portanto, a posicáo da Maconaria frente á Religiáb: nao ad


mite o ámago mesmo de toda atitude religiosa, que é a adesao ao Absoluto
de Deus.

A propósito observamos: é erróneo negar a verdade objetiva em


nome da dignidade humana. Esta nao se rebaixa nem diminui quando reco-
nhece a VERDAOE que o homem nfo cria, mas descobre já existente; a
VERDADE é anterior ao homem, porque é perene, ao passo que o homem é
criatura contingente e transitoria A VERDADE reconhecida na sua dimen-
sao perene e absoluta jamáis 6 contraria aos auténticos interesses do homem,
mas antes os protege e defende contra todo tipo de manipuiacáo; a verdade
objetiva é mesmo o criterio que permite ao homem distinguir de subrepti
cias lavagens de cránio as influencias construtivas de que precisa

Estas consideracóes evidenciam que nao é possível ser alguém simultá


neamente católico e mapom. Para poder tornar-se um auténtico macom, o
católico deveria conceber a sua fé como uma opiniao subjetiva ou pessoal,
ou como um fato de consciéncia subjetiva, em vez de ser uma proposicfo

351
16 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 291/1986

válida umversalmente para todos os homens; ora isto despoja da sua forca e
da sua identídade os artigos da fé e contraria a esséncia mesma da mensagem
crista

4. Concilio do Vaticano II e Maconaria

Apis a segunda guerra mundial (1939-1945), diversos passos foram


dados no sentido de um entendimento entre católicos e macons. Fazendo
eco a tais negociacóes, o Bispo de Cuernavaca (México) D. Sergio Méndez
Arceo pediu ao Concilio do Vaticano II urna palavra de reconciliacáo com
a Maconaria. Diversas correntes de pressao se exerceram sobre os padres con
ciliares em tal sentida Todavía o Concilio nao se referiu á Maconaria; repe-
liu diversos erras doutrinários, sim; exortou ao cultivo do amor e do respei-
to para com todos os homens, mas nao reconheceu os principios da Macona
ria, pois estío em contraste com os da fé.

Nao obstante, o teólogo alemao Herbert Vorgrimler, discípulo de Karl


Rahner, escreveu:

"Ao valorizar altamente a Hberdade de consciéncia e o respeito das


conviertes de todo homem, mesmo dos ateus (coisas tió solenemente pro
clamadas pelo último Concilio), a Igreja Católica redescobriu um caminho
que por muito tempo Ihe fícara obscuro e no qual a Maconaria a precederá".

A propósito podemos observar que o Concilio nada mais fez senáo re


petir o pensamento de S. Agostinho: "Odeia os erros, mas ama aquele que
erra". Ou aínda: "Ñas coisas necessárias, naja unidade; ñas que estáo sujeitas
a dúvidas, liberdade; em tudo, porém, caridade".

Nao faltam, alias, autores macons que reconhecem a ¡ncompatibílida-


de das duas posiedes. Assim, porexemplo, o francés Oswald Wirth (t1943),
chegado a alto grau da sua Loja, escreveu:

"A initíacSo é o chamamento daqueles espíritos inquietos, aos quais


nSo basta a sabedoria adquirida. .. Quem eré num inviolável Credo religio
so-filosófico, científico e político, nada perde num templo da Loja. Mas, se
ele se filia, ele o faz como intruso... A vocacao á iniciacSo é para aqueles es
píritos errantes que, tendo abandonado a protecSo da sua escola e da sua
Igreja, vagueiam na escurídSb sem encontrar a verdadeira luz".

Estes dizeres, em última análise, professam também urna convíccao


dogmática (nao sao táo anodinos quanto pretendem ser); além do qué, mos-
tram que os principios maconicos nao questionam urna ou outra determina
da proposicao de fé, mas questionam a própria atitude de fé. Isto também

352
CATÓLICO E MACOM? 17

evidencia que nao é necessáría alguma leí da Igreja cu um canon do Oireito


Canónico para vacar aos católicos a ingresso na Maconaria; na verdadero
próprio Direito Divino ou a lei de Oeus, expressa pela razao e pela Revela-
cá*o, já o proibe.

Alguns pensadores macons, mais liberáis do que Oswald Wirth/ admi-


tem a possibilidade de que um católico seja iniciado nos tres prímeiros gréus
da Maconaria sem perder sua identidade católica1. Quanto aos graus poste
riores, os interlocutores macons do coloquio alemao os consideraran! ír>
compatlveis e se recusaram peremptoriamente a fomecer noticias a respei-
to1. O. escritor Albert Pike, bom conhecedor da Maconaria, especialmente
do Rito Escocés em seus iríais altos graus, pode escrever: "É muito simplista
afirmar que o conteudo dos ensinamentos da Maconaria se encontré todo
nos tres primeiros graus".

O pesquisador Stephen Knight empenhou-se por desvendar algo ¿de


que ocorre nos ulteriores graus da Maconaria e, a grande custo, conseguiu
colher dados que publicou no sensacional livro "The Brotherhood" (Londres
1984)! Revelou que noaltograu da"Holy Royal Arch" (Santa Arca Regia),
em vez do "Grande Arquiteto do Universo" aparece o nome Jah-Bul-On: Jan
vem de Javé (o nome de Oeus revelado a^ Moisés; cf. Ex 3,4s); Bul vertí de
Baal, a divindade abominável mencionada"em 1Rs 18,26; 19,18; 2Rs 10.18
28; Rm 11,4; e On vem de Osiris, divindade mitológica do Egito. Donde se
vi como o próprio conceito de Deus é pervertido a medida que o macom so
be na escala da sua Loja. O macom Albert Pike em 1873, ao tomar conheci-
mentó dessa designacao de Oeus, ficou profundamente horrorizadoe escre-
veu: "Ninguém pode obrigar-me a reconhecer como palavra santa, como
símbolo da infinita e eterna verdade, um vocábulo que contém o nome de
urna Divindade paga maldita e detestável, nome que, há mais de 2000 anos,
é apontado como o de um demonio".

Stephen Knight consultou cerca de setenta e cinco macons de tal grau


e pode verificar que, embora falassem livremente da Maconaria, diante da
palavra Jabulon setenta e um perderam a paz e a seguranca Relata especial
mente o caso de um macom de elevado grau que, tendo deixado sua Loja,
testemunhava ser ¡ncompatível a Maconaria com o Cristianismo; todavia.

1 Vimos, porém, á p. 349 que mesmo nestes tres primeiros graus há elemen
tos incompatfveis com a doutrina da fé.

2 Este fato revela quao mal informados estao os autores católicos que, sem
conhecer a Maconaria por dentro, propugnam a plena conciliagao entre Ma
conaria e Catolicismo.

353
18 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 291/1986

interrogado a respeito da pormenores, recusou peremptoríamente responder


dizendo: "A tal proposito nao ouso falar".

5. Maconaria e Protestantismo

Verífica-se que, ao contrarío da Igreja Católica, o Protestantismo nao


se opds á Maponaria nos séculos passados1. É mesmo notorio que em certas
Lojas da Inglaterra alguns oficiáis graduados sao eclesiásticos anglicanos ou
protestantes: um arcebispo anglicano é GraoMestre; 14 Bispos e 24 outros
digrátários daAnglicanismo fazem parte do Conselho da Grande Loja Uni
da A sombra da Abadia anglicana de Westminster funciona urna Loja consti
tuida quase somente por clérigos. Algo ds semelhante ocorre ñas Lolas de
outros países de maioría protestante.

Para explicar o bom relacionamento tradicional da Maponaria com o


Protestantismo, sirvam as observacoes dos macons Lennhoff e Posner no Di-
cionário Internacional da Maconaria: "A Maconaria é um dos movimentos
que, no inicio da Idade Media, nasceram em réplica ao absolutismo do Ma
gisterio da Igreja .. No ámbito religioso isto levou ao Protestantismo".

De passagem, notemos o anacronismo: a Maconaria filosófica nao ex is


tia "no inicio da Idade Media", pois foi fundada em 1717 na Inglaterra ..
No inicio da Idade Media havia, sim, corporacoes de pedreiros que, como as
demais ihstituicoes da época, tencionavam ser fiéis á Igreja.

No Rito Escocés, o grau do cavaleiro Kadosh implica solicitacáb de


vínganca pelo assassínio do Grao-Mestre dos Templarios Jacques de Molay,
tido como urna das principáis figuras da Maconaria2. No Ritual correspon
dente a esse grau, a tiara do Papa é simbólicamente atirada á poeira e Lutero
é apontado como um dos vingadores de Molay: "O preco dessa vinganca...

1 Verdade é que últimamente na Inglaterra a denominado metodista co-


mecoua declararse avessa á Maconaria. Cf. PR 284/1986, pp. 20-24.

2 Os Templarios constituiam urna Ordem Católica de Cava/eiros (ditos "do


Templo"), fundada em 1119 na cidade de Jerusalém; tinham por fina/idade
escoltar os peregrinos que se dirigiam a Jerusalém. - O reí FU¡pe IV o Befo,
desejoso de apropriar-se dos bens da Ordem na Franca, moveu campanha
contra ela, acusando os irmSos calunhsamente de adorar um /dolo chamado
Bafomet O seu último GrSo-Mestre Tiago de Molay foi veementemente incri
minado pelo monarca i francés, que o prendeu, mandou torturar, obtendo
finalmente a sua condenacSo á morte.

354
CATÓLICO E MACOM? 19

foi pago no diaem que Lutero, emnome da liberdade de consciéncia, subte-


vou metade da Europa contra o Papa".

As denominapóes protestantes alemas permitem aos seus membros fi


liarse a Maconaría. Todavía urna Comissao evangélica que entrou em diálogo
com macons ao rnesmo tempo que a comissao católica, manifestou certa
perplexidade a respeito do que se faz ñas Lojas Macbnicas: "Nao foi possl-
vel aos participantes do coloquio formar opiniao definitiva sobre o significa
do do Ritual e as suas repercussóes na vida interior de cada cristáo. Por isto
levantaram a questlo: a influencia do Ritual na vida interior do cristSo e o
trabalho do mapom nao contribuem para empalidecer nos evangélicos a no-
cao de justificarlo pela grapa?"

É de crer que, se a mesma comissao tivesse realizado estudos mais apu


rados, haveria chegado a conclusoes mais claras e precisas. Walter Hannah,
no seu livro "Darkness. -.." observa: "Nenhuma Igreja que tenha examinado
seriamente os ensinamentos religiosos e os principios da Maconaría, jamáis
deixou de a condenar".

Recentemente John Lawrence publicou na Inglaterra urna pesquisa


científica sobre a religiao, intitulada "Breemasonry — a Way of Salvation?".
O autor é ministro anglicano que provém de familia macónica e vive em
boas relapoes com os macons. Apesar disto, escreve: "As minhas pesquisas
puseram-me em contato com muitos cristaos, eclesiásticos e leigos, que afir-
mavam sentir que a Igreja é tío prejudicada pelo inf luxo maconico que o Es
pirito de Deus af é sufocado,...e sufocado por homens sinceros e de boa von-
tade". .
No tocante ao liame dos individuos com a respectiva Loja, diz ainda
Lawrence: "A sufocacao está em contraste com a forca redentora de Cristo;
Ele veio para tornarnos livres, para dar-nos a verdadeira luz". E concluí ser
imposstvel, por razoes teológicas, a militáncia simultánea na Igrefa e na Ma-
ponan a'

6. A "Maconaria Crista"

Na Alemanha existe a "Ordem dos Mapons Cristaos", que constituí a


"Grande Loja dos La'nder".

A proposito, a Conferencia dos Bispos da Alemanha Ocidental decla-


rou:

"Essa Mafonaria Cristi nao é de modo nenhum estranha ao estatuto


fundamenta/ da Mafonaria; apenas admite maior possibilidade de assodara
Mafonaria com urna eren(a cristi subjetiva. Mas nSo se pode dizer que pro-

355
"PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 291/1986

fesse urna teología admissível, pois os fatos fundamentáis da Revé/agio, co


mo a Encamacio de Deus e a sua comunhao com os homens, sao concebidos
como poss/veis vanantes do pensamento macónico e reconheddos apenas
por pequeño grupo de macons. É digno de considerado o fato de que na
plataforma oficial dessa Maconaría Cristi nio aparece o nome de Cristo,
mas o de Bafomet A Ordem da Maconaría Cristi se considera como 'a con
tinuadora da Ordem dos Templarios'. Ela claramente quer ser tal, venerando
Bafomet, que dizem era cultuado pelos Templarios. Os macons Lennhoffe
Posner esclarecem a respeito de Bafomet: 'Nome de horrenda imagem do de
monio, que os Templarios foram acusados de venerar'".

Ora é ¡nconcebível que um cristáo possa cultuar Bafomet Daí dizer-se


com razao que tal corrente de Maconaria nao.é crista

7. Conclusáfo

A verdade revelada por Deus e levada á consumacao por Jesús Cristo


é um patrimonio extremamente precioso para os fiéis católicos; trata-se de
algo único e insubstituível, pois diz respeito á Boa Nova da Redengáo. Por
isto a Igreja se senté incumbida de preserva-la de todo relativismo e toda de-
terioracao. Esta atitude nada tem de presuncoso ou arrogante, mas é um ser-
vico prestado ao género humana O Senhor Jesús afirmava: "A verdade vos
libertará" (Jo £32). Multo sabiamente notava o Cardeal J. Ratzinger aofa-
lar do pensamento moderno: "O abandono da verdade é a esséncia especifi
ca da nossa crise". - A filiacao á Maconaria nao é viável aos fiéis católicos
precisamente porque eles amam a verdade. A Igreja toca o dever de indicar
aos seus filhos os percalcos que poem em perigo as proposicoes da fé ou a
propria grandeza da fé.

356
Comentario a

Urna Carta Aberta ao Cardeal


Ratzinger
Frei Boaventura Kloppenburg, O.F.M.

Os teólogos Leonardo e Clodovis Boff, irmSos, ambos


presbíteros e Religiosos, publicaram no día 11-05-1986 urna Carta aberta ao
Cardeal Ratzinger, Prefeito da Congregado para a Doutrina da Fé, a fim de
manifestar-lhe como a Instruyo Libertatís Consdentía, de 22-03-1986, neles
repercutiu. A mencionada Congregado é o órgao da Santa Sé que elaborou
a Instrucao "sobre a Liberdade Crista e a LibertacSo", ampio documento
que completa a anterior "sobre alguns aspectos da Teologia da IibertacSfo",
de 06.08.1984.

A Carta Aberta é longa e ná"o pode ser analisada em breve artigo.


Quero apenas referir-me a cinco pontos:

1. Menoscabo do Magisterio

Os irmaos Boff iniciam com esta dedaracSo: "Nossa responsabilidade


teológica n§fo nos faz meros repetidores do Magisterio". Jamáis algúém
pediu aos teólogos que se transformassem em meros repetidores no sentido
de se aterem apenas ao que o Magisterio nos propOe. É, porém, dever deles,
enquanto cristaos fiéis, prestar "religiosa submiss3o da vontade é da inteli
gencia" aos ensinamentos do Magisterio (LG 25a), que ter§o a funcSo de
balizas ou sinaleiras para seus ensaios de reflexSo teológica. E as duas
Instruc5es da Congregado para a Doutrina da Fé sSo expressQes legítimas
deste Magisterio. Para os católicos, vige esta norma: "Quando os Sumos Pon
tífices no exercício do seu magisterio, emitem de caso pensado urna decisáo
em materia até entilo controvertida, é evidente que tal questSo, segundo
a mente e a vontade dos mesmos Pontífices, já nao pode constituir ob
jeto de livre discussáo entre os teólogos" (Pió XII, Humani generis, de
12-08-1950). Daí a determinado do novo Direito Canónico, no canon 754:
"Todos os fiéis tém a obrigacio de observar as constituicOes e os decretos
que a legítima autoridade da Igreja dá com o intuito de propor a doutrina e
proscrever as opinioes erróneas". Quando alguém, particularmente versado
em determinado assunto, julga nao poder dar seu assentimento interior,

1 Bispo A uxiliar de Salvador <BA).

357
22 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 291/1986

sinta-se obligado a manter publicamente urna atitude de aeatamento exte


rior, chamado "silencio obsequioso" (que em casos de obstinacío pode até
ser imposto); poderá, no entanto, dirigir-se discretamente á autoridade da
qual discorda, para apresentar suas razoes, mas sem manifestar logo seu
desacordó em Carta Aberta publicada nos jomáis de maior circulacSo, antes
mesmo que á autoridade tenha tomado conhecimento.

2. Esvaziamento da segunda Instrupao

Persuadidos de que "Roma" (é a expressío que repetem para designar


a Santa Sé) reconheceu e assumiu a problemática da libertacao, os irm5os
Boff anunciam logo no comeco da Carta Aberta: "O que importa aqui ná"o é
tanto o que Roma disse sobre a Iibertac3o (embora isso tenha toda a sua
importancia), mas o fato de Roma ter-se pronunciado e afirmado: a liberta-
cao é urna questfo que precisa ser assumida; ela está na 'medula da mensa-
gem evangélica' (n.2). Ter-se-ia quase a tentacao de dizer que frente a esse
dado global e massivo tudo o mais é detalhe".

A segunda Instrucao, a Libertatis Conscientia, foi cuidadosamente


elaborada com a finalidade de salvaguardar o conceito de libertacao naufra
gado num mar de ambigüidades, para descobrir o exato sentido cristío do
termo. Urna teología "da libertacao" nao podía continuar a trabalhar com
palavra-chave tao carregada de ambigüidades. Sentia-se a urgente necessidade
de definir melhor o termo. A multiplicidade de seus sentidos era um fácil
refugio neste debate indefinido que vinha perturbando toda a producáo
teológica. Os próprios teólogos da ÜbertacSo faziam o jogo da anfibología. A
nova Instrucáo da Santa Sé mostra no capítulo primeiro as conquistas, as
ameacas e as ambigüidades em torno da libertacao, concluindo no final do n.
19: "O profundo movimento de libertacao foi contaminado por erros
moríais acerca da condícJo do homem e de sua liberdade. Ele carrega, simul
táneamente, promessas de verdadeira liberdade e ameacas de moríais servi-
dSes". E logo no inicio do tópico seguinte torna a recordar a "mortal
ambigüidade". Daí o empenho da Santa Sé em definir com clareza a expres-
sao. E a finalidade do documento.

Declarar agora que, "embora isso tenha toda a sua importancia", o


que vale mesmo c a libertadlo ela mesma, sem adjetivo, e nffo tanto aquilo
que a Instrucao ensina sobre ela, ou chegar mesmo a insinuar "que tudo o
mais é detalhe", é na verdade, querer permanecer na anterior "mortal
ambigüidade" e jogar o enorme esforco esclarecedor da InstrucSo á categoría
do mero "detalhe".

Nao há dúvida de que somos convocados á libertacao, mas á liberta


cao "crista", tal como ela foi exposta ñas duas InstrucOes e na Mensagem do

358
CARTA AO CARDEAL RATZINGER 23

Papa aos Bispos do Brasil de 09-04-1986. E esta libertacao é, em primeiro


lugar e principalmente, soteriológica: "O homem é libertado, antes de rudo,
do poder do pecado e do poder do Maligno que o oprimenl, e é introduzido
na comunhao de amor com Deus", define a segunda Instrucao (n.63). Esta
é a "significacáo primordial da libertacao" (n.99). É sua esséncia, a medula
da mensagem evangélica. A dimensa'o ético-social ihe é "acrescentada"
(n. 23), é sua "conseqüéncia"(n.71), seu "prolongamento"(n.99), na"o sua es
séncia e muito menos o cerne da soteriologia crista. Ver e manter nítidamen
te esta distincao fundamental no conceito cristao da libertacao é justamente
a grande preocupacáo atual dos documentos da Santa Sé. Já a primeira Ins-
trumao estabelecera na Introduciío esta baliza teológica: "Discernir com cla
reza o que é fundamental e o que faz parte das conseqüéncias, é condicíío
indispensável para urna reflexao teológica sobre a libertacao". Reduzir agora
tudo isso a mero detalhe de secundaria importancia, é escamotear a soterio
logia crista. Semelhante "recepcao" da InstrucSo significa esvaziá-la total
mente.

3. Requinte de triste irania

Os irmáos Boff informam ao Cardeal Ratzinger: "Roma acaba de decla


rar - agora ñas palavras inequívocas do Papa aos Bispos do Brasil (9/4/86)
- que 'a teología da libertario é nío só oportuna, mas útil e necessária. Ela
deve constituir urna nova etapa da reflexao teológica'. E o Papa sitúa entao
a Teología da Libertacao em linha direta com os Apostólos, os Santos Pa
dres, os Doutorcs medievais, os Papas e os outros Pastores maiores da Igre-
ja. Nenhuma teología pode ría imaginar ou reivindicar posicío e vocacfo
mais elevada". "Deste modo, ser contra a proposta da elaboracáo da Teolo
gía da Libertacao hoje é se enfrentar com a própria Igreja".

Temos aqui quatro afirmacQes: O Papa declarou que a Teología da Li


bertacao é nao só oportuna, mas útil e necessária; a Teología da Libertacáo
deve constituir uma nova etapa de reflexao teológica; o Papa sitúa a Teolo
gía da Libertacáo em linha direta com os Apostólos etc.; a Teología da
Libertacao recebeu assim um status incomparável na Igreja.

O que aconteceu de fato?

Na citada Mensagem aos Bispos do Brasil o Papa descreve amplamente


os atuais desafíos de ordem eclesial, cultural, sócio-política e económica, re-
cordando-lhes que a Santa Sé nao os deixou desamparados no esforc.o de
encontrar respostas justas, insistindo particularmente ñas duas InstrucSes da
Congregacao para a Doutrina da Fé, promulgadas "com minha explícita
aprovacüo", que "tém para o Brasil uma inegável relevancia pastoral". Nes-
te empenho de encontrar respostas justas "consonantes e coerentes com os

359
24 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 291/1986

ensinamentos do Evangelho, da Tradicao viva e do perene Magisterio da Igre


ja", escreve o Papa, "a Teologia da Libertado é nSo só oportuna mas útil e
necessária".

Esta Teologia, afirma entao Sua Santidade, deve constituir uma nova
etapa na historia da reflexío teológica. Tal nova etapa, no entanto, deve .es
tar "em estreita conexao com as anteriores", como continuado de uma re-
flexao "iniciada com a TradicSo apostólica e continuada com os grandes Pa
dres e Doutores, com o Magisterio ordinario e extraordinario e, na época re
cente, com o rico patrimonio da Doutrina Social da Igreja, expressa em do
cumentos que vao da Rerum Novarum á Laborem exercens". Aqui Joáo
Paulo II riao faz uma animado de fato, mas enuncia um postulado: a Teo
logia da Libertacáo deve estar em linha direta com os Apostólos etc. E, por
saber que esta Teologia de fato nem sempre está na dita linha, o Papa de
clara ser "insubstituível a acá"o sabia e corajosa dos Bispos" no sentido de
"velar incessantemente para que aquela correta e necessária Teologia da Li
bertado se desenvolva, no Brasil e na América Latina, de modo homogéneo
e nao heterogéneo com relacao á Teologia de todos os tempos, em plena fi-
delidade á doutrina da Igreja".

Longe de ser uma aprovac,ao da Teologia da Libertacao já existente, a


Mensagem pontificia c antes um pedido de vigilancia para que se elabore no
Brasil uma correta e necessária Teologia da Libertacao. Nao ignorava o Papa
os numerosos desvíos e perigos de desvíos, prejudiciais á fé e á vida crista",
inerentes a certas formas da Teologia da Libertacao divulgadas entre nos e
fortemen te denunciadas pela Instrucao Libertatis Nuntíus e que "propoem
uma interpretado ¡novadora do conteúdo da fé e da existencia crista, inter
pretare que se afasta gravemente da fé da Igreja, mais ainda, constitui uma
negacJo prática desta fé" (VI.9). Isso se denunciava em 1984. E agora, em
1986, a Instrucáo Libertatis Conscientia avisa: "Longe de terem perdido va
lor, aquelas advertencias mostram-se ca.da vez mais pertinentes e oportunas"
(n. 1). Anunciar agora em tom triunfalista que, precisamente em vista destes
documentos, "nenhuma Teologia poderia imaginar ou reivindicar posicSo e
vocacio mais elevada", soa como requinte de triste ironía.

Concluem os irmaos Boff que "ser contra a proposta de elaborac.ao da


Teologia da Libertacao hoje é se enfrentar com a própria Igreja". Aceitamos
com satisfacao a proposta para a formacao da Teologia da LibertacSo, na"o,
por certo, daquela que se vulgariza por ai e que foi condenada pela Instru
yo Libertatis Nuntius como "perversJo da mensagem crista" (IX.1), pois te-
n'amos que enfrentar-nos com a própria Igreja, mas da que ainda está por
ser organizada. Na Mensagem opina o Papa que a Igreja no Brasil pode de-
sempenhar um papel importante e delicado no sentido de criar espado e con-
di;5es para o desenvolvimento desta reflexao teológica, apta a inspirar uma

360
CARTA AO CARDEAL RATZINGER 25

praxis eficaz em favor da Justina social, contanto que se fa$a "em perfeita
sintonía com a fecunda doutrina contida ñas duas citadas Instruyes".

4. Desconhecímento das balizas fundamentáis

Bem sabem os irmáos Boff que "n§o é qualquer expressfo da Teologia


da Libertaffo que é válida". E dizem muito bem que a segunda Instru?3o fi-
xou balizas doutrinárias fundamentáis para a elaborado da "legítima, orto
doxa e necessária" Teologia da Liberta$2o. Opinam que, "para estabelecer
estas balizas, Roma recolheu alguns dos melhores frutos da reflexao teológi
ca feita em torno desta materia"; e os enumeram: o privilegio do pobre, a
importancia das CEBs, o valor da religiáo popular, a significacáo libertadora
do Éxodo, a mensagem dos Profetas em favor da Justina, a dimensáo com
prometedora do Magníficat e a Cristologia da libertacío; até mesmo o méto
do seria aprovado. Julgam que estes seriam no momento os pontos compro-
vados e firmes da doutrina da Igreja, o consenso fundamental mínimo, tra-
cando aquela froríteira á retaguarda que permita aos teólogos prosseguir
tranquilamente. E em termos futebolísticos jubilam com este documento:
Roma garante-a defesa e os teólogos podem avadar para o ataque.

Na realidade, a situacáo ná"o é tío simples nem fácil assim. E isso por
dois motivos:

Em primeiro lugar, as próprias balizas por eles elencadas recebem des


ta tnesma Instniíao demarcac.5es bem claras. Nao se afirma, por exemplo,
apenas a validade das CEBs, indicam-se também as condicOes para que se-
jam, de fato, motivo de •esperanza para a Igreja. Dizer, porém, que a Santa
Sé aprovou também a Cristologia da libertacío nSo tem nenhum fundamen
to na segunda InstrucSo e é formal e fortemente desmentido pela primeira
(cf. X, 8-13). Nao podemos lanc^r ás urtigas as balizas plantadas pela liber-
tatis Nuntius de 1984.

Em segundo lugar, desconhecem as balizas verdaderamente funda


mentáis com que os documentos da Santa Sé delimitam o campo da Teolo
gia da Libertacío, tais como: o próprio conceito da libertacío crista"; o pri
mado absoluto da dimensáo soteriológKX sobre a ético-social; as condic5es
para urna reflexao teológica a partir do particular ou da experiencia; a mis-
sao essencial da Igreja; a distin$áo entre evangelizacao e promocáo humana,
ou entre o Reino de Deus e o progresso terrestre; o primado da liberdade
pessoal sobre a libertac.5o; a verdadeira raiz das alienac,6"es humanas; o senti
do do pecado social; o pecado como fonte de opressáo e divisSo; as múlti
plas formas da miseria humana; o perigo da ideologizacáo na opqSo pelos po
bres; a natureza da Doutrina Social da Igreja e seu lugar na Teologia da U-

361
26 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 291/1986

bertacáo; o recurso á violencia, o mito da revolucSo, o caminho da reforma,


a pluralidade de caminhos concretos, a acao do desenvolvimento, etc.

A tudo isso é necessário acrescentar as importantes balizas da Instru-


9I0 anterior sobre a fundamental distinfffo na libertagSo crista entre o essen-
cial e o conseqüencial; o criterio final e decisivo da verdade na teología; a
condiclo primeira para a análise da sociedade; a própria análise marxista; a
teoriá da luta de classes como leí estrutural fundamental da historia; o monis
mo histórico ("urna so historia"); a própria historia como nocSo central; a fé
como fidelidade á historia; a esperanca como confianca no futuro; a carida-
de como opcSo pelos pobres; a subordina$á"o da teología ao criterio político
("tudo é político"); a Igreja dos pobres como Igreja classista; a Igreja do po-
vo como Igreja da luta organizada; o próprio povo como objeto da fé; o po-
vo como fonte de ministerios; o lugar social do pobre como principio her-
menéutico determinante; o ponto de vista da classe oprimida como único
ponto de vista da verdade; a ortopraxis como criterio da verdade; a rejeicSo
da Doutrina Social da Igreja; a releitura política da Escritura; a figura de Je
sús como símbolo da luta dos oprimidos; a Eucaristía como celebracSo do
povo na sua luta; a classe dos pobres como construtora da unidade; etc. Sao
os pratos prediletos da teología da liberta$3o mais vulgarizada. Para cada um
destes temas há agora balizas orientadoras da Santa Sé.

Nem podemos olvidar a importante premissa doutrinal sobre os crite


rios para um auténtico método teológico, que a Congregac3o para a Doutri
na da Fé deu ao próprio Frei Leonardo Boff, O.F.M., na Notifícacío de
11-03-1985, insistindo principalmente em duas balizas; o primado da heran-
9a comum anterior as situares concretas e particulares e délas inteiramente
independen te; a impossibilidade de tomar a praxis como ato prime iro em
teología.

Com estas balizas demarcando limites e sinaleiras indicando caminhos,


poderá na verdade surgir urna Teología da Liberta9á"o capaz de enriquecer a
vida e iluminar a a?ao dos cristSos. Só deste modo poderlo os teólogos avan
zar serena e prudentemente pelas veredas da Hberta9á"o. "Assim urna teología
da liberdade e da libertado, como eco fiel do Magníficat de María conserva
do na memoria da Igreja, constituí urna exigencia do nosso tempo" (n. 98
da segunda Instruyo).

5. Postergacáo do decisivo em nome do urgente

Ensinam os irmaos Boff ao Cardeal Ratzinger que temos o dever de


articular o decisivo (a liberta^ao do pecado) com o urgente (a libertado da
miseria), defendendo que saciar os pobres em sua fome de pao continua sen-

362
CARTA AO CARDEAL RATZINGER 27

do mais urgente que saciá-los em sua fome de Deus. Voltam assim a procla
mar a prioridade da dimensío ético-social (que eles denominam "histórica",
como se a outra nao o fosse) sobre a soteriológica. Ninguém nega a urgencia
de solucionar o grave problema da fome no mundo, sofrimento que já se co-
nhecia no tempo de Jesús e que o Senhor na"o ignorava. Mas a Igreja de Je
sús, como tal, yertamente na"o foi instituida com o objetivo de combater o
problema da fome. Sua missío essencial é definida pela dimensío soter.oló-
gica da libertado crista e nío por sua dimensá"o ética. Ao miserável e pobre
paralítico de Cafarnaum Jesús ofereceu primeiro o perdió dos pecados, que
era também para ele, como ainda é hoje para todos os pobres do Terceiro
Mundo, o mais decisivo e também o mais urgente; e depois lhe restituiu a
saúde do corpo como sinal visível de seu poder de perdoar pecados (cf. Mt
9,l-8).O mais urgente, precisamente por ser o mais decisivo, é procurar
o Reinado de Deus ñas almas dos homens: "Buscai primeiro o Reinado
de Deus e sua justica (= santidade) e todas estas coisas (comer e vestir) vos
serSo acrescentadas" (Mt 6,33). Postergar a dimensSo essencial da ÜbertacSo
crista" em favor de sua dimensao conseqüencial ou ético-política, adverte o
Papa aos Bispos brasileiros, "é subverter e desnaturar a verdadeira libertadlo
crista". Como todos os seres humanos, também os pobres e miseráveis neces-
sitam, com a maior urgencia possível, da libertado soteriológica. Sonegá-la
seria defraudar e desiludir os pobres do Brasil. Buscariam entao ñas seitas o
que a Igreja da libertacSo ná"o lhes oferecer

Quando na prímeira comunidade crista de Jerusalém se apresentou o


problema da fome, os Doze convocaram a assembléia dos discípulos e disse-
ram: "N3o nos convém abandonar a Palavra de Deus para servir ás mesas.
Procurai, antes, entre vos, irmiíos, sete homens de boa reputacá"o, repletos
do Espirito e de sabedoria, e nos os colocaremos na direcfo deste oficio.
Ouanto a nos, permaneceremos assíduos á oracSo e ao ministerio da Pala
vra" (At 6,2-5). Era urna primeira divisSo de oficios segundo o criterio da
importancia (o "decisivo") e n3o o da urgencia. Para os Doze, o mais impor
tante era mesmo permanecer na assídua oracao e no ministerio da Palavra,
para saciar a fome de Deus.

Comunicam os irmaos Boff ao Cardeal Ratzinger: "Por nSo ter perce-


bido tal articulacáo (do decisivo com o urgente) há quem ataque a Teología
da Libertacao por antepor as questOes materiais ás questOes espirituais. Cria
se para tanto urna artificial e estranha oposicjSo entre urna 'teología da liber-
tacáo marxista', que seria a realmente existente, e urna 'teología da liberta-
cao crista', que seria a de Roma. Ora, Roma nunca falou nestes termos. Esta
distincáo nao encontra apoio nos documentos romanos".

Seria mesmo verdade que os autores da Carta Aberta nffo leram a Ins-
trumao Libertatis Nuntius? Pois lá está, num documento "romano", que as
teologias da libertacao aceitam um conjunto de posicSes incompatíveis com

363
28 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 291/1986

a vislo crístf do homem, porque nelas "o núcleo ideológico, tomado do


marxismo o que serve de ponto de referencia, exerce a funcio de principio
determinante" (VIII, 1); e por isso mesmo a Teología da Libertado deve ser
criticada "a partir do ponto de vista de classes que ela adota a priori e que
nela funciona como principio hermenéutico determinante" (X,2), já que os
teólogos da libertario "partem do pressuposto de que o ponto de vista da
classe oprimida e revolucionaria, que seria o mesmo deles, constituí o único
ponto de vista da verdade" (X,3). É exatamente isso o que os mesmos dois
irmá"os Boff explicam em Como fazer Teología da Libertacáo (Ed. Vozes, Pe-
trópolis 1986).

É certo que Leonardo Boff, no día 08-05-1985, "antes de entrar no


silencio penitencial", fez questáo de esclarecer publicamente: "Declaro que
nio sou marxista". Mas tao formal manifestado era retórica e ambigua. Por-
quanto ele mesmo insiste na distincio de quatro tipos de marxismo (cf. seu
livro O Caminhar da Igreja com os oprimidos, 1981, no capítulo intitulado
"Marxismo na Teología", pp. 196-206): l?o marxismo como prática histó
rica de luta de classes, 29o marxismo como prática económico-política, 39o
marxismo como prática teórico-filosófica, e 49 o marxismo como prática
científica ou métodos de análise sócio-histórica ou o materialismo histórico.'
Se agora declara que "nao é marxista", entende que ná*o o é do terceiro tipo,
que incluí o materialismo dialctico e o ateísmo; mas no citado livro procla
ma abertamente ser marxista do quarto tipo e ná~o deixa de simpatizar com
os dois primeiros. Quando se refere ao quarto tipo, diz expressamentc que
considera o materialismo histórico como "científico", "especialmente como
crítica ao sistema capitalista e proposito do socialismo". Iim seguida, pon
dera que tal análise "serve de arma teórica para as classes exploradas em bus
ca de sua libertacáo; para isso foi pensado e querido o marxismo como mate
rialismo, histórico". E dá mais este esclarecimento: "Os agentes de Igreja, em
geral, se encontram com o marxismo quando mergulham no mundo cultural
do pobre. Ai o encontram nao como filosofía materialista e negadora de
Deus (que seria o marxismo do terceiro tipo), mas como o único instrumen
to a seu alcance para entender sua condicao de explorados e como um cami-
nho de organízacáo, de formacáo de consciéncia crítica e de mobilizacüo dos
setores populares" (p. 203). Precisamente a adocSo desta análise "como úni
co instrumento" e até mesmo "como um caminho de organizado, de forma-
;ao de consciéncia crítica e de mobil¡zaca"o dos setores populares", marxiza
a teología e a pastoral da libcrtacao, politiza nao poucas comunidades de
base e perverte muita opcao pelos pobres.

Outros reparos poderiam ser feitos á Carta Aberta, partícula! mente


aos "pontos a aprofundar e a assumir". Assim, por exemplo, os irmaos Boff

364
CARTA AO CARDEAL RATZINGER 29

acusam a Instrucáo de ter um conceito mágico da verdade salvífica ("verda-


de-fetiche") quando anuncia que "a verdade nos liberta": ou que possui urna
"concepcáo exteriorista do pobre" ao fazer dele "objeto de um amor prefe-
rencial", usando ainda urna linguagem assistencialista de trinta anos atiás quan
do recomenda obras de beneficencia. Acusam-na outrossim de fazer urna leitu
ra "desconfiada, reticente, contida e pessimista" da historia dos últimos sé-
culos. Incriminanvna por usar um estilo "doutrinário, abstrato, conceptua
lista e dedutivo". Lamentam que a Instrucao nSo discuta a manipulado do
Cristianismo, como fez em seu tempo Karl Marx ao atacar a religiüb como
opio do povo. Esperavam que a Instruyo fizesse urna "evangélica autocríti
ca"; que falasse das lutas, dos martirios e das organizafOes dos pobres em
busca de sua libertacáo; que discorresse sobre os pobres como "novo sujeito
histórico hegemónico" e sobre o potencial evangelizador dos pobres e sua
capacidade de "construir urna Igreja na base", mobilizando os oprimidos pa
ra a acao libertadora: "Contém luz, mas nao produz calor".. .

Tal foi a "recepcao" da última Instrucáo por parte de dois notorios re


presentantes da conhecida área da Teología da Libertacfo. Eles dirigem a Carta
Aberta ao Cardeal Ratzinger e por ele "a todo o Povo de Deus". É o expe
diente que na realidade mais lhes interessava. Desta maneira seus epígonos já
tém á disposi$ao um modelo de leitura da Instrucáo que na"o só na"o lhes faz
nenhuma restricao, mas até lhes dá a "garantía" de estarem no caminho cer-
to, agora plenamente endossado por "Roma". E ficam sabendo muito mais:
quem nao estiver do lado deles, terá que enfrentar-se doravante com a pro-
pria Igreja.

365
No novo Direito Canónico:

0 Direito ao Foro íntimo

Em síntese: O cSnon 220 do novo Código de Direito Canónico garan


te a todo fiel católico o direito de defender o seu foro íntimo ou a sua priva
cidade, pois esta é o que há de mais típico e mais profundo dentro da pes-
soa.

Na verdade, a Igreja nSo é contraria ao estudo da Psicología; ao contra


rio, reconhece os prestimos dos estudos psicológicos em favor da estrutura-
$5o da pessoa humana. Todavía a Igreja deseja evitar toda imposicSo de tes
tes psicológicos e analíticos a quem nSo os autorize explícita e livremente;
principalmente os candidatos ao sacerdocio e á ProfissSo Religiosa nao de
ser respeitados neste particular, ao invés do que ocorreu no mosteiro mexi
cano de Cuernavaca em 1965-1967: todos entao eram coagidos a se subme-
ter a tratamento analítico. A privacidade e a consciéncia sao tesouro inde-
vassável da pessoa, cu/o valor mais e mais tem sido reconhecido tanto por
grandes organizares civis como pelo Direito da Igreja.

Era PR 272/1984, pp. 2-14, abordamos os direitos e deveres dos fiéis


católicos na Igreja segundo o novo Código de Direito Canónico. Resta expla
nar, de modo mais ampio, o teor do canon 220, que afirma o direito á pri
vacidade ou ao foro interno:

"A ninguém é lícito tesar ilegítimamente a boa fama de que alguém


goza, nem violar o direito, de cada pessoa, de defender a própria intimida-
de"1.

A razao de ser deste canon - novo, em relacao ao Código anterior - é


que o direito á própria intimidade (ou privacidade) é fundamental para todo
ser humano. Tem sido últimamente conculcado de maneiras diversas, me-

1 Ilegítimamente. . . Nao é ilegítima, por exemplo, a denuncia, perante a


autoridade competente, de urna conduta escandalosa, a fim de evitar um
mal público, mesmo que redunde em descrédito da pessoa denunciada.

366
DIREITOAO FORO INTIMO 31

diante torturas físicas e moráis, violáceo de segredos, manipulares na área


da medicina, ingerencias indevidas na esfera da intimidade pessoal; mesmo
no ámbito da Igreja tém-se verificado abusos, como no caso do mosteiro de
Cuernavaca (México), onde todos os candidatos eram indistintamente sub-
metidos á psicanálise e outros testes que violentavam o íntimo de tais pes-
soas; cf. PR 93/1967, pp. 365-375.

Os Papas, a partir de Pió XII, vém chamando a aten;á~o para esses ma


leficios; o mesmo foi feito pelo Concilio do Vaticano II, como se dirá adian-
te.

Importa-nos agora considerar o significado e o alcance do canon 220.

1- Igreja e testes psicológicos

O canon 220 nao significa que a Igreja seja contraria aos testes psicoló
gicos como tais. É o que se depreende dos seguintes documentos:

Em 1956 (31/05), a Constituicao Apostólica Sedes Sapientiae, tratan


do da formacáo dos candidatos á Vida Religiosa, afirma que é preciso ter em
vista a formacío do homem perfeito enf Cristo Jesús (cf. Cl 1,28), e acres-
centa:

"No tocante aos meios e métodos de formacáo, é claro que osprofis-


sionais da pesquisa humana de nossa época nSo devem ser despiezados, des
de que sejam competentes; ao contrarío, faz-se mister considerá-los, aprecía
los e admití-tos com sabedoria" (Acta Apostolicae Sedis 48, 1956, p. 359).

Pió XII, dirigindo-se a especialistas, enfatizava:

"Os testes e os outros métodos de investigacSo psicológica contribuí-


ram enormemente para o conhecimento da personalidade humana e tém
prestado servícos notáveís" (Aos participantes do XIII Congresso Internacio
nal de Psicología Aplicada, 10/04/1958).

O Concilio do Vaticano II, abordando a formacáo dos futuros sacer


dotes e dos Religiosos, sugere que se tenham presentes os métodos psicoló
gicos modernos.

Assim, por exemplo, o Decreto Optatam Totius, que versa sobre as vo-
ca$oes sacerdotais, exorta: ". . . Promovam (os Bispos) acáo pastoral global
em prol das voca;5es sem menosprezar os oportunos auxilios que utilmente
nos oferecem as hodiernas doutrinas psicológicas e sociológicas" (n? 2). Os
alunos dos Seminarios Menores "levem urna vida conveniente á idade, ao es-

367
32 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 291/1986

pírito e á evolucao dos adolescentes, plenamente adaptada ás normas da sa"


psicología, sem se omitir adequada experiencia das realidades humanas"
(n93).

O decreto Perfectae Caritatis sobre a Vida Religiosa pede que os Re


ligiosos nao sejam admitidos á profissíTo "senSo após urna provacSo realmen
te suficiente e com a devida maturidade psicológica e afetiva" (n?12).

Em 1967, já após o Concilio do Vaticano II, Paulo VI publicou urna


encíclica sobre o celibato sacerdotal. Entre outras coisas, lamentava inade-
quada formado dos jovens para abracarem a vida sacerdotal celibatária e
acrescentava:

"O Concilio Ecuménico Vaticano II ¡ndicou. . . criterios e normas sa-


pientfssimas, de harmonía com o progresso da psicología e da pedagogía e
mesmo com as condicdes dos homens e da sociedade contemporánea. É von-
tade Nossa publicar o maís cedo possfvei instrucdes adequadas onde este te
ma seja tratado com a necessária amplitude, recorrendo para isso a peritos, a
fím de podermos prestar um válido e oportuno auxilio aos que ná Igreja tSm
o gravfssimo dever de preparar os futuros sacerdotes" (n960s, referindo-se a
Optatam Totius 3-11; Perfectae Caritatis n? 12).

Destas observacoes de Paulo VI resultou certa bibliografía, devida a es


pecialistas católicos de psicología, que procuraram aprofundar o papel das
ciencias psicológicas na formacáo dos sacerdotes. Seja mencionado o Pe. L.
M. Rulla S.J., fundador do Instituto de Psicologia da Universidade Gregoria
na (Roma), que publicou importantes obras como Psicologia del profondo e
vocazione. Torino 19812 e Strutura psicológica e vocazione. Motivazioni di
entrada e di abandono. Torino 1981 (esta última em colaborado com F.
ImodaeJ. Ridick).

Como se vé, a Igreja nao é contraria á pesquisa psicológica; todavía ela


se senté obligada a formular ditames de ordem moral, que se impOem ao psi
cólogo, como se impOem a todo pesquisador. Ciencia sem consciéncia (mo
ral) é arma de dois gumes.

Urna vez elucidada esta questSo preliminar, tentemos penetrar mais a


fundo no sentido do canon 220.

2. O direito á privacidade

O direito é a faculdade moral de exigiónos o que nos pertence ou nos


é devido. Implica, nos outros, o dever ou a obrigacáo moral de respeitar tal

368
DIREITO AO FORO INTIMO 33

exigencia. O direito pode ser natural ou positivo, conforme decorra da pró-


pría natureza humana ou da autoridade competente.

A existencia de um direito natural tem sido reafirmada e defendida pe


la Igreja, como atesta a seguinte passagem da encíclica Pacem in Tenis de
Joáo XXIII:.

"Estabeleca-se como fundamento o principio de que todo ser humano


é pessoa, isto é, natureza dotada de inteligencia e de livre vontade. Por isto é
su/eito de direitos e deveres, que procedem ¡mediata e simultáneamente da
própria natureza humana: direitos e deveres que, por isto, sao universais, in-
violáveis e inalienáveis" (nP8).

O Concilio do Vaticano II faz eco a esta afirmacao, enfatizando "a


eximia dignidade da pessoa humana, superior a todas as coisas, cujos direitos
e deveres sao universais e inalienáveis" (Const. Gaudium et Spes n?26; De-
elaracao Dignitatis Humanae).

Ora a Igreja sabe que Cristo lhe confiou a missSo de transmitir a Boa-
Nova a todos os povos - o que indui a proclamado da própria leí natural e
de suas aplicacoes:

"Por vontade de Cristo, a Igreja Católica é mestra da verdade, e sua


missao consiste em anunciar e ensinar auténticamente a verdade que é Cris
to, e, ao mesmo tempo, proclamar e confirmar com autoridade os principios
da ordem moral que decorrem da própria natureza humana" fDignitatis Hu
manae n?4).

Ora o direito á privacidade ou ao foro íntimo é algo que decorre da


natureza humana e que, portanto, a Igreja tem o dever de proclamar. Já Pió
XII o fez em 1958; falando aos participantes do XIII Congresso Internacio
nal de Psicología Aplicada, quis propor a nocao de "intimidade ou privacida
de pessoal" nos seguintes termos:

"Há larga faixa do próprio mundo interior que a pessoa só manifesta


a poucos confidentes e defende contra a intrusao de outros. Por conseguín-
te, ela conserva em segredo certas coisas a todo preco e em relacSo a quem
quer que seja. Há outras coisas de que o próprio su/eito nSo consegue tornar
se consciente. A psicología ensína, além isto, que existe urna regiSó íntima
do psiquismo - relativa especialmente a tendencias e disposicdes — tao ocul
ta que o individuo nunca chegará a conhecé-la nem mesmo a supo-la. E, co
mo é ilícito apropriar-se dos bens de outrem e atentar contra a sua ¡ntegrida-
de corporal sem o consentimento seu, assim também nao é lícito entramo

369
34 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 291/1986

intimo de alguém contra a vontade desse alguém, qualquer que se/a a técnica
ou o método aplicado" fActa Apostolicae Sedis 50, 1958, p. 276).

Isto quer dizer que dentro do homem existem segredos, . .. segredos


referentes ao ser e nao somente ao ter do individuo. Sao como que partes
constitutivas da personalidade, mas na*o sao objeto de experiencia direta do
sujeito: sao chamados "segredos essenciais", "segredos pessoais" ou segredos
do eu. 0 eu vive a sua intimidade como a coisa mais sua e mais típica dele
mesmo. 0 eu senté certo pudor de revelá-los. Esse pudor é como urna aura
de resistencia e de protecüo, que ajuda a afastar toda indevida ingerencia
nesse setor, que, para o eu, é sagrado.

A intimidade pessoal, portanto, é o que de mais profundo, mais secreto


e mais sagrado possui a pessoa humana, lntrometer-se nela, sem previo, ex
plícito e livre consentimento, significa violacao de um direito natural. Impli
ca também desprezo, porque n3o se leva em conta a dignidade própria do ser
racional e livre, e perscruta-se um homem como se sondaría urna coisa. Tal
ato. tem a malvadez do furto, porque se apropria, sem a permissáo do pro-
prietário, do que mais intimamente pertence a este. É violacío de segredo,
porque nada existe de mais reservado do que o íntimo da consciéncia; com
efeito, diz a Constituicáo Gaudium et Spes do Vaticano II: "A consciéncia é
o núcleo mais secreto e o sacra rio do homem, onde ele se encontra a sos
com Deus, cuja voz ressoa na intimidade" (n? 16). É ato de violencia, por
que se op5e a um direito, e a um direito fundamental; nao importa que se
aplique a forca ou nao; desde que alguém se oponha a um direito, há sempre
violencia.

Se é verdade que o amor nos leva a abrir-nos aos outros, também é ver-
dade que esta abertura nao pode ser imposta pela autoridade, desde que se
trate dos direitos fundamentáis e inalienáveis da pessoa; diz Santo Tomás:
"O homem nao está voltado para a comunidade política segundo todo o scu
seré segundo todas as suas facilidades" (Suma Teológica 11/11 qu. 21, art.
4,ad 3) - o que quer dizer: o liomem conserva sempre, mesmo dentro da
sociedade, um foro íntimo indevassável.

3. Consciéncia de tal direito hoje

Em nossos dias a consciéncia humana tem amadurecido notavelmente


no reconhecimento do direito á privacidade. Assim a Declaracao dos Direi
tos Humanos, assinada aos 10 de dezembro de 1948, reza:

"Ninguém será sujeito a interferencia na sua vida privada, na sua fami


lia, no seu lar, na sua correspondencia, nem a ataques á sua honra e repu-

370
DIREITO AO FORO INTIMO 35

ta?ao. Todo homem tem direito á protegió da lei contra tais interferencias,
ou ataques" (art. 12).

"Todo homem tem direito á Iiberdade de pensamento, consciSncia e


religiSo" (art. 18).

As mesmas verdades slo proclamadas pelo magisterio da Igreja. 0 Papa


Joao XXIII, por exemplo, escrevia na encíclica Pacem in Terris:

"Todo ser humano tem direito ao respeito a sua pessoa, é boa reputa-
cao, á Iiberdade na pesquisa da verdade e na manifestado do seu pensamen
to" (n910).

0 Concilio do Vaticano II chama a atenciío para as violacOes de tais


direitos, quando diz:

"Tudo o que viola a integridade da pessoa humana, como as mutila-


coes, as torturas físicas ou moráis e as tentativas de dominacao psicológica
. . ., todas estas práticas. . . sao efetívamente dignas de censura. Enquanto
elas infeccionem a civilizado humana, desonram mais os que se comportam
desta maneira, do que aqueles que padecem tais injurias. E contradizem so-
bremaneira á honra do Criador" (ConstituicSo Gaudium et Spes n?27J.

Filósofos e teólogos tem insistido na temática como, por exemplo,


Jñeques Maritain:

'Visto que a pessoa é dotada de livre escolha e, portanto, constituí um


toau independente em relacao ao mundo,... nem mesmo o Estado pode to
car este universo, sem a sua permissSo. O próprio Deus, que está e age na
criatura, age de modo particular e com delicadeza extrema. Isto mostra a es
tima que Ihe dedica. Mesmo habitando no fundo da criatura, respeita a
Iiberdade da mesma, solicita-a, mas nunca a forca" (citado por G. Duhamel,
La defensa de la persona humana, Madrid 1949, p. 48).

O teólogo Karl Rahner observa:

"O homem possui uma faixa de intimidade, na qual só pode entrar


,jem está autorizado pelo próprio possuidor desta faixa; mesmo assim,
; jem tenha livre acesso, só pode penetrar... deixando em todo momento a
quem o autorizou, a faculdade plena de expulsar o intruso. Com efeito, é es
te foro íntimo uma característica indelével da pessoa e da Iiberdade, median
te a qual a pessoa possui a si mesma... e, por conseguinte, só pode ser pos-
suida por outra pessoa (que nio o Criador) por via de conhedmento, e sem-

371
36 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 291/1986

pre na base e na proporcSo da abertura que Ihe oferees por espontánea von-
tade" fMissione e grazia. Roma 1966, p. 276).

Concluí B.A.M. Peters:

"Pertence únicamente a Deus sondar os rins e o coracao, isto é, ver


a través da personafidade o fundo do ser. Nunca será lícito penetrar com
violencia na intimidade da pessoa, colocando-a num estado em que ¡á nao
pode dispor livremente de si mesma. . . Ninguém tem o direíto de penetrar
na intimidade de quem se fecha, eliminando o controle da consciéncia:a ra
zio disto é que a aütorizacSo de penetrar na intimidade da pessoa nSo de
pende da maneira, social ou nio social, como tal intimidade é vivida, mas da
resposta que se deve dar á pergunta: tenho eu o direito de despojar a pessoa
humana da faculdade de agir como pessoa moral e de eliminar a identidade
desta? A pessoa humana, na medida em que é capaz de se determinar moral-
mente, é inviolável; /amáis deve ser constrangida nem impedida no uso da
sua própría responsabilidade" (La valeur morale de l'intimité personelle, em
Studia Moralia 1964 II ?53s).

Examinemos agora as

4. Conseqüéncias práticas

1. 0 que acaba de ser dito, leva á conclusas de que nap se pode obrigar
alguém a submeter-se á análise de sua intimidade pessoal. Para tanto será
sempre necessário obter do paciente a autorizacSo previa, explícita, cons
ciente e totalmente livre. Para evitar ilusSes ou passos em falso nessa área, a
S. Congregacao do S. Oficio em julho de 1961 publicou um Monitum(Ad-
moestacáo), que visava a pontos relacionados com a sexualidade e a psicaná-
lise:

"Gente de que estao comumente difundidas e esparsas muirás e peri-


gosas opinides a respeito dos pecados contra o sexto mandamento e a propó
sito da imputabilidade dos atos humanos, esta Sagrada Congregacao julgou
oportuno baixar as seguintes normas:

I) Os Srs. Bispos, os Diretores de Faculdades Teológicas e os Responsá-


veis pelos Seminarios e Escolas dos Religiosos exijam estritamente dos pro-
fessores de Teología Moral e das disciplinas congéneres que se conformem
fielmente á doutrína da Igreja (cf. canon 129)1.

1 0 canon 129 do antigo Código rezava: "Os Clérigos, depois de recebido o


presbiterado, nao deixem de estudar, principalmente, as disciplinas sagradas.

372
DIREITO AO FORO ftlTIMO 37

2) Os censores eclesiásticos usem de grande cautela na recensSo e avalla


do de livros e revistas que abordam o sexto preceito do Decálogo.

3) Aos Clérigos e Religiosos sao vedadas as funcoes de psicanalista, se


gundo a mente do canon 139 § 21.

4) Deve-se re/eitar a opiniio daqueles que afirmam ser absolutamente ne-


cessário o processo psicanalitico como etapa previa para se receberem as Or-
dens Sagradas ou asseveram que testes e exames psicanal/'ticos propríamen-
te ditos devem ser impostos aos candidatos ao sacerdocio e á Profissáó Reli
giosa.

Estas proibicoes aplicam-se também aos casos em que se tente avaliar a


aptidSo de candidatos ao sacerdocio ou á ProfissSo Religiosa.

Mais: os Religiosos de ambos os sexos e os sacerdotes nSo devem pro


curar psicanalistas a nao ser que o permita o seu Ordinario1 por motivos
graves.

Dado em Roma, na sede do S. Oficio, aos ISdejuIho de 1961.

Sebastiáo Massala
Notario"3

No estudo destas sigam a doutrina entregue pelos antepassados e comumen-


te aceita pela fgreja, cortando as novidades vazias e profanas e a falsa cien
cia".

O novo Código conserva este canon sob o n?279, § 1, acrecentando-


Ihe: "Sigam a doutrina entregue pelos antepassados e comumente aceita pela
Igreja, tal como é determinada principalmente pelos documentos dos Conci
lios e dos Pontífices Romanos".

1 O canon 139 § 2 do amigo Código de Direito Canónico proibia aos clé


rigos o exercfcio da medicina e da cirurgia, assim como os oficios de tabeli-
So e notario fora da Curia eclesiástica. - O canon 285 do novo Código, que
corresponde ao de n9139 do anterior, já nao proibe o exercfcio da medicina
e da cirurgia, nem os outros oficios citados. Isto, porém, nSo quer dizer que
os Bispos diocesanos, cada um em sua diocese, nao possam proibir tais ati-
vidades, caso as ¡ulguem, de momento, incompativeis com o estado clerical.

2 Bispo ou prelado local ou Superior Religioso.

3 Texto publicado em L'Osservatore Romano, ed. cotidiana italiana, de


16/07/61; cf. REB, vol. XXI. 1961, p. 732.

373
38 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 291/1986

Este documento da Santa Sé, embora date de 1961, ná"o perdeu atuali-
dade, especialmente no seu ítem 4. Mas, á luz do canon 220, adquire novo
vigor, cujo significado pode ser assim resumido:

A ninguém, nem mesmo aos Superiores Diocesanos e Religiosos,, é ií-


cito penetrar dentro da intimidade psicológica ou moral de alguém sem ter
recebido explícito e livre consentimento previo. Em conseqüéncia, os semi
naristas, os novicos e clérigos em formacao ná*o devem ser levados a práticas
psico-projetivas, de qualquer tipo que sejam, se falta a autorizac.3o do inte-
íessado, autorizafao que nao será lícito extorquir.

2. Outra conseqüéncia do canon 220 diz respeito á conservac;áo do se-


gredo, ao qual está~o obrígados o psicólogo e 6 psicanalista, após ter explora
do, com o consentimento do paciente, a intimidade psicológica ou moral de
uma pessoa. A obrigatoriedade de tal segredo é das mais severas, pois partici
pa do segredo natural e do segredo profesional. Observa B.A. M. Peters:

"Nunca será lícito dispor livremente do foro íntimo de outra pessoa


que se tenha aberto a mim, porque nao tenho absolutamente o direito de
dispor da subjetividade de outrem. é sobre esta norma que, segundo me pa
rece, se funda o significado mais profundo do segredo profissional, sem le-
varmos em conta outros numerosos motivos de ordem social" (obra citada,
p. 249).

Estes motivos de ordem social tém sua importancia: sao a honra, a es


tima, a boa fama, da qual todo cristSo tem o direito de gozar para agir po
sitivamente numa sociedade, especialmente se se trata de sacerdotes e Reli
giosos. Diz S. Tomás:

"A honra ou fama, dentre todos os bens temporais, é o mais precioso,


porque, se a perde, o homem é impedido de realizar multas coisas boas... A
reputacao ou fama é mais valiosa do que as riquezas, pois é mais próxima
dos bens espirituais do que estas" (S. Teol. /////, qu. 73, art. 2).

Conseqüentemente é considerada ilícita a exibicao ou mesmo a con


servado (sem estrita necessidade) de fichas referentes ao foro íntimo de
alguém, pois cada um deve ser sempre o único depositario dos seus segredos,
a respeito dos quais há de poder tomar decisSes livres.

Também nao é lícito a um psicólogo ou profissional induzir o paciente


a recordar fatos desregrados ou pecaminosos do passado, para tentar revíve
los a título de se livrar de complexos, inibic.Ses, aversSes, etc. Nao é lícito a
um psicoterapeuta pedir a um paciente que consinta em movimentos e im
pulsos instintivos ocorrentes durante a terapia, desde que contradigan! á re-

374
D1REIT0 AO FORO fNTIMO 39

ta ordem moral. Nada impede, porém, que se evoquem ou recordem sitúa-


95es escabrosas contidas no inconsciente ou no subconsciente, a fim de colo-
cá-las sob a auténtica luz da moralidade, avaliá-las do ponto de vista ético e
ajudar o paciente a se libertar de erróneas conceptees.

Sao estas algumas observacoes que o canon 220 do novo Código pode
sugerir a um estudioso.

Na confecfio deste artigo muito nos valemos do estudo de V. Marcoz-


z¡: "II dirítto alia propría intimita nel nuovo Códice di Diritto Canónico",
em "La Civi/itá Cattolica" n?3204, 17/13/83, pp. 573-580.

Ver a propósito PR 205/1977, pp. 3-13: "Exames psicológicos e direi-


tos dn homem".

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375
Tese e antítese:-

"La Religión en la URSS"


por Alexéi Puzin

Etn sin tese: O artigo abaixo transcreve trechos de livro do Governo


Soviético referentes á liberdade de consciéncia e á ReligiSo na URSS. Logo a
seguir, apresenta noticias colhidas através de rede nSo oficial sobre o mesmo
assunto. A ¡ustaposicao evidencia quanto a realidade é diferente daquilo que
os regimes da Cortina de Ferro querem incutir aos seus leitores; a discrimi-
nació religiosa aparece evidente e brutal.

Encontram-se no Brasil livros impressos em Moscou em língua espa-


nhola, para ser difundidos na América Latina, a respeito do comunismo e da
ReligiSo na URSS. Entre outros, deve-se mencionar o de Aléxei Puzin: La
Religión en la URSS. Editorial de la Agencia de Prensa Novosti, Moscú (sem
data). Apresenta seis capítulos: "Liberdade e Inviolabilidade de Culto e Cos-
tumes", "Igualdade Absoluta de ReligiOes", "Garantías Seguras'" "Crentes e
Ateus", "Liberdade de Consciéncia", 'Testemunhas Convincentes". O autor
tenciona persuadir o público de que na URSS existe plena liberdade religio
sa, de acordó com as normas da Constituicáo Soviética. Sem muito procurar,
o leitor se depara com tópicos como os que vio abaixo transcritos.

1. Passagens significativas

Deixaremos os textos em seu teor original para nüo Ihcs tirar a autenti-
cidade e o seu valor significativo.

"El Decreto del Poder soviético acerca de la libertad de consciéncia y


de cultos terminó con la opresión secular que pesaba sobre la Iglesia: la libe
ró de sp tutela exterior y sólo aportó beneficios a su vida interior. El Decre
to concedió la libertad a todas las comunidades religiosas y garantizó la in
violabilidad de esa liberación" (p. 27).

"La Iglesia ejerce libremente sus funciones religiosas y nadie le impide


celebrar oficios, administrar los sacramentos prescritos por sus dogmas y sus
cánones" (p.27).

376
"LA RELIGIÓN EN LA URSS" 41

"Todos los ciudadanos pueden ejercer con absoluta libertad los ritos
religiosos: bautismo, matrimonio, comunión, confesión, extremunción, sepe
lio, etc.; pueden ir libremente a la iglesia o rezar en su casa; adornar su apar
tamento con icones, cruces o imágenes y demás símbolos religiosos; comprar
devocionarios, revistas y almanaques litúrgicos, la Biblia, el Corán y otra li
teratura religiosa publicada por los centros confessionafes" (p. 37).

"Ningún ciudadano que entre en un trabajo o ingresse en un centro de


enseñanza está obrígado a declarar sus convicciones religiosas ni se le puede
despedir o negarle la admisión en el trabajo o en un centro docente por mo
tivos religiosos. Los.que se afilien a los sindicatos, cooperativas, sociedades
deportivas, etc., no tienen la obrígación de manifestar la fe que profesan. El
Decreto dice: Toda mención de figurar o no pertencera una religión queda
eliminada de los documentos oficiales'" (p. 38).

"La justicia se ejerce en la URSS sobre la base de la igualdad de los ciu


dadanos ante la ley y ante los tribunales, independientemente de la posición
social, situación económica, cargo, raza y nacionalidad a que pertenezscan o
religión que profesen" fp. 39).

"La prática de una fe, se dice en los códigos civiles de las Repúblicas
Federadas, no influye en la capacidad cívica, es decir, en la integridad de los
derechos de propriedad, en la posesión de casas y en otros poderes de los
ciudadanos.

También está estabelecida la libertad de derechos de los ciudadanos en


los asuntos familiares y matrimoniales, independientemente de la religión
que profesen " (p. 39).

"Hay quienes pretenden que en la URSS se impide a los niños y a los


adolescentes asistir a la iglesia. En la Unión Soviética no existe esa ley. El
que quiera, puede entrar en un templo y convencerse de que nadie les impi
de el paso a los chicos y ver como participan en la celebración de ritos reli
giosos"(pp. 39s).

Ora quem presta ouvidos mais apurados á realidade soviética e dá aten-


9S0 a testemunhos nao do Governo, mas de simples cidadaos, que falam em
nome da populacáo, verifica que a ReligiSo nos países comunistas sofre tra-
tamento assaz diverso daquele que oficialmente se Ihc atribuí, como se de-
preenderá dos depoimentos subseqüentes.

377
42 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 291/1986

2. "A Igreja que sofre..."

Existem no Ocidente algumas OrganizagSes que se interessam pela


Igreja do Silencio, ou seja, pelos cristáos que na realidade perderam sua li-
beidade religiosa nos países da Cortina de Ferro; mantém contatos (até clan
destinos) com individuos e grupos residentes ñas térras comunistas, de mo
do que oferecem ao público noticias tiradas da experiencia doscidadáos su-
jeitos ao regime socialista. Citaremos, a seguir, trechos desses depoimentos
publicados pelo periódico "Chrétiens de l'Est. Faits et Témoignages" n9 48,
4? trimestre de 1985. Tal revista é órgáo da Sociedade "Aide á l'Eglke en
Détresse" (Ajuda á Igreja que sofre), B.P. 1, 787S0 Mareil-Marly, Franca; o
que abaixo será lido, tem seus paralelos ñas demais edigOes de tal periódico.

2.1. SEGREGAQÁO

"Num momento em que muito se fala de apartheid e de segregacao, é


preciso evitemos um conceito unilateral desta realidade.

Se ela é espetacular na África do Sul, a segregado nao é menos real


nem menos cruelmente eficaz em outros países, que, no cenarlo internacio
nal, se dizem ospioneiros da Iuta contra o apartheid.

Na Uniao Soviética, por exemplo, e em todos os outros países de regi


me marxista, o apartheid existe. Apenas lá o criterio de discriminacSo nSo é
a cor da pele, mas a do pensamento.

Os que nao pensam 'vermelho', os que 'pensam de outro modo' (os


inakomisli, como eles mesmos se chamam) sao sistemáticamente marginali-
zados. E, entre eles, estao todos os crentes, para os quais nSo há lugar na
hospedaría (ver Le 2.7}, isto é, na sociedade, da qual eles sio os parias.

O Estado tolera a sobrevivencia dos fiéis em certos ghettos bem deli


mitados, pois tais 'reservas' vém a ser excelentes vitrines para estrangeiros
simplórios, que, com a Constituicao Soviética numa mao e urna máquina fo
tográfica na outra, podem voltar de lá afirmando que na URSS existe líber-
dade religiosa e que eles a encontraram...

Certamente é urna grapa para os cristáos da URSS ter aínda algumas


igrejas abenas, em que a Palavra de Deus e a vida sacramental sa~o transmiti
das. Mas nem esses lugares de culto, nem os sacerdotes nem os fiéis tém seu
lugar numa sociedade que os excluí radicalmente.

Nao há lugar para Deus nesse Imperio que O expulsou. Por isso, é no
humilde, mas radioso presepio do coracSo de cada cristSo, que María e José

378
"LA RELIGIÓN EN LA URSS" 43

se refugiam e é lá que, sem que o saiba o orgulho do César, incessantemen-


te renasce o Menino-Deus e Salvador do mundo".

(Editorial de Chrétiens de l'Est, n°48,4° tr. 1985, p. 1).

2.2. DISCRIMINACÁO ANTICRISTA

"Os responsáveis pelas Igrefasprotestantes da Alemanha Oriental criti-


caram, no domingo 22 de setembro de 1985, a discriminado da qual sSo vi-
timas os cristaos daquele país. Estas criticas coñudas no relatórío anual do
Sínodo Protestante referem-se ao controle exercido sobre os cristffosva Re
pública Democrática da Alemanha, controle que destróí as iniciativas, espe
cialmente dos jovens. As restrícoes a todo tipo de viagem para fora do país
sao comparadas ao despotismo que tolhe o sentido da responsabilidade pes-
soal e a independencia nos jovens".

(Agenda A. F.P., París - 24/09/85)

2.3. BIBLIAS TRANSFORMADAS EM PAPEL HIGIÉNICO!...

A Agencia de Informacoes Religiosas suíca "Glaube in der Zweiten


Welt" possui relatónos que falam de 20.000 Biblias em húngaro que "desa-
pareceram" na Ruménia. Evidentemente tratase de urna remessa feita pela
Alianca Reformada Mundial, declararan) os porta-vazes da Agencia. Interro
gadas a propósito, as Sociedades Bíblicas Unidas responderam que 10.000
Biblias em húngaro foram enviadas á Igreja Reformada da Rumania em se-
temoso de 1980. O secretario das mesmas na Europa havia pessoalmente ga
rantido a entrega desses volumes ao bispo Nagy de Cluj, dirigente da Igreja
Reformada da Ruménia. A Alianca Reformada Mundial nao recebeu infor-
macao alguma sobre a distribuicao dessas Biblias.

Outras Organizares de Defesa dos Direitos Humanos também apre-


sentaram rolos de papel higiénico sobre os quais se podía ler o nome da usi
na de transformacao do papel "Bisthta Prundul Birgaului", o número da se
rie, o preco e também trechos da Biblia em húngaro.

O ex-embaixador norte-americano David Funderbunk observou que as


20.000 Biblias enviadas na década de 70 para Bucarest pela Alianca Refor
mada Mundial foram confiscadas pelas autoridades rumenas e transformadas
em papel higiénico. Varios rolos de papel, sobre os quais aínda se podiam ler
as palavras "Deus" e "Jeremías", acham-se em poder de Organizacoes Ame
ricanas de Defesa dos Direitos do Homem.

379
44 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 291/1986

Sabe-se que a Rumania carece de papel. Um ¡nquérito iríais apurado


permitiu concluir que o papel higiénico fora fabricado com Biblias introdu-
zidas no país sem autorizado oficial e confiscadas pelos servicos da alfánde-
ga.

ÍChrétiensdel'Est,n?4S,4?fr. 1985. pp. 25s).

2.4. "A INDEPENDENCIA DO CRISTÁO COMECA COM A ARTE


DE D1ZER NAO!..."

Foi nestes termos vigorosos que o Cardeal Joachim Meisner, bispo de


Berlim, se dirigíu em malo 1985 a mil jovens da República Democrática
Alema reunidos na Catedral de Santa Edwiges, em Berlim Oriental, para en
cerrar um Congresso da Juventude Católica. Durante tres dias todos esses
jovens refletiram sobre o tema "Cristo, nosso futuro".

Os servicos de seguranza do Estado nSo permitiram aos jornalistas as-


sistissem a essa assembléia espetacular, á qual nSo fizeram referencia os
meios de comunicado social.

Na sua alocucao de encerramento, após ter lembrado a visita de corte


sía que o Presidente do Conselho de Estado fizera ao Papa JoSo Paulo II, o
Cardeal Meisner exprimíu o désejo de que "o governo da RDA saiba tirar as
conseqüéncias desse encontró". E, sob urna trovoada de aplausos, o Cardeal
acrescentou: "Julgaremos o Governo segundo os seus atos".

Aos jovens ouvintes o Cardeal pediu urna profíssSo de fé mais clara,


rejeitando toda duplicidade e ambigüidade:

"É preciso que nao levemos urna existencia crista duvidosa, aceitando,
por exemplo, trabalhar profissionalmente segundo métodos contrarios á
conscüncia crista" ou freqüentando a escola sem ousar confessar que somos
discípulos de Cristo. . . A independencia do cristSo comeca com a arte de
dizer Nao. . . É preciso saber dizer NSo as grandes instancias que na verdade
regem a nossa vida. . . Dizer NSo as forcas que tomam posse de nos median
te promessas, ilusoes e pressoes, é exprimir urna breve profissao de fé..."

{Correspondencia particular, Chrétiens de l'Est n?48, 4?tr. 1985, p. 7).

REFLEXÁO FINAL

A situado da Igreja do silencio vem a ser apelo vivo aos eristaos do


Ocidente no sentido de que procurcm mais e mais tomar consciéncia dos va-

380
"LA RELIGIÓN EN LA URSS" 45

lores da fé e da profísslo desimpedida da mesma. Os irma"os perseguidos se


queixam de certa indiferenca dos ocidentais em relacSo aos da Cortina de
Ferro; a liberdade de que aqueles gozam talvez os iluda, insinuando que em
toda parte no mundo a Igreja é livre. Daí a importancia de refletirem sobre a
Igreja do silencio, sobre o heroísmo dos cristSos sufocados e sobre a necessi-
dade de lhes acudir mediante oraches e urna vivencia cada vez mais coerente
da sua vocac.50 crista"; a santidade dos membros da Igreja é um dos recursos
mais efícazes do Cristianismo para enfrentar o ateísmo e obter de Deus as
gracas necessárias aqueles que sofrem e pedem apoio. "Urna alma que se ele
va, eleva o mundo inteiro".

(continuado da p.384)

6. De resto, as expressoes da Sra. Yvonne Trudert correspondem as de


urna pessoa megalomanfaca, cuja visita ao Brasil seria um privilegio para os
brasileiros; enviada por Poderes superiores, viria de outros mundos a fim de
alertar a populacao da Térra. Tais afirmacSes geralmente se prendem a per
turbares mentáis — o que impede as pessoas sensatas de levar a serio a dou-
trina da Sra. Yvonne.

Quanto á mensagem do amor ao próximo, nao é específica do IVI,


mas é tirada do Evangelho, onde se encontra em termos muito mais signifi
cativos e convincentes: "Como o Pai me amou, assim também eu vos amei.
Permanece! no meu amor. Se observardes os meus mandamentos, permane
ceréis no meu amor" (Jo 15,9s). Muito antes do IVI, a Igreja tem pregado
esta mensagem do Evangelho e continua a pregá-la.

Como se vé, nao é preciso refletir muito para se perceber a total in-
compatibilidade de Cristianismo e IVI. Somente o despreparo do público e a
sede do maravilhoso — as vezes mais emotiva do que orientada pela razao —
explicam a penetracao do Movimento dentro da sociedade brasileira.
Estevao Bettencourt O.S.B.

381
O Movimento de

14 Invitation á la vie"(IVI)

Em sin tese: O Movimento IVI nSo se compatibiliza com a mensagem


Cristi a varios títulos: propoe um conceito pan teísta de Deus (a Divindade
seria tudoi; conseqüentemente professa a reencarnacao; reduz a oracao a
fenómenos de telepatía ou á emissio dé ondas energéticas positivas eeficazes.
Além do mais, a mensageira do Movimento no Brasil, a Sra. Yvonne Trudert,
exprímele em termos megalomaníacos: seria a enviada de Potencias Supe-,
riores, oriunda de outros mundos para dizer aos habitantes da Térra que mu-
dem de vida, pois Jesús Cristo está para voltar em breve; essa senhora diz
conhecer os seus ouvintes há milenios e saber o que está por tras de cada
semblante; a sua visita é um privilegio para os brasileiros. Já esta atitude me-
galomanfaca é suficiente para Iancar o descrédito sobre a doutrina apregoada
pela Sra. Yvonne. Quanto á exortacao ao amor, é plenamente válida, mas
nSo é específica de IVI; encontrase mais clara e convincente nos Evangeihos
tais como tém sido lidos e proclamados na Igre/a Católica.

Está sendo disseminado no Brasil o Movimento dito "Invitation á la


Vie" (IVI), trazido pela Sra. Yvonne Trudert. Em suas palestras geralmente
realizadas em ambiente de elevado ni'vel social e em língua francesa, esta
mensageira tem atraído muitas pessoas, impressionadas pela pregacao de IVI.

Veremos, a seguir, as principáis linhas doutrinárias da nova corren te' e


o que ela sugere do ponto de vista cristSo.

1 Mesías páginas apresentarei a doutrina da Sra. Trudert tal como pessoal-


mente a pude ouvir em conferencia a que assisti, tomando anotacdes. Tam-
bém me valerei de fitas gravadas durante as suas palestras com a devida auto
rízalo da conferencista. (E.B.)

* Convite á Vida.

382
"INV1TATI0N Á LA VIE" (IVI) 47

1. A Mensagem

1. Yvonne Trudert se diz católica, sim (pois é breta, como ela mesma ex
plica). Nao é deste planeta, mas cumprindo ordens superiores, foi enviada á
Térra para anunciar que Jesús Cristo está para voltar em breve; Ele procla
mará a transformacao deste mundo. A visita de Yvonne é um privilegio con
cedido aos seus ouvintes brasileiros. Estes, em conseqüéncia, devem mudar
de vida, enquanto ainda é tempo. Yvonne diz que há milenios conhece os
seus ouvintes; sabe o que está atrás de cada semblante. Sabe também onde
estao os mortos, especialmente os do Triángulo das Bermudas; é capaz de
diagnosticar e de curar doencas á distancia.

2. Também os ouvintes da mensageira nSo sSo deste mundo; vém de fora


(vous venez d adleurs); sao extraterrestres. A conferencista professa a reen-
camacSo, embora diga que "desconfia da palavra reencamacáo".

3. O convite de IVI é para urna vida de amor. Yvonne afirma que o único
(?) mandamento deixado por Jesús é o de nos amarmos uns aos outros Dis
corre tongamente sobre o amor, citando passagens do Evangelho nem sem-
pre cuidadosamente traduzidas para o francés.

4. O conceito de Deus é panteísta. Deus é dito "o poder cósmico" ou


energla cósmica . A sra. Yvonne chega a professar que nos somos membros
de Deus: Ele e o corpo .

5. Em conseqüéncia, a oracío é telepatía; por elá emitimos ondas de


energía que realizam os efeitos almejados. A oracSo nos possibilita comuni
car-nos com outros mundos. Assim se elucidaría o seguinte fato: quando ca
tólicos, protestantes, israelitas, muculmanos e ateus se encontram no IVI,
"rezam a mesma oracao universal, isto é, Pai Nosso e Ave-María. E todos re-
zam. Pois nos explicamos o que quer dizer oracáo. A oracSo é urna vibracSo;
é urna melodía, é algo muito forte, que nos enriquece e que nos dá urna paz
e urna serenidade profunda. Isto é porque todas as religiSes se reunem num
único canto, numa única voz, amar".

A oracao dos membros do IVI, dizem, obtém curas, mesmo nos casos
desengañados pelos médicos e á distancia. Isto se compreende se a oracffo
significa emissfo de ondas energéticas. Alias, diz Yvonne, as doencas slo
causadas por ondas negativas que penetram no corpo dos homens; tais ondas
sSo vulgarmente chamadas "demoníacas" ou "diabólicas" (embora o demo
nio nao exista como ser real, segundo a Sra. Yvonne).

O Batismo é menosprezado; nao é ele que nos torna filhos de Deus


diz a mensageira. '

383
48 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 291/1986

Em síntese, sao estas as principáis linhas da mensagem do Movimento


IVI. Passemos agora a urna

2. Apreciado

É evidente que o Movimento IVI, embora recorra ao Evangelho e diga


ter sido recebido em audiencia pelo Papa, nao é católico, nem mesmo cris-
táo. A sua linguagem talvez confunda ou atraia os ouvintes, pois fala de
amor e formula normas éticas que o Cristanismo aceitaría. Todavia a doutri-
na fílosófíco-teológica do Movimento nío se coaduna com a da fé católica a
diversos títulos:

1. O panteísmo opóe-se radicalmente ao pensamento cristao, que é mo


noteísta. Enquanto aquele afirma que tudo é Deus ou a divindade é tudo, o
Cristianismo afirma que Deus é transcendente, distinto do mundo, embora
esteja presente a cada criatura como Criador e Conservador de tudo o que
existe. Alias, o panteísmo nao é rejeitado apenas pela mensagem bíblica;
também a sa" razSo o tem por contraditório, pois identifica o Absoluto e o
relativo, o Eterno e o temporal, o Necessário e o contingente...

2. Jesús nao nos deixou apenas o mandamento do amor aos irmáos, mas
também, e em prímeiro lugar, o do amor a Deus. Este ná"o é devidamente
realcado pela mensagem IVI. - De resto, como amar a Deus numa perspec
tiva panteísta, em que a Divindade sou eu mesmo?

3. A orac.á~o nao pode ser assemelhada a algum processo mecánico ou


parapsicológico; nada tem que ver com cmissa~o ou vibracao de ondas. E sim-
plesmente a linguagem da mente que se eleva a Deus no plano espiritual; é
urna atitude filial do orante na presera de Deus, que aceita graciosamente
os anseios de suas criaturas; nao há, porém, oraches todo-poderosas ou
"mais eficazes" e "menos eficazes"; nosso relacionamento com Deus está
baseado exclusivamente sobre a misericordia divina.

4. A fé católica afirma a existencia do demonio como ser real. Foi criado


por Deus como anjo bom; pecou, porém, por soberba e atualmentc, por per-
missáo divina, tenta os homens ao pecado. Este objetivo é visado pelo Malig
no em sua acáo nefasta.

S. O Batismo é o sacramento que nos regenera, fazendo-nos nascer para a


vida de filhos adotivos de Deus no sentido pleno da palavra (cf. Jo 3,3.5). A
reencamac.ao é totalmente alheia á mensagem crista; ver Hb 9,27: "Foi esta-
belecido que os homens devem morrer urna só vez; depois vem o julgamen-
to".
(continua na p. 381)
384
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