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Projeto

PERGUNTE
E
RESPONDEREMOS
ON-LINE

Apostolado Veritatis Spiendor


com autorizagáo de
Dom Estéváo Tavares Bettencourt, osb
(in memoriam)
APRESENTAQÁO
DA EDIQÁO ON-LINE
Diz Sao Pedro que devemos estar
preparados para dar a razáo da nossa
esperanca a todo aquele que no-la pedir
(1 Pedro 3,15).

Esta necessidade de darmos conta


da nossa esperanca e da nossa fé hoje é
•• mais premente do que outrora, visto que
somos bombardeados por numerosas
- correntes filosóficas e religiosas contrarias á
fé católica. Somos assim incitados a procurar
consolidar nossa crenga católica mediante
um aprofundamento do nosso estudo.

Eis o que neste site Pergunte e


Responderemos propoe aos seus leitores:
aborda questóes da atualidade
controvertidas, elucidando-as do ponto de
vista cristáo a fim de que as dúvidas se
?— dissipem e a vivencia católica se fortaleca no
- Brasil e no mundo. Queira Deus abencoar
este trabalho assim como a equipe de
Veritatis Splendor que se encarrega do
respectivo site.

Rio de Janeiro, 30 de julho de 2003.

Pe. Esteváo Bettencourt, OSB

NOTA DO APOSTOLADO VERITATIS SPLENDOR

Celebramos convenio com d. Esteváo Bettencourt e


passamos a disponibilizar nesta área, o excelente e sempre atual
conteúdo da revista teológico - filosófica "Pergunte e
Responderemos", que conta com mais de 40 anos de publicagáo.
A d. Estéváo Bettencourt agradecemos a confiaga depositada
em nosso trabalho, bem como pela generosidade e zelo pastoral
assim demonstrados.
Ano xxxvui Fevereiro 1997

"Enquanto temos tempo..." (Gl 6,10)

A Parábola dos Operarios Chamados á Vinha


(Mt 20,1-16)

Que é urna Seita?

A Cientologia

Que é a Unibiótica ou Imunocultura?

Quando comeca um Ser Humano?

Um Congresso Internacional sobre a Exploracáo


Sexual de Criancas

Dados Numéricos
PERGUNTE E RESPONDEREMOS FEVEREIRO 1997
Publicacáo Mensal N°417

SUMARIO
Diretor Responsável
Estéváo Bettencourt OSB
"Enquanto temos tempo..." (Gl 6,10) 49
Autor e Redator de toda a materia
publicada neste periódico Injustica escandalosa?
A Parábola dos Operarios
Chamados á Vinha (Mt 20,1-16) 50
Diretor-Administrador:
D. Hildebrando P. Martins OSB Muitosepergunta:
Que é urna Seita? 56

Administragáo e Distribuigáo: Psicotécnica e ReligiSo:


Edicóes "Lumen Christi" A Clentologia 66
Rúa Dom Gerardo, 40 - 5° andar - sala 501
Saúde e "Mística":
Tel.: (021) 291-7122 Que é a Unibiótica ou Imunocultura? 76
Fax (021) 263-5679
Aborto: Homicídioou Nao?
Quando comeca um Ser Humano? 83
Endereco para Correspondencia:
Ed. "Lumen Christi" Um crime que desumaniza o Homem:
Caixa Postal 2666 Um Congresso Internacinal sobre
a Exploracáo Sexual de Criancas 89
CEP 20001-970 - Rio de Janeiro - RJ
Dados Numéricos 96
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"marquessaraiva" COM APROVAQÁO ECLESIÁSTICA


GRÁFICOS E EDITORES Ltda.
Tais.: {021) 273-3498 /273-9447 NO PRÓXIMO NUMERO:

A Parábola do Administrador Infiel (Le 16,1-9). -A mais recente Descoberta relativa ao


S. Sudario. - A discutida Visita do Papa á Franca. - Um Perfil de Joáo Paulo II. -
Reflexóes sobre o Celibato (Fulton Sheen). - "O Pecado" (A. Moser). - Anabatistas,
Menonitas e Batistas.

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Caixa Postal 2666
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"ENQUANTO TEMOS TEMPO..." (GI6.10)

O tempo é o dom de Deus básico, sem o qual nao há outros dons. Sim;
é no tempo que nos é dado pratícar o bem, trabalhar, lutar, merecer... O tempo
pode parecer insípido e até molesto para quem o vive no dia-a-dia; há mesmo
quem procure "matar" o tempo em frivolos passa-tempos.
Muito rica é a conceituacáo de tempo que a Escritura Sagrada nos
oferece. Ela no-lo mostra como
- camínhada de peregrinos que deixam o relativo em demanda do
Absoluto ou da patria definitiva; cf. 1Pd 1,7; Hb 11,13-16; 2Cor 5,8s;
- semeadura, cuja colheita ocorrerá no além, de modo que quem se-
meia pouco, colherá pouco, e quem semeia muito, colherá muito; cf. Gl 6,7s;
2Cor 9,6. Cada segundo do nosso tempo tem seu eco na vida definitiva; é no
tempo que construímos nossa eternidade;
- algo premente, porque breve e fugidio (2Cor 7,1) ...O tempo passa
e nao volta de modo que é preciso aproveitar o HOJE de Deus: "enquanto
ainda se diz HOJE" (Hb 3,13), "HOJE se ouvirdes a sua voz..." (Hb 3,7). O
homem nao sabe quantos HOJE ainda terá, pois o desfecho terrestre é de
incerta data (1Ts 5,1). Com outras palavras: o tempo quantitativo (mais días,
tnais semanas, mais meses, mais anos...) há de sertambém tempo qualitati-
vo; exige qualidades correspondentes; possa o cristáo crescer nao sonriente
em número de anos passageiros, mas também em méritos e valores definitivos;
- antecámara da vida plena, de tal modo que na térra aprontamos
nossa veste nupcial para a ceia da vida eterna (cf. Ap 21,2). Este aprontar nao
pode deixar de ser laborioso, atribulado, pois nada de grande se faz sem
fadiga. Todavía as momentáneas tribulacóes desta vida nao tém proporcáo
com o peso de gloria que elas nos preparam para a patria definitiva; cf. Ef
5,16; Rm 8,11; 2Cor 4,17;
- exilio, que deve despertar no cristáo o anseio da mansáo definitiva,
pois vivemos da fé, e nao da visáo face-a-face da Beleza Infinita; cf 2Cor5,6s;
- moratoria, que a paciencia de Deus nos concede em vista de urna
conversáo sempre mais radical; cf. Rm 2,4; 2Pd 3,9. Ele conhece a fragilida-
de humana e diariamente Ihe renova a sua grapa e misericórida, a fim de que
o fiel hoje proceda melhor ainda do que ontem.
Pois bem. Estas idéias voltam á mente dos cristáos com énfase espe
cial no santo tempo da Quaresma. É o Apostólo quem escreve: "Exortamo-
vos a que nao recebáis a graca de Deus em váo... Eis agora o tempo favorá-
vel por excelencia, eis agora o dia da salvacáo" (2Cor 6,1 s). O cristáo saberá
aproveitar, cada ano mais conscientemente, o chamado de Deus, lembrando-
se de que o Senhor nao quer coracóes tristes e constrangidos, mas "Deus
ama a quem dá com alegría" (2Cor 9,7).
E.B.

49
"PERGUNTE E RESPONDEREMOS"

Ano XXXVIII -N° 417 - Fevereiro de 1997

Injusta escandalosa?

A PARÁBOLA DOS OPERARIOS


CHAMADOS Á VINHA (Mt2o,i-16)

Em síntese: A parábola dos operarios chamados a trabalharna vinha


em diversas horas do dia e pagos com a mesma diaria está Ionge de pre
tender denogar á justiga e ás leis trabalhistas. Jesús, com essa estóriá,
quer dizer que Deus trata os homens com muito mais gratuidade do que
justiga; com efeito, das cinco turmas chamadas a trabalhar, somente a pri-
meira fot tratada em estrita justiga (paga a diaria estipulada em contrato);
as demais foram tratadas com justiga e gratuidade. O que desconcerta
nesta parábola, é precisamente o derramento de gratuidade, que procede
nao de alguma lesao de direitos alheios, mas da magnanimidade do patrao
(imagem do SenhorDeus). Antes que o homem possa merecer algo frente
a Deus, Estejá Ihe outorgou a graga para adquirir tal mérito.

A parábola dos operarios chamados a trabalhar na vinha em diversas


horas do dia e pagos com a mesma moeda causa espanto a inultos leito-
res, propensos a ver nela urna derrogacao ás normas da justica ou das
leis trabalhistas. Na verdade, a parábola nao quer entrar em questóes
modernas de direitos do trabalhador, mas significa algo de muito profundo
no tocante ás relacdes de Deus com os homens. É o que vamos ver, ex
pondo a estória da parábola e propondo a sua interpretacao correta.

Para entender devidamente esta parábola, devemos colocá-la sobre


o seu paño de fundo.

1. OS ANTECEDENTES

No capítulo 19 de S. Mateus, tres episodios constituem o fundo de


cena da parábola em foco:

50
A PARÁBOLA DOS OPERARIOS CHAMADOS A VINHA 3

Mt 19,16-22: um jovem rico se aproximou de Jesús para pedir-lhe um


conselho que o levasse á perfeicáo. Mas retirou-se acovardado, porque
nao tinha a coragem para desapegar-se de seus bens.

Mt 19,23-26: Jesús observa como é difícil alguém salvar-se, se nao


se desprende dos obstáculos que sufocam as melhores iniciativas.

Mt 19,27-29: Pedro, consciente de ter deixado tudo para seguir o


Mestre, apresenta a Jesús seu caso e ouve a promessa de recompensa
copiosa para todos os que assim procedem. Ora em todos estes episodios
ficara muito realcada a necessidade do esforco e do merecimento huma
nos para alcancar a vida eterna. Pedro e os cristáos que o imitassem,
poderiam sentir certo contentamente consigo mesmos, como se fossem
justos e retos por suas próprias torcas, á diferenca do jovem rico acovar
dado. O cristáo poderia parecer-se com um pagáo estoico, que se importa
ao beneplácito da Divindade por causa de suas virtudes, ou poderia pare
cer um fariseu, julgando que Deus Ihe deve muitos favores em recompen
sa das suas boas obras.

Tal, porém, nao era o concertó de santidade que Jesús viera pregar.
0 Cristianismo nao é exaltacáo do homem atleta, que por suas torcas
espirituais se impoe a Deus. Ao contrario, é a mensagem de Deus, que se
dispde a enriquecer espiritualmente o homem que reconhece a verdade
ou a sua incapacidade de, por si mesmo, fazer algo de meritorio; ver Jo
15,4. Justamente para incutir esta verdade, dissipando qualquer ilusáo ou
presuncáo, o evangelista propoe em Mt 20,1-16 a parábola dos operarios
chamados á vinha. Esta tende a mostrar que o que faz o homem bom, é a
bondade de Deus, e nao a auto-suficiéncia da criatura.

Examinemos, pois, o texto sagrado.

2. O TEOR DA PARÁBOLA

Em Mt 20,1 o Reino dos Céus é assemelhado a urna vinha, figura


clássica na S. Escritura. A época devia ser a da primavera, quando havia
trabalhos extraordinarios (estrumar, podar...) para que a floracáo fosse
fecunda e os frutos abundantes. O proprietário saiu, pois, ás 6 horas da
manhá á procura de trabalhadores. Na praca pública encontrou urna pri-
meira leva, que ele mandou para a vinha após ter contratado com ela o
salario de um dinheiro1; esta era a paga normal de um dia de trabalho.

Precisando de mais gente para o trabalho, o patrio saiu ás 9h, ao


meio-dia, ás 15h e ás 17h para angariar novas turmas de operarios. E de

1 O dinheiro era urna moeda romana, portadora da imagem do Imperador e de urna


inscrígao latina.

51
"PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 417/1997

notar, porém, que a estes nao foi definido o salario preciso que receberi-
am: "Ide também vos para a minha vinha, e eu vos darei o que for justo"
(Mt 20,4). Como o patráo gozasse de boa fama, os trabalhadores confia-
ram na sua palavra e nao Ihe perguntaram quanto ganhariam.

De passagem, pode-se perguntar: por que chamar mais gente na


última hora? A resposta talvez seja:... para assegurar os trabalhadores do
dia seguinte.

Conforme a lei dos judeus (Dt 24,15; Lv 19,13), o salario era pago
diariamente. Por isto no fim da jornada o patráo deu ordem ao administra
dor para que ajustasse as contas. Isto foi feito a comegar pelos últimos, a
fim de que os primeiros pudessem ver o que aqueles receberiam. Tal pro-
cedimento deve ter irritado os trabalhadores mais cansados; todavía con-
solaram-se, imaginando que receberiam mais do que um dinheiro, por
terem labutado por mais tempo.

Ao verificar que todos recebiam a mesma paga, embora tivessem


prestado tarefas de duracáo desigual, um dos primeiros, mais corajoso,
levantou o protesto. O patráo Ihe respondeu sem ira, interpelando-o como
"amigo"; explicou-lhe que, na verdade, a justica nao estava sendo lesada,
pois o contrato de salario estava cumprido; o que havia de estranho, era o
fato de que o proprietário, tendo muitos bens, tirava do seu para dar gratui
tamente aos operarios que haviam trabalhado menos; era-I he totalmente
lícito dispor do que Ihe pertencia em favor dos demais trabalhadores, des
de que nao violasse os direitos dos mais antigos. Precisamente essa bon-
dade generosa, surpreendente e inesperada é que causava a réplica de
quem o interpelava! .

"O teu olho é mau porque eu sou bom?" (Mt 20,15b). O olho, no caso,
significa o coragáo. Este nao tinha motivo para reclamar, pois o patráo só
fizera obra de justica e bondade magnánima, que ultrapassava as mais
ousadas expectativas dos trabalhadores.

Respondendo nestes termos, o proprietário incitava os primeiros ope


rarios a refletir e a recobrar bom ánimo.

O v.16 comp5e-se de duas partes, das quais a segunda ("pois muitos


sao chamados, mas poucos escolhidos") é um acréscimo devido aos
copistas, que transcreveram simplesmente o que se lé em Mt 22,14. Quanto
á prírhéira parte ("os últimos seráo os primeiros e os primeiros serao os
últimos"), significa que a avaliacáo humana de "primeiro" e "último" nao se
impoe necessariamente a Deus. Este pode equiparar o último dos ho-
mens ao primeiro (na apreciacáo humana) e vice-versa.

Examinemos agora o sentido da parábola.

52
A PARÁBOLA DOS OPERARIOS CHAMADOS A VINHA 5

3. AS LIQÓES DE MT 20,1r16

Nao há dúvida, a parábola é, á primeira vista, difícil. Por isto ela se


tem prestado a diversas interpretacóes, como, por exemplo, sao as se-
guintes:

1) Jesús quería dizer que todas as pessoas retas, embora sigam iti
nerarios de vida diferentes na térra1, teráo a mesma recompensa no céu,
ou seja, a visáo de Deus face-a-face. - Tal entendimento é falho, porque
haverá no céu a visao beatífica para todos os justos, sim, mas em graus
diversos; cada qual verá a Deus na proporcáo do amor que levar para a outra
vida; o amor é que abrirá o olho da mente para contemplar a Beleza Infinita.

2) Jesús teria aludido á vocacáo de judeus e gentíos, aqueles chama


dos desde remota época para o Reino de Deus, estes somente na plenitu-
de dos tempos mediante Jesús Cristo; todos, porém, tém o mesmo desti
no, que é a vida eterna. - Esta ¡nterpretacáo parece um tanto vaga, nao
levando em conta traeos importantes da parábola.

3) A parábola significa que o conceito de justica em Deus nao coinci


de com aquele que os homens tém. - Reconhecamos que Deus pode
apreciar a realidade de modo diferente, mais profundo do que o modo
humano. Mas isto nao quer dizer que a definicao de justica para Deus sejá
diferente daquela que a sá razáo formula; a esséncia da justica é urna só.

4) Por conseguinte, qual seria a auténtica ¡nterpretacáo da parábola?


- Ei-la: a primeira regra para se interpretar urna parábola manda procurar
0 fio condutor ou a linha central da estória, a fim de aplicá-la á realidade
transcendental.

Ora observamos que a parábola de Mt 20,1-16 nos fala de cinco


turmas de operarios, das quais somente urna é paga segundo a estrita
justica e quatro sao pagas conforme justiga e gratuidade: há quatro derra-
mamentos de gratuidade para urna efusáo de justica apenas. Transpondo
esta linha-mestra para o plano das relacóes de Deus (representado pelo
proprietário) com os homens (representados pelos trabajadores), dire
mos: Deus trata os homens em geral com bondade gratuita e benévola
muito mais do que com justica; as obras meritorias que os homens pos-
sam apresentar a Deus, sao precedidas e acompanhadas pela graca de
Deus. Esta grande licáo da parábola decompóe-se em tres proposicóes
muito precisas:

a) O homem nada pode dar a Deus antes que Deus Ihe conceda gra
tuitamente o "poder dar". Com outras palavras: é certamente válida a afirma-

1 Uns servem a Deus desde a infancia; outms se convertem em idade madura e


outros aínda só no fim da vida.

53
6 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 417/1997

cao bfblica segundo a qual Deus retribuí a cada qual segundo as suas
obras (cf. Rm 2,6; Mt 7,13s; Le 13,23; 1Cor 9,24-27; Fl 3,7-14). Jesús,
porém, vai até o fundo desta proposicáo, e diz-nos que, por baixo do mé
rito do homem, que Deus recompensa justamente, há um dom de Deus.
Deus dá a todos conforme as suas obras boas, mas estas já sao urna
dádiva de Deus, de modo que este coroa a sua própria obra no homem. A
justiga de Deus para com o homem, em sua raiz, aínda é misericordia de
Deus. O homem nao pode levantar alguma reivindicacáo de estrita justiga
diante de Deus, como se pudesse fazer frente a Deus numa atitude de
autonomía. Cf. Le 17,10 ("somos servos ¡núteis").

Esta verificagáo nao nos deve levar ao desánimo ou á inercia. Ao


contrario, Jesús incutiu a necessidade de que cada um faga violencia a si
mesmo para entrar no Reino dos Céus (cf. Mt 11,12); pediu ao jovem rico
e aos Apostólos renuncia total (cf. Mt 16,24-26; Jo 12,25s). Mas quis cha
mar a atengáo para o fato (menos considerado) de que é pela graga de
Deus que o homem faz violencia a si e chega ao Reino dos Céus. - Toca
mos aquí o difícil problema de conciliar entre si a graga de Deus e a liber-
dade do homem, problema que na prática se resolve do seguinte modo:
saibamos rezar como se tudo dependesse de Deus e trabalhar como se
tudo dependesse de nos; nem orar apenas, nem somente trabalhar, mas
conjugar estas duas atividades harmoniosamente em nossa vida.

A primazia da graga na existencia do homem pode ser expressa tam-


bém do seguinte modo: Deus nao ama o homem porque o homem seja
bom e o merega, mas o homem é bom e merece algo porque Deus o ama
(cf. 1 Jo 4,19).

Esta verdade, á primeira vista desconcertante, é extremamente re


confortante. Com efeito; quando no fim de um dia ou num retiro o cristáo
se examina, muitas vezes constata que é falho ou deficitario; nao cumpriu
todos os bons conselhos do Senhor; poderia parecer-lhe entáo que nao
tem entrada junto a Deus, pois nada tem a oferecer a Sua Majestade...
Erraría o cristáo que assim pensasse; ele nao precisa de comprar o favor
de Deus, pois este já Ihe foi outorgado gratuitamente desde que o Criador
o colocou no mundo; o que Deus quer do homem, é um coracáo verídico,
ou seja, um coragáo que reconheca as suas faltas com sinceridade e se
aprésente contrito e humilde, mas, ao mesmo tempo, faminto e sequioso
de santidade. Existe urna estranha bem-aventuranga no Evangelho: a dos
que tém fome e sede de justiga ou santidade (cf. Mt 5,6); estes nao sao
santos, mas desejam sinceramente ser santos e comparecem diante de
Deus com humildade, mas também com a ousadia de crer que Deus os
quer santificar... Tais sao bem-aventurados! Procurar a perfeigáo já é per-
feigáo, diz S. Bernardo (t 1153).

54
A PARÁBOLA DOS OPERARIOS CHAMADOS A VINHA 7

b) A parábola de Mt 20,1-16 nos diz, em segundo lugar, que, quando


os homens se escandalizam diante do comportamento de Deus, Ele nao
está sendo menos justo ou sabio, mas, ao contrario, mais justo e sabio do
que o homem. É esta transcendencia de Deus que o homem nao compre-
ende e que, por vezes, o leva a protestar contra a Suma Bondade: "O teu
olho (= coragáo) se torna mau porque eu sou bom?" (Mt 20,15). Nao quei-
ra o homem julgar a Deus, pois ele nao alcanca a sabedoria divina.

c) O fato de que o patráo deu aos últimos trabajadores a paga de um


dia inteiro, mostra que nao há miseria humana que nao possa ser vencida
pela misericordia de Deus. Este pode fazer que o homem fraco e pobre
(espiritualmente) consiga muito mais do que aquele que nao tem consci-
éncia de sua fraqueza, e julga ser justo porque jamáis caiu em falta1.

Era preciso que Jesús, Deus feito homem, revelasse aos homens
proposicóes táo reconfortantes. O que elas tém de específico e inédito
sobressai, se comparamos a parábola do Evangelho com semelhante es-
tória contada pelos rabinos:

4. UMA PARÁBOLA RABÍNICA

No século IV d.C. o rabino Ze'era' pronunciou urna oracao fúnebre


sobre Bon Bar Chaijá nos seguintes termos:

"Com que se parece o Rabino Bon Bar Chaijá? Parece-se com um mi


que contratou muitos operarios para o seuservigo; um deles era mais ativo
no trabalho. Vendo feto, que fez o rei? Tomou-o consigo para passearde
um lado para outro. Á noitinha vieram os operarios para recebero salario.
Ele pagou o salario inteiro também aquele com quem passeara. Entéo
murmuraram os operarios, dizendo: 'Trabalhamos durante o dia todo; este,
apenas duas horas, e foi-lhe dado o mesmo salario que a nos'. O reidisse-
Ihes: 'Este fez em duas horas mais do que vos o dia inteiro!' - Assim tam
bém o Rabino Bon Bar Chaijá em vinte e oito anos se aplicou mais ao
estudo da Leí do que um outro em cem anos. Eis porque em tempo táo
breve Deus o chamou a Si'".

Vé-se como esta parábola difere da do Evangelho. Em vez de abrir o


olhar para o misterio da gratuidade divina, inculca a verdade de que, com
sua atividade intensa, um homem pode fazer em rrlenos tempo o que os
outros só realizam em mais tempo. Inculca precisamente o valor humano
das boas obras, que os judeus muito estimavam. Estas, como dito, nao
devem ser desprezadas, mas o Cristianismo Ihes antepóe a graca divina
como necessário esteio da virtude humana.

1 Na verdade, jamáis caiu porque Deus o preservou de antemáo.

55
Muito se pergunta:

QUE É UMA SEITA?

Em síntese: Seita é urna dissidéncia ou um grupo fechado quejulga


estar o mundo corrupto e pretende tera verdade como patrimonio seu e
solugSo para todos os problemas da humanidade. Os membros das seitas
sao geralmente submetidos a um regime autoritario, que Ihes dificulta o
senso critico. A multiplicagao de seitas em nossos dias se explica, em grande
parte, por duas causas: 1) o individualismo subjetivista e relativista da
mentalidade moderna a partir de Martinho Lutero (sáculo XVI); 2) a insegu-
ranga do homem contemporáneo, que senté trepidagáo e angustia diante
da crise da sociedade e se dé por feliz quando alguém, em nome de um
Poder Superior, o acolhe e Ihe propoe certezas e garantías (ainda que
fantasiosamente fundamentadas). Além disto, parece haverinteresses po
líticos estrangeiros a fomentar o avango das seitas.

Em nesposta a tais desafios, a Igreja Católica se vé impelida a refor-


gar a formagáo doutrinária de seus fiéis para que nao sucumbam eles e
possam transmitirá Boa-nova aos írmeos; vé-se também obrigada a novo
zelo missionário, que incluí a participagáo dos leigos; reconhece também a
necessidade ¡mínente de utilizaros meios de comunicagao social para di
fundir o Evangelho. Deve merecer também grande solicitude a Pastoral da
Juventude, presa fácil das seitas.

O grande número de correntes religiosas de nossos dias deixa mui-


tas mentes confusas. Em parte, esta confusáo se deve á invasáo de movi-
mentos fortemente proselitistas, que comumente sao chamados "seitas";
daí a pergunta: Que é seita? Como caracterizá-la? - A estas indagacoes
seráo dedicadas as páginas seguintes.

1. SEITA: DEFINIQÁO

Etimológicamente falando, pode-se derivarseita do verbo latino sequi,


seguir; donde seita seria o seguimento de alguma concepcáo ou teoría ou
também de algum grande Mestre. Há quem derive o vocábulo de seco,
secare, cortar; donde seita seria algo cortado ou dissidéncia. Como quer
que seja, na realidade é difícil definir o que seja urna seita, pois sao varias
as modalidades de seitas, de modo que as definieses correm o risco de
nao abranger todas as respectivas notas. Eis, porém, algumas das concei-
tuaedes mais freqüentes:

56
QUE É UMA SEITA?

"Seitas sao grupos constituidos por homens e mulheres, geralmente


pequeños grupos, cujos membros sao unidos entre si por urna ou varías
idéias religiosas, filosóficas, ocultistas, espiritas, mágicas ou por urna mis
tura de todas ou de algumas destas idéias. Tais grupos garantem ratera
veidade absoluta e a solugáo para todos os problemas do homem. Além do
qué, caracterizam-se pelo seguimento irwstríto do(s) seu(s) Ifderfes)" (Juan
Daniel Escobar, Sectas, Cristianismo y Catolicismo. Análisis
eclesiologico, em Medellin n" 87, setembro 1996, p. 26).

Semelhante é a definicáo de J. M. Ganuza, Las Sectas nos dividen,


Santiago 1993, p. 14:

"As seitas sao grupos religiosos, geralmente pequeños, cheios de


entusiasmo, constituidos por homens e mulheres, associados voluntaria
mente após urna conversao. Acreditam terdescoberto a verdade e a solu
gáo; excluem radicalmente os outros crentes; colocam-se contra as Igrejas
e contra o mundo e obedecem cegamente ao(s) seu(s) fundadores)".

Explicitando o conteúdo destas definicóes, podem-se indicar algu


mas características, todas ou quase todas presentes em urna seita:

1) Os respectivos membros de urna seita rompem os lacos sociais


que tinham com a familia, os amigos e, eventualmente, com o cónjuge, o
estudo e o trabalho.

2) A seita oferece um clima de comunidade fechada, em que cada


individuo está em total dependencia do grupo. É supressa a liberdade pes-
soal de cada um.

3) As seitas afirmam que a sociedade (o mundo) e suas instituicSes


estáo totalmente corrompidas, de modo que é preciso afastar-se délas.

4) A mesma rejeicao se dá em relacáo ás correntes religiosas cristas


e nao cristas. A Igreja Católica, em particular, ter-se-ia distanciado das
Escrituras.

5) Muitas seitas utilizam sofisticadas técnicas neurofisiológicas, que


se ocultam sob os títulos de Meditagáo, Controle Mental, Renascímento
Espiritual. Tais procedimentos tém por efeito anular o raciocinio e a von-
tade de seus clientes. Evita-se assim o eventual espirito crítico e rebelde
dos adeptos.

6) Entre as atividades primordiais das seitas estáo o proselitismo e a


arrecadacáo de dinheiro mediante cursos, venda de livros explicativos,
cassetes, vídeos, bibelós, símbolos...

7) Exclui-se todo controle sobre a seita que possa ser exercido por
instancias estranhas ao próprio grupo.

57
10 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 417/1997

8) Requer-se submissáo incondicional á direcáo do grupo, seja ela


representada por um chefe (gurú, pastor...) "carismático", seja por um
colegiado. A organizado é piramidal, de modo que existe um controle
absoluto dos dirigentes sobre todos os membros do grupo.

9) A seita tem, nao raro, objetivos económicos ou políticos, mascara-


dos, por pretextos religiosos.

10) Muitas vezes as seitas exercem pressáo psicológica sobre seus


membros para que se desfacam do seu patrimonio financeiro em favor do
grupo.

É a presenca destes traeos ou de alguns destes tragos em algum


grupo que faz designá-lo como "urna seita" em sentido ora mais próprio,
ora menos próprio. Algumas denominares chamadas "Igrejas" podem,
na verdade, ser seitas em certo grau ou plenamente, desde que apresen-
tem algumas das características típicas.

Importa agora tentar urna

2. CLASSIFICACÁO

Assim como a definicao de seita é complexa, a classificacáo das


mesmas é difícil, pois algumas se podem arrolar debaixo de mais de um
título. Eis, porém, urna tentativa plausível:

2.1. Seitas pseudocristás

Sao aquelas que negam artigos essenciais da fé crista:

1) As Testemunhas de Jeová, que recusam o misterio da SS. Trin-


dade e a fé em Jesús Deus e Homem.

2) Os Mórmons ou Igreja dos Santos dos Últimos Días. Afirmam


que o Pai tem carne e osso; quanto ao Filho e ao Espirito Santo, sao ape
nas emanacóes do Pai. Além disto, tém um código sagrado próprio - o
Livro de Mórmon - além da Biblia.

3) A Igreja da Unificacáo ou Associacao para a Unificacáo do


Cristianismo Mundial ou Moonismo, que julga ser o Rev. Moon o ver-
dadeiro Messias, autor de um código sagrado chamado "Os Principios
Divinos".

4) A Ciencia Crista, que nega o mal como se fosse coisa aparente


apenas; nega também a doenca, que o medo agrava.

5) Os Meninos de Deus ou a Familia do Amor ou aínda a Familia,


que cedem á libertinagem sexual, sob pretexto de exercer amor.

58
QUE É UMA SEITA? 11

2.2. Seitas Esotéricas

Sao comunidades que professam doutrinas secretas, reservadas úni


camente aos iniciados. Distinguem entre o saber popular superficial e o
saber auténtico, único, guardado para os sabios e profetas. Sao:

1) Rosa-Cruz, que reivindica origem no Egito antigo, mas que na


verdade só comecou a existir na Idade Moderna, ou seja, em 1614. Tem
fundo panteísta e reencarnacionista.

2) A Teosofía, que nao é crista, mas indiana e promete revelacoes de


ordem superior a seus adeptos, ou seja, o supra-sumo de todas as religi-
óes. Também é panteísta e reencarnacionista.

3) A Antroposofia, derivada da Teosofía, portadora de semelhante


mensagem, mais voltada para o homem.

4) A "Igreja Gnóstica", que se diz herdeira de doutrinas reveladas


por Cristo a discípulos seletos.

5) A "Igreja da Cientologia", que comunica a Dianética a seus se


guidores e os submete a processos de "higiene mental" violentos; ver pp.
66-75 deste fascículo.

6) As Correntes Ufológicas, que acreditam receber de seres extra-


terrestres mensagens a respeito do futuro do planeta Térra.

2.3. Seitas de Origem Oriental

Algumas destas provém da india (tém índole panteísta e reencar


nacionista), outras vém do Japáo e do Irá, sem contar o Moonismo, que
vem da Coréia do Sul. Sao

De origem idiana:

1) A Sociedade internacional para a Consciéncia de Krishna

2) A loga

3) O Budismo e o Zen-budismo

4) A Meditacao Transcendental

De origem japonesa:

1) Seicho-No-Ié

2) Johrei, que apregoa a Luz Divina a se derramar sobre os crentes


por imposicao das máos de um mestre.

3) Perfect Liberty, sistema de Ética, de religiosidade atenuada.

59
12 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 417/1997

De origem persa, a Crenga Bahai.

2.4. Seitas Necrománticas

Acreditam na comunicado com os morios e na reencarnacüo. As de


origem africana tém concepcóes politeístas ou semideuses:

1) Espiritismo kardecista e ramos afins.

2) Religides afro-brasileiras, como Umbanda, Quimbanda, Candom-


blé, Macumba.

Por último, citamos a Nova Era (New Age), que é um amalgama de


varías correntes, atendendo ás variadas tendencias de seus adeptos.

Importa agora procurar entender os porqués da expansSo de tal le-


que de crencas.

3. PROCURANDO OS PORQUÉS...

Podemos dizer que a expansáo e a multiplicacáo de correntes religi


osas em nossos dias tém, entre outras, duas causas muito ponderosas, de
fundo psicológico: o individualismo do homem contemporáneo e a insegu-
ranca da vida moderna. Essas duas causas encontram incentivo, a quanto
parece, em certos principios da política norte-americana.

3.1. O Individualismo

. O individualismo é urna nota que comeca a despontar no pensamen-


to moderno a partir do século XVI: Martinho Lutero (t 1546) estabeleceu
como principio religioso "o livro exame da Biblia"; Rene Descartes (t 1650)
construiu seu sistema filosófico sobre o principio "Cogito, ergo sum. -
Pensó, portante existo". O lluminismo ou racionalismo do século XVIII acen-
tuou tal mentalidade, proclamando a autonomía da razáo. No século XIX o
liberalismo ergueu em categoría indiscütivel a liberdade de pensamento,
que relativizou o conceito de verdade. Diz o Santo Padre Joáo Paulo II:
"Em algumas correntes de pensamento moderno, chegou-se a exaltar a
liberdade a ponto de fazer déla um absoluto, que sería a fonte dos valores"
(Encíclica Veritatis Splendor n° 32).

Este individualismo liberal é muito reforcado pelo anti-intelectualismo


de nossos dias em materia religiosa; muitos fazem da Religiáo urna ques-
táo de sentimentos e emocSes subjetivas. A Metafísica, afirmando verda
des perenes e principios éticos universais, é posta de lado, de modo que o
sentimento religioso do homem moderno é mais orientado por afetividade
ou por perspectivas de vantagens concretas, ¡mediatas. A ReligiSo é mui
to cultuada em funcáo do homem e do servico ao homem; muitos procu-

60
QUE É UMA SEITA? 13

ram a igreja ou o templo por causa das carencias humanas e de um "Pron


to Socorro" físico e espiritual, e nao por causa de Deus; o antropocentris-
mo, com tudo o que ele tem de oscilante e subjetivo, toma o lugar do
teocentrismo. Assim escolhe-se a religiáo mais conveniente ou oportuna
para o individuo (a que permite o divorcio com novas nupcias, a que per
mite o aborto, o homossexualismo, os "casamentes gays",...), em vez de
se procurar a verdade religiosa (pois a verdade existe também na área da
religiáo, e nao apenas na das ciencias ditas "exatas").

Em conseqüéncia, muitos julgam que cada individuo tem o direito de


fazer o seu Credo e montar a sua própria religiáo, como montaría o seu
clube ou o seu partido político, de acordó com as suas necessidades e
aspiracóes momentáneas. "Do it yourself, faca-o vocé mesmo" é um
chaváo que vai sendo incutido de modo geral na sociedade, como princi
pio de comportamento. Por isto se véem católicos que acreditam na reen
carnado, e protestantes que visitam igrejas e santuarios católicos á pro
cura de alguma graca especial.

3.2. A Inseguranga do Homem Moderno

Verifica-se que o homem de nossos dias é profundamente inseguro


nao só por causa da violencia, dos assaltos e crimes que infestam a soci
edade, mas também por efeito das crises que assolam o mundo atual,
especialmente o Brasil: crise económica, desemprego, corrupcáo política,
miserias de muitas carnadas; a vida é trepidante e, por vezes, ameacado-
ra, particularmente nos grandes centros urbanos. Estas condicoes susci-
tam angustia, medo e desespero em muita gente nao só das classes mais
modestas, mas também da classe media. A falta de perspectiva de me-
Ihora contribuí para tornar mais pesado o clima, afetando a saúde dos
cidadáos, a vida de familia, o bom relacionamento entre amigos... Em
suma, grandes valores parecem minados e titubeantes.

Ora tal ambiente constituí um campo de escol para a acáo de grupos


religiosos novos, que pretendem trazer uma solucao inédita para a proble
mática contemporánea: prometem curas físicas e espirituais, éxito na pro-
fissáo e nos negocios, progresso material e espiritual... Para quem está
combalido e inseguro, desacreditando nos meios convencional de aten-
dimento á saúde e á economía, tais promessas sao atraentes ou mesmo
sedutoras. O espirito crítico das pessoas atingidas se acha desgastado,
de modo que, sem pedir altas credenciais, acreditam no(a) mensageiro(a)
de tais propostas.

O Pe. Jesús Hortal S. J. comenta os fatos nos seguintes termos:

"As avultadas contríbuigóes económicas que os pregadores geral'mente


exigem sob os mais vanados pretextos, sao encaradas como uma especie

61
14 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 417/1997

de investimento capitalista espiritual. Deus, dizem, acabará retribuindocom


generosidade todos os donativos oferecidos. As igrejas que atuam dessa
maneira, sao vistas como urna especie de Banco, onde se pode abrir urna
conta corrente para o céu.

O investimento de capital pode servirpara obter, através de fórmulas


mágicas, amuletos e objetos sagrados, urna receita fácil de dominio sobre
as forgasocultas malignas; pode também servirpara se conseguir um 'mila
gro', atribuido á fé de quem recebe a graga, com a insinuagáo de que o
pregadorou chefe religioso é poderoso taumaturgo... A variedade de pro-
dutos 'mágicos' ou portadores de solugáo e beneficios é enorme: o Johnei
(suposta forga divina transmitida pela imposigáo das maos na Igreja
Messiánica Mundial), técnicas de meditagáo de varios tipos, métodos de
controle mental, de fluidificagáo, receitas de despachos, aplicagSo de pas-
ses, oferta de talismás, floráis de Bach, cristais, pirámides, incensó, car
tas, búzios (pedras ou conchas que servem para a adivinhagao), dados e
outros instrumentos parajogar a sorte, predig&es do horóscopo, do I-Ching,
contatos com mestres raros ou extra-terrestres... Em muitos casos, esses
objetos e essas técnicas s§o transmitidos nao como algo de religioso, mas
como algo de científico por meio de conferencias, cursos, Seminarios e
Congressos. Atuando desta maneira, tais movimentos religiosos ou 'místi
cos'parecem sera expressáo da modemidade e do progresso. Nao raro
utilizam-se as bancas de jomáis para difundir tais técnicas e teorías" (El
Fenómeno Sectario en el contexto socio-político latino-americano,
em Medellín 87, setembro 1995, pp. 78s).

A fé que os pregadores "taumaturgos" pedem aos seus clientes, é


provocada nao raramente por urna espectacular demonstracáo de poder
ou de autoridade da parte do pastor ou do mestre. Tenha-se em vista a
encena$áo efetuada, na televisáo, pelo pastor Miguel Angelo, da Igreja
Internacional da Graca de Deus, ou a teatralidade da pastora Valnice
Milhomens, na televisáo: langa desafios públicos a Deus, exigindo que
resolva, dentro de prazo definido, problemas de desemprego, saúde, dis
cordias familiares ou depressáo psicológica; essa senhora transmite urna
aparente conviccáo capaz de impressionar os telespectadores; em conse-
qüéncia, nao é de estranharque pessoas angustiadas procurem junto a tal
pastora a seguranca de que precisam ou que recusem qualquer revisáo
crítica do procedimento da pregadora, com medo de perder o solo firme
sobre o qual julgam estar pisando.

Também se pode mencionar, nesta perspectiva de suscitar a fé (e fé


puramente subjetiva), a praxe, de alguns pastores, de pedirem aos ouvin-
tes que coloquem diante do aparelho de radio ou do televisor um copo de
agua, que deverá ser ingerida no fim da pregacáo, com a certeza de que
essa agua atrairá infalivelmente a béncáo de Deus sobre o crente.

62
QUE É UMA SEITA? 15

3.3. O Incentivo Sócio-político-económico

Há autores que, estudando a expansáo de Novos Movimentos Religi


osos na América Latina, julgam poder apontar o incentivo que Ihes vem da
parte do Governo norte-americano. A explicagáo fornecida por tais auto
res é a seguinte:

Até a década de 1960 a Igreja Católica terá desempenhado um papel


conservador na política da América Latina. A partir da Conferencia Epis
copal de Medellín (1968), porém, na qual o episcopado latino-americano
se voltou mais intensamente para os problemas sociais do continente, a
Igreja Católica foi vista como aliada do comunismo e mal encarada por
regimes de Seguranca Nacional e pelo Governo norte-americano.

Por volta de 1970 o Governador do Estado de Nova lorque, Nelson


Aldrich Rockefeller, via a Igreja Católica nao como aliada da política norte
americana e terá recomendado a difusáo de seitas conservadoras, apolíticas
e espiritualistas na América Latina. Após percorrer a América Latina, terá
preparado um Relatório no qual dizia: "A Igreja Católica deixou de ser um
aliado de confianca dos Estados Unidos e já nao é garantía para a estabi-
lidade social do continente... Ao contrario, ela se transforma em um perigo
porque conscientiza as massas". Em conseqüéncia recomendava "dar
apoio aos grupos fundamentalistas cristáos e ás Igrejas de tipo Moon e
Haré Krisha como maneira de contrabalancar a recém-oriunda Teología
da Libertacáo. Em 1980 foi redigido o Documento do Comité Santa Fé,
que exprimía as linhas diretrizes da política religiosa do Governo Reagan
para a América Latina: incentivar o confronto com a Teología da Liberta-
cao e o apoio á difusáo das seitas. O mesmo programa foi promulgado em
1984 por um segundo Documento de Santa Fé.

Estas sao noticias colhidas por J. C. Elizaga, que publicou o livro


"Las Sectas y las nuevas religiones a la conquista de Uruguay". Uruguay
1988; ver p. 22.

Diante dos fatos até aquí recenseados, surge a pergunta:

4. QUE FAZER?

Nao há dúvida, os Novos Movimentos Religiosos tém muito a dizer á


Igreja Católica. Antes do mais, eles poem em evidencia como o homem
do século XX, aparentemente auto-suficiente, é sequioso do Absoluto; in-
teressam-lhe os valores transcendentais e divinos. Todavía é de notar que
tal procura é movida por sentimentos e emocóes um tanto cegas, desliga
das do raciocinio e da lógica - o que leva a serios desastres, daninhos
para o físico e o psíquico do individuo religioso.

63
16 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 417/1997

Aconsciéncia desta realidade sugere á Igreja Católica algumas me


didas oportunas para responder sadiamente aos anseios do homem mo
derno. Tais seriam:

1) A boa formacao dos fiéis católicos, para que eles mesmos nao
se deixem arrastar por palavras e imagens ilusorias e possam, por sua
vez, levar aos irmáos distantes a Boa-Nova de Cristo em sua pureza e
autenticidade. Trata-se de explicar a todos o que é religiáo, quais os crite
rios da fé crista (como reconhecer erro e verdade em materia de fe), quem
é Jesús Cristo e qual o sentido da sua obra salvífica, a Igreja como sacra
mento e a vida crista como vivencia dos sacramentos. De modo especial,
dizemos com Paulo VI, é necessário que os católicos recuperem a confi-
anca na razio, nao para se tomarem racionalistas (só aceitando o que a
razio abarca), mas porque a razio exerce o discernimento entre a verda
de e o erro. Sio palavras de Paulo VI na abertura da Conferencia Episco
pal de Medellín em 1968:

"A desconfíanga que, mesmo em ambientes católicos, se difundiu a


respeito da validade dos principios fundamentáis da raza"o, ou seja, a res-
peito da nossa philosophia perennis, nos deixou desarmados frente aos
assaltos nao raramente radicáis e capciosos de pensadores modernos".

É importante também ministrar urna sólida iniciacio bíblica, que leve


á leitura da Biblia no seio da Santa Mié Igreja, que bercou a Biblia e a
apresenta aos fiéis. Hoje em dia a Biblia é freqüentemente utilizada em
sentido meramente subjetivo, sem que o leitor se dé conta de que é um
livro escrito em tempos remotos e assaz diferentes da nossa época.

2) A revitalizacio missionária. Varios dos novos grupos religiosos


foram ocupar espacos deixados vazios pelos católicos. A Igreja é essenci-
almente missionária (cf. Mt 28,18-20) e cada fiel católico deve sentir-se
impelido a transmitir aos irmáos a Boa-Nova do Evangelho.

3) Reavivar a fé e a vida do povo católico em geral. Como dizia


Paulo VI, "o homem de hoje escuta com mais boa vontade as testemu-
nhas do que os mestres ou entio, se escuta os mestres, é porque eles sao
testemunhas" (Evangelii Nuntiandi n° 41). -O secularismo penetrou mes
mo nos recantos do Catolicismo e contribuiu para debilitar a fé e embotar
a consciéncia do transcendente, que nio cabe sempre dentro da razio
humana, chegando a ser "loucura e escándalo" (1Cor 1,23). Nio se nega
algum artigo do Credo, mas dá-se-lhe urna interpretado meramente filo
sófica, psicológica, sociológica, tirando-se-lhe o seu significado específi
camente cristio.

4) Maior participagio dos Leigos ñas atividades apostólicas da


Igreja. O Concilio do Vaticano II dedicou um documento seu inteiramente

64
QUE É UMA SEITA? 17

ao apostolado dos leigos; s§o, com os clérigos, responsáveis pelas sor-


tes do Evangelho neste mundo. Em nossos días há leigos consagrados,
que exercem bela atividade apostólica, e cujo número poderia ser aínda
mais elevado. Os protestantes espalharam 20.000 missionários pela
América Latina. No Chile 1.200 missionários (Eider) mórmons caminham
nove horas por dia de segunda-feira a domingo, desde as 10 até as 22
horas (com tres horas de repouso e estudo). O zelo apostólico desses
mensageiros fala eloqüentemente ao povo católico, incitando-o a nao ser
menos ardoroso.

5) Fomentar a Pastoral da Juventude. Verifica-se que freqüente-


mente os jovens é que sao atraídos por certos grupos religiosos moder
nos. Em parte, isto se deve ao fato de que numerosos jovens descendem
de urna familia destrocada (pai e máe separados); carecem de educacáo
e formacáo; por isto nao conseguem trabalho e salario adequado; s§o mal
compreendidos pelos adultos que os contactara Ora os membros das sertas
Ihes váo ao encontró, oferecendo-lhes ateto, considerando-os como gen
te, propondo-lhes urna nova visáo do homem e do mundo que os incentiva
a desenvolver suas potencialidades.

Estes tatos devem suscitar novo empenho da Igreja Católica no tra


balho em favor dos jovens, boa acolhida ñas paróquias, atencáo aos seus
problemas, integracáo na vida da comunidade...

6) A Liturgia há de ser mais explicada para que possa contar com


urna participa?§o dos fiéis mais consciente e prazerosa. Guardará sempre
sua dignidade, evitando atrair pela vulgaridade, mas deverá ser a Liturgia
do Povo de Deus, em que cada um se sinta chamado a fazer a experiencia
de Deus.

7) Os Meios de Comunicado Social merecem especial atencio da


parte da Igreja Católica, vista a sua pujanca informativa ou deformativa;
sao verdadeiras escolas que moldam as mentalidades. Todo dinheiro apli
cado no cultivo desses meios é sempre bem empregado; é semeadura
que pode frutificar amplamente.

Sao estas providencias, entre outras, que parecem impor-se á aten


cáo da Igreja neste momento desafiador, que pode redundar em cresci-
mento da verdadeira fé. Com efeito; murtas vezes na historia foram as
heresias e os erras doutrinários que levaram os fiéis católicos a melhor
compreender e estimar o valor da sua fé.

A propósito ver, além da bibliografía citada no decorrerdeste artigo, o


fascículo da revista mexicana ECCLESIAJuIho-setembro 1992, todo dedi
cado á temática das seitas e dos novos movimentos religiosos.

65
Psicotécnicas e Religiáo:

A CIENTOLOGIA

Em síntese: A Cientologia é urna corrente de pensamento fílosófico-


religioso mesclada a técnicas psicoterapias, que, conforme o fundador Sr.
Lafayette Ron Hubbard (1911-1986), devem despertar no discípulo a cons-
ciéncia de que ele é ¡mortal. A Cientologia submete seus adeptos a cursos
varios e sessóes de psicoterapia ditas auditíng, que resultara muito caras
para quem as segué, podendo provocar a crise financeira dos clientes.
Tais cursos procuram purificar a mente de ferimentos e chagas que tenha
contraído em existencias anteriores á atuai: tal processo percorre varias
etapas, passando pelos graus de Preclear, Clear e Operating Thetan. O
Thetan seria a esséncia espiritual do homem, a sua alma, o verdadeiro eu,
quedecaiu de um estado de perfeigao para dentro da materia; passa por
varias reencamagóes até se purificar totalmente e conseguirplenos pode
res sobre o tempo e o espago.

O regime da Sociedade Cientologista é fortemente autoritario. Os seus


membros sao incitados a consideraros demais homens com desconfianga,
pois Ihesparecem inimigos em potencial.

Estas características tém suscitado fortes polémicas contra a Ciento-


logia, da parte, principalmente, de profissionais da psicoterapia; dentro
mesmo da Escola Cientologista há pessoas que se afastam da Chefia cen
tral e tentam fundar grupos dissidentes, menos autoritarios e mais baratos
(em seus custos). Varias familias norte-americanas e européias se quei-
xam de graves males psíquicos e financeiros de que sofrem seus filhos
após freqüentarem a Cientologia.

O JORNAL DO BRASIL de 6/10/96 publicou, com certo alarde, a mán


chete: "Urna Seita levada ao Banco dos Réus". Tratava-se da Cientologia,
corrente rara no Brasil, mas muito influente na Europa e nos Estados Uni
dos da América. A título de ¡nformac§o, publicamos, a seguir, parte do
texto do jornal; após o qué seráo explanadas a origem e a mensagem da
Cientologia.

«Viúva de vítima processa na Franca Igreja da Cientologia

París-Nunca se viu umjulgamento igual. Nada menos que 23pesso


as indiciadas por violencia, chantagem, corrupgáo e tentativa de homicf-

66
A CIENTOLOGIA 19

dio. No banco dos réus, a fina flor da classe media francesa. No das teste-
munhas convocadas pela defesa, artistas, esportistas e intelectuais. Em
suma, um processo que marcará data na Franga, pois é a primeira vez que
urna seita será julgada e condenada porque sua diretoria cometeu urna
serie de delitos previstos no código penal.

O réu do processo em curso na cidade de Lyon desde o inicio da


semana é a Igreja da Cientologia, que conta com cerca de 11 milhóes de
fiéis no mundo, principalmente nos Estados Unidos, onde foi fundada por
Lafayette Ron Hubbard, autor do best setter intitulado A Dianética. Para
seus adeptos, neo se trata de urna seita, mas de religiao, embona nao faga
parte das "religióes reveladas", como afirma seu porta-voz».1

Entre as novas correntes religiosas de nossos dias está a Cientolo


gia. É muito singular, porque funde numá só mensagem concepcóes reli
giosas, exercício de psicotécnicas e procura de dinheiro e poder. Conta,
como se diz, cerca de onze milhoes de adeptos esparsos por diversos
continentes ou em trinta países. A Cientologia está associada á Dianética,
ou seja, á ciencia que explica o modo como funciona o intelecto humano.
Desta maneira a Cientologia pode ser classificada entre as correntes reli
giosas que tentam explorar o potencial psíquico do ser humano. - Procu
remos analisar o seu sistema.

1.0 FUNDADOR

O fundador da Cientologia é o norte-americano Lafayette Ron Hubbard


(1911-1986). Deste personagem nao se tem urna biografía muito fidedig
na, pois alguns de seus familiares resolveram romper com a Cientologia e
emitiram depoimentos sobre Hubbard que nao sao aceitáveis porque nao
verídicos.

Sabe-se, porém, que o fundador era filho de um Oficial de Marinha;


viajou com seu pai, ao menos urna vez, pelo Oriente. Também teve conta
tos com psicanalistas. Até 1949 dedicou-se á literatura de ficcáo (aventu
ras policiais e pseudo-ciéncia). Em 1950 publicou alguns escritos sobre
Dianética (Dianetlcs). Em 1954 fundou o que Hubbard chamou "a Igreja
da Cientologia", baseada sobre a Dianética. Essa nova Sociedade propa-
gou-se pela Australia, a Nova Zelandia e a Europa. Em 1959 o fundador
transferiu-se para a Inglaterra. O cultivo de suas idéias suscitou a Hubbard
antagonismo e debates (que o levaram a deixar a Inglaterra em 1966).
Passou a viver a bordo de urna nave - Apolo -, a partir da qual dirigía a
Sea Org (Organizacáo do Mar ou Marítima), que vinha a ser urna especie
de Congregacáo Religiosa dentro da "Igreja da Cientologia". Ñas décadas
1 O JB de 23/11/96, 1° Cad., p. 12 informa que o processo terminou, sendo condena
dos os membros da Cientologia.

67
20 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 417/1997

de 1960 e 1970 foi crescendo a hostilidade contra a Cientologia em varios


pafses do mundo; na Australia alguns Estados promulgaram leis que im-
pediam as atividades desse movimento religioso; todavía em 1983 a Su
prema Corte Australiana houve por bem reconhecé-lo como organizacáo
religiosa lícita. Nos Estados Unidos a oposicáo era suscitada em parte
pela categoría dos psiquiatras, que denunciavam charlatanismo e explo-
racáo da credulidade pública. Hubbard passou em retiro os últimos anos
de sua vida, que terminou em 1986.

A obra de Hubbard gerou polémicas clamorosas até nossos dias.


Assim em 1988 a Alemanha Ocidental concedeu á Cientologia o título de
organizacáo religiosa oficialmente reconhecida; os alemáes, porém, dis-
cutem ardorosamente a respeito, a tal ponto que um articulista - Hans-
Ingo von Pollern - da revista Herder-Korrespondenz (agosto de 1992) -
classifica a Cientologia como Deutschlands gefaehrlichste Sekte (a mais
perigosa seita da Alemanha). Em outros países há processos judiciários
contra a Cientologia. Na Italia as sedes desta organizacáo foram fechadas
e, posteriormente, reabertas em parte; muitas pessoas foram acusadas
perante os tribunais de Miláo por causa de suas atividades cientologistas.

Vejamos agora em que consiste a mensagem dessa "Igreja".

2. A MENSAGEM DOUTRINÁRIA

A Cientologia pretende oferecer aos seus seguidores o estudo e o


"acompanhamento pastoral" necessários para que tomem consciéncia da
sua imortalidade e possam atingir a mais elevada verdade. O caminho
que conduz a tais metas, é chamado "a Ponte para a plena Liberdade".

Mais precisamente: Hubbard concebe o ser humano como urna má


quina necessitada de conserto. Com efeito; a mente (mind) humana, limi
tada como é, nao permite ao individuo tomar conseiéncia de que ele é
destinado a sobreviver após a morte. O homem traz em si muitas cicatri-
zes devídas a ferimentos psíquicos que ele sofreu em encarnacoes ante
riores; ora, sempre que na vida presente um agente qualquer (cansaco,
decepcáo, baque...) toca numa dessas cicatrizes, a mente traz á tona os
acontecimentos desagradáveis que a afetaram em existencias pregressas.

Pois bem, diz a Cientologia; é preciso apagar ou extinguir essas cica


trizes do íntimo do sujeito e comunicar-lhe o otimismo derivado da pers
pectiva da feliz imortalidade. Esta tem em vista libertar o homem dos seus
engramas (cicatrizes) e levá-lo ás condicóes de clear, condicoes alta
mente vantajosas, pois implicam aumento do Ql, melhoras da saúde física
e sucesso nos negocios. A Dianética realiza essa sua terapia em sessSes
chamadas auditing, sessaes ñas quais a pessoa, mediante regressao no
68
A CIENTOLOGIA 21

tempo, considera os ferimentos que recebeu outrora e se dispóe a apága


los definitivamente da memoria; o mais importante engrama é o basic-
basic ou o primeiro de todos (pode ter sido urna tentativa de aborto, que
sacrificaría o interessado ou preclear, urna enfermidade da mié ou urna
relagao sexual da genitora durante a gravidez). No decorrer da sessáo
psicoterapéutica ou auditing, é utilizado um aparelho chamado E-meter,
eletrómetro inventado por Hubbard para permitir ao preclear recordar-se
mais rápidamente dos traumas psíquicos de outrora e averiguar o apaga-
mento dos mesmos. Tal aparelho procede medindo a resistencia da pele
aos estímulos que Ihe vém de fora. - Quando todos os engramas tiverem
sido apagados, o individuo terá nao mais urna mente reativa (reactive
mind), mas urna mente analítica (analytic mind) e atingirá as condicoes
de clear. O caminho da Dianética até o estado de clear resulta caro, mas
os dirigentes da Cientologia observam que os outros tipos de psicoterapia
nao sao mais baratos; além do qué, seriam inúteis ou mesmo prejudiciais
porque nao atinariam com o essencial (os engramas); os remedios psico-
trópicos e as intervengSes cirúrgicas sao tidos pela Cientologia como vio-
lacdes dos direitos humanos.

A sessáo dita auditing vem a ser o cerne da Cientologia e da sua


doutrina. É orientada por um auditor diplomado pela Escola Cientológica;
este ouve o paciente e propoe-lhe perguntas, que tém por objetivo ajudar
o preclear a descobrir e remover limitacdes a ele impostas pelo seu pas-
sado; o auditor analisa os pretensos erros cometidos apontados pelo cli
ente e procura chegar as causas desses defeitos. O processo que ocorre
entre o mestre e seu cliente, se prolonga tanto quanto seja necessário
para que o paciente se torne plenamente consciente da sua identidade,
assuma o exercício da sua liberdade e saiba ser chamado á ¡mortalidade.

Segundo a Cientologia, o ser humano consta de tres componentes:

1) o Thetan: espirito puro, que existe "desde o principio"; é omniciente


e ¡mortal; através da "pista do tempo" percorre varias vidas. A principio
todos os Thetan gozavam de profunda felicidade num eterno presente.
Julgaram, porém, que tal estado era fastidioso e, por isto, resolveram "ju
gar um jogo" criando os universos. Acabaram sendo vítimas desse jogo
mesmo, pois se deixaram absorver pelos mundos de materia, energía,
espago e tempo; esqueceram que eram os criadores livres e independen-
tes da realidade material e deram-se por prisioneiros dos corpos;

2) o Corpo: é um componente do ser humano hoje, mas um compo


nente indesejado;

3) a Mente, sistema de comunicagóes entre o Thetan e o mundo


ambiente.

69
22 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 417/1997

Através das sessoes da Cientologia (auditing), a pessoa passa por


sete graus de purificacao dos engramas; como dito, ao fim deste proces-
so, deixa de ser preclear para ser clear. Isto, porém, nao é senáo a pri-
meira etapa de purificagao. A segunda é chamada a etapa do Thetan
operativo (operativo Thetan), que, por sua vez, compreende oito degraus.
Nesta segunda grande fase, o Thetan passa a entender que o mundo
visfvel nao é urna realidade plena, mas, sim, urna realidade aparente; os
degraus fináis desta fase sao mantidos em segredo pelos dirigentes da
Cientologia. Alguns dissidentes desta Escola narraram "ter feito a experi
encia de seres mitológicos, envolvidos outrora em guerras ñas estrelas há
milhoes de anos". Assim o Thetan operativo vai aprendendo a deixar seu
corpo; a morte do individuo é um acidente secundario nessa caminhada,
que tende ao encontró com o Absoluto ou Infinito, o qual pode ser chama
do "Ser Supremo" ou "Deus". É esta relacáo a Deus que justifica, aos olhos
de Hubbard, o nome de Igreja da Cientologia (Igreja que tem seus ceri-
moniais e rituais próprios para o nascimento, o casamento e os funerais),
mas que pouco fala de Deus e atribuí ao culto sagrado urna importancia
secundaria.

3. A ÉTICA DA CIENTOLOGIA

Pode-se dizer que as concep?6es éticas da Cientologia sao contradi-


tórias: de um lado, esta Escola propóe finalidades transcendentais; de ou-
tro lado, porém, tem os olhos voltados para a conquista de dinheiro e po
der. - Sao declarares de Hubbard:

"Aspiramos únicamente á evolugáo e a elevados graus de existencia


para o individuo e a sociedade... Urna civilizagSo sem doengas mentáis,
sem crimes e sem guerra, em que as pessoas idóneas tentam sucesso e
os homens honestos exergam seus dimitos e gozem da liberdade de che-
gara metas mais elevadas. Tais sao os objetivos da Cientologia".

Eis, porém, que Hubbard também escreveu:

"A única razño em virtude da qual existem organizagóes, é oferecer


bens materiais e servigos aos seus membros em troca de urna contríbuigáo
e procurarpessoas famosas ás quais esses benspossam seroferecidos...
Todas as organizagóes da Igreja da Cientologia foram fundadas únicamen
te em vista deste objetivo".

Assim dir-se-ia que, conforme os cientólogos, a promocao da huma-


nidade e a venda de beneficios (como livros e cursos) sao coisas insepa-
ráveis urna da outra.

A Ética é explícitamente conceituada como a superacáo de todo tipo


de resistencia ao programa da Cientologia. É, como diz Hubbard, "o rolo
70
A CIENTOLOGIA 23

compressor que aplaina a estrada". Nesta perspectiva nao há lugar para a


tolerancia em relacáo aos adversarios; nao há respeito para com a pessoa
humana que pense diversamente. No livro "Ética da Cientologia" sao tidos
como meios legítimos para conseguir manter e expandir o poderío da Es
cola "a corrupcáo moral, a agressáo física, os prejuízos materiais, a per-
seguicáo e o esmagamento de quem professa outra filosofía, a violencia
contra os inimigos". Os que criticam e combatem a Cientologia, vém a ser
considerados inimigos do género humano, dado que a Cientologia é tida
como a única via de sobrevivencia da humanidade. Por conseguirte, o fim
justifica os meios.

Tais concepcoes e a aplicacáo prática das mesmas estao confiadas


ao "Inspector Geral da Ética", que é um dos membros graduados da Esco
la. Compreende-se entáo que a Cientologia venha a ser a tentativa de
criar um grande imperio, dotado de poderosa economía, que procura ga-
nhar dinheiro e aumentar seu capital enquanto apregoa a desencarnacáo
dos seus membros.

Num dos folhetos programáticos da Cientologia lé-se: "Make Money,


make more Money" (Faga dinheiro, faca mais dinheiro).

4. HIERARQUIA E ORGANIZAQÁO

A Igreja da Cientologia é estruturada segundo urna hierarquia cujo


principio básico é "Preceito e Obediencia", preceito que tem por finalidade
facilitar a expansao da mensagem respectiva. A chefia da "Igreja" tem
sede em Los Angeles (USA), onde se acha o "Religious Technology
Center". Os programas dessa chefia sao claramente orientados para a
conquista de dinheiro e poder; a execugáo dos mesmos é controlada por
oficiáis graduados, entre os quais o Inspector Geral da Ética.
A fim de atrair adeptos, podem ser ministrados cursos gratuitos, que
tornam a Escola simpática ao público. O discípulo que queira abandonar
seus cursos, é pressionado mediante cartas, telefonemas e aconselha-
mentos minuciosos para que nao o faga.

O auditor ou "terapeuta", através das sessóes respectivas (auditing),


vai conhecendo o íntimo dos clientes - o que Ihe facilita persuadir o discí
pulo a que n§o deixe a Escola. Todo membro da "Igreja" que tenha contato
com pessoa infensa á Cientologia, é tido como PTS (Potential-Trouble-
Source), Fonte Potencial de Perturbacóes, ao passo que a pessoa infensa
é SP (Suppressive Person). A pessoa PTS é munida contra as críticas e
objegóes que Ihe venham da SP; se a PTS se mostra influenciada pelas
críticas, é submetida a tratamento especial ou a castigo; sao-lhe sonega^
dos alguns servigos da Escola.

71
24 TERGUNTE E RESPONDEREMOS" 417/1997

Para Hubbard, os que criticam a Cientologia, sao criminosos: "Nunca


encontramos um crítico da Cientologia que nao tivesse um passado cri
minoso". Por cautela, o fundador manda, através de urna Instrucáo Secre
ta, que os seus adeptos procurem sondar e perscrutar o tipo de pessoas
que os visitam: onde trabalha ou trabalhou, qual o seu médico, o seu den
tista, quais os seus amigos, os seus vizinhos... - Assim poderáo talvez
descobrir algum criminoso!

Os instrutores da Cientologia s§o admoestados para que dispensem


benevolencia e amabilidade aos novos adeptos; tal atmosfera simpática
deve contribuir para que os novatos se convencam de que em seu íntimo
existem pontos fracos (ruins, ruinas), que sao de importancia vital ou mor
tal e exigem absolutamente um tratamento, ou seja, a Dianética. A fim de
que o candidato tome conhecimento de si e de suas carencias moráis, ele
recebe um questionário com duzentas perguntas aproximadamente, des
tinadas a propiciar "urna análise científica" das capacidades do individuo;
entre as perguntas, acham-se as seguintes:

"Costuma ser difícil, para vocé, reconhecer urna falha e assumir a


responsabilidade da mesma?

Será que vocé, alguma vez, senté os seus músculos contrair-se, mes-
mo quando nao há motivo para contragáo?

Vocé confessaría estar em erro apenas por amor á paz?

Acredita que haja pessoas que Ihe sao avessas e que trabalham con
tra vocé?

Relíete vocé muitas vezes sobre infortunios passados?

Cai ocasionalmente em situagoes de apuros?

Rói vocé as suas unhas ou outnos objetos?

Será que vocé nao deverá esforgar-se para pensar em suicidio?


Paga vocé as suas dividas e cumpns as suas promessas desde que
isto seja possível?"

Estas perguntas tém o objetivo de levar o candidato a tomar consci-


éncia de que ele traz em si pontos fracos. Dado este passo, o candidato
se convencerá de que deve seguir passo a passo o roteiro indicado pela
Cientologia para chegar á plena liberdade interior. O teste também tem a
vantagem de fornecer ao instrutor um conhecimento mais profundo do
candidato, conhecimento que será utilizado para mais vincular o discípulo
á Escola: o candidato receberá, na base das suas respostas, instrucoes
oráis e escritas, que Ihe oferecem amizade e ajuda; receberá visitas e
72
A CIENTOLOGIA 25

telefonemas, que o atrairáo mais e mais á Escola. Todo um modo de pen


sar e falar é transmitido ao discípulo; assim, por exemplo, ser-lhe-á incu-
tido que o vocábulo "Ética" significa a remocáo de tudo o que se op5e á
Cientoiogia.

A terapia cientológica ¡sola totalmente o candidato em relacáo aos


genitores e familiares. Procura cortar todo o relacionamento com a paren
tela. Freqüentemente dizem os pais que seus filhos na Cientoiogia foram
radicalmente transformados; nao compreendem que jovens, até época
recente muito sobrios e parcimoniosos, de repente se tenham endividado
tanto. Na verdade, este endividamento se explica pelo fato de que o discí
pulo novato é submetido a cursos que ele deve pagar; tais cursos e outros
meios de "cura" sao indicados a cada um pelo Inspector do respectivo
Centro de Cientoiogia; a principio, sao de prego tolerável, mas váo-se tor
nando cada vez mais caros, a ponto de causar total dependencia e
endividamento em relacáo á Cientoiogia.

A Cientoiogia tem membros efetivos, comprometidos e clientes (sim


patizantes). Isto explica as discrepancias das estatísticas. Em 1988, seis
milhoes de pessoas no mundo inteiro tinham passado ao menos por um
curso de Cientoiogia ou se haviam submetido ao auditing. O primeiro
contato com tal Escola decorre, nao raro, de um anuncio em jornal ou de
urna carta: a pessoa, convidada a fazer um teste de personalidade, enca-
minha-se para urna sede da Cientoiogia, onde Ihe propóem as vantagens
de seguir cursos e tratamentos para melhorar um ou outro aspecto de seu
caráter pessoal.

5. QUE DIZER?

A Cientoiogia quer ser "ciencia exata, técnica psicoterápica, filosofía


e religiáo"; na verdade, é urna mesclagem de psicotécnicas, teorías
reencarnacionistas e ciencia deflegmo (fantaciéncia). Em conseqüéncia, já
foi definida como "um budismo tecnológico". Por suas promessas de be
neficios corpóreos e espirituais, consegue atrair muitos adeptos, que nao
se recusam a pagar os altos custos, que correspondem á ¡niciacáo
cientológica; n§o poucos destes se projetam assim na ruina financeira,
sem conseguir vantagem alguma de ordem psíquica ou espiritual; antes,
tornam-se mais e mais dependentes dos seus mestres-orientadores.

Deve-se também observar que a Cientoiogia incorre no desrespeito


á pessoa humana, submetendo-a a urna estrutura totalitaria. Pretende ser
a única cosmovisáo aceitável, de modo que quem nao a compartilha é
inimigo do discípulo da Cientoiogia e do género humano. O amor ao próxi
mo é, pois, algo de estranho a esta Escola, como estranhos Ihe sao os
direitos humanos e a protecáo devida á familia.
73
26 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 417/1997

Em linguagem religiosa, pode-se dizer que a Cientologia é urna dou-


trina que ensina a auto-salvacáo ou a redencáo do individuo pelo indivi
duo, sem levar em conta a graca ou o auxilio de Deus. De resto, o conceito
de Deus é vago na Cientologia aproximando-se do panteísmo, já que o
Thetan do homem é tido como "espirito que existe desde o principio,
omniciente e ¡mortal". Donde se vé que é despropositado o nome de "Igre-
ja" atribuido á Cientologia.

Como todos os movimentos de sucesso, a Cientologia conheceu tam-


bém as suas divisdes ou rupturas. A partir da década de 1950, alguns
seguidores da Escola preconizaram urna Cientologia mais a berta e sim
pática ao público e menos comercial. Todavía acabaram reproduzindo a
organizagáo de Hubbard. Aponta-se assim urna constelacáo de pequeños
grupos cientológicos, mais ou menos independentes entre si. Em conse- *'
qüéncia, a Cientologia, por seu chefe central em Los Angeles, tem movido j
processo contra esses pequeños grupos, acusados de violar os direitos I
autorais de Lafayette Ron Hubbard. •

Entre as faccóes dissidentes sobressai, por seu número de adeptos,


o Advanced Ability Center, fundado em Santa Barbara na California por
David Mayo.

Muitas familias norte-americanas e européias lamentam os males


causados pelo fascfnio vazio da Cientologia sobre as jovens geracSes.

BIBLIOGRAFÍA:

CASCARD, JOHANNES R., Le Nuove Religioni. Tra anelito e Pa-


tologia. Edizioni Paoline, Milano 1989.

INTROVIGNE, MASSIMO, Le Nuove Religioni. Sugarco Edizioni,


Milano 1989. ',

von POLLERN, HANS-INGO, Deutschlands gefahrlichste Sekte, i


em Herder-Korrespondenz, n" 8, agosto 1992, pp. 379-383. 3

APÉNDICE

A título de complemento á Ética da Cientologia, transcrevemos aqui o


depoimento de Larry D. Wollarsheim. Esteve onze anos numa seita, que
ele acabou deixando; urna vez egresso, fez em 1980 urna declaracáo
juramentada, que revela as táticas utilizadas por sua ex-seita para destruir
os respectivos inimigos. Tal declaragao foi publicada por P. Salarrullaua,
Las Sectas, Madrid 1990, p. 85; transmitimo-la tal como a encontramos:
74
A CIENTOLOGIA 27

"Mandar ameacas de bomba a alguém, fingindo que o inimigo as


envía.

- Passar por ser outra pessoa, a fim de a desacreditar pelo mau com-
portamento de quem finge ser tal outra pessoa.

- Fazer falsas declara?5es com juramento perante os tribunais a fim


de cercear ou desacreditar o inimigo.

- Passar por inimigo da Cientologia para descobrir quem sao os ini-


migos da Cientologia a ser destruidos.

- Instalar escutas eletrónicas e microfones.

- Fazer circular cartas anónimas caluniosas.

- Introduzir-se em organizares avessas á seita para obter as infor-


macóes qué elas possuem.

- Seqüestrar um possível inimigo.

- Falsificar e roubar documentos.

- Atribuir conduta sexual escandalosa aos adversarios e inimigos".

Relata refero. Refiro o que foi relatado.

D. Jaime Cámara. Diario do Cardeal Arcebispo do Rio de Janei


ro, por Ivo Calliari. - Leo Cristiano Editorial, Caixa Postal 25.026/20551-
000 Rio de Janeiro (RJ) 1996, 160 x 230mm, 671pp.

Mons. Ivo Calliari, aluno e, posteriormente, Secretario particular do


Cardeal D. Jaime de Barros Cámara (1894-1971), narra em densas pági
nas as ingentes tarefas de seu Mestre e Prelado como Reitorde Semina
rio, Bispo de Mossoró (RN), Arcebispo de Belém do Para, e Cardeal-arce-
bispo do Rio de Janeiro. O leitor encontra neste livro minucias até hoje
inéditas do relacionamento entre Igreja e Estado no Brasil: assim os diálo
gos de D. Jaime com as liderangas políticas do país - Lacerda, Juscelino,
Jénio, Jango e os militares..., a contenda com Nelson Cameiro por causa
do divorcio... D. Jaime subiu em todas as favelas do Rio de Janeiro, de
modo que até hoje o morro do Salgueiro tem saudades das Missas de que
participava no Sumaré. De Santa Cruz até o Leblon, passando por Vila
Isabel, percorria todo o chao da sua arquidiocese num mesmo dia. - A
leitura desta obra, ricamente documentada, é altamente instrutiva nao so-
mente para os cristáos, mas também por quem se interesse por historia do
Brasil.

75
Saúdee "Mística":

QUE É A UNIBIÓTICA OU IMUNOCULTURA?

Em síntese: A Unibiótica ou Imunocultura deve-se a um médico core


ano chamado Dr. Jong Suk Yum, que possui varios diplomas e foi Instrutor
do Colegio de Medicina para as Forgas Armadas da Coréia. Na base de
estudos varios, concebeu a Imunocultura como "Caminho de Saúde, Cul
tura e Riqueza"; propóe combateras doengas porprevengSo ou imuniza-
gao e para tanto recomenda exercicios físicos e mentáis, que em certos
casos tém urna nota de panteísmo. O cristáo pode aproveitar, desse recei-
tuário, ospreceitos de índole meramente fisiológica (dietética, respiratoria,
posturas físicas) e deixará de lado a filosofía que possa teracompanhado
o Dr. Yum quando concebeu tais práticas.

A Unibiótica ou Imunocultura apresenta-se ao público em grosso re-


ceituário com o subtítulo "Caminho de Saúde, Cultura e Riqueza". Propóe
diversas normas e exercicios físicos e mentáis tidos como aptos a benefi
ciar a pessoa. Certas fórmulas, porém, parecem estranhas á linguagem
crista; daí a pergunta que se levanta: Será a Unibiótica compatível com a
filosofía de vida crista? Há fiéis católicos que freqüentam a sua igreja pa-
roquial e atendem outrossim ás sessóes e aos preceitos da Unibiótica.

Examinaremos a problemática, expondo primeiramente o que é a


Unibiótica para, depois, avahar as suas proposigoes.1

1. UNIBIÓTICA: TRACOS FUNDAMENTÁIS

Diga-se quem é o fundador da Unibiótica e que doutrina apregoa.


1.1. O Fundador

O fundador da Unibiótica é o médico coreano Dr. Jong Suk Yum,


diplomado em Medicina Oriental pela Universidade Kyung-Hee da Coréia.
Formou-se também em Engenharia e Arquitetura pela Universidade Hang-
Yang (antiga Seúl), bem como em Direito e Política pela mesma Universi-

1 A explanagáo que se segué, está fundamentada num Manual da Unibiótica fomecido


pela própria entidade com o titulo "Unibiótica, Caminho de Saúde, Cultura e Riqueza".

76
QUE É A UNIBIÓTICA OU IMUNOCULTURA? 29

dade Hang-Yang. Fo¡ médico das Forcas de Paz da ONU, além de Instru-
tor do Colegio de Medicina das Forcas Armadas da Coréia.

Para elaborar as teses da Unibiótica, o Dr. Yum baseou-se nos


ensinamentos de colegas norte-americanos como os Drs. Herbert Bensen,
Steven Rocke, Harvey Simón (todos da Universidade de Harvard), David
McElland (Universidade de Bostón), Robert Ador (Universidade de
Rochester)... Diz o receituário da Unibiótica que, para definir tal sistema,
foram pesquisadas dezoito doutrinas relativas á saúde e 362 técnicas higi
énicas. Foram científica e sistemáticamente organizadas e simplificadas.

O Dr. Yum julga que as doencas sao conseqüéncias da vulnerabilidade


do organismo debilitado pelos maus hábitos. Por isto quer reformar os
costumes, o tipo de vida e alimentacáo do público, atacando as raizes das
molestias, em vez de ministrar adubos para a árvore de raizes deteriora
das. O próprio homem, diz ele, é a causa de seus problemas: "Nao adianta
combater as conseqüéncias se nao se muda o homem, que é a causa.
Para que isto ocorra, é necessário recuperar a imunidade da Moral, da
Cultura e da Filosofía":

"A natureza humana inicialmente era perfeita. O ser humano, porém,


encontrou a doenga ao abandonara própría orígem, com o desenvolvimen-
to industrial"(p. 11).

Na base de tais principios, qual é o sistema doutrinário do Dr. Yum?

1.2. Idéias-mestras

Rejeitando remedios e cirurgias, a Imunocultura procura aproveítar


os elementos sadios derivados do meio-ambiente, do sol, dos alimentos
naturais de baixa caloría e ricos em fibras; também utiliza a agua e os
derivados da agua, e recomenda exercícios físicos... considerados como
fatores indispensáveis á saúde. Nota o Dr. Yum que tais fatores sao me
nos caros do que os preparados farmacéuticos e as intervencóes cirúrgi-
cas. Quem recorre a tais métodos, diz o fundador da Unibiótica, dentro de
duas semanas comeca a se sentir melhor, perde o medo da doenga e cria
em si otimismo no tocante á saúde.

1.2.1. Fatores Psicológicos

Dito isto, a Imunocultura passa a indicacoes particulares. Há, sim,


fatores psicológicos que favorecem a saúde e outros que a prejudicam.
Assim, "quando estamos zangados, produzimos adrenalina. A adrenalina
provoca o enfraquecimento dos linfócitos T (p. 9), que garantem a imuni
dade contra as molestias. Dal a conclusáo: a pessoa nao se deve zangar
nem conceber raiva. Mais precisamente, seriam os seguintes os fatores
psicológicos que influenciam a saúde física:

77
30 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 417/1997

SISTEMA IMUNIDADE

ELEMENTOS FAVORÁVEIS ELEMENTOS DESFAVORÁVEIS

Otimismo Desánimo

Alegría Raiva

Sociabilidade Isolamento

Exerclcios Vida Sedentaria

Agua Gordura
Vitamina C (natural) Supernutrientes

Fibras Remedios

Baixas Calorías Álcpol


Vida Natural Produtos Químicos

Drogas e Radioatividade

Em poucas palavras: para fortalecer os linfócitos T, recomendam-se


agua, vitamina C (natural), exercícios físicos, alegría... Sao contrarios á
saúde os exercícios competitivos e pesados, porque estimulam a produ-
cao de adrenalina, a qual enfraquece os linfócitos T:

"A solugao e a saúde sao mais facéis de ser encontrados quando


temos esperanga, porque a endoríina que ela produz fortalece oslinfócitos
T e desenvolve o hemisferio dimito do cerebro.

"A endorfina é produzida quando estimulamos o hemisferio direito do


nosso cerebro. Quando tremado (aperfeigoado e desenvolvido), as solu-
góes aparecen). Percebemos entao que a solugao procurada dependía do
próprio problema" (p. 10).

1.2.2. Fatores de ordem corporal

Após enaltecer o valor do bom ánimo e da serenidade, a Unibiótica


propóe dez práticas de ordem física, qué, conforme dizem, podem mudar
radicalmente o destino do individuo e da nacáo. Ei-las:

1) Jejum Matinal

"O café da manhá só traz prejuízos. Dificulta sobretudo a eliminacáo


de toxinas acumuladas no corpo" (p. 12). Os exames médicos sao geral-
mente realizados em jejum. Os efeitos do jejum natural sao os seguintes:

- Beneficiamento mental. Estómago vazio aumenta a capacidade


mental.

78
QUE É A UNIBIÓTICA OU IMUNOCULTURA?

- Energía curativa. Sem o café matinal, surgem energías que contri-


buem para a cura da doenca.

O autor corrobora seus dizeres citando Ecl 10,16s: "Ai de ti, país go-
vernado por um jovem, e cujos príncipes comem desde o amanhecer!
Feliz és tu, país cujo reí é filho de nobres, e cujos príncipes comem na
hora certa para se refazerem, e nao para se banquetearen!".

2) Beber agua durante o dia

Beber de gole em gole. Assim "podem ser curadas doencas como


gripe, dengue, malaria, cólera, AIDS, cáncer, etc., além de rejuvenescer-
nos e tornar-nos mais belos" (p. 13).

3) Comer Verduras Cruas

A Unibiótica propóe urna longa serie de beneficios acarretados pelo


consumo de verduras cruas: elas contém fibras, que provocam bom funci-
onamento dos intestinos; contém grande número de vitaminas e sais mi-
nerais; previnem disturbios como o cáncer e as doengas cardiovasculares;
tém efeito positivo na absorcáo do ferro e na producao de sangue; promo-
vem o rejuvenescimentó e a renovacao das células; neutralizam a acidez
sanguínea por serem elementos alcalinos.

A vitamina C, em particular, auxilia no desenvolvimento e na prote-


cáo dos dentes; dá resistencia aos tecidos da pele, fortalece os vasos
capilares, estimula a resistencia contra infecgóes.

Após estas tres recomendacóes de ordem alimentar, a Unibiótica pro


póe exercícios físicos:

4) Imunobanhos ou Banhos de Ar

A pessoa se coloca ao ar livre, sem roupa, mas coberta com um


cobertor, deixando somente a cabega descoberta. Pode o paciente ficar
deitado, sentado ou em pé, como queira. Deve sucessivamente cobrír e
descobrir o corpo, segundo urna cronometragem minuciosa; urna fita cas-
sete ajuda na exata marcacáo do tempo.

Há também o que se chama "os banhos alternados". Consistem em


banhos fríos e banhos quentes, tomados sucessivamente com a duracao
de um minuto cada qual. Deve-se comecar e terminar sempre com agua fría.

Os beneficios apontados sao: resistencia contra tóxicos; estimulacáo


da circulacáo do sangue; a eliminacáo do cansaco; evita-se a queda dos
cábelos e se favorece o rejuvenescimento da pele.

Para incutir a prática dos banhos alternados, o Dr. Yum conta urna
lenda concernente a Buda.

79
32 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 417/1997

"No alto do espago um ¡menso Dragáo macho vomitava pela boca


jatos de agua quente. Essas aguas banhavam o corpo do príncipe recém-
nascido, dando-lhe cor de ouro de trínta e duas especies e tanto brilho que
iluminava todos os cantos e recantos do mundo.

Quáo grandioso e esplendoroso era esse panorama!

O príncipe cresceu sadio e, quando atingiu a maturidade, abandonou


a posigáo real e sua familia, inclusive a esposa, saindo á procura de res-
postas para as dúvidas e confusdes que atormentavam a humanidade. Após
seis anos de profunda meditagao, Buda chegou á verdade absoluta, sob a
érvore Bodhendrum".

5) Dormir em cama dura. A cama corrige a coluna, estimula a circu-


lacáo do sangue e as funcóes renais, promove o relaxamento de materia
estéril acumulada nos intestinos, torna o sonó mais tranquilo e reparador.

6) Travesseiro Duro

Travesseiro duro é o único remedio para corrigir os defeitos da coluna


cervical. Permite que o pescoco mantenha a posigáo anatómicamente
perfeita.

7) Exercício do Vasocapilar

Consiste em que a pessoa se deite sobre urna superficie dura (cama


ou chao duro) com travesseiro duro debaixo do pescoco. Depois levanta
os bracos e as pernas em posicáo vertical, mantendo os joelhos e os
cotovelos esticados. Bracos e pernas devem ficar posicionados per-
pendicularmente em relacáo á cama ou ao chao. A planta dos pés no
ar esteja em posicao horizontal. - Exercício benéfico para qualquer tipo
de doenca.

8) Exercício do Peixinho

A pessoa se deita sobre as costas, mantém o corpo reto, esticando


bem as pernas, e apoia a nuca sobre as maos entrelazadas. Em seguida,
imita o movimento do peixe ao nadar sem rodar a cintura. Faga isto duran
te um ou dois minutos de cada vez. O exercício produz efeitos benéficos
sobre os órgáos abdominais.

9) Exercício do Joáo Teimoso

Este exercício permite atingir simultáneamente os quatro métodos de


tratamento propostos pela medicina avaneada moderna. Equilibra o siste
ma nervoso e desenvolve os seis sentidos. Sobretudo permite capacitar
se a ler o livro sem letras. Os efeitos desse exercício sao realmente im-
pressionantes.

80
QUE É A UNIBIÓTICA OU IMUNOCULTURA? 33

Para praticar o exercício do Joao Teimoso, é necessário ajoelhar-se,


e, com os joelhos bem abertos, sentar-se sobre os pés, mantendo o corpo
e a coluna eretos. Em seguida, contrair os músculos abdominais, fixando
o olhar num ponto distante. Inclinar o tronco para a direita, inflando, ao
mesmo tempo, o abdomen. Voltar á posicáo inicial contraindo o abdomen.
Em seguida, inclinar o corpo para a esquerda, inflando novamente o abdo
men, contraindo-o ao voltar á posicáo inicial.

No inicio, poder-se-áo sentir dores nos tomozelos e nos joelhos. Com


semblante alegre, será preciso auto-sugestionar-se, repetindo a si mes
mo: "Estou melhor, estou melhor", ou "Melhorandotudo, melhorandotudo"...

A freqüéncia dos movimentos deve ser de 50 a 55 vezes por minuto,


totalizando 500 ou 550 vezes em dez minutos. Este termo é fácilmente
atingível, pois o exercício do Joáo Teimoso proporciona auto-educacáo
com posturas que levam á auto-superagáo.

Tal exercício equilibra o sistema nervoso e desenvolve os seis senti


dos concentrados ácima do pescoco.

10) Exercício do Sapinho

A pessoa se deita e coloca um travesseiro de madeira debaixo do


pescoco. Depois, junta as palmas das máos sobre o peito em estilo de
oracáo. Em seguida, levanta e abaixa as máos juntas perpendicularmente
ao peito, de forma rítmica durante mais de trinta segundo; faca isto vinte a
trinta vezes. - O exercício assume ainda outras modalidades muito minu
ciosas...

Ao indicá-las, o Dr. Yum revela um pouco da sua filosofía religiosa.


Escreve:

"É nosso desejo darao exercício do sapinho um nome mais adequa-


do, como, porexemplo, exercício de meditagáo do caminho, da verdade e
da vida... É preciso esquecer e lembrar tres coisas para praticar bem os
exercícios propostos:

- esquecer o corpo e lembrar-se da energía;

- esquecer a energía e lembrar-se do espirito;

- esquecer o espirito e lembrar-se do ZERO (perfeigáo)" (p. 26).

Pergunta-se agora:

2. QUEDIZER?

A Unibiótica parte de um principio válido, a saber: as doencas huma


nas sao psicossomáticas, de modo que, para garantir a saúde do corpo, é

81
34 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 417/1997

importante cuidar do bom ánimo ou da saúde psíquica da pessoa. Nin-


guém duvida disto. Mas o que se discute na Unibiótica sao os meios que o
sistema recomenda para assegurar o bom funcionamento do psiquismo
humano.

A solucáo das dúvidas procederá da distincáo entre os exercícios físi


cos e a dieta recomendada, de um lado, e a filosofía de vida que Ihes está
subjacente, de outro lado.

No tocante aos exercícios físicos e á dieta, nada há a opor da parte da


fé católica. Cada qual examine a proposta da Imunologia e veja se Ihe
pode fazer bem á saúde ou nao. O mesmo se dá com a Yoga: quem quer
levar urna vida vegetariana sem comer carne e praticar as posturas corpo-
rais indicadas, faca-o, desde que nao absorva a filosofía panteísta.

Quanto á filosofía pressuposta pela Unibiótica, há restricóes serias a


fazer. É sugerida a filosofía panteísta, muito comum entre os povos da
Asia,... filosofía segundo a qual o homem, o mundo e a divindade seriam
urna só grande realidade. Pan quer dizertudo; theós significa Deus; tudo
sería Deus ou divino segundo o panteísmo. Ora tal concepcáo é insinuada
pelos textos da Unibiótica, embora nao claramente proposta. Basta lem-
brar o comentario do exercício do sapinho: "É preciso esquecer o corpo e
lembrar-se da energía, esquecer a energía e lembrar-se do espirito, es
quecer o espirito e lembrar-se do ZERO (perfeicáo)". Aqui tem-se urna
tese do hinduísmo panteísta: esquecer-se de tudo, até da própria persona-
lidade, para mergulhar no Absoluto ou no grande Todo, em que nao há
mais individualidades.

O fato de que as instrucóes da Unibiótica sao inspiradas portal filoso


fía exige do cristáo vigilancia cuidadosa para que, ao absorver os
ensinamentos de posturas e dieta da Imunologia, nao assuma também a
mentalidade panteísta que Ihes está subjacente, mas que pode ser deixa-
da de lado por quem deseja apenas beneficiar-se do treinamento corpóreo
recomendado pelo Dr. Yum.

CURSO DE ECLESIOLOGIA

Acaba de sair do prelo o novo Curso por Correspondencia da


Escola "Mater Ecclesiae", que versa sobre a Igreja, procurando por
em relevo os dados bíblicos respectivos, a Tradicáo dos Padres da
Igreja, que foram aprofundando o conceito de Corpo Místico de Cris
to, muito presente na teología posterior. Ao que se acrescenta o es-
tudo sistemático do que é a Igreja á luz do Concilio do Vaticano II
num total de 42 módulos. - Pedidos á Escola "Mater Ecclesiae", Cai-
xa postal 1362,20001-970 ou pelo teleFAX (021) 242-4552.

82
Aborto: homicidio ou nao?

QUANDO COMEQA UM SER HUMANO?

Em síntese: Oprof. Jéróme Lejeune, geneticista francés, consultado


pelo Senado norte-americano a respeito do ponto inicial da existencia do
individuo humano, elaborou um relatório cujo texto vaiabaixo transcrito em
tradugáo portuguesa. Declara que, desde o momento da fecundagáo do
óvulo pelo espenvatozóide, há toda a informagáo genética necessária e
suficiente para formar um individuo novo. Basta deixarque se desenvolva
ñas condigóes exigidas pela natureza para que se percebam todos os si-
nais característicos do ser humano; em conseqüéncia, nao se pode, cien
tíficamente talando, duvidarde que logo após a conceigáo existe urna pes-
soa em formagao.

Aos 6/10/96 a imprensa publicou urna noticia relativa ao inicio da vida


humana que merece comentarios, pois, em última instancia, visa a legiti
mar o aborto. - Eis o texto como o JORNAL DO BRASIL o transmitiu:

«Incertezas científicas sobre o inicio da vida

Católicas pelo Dimito de Decidiré o nome de um grupo que vem ten


tando colocarem debate a questao do aborto no Brasil. Sua coordenadora,
a socióloga María José Rosado Nunes, integra a Comissáo de Cidadania e
Reprodugáo (da qual o Presidente Fernando Henríque Cardoso é membro
licenciado) e conhece a fundo a historia do pensamento da Igreja em nela-
géo ao assunto. Ela lembra que só em 1869, com o Papa Pió IX, o aborto
passou a ser considerado pecado em qualquer situagáo e em qualquer
momento de sua realizagao. Textos de pensadores católicos admitem, por
outro lado, a incerteza científica sobre o inicio da vida, com argumentos no
campo da biología e da genética melgando a complexidade da questao.
Um óvulo fecundado (zigoto) tem vida, porexemplo, mas nao se constituí
numa vida humana, tanto que 75% dos zigotos sao expelidos naturalmente
do organismo.»

A este propósito pode-se observar que a noticia referente ao Papa


Pió IX nao é exata. Desde o seu primeiro Catecismo (a Didaqué), datado
do fim do século I, a Igreja condenou o aborto sem restricoes; mesmo a
incerteza quanto ao inicio da vida humana nao foi argumento para legiti
mar o aborto em alguma situagáo. Ver PR 413/1996, pp. 451-458.

83
36 TERGUNTE E RESPONDEREMOS" 417/1997

No tocante ao inicio da vida humana, o famoso geneticista Dr. Jéróme


Lejeune, parece ter dito a última palavra, hoje geralmente aceita pelos
médicos: desde a fecundacáo do óvulo pelo espermatozoide, existe um
novo ser humano, com o seu principio vital próprio e todas as ¡nformacóes
que caracterízam urna auténtica pessoa humana. É o que se pode ler no
depoimento do Dr. Lejeune que abaixo vai transcrito.

1.0 PAÑO DE FUNDO

Logo no inicio do primeiro mandato do Presidente Ronald Reagan,


instaurou-se nos Estados Unidos da América ardente polémica a respeito
do aborto: estava com provado que naquele país urna enanca sobre tres
era eliminada antes de nascer. O Senado norte-americano, impressionado
pela problemática, pós-se a considerá-la com seriedade. E, a fim de tomar
posicáo, procurou informacóes dos cientistas a respeito do momento em
que o concepto pode ser considerado auténtico individuo humano, pois tal
questáo é decisiva para se definirem os direitos da enanca. Em vista de
urna resposta, foi consultado, entre outros, o Prof. Jéróme Lejeune, fran
cés; os títulos e méritos deste mestre e sua posicáo se acham expostos no
texto que transcrevemos a seguir e que corresponde ao relatório apresen-
tado á Comissáo Senatorial encarregada do inquérito, aos 23 de abril de
1981. O próprio autor deu a seu trabalho o título de TESTEMUNHO.

2. O TESTEMUNHO DO DR. JÉRÓME LEJEUNE

"Meu nome é Jéróme Lejeune. Doutor em Medicina e Doutor em Ci


encias, sou responsável pela Clínica e pelo Laboratorio de Genética do
Hospital de Pediatría destinado aos pacientes feridos pordebilidade men
tal. Após ter pesquisado em tempo integral durante dez anos, tornei-me
Professor de Genética Fundamental na Universidade Rene Descartes.

Há cerca de 23 anos descrevi a primeira doenca cromossómica em


nossa especie, devida ao cromossomo 21 extra-numerário, típico do
mongolismo. Em conseqüéncia, tive a honra de receber o Premio Kennedy
das máos do falecido Presidente e a William Alien Memorial Medal da
Sociedade Americana de Genética Humana. Sou membro da American
Academy of Arts and Sciences.

Com meus colegas do Instituto de Genética de París, nos dedicamos


á descricáo das etapas fundamentáis da hereditariedade humana. Pelo
estudo comparativo de numerosas especies de mamíferos, inclusive os
simios antropóides, estudamos as variacóes cromossómicas registradas
no decorrer da evolucáo. Na especie humana, analisamos mais precisa
mente os efeitos desfavoráveis de certas aberracóes cromossómicas.

84
QUANDO COMETA UM SER HUMANO? 37

Nestes anos demonstramos pela primeira vez que urna doenca


cromossómica pode ser combatida por um tratamento adequado... Mos
tramos que um tratamento químico pode curar a lesáo cromossómica em
culturas de tecidos. Mais: urna dosagem apropriada de produtos químicos
(monocarbonatos e suas moléculas vetoras) melhora simultáneamente o
comportamento e as atividades mentáis das crianzas atetadas. Assim a
pesquisa meticulosa realizada sobre certos mecanismos da vida pode le
var a urna protecáo direta de vidas humanas em perigo.

Quando comeca um ser humano?

Desejo trazer a esta questáo a resposta mais exata que a ciencia


pode atualmente fomecer. A biología moderna ensina que os ances-
trais sao unidos aos seus descendentes por um líame material conti
nuo, poís é da fertilizacSo da célula femínina (o óvulo) pela célula mas
culina (o espermatozoide) que emerge um novo individuo da especie
humana.

A vida tem urna longa historia, mas cada individuo tem o seu inicio
muito preciso, o momento de sua conceicáo.

O líame material é o filamento molecular do ADN. Em cada célula


reprodutora, essa fita, de um metro de comprimento aproximadamente, é
cortada em segmentos (23, na nossa especie). Cada segmento é cuidado
samente enrolado e empacotado (como urna fita magnética em
minicassete), tanto que no microscopio aparece como um bastonete: um
cromossomo.

Desde que os 23 cromossomos do pai se juntam aos 23 cromossomos


da máe, está coletada toda a ¡nformacáo genética necessária e suficiente
para exprimir todas as características inatas do novo individuo. Isto se dá
á semelhanca de urna minicassete introduzida num gravador; sabe-se que
produz urna sinfonía. Assim também o novo ser comeca a se exprimir
logo que foi concebido.

As ciencias da natureza e as ciencias jurídicas falam a mesma lin-


guagem. A respeito de um individuo que goza de boa saúde, o biólogo diz
que tem boa constituicáo; a respeto de urna sociedade que se desenvolve
harmoniosamente para o bem de todos os seus membros, o legislador
afirma que ela tem urna ConstituiQáo equilibrada.

Um legislador nao consegue entender urna leí particular antes que


todos os seus termos tenham sido clara e plenamente definidos. Mas, quan
do toda essa informac§o Ihe é oferecida e a lei foi votada, ele pode ajudar
a definir os termos da Constituicáo.

85
38 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 417/1997

Como trabalha a natureza?

Trabalha de modo análogo. Os cromossomos sao as tábuas da leí da


vida; quando eles sao reunidos no novo individuo (a votacáo da lei é figura
da fecundacáo do óvulo pelo esperma), eles descrevem inteiramente a
Constituicáo dessa nova pessoa.

É surpreendente a miniaturizacáo da escrita. É difícil crer, embora


esteja ácima de qualquer dúvida, que toda a informacáo genética, neces-
sária e suficiente para construir nosso corpo e até nosso cerebro (o mais
poderoso engenho para resolver problemas, capaz até de analisar as leis
do universo), possa ser resumida a tal ponto que seu substrato material
possa subsistir na ponta de urna agulha!

Mais impressionante ainda é a complexa soma da informacao gené


tica por ocasiáo do amadurecimento das células reprodutoras, a tal ponto
que cada concepto recebe urna combinacáo inteiramente original, que
nunca se produziu antes e que nao se reproduzirá tal qual no futuro. Cada
concepto é único e, portanto, insubstituível. Os gémeos idénticos e os
hermafroditos verdadeiros sao excecóes á regra: cada ser humano é urna
combinacáo genética. E notemos que as excegoes devem ocorrer no mo
mento da conceigáo. Acidentes posteriores nao levam a um desenvolvi-
mento harmonioso.

Todos estes fatos sao conhecidos há muito tempo; todos os dentistas


já outrora estariam de acordó em dizer que, se existissem bebés de prove
ta, eles evidenciarían! a autonomía do concepto; a proveta nao possuiría ne-
nhum título de propriedade sobre eles. Ora os bebés de proveta já existem.

Experiencias recentes

Quantas células sao necessárias para a construcáo de um individuo?

- A resposta nos é dada por experiencias recentes.

Se conceptos precoces de camundongos sao tratados com enzimas,


as suas células se desagregam. Se, porém, misturarmos tais suspensoes
celulares provenientes de embrióes diferentes, veremos que as células
voltam a se reunir. O número máximo de células que operam para a ela-
boracáo de um individuo, é tres.

O ovo fecundado normalmente divide-se em duas células: urna délas


se divide ¡mediatamente de novo. Assim se forma o número impar e sur
preendente de tres células, encapsuladas em seu involucro protetor.

Segundo os nossos mais adiantados conhecimentos, a individuacáo


(ou a formacáo de tres células fundamentáis) é a primeira etapa a pos a

86
QUANDO COMEgA UM SER HUMANO? 39

concepgáo, á qual se segué dentro de poucos minutos.

Tudo isto explica por que os doutores Edwards e Steptoe puderam


ser testemunhas de fecundagSo, em proveta, de um óvulo da Sra. Brown
por um espermatozoide do Sr. Brown. O minúsculo concepto que eles
implantaram alguns dias mais tarde no útero da Sra. Brown, nao podia ser
nem um tumor, nem um animal. Era, na verdade, a extremamente jovem
Luisa Brown, que tem hoje a idade de tres anos.

A viabilidade do concepto é extraordinaria. Por experiencia, sabemos


que um concepto de camundongo pode ser congelado ao frió intenso (até
de - 29 graus) e, depois de reaquecimento delicado, ser implantado com
éxito. Para que haja o ulterior crescimento, requer-se necessariamente a
acolhida numa mucosa uterina que fornega a alimentacao apropriada á
placenta embrionaria. No interior da sua cápsula vital, que é a bolsa
amniótica, o novo individuo é tao viável quanto um astronauta dentro do
seu escafandro sobre a Lúa: o abastecimento de fluidos vitáis deve ser
fornecido pelo organismo da máe. Esta alimentacáo é indispensável á
sobrevivencia, mas ela nao "faz" a crianga; da mesma forma nem a nave
espacial mais aperfeigoada pode produzir um astronauta. Esta compara-
gao ainda é mais significativa quando o feto se mexe. Gragas a urna apa-
relhagem ultra-sónica muito requintada, o professor lan Donald, da Ingla
terra, conseguiu produzir no ano passado um filme que mostra a mais
jovem "estrela" do mundo, ou seja, um bebé de onze semanas a dangar no
útero materno. O bebé, pode-se dizer, brinca no trampolim! Dobra os joe-
Ihos, apoia-se sobre a parede, levanta-se e recai. Visto que o seu corpo
tem a densidade do fluido amniótico, ele nao senté a gravidade e danga
muito lentamente, com urna graga e urna elegancia totalmente impossí-
veis em algum outro lugar da térra. Somente os astronautas, em suas
condigóes de nao gravidade, conseguem tal suavidade de movimentos. A
propósito notamos que, quando se tratava da primeira caminhada no es
pago, os técnicos tiveram que escolher o lugar onde desembocariam os
tubos portadores dos fluidos vitáis. Escolheram entáo finalmente a fivela
do cinturio do escafandro, reinventando assim o cordáo umbilical.

Quando tive a honra de dissertar perante o Senado, tomei a liberdade


de evocar o contó de fada do homem menorzinho do que o dedo mindinho.

Com dois meses de idade, o ser humano tem menos de um polegar


de comprimento, desde o ápice da cabega até a ponta do traseiro. Ele
estaría muitó á vontade numa casca de nozes, mas tudo já se encontra
nele: as maos, os pés, a cabega, os órgáos, o cerebro, tudo está no seu
lugar certo. O coragáo já bate há um mes. Olhando de mais perto, vería
mos as dobras das suas palmas de máo e urna quiromante leria as maos
dessa minúscula pessoa. Com urna boa lente de aumento, descobriría-

87
40 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 417/1997

mos as marcas digitais. Tudo estaría ai para se fazer a carteira de identi-


dade civil desse individuo.

Com a extrema sofisticado da nossa tecnología, podemos vislum


brar a vida privada dessa criaturinha. Aparelhos especiáis gravam a músi
ca mais primitiva: um martelar surdo, profundo, regular, de 60/70 batidas
por minuto (o coracáo da máe) e uma cadencia rápida, aguda, de 150/170
batidas por minuto (o coracáo do feto) se sobrepoem, imitando os compas-
sos de orquestra e realizando os ritmos básicos de toda música primitiva,
sem dúvida, porque é a primeira que o ouvido humano consegue ouvir.

Assim observamos o que o feto senté, ouvimos o que ele ouve, pro-
vamos o que ele saboreia e vimo-lo realmente dancar, cheio de graca e de
juventude. A ciencia transformou o contó de fada do Pequeño Polegar numa
historia verídica, historia que cada um de nos viveu no seio de sua máe.

E, para que melhor percebais a exatidáo das nossas observacóes,


acrescentamos: Se, logo depois da concepcáo, varios dias antes da im-
plantacáo, uma única célula fosse retirada desse individuo semelhante a
uma amora minúscula, poderíamos cultivar essa célula e examinar os seus
cromossomos. Se um estudante, observando-a ao microscopio, nao fosse
capaz de reconhecer o número, a forma e o aspecto das fitas de seus
cromossomos, se ele nao soubesse dizer com certeza se essa célula pro-
vém de um simio ou de um ser humano, seria reprovado no exame.

Aceitar o fato de que, após a fecundacáo, um novo individuo come-


cou a existir, já nao é questáo de gosto ou de opiniáo. A natureza humana
do ser humano, desde a conceicáo até a velhice, nao é uma hipótese
metafísica, mas sim uma evidencia experimentar.

Até aqui o Prof. Jéróme Lejeune. As suas consíderacoes nao deixam


dúvida sobre o fato de que, quando se extrai do seio materno um feto, é
um verdadeiro ser humano que vem assim extraído e... quicá condenado
á morte!

PARA RESPONDER ÁS TESTEMUNHAS DE JEOVÁ


Muito se recomendam os escritos do Pe. Egionor Cunha
intitulados: "Biblia, Sangue e Medicina", "Está próximo o fim do
mundo?", "Imagens e Santos", "Inferno", "Homens de Serie 'B'", "A
Santíssima Trindade", "A Senhora Contestada". Cada volume tem a
media de 50 a 60 páginas e formato de 140 x 210mm. - A argumenta-
cao é sólida e de fácil leitura. Pedidos á Editora Ave-Maria, Rúa Martim
Francisco 656,01226-000 Sao Paulo (SP).

88
Um Crime que desumaniza o Homem:

UM CONGRESSO INTERNACIONAL SOBRE A


EXPLORAQÁO SEXUAL DE CRIANQAS

Em síntese: A exploragao sexual e comercial de criangas no mundo


Metro tomou-se um crime clamoroso que desumaniza a humanidade e
suscita vergonha a todos os povos. As causas deste terrível mal sao múl
tiplas: a dissolugao da familia, que deixa as criangas abandonadas; a mi
seria de muitos lares, que leva os genitores a vender ou alugarseus filhos;
a banalizagáo do sexo, que nao vé mais o pecado onde de fato ele existe;
a obsessao sexual e tarada de muitos adultos nao rara nos países ricos
(haja vista o caso Dutroux da Bélgica); a onda de pornografía, que excita
os impulsos sexuais. Em Estocolmo, de 27 a 31 de agosto de 1996 reuni-
ram-se os representantes de 126 nagóespara refletir sobre táo complexa
situagao e pedir aos govemos nacionais que neo permitam a impunidade
de táo horrendo crime.
* * *

Reuniu-se em Estocolmo (Suécia) de 27 a 31 de agosto de 1996 o


Primeiro Congresso Mundial destinado a estudar os crimes cometidos
contra a infancia no mundo inteiro. A explorado sexual infantil, com ou
sem intengóes comerciáis, tem tomado proporcSes sempre mais ampias
e trágicas, provocando a reagáo de 126 países e 50 organizares interna-
cionais, por iniciativa do Governo sueco, da UNICEF1, do Escritorio da ONU
para a Infancia e do ECPAT, organizado nao governamental que se em-
penha eficazmente na luta contra táo dramático fenómeno. A Santa Sé,
convidada ao Congresso, enviou urna delegacao chefiada por Mons. Piero
Monni, Observador Permanente junto á Organizado Internacional de Tu
rismo. Centenas de jomáis e emissoras de televisáo participaram das re-
portagens de tal certame, no qual o mundo considerou o seu semblante no
espelho e verificou quanto pode serfeio e maldoso em relacáo ás enancas.
Havia muito tempo que se programava o Congresso de Estocolmo;
este se tornou especialmente atual e necessário em virtude do choque
causado no mundo oddental pelo crime de Marcinelle na Bélgica, desco-
berto em agosto de 1996.

Passaremos a expor 1) alguns traeos do crime de Marcinelle; 2) da


dos numéricos sobre a exploracao sexual infantil em diversas partes do
mundo e 3) trabalhos e resultados do Congresso.
1 UnitedNatíonsChildren's Fund (Fundo das Nagdes Unidas para o Socorro á Infancia).

89
42 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 417/1997

1. O CRIME DE MARCINELLE (BÉLGICA)

Em junho de 1995 foram seqüestradas duas meninas em Ferblatal,


perto de Jemeppe (Charleroy): Melissa Russo, filha de Gino Russo, e sua
amiguinha Julie Lejeune, ambas com nove anos de idade.

O seqüestrador foi o Sr. Marc Dutroux, mecánico, que praticava a


pederastía, com a conivéncia de sua esposa Michelle Martín; dava-se
outrossím ao comercio, oferecendo criangas a "clientes" seus, em troca de
dinheiro. Podia mesmo estar envolvido nos negocios de urna quadrilha
internacional, que também negociava drogas.

Durante mais de um ano, ou seja, durante quinze meses, os pais das


duas meninas se voltaram para as autoridades policiais belgas, pedindo
providencias para tentar recuperar as criangas; todavia nao encontraram
resposta á altura da gravidade do caso. Apelaram também para a familia
real da Bélgica, mas nao receberam sinal algum do rei Alberto e da rainha
Paola.

As meninas devem ter estado presas em urna das casas de que Du


troux dispunha para realizar seu comercio. Finalmente morreram de fome
em Sara-la-Brussiére, talvez num dos dias que Dutroux passou em prisáo
por causa de furto de carros; a sua esposa deve ter omitido levar a alimen-
tacáo ás meninas, talvez por medp de ser depreendida como cúmplice do
crime. Foram sepultadas na mesma casa e ali encontradas em agosto de
1996 num subterráneo.

Dutroux é autor de outros seqüestros de meninas. Cita-se, por exem-


plo, o caso de Sabine Dardenne e Laetitia Delhez, de 14 e 12 anos respec
tivamente, raptadas, a primeira, em maio (Tournai) e a outra em agosto
(Bertrix) de 1995. Revelou, porém, o lugar em que se achavam, de modo
que puderam ser salvas.

Mais grave é o fato de que Dutroux já foi condenado em 1989, por


pederastía, a treze anos de cárcere; havía seqüestrado e estuprado crian-
gas. Todavia, após tres anos, recebeu indulto que o pós em liberdade sob
a alegagáo de "bom comportamento"; o Ministro da Justiga da Bélgica, Sr.
Melchíor Wathelet, mereceu severas críticas da parte da populagao.
Dutroux confessou também ter raptado e assassinado no veráo (eu-
ropeu) de 1995 as jovens An Marschal, de 19 anos, e Eefee Lambrechs,
de 17 anos; té-las-á seqüestrado em Ostende e sepultado em Jumet; to
davia n§o se tem noticia da descoberta dos respectivos corpos.
Há rumores, na Europa, de outros seqüestros, que podem ter a coni
véncia ou a colaboragáo de Dutroux. Admite-se que este criminoso tenha
em seu poder urna turma de meninas-escravas que ele aluga a quem Ihe
90
UM CONGR. INTERN. SOBRE A EXPLORAgÁO SEXUAL DE CRIANQAS 43

paga o prego exigido. Entre os cúmplices de Dutroux contava-se Bernard


Weinstein, que, por razoes a nos desconhecidas, foi assassinado por
Dutroux e sepultado ao lado das meninas Melissa e Julie. A Policía tem
procurado, com o apoio de instrumentos eletrónicos e caes, vestigios de
outras vítimas do infeliz pederasta.

A semana de 13 a 20 de outubro pp. foi muito agitada na Bélgica, pois


entáo aconteceram coisas jamáis vistas (du jamáis vu) naquele país. Mo
tivo: o juiz popular Jean Marc Connerotte foi afastado das investigacSes
sobre a rede de seqüestros e abuso sexual por razao tida como fútil. Isto
provocou a represalia do povo belga: operarios em greve marcharam so
bre Bruxelas, estudantes e colegiáis bloquearam mas, fizeram-se vigilias
repetidas ñas escadarias do Palacio da Justica (Praga Poelaert, Bruxelas)
e alhures. A movimentacSo culminou no domingo 20/10 com dezenas de
milhares de pessoas a convergir sobre Bruxelas, provenientes de todo o
país, numa marcha "branca", da cor da inocencia das meninas seqüestra-
das, violentadas e mortas por Dutroux.

A Justiga e a Policía estáo sendo acusadas de omissáo, incompeten


cia, senáo de cumplicidade com os criminosos e também com os políticos
e magistrados que a opiniao pública belga julga estarem envolvidos ñas
redes da pedofilia e da pederastía. As instituicóes cairam em descrédito a
ponto que foi afixado publicamente um cartaz portador dos seguintes dize-
res de Albert Einstein, o grande físico e matemático de tempos recentes:

"Le Monde est dangereux á vivre non á cause de ceux qui font le
mal, mais á cause de ceux qui regardent et laissent faire.

O mundo é perigoso para nele se viver nao por causa daqueles que
cometem o mal, mas por causa daqueles que véem e deixam fazer".

Os fatos clamorosos assim registrados na Bélgica sao apenas urna


parte de quanto ocorre de perverso no mundo inteiro em relacáo á infan
cia. - Vejamos, pois, alguns dados do quadro internacional.

2. O QUADRO INTERNACIONAL

A explorado de changas nao se dá apenas nos países do Terceiro


Mundo, como se pode perceber. Julga-se que cerca de um milháo de cri-
angas (nao há estatísticas precisas) entra anualmente no mercado bilionário
do sexo. Nao existe parte do mundo em que o fenómeno nao ocorra; até
mesmo a Europa, principalmente a do Leste (mas também os países ricos
do Ocidente) está contaminada.

Em 1994 um estudo da Cámara do Comercio de Bogotá denunciou o


fato de que na capital da Colombia havia um total de cinco a sete mil
menores votados á prostituigáo.

91
44 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 417/1997

Um estudo da UNICEF em 1995 estimava que na Venezuela a pros-


tituicáo arrastava cerca de 40.000 enancas.

Ñas Filipinas a prostituicáo infantil envolve 60 a 100 mil enancas. No


Sri Lanka haveria 20 mil meninos explorados pela prostituicáo. Em Taiwam
seriam entre 40 e 60 mil as prostitutas-babies.

A Tailandia é a meta preferida pelo turismo do sexo. Um estudo da


Universidade de Bancoc calcula que a industria do sexo naquele país
movimenta anualmente um bilh§o e meio de dólares. O Governo tailandés
afirma que sao 15.000 as changas assim exploradas; a Cruz Vermelha,
porém, eleva este número para 40.000 e o ECRAT para 200.000.

Na Europa o principal mercado do sexo infantil está nos paises do


Leste. Um relatório da Interpol classifica a Hungría como sendo a Bancoc
da Europa.

Na Ruménia, junto aos depósitos de mercadorias da estacáo Norte


de Bucarest, foi encontrada a menina Marínele, de nove anos de idade,
que se oferecia por 2.500 leí, ou seja, menos de um dólar. Em todo o Leste
europeu as meninas se entregam á prostituicáo por urna caixa de bom-
bons ou de cigarros.

A Sra. Helena Karlen, autora de urna pesquisa do ECRAT na Europa


Oriental, pode observar: "O sexo é considerado como urna nova forma de
liberdade, á semelhanca da economía de mercado". Dos países orientáis
da Europa saem meninos e meninas que acabam ñas rúas das diversas
capitais da Europa Ocidental. Em Berlim, ao menos a metade dos 2.000
meninos explorados sexualmente partiram da Rumania. Meninos e meni
nas da Albania procuram a Italia.

Pergunta-se agora: e quem sao os clientes?

- Nao sao apenas homens de baixo nivel cultural ou social. Sao tam-
bém médicos e professores; alguns sao pederastas inveterados (Ieitores de
revistas clandestinas ou de pornografía como também espectadores das
imagens e noticias abusivas transmitidas pela Internet). Outros clientes sao
tidos como pessoas "normáis", que váo tirar ferias na Tailandia ou no Terceiro
Mundo e lá tomam a liberdade de "usufruir" do que em seu país de origem
seria mal visto. Muitos desses clientes se iludem pensando que o sexo prati-
cado com menores de idade é menos arriscado; enganam-se, porém, pois a
AIDS nao poupa nem as criancas; ao contrario o risco do sexo livre com
estas é maior, porque muitas vezes é acompanhado de perda de sangue.

Conforme a UNAIDS (Nacoes Unidas em Luta contra a AIDS), até o


ano 2000 haverá ao menos 63.000 adolescentes da Tailandia afetadas
pelo HIV, com menos de quinze anos de idade. Até a mesma data estima
se que morrerao 47.000 criancas assim contagiadas.

92
UM CONGR. INTERN. SOBRE A EXPLORAgÁO SEXUAL DE CRIANgAS 45

Estes dados pesaram fortemente sobre as reflexóes dos congressis-


tas de Estocolmo em agosto de 1996.

3. O CONGRESSO DÉ ESTOCOLMO

O Congresso, ao averiguar a extensao do fenómeno, nao pode deixar


de procurar conhecer, antes do mais, as respectivas causas. Estas já ha-
viam sido, de algum modo, postas em evidencia no ano de 1992, quando
o Pontificio Conselho para a Familia reuniu, de 9 a 11/9/92, um Encontró
Internacional sobre o tema "A Exploracáo das criancas através da Prosti-
tuicáo e da Pornografía". Eis o que os estudiosos apontam como:

3.1. Causas do Fenómeno

As múltiplas causas de táo vasto crime podem ser agrupadas sob


cinco principáis títulos:

1) A dissolucáo da familia faz que as criancas sejam, muitas vezes,


abandonadas á prostituicáo e á explorácáo dos malvados, nao somente
fora de casa, mas também entre os próprios familiares. Até mesmo no
Primeiro Mundo há criancas abandonadas por genitores viciados em dro
gas. Os pais saem, prometendo voltar logo para casa, mas detém-se dias
consecutivos ausentes. Entrementes ficam as criangas em casa, de por
tas trancadas, passando fome, gritando de modo que os vizinhos as ou-
vem; comem restos de alimentos, pedacos de farrapos e até mesmo os
próprios excrementos. - É o que se lé na revista suíca BEOBACHTER de
30/8/96, p.74.

2) A miseria que afeta numerosas familias no mundo inteiro, leva


freqüentemente os genitores a vender ou alugar seus filhos e filhas para
usos perversos.

3) A banalizacáo do sexo ligada ao fenómeno da secularizacáo ou


da perda do senso de Deus faz que se apaguem a nocáo e a consciéncia
do pecado e das responsabilidades moráis. Propaga-se a tolerancia para
com qualquertipo de comporta mentó, desde que ofereca prazer ou algu-
ma vantagem de ordem material a quem o cultiva.
4) As taras e obsessóes que afetam muitos homens de toda parte
do mundo. Sao pessoas para as quais o sexo constituí um imperativo ab
soluto e incoercível. Tais pessoas existem em grande número nos países
desenvolvidos.

5) A corrida ao dinheiro, ao lucro fácil, que se exprime também por


ampio material pornográfico. Alias, a industria dos livros e impressos eró
ticos e erotizantes é, simultáneamente com a de drogas e a das armas,
urna das grandes fontes de enriquecimento em nossos dias. Nesta pers-
93
46 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 417/1997

pectiva se coloca também o "turismo sexual", porque dá dinheiro a quem o


promove.

A cobica de dinheiro valoriza mais o lucro do que a pessoa humana,


pois é certo que os exploradores das criangas fazem mal a estas nao so-
mente no plano físico, mas também no psíquico; pervertem personalida
des, que ficaráo marcadas para o resto da vida em atitudes de desánimo e
depressáo, a tal ponto que se tem dito que a exploracao das criancas é o
crime que desumaniza a humanidade e causa vergonha a todos os ho-
mens.

Urna vez reconhecidas a extensáo e as principáis causas do fenóme


no da exploracao sexual infantil, impunha-se aos congressistas de Esto-
colmo apontar providencias concretas para coibir o crime.
3.2. Impunidade?

A exploracáo comercial de criancas foi tida como urna forma moder


na de escravidáo. Por conseguinte, é crime que deve ser reprimido e puni
do. Até hoje tem-se registrado a impunidade para tal tipo de maleficio,
pois se trata de algo cujas dimensoes s§o inéditas; nunca os legisladores
se defrontaram com tal onda de perversao. Além disto, nota-se que nao é
fácil detectar os exploradores de criancas, já que costumam agir clandes
tinamente.

Ora a impunidade no caso é duplamente nociva. Primeiramente, no


civa porque nao defende os direitos da enanca; esta tem direito ao respei-
to de modo que qualquer violacáo dessa reverencia há de ser tratada pela
justica como um crime. Em segundo lugar, a impunidade pode insinuarás
criancas que tal procedimento nao é ilegal, conclusáo esta que poderá
servir-lhes de incentivo para que também elas, em idade adulta, recorram
ás práticas de que foram vítimas. Alias, sabe-se que grande parte dos que
hoje exploram criancas sexualmente, foram, como criancas, vítimas de
violencia sexual.

Segundo um estudo efetuado por urna Universidade norte-americana


de Mineápolis, somente trinta e um países tém urna legislacáo que pune a
producao, a dístríbuicáo e a posse de pornografía infantil.
Em Estocolmo, os delegados presentes se comprometeram a pro
mover nos respectivos países urna legislacáo adequada ao combate da
exploracao comercial das criancas. - Maís do que isto nao era possível
esperar de tal certame, visto que o Congresso de Estocolmo nao tinha
habilitacáo para produzir normas ou leis. É para desejar, porém, que nao
somente os legisladores, mas também a sociedade inteira se empenhe
por debelar as causas de tal crime, que, pode-se dizer, é urna afronta
contra toda a humanidade.

94
UM CONGR. INTERN. SOBRE A EXPLORAQAO SEXUAL DE CRIANgAS 47

A propósito o S. Padre Joao Paulo II escreveu ponderáveis palavras


em sua Carta ás Criangas datada de 13/12/1994:
"Se é certo que urna crianga constituía alegría dos pais, e também da
Igreja e da sociedade inteira, é igualmente verdade que nos nossos tem-
pos, infelizmente, muitas criangas sofrem e vivem ameagadas em varias
partes do mundo: padecem fome e miseria, morrem por causa das doen-
gas e da desnutrigao, caem vitimas de guerras, sao abandonadas pelos
pais e condenadas a fícarsem casa, privadas do caiorde urna familia pró-
pria, sofrem muitas formas de violencia e prepotencia porparte dos adultos.
Como é possível permanecer indiferente perante o sofrimento de
tantas criangas, especialmente quando ele é causado pelos adultos?".
A título de complemento, podemos ainda acrescentar: Algumas na-
cóes já tém legislagáo que pune os cidadáos envolvidos em crimes sexu-
ais abusivos de criangas. Isto se dá principalmente nos países onde es-
trangeiros costumam praticar abusos sexuais. Assim ñas Filipinas em maio
de 1996 foi condenado o australiano Víctor Keith Fitzgerald a dezessete
anos de prisáo porter abusado sexualmente de urna adolescente de treze
anos em 1993. Em junho do mesmo ano foi sentenciado o británico Steven
Roy Mitchell porter violentado sexualmente dois meninos filipinos de qua-
tro e oito anos de idade respectivamente. Na Tailandia, o alemáo Bernd
Karl-Heinz Nierenz, de 38 anos de idade, foi punido com 43 anos de cárce-
re por ter sido depreendido em bárbaro crime sexual contra quatro meni
nos da faixa dos oito aos treze anos de idade.
Os peritos pensam em ir mais longe do que apenas preconizar medi
das punitivas. Julgam que mais eficaz ainda é prevenir os males; para
tanto apregoam urna renovagáo das estruturas da sociedade atual, na
medida em que propiciam a criminalidade praticada com criangas. Para
tanto, os genitores, as familias e a sociedade em geral deveriam ser
alertados para a parte de responsabilidade que Ihes toca no problema e
para as exigencias de maior atengáo e dedicagáo ás criangas.

As agencias de viagem e as Companhias de Aviagao deveriam ser


pressionadas para nao atender á industria do sexo infantil. Doze grandes
agencias de viagem da Alemanha assinaram um pacto espontáneo pelo
qual se comprometem a por fim á prostituigáo infantil nos hotéis com os
quais tém convenio e a informar os turistas sobre as tristes conseqüéncias
da exploragáo sexual de criangas.

O dinamarqués Niels Christian Andersen, Secretario Geral da Orga-


nizagáo "Salve as Criangas" da Dinamarca, declarou que os países do
Ocidente deveriam boicotar o turismo voltado para a exploragáo sexual
assim como as Companhias de Aviagáo que se prestem a este objetivo.
(Noticias extraídas da revista TIME, 2/9/1996, p. 21)

95
DADOS NUMÉRICOS

O último "Anuario Estatístico da Igreja Católica", que traz dados nu


méricos colhidos até 31/12/1994, foi apresentado ao S. Padre no outono
(europeu) de 1996, registrando os seguintes números:

Aos 31/12/1994 a Igreja Católica contava 975.937.000 de fiéis, ou


seja, 17,4% da populacao mundial (estimada em 5.600.000.000 de habi
tantes). Estavam distribuidos por 2.696 Dioceses e Vicariatos: 1005 na
América, 708 na Europa, 462 na Asia, 444 na África e 77 na Oceania. -
Observamos que o número de Dioceses em 1977 é certamente mais eleva
do, pois tém sido criadas novas circunscricñes eclesiásticas fora da Europa.
Em 31/12/1994 a Igreja contava 4.257 Bispos, 404.461 presbíteros
(Diocesanos e Religiosos), 59.872 Religiosos nao presbíteros (nao pa
dres), 848.455 Religiosas, 31.730 membros de Institutos Seculares, 2.800
missionários leigos e 427.940 catequistas.

A Igreja administrava 105.017 instituicoes na área da saúde (hospi-


tais, dispensarios, leprosarios, casas de repouso, creches, orfanatos...):
38.942 na América, 33.136 na Europa, 18.776 na Asia, 12.712 na África e
1.451 na Oceania.

Quanto ás instituicdes destinadas á educacáo e á instrucáo, eram


173.758 unidades: 83.345 escolas primarias, 53.790 Jardins de Infancia,
32.904 escolas secundarias, 3.719 Institutos Superiores e Universidades.
Ao lado disto, porém, deve-se notar que o número de ateus tem cres-
cido. Segundo algumas estatísticas, eram 0,2% da populagao mundial em
1900; passaram a 20,8% em 1980 (certamente por causa da ascensáo do
comunismo em varios países); seráo possivelmente 21% em 2000. - A
propósito deve-se notar: as estatísticas nem sempre concordam entre si.
Ademáis muitas pessoas que se dizem atéias, nao sao contrarias á reli-
giáo, mas Ihe sao indiferentes ou tém mesmo urna vaga crenca num Prin
cipio Superior ou no Espirito. Tem-se verificado também que varios ateus
famosos tiveram suas supersticóes: assim Emile Zola julgava que os múl
tiplos do número 3 eram números favoráveis; mais tarde preferiu os de 5 e
7.0 músico Chopin tinha horror do número 7 (que muitos tém na conta de
alvissareiro). Mérimée, o artista, tinha o número 13 como benfazejo, en-
quanto Vítor Hugo, o poeta, e Gabriel d'Annunzio, o escritor, Ihe eram con
trarios. Schubert chamava a cor verde, "a cor malvada", e abominava-a a
ponto de dizer que estava pronto a ir ás extremidades do globo para poder
evitá-la (outros julgam que precisamente a cor verde é a cor da esperanca).
O presidente Mazaryk, fundador da República Tchecoslovaca após a guerra
de 1914-18, professava abertamente suas crendices, apesar de se dizer ateu.
Estéváo Bettencourt, O.S.B.

96
PARA O ANO LETIVO:

1997

Que livros adotar para os Cursos de Teologia e Liturgia?

A "Lumen Christi" oferece as seguintes obras:

1. RIQUEZAS DA MENSAGEM CRISTA (2a ed.), por Dom Cirilo Folch Gomes
O.S.B. (falecido a 2/12/83). Teólogo conceituado, autor de um tratado completo
de Teologia Dogmática, comentando o Credo do Povo de Deus, promulgado
pelo Papa Paulo VI. Um alentado volume de 700 págs., best seller de nossas
EdicSes R$ 34,80.

2. O MISTERIO DO DEUS VIVO, P. Patfoort O. P. O Autor foi examinador de D.


Cirilo para a conquista da láurea de Doutor em Teologia no Instituto Pontificio
Santo Tomás de Aquino em Roma. Para Professores e Alunos de Teologia, é
um Tratado de "Deus Uno e Trino", de orientacáo tomista e de índole didática.
230 págs R$ 16>80-
3. LITURGIA PARA O POVO DE DEUS (4a ed., 1984), pelo Salesiano Don Cario
Fiore, traducáo de D. Hildebrando P. Martins OSB. Edicáo ampliada e atualiza-
da, apresenta em linguagem simples toda a doutrina da Constituicáo Litúrgica
do Vat. II. É um breve manual para uso de Seminarios, Noviciados, Colegios,
Grupos de reflexáo, Retiros, etc., 216 págs R$ 7,20.

4. DIÁLOGO ECUMÉNICO, Temas controvertidos. 3a Edicáo.


Seu Autor, D. Estéváo Bettencourt, considera os principáis pontos da clássica
controversia, entre Católicos e Protestantes, procurando mostrar que a discus-
sáo no plano teológico perdeu muito de sua razao de ser, pois, nao raro, versa
mais sobre palavras do que sobre conceitos ou proposicóes - 380 páginas.
SUMARIO: 1.0 catálogo bíblico: livros canónicos e livros apócrifos - 2. Somen-
te a Escritura? - 3. Somente a fé? Nao as obras? - 4. A SS. Trindade, Fórmula
paga? - 5. O primado de Pedro - 6. Eucaristía: Sacrificio e Sacramento. - 7. A
Confissáo dos pecados - 8. O Purgatorio - 9. As indulgencias - 10. María,
Virgem e Máe - 11. Jesús teve irmáos? - 12. O Culto aos Santos - 13. E as
imagens sagradas? - 14. Alterado o Decálogo? - 15. Sábado ou Domingo? -
16. 666 (Ap. 13,18) - 17. Vocé sabe quando? - 18. Seita e Espirito Sectario -
19. Apéndice geral: A era Constantina -.- R$ t6,80.

Edi$oes "Lumen Christi".


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Liturgia da Missa
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lados por Dom Hildebrando P. Martins OSB. 8a edicáo. 68 págs R$4,80..

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tempo, aos quais nao faltam vocacóes para monges e monjas, 210 págs..! R$ 11,50.

PERSPECTIVAS DA REGRA DE S. BENTO


Irma Aquinata Bóckmann OBS.
Comentario sobre o Prólogo e os capítulos 53, 58, 72, 73 da Regra Benedítina - Tradu
cáo do alemáo por D. Mateus Rocha OSB.
A Autora é professora no Pontificio Ateneu de Santo Anselmo em Roma (Monte
Aventino). Tem divulgado suas pesquisas nao só na Alemanha, Italia, Franca, Portugal,
Espanha, como também nos Estados Unidos, Brasil, Tanzania, Coréia e Filipinas, por
ocasiáo de Cursos e Retiros. 364 págs R$ 10,20.

SAO BENTO E A PROFISSÁO DE MONGE


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_ O genio, ou seja, a santidade de um monge da Igreja latina do século VI (480-540) -
SAO 'BENTO - transformou-o em éxemplo vivo, em mestre e em legislador de um estado
de vida crista, empenhado na procura crescente da face e da verdade de Deus, espélhada •
na trajetória de um viver humano renascido do sangue redentor de Cristo. - Assim, o
discípulo de Sao Bento ouve o chamado para fazer-se monge, para assumir a "profissáo
de monge".

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