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Projeto

PERGUNTE
E
RESPONDEREMOS
ON-LINE

Apostolado Veritatis Spiendor


com autorizacáo de
Dom Estéváo Tavares Bettencourt, osb
(in memoriam)
APRESENTAQÁO
DA EDIQÁO ON-LINE
Diz Sao Pedro que devemos estar
preparados para dar a razáo da nossa
esperanga a todo aquele que no-la pedir
(1 Pedro 3,15).

Esta necessidade de darmos conta


da nossa esperanca e da nossa fé hoje é
mais premente do que outrora, visto que
somos bombardeados por numerosas
correntes filosóficas e religiosas contrarias á
fé católica. Somos assim incitados a procurar
consolidar nossa crenca católica mediante
um aprofundamento do nosso estudo.

Eis o que neste site Pergunte e


■ Responderemos propóe aos seus leitores:
■, aborda questóes da atualidade
t controvertidas, elucidando-as do ponto de
vista cristáo a fim de que as dúvidas se
: dissipem e a vivencia católica se fortalega no
Brasil e no mundo. Queira Deus abencoar
""" este trabalho assim como a equipe de
Veritatis Splendor que se encarrega do
respectivo site.

Rio de Janeiro, 30 de julho de 2003.

Pe. Esteváo Bettencourt, OSB

NOTA DO APOSTOLADO VERITATIS SPLENDOR

Celebramos convenio com d. Esteváo Bettencourt e


passamos a disponibilizar nesta área, o excelente e sempre atual
conteúdo da revista teológico - filosófica "Pergunte e
Responderemos", que conta com mais de 40 anos de publicagáo.

A d. Estéváo Bettencourt agradecemos a confiaca depositada


em nosso trabalho, bem como pela generosidade e zelo pastoral
assim demonstrados.
Ano xl Abril 1999

"Jorraram sangue e agua..." (Jo 19, 34s)

Catecismo da Igreja Católica

Crescimento Demográfico e Novos Direitos Huma


nos

Vasectomia Compulsoria

O Ateísmo no mundo atual

Teología da Prosperidade

Os Símbolos Natalinos

Inflacio de Santos?

Milagres cofnprovados

Um Testemunho Pró-Vida
PERGUNTE E RESPONDEREMOS ABRIL 1999
Publica9áo Mensal N6443

Diretor Responsável
SUMARIO
Estéváo Bettencourt OSB
Autor e Redator de toda a materia "Jorraram sangue e
publicada neste periódico agua..." (Jo 19, 34s) 145

Nova edicáo do
Diretor-Administrador: Catecismo da Igreja Católica 146
D. Hildebrando P. Martins OSB
Criterios ideológicos:
Crescimento Demográfico e Novos
Administracio e Distribuicáo:
Direitos Humanos 154
Edicoes "Lumen Christi"
Rúa Dom Gerardo, 40 - 5° andar - sala 501 A Ética da Questáo:
Tel.: (021) 291-7122
Vasectomia Compulsoria 164

Fax (021) 263-5679 Fatos que suscitam reflexáo:


O Ateísmo no mundo atual 169
Endereco para Correspondencia:
Fala um pastor presbiteriano:
Ed. "Lumen Christi" Teologia da Prosperidade 172
Caixa Postal 2666
Aínda
CEP 20001-970 - Rio de Janeiro - RJ
Os Símbolos Natalinos 176

Visite O MOSTEIRO DE SAO BENTO Pergunta-se:


e "PERGUNTE E RESPONDEREMOS" Inflacáo de Santos? 184
na INTERNET: http://www.osb.org.br Para a Canonizacáo de Santos:
e-mail: LUMEN.CHRISTI @ PEMAIL.NET Milagres comprovados 187

Um Testemunho Pró-Vida 192

COM APROVACÁO ECLESIÁSTICA

NO PRÓXIMO NÚMERO:

Possessáo Diabólica e Exorcismo. - "A Cura pela Missa" (R. DeGrandis). - O Médium
que dizia receber o Dr. Fritz. - "Os Mitos da Educacáo Sexual" (John McDowell). - "A
Maconaria do outro lado da Luz" (William Schnoebelen). - "Santos Padres Santos Po
dres" (Horacio Silveira). - O Médico e a Vida Humana.

(PARA RENOVApÁO OU NOVA ASSINATURA: RS 30,00).


(NÚMERO AVULSO R$ 3,00).

O pagamento poderá ser á sua escolha:

1. Enviar em Carta, cheque nominal ao MOSTEIRO DE SAO BENTO/RJ.

2. Depósito em qualquer agencia do BANCO DO BRASIL, para agencia 0435-9 Rio na


C/C 31.304-1 do Mosteiro de S. Bento/RJ, enviando em seguida p(
por carta ou fax,
comprovante do depósito, para nosso controle.

3. Em qualquer agencia dos Correios, VALE POSTAL, enderecado as EDICOES "LUMEN


CHRISTI" Caixa Postal 2666 / 20001-970 Rio de Janeiro-RJ

Obs.: Correspondencia para: Edicoes "Lumen Christi"


Caixa Postal 2666
20001-970 Rio de Janeiro - RJ >
"JORRARAN! SANGUE E AGUA..."
(Jo19,34s)

Do lado de Cristo pendente da Cruz e aberto pela langa do soldado


jorraram sangue e agua (cf. Jo 19,34s). O evangelista S. Joáo dá grande
importancia a este fato aparentemente secundario: "Aquele que viu, dá
testemunho, e o seu testemunho é verdadeiro. E Ele (Jesús) sabe que
Joáo diz a verdade, para que vos creíais".
Por que tanta énfase em tal pormenor? - Por causa do significado
simbólico que tém esses dois elementos, simbolismo explanado pelos an-
tigos escritores cristáos, fazendo eco genuino ao pensamento do
evangelista; este escreveu urna obra que se compraz em fazer do visível o
sinal do Invisível ou do Transcendental.
A agua significa o Batismo, apresentado por Jesús a Nicodemos como
sendo um renascer da agua e do Espirito (cf. Jo 3,5). A agua, vivificada
pelo Espirito e feita sacramento, é o canal pelo qual passa a vida do Filho
de Deus para aqueles que sao feitos filhos adotivos ou filhos no FILHO.
O sangue que jorra do lado de Cristo, significa a Eucaristía, o sacra
mento central ou o ponto alto da comunháo dos homens com Deus.
Estes dois sacramentos constroem a Igreja; enxedando os fiéis em
Cristo, perfazem o Corpo Místico ou a Igreja. Pode-se entáo dizer que esta
nasce do lado de Cristo pendente da Cruz, como Eva teve origem do lado
de Adao adormecido, conforme Gn 2, 21 s (numa exegese literal do texto
sagrado). A Igreja é a nova Eva (= Máe da Vida)1, que nasce do novo Adáo
(Jesús Cristo).
Dilatemos o nosso horizonte... A humanidade de Jesús foi o templo da
Divindade ou da vida do próprio Deus: "No Logos estava a vida... E o Logos se
fez carne e habitou entre nos" (Jo 1, 4.14). Enquanto habitava visivelmente
com os homens, o Logos comunicava-lhes a vida mediante os seus gestos e
as suas palavras: tocando-os com as máos e ungindo-os com lodo ou saliva,
ele curava leprosos e cegos e restituía a vida aos morios, significando assim
que Ele viera para recriar ou restaurar o homem ferido pelo pecado. Urna vez
terminada a sua carreira mortal, nao terminou a sua obra de recriacao; Ele
continua a restaurar os homens comunicando-lhes a vida do Pai nao median
te os gestos e as palavras de sua humanidade peregrina, mas mediante a
agua, o pao, o vinho, o óleo, as palavras e os gestos que perfazem a ordem
sacramental e prolongam, de certo modo, a sua humanidade através dos
sáculos. Assim os sacramentos ministrados na Igreja e pela Igreja vém a
ser os filetes capilares que póem a todo momento os homens em contato
com a eternidade e dáo valor transcendental á vida de todo cristio.
Sao estas algumas reflexoes que a celebracao da Páscoa neste
mes de abril nos sugere, fazendo-nos contemplar na Paixáo e Morte do
Senhor a vitória da Vida sobre o pecado e a morte.
E.B.
1 María SSma., como prototipo e miniatura da Igreja, participa do título e da fungáo
de nova Eva. Ela é a Máe da Vida (Jesús Cristo).

145
"PERGUNTE E RESPONDEREMOS"

Ano XL - N2 443 - Abril de 1999

Nova edicáo do

CATECISMO DA IGREJA CATÓLICA

Em síntese: O Catecismo da Igreja Católica conheceu sua primei-


ra edigáo em 1992, tendo sido originariamente redigido em francés. A
edicáo oficial latina, dita "típica", ocorreu em 1997, após revisáo do texto
anterior, que sofreu algumas alteracoes de caráter secundario, mas nao
desprezíveis, como se depreenderá da leitura de quanto se segué.

Em 1992 foi publicado o texto do novo Catecismo da Igreja Católi


ca, redigido originariamente em francés e, a partir desta língua, traduzido
para diversos idiomas. Todavía em 1997 foi promulgada a edicáo dita
"típica" ou oficial, em latim (que é a língua da Igreja no Ocidente). A nova
edicáo apresenta pequeñas modificacóes em relacáo á anterior, modifi-
cacoes que nao alteram substancialmente o teor do texto, mas que nao
podem deixar de ser levadas em conta.

A fim de proporcionar ao público o conhecimento dessas altera


coes, proporemos, a seguir, a lista completa das modificacoes. Na verda-
de, somente sete artigos foram redigidos de novo: os de ns 2265-2267
(referentes á pena de morte), 2042s (sobre os mandamentos da Igreja),
1684 (funerais), 2296 (transplantes). Merecem destaque os dois primei-
ros casos.

1. Artigos refeitos

1.1. Pena de Morte

Eis o texto da edicáo de 1992:

"2265. A legítima defesa pode ser nao somente um direito, mas um


dever grave, para aquele que é responsável pela vida de outros, pelo
bem comum da familia ou da sociedade.

146
CATECISMO DA IGREJA CATÓLICA

2266. Preservar o bem comum da sociedade exige que o agressor


seja privado das possibilidades de prejudicar a outrem. A este título, o
ensinamento tradicional da Igreja reconheceu como fundamento o direito
e o dever da legítima autoridade pública de infligir penas proporcionadas
á gravidade dos delitos, sem excluir, em casos de extrema gravidade, a
pena de morte. Por razóes análogas os detentores de autoridade tém o
direito de repelir pelas armas os agressores da comunidade civil pela
qual sao responsáveis.

A pena tem como primeiro efeito compensar a desordem introduzida


pela falta. Quando esta pena é voluntariamente aceita pelo culpado, tem
valor de expiacáo. Além disso, a pena tem um valor medicinal, devendo,
na medida do possível, contribuir para a correcáo do culpado.

2267. Se os meios nao sangrentos bastarem para defender as vi


das humanas contra o agressor e para proteger a ordem pública e a
segurania das pessoas, a autoridade se limitará a esses meios, porque
correspondem melhor as condicóes concretas do bem comum e estáo
mais conformes á dignidade da pessoa humana".

O texto refeito na edicáo oficial tem o seguinte teor:

"2265. Além de ser um direito, a legítima defesa pode ser nao so-
mente um direito, mas um grave dever para quem traz a responsabilidade
pela vida alheia. A defesa do bem comum exige que ponha o injusto
agressor fora de condigóes de prejudicar. A este títulos, os legítimos de
tentores da autoridade tém o direito de recorrer até mesmo as armas para
afastar os agressores da comunidade civil que é confiada á sua respon
sabilidade.

2266. O esforgo desempenhado pelo Estado para impedir a difu-


sáo de comportamentos que violam os direitos do homem e as regras
fundamentáis da vida da comunidade civil, corresponde a uma exigencia
de tutela do bem comum. Á autoridade pública legítima toca o direito e o
dever de infligir penas proporcionáis a gravidade do delito.

A pena tem como primeiro objetivo reparar a desordem causada


pela falta. Quando essa pena é voluntariamente aceita pelo réu, ela tem
o valor de expiagáo. A pena, além de proteger a ordem pública e a segu-
ranga dos cidadaos, tem finalidade medicinal; ela deve, na medida do
possível, contribuir para a corregáo do réu.

Art. 2267. O tradicional ensino da Igreja nao excluí, quando a iden-


tidade e a responsabilidade do réu constam com plena clareza, o recurso
á pena de morte, se esta é o único meio viávelpara proteger eficazmente,
frente ao injusto agressor, a vida de seres humanos.

147
"PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 443/1999

Mas, se os meios nao sangrentas bastam para defender e proteger


a seguranga dos cidadáos frente ao agressor, a autorídade se ¡imitará a
tais meios, porque melhor correspondem as condigdes concretas do bem
comum e sao mais conformes á dignidade da pessoa humana.

Com efeito; em nossos días, vistas as possibilidades de que o Es


tado dispóe para reprimir eficazmente o críme, tornando o criminoso inca
paz de agredir, sem Ihe tirar definitivamente a possibilidade de se arre-
pender, os casos de absoluta necessidade de suprimir o réu sao muito
raros, ou mesmo praticamente inexistentes".

O texto do Catecismo foi assim refundido para se adaptar plena


mente aos dizeres da encíclica Evangelium Vitae n9 56, que é muito
restritiva em relacao á pena de morte.

1.2. Os Mandamentos da Igreja

Os artigos 2042s diziam:

"2042. O primeiro mandamento da Igreja ('Participar de missa in-


teira nos domingos e testas de guarda') ordena aos fiéis que tomem par
te na celebracáo eucarística onde se reúne a comunidade crista, no dia
que comemora a ressurreicao do Senhor.

O segundo mandamento ('Confessar-se ao menos urna vez por


ano') assegura a preparacáo para a Eucaristía pela recepcáo do sacra
mento da Reconciliacáo, que continua a obra de conversáo e perdió do
Batismo.

O terceiro mandamento ('Comungar ao menos pela Páscoa da res-


surreigáo') garante um mínimo na recepcáo do Corpo e do Sangue do
Senhor em ligacáo com as festas pascáis, origem e centro da Liturgia
crista.

2043.0 quarto mandamento ('Santificar as festas de preceito') com


pleta a observancia dominical pela participacao ñas principáis festas
litúrgicas, que veneram os misterios do Senhor, a Virgem Maria e os San
tos.

O quinto mandamento ('Jejuar e abster-se de carne, conforme man


da a Santa Máe Igreja') determina os tempos de ascese e penitencia que
nos preparam para as festas litúrgicas; contribuem para nos fazer adqui
rir o dominio sobre os nossos instintos e a liberdade do coracáo.

Os fiéis cristáos tém ainda a obrigacao de atender, cada um segun


do as suas capacidades, as necessidades mate riáis da Igreja".

A nova edicáo funde num so o primeiro e o quarto mandamentos:

148
CATECISMO DA IGREJA CATÓLICA

"2042. Oprimeiro mandamento ('Aos domingos e ñas festas de pre-


ceito, participar da Missa e abster-se de obras servís') prescreve aos fiéis
que santifiquem o dia no qual se comemora a Ressurreigáo do Senhor,
assim como as principáis festas litúrgicas, ñas quais se veneram os mis
terios do Senhor, da Bem-aventurada Virgem María e dos Santos. Fa-
gam-se, antes do mais, participantes da celebragáo eucarística, que reú
ne a comunidade crista. Procurem também eximirse de todos os traba-
Ihos que possam impedirá santificagao desses días".

Eis o novo artigo 2043:

"O quarto preceito ('Nos dias prescritos pela Igreja abster-se de


carne e jejuar') determina os tempos de ascese e penitencia que nos
preparam para as festas litúrgicas e para nos fazer adquirir o dominio
sobre os nossos instintos e a liberdade do coragáo.

O quinto preceito ('Atenderás necessidades da Igreja') afirma que


os fiéis tém a obrígagáo de atender, cada qual segundo as suas possibi-
lidades, as necessidades da Igreja".

Este quinto preceito, alias, nao é senáo a reproducáo do canon


222 do Código de Direito Canónico. A nota 90, ao pé da página, refere
que as Conferencias Episcopais é lícito estabelecer outros preceitos vá
lidos no respectivo territorio. A distincao dos preceitos da Igreja ocorrente
na edicáo oficial corresponde á clássica doutrina do Catecismo Católico.

2. Vocábulos Cancelados

Art. 57. Eis a versáo de 1992:

"Esta ordem, ao mesmo tempo, cósmica, social e religiosa, da


pluralidade das nacoes, confiada pela Providencia Divina á guarda
dos anjos, destina-se a limitar o orgulho de urna humanidade decaída..."

O texto oficial suprimiu a referencia aos anjos das nacoes:1

"Esta ordem, ao mesmo tempo cósmica, social e religiosa, da


pluralidade das nagoes destina-se a limitar o orgulho de urna humanida
de decaída..."

1 A tese de que cada nagao tem seu anjo da guarda, poderla encontrar seu funda
mento na S. Escritura. Ver, por exemplo, o texto mais explícito:
Dt 32, 8: "Quando o Altíssimo repartía as nagoes, quando espalhava os filhos de
Adáo, ele fixou fronteiras para os povos, conforme o número dos filhos de Deus".
"Fiihos de Deus", na linguagem bíblica, seriam os anjos. Ver outrossim Ex 23, 30;
Tb 5,4; Dn 10, 13.
Visto que o embasamento na Biblia e na Tradigao é fraco, a nova edigáo do Cate
cismo houve por bem suprimir a referencia aos anjos da guarda das nagóes.

149
"PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 443/1999

Art. 911. Eis o texto de 1992:

"Na Igreja, os fiéis leigos podem cooperar, de acordó com o Direito,


para o exercício do poder de governo. Isto vale para a presenta deles
nos Conselhos particulares, nos Sínodos diocesanos, nos Conselhos
pastorais, no exercício in solidum do encargo pastoral de urna paró-
quia..."

O texto oficial retirou in solidum (em plenitude, com plenos direi-


tos) para evitar a idéia de que os leigos, nos encargos pastorais de urna
paróquia, podem exercer suas funcóes a título igual ao dos clérigos.

Art. 1605. Tal é o texto de 1992:

"Que o homem e a mulher tenham sido criados um para o outro, a


Sagrada Escritura o afirma: 'Nao é bom que o homem esteja só'. A mu
lher, 'carne de sua carne', isto é, seu próprio rosto (vis-á-vis), igual a
ele, bem próxima dele, Ihe foi dada por Deus como um auxilio...".

A edicáo de 1997 suprimiu "seu próprio rosto (vis-á-vis)" por ser


desnecessário.

Art. 2483. Eis o texto de 1992:

"A mentira é a ofensa mais direta á verdade. Mentir é falar ou agir


contra a verdade para induzir em erro aquele que tem o direito de
conhecé-la".

A edicáo oficial retirou "aquele que tem o direito de conhecé-la (a


verdade)".

"A mentira é a ofensa mais direta a verdade. Mentir é falar ou agir


contra a verdade para induzir em erro. Ferindo a relagáo do homem á
verdade...".

A mentira lesa mesmo quem nao tem o direito de conhecer a ver


dade.

3. Vocábulos Acrescentados

Em alguns artigos foram feitos acréscimos em vista de mais clare


za doutrinária ou precisáo jurídica. Assim:

Art. 88.0 texto de 1992 rezava:

"O magisterio da Igreja empenha plenamente a autoridade que re-


cebeu de Cristo quando define dogmas, isto é, quando, utilizando urna
forma que obriga o povo cristáo a urna adesáo irrevogável de fé, propóe
verdades contidas na Revelacáo Divina ou verdades que com estas tém
urna conexáo necessária".

150
CATECISMO DA IGREJA CATÓLICA

A edicáo oficial soa:

"... propóe verdades contidas na Revelagáo Divina ou também


quando propoe em termos definitivos verdades que com estas tém
urna conexáo necessária".

A respeito ver o Motu Proprio Ad tuendam Fidem comentado em


PR 438/1998, pp. 492-498.

Art. 875. Eis o texto de 1992:

"Dele (Cristo) recebem (os Bispos e os presbíteros) a missao e a


faculdade (o poder sagrado) de agir na pessoa de Cristo Cabeca".

A edicáo oficial acrescentou urna referencia aos diáconos:

"Dele (Cristo) recebem (os Bispos e os presbíteros) a missao e a


faculdade (o poder sagrado) de agir na pessoa de Cristo Cabega; os
diáconos recebem a faculdade de servir ao povo de Deus na diaconia
(no ministerio) da Liturgia, da Palavra e da caridade, em comunháo
com o Bispo e seu presbiterio".

Art. 922 e 1672. A edicáo oficial acrescentou a mencáo das viúvas


consagradas ao lado da referencia as virgens consagradas.

Art. 1141. Eis o texto de 1992:

"A assembléia que celebra, é a comunidade dos batizados, os quais,


pela regeneracáo e uncáo do Espirito Santo, sao consagrados como casa
espiritual e sacerdocio santo para oferecer sacrificios espirituais".

O texto oficial explicitou "os sacrificios espirituais":

"... para oferecer, mediante todas as obras do cristáo, sacrificios


espirituais".

Toda a vida do cristáo pautada pela Lei de Deus é urna oblacáo.

Art. 1367. Onde havia referencia "á Missa como sacrificio incruen
to" a nova edicao acrescenta: "... sacrificio que é realmente
propiciatorio".

Art. 1454. Para realizar o seu exame de consciéncia, o cristáo deve


espelhar-se nao somente nos Evangelhos, ñas cartas dos Apostólos, no
Sermáo da Montanha e nos ensinamentos apostólicos (edicáo de 1992),
mas também no Decálogo (edicáo oficial).

4. Esclarecimentos e Precisáo

Art. 84. A expressáo "patrimonio sagrado" foi substituida por "de


pósito da fé".

151
8 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS' 443/1999

Art. 879. Eis o texto de 1992:

"O ministerio sacramental na Igreja é, portanto, um servico, ao


mesmo tempo, colegial e pessoal, exercido em nome de Cristo".

A nova edicáo assim reformula:

"O ministerio sacramental na Igreja é, portanto, um servigo exerci


do em nome de Cristo. Tem índole pessoal e forma colegial".

Art. 916. Em vez de "estado religioso", leia-se "estado de vida con


sagrada".

Art. 1684. Eis o texto de 1992:

"Os funerais cristáos nao conferem ao defunto nem sacramento


nem sacramental, pois ele passou para além da economía sacramental.
Mas nao deixam de ser urna celebracáo litúrgica da Igreja. O ministerio
da Igreja tem aqui em vista tanto exprimir a comunháo eficaz com o de
funto quanto fazer a comunidade reunida participar ñas exequias e Ihe
anunciar a vida eterna".

A nova edicáo substituí os dizeres ácima pelos seguintes:

"Os funerais crLtáos sao urna celebragáo litúrgica da Igreja. Cele-


brando-os, o ministerio da Igreja tem em vista tanto exprimir a comunháo
eficaz com o defunto como fazer a comunidade reunida participar ñas
exequias e Ihe anunciar a vida eterna"}

Art. 2296. Eis o texto de 1992:

"O transplante de órgáos nao é moralmente aceitável se o doador


ou seus representantes legáis nao deram para isso explícito consenti-
mento. O transplante de órgáos é conforme á Moral e pode ser meritorio,
se os perigos e os riscos físicos e psíquicos a que se expóe o doador sao
proporcionáis ao bem que se busca no destinatario. É moralmente inad-
missível provocar diretamente a mutilacáo que venha a tornar alguém
inválido ou provoque a morte de um ser humano, mesmo que seja para
retardar a morte de outras pessoas".

A nova formulacáo é mais positiva:

"O transplante de órgáos é conforme a leí moral, se os perigos e os


riscos físicos e psíquicos a que se expóe o doador, sao proporcionáis ao

1 A Igreja peregrina neste mundo nao tem jurisdigáo sobre os que passaram para o
além; por conseguinte, nao Ihes pode ministrar os sacramentos e sacramentáis nem
os pode absolver de pecados. Contudo os funerais religiosos sao sufragios ou pre
ces da Santa Máe Igreja em favor de fílhos falecidos; pedem ao Pai que os receba
em sua bem-aventuranga definitiva. Além disto, as exequias sao sempre a ocasiao
de anunciar o Evangelho aos fiéis e outras pessoas presentes.

152
CATECISMO DA IGREJA CATÓLICA

bem que se busca no destinatario. A doagáo de órgáos após a morte é


um ato nobre e meritorio e deve ser estimulada como sendo urna mani-
festagáo de solidariedade generosa.

O transplante nao é aceitável do ponto de vista moral, se o doador


ou seus representantes legítimos nao derampara isso explícito consenti-
mento. De resto, é moralmente inadmissívei provocar diretamente a mu-
tilagáo que venha a tornar aiguém inválido ou provoque a morte de um
ser humano, mesmo que seja para retardar a morte de outras pessoas".
Art. 2297. O texto de 1992 soava:

"O terrorismo que amea9a, fere e mata sem discriminado é grave


mente contrario á justica e á caridade".

A edicao oficial retocou do seguinte modo o texto anterior:

"O terrorismo sem discriminagáo ameaga, fere e mata; é gravemente


contrario á justiga e á caridade".

O novo texto quis assim excluir todo e qualquer tipo de terrorismo


devastador.

Art. 2368. A nova edicáo fala de "regulacáo da procriacáo" em


vez de "regulacáo dos nascimentos".

Art. 2853. Na edicáo oficial a Virgem María, nova Eva, é tida como
preservada e nao liberada do pecado. Liberada poderia sugerir que
chegou a contrair pecado.

Como se vé, as modíficacóes da nova edicáo do Catecismo nao


sao de grande importancia, mas contribuem para maior clareza da dou-
trina católica - o que é sempre um grande bem.

CONHEQA MELHOR...

A Escola "Mater Ecclesiae" oferece 16 Cursos por Correspon


dencia assim discriminados: Iniciacáo Bíblica, Iniciacáo Teológica,
Teología Moral, Historia da Igreja, Liturgia, Diálogo Ecuménico, Ocul
tismo, Parábolas e Páginas Difíceis do Evangelho, Doutrina Social
da Igreja, Novíssimos (Escatologia), Filosofía, Cristologia, Mariologia,
Eclesiologia, Antropología Teológica (Criacáo e Pecado, com Apén
dice sobre os Anjos), Deus Uno e Trino, este último publicado em
Janeiro 1999. O cursista recebe em casa os Módulos, faz as provas
respectivas e tem direito a um Certificado válido no foro eclesiásti
co. Pode comecar em qualquer época do ano, sem prazo para termi
nar. Endereco: Escola "Mater Ecclesiae", Caixa Postal 1362, 20001-
970 Rio (RJ).

153
Criterios ideológicos:

CRESCIMENTO DEMOGRÁFICO E
NOVOS DIREITOS HUMANOS

Em síntese: O Prof. Pe. Michael Schooyans, do Pontificio Conse-


Iho para a Familia, destaca motivos ideológicos alegados por Organiza-
cóes nao Governamentais, presentes em Conferencias Internacionais,
em favor da drástica contengáo da natalidade. Os argumentos malthu-
sianos e neomalthusianos aduzidos nao levam em conta o decréscimo
da populagáo ocorrente em países como a Alemanha, a Espanha, a Ita
lia, decréscimo que ameaga gravemente o futuro de importantes nagóes
do mundo ocidental.

A questáo da limitacáo da natalidade está sempre em voga. É dis


cutida, nao raro, mediante argumentos preconceituosos e de grande por
te aparente. Todavia nem sempre o público está bem informado a respei-
to. Daí a importancia de um artigo do Prof. Pe. Michael Schooyans, Con-
selheiro do Pontificio Conselho para a Familia, que escreve sobre Orga-
nizacóes Internacionais, Populacáo e Direitos Humanos no 50s ani
versario da Declaragáo Universal dos Direitos Humanos na revista
Familia et Vita, do Pontificio Conselho para a Familia, ano III, n9 2 (1998),
pp. 72-85. A seguir, apresentaremos o conteúdo desse interessante es-
tudo em sua quase íntegra.

O artigo compreende tres Partes: 1) As Conferencias Internacio


nais sobre Populacáo e Desenvolvimento; 2) Motivos subjacentes á atu-
acáo preconizada por tais Assembléias; 3) Os novos "direitos humanos".

1. Conferencias Internacionais sobre Populagáo

As grandes Organizares que se interessam por populacáo, inspi-


ram-se em tres temas principáis: o malthusianismo, o utilitarismo e a eco-
logia.

1.1. Os tres Temas

1)0 Malthusianismo

O primeirotema é o malthusianismo. Segundo Malthus (1766-1834),


pastor protestante, a populacáo cresce em proporgáo geométrica, ao
passo que a producáo de alimentos cresce em proporgáo aritmética; essa

154
CRESCIMENTO DEMOGRÁFICO E NOVOS DIREITOS HUMANOS 11

desproporcáo deveria necessariamente levar a urna catástrofe.- Tal tese


de Malthus já foi freqüentemente desmentida pelos fatos, mas é constan
temente reafirmada em certos ambientes intemacionais.

O pensamento malthusiano implica também a idéia de selecáo


natural. Afirma que é preciso deixar a natureza agir; esta, em sua sobera
na sabedoria, elimina os mais fracos e consagra a superioridade dos
mais fortes. Por conseguinte, se os cristáos lutam contra a pobreza, es-
táo procedendo contra a natureza, impedindo-a de fazer a sua selecáo
natural. Haveria nisso urna certa ¡moralidade frente as leis da natureza. A
famosa obra Ensaio sobre o Principio da Populacao (1798), de Thomas
Robert Malthus, volta-se explícitamente contra o que na época se cha-
mava "as leis paroquiais", isto ó, as leis de ajuda aos mais carentes.
Essas leis, segundo Malthus, nao deveriam ser aprovadas, menos ainda
aplicadas, pois impedem a natureza de exercer corretamente a sua fun-
cao seletiva.

2) O Neomalthusianismo e o Utilitarismo

A segunda grande fonte inspiradora desses movimentos e institui-


coes intemacionais é o que muitas vezes se chama "o Neomalthusia
nismo", isto é, urna Moral do prazer, do prazer individual, Moral que é
também utilitaria. Ensina que cada qual tem o direito de procurar o prazer
máximo, sem se preocupar com as conseqüéncias que tal procura do
prazer individual possa ter para outras pessoas. Essa mencáo utilitaria
valoriza os homens por aquilo que eles produzem para a sociedade.

3) A Ecoiogia

O terceiro tema que aparece constantemente ñas justificativas da


acáo das grandes Organizares internacionais, é a preocupacáo com o
meio ambiente ou o tema da Ecoiogia: o homem deveria respeitar a natu
reza, respeitar a Terra-máe e o espaco vital; deveria cuidar de que o
desenvolvimento fique limitado ao que se julga possível; seria "o desen-
volvimento possível".

1.2. As Grandes Conferencias Intemacionais sobre a Popula-


gao

Em 1964 houve urna Conferencia em Bucarest (Roménia), que


foi particularmente importante, porque a partir de entáo a questáo
populacional foi declarada problema internacional, merecedor de urgen
tes estudos.

Em 1992 a Conferencia do Rio de Janeiro foi dedicada aos pro


blemas da térra e do meio ambiente. Na verdade, essa Conferencia cons-
tou de dois tipos de assembléia paralelos. Houve, sim, a reuniáo dos

155
12 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 443/1999

Chefes de Governo, que definiram a chamada Agenda 21, voltada para a


questáo do espago vital e do desenvolvimento. Simultáneamente, po-
rém, houve o Forum global das Organizacoes nao Governamentais, em
que se viam blocos táo prestigiosos como Greenpeace, ou personalida
des mais ou menos folclóricas como, por exemplo, o falecido Coman
dante Cousteau ou o Sr. Sting ou Roanni, Cacique indio... e, mais ainda,
urna densa delegacáo de homossexuais. O papel das Organizacóes nao
Governamentais se faria sentir no decorrer das Conferencias posteriores.

Em 1993 deu-se a Conferencia de Viena, que versou sobre os D¡-


reitos Humanos. Em síntese, considerou novos direitos humanos, direi-
tos que se fundamentariam em decisóes comunitarias ou no consenso
da sociedade - temática esta que se tornou muito importante nos deba
tes posteriores.

Em 1994 ocorreu a Conferencia do Cairo, dedicada ao tema de


Populacáo e Desenvolvimento: teve como fio condutor a tese de que a
pobreza decorre de um excesso de populacáo, especialmente nos paí
ses do Terceiro Mundo. Definiu um plano de acao para os vinte anos
seguintes a fim de conter o crescimento da populacáo mundial. Paralela
mente á assembléia dos Chefes de Estado, houve a reuniáo das Organi
zacóes nao Governamentais, sendo entáo a mais atuante a IFPF (Fede-
racáo Internacional para o Planejamento da Familia).

Em 1995 realizou-se a Conferencia de Pequim, consagrada á


mulher. Em suas Atas ocorre numerosas vezes a temática do gender:
esta afirma que os papéis do homem e da mulher sao permutáveis entre
si e que a masculinidade e a feminilidade ou as características genitais
nao tém valor argumentativo. Desenvolveu-se o conceito da "familia
polimórfica". A palavra familia, dita gender, tomou varios significados,
abrangendo a familia monogámica, a heterossexual tradicional como tam-
bém outros tipos de agrupamento.

Em 1996 teve lugar a Conferencia de Istambul sobre Habitacáo.


Voltou entáo á baila a temática da térra e, em particular, o dever de se
honrar a térra. Seria preciso nao apenas cultivar a térra, mas prestar-lhe
um culto, visto que é a "Terra-máe". A ela deve o homem submeter-se,
dizia-se. Essa temática equivalía a um retorno ao paganismo pré-cristáo,
que foi intensamente professado ñas sessóes da Conferencia. As Orga
nizacóes nao Governamentais, bem representadas, foram convidadas a
participar da elaboracáo das conclusóes e dos discursos que encerraram
o certame.

Em 1996 houve a Conferencia de Roma, voltada para a Seguran-


ca Alimentar. Foi muito evocado o principio malthusiano, segundo o qual
o mundo corre o risco da sub-alimentacáo, que só poderá ser removido

156
CRESCIMENTO DEMOGRÁFICO E NOVOS DIREITOS HUMANOS 13

pela contencáo da populacáo. Mais urna vez estiveram sensivelmente


presentes as Organizacóes nao Governamentais, como, por exemplo, a
Funda£áo Ford, preconizando que eventualmente os países ricos dei-
xem de enviar alimentos aos países pobres, caso estes nao se subme-
tam ao controle populacional.

Outras Conferencias houve ainda, as quais, porém, nao interes-


sam diretamente á temática em foco; assim em Denver, U.S.A. (1997),
no Rio de Janeiro (1997) e em Nova lorque (1997).

2. As Justificativas ideológicas da Política Populacional

2.1. A seguranca Demográfica

Segundo a ideología da seguranca demográfica, o crescimento da


populacáo vem a ser urna ameaca para a humanidade. Segundo o Rela-
tório Kissinger, redigido em 1974, mas publicado somente quinze anos
mais tarde, existia urna guerra fria entre Oeste e Leste, ou seja, entre
nacoes capitalistas e nacoes socialistas. Ora, por inspiracao do Prof.
Sbignew Bredjinski, estudioso polonés, o esquema Leste-Oeste foi rein-
terpretado no sentido de urna guerra fria entre Norte e Sul do globo. Os
países nórdicos, demográficamente minoritarios, estariam ameacados
pela pressáo da populacáo dos países do Sul, países pobres; em conse-
qüéncia as nacoes nórdicas deveriam conter o crescimento da popula
cáo meridional para que nao fossem devoradas pelos países pobres.

Por conseguinte, entrou em voga a tese do containment, ou da


contencáo demográfica como sendo arma da guerra fria entre Norte e
Sul. Um espécimen muito nítido da ideología respectiva é a obra de Rene
Dumont, famoso agrónomo, conselheiro do Presidente Francois Miterrand,
da Franca; em seu livro L'Utopie ou la Mort propóe quanto segué:

Para que o nosso discurso malthusiano ou o apelo á contencáo


demográfica seja aceito pelos países pobres, temos nos, os ricos, de
aceitar e aplicar em nossas nacoes os métodos de contencáo da natali-
dade, para que possamos dizer as nacoes pobres: "Vede, praticamos a
contracepcáo, o aborto... Tomai consciéncia dos maravilhosos resulta
dos a que isto nos leva: somos desenvolvidos e gozamos de bem-estar
porque adotamos a contracep9§o, o aborto. Fazei o mesmo e chegareis
aos mesmos resultados".

Tal discurso foi repetido por numerosos autores norte-americanos,


entre os quais se destaca Malcom Potts. Em conseqüéncia, a USAID,
agencia do Governo norte-americano para a ajuda ao desenvolvimento,
deveria desempenhar um papel de direcáo nessa política. Deveria utili
zar todas as Organizacóes Internacionais governamentais e nao gover
namentais. As nao governamentais que se dispusessem a colaborar na

157
14 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 443/1999

campanha de contencáo demográfica, deveriam ser apoiadas financei-


ramente por vultosas remessas de dólares que Ihes permitissem agir efi
cazmente em prol da meta almejada.

A eficacia de tal política é evidente, dramáticamente evidente. A


World Population Data Sheet, publicada anualmente pelo Population
Reference Bureau muito ligado ao Governo norte-americano, noticia que,
dentre os 170 países que compóem a Organizacáo das Nacoes Unidas,
59 estáo abaixo do limiar de renovacáo ou reposicao da populacáo. Na
Europa já há quinze países, entre os quais a Rússia e a Alemanha, que
já nao renovam ou repoem a sua populacáo, de tal modo que o seu con
tingente demográfico está em declínio de maneira absoluta. Isto vem a
ser algo de dramático, de que pouco se fala.

2.2. Temores nao Justificados

Na verdade, o receio expresso pela política de contencáo da nata-


lidade carece de fundamento objetivo. O que se pode recear, nao é a
explosáo demográfica, mas a implosáo da populacáo. É o que se
depreende de alguns dados estatísticos de grande significado ou das
chamadas "pirámides de populacáo":

"Pirámide de populacáo" é a representacáo gráfica da populacáo


por carnadas de idade. Nos países em via de desenvolvimento tem-se na
base urna populacáo jovem, entre 0 e 4 anos, representada por um re-
tángulo muito largo; a seguir, o segundo retángulo representa a popula-
cao de 5 a 9 anos, e assim por diante até chegar ás idades mais avada
das. Verifica-se que nos países em desenvolvimento existe urna popula
cáo jovem numerosamente significativa e urna populacáo idosa muito
menos avultada. Ora nos países ricos ou tidos como desenvolvidos veri
fica-se um estreitamento da pirámide na base e urna tendencia constan
te á contracáo ou á diminuicáo da populacáo. Eis alguns exemplos con
cretos:

Na Franca, em 1997 a populacáo era de 58 milhóes de habitantes.


Pois bem; para o ano 2050 está prevista urna contracáo que atingirá os
48 milhoes.

Semelhante é o caso da Italia, que deverá passar de 56 milhóes


para 38 milhoes.

Outro exemplo é o da Espanha, assaz dramático. Diz-se que nao


há mais enancas na Espanha. Para que a populacáo se renové nos paí
ses ricos, seria preciso que cada mulher, em idade fecunda, tivesse a
media de 2,1 filhos (ou um índice sintético de fecundidade igual a 2.1).
Em nenhum país da Comunidade Européia essa cifra é atingida. Era al-
cancado, até certo tempo atrás, na Irlanda, mas já nao é tal em nossos

158
CRESCIMENTO DEMOGRÁFICO E NOVOS DIREITOS HUMANOS 15

dias. Na Espanha o índice sintético de fecundidade é de 1,5 filho por


mulher em idade fecunda. Há mesmo regioes da Europa em que tal índi
ce fica abaixo de 1 (hum).

Outro caso significativo é o da Polonia. Alertados pelo Papa e pe


los seus Bispos, os poloneses se preocupam com a invasáo de idéias
malthusianas que afetam o país.
Na Alemanha prevé-se que a atual populacáo de 82 milhoes caira
em 2050 para 57 milhóes. Isto redunda também em desemprego. Com
efeito, se o mercado se contrai ou reduz, reduz-se outrossim a oportuni-
dade de trabalhar. Existem muitas e grandes usinas na Alemanha, entre
as quais a Volkswagen; tais usinas estáo produzindo menos do que a
sua capacidade de producáo, porque nao há a mesma demanda do mer
cado. O progresso nao consiste apenas em produzir mais e melhor; ele
só ó possível, se existem também clientes. Se diminuem os nascimen-
tos, diminuí a clientela, e a clientela diminuida leva as usinas a diminuir
seu ritmo de trabalho ou mesmo a fechar as portas.

Poder-se-ia crer que o declínio da fecundidade é problema exclusi


vo dos países ricos. Seria falso pensar assim, pois ele ocorre em diver
sas partes do mundo, apenas com diferencas de calendario. No Brasil
mesmo a fecundidade vem diminuindo e já há quem chame seriamente a
atencáo para o fato. O México sofre forte pressáo dos Estados Unidos
para conter o crescimento da sua populacáo, de modo que lá também
diminuí a fecundidade.

Outra situacáo alarmante é a da cídade de Zürich (Suica); esta é a


cidade mais rica do mundo quanto as contas bancárias, mas é também,
e paradoxalmente, urna das cidades mais pobres da Térra, porque Ihe
falta o capital humano, que é essencial para o bem-estar e a prosperída-
de de urna nacáo. A populacáo de Zürich está em vías de declínio e
desaparecimento, pois o número de enancas lá baixa constantemente.
Jocosamente falando, há quem diga que a populacáo de Zürich só nao
desaparecerá, se a cidade receber um forte contingente de ¡migrantes
africanos.

Em contraste com tais quadros está a Algéria. Atualmente conta


urna populacao de 29 milhóes de habitantes. Para 2050 prevé-se um
montante de 58 milhóes (o dobro!), com grande número de jovens. Este
fato poderá provocar desequilibrios e conflitos entre os países envelheci-
dos e a Algéria jovem.

Situacáo semelhante é a do Marrocos, com as possíveis conseqü-


éncias de confuto com os países envelhecidos. Caso análogo também é
o da Turquía. Observemos que estes tres últimos países citados e exis
tentes em expansáo demográfica sao muculmanos.

159
16 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 443/1999

Em síntese: o demógrafo francés Bourgeois Pichat, antes da que


da do muro de Berlim (1989), calcuiou o que seria dos países ricos caso
adotassem todos a política demográfica da Alemanha Federal da época:
a sua populacáo desaparecería no próximo século. Quanto aos países
em via de desenvolvimento, em semelhantes condícoes, perderiam a sua
populacáo em 2400! Outro estudioso calcuiou as sortes da Espanha: caso
conserve o seu atual teor de fecundidade, dentro de cem anos terá 15%
da populacáo que tem hoje.

Estes sao dados dos quais nao se fala nos meios de comunicacáo.
Parecem estar sendo sistemáticamente silenciados, porque se opóem á
ideoiogia que apregoa a seguranza demográfica. Todavia levam-nos a
dizer que o grande problema do mundo atual nao é o de urna pretensa
super-populacáo, mas, sim, o de urna implosáo demográfica. A Europa,
dir-se-ia, escolheu a cultura da morte, em contraste ao Evangelho da
Vida táo propalado pela Igreja.

3. Novos Direitos Humanos?

Muitos estudiosos reconhecem que o argumento da explosáo


populacional já nao tem consistencia. Em conseqüéncia, para fundamentar
a tese da contencáo da natalidade, há quem apele para novo argumento,
ou seja, novas modalidades de Direitos Humanos, baseadas em novos
conceitos de homem e sociedade. Vejamos como se configuram.

3.1. O Questionamento da Declaráoslo de 1948

Cinqüenta anos após a promulgacáo da Declaracáo Universal dos


Direitos Humanos (1948), poem-se em questáo alguns pontos de tal do
cumento.

Com efeito; o conceito de familia é solapado. Os artigos 16,23, 25,


26 da Declaracáo de 19481 tratam da familia heterossexual, monogámica...
Ora, a partir da Conferencia de Pequim, familia tem sentido polivalente:
pode significar a uniáo homossexual ou a lésbica, a familia heterossexu
al "de geometría variável", a poligamia... A mudanza de significado da
palavra familia implica toda urna filosofía de vida, urna concepcáo socio
lógica, um sistema antropológico radicalmente diversos dos conceitos
pressupostos pela Carta de 1948. As pessoas, ao falar da familia, pare
cem estar falando da mesma realidade, quando na verdade entendem
coisas diferentes: qualquer tipo de uniáo consensual, uniáo hoje afirma
da e amanhá renegada, seria familia.

A desmontagem do conceito de familia está ligada, como se vé, á


nocáo de consenso.

1 Ver o texto desses artigos no Apéndice, p. 163 deste fascículo.

160
CRESCIMENTO DEMOGRÁFICO E NOVOS DIREITOS HUMANOS 17

3.2. O Consenso

A Declaragáo de 1948 proclamou direitos tradicionais, já reconhe-


cidos antes de promulgados em 1948. Ora a nova concepgáo proclama
que a fonte dos direitos humanos é o consenso ou a concordia dos ho
mens entre si no tocante a determinado tipo de comportamento. Por con-
seguinte, nao há mais verdade perene nem Ética perene, mas sim o
relativismo ético e jurídico: se os homens se póem de acordó sobre de
terminada forma de comportamento, tal forma será válida enquanto os
homens mantiverem o seu acordó, e deixará de ser válida no dia em que
a quiserem revogar. Urna nova Ética vem a ser a fonte de novos direitos
humanos. Essa Ética estará baseada sobre a procura do prazer e o cál
culo dos interesses de grupos. Nao haverá mais referencia a valores trans
cendentes, que ultrapassem os interesses dos individuos. Um dos
doutrinadores dessa nova concepgáo é o filósofo político norte-america
no John Rawls. A filosofía do consenso ignora obrigagoes, deveres, proi-
bicoes; tudo se torna legítimo, desde que apoiado pelo consenso do gru
po. - Estas proposicóes mexem também com a nogáo de valor.

3.3. Os Valores

Também a palavra valor foi reinterpretada. Na clássica concep


gáo, valor é aquilo que o homem deseja porque tem significado importan
te e universal; assim a justica é um valor porque garante a harmonía e a
colaboragáo entre os homens de qualquer nivel e condigáo; merece res-
peito e nao pode ser reformulada pelos homens. Na concepgáo recente,
valor seria aquilo que a freqüéncia da escolha exprime; assim se os ho
mens muitas vezes ou repetidamente escolhem tal coisa ou tal tipo de
comportamento, cria-se um valor,... valor devido ao fato de que a escolha
dos interessados o proclamou. Por exemplo, se rapazes e mogas estu-
dantes universitarios, escolhem viver juntos, sem reservas em seu relaci-
onamento mutuo, a co-habitagáo assim concebida é um valor. Conse-
qüentemente, se muitos homens escolhem a vivencia homossexual, esta
se torna um valor e faz-se mister organizar a estrutura da sociedade de
modo a comportar em seu gremio tal tipo de escolha, por mais que afete
a tradicional concepgáo de familia. - Esse novo tipo de aferigáo dos valo
res acarreta o risco da violencia.

3.4. O risco da violencia

Já que desaparecem os valores universais, que a todos se impóem


de maneira objetiva, o que passa a contar, é a vontade do mais forte,
capaz de impor a sua escolha e a sua decisáo, simplesmente porque é o
mais forte. Ora urna sociedade cujos valores estáo baseados na vontade
do individuo ou do grupo prepotente, é urna sociedade que acarreta o

161
"PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 443/1999

risco da violencia de uns contra os outros. O direito é consagrado pela


torga do prepotente; quem nao tem como se opor ao mals forte, deve
aceitar os ditames jurídicos que ele impoe.

Esta nova forma de conceber o direlto chama-se "o positivismo ju


rídico", segundo o qual nao há referencial que oriente a vontade do legis
lador; ele é absoluto ou totalitario, pois ignora a lei natural impressa no
íntimo de todo homem pelo Criador. O positivismo jurídico já havia pene
trado na Alemanha, introduzido por Keitzen na década de 1920: a lei teria
sua fundamentacáo única na vontade do Príncipe ou na decisáo do Esta
do; quando Hitler chegou ao poder em 1933, encontrou o terreno propi
cio para implantar o totalitarismo, terreno preparado pelos próprios juris
tas da época.

Ora a sociedade de nossos dias é ameacada pela violencia legiti


mada ou a violencia do direito. Na sociedade assim instituida (na qual os
individuos ou os grupos particulares tém o direito de criar sua Etica), para
que nao naja o caos ou a guerra de todos contra todos, é preciso que
haja um Leviatá, um poder supremo que se ¡mponha aos individuos e
que deverá exercer a violencia, para que nao ocorra a guerra entre os
individuos.

Vé-se, pois, que a violencia dos individuos acarreta a violencia do


Estado. Este poderá, em nome dos novos direitos do homem, condenar
os clássicos direitos assim como os cidadáos que se oponham as novas
concepcóes jurídicas.

A violencia assim originada assume diversas modalidades, desde


que se despreze a familia tradicional: é, por exemplo, a violencia do ho
mem que quer ter relacóes com sua mulher de maneiras contrarias á
natureza; é outrossim a violencia do abortamento, que faz do morticinio
de urna crianca indefesa algo de banal. As estatísticas referentes á Rússia
e á Ucrania sao assustadoras: em Lviv, capital da Ucrania Ocidental, o
número de abortamentos diarios chega as raías do incrível (se é verdade
o que dizem as estatísticas). Mals: urna sociedade que mata seus filhos
antes de nascerem, nao se detém nesse ponto; quem Ihe proibirá esten
der a violencia a outros seres indesejáveis? Quem a impedirá de eliminar
os deficientes físicos ou mentáis? Quem a impedirá de abreviar a vida de
pacientes termináis ou incuráveis, como se faz em alguns países, ¡sen
tando a sociedade de urna carga pesada e incómoda?

4. Conclusio

A familia no sentido clássico é um valor imprescindível. É na fami


lia, especialmente no coló da máe, que se forma o capital humano, capi
tal que as ideologías estáo tentando destruir em nome do culto á Máe-

162
CRESCIMENTO DEMOGRÁFICO E NOVOS DIREITOS HUMANOS 19

Gaia1 ou á Terra-Máe. Nao se pode sacrificar o capital humano á gloria


da Máe-Terra. Os cristáos, nessa luta, sao os representantes da melhor
causa. Importa que nao se intimidem nem omitam, pois o fulgor da Ver-
dade e do Bem já é um trunfo em favor da causa do homem e do cristáo.

APÉNDICE
Eis os artigos da Declaracáo de 1948 citados á p. 160:

"ARTIGO XVI. Os homens e as mulheres de maioridade, sem qual-


quer restrígáo de raga, nacionalidade ou religiio, tém o direito de contrair
matrimonio e fundar urna familia. Gozam de iguais direitos em relagio ao
casamento, sua duragáo e dissolugáo. O casamento nao será válido se-
náo com o livre e pleno consentimento dos nubentes. A familia é o núcleo
natural e fundamental da sociedade e tem direito a protegió da socieda-
de e do Estado.

ARTIGO XXIII. Todo homem tem direito ao trabalho, a livre escolha


do emprego, a condigóes justas e favoráveis de trabalho e a protegió
contra o desemprego. Todo homem, sem qualquer distingáo, tem direito a
igual remuneragáo por igual trabalho. Todo homem que trabalha tem di
reito a urna remuneragáo justa e satisfatória, que Ihe assegure, assim
como a sua familia, urna existencia compativel com a dignidade humana
e a que se acrescentaráo, se necessário, outros meios de protegió soci
al. Todo homem tem direito de organizar sindicatos e de neles ingressar
para a protegió de seus interesses.

ARTIGO XXV. Todo homem tem direito a um padrio de vida capaz


de assegurara si e a sua familia saúde e bem-estar, inclusive alimenta-
gao, vestuario, habitagáo, cuidados médicos e os servigos sociais indis-
pensáveis e direito a seguranga em caso de desemprego, doenga,
invalidez, viuv&z, velhice ou outros casos de perda dos meios de subsis
tencia em circunstancias fora de seu controle.

ARTIGO XXVI. Todo homem tem direito a instrugio. A instrugio


será gratuita, pelo menos nos graus elementares e fundamentáis. A ins
trugio elementar será obrigatória. A instrugio técnico-profissional será
acessivel a todos, bem como a instrugio superior, esta baseada no méri
to. A instrugio será orientada no sentido do pleno desenvolvimento da
personaiidade humana e do fortaiecimento do respeito pelos direitos do
homem e pelas liberdades fundamentáis. A instrugio promoverá a com-
preensio, a tolerancia e a amizade entre todas as nagdes e grupos raci-
ais ou religiosos e coadjuvará as atividades das Nagóes Unidas em prol
da manutengio da paz. Os pais tém prioridade de direito na escolha do
género de instrugio que será ministrada a seus filhos".

1 A palavra Gala vem do grego Gé, que significa térra.

163
A Ética em Questáo:

VASECTOMIA COMPULSORIA

Em síntese: A Igreja Universal tem coagido seus "bispos" e pasto


res a praticar a vasectomia, pois nao quer ter despesas com os filhos de
seus ministros; além do qué, julga que os deslocamentos de pastores
sao dificultados quando os mesmos tém urna prole a educar. A "Folha
Universal" faz a apología da vasectomia, valendo-se dos argumentos
malthusianos refutados ás pp. 157-160 deste fascículo. Deve-se aínda
notar que, longe de ser solugáo para a contengáo da natalidade e o bem-
estarda familia, a vasectomia é fator provocador de cáncer, como reco-
nhecem os pesquisadores. Alias, toda intervencao no bom funcionamen-
to da natureza é daninha á saúde da pessoa humana.

A imprensa noticiou que a Igreja Universal do Reino de Deus (IURD)


vem coagindo seus "bispos" e pastores a praticar a vasectomia. A razáo
desta prática é que a Igreja nao quer ter despesas com os filhos de seus
ministros, que ela deveria amparar; além disto, alega-se que um pastor
que tenha prole, mais difícilmente se pode trasladar de um posto de tra-
balho a outro. A cirurgia em pauta tem sido efetuada em hospitais da
rede pública por intervencáo de um deputado favorável á Igreja Univer
sal. Centenas de pastores já foram assim esterilizados e vieram á baila
queixando-se do procedimento da Igreja Universal, que, mediante a este-
rilizacáo dos seus ministros, tem poupado vultosas quantias de dinheiro.

O noticiario da imprensa repercutiu amplamente na opiniáo públi


ca; nao foi contestado ou desmentido pelos responsáveis da Universal.
Ao contrario, o jornal "Folha Universal", em sua edicio de 13 a 19 de
dezembro de 1998, faz a apología da vasectomia, explicando longamente
em que consiste, e seus pretensos beneficios. Os argumentos aduzidos
sao precisamente o maltusianismo e outros que vém refutados ás pp.
157-163 deste fascículo. - A seguir, transcreveremos declaracóes de
membros da IURD e proporemos o parecer de cientistas, que apresen-
tam a vasectomia como fator provocador de cáncer.

1. Lendo a "Folha Universal"

Á p. 1B do citado número lé-se:


164
VASECTOMIA COMPULSORIA 21

«Seguranza total

A vasectomia é considerada hoje um dos métodos mais eficientes


para o planejamento familiar e oferece ao casal 100% de seguranga na
contracepgao.

Mal crónico

Outro especialista em vasectomia é o urologista Felippe de Abreu,


autor do livro Vasectomia, a opgáo masculina para o planejamento
familiar. Desde os anos 50, ele vem lutando pela divulgagáo do método
e na sua opiniáo nao existe outra forma mais segura de se evitar filhos,
senáo através de vasectomia.

- Nosso país vive um mal crónico que é a miseria. Existem milha-


res de enancas vivendo ñas rúas sem escola, sem comida, á beira da
criminalidade. Adotar urna política de planejamento familiar nao significa
privar o pobre de ter filhos, e sim dar a ele o direito de estruturar a sua
familia da melhor maneira possível, e, o que é mais importante, com dig-
nidade - protesta o médico.

O urologista afirma que em países desenvolvidos, como os Esta


dos Unidos, por exemplo, a vasectomia é o método mais utilizado contra
a concepgáo. No livro, ele afirma que nenhum país do Terceiro Mundo
conseguirá resolver os seus problemas, se continuar com um crescimen-
to populacional desordenado.

- Estudos já provaram que o país que quiser fazer parte do Primei-


ro Mundo deverá ter urna taxa de crescimento inferior a 1% ao ano -
revela.

Ao ser questionado sobre o que é necessário para o paciente se


decidir pela vasectomia, Felippe de Abreu é enfático: "maturidade". Das
mais de tres mil cirurgias que realizou, ele garante que nenhuma foi feita
sem que o paciente estívesse seguro da decisáo.

Em recente entrevista á Revista Plenitude, o bispo Edir Macedo,


fundador da Igreja, falou sobre o tema.

- O planejamento familiar é a maior e mais inteligente solugao para


os povos do Terceiro Mundo.

O governo, ao invés de gastar dinheiro com solugoes paliativas,


deveria, sim, investir numa campanha permanente de consciéncia do pla
nejamento familiar.

Para o bispo Macedo, a falta de estrutura social do país nao dá as


familias condigoes de ter nem um filho, quanto mais tres ou quatro.

- Obviamente, com um salario mínimo miserável, seria mais fácil

165
22 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 443/1999

cuidar de um filho do que de dois, tres ou quatro. Melhor seria se o casal


que vive com um salario assim, nunca tivesse filhos -justifica.

Custo

Mesmo oferecendo garantía total de esterilidade sem prejuízo para


o organismo ou para a vida sexual do homem, a vasectomia ainda nao é
encontrada na rede pública.

Os interessados em se submeterá cirurgia tém de procurar os mé


dicos particulares que cobram entre R$ 600 e R$ 1000 pela operagáo.
No consultorio do doutor Felippe, no entanto, o valorpode variar de
acordó com a situacáo financeira do paciente».

2. Que dizer?

A vasectomia está sujeita á rejeigáo tanto por parte da Moral como


por parte da Medicina.

2.1. Por parte da Moral...

A vasectomia vem a ser urna mutilacáo do organismo masculino,


impedindo o bom funcionamento de seu aparelho genital. Ora isto fere a
natureza, e, conseqüentemente, a lei de Deus. A vasectomia visa a pos-
sibilitar o prazer carnal, excluindo os efeitos naturais da cópula sexual;
na verdade, o prazer é um anexo ao uso da sexualidade e nao a finalida-
de da mesma.

A Moral católica reconhece a necessidade de planejamento famili


ar, de modo que nenhum casal ponha urna enanca no mundo sem ter
condigóes de a educar dignamente. Para tanto apregoa o respeito as leis
da natureza, que sao leis do Criador, e preconiza a continencia periódica;
esta nao sofre contra-indicacóes médicas e contribuí para unir o casal, já
que ambos tém de fazer esforgo para se abster da genitalidade nos dias
férteis da mulher. A prática da continencia é possível desde que os dois
cónjuges se convengam de que é o melhor meio de limitar a prole ou o
único meio ¡sentó de contra-indicagoes médicas.

2.2. Por parte da Medicina...

A vasectomia consiste na extragáo dos cañáis (vasa deferentia)


que, no homem, conduzem os espermatozoides para fora do organismo;
em conseqüéncia, o homem já nao pode ejacular- o que Ihe permite ter
relagóes sexuais sem o risco de tornar grávida alguma mulher. A cirurgia
se realiza em quinze minutos num consultorio médico mediante anestesia
local, sem grandes despesas para os respectivos pacientes. A potencia
sexual destes fica incólume. Tais características tornam "popular" a
vasectomia.

166
VASECTOMIA COMPULSORIA 23

Ora esta maneira de considerar os fatos é posta em xeque por


experiencias realizadas nos Estados Unidos.

2.2.1. As experiencias médicas

A Dra. Nancy Alexander, fisiologista do Oregon Regional Primate


Research Center em Beaverton, e o Dr. Thomas Clarkson, patologista
veterinario da Bowman Gray School of Medicine em Winston-Salem,
N.C., realizaram duas experiencias de vasectomia em diferentes especi
es de macacos. De urna feita, dez individuos machos foram submetidos
a regime dietético portador de forte percentagem de colesterol, a saber:
cerca do dobro do nivel de colesterol que a media dos norte-americanos
costuma ingerir. Após seis meses de dieta, cinco dos animáis foram sub
metidos á esterilizacáo por vasectomia. Os outros cinco se viram preser
vados para servir ao controle da experiencia; foram, sim, sujeitos a cirur
gía, nao, porém, á vasectomia. Dez meses mais tarde, as arterias de
todos foram extraídas a fim de se examinar o depósito de colesterol que
traziam. Verificou-se entao que, embora todos os animáis apresentas-
sem lesoes adiposas, os individuos submetidos á vasectomia estavam
afetados em proporcoes muito mais vastas.

Numa subseqüente experiencia, os pesquisadores compararam as


arterias de dez macacos machos que tinham sido esterilizados havia nove,
dez ou mesmo quatorze anos, com as arterias de oito machos que nao ti
nham sofrido intervencáo cirúrgica. Todos haviam sido alimentados com baixo
nivel de gorduras e sem uso de colesterol. Ora averiguou-se que os maca
cos sujeitos á vasectomia apresentavam mais ampios depósitos de gordura.

A explicacáo para os fatos proposta pelos dois pesquisadores é a


seguinte: por ocasiáo da vasectomia os cañáis portadores de espermas
sao extraídos; isto, porém, nao impede que os espermatozoides continu-
em a ser produzidos pelo organismo. Nao podendo ser ejaculados, pene-
tram dentro dos tecidos que Ihes ficam próximos ou mesmo dentro do fluxo
sanguíneo; em tais novos ambientes sao tidos como corpos «estranhos» e
atacados por anticorpos prejudicam as paredes das arterias e aceleram a
formacáo de placas arterioscleróticas. Essas placas, porém, nao aparecem
necessariamente logo depois de efetuada a vasectomia, mas podem ma-
nifestar-se alguns anos, ou mesmo dez anos, após a esterilizacáo.

As conclusóes dos dois pesquisadores nao podiam deixar de sus


citar dúvidas e contradicoes. Assim, por exemplo, o New York City-base
Association for Voluntary Sterilization objetou que as experiencias
realizadas em primatas nao eram suficientemente sólidas do ponto de
vista estatístico. Também o fisiologista Ira Richards declarou nao haver
evidencia de que as doencas cardíacas sao mais freqüentes em homens
esterilizados.

167
24 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 443/1999

Nancy Alexander e Thomas Clarkson continuam a sustentar suas


teses. Em conseqüéncia, a Dra. Alexander apregoa cautela quando os
colegas aceitam praticar em seres humanos a esterilizacáo que tém efe-
tuado em macacos. Adverte textualmente:

"Se um homem sofre seria ameaga de arteriosclerose - por exem-


plo, se padece de pressáo alta ou se seus país foram vítimas de algum
mal cardíaco -, queira esperar mais seguras informagóes sobre os riscos
da vasectomia".

Entrementes a medicina vem-se interessando mais e mais pela


questao, de modo que nos Estados Unidos estáo em curso importantes
estudos sobre vasectomia e arteriosclerose.

Faz-se oportuno dizer a propósito algumas palavras de

2.2.2. Reflexáo

Nao é difícil aceitar a perspectiva de que a vasectomia tenha serias


contra-indicacóes. E isto, pelo fato mesmo de mutilar a natureza humana
e permitir o uso «mutilado» de urna das funcóes do organismo. A nature
za se defende espontáneamente quando agredida ou quando sujeita a
excessos ou desvíos. A própria pílula anticoncepcional, que é outro meio
de mutilar a funcao sexual, apresenta suas ponderáveis contra-indica-
coes. No caso da vasectomia a pesquisa moderna nao fez mais do que
evidenciar, com certa precisáo, a maneira como a intervencáo antinatural
é repelida pelo organismo masculino.

Donde se vé que tal tipo de operacáo cirúrgica nao é auténtico


meio de planejamento da popuiacáo. Antes merece recusa nao só por
parte da consciéncia moral, mas também por parte da ciencia médica
mais atualizada.

A Condicáo da Mulher segundo o Novo Testamento, por Fierre


Grelot. Tradugáo de José Augusto da Silva. - Ed. Santuario, Aparecida
(SP), 140x210mm, 171 pp.

O autor é exegeta católico de renome. Estuda as referencias bíblicas


a mulher, especialmente ñas cartas paulinas, tendo em vista aprofundar
o ministerio das mulheres na Igreja nascente; vém ao caso Febe, Prisca,
Evódia, Síntique, Apia... A seguir, Grelot investiga o que issopossa signi
ficar para a questao da ordenagáo sacerdotal de mulheres em nossos
dias. Concluí sabiamente afirmando que a Escritura há de ser lida á luz
da Tradigáo apostólica, que, em última análise, é derivada do Divino Mes-
tre. Nota aínda que o conceito de "pastor" das igrejas reformadas é diver
so da nogáo de "presbítero" do Catolicismo. - O livro é valioso e muito
atual.

168
Fatos que suscitam reflexáo:

O ATEÍSMO NO MUNDO ATUAL

Em síntese: O ateísmo é um fenómeno pós-religioso. Toma a for


ma mais recente de indiferentismo religioso, que se alastra surpreenden-
temente no mundo atual. Entre as causas do fenómeno, podem-se apon-
tar o fascínio exercido sobre o homem pelas conquistas científicas, como
também o hedonismo da vida moderna, sequiosa de prazer. A Igreja tem
chamado a atencáo para outra causa, muito importante: o contra-teste-
munho de pessoas religiosas, mesmo cristas, que escandalizam seus
semelhantes e os afastam da religiáo. Assim o ateísmo interpela eloqüen-
temente os fiéis católicos, induzindo-os a urna revisao de vida.

O ateísmo é um fenómeno pós-religioso. Supóe a religiáo e rejeita-


a. Últimamente tem tomado a forma de indiferentismo religioso, que nem
sequer combate a religiáo, porque a julga um fenómeno ultrapassado.

Tal fato tem provocado a reflexáo dos pensadores, que vém procu
rando explicá-lo, visto que o ateísmo contraria as diretrizes da humanida-
de professadas até a época recente. Entre tais causas, apontam-se

- o fascínio exercido pelas conquistas da ciencia e da tecnología,


que dáo ao homem a impressáo de poder dispensar Deus, tapa-buraco,
ou de ser o seu próprio Deus;

- o hedonismo da vida moderna, sequiosa de prazer, ainda que de


índole baixa. Soltam-se as paixóes, que obcecam o homem e Ihe embo-
tam o olhar da mente.

O indiferentismo religioso tem-se propagado no mundo atual, des


pertando surpresa em quem acompanha as estatísticas. Eis urna recente
noticia relativa ao assunto:

«O REBANHO QUE MAIS CRESCE NO BRASIL

Apesar do forte impulso religioso que todo ser humano carrega


dentro de si, 21,4% dos habitantes do planeta se declaram sem religiáo.
Depois da China, que tem a maior porcentagem dos sem-religiáo (59,1%,
segundo a revista Christianity Today), o Uruguai surpreende com 33,9%,
mais do que a antiga Uniáo Soviética (30,6%), a Franca (18,4%), a Holanda
(15%), a Australia (13%) e a Alemanha (10%).

169
26 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 443/1999

O Brasil que se cuide, pois os que se declaram sem religiao eram 2


milhóes em 1980 e 7 milhóes em 1991 (acréscimo de 350% em onze
anos). O número é bem mais alto que a previsáo feita pela World Christian
Encyclopedia, que estipulava em 4 milhóes a quantidade de nao-religio
sos brasileiros para o ano 2000. O sociólogo Alexandre Brasil Fonseca,
da USP, observa que o rebanho que mais cresce no Brasil nao é o dos
evangélicos, mas o das pessoas que se apresentam sem religiáo, como
a atriz Renata Sorrah.

No mundo inteiro os náo-religiosos sao muito mais numerosos do


que os ateus. Mas a distancia entre estes e aqueles nem sempre é muito
grande. Como nao é grande a distancia entre os náo-religiosos e os que
se dizem pouco religiosos, cómo a atriz Marieta Severo e muitas outras
pessoas» (extraído da revista ULTIMATO n9 256, janeiro-fevereiro 1999,
P-15).
No texto ácima, os homens sem-religiao sao os indiferentes.

A Igreja tem-se preocupado com o fenómeno da indiferenca religi


osa. Em conseqüéncia ela chama a atencáo para outra causa do fenó
meno, certamente muito significativa: o contra-testemunho de pessoas
religiosas, inclusive de cristáos.

Eis o que em 1965 observava o Concilio do Vaticano II:

«Na verdade os que deliberadamente tentam afastar Deus de seu


coragáo e evitar os problemas religiosos, nao sao isentos de culpa. No
entanto os própríos fiéis arcam sobre isto muitas vezes com alguma res-
ponsabilidade. Pois o ateísmo, considerado no seu conjunto, nao é algo
mato, mas antes originado de causas diversas, entre as quais se enume
ra também a reagáo crítica contra as religióes e em algumas regides so-
bretudo contra a religiáo crista. Por esta razio, nesta génese do ateísmo
grande parte podem ter os crentes, enquanto, negligenciando a educa-
cao da fé, ou por urna exposigáo falaz da doutrína, ou por faltas na sua
vida religiosa, moral e social, se poderla dizer deles que mais escondem
do que manifestam a face genuína de Deus e da religiáo» (Constituicáo
Gaudium et Spes n9 19).

Mais recentemente, em 1998, o S. Padre Joáo Paulo II, em sua


Bula Incarnationis Mysterium, dedicada á preparacao do ano jubilar
2000, incitava os fiéis a um exame de consciéncia e referia-se ao ateís
mo e ao indiferentismo religioso:

"O Ano Santo é, por sua natureza, um tempo de chamado a conver-


sáo. E esta constituí o primeiro tema da pregagáo de Jesús...

Por conseguinte, o exame de consciéncia constituí um dos momen


tos mais qualificantes da existencia pessoal. Por ele, de fato, cada pes-

170
O ATEÍSMO NO MUNDO ATUAL 27

soa é confrontada com a verdade da própría vida; e descobre assim a


distancia que separa suas agóes do ideal que se tinha proposto...

É forgoso reconhecer que a historia registra numerosos episodios


que constituem um constratestemunho para o cristianismo. Por causa do
vínculo que nos une uns aos outros dentro do Corpo místico, todos nos,
embora nao tendo responsabilidade pessoal por isso e sem nos sobrepor
ao juízo de Deus - o único que conhece os coragóes —, carregamos o
peso dos erros e culpas de quem nos precedeu. Mas também nos, filhos
da Igreja, pecamos, tendo impedido á Esposa de Cristo resplandecer em
toda a beleza de seu rosto. Nosso pecado estorvou a agáo do Espirito no
coragáo de muitas pessoas. Nossa pouca fé fez muitos caírem na indife-
renga e os afastou de um auténtico encontró com Cristo.

Como Sucessor de Pedro, pego que neste ano de misericordia a


Igreja, fortalecida pela santidade que recebe de seu Senhor, se ajoelhe
diante de Deus e implore o perdáo para os pecados passados e presen
tes dos seus filhos. Todos pecaram, e ninguém pode declararse justo
diante de Deus (cf. 1Rs 8,46). Repita-se sem temor: 'Pecamos' (Jr3,25),
mas maniendo viva a certeza de que, 'onde abundou o pecado,
superabundou a graga' (Rm 5,20)» (n9 11).

O Papa reconhece que o pecado dos filhos da Igreja pode ter leva
do muitos a se afastar de auténtico encontró com Cristo. E incita ao arre-
pendimento.

É de notar que Joáo Paulo II nao diz que a Igreja pede perdáo por
suas faltas, mas, sim, pede perdáo pelos pecados de seus filhos. Obser
va assim a distincáo entre a Pessoa e o pessoal da Igreja. A Pessoa da
Igreja é o que Sao Paulo chama "a Esposa sem mancha nem ruga, lava
da pelo sangue de Cristo" (cf. Ef 5,26s); o pessoal seriam os filhos dessa
Santa Máe Igreja, que nem sempre procedem em consonancia com os
ensinamentos de sua Máe e, por isto, empalidecem a face da Igreja aos
olhos do mundo.

Tais reflexóes vém a ser de grande valor neste período preparato


rio do Ano Santo ou Jubilar. Vé-se, alias, como o pensamento oficial da
Igreja está longe de dar atencáo a profecías e revelacóes catastróficas; a
única realidade que interessa, é a pureza de coragáo para que o cristáo
possa ir ao encontró do Senhor Jesús a qualquer momento em que Ele
se digne de aparecer. Seja o indiferentismo religioso de tantos irmáos um
poderoso estímulo para que os filhos da Igreja se convertam mais radi
calmente ao Evangelho, pois muitas vezes o fiel católico é o único Evan-
gelho que o irmáo sabe ou pode ou quer ler.

171
Fala um pastor presbiteriano:

TEOLOGÍA DA PROSPERIDADE

Em síntese: O pastor Elben M. Lenz César relata as impressoes


colhidas em duas visitas feitas a um templo da Igreja Universal do Reino
de Deus. Em conseqüéncia tece comentarios sobre a Teologia da Pros-
peridade, cujos principios foram postos em prática naquela ocasiao. O
artigo vale como alerta geral para os cristaos.

Da revista protestante ULTIMATO, ns 256, janeiro-fevereiro 1999,


pp. 32s, transcrevemos um relato do Pastor Elben M. Lenz César relativo
a duas visitas feitas a um templo da Igreja Universal do Reino de Deus. O
autor aborda urna problemática que ameaca outros setores do Cristianis
mo, despertando sabiamente a atencáo dos leitores.

«O COMPROMISSO DA UNIVERSAL COM A TEOLOGÍA DA PROSPERIDADE

Fui á Igreja Universal do Reino de Deus da Avenida Celso


Garcia, em Sao Paulo, e voltei para casa horrorizado com a prega-
cao pura e simples da Teologia da Prosperidade e envergonhado
com a énfase dada ao dinheiro

O estilo literario do médico e historiador Lucas, que viveu na meta-


de do primeiro século, me atrai muito. Para produzir o Evangelho que
leva o seu nome, Lucas promoveu urna acurada investigacáo de tudo
que Jesús fez e ensinou, desde sua origem até o dia em que foi elevado
ás alturas (Le 1,1-4; At 1,1-2).

Para conhecer melhor a Igreja Universal do Reino de Deus, fui a


Sao Paulo no último fim de semana de outubro de 1998. Participe! de
duas reunióes do templo da Avenida Celso Garcia, no bairro do Brás,
urna no sábado á noite e outra no domingo pela manhá. Foi ali que a
Universal comecou os seus trabalhos no Estado de Sao Paulo. Voltei
para casa horrorizado com a pregacáo pura e simples da Teologia da
Prosperidade e envergonhado com a énfase dada ao dinheiro. Devo,
porém, declarar, a bem da verdade, que esse depoimento refere-se a
esse local e a essas reunióes.

No sábado á noite, o pastor que me disseram chamar-se Émerson


leu o verso 4 do Salmo 37: "Agrada-te do Senhor, e Ele satisfará aos

172
TEOLOGÍA DA PROSPERIDADE 29

desejos do teu coragáo". Depois leu a historia do cegó de Jericó (Le 18,
35-43). Explicou que o desejo do cegó era voltar a ver e Jesús Ihe satis-
fez o anseio. Assim também os que realmente créem devem levar seus
desejos a Deus junto com urna oferta de R$ 10,00 ou mais. "Quem nao
pagaria R$ 10,00 por urna béncáo especial? Quem nao for capaz de dar
é porque nao eré". Grande parte do auditorio - quem sabe, bem mais de
mil pessoas -foi ao palco apanhar um envelope branco para colocar sua
oferta. E o pastor insistía: "Quem quiser o dom da prosperidade venha
amanhá cedo as 8 horas. Vou fazer urna oracáo forte pelos dizimistas. O
que vocé determinar vai acontecer, já acontece, em nome do Pai, do
Filho e do Espirito Santo".

No domingo pela manhá nada mudou. Tudo girava em torno de


dinheiro. Todas as leituras bíblicas descambavam em pedidos de ofer
tas. Primeiro, o pastor Émerson convidou mil pessoas a trazer o mesmo
dízimo duas vezes. Urna multidáo foi lá na frente buscar dois envelopes
grampeados um no outro. O pregador encorajava: "Quanto mais vocé dá,
mais vocé recebe. Vocé vai dar mais, mas nao ficará com menos, vai
ficar com muito mais. Vou Ihe dar o azeite abencoado. Vocé derrama
urna gota em sua cabera e terá o dom da prosperidade".

Depois, o pastor falou sobre a campanha da prova, que a Igreja


Universal do Reino de Deus estava lancando em todo o país naquele
domingo (1B de novembro). Leu o belíssimo capítulo 22 de Génesis, no
qual encontramos que Deus póe Abraáo á prova e ordena-Hie que ofere-
?a seu único e amado filho em sacrificio. Frisou a disponibilidade de A-
braáo: "Eis-me aquí". Porque Abraáo estava mesmo disposto a sacrificar
Isaque, ele seria grandemente abencoado por Deus e sua descendencia
possuiria "a cidade dos seus inimigos" (22,17). Em seguida, Émerson
perguntou á congregacáo: "Sao todos abencoados por igual?" Ele mes
mo responde: "Os mais abencoados sao aqueles que dizem: 'Eis-me aquí',
como Abraáo". Ato continuo, o pastor mandou ficar de pé os que queriam
ser abencoados. Fui um dos poucos que continuaram assentados. Ai o
pastor alertou: "Para sermos abencoados, temos de fazer urna prova". A
prova a que ele se referia era doar urna oferta generosa, urna oferta de
fé, além da possibilidade financeira. "Como resposta, Deus tirará os bens
de nossos inimigos e os dará a nos". Para reforcar o desafio, Émerson
contou a historia de urna moca que havia adquirido a Ioja da qual era
empregada e agora tinha o ex-patráo como seu empregado. Entáo conti-
nuou: "A descendencia de Abraáo possuirá as cidades de seus inimigos.
Todos os que tém fé sao filhos de Abraáo. Quanto mais inimigos tiver-
mos, melhor será. Tomaremos posse de tudo. Os melhores carros estáo
ñas máos dos nossos inimigos. Seráo de voces. Há quanto tempo vocé

173
30 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 443/1999

nao vai a urna churrascaría? Há quanto tempo vocé nao vai a um shopping
center, nao só para ver, mas para fazer compras, para encher o carrinho
de mercadoria? É isso que Deus quer para vocé. O que vocé deseja
possuir? Escreva em seu coracáo. Deus vai realizar esse desejo. Ele
disse a Abraáo: 'Jurei por mim mesmo' (22, 16). Que queremos mais?
Traga o seu Isaque. Nao ofereca o que nao doa em vocé".

De repente, o pastor indagou: "Quem é inimigo da Universal?" Ele


próprio deu a resposta: "É a Rede Globo". E concluiu: "Entáo, a Globo
será nossa".

Depois de todo esse discurso, Émerson fez uma serie de apelos.


"Venham á frente 33 pessoas - este é o número de anos que Jesús viveu
conosco - dispostas a oferecer de mil a trinta mil reais. Se é para vocé
vir, venha de uma vez". Foram, parece-me, onze pessoas. O segundo
apelo era: "Venham cinqüenta pessoas dispostas a doar R$ 500,00". No
terceiro apelo, a quantia era de R$ 200,00 para cima: "Menos de R$
200,00, nao tragam".

O pastor prometeu orar nominalmente, daquele dia até o dia 15 de


novembro, em favor de todos os "filhos de Abraáo" que preenchessem o
papelzinho que ele estava distribuindo.

Pensei que nao haveria mais nenhuma mencáo ao dinheiro a essa


altura da reuniao (nao posso escrever "a essa altura do culto"), mas me
enganei. O pastor solicitou que todos separassem uma oferta na máo e a
levantassem para o alto, para que ele a abencoasse. Em troca poderiam
levar um exemplar da última edicáo da Folha Universal, uma publicacáo
de dois cadernos de 24 páginas da Editora Gráfica Universal, com uma
tiragem de 1.161.400 exemplares, só 90 mil a menos que a revista Veja
(edicáo de 4/11/98).

Para terminar a reuniao das 8 horas (aconteceriam outras), cele-


brou-se a Ceia do Senhor, sem formalidade alguma. Apenas o vinho foi
servido, em pequeños copos de plástico. Émerson explicou: "Seremos
purificados ao beber o vinho". Depois, aconselhou: "Agora amasse com
a máo o copinho, como se estivesse amassando seus pecados".

Portei-me da maneira mais discreta possível. Apenas ia anotando


quase tudo que ouvia. Ao abrir a bolsa para tirar a máquina de retrato
para, talvez, fotografar a obreira que distribuía o cálice perto de mim, um
seguranca se aproximou rápidamente e me disse que eu nao poderla
fazer isso. Foi ai que percebi que estava sob vigilancia. Devo ter chama
do a atencáo deles por estar escrevendo o tempo todo. Perguntaram-me
quem eu era e eu Ihes dei meu cartáo de diretor e redator da revista
Ultimato».

174
TEOLOGÍA DA PROSPERIDADE

APÉNDICE

Em anexo ao artigo encontra-se urna reflexáo sobre as idéias


subjacentes aos fatos.

«DO CELESTE PORVIR AO AQUÍ E AGORA

Até bem pouco tempo urna respeitável fatia da igreja crista empur-
rava todas as bem-aventurancas para o céu e para a eternidade. Dizia-
se entao que era necessário suportar pacientemente o sofrimento pre
sente, inclusive a injustica social, porque "a nossa patria está nos céus,
de onde também aguardamos o Salvador" (Fp 3, 20-21). Esta posicáo
extremada fechou a boca da igreja, deixou inteiramente á vontade os
corruptos e os opressores deste mundo e deu oportunidade e espaco á
teoría marxista de que a religiáo é o opio do povo. Gracas á énfase soci
alista e á redescoberta do evangelho integral, a fase do chamado "celes
te porvir" viveu seus d'erradeiros dias.

Mal se livra de um grotesco extremismo, outro se estende célere e


com torca total. Neste final de século, estamos passando do celeste por
vir para o "aqui e agora". Ao invés de empurrar todas as bem-aventurancas
para o céu e a eternidade, a Teologia da Prosperidade está trazendo o
celeste porvir para o terrestre presente. Para comermos a melhor comi
da, para vestirmos as melhores roupas, para dirigirmos os melhores car
ros, para adquirirmos muitas riquezas, para nao adoecermos nunca, para
morrermos entre 70 e 80 anos - basta crer no coracáo e decretar em voz
alta a posse de tudo isso. Basta usar o nome de Jesús com a mesma
liberdade com que usamos nosso taláo de cheques, como afirma Alan
Pieratt.

Ora, tudo isso parece urna loucura, já espalhada por todo o mundo,
que precisa ser corrigida. Antes que haja um conluio da fé crista com o
secularismo, o materialismo, o consumismo, a Ciencia Crista e a
neurolingüística. Antes que nao sobre nada para o dia das bodas do Cor-
deiro. Antes que nao haja mais nenhuma surpresa guardada para o cren-
te no celeste porvir. Antes que a esperanca crista se torne desnecessária
e se aposente».

Ao pastor Elben M. Lenz César a revista PR agradece as pondera-


cóes feitas e a autorizacáo para publicá-las. Possam suas palavras en
contrar ampia ressonáncia!

175
Ainda

OS SÍMBOLOS NATALINOS

Em síntese: Em resposta a objegóes levantadas por certo grupo


cristáo mal informado, o artigo presente expóe as origens da data de
Natal, do presepio, da árvore de Natal, de Papal Noel, do costume de
oferecer presentes e coisas semelhantes características da época natali-
na. É de notar que a figura de Papai Noel substituiu a de Sao Nicolau,
portador de presentes para as changas, por efeito da reforma protestan
te; esta, avessa ao cuito dos Santos, foi buscar em resquicios de crengas
pagas a imagem lendária do Weihnachtsman (Homem de Natal), cha
mado na Franga Papa Noel.

O jornal "Folha Universal" contestou os símbolos tradicionais do


Natal cristáo, alegando que tém significado pagáo ou nao cristáo. Varias
pessoas solicitaram a PR urna explicacáo de tais símbolos e da sua ori-
gem. Nossa revista nao deseja furtar-se a tal tipo de explanacáo, muito
necessária, pois se refere a costumes usuais e caros ao povo católico,
para nao dizer:... a sociedade brasileira em geral (a árvore de Natal en-
contra-se em ambientes profanos, desprovidos de qualquer conotacáo
religiosa).

Examinaremos, pois, os pontos contestados, sua origem e seu sig


nificado, após transmitir o teor das objecóes como foram noticiadas pelo
jornal O DÍA, edicáo de 29/12/98, p. 3.

1. As objecóes

Eis o texto do jornal O DÍA:

"A Folha Universal publicou, na edicáo número 350, a imagem de


urna árvore de Natal estilizada, com a forma de Nossa Senhora, cercada
por labaredas...

A materia nao poupa símbolos natalinos, como Papai Noel, o pre


sepio e a Árvore de Natal. De acordó com a Folha Universal, a data de
nascimento de Jesús teria sido modificada por 'líderes religiosos do sé-
culo IV. Segundo o jornal, Jesús teria nascido entre abril e maio...

O artigo considera a Árvore de Natal um símbolo pagáo. 'Alguns


pesquisadores dizem que cada cor colocada ñas árvores de Natal brasi-

176
OS SÍMBOLOS NATALINOS 33

leiras representa uma entidade do candomblé', garante o texto. A cor


azul representarla lemanjá, Nossa Senhora Aparecida ou do Rosario...

'O presepio é objeto de culto pagáo. Na Irlanda, o povo acendia


uma vela na janela para iluminar o caminho do menino Jesús, como se
Ele nao fosse a luz do mundo', ressalta o texto. Sobra, também, para
Papai Noel. 'A imagem do velhinho gorducho, sentado em um treno pu-
xado por renas, deixando brinquedos e presentes para as criancas, é
conhecida mundialmente, mas nao é verdadeira', diz o texto».

Procuremos elucidar a problemática.

2. A Data do Natal

Já que o S. Evangelho nao indica precisamente a data do nasci-


mento de Cristo, a Tradicáo crista desde o séc. IV em Roma celebra o
Natal aos 25 de dezembro.

A escolha desta data se deve ao desejo, dos cristáos, de contrapor


á festa paga do «Natalis Solis Invicti» (da Natividade do Sol Invicto, Di-
vindade oriental) a celebracáo do nascimento do verdadeiro «Sol de Jus-
tica», que é Cristo (cf. MI 4,2). Foi, alias, assim que muitas vezes proce-
deram os bispos da antigüidade: aproveitando as ocasioes em que no
ambiente do Imperio Romano o fervor religioso do povo costumava ser
avivado por motivos pagaos, os bispos ñas mesmas datas instituiram
celebracóes genuinamente cristas, aptas a canalizar e elevar os senti-
mentos religiosos dos fiéis na auténtica direcao, ou seja, para o único
Deus.

Esta praxe de utilizar as «cabecas de ponte» que o paganismo


fornecia á implantacao do Cristianismo, era legítima, pois por si nao im
plicava corrupcáo doutrinária nem pacto com costumes náo-cristáos. Por
vezes era mesmo necessária, pois o povo do Imperio já estava habituado
a certas manifestacóes de sua alma religiosa, manifestacóes que, de um
lado, seria antipedagógico querer extinguir e que, de outro lado, muito se
prestavam a uma ¡nterpretacáo crista. Para garantir o bom éxito da tática,
os bispos repetidamente (como atestam seus sermóes) procuravam mos
trar aos fiéis as diferencas vigentes entre a mentalidade paga e a crista.

Acontecía, porém, que o mes de dezembro, no qual se comecou a


celebrar o Natal de Cristo, era, desde a época pré-cristá, um período em
que a alma popular, excitada por circunstancias diversas, vibrava com
particular entusiasmo. A ocorréncia do dia mais curto e da noite mais
longa do ano (no hemisferio Norte) despertava a reminiscencia da esteri-
lidade e da morte assim como a da fertilidade da natureza que renascia
com o novo crescimento dos dias. Em conseqüéncia, os pagaos em da-

177
34 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 443/1999

tas sucessivas do mes de dezembro celebravam procissóes e ritos diver


sos que, sob acordes varios, faziam ressoar sempre o mesmo motivo:
desejo de afugentar os esp fritos maus e mortíferos e obter conseqüente-
mente, para a primavera que se abriría em breve, a tutela dos bons geni
os ou dos agentes da fecundidade.

As solenidades e festejos dessa índole estavam em uso nao so-


mente dentro das fronteiras do Imperio Romano, mas também entre os
povos germánicos que invadiram o Imperio (esta observacáo é importan
te, pois permite avaliar a necessidade que se impunha á Igreja, de dar
cunho cristáo a certos usos já inveterados nos povos que se convertiam
ao Evangelho no fim da Idade Antiga e no inicio da Idade Media).

Entre os festejos germánicos do mes de dezembro (citamo-los em


particular, porque foi principalmente em térras germánicas que a cele
bracáo do Natal cristáo tomou aspectos exuberantes), destaca-se a festa
de JUL (em gótico aftuma jiuleis era o nome do último mes do ano),
celebrada durante doze dias, ñas proximidades do equinóxio do invernó;
acendiam-se fogueiras, ofereciam-se sacrificios, comia-se um tipo de pao
especial, promoviam-se banquetes e orgias, usava-se urna máscara pró-
pria (Julbock = o bode de Jul); isso tudo visava a honrar o deus da luz
Freyr, e afugentar os espíritos malignos, a fim de se obterem os efeitos
benéficos tanto da luz ou do sol que ressurgia, como dos espíritos prote-
tores dos homens (invocados como principios maternos, fecundos).

Consideremos agora as principáis manifestacóes festivas que, de


perto ou de longe, tém acompanhado a celebracáo do Natal cristáo e sao
por vezes relacionadas com costumes nao cristáos.

3. Origem e Significado dos Símbolos

3.1. A Árvore de Natal


Vem, em primeiro lugar, a árvore de Natal, que ñas casas de fami
lia, e mesmo nos recintos onde nao se faz profissáo de religiao, costuma
ser erguida e ornamentada no mes de dezembro.

Que dizer dessa praxe?

A árvore desde os inicios do Cristianismo sempre foi estimada como


símbolo religioso; nao somente o livro do Génesis apresenta árvores fa
mosas (ce. 2-3), mas também o Senhor no Evangelho transmite
ensinamentos religiosos mediante as figuras da figueira (cf. Mt 21,18-22;
Le 13,6-9) e da videira (cf. Jo 15,1-6).

Já que Cristo veio abrir aos homens as portas do paraíso ou do


estado de amizade com Deus Pai, estado outrora perdido pelo pecado,

178
OS SÍMBOLOS NATALINOS 35

os cristaos procuravam no ingresso de suas igrejas reproduzir urna ima-


gem do paraíso, construindo ai um adro cercado de colunas, dentro do
qual se viam um poco e, freqüentemente, árvores. A esses adros davam
o nome de «paraíso» (paradisus; donde o termo francés parvis). Na
Idade Media o paraíso das igrejas era o lugar onde, segundo o gosto da
época, se representavam autos alusivos ao paraíso bíblico; focalízava-
se entáo de modo especial a árvore simbólica que lembrava a árvore da
vida outrora existente no paraíso, conforme Gn 2,9. Os fiéis chegavam a
ornamentar tal árvore com frutos e pomos múltiplos a significar vida e
felicidade; faziam também pender dos respectivos ramos oblatas ou paes,
que lembravam a S. Eucaristía. Procuravam assim de varias maneiras
por em relevo o fato de que a árvore da vida eterna, outrora perdida, nos
foi de novo dada por Cristo, que quis pender da cruz para merecer-nos o
fruto da vida eterna, ou para ser Ele mesmo o fruto que nos comunica a
vida eterna. A árvore assim ornamentada era, por extensáo, chamada
Paradies na Alemanha; encontrava-se nao raro exposta dentro das pró-
prias igrejas, cercada de velas, lamparinas, pequeños fachos, etc., os
quais significavam a luz da verdade e da vida que ilumina os cristaos a
partir da nova árvore da vida, ou seja, a partir da cruz de Cristo; simboli-
zavam outrossim a alegría e a esperanca que enchem o cristio consci
ente do dom de Deus.

No decorrer dos tempos a árvore, com a sua ornamentacao, foi


erguida e exposta também ñas casas de familia junto ao presepio, a fim
de completar o significado deste e servir á devocáo dos fiéis.

Assim se originou o que chamamos «a Árvore de Natal». A primei-


ra noticia que se tenha do uso de tal símbolo de Natal provém de urna
crónica de Schlettstadt (Alemanha) e data de 1600 aproximadamente;
parece que só no séc. XVIII velas e lamparinas foram acrescentadas á
omamentacáo respectiva (a primeira noticia segura é do ano de 1737,
proveniente da Alemanha).

Há quem queira interpretar a árvore de Natal como sendo símbolo


da «vida que se renova todos os anos»; esta sentenca, embora nao seja
alheia á mentalidade crista e ao simbolismo natural da árvore (que passa
sucessivamente por floracáo e aparente morte), nao esgota toda a men-
sagem da árvore de Natal, como se depreende do ácima dito. Outros
julgam que a árvore de Natal nao é senáo urna instituicáo indiana, adota
da no séc. XVI na Alemanha em conseqüéncia da divulgacáo de famoso
relato de viagem feita no Oriente. Outras sentencas identificam a árvore
de Natal com a «árvore cósmica» (Yggdrasil) da mitología germánica ou
com a árvore sagrada ornada de lamparinas, cujo culto, de origem paga
como era, foi proscrito por Carlos Magno na Admonitio Generalis de
787. Nao se poderiam provar tais teorías.

179
36 TERGUNTE E RESPONDEREMOSM43/1999

Na verdade, a árvore de Natal tem sentido genutnamente cristáo,


ilustrado pela antítese entre a árvore da vida paradisíaca e a árvore da
cruz de Cristo. Nao há dúvida, porém, de que o simbolismo da árvore
(elemento indispensável á existencia humana) é tao obvio ao observador
e as pessoas religiosas que já antes de Cristo era utilizado para exprimir
concepcóes filosóficas e místicas a respeito da vida.

3.2. Papai Noel

A figura de Papai Noel, anciáo barbado portador de presentes para


as enancas, tem origem assaz complexa.

Ela se prende a um personagem histórico, Sao Nicolau, bispo de


Mira na Asia Menor durante o séc. IV. Sobre a vida deste Santo pouca
coisa se sabe. O que a seu respeito contavam os medievais, se deriva
em boa parte dos traeos biográficos de outro Sao Nicolau, que foi abade
de Sion, perto de Mira, e bispo de Pinara (Asia Menor), tendo falecido
aos 12 de dezembro de 564. Um dos traeos mais salientes que a propó
sito de S. Nicolau de Mira se referem, é que, aínda jovem, se tornou
herdeiro de avultados bens, por terem morrido seus pais vítimas de epi
demia; empregou entáo essas posses em obras de caridade, especial
mente no dote de tres jovens donzelas que ele libertara de deturpacáo;
diz-se outrossim que saivou de perigo mortal tres oficiáis do Imperador
Constantino e, de outra feita, acorreu em auxilio de navegantes postos
em grave tormenta. O Santo, que gozava de extraordinaria veneracáo no
Oriente, passou a ser fervorosamente cultuado também no Ocidente a
partir do séc. IX, principalmente após a trasladacáo de suas reliquias
para Bari em 1087; foi entáo invocado como padroeiro das virgens, dos
navegantes, dos padeiros, das criancas, dos estudantes, dos encarcera-
dos. Na Franca e na Alemanha contam-se cerca de duas mil igrejas
dedicadas á memoria de Sao Nicolau; na Inglaterra, aproximadamente
quatrocentas.

A estima que se tributava ao santo bispo, fez que os cristáos envol-


vessem a sua figura nos festejos populares da Idade Media. Sabe-se que
aos 28 de dezembro as criancas costumavam representar o «Auto do
Bispo», no qual o principal papel era executado por um menino ou um
estudante. Pois bem; a partir do séc. XIII esta celebracao passou a se
realizar por ocasiáo da festa de Sao Nicolau, aos 6 de dezembro; quem
aparecía em casa doravante era o bispo S. Nicolau, que, como padroeiro
dos pequeninos e estudantes, ás criancas bem comportadas vinha distri
buir os premios, ao passo que ás outras infligía castigo, na tarde que
precedía a sua festa; Sao Nicolau nesses autos se mostrava geralmente
acompanhado por um servo (Knecht), de nome Ruprecht (nome de ori
gem germánica), a quem competía a funcáo menos simpática de distri
buir as pancadas e pauladas a quem as merecía.

180
OS SÍMBOLOS NATALINOS 37

Por efeito da Reforma protestante no séc. XVI, este costume popu


lar sofreu certo golpe; a veneragáo dos Santos tendo sido rejeitada pelo
luteranismo, a figura de Sao Nicolau para muitas e muitas familias per-
deu seu significado de tutor ou patrono. Em conseqüéncia, o papel que
no auto tocava ao Santo, de distribuir recompensas ou castigo, foi trans
ferido ou para o Menino Jesús (o Christkind) dos dias 24/25 de dezem-
bro ou para o Knecht Ruprecht, isto é, o tipo mais ou menos assustador
do companheiro de Sao Nicolau. Este na Alemanha é hoje em dia cha
mado o Weihnachtsman, o homem de Natal, ao passo que na Franca
tomou os tragos característicos do Papai Noel, anciáo de barbas bran
cas, revestido de manto de lá (talvez a lembrar inconscientemente a figu
ra antiga do bispo Sao Nicolau), anciáo, porém, que já nao vem a 5 de
dezembro, mas aos 25 do mesmo.

Como se vé, a figura de «Papai Noel» assim oriunda nada mais


tem de típicamente cristáo; é a continuacao da imagem do Knecht
Ruprecht. Este, por sua vez, parece ser um vestigio tardío, um remanes-
cente, talvez inconsciente, da crenca de que espíritos maus e almas dos
defuntos andam pelo mundo nos dias tenebrosos do invernó europeu,
dissimulados sob a forma de ursos hirsutos ou de legendarios cavaleiros
brancos, para assustar os homens e punir os maus. Esta crenca pré-
crista, através da figura medieval do Knecht Ruprecht, servente espan
toso de Sao Nicolau, se estaría prolongando até hoje sob a imagem com
plexa do Weihnachtsman na Alemanha ou de Papai Noel nos países
latinos.

Contudo a celebracao do auto cristao de S. Nicolau na tardinha de


5 de dezembro ficou até hoje em vigor em partes da Alemanha; na Alsácia
as criancas colocam seu sapatinho junto á boca da chaminé para que
nele o Santo deposite a respectiva prenda. Tal costume em outras regi-
Óes se trasladou para a noite de 24/25 de dezembro, quando se espera a
vinda de «Papai Noel».

3.3. O presepio
Quanto ao presepio, é de origem auténticamente crista. O Papa
Libério (t 366) expós na basílica de Santa María Maior em Roma (tam-
bém dita «Santa María junto ao presepio») cinco pequeñas tábuas envol
vidas em um estojo de cristal e pedra, que eram tidas como reliquias da
mangedoura onde nasceu o Senhor Jesús; anualmente celebrava a Mis-
sa de Natal diante dessas veneráveis pegas. O exemplo foi de certo modo
imitado em outras igrejas fora de Roma, onde na festa de Natal se foi
tornando costume colocar em cima ou ao lado do altar uma reproducáo
da manjedoura de Belém. A fim de mais se poder reviver a cena que os
Evangelhos das Missas de Natal descrevem, á figura da manjedoura fo-
ram acrescentadas as estatuas dos personagens que tomaram parte no

181
38 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 443/1999

acontecimento de Belém: o menino-Deus, a Virgem Santíssima, Sao José,


os pastores... Os autos teatrais da Idade Media exibiam com carinho o
quadro do presepio e os acontecimentos relacionados com ele. Papel
decisivo para a propagacáo e a estima do presepio tocou a Sao Francis
co de Assis, que, com explícita autorizacáo papal, mandou representar a
cena do nascimento do Senhor no bosque de Greccio em 1223. Genera
lizado nos conventos franciscanos, o presepio passou para as casas de
familia, onde hoje em dia é de uso comum (como dissemos, a árvore de
Natal nos lares cristáos é posterior ao presepio).

3.4. Oferta de Presentes

Outro uso intimamente associado á festa de Natal é a distribuicáo


de presentes entre familias e amigos. Esta praxe tem origem pré-cristá:
os romanos costumavam presentear as pessoas de sua intimidade no
inicio de novo ano, em testemunho dos votos de felicidade que entáo
Ihes formulavam. Os cristáos nao extinguiram propriamente este costu-
me, mas deram-lhe significado superior, deslocando-o para o dia do nas
cimento de Cristo, dia em que os homens sao estimulados como que
pelo próprio Deus a desejar uns aos outros o verdadeiro bem, a salvacáo
eterna. O costume antigo de dar presentes foi corroborado na Idade Me
dia por efeito da celebracáo do auto de Sao Nicolau.

Um derivado pouco digno de tal praxe, vigente principalmente na


Alemanha central e meridional, eram as Knoepfelnaechte ou «Noites
de batidas» da Idade Media. Com efeito, ñas noites das tres quintas-
feiras anteriores a Natal grupos populares percorriam as rúas de cidades
e aldeias, batendo as portas e janelas, cantando e lancando ervilhas,
lentilhas e outros graos para dentro das casas, a fim de receber em troca
pequeños presentes, como frutas, nozes, salsichas ou moedas. Todo esse
alarido lembrava o cerimonial agitado e barulhento com que os antigos
pagaos procuravam espantar os maus espíritos, e era possivelmente um
remanescente desse ritual conservado entre os cristáos sem que se co-
nhecesse bem a sua origem. A praxe nao se justificava á luz da fé crista;
por isto as autoridades eclesiásticas mais de urna vez a reprovaram.
3.5. Iguarias Especiáis

O consumo de iguarias especiáis no tempo de Natal deve-se, se


gundo certos historiadores, a antigos ritos que visavam a obter dos deu-
ses a fecundidade; entre os povos nao cristáos, escolhiam-se em certas
ocasióes, para a alimentacáo de casa, os alimentos tidos como comuni-
cadores de vitalidade particularmente forte: carpas, certas tortas apimen-
tadas, carne de leitáo...

Hoje entre os costumes de Natal, ñas familias cristas, nota-se o de


consumir certas frutas, como castanhas, nozes, améndoas, uvas pas-

182
OS SÍMBOLOS NATALINOS 39

sas, ou também doces característicos. Este uso dos cristáos nao está
necessariamente preso as idéias que inspiravam a prática correspon
dente dos pagaos; é simplesmente a expressáo da alegría que a mensa-
gem de Natal nao pode deixar de suscitar nos fiéis. Essa expressáo de
alegría entende-se ainda melhor se se leva em conta que as semanas
anteriores a Natal eram outrora consagradas pela Igreja a severo jejum.
No dia 27 de dezembro, festa de Sao Joáo Evangelista, costuma-se em
algumas regíóes benzer e beber vinho em honra do Santo. Tal vinho ben-
to tem sentido religioso: é um sacramental que, como pede a Igreja na
fórmula de béncáo, se deve tornar, para todos, ocasiáo de crescerem na
caridade ardente, que o calor do vinho simboliza.

4. Conclusáo

Eis como se explicam os principáis usos que acompanham em


nossos tempos a celebracáo litúrgica do Natal. Embora nao sejam todos
inspirados diretamente pela narrativa evangélica, podem ser, excetuada
a figura de Papai Noel, entendidos dentro da concepgáo crista do Natal;
de certo modo contribuem para introduzir o misterio da fé dentro dos
moldes da vida concreta, principalmente dentro do ambiente do lar. Ás
familias cristas, por conseguinte, incumbe a missáo de nao permitir se
tornem tais costumes meramente rotineiros, profanados por reunioes e
festejos mundanos em detrimento do seu caráter de sinais religiosos,
estimulantes da piedade. - Quanto ao personagem imaginario «Papai
Noel», seria para desejar desaparecesse da perspectiva dos pais e edu
cadores cristáos, cedendo o lugar ou diretamente ao Menino Jesús cele
brado a 25 de dezembro ou ao santo bispo Nicolau, festejado a 6 do
mesmo mes, e tido como patrono das criancas e dos estudantes.

Jesús Construtor e Mestre. Novas Perspectivas sobre seu


ambiente de vida, por Giovanni Magnani. Tradugáo de Ubenai Lacerda
Fleuri. - Ed. Santuario de Aparecida (Caixa Postal 04, 12570-970,
Aparecida, SP), 140x210mm, 272 pp.

O autor, professor da Universidade Gregoriana de Roma, procura


reconstruir o ambiente no qual Jesús viveu, e chega a conclusóes sur-
preendentes: Jesús nao terá pertencido ao estrato mais deserdado da
populagáo da Galiléia, como se pensou últimamente, mas terá feito parte
de urna categoría que se assemalha a classe media de um mundo urba
no. Dafa suposigao de que Jesús falava as tres línguas usuais na Pales
tina (o hebraico, o aramaico e o grego). Sua familia descendía do rei
Davi. Em suma, varias sao as interessantes proposigóes do livro, que
merece ser estudado por quem deseja conhecer melhor o Senhor Jesús.

183
Pergunta-se:

INFLAQÁO DE SANTOS?

Em síntese: Até fins de outubro de 1998 o Papa Joáo Paulo II


inscreveu no catálogo dos Santos 280 fiéis católicos e proclamou Bem-
aventurados 805 outros(as) justos(as). Há quem se surpreenda por veri
ficartáo grande número de Canonizagóes e Beatificagóes. Opróprío Papa
houve por bem considerar a questáo em duas de suas alocugdes. Em
nada se diminuiu o rigor das perquisigóes a respeito da heroicidade dos
Servos de Deus, cujo grande número manifesta a vitalidade do Evangelho.

A Canonizacáo é o ato de inscrever um(a) Servo(a) de Deus no


canon ou catálogo dos Santos. Supóe sempre a realizacáo (cautelosa
mente averiguada) de um sinal de Deus (milagre) que comprove a santi-
dade da pessoa em questáo. A Canonizado só pode ocorrer após rigo
rosa investigacáo da conduta e dos escritos do Servo ou da Serva de
Deus. Em caso de martirio comprovado (condenacáo á morte por odio á
fé), nao se requer milagre, pois quem padece o martirio é certamente
herói na fé.

A Beatificado é a etapa anterior á Canonizacáo. Supóe também


um milagre criteriosamente comprovado, além de testemunhos de
heroicidade das virtudes da pessoa em foco.

Os processos de Beatificacáo e Canonizacáo sao demorados, pois


se exigem sinais e testemunhos de real santidade; a Igreja nao tem inte-
resse em precipitar tais processos, pois ela tem compromisso com a ver-
dade, e táo somente com a verdade.

Acontece, porém, que no pontificado de Joáo Paulo II o número de


fiéis beatificados e canonizados subiu a tal ponto que há quem estranhe
a quantidade de novos Santos e Bem-aventurados. - Eis por que, a se
guir, exporemos a realidade dos fatos e Ihe proporemos algumas consi
derares, sugeridas, alias, pelo próprio Papa Joáo Paulo II.

1. Os Números

Até 11 de outubro de 1998 o Papa canonizou 280 Santos(as): 246


mártires e 34 confessores (nao mortos por odio a fé). Até 25 do mesmo
mes, foram beatificados 805 Bem-aventurados em 113 cerimónias de
Beatificagáo: 595 mártires e 210 confessores (entre os quais convém
citar Giuseppe Antonio Tovini, leigo e pai de familia, beatificado em Brescia,
Italia, aos 3/10/98).

Tais cifras jamáis foram atingidas por algum Papa. Pode-se dizer

184
1NFLAQÁ0 DE SANTOS? 41_

que Joao Paulo II canonizou quase a metade dos Santos canonizados


desde que o Papa Clemente VIII, em 1592, encarregou urna Seccáo da
Congregacáo dos Ritos de prover aos processos de Canonizacáo... Esta
Seccáo da Congregacáo dos Ritos tomou-se atualmente a Congregacáo
para as Causas dos Santos, e tem á sua frente o Arcebispo portugués
Mons. José Saraiva Martins. Já conseguiu levar a bom termo 570 causas.
Está estudando as causas de 1891 fiéis: Servos ou Servas de Deus, Ve-
neráveis, Bem-aventurados, que poderao galgar a etapa seguinte em seu
processo de canonizacáo desde que naja sinais adequados para tanto.
Desde 1605, sob o pontificado do Papa Paulo V (1695-1621), o
número de Bem-aventurados proclamados pelos Papas sobe a 1617.
Falta um milagre devidamente examinado ou qualquer outro indicio para
que possam chegar á Canonizacáo.

Surge entáo a pergunta:

2. Por que tantos Santos?

Em sua alocucáo aos Cardeais reunidos em Consistorio aos 13/


06/94 o Santo Padre quis explicar a razáo do aumento de Beatificacóes e
Canonizacoes sob o seu pontificado:
"Diz-se, por vezes, que em nossos dias há excessivo número de
Beatificagoes. Mas isto reflete a realidade que, por graga de Deus, é o
que ela é. Além do qué, tal fato corresponde ao explícito desejo do Con
cilio do Vaticano II. O Evangelho tanto se difundiu no mundo e sua men-
sagem se arraigou táo profundamente que precisamente o grande núme
ro de Beatificagoes espelha de maneira viva a agáo do Espirito Santo e a
vitalidade que ele suscita no setormais importante para a Igreja, que é o
da santidade. Com efeito, foi o Concilio que pos em foco, de maneira
particular, a vocagáo de todos a santidade".
Em outra ocasiáo, na audiencia geral da quarta-feira 7 de junho de
1995, relatando sua viagem apostólica á Bélgica, durante a qual beatifi
cara o Padre Damiáo De Veuster, o apostólo dos leprosos, disse o Papa:
"A confirmagáo dessa vocagáo de todos a santidade sao os Santos
e Bem-aventurados que a Igreja eleva aos altares, apontando neles mo
delos de vida evangélica marcados pelo heroísmo das virtudes".
A seguir, referindo-se á Virgem Maria e aos Apostólos reunidos em
oracáo no Cenáculo á espera do Espirito Santo, disse o Pontífice:
"De ceño modo, essa oragáo é sempre atendida na historia da Igreja.
Dáo testemunho disto as Canonizagóes e as Beatificagoes".

Urna Canonizacáo goza sempre da infalível assisténcia do Espirito


Santo, pois equivale a indicar ao povo católico um modelo de vida ou
urna forma de viver o Evangelho que nao pode ser falsa. A Igreja nao

185
42 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 443/1999

pode errar ao apontar um caminho de santidade aos seus fiéis.


A seriedade com que a Igreja procede no caso de urna declaracáo
desse tipo, é expressa pela fórmula oficial de que se serve o Papa ao
inscrever alguém no canon dos Santos:

"Para a honra da santa e indivisa Trindade, para a exaltacao da fé


católica e para a expansáo da religiáo crista, pela autoridade de Nosso
Senhor Jesús Cristo, dos Bem-aventurados Apostólos Pedro e Paulo e
pela nossa autoridade, após madura deliberagáo e tendo freqüentemen-
te implorado o socorro divino, tendo aínda ouvido o parecer favorável de
muitos de nossos Irmáos no Episcopado,
Decretamos e definimos Santo(a) e inscrevemos no catálogo dos
Santos A/A/, estipulando que a sua memoria seja celebrada anualmente
nodia com piedosa devocáo na Igreja inteira. Em nome do Pai, do
Filho e do Espirito Santo. Amém".

Como se vé, também no caso das Canonizacoes e Beatificacóes a


Igreja é prudente e nao faz questáo de levar a pleno termo um processo
que ela julga possa ser iniciado em seus primeiros passos.
3. Reflexáo final

Levando-se em conta as freqüentes exortacoes do Papa á imita-


cáo dos Santos como também a viva devocáo do mesmo aos Santos,
pode-se dizer que Joáo Paulo II é "o Papa dos Santos".

Por mais que tenha sido acrescido o número de Santos canoniza


dos sob este Pontífice, deve-se lembrar que maior aínda é o número dos
Santos nao canonizados; na verdade, todo fiel cristao, desde o momento
do seu Batismo, tem a vocacáo para a santidade e, por conseguinte,
recebe durante a sua vida mortal todas as gracas necessárias para che-
gar á perfeicáo crista; nao há quem esteja excluido deste feliz termo,
como ensina a Constituicáo Lumen Gentium em seu capítulo V. O Pre
facio da Missa celebrada em honra de todos os Santos a 19 de novembro
professa muito enfáticamente:

"Festejamos hoje a Cidade do céu, a Jerusalém do alto, nossa Máe,


onde nossos irmáos, os Santos, vos cercam e cantam eternamente o
vosso louvor. Para essa cidade caminhamos, pressurosos, peregrinando
na penumbra da fé. Contemplamos, alegres, na vossa luz tantos mem-
bros da Igreja que nos dais como exemplo e intercessáo. Enquanto espe
ramos a gloria eterna, com os anjos e todos os Santos, proclamamos a
vossa bondade, cantando a urna só voz..."

Possa a multidao dos Santos interceder por seus irmáos peregri


nos na térra, a fim de que concebam viva consciéncia de sua vocacáo á
santidade e destemidamente trilhem a ardua vía que leva aos píncaros
da perfeicáo!

186
Para a Canonizacáo de Santos

MILAGRES COMPROVADOS

Em síntese: Visto que há auténticos e meramente aparentes mila-


gres, é importante apresentar ao público os fatos extraordinarios que,
após meticulosos exames médicos, a Igreja considera milagrosos. Para
cada canonizacáo de fiéis nao martirizados, a Igreja espera que Deus Ihe
dé um sinal da santidade de tais pessoas, sinal (semeion, conforme Sao
Joño) que geralmente é urna cura portentosa, tida como inexplicável pela
mais rigorosa pericia médica. No caso de Ir. Teresa Benedita da Cruz
(Edith Stein), deu-se a cura de Benedicta McCarthy, relatada abaixo.
* * *

Edith Stein foi urna judia, dedicada ao estudo da Filosofía e, poste


riormente, convertida ao Catolicismo. Fez-se Religiosa Carmelita em
Colonia com o nome de Ir. Teresa Benedita da Cruz; a fim de evitar a
perseguicao nazista, passou para a Holanda, onde acabou sendo presa;
levada para o campo de concentracáo de Auschwitz, lá faleceu em cá
mara de gas no ano de 1942. Sua fidelidade heroica a Cristo Ihe valeu a
fama de santidade, de que resultou um processo de Beatificacáo. Esta
ocorreu realmente a 1e de maio de 1987 em Colonia. Poucas semanas
antes, dera-se um milagre obtido por sua intercessao, milagre que, devi-
damente examinado, veio a ser o sinal de Deus a confirmar a santidade
da corajosa Irma. Urna vez terminada a pericia, teve lugar a canonizagáo
de Ir. Teresa Benedita da Cruz aos 11 de outubro de 1998 em Roma.
Já que há justificada reserva diante da noticia de milagres, importa
que o público tome conhecimento de algum espécimen de auténtico mi
lagre reconhecido pela Igreja como sinal de Deus comprovante da santi
dade de alguém. Eis por que, a seguir, relataremos o ocorrido em favor
de urna menina tida pela medicina como incurável.
1. A Sucessáo dos Fatos

Aos 20 de marco de 1987, o Pe. Emmanuel Charles McCarthy,


sacerdote católico de rito bizantino nos. Estados Unidos, juntamente com
sua esposa Mary, voltava para casa após um retiro. Tinham doze filhos,
dos quais a mais velha, de dezenove anos, fora encarregada de prover
aos irmáos na ausencia dos pais. Estes ficaram muito surpresos quando,
ao chegarem, Ihes foi dito que Benedicta, a cacula, tendo sofrido convul-
sóes um tanto estranhas, fora internada num Hospital de emergencia.

187
44 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 443/1999

Angustiados, os pais foram sem demora procurar a filha no Hospital de


Brockton, no Estado de Massachusetts, a cerca de cinqüenta quilóme
tros de Bostón. Lá os médicos conseguiram detectar a origem da crise: a
menina desprevenidamente ingerirá urna dose de comprimidos analgési
cos equivalente a dezesseis vezes a dose mortífera. O Hospital tinha a
fama de ótima instituicáo no seu género; a paciente ficou aos cuidados
do gastroenterologista de criancas Dr. Ronald Kleinman, judeu. Embora
tenha aplicado todos os recursos da mais avancada medicina, o médico
nao via resultado algum: os rins deixaram de funcionar e o fígado atingiu
um volume cinco vezes ácima do normal. Era indicado um transplante de
ffgado a ser feito ¡mediatamente; sem isto, esvaecia-se toda esperanca
de recuperacáo da menina. Todavía nao se encontrava o benéfico doador!
Era domingo. O Pe. MacCarthy viu-se diante de doloroso dilema:
atender a um compromisso pastoral á distancia, deixando a familia an
gustiada, ou ficar com a filha e os familiares, cancelando qualquer com
promisso fora. Mais precisamente: devia tomar um aviáo para ir pregar
no Estado de Dakota do Norte num retiro de tres dias sobre o Sermao da
Montanha. Poderia encontrar a filha morta ao regressar do retiro. Preci
samente um ano antes, Mary vira morrer, pouco depois de nascer, o seu
décimo terceiro filho. Seria lícito ao marido deixá-la só á cabeceira de
Benedicta? Enquanto hesitava, após urna visita ao Hospital, deparou-se
com um livro que jazia por térra: A Via da Perfeicáo de Santa Teresa de
Avila. Abriu-o e encontrou urna passagem em que Jesús diz á Santa:
"Ocupa-te com as minhas coisas e eu me ocuparei com as tuas".

Tais palavras foram, para o Pe. Emmanuel Charles, decisivas. Ás


11h 30 min decolou de Bostón e, chegando a destino, deu inicio ás suas
práticas. Nada disse do que Ihe ia no coracáo aos retirantes, mas apro-
veitou os intervalos livres para ficar em contato telefónico com a familia,
informando-se a respeito do estado de saúde de Benedicta. As noticias
eram sempre sinistras: mesmo que se conseguisse fazer um transplante
de fígado, o envenenamento de que sofría a menina, ameacava compro
meter seriamente a sua saúde para o futuro, caso sobrevivesse.
Em tais circunstancias, Mary, a mae da enanca, telefonou á sua
irma Teresa, moradora no Wisconsin, a fim de Ihe relatar o sinistro ací
dente. Cíente dos fatos, exclamou ¡mediatamente Teresa: "É preciso pe
dir a Edith Stein que a salve!". Pode-se notar que a menina enferma nas-
cera aos 8 de agosto de 1984 ás 19h 45 min, hora que correspondía ao
amanhecer do dia 9 de agosto em Auschwitz, quando se comemoravam
45 anos da morte de Edith Stein em cámara de gas. O Pe. McCarthy, um
ano atrás, havia descoberto a heroica historia da Carmelita, e se dera por
profundamente impressionado pela dramática ocorréncia; em conseqüén-
cia falava de Edith Stein a quantos ele podia abordar. McCarthy, alias,

188
MILAGRES COMPROVADOS 45

nascera no Estado de Massachusetts no seio de uma familia de ¡migran


tes irlandeses católicos; aos dezoito anos de idade, deixara-se fascinar
pela Liturgia oriental, e, em conseqüéncia, sentiu-se chamado ao sacer
docio católico de rito oriental melquita (em comunháo com a Igreja Cató
lica Romana); foi ordenado em Damasco (Siria) no ano de 1981 após
quinze anos de vida conjugal. Emmanuel Charles e sua esposa Mary
adotaram a praxe de dar aos filhos nomes de personagens por eles ad
mirados, santos ou nao: assim um dos filhos se chama Thomas Merton
McCarthy, em honra do monge trapista famoso por seus escritos de es-
piritualidade; uma das filhas se chama Kateri, em homenagem a uma jovem
india convertida ao Catolicismo perto da fronteira do Canadá; outra é cha
mada Tzipora, como a irmá de Elie Wiesel, vítima do Holocausto. Portanto
com muita naturalidade a cacula recebeu o nome de Benedicta, muito raro
nos Estados Unidos, lembrando a Carmelita martirizada em Auschwitz.

A tia de Benedicta confidenciou posteriormente: "A idéia de invocar


Edith Stein me veio espontáneamente como evidente medida a ser to
mada". Mary, a máe da crianca, acolheu a sugestáo como se tivesse sido
inspirada diretamente pelo Espirito Santo e pós-se a telefonar a dezenas
de pessoas - parentes, amigos, participantes de retiros - pedindo ora-
cóes: "Pecam a Edith Stein que rogue a Jesús em favor da cura de nossa
filha!". Assim as oracóes fervorosas se multiplicaram.

Na terca-feira á tarde, tendo terminado o seu retiro, o Pe. McCarthy


tomou o aviáo de volta. Nessa mesma ocasiáo, em Bostón, os médicos
averiguaran! melhora de condicóes da paciente táo subitánea quanto
inexplicável: a moribunda saira do coma sem qualquer seqüela negativa!
Ficou ainda alguns dias em observacáo; era fato, porém, que seus rins e
o fígado haviam retornado ao estado normal, parecendo perfeitamente
sadios. Foi preciso deixar a menina voltar para casa. Com um brinquedo
na máo, ela mesma apertou o botáo para chamar o elevador, e deixou o
Hospital.

Onze anos e meio depois, Benedicta é uma jovem robusta de


quatorze anos; nao necessita de medicamento algum para gozar de boa
saúde. Como seus onze irmáos, ela aprendeu em casa as primeiras no-
cóes de humanidades. Gosta de ler, nadar, velejar, dancar, desenhar,
tocar piano... Quando no comeco de 1997 os repórteres penetraram em
sua casa á procura de algum depoimento sensacional, respondeu que nao
guardava lembranca dos fatos, mas que ela sempre se sentirá muito próxi
ma de sua padroeira celeste. Tinha dois anos e meio quando foi curada.
2. O significado dos acontecimentos

O pai de Benedicta resolveu nao dar entrevista sobre a recupera-


cáo portentosa de sua filha. Todavía sua esposa Mary conseguiu

189
46 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 443/1999

convencé-lo de que a intercessáo de Edith Stein merecía tornar-se co-


nhecida pelo grande público. Em conseqüéncia a imprensa foi informada
do ocorrido. Um dos artigos publicados a respeito nos Estados Unidos
chamou a atencáo das carmelitas, que procuravam precisamente um sinal
de Deus para levar adiante o processo da Irma Teresa Benedita da Cruz.

Em 1991, o Pe. Kieran Kavanagh, monge carmelita do Estado de


Massachusetts, foi encarregado pelo Cardeal Bernard Law, Arcebispo de
Bostón, de examinar o apregoado milagre. Por conseguinte, em 1992 o
Pe. Kavanagh comecou a recolher documentos médicos e testemunhos
relativos á recuperacáo de Benedicta McCarthy. Aceitou participar do in-
quérito o Dr. Ronald Kleinman, judeu que dizia "nao ser particularmente
religioso, mas sim muito consciente de sua identidade israelita"; disse ter
aceito o convite "mais por curiosidade do que por outro motivo".

Tinha quarenta e um anos de idade quando a menina Benedicta foi


entregue aos seus cuidados no Hospital de Bostón; confessou que o caso
em foco o deixara "muito surpreso". Ao saber que alguns médicos no
Vaticano punham em dúvida a sua ¡nterpretacáo da cura como milagre,
em junho de 1996 foi a Roma, e lá esteve cinco horas frente a uma junta
médica explicando quáo grave era o estado em que se achava a crianca;
humanamente falando, nao teria recuperacáo. O empenho desse profis-
sional nao cristáo em favor do embasamento do milagre sugeriu ao Pe.
Kavanagh o comentario: "Eis o segundo milagre!"

Observou ainda o Dr. Kleinman: "Uve a ocasiáo de apreciar a seri-


edade do trabalho dos sacerdotes carmelitas que encontrei; pude entre
ver um pouco do seu modo de viver". Esta experiencia suscitou-lhe o
desejo de conhecer algo mais sobre Edith Stein. Confessou nao compre-
ender por que a canonizacáo da Carmelita de origem israelita tanto per
turba alguns ambientes judaicos, inquietos por juigarem que os católicos
estáo "recuperando" Auschwitz:

"Creio que ela foi condenada a morrer porque era judia, mas no
momento de sua morte era plenamente católica. A decisao da Igreja de
honrá-la como Santa, a meu ver, em nada diminuí o significado do
Holocausto".

Eis o que se pode dizer a respeito do sinal outorgado pelo Senhor


Deus em favor da canonizacáo de Edith Stein. Atendendo as preces des-
sa mulher corajosa, a Providencia Divina quis confirmar os demais indici
os de santidade que depunham em favor da Santa.

APÉNDICE
Eis outro milagre decisivo para uma Canonizacáo. Tratava-se da

190
MILAGRES COMPROVADOS 47

Serva de Deus María Rosa Molas y Vallvé, fundadora da Congregacáo


das Irmas da Consolacáo (1815-1876). Fo¡ inserida no Catálogo dos
Santos aos 11 de dezembro de 1988.

Em setembro de 1981 um menino de cinco anos chamado William


Guillen saiu a pescar com seu pai na Lagoa de Calcara. Quando segura-
va pela cauda um peixe com a máo direita, este Ihe arrancou o dedo
mindinho da máo esquerda. Regressando á térra, o pai conseguiu extrair
do peixe o dedo, e a máe do menino o enterrou. Levada ao Hospital de
Calcara, a vítima foi atendida por um médico, que pediu que Ihe levas-
sem o dedo, sobre o qual as formigas já se haviam acumulado. O doutor
sugeriu entáo que rezassem a bem-aventurada María Rosa Molas, im
plorando a sua intercessáo em prol da recuperacáo da enanca. E proce-
deu a um implante rudimentar do dedo numa intervencáo cirúrgica que
durou apenas vinte minutos e que científicamente nao tinha probabilida-
de de éxito. Eis, porém, que ao cabo de seis días o médico verificou que
o dedo havia retomado o seu lugar exato na mao do menino como se
absolutamente nada tivesse acontecido. - O caso foi levado á Junta
Médica da Congregacáo para as Causas dos Santos, que aos 23/01/
1987 declarou humanamente inexplicável a cura assim obtida. Em ulteri
or instancia, os teólogos aos 15/03/1988, reunidos com os Cardeais e
Bispos da mesma Congregacáo, houveram por bem reconhecer nesse
fato extraordinario um sinal de Deus que autenticava a santidade da bem-
aventurada Maria Rosa Molas; o Santo Padre Joáo Paulo II confírmou a
sentenca e resolveu celebrar a respectiva cerimónia de Canonizacáo aos
11/12/1988.

Ele está no meio de nos!, Por Ir. Enilda de Paula Pedro e


Pe. Shigeyuki Nakenose. Ed. Paulinas, Sao Paulo 1998, 180 x 125mm,
212 pp.

O livro pretende ser um guia de leitura do primeiro Evangelho, de-


vido a um mutiráo de autores, mas dito "de Mateus". Foi redigido esse
guia por urna equipe da CNBB numa ótica sócio-económica, que é unila
teral e tendenciosa. O guia nao fala do texto aramaico de Mateus, do qual
nos dá noticia Papias de Hierápolis. Supóe Mt escrito diretamente em
grego por volta de 80. Tal sentenga é discutfvel, mas apresentada sem
reservas. O comentario feito ao texto do Evangelho faz ressoar constan
temente "os excluidos e as excluidas"-o que torna a leitura pesada em
detrimento da teología do primeiro Evagelho. Verdade é que o livro con-
tém interessantes páginas que reconstituem a historia do judaismo nos
sáculos I a.C. ed.C.

191
48 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 443/1999

UM TESTEMUNHO PRÓ-VIDA

O Movimento Pró-Vida tem por praxe enviar alguns de seus mem-


bros ás portas das Clínicas que clandestinamente praticam o aborto. Pro-
curam educadamente dissuadir as pessoas que se dispóem a entrar, á
procura da operacáo mortífera.

Conversam com as interessadas, sujeitando-se a qualquer tipo de


acolhida, para tentar salvar a vida dos inocentes e ajudar os genitores
em sua dolorosa situacáo.

Abaixo segue-se o testemunho de urna dessas beneméritas


vanguardeiras, que deseja guardar o anonimato:

"'Naquela manhá voces foram verdadeiros anjos!'

Eram mais ou menos 11 h 00 min da manhá. Já havia duas horas


que estávamos depé em frente a urna das muitas "clínicas" especializadas
em encaminhar gestantes para a realizagao de aborto. Nosso trabalho
consistía, como de costume, na oragao do tergo e na distribuigáo de fo-
Ihetos explicativos a todos os transeúntes que passavam por aqueta rúa.
Nosso pequeño grupo, de mais ou menos oito pessoas, desdobrava-se
para que nenhuma moga ou casal que estivesse prestes a entrar naquele
lugar de morte, ficasse sem aconselhamento. Com a graga de Deus, per-
cebemos que nessas ocasioes nossa resistencia física é de alguma for
ma reforgada, pois, mesmo após muitas horas ao sol, nao sentimos sede
nem vontade de sentar. No entanto, precisamos ficar muito atentos para
nao deixar de perceber de longe a presenga de algum caso "suspeito",
para entáo agirmos rápidamente, antes que os agentes do centro de aten-
dimento a morte o fagam.

Num desses días, enquanto rezávamos o tergo, percebemos que


umjovem casal se aproximaba vagarosamente, tentando identificar o lo
cal que desejávamos que nunca existisse. ¡mediatamente, aproximei-me
do casal a propósito de entregar-lhes um folheto. A mulher, bastante ner
vosa, olhava as fotos coloridas com muita atengáo. O marido nada dizia -
estava perpíexo. Conversamos sobre o inicio da vida humana, o horren
do crime do aborto e toda a engañosa propaganda para que mulhres se
livrassem de seus problemas pela morte de seus filhinhos nascituros.
A essa altura alguns companheiros já estavam rezando nesta in-
tengao, pois percebiam queja estávamos conversando havia muito tem-
po. Felizmente, um prestimoso membro de nosso grupo aproximou-se

192
para conversar com o casal, enquanto eu ganhava fólego e pedia a Deus que os
livrasse. Era hora de urna agáo mais drástica; a situagáo nao poderia mais se es
tender. Entáo, perguntei á mulher: 'Com quantos meses vocé está?'
Ali estava a resposta de Deus. Ao ouvir aqueta pergunta táo simples, porém
incisiva, a pobre mulher caiu em prantos e confessou todo o intento. O casal já
possuía tres filhos, e um quarto representaba urna preocupagáo financeira angus
tiante naquele momento.

Sim, caros leitores, este é um dos principáis motivos pelos quais um casal
pensa em se desfazer do fruto de suas entranhas. Mas Deus tem seus planos.
Aquele casal que viera de outra cidade, atraído talvez pela possibilidade de nao
serem 'descobertos', encontrara ali mesmo, no local de desolagáo, a mao salvadora
do Senhor. Pois onde reina o pecado, a graga de Deus abunda (Rm 5, 20). Deus os
fez voltar para casa com a esperanga de que tudo se arranjaria, e de que aquele
bebé, antes de ser urna ameaga, seria, na verdade, urna grande béngáo.
No día seguinte fomos visitá-los. Apresentamo-nos apenas como amigos dis
tantes do casal, que para nossa surpresa gozava já de grande alegría. Sentamo-
nos no sofá para urna ligeira conversa com os pequeninos, que esperavam ansio
samente a chegada do irmáozinho. Nao era preciso muito. Como sempre, Deusjá
tinha feito todo o trabalho, e a nossa visita era apenas a celebragáo do amor do Pai.
Á saída, o esposo acompanhou-nos até o carro e pronunciou aquetas pala-
vras que até hoje ressoam aos nossos ouvidos e nos fazem mais conscientes de
nossa missáo pró-vida: 'Naquela manhá voces foram verdadeiros anjos!'
Antes de nos envaidecer, esta frase serve para nos lembrar que Deus é mais,
e que nos, batizados, devemos estar sempre a Seu servigo".

NOVIDADE!
Acaba de sair um novo livro de:

DOM BENTO SILVA SANTOS, O.S.B.

A imortalidade da alma no "Fédon" de Platáo.


Coeréncia e legitimidade do argumento final (102a - 107b).
Porto Alegre, EDIPUCRS, 1999,126 p. (Colecáo "Filosofía", na 89). R$ 12,00.

Sumario geral do livro:


CAPÍTULO I - ORIGENS DA CONCEPTO DE ALMA E DE SUAS QUALIFICACÓES
ANTES DE PLATÁO
CAPÍTULO //-A ALMA E SU A IMORTALIDADE NO FEDON DE PLATAO
CAPÍTULO til- O ARGUMENTO FINAL DE SÓCRATES (102a - 107b)
CAPÍTULO IV-A MENSAGEM ÉTICA DO "FÉDON": O SIGNIFICADO DA EXISTENCIA
HUMANA E O SENTIDO DA VIDA E DA MORTE

Para pedidos: Edicoes Lumen Christi.


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(Citeaux Commentarii Cistercienses), tendo urna introducáo e bibliografía do irmáo Francois
de Place, da Abadía de Notre Dame de Sept-Fons. Sua edicáo no Brasil foi urna iniciativa do
Mosteiro Trapista de Nossa Senhora da Assuncáo de Hardenhausen - Itatinga, em Sao
Paulo, tendo o apoio dos beneditinos do Rio de Janeiro. A traducáo é do jornalista Irineu
Guimaráes, por muitos anos correspondente no Brasil do jornal francés "Le Monde". Padre
Luís Alberto Rúas Santos, O. Cist., foi o responsável pela revisáo da obra.
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ro eremita. Vida de S. Maleo, escravo e monge. Vida de S. Hilario. Carta XXIII a Eu'stáquia.
Traducáo: D. Abade Timoteo Amoroso Anastácio, OSB. Revisáo Mosteiro Maria Máe de
Cristo. Impressáo: Mosteiro da Santa Cruz. 1996. 148 págs R$ 11 00.
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OSB. 2a edicáo revista - 1997. 215 págs r$ 16,50!
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Apresentado pelo Dr. Roberto Runde, arcebispo angiieano de Cantuária, pelo Cardeal
Basil Hume, OSB, arcebispo de Westminster e de D. Paulo Rocha, OSB abade de Sao
Bento da Bahía.

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Traducáo do alemáo por D. Mateus Rocha OSB.
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Aventíno). Tem divulgado suas pesquisas nao só na Alemanha, Italia, Franca, Portugal,
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19°Pá.9s R$ 11,70."
O genio, ou seja, a santidade de um monge da Igreja latina do século VI (480-540) -
SAO BENTO - transformou-o em exemplo vivo, em mestre e em legislador de um estado
de vida crista, empanhado na procura crescente da face e da verdade de Deus, espelhada
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discípulo de Sao Bento ouve o chamado para fazer-se monge, para assumir a "profissao"
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