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A VARIAÇÃO LINGUÍSTICA NO LIVRO DIDÁTICO DE LÍNGUA PORTUGUESA NO ENSINO FUNDAMENTAL.

Maria Jucyelle Varela Souza Patrícia Cristina da Silva Santos Yasmin de Medeiros Varela Valéria Nunes da Silva

RESUMO Este artigo tem como objetivo analisar as variações linguísticas e sua abordagem no livro didático de língua portuguesa no ensino fundamental, Português A Arte da Palavra, 6 ano, dos autores, Gabriela Rodella, Flávio Nigro, João Campos. O livro que traz Gírias, como assunto de variação linguística. Como objetivo Geral investigar o tratamento direcionado a variação linguística no livro didático de língua portuguesa do ensino fundamental. A forma empregada para o entendimento do aluno, trazendo também o que fala e a referência teórica ao tratamento dessa natureza da língua nos Parâmetros Curriculares Nacionais PCNs.

Palavras chaves: Gírias, livro didático, variação linguística.

1. INTRODUÇÃO 1.1 Variações Linguísticas na Sala de Aula

A língua portuguesa não é homogênea, ao contrário, é composta de muitas variedades. Ela varia de acordo com a região do falante, grau de

escolaridade, idade, status social, entre outros, porém, tal fato ainda é visto

com muito preconceito pelo restante dos falantes que utilizam a língua culta ou

padrão, que veem ou compreendem a variação linguística como “erro de

português”, o que não é verdade, nenhuma língua ou variedade se sobrepõe a outra, elas são apenas empregadas em situações diferentes, pois discriminar

uma variedade é discriminar seu falante.

A diversidade do uso da língua é o que podemos chamar de variação linguística, que acontece não apenas na fala, mas também na escrita, cada

modo de falar é chamado de “variedade” e cada variedade tem sua

característica própria, as pessoas são capazes de perceber com facilidade como difere o modo de falar de uma região para outra, ou como as pessoas mais escolarizadas falam diferente das que pouco frequentaram a escola, ou como os jovens falam diferente dos adultos e dos idosos.

É importante levar em conta como os professores levam este assunto para a sala de aula, como será transmitido para os alunos que, variação não é um erro, é um fenômeno natural. Há professores que pautam o ensino da língua apenas nas gramáticas normativas, deixando de lado a diversidade linguística no meio escolar. Deixando assim seus alunos pensarem que, o que o coleguinha falou não está certo. Todavia as novas propostas para a

educação têm como objetivo e como lei, que todo livro de língua materna aborde o assunto, pois o tratamento dado a este tema ainda não é o bastante e está deixando a desejar. Os PCNs trazem como objetivo o ensino da língua em seus mais variados contextos. No Brasil, o que é transmitido por muitos educadores é que só há uma forma certa de escrever e falar; ou seja, a gramática normativa ou tradicional. Ao contrário de um produto pronto e acabado, a língua é um processo, um fazer-se permanente e nunca concluído. Existem alguns fatores que indicam a variação linguística e que compõe o português não padrão:

O nível Socioeconômico

Grau de Escolaridade

Sexo

Idade

A Região do Falante

Status Social

Este artigo tem como objetivo Geral investigar o tratamento direcionado a variação linguística no livro didático de língua portuguesa do ensino fundamental. Dos específicos, descrever as propostas de atividades relacionadas à variação linguística. Verificar como as gírias são abordadas nas

atividades propostas pelo livro didático. No livro do 6 ano ensino fundamental, Português A Arte da palavra, os autores Gabriela Rodella, Flávio Nigro e João Campos, trazem como forma de

variação linguística o tema “gírias”, para eles:

Gírias são a prova mais contundente de que a palavra é viva. Diversas vezes, durante a nossa vida, vemos nascer novas palavras e novos significados para expressões e palavras

antigas

...

As gírias nascem e crescem em uma pequena

comunidade de falantes

de

uma

língua

e

dentro dela

sobrevivem

”(OLIVEIRA

2009,p.89)

 

A fala é a imagem de uma norma e varia de usuário para usuário, por isso é uma “ilusão” achar que a língua é homogênea, que possa parar, pois ela é a voz e a imagem de uma comunidade, de um povo. As Gírias possibilitam não só a representação do pensamento próprio e alheio, mas também possibilitam a comunicação de ideias, pensamentos, influenciando assim o outro a ter ou estabelecer relações interpessoais anteriormente inexistentes. Neste livro do 6 ano, as gírias, separa os que usam daqueles que não usam, uma variedade linguística que dá identidade ao falante, as quais diferenciam o falante de seus pais e professores. O que será apresentado mais adiante.

2. FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA 2.1 Variação e Ensino

Os PCNs no ensino fundamental abordam que cada falante já traz consigo uma variação linguística que aprendeu na comunidade onde vive um aluno ao chegar a sala de aula já domina ou pelo menos sabe de alguma delas, e é capaz de perceber ou compreender a variação da língua, e possa ser que já tenha vivido uma experiência de discriminação.

A Língua Portuguesa é uma unidade composta de muitas variedades. O aluno, ao entrar na escola, já sabe pelo menos uma dessas variedades aquela que aprendeu pelo fato de estar inserido em uma comunidade de falantes. Certamente, ele é capaz de perceber que as formas da língua apresentam variação e que determinadas expressões ou modos de dizer podem ser apropriados para certas circunstâncias, mas não para outras. Sabe, por exemplo, que existem formas mais ou menos delicadas de se dirigir a alguém, falas mais cuidadas e refletidas, falas cerimoniosas. Pode ser que saiba, inclusive, que certos falares são discriminados e, eventualmente, até ter vivido essa experiência.” (BRASIL, 1998 p 81.).

A

escola

tem

um

papel

fundamental

para

que

não haja atitudes

discriminatórias com as variações, e principalmente fazer com que os alunos percebam que elas não são desvios ou incorreções, é o que traz os pcns:

Frente aos fenômenos da variação, não basta somente uma mudança de atitudes; a escola precisa cuidar para que não se reproduza em seu espaço a discriminação linguística. Desse modo, não pode tratar as variedades linguísticas que mais se afastam dos padrões estabelecidos pela gramática tradicional e das formas diferentes daquelas que se fixaram como se fossem desvios ou incorreções.” (BRASIL, 1998 p 82).

Em entrevista ao jornal Diário do Pará, Marcos Bagno foi perguntado a

respeito que, no Brasil há formas muito diferentes de se falar, com diversos

sotaques

e

gírias.

Entretanto

existe

a

máxima

transmitida

por

muitos

educadores de que no Brasil só há uma forma certa de escrever e falar. O

jornal perguntou o que ele achava a respeito deste assunto, o doutor em linguística disse:

É um problema grave achar que no Brasil só se fala português quando na verdade nós sabemos que existem quase duzentas línguas faladas no nosso território, das quais cento e cinquenta ou mais línguas indígenas, fora as línguas trazidas pelos imigrantes. Além disso, o próprio português brasileiro, como qualquer língua do mundo, apresenta variação. O problema é que somos frutos de um processo colonial. Então impomos aos índios e escravos negros uma língua única, como língua principal. Esse mito do monolinguíssimo tem muito a ver com a tentativa de criar também um mito de unidade nacional, de um território só, um povo só, uma língua só, quando deveria ser ao

contrário. A multiplicidade deveria ser valorizada como são valorizadas as outras riquezas culturais que nós temos. Cada povo, cada região tem a sua maneira de falar e isso deveria ser considerado uma riqueza do nosso patrimônio, e não um problema a ser resolvido.” (DIÁRIO DO PARÁ, 2013).

Levando em consideração todas as citações acima em relação ao tratamento da discriminação e da variação linguística tanto em sala de aula como na comunidade, Dino Preti Entrevista concedida em 15 de março de 2005,na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da Universidade de São Paulo. Fala a respeito de uma dessas variações: A gíria. O entrevistador faz a seguinte pergunta: Sobre a formação da gíria como vocábulo, existe um padrão? A resposta foi a seguinte:

Não, é a formação normal do português. A gíria não é uma linguagem, é um vocabulário, e segue os padrões da língua. Geralmente, a grande fonte do vocabulário gírio são as mudanças de significado para significantes iguais. Por exemplo, legal ao invés de dentro da legalidade passa a significar bom, ótimo, agradável. As poucas palavras formadas na gíria geralmente são onomatopaicas, como lelé da cuca (louco, ruim da cabeça) que traz uma repetição silábica, um elemento sonoro da linguagem. Publiquei alguns artigos sobre a formação gíria e no penúltimo livro meu, “Léxico na língua oral e na escrita”, da Humanitas, escrevi um dos capítulos sobre “Variação lexical e prestígio social das palavras”, divide em três partes e uma delas é sobre gíria e sua formação.”( LETRA MAGNA, 2005)

contrário. A multiplicidade deveria ser valorizada como são valorizadas as outras riquezas culturais que nós temos.

Algumas pessoas consideram a gíria como a segunda língua falada no país simplesmente por ser bastante usada nos dias de hoje. São mais de 50 mil palavras usadas no Brasil. O fato da nova língua vir se espalhando é o fato das pessoas quererem uma comunicação mais rápida e fácil, existindo duas formas de gírias. Gíria de grupo - A gíria de grupo é usada por grupos sociais fechados e restritos, que têm comportamento diferenciado. Possui caráter criptográfico, ou seja, é uma linguagem codificada de tal forma que não seja entendida por quem não pertence ao grupo. Gíria comum - Quando o uso da gíria de grupo expande-se, passa a fazer parte do léxico popular e torna-se uma gíria comum. É usada para aproximar os interlocutores, passar uma imagem de modernidade, quebrar a formalidade, possibilitar a identificação com hábitos e falantes jovens e expressar agressividade e injúria atenuada.