Você está na página 1de 11

132.00ano 11, mai 2011

A abordagem estética no projeto de estruturas de edificações: do ensino à concepção de sistemas estruturais

Eduardo Grala da Cunha

Introdução A produção arquitetônica atual apresenta uma grande assimetria no que diz respeito à apropriação formal com intenção estética dos sistemas estruturais dos edifícios.

Ora a estrutura não tem destaque formal limitando-se à sua função de sustentação, ora ela é trabalhada como elemento formal de destaque na arquitetura.

A nossa hipótese é de que a maior ou menor ênfase dada ao

sistema estrutural está relacionada à maior ou menor valorização da tecnologia na concepção dos projetos de

arquitetura. Na maioria dos edifícios construídos no presente momento o sistema estrutural tem seu valor reduzido

à função: dar sustentação ao edifício. Embora seja este seu

papel fundamental, reduzir ao mero desempenho da função parece-nos inaceitável. Há exceções, obras que não se alinham com a maioria dos edifícios construídos atualmente,

que amparam a nossa posição. Pois neles, a estrutura do edifício é o elemento de maior destaque na composição arquitetônica. Vejamos dois exemplos de autoria de Santiago Calatrava.

Centro de Artes Visuais, Valência, Santiago Calatrava [JODIDIO, Philip. "Santiago Calatrava". Colonia: Taschen,

Centro de Artes Visuais, Valência, Santiago Calatrava [JODIDIO, Philip. "Santiago Calatrava". Colonia: Taschen, 2003. Pág.64]

Calatrava". Colonia: Taschen, 2003. Pág.64] Expo Foto Marcos Antônio Frandoloso 1997, Lisboa,

Expo

Foto Marcos Antônio Frandoloso

1997,

Lisboa,

Santiago

Calatrava

No Centro de Artes Visuais de Valência, na Espanha, a estrutura em concreto armado presente nos planos horizontal, vertical e inclinado é o principal elemento da composição arquitetônica. Calatrava, buscando caracterizar metáforas

com formas vivas, se apropria do sistema estrutural como uma escultura. No caso da estrutura metálica presente na estação de metrô da Expo 97 em Lisboa, Portugal, a metáfora com uma floresta tem como elemento principal o sistema estrutural que cobre o pátio de trens.

O presente artigo quer discutir o papel funcional e formal

dos sistemas estruturais dos edifícios considerando a produção arquitetônica atual. Outro aspecto a ser mencionado é o tratamento desta abordagem de apropriação formal com intenção estética dos sistemas estruturais no âmbito do ensino na engenharia e arquitetura.

O que segue está ordenado em quatro tópicos a saber:

1. possibilidades de valorização formal com intenção estética dos sistemas estruturais; 2. valorização do desenho da estrutura na concepção arquitetônica; 3. a abordagem pedagógica dos sistemas estruturais; 4. conclusões. 1. As possibilidades da valorização formal com intenção

estética dos sistemas estruturais: o caráter tecnológico

A concepção arquitetônica abarca diferentes dimensões teóricas, que podem ser definidas como questões de projeto (1). Ou seja, variáveis a serem equacionadas na proposição, as quais são relativas a três aspectos: o lugar, a técnica e o programa.

A técnica é o aspecto ao qual nos debruçaremos. Ela pode ser

vista como meio que viabiliza a realização e o funcionamento do edifício, mas também como um fim como possibilidade formal a ser valorizada com intenção estética. Neste segundo caso, são estratégias claras que põem em relevo os aspectos técnicos, é o caso, por exemplo: o desenho do sistema estrutural, a forma de fechamentos verticais e protetores solares, a resolução formal das coberturas de edificações. Nos casos onde os aspectos técnicos não são valorizados, o seu papel se reduz à função primeira, sem maior expressão no todo arquitetônico. Cunha (2) diz que a técnica apresenta duas dimensões de abordagem: a “funcional”, vinculada ao “funcionamento” do edifício (3); e a dimensão “representativa”, por intermédio da qual a técnica ganha valor simbólico. Nesses casos, em se tratando de sistemas estruturais, observa-se a riqueza da composição formal no que diz respeito à resolução estrutural da edificação.

Nos casos de valorização da técnica através da nítida expressão do sistema estrutural na arquitetura, essa valorização tem diversas motivações: [1] seja por demanda do programa, como é o caso dos projetos de terminais de aeroportos entre outros [2] pelo sistema estrutural como é o caso das estruturas espaciais, ou pelas vigas e pilares inclinados que põe em relevo a forma dos vigamentos, dos pilares, como também dos próprios planos horizontais.

dos pilares, como também dos próprios planos horizontais. À esquerda, Edifício Administrativo da Mercedes Benz em

À esquerda, Edifício Administrativo da Mercedes Benz em Berlin, Alemanha. À direita, Café em Edifício de Escritórios em Dresden, Alemanha Fotos Eduardo Grala da Cunha

O edifício administrativo da Mercedes Benz em Berlim e o edifício de escritórios em Dresden são demonstrações dessa valorização dos sistemas estruturais, no caso, em contexto europeu. Em ambos os casos existe uma valorização da estrutura e, naturalmente, uma grande atenção ao detalhe. No caso do edifício administrativo da Mercedes Benz em Berlin, Alemanha, observa-se o cuidado com a resolução da estrutura do plano horizontal. O encontro das peças, cabos atirantados, o próprio desenho da cobertura, são aspectos que evidenciam a preocupação e valorização formal do sistema estrutural.

No caso do edifício de escritórios em Dresden, Alemanha, o sistema estrutural da área do café valoriza o edifício. Ou seja, a resolução estrutural da área da cafeteria resolve o problema da área em balanço necessária, e ao mesmo tempo cria um espaço dinâmico e movimentado. Opostamente, nos casos em que o sistema estrutural cumpre apenas função de sustentação verificamos que não há maior destaque formal à estrutura.

que não há maior destaque formal à estrutura. Sistema estrutural sem destaque algum na composição, Passo

Sistema estrutural sem destaque algum na composição, Passo Fundo, RS Fotos Eduardo Grala da Cunha

Assim, face ao exposto acima, pode-se inferir que a escolha, definição e resolução formal do sistema estrutural vincula- se à ênfase dada à técnica na concepção da arquitetura. No caso da definição da estrutura apenas como um elemento de sustentação da edificação, o sistema estrutural é explorado na sua dimensão funcional, ou seja, sem destaque, sem peso, sem influência na composição formal da edificação. Já no caso da valorização da dimensão representativa da técnica através da expressão formal do sistema estrutural adotado,

há maior clareza e maior cuidado com o detalhe e a estrutura

tende a ser tratada como um elemento dinamizador da forma do prédio.

A seguir, apresentam-se possibilidades de valorização do

desenho do sistema estrutural na edificação, no sentido da

valorização da dimensão representativa da técnica.

2. A valorização do desenho da estrutura na concepção arquitetônica: o caso das estruturas metálicas

A nossa hipótese é de que, normalmente, nas edificações onde

se verifica a valorização do desenho do sistema estrutural há a intenção de destacar o valor simbólico da técnica. Quer

seja em decorrência do fato do programa do edifício remeter ao desenvolvimento tecnológico como o caso já citado dos aeroportos, quer seja pela intenção de vincular a imagem de uma instituição, pública ou privada, ao arrojo e atualidade das técnicas mais modernas. Nesses casos observa-se uma recorrência na utilização de estruturas em aço, sem

restringir-se aos sistemas estruturais, que faz sentido pelo caráter imediato (4) do material que remete, em alguns contextos, à modernidade e ao desenvolvimento científico e tecnológico. Quando o sistema estrutural é valorizado, o sistema de vigas

e pilares assume um papel na definição formal do edifício.

Os pilares, nesses casos, ora são trabalhados inclinados, como é o caso da Câmara de Deputados do Estado Saxônia, em Dresden, Alemanha, em que os pilares fora do prumo dinamizam a resolução formal da edificação; ora são trabalhados como

elementos articulados e apresentam-se de forma autônoma,como

o Aeroporto de Stansted, Inglaterra, onde se destaca o

caráter escultural do conjunto viga-pilar. O fato é que,

nesses casos, os pilares ganham destaque na resolução formal

da arquitetura. (5)

do conjunto viga-pilar. O fato é que, nesses casos, os pilares ganham destaque na resolução formal

Câmara de Deputados do Estado Saxônia, em Dresden, Alemanha Fotos Eduardo Grala da Cunha

Saxônia, em Dresden, Alemanha Fotos Eduardo Grala da Cunha Aeroporto de Stansted, Inglaterra, Foster and Partners

Aeroporto de Stansted, Inglaterra, Foster and Partners [FOSTER AND PARTNERS. "Catalogue Foster and Partners". Munique: Prestel, 2005, p.61]

O conjunto viga-pilar, ainda nesses casos de valorização do desenho do sistema estrutural, também ganha expressão formal de destaque, principalmente na resolução de coberturas metálicas, como é o caso da estação de metrô de superfície na cidade de Dresden, Alemanha.

Metrô Foto Eduardo Grala da Cunha de superfície na cidade de Dresden, Alemanha Ao mesmo

Metrô

Foto Eduardo Grala da Cunha

de

superfície

na

cidade

de

Dresden,

Alemanha

Ao mesmo tempo em que os sistemas estruturais em aço tendem

a ser lidos como signos de desenvolvimento tecnológico e

modernidade, destacadamente nas soluções que primam pela

leveza; cabe salientar também que as treliças espaciais são outra forma de qualificar o espaço pela sua configuração física dinâmica. Considerando o acima exposto, pergunta-se:

O ensino dos sistemas estruturais tem possibilitado a sua

compreensão funcional e formal? Os sistemas estruturais têm sido abordados por engenheiros e arquitetos nas suas possibilidades de valorização formal com intenção estética? Senão, como é possível ampliar uma abordagem ampla e não redutiva da questão da estrutura na concepção dos projetos de edifícios? É com o intuito de formular tais respostas que apresentamos o que vem a seguir. 3. A abordagem pedagógica dos sistemas estruturais

Dois aspectos devem ser considerados acerca da valorização formal com intenção estética no projeto de sistemas estruturais.

O primeiro deles é que a estrutura em uma edificação faz

parte do todo a ser construído sendo, portanto, um dos elementos geradores do espaço, portanto faz sentido que ela

seja trabalhada também como elemento formal. Ou seja, limitar o ensino dos sistemas estruturais apenas à abordagem funcional limita a sua compreensão e o seu desenvolvimento, o seu papel é um duplo entre a função e a forma, a primeira estrutura o edifício, a segunda o pensamento. Essa abordagem ampla é reforçada, por exemplo, pelo trabalho do ilustre arquiteto Norman Foster, pois nos seus projetos verifica-se um extremo cuidado e valorização da estrutura desde as fases iniciais de concepção do projeto de um edifício. Desde os primeiros esboços já se depreende a preocupação de valorizar e dinamizar o espaço construído pela proposta estrutural. As figuras abaixo ilustram a preocupação do arquiteto com o caráter escultural do sistema estrutural. É isso que ilustra os esquemas para o projeto do Edifício HSBC em Shangai, Japão. (6)

para o projeto do Edifício HSBC em Shangai, Japão. (6) Edifício HSBC, Shangai, Foster and Partners

Edifício HSBC, Shangai, Foster and Partners [FOSTER AND PARTNERS. "Catalogue Foster and Partners". Munique: Prestel, 2005, p.250]

Edifício HSBC, Shangai, Foster and Partners [FOSTER AND PARTNERS. "Catalogue Foster and Partners". Munique:

Edifício HSBC, Shangai, Foster and Partners [FOSTER AND PARTNERS. "Catalogue Foster and Partners". Munique: Prestel, 2005, p.251]

O segundo ponto a ser mencionado é a necessidade de fomentar uma abordagem interdisciplinar no ensino de sistemas estruturais. O ensino de projeto de arquitetura deve ser praticado de modo solidário ao ensino dos sistemas estruturais por meio de um trabalho conjunto das disciplinas de projeto arquitetônico e sistemas estruturais com o intuito de fomentar as dimensões funcional e formal na prática de projeto.

4.Conclusões

Como considerações finais, três aspectos devem ser

destacados. Inicialmente, é importante o reforço do entendimento de que os sistemas estruturais apresentam um papel funcional e um formal no projeto de arquitetura. O papel funcional é vinculado às necessidades de sustentação e manutenção do objeto arquitetônico na sua forma desejada. Já

o formal, vinculado às possibilidades de destaque na

composição arquitetônica. Nesse caso, vale destacar que a

resolução formal de uma solução estrutural faz parte de um todo arquitetônico e que a ênfase compositiva do sistema estrutural na arquitetura vincula-se diretamente à valorização da dimensão tecnológica no projeto.

Um segundo aspecto a ser mencionado nas conclusões vincula-

se as múltiplas possibilidades de valorização do sistema estrutural na arquitetura do edifício, destacando a

necessidade da relação direta da maior ênfase na resolução do sistema estrutural com a conceituação do projeto de arquitetura. Este aspecto relaciona-se diretamente com o terceiro ponto a ser destacado nas conclusões deste artigo. A valorização do sistema estrutural deve estar presente desde a fase de conceituação e de concepção do projeto de arquitetura, não sendo, portanto, um elemento de arquitetura fruto de um processo de recortar-colar. notas

1

MAHFUZ,

E.

2006. Reflexões

sobre

a

construção

da

forma

pertinente.

Acessado

em:

18/09/2006,

disponível

em: http://www.vitruvius.com.br.2

CUNHA, Eduardo Grala da. A cobertura nos edifícios de grandes

vãos: uma proposta de ferramentas de apoio. Tese de Doutorado.

Porto

Aqui cabe ressaltar

estruturais, relaciona-se apenas à sustentação do edifício.4 Caráter imediato é definido como aquele caracterizado pela técnica e materiais usados na construção de um edifício, permite diferenciar dois objetos arquitetônicos com a mesma planta, mesmo volume, porém de materiais diferentes. MAHFUZ, E. da C. Composição e caráter e a arquitetura do novo milênio. Projeto Design, São Paulo, n. 195, abr. 1996. Apud COSTA, Ana Elisia. Do galpão rudimentar ao complexo de edifícios industriais. Uma investigação sobre o tipo e o caráter dos edifícios industriais.

1999.5

2005.3

discussão dos sistemas

Alegre:

que

UFRGS,

no

caso

da

1999.

Monografia,

PROPAR,

UFRGS,

Porto

Alegre,

Site da empresa DVG. Disponível em www.finanzit.com. Consultado

em BLASER, Werner. Norman Foster: Sketches – Zeichnungen. Werner Blaser, Tradução de Claudia Neuenschwander. Basel, Boston, Berlin: Birkhäuser, 1992.

sobre o autor

Eduardo Grala da Cunha é Arquiteto e Urbanista formado pela Universidade Federal de Pelotas, com Mestrado e Doutorado em Arquitetura pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Possui Pós-doutorado pela Universidade de Kassel, Alemanha. Atualmente, é professor Adjunto na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal de Pelotas, RS.

de

20

de

dezembro

2008.6