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CAPÍTULO 3

Implantação de uma Cooperativa


3.1 ORGANIZAÇÃO E SENSIBILIZAÇÃO DA É preciso compreender que a participação da so-
COMUNIDADE ciedade não se obtém com ações estanques e for-
mais, como, por exemplo, a mera distribuição de
A implantação bem sucedida de um projeto de folhetos explicativos. Deve ser construída com base
cooperativa de catadores, associada a um progra- em um amplo processo educacional que permeie
ma de coleta seletiva, exige uma intensa participa- todas as fases do projeto e implique:
ção da sociedade, em todas as fases de seu desen- • modificação de hábitos e costumes;
volvimento. • desenvolvimento do sentimento de responsa-
O motivo mais óbvio é que caberá à população bilidade social e cidadania;
separar do lixo e fornecer, voluntariamente, os ma- • estímulo à participação dos grupos sociais en-
teriais que constituirão a matéria-prima do trabalho volvidos com o projeto.
da cooperativa. Porém, uma reflexão mais cuidado- A educação ambiental desenvolve-se ao longo de
sa mostra que essa participação pode ser importan- todo o processo de construção da cooperativa, mas
te em muitos outros aspectos. Por exemplo: há duas fases em que as ações devem ser inten-
• prover ajuda profissional voluntária; sificadas:
• ajudar a exercer pressão junto ao poder públi- • a primeira é de difusão e enraizamento do pro-
co para agilizar suas decisões e ações; jeto de cooperativa, quando a intenção princi-
• atuar junto a empresas privadas e organiza- pal é lançar as bases do projeto, buscar a com-
ções locais para conseguir os diversos aportes preensão da comunidade para sua abrangência
necessários à implantação; e importância socioambiental;
• ou ainda, constituir a representatividade e a • a segunda é de lançamento e operacionalização
capilaridade social que ajudarão a manter a da coleta seletiva, quando se deseja ampliar a
continuidade do programa, mesmo que haja participação e informar à população sobre o
mudanças nos rumos da política municipal. porquê, como e quando participar.

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Capítulo 3 - Implantação de uma Cooperativa - COOPERATIVA DE CATADORES DE MATERIAIS RECICLÁVEIS - GUIA PARA IMPLANTAÇÃO

3.1.1. Primeira fase: difusão e enraizamento A título de ilustração, foram listadas a seguir algu-
mas ações de sensibilização e organização desenvol-
No primeiro período, é importante criar meca- vidas no início de projetos similares, com resulta-
nismos de informação que permitam a discussão do dos positivos.
projeto, ainda em formação, criando capilaridade jun-
to à comunidade e tornando-o conhecido da popu-
lação e dos órgãos públicos. Realização de seminários, mesas
Deve-se considerar que cada localidade tem suas redondas e outros tipos de foruns
especificidades socioeconômicas e políticas e que é de discussão
necessário buscar as alternativas mais adequadas a Devem ser convidados todos os segmentos e li-
cada realidade. Quando a Prefeitura é parceira, aten- deranças com interesse no tema. O objetivo direto
ção especial deve ser dada às ações que favoreçam dessa ação é atrair essas lideranças e entidades da
a assimilação dos objetivos do projeto junto aos seus comunidade, apoiadores e multiplicadores da inicia-
diferentes departamentos. Isso se faz necessário dada tiva. A apresentação de casos de experiências se-
a carência de quadros gestores e a habitual departa- melhantes já desenvolvidas poderá ajudar a esclare-
mentalização da gestão pública. cer a população e suavizar resistências.

Seminário de difusão do projeto

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Capítulo 3 - Implantação de uma Cooperativa - COOPERATIVA DE CATADORES DE MATERIAIS RECICLÁVEIS - GUIA PARA IMPLANTAÇÃO

Criação de um grupo de apoio Criação de instrumentos de informação


O grupo pode ser um conselho ambiental, comi- Um documento sobre o projeto de cooperativa
tê de apoio ou grupo de discussão, formado por que deixe claros os seus objetivos e necessidades para
membros da cidade, que farão reuniões periódicas os patrocinadores ou um informativo periódico, para
para acompanhar o desenvolvimento do projeto. Re- divulgar as notícias sobre o avanço do projeto e pres-
presentantes do poder público também podem to- tar contas das ações realizadas. O informativo deve
mar parte do grupo. ser direcionado às lideranças locais, escolas, empre-
O objetivo dessa ação é criar canais de comuni- sas e às várias entidades da sociedade civil.
cação entre a coordenação do projeto e a socieda- Outros instrumentos que poderiam ser criados
de, propiciando suporte e facilitando a divulgação com a mesma finalidade: um site ou a formação de
junto aos seus vários segmentos. um fórum de discussão sobre o projeto na Internet.

Assimilação do projeto pelos órgãos da


CAPRICHE NOS MATERIAIS DE DIVULGAÇÃO prefeitura
Seja qual for o produto previsto para divulga- Palestras, seminários e exercícios de planejamen-
ção do projeto ao público, observa-se que: to participativo centrados na gestão dos resíduos
• material com maior apelo gráfico cativa mais municipais favorecem o entendimento e a assimila-
a atenção das pessoas; ção do projeto pelos quadros municipais e propici-
• as informações devem ser repassadas com am melhores condições para a execução de ações
pouco texto e o máximo de ilustrações para integradas, potencializando a capacidade de apoio
serem lidas com facilidade; da Prefeitura.
• deve-se passar apenas as informações bá-
sicas necessárias para o entendimento ou Divulgação junto à mídia local
acompanhamento do projeto e num forma- Deve-se tentar estabelecer contato com os jornais,
to adequado ao público a que se destinam. estações de rádio ou TV locais, para ampliar a divulga-
É importante ajustar a linguagem e a progra- ção do projeto, seus propósitos e necessidades. Os
mação visual utilizadas aos diversos públicos- veículos de comunicação serão também de grande uti-
alvo. Um documento de apresentação do pro- lidade no momento do lançamento da coleta seletiva,
jeto, por exemplo, deve ser visualmente mais para esclarecer à população sobre os materiais a se-
conservador. rem separados, datas do início do programa, bairros
cobertos pelo serviço e assim por diante.

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3.1.2. Segunda fase: lançamento da coleta


LEMBRE-SE
A campanha educativa não pode ser feita com
Nessa fase, é preciso buscar todas as formas de
muita antecedência, sob pena do público es-
comunicação para que se consiga levar as informa-
quecer das informações.
ções ao maior contingente possível da população
atingida pelo projeto, que deve estar mobilizada para
ajudar e ciente de como participar, como vai funcio-
nar a coleta seletiva, como separar seus materiais, Utilização de folhetos
onde e como entregá-los. Para tanto, é preciso de- O folheto é, usualmente, o veículo utilizado para
senvolver essas ações no sentido de estimular no- informação ao público e deve seguir as orientações
vos costumes e atitudes solidárias. já fornecidas para os materiais gráficos. Sua distri-
Várias formas podem ser utilizadas: colocar fai- buição deve ser planejada, considerando os recur-
xas nos dias anteriores ao início da coleta; distribuir sos humanos e financeiros disponíveis. Folhetos jo-
cartazes no comércio, escolas, clubes e universida- gados nos portões das casas dificilmente serão li-
des; fazer reuniões para divulgação em associações dos. A melhor maneira de distribuí-los é na mão do
de bairro ou enviar cartas aos moradores. Deve-se morador, incluindo na entrega uma conversa sobre
usar da criatividade de maneira a ajustar as ações de os objetivos da cooperativa e da coleta seletiva. Nes-
comunicação aos recursos existentes, normalmente sas situações, a eficácia da comunicação oral é maior
escassos. que a escrita.
Para realizar esse trabalho, vale tentar o apoio de
voluntários, por exemplo, pessoas ligadas às organi-
AVISE ANTECIPADAMENTE À COMUNIDADE zações da sociedade civil, escoteiros, estudantes ou
É necessário deixar bem claro que a comunida- órgãos da administração pública como guardas-mi-
de será informada, antecipadamente, sobre a rins, funcionários da Prefeitura, agentes comunitári-
data de início da coleta. Senão, corre-se o ris- os, além dos próprios catadores da cooperativa.
co de que parte da população, mais mobilizada A panfletagem será o “cartão de apresentação”
e consciente, comece a separar seus resíduos da cooperativa à sociedade local, portanto deve-se
antes que a cooperativa possa coletá-los. evitar deslizes e falhas que a comprometa. Para isso,
é importante instruir o pessoal para essa tarefa, uni-
formizando informações e comportamentos. Bus-
car patrocínio é importante.

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Figura 6. Modelo de Folheto Reunindo Pessoas


Realizar reuniões e palestras informativas é um
recurso que dá bons resultados, quando se conse-
gue reunir uma platéia interessada. Normalmente,
essa forma de comunicação funciona melhor em gru-
pos restritos, como condomínios, empresas, reuni-
ões já programadas de associações e igrejas. A utili-
zação de recursos audiovisuais auxilia no repasse das
informações e atrai a atenção da audiência.

CONVERSANDO COM A VIZINHANÇA


Há um grupo da população que merece aten-
ção especial: os moradores do entorno da coo-
perativa. Há muita resistência à implantação de
qualquer edificação ou serviço relacionado ao
lixo nas proximidades de suas moradias. Existe
o temor de que o local cheire mal, atraia inse-
tos e outras conseqüências desagradáveis.
Embora a Central de Triagem de Materiais Re-
cicláveis não apresente esses problemas, esse
fato não é do conhecimento geral e determina
a necessidade de reuniões, palestras, contato
com as lideranças comunitárias e visitas a ou-
Contato com a mídia
tras cooperativas, para reduzir a resistência e
O apoio da mídia local é ainda mais necessário na
obter o apoio dessa comunidade.
etapa de implantação do que o foi durante a fase de
planejamento do projeto. É aconselhável preparar
um documento informativo (press-release), conten-
do as informações básicas sobre o programa que A importância da rede escolar
está sendo lançado, para levar ou enviar aos jornais, As escolas merecem destaque no programa de
rádios e emissoras de TV locais. sensibilização da comunidade, pois têm grande po-

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der de multiplicação da informação junto à popula- mas ambientais referentes ao lixo na grade curricu-
ção composta não somente por seus alunos, funcio- lar; que se repasse experiências práticas sobre o
nários e professores, mas pelas famílias e comunida- assunto para serem desenvolvidas pelos alunos; que
de situada em seu entorno. se abarque todos os segmentos sociais relacionados
Sugere-se que sejam envolvidas em um progra- à escola, com ações de conscientização ambiental;
ma de educação ambiental mais amplo que os de- que se inclua atividades lúdicas de fundo educacio-
mais setores da sociedade; que se ofereça cursos nal, como gincanas e mutirões ecológicos, oficinas
aos professores, capacitando-os para incluir os te- de reciclagem e outros.

Quadro 7. Visão conjunta das ações de sensibilização

FASES AÇÕES

• Realização de eventos para discussão do projeto


na comunidade
Difusão e • Formação de um grupo de apoio
PRIMEIRA
Enraizamento
• Elaboração de materiais de divulgação
• Inserção do projeto nos diversos órgãos da Prefeitura
• Divulgação na mídia local

• Elaboração de materiais de divulgação (cartazes, folhetos)


• Planejamento e execução da panfletagem
Lançamento e • Divulgação na mídia local
SEGUNDA Operacionalização • Realização de reuniões e palestras em condomínios,
da Coleta Seletiva igrejas, empresas, associações, etc.
• Preparação e implantação de Plano de Educação
Ambiental nas escolas

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3.2. CONSTITUIÇÃO DO GRUPO DE CATADORES tamento estiver focado nos catadores. Mas, se fo-
rem consideradas insuficientes para os fins do projeto,
A constituição do grupo de catadores envolve uma ou inexistentes, deve-se proceder ao cadastramen-
série de procedimentos que, se bem conduzidos, a- to. Para tanto é necessário:
judam a conhecer o perfil desses trabalhadores, con- • elaborar formulário para o cadastro, que deve
tribuem para o seu entrosamento e possibilitam infor- ser objetivo, claro e conter um número de
mações necessárias para decidirem se participam ou questões suficientes para que se possa traçar o
não do projeto. Esses procedimentos podem ser re- perfil dos catadores, conforme o modelo do
sumidos como se segue. Quadro 8;
• definir a abordagem junto aos catadores, po-
dendo ser entrevistas nas ruas ou locais onde
3.2.1. Cadastramento e análise de trabalham ou vivem.
informações dos catadores Como a entrevista será o primeiro momento de
contato direto, devem ser tomados alguns cuidados:
Essa atividade tem por objetivo coletar dados con- • o catador deverá ser esclarecido sobre os pro-
fiáveis sobre o número e perfil dos catadores existen- pósitos da entrevista. Informações gerais so-
tes no município. Antes da realização dessa tarefa é bre o projeto devem ser repassadas, de manei-
aconselhável verificar: ra simples, mas precisa: o que é o trabalho
• se existem dados sobre esses trabalhadores cooperado; a idéia de coleta seletiva; a inexis-
nos diferentes órgãos da Prefeitura, como as tência de vínculo empregatício; a possibilida-
secretarias de saúde, educação, promoção ou de de aporte de alguns recursos como cesta
assistência social; básica, mas não para sempre e nem para to-
• que tipo de trabalho a Prefeitura desenvolve das as necessidades;
ou já desenvolveu junto a esses trabalhadores; • evitar mal entendidos que criem falsas expecta-
• se outras entidades ou instituições (Lions, igre- tivas, como, por exemplo, de que haverá a
jas, sindicatos, etc.) já realizaram ou realizam tra- criação de empregos fixos para os catadores
balho de assistência social ou de outro tipo com na Prefeitura ou de que o projeto vai atender
os catadores como público-alvo. a todos os catadores;
Essas informações são importantes, porque nor- • se o projeto estiver associado a um programa
teiam a elaboração do cadastro e, às vezes, podem de gestão dos resíduos do município, que in-
até dispensá-lo, se os dados forem recentes e o levan- clua o fechamento do lixão da cidade, o cadas-

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tramento dos catadores que atuam ou atua- ameaça, mantendo-se refratários aos conta-
vam nesse local exigirá maior preparação e uma tos. Será preciso paciência e tranqüilidade para
abordagem mais cuidadosa. Isso porque os conseguir a sua cooperação.
catadores podem se sentir inseguros quanto Realizadas as entrevistas, passa-se para a fase de
às suas possibilidades futuras de sobrevivên- análise dos dados. Se o número de catadores for
cia e encarar os entrevistadores como uma pequeno, a tarefa pode ser resumida a uma tabulação

Quadro 8. Modelo de formulário para cadastro.

CADASTRO DE CATADORES
Data: 10 / 03 / 2003 Pesquisador: José Voluntário ....................................................................................
Nome: José Reciclador ...................................................................................................................................................
Endereço: Rua da Produção, no 21 - Vila Industrial ....................................................................................................
Telefone ou forma de contato: Deixar recado na residência Idade: 45 anos
Mora com a família? Sim X Não Quantas pessoas? Quatro
É arrimo de família? Sim X Não
Tem filhos? Sim X Não Quantos? Três Estão na escola? Dois
É alfabetizado? Sim X Não Escolaridade: Primário incompleto
Há quanto tempo trabalha na catação? Dez anos
Teve outra ocupação anterior? Sim X Não Qual? Pedreiro ..........................................
Era emprego com carteira assinada? Sim X Não
Quantas horas trabalha por dia na catação? 10 horas
Tem outra fonte de renda? Sim Não X Qual? .....................................................................................
Sistema de trabalho: Lixão Na rua X Lixão/rua Outro
Transporte: Carrinho X Próprio Sim X Não
Quanto ganha por mês (ou dia) Entre 50 e 100 reais por mês ................................................................................
Sabe o que é uma cooperativa de trabalho? Sim Não X
Já participou de alguma cooperativa? Sim Não X Qual? ...........................................................
Tem interesse em participar de trabalho em cooperativa? Sim X Não

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simples, suficiente para caracterizar o grupo. Se o


NÃO DEMORE PARA RETOMAR O CONTATO
número de catadores for elevado, supõe-se que po-
O tempo entre o cadastramento, a análise dos
derá haver um processo de seleção. Neste caso, é
dados e o retorno aos catadores deve ser bre-
importante proceder-se a uma tabulação simples dos
ve, para não criar um vazio, minando a credibili-
dados e depois cruzar as informações consideradas
dade do projeto. Esse retorno é ainda mais ur-
mais relevantes como indicadoras de um “potencial
gente quando se trata de catadores de lixões
de adesão” ao projeto: horas trabalhadas por dia e
desativados ou em vias de fechamento. Se o nú-
interesse pela cooperativa; tempo que trabalha como
mero de catadores for elevado, inicie a tabulação
catador e interesse pela cooperativa. Esses proce-
simples dos dados concomitantemente às en-
dimentos orientam o processo de seleção, o esta-
trevistas para acelerar a sistematização das in-
belecimento de critérios e permitem a identificação
formações.
de alguns grupos prioritários.

Entrevista com catador

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3.2.2. Seleção dos catadores características pessoais que são percebidas so-
mente com a convivência.
Uma vez realizado o cadastramento e a análise Para a seleção dos catadores, sugerem-se três
dos dados, logo se verifica a necessidade de compa- abordagens.
rar o número de catadores interessados em partici-
par do projeto ao número estimado de postos de Alternativa 1 - reunir todos os catadores dispostos
trabalho a serem gerados, com renda mínima compa- a participar, capacitá-los e só depois definir o grupo
tível à do município e da região. É comum o número Esse procedimento permite uma convivência mais
inicial de interessados superar bastante o número próxima com os interessados, maior conhecimento
considerado viável, principalmente em municípios de de suas habilidades e maior acuidade na seleção. Ou-
médio e grande porte. tra vantagem é a possibilidade de capacitar um nú-
Quando a avaliação dos dados disponíveis indica mero excedente de pessoas, permitindo incorpo-
que o potencial de geração de renda naquela localida- rar rapidamente novos cooperados já treinados, sem-
de não é suficiente para integrar todos os interessa- pre que for ampliado o volume de recursos gerados
dos, impõe-se a necessidade de seleção (ver item 2.2). pela cooperativa.
O processo de seleção dos catadores deve con- Essas perspectivas devem ser consideradas, pois
siderar: em muitos casos será possível ampliar a área da cida-
• os objetivos do projeto e as características de de inicialmente coberta pela coleta seletiva, melho-
seu público-alvo. É importante ter clara a dife- rar os preços de venda dos materiais recicláveis ou
rença entre uma cooperativa economicamente agregar novas alternativas aos serviços prestados.
sustentável e um projeto de assistência social. É preciso cuidado para que o procedimento de
Essa é uma discussão a ser também resgatada escolha seja transparente. Todos os catadores de-
quando da análise dos dados; vem ser informados do processo, evitando decep-
• as desistências, por diversos motivos que ocor- ções e mal entendidos. Durante a capacitação, de-
rem durante o período de capacitação, tais como vem ser lembrados, também, de que estão passan-
mudança de cidade, doença, oferta de outro em- do por uma seleção.
prego, etc.;
• a possibilidade de desligamento do grupo por Alternativa 2 - realizar uma seleção prévia com
excesso de faltas, comportamento inadequado, base nos dados do cadastramento
falta de aptidão para o trabalho cooperado, en- Nesse caso, trabalha-se, já na capacitação, com
tre outros, pois o cadastro não detecta algumas um número de catadores próximo à estimativa de

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postos de trabalho a serem gerados. É aconselhável Alternativa 3 - reunir todos os catadores


que o grupo inicial selecionado seja maior do que o interessados, formar o grupo, capacitá-los e manter
número de pessoas previsto como “ideal” para a ope- todos os que quiserem participar da cooperativa
ração da cooperativa, dadas as possibilidades de de- Exemplificando. Se os programas assistenciais da
sistência ou desligamento. Prefeitura permitirem fornecer uma complementa-
Os critérios devem ser bem discutidos, poden- ção de renda para os catadores, pode-se optar por
do-se chegar a dois ou três critérios básicos e a elei- iniciar com um número maior, mesmo que a receita
ção de outros como critérios auxiliares. Por exem- gerada na cooperativa seja insuficiente, até o proje-
plo, considerar a pré-disposição para o trabalho em to alcançar seu nível máximo de captação de materi-
grupo e a disponibilidade para o trabalho em tempo ais recicláveis ou novas alternativas de rendimentos
integral como critérios básicos e o fato de ser arri- serem incorporadas ao projeto. Essa alternativa en-
mo de família ou viver exclusivamente do trabalho volve vários riscos, entre os quais a dificuldade ou
de catação como auxiliares. impossibilidade de criar novas formas de geração
de renda em tempo hábil, conduzindo ao desânimo;
e a descontinuidade política, possibilidade sempre
FIQUE ALERTA presente, principalmente em projetos que se conso-
É importante não reproduzir na seleção alguns lidam em prazos muito longos.
preconceitos que usualmente atingem, e exclu-
em, os trabalhadores mais velhos, os analfabe-
tos ou aqueles que apresentam alguma limita-
ção física. OUTRAS TRAJETÓRIAS
Outras alternativas podem ser pensadas: come-
çar a capacitação com um número claramente
menor que o viável e expandir gradativamente.
Como já ressaltado, algumas características dos
O que importa é chamar a atenção para o fato
catadores não podem ser adequadamente apreen-
de que não há uma escolha certa ou errada. Os
didas somente através do cadastro, exigindo maior
responsáveis pelo projeto devem tomar a deci-
interação com os coordenadores do projeto. Pode-
são que julgarem mais adequada, com base na
se, então, realizar um encontro, com a finalidade es-
observação de cada realidade específica, mes-
pecifica de efetuar a seleção, em que sejam desen-
clando alternativas, se for o caso.
volvidas atividades como dinâmicas de grupo que
facilitem essa apreensão.

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3.2.3. Convocação para a primeira reunião colhendo material porta-a-porta; um veículo fa-
zendo a coleta de recicláveis; uma “gaiola” de
A primeira reunião do grupo de catadores marca separação de uma Central de Triagem, etc.
o início do processo de capacitação, bem como de Normalmente, o conhecimento que os catado-
construção da cooperativa. Por isso, deve ser feito o res têm sobre trabalho cooperado é bastante reduzi-
máximo esforço para garantir a presença de todos. do, particularmente no que se refere à inexistência
Para convocá-los será necessário procurá-los indivi- de vínculo empregatício. Existem sempre muitas dú-
dualmente e aproveitar a ocasião para informá-los mais vidas sobre o trabalho que será realizado, o funciona-
e melhor sobre o projeto que se pretende implantar mento da cooperativa e assim por diante. Portanto,
e esclarecer suas dúvidas. Este é o primeiro retorno essa tarefa deve ser feita com calma, dando tempo
após a atividade de cadastramento e o primeiro sinal aos catadores para sentirem-se suficientemente à
claro de que o projeto está em andamento. vontade e colocarem suas dúvidas.
A convocação deve ser feita pelos membros da
equipe responsável pelo projeto e colaboradores.
Se a alternativa escolhida contemplar todos os cata- UMA CONVOCAÇÃO BEM FEITA
dores cadastrados, pode-se organizar uma força-ta- PREPARA MELHOR A REUNIÃO

refa com o pessoal de ONGs, funcionários da Prefei- Vale a pena preparar uma filipeta para deixar
tura e cidadãos voluntários. com o catador, contendo as informações bási-
Vale a pena utilizar todos os recursos disponíveis cas sobre a reunião: local, horário, data, telefo-
para tornar esse contato mais proveitoso. Assim, é ne e nome de um membro da equipe para con-
aconselhável: tato. Esse lembrete é importante, porque o ca-
• preparar um roteiro, para que todos os envol- tador pode não ter conseguido memorizar to-
vidos no trabalho repassem as mesmas infor- das as informações durante a visita e tenha fica-
mações; do embaraçado para perguntar.
• certificar-se de que todos os colaboradores e
membros da equipe estão falando a mesma
linguagem; 3.3. FORMAÇÃO DE FUTUROS
• usar palavras simples, de uso comum, para e- COOPERADOS
vitar falhas na comunicação;
• levar fotos ou desenhos para ajudar na explica- O principal objetivo da formação é incentivar
ção do projeto: um catador uniformizado, re- uma ação qualificada dos catadores na gestão de

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uma cooperativa, estimulando a participação e, as- tras formas de expressão que não só o uso da pala-
sim, garantindo a perenidade do empreendimento. vra: dramatização, desenho, colagem, pintura, uso
A formação deve ser um processo onde as expe- de argila ou materiais recicláveis para expressão
riências de vida dos catadores, seus hábitos de tra- artística e musical, danças, jogos, estudos de meio
balho cotidiano e suas deficiências escolares preci- (percepção ambiental), entre outros formatos que
sam ser levados em conta; afinal, o que se pretende estimulem os participantes a contribuírem com seus
é que eles sejam habilitados para exercer o trabalho próprios conhecimentos.
cooperado e criem uma identidade enquanto grupo
de trabalho. Espontaneidade
Para se cumprir tal objetivo é necessário atentar
para dois fatores essenciais na formação desses ato-
res: a criatividade e a espontaneidade.

Criatividade

Intervalo - momentos para bate-papo

Vários catadores têm dificuldade em se expres-


sar, muitas vezes em função de longos períodos de
trabalho individual e pelo isolamento. Assim, permi-

Campo Minado - jogo cooperativo


tir e valorizar que eles sejam espontâneos, mesmo
quando as falas não parecerem articuladas, pode me-
Por suas histórias de vida marcadas pela exclusão lhorar o desempenho de cada um e fortalecer a cons-
e preconceito, que se traduzem em desconfiança e trução da responsabilidade.
resistência ao novo, existe a necessidade de se des- Desse modo, a formulação de acordos coletivos
pertar a criatividade. Nesse sentido, deve-se pro- para o início, o intervalo e o término das atividades;
mover encontros educativos que possibilitem ou- a discussão de regras de convivência; a escolha do

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nome da associação ou cooperativa; ou a delegação Atividades lúdicas e dinâmicas de grupo, peque-


de pequenas responsabilidades aos grupos de tra- nos intervalos para o café e o lanche, sessões de
balho, que podem ir crescendo paulatinamente, pos- alongamento são boas estratégias para manter um
sibilitam o fortalecimento do grupo, ao qual cada clima favorável e a concentração da equipe. Os te-
um contribuirá, segundo suas capacidades. mas devem ser definidos segundo o perfil coletivo,
O processo de formação dos catadores deve pre- pois cada realidade vai exigir conteúdos, tempos e
ver duas fases diferenciadas. formatos diferentes.
Vale ressaltar que não há necessidade de interrom-
per a atividade de catação que já realizam, até por-
3.3.1. Primeira fase: formação básica que é dela que sobrevivem. A formação dos catado-
para consolidação do grupo res deve tentar conciliar essa atividade com os mo-
mentos de capacitação.
Esta fase deve ser mais concentrada. A periodici-
dade deve ser discutida de acordo com a realidade Conteúdos básicos para a primeira fase
de cada grupo. Num plano ideal, de 3 a 4 horas sema- Os objetivos propostos para a primeira fase da
nais são recomendáveis, não mais do que isso. De capacitação são:
modo geral, os catadores não estão acostumados a • estimular os catadores a se envolverem no
permanecerem muito tempo concentrados em um processo de tomada de decisões dentro do
único tema. espaço da cooperativa;

OFERECER COMPENSAÇÕES PARA MOTIVAR


Um bom lembrete é estabelecer um modo de com- compensações como a inclusão em algum programa
pensação aos catadores que irão participar da pri- social do município, cestas básicas, entre outras. No
meira fase de formação. Como o período é extenso entanto, o mais importante é condicionar o recebi-
e pode levar alguns meses, as horas presentes du- mento à freqüência ao curso. Por exemplo, a cada
rante a formação podem ser compensadas com al- três faltas no mesmo período, o benefício é cortado.
gum tipo de benefício para que o catador não saia Deve ficar claro, desde o início, que essa compensa-
“perdendo” pela não coleta de material no período ção é transitória e será gradativamente reduzida na
do curso. De modo geral, as experiências fazem medida em que a cooperativa se consolide.

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Capítulo 3 - Implantação de uma Cooperativa
- COOPERATIVA DE CATADORES DE MATERIAIS RECICLÁVEIS - GUIA PARA IMPLANTAÇÃO

• construir a identidade do grupo enquanto pro- compatíveis. Ao final da primeira fase de formação,
fissionais de reconhecida importância, agen- o galpão deve estar terminado ou em processo de
tes ambientais e lideranças em desenvolvimen- finalização. O risco das atividades terem ritmos muito
to local sustentável; diferentes é a desmobilização dos catadores e o des-
• instrumentalizar catadores para se utilizarem crédito da iniciativa por parte da comunidade.
de mecanismos de comunicação, tais como Nessa etapa, o grupo aprenderá fazendo. Coloca-
rádio, jornal, mural, expressão verbal, entre rá em prática os conhecimentos da primeira fase e
outros. O bom uso da comunicação facilitará terá acesso a novas informações em decorrência dos
o contato com as comunidades, setores co- desafios trazidos pelas atividades da cooperativa. Nes-
merciais, de serviços e outros, auxiliando no se momento, é importante descobrir as habilidades
convencimento da população a participar da de cada catador, resultantes de suas experiências de
coleta seletiva; vida. Um catador que já trabalhou com maquinário
• introduzir o conceito de formação de redes, facilmente poderá aprender a operar a prensa e os
articulando a cooperativa a outras entidades demais equipamentos da central de triagem. Um ou-
com as mesmas características, disponibilizan- tro com bom conhecimento sobre a cidade poderá
do informações sobre suas atividades, suas ex- estabelecer os roteiros de coleta.
periências e sua organização; A regularidade dos encontros, agora, fica por conta
• estimular a prática de resolução de conflitos do ritmo de trabalho do grupo com a coleta e a se-
para o exercício das responsabilidades comuns. paração dos materiais. O ideal é garantir a continuida-
Para se cumprir os objetivos acima propostos, de, mas com tempos menores, duas horas no máxi-
um modelo de grade de conteúdos poderia ser o mo, com o objetivo de discutir os problemas que
apresentado no Quadro 9. surgem durante a semana e acertar os passos de tra-
balho numa cadência coletiva. Nessas reuniões, é im-
portante contar com a presença de um profissional
3.3.2. Segunda fase: aprender fazendo que acompanhe o grupo em sua prática cotidiana.
É um trabalho desafiador. É na segunda fase que sur-
O segundo momento deve ocorrer no espaço gem os conflitos de convivência, vêm à tona os pro-
definido para o funcionamento da cooperativa. Por blemas com drogas e uso de álcool, as questões de
conta disso, os ritmos do processo de formação e ética, o caráter de cada um. São problemas com des-
de definição e implantação de um local para as ativi- vio de material, desentendimentos pessoais, formas de
dades de separação e beneficiamento devem ser trabalho conflitantes, privilégios e vários outros.

61
Capítulo 3 - Implantação de uma Cooperativa - COOPERATIVA DE CATADORES DE MATERIAIS RECICLÁVEIS - GUIA PARA IMPLANTAÇÃO

Quadro 9. Modelo de grade para a primeira fase de formação

MÓDULOS TEMAS CONTEÚDOS

Promoção e Auto-estima O módulo básico visa dar uma nova dimensão à auto imagem dos
Comunicação e Expressão catadores.
Nesse módulo, é importante que os catadores repassem suas ex-
Solidariedade e Relações Humanas
BÁSICO periências de vida, individuais e coletivas, para que se inicie a
História do Movimento Nacional de Catadores construção de uma identidade de grupo.
de Materiais Recicláveis Também objetiva promover seu reconhecimento enquanto cate-
Participação e Cidadania Ativa goria profissional importante para a sociedade.

Nesse módulo, iniciam-se as atividades que irão subsidiar a cria-


Economia solidária ção de uma cooperativa ou associação. Nele devem estar contidos
O que é cooperativismo os estudos sobre a comunidade onde se vai atuar: estudos de
Gestão de negócios meio, de percepção ambiental, visitas monitoradas. Nesse mo-
Cooperativismo Como implantar uma cooperativa mento, as pessoas vão se inteirando quanto às tarefas a serem
realizadas, à dimensão do trabalho cooperativo, à gestão do em-
e Gestão de Tipos de cooperativa e associação preendimento. Pode-se fazer um simulado da eleição de uma
Negócios Cooperação e comunidade cooperativa, a organização de uma assembléia, a elaboração de
Responsabilidades dos cooperados um regimento interno, entre outros exercícios práticos que con-
Cooperativismo: aspectos jurídicos tribuam para definições futuras e também para resolução de
conflitos.

Nesse módulo entram os conteúdos ambientais propriamente


Sociedade de consumo e meio ambiente
ESPECÍFICO ditos: entender quais são os ciclos de vida dos materiais, os dife-
Plástico e vidro rentes tipos de plástico, de papel, de metais, os valores desses
Alumínio e aço produtos no mercado, formatos de beneficiamento para agregar
Reciclagem Papel e outros materiais valor, a construção de um diagnóstico dos compradores dos ma-
teriais no município, a importância do trabalho dos catadores na
Saúde e segurança do trabalho
sociedade de consumo e, por fim, ter noções de saúde e seguran-
Estudos do mercado da reciclagem ça no trabalho de coleta e seleção dos materiais.

Esse módulo deve ser programado com o módulo de cooperati-


Empresa de alumínio, vidro, ferro, vismo e gestão de negócios e o de reciclagem. Ele é o processo de
reciclagem construção de um conhecimento dirigido para a prática. Ao visi-
Visitas Técnicas Empresa de plástico, de papel, tar outras cooperativas, empresas de reciclagem, aterros e lixões,
aterro sanitário o grupo pode ir construindo a sua proposta de cooperativa ideal,
estabelecendo comparativos, perguntando, questionando e pen-
Cooperativas e associações sando possibilidades.

$
Capítulo 3 - Implantação de uma Cooperativa - COOPERATIVA DE CATADORES DE MATERIAIS RECICLÁVEIS - GUIA PARA IMPLANTAÇÃO

Na maioria das vezes, os conflitos são resolvidos catadores devem participar do processo, assumin-
por meio de conversas coletivas ou soluções acorda- do funções antes desenvolvidas ou decididas em con-
das individualmente. Não há regra, cada equipe tem junto com os integrantes das entidades incubado-
um perfil diferente e propõe soluções diferentes. O ras. Também é importante nesse período reforçar
fortalecimento do grupo acontecerá a partir da cons- os temas que foram abordados durante a capacitação.
trução conjunta de soluções, para que, cada vez mais,
o grupo tenha condições de se auto gerir. Conteúdos básicos para a segunda fase
O essencial é que a equipe responsável pelo pro- Os objetivos propostos para essa fase são:
cesso de formação dos catadores seja constituída • desenvolver as habilidades pessoais e de traba-
de profissionais habituados a lidar com esse públi- lho em grupo dos catadores dentro do espa-
co. Por serem grupos especiais, muitas vezes afasta- ço da cooperativa;
dos do convívio social, é necessário o uso de uma • estabelecer grupos que consigam administrar
linguagem e uma condução diferenciada do conven- os diversos setores de trabalho;
cional, adaptada à realidade de cada localidade. • disponibilizar métodos para a resolução de con-
É importante registrar que a cooperativa, uma flitos de forma que estes sejam incorporados à
vez constituída, necessitará de mais algum tempo gestão da cooperativa;
de acompanhamento até que os catadores possam • fortalecer o grupo a partir da construção de so-
assumir de forma autônoma o empreendimento. O luções coletivas para os problemas cotidianos;
desligamento deve ser feito paulatinamente e os • promover uma rotina de trabalho com os cata-
dores, criando tarefas, atividades e ritmos.
Os conteúdos a serem trabalhados na segun-
da etapa estão diretamente relacionados ao
funcionamento e organização do espaço de
trabalho. Alguns temas sugeridos são apresen-
tados no Quadro 10.

Capacitação de catadores no galpão

$!
Capítulo 3 - Implantação de uma Cooperativa - COOPERATIVA DE CATADORES DE MATERIAIS RECICLÁVEIS - GUIA PARA IMPLANTAÇÃO

Quadro 10. Grade para a segunda fase de formação

TEMAS CONTEÚDOS CONTEÚDOS ESPECÍFICOS


Limpeza e
Organização do galpão, limpeza dos banheiros, escritórios, área do pátio, escala de tarefas.
organização
Cozinha e
Cardápio, manutenção da despensa, limpeza da cozinha, organização do refeitório.
alimentação

Saúde e Vigilância do galpão, exames de saúde dos catadores, vigilância sanitária, segurança do trabalho,
segurança manutenção dos equipamentos, equipamentos de proteção individual, orientação sobre consumo de
drogas e álcool, primeiros socorros.
FORMAÇÃO Roteiro do caminhão e carrinhos, manutenção dos PEVs, orientação à população durante a coleta,
Coleta
DOS GRUPOS manutenção do caminhão e carrinhos.
DE TRABALHO
Capacitação dos catadores, alfabetização, comunicação interna e externa, palestras nas escolas,
Educação
eventos nos bairros.

Finanças, pagamento dos catadores, controle de freqüência, auxílio aos grupos de trabalho,
Administração manutenção geral do galpão, organização da comercialização, divulgação dos resultados, articulação
institucional.

Triagem e
Separação dos materiais, controle do estoque, enfardamento, prensagem e balança.
beneficiamento

CRIAÇÃO DE UM Discussão sobre as regras de boa convivência, periodicidade das reuniões dos grupos de
REGIMENTO INTERNO trabalho, orientações gerais.

DEFINIÇÃO DE Capacidades e habilidades de cada catador (a partir do histórico de vida de cada um,
RESPONSABILIDADE levando em consideração a desenvoltura na primeira etapa de formação).

LEGALIZAÇÃO
Regularização da documentação individual dos catadores, elaboração e discussão do
DA COPERATIVA -
estatuto, função da assembléia geral, conselho fiscal, conselho consultivo.
ASSOCIAÇÃO

ELABORAÇÃO Estabelecimento das rotinas de trabalho, horários de entrada, saída, almoço e intervalos,
DO MANUAL DE definições sobre segurança e uso de equipamentos de proteção individual, normas gerais
PROCEDIMENTOS acordadas entre todos.

$"
Capítulo 3 - Implantação de uma Cooperativa - COOPERATIVA DE CATADORES DE MATERIAIS RECICLÁVEIS - GUIA PARA IMPLANTAÇÃO

3.4. CONDIÇÕES BÁSICAS PARA A


IMPLANTAÇÃO
ESCLARECENDO
Para os catadores, as condições básicas incluem:
A implantação de uma cooperativa de catadores
• fornecimento de cestas básicas;
requer um conjunto de condições básicas para trans-
• passe ou vale-transporte entre a residência
porte, triagem, beneficiamento e comercialização
dos catadores e o galpão de triagem;
dos materiais recicláveis, bem como de apoio aos
• atendimento à saúde, incluindo o tratamen-
catadores.
to de dependência química;
O cronograma de disponibilização da infra-estru-
• educação básica, com destaque para a alfa-
tura está estreitamente ligado às demais atividades
betização.
para colocar o projeto “em pé“. Idealmente, a cen-
tral de triagem já deve estar pronta para a capacita-
ção, em especial para a segunda fase (ver item 3.3.1),
podendo sediar os encontros para o exercício do
trabalho cooperado, antes mesmo do lançamento 3.4.1. Equipamentos necessários à coleta
da coleta seletiva. Já os veículos devem estar dispo-
níveis para a coleta, simultaneamente à divulgação Veículos para transporte
do projeto junto à população. A definição do meio de transporte a ser adotado
Entretanto, nem sempre é possível garantir es- na coleta envolve uma série de fatores, dentre os
sas condições logo no início. Esse fato não deve aba- quais: a disponibilidade de recursos financeiros que
lar o ânimo dos envolvidos. A realidade tem mos- permitam a aquisição ou o aluguel de veículos; a exis-
trado que, com perseverança e investimento em tência de parcerias locais que viabilizem a coleta dos
parcerias, é possível superar essa situação. materiais recicláveis por um tempo determinado;
Os equipamentos necessários à coleta dos mate- as distâncias a serem percorridas entre as fontes ge-
riais recicláveis e a estrutura de um galpão de tria- radoras e o local de triagem; a topografia local e os
gem, descritos a seguir, atendem à necessidade de transportes já utilizados pelos catadores.
uma “cooperativa de catadores” com um padrão mí- A parceria com a Prefeitura pode facilitar a viabi-
nimo de operação. O projeto deve contribuir para a lização do transporte, tanto através de frota pró-
dignidade, segurança e produtividade do trabalho dos pria, como mediante a inclusão de itens específicos
catadores e não reproduzir a precariedade, atual- no processo de licitação e contratação de emprei-
mente existente, de inúmeras iniciativas similares. teiras.

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Capítulo 3 - Implantação de uma Cooperativa - COOPERATIVA DE CATADORES DE MATERIAIS RECICLÁVEIS - GUIA PARA IMPLANTAÇÃO

Carrinhos de tração humana Carretas com trator e carroças com tração


Este é o transporte usual dos catadores de mate- animal
riais recicláveis, porém a adoção dessa alternativa Atendem às necessidades de projetos pequenos.
deve ser repensada por três motivos principais: São opções para o transporte de materiais como fo-
1) Perpetua a condição indígna vivida pelos cata- gões, geladeiras, etc. Podem também ser pensados
dores de ter que arrastar quantidades enormes para o transporte até as áreas de transbordo (acú-
de resíduos nas mais adversas condições, como mulo provisório dos materiais para coleta posterior)
em vias íngremes, no meio do trânsito e sob ou para a sua retirada nos postos de entrega voluntá-
chuva e sol intenso, muitas vezes. ria (PEVs). São mais viáveis em cidades de pequeno
2) O baixo valor de mercado de alguns materiais porte ou para projetos restritos a bairros.
recicláveis, associado à sua relação peso/volume,
torna a coleta por carrinho comercialmente Caminhão betoneira
inviável. Um carrinho lotado de plásticos, por Este é um veículo a ser evitado, porque mistura
exemplo, não pesa o suficiente para compen- os materiais e dificulta a triagem posterior dos mes-
sar puxá-lo por grandes distâncias. mos, reduzindo o seu valor ou até inviabilizando a
3) A circulação dos carrinhos nas ruas e calçadas, sua comercialização.
além de trazer risco ao catador, atrapalha o trân-
sito, causando manifestações agressivas por par-
te da população, principalmente nos centros ur- CAMINHÃO COMPACTADOR
banos maiores. Se esse tipo de caminhão for utilizado, convém
fazê-lo exclusivamente para a coleta seletiva de
modo a evitar o mau cheiro.
CARRINHO SÓ QUANDO NÃO
HOUVER ALTERNATIVA

No início dos trabalhos pode não haver re- Caminhão compactador


cursos para viabilizar meios de transporte ade- Alguns projetos utilizam esse tipo de veículo, teo-
quados e o carrinho passa a ser a única opção. ricamente otimizando custos, por permitir o recolhi-
Nesse caso, a adoção desse tipo de transpor- mento de mais material por viagem. Apresenta, en-
te deve prever sua substituição o mais rápido tretanto, as seguintes desvantagens:
possível. • aumento no rejeito de triagem, devido ao vi-
dro quebrado na carga;

$$
Capítulo 3 - Implantação de uma Cooperativa - COOPERATIVA DE CATADORES DE MATERIAIS RECICLÁVEIS - GUIA PARA IMPLANTAÇÃO

• maiores gastos com manutenção da prensa do Caminhão baú


caminhão, que compacta, no caso da coleta Esse tipo de veículo ou caminhões com a carro-
seletiva, materiais muito mais duros que o lixo ceria dotada de laterais mais altas constituem o trans-
domiciliar; porte ideal para a coleta seletiva. Podem transpor-
• limitação no recolhimento de grandes volu- tar mais de uma tonelada de materiais, desde que a
mes, como fogões e chaparia, que não cabem carga seja ajeitada para otimizar o espaço.
na abertura da caçamba;
• maior probabilidade da população confundir a
coleta seletiva com a de lixo.

IDENTIFICAR OS VEÍCULOS
Qualquer que seja o veículo adotado deve ser
identificado no padrão de comunicação visual
do empreendimento. Além disso, pode ser
dotado de sino ou de equipamento de som para
anunciar sua entrada nos bairros abrangidos nos
respectivos dias de coleta seletiva. Caminhão com grades laterais adaptado para a coleta

Recipientes para entrega de materiais


recicláveis
Esses recipientes - caçambas ou contêineres - são
normalmente instalados em Postos de Entrega Vo-
luntária - PEVs. Costumam ser coloridos e identifi-
cados segundo a Resolução do Conselho Nacional
do Meio Ambiente - CONAMA. Existem vários
modelos e tamanhos disponíveis no mercado, os
quais devem ser adotados de acordo com as neces-
sidades observadas no planejamento da coleta sele-
tiva (ver item 4.1) e podem ser usados para publici-
Contêineres em um PEV dade em troca de patrocínio.

$%
Capítulo 3 - Implantação de uma Cooperativa - COOPERATIVA DE CATADORES DE MATERIAIS RECICLÁVEIS - GUIA PARA IMPLANTAÇÃO

A adoção dos mesmos deve levar em considera- população. Na medida em que são processados os
ção o local onde será instalado (ao ar livre ou cober- materiais recicláveis e o não lixo, ele pode ser instala-
to) e a facilidade de limpeza e manuseio. Para agilizar do em área comercial ou residencial, não exigindo
a coleta, é interessante que o tipo adotado possa licença especial da Vigilância Sanitária. Se as únicas
ser esvaziado sem o uso de um munck. áreas disponíveis forem distantes do centro urbano,
é mais interessante, senão imprescindível, que o veí-
culo de coleta seja um caminhão.
3.4.2. Galpão ou central de triagem Dependendo do tamanho e das feições geográfi-
cas de cada município e da extensão da coleta seleti-
O galpão de triagem é o local que recebe e pro- va, a cooperativa pode contar com mais de um gal-
cessa os materiais coletados para comercialização. pão de triagem ou áreas de transbordo, aliviando as
Não se deve confundir esse galpão com uma “usina distâncias percorridas e o custo da coleta. Estraté-
de reciclagem”, presente em algumas cidades. En- gias dessa natureza implicam necessariamente em
quanto o galpão recebe materiais pré-selecionados maiores aportes de recursos e devem ser pensadas
pela população e coletados seletivamente, a usina re- com cuidado.
cebe lixo misturado, vendendo seus materiais reci- Os moradores do entorno do galpão precisam
cláveis sujos, a preços inferiores. ser esclarecidos, já nas etapas iniciais do projeto,
O galpão é a sede e a base operacional da coope- para não criar atritos posteriores (ver item 3.1).
rativa. Pode ter importante papel educativo ao rece-
ber visitação pública para a entrega de materiais, para Arranjo interno
o conhecimento das atividades ali desenvolvidas, bem Embora exista uma variedade de galpões de tria-
como para atividades de educação ambiental associa- gem, desde com chão batido até instalações indus-
das à coleta seletiva e à recuperação de resíduos. triais bem equipadas, deve-se buscar um padrão acei-
Por ser a sede da cooperativa, dois aspectos pre- tável e viável, especialmente para pequenos empre-
cisam ser considerados com cuidado: sua localiza- endimentos. O projeto da central deve prever ins-
ção e seu arranjo interno. talações que contribuam para a dignidade, a segu-
rança e produtividade no trabalho, facilitando a circu-
Localização lação de pessoas e veículos, a movimentação de car-
O galpão de triagem deve ser localizado, prefe- gas e minimizando os riscos de acidentes.
rencialmente, em área central, diminuindo o custo Um galpão básico contém área coberta para tria-
da coleta e facilitando o acesso aos cooperados e à gem e beneficiamento dos materiais, escritório, cozi-

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Capítulo 3 - Implantação de uma Cooperativa- COOPERATIVA DE CATADORES DE MATERIAIS RECICLÁVEIS - GUIA PARA IMPLANTAÇÃO

nha e refeitório, sanitários masculino e feminino, com res e outros equipamentos de proteção dos traba-
chuveiros, e área para guardar ferramentas. A área lhadores. Estes serviços técnicos são gratuitos.
externa deve abrigar estacionamento, local para lava- Na parte externa podem ser armazenados os ma-
gem dos veículos de coleta e baias (ou áreas) delimita- teriais triados que não necessitam de mais manuseio,
das para o armazenamento dos materiais recicláveis como chaparias e garrafas inteiras. É importante que
prontos para comercialização. as áreas específicas sejam definidas em número sufici-
A infra-estrutura inclui ligação elétrica específica ente de modo a poder receber todos os tipos e cate-
conforme os equipamentos a serem instalados, venti- gorias de materiais prontos para a comercialização.
lação, iluminação (inclusive à noite, para segurança),
pavimentação, drenagem de água de lavagem e trata-
mento de esgotos.
Quanto à segurança, pode ser solicitada a visto-
ria do Corpo de Bombeiros e do Serviço de Seguran-
ça e Medicina do Trabalho – SESMT, através da
Prefeitura, para avaliação da necessidade de extinto-

NÃO BRINQUE COM FOGO


Pode-se perder semanas de trabalho em pou-
cos minutos. Para diminuir os riscos de incên- Baia com garrafas de vidro (Sobloco)
dios, uma área para fumantes deve ser reser-
vada fora do galpão, longe da armazenagem O galpão poderá ter, por exemplo, ao invés de
dos materiais. uma baia para plástico misto, várias baias para os
diferentes tipos de plástico (PET, PVC, etc.). Para
armazenar os vidros quebrados, podem ser usadas
baias ou caçambas, às vezes cedidas pelos próprios
compradores.
O espaço dessas áreas deve permitir o armazena-
mento da produção de, pelo menos, 15 dias, perío-
do necessário para negociações com o comprador
que oferecer maior preço e melhores condições de

69
Capítulo 3 - Implantação de uma Cooperativa - COOPERATIVA DE CATADORES DE MATERIAIS RECICLÁVEIS - GUIA PARA IMPLANTAÇÃO

retirada. O espaço para cada material, dentro e fora tos e custos de operação e manutenção. E somente
do galpão, também pode ser dimensionado, toman- após um dado período de funcionamento será pos-
do por base os volumes equivalentes a cargas com- sível avaliar a necessidade de maquinários adicionais
pletas de um caminhão truck, o que otimiza o frete e, que incrementem a lucratividade das operações. A
conseqüentemente, a venda dos materiais. seguir, são descritos os equipamentos que atendem
É necessário reservar espaço na área coberta do às atividades de triagem e beneficiamento.
galpão para estocar os materiais:
• recicláveis recém-coletados, antes da triagem; Balança
• recicláveis triados, até o volume suficiente para Uma balança de plataforma é um equipamento
serem beneficiados; importante, porque possibilita controlar:
• recicláveis já beneficiados que não podem fi- • a entrada dos materiais, permitindo avaliar a ade-
car expostos à chuva e à umidade, como os são da população em cada roteiro de coleta;
fardos de papel. • a quantidade de materiais mal separados, su-
jos ou não recicláveis (rejeito);
• a venda dos materiais recicláveis.
Enquanto a cooperativa não dispuser desse ma-
quinário, podem ser utilizadas as balanças de indús-
trias da região ou designar um cooperado para acom-
panhar a pesagem dos materiais nas dependências
do comprador. A desvantagem, nesse caso, é que o
controle do fluxo de materiais só é feito no ato da
comercialização.
Silo de alimentação de esteira de triagem
Balcão, mesa ou esteira
São as estruturas onde ocorre a triagem manual
3.4.3. Equipamentos para triagem e dos materiais. O balcão é uma estrutura fixa, alimen-
beneficiamento tada por uma gaiola ou silo, que possibilita o armaze-
namento de quantidades maiores de materiais reci-
Como regra básica, recomenda-se adquirir ape- cláveis, otimizando o espaço vertical. O volume da
nas equipamentos que facilitem o trabalho e/ou agre- gaiola deve permitir estocar material por, pelo me-
guem valor aos materiais, pois implicam investimen- nos, dois dias, para não desorganizar o espaço caso

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Capítulo 3 - Implantação de uma Cooperativa - COOPERATIVA DE CATADORES DE MATERIAIS RECICLÁVEIS - GUIA PARA IMPLANTAÇÃO

Recicláveis em “big bags”

Esteira de triagem de fácil transporte e lavagem, conforme a estrutura


do galpão ou as exigências dos compradores.
a triagem da carga não possa ser feita imediatamen- Também devem ser previstos sacos plásticos pa-
te após sua chegada ao galpão. ra o rejeito da triagem a ser removido como lixo pela
Uma mesa simples (sem silo) é uma alternativa pro- coleta regular da Prefeitura.
visória, servindo para triagem de pequenas quantida-
des. O espaço ocupado pelo triador, tanto na mesa Prensa
como no balcão, é de aproximadamente 1,5 m. A prensa é um equipamento muito importante,
Uma alternativa a essas estruturas é a esteira ro- pois economiza espaço na armazenagem e otimiza
lante de catação, cujos custos de manutenção e ope- o transporte das cargas comercializadas, aumentan-
ração costumam ser altos, por isso podem ser cogi- do o seu valor.
tadas quando já se possui o equipamento citado. Para um galpão de triagem seria extremamente útil
uma prensa polivalente (para plásticos, papel, latas de
Bags ou bombonas alumínio e folha de flandres) que produza fardos de
Para organizar o espaço do galpão, os materiais já cerca de 40 kg, facilitando o manuseio e dispensando
triados são estocados até que haja volume suficiente uma empilhadeira. Alguns compradores, contudo, não
para beneficiamento (ver itens 4.2 e 4.3). Algumas aceitam fardos pequenos, que não compõem uma
cooperativas estocam os materiais em baias fixas, carga estável na carroceria do caminhão. Desse modo,
outras utilizam sacos grandes de ráfia reforçados, os num segundo momento, pode ser adquirida uma pren-
“big bags”, bombonas plásticas ou caixas retornáveis, sa hidráulica vertical para fardos maiores.

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Capítulo 3 - Implantação de uma Cooperativa - COOPERATIVA DE CATADORES DE MATERIAIS RECICLÁVEIS - GUIA PARA IMPLANTAÇÃO

Alguns compradores emprestam prensas, já que dos. Ela permite um melhor aproveitamento do espa-
a redução no volume dos materiais diminui também ço vertical, possibilitando o armazenamento de quanti-
as despesas com seu transporte. É bom lembrar a dades maiores, otimizando o frete e valorizando as
possibilidade de aquisição de equipamentos no mer- cargas nas épocas de “baixa” no mercado. Cuidados
cado de usados. devem ser tomados no empilhamento dos fardos para
que não ocorram acidentes.

Equipamentos de proteção individual


(EPIs) e uniformes
São indispensáveis, desde a coleta, durante todas as
atividades da cooperativa, e incluem calças, jalecos, capas
de chuva, calçados fechados ou botas, luvas e, depen-
dendo da máquina operada, proteção auricular e más-
cara. Os uniformes também são importantes na identi-
ficação dos catadores. Embora muitos resistam em
Fardos de papel
utilizar EPIs, alegando estarem habituados aos riscos,
é fundamental insistir nessa exigência.
Caçamba
A caçamba é um recipiente muito útil para arma-
zenar vidro quebrado e sucata ferrosa. Como o com- 3.5. E STABELECIMENTO DE PARCERIAS
prador desses materiais substitui uma caçamba cheia
por outra vazia, evita-se a disposição dos materiais Os núcleos de catadores existentes somam-se aos
diretamente no chão, organizando o espaço e facili- milhões de micro e pequenos empreendimentos in-
tando a remoção. Dependendo da quantidade pro- formais espalhadas por todo o país. Alicerçados na
duzida de cada material, pode ser cedida pelo pró- improvisação, desenvolvem, com raras exceções,
prio comprador. um trabalho pouco qualificado, comprometendo seu
potencial de crescimento e consolidação. Sobrevi-
Empilhadeira vem, quase sempre, à margem dos direitos sociais
Esse equipamento é dispensável no transporte e ma- e com ganhos muito baixos.
nuseio de pequenos fardos, mas torna-se importante Na contra corrente dessa dura realidade, entre-
se o galpão tiver uma prensa grande, para fardos pesa- tanto, várias iniciativas de órgãos oficiais e ONGs têm

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Capítulo 3 - Implantação de uma Cooperativa - COOPERATIVA DE CATADORES DE MATERIAIS RECICLÁVEIS - GUIA PARA IMPLANTAÇÃO

demonstrado que onde existem projetos sólidos de É fundamental que a administração pública tenha
parceria entre a comunidade, poder público e cata- sempre no horizonte a busca de autonomia por par-
dores, onde existem esforços para a capacitação des- te do grupo de catadores que está sendo incubado.
ses empreendedores, os negócios prosperam, ga- Embora à frente do processo, deve incentivar a par-
nham legitimidade e consolidam-se formalmente. ticipação das ONGs e dos cidadãos em geral de
A realidade tem mostrado que a implantação de modo a garantir a sustentabilidade do empreendi-
cooperativa de catadores comporta diferentes for- mento cooperativo, em especial, evitando os riscos
mas de parcerias e de caminhos para construí-las, que de descontinuidade devido a mudanças na política
dependem do perfil do projeto e das circunstâncias local (ver itens 2.1 e 3.1).
específicas em que ele é concebido e implantado. Os A competência dos quadros da Prefeitura para
formatos mais comuns são descritos a seguir. levar a cabo um projeto dessa complexidade deve
ser considerada. Se não houver, pode-se:
• alocar recursos para a contratação de servi-
Não há receita para o estabelecimento de par- ços especializados;
cerias visando a implantação de uma coopera- • buscar apoio junto às organizações da socieda-
tiva de catadores. O importante é estar aten- de civil; ou
to às peculiaridades locais e construir as alian- • aprender através do contato direto com expe-
ças de modo a dar legitimidade social ao em- riências bem sucedidas.
preendimento cooperativo.
PROVIDÊNCIAS NECESSÁRIAS
• Identificar o departamento ou secretaria
A administração pública como instituição mais adequada para abrigar o projeto.
promotora • Designar um funcionário com elevada moti-
Nesse caso, é importante que a equipe envolvida vação para coordená-lo.
elabore um “projeto social” de promoção e apoio à • Identificar, dentre os programas da adminis-
cooperativa de catadores e busque a sua inserção tração pública, aqueles que podem atender
no orçamento do município. A existência de um pro- às necessidades do projeto (renda mínima,
jeto social aprovado facilita a busca e a utilização dos cesta básica, alfabetização, passe, etc.).
recursos de diferentes instâncias públicas e o esta- • Criar condições para uma atuação integrada
belecimento de parcerias com a iniciativa privada e dos orgãos municipais.
setores organizados da sociedade local.

%!
Capítulo 3 - Implantação de uma Cooperativa - COOPERATIVA DE CATADORES DE MATERIAIS RECICLÁVEIS - GUIA PARA IMPLANTAÇÃO

A administração pública como parceira a não burocratizar a relação com a administração


do projeto pública, minando as possibilidades de intervenções
Nessa alternativa, o poder público não tem, ne- criativas.
cessariamente, a iniciativa nem a responsabilidade
principal pelo processo, mas é sempre um parceiro Projetos independentes do poder público
desejável. Até porque, o lixo urbano é de responsabi- De modo geral, esses projetos são articulados
lidade da Prefeitura. Assim, discutir as possibilida- por lideranças locais e, em alguns casos, por catado-
des de trabalho conjunto é vantajoso para todos os res apoiados ou não por alguma entidade. No entan-
envolvidos. É importante que as negociações permi- to, carecem de recursos, sobrevivem precariamen-
tam o máximo de clareza no compartilhamento das te ou naufragam. Entre as razões, destaca-se a dificul-
responsabilidades, especialmente quando se trata da dade de contar com pessoas aptas a captar recur-
busca ou disponibilização de recursos. sos e articular apoios para as atividades e necessida-
O convênioé o instrumento jurídico usualmente des do grupo.
utilizado quando o poder público se dispõe a reali- Os projetos independentes tendem a apresentar
zar parcerias, apoiando iniciativas privadas de interes- um tempo de consolidação maior. Isso porque vários
se público. Esta atividade de fomento pode assumir dos itens considerados importantes para a operação
diversas formas: repasse de verbas, uso de equipa- de uma cooperativa são difíceis de serem conse-
mentos, de recursos humanos e materiais, de imó- guidos, como, por exemplo, o galpão de triagem e o
veis, etc. O estabelecimento de um convênio pressu- caminhão para transporte de recicláveis. É sempre
põe a designação de um responsável que deverá ser importante estar atendo para não reproduzir a pre-
o interlocutor da administração pública para qual- cariedade de inúmeras iniciativas em andamento.
quer assunto relativo ao projeto. De preferência, uma Nessas condições, articular parcerias é fundamen-
pessoa que tenha entusiasmo pela proposta de modo tal e, nesse sentido, é recomendável:
• buscar uma aproximação com o poder públi-
co, entidades e profissionais locais;
REGISTRE • conhecer a disponibilidade real de recursos
É incompatível com a natureza do “convênio” das entidades parceiras - o que podem aportar
a previsão de remuneração aos catadores por ao projeto;
sua responsabilização pela prestação de ser- • identificar o grau de interesse pelo projeto;
viços de coleta seletiva no município. • verificar a credibilidade das entidades e dos
órgãos públicos;

74
Capítulo 4 - Funcionamento de uma Cooperativa - COOPERATIVA DE CATADORES DE MATERIAIS RECICLÁVEIS - GUIA PARA IMPLANTAÇÃO

• verificar seu grau de engajamento em proje- • informações gerais sobre o município e a re-
tos comunitários. gião que possam embasar o potencial de de-
senvolvimento da cooperativa.
3.5.1. O projeto como instrumento
Objetivos e metas do trabalho
Um projeto pode ser definido como um conjun- Os objetivos e metas devem estar basicamente
to de ações interligadas, voltadas para um objetivo focados na geração de emprego e renda, através da
bem definido. organização de uma cooperativa de catadores e sua
Quando se elabora um projeto de natureza social, capacitação.
por exemplo, parte-se do princípio de que uma dada
realidade deve ser mudada e que existem caminhos Justificativa
possíveis para a mudança. Trata-se de um documento Entre os argumentos, deve-se priorizar:
no qual se formulam objetivos, definem-se metas, es- • a importância da coleta seletiva enquanto com-
timam-se os recursos necessários, planejam-se as ponente da solução contemporânea na gestão
ações para viabilizá-lo e os mecanismos para acompa- dos resíduos sólidos municipais;
nhar seu andamento. É um instrumento de trabalho • a importância econômica da atividade dos
e, no caso, também um instrumento para a articula- catadores e a necessidade de agregar com-
ção de parcerias. Nesse sentido, convém contem- petência e valor a seu trabalho, bem como
plar os aspectos a seguir. sua importância como contingente social mar-
ginalizado;
Uma breve introdução • a caracterização da dimensão e da condição
Deve caracterizar o contexto que motivou o pro- de vida desse contingente social.
jeto e no qual será desenvolvido, com atenção para:
• os problemas locais relacionados aos resí- Atividades principais
duos sólidos: volume gerado, gastos públi- Listar as principais atividades que serão desenvol-
cos, formas de disposição (lixão, aterro sa- vidas, enfatizando:
nitário), impactos ambientais, pressão da po- • que se trata de um processo de incubação de
pulação ou de organismos públicos, etc.; médio e longo prazo, com ênfase na educação
• os aspectos sociais, particularmente aqueles ambiental;
concernentes aos níveis de emprego e renda • a importância do envolvimento da sociedade
e à existência de catadores; local.

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Capítulo 3 - Implantação de uma Cooperativa - COOPERATIVA DE CATADORES DE MATERIAIS RECICLÁVEIS - GUIA PARA IMPLANTAÇÃO

Recursos necessários Orçamento indicativo


Descrever os recursos necessários, como área co- Fazer uma estimativa dos gastos necessários para
berta, meio de transporte, equipamentos, benefícios cada tipo de item ou atividade.
para os catadores (cesta básica, passes), consultoria
e outros.
R ECOMENDAÇÕES
Resultados esperados • O projeto deve ser claro e objetivo.
Os resultados esperados devem ser claros e • Evite o excesso de páginas e quadros estatísticos.
factíveis: • Destaque a necessidade e a importância do
• apresentar uma primeira estimativa de renda período de incubação por parte das institui-
e número de postos possíveis; ções promotoras.
• aumento da vida útil do aterro e extinção do • Valorize a importância da capacitação dos ca-
lixão; tadores e das ações de educação ambiental.
• retirada das crianças do lixão, etc. • Não exagere na demanda por recursos.
• Procure conhecer todos os itens do projeto
Cronograma de implantação de modo a não “engasgar” na discussão com
Colocar prazos realistas para cada atividade. possíveis parceiros.

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