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CURSO DO PROF. DAMÁSIO A DISTÂNCIA

MÓDULO V

DIREITO INTERNACIONAL
Tratados Internacionais

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DIREITO INTERNACIONAL

Tratados Internacionais

1. INTRODUÇÃO

Em primeiro lugar, há de ser observado que os tratados internacionais


estão, no ordenamento jurídico nacional, no mesmo patamar da lei ordinária
federal. Basta uma simples leitura dos arts.102, inc. III, “b”, e 105, inc. III,
“a”, da CF, para se chegar a esssa conclusão.

Portanto, de certo modo, estão abaixo da lei constitucional.

O STF, em mais de uma ocasião teve oportunidade de assim decidir.


Entre a Constituição e um tratado, prevalece a Constituição.

Claro está que isso tem causado problemas para o Brasil, como
participante da sociedade internacional, porque o nosso país pode estar
obrigado internacionalmente e não cumprir internamente o tratado. Tal
situação pode provocar responsabilidades específicas diante do Direito
Internacional.

Nesses casos de divórcio entre a prática interna e os compromissos


internacionais assumidos pelo Brasil, só restaria a possibilidade de renunciar
ao tratado, como forma de manter a coerência. Foi o que ocorreu com a
Convenção n. 158 da OIT, assinada pelo Brasil.

Essa convenção foi ratificada pelo Congresso Nacional por meio


do Decreto Legislativo n. 68 de 16.09.1992. O instrumento de ratificação foi
depositado em 04.01.1995 e sua entrada em vigor se deu somente um ano
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após, em 1996; em 10.04.96 foi promulgada pelo Decreto Presidencial n.


1.855, todavia, em abril de 1997 o STF suspendeu os efeitos da Convenção por
não a entender auto-aplicável. A Convenção trata, dentre outras coisas, da
garantia de emprego, e o art. 7.º, I, da CF estabelece que tal garantia somente
poderá ocorrer por lei complementar. Como o Tratado (Convenção) tem, pela
nossa Constituição, natureza de lei ordinária federal, concluiu o STF que o
tratado precisava ser transformado em lei complementar. Não era auto-
aplicável.

Todas essas questões envolvem a posição do país perante o direito


internacional.

Significa fazer a seguinte pergunta: o Brasil obedece ao Direito


Internacional, quando a norma desse se opõe a uma norma interna?

Ao que tudo indica, o Brasil se alinha e interage na sociedade


internacional, admite a existência de uma ordem internacional, mas em
determinados assuntos prevalece o direito interno. Em outras matérias
prevaleceria o direito internacional.

A grosso modo, na teoria, essas posições recebem o nome de monismo e


dualismo. Os Estados, ora se encaixam numa ou noutra teoria:

a) Monismo com primazia no direito internacional

No Estado (País) que assim se posiciona, quando houver conflito entre o


direito interno e o direito internacional, prevalecerá o direito internacional.

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b) Monismo com primazia no direito interno

O Estado que assim se posiciona, na verdade, nega o direito


internacional, porque para ele sempre prevalecerá o direito interno.

c) Monismo com primazia no direito internacional não radical

Para os Estados que assim pensam, prevalece o direito internacional, exceção


feita a matérias fundamentais em que a primazia fica com o direito interno.

d) Dualismo

Admite a existência de duas ordens, uma internacional e outra interna.


Correm paralelas. Não há conflito entre elas porque cuidam de matérias
diferenciadas, isto é, têm campos diferentes. Se, todavia, houver um conflito,
incorpora-se o direito internacional ao direito interno, no que for fundamental e
admitido como válido pelo Estado, por meio de uma espécie normativa interna.

O Brasil é tido, ora como dualista, ora como monista com primazia no
direito internacional radical, ora como monista moderado.

Uma coisa é certa, o Brasil não é monista com primazia no direito interno.

Os tratados internacionais, uma vez ratificados pelo Presidente da


República, precisam do Decreto Executivo para a sua veiculação, para ter
aplicabilidade interna.

Os tratados que dizem respeito a direitos e garantais individuais, seguem,


porém, o regramento do art. 5.º, § 1.º, da CF. “As normas definidoras dos
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direitos e garantias fundamentais têm aplicação imediata”. Isto é, aplicam-se


sem dependência de norma inferior regulamentadora.

É certo que, como tudo em Direito, isso também depende de


interpretação. O que é norma fundamental? Segundo o que se pode deduzir da
Carta Magna, algumas matérias como as garantias individuais, os direitos à
vida, à liberdade, à igualdade, os chamados direitos humanos são
fundamentais.

Apesar do escrito nos dois parágrafos anteriores, existem juristas que


entendem sempre ser necessário o Decreto Executivo.

CONCEITO E NOÇÕES GERAIS

Tratado é o acordo formal concluído entre os sujeitos de Direito


Internacional Público – Estados, organismos internacionais e outras
coletividades – destinado a produzir efeitos jurídicos na órbita internacional.

É um ato jurídico complexo que envolve pelo menos duas vontades. Os


Estados, sujeitos primários da ordem internacional, são, em geral, os que
concluem tratados. Eventualmente, os tratados podem vir a ser concluídos pela
Santa Sé, por um organismo, como o Fundo Monetário Internacional – FMI,
ou como a OIT – Organização Internacional do Trabalho (eles próprios,
produtos de tratados), ou por uma associação regional de Estados, como o
Mercosul ou a União Européia.

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Existem em vigor, no mundo, mais de dez mil tratados – número


estimado por baixo – que movimentam as relações internacionais.

Não há no Direito Internacional um ponto que seja mais importante que


o outro, todavia, o estudo dos tratados deve ser feito com cuidado especial,
porque essa matéria apresenta, sem dúvida, o pano de fundo, o tecido básico
dos problemas e das soluções jurídicas internacionais.

O Direito Internacional, que era essencialmente costumeiro, a partir da


Segunda Guerra Mundial, passou a ser registrado no papel, tornando regras
internacionais conhecidas o que antes eram costumes e princípios,
comunicáveis normalmente. Hoje, qualquer estudante de Direito é conhecedor
de regras mínimas de convivência internacional. A matéria tornou-se
obrigatória nas faculdades de Direito, não só do Brasil, mas na grande maioria
dos países. Ocupar um cargo político no Estado não significa, nos dias atuais,
apenas manejar os instrumentos administrativos internos, porém, dirigir com
alguma eficiência, também, os instrumentos internacionais. O que motivou
essa transformação? Sem dúvida, a proliferação dos tratados.

ELEMENTOS

Do conceito que demos, inferem-se os seguintes elementos:

• existência de pessoas internacionais;

• atos de vontade de tais pessoas concretizados num acordo escrito;

• produção de efeitos além da esfera dos envolvidos.


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Acordos não escritos, embora admitidos no passado, tiveram vida curta,


não são mais admitidos. É uma questão de prova. A vida internacional gera
contendas e pontos de relevância ímpar para os Estados e para a sobrevivência
da humanidade.

Os tratados devem produzir certezas e não podem ser fontes de novas e


infindáveis disputas, ainda que a possibilidade de assim acontecer esteja longe
das nossas práticas.

Os Estados resolvem problemas por meio de tratados e, por vezes, criam


outros. Os fatos sociais e econômicos são, todavia, melhores controlados, nos
dias atuais, com esse maravilhoso instrumento internacional denominado
tratado.

A forma escrita já era prevista na Convenção de Havana, de 1928, e nas


Convenções de Viena, de 1969 e de 1986, Convenções sobre tratados.

As duas últimas são consideradas os tratados dos tratados,


principalmente a de 1969, que regulamenta toda matéria e é um Código dos
Tratados. Quando alguém quer saber como se faz um tratado, a consulta a essa
convenção é inevitável.

Os demais elementos – ato de vontade das partes e produção e efeitos


jurídicos – são auto-explicativos.

O tratado é um ato jurídico internacional advindo da vontade, ou melhor,


da combinação de vontades daqueles que têm personalidade jurídica
internacional, e deve produzir efeitos.

Sob esse último ponto – produção de efeitos –, a discussão está no fato de


saber se uma simples declaração internacional feita por diversos países pode ser
considerada um tratado. Existem opiniões a favor e contra. Entendemos que não.

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O tratado obriga, e a obrigação pode ser cobrada normalmente pelas vias conhecidas
da solução judiciária – acionar a Corte Internacional de Justiça e/ou Tribunais
Regionais –, ou pela arbitragem, que inclui, também, a Corte Permanente de
Arbitragem , ou, ainda, por outros meios internacionalmente aceitos.

Motivações políticas, discursos, acontecimentos internacionais podem


ser relevantes e podem influir jurídica, política e economicamente, mas não
são tratados stricto sensu. A discussão está aberta.

4. TERMINOLOGIA

Tratado é o nome que se consagra na literatura jurídica. Outros são


conhecidos como sinônimos: Convenção, Acordo, Pacto, Protocolo,
Regulamento, Declaração, Carta, Concordata, Convênio, Compromisso,
Estatuto, Ata, Memorandum etc.

Uma linguagem comum, entretanto, já vem sendo empregada na área


internacional, destacando alguns desses nomes para apontar alguns tratados
específicos:

Convenção (convention) – refere-se a tratado multilateral que estabelece


normas gerais a todos os partícipes, por exemplo, Convenção de Viena sobre
Tratados, Convenção de Viena sobre Relações Diplomáticas, Convenção sobre
o Direito do Mar, Convenções da OIT etc.

Acordo (agreement) – é empregado para os tratados mais simples, quase


sempre de natureza econômica. Tem características técnicas, administrativas. É

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normalmente temporário, por exemplo, acordos que o Brasil fez com o FMI
pedindo empréstimo de dinheiro. Há também o Acordo de Sede, aquele que
um organismo internacional faz com um Estado para se estabelecer em seu
território.

Protocolo (protocol) – é um tratado secundário, atrelado a um tratado


principal. Vem para complementar o tratado principal, implementar algumas
de suas cláusulas, corrigir os rumos do tratado original para alcançar o objetivo
proposto pelos países envolvidos, por exemplo, Protocolo de Brasília de 1991,
estabelecendo formas de solução de controvérsia, sem matérias comerciais, e
consolidando a estrutura do Mercosul, e também o Protocolo de Las Leñas,
sobre matéria civil, comercial, trabalhista e administrativa, envolvendo os
mesmos Estados-partes.

Carta, estatuto (charter, statute) – tais nomes são utilizados para


representar o tratado constitutivo das entidades internacionais, p. ex., a Carta
da ONU, a Carta da OEA, a Carta da OIT etc.

Concordata (concordat) – é nome usado exclusivamente para tratado de


que participe a Santa Sé (a Cúpula da Igreja Católica).

5. CLASSIFICAÇÃO

O critério para a classificação dos tratados é mais utilitário do que de


regime claro e diferenciador. São os conhecidos:

• critérios formais;

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• critérios materiais.

− Formais: dizem respeito à forma de apresentação dos


tratados.

− Materiais: dizem respeito à substância dos tratados.

Os tratados podem ser classificados:

a) Quanto à forma

• em relação ao número de partes:

− bilaterais (duas partes);

− multilaterais (mais de duas partes).

• em relação ao procedimento:

− tratados simplificados (não necessitam de ratificação);

− tratados solenes (necessitam de ratificação).

b) Quanto à matéria

• tratados-contratos (os Estados têm objetivos desiguais, por


exemplo, um tratado comercial é um contrato);

• tratado-normativo/lei (os pactuantes estabelecem regras gerais para


nortear o comportamento de todos, mas possuem objetivos iguais);

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• tratados de categorias especiais (têm conteúdo normativo, mas


adquirem importância específica, como é o caso das Convenções
Internacionais de Trabalho);

• tratados institucionais (também de conteúdo normativo, criam


instituições, como o que criou a ONU);

• tratados que criam organismos não dotados de personalidade


jurídica (como os que criam tribunais arbitrais, comissões mistas etc);

• tratados que criam empresas (como aquele que criou a Binacional


de Itaipu, envolvendo Brasil e Paraguai).

6. PROCEDIMENTO DO TEXTO CONSTITUCIONAL

Aqui destacamos um aspecto formal de suma importância.

Os tratados simplificados têm um procedimento mais curto: negociação e


assinatura.

Os tratados solenes têm um procedimento mais longo: negociação,


assinatura, aprovação legislativa, ratificação ou adesão.

Vamos às fases:

• Negociação: todo tratado inicia-se com a negociação, o bilateral,


entre dois Estados, com a troca de cartas, ou o multilateral,
envolvendo mais de dois Estados, com uma conferência diplomática.

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• Assinatura: nos tratados solenes, representa uma simples fase em que


há o reconhecimento do texto negociado. Os representantes do Estado
assinam o tratado concluído, autenticando o texto, mas não obrigam
internacionalmente o Estado por essa assinatura. Mas, nos tratados
simplificados, a assinatura ganha relevância porque com ela o Estado
se obriga internacionalmente.

É interessante notar que, no Brasil, a Constituição Federal de 1988


praticamente fechou as portas para o tratado simplificado:

“Art. 49. É da competência exclusiva do Congresso Nacional:

I – resolver definitivamente sobre tratados,


acordos ou atos internacionais que
acarretem encargos ou compromissos
gravosos ao patrimônio nacional;

Art. 84. Compete privativamente ao


Presidente da República:

............................................................

VIII – celebrar tratados, convenções e atos


internacionais, sujeitos ao referendo do
Congresso Nacional;”

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Assim, no Brasil, os tratados firmados por nossos representantes passam


pela negociação, assinatura e dependem de aprovação legislativa (se
acarretarem encargos ou compromissos gravosos) para depois serem
ratificados internacionalmente.

• Aprovação Legislativa: fase que vem depois da assinatura. Passa pelo


Congresso, é discutido e, se aprovado, encaminhado para a Presidência
da República, que enviará uma Carta de Ratificação.

• Ratificação: é o ato unilateral do Estado, co-partícipe de um tratado,


quando expressa, em definitivo, sua vontade perante a comunidade
internacional.

• Adesão: tem igual natureza da ratificação e ocorre quando, nos


tratados unilaterais, um ou outro país, que não participou das
negociações iniciais, quiser aderir ao tratado. Daí por que se diz que
esses tratados são abertos à adesão.

Observe-se que a assinatura nos tratados simplificados tem o mesmo


efeito da ratificação e da adesão, isto é, obriga internacionalmente o Estado.

7. CONDIÇÕES ESPECÍFICAS DOS TRATADOS – VIGÊNCIA –


ESTRUTURA – EXTINÇÃO

A validade do Tratado depende da capacidade das partes, da


habilitação de seus agentes, do consentimento e de objeto lícito.
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• Consentimento: o Tratado só é válido quando consentido sem vícios.


Como acontece no direito interno, o ato jurídico não pode ter vícios,
erro, dolo, coação etc.

• Capacidade das partes: significa que o Tratado somente pode ser


concluído por Estados soberanos, organismos internacionais que
tenham essa capacidade (Estatuto do Organismo) e Associações de
Estados.

• Habilitação dos agentes signatários: são agentes signatários aqueles


que negociam e assinam o Tratado em nome do Estado. A habilitação
se faz com a apresentação de carta de plenos poderes. O Chefe do
Estado e o Ministro das Relações Exteriores não necessitam de carta
de plenos poderes porque são representantes naturais do Estado.

• Objeto lícito: o Tratado não pode ter por objetivo coisa materialmente
impossível e/ou contrária aos princípios e regras internacionais e ao
que se considere moralmente aceitável.

Normalmente os acordos devem ser registrados no secretariado da ONU


(art. 102 da Carta).

7.1. Estrutura dos Tratados

O Tratado tem uma estrutura relativamente simples: preâmbulo, parte


dispositiva e, eventualmente, anexos.

• Preâmbulo: conforma a descrição e qualificação das partes e as


considerações que o ensejaram.

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• Parte dispositiva: é a parte essencialmente jurídica, ordenada em


artigos.

• Anexos: podem existir ou não, dependendo do teor do Tratado. São


fórmulas, gráficos, lista de produtos em documentos que
complementam e esclarecem cláusulas contratuais.

7.2. Extinção dos Tratados

Cada Tratado dispõe sobre a sua própria duração.

Poderá extinguir-se o Tratado, como é lógico, pela execução integral de


seu conteúdo.

Existem outros modos de extinção: pela expiração do prazo; pela


verificação de uma condição resolutória prevista expressamente; pelo acordo
mútuo; pela renúncia unilateral (sem prejuízo da outra parte); pela denúncia
(quando expressamente admitida) e pela impossibilidade de execução.

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