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A D E R N OS N C CO NSERVAÇ ÃO &   R ESTAU R

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10 €
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A

 

ED ITO R I AL

Procuramos, com este segundo número dos Cadernos do Instituto Português de Conservação e Restauro,

responder a uma necessidade sentida por todos quantos se dedicam profissionalmente à conservação e ao restauro, ou

se preocupam com as problemáticas da preservação do património, em dispor de documentos normativos que enquadrem

a profissão nos aspectos metodológicos e éticos e que desenhem a evolução dos seus objectivos e princípios.

Como é sabido, os textos fundamentais sobre a conservação e restauro – os já com valor histórico e as reflexões mais recentes–, não se encontram vertidos para português e só podem ser consultados na língua original ou através das muitas traduções que os nossos vizinhos ibéricos têm vindo a disponibilizar. Para este facto contribuem segura- mente a modesta dimensão da nossa produção editorial, ainda mais sentida no tocante à literatura de âmbito cien- tífico e tecnológico, assim como a pequena dimensão do universo potencial de leitores, atendendo ao número dos profissionais que se dedicam estritamente à conservação e restauro, embora seja já mais considerável a fatia de mer- cado correspondente ao número dos potenciais interessados nas temáticas ligadas à defesa do património. Ainda assim, deverá ser realçado o facto de há longos anos o país, a comunidade profissional, os estudantes e investi- gadores, disporem de uma instituição onde pode ser consultada a bibliografia internacional de referência, desde os textos fundadores da disciplina da conservação e restauro, às abordagens contemporâneas, nas suas vertentes téc- nicas, até às especulações mais de índole filosófica.

nicas, até às especulações mais de índole filosófica. 3 9 15 21 31 33 41 Restauro
nicas, até às especulações mais de índole filosófica. 3 9 15 21 31 33 41 Restauro
nicas, até às especulações mais de índole filosófica. 3 9 15 21 31 33 41 Restauro
nicas, até às especulações mais de índole filosófica. 3 9 15 21 31 33 41 Restauro
nicas, até às especulações mais de índole filosófica. 3 9 15 21 31 33 41 Restauro
nicas, até às especulações mais de índole filosófica. 3 9 15 21 31 33 41 Restauro

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Restaurotéc- nicas, até às especulações mais de índole filosófica. 3 9 15 21 31 33 41

ICOMtéc- nicas, até às especulações mais de índole filosófica. 3 9 15 21 31 33 41

ECCOtéc- nicas, até às especulações mais de índole filosófica. 3 9 15 21 31 33 41

AICtéc- nicas, até às especulações mais de índole filosófica. 3 9 15 21 31 33 41

Paviatéc- nicas, até às especulações mais de índole filosófica. 3 9 15 21 31 33 41

Encoretéc- nicas, até às especulações mais de índole filosófica. 3 9 15 21 31 33 41

Naratéc- nicas, até às especulações mais de índole filosófica. 3 9 15 21 31 33 41

Refiro-me à Biblioteca do antigo Instituto de José de Figueiredo, hoje IPCR, onde são disponibilizados

Refiro-me à Biblioteca do antigo Instituto de José de Figueiredo, hoje IPCR, onde são disponibilizados para consulta cerca de 5 000 títulos da

literatura fundamental sobre a preservação do Património, assim como dezenas de títulos de publicações periódicas especializadas, a que se estão

a

juntar os centros de documentação que se sedimentam nas Universidades

e

Politécnicos com formação nesta área.

e Politécnicos com formação nesta área. Mas nada substitui o facto de se disporem dos instrumentos

Mas nada substitui o facto de se disporem dos instrumentos fundamentais na nossa língua e esse é um imperativo a que o IPCR, apesar da modéstia dos seus recursos, não podia deixar de responder. Em abono da verdade, impõe-se dizer que o Boletim da Associação para a Defesa da Conservação e Restauro (ADCR) tem igualmente tido esta preocupação e já trouxe a público textos importantes, nomeadamente o Documento de Pavia que também incluímos neste número por ser uma das traves-mestras do esforço crescente que a nível europeu se vem desenvolvendo para a afirmação, o reconhecimento público e a credi- bilização junto das diferentes instâncias do poder da profissão de conservador-restaurador, assim como da necessidade de formação, ao mais alto nível, que esta disciplina implica. Para além deste documento, incluímos três códigos de ética de distintas organizações, a ECCO (European Confederation of Conservator-Restorers’ Organizations), o ICOM-CC (International Council of Museums – Comittee for Conservation) e o AIC (American Institute for Conservation of Historic and Artistic Works), recomendações para a formação ao nível universitário do ENCoRE (European Network for Conservation-Restoration Education) e as Recomendações da APEL (Acteurs du Patrimoine Européen et Légis- lation), igualmente sobre o reconhecimento dos níveis de qualificação exigidos para esta actividade e o Documento de Nara sobre o “respeito pela diversidade cultural e patrimonial na área da conservação”. Este número inclui ainda o texto “Restauro, entre o existir e ser”, onde se reflecte sobre a evolução do conceito de restauro e o modo como foi sendo plasmado na legislação que enquadra a preservação do Património em Portugal. Resta esperar que esta recolha de textos possa constituir-se como um instrumento de trabalho e de reflexão, mais um contributo para a afirmação da Conservação e Restauro como importante actividade profissional que constitui igual- mente uma área de estudo, investigação e desenvolvimento de enorme potencial.

Ana Isabel Seruya Directora do IPCR

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mente uma área de estudo, investigação e desenvolvimento de enorme potencial. Ana Isabel Seruya Directora do
ficha técnica
ficha técnica

Direcção Ana Isabel Seruya • Coordenação Rui Ferreira da Silva • Traduções Ana Isabel Seruya, Gabriela Carvalho, Alexandra Curvelo, Francisca Figueira, Emilia Matos e Associação para a Defesa da Conservação e Restauro (ADCR) • Edição Instituto Português de Conservação e Restauro – Rua das Janelas Verdes – 1249-018 Lisboa • Tel. 21 393 42 00 • Fax. 21 397 00 67 • e-mail. ipcr@ipcr.pt www.ipcr.pt • Créditos Fotográficos IPCR Todos os direitos reservados • Design João Machado • Produção João Machado Design Lda • Pré-impressão Loja das Ideias • Impressão Orgal • ISSN 1645-

1902 Depósito legal 184 033/02 Distribuição nacional

Os documentos originais podem ser consultados em http://palimpsest.stanford.edu/byorg/ecco/ http://www.apel-eu.org/ • http://www.unesco.org/whc/archive/nara94.htm • http://www.icom.org/

• http://www.icom.org/ 2 • http://aic.stanford.edu/ •

2

http://aic.stanford.edu/

http://www.encore-edu.org/encore/documents/cp.pdf

Mário Pereira Subdirector do IPCR

Mário Pereira Subdirector do IPCR Frontal de Altar. Igreja do Convento de N.ª Sra. da Conceição.

Frontal de Altar. Igreja do Convento de N.ª Sra. da Conceição. Almodôvar

Colunas de Altar Capela do Bom Jesus,Convento da Arrábida

1 Cf. Maria Dolores Ruiz de Lacanal –

El Conservador-Restaurador de Bienes

Culturales: História de la profesión.

Editorial Sintesis, 1999.

RESTAURO, ENTRE O EXISTIR E SER

Editorial Sintesis, 1999. RESTAURO, ENTRE O EXISTIR E SER De entre as múltiplas formações que intervêm

De entre as múltiplas formações que intervêm

O

ano de 1793, com a criação do Museu Central

nas acções de Conservação e Restauro, interes-

das Artes de Paris (que absorve as colecções

sa-nos considerar, aqui e agora, a actividade do Conservador-restaurador sem poder deixar de ter em conta que é precisamente quando cami- nhamos para uma sociedade que se prenuncia como hiper-especializada que mais se sente a

reais), é um importante marco para a história da conservação e restauro. Como que estabelece uma fronteira ao apontar para uma nova menta- lidade pela forma diferente de o restaurador se posicionar perante uma colecção pública.

necessidade da interdisciplinaridade.

É

neste novo contexto, com o desenvolvimento

É

importante, quando falamos de Conservação

do fenómeno museístico, em que a sociedade

dramento de colecções, que agora são públicas,

e

restauro, passar um olhar por aquele que foi

declara expressamente o seu interesse por

percurso do restaurador e verificar como começou por ser uma profissão/actividade relativamente incaracterística, anónima e necessariamente unida ao artista.

o

alguns objectos, é neste âmbito e neste enqua-

que surge o restaurador profissional. Temos, assim, um profissionalismo que se vai afirman-

O

processo de profissionalização só terá lugar

do à medida que o restauro vai deixando de

com o aparecimento das colecções públicas, nos primeiros museus, onde ficará “encrava-

estar sujeito ao gosto do cliente privado e ultra- passando as imposições do coleccionador.

da”, para, ao longo do Séc. XX, se ir dispersan- do e consolidando por outros serviços.

É,

do restaurador se efectua sobre “bens da

pois, na oficina do Museu, em que o trabalho

vista histórico- artístico e em que se vai tor-

O

restaurador artista aparece ligado a um contex-

nação”, e já não sobre património privado, que

to

específico do colecionismo, em que havia uma

surge a necessidade de se justificar a interven-

ambiência que aceitava com naturalidade os ter- mos repintar, retocar, recompor, integrar, reinte-

grar, reconstruir e restaurar, e em que existia uma efectiva ligação entre criação e restauro, o que, naturalmente, propiciou o artista restaurador.

ção e em que, por isso, passa a ser produzida documentação sobre a intervenção, passa a ser necessário fundamentá-la sob o ponto de

nando cada vez mais essencial o conhecimento

É

a própria evolução do conceito de obra de

de Física e de Química.

arte (estilo, mestre e autoria), sobretudo quan-

do a antiguidade aparece como um valor digno,

apreciado, e merecedor em ser conservado, que opera a transformação do conceito de res- tauro e são estas conceptualizações que confe- rem, a partir de então, um respeito que é tam- bém histórico- artístico.

É aqui, nesta actividade pública, que se vai cal- deando o restaurador com um perfil que é ao mesmo tempo humanista e cientista 1 . Para além da vertente artística, e porque se trata de intervenção num Património que agora é colectivo, terá de haver um respeito pela comunidade, ou seja, estamos também

3

num Património que agora é colectivo, terá de haver um respeito pela comunidade, ou seja, estamos
Ressurreição de Lázaro (pormenor) Charola do Convento de Cristo. Tomar 2 Gabriel Pereira, Monumentos Nacio-
Ressurreição de Lázaro (pormenor) Charola do Convento de Cristo. Tomar 2 Gabriel Pereira, Monumentos Nacio-
Ressurreição de Lázaro (pormenor) Charola do Convento de Cristo. Tomar 2 Gabriel Pereira, Monumentos Nacio-

Ressurreição de Lázaro (pormenor) Charola do Convento de Cristo. Tomar

2 Gabriel Pereira, Monumentos Nacio-

nais, Livraria Ferreira, Lisboa, 1909.

3 Idem

4 Relação dos Monumentos Nacionais.

Imprensa Nacional, Lisboa, 1904.
Imprensa Nacional, Lisboa, 1904.

perante problemas de ética requeridos pela intervenção. Os problemas que se prendem com a profissão e com teorias de restauro, têm vindo a ser objecto de várias “doutrinas” que atingiram as suas máximas expressões com Cesari Brandi e Paul Philipot.

Em Portugal, Mendes Leal afirmava, em 1858, que, apesar dos Alvarás de 1721 e 1802 serem

uma prova da zelosa solicitude e grande ilus-

e uma precaução patriótica contra

) infeliz-

mente não tem sido cumprida e muitos anos vão frustrados para este empenho de naciona- lidade de progresso e dignidade”. 2

No Séc. XIX, sobretudo depois da extinção das Ordens Religiosas (1834), apesar de as ques- tões relacionadas com o Património serem tra- zidas para a “ordem do dia” com Herculano, Mouzinho de Albuquerque, Possidónio da Silva, Sousa Holstein, Vilhena Barbosa e Ramalho Ortigão, desde muito cedo que assis- timos a alguma complacência política com o incumprimento da legislação referente ao património, ao mesmo tempo que grassa o abandono, o desleixo e a incúria. “Em todos os paizes civilisados se affirmam os cuidados, as responsabilidades, e os carinhos em salvar puras as reliquias do passado, em evitar arranjos pittorescos, suppostas restau- rações que estraguem, desnaturem, falsifi- quem o trabalho artistico. Em Portugal fizeram-se innumeras barbarida- des; gastaram-se grossas quantias em serenos vandalismos. Quando era muito melhor respei-

tar integralmente o que estava(

tração (

as cegas temeridades do camartelo (

)

).

Restaurar! diz Viollet le Duc. Conservar salvar da ruina! diz-se hoje: porque já se tem a expe- riencia do que pode fazer, do mal irreparavel que pode produzir o architecto no edificio, o

pintor nas telas e nas taboas pintadas; prodi-

gios de engenho talvez, mas que se arriscam

muito a ser falsificações.

( )

saber ou engenho capazes de salvar as obras

Com a theoria de Viollet de Duc não há

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de arte do arbitrio; e o arbitrio é n’este caso uma falsificação, uma ratoeira aos vindouros, e mentira aos contemporaneos.

( )

«é vergonha enganar os de agora, maior ver-

gonha enganar os vindouros», condemna a

theoria de Viollet le Duc por levar fatalmente á

falsificação(

Portugal não passou à margem das grandes querelas que caracterizaram o Séc. XIX, Ruskin, Boito e Viollet le Duc tinham, entre nós, os seus defensores e os seus detractores. Entretanto, o vazio legal, existente entre nós, fez com que iniciativas como as da Real Asso- ciação dos Architectos e Archeologos Portu- guezes não pudesse ter dado andamento à famosa relação dos monumentos nacionais proposta em 1880, por Vilhena Barbosa, para classificação. A título informativo talvez impor- te sublinhar que esta proposta dividia os “Monumentos Nacionais e Padrões Históricos e Commemorativos de Varões Illustres” em seis classes que iam desde os “Monumentos histo- ricos e artisticos, e os edifficios que sómente se recommendam pela grandeza da sua construc- ção, pela sua magnificencia ou por encerrarem primores de arte” até aos “Monumentos pre- historicos Dolmens ou antas, men-hirs, mamu- nhas, etc.” passando por “Edifícios Importan- tes para o estudo da história das artes em Por- tugal, ou sómente históricos, mas não grandio- sos ou simplesmente recommendaveis por qualquer excellencia de arte” e por “Monumen- tos levantados em logares publicos pela grati- dão nacional, em honra de homens que bem mereceram da patria”. 4

As designações utilizadas para a sistematização

das diferentes Classes, para além da sua impor- tância cultural, não deixam, também elas, de ser sociológica e politicamente relevantes. Em 1898, Elvino de Brito criou o Conselho Superior dos Monumentos Nacionais que, em

1901, viria a ser reformulado pelo Ministro das Obras Públicas, conselheiro Vargas.

O ano de 1901 foi um ano importante para o

Património Cultural português. Em 30 de

Ora Boito citando um provérbio oriental:

).”

3

Dezembro publicou-se o Decreto com a “decla- ração das bases da classificação dos imóveis

que devam ser considerados monumentos nacionais, e bem assim dos objectos mobiliá- rios de reconhecido valor intrínseco ou extrín- seco pertencentes ao Estado, a corporações administrativas ou a quaisquer estabelecimen-

os objectos mobiliários classi-

ficados pertencentes ao Estado são considera- dos inalienáveis e imprescritíveis; os das cor- porações e estabelecimentos públicos, excep- tuados os museus, não poderão ser restaura- dos, reparados nem alienados sem autorização do ministro, ouvido o Conselho ”. Desde 1901 que a legislação tem vindo a enqua- drar aquilo que tem sido o alargamento do con- ceito de Património Cultural. Assim, em 1932, pelo Decreto n.º 20.985 é introduzida a figura de “Imóvel de Interesse Público” e, pelo Decreto n.º 21.875, é autorizado o estabelecimento de “Zonas Especiais de Protecção”, o “Imóvel de Valor Concelhio” só virá a ser reconhecido em 1949, pela Lei n.º 2.385 que promulga as dispo- sições sobre a protecção e conservação de todos os elementos ou conjuntos de valor arqueológi- co, histórico artístico ou paisagístico concelhios. Em 1972 , a UNESCO, na Convenção de Paris, como que vem a fechar o círculo das modalidades inseríveis nos actuais modelos de património ao

tos públicos (

)

promulgar a “Convenção sobre a Protecção do Património Mundial, Cultural e Natural”.

No entanto, e apesar desta evolução jurídi- co/conceptual, foi necessário esperar pelo Dec.-Lei n.º 245/80, de 22 de Julho, para, no seu Art.º 8º, encontrarmos referências expres- sas às atribuições e competências dos profis-

sionais de conservação e restauro

co de Conservação e Restauro sabe analisar as causas de deterioração dos bens culturais que lhe sejam confiados e decidir do tratamento mais adequado; sabe executar todas as tare- fas que dizem respeito à sua especialidade e tem capacidade para ensaiar novos métodos e produtos e para orientar os técnicos auxiliares e artífices que façam parte da sua equipa de trabalho”.

O técni-

façam parte da sua equipa de trabalho ”. “ O técni- É, efectivamente, um importante passo
façam parte da sua equipa de trabalho ”. “ O técni- É, efectivamente, um importante passo

É, efectivamente, um importante passo para res-

ponder a uma realidade que começava a exigir maiores definições. No próprio preâmbulo deste Dec-Lei fala-se da necessidade do trabalho de

equipa interdisciplinar (História, Arqueologia,

para justificar o técnico de Conserva-

ção e Restauro que classifica como sendo aque-

sabe garantir a preservação das con-

dições materiais do objecto, identificá-lo como

falso ou verdadeiro e restaurar-lhe a aparência e a estrutura quando a acção do tempo, incúria ou qualquer catástrofe as alterou”.

A profissão de Conservador-restaurador que

sempre estivera indefinida, e sem qualquer tipo

de enquadramento jurídico/funcional, começava

agora a dar os primeiros passos no sentido da sua definição e da sua regulamentação. Tinham-se criado as condições para viabilizar uma formação direccionada para a conservação

le

Química

)

que “(

)

Ressurreição de Lázaro (pormenor)

5

uma formação direccionada para a conservação le Química ) que “ ( ) Ressurreição de Lázaro
Nenhuma disposição legal a instituiu, regula a sua organização e funcionamento ou estabele- ce as
Nenhuma disposição legal a instituiu, regula a sua organização e funcionamento ou estabele- ce as

Nenhuma disposição legal a instituiu, regula a sua organização e funcionamento ou estabele- ce as condições de execução dos trabalhos. Umas vezes procede-se como se dependesse da Junta Nacional da Educação, outras vezes como se constituísse um anexo do Museu. Ao fim e ao cabo ninguém exerce nela efectiva

e regular superintendência: a Junta, em cujo

orçamento se inscreve a verba que permite mantê-la embora precariamente, não o pode fazer , porque isso não é compatível com a sua

índole, e o Museu, naturalmente, retrai-se por falta de título que legitime a sua intervenção. Nestas condições, e com recursos financeiros muito limitados, a oficina, durante largos anos servida pela perícia e a intuição admiráveis de Luciano Freire e de Fernando Mardel, não tem podido corresponder, com a amplitude requerida,

Ressurreição de Lázaro (pormenor)

e restauro e é na sequência deste diploma que,

Há um notório desfasamento entre o que se

missão que, embora de facto, lhe está confiada. Nem sequer às pinturas dos museus dispensa na medida necessária a vigilância e tratamen-

à

em 1981, funcionou, no IJF, o primeiro curso

to

que elas reclamam.

que habilitou profissionais para intervir nesta

E,

além destas muitas obras espalhadas pelo

área. No entanto, promovida pelo IPPC (Eng.º

País, mal defendidas das injúrias dos homens

António Lamas), a Escola Superior de Conser-

e

do tempo, arrumadas em locais sem a devida

vação e Restauro só viria a ser criada pelo Dec- Lei n.º 431/89. Foi, pois, esta a Escola que, jun- tamente com o Instituto Politécnico de Tomar (Portaria n.º 623/89), prepararam os primeiros

preparação, expostas a fortes oscilações de temperatura, carecem dos seus cuidados, e, à falta deles, vão sofrendo grandes danos ou se vão perdendo.

técnicos que, com formação específica, come-

(

)

O novo Instituto recebe, em homenagem

çaram a dar resposta às crescentes solicita- ções de um mercado em alta.

passa na formação e aquele que é o exercício de uma actividade com ela relacionada. Em relação a esta actividade podemos situar o ano de 1965 como o ano charneira, uma vez que, com a publicação do Dec-Lei n.º 46.758 se pro-

devida a quem tão altos e devotados serviços prestou à arte, o nome de José de Figueiredo. Tendo como sede o edifício que foi o primeiro no Mundo a ser estudado e construído espe- cialmente para instalação de serviços desta natureza, compreende duas secções: laborató- rio e oficina.

primeira, destinada a favorecer, pela utiliza-

A

cessa um importante salto qualitativo. “(

)

A

ção de processos físicos e químicos de análise, quer o estudo das obras de arte, quer a prepa-

oficina de beneficiação de pintura, que duran- te muitos anos funcionou no antigo Convento

de S. Francisco da Cidade e que em 1946 se transferiu para dependências do edifício cons- truído junto ao Museu Nacional de Arte Antiga,

ração do seu restauro, encontra-se já apetre- chada com material para exames de raios X, de raios infravermelhos e de raios ultravioletas, para fotografias à luz rasante e à luz das lâm- padas de sódio, para macro e microfotografia.

tem mera existência de facto.

(

)

Na dependência desta secção ficam as equi-

macro e microfotografia. tem mera existência de facto. ( ) Na dependência desta secção ficam as

6

pas móveis de restauradores organizadas para percorrerem o País e procederem, nos próprios locais em que as obras se encontrem, os traba- lhos menos complexos. Realizados a tempo, esses trabalhos evitarão quase sempre que as moléstias progridam e venham a causar mais

tarde prejuízos de difícil ou impossível reparação.

( )

Estado (

Trata-se de precaução plenamente justificada pela delicadeza das operações em que se des- dobra o restauro e pelos perigos que ele oferece se conduzido com menos perícia ou escrúpulo”. Como vemos, nem sempre a consciência da delicadeza de uma intervenção leva a tomadas de posição consequentes. A criação do IJF, em 1965, regulariza a situação de uma oficina que assim funcionava desde 1911.

só pode ser executado pelo Instituto.

O restauro de obras de arte pertencentes ao

)

Encontramo-nos, de novo, numa fase crucial para a evolução da Conservação e Restauro. Pri- meiro, a publicação do Decreto-Lei n.º 342/99, que criou o Instituto Português de Conservação e Restauro e que é a resposta institucional aos desafios que hoje se colocam à Conservação e restauro; seguidamente, a publicação do Decre- to-Lei n.º55/2001, que é o diploma de carreiras da área da Conservação e Restauro e que se ins- titui como o diploma fundamental para o enqua- dramento jurídico da profissão, e, por fim, a publicação da Lei n.º 107/2001, que estabelece as bases da política e do regime de protecção e valorização do Património Cultural e que no seu

Art.º 59 determina que “as intervenções físicas ou estruturantes em bens móveis classificados

( )

são obrigatoriamente asseguradas por téc-

nicos de qualificação legalmente reconhecida”.

Estes enquadramentos procuram integrar as novas formas de “ver” as intervenções, tal

como aparece expresso no preambulo do Dec-

Lei nº 342/99 “(

avanços da ciência con-

duziram ao aparecimento e adopção cada vez mais generalizada de um novo conceito em matéria de conservação, alterando profunda- mente a relação entre o conserva- dor/restaurador e o Objecto. Trata-se de con-

)os

servar preventivamente, evitando, sustendo ou

retardando a degradação dos materiais (

restauro, e mesmo a conservação curativa, pas- sam assim a reger-se pelo principio da «inter- venção mínima». Porém, reduzir a intervenção directa sobre as obras de arte e demais bens patrimoniais não significa diminuição de neces- sidades em matéria de investigação e formação de técnicos.” Estamos, no início do Séc. XXI, empenhados no

O

).

” Estamos, no início do Séc. XXI, empenhados no O ). equilíbrio harmonioso entre o binómio

equilíbrio harmonioso entre o binómio Inter- venção/Formação e a apetrecharmo-nos com ferramentas que nos permitam estar aptos a compreender a Conservação não só como um conjunto de teorias mais ou menos bem elabo- radas, mas também como uma filosofia, uma ética e uma política que envolve uma grande multiplicidade de agentes.

7

Ressurreição de Lázaro (pormenor)

uma ética e uma política que envolve uma grande multiplicidade de agentes. 7 Ressurreição de Lázaro
Altar (pormenor da zona da maqui- neta). Capela do Bom Jesus. Busto-relicário. Capela Relicário. Mosteiro

Altar (pormenor da zona da maqui- neta). Capela do Bom Jesus.

Altar (pormenor da zona da maqui- neta). Capela do Bom Jesus. Busto-relicário. Capela Relicário. Mosteiro de

Busto-relicário. Capela Relicário. Mosteiro de Alcobaça.

1 A adopção deste termo ao longo do

texto constitui um compromisso, na

medida em que o mesmo profissional

é designado por “conservador” nos

países de língua Inglesa, e “restaura-

dor” nos países de língua Românica e

Germânica.

2 Certas profissões relacionadas com

a conservação, designadamente os

Arquitectos de Conservação, Cientis-

tas e Engenheiros, e todas as que

contribuem para a conservação, não

são referidas neste documento, visto

já estarem regulamentadas por nor-

mas profissionais reconhecidas.

ICOM – INTERNATION COUNCIL OF MUSEUMS/COMMITTEE FOR CONSERVATION

– CÓDIGO DE ÉTICA DA COMISSÃO PARA

A CONSERVAÇÃO DO ICOM

CODE OF ETHICS OF THE ICOM COMMITTEE FOR CONSERVATION

“O Conservador-Restaurador: Definição da Profissão”

Preâmbulo:

O presente documento baseia-se num texto

preparado na Alemanha por Agnes Ballestrem, que o submeteu como documento de trabalho

ao Standards and Training Committee (Comis-

são para os Padrões e Formação) do ICCROM,

no encontro de Novembro de 1978 ( ST 1/3). O

Working Group for Training in Conservation and Restoration (Grupo de Trabalho para a Forma- ção em Conservação e Restauro) do ICOM dis- cutiu pela primeira vez este documento no encontro realizado em Zagreb em 1978. Foi publicada uma versão revista com uma intro-

dução de H.C. von Imhoff na pré-impressão relativa ao encontro trienal da Comissão para a Conservação do ICOM, que decorreu em Otta-

wa, Canadá, em 1981, (artigo 81/22/0). O docu- mento foi posteriormente re-escrito por Elea-

nor McMillan e Paul N. Perrot. A nova versão foi apresentada e, salvo pequenas emendas, una-

nimemente adoptada durante a reunião interi-

na do Grupo de Trabalho para a Formação em

Conservação e Restauro, realizada em Dresden

a 5 de Setembro de 1983, tendo sido submeti-

da à Direcção da Comissão na reunião de Bar-

celona de 26 de Novembro de 1983. A Direcção

sugeriu que antes da apresentação do docu-

mento à Comissão na reunião de Copenhaga em

Setembro de 1984, o Grupo de Trabalho traba- lhasse mais o conteúdo da Definição. Esta últi- ma versão é o resultado das revisões feitas por Ray Isar, Janet Bridgland e Christoph von Imhoff, entre Novembro de 1983 e Agosto de 1984.

O Código de Ética da Comissão para a Conser- vação do ICOM foi publicado no n.º 4 da News- letter da Comissão, em 1986.

1. Introdução

1.1 A finalidade deste documento é a de fixar os objectivos, princípios e requisitos funda- mentais dos profissionais da conservação. 1.2 Na maioria dos países, a profissão do con- servador-restaurador 1 carece ainda de defi- nição: quem quer que conserve e restaure é denominado conservador ou restaurador, independentemente da duração e âmbito da respectiva formação. 1.3 A preocupação com os princípios de ética profissional e as normas a observar para com os objectos em tratamento e respecti- vos proprietários, conduziu a inúmeras ten- tativas de definição da profissão e da sua distinção face a outras profissões afins 2 , assim como de estabelecer requisitos espe- cíficos de formação. Outras profissões, nomeadamente a de médico, advogado e arquitecto, passaram também por uma fase de auto-análise e definição, tendo fixado normas amplamente aceites. Chegou agora

9

passaram também por uma fase de auto-análise e definição, tendo fixado normas amplamente aceites. Chegou agora
Busto-relicário (pormenor). o momento de definir a profissão de con- servador-restaurador. Esta acção deve aju-

Busto-relicário (pormenor).

o momento de definir a profissão de con-

servador-restaurador. Esta acção deve aju- dar a profissão a alcançar a paridade de estatuto com disciplinas como as de con- servador ou arqueólogo.

2. A actividade do Conservador- -Restaurador

2.1 A actividade do conservador-restaurador (conservação) compreende o exame técni- co, a preservação, e a conservação-restau-

3 G. S. Graf Adelmann, “Restaurator und Denkmalpflege” in Nachrichten- blatt der Denkmalpflege in Baden-
3 G. S. Graf Adelmann, “Restaurator
und Denkmalpflege” in Nachrichten-
blatt der Denkmalpflege in Baden-
Württemberg, Vol.8 No. 3, 1965.

ro do bem cultural:

Exame: é o procedimento preliminar efec- tuado para determinar o significado docu- mental de um artefacto; estrutura e mate- riais originais; a amplitude da sua deteriora- ção, alteração e perda; e a documentação destes resultados. Preservação: são as medidas tomadas para retardar ou prevenir a deterioração ou danos de bens culturais através do controlo do seu meio ambiente e/ou tratamento da sua estru- tura, com a finalidade de os manter, tanto quanto possível, num estado inalterado. Restauro: é a acção empreendida para tor- nar compreensível um artefacto deteriora- do ou danificado, com o mínimo de sacrifí- cio da sua integridade estética e histórica. 2.2 Os conservadores-restauradores traba- lham em museus, em serviços oficiais de protecção do património, em empresas pri-

10

vadas de conservação, ou de modo inde- pendente. A sua função é a de conhecer o aspecto material de objectos de significa- do histórico e artístico, com o objectivo de prevenir a sua degradação e de aumentar a nossa compreensão sobre eles, para per- mitir uma melhor distinção entre o que é original e o que é falso.

3. O Impacto e a Ordenação das acti- vidades do Conservador-Restaurador

3.1 O Conservador-Restaurador tem uma res- ponsabilidade específica, na medida em que actua sobre originais insubstituíveis que são, por vezes, únicos e de grande valor artístico, histórico, científico, cultural, social ou económico. O valor de tais objec- tos reside nas características da sua fabri- cação, no seu testemunho enquanto docu- mentos históricos e, consequentemente, na sua autenticidade. Os objectos “são uma expressão significativa da vida espiri- tual, religiosa e artística do passado, mui- tas vezes testemunhos de uma situação histórica, quer sejam trabalho do mais ele- vado nível, quer simples objectos de uso quotidiano” 3 3.2 A qualidade documental do objecto histó- rico é a base para a pesquisa em História da Arte, Etnografia, Arqueologia e em outras disciplinas de base cientifica. Daí,

a importância de preservar a sua integri-

dade física. 3.3 Dado que o risco de manipulação prejudi- cial ou de transformação do objecto é ine- rente a qualquer medida de conservação ou restauro, o conservador-restaurador deve trabalhar em íntima colaboração com

o conservador ou outro especialista rele-

vante. Juntos devem distinguir entre o necessário e o supérfluo, o possível e o impossível, a intervenção que valorize as qualidades do objecto, e a que prejudica a sua integridade.

3.4 O conservador-restaurador deve estar consciente da natureza documental de um objecto. Cada objecto contém – isolada- mente ou em conjunto –, mensagens e informações históricas, estilísticas, icono- gráficas, tecnológicas, intelectuais, estéti- cas e/ou espirituais. Ao deparar-se com estes dados no decorrer da investigação e do trabalho sobre o objecto, o conserva- dor-restaurador deve estar sensibilizado e ser capaz de reconhecer a sua natureza, deixando-se guiar por eles durante a exe- cução da sua tarefa. 3.5 Desta forma, todas as intervenções devem ser precedidas de um exame metódico e científico com vista ao entendimento do objecto em todas as suas vertentes, devendo tomar-se em linha de conta todas as conse- quências de cada manipulação. Quem, por falta de formação, não for capaz de executar tais exames, ou quem, por falta de interesse ou por outras razões, negligencie este pro- cedimento, não pode ser incumbido da responsabilidade do tratamento. Só um conservador-restaurador bem formado e experiente pode interpretar correctamente os resultados de tais exames e prever as consequências das decisões tomadas. 3.6 Uma intervenção sobre um objecto artístico ou histórico deve seguir a sequência comum a toda a metodologia científica:

investigação das fontes, análise, interpre- tação e síntese. Só assim, o tratamento pode preservar a integridade física do objecto e tornar acessível o seu significa- do. Importa salientar que esta abordagem aumenta a nossa capacidade de decifrar a mensagem científica do objecto, contribuin- do assim para um novo conhecimento. 3.7 O conservador-restaurador trabalha no próprio objecto. O seu trabalho, à seme- lhança do cirurgião é, acima de tudo, uma arte/habilidade manual. Porém, como no caso do cirurgião, a habilidade manual deve estar associada ao conhecimento teó- rico e à capacidade de, simultaneamente,

avaliar uma situação, actuar imediatamente, e avaliar o seu impacto. 3.8 A cooperação interdisciplinar é de uma importância fundamental, dado que hoje o conservador-restaurador tem de fazer parte de uma equipa. Assim como o cirur- gião não pode ser simultaneamente radio- logista, patologista e psicólogo, também o conservador-restaurador não pode ser um especialista em História da Arte ou da Cul- tura, Química e/ou outras ciências humanas ou naturais. Como o trabalho do cirurgião, também o do conservador-restaurador pode

Busto-relicário (pormenor da policromia).

Como o trabalho do cirurgião, também o do conservador-restaurador pode Busto-relicário (pormenor da policromia). 11
Como o trabalho do cirurgião, também o do conservador-restaurador pode Busto-relicário (pormenor da policromia). 11

11

Como o trabalho do cirurgião, também o do conservador-restaurador pode Busto-relicário (pormenor da policromia). 11
Altar (pormenor da cúpula) e deve ser complementado pelas desco- bertas analíticas e de investigação
Altar (pormenor da cúpula) e deve ser complementado pelas desco- bertas analíticas e de investigação

Altar (pormenor da cúpula)

e deve ser complementado pelas desco- bertas analíticas e de investigação dos académicos. Esta colaboração funcionará bem se o conservador-restaurador estiver apto a formular as suas questões de forma científica e rigorosa, e a interpretar as res- postas no contexto adequado.

4. Distinção de Profissões Afins

4.1 As actividades profissionais do conservador- restaurador são distintas das profissões artísticas ou das praticadas por artífices.

Um critério básico de tal distinção assenta no facto dos conservadores-restauradores não criarem novos objectos culturais atra- vés das actividades que exercem. É da com- petência das profissões artísticas e artífi- ces e artesanais, como ferreiros, dourado- res, marceneiros, decoradores e outros, reconstruir fisicamente o que já não existe, ou o que já não pode ser preservado. Con- tudo, também eles podem beneficiar imenso com os achados dos conservadores-restau- radores, e com a sua orientação. 4.2 Só um conservador-restaurador com for- mação sólida, bem preparado, experiente e

e com a sua orientação. 4.2 Só um conservador-restaurador com for- mação sólida, bem preparado, experiente

12

altamente sensibilizado pode estabelecer se uma intervenção num objecto de signifi-

cado histórico e/ou artístico pode ser efec- tuada por um artista, um artífice ou um conservador-restaurador. Só ele, de comum acordo com o conservador ou com outro especialista, possui os meios neces- sários para examinar o objecto, determinar

o seu estado, e avaliar a importância docu- mental da sua materialidade.

5. Formação teórico-prática do Conservador-Restaurador

5.1 Para corresponder às características e espe- cificações profissionais acima mencionadas,

o conservador-restaurador deve receber for-

mação artística, técnica e científica, susten- tada por uma sólida formação geral. 5.2 A formação prática deve contemplar o desenvolvimento da sensibilidade e da habilidade manual, a aquisição de conheci- mento teórico sobre materiais e técnicas, assente numa metodologia de rigor cientí- fico que permita desenvolver a capacidade de resolver problemas de conservação

seguindo uma abordagem sistemática, recorrendo a uma investigação rigorosa e interpretando os dados criticamente. 5.3 A formação teórica deve abranger as seguintes matérias:

• História da Arte e das Civilizações

• Métodosdeinvestigaçãoededocumentação

• Conhecimento de tecnologia e materiais

• Teoria e Ética da conservação

• História e tecnologia da conservação- -restauro

• Química, Biologia e Física dos processos de deterioração e dos métodos de conservação. 5.4 É unanimemente reconhecido que um está- gio constitui parte essencial de um progra- ma de formação. Este deve ser concluído com uma tese ou dissertação final, e ser reconhecido como equivalente a um grau universitário.

5.5 Em todas as etapas desta formação, deve ser dada ênfase principal à prática, nunca perdendo de vista a necessidade de desen- volver e afinar uma compreensão dos facto- res técnicos, científicos, históricos e estéti- cos. O objectivo final da formação é o de preparar profissionais aptos a realizar, de forma ponderada, intervenções de conser- vação muitíssimo complexas e a documen- tá-las integralmente, com vista a que o tra- balho e os relatórios contribuam não só para a preservação, mas também para uma compreensão aprofundada de aconteci- mentos históricos e artísticos relacionados com os objectos em tratamento.

Copenhaga, Setembro de 1984 ICOM Committee for Conservation

em tratamento. Copenhaga, Setembro de 1984 ICOM Committee for Conservation 13 Altar (cúpula, lanternim e pináculo)

13

Altar (cúpula, lanternim e pináculo)
Altar (cúpula, lanternim e pináculo)
ECCO • EUROPEAN CONFEDERATION OF CONSERVATOR-RESTORERS’ ORGANIZATIONS – CÓDIGO DE ÉTICA PROFISSIONAL DO

ECCO • EUROPEAN CONFEDERATION OF CONSERVATOR-RESTORERS’ ORGANIZATIONS

CÓDIGO DE ÉTICA PROFISSIONAL DO CONSERVADOR-RESTAURADOR

CÓDIGO DE ÉTICA PROFISSIONAL DO CONSERVADOR-RESTAURADOR “PROFESSIONAL Directrizes Profissionais da E.C.C.O.

“PROFESSIONAL

Directrizes Profissionais da E.C.C.O.

GUIDELINES:

THE PROFESSION AND THE

(I) A PROFISSÃO

CODE OF ETHICS” 1993.

Realizado pela “European Confederation of Conservator-Restors’ Organizations” (ECCO) e adoptado em Assembleia Geral (Bruxelas, 11 de Junho 1993)

Introdução

Os objectos a que a sociedade atribui um parti- cular valor artístico, histórico, documental,

estético, científico, espiritual ou religioso, são normalmente designados por “bens culturais”. Os bens culturais constituem uma herança material e cultural a ser perpetuada para as gerações vindouras. Uma vez que a sociedade atribui ao Conserva- dor-restaurador o cuidado destes bens, é dele não só a responsabilidade para com estes bens, como também para com o proprietário ou responsável legal, o autor ou criador, o público

e a posteridade. Estas premissas têm como

objectivo a salvaguarda dos bens culturais, indiferentemente do seu proprietário, datação, estado de conservação ou valor.

I. O papel do Conservador-restaurador

Calvário. Misericórdia de Proença-a-Velha

O papel fundamental do Conservador-restau-

rador é a preservação dos bens culturais para

benefício da nossa geração e das gerações futuras.

O Conservador-restaurador contribui para o

entendimento dos bens culturais relacionados com o seu significado histórico e estético e com a sua integridade física. O Conservador-restaurador é o responsável e é quem realiza o diagnóstico, os tratamentos de conservação e restauro dos bens culturais, e a documentação de todos os procedimentos.

Exame/Diagnóstico consiste na determinação da composição e estado de conservação do

bem cultural; identificação, natureza e exten- são das alterações; avaliação das causas de deterioração; determinação do tipo e extensão

do tratamento necessário. Inclui o estudo da

documentação relevante.

Conservação Preventiva consiste na acção indirecta para retardar deteriorações e preve- nir danos, através da criação de condições óptimas para a preservação dos bens culturais, desde que compatíveis com a sua utilização social. A Conservação Preventiva abarca a cor- recta utilização e manuseamento, transporte, acondicionamento e exposição.

Conservação Curativa consiste essencialmente

na acção directa aplicada sobre os bens culturais,

com o objectivo de retardar futuras deteriorações.

Restauro consiste na acção directa sobre os bens culturais danificados ou deteriorados,

15

futuras deteriorações. Restauro consiste na acção directa sobre os bens culturais danificados ou deteriorados, 15
com o intuito de facilitar a sua compreensão, respeitando dentro dos limites possíveis, o seu

com o intuito de facilitar a sua compreensão, respeitando dentro dos limites possíveis, o seu aspecto estético, histórico e integridade física.

É

-restaurador:

ainda

da

competência

do

Conservador-

• Desenvolver programas de inspecção e acções de conservação e restauro,

• Emitir pareceres técnicos e dar assistência técnica para a conservação e restauro dos bens culturais,

• Elaborar relatórios técnicos dos bens cultu- rais, excluindo qualquer juízo de valor sobre o seu valor de mercado,

• Realizar estudos de investigação sobre a con- servação e restauro,

• Desenvolver programas educacionais e leccio- nar conservação e restauro,

• Divulgar a informação obtida através do exame, tratamento ou investigação,

• Promover um entendimento mais profundo da conservação e restauro.

II. Diferenciação de outros profissionais

O Conservador-restaurador não é nem um artis-

ta, nem um artesão. Enquanto que o artista ou

o artesão estão envolvidos na criação de novos objectos ou na manutenção e restauro desses objectos, num sentido funcional, o Conserva- dor-restaurador tem como preocupação a pre- servação dos bens culturais.

III. Formação Académica

Para manter os padrões da profissão, o profis- sional de conservação e restauro deve ter uma formação e ensino com grau universitário ou equivalente.

16

Directrizes Profissionais da E.C.C.O.

(II) CÓDIGO DE ÉTICA

I. Princípios gerais para a aplicação do código

Artigo 1. O Código de Ética diz respeito aos

princípios, obrigações e comportamentos, que cada Conservador-restaurador, como membro de uma organização aderente à E.C.C.O., deve aplicar na prática da sua profissão. Artigo 2. A profissão de Conservador-restaurador constitui uma actividade de interesse público e deve ser praticada na observância de todas as leis e acordos pertinentes, tanto a nível nacio- nal como europeu, especialmente no que diz respeito aos bens culturais roubados. Artigo 3. O Conservador-restaurador executa o seu trabalho directamente nos bens culturais e

é pessoalmente responsável perante o proprie-

tário e a sociedade. O Conservador-restaurador tem o direito de, em todas as circunstâncias, se recusar a qualquer solicitação que ele entenda estar em contradição com os termos ou espírito deste código. Artigo 4. O não cumprimento dos princípios, obrigações e proibições do Código, constitui

uma prática anti-profissional e conduzirá a um descrédito da profissão.

II.

Culturais

Obrigações

relativas

aos

Bens

Artigo 5. O Conservador-restaurador deve res- peitar o significado estético e histórico e a inte- gridade física dos bens culturais que lhe foram confiados para tratamento. Artigo 6. O Conservador-restaurador, em cola- boração com outros profissionais relacionados com os bens culturais, deve, na actividade de preservação desses bens, ter em consideração

a respectiva função social.

Artigo 7. O Conservador-restaurador deve reger-se pelos mais elevados padrões, inde- pendentemente de qualquer opinião sobre o valor de mercado dos bens culturais. Embora possam existam circunstâncias que limitem a

extensão da acção de um Conservador-restau- rador, o respeito pelo Código nunca deve ser comprometido. Artigo 8. Antes de intervir em quaisquer bens culturais, o Conservador-restaurador deve ter em consideração todos os aspectos relativos à conservação preventiva e deverá cingir-se ape- nas ao tratamento necessário. Artigo 9. O Conservador-restaurador deve optar por usar produtos, materiais e procedimentos que, de acordo com o actual nível do conheci- mento, não danifiquem os bens culturais, o meio ambiente ou as pessoas. A forma de utili- zação e os materiais aplicados não devem inter- ferir, sempre que possível, com futuros diagnós- ticos, tratamentos ou análises. Devem também ser compatíveis com os materiais constituintes dos bens culturais e, tanto quanto possível, fácil e completamente reversíveis. Artigo 10. A documentação de um bem cultural deve incluir registos do exame, intervenções de conservação e restauro e outras informações consideradas relevantes. Esta documentação torna-se parte integrante do objecto cultural e deve estar disponível para consulta. Artigo 11. O Conservador-restaurador apenas deve realizar o trabalho se tiver competência para

o fazer. O Conservador-restaurador não deve

começar ou continuar um tratamento que não seja do melhor interesse para o bem cultural. Artigo 12. O Conservador-restaurador deve

empenhar-se no enriquecimento dos seus

conhecimentos e capacidades, com o objectivo

de melhorar a qualidade do seu trabalho a nível

profissional. Artigo 13. Sempre que se mostre necessário ou pertinente, o Conservador-restaurador deve consultar historiadores de arte ou especialistas

em análises científicas, e deve participar con- juntamente numa troca ampla de informação.

participar con- juntamente numa troca ampla de informação. Artigo 14. Em qualquer situação de emergência em

Artigo 14. Em qualquer situação de emergência em que um bem cultural esteja em perigo imi- nente, o Conservador-restaurador, qualquer que seja a sua área de especialização, deve dar toda a assistência possível. Artigo 15. O Conservador-restaurador nunca deve remover materiais dos bens culturais, a não ser que seja estritamente indispensável para a sua preservação, ou que interfira com o seu valor histórico ou estético. Os materiais removidos devem ser conservados, sempre que possível, e o procedimento devidamente documentado. Artigo 16. Sempre que a utilização de um bem cultural seja incompatível com a sua preserva- ção, o Conservador-restaurador deve discutir com o proprietário ou seu responsável legal a forma de executar uma reprodução de forma a não danificar o original.

17

Nossa Senhora do Leite (pormenor). Mosteiro do Lorvão

executar uma reprodução de forma a não danificar o original. 17 Nossa Senhora do Leite (pormenor).

Altar (pormenor da cúpula)

Altar (pormenor da cúpula) Altar. Capela do Bom Jesus. Convento da Arrábida Calvário.(pormenorS.JoãoEvangelista) III.

Altar. Capela do Bom Jesus. Convento da Arrábida

Calvário.(pormenorS.JoãoEvangelista)

Convento da Arrábida Calvário.(pormenorS.JoãoEvangelista) III. Obrigações para com o proprietá- rio ou responsável
Convento da Arrábida Calvário.(pormenorS.JoãoEvangelista) III. Obrigações para com o proprietá- rio ou responsável

III. Obrigações para com o proprietá- rio ou responsável legal

Artigo 17. O Conservador-restaurador deve informar o proprietário sobre toda e qualquer acção solicitada, e especificar os meios ade- quados para a sua manutenção futura. Artigo 18. O Conservador-restaurador é obrigado a manter confidencialidade profissional. Sem- pre que queira fazer referência a um bem cul- tural, deve obter o consentimento do proprie- tário ou responsável legal.

IV . Obrigações para com os colegas e a profissão

Artigo 19. O Conservador-restaurador deve manter um espírito de respeito pela integrida- de e dignidade dos colegas e da profissão. Artigo 20. O Conservador-restaurador deve, dentro dos limites do seu conhecimento, com- petência, tempo e meios técnicos, participar na formação de estagiários e assistentes. O Conservador-restaurador é responsável pela supervisão do trabalho realizado pelos assis- tentes e estagiários e tem a responsabilidade última sobre o trabalho realizado sob a sua supervisão.

18

Artigo 21. O Conservador-restaurador deve con- tribuir para o desenvolvimento da profissão, através da partilha de experiência e informação. Artigo 22. O Conservador-restaurador deve empenhar-se para promover um entendimento profundo da profissão e uma ampla consciên- cia da conservação e restauro entre os outros profissionais e o público. Artigo 23. Os registos relativos à conservação e restauro pelos quais o Conservador-restaura- dor é responsável são sua propriedade intelec- tual (assunto relativo aos termos do contrato de trabalho). Artigo 24. O envolvimento com o comércio cul- tural de bens culturais não é compatível com as actividades do Conservador-restaurador. Artigo 25. O Conservador-restaurador só deve publicitar o seu trabalho com recurso a meios adequados e informativos.

A Confederação Europeia das organizações de Conservadores-restauradores (E.C.C.O.) prepa- rou estas Directrizes profissionais baseadas no estudo de documentos de organizações nacio- nais e internacionais ligadas ou não à conser- vação. “Conservador-restaurador: uma defini- ção da profissão (ICOM-CC, Copenhague 1984) foi o 1º documento adoptado pela ECCO.

NOTA: A primeira formulação de

directrizes para a prática e para as

relações profissionais de qualquer

grupo de conservadores-restau-

radores de arte foi produzida pela

Comissão de Normas e Procedimen-

tos Profissionais do International

Institute for Conservation –American

Group (agora AIC), em 1961. Estas

normas foram adoptadas em 1963 e

publicadas nos Studies in Conserva-

tion em Agosto de 1964. O primeiro

Código de Ética dos conservadores-

restauradores da América do Norte

foi aprovado em 1967, em Ottawa, no

Canadá. Os dois documentos foram

revistos e actualizados em 1979 e

1985. A versão final que agora se

publica foi aprovada por votação dos

membros do American Institute for

Conservation em 1994.

dos membros do American Institute for Conservation em 1994. Princesa Santa Joana (pormenor). Museu de Aveiro

Princesa Santa Joana (pormenor). Museu de Aveiro

AIC • AMERICAN INSTITUTE FOR CON- SERVATION OF HISTORIC AND ARTISTIC

WORKS – CÓDIGO DE ÉTICA E DIRECTRIZES PARA O EXERCÍCIO DA PROFISSÃO

CÓDIGO DE ÉTICA DO AIC

Introdução

O principal objectivo dos profissionais da con-

servação, pessoas com uma formação extensa

e conhecimentos especializados, é a preser-

vação dos bens culturais. Chamam-se bens culturais aos objectos individuais, estruturas ou colecções integradas. É material que pos- sui um significado que pode ser artístico, his- tórico, científico, religioso ou social, e consti- tui um legado insubstituível e de valor inesti- mável, que deve ser preservado para as gera- ções futuras.

Para se atingir este objectivo, os profissionais da conservação assumem uma série de obriga- ções para com os bens culturais, os seus pro- prietários ou quem detém a sua custódia legal, para com a profissão, e para com a sociedade como um todo. Este documento, o Código de Ética e Directrizes para o Exercício da Profissão do “American Institute for Conservation of His- toric and Artistic Works” (AIC), estabelece os princípios que devem reger os profissionais da conservação e outros que estejam envolvidos na salvaguarda dos bens culturais.

I. O profissional da conservação deve lutar por atingir os padrões mais elevados possíveis em todos os aspectos relacionados com a conservação, incluindo a conservação pre-

ventiva, o diagnóstico, a documentação, o tratamento, a investigação e o ensino, mas sem se circunscrever a estes.

II. Todas as acções do profissional da conser- vação devem reger-se por um respeito pro- fundo para com os bens culturais, o seu carácter e significado únicos, e para com o povo ou a pessoa que os criou.

III. Embora reconhecendo o direito da sociedade

a utilizar de forma adequada e respeitosa

os bens culturais, o profissional de conser-

vação deve servir como defensor da preser- vação dos bens culturais.

IV. O profissional da conservação deve traba- lhar dentro dos limites da sua competência

e formação pessoais, bem como dentro dos limites dos meios disponíveis.

V. Ainda que as circunstâncias possam limitar os recursos disponíveis numa dada situação particular, a qualidade do trabalho realizado pelo profissional da conservação não deverá ficar comprometida.

VI. O profissional da conservação deve lutar por seleccionar métodos e materiais que , com base num conhecimento actualizado, não afectem negativamente os bens cultu- rais ou o seu futuro diagnóstico, investiga- ção científica, tratamento, ou função.

21

negativamente os bens cultu- rais ou o seu futuro diagnóstico, investiga- ção científica, tratamento, ou função.
Visão de S. Paulo. (pormenor) VII. O profissional da conservação deve docu- mentar o exame,
Visão de S. Paulo. (pormenor) VII. O profissional da conservação deve docu- mentar o exame,
Visão de S. Paulo. (pormenor) VII. O profissional da conservação deve docu- mentar o exame,

Visão de S. Paulo. (pormenor)

Visão de S. Paulo. (pormenor) VII. O profissional da conservação deve docu- mentar o exame, a

VII. O profissional da conservação deve docu- mentar o exame, a investigação científica e o tratamento, produzindo registos e relató- rios permanentes. VIII. O profissional da conservação deve reconhe- cer a sua responsabilidade para com a con- servação preventiva, esforçando-se por limitar

22

os danos ou deteriorações dos bens culturais, estabelecendo directrizes para a sua utiliza- ção continuada e a sua manutenção, reco- mendando as condições ambiente apropria- das ao seu armazenamento e exposição, e encorajando processos adequados de manu- seamento, acondicionamento e transporte.

IX. O profissional da conservação deve actuar com honestidade e respeito em todas as relações

IX. O profissional da conservação deve actuar com honestidade e respeito em todas as relações profissionais, procurando assegu- rar os direitos e oportunidades de todos os que trabalham na profissão, e reconhecer o conhecimento especializado dos outros.

X. O profissional da conservação deve contri- buir para a evolução e crescimento da pro- fissão, um campo de estudo que abrange as ciências exactas e as ciências humanas. Esta contribuição pode traduzir-se quer no desenvolvimento contínuo das aptidões e conhecimentos profissionais, quer na parti- lha de informação e experiência com os cole- gas, quer no aumento do corpo de conheci- mentos escritos da profissão, quer ainda providenciando e promovendo oportunida- des de formação neste campo.

XI. O profissional da conservação deve pro- mover a sensibilização para e o entendi- mento da conservação, através de uma comunicação aberta com os profissionais afins e o público.

XII. O profissional da conservação deve traba- lhar de forma a minimizar os riscos pes- soais e os acidentes com os seus colabora- dores, o público, e o meio ambiente.

XIII. Cada profissional da conservação tem a obrigação de promover o entendimento de, e a adesão a este Código de Ética.

23

Visão de S. Paulo. Casa dos Patudos. Alpiarça

de promover o entendimento de, e a adesão a este Código de Ética. 23 Visão de

DIRECTRIZES PARA O EXERCÍCIO DA PROFISSÃO DO AIC

O profissional da conservação deve seguir as

directrizes seguintes, conjuntamente com o

Código de Ética do AIC, na procura de uma ética

de trabalho.

Conduta Profissional

1. Conduta: A adesão ao Código de Ética e

Directrizes para o Exercício da Profissão da con- servação é uma questão de responsabilidade pessoal. O profissional da conservação deve guiar-se sempre pela intenção deste documento, reconhecendo que circunstâncias específicas podem afectar legitimamente as decisões profissionais.

2. Divulgação: Nas relações profissionais, o

profissional da conservação deve partilhar informação completa e rigorosa sobre a eficá-

cia e valor dos materiais e procedimentos. Ao procurar e divulgar essa informação, bem

como aquela relativa à análise e investigação,

o profissional da conservação deve reconhe-

cer a importância da informação publicada

deve reconhe- cer a importância da informação publicada sujeita a uma revisão formal por parte de

sujeita a uma revisão formal por parte de especialistas.

3. Leis e Regulamentos: O profissional da con-

servação deve conhecer as leis e regulamentos

que possam ter relevância para a sua actividade profissional. Dentro destas leis e regulamen- tos contam-se as que se prendem com os direi- tos dos artistas e do seu património, saúde e segurança no trabalho, materiais de carácter sagrado ou religioso, objectos de escavações, espécies em perigo, testemunhos humanos e bens roubados. 4. Desempenho Profissional: Independente- mente da natureza da sua situação profissio- nal, o profissional da conservação deve guiar- se por padrões adequados de segurança, pro- tecção, contratos, honorários e publicidade.

4 A. Saúde e Segurança: O profissional da con- servação deve ter conhecimento das questões relacionadas com a segurança dos materiais e procedimentos e disponibilizar essa informa- ção aos outros, consoante apropriado.

4 B .: Protecção O profissional da conservação deve providenciar condições de trabalho e acondicionamento apropriadas para a salva- guarda dos bens culturais.

4 C. Contratos: O profissional da conservação

pode vir a estabelecer acordos contratuais com particulares, instituições, empresas ou orga- nismos governamentais, desde que não entrem em conflito com os princípios prescri- tos no Código de Ética e Directrizes para o Exercício da Profissão.

4 D. Honorários: Os honorários cobradas pelos

profissionais da conservação devem ser propor-

cionais aos serviços prestados. A repartição das honorários é aceitável, sempre que baseada na divisão do serviço ou da responsabilidade.

4 E. Publicidade: A publicidade e outras repre- sentações do profissional da conservação devem apresentar uma descrição exacta das suas credenciais e dos serviços que presta.

5. Comunicação: A comunicação entre o pro-

fissional da conservação e o proprietário, responsável ou agente autorizado do bem cultural é essencial para garantir um acordo

25

autorizado do bem cultural é essencial para garantir um acordo 25 Trono Patriarcal (pormenor) Patriar- cado

Trono Patriarcal (pormenor) Patriar- cado de Lisboa

autorizado do bem cultural é essencial para garantir um acordo 25 Trono Patriarcal (pormenor) Patriar- cado

que reflicta a partilha de decisões e expecta- tivas realistas. 6. Consentimento: O profissional de conserva- ção deve actuar apenas com o consentimento do proprietário, responsável ou agen- te autorizado. O proprietário, res- ponsável ou agente deve ser infor- mado sobre quaisquer circunstân- cias que impliquem alterações sig- nificativas ao estabelecido anterior- mente. As alterações devem ser participadas, sempre que possível, antes de terem lugar. 7. Confidencialidade: À excepção do previsto no Código de Ética e Direc- trizes para o Exercício da Profissão, o profissional da conservação deve manter relações de trabalho confi- denciais com o proprietário, respon- sável, ou agente autorizado. A infor-

Trono Patriarcal
Trono Patriarcal
sável, ou agente autorizado. A infor- Trono Patriarcal 26 mação decorrente do exame, investigação cien- tífica

26

mação decorrente do exame, investigação cien-

tífica ou tratamento do bem cultural, não deve ser publicada ou tornada pública, sem autori- zação escrita. 8. Supervisão: O profissional da conservação é responsável pelo trabalho delegado noutros profissionais, estudantes, estagiários, volun- tários ou subordinados. O trabalho só deve ser delegado ou subcontratado se o profissional da conservação o puder supervisionar directa- mente, assegurar uma adequada supervisão ou tenha um conhecimento suficiente do pro- fissional que lhe permita confiar na qualidade do seu trabalho. Sempre que oportuno, o pro- prietário, responsável ou agente deve ser informado da delegação do trabalho.

9. Formação: Dentro dos limites do conheci-

mento, capacidade, tempo e meios/recursos, o profissional de conservação é encorajado a

envolver-se na formação do pessoal de conser- vação. Os objectivos e obrigações de ambas as partes devem ser acordados mutuamente.

10. Consulta: Uma vez que nenhum profissio-

nal pode ser perito em todos os aspectos da conservação, poderá ser conveniente consul- tar outros colegas ou, em certos casos, suge- rir ao proprietário, responsável ou agente autorizado, um profissional que seja mais experiente ou esteja melhor equipado para

realizar o trabalho pretendido. Se o proprietá- rio solicitar uma segunda opinião, o pedido deve ser respeitado.

11. Recomendações e Referências: O profissio-

nal de conservação não deve fazer recomenda-

ções, sem o conhecimento directo da competên- cia e experiência do outro colega. Qualquer refe- rência ao trabalho dos outros profissionais deve basear-se em factos e no conhecimento pessoal, e não em informações veiculadas por terceiros.

12. Depoimentos contrários: O profissional de

conservação pode ser solicitado a prestar depoi- mento em acções legais ou processos adminis- trativos relativos a falta de conduta ética. Os tes- temunhos relacionados com estes assuntos devem ser prestados nesses processos ou de

acordo com o parágrafo 13 destas Directrizes.

13. Mau comportamento: As alegações sobre

má ética profissional devem ser relatadas por escrito ao presidente da AIC. Estes casos são estritamente confidenciais. As violações ao Código de Ética e Directrizes que constituam falta de ética na conduta podem conduzir a processos disciplinares.

14. Conflito de interesses: O profissional da

conservação deve evitar situações nas quais exista um conflito potencial de interesses que possa afectar a qualidade do trabalho, condu-

zir à divulgação de informações falsas, ou dar ideia de inexactidão.

15. Actividades profissionais relacionadas: O

profissional da conservação deve ter em espe-

cial consideração o considerável potencial de conflito de interesses em actividades como a autenticação, avaliação ou negócio de arte.

Exame e Investigaçâo Científica

16. Justificação: Um exame cuidado dos bens

culturais é a base de todas as acções futuras realizadas pelo profissional da conservação. Antes da realização de qualquer exame ou teste que possa causar alterações nos bens culturais, o profissional da conservação deve justificar a necessidade de todos os procedimentos.

17. Amostras e Testes: Antes de se remover

qualquer material procedente dum bem cultu- ral, deve pedir-se consentimento ao proprietá- rio, responsável, ou agente. Só se deve remo-

ver a quantidade mínima suficiente e registar- se essa remoção. Quando se julgue necessá- rio, o material removido deve ser conservado.

18. Interpretação: As declarações sobre data-

ção, origem ou autenticidade, devem apenas fazer-se com base em provas idóneas.

19. Investigação Científica: O profissional da

conservação deve seguir padrões científicos e protocolos de pesquisa estabelecidos.

Conservação Preventiva

20. Conservação Preventiva: O profissional da

conservação deve reconhecer a importância cri- tica da conservação preventiva como o meio mais eficaz de, a longo prazo, promover a preservação dos bens culturais. O profissional da conservação deve estabelecer directrizes para o uso e cuidado continuados, recomendar condições ambiente adequadas para o armazenamento e exposição e encorajar processos adequados de manusea- mento, embalagem e transporte.

Tratamento

21. Adequação: O profissional da conservação actua no âmbito de um cuidado permanente dos bens culturais, e raramente será o último responsável da conservação dum bem cultural. O profissional da conservação deve apenas recomendar ou realizar tratamentos que se jul- guem adequados à preservação das caracterís- ticas estéticas, conceptuais e físicas dos bens culturais. Sempre que a “não intervenção” for a opção que melhor sirva a preservação dos bens culturais, pode ser apropriado recomendar a não realização de qualquer tratamento.

22. Materiais e Métodos: O profissional da

conservação é responsável pela escolha dos materiais e métodos adequados aos objectivos específicos de cada tratamento específico, de acordo com a prática correntemente aceite. As vantagens dos materiais e métodos escolhidos devem ser equacionadas, tendo em conta os

potenciais efeitos negativos em futuros exames, investigação científica, tratamento e função.

23. Compensação de perdas: Qualquer inter-

venção realizada para colmatar uma perda deve ser documentada nos registos e relató- rios de tratamento e registos fotográficos e deve ser detectável através de métodos de exame habituais. Essa compensação deve ser reversível e não modificar, falseando, as carac- terísticas estéticas, conceptuais e físicas

27

deve ser reversível e não modificar, falseando, as carac- terísticas estéticas, conceptuais e físicas 27

conhecidas do bem cultural, em especial ao remover e ocultar material original.

Documentação

24. Documentação: O profissional da conser-

vação tem obrigação de produzir e manter registos rigorosos, completos e permanentes de exames, amostragem, investigação científi- ca e tratamento. Sempre que apropriado, os

registos devem ser escritos e pictóricos. O tipo

e extensão da documentação pode variar de

acordo com as circunstâncias, a natureza do objecto, ou de se tratar de documentar um objecto em particular ou uma colecção. Os objectivos dessa documentação são:

• estabelecer o estado de conservação dos bens culturais;

• ajudar à preservação dos bens culturais, for- necendo informação útil para futuros trata- mentos e contribuindo para o aumento do corpo de conhecimentos da profissão;

• ajudar o proprietário, responsável ou agente autorizado, e a sociedade como um todo, na apreciação e utilização dos bens culturais, melhorando o entendimento das característi- cas estéticas, conceptuais e físicas do objec-

to; e ajudar o profissional da conservação, ao fornecer uma referência que pode auxiliar o desenvolvimento continuo dos conhecimen- tos e ao fornecer registos que ajudem a evi- tar equívocos e litígios desnecessários.

25. Documentação do Exame: Antes de qual-

quer intervenção, o profissional da conservação deve efectuar um exame detalhado do bem cul- tural e fazer os registos apropriados. Estes

registos e os relatórios deles decorrentes devem identificar o bem cultural e incluir a data do exame e o nome do profissional que o reali- zou. Devem também incluir , consoante apro- priado, uma descrição da estrutura, materiais, estado de conservação e história pertinente.

26. Plano de Tratamento: Após o exame e

antes do tratamento, o profissional da conser-

o exame e antes do tratamento, o profissional da conser- 28 vação deve preparar um plano

28

vação deve preparar um plano que descreva o processo de tratamento. Esse plano deve tam-

bém incluir a justificação e os objectivos do tra- tamento, abordagens alternativas, se possí- veis, e os potenciais riscos. Sempre que apro- priado, esse plano deve ser submetido como uma proposta ao proprietário, responsável ou agente autorizado. 27. Documentação do Tratamento: Durante o tratamento, o profissional da conservação deve manter documentação datada que inclua um registo ou descrição das técnicas e proce- dimentos envolvidos, os materiais utilizados e sua composição, a natureza e extensão de todas as alterações, e ainda qualquer informa- ção adicional descoberta ou averiguada de qualquer outra forma. Um relatório baseado nestes registos deve resumir essa informação

e fornecer, conforme necessário, recomenda-

ções para os cuidados subsequentes. 28. Preservação da Documentação: A docu- mentação é uma parte de valor incalculável da história dos bens culturais e deve ser produzida

e mantida de uma forma tão permanente quanto

praticável. Devem ceder-se ao proprietário, responsável ou agente autorizado, cópias dos relatórios de exame e tratamento, e devem ser avisados da importância de manter estes

materiais junto com os bens culturais. A docu- mentação é também uma parte importante do corpo de conhecimentos da profissão. O profis- sional da conservação deve empenhar-se em preservar estes registos e permitir o acesso adequado aos outros profissionais, desde que

o acesso não transgrida acordos relativos à confidencialidade.

Situações de Emergência 29. Situações de Emergência: As situações de emergência podem colocar sérios riscos

Situações de Emergência

29. Situações de Emergência: As situações de emergência podem colocar sérios riscos de danificação ou perda dos bens culturais, que podem implicar uma intervenção imediata por parte do profissional da conservação. Numa situação de emergência, que ameace os bens culturais, o profissional da conservação deve tomar todas as iniciativas razoáveis para a pre- servação dos bens culturais, reconhecendo embora que nem sempre possa ser possível respeitar integralmente as Directrizes para o Exercício da profissão.

Alterações

30. Alterações: Quaisquer alterações propos- tas ao Código de Ética e Directrizes para o Exer- cício da Profissão devem iniciar-se por uma petição à Direcção do AIC, por pelo menos 5 Fellows ou membros profissionais do AIC. A Direcção providenciará para que a Comissão adequada prepare as emendas para votação, de acordo com os procedimentos descritos na secção VII das leis. A aceitação das alterações ou modificações deverá ter a concordância de pelo menos dois terços dos votos de todos os Fellows e membros profissionais do AIC.

29

Trono Patriarcal (pormenor)

de pelo menos dois terços dos votos de todos os Fellows e membros profissionais do AIC.
Virgem da Boa Morte. Igreja da Madre de Deus RX DOCUMENTO DE PAVIA CONSIDERANDO que

Virgem da Boa Morte. Igreja da Madre de Deus

Virgem da Boa Morte. Igreja da Madre de Deus RX DOCUMENTO DE PAVIA CONSIDERANDO que o

RX

DOCUMENTO DE PAVIA

CONSIDERANDO que o Património Cultural, móvel e imóvel, é fundador da identidade cul- tural europeia, no respeito pelas diversidades nacionais e regionais;

nidos em Pavia em Outubro de 1997, recomen- dam que, na base do documento redigido pela classe profissional, no seio da Confederação Europeia de Associações de Conservadores-

CONSIDERANDO a natureza específica deste Património, o seu carácter não renovável, a obrigação moral de garantir o seu acesso às gerações presentes e vindouras e de sensibili- zar os profissionais do sector, o público e as

-restauradores (European Confederation of Conservator-Restors’ Organizations – “ECCO Professional Guidelines”) e em colaboração com todos os especialistas do sector, a União Europeia encoraje as seguintes acções:

1.

O

reconhecimento e a promoção da conser-

tutelas para a sua génese, a sua história, a sua fragilidade e a sua preservação;

CONSIDERANDO a necessidade de assegurar para o Património Cultural o mais alto nível da conservação-restauro, ou seja, capaz de lhe garantir a autenticidade e prolongar a existência;

2.

vação-restauro como disciplina leccionada, para todas as categorias de bens culturais, a nível universitário ou reconhecido como equivalente, com acesso ao doutoramento.

O desenvolvimento da interdisciplinaridade entre Conservadores-restauradores e os

CONSIDERANDO que esta conservação-restau-

CONSIDERANDO que o Conservador-restaura-

representantes das ciências exactas e huma- nas, tanto no ensino como na investigação.

ro de alto nível deve assentar no reconhecimen-

3.

A promoção do perfil do Conservador-res-

comunicação com os profissionais do sector,

to imprescindível de um estatuto profissional do Conservador-restaurador a nível europeu;

dor deve participar nas decisões desde a con-

taurador assente nas normas profissionais definidas pela ECCO (93/94), no seu papel na tomada de decisão desde a concepção de um projecto e na sua responsabilidade na

cepção de um projecto de conservação-restau-

o público e as tutelas.

ro e que, em colaboração com os outros par-

4.

A definição, a nível europeu, do conjunto de

ceiros envolvidos, deve assumir as responsabi- lidades na esfera da sua competência, espe-

competências profissionais específicas do Conservador-restaurador.

cialmente no diagnóstico, definição, realização

5.

O

impedimento da proliferação das formações

e documentação dos tratamentos.

não qualificadas que não correspondem às regras da profissão.

Os peritos das profissões envolvidas na con- servação-restauro do Património Cultural, reu-

6.

Um justo equilíbrio entre o ensino teórico e prático integrados, bem como o ensino das

31

Cultural, reu- 6. Um justo equilíbrio entre o ensino teórico e prático integrados, bem como o

Virgem da Boa Morte. Igreja da Madre de Deus

Virgem da Boa Morte. Igreja da Madre de Deus   estratégias de comunicação, na formação dos
Virgem da Boa Morte. Igreja da Madre de Deus   estratégias de comunicação, na formação dos
Virgem da Boa Morte. Igreja da Madre de Deus   estratégias de comunicação, na formação dos
 

estratégias de comunicação, na formação dos Conservadores-restauradores.

vo e jurídico deve incluir disposições sobre:

• A qualificação das empresas ou das equi-

SUMMIT EUROPEU

7.

A

implementação imediata de um programa

pas de profissionais responsáveis pelos

de cooperação e intercâmbio, no âmbito de

projectos de conservação-restauro;

uma rede europeia de instituições de forma- ção e investigação em conservação-restauro.

• As especificações a incluir no caderno de encargos, para qualquer projecto de con-

8.

A

realização, pela classe profissional, de um

servação-restauro.

estudo comparativo dos diferentes sistemas

12. A publicação de um glossário multilíngue,

educativos (objectivos, conteúdos e níveis).

baseado nas definições conceptuais que cons-

9.

Uma maior difusão da informação, mediante

tam das obras de referência da disciplina.

a

publicação dos dados e trabalhos em con-

13. A disponibilização de meios apropriados

servação-restauro. 10. A promoção e desenvolvimento da investi- gação em conservação-restauro. 11. A criação de um quadro regulamentar que garanta a qualidade das intervenções nos bens culturais ou no seu meio ambiente, com o fim de evitar os efeitos negativos das pressões de mercado. Este quadro normati-

para assegurar uma melhor comunicação entre os profissionais do sector, o público e as tutelas.

Pavia 18-22 de Outubro de 1997.

32

ENCORE- EUROPEAN NETWORK FOR CONSERVA- TION-RESTORATION EDUCATION – CLARIFICA-

ÇÃO DA FORMAÇÃO EM CONSERVAÇÃO- RESTAURO A NÍVEL UNIVERSITÁRIO OU EQUIVALENTE RECONHECIDO 1

A NÍVEL UNIVERSITÁRIO OU EQUIVALENTE RECONHECIDO 1 Nossa Senhora da Boa Morte. Igreja do Carmo. Beja

Nossa Senhora da Boa Morte. Igreja do Carmo. Beja

* Nota da tradução: visto os títulos

académicos dos países de língua

inglesa não terem, por vezes, um

equivalente Português, ou assumi-

rem outro significado [por exemplo,

Master’s level – MA ou MSc –, que

equivale a uma Licenciatura e não a

um Mestrado (MPhil)], optou-se,

sempre que possível, por proceder-

se à respectiva equivalência.

1 NOTA: No presente documento, o

conservador-restaurador é definido

como um licenciado em conservação-

restauro. Um licenciado em ciências

exactas ou naturais que trabalhe na

área da conservação-restauro pode

ser definido como um cientista da

conservação

2 Documento de Pavia. Preservação

do Património Cultural: À procura de

um perfil Europeu do conservador-

restaurador. Encontro Europeu.

Pavia, 18-22 de Outubro de 1997.

3 Documento de Viena. Conferência

europeia “A framework of competen-

ce for conservator-restorers in Euro-

pe” 30 de Novembro – 1 de Dezem-

bro de 1998.

4 Conservadores-Restauradores do

Património Cultural na Europa: Cen-

Antecedentes

Como resultado de um Encontro de represen- tantes de 30 instituições de ensino europeias, em Novembro de 1997 em Dresden, foi funda- da em 23 de Maio de 1998, em Copenhaga, uma rede europeia de instituições de ensino e investigação em conservação-restauro do património cultural – “ENCoRE”. Os membros fundadores acordaram nos estatutos da asso- ciação e confirmaram o seu estatuto legal. Um dos objectivos fundamentais do ENCoRE é promover a investigação e o ensino no campo da conservação-restauro do património cultu-

ral, com base nas directivas e recomendações das Directrizes Profissionais da Confederação Europeia de Organizações de Conservadores- Restauradores E.C.C.O., de 1993, e do Docu- mento de Pavia, de Outubro de 1997.

A necessidade de clarificação do nível universi-

tário, ou equivalente reconhecido, para a for- mação dos conservadores-restauradores, foi

sublinhada no Encontro que reuniu em Viena, em 1998, representantes de 43 instituições de ensino, investigação e organizações de conser- vadores-restauradores. No documento aprova- do nesta reunião define-se que esta tarefa

deverá ser coordenada pelo ENCoRE, em asso-

ciação com o projecto CON.B.E.FOR. (Conser- vadores-Restauradores do Património Cultural

na Europa: Centros de Ensino e Institutos. Uma Investigação Comparada).

O presente documento é o contributo do ENCo-

RE para esta clarificação, levando em conta a

Declaração de Bolonha para a Área do Ensino Superior. Um esboço do documento de clarifi- cação foi apresentado e aprovado na 2ª Assembleia Geral do ENCoRE, em Novembro de 1999 em Berna. O documento foi melhorado por um grupo de trabalho representativo de 11 instituições-membros do ENCoRE criado na 2ª Assembleia Geral, e discutido por todos os membros do ENCoRE. A versão final foi discuti- da, editada e aprovada por unanimidade na 3ª Assembleia Geral do ENCoRE, em Junho de 2001, Munique.

René Larsen

Clarificação da Formação em Conser- vação e Restauro ou equivalente reconhecido

O Documento de Pavia (1997) define a conser-

vação-restauro como “disciplina leccionada, para todas as categorias de bens culturais, a nível universitário ou reconhecido como equi- valente, com acesso ao doutoramento” 2 . O

Encontro de Viena (1998) expressou a necessi- dade de clarificação da formação em conserva- ção-restauro a nível universitário e equivalente reconhecido (Documento de Viena parte 3) 3 . Acrescente-se ainda que na “Agenda for the Future” (“Agenda para o Futuro”) do Documen-

to de Viena, estabelece-se que esta tarefa deve

ser coordenada pelo ENCoRE em associação

33

o Futuro”) do Documen- to de Viena, estabelece-se que esta tarefa deve ser coordenada pelo ENCoRE

tros de Educação e Institutos. Uma Investigação Comparada (Conser- vators-Restorers of Cultural Herita- ge in Europe: Education Centers and Institutes. A Comparative Research) CON.BE.FOR. Associazio- ne Giovanni Secco Suardo, Lurano (BG), Itália, 2000, ISBN 88-8420-

001-6.

5 Declaração de Bolonha. A Forma- ção Superior Europeia. Declaração Conjunta dos Ministros Europeus da Educação (The Bologna Declaration. The European higher education area. Joint declaration of the Euro- pean Ministers of Education). Bolo- nha, 19 de Junho de 1999. 6 A Nossa Diversidade Criativa. Relatório da Comissão Mundial para a Cultura e Desenvolvimento da UNESCO (Our Creative Diversity. Report of the UNESCO World Com- mission on Culture and Develop- ment), 1996.

World Com- mission on Culture and Develop- ment), 1996. com o projecto CON.B.E.FOR. (2000) 4 .

com o projecto CON.B.E.FOR. (2000) 4 . A presente publicação é a contribuição do ENCoRE para esta clarificação, tomando em linha de conta a Declaração de Bolonha para a área do Ensino Universitário Europeu (1999) 5 .

Introdução

A conservação-restauro de objectos do patri-

mónio cultural é, fundamentalmente, uma dis- ciplina humanística académica que se insere na disciplina global da conservação de todo o património cultural. Em 1996, no relatório intitu- lado “Our Creative Diversity”, da World Commis- sion on Culture and Development da UNESCO, foi definida a base política e filosófica para todas as suas actividades, como um direito que pertence a toda a humanidade 6 .

A existência, acesso e protecção necessárias do

património cultural como um direito de toda a humanidade implicam enormes exigências de qualidade, assim como o controlo democrático e um olhar público sobre todos os aspectos das actividades e gestão do património cultural, incluindo a formação. A qualidade, controlo democrático e perspectiva pública aprofundada sobre a formação em conservação-restauro, só podem ser asseguradas através de uma formação académica a nível universitário, validada pelo Governo, e que conduza a títulos académicos pro- tegidos e internacionalmente reconhecidos. Instituições de ensino que não se designem por universidades, mas que ofereçam programas de estudo que, em duração, conteúdo e qualidade, possam ser considerados pelos respectivos órgãos de acreditação governamentais (como os Ministérios de Educação) equivalentes e/ou com- patíveis com um título universitário, devem ser reconhecidas como sendo do mesmo nível.

34

A Disciplina da Conservação-Restau- ro

A disciplina da conservação-restauro é uma ciência empírica, dedicada à prevenção e trata- mento da deterioração dos bens do património cultural. Caracteriza-se por ser uma conjuga- ção de conhecimento teórico e de competência prática, e inclui a capacidade para julgar de uma forma sistemática questões éticas e esté- ticas. Tem as suas origens nas artes e ofícios, assim como nas ciências humanas, exactas e naturais. O que distingue o conservador-res- taurador do artista ou artífice é a realização, de forma cognitiva e sistemática, da análise, diag- nóstico e solução dos problemas, como base das aptidões práticas para conservar e restau- rar. Uma base sólida de destreza prática e um conhecimento da informação, da complexida- de e interactividade do comportamento mate- rial do objecto, e das influências ambientais, é o que distingue o conservador-restaurador dos profissionais de outras áreas académicas afins. Estas definições formam a base, e carac- terizam, a formação e a investigação na área da conservação-restauro.

Formação em Conservação-Restauro:

Níveis e Progressão

Enquanto disciplina académica, a conserva- ção-restauro baseia-se, por definição, no nível mais alto de investigação. A base da formação em conservação-restauro consiste num equilí- brio adequado entre ensino teórico e prático integrados, tal como definido no “Documento de Pavia”. Deve-se pois procurar que o conservador-res- taurador credenciado para uma prática profis- sional independente seja, por definição, um graduado a nível de Licenciatura, por uma uni- versidade ou organismo reconhecido como equivalente pelo Governo, ou a nível de inves- tigação de Doutoramento (PhD). Um programa de estudo em conservação-restauro a nível de

Bacharelato deveria ser encarado como um requisito de admissão ao grau de Licenciatura,

e não como uma qualificação para a prática

profissional independente. O nível de admissão para a formação académica em conservação- restauro deve ter como exigência mínima o cor- respondente ao Gymnasium, Ensino Secundá- rio, Baccalaureat, ou equivalente. Tal como definido pela investigação do projecto CON.B.E.FOR., a duração mínima deve ser de três anos para o grau de Bacharel, antes do ingresso no grau de Licenciatura. A duração total dos estudos para a entrada na profissão, ou para prosseguir para o grau de doutoramento, deve ser de cinco anos. Há ainda necessidade de se estabelecer um acordo claro entre países em termos de equivalências, no que respeita ao acesso, conteúdo, nível e duração dos progra- mas de estudo dos graus de Bacharelato e Licenciatura.

Formação em Conservação-Restauro:

Conteúdo

A descrição que se segue dos conteúdos da for-

mação em conservação-restauro abrange progra-

mas de estudo do nível graduado a pós-graduado.

O projecto CON.B.E.FOR. identificou 20 temas

considerados essenciais para o conteúdo de um programa de formação em conservação-res- tauro 7 . A natureza integrante, significado e fun- ção do património cultural devem ter um papel central em todos os aspectos do programa. Devem integrar-se cuidadosamente no curricu- lum temas teóricos auxiliares, directamente relacionados com a prática da conservação-res- tauro, que deveria constituir a parte principal do programa. Os estudos práticos de conserva- ção-restauro devem incluir trabalho a um nível avançado e proporcionar o conhecimento de metodologias científicas teóricas e/ou experi- mentais, tornando o estudante apto a partici- par em trabalhos de desenvolvimento científi- co. Por outro lado, uma abordagem sistemática

científi- co. Por outro lado, uma abordagem sistemática da ponderação crítica dos problemas de natu- reza

da ponderação crítica dos problemas de natu- reza ética e estética deve também fazer parte integrante do programa de estudo. Os Licenciados em conservação-restauro devem estar aptos a:

• planear, coordenar e realizar trabalho prático de conservação-restauro, incluindo trabalho experimental e de desenvolvimento baseado em metodologia científica. • planear, coordenar e realizar análises cientí- ficas elementares e estar aptos a interpretar

e avaliar análises mais avançadas realizadas

por outros. • fazer observações e avaliações rigorosas de

objectos individuais e de colecções, incluindo

o estudo dos materiais e das técnicas (identi-

ficação e datação), bem como de questões éti-

35

Nossa Senhora da Boa Morte. Igreja do Carmo. Beja

7 No questionário do CON.BE.FOR,

página 483, Secção B, Questão 24,

pode ser consultada uma lista com a

identificação de outros temas consi-

derados importantes em qualquer

curso de conservação. CON.BE.FOR.

Associazione Giovanni Secco Suar-

do, Lurano (BG), Itália, 2000, ISBN

88-8420-001-6:

Química

Física

Biologia

Ciências da Terra (Geologia, Minera-

logia, Pedologia)

História da arte, Arqueologia, Etno-

logia, História, Paleografia

Filosofia, Estética

História da Tecnologia da Arte

História da conservação-restauro

Exegese das fontes técnicas

Processos de degradação

Ambiente (clima, luz, segurança, etc

Exposição, armazenamento e manu-

seamento

Ciência da conservação dos materiais

Exame e documentação técnica e

científica

Relatório do estado de conservação,

avaliação e diagnóstico

Metodologia da conservação-restauro

Princípios teóricos e éticos da

conservação-restauro

Gestão e aspectos legais no campo

da conservação-restauro

Capacidades de comunicação

)

Regulamentos de saúde e de segurança
Regulamentos de saúde e de segurança
cas e estéticas, em colaboração com historia- dores de arte, arqueólogos e outros especia- listas.

cas e estéticas, em colaboração com historia- dores de arte, arqueólogos e outros especia- listas. Administrar e gerir o armazenamento, manuseamento e exposição de artefactos. • participar em projectos de investigação de conservação-restauro, na qualidade de assistentes de investigação.

Formação em Conservação-Restauro:

Avaliação

As avaliações devem ser cuidadosamente pla-

neadas e variadas, devendo incluir tanto avalia- ções formativas como avaliações sumativas, de forma a permitir uma atempada apreciação rigorosa do aluno nos seus progressos teóricos e práticos. Deve recorrer-se à avaliação contí- nua no ensino prático, devendo os exames/ avaliações finais ser concebidos de modo a per- mitir que os alunos demonstrem competência em todas as áreas abrangidas pelo programa. Deve recorrer-se a examinadores externos para integrarem o júri final de examinadores e, ideal-

mente, ao longo de todo o programa de estudo, na qualidade de consultores curriculares e moderadores da avaliação.

Formação em Conservação-Restauro:

Estudos no âmbito do Doutoramento

Os estudos a realizar no âmbito do doutora- mento em Conservação-restauro podem con- sistir em investigação básica, investigação aplicada, desenvolvimento experimental, ou numa combinação. Devido à complexidade desta área, pode na maioria dos casos ser uma combinação, por exemplo, de investigação básica aplicada e de pesquisa aplicada para um desenvolvimento experimental. Com excep-

ção dos processos de deterioração e do desen- volvimento da conservação-restauro, os temas

de

investigação podem integrar-se nos campos

da

teoria, filosofia e história da conservação.

O

doutorado em conservação-restauro deve

36

estar apto a continuar a desenvolver o trabalho de investigação e de desenvolvimento no campo da conservação-restauro. O grau de doutoramento em conservação-restauro cons- titui a base de recrutamento de investigadores e formadores que venham a desenvolver no futuro a prática e a investigação em conserva- ção-restauro. Actualmente há poucas faculdades ou escolas de conservação-restauro independentes, no conjunto das instituições educativas, que ofe- reçam acesso directo a graus superiores em conservação-restauro. Para realizarem a sua progressão de graus de bacharelato para licen- ciatura, mestrado (Mphil), doutoramento (PhD), o caminho normal a seguir pelos alunos seria o de obter o primeiro grau na mesma área temática do grau superior. Apesar de presente- mente existirem muitos cursos em conserva- ção-restauro a nível de Licenciatura, a maioria dos alunos que se graduam em conservação- restauro não têm um percurso específico defi- nido para chegarem ao doutoramento. Mesmo quando o tema de investigação se enquadra no campo da conservação-restauro, o doutora- mento integra-se na maior parte dos casos na área temática da faculdade em que o aluno está inscrito, como seja a História da Arte, Ciência Aplicada, etc. É necessário apoiar os alunos que se graduam em estudos de conser- vação-restauro, para que se possam matricular em graus superiores dessa disciplina.

Aprovado por unanimidade pela terceira Assem- bleia Geral do ENCoRE, a 22 de Junho de 2001

Membros do Grupo de Trabalho:

René Larsen (Coordenador) Dinamarca Agnés le Gac Portugal Christophe Zindel Suiça Friedmann Hellwig Alemanha Gabriela Krist Áustria Joost Caen Bélgica Mathias Knaut Alemanha Rená Hoppenbrouwers Holanda Ulrich Schiessl Alemanha

Introdução O património cultural contribui para a defini- ção da identidade europeia. Ele constitui uma

Introdução

O património cultural contribui para a defini- ção da identidade europeia. Ele constitui uma expressão fundamental da riqueza e da diver- sidade cultural na Europa. Testemunho único do passado, a protecção do património cultural representa um interesse comum dos Estados europeus que devem assegurar a sua trans- missão às gerações futuras. Para responder a essa obrigação, cada Estado criou Instituições e serviços especializados, e adoptou um enquadramento legislativo no qual os bens culturais, reconhecidos pelo seu valor histórico ou artístico, ou ainda por outros crité- rios patrimoniais, ficam sujeitos a um regime jurídico que pode, nomeadamente, contemplar medidas para a sua conservação-restauro. Alguns bens culturais não são abrangidos por esse regime de protecção ou ainda não foram classificados de acordo com os critérios pro- postos pelo enquadramento legal. Esses bens não deixam de ser menos uma parte do patri- mónio cultural e deve-lhes ser assegurada uma conservação-restauro segundo princípios que garantam a qualidade das intervenções e a perenidade desse património. No entanto, a análise dos sistemas jurídicos de protecção dos bens culturais e o recensea- mento das situações com que são confronta- dos os profissionais da conservação-restauro, revelam graves lacunas susceptíveis de com- prometer a eficácia dos princípios de protec- ção enunciados pelos sistemas jurídicos e a

APEL - ACTEURS DU PATRIMOINE EUROPÉEN ET LÉGISLATION – RECOMENDAÇÕES E DIRECTRIZES PARA A ADOPÇÃO DE PRINCÍPIOS COMUNS SOBRE A CONSERVAÇÃO- RESTAURO DO PATRIMÓNIO CULTU- RAL NA EUROPA

qualidade dos serviços e trabalhos de conser- vação-restauro.

O papel fundamental do conservador-restaura-

dor é o de preservar os bens culturais para o benefício das gerações presentes e futuras. O conservador-restaurador contribui para a iden- tificação, apreciação e compreensão dos bens culturais, no que respeita ao seu significado estético e histórico e à sua integridade física. Nem todos os Estados europeus adoptaram já medidas que visem o reconhecimento de um nível de formação e uma qualificação elevada para o acesso à profissão de conservador-res- taurador. Para fazer face a essas insuficiências institucionais, a Confederação Europeia de Associações de Conservadores-Restauradores (ECCO) adoptou, em 1993, as « Regras profissio-

nais da ECCO», definindo as condições para o exercício da conservação-restauro, o nível de formação requerido para o exercício da profis- são e os princípios deontológicos que esses profissionais devem respeitar. Até ao momento,

dezanove associações profissionais, repartidas por quatorze Estados europeus, adoptaram as Directrizes Profissionais I, II e III da ECCO.

A nível europeu e em parceria com outras enti-

dades, a ECCO contribuiu para a difusão des- sas regras profissionais e normas deontológi- cas para a conservação-restauro, nomeada- mente pelo seu envolvimento na adopção do Documento de Pavia em 1997, aquando da cimeira consagrada à definição de um perfil europeu do conservador-restaurador. Esse documento foi ratificado pelo Comité de con-

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à definição de um perfil europeu do conservador-restaurador. Esse documento foi ratificado pelo Comité de con-
Marioneta do Teatro Wayang Kolet (Indonésia). Museu de Etnologia servação do Conselho Internacional dos Museus
Marioneta do Teatro Wayang Kolet (Indonésia). Museu de Etnologia servação do Conselho Internacional dos Museus

Marioneta do Teatro Wayang Kolet (Indonésia). Museu de Etnologia

do Teatro Wayang Kolet (Indonésia). Museu de Etnologia servação do Conselho Internacional dos Museus (ICOM). No

servação do Conselho Internacional dos Museus (ICOM). No Documento de Viena em 1998, a comunidade profissional, com o apoio da ECCO, identificou a necessidade de clarificar o papel e a responsa- bilidade dos conservadores-restauradores nos processos de conservação-restauro. Em 2000, o relatório sobre os «conservadores-restaurado- res dos bens culturais na Europa: centros e ins- titutos de formação (CON.BE. FOR)» colocou em evidência a necessidade de uma qualificação e de um nível de formação elevados dos conser- vadores-restauradores. Esse objectivo é nomea- damente desenvolvido pelo European Network for Conservation – Restoration Education (ENCo- RE) que propõe princípios comuns para a forma- ção de conservadores-restauradores. Os esforços da comunidade profissional cons- tituem apenas uma etapa, devendo os poderes públicos – responsáveis pela protecção do património cultural – dar-lhes continuidade de forma a assegurar a disseminação de normas comuns que regulem a entrada na profissão e a prática da conservação-restauro, assim como os princípios deontológicos.

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De facto, a qualidade das intervenções e pro-

jectos de conservação-restauro é uma condição essencial para assegurar uma protecção e pere- nidade do património cultural Europeu. Esta qualidade está estreitamente relacionada com

o reconhecimento a nível Europeu do estatuto

profissional de conservador-restaurador. Nesta perspectiva, estas recomendações e direc- trizes enunciam as medidas mínimas que os sis- temas jurídicos nacionais deveriam formular de forma a reconhecer a especificidade da conser- vação-restauro dos bens culturais, e portanto, a necessidade de um nível de qualificação elevado para o exercício dessa mesma profissão.

Directrizes

1. Definição de conservação-restauro:

A conservação-restauro deverá ser definida

como toda a intervenção, directa ou indirecta, sobre um objecto ou um monumento, pratica- da de forma a salvaguardar a sua integridade

material e garantir o respeito do seu significa-

do cultural, histórico, estético e artístico.

Esta definição condiciona a natureza, extensão

e limites das medidas que podem ser tomadas, assim como as intervenções que podem ser levadas a cabo no património cultural.

2. Protocolo para os projectos de conserva- ção-restauro:

A programação, adjudicação ou o lançamento

a concurso das intervenções de conservação-

-restauro devem fazer referência a um protocolo

que respeite o encadeamento das diferentes etapas do processo de conservação-restauro, abaixo enumeradas:

• Iniciativa do projecto de conservação-restauro

• Exame preliminar, diagnóstico e decisão de intervenção

• Formulação do projecto e a sua aprovação final

• Desenvolvimento da intervenção de conser- vação-restauro

• Acompanhamento e avaliação das intervenções

• Documentação

• Manutenção e conservação preventiva

E precedendo todas ou parte destas etapas do processo,

• Selecção do prestador de serviços

Os Estados devem adoptar medidas jurídicas para assegurar que este procedimento seja respeitado nos projectos de conservação-res- tauro de forma a que a sua implementação garanta a qualidade das intervenções e a lon- gevidade dos bens culturais.

3. Adopção de medidas nacionais:

O protocolo de intervenção de conservação- restauro inclui etapas que têm de ser mencio- nadas na legislação nacional. Em concreto, o sistema jurídico nacional relativo à conserva- ção-restauro, terá também de especificar as etapas que deverão ser levadas a cabo antes e depois da intervenção, propriamente dita.

Anterior à intervenção:

Iniciativa de um projecto de conservação-res- tauro. O envolvimento de conservadores-res- tauradores no estabelecimento de políticas de estratégia e gestão dos bens culturais deve ser formalmente enunciado e definido.

Exame preliminar, diagnóstico, e decisão de intervenção. Esta etapa, essencial na conduta de um projecto de conservação-restauro, incluindo a documentação, requer a alocação de um orçamento específico.

Formulação do projecto e sua aprovação final. As responsabilidades respectivas dos actores envolvidos nesta etapa devem ser identificadas. Assim, na formulação do pro- jecto, o papel do conservador-restaurador deve ser explicitamente previsto e preciso.

Durante e após a intervenção:

previsto e preciso. Durante e após a intervenção: • Acompanhamento contínuo e avaliação das

Acompanhamento contínuo e avaliação das intervenções. Esta etapa deve assegurar que o controlo da qualidade, durante e após as intervenções, se realiza de acordo com os princípios enunciados na Carta de Atenas para o restauro de monumentos históricos (adoptada em 1931), na Carta internacional sobre a conservação e o restauro de monu- mentos e sítios (Carta de Veneza), adoptada pelo ICOMOS, em 1965. A realização desta etapa deve ser confiada a profissionais pos- suidores das competências requeridas em conservação-restauro.

Intervenções específicas:

Marioneta (Indonésia).

Manutenção e conservação preventiva. Estas etapas, essenciais nos processos de conserva- ção-restauro, requerem a identificação dos níveis de cuidados apropriados, que devem ser prescritos num programa de manutenção deta- lhado e a alocação de orçamentos específicos. • Documentação. Esta etapa consiste num registo apurado, escrito e pictórico de todos

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orçamentos específicos. • Documentação . Esta etapa consiste num registo apurado, escrito e pictórico de todos
Marionetas (Indonésia). os procedimentos que foram levados a cabo e a justificação dos mesmos. O
Marionetas (Indonésia). os procedimentos que foram levados a cabo e a justificação dos mesmos. O

Marionetas (Indonésia).

os procedimentos que foram levados a cabo e a justificação dos mesmos. O relatório docu- mental deve ser entregue ao proprietário ou à tutela do bem patrimonial e deve poder vir a ser consultado. Os requisitos para o seu arma- zenamento, manutenção, exposição ou con- sulta devem ser especificados nesse documen- to. Os direitos de autor, morais ou materiais, dos profissionais envolvidos na documenta- ção, devem ser respeitados. Esta etapa, essencial num projecto de conser- vação-restauro, requer a alocação de um orçamento específico.

E, para todas as etapas antes, durante e após a intervenção assim como para as intervenções específicas:

Selecção dos prestadores de serviços. O dossier do projecto deve especificar que só devem ser consideradas as candidaturas apresentadas por conservadores-restauradores que respon- dam aos seguintes requisitos: alto nível de qua- lificação profissional e observância dos princí- pios deontológicos acordados pelas associa- ções profissionais de conservadores-restaura- dores que estejam representadas a nível Euro- peu. Para os casos de gestão, adjudicação ou concurso, devem ser previstas cláusula de forma a assegurar que prevaleçam as conside- rações sobre a qualidade, em relação ao factor económico, quer no processo de selecção, quer no dossier apresentado pelo prestador de ser- viços. Um conservador-restaurador deve parti- cipar no processo de pré-selecção.

deve parti- cipar no processo de pré-selecção. 40 4. Responsabilidades no processo de conser-

40

4. Responsabilidades no processo de conser-

vação-restauro:

A sequência das operações, desde a prescrição

à execução e controlo de qualidade, deve estar

sob a responsabilidade de uma equipa interdis- ciplinar que inclua conservadores-restaurado- res. Nesse caso, as responsabilidades do con- servador-restaurador têm de ser reconhecidas em todas as fases, especialmente para as rela- cionadas com o exame preliminar, diagnóstico e decisão da intervenção, formulação do projecto, acompanhamento e avaliação da intervenção, conservação preventiva e manutenção.

5. Qualificações do conservador-restaurador:

Os requisitos para a entrada na profissão de conservador-restaurador e para a sua prática subsequente deverão ser integrados num siste- ma que reconheça um alto nível para as qualifi- cações profissionais validadas por uma autori- dade pública e definidas por associações pro- fissionais de conservadores-restauradores representadas a nível Europeu. Este sistema deve ser baseado no nível académico (grau uni- versitário ou equivalente reconhecido) e na qualidade da experiência profissional adquirida

e deve ainda prever medidas para os casos de falta ou má conduta profissional.

DOCUMENTO DE NARA SOBRE A AUTENTICIDADE

DOCUMENTO DE NARA SOBRE A AUTENTICIDADE Preâmbulo 1. Nós, os especialistas reunidos em Nara (Japão), gostaríamos

Preâmbulo

1. Nós, os especialistas reunidos em Nara (Japão), gostaríamos de reconhecer o espírito generoso e a coragem intelectual das autorida- des japonesas que, oportunamente, providen- ciaram um fórum em que pudéssemos questio- nar o pensamento convencional no campo da conservação e debater formas e meios de alar- gar os nossos horizontes para fomentar um

nacionalismo agressivo e da supressão das culturas das minorias, clarificar e iluminar a memória colectiva da humanidade é o con- tributo essencial trazido pelo respeito da autenticidade na prática da conservação.

Diversidade Cultural e Diversidade do Património

5.

A

diversidade das culturas e do património no

maior respeito pela diversidade cultural e patri- monial na prática da conservação.

2. Queremos também reconhecer o valor do documento-base para discussão, providen- ciado pela Comissão do Património Mundial, com o intuito de aplicar o teste da autentici- dade, de forma a respeitar integralmente os valores sociais e culturais de todas as socie-

nosso mundo é uma insubstituível fonte de riqueza espiritual e intelectual para toda a humanidade. A protecção e valorização da diversidade cultural e patrimonial, no nosso mundo, deve ser activamente promovida como aspecto essencial do desenvolvimento

humano.

dades, ao examinar o excepcional valor uni-

6.

A

diversidade da herança cultural existe no

versal dos bens culturais propostos para

tempo e no espaço, e exige o respeito pelas

integrar a Lista do Património Mundial.

outras culturas e de todos os aspectos dos seus sistemas de crenças. Nos casos em que

3. O Documento de Nara sobre a Autenticidade

os valores culturais pareçam estar em conflito,

é concebido dentro do espírito da Carta de Veneza de 1964, é elaborado a partir dele, e completa-o enquanto resposta ao alarga-

respeito pela diversidade cultural exige o reconhecimento da legitimidade dos valores culturais de todas as partes.

o

mento do âmbito e interesses do património cultural no nosso mundo contemporâneo.

7.

Todas as culturas e sociedades têm as suas

4. Num mundo sujeito cada vez mais às forças da globalização e homogeneização, num mundo em que a procura da identidade cul- tural é por vezes prosseguida no meio dum

raízes em formas e meios particulares de expressão, materiais e imateriais, que constituem o seu património e devem ser respeitados.

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e meios particulares de expressão, materiais e imateriais, que constituem o seu património e devem ser

Retábulo da Sé de Coimbra (pormenor)

Retábulo da Sé de Coimbra (pormenor) 8. É importante sublinhar um princípio funda- mental da UNESCO,
Retábulo da Sé de Coimbra (pormenor) 8. É importante sublinhar um princípio funda- mental da UNESCO,

8. É importante sublinhar um princípio funda- mental da UNESCO, segundo o qual o patri- mónio cultural de cada um é património cul- tural de todos. A responsabilidade pelo património cultural e pela sua gestão perten- cem, em primeiro lugar, à comunidade cultu- ral que o gerou e, subsequentemente, a quem o tem ao seu cuidado. Contudo, para além destas responsabilidades, a adesão às cartas e convenções internacionais, desen- volvidas para a conservação do património cultural, também obriga à consideração dos princípios e responsabilidades que deles emanam. É, pois, altamente desejável que cada comunidade encontre um equilíbrio entre os seus próprios requisitos e os de outras comunidades culturais, desde que o atingir este equilíbrio não mine os seus valo- res culturais fundamentais.

Valores e Autenticidade

9. A conservação da herança cultural em todas as suas formas e em todos os períodos his- tóricos, está enraizada nos valores atribuí- dos ao património cultural. A nossa capaci- dade em entender estes valores depende, em parte, da medida em que as fontes de informação sobre estes valores possa ser compreendida como credível ou verdadeira. O conhecimento e compreensão destas fon- tes de informação, relativamente a caracte-

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rísticas originais e subsequentes do patrimó- nio cultural, e do seu significado, é um requi- sito básico para avaliar todos os aspectos da autenticidade.

10. A autenticidade, considerada desta forma e tal como enunciada na carta de Veneza, apa- rece como o factor qualificativo essencial res- peitante aos valores. O entendimento da autenticidade desempenha um papel funda- mental em todos os estudos científicos do património cultural, no planeamento da con- servação e do restauro, bem como nos pro- cedimentos de inscrição utilizados pela Con- venção do Património Mundial e outros inventários do património cultural.

11. Todos os juízos dos valores atribuídos aos bens culturais, bem como a credibilidade das fontes de informação com eles relacionados podem diferir de cultura para cultura, e mesmo no seio da mesma cultura. Não é pois possível basear os juízos sobre valores e autenticidade em critérios fixos. Pelo contrá- rio, o respeito devido a todas as culturas requer que todos os bens culturais sejam considerados e analisados dentro dos con- textos culturais a que pertencem.

12. Consequentemente, é da maior importância e urgência que, dentro de cada cultura, se reco- nheça a natureza específica dos seus valores patrimoniais e a credibilidade e veracidade das fontes de informação relacionadas.

13. Dependendo da natureza do património cul- tural, do seu contexto cultural e da sua evo- lução ao longo do tempo, os juízos sobre autenticidade podem estar ligados a uma grande variedade de fontes de informação. Alguns aspectos das fontes poderão incluir a concepção e forma, materiais e substância, uso e função, tradições e técnicas, localiza- ção e ambiente, espírito e expressão, e outros factores internos e externos. A utiliza- ção destas fontes oferece a possibilidade de

descrever o património cultural nas suas dimensões específicas, na perspectiva artís- tica, histórica, social e
descrever o património cultural nas suas dimensões específicas, na perspectiva artís- tica, histórica, social e

descrever o património cultural nas suas dimensões específicas, na perspectiva artís- tica, histórica, social e técnica.

Apêndice I

Recomendações para follow up (propostas por H. Stovel)

1. O respeito pela diversidade cultural e patri- monial requer esforços conscientes para evi- tar a imposição de fórmulas mecanicistas ou processos estandardizados ao tentar definir ou determinar a autenticidade de monumen- tos ou sítios particulares. 2. A determinação da autenticidade de uma forma que respeite a diversidade das culturas e dos patrimónios requer atitudes que encora- jem as culturas a dotar-se de métodos de aná- lise e de instrumentos que reflictam a sua natureza e necessidades. Estas atitudes

podem ter vários aspectos em comum, incluin- do os esforços necessários para:

• assegurar que a avaliação da autenticidade envolva uma colaboração multidisciplinar e a utilização apropriada de todos os conheci- mentos e capacidades técnicas disponíveis; • assegurar que os valores reconhecidos sejam verdadeiramente representativos duma cultura e da diversidade dos seus inte- resses, em monumentos e sítios concretos; • documentar claramente a natureza particular da autenticidade dos monumentos e sítios para constituir um guia prático para trata- mento e monitorização futuros; • actualizar as avaliações de autenticidade à luz da evolução dos valores e contexto.

3. São particularmente importantes os esforços para assegurar o respeito pelos valores reconhecidos, e que a sua deter- minação inclua esforços por construir, na medida do possível, um consenso multi-

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inclua esforços por construir, na medida do possível, um consenso multi- 43 Retábulo da Sé de
inclua esforços por construir, na medida do possível, um consenso multi- 43 Retábulo da Sé de

Retábulo da Sé de Coimbra (pormenor)

inclua esforços por construir, na medida do possível, um consenso multi- 43 Retábulo da Sé de

Retábulo da Sé de Coimbra (pormenor)

Retábulo da Sé de Coimbra (pormenor) disciplinar e comunitário relativamente a esses valores. 4. As atitudes

disciplinar e comunitário relativamente a esses valores. 4. As atitudes devem basear-se e facilitar a cooperação internacional entre todos os interessados na conservação do património cultural, para aumentar o respeito universal e a compreensão da diversidade de valores e expressões culturais.

da diversidade de valores e expressões culturais. 5. A continuação deste diálogo e a sua extensão

5. A continuação deste diálogo e a sua extensão às várias religiões e culturas do mundo consti- tuiu um pré-requisito para aumentar o valor prático de se considerar a autenticidade na con- servação da herança comum da humanidade. 6. A sensibilização acrescida do público em rela- ção a esta dimensão fundamental do patrimó- nio é absolutamente necessária para se conse- guir as medidas concretas que permitam a sal- vaguarda dos testemunhos do passado. Isto significa que se desenvolva uma maior com-

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preensão dos valores representados pelos pró- prios bens culturais, bem como o respeito pelo papel que esses monumentos e sítios desem- penham na sociedade contemporânea.

Apêndice II

Definições

Conservação: integra todos os esforços desti- nados a compreender o património cultural, conhecer a sua história e significado, assegu- rar a sua salvaguarda material e, eventualmente, a sua exposição, restauro e valorização (enten- de-se património cultural como incluindo monumentos, grupos de edifícios e sítios de valor cultural, tal como definido no artigo 1º da Convenção do Património Mundial).

Fontes de informação: todas as fontes mate- riais, escritas, orais e figurativas que possibili- tam conhecer a natureza, especificações, signi- ficado e história do património cultural.

O Documento de Nara sobre a Autenticidade foi esboçado pelos 45 participantes na Conferência de Nara sobre a Autenticidade no quadro da Convenção do Património Mundial, realizada em Nara, Japão, de 1 a 6 de Novembro de 1994, a convite da Agência para os Assuntos Culturais (Governo do Japão) e o Município de Nara. A Agência organizou a Conferência de Nara em cooperação com a UNESCO, ICCROM e ICOMOS. Esta versão final do Documento de Nara foi edi- tada pelos relatores gerais da Conferência de Nara, o Sr. Raymond Lemaire e o Sr. Herb Stovel.