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2 DE FEVEREIRO

16. APRESENTAÇÃO DO SENHOR


Festa

– Maria oferece Jesus ao Pai.

– Iluminar com a luz de Cristo.

– Jesus Cristo, sinal de contradição.

Quarenta dias após o nascimento do seu Filho, Nossa Senhora dirigiu-se ao Templo para
oferecê-lo ao Senhor e pagar o resgate simbólico estabelecido na Lei de Moisés. Com toda a
piedade e amor, Maria ofereceu o Menino a Deus Pai e deu-nos exemplo de como deve ser o
oferecimento das nossas obras a Deus.

A Apresentação do Filho está unida à Purificação da Mãe. A Santíssima Virgem quis


cumprir o que estava prescrito na Lei, ainda que nunca houvesse entrado naquele Templo
criatura alguma tão pura e cheia de graça. Ambos os mistérios estão englobados na liturgia da
Missa. Ao longo dos séculos, foi considerada ora festa do Senhor, ora festa mariana. Já era
celebrada em Jerusalém em fins do século IV. A partir de então, estendeu-se pelo Oriente e
pelo Ocidente, e para a sua celebração fixou-se o dia 2 de Fevereiro.

A procissão com os círios significa a luz de Cristo anunciada por Simeão no Templo – Luz
para iluminar as nações – e propagada através da actuação de cada cristão.

I. E DE REPENTE VIRÁ ao seu Templo o Senhor a quem buscais, o


mensageiro da Aliança que desejais: vede-o entrar...1

Quarenta dias após o seu nascimento, Jesus chega ao Templo nos braços
de Maria para ser apresentado ao Senhor, como mandava a lei judaica. Só
Simeão e Ana, movidos pelo Espírito Santo, reconhecem o Messias naquele
Menino. A liturgia recolhe no Salmo responsorial as aclamações que, de modo
simbólico, se cantavam muito provavelmente à entrada da Arca da Aliança.
Agora atingem a sua mais plena realidade: Portões, abri os vossos dintéis,
levantai-vos portas eternas: eis que vem o Rei da glória!2

Depois da circuncisão, era necessário cumprir duas cerimónias, conforme


prescrevia a Lei: o filho primogénito devia ser apresentado ao Senhor e depois
resgatado; e a mãe devia purificar-se da impureza legal contraída3. Lia-se no
Êxodo: ... E o Senhor disse a Moisés: Declara que todo o primogénito me será
consagrado. Todo o primogénito dos filhos de Israel, seja homem ou animal,
pertence-me sempre. Esta oferenda recordava a libertação milagrosa do povo
de Israel do seu cativeiro do Egipto. Todos os primogénitos eram apresentados
a Javé, e depois restituídos ao povo.

Nossa Senhora preparou o seu coração, como só Ela o podia fazer, para
apresentar o seu Filho a Deus Pai e oferecer-se Ela mesma com Ele. Ao fazê-
lo, renovava o seu faça-se e punha uma vez mais a sua vida nas mãos de
Deus. Jesus foi apresentado ao seu Pai pelas mãos de Maria. Nunca se fez
nem se tornaria a fazer uma oblação semelhante naquele Templo.

A festa de hoje convida-nos a entregar ao Senhor, uma vez mais, a nossa


vida, pensamentos, obras..., todo o nosso ser. E podemos fazê-lo de muitas
maneiras. Hoje, nestes minutos de oração, podemos servir-nos das palavras de
Santo Afonso Maria de Ligório, invocando Santa Maria como intercessora:
“Minha Rainha, seguindo o vosso exemplo, também eu quereria oferecer hoje a
Deus o meu pobre coração [...]. Oferecei-me como coisa vossa ao Pai Eterno,
em união com Jesus, e pedi-lhe que, pelos méritos do seu Filho, e em vossa
graça, me aceite e me tome por seu”4. Por meio de Santa Maria, o Senhor
acolherá uma vez mais a entrega que lhe fizermos de tudo o que somos e
temos.

II. MARIA E JOSÉ chegaram ao Templo dispostos a cumprir fielmente o que


estava estabelecido na Lei. Apresentaram como resgate simbólico a oferenda
dos pobres: duas pombas5. E saiu-lhes ao encontro o ancião Simeão, homem
justo, que esperava a consolação de Israel. O Espírito Santo manifestou-lhe o
que estava oculto aos outros. Simeão tomou o Menino em seus braços e,
louvando a Deus, disse: Agora, Senhor, já podes deixar partir o teu servo em
paz, segundo a tua palavra; porque os meus olhos viram a tua salvação, que
preparaste ante a face de todos os povos, luz para iluminar as nações e glória
do teu povo, Israel. É um cântico de alegria. Toda a sua existência consistira
numa ardente espera do Messias.

São Bernardo, num sermão dedicado a esta festa, fala-nos de um costume


de antiquíssima tradição, de que temos muitos outros testemunhos6: a
procissão dos círios. “Hoje – diz-nos o Santo –, a Virgem Maria leva ao templo
do Senhor o Senhor do templo. José apresenta a Deus não o seu filho, mas o
Filho amado e predilecto de Deus; e Ana, a viúva, também o proclama. Estes
quatro celebraram a primeira procissão, que depois teria a sua continuação em
todos os cantos da terra e por todas as nações”7.

A liturgia desta festa quer manifestar, com efeito, que a vida do cristão é
como uma oferenda ao Senhor, traduzida na procissão dos círios acesos que
se consomem pouco a pouco, enquanto iluminam. Cristo é profetizado como a
Luz que tira da escuridão o mundo sumido em trevas. A luz, na linguagem
corrente, é símbolo devida (“dar à luz”, “ver a luz pela primeira vez” são
expressões intimamente ligadas ao nascimento), de verdade (“caminhar às
escuras” é sinónimo de ignorância e de confusão), de amor (diz-se que o amor
“se acende” quando duas pessoas aprendem a querer-se profundamente...). As
trevas, pelo contrário, indicam solidão, desorientação, erro... Cristo é a Vida do
mundo e dos homens, Luz que ilumina, Verdade que salva, Amor que conduz à
plenitude... Levar uma vela acesa – na procissão que hoje se realiza onde é
possível, antes da Missa – é sinal de se estar desperto, em vigília, de se
participar da luz de Cristo, da vibração apostólica que devemos transmitir aos
outros.
Seus pais maravilharam-se do que se dizia d’Ele. Maria, que guardava no
seu coração a mensagem do Anjo e dos pastores, escuta novamente admirada
a profecia de Simeão sobre a missão universal do seu Filho: a criança que
sustenta nos seus braços é a Luz enviada por Deus Pai para iluminar todas as
nações: é a glória do seu povo.

É um mistério ligado à oferenda feita no Templo e que nos recorda que a


nossa participação na missão de Cristo, que nos foi conferida no baptismo,
está estritamente ligada à nossa entrega pessoal. A festa de hoje é um convite
a darmo-nos sem medida, a “arder diante de Deus, como essa luz que se
coloca sobre o candelabro para iluminar os homens que andam em trevas;
como essas lamparinas que se queimam junto do altar, e se consomem
alumiando até se gastarem”8. Meu Deus, dizemos hoje ao Senhor, a minha
vida é para Ti; não a quero se não for para gastá-la junto de Ti. Para que outra
coisa haveria de querê-la?

O mesmo São Bernardo recorda-nos que “está proibido apresentar-se ao


Senhor de mãos vazias”9. E como nos vemos somente com coisas pequenas
para oferecer (o trabalho do dia, um sorriso no meio da fadiga...), devemos
considerar na nossa oração “como a Virgem faz acompanhar esta oferenda de
tão alto preço com outra de tão pouco valor como eram aquelas pombas que a
Lei mandava oferecer, a fim de que tu aprendas a juntar os teus pobres
serviços aos de Cristo e, com o valor e preço dos d’Ele, sejam recebidos e
apreciados os teus [...].

“Junta, pois, as tuas orações às d’Ele, as tuas lágrimas às d’Ele, as tuas


penitências e vigílias às dEle, e oferece-as ao Senhor, para que o que de per si
é de pouco preço, por Ele seja de muito valor.

“Uma gota de água, em si mesma, não é senão água; mas lançada numa
grande jarra de vinho, ganha outro ser mais nobre e torna-se vinho; e assim as
nossas obras, que por serem nossas são de pouco valor, acrescentadas às de
Cristo adquirem um preço inestimável, em virtude da graça que n’Ele nos é
dada”10.

III. SIMEÃO ABENÇOOU os pais do Menino e disse a Maria, sua mãe: Eis
que este menino está posto para ruína e ressurreição de muitos em Israel, e
para sinal de contradição. E uma espada atravessará a tua alma, a fim de que
se descubram os pensamentos escondidos nos corações de muitos11.

Jesus traz a salvação a todos os homens; no entanto, para alguns será sinal
de contradição, porque se obstinam em rejeitá-lo. “Os tempos em que vivemos
confirmam com particular veemência a verdade contida nas palavras de
Simeão. Jesus é luz que ilumina os homens e, ao mesmo tempo, sinal de
contradição. E se agora [...] Jesus Cristo se revela novamente aos homens
como luz do mundo, porventura não se transformou ao mesmo tempo naquele
sinal a que, hoje mais do que nunca, os homens se opõem?”12 Ele não passa
nunca indiferente pelo caminho dos homens, não passa indiferente agora,
neste tempo, pela nossa vida. Por isso queremos pedir-lhe que seja a nossa
luz e a nossa Esperança.

O Evangelista narra também que Simeão, depois de se referir ao Menino, se


dirigiu inesperadamente a Maria, vinculando de certo modo a profecia relativa
ao Filho com outra que se relacionava com a mãe: Uma espada atravessará a
tua alma13. “Com estas palavras do ancião, o nosso olhar desloca-se do Filho
para a Mãe, de Jesus para Maria. É admirável o mistério deste vínculo pelo
qual Ela se uniu a Cristo, àquele Cristo que é sinal de contradição”14.

Estas palavras dirigidas à Virgem anunciavam que Ela estaria intimamente


unida à obra redentora do seu Filho. A espada a que Simeão se refere
expressa a participação de Maria nos sofrimentos do Filho; é uma dor
indescritível, que atravessa a sua alma. O Senhor sofreu na Cruz pelos nossos
pecados; e esses mesmos pecados de cada um de nós forjaram a espada de
dor da nossa Mãe. Portanto, temos um dever de reparação e desagravo não só
em relação a Jesus, mas também à sua Mãe, que é também Mãe nossa15.

(1) Mal 3, 1; Primeira leitura da Missa do dia 2 de Fevereiro; (2) Sl 23, 7; Salmo responsorial,
ib.; (3) cfr. Ex 13, 2; 12-13; Lev 12, 2-8; (4) Santo Afonso Maria de Ligório, Glórias de Maria
Santíssima, II, 6; (5) cfr. Lc 2, 24; (6) cfr. Itinerário da Virgem Eteria, BAC, Madrid, 1986, pág.
271; A. G. Martimort, La Iglesia en oración, Herder, Barcelona, 1986, pág. 978; (7) São
Bernardo, Sermão na purificação de Santa Maria, I, 1; (8) São Josemaría Escrivá, Forja, n. 44;
(9) São Bernardo,Sermão, II, 2; (10) Frei Luís de Granada, Vida de Jesus Cristo, VII; (11) Lc 2,
34-35; (12) K. Wojtyla, Sinal de contradição, Ed. Paulinas, São Paulo, 1979, pág. 228; (13) Lc
2, 35; (14) K. Wojtyla, ib., pág. 232; (15) cfr. Sagrada Bíblia, Santos Evangelhos, nota a Lc 2,
34-35.

(Fonte: Website de Francisco Fernández Carvajal AQUI)